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117ª Leva - 02/2017 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

MARCELO YUKA – CANÇÕES PARA DEPOIS DO ÓDIO

Há pontos de partida e chegada nesse imenso território chamado vida. No movimento dos decisivos arremates aos quais ousamos, habita um ponto intermediário que nos permite acessar alguns retornos. Não se trata necessariamente de voltar a determinadas origens, algo que poderia remeter a um sentido de nostalgia. Definitivamente, não é isso. A ideia aqui presente é a de que certos recomeços têm muito mais a ver com superações de cenários pretéritos, assinalando, pois, etapas que inauguram novos estágios da consciência em torno de fatos, lugares e pessoas.

Quiçá a nossa passagem aqui pelas bandas terrenas não seja também um exercício constante de estarmos atentos aos sinais de toda natureza. Tudo isso talvez para entendermos quem ou o quê realmente nos tornamos. E fica a pergunta: ainda dá tempo de modificar certas trajetórias?

Ao que parece, a indagação lançada acima faz parte das novas veredas trilhadas pelo músico Marcelo Yuka. De imediato, o nome de batismo de seu novo disco, Canções para depois do ódio, assemelha-se à ponta de um gigantesco iceberg. É, de fato, um título sugestivo, impactante e provocador a nos situar em meio ao mar bravio das procelas humanas. Numa tradução mais ágil, a constatação do quanto se é possível a qualquer pessoa interferir no seu próprio destino.

Canções para depois do ódio é um verdadeiro enxergar além dos domínios mais acostumados. Aposta num porvir perfeitamente enquadrado numa noção de renascimento das pessoas. Como é de costume, não faltam a Marcelo Yuka as ferramentas discursivas capazes de evocar um caminho para as mudanças de rumo. Em todas as suas faixas, o disco promove deslocamentos de tempos e espaços que se harmonizam com a agudez do verbo de seu criador.

É justamente na potência verbal de suas composições que Yuka confere um caráter orgânico ao seu novo trabalho, pois cada uma das 16 canções do álbum aparece integrada a um complexo painel de observações sobre a contemporaneidade e seus laços. Nesse trajeto musical, há um fluxo através do qual nada se dissocia de um conjunto que carrega em si um vigoroso corpo de significados. De um ponto a outro da obra, tudo se encaixa e cada peça desse vasto mosaico de imagens não sabe viver sem o seu correspondente.

Marcelo Yuka em show no Circo Voador / Foto: Daniela Dacorso

Após percorrermos canções como O dia em que o homem se cansa, Por pouco, Myto, Agora nesse momento, A carga, Memórias artesanais e Algo mais explícito, temos uma noção mais apropriada do movimento vivo que está contido no disco. Em cada parte do álbum, restam claras as razões pelas quais Yuka se consolida como um dos letristas mais significativos de seu tempo. Como poucos, sabe transitar com pungência por matizes políticos, filosóficos e afetivos, pondo em evidência o papel desempenhado pela memória.

Um outro grande aspecto do disco são as escolhas vocais. Contando com as valiosas interpretações de artistas como Céu, Black Alien, Cibelle, Barbara Mendes, Seu Jorge, Vicky Lucato, dentre outros, as canções se apresentam com um vigoroso repertório imagético e sonoro. Em boa parte delas, está presente a voz marcante de Bukassa Kabengele, cantor belga de origem congolesa, que integra A Entidade, banda conduzida pelo próprio Marcelo Yuka (voz, programações e sampler) e em cuja formação também traz artistas como Ricô Bassito (baixo e percussão), Bárbara Ferr (voz), Tedy Santana (bateria e percussão) e Muralha (VJ). Tudo isso posto e devidamente mesclado, há na obra uma forte presença de elementos musicais africanos, além de trazer bases eletrônicas.

É perceptível que Canções para depois do ódio é um trabalho motivado por um estado de perplexidade diante de uma nefasta ordem política, econômica e social que insiste em avançar com seus tentáculos ultraconservadores por sobre o mundo. Frise-se: o Brasil de Marcelo Yuka também é parte integrante desse conturbado estado de coisas.

Por mais que carregue em sua história pessoal as marcas dos equívocos humanos, o artista faz questão de aplacar qualquer possibilidade de ira diante das adversidades. No fundo, o que ele nos diz em seu novo rebento musical é que as tensões, ruídos e conflitos podem ser repensados à luz de alguma lucidez e serenidade. É, por assim dizer, uma maneira diferente de conceber o que ainda pode fazer valer nossa existência.

Vislumbrar para além do ódio uma via movida pelo otimismo não é uma construção nem um pouco fácil de se apreender ou praticar. Tal exercício pode assumir uma ressonância utópica. No Marcelo Yuka de hoje, os caminhos da mente e do coração fluem com mais leveza, evidenciando que o amor, no seu sentido mais largo possível, não é balizado por vãs expectativas de aceitação.

 

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.

 

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117ª Leva - 02/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Diego Vinhas

 

Ilustração: Bianca Lana

 

VISITA

 

da mesma matéria
de que são feitos
os domingos
– tédio e vapor em pedra-sabão –
compunha-se a espera
num gesto mais
branco

 

 

 

***

 

 

 
DE UM CALENDÁRIO

 
as coisas, depois, têm o tamanho da bagagem.
cada um sabe o peso das alças, a medida do que
escorre. e comungam, além do instante e das
coordenadas, a dose de um tédio que rumina e
aprende a doer,
depois.
primeiro, as coisas morrem.

 

 

 

***

 

 

 

BENFICA

 
das guerras que sempre respiram
em algum lugar do mundo,
pousa aqui este
atrito
contra a tarde pronta para
esmurrar meu abraço
na lembrança de você dizendo caminhar
por uma cidade
desconhecida é tomar a vida
de alguém,
emprestada,
contra a luz (e seu monólogo,
esta milonga), esta
bela infelicidade a jogar
ligue-os-pontos
com cumeeiras, árvores
e sombras do bairro
unidas sem voz
como em uma
língua
de estátuas

 

 

 

***

 

 

 

NADIR

 
uma vez no terraço do plano mais erguido
(céu e teto justapostos)…. da graça

você desce um degrau

até a próxima nuvem, e sem que perceba
…………………..o chão se aproxima

a viagem vertical

….corta o arranha-céu
….atravessa o solo
….no eixo negativo
….do inframundo

sonho abaixo

em
mácula anátema opróbrio vendeta
doença vileza repulsa infâmia
fel ira joio malícia dissenso
flagelo mania engulho falência
e quando não for mais possível
— baque seco —
significa que você chegou.
este é o grau zero da queda.
agora comece a cavar.

 

 

 

***

 

 

 

BABEL

 
dentro da pós-verdade

rostos geminados
sorriem (saliva e
peçonha

) apontando a culpa da vítima
a culpa pós-
morte

cozida por indicadores em riste
na longa noite
dos amoladores de facas.

dentro da pós-verdade ainda
o pós-trabalho: a rês livre
para os negócios
(as cláusulas e caminhos
do abate).

agora pós-tudo

a legião de pais da velha família

vomita em novilíngua

a redução de um país
ao plural de pó

 

 

 

***

 

 

 

MINHA SOMBRA E EU

 
1. tropeçamos muito – isso
não é engraçado.

 
2. gostaríamos de menos luz
ou nenhuma:
ela também precisa dormir.

 
3. desconfiamos de romances
de formação ou do fim
da História, mas estamos
esgotados
demais para debater.

 
4. adoramos, sem razão
aparente,
bancas de revistas
padarias
e aeroportos.

 
5. ouvimos nossa tradução
simultânea
mesmo que entre o
vão das vozes algo
escape para nunca
mais.

 
6. preferíamos afastar a
intimidade forçada (creio
que a ela incomode
que meus gestos sejam
sempre
spoilers dos seus).

 
7. continuamos sós.

 
8. também não sabemos
bem
o que fazer
com os nossos mortos.

 

Diego Vinhas nasceu em Fortaleza/CE em 1980. Publicou os livros de poemas “Primeiro as Coisas Morrem” (2004) e “Nenhum Nome onde Morar” (2014), ambos pela editora 7 Letras (RJ). Coeditou a revista de poesia GAZUA e organizou a antologia “Meio-dia: alguna poesia de Fortaleza”, publicada em edição bilíngue pela editora VOX, de Bahía Blanca (Argentina). Participou de diversas antologias no Brasil, EUA e Portugal.

 

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117ª Leva - 02/2017 Jogo de Cena

Jogo de Cena

A sensorialidade da literatura de Ronaldo Correia de Brito na peça Redemunho

Por Vivian Pizzinga

 

Foto: Silvana Marques

Faca. Este é o nome do belíssimo livro de contos de Ronaldo Correia de Brito, lançado em 2003, e que deu origem ao espetáculo Redemunho, com direção de Anderson Aragón, que esteve em cartaz recentemente na Casa de Cultura Laura Alvim, no Rio de Janeiro. Quatro contos do livro são transpostos para a linguagem dos palcos, com uma dramaturgia carregada de lirismo e que aproveita muito do texto bem cerzido por seu autor.

Os contos escolhidos para compor Redemunho são A escolha, Cícera Candóia, Redemunho e Mentira de Amor, nessa ordem. Apesar de apenas o primeiro carregar explicitamente em seu título a temática da escolha, ela permeia os quatro contos encenados, evidenciando que a decisão que reside por trás de cada ato de escolher tem muito menos liberdade do que pode parecer a olhos menos atentos.

No primeiro conto, uma mulher deve escolher o homem ao lado do qual levará a vida, o que significa oscilar entre o martírio de sustentar até o final um relacionamento violento, mas legitimado pela sociedade e pela família, e o amor suave e acolhedor que, no entanto, não encontra legitimação alguma; mas a escolha é também entre a paixão irracional e a tranquilidade de um sentimento apaziguador. No segundo, uma filha deverá escolher entre ficar e ir embora, resignar-se a um destino moroso, engessado e amargurado, sem perspectivas, ou a culpa insuportável de deixar para trás a obrigação moral com a mãe e sua incapacidade de se cuidar sozinha. No terceiro conto, a escolha envolve segredos familiares e reside em continuar deixando-se enganar ou enfim desenterrar a verdade, no sentido literal do verbo aqui usado. Finalmente, no quarto conto, o mais delicado e poético de todos, o que temos é a escolha de uma mãe de família entre colocar-se em risco em busca da liberdade ou, novamente, resignar-se a um destino isolado e sem vida. Os laços de afeto que unem os personagens e suas (não-) escolhas de vida é o que dá o tom de cada um dos enredos, com suas esposas e maridos, mães e filhas, filhos e mães, abandonos e traições. Três atores em cena, Ana Carbatti, Claudia Ventura e Alexandre Dantas, dão vida a esses personagens curtidos pelo sol, pelo estio e pelo esquecimento do sertão do Ceará.

É preciso, antes de tudo, apontar os perigos da empreitada de Redemunho, que não se configura como adaptação. A transposição de linguagens não é tarefa fácil, e aí já se pode encontrar um elemento de complexidade do espetáculo, sobretudo em se tratando de um texto bem trabalhado como é o de Faca: o desafio exige um cuidado para que não se percam as características de cada um dos tipos de linguagem, sem, no entanto, desrespeitar o que se pode chamar, na falta de palavra melhor, de natureza de cada um deles. A literatura permite a imaginação livre e solta do leitor a partir da habilidade do escritor de tecer um texto imagético que guia o enredo e que cria personagens com o poder de cativar quem os acompanha. O teatro, por outro lado, oferece suporte imagético através da dramaturgia que constrói, ou seja: as cenas, os gestos e os personagens já estão lá e têm cara, cor e forma, mas essa oferta deixa, ainda assim, brechas para a mesma imaginação do espectador, que, a partir de recursos criativos e cênicos muitas vezes inesperados (e simples, no melhor sentido do termo), também deve ser capaz de imaginar objetos, personagens e acontecimentos que não estão lá.

Foto: Silvana Marques

Para citar alguns pequenos exemplos no espetáculo em questão, o ruído de grãos de areia levemente salpicados pelo chão do cenário remetem à chuva que cai insistente; uma cadeira trançada de palha faz as vezes de venezianas através das quais se pode espiar o mundo que teima em acontecer lá fora, separado do cárcere que só oferece sons para os prisioneiros em cativeiro; pedras dependuradas em um canto do cenário evocam a floresta, o quintal, a moita e o ambiente exterior em cada um dos contos dramatizados; um banco redondo assume a função de piano.

Fato é que Redemunho, espetáculo composto com um cuidado que salta aos olhos, ficando à altura do cuidado presente no texto literário de Ronaldo Correia de Brito, caminha, ainda assim, na fronteira tensa entre o que poderia ser uma peça atordoante, difícil de acompanhar, e o que pode ser uma peça primorosa, em termos de lirismo expresso em todos os elementos que compõem um espetáculo teatral. Sorte a do espectador, pois a bamba caminhada na fronteira perigosa não resvala para o atordoamento. Mas Redemunho não é uma peça fácil, exigindo uma oscilação entre a máxima atenção da plateia e o deixar-se levar por algo que se assemelha à atenção flutuante freudiana, meio através do qual o psicanalista não se prende a cada detalhe do conteúdo trazido por seu analisando, deixando-se, ao contrário, à deriva para captar aquilo que realmente importa, aquilo que merece ser pontuado e que fará diferença no processo (e, neste caso, na analogia aqui proposta, sem prejuízo da fruição estética que a peça permite). Digo isso porque o texto de Ronaldo Correia de Brito avança por metáforas e descrições prenhes de sensorialidade. “Sono abandonado de macho” e “sítios de desejo e terror” são alguns dos inúmeros exemplos em que o lirismo une sensação e imaginação: impossível não entender de imediato o que é um sono abandonado de macho, percepção, curiosamente, mais feminina do que masculina, sendo esta uma expressão que faz sentido prontamente, que coloca em palavras aquilo que sempre entendemos como tal, mesmo que nunca tivéssemos nos apercebido da ideia. Mas algumas outras expressões, quando aparecem em texto impresso, permitem a releitura para uma melhor fruição ou um melhor entendimento. Ao ganhar roupagens dramatúrgicas, contudo, a literatura de Faca acaba concorrendo com o movimento dos atores pelo palco, a musicalidade que permeia a vida monótona dos personagens, a iluminação e o cenário que situam em terras firmes personagens antes imaginados. E é exatamente o concatenar de todas essas informações (e a impossibilidade da releitura de uma cena que está sendo encenada agora) o que pode causar certo atordoamento, que não chega a acontecer, mas que está à espreita; há, porém, uma exigência de trabalho e talvez uma demora para o espectador se encontrar no texto encenado. Nada, entretanto, que impeça o inegável enlevo estético que o espetáculo proporciona.

Redemunho, para não ser atordoante e fazer jus à beleza do texto do qual faz parte, conta com uma cenografia, assinada por Doris Rollemberg, que prima pela discrição sem abrir mão de delicados detalhes. Os figurinos de Flávio Souza seguem a mesma lógica, compondo com o cenário. Em ambos, temos a prevalência de tons pastéis, mas encontramos pequenos bordados e retalhos coloridos, linhas vermelhas entrelaçadas nas cadeiras, no chão e nas roupas. Essas minúcias fazem todo o sentido. Tanto para não mergulhar o espetáculo em excesso de informação, como também servindo de paralelo formal com o conteúdo das quatro histórias, cujo fio condutor é o vínculo asfixiante e desgastante entre personagens presos à própria sorte e uns aos outros, presos num destino que não sabem muito bem se construíram ou se foram por ele determinados. Há uma vida de rotina claustrofóbica e poucas opções de saída, labirinto que roda e roda e roda em torno de um cerne mofado. Todavia, as brechas de paixão que mal podem ser contidas estão lá. Existem, e é possível alargá-las ou ignorá-las. São brechas tão pequenas quanto os fios coloridos aqui e ali no vestuário dos atores. É o caso da mulher enclausurada com as filhas na própria casa, aprisionada pelo marido que detém a chave guardada sempre em um bolso sem fim, figura ameaçadora que aparta a mulher do mundo, casal que é terreno deserto de diálogos. Malgrado tamanha resignação, a mulher não se impede de usufruir lampejos de vida e desejo (tais quais os fios coloridos entrelaçados nas cadeiras de palha do cenário), quando acompanha a vida da cidade através dos ruídos que vêm de fora, até a chegada do circo.

Foto: Silvana Marques

A direção de Anderson Aragón consegue intercalar os contos de modo harmonioso e retomá-los ao final, aproveitando o clímax que vem aos poucos e rompendo com a linearidade sugerida à primeira vista. Mas ouso apontar que talvez essa não tenha sido a melhor ordem dos contos. A escolha, que, dos quatro contos selecionados, é o mais complexo, poderia não ter sido o primeiro. Isso porque é preciso contar com o fato aqui já mencionado de que, pela complexidade do texto literário em pauta e pela aproximação formal com a leitura dramatizada, a plateia talvez demore a se situar, e quem sabe um conto “mais fácil”, que permita a entrada mais imediata do espectador na proposta do espetáculo, funcione melhor.

Já a direção musical de Aldredo Del-Penho consegue introduzir a musicalidade ausente no texto literário (musicalidade apenas evocada), e são belas as músicas escolhidas. Entretanto, em alguns momentos, dificultam o acompanhamento do texto, o que pode prejudicar a compreensão da história. Menos música talvez fosse uma boa opção.

E, finalmente, os atores, fantásticos, que conseguem carregar de emoção e vida o drama de cada um dos personagens. Destaque para Ana Carbatti e Claudia Ventura, cujas vozes e entonações parecem modular exatamente as emoções vividas e contidas, os ressentimentos envelhecidos, comunicando quase que de modo imediato o interior devastado de seus personagens aos espectadores.

Redemunho trata disso: emoções e ressentimentos que tomaram idade, destinos aprisionados, vidas sem saída, obrigações morais aniquiladoras, tiranias disfarçadas de boas intenções, vínculos de amor e ódio, sangue derramado em tormentas familiares sem sentido. Trata de segredos prontos a serem revelados, de esperas insuportáveis. É a paixão estancada em um quotidiano tedioso, no qual as poucas opções de fuga e rompimento são escassas e tão discretas quanto os fios coloridos dos figurinos dos atores.

Vivian Pizzinga lançou os livros de contos Dias Roucos e Vontades Absurdas (Oito e meio, 2013) e A primavera entra pelos pés (Oito e meio, 2015), além de ter participado de algumas coletâneas, sendo as mais recentes Cada um por si e Deus contra todos (Tinta Negra, 2016) e Escriptonita (Patuá, 2016). Trabalha também com psicanálise e Saúde do Trabalhador.

 

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117ª Leva - 02/2017 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Matheus Arcaro

 

Ilustração: Bianca Lana

 

Até que a morte os separe

 

Cláudio chega arrastando os olhos pelo chão. Sequer quando abre a porta do restaurante eles se opõem à gravidade. Carrega sobre as pálpebras anos de frustração. Na língua, as palavras deitadas pela covardia conferem um sabor sórdido às possibilidades não cultivadas. Por que demorei tanto? Ele precisa de uma resposta para alvejar a boca. Porém, as respostas claras não existem na natureza, são construídas por mentes que necessitam de algo estável.  O acre da boca se intensifica quando pensa que a estabilidade da ponte entre Clarice e ele era apenas aparente. Por não atravessá-la com frequência, só via a regularidade do pavimento; não percebia a estrutura se corroendo sob os gestos e sorrisos complacentes.

Os primeiros tempos de casamento não deixaram a expectativa acima dos fatos. Mas não demorou muito, as cores começaram a desbotar e, quando ele tentou colorir o relacionamento, faltaram-lhe os dotes de artista. Fez um borrão que foi se extenuando até restar uma camada praticamente imperceptível que, de certo modo, sustentou o laço fraterno entre eles. Era avesso a traições, respeitava Clarice. E estava seguro da reciprocidade desse sentimento. Só não foi capaz de sentir que para o amor sobreviver é preciso uma dose mínima de desrespeito.

Quinta-feira, como se cumprisse uma obrigação herdada, ele estava sobre a esposa. Copiaria os mesmos movimentos das semanas anteriores se não sentisse o peito umedecer e ouvisse a voz entrecortada, o que estamos fazendo, Cláudio? Ele também começou a chorar. Os dois rostos se colaram e misturaram-se as lágrimas de anos. Na manhã seguinte, ele não acordou em sua cama. Antes de sair, insistiu para que se encontrassem dali a uma semana, onde tudo começou. Com um gesto emprestado, Clarice moveu lentamente a cabeça para cima e para baixo.

Cláudio sabe onde a esposa está sentada. No entanto não é por isso que não ergue os olhos; é porque sente medo de vê-la segura, asco de encontrá-la sustentada por si. Em verdade, sente-se como o suicida minutos antes de apertar o gatilho. A iminência da perda, mesmo daquilo que ele acredita abdicar, faz transbordar no peito uma sensação escura, espalhando o instinto de conservação por todo o organismo: as mãos estão molhadas, a boca seca, as orelhas quentes e os calafrios sobem e descem pela coluna.

Quando, enfim, levanta a cabeça, as narinas se expandem. Com o vestido florido, Clarice parece costurada ao ambiente, criação de um artífice desatento que colocara naquele salão sombrio uma escultura delicada. Os olhos dela escondem-se e mostram-se conforme o vento tira para dançar a mecha de cabelos cor de mel. A pele branca, que não se curvou ao tempo, exala maciez e um sabor de futuro chega aos lábios do homem. Clarice não parece a mulher que na semana anterior repugnara-o na cama, mas a menina que estivera sentada ali dezessete anos antes.

Talvez por isso as pernas de Cláudio não se entendam entre si. Há somente cinco mesas ocupadas, contudo é como se o restaurante estivesse cheio de olhos voltados para ele. O homem não está preparado para conversar com uma menina, muito menos com a sua menina.

A cada passo, Cláudio tenta pinçar os fatos que poderiam salvar o relacionamento; refaz o percurso até chegar à tarde de primavera em que vira Clarice pela primeira vez, naquela mesma mesa. Mas não consegue preencher os pensamentos e o vazio é invadido por um homem que acaricia as mãos da sua esposa. Um homem que olha nos olhos dela e para quem Clarice consegue sorrir com algo mais do que a boca. Cláudio agita as mãos como a criança que se recusa a compartilhar o brinquedo que desaprendera a usar. Clarice é minha. Só minha, ouviu bem?

A ideia da esposa com outro o carrega para o banheiro. O que devo dizer? O discurso ensaiado não parece verossímil. Molha a testa como se pudesse inchar os pensamentos com persuasão, entretanto, diferentemente dos seus anseios, a água traz a imagem de um velho nu, deitado em posição fetal no centro da cama redonda. Só há a cama branca no quarto enorme. Ele invoca o nome de Clarice, atravessa as madrugadas por gritá-la até as costelas engolirem o abdômen, mas só ouve o eco da própria voz. Entra no banheiro um senhor que cumprimenta Cláudio com um movimento de cabeça. Ele retribui o sinal. O velho começa a gesticular, emitir grunhidos e apontar para a saída. Cláudio se desespera, foge do mudo e encosta sem ar na porta. Porém, não pode escapar da certeza de que nada do que falar para Clarice mudará o que está decidido. Uma decisão que vem sendo enrijecida ao longo dos últimos anos e que palavra alguma terá o poder de perfurar. É tarde demais: a aproximação da verdade traz o negrume aos seus olhos.

Como se chegasse ao matadouro, Cláudio se aproxima da mesa. Adormecida dentro de si, Clarice continua girando o canudo enfiado no suco de morango não sorvido, mesmo enquanto ele se senta. Um silêncio rígido perdura por longos segundos até que ele pede uma cerveja ao garçom, que prontamente o atende. A cerveja desce agarrada à garganta como se não quisesse fazer parte daquele corpo vencido. Os olhos de Cláudio percorrem o restaurante: o que vê não se assemelha ao conteúdo entalhado na memória. Tudo agora é áspero demais, esnobe demais. Ele, então, fixa a vista em Clarice como se desejasse prender aquele instante na superfície dos olhos, ciente que nunca mais ele seria seu. Procura em si palavras não nascidas, revira o vocabulário, mas nada de substancial desce à língua.

– As paredes não eram assim tão escuras…

– Acho que não.

Trocam ainda umas frases sem tonalidade. Cláudio se dá conta do que Clarice sabia antes de se sentar ali: as palavras são desnecessárias nos velórios. Ainda mais nos velórios tardios.

***

 

 

Condenado à liberdade

“Terei que correr o sagrado risco do acaso.
E substituirei o destino pela probabilidade.”
(Clarice Lispector, A paixão segundo GH)
 

Estou aqui há oito dias e alguns meses. Quantos meses? Não sei ao certo. Até a semana passada o calendário não passava de mais uma invenção vencida. O que sei é que estou nesta cela há tempo insuficiente. Está me ouvindo, Pagu? Parece mais peluda hoje, as patas maiores. Patas peludas e firmes, feitas para caminhar pelo teto, de onde você me vê como sou e não como parecia ser. Antes de me atirarem neste cubículo eu estava pronto, homem modelar. Sabia o que tinha que fazer. E fazia. E refazia. Usava o livre-arbítrio para alcançar a verdade que esperavam de um homem alto, 38 anos, cabelos grisalhos, chefe de família, empresário. Eu era. Até me enfiarem aqui. Só que eles se enganaram, Pagu. Todos eles. Ao me isolarem na solitária, não me privaram da liberdade. Privaram-me do que acreditam ser a liberdade, no que igualmente eu acreditava. Mas foi só aqui que conheci a verdadeira face da liberdade meses atrás: a chuva lavava os telhados; embora a cela estivesse tomada pelo hálito da penumbra, da minha cama vi a gota reluzindo no teto: as lágrimas começaram a desabrochar da alta fenda e despedaçaram-se no chão. Comecei também a chorar. Não somente porque fora educado a repetir, desta vez era diferente. O pranto, sem o soluço da dor, acordou o sorriso que há tempos não visitava meu rosto. A goteira ficou espessa, eu precisava entrar naquela torrente. Arranquei o macacão encardido, as meias, a cueca e corri para misturar minhas lágrimas com as do teto. E da água, antes translúcida, brotou uma espécie de corrente, mas cujo desenho, já não mais aquoso, foi aos poucos tomando a forma de… uma mulher! E como era maravilhosa. Linda o suficiente para um encantamento que me afogou numa emoção sem precedentes. Uma mulher de olhos ruivos. Quem é você? Sem dizer uma palavra, ela puxou minha pele, que facilmente se descolou da carne, feito estas paredes que você conhece tão bem. Depois, os músculos e os órgãos dissolveram-se com seu sopro: em instantes, eu era duas retinas suspensas e um coração pululando. Você não viu isso, não é mesmo? Acho que sequer era nascida. Pela primeira vez na vida eu era imperfeito. Incompleto. A partir deste banho, virei o avesso de Deus, um ser ébrio e imberbe, sem natureza (nem divina, nem humana), que não passa de criação! Lá fora, eu fora criado, avental e touca, servindo diariamente pedaços da minha vida ao destino. Ele comia, se lambuzava e, quando se dava por satisfeito, atirava os restos dentro de moldes construídos pelos Guardiões da Esperança. Só que aqui, Pagu, neste retângulo de seis metros quadrados, aprendi, como você, a arrancar do meu peito o fio sobre o qual eu passeio sem sair de mim. Mas terei que sair daqui a pouco. É o que diz na carta que o carcereiro me entregou semana passada. Envelope ocre, papel timbrado com as iniciais do doutor que conhece as vísceras da lei: “Ilmo. senhor Pedro, o pedido de soltura foi deferido; o senhor sairá em oito dias”. Eu contratei esse advogado? Para quê?  Sua eficiência arremessou meu avesso à boca do desespero: à medida que os novos dias engoliam os velhos, o temor escorria do peito aos membros: as pernas estrangeiras do corpo, os braços rigidamente esticados ao longo do tronco. A lembrança de antes da solitária deixava meu futuro anestesiado. Não, não posso mais voltar a ser como aqueles senhores que caminham ao lado da vida; não suporto mais vestir a máscara que cada situação suplica; não quero mais enfiar meus sentimentos num saco sujo. Jamais imaginei que poderia arrancar as boias que me prendiam à minha superfície. Aliás, nunca cogitei a existência dessas boias. Foi somente aqui que me tornei um abismo negro, úmido e cálido por onde caio sem eriçar os pelos e, em cada centímetro, encontro os andaimes frouxos, as entranhas e as arestas que não quero mais aparar. Antes de os homens fardados me buscarem em casa naquela manhã ensolarada, eu percorria, de cabeça erguida, um caminho marcado com tinta indelével; por isso não enxergava o traçado. Aqui aprendi a dançar sobre a minha história que escrevo a lápis em páginas sem pautas, dançarino surdo carregado pelo ritmo da respiração. Aqui consegui ouvir a vida gritando em meus pulsos, consegui apanhar a eternidade em cada átimo e soltá-la para que tudo não passe de possibilidades. É, Pagu, o mundo é pequeno demais; eu só caibo nesta cela. Porém, desde que recebi aquele papel pálido, o cheiro inebriante que irrompia dos meus poros não frequenta mais minhas narinas. Naquele momento comecei a registrar os dias na pele com a ponta do canivete. Não me olhe assim. Coagido pela lei, tive que aguardar a oitava manhã e ela nasceu chorando como se compartilhasse com o meu espírito o estado agônico de quem está prestes a ser aprisionado. Ouço os passos do carcereiro marcados pelo balançar das chaves, ele está vindo abrir a cela, provavelmente com os dentes à mostra. O que farei? Permanecerei abraçado às grades implorando que me deixe aqui? Gritarei, Excelentíssimo senhor Juiz, eu me declaro culpado, sou uma ameaça à sociedade? Subornarei o diretor da cadeia? Não, nada disso funcionará. Irei, mas nem vou me despedir de você, porque darei um jeito de voltar ainda hoje. Ainda hoje.

***

 

 

 

Sentido

 

Se eu fosse uma árvore entre as árvores, gato entre os animais, a vida teria um sentido.
(Albert Camus, O Mito de Sísifo)
Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido.
Eu não: quero uma verdade inventada.
(Clarice Lispector, Água viva)

Então vai buscar um sentido pra tua vida. Vai e me deixa com meus livros incompletos e meu mundo sem parapeitos. Com meus pedaços de presente que são, ao menos, mais intensos que o teu futuro cintilante. Não tenho a pretensão de unidade, querida. Há tempos a ilusão não me lança os olhos. Eu te admiro muito, fica sabendo. Iludir-se é uma dádiva. É preciso muita coragem pra desviar assim dos fatos. Mas agarrar-se à maior lasca de madeira quando se sabe que o resgate não chegará a tempo, não faz de ti um ser sagaz. Sabes por quê? Porque tu jamais te perguntas sobre a necessidade do resgate. E eu, Samanta, não preciso ser salvo. Prefiro nadar até perder as forças.

Não quero escrever “pai” com letra maiúscula somente pra me sentir protegido. Não quero levantar a cabeça pra desviar a vista das vicissitudes da terra. Contemplar as próprias vísceras é demais pro teu estômago frágil, não é? Porém o remédio que tomas pra esvanecer a vida apenas disfarça a doença que se alastra sob a tua pele. Nunca percebeste que no dia seguinte à festa, se aceita melhor em frente ao espelho aquele que não carregou a cara de tinta? Não há como esconder o tempo, amor. Mas tu insistes em pedir silêncio às engrenagens da vida. Insistes em colocar um pedaço de felicidade na ponta da vara amarrada às costas. Onde tu queres chegar, Frederico, tu esbravejas com a boca branca. Eu te devolvo uma pergunta que fica flutuando, sem força pra atingir teus tímpanos: existe esse “onde”?

Não há nada mais difícil que convencer alguém sobre o óbvio. A imagem é tão grande à frente dos olhos que fica indiscernível; é como o peixe que jamais se dá conta de que cumpre sua sina no oceano. O que te separa de uma prostituta? As duas se entregam em troca de conforto e segurança. A diferença é que travestiram tua atividade de decência. Tu és necessária à ordem. És necessária pra manutenção do que deve ser mantido. Mas há tantas janelas, Samanta! Por que abrir apenas uma e se conformar com a penumbra? Pra que construir apartamentos quando se pode comprar um balão por bem menos?

Vou te confessar uma coisa: não é saudável engolir as lágrimas pra transmitir serenidade. Não é saudável dormir às onze horas e acordar às sete ainda com a rodela de pepino sobre os olhos. Não é saudável usar roupa social no verão. O que há de natural em rir de uma piada de mau gosto só porque o chefe a contara?

Com o mundo sobre as costas, tu te conformas com o alívio de tirar o sapato ao fim do dia. Não te passa pela cabeça que possa ter algo de sensato em eu não querer usar sapatos apertados? Que eu prefira dançar a correr? Pois, sim, prefiro dançar descalço em círculos até as pernas pedirem pausa. Dançar por dançar, tu perguntarias. E eu, sem vontade na voz, responderia: vai procurar o teu sentido.

 

Matheus Arcaro é professor de Filosofia, artista plástico e, principalmente, escritor. Tem dois livros publicados: um de contos, “Violeta velha e outras flores” (Patuá, 2014), e o romance “O lado imóvel do tempo” (Patuá, 2016). Tem textos publicados nos sites Mallarmargens e Germina, além de ser colunista dos portais Língua de Trapo, Educa Dois e LiteraturaBr.  

 

 

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117ª Leva - 02/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Mariana Basílio

 

Ilustração: Bianca Lana

 

Tríptico Vital

 

Do Sentir  Do Descobrir  Da Extensão

 

 

Tenho pedido a todos que descansem
De tudo o que cansa e mortifica.
Mas o homem não cansa.
Hilda Hilst

 

 

I

Se me disseres, amor, sou teu sonho.
Dir-te-ei, rema, ardor, entre os olhos.
Pois o canto que cantas é efêmero.
E o que sou é estandarte do sol.

A crescer frágil e rígido.
A rasgar os votos sagrados.
Entre a ruptura dos galhos.

Repara no que te digo.

Se me disseres: voa, sou teu laço.
Fugirei hoje mesmo, desertora.
Pois onde amo, não caibo.
Pois onde vivo, não meço.

Vaga, eu te vago.
Vaso do vazio.
Pureza do perene.

Um adeus inerente.

***

II

São hemisférios os meus olhos.
Ainda que crepitem os séculos.
Ainda que naufraguem no presente.
E não posso adiar o amor que sinto.

O amor suporta o peso corpóreo.
Atravessa a pobreza, o ódio, o abandono.
Abraça o que se renega.
Conduz o que não se mede.

À sombra de uma árvore, resistimos.
O amor e eu. No coração que é vertigem.
Em vias remotas e poeiras estelares.
Tudo é afinal, indiferente.

Porque não posso adiar a vida.

***

III

Divino Nada.
Toca-me o espírito.
Como o fugaz sopro da morte.
Como se o tempo fosse vida.
E o futuro, minha sorte.

Apresenta-me: desfecho.
A inacabada via.
Oferenda terrena.
Inevitável meio.

Divino Nada.
Salva-me o corpo
Em linhas versais.
Sela os segredos
Fluindo silêncios,
Abismos minerais.

Preposições são cantares,
No princípio da imagem.
Tu, fascínio em milagre.
Por campos lacunares.
O vasto total.

Amiúde, o haver nos restará.
O haver em branca transparência.
Construções em pás de silício.
Gravuras que se entrelaçam.

O oco fundo, Divino Nada.

***

IV

Tem sido de manhãs tecida
A minha sombra.
Sutilíssima na luz.
Translúcida nos olhos,
Em meu exíguo espaço.

A vida: plena.
O viver: insuportável.
Ou és carne ou és embaraço.

Sulcando os desvios do sangue.
Uma vida esculpida de sonhos.
Como foi que aprendemos a ser?
O perecível costura o presente.
O imperecível é paisagem da mente.

***

V

Porque o meu universo
É um todo de palavras
Golpeando o estado da fome.
Boca-alaúde de sentimentos.
Fino contraste do instante.

No desgaste do som,
Atemporal intempérie.
Na membrana diária,
Vendaval de mistérios.
Pelas lacunas do céu,
Tessitura da morte.

Minuto-terra em espumas.
Entre salmos: fleuma.
Entre braços: feixe.

Porque o meu universo
São pálpebras em corais.
Desde a língua.
Saltando melismas.
Sou um inteiro.

***

VI

À memória de Allen Ginsberg

 

O peso do mundo é o peso do sonho.
Sob o fardo do amor,
Sob o feitio da ilusão.

O peso do mundo é um fator irreal.
Sob o feitiço do perverso,
Sob a finura do convexo.

Mas quem de nós poderá negá-lo?
Se a leveza é invenção abstrata.
Se a natureza é limite brutal.

Paraísos movem-se mais adentro.
Peregrinos progressos rarefeitos.
Moléculas de uma frágil história.
Em céus que desabam, petrificados.

Pois nenhuma elucidação, América,
Há de salvar-nos.
Nenhuma religião, Kaddish,
Será poesia.
Nenhuma dor, atemporal.

 

Mariana Basílio é pedagoga, mestre em Educação e poeta. Atualmente cursa pós-graduação em Língua Portuguesa e Literatura. Autora dos livros Nepente (Giostri Editora, 2015) e Sombras & Luzes (Editora Penalux, 2016), versa no presente os dois próximos livros, Tríptico Vital (3º lugar ProAC 2016) e Megalômana. Tem entrevistas e poemas publicados em revistas do Brasil e de Portugal, como Inefável, Limbo, Raimundo, Garupa, mallarmargens, O Garibaldi, Germina, O Equador das Coisas, InComunidade, Oceânica, Vida Secreta, alagunas, Plural, entre outras.

 

 

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117ª Leva - 02/2017 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Floriano Martins

A imagem que nos aterra a existência, que se torna um testamento usual, um versículo sempre na ponta da língua, cobra hoje uma tarifa existencial que nos limita a própria reflexão sobre o que somos ou deixamos de ser. Somos viciados em uma demanda reiterativa. Algo nos impede de experimentar um mundo outro sob ou sobre a capa de uma realidade averbada pela crença na imutabilidade da vida. Ora, mas a vida é tudo menos imutável. Mesmo no plano sagaz das religiões a vida é o preço, a súplica, a tormenta, o vislumbre, o apogeu, a dádiva, e não é possível pensar em nenhum desses atributos como um álibi inquestionável que não permite à espécie humana mudar sequer de postura na cadeira em que presta depoimento sobre sua existência. A fotografia é uma das mais complexas faturas da criação artística, a começar pela resistência da arte entendê-la como sua cúmplice. A beleza é outro aspecto frequentemente confrontado pela incredulidade em que o gesto humano seja tudo menos apenas uma reação brutal à diferença. Leila Ferraz é uma poeta que se distingue entre seus pares pela percepção que possui das relações entre o criador e sua obsessão. Alheia às formatações de gênero, é poeta, ensaísta, fotógrafa, desenhista, foi uma das organizadoras da Exposição Internacional do Surrealismo, em São Paulo, anos 1960. Aqui dialogamos sobre o ambiente da fotografia, ou melhor, sobre o espírito da imagem. E o diálogo se faz ilustrar por algumas de suas fotografias.

Leila Ferraz / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Quando começaste a fotografar lidavas com o mundo analógico. Tempos depois, quando retomas, já está em curso pleno o mundo digital. Do ponto de vista estético, como tens lidado com a passagem de uma técnica para outra?

LEILA FERRAZ – Sou uma fotógrafa analógica assumida. Esse foi o meu mundo durante toda minha vida. Tudo o que eu queria, tinha que pensar, analisar, testar, me apaixonar e me envolver de tal forma visceral que o mundo digital foi um tapa na cara. Veja abaixo esta foto de 1971 – tudo era feito no olho e nas mãos. Envolvia cheiros, ácidos, estudos e a conquista de um tempo fascinante no qual eu me perdia. Mas era um trabalho meu. Como quem cava fundo cada réstia de luz, penumbra ou escuridão. Um processo de imenso prazer. E buscas e descobertas. Desde criança, este mundo que peguei nas mãos quando as reproduções ainda eram feitas em placas de vidro. Desde quando bem pequena, descobria as minhas origens folheando sem nunca me cansar os álbuns de família. Com fotos de bem mais de 150 anos. Como medir, lidar, conquistar o que nasceu comigo? Eu ainda sou analógica. Atualmente, os recursos digitais nos proporcionam tudo o que queremos. Praticamente na hora. São milhares de opções imediatas. Existe, sim, o fator surpresa. Porque num toque de dedo ou criamos o que desejávamos ou o que nós desejávamos já vem pronto. Eu tinha um estúdio fotográfico completo. Com salas, químicas, bacias, ampliadores, Hasselblad, Leica, Roller, iluminação e tudo o mais. Atualmente, com uma máquina, programas e aplicativos consigo o que conseguia e mais. Em termos estéticos, o método analógico me dava mais prazer porque era eu quem o criava. No digital, posso ir além. Mas nunca sozinha e sim com uma legião de tecnologia me acompanhando. Talvez cheguemos aos mesmos lugares, mas sem os mesmos prazeres. Digitalmente, esses valores são predeterminados. Nossa interferência e interação são calibradas entre o cérebro e o olho – modo único de cada ser olhar e fotografar.

Foto: Leila Ferraz

 

DA – Curiosamente ilustras a tua resposta com duas fotos em preto & branco, o que lembra certa rejeição da cor em muitos fotógrafos. Há uma espécie de resplendor excessivo na cor que impede o olhar de decifrar meandros mais íntimos da imagem?

LEILA FERRAZ – De certa forma, sim. A cor é fascinante, porém ela nos excede, quando apenas cor. Raros são os fotógrafos que sabem dar às cores suas temperaturas exatas. A cor mantém estreita relação com a temperatura, com a hora. O calor de cada cor tem algumas regras áureas que aprendemos e exercemos na medida em que fotografamos analogicamente.

DA – E como o acaso dimensiona o espectro final da imagem fotografada?

LEILA FERRAZ – O acaso é o orgasmo que temos. Quando ele acontece, gozamos. Se vamos ou não repeti-lo e nos tornarmos amantes é a proposta misteriosa inerente ao próprio acaso.

DA – Bom, recordo certo entendimento de que a fotografia aprisiona a alma da gente.

LEILA FERRAZ – A isso Roland Barthes (com quem concordo) chama de noema fotográfica. O momento decisivo, único, raro, de Cartier Bresson, que perpetua toda a essência estética do ser ou da coisa da fotografia. Ou da coisa fotografada. Aquilo que é próprio e unicamente possível naquele instante.

Foto: Leila Ferraz

DA – Salvador Dalí via na fotografia “o veículo mais seguro da poesia e o processo mais ágil para perceber as mais delicadas drenagens entre a realidade e a surrealidade”.

LEILA FERRAZ – Veja a insegurança dessa frase. Sua fragilidade. Ela precisa de um mecanismo que justifique um processo contínuo no tempo. Não concordo.

DA – Talvez venha do fato de que o Dalí, ainda em 1929, quando afirmou tal coisa, pensava na fotografia apenas como o registro de uma cena, o que ele próprio chamava de catálogo “de imagens fragmentárias que dão lugar a um total conhecimento dramático”…

LEILA FERRAZ – Sim, é possível. A fotografia como registro foi e ainda é, infelizmente, entendida dessa forma. Quando, na verdade, essa é apenas uma de suas aptidões enquanto manifestação artística.

DA – Quais os caminhos estéticos que a utilização da fotografia abre para a tua concepção criativa como um todo?

LEILA FERRAZ – Caminhos estéticos são para mim como palavras autológicas ou heterológicas. Para segui-los é preciso estar com os sentidos em uníssono. Suspensos. Minha concepção criativa, tanto no poema quanto na fotografia, por exemplo, é minha expressão de ser. Única. Soma de diversos processos raros. Nasci com essa capacidade de ser intuitiva. Para mim, o domínio da técnica é uma escolha fortuita. Lúdica. Feminina. Inexplicável. É uma sensação de concretude e seus fantasmas invisíveis. Há um momento harmônico que surge instantaneamente quando a coisa da arte se expressa em si mesma.

Foto: Leila Ferraz

 

DA – Como lidas com temas e formas ao definir recortes e justaposições em tua criação fotográfica?

LEILA FERRAZ – Tenho uma paleta de cores naturais e cambiantes que me cercam e me abrangem. Posso dizer que o mundo que me cerca está organizado em matrizes pré-determinadas e que se modificam a cada instante. Criando, assim, uma relação de movimento contínuo. Meu poder de escolha de temas é um processo interior – que pode ser aleatório ou determinado por um desejo. Sem dúvida, aquilo que considero como belo é o meu ponto de partida. Seja uma paisagem, por exemplo, ou algo estático. Contudo, a minha interferência permite que eu simule diversas composições de formas e cromáticas, até que me bastem. Até que eu chegue ao meu noema – no sentido que relatei acima. Nesse sentido a manipulação digital me proporciona a capacidade de transcender à fotografia, recriando cenários, figuras ou abstrações num cenário surpreendente e inédito. Por vezes inesperado em termos de justaposições ou recortes. Atualmente, já consigo controlar ou dominar as possibilidades do mundo digital para obter exatamente o que desejo, como resultado. Porém, a surpresa é sempre instigante e muitas vezes conflitante.

DA – Quando preparas uma cena para fotografar, lidas com os truques de sua figuração. Trata-se, como em toda criação, de atuar no limite de uma falsificação. Nesse tablado, como se relacionam a imaginação e o instinto de imitação? Paul Éluard dizia que “a imaginação não mente nunca, pois ela nunca se equivoca”.

LEILA FERRAZ – Em diversas ocasiões eu preparei a cena que imaginara. Estas duas: a primeira foto é a do meu próprio umbigo. E resolvi utilizar um recurso digital para lhe conferir uma “história feminina”, por assim dizer. Já na segunda imagem, acrescentei vários outros recursos digitais e desarranjos para lhe conferir movimento. O movimento de um veleiro chamado NOTURNO. Com isso vou além de minha intenção original. Passo a acrescentar o elemento de Thalassa – também próprio do universo feminino. E mais – ao deslocar o eixo da imagem, surge o movimento. E a imagem criada torna-se única e poética. Há outro caso em que para obter um resultado imaginado, tive que interferir várias vezes na paisagem. Queria fotografar um homem à noite, com a lua por detrás da Ilha Bela, e que as ondas do mar preenchessem o corpo do modelo. Processo que demorou muito tempo, por se tratar de uma sobreposição sobre uma mesma película que já havia fotografado a paisagem com o modelo. Após alguns minutos, pedi para o modelo sair e então as ondas do mar invadiram, também, o espaço de seu corpo. E fui além. Na gráfica, além das cores básicas, acrescentei a impressão de mais uma cor, o ouro, formado pela passagem de uma bicicleta. Tudo isso foi feito analogicamente, com uma Hasselblad e passagem de luz sobre um papel virgem, em câmara escura. Foram vários fotolitos até chegar ao resultado que eu desejava. Vários dias e um processo caro. Com as facilidades do mundo digital, isso seria feito muito rapidamente. Talvez com um resultado final diferente. Porém controlável. Há mais exemplos. Centenas deles. Nesses casos, a imaginação se transforma em realidade. Isso é possível, sim.

Foto: Leila Ferraz

DA – Entendes que a web permite hoje um instrumento valioso de trabalho para a criação artística?

LEILA FERRAZ – Essa tecnologia, encontrada à disposição de qualquer pessoa, me proporcionou novas formas de expressão, de comunicação e transformação da realidade. É possível interferir em qualquer imagem. Multiplicá-la, replicá-la e movimentá-la através de qualquer espaço ou base. Misturá-la em qualquer meio e adicionar inusitadas linguagens. Através dos meios digitais, o comportamento da imagem fotográfica, às vezes de uma mesma imagem, conquista simbologias inéditas. Crio um novo vocabulário emocional a ser decifrado.

DA – Quando o fotógrafo lida com o modelo vivo, desperta certamente nele um instinto de espetacularização. Sendo o modelo objetual, como se realiza essa teatralização dos sentidos?

LEILA FERRAZ – Creio que lidamos com a metafísica quando falamos de fotografia e todos os casamentos possíveis e impossíveis que se realizam entre tecnologia e processos artesanais.

DA – Esquecemos algo?

LEILA FERRAZ – Posso dizer que o processo digital de cores e mesmo de nuances monocromáticas me é muito valioso. Sem dúvida, todo esse processo que atualmente me fascina, é altamente tecnológico, preciso e ao mesmo tempo cambiante, de acordo com o resultado que desejo obter ou que me surpreenda quando atinjo um ponto que para mim é a manifestação da vontade de nominar o incontrolável, porém “ordenado”.

Foto: Leila Ferraz

TRÊS POEMAS INÉDITOS DE LEILA FERRAZ

 

Ossuário de fontes

 

Esgotei minha última saliva.
Minha umidade esvaiu-se em leite de amêndoas.
Não há lágrimas descendo as escadas.
Estou estranha, tão estranha, e não me basto.
Pouco sei desta mulher que nasce e renasce a cada manhã,
e não se põe jamais, porque a ela pertencem as linhas da vida
que unem as artes e os manifestos.
Esta tresloucada fêmea ensandecida capaz de desnortear o mais sério dos eruditos.
Que depoimento é este que tanto queres?
Para mim se assemelha a uma equação da própria física que ainda nem descoberta foi.
Um depoimento afetivo de memórias juradas ao esquecimento.
Sim, reunirei minhas últimas forças e dormirei com os protagonistas de minhas lembranças.
Com ou sem as suas próprias naturezas devastadas.

 

 

 

***

 

 

 
As luvas da raposa

 
Hoje a liberdade se esconde
no cache-sexe de Adão e Eva.
Procuro em mim o Andrógino Primordial.
Meus desejos se tornaram anjos persecutórios.
E enlouqueço enquanto refaço meu corpo na praia da Olaria.
Tenho todos os elementos da loucura.
Agora fotografados.
Quanta beleza na boca de Narciso!
Quanta verdade revela um espelho.
Já não posso te esperar.
Serei do primeiro marinheiro que aportar aos meus pés.

 

 

 

***

 

 

 

Fotografia noturna

 
Uma paranoia engole nossas memórias.
Cada tecla tocada emite um falsete nas nuvens.
Quem colherá as imagens secretas que gerei?
Quem se esconderá na concretude de nossas palavras,
Onde se ocultam meus gestos eternos cor de prata.
Nada sincero ou palpável.
Toda criação espalhada pelo universo.
Planetas adversos pelas avenidas cósmicas.
Encontros extraterrestres acontecem quando recebo um amante em meu lençol.
E a estética amorosa conjuga verbos proscritos.
Filhos da nervosa ruela que dobramos no espaço.
Sonhos cada dia mais impossíveis nos retoques dos retratos.
Garantias no lugar de signos colocam suas máscaras entre as pernas dos mortais.
Estarei sonhando?

 

Floriano Martins é poeta, ensaísta, editor e tradutor.  Dirige a Agulha Revista de Cultura e a ARC Edições. Contato: floriano.agulha@gmail.com.

 

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117ª Leva - 02/2017 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Vinícius Mahier

 

Ilustração: Bianca Lana

 

ganchos

 

vi deus pendurado nos ganchos de uma palavra
eu não distingui a palavra em que vi deus pendurado
eu não suspeitei que a palavra fosse uma espécie de deus
prestes a cair, como se fosse
deus.

eu não fiquei cego ao perfurarem-me o olho
eu não percebi o meu olho ao tateá-lo com o outro
eu não suspeitei que esse olho fosse uma espécie de deus
prestes a me pendurar, como se fosse
deus.

 

 

 

 

***

 

 

 

 
travessia

 
se a
câmera
da tua pupila

fosse um braço em direção à água

o olho esquerdo
em intervalos
de colinas

abriria a pálpebra —

………………………..ao meio.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

poema

 
o avesso da tua voz não constitui um corpo

a origem da tua voz não reencontra o espírito

a beleza da tua voz não petrifica o músculo

a potência da tua voz não é ainda um sopro

o resíduo da tua voz não acumula rosto

a lacuna da tua voz

 

 

 

 

***

 

 

 

 

autorretrato com seio à mostra

 
o vestido deslizando
pelos ombros
insinua

………pano.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

jurisdição

 
depois de cruzada a fronteira,
fuzilem a todos, um a um.

mas antes, meu deus, antes, reajam
praguejem destruam! não permitam, deus,
que morram
em solo estrangeiro.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

poema metaescrotal

 
deus
e o diabo

farinhas
do mesmo saco

 

 

 

 
***

 

 

 

 
óbito

 

hoje a boca amanheceu
cheia de formigas
cada qual com um pedaço
de letra por sobre
a cabeça miúda
levavam toda palavra
na ponta da língua
garganta adentro.

 

 

 

 

***

 

 

 

 
outra vez tatear a terra

 
à procura dos óculos
que não mandamos fazer.

 

Vinícius Mahier é graduando em Letras pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), com ênfase de pesquisa nos estudos de literatura e globalização. Publica seus poemas no blog No passeio íntimo, além de textos em jornais e revistas.  E-mail: viniciusmahier@hotmail.com

 

 

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117ª Leva - 02/2017 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

A Garota Desconhecida (La fille inconnue). Bélgica/França. 2016.

Cada filme dos irmãos Dardenne é um enigma. Ou será melhor dizer, um problema?

Fortemente influenciados pelo cinema de Robert Bresson, que adotou uma estética antinaturalista, com não atores, para abordar temas teológicos, os diretores belgas também usam atores desconhecidos ou não atores, mas caminham num sentido contrário para um naturalismo ligado a temas bastante terrenos.

Sem dúvida, os maravilhosos filmes de Bresson eram muito mais radicais do que os dos Dardenne, mas, mesmo assim, os filmes dos irmãos belgas destoam de quase toda a produção contemporânea por uma peculiar estranheza que lhes é muito característica. A garota desconhecida não foge a essa regra, pois é um filme inclassificável, ímpar.

A jovem médica Jenny Davin (Adèle Haenel) trabalha numa clínica como substituta do médico principal e é tutora de um estagiário. Numa noite, após o horário de fechamento da clínica, Jenny se recusa a atender o chamado de um possível paciente. No dia seguinte, a médica descobre que o suposto cliente era, na verdade, uma jovem africana, negra, que fora assassinada perto da clínica. As câmeras de segurança revelam que a jovem estava sendo perseguida e procurara refúgio na clínica, mas que, sem conseguir, acaba sendo morta.   Sentindo-se culpada e responsável pela morte da jovem, Jenny procura descobrir sua identidade para comunicar à família o falecimento, pois a jovem seria enterrada como indigente. Nessa busca pela identidade e para saber as causas da morte, a jovem coloca sua vida em risco e muda os rumos de sua carreira.

Adèle Haenel interpretando a médica Jenny / Foto: Christine Plenus

O filme é construído dentro da estética naturalista típica de seus diretores: luz natural, som direto, atores desconhecidos agindo com absoluta cotidianidade. Uma das marcas dessa estética é a absoluta ausência de música extradiegética. No entanto, todo esse naturalismo é deslocado pela forma narrativa próxima da fábula moral. A ação se passa em Liège, mas poderia acontecer em qualquer outra cidade. Os diretores nos oferecem uma fábula cinematográfica num registro quase documental.

A câmera na mão dos diretores persegue a inquietude de sua protagonista em seus deslocamentos por sua cidade em busca de indícios sobre o assassinato. Os filmes dos irmãos Dardenne sempre apresentam personagens opacas ou mesmo insondáveis, sobretudo mulheres. Por sua obstinação, Jenny se parece com Rosetta, do filme ganhador de Cannes em 1999, e Sandra, de Dois dias e uma noite (2014). Todas as três são mulheres que, em suas incessantes deambulações, caminham decididas pelo cumprimento de alguma tarefa, imperativa como uma lei autoimposta.

Outra similaridade entre essas personagens femininas é sua absoluta simplicidade pessoal. Roupas surradas, sem qualquer maquiagem ou cosmético, há também nelas a ausência de qualquer adereço como clichê de feminilidade, evitando a erotização forçada que transforma no cinema as mulheres em objeto do desejo fálico ou voyeurístico.

Jenny vive uma vida simples dedicada aos seus clientes. Seu apartamento tem apenas arquivos mortos. Não há nenhuma referência à sua família. Poder-se-ia dizer que os clientes, com os quais se preocupa, seriam sua família, mas Jenny é absolutamente profissional. Ela diz a seu estagiário que para ser um bom médico é preciso deixar o afeto e a emoção de lado.

Essa desafeição emotiva é uma característica das personagens do cinema dos Dardenne. Esse é um dos motivos que as tornam muitas vezes estranhas e impenetráveis. A estranheza de Jenny gera uma ambiguidade no filme. A garota desconhecida do título pode ser a moça africana morta e cujo nome se desconhece, mas pode ser também Jenny, cujos sentimentos não são facilmente discerníveis pelos espectadores.  O efeito de não sentimentalidade, acentuado pela ausência de música extradiegética, impede uma identificação imediata do público com a personagem. Essa secura emotiva é um dos elementos de força dos filmes dos irmãos belgas, exatamente porque se impõem como um problema.

Essa ausência de sentimentalidade não torna as personagens insensíveis. Jenny justamente é a protagonista que cuida e se preocupa com os outros. Quando seu estagiário abandona a carreira de médico, justamente por não ser capaz de evitar o afeto, ela tenta demovê-lo de sua decisão.

Por outro lado, a decisão com que Jenny assume a responsabilidade de reparar seu erro é a força que movimenta o filme. Esta é mais poderosa do que um sentimento de culpa que poderia se tornar um sentimento imobilizante.  Mesmo que seu erro tenha sido involuntário, mesmo que afinal seja irreparável, ela busca uma remissão possível. Esse sentimento de responsabilidade é mais forte do que qualquer sentimentalismo.

Sua ação é fundamentalmente ética: Jenny simplesmente se coloca a responsabilidade de agir, mesmo que isso signifique não apenas riscos, mas o desagrado da cidade: dos policiais, de vizinhos, e de clientes.

Cena do filme “A Garota Desconhecida”/ Foto: Divulgação

Essa firmeza ética da protagonista lembra a grandeza das grandes personagens femininas de Brecht, em particular Jenny, a pirata, conhecida no Brasil como a Geni, da peça de Chico Buarque, personagem da qual o nome da médica provavelmente é devedor. Ou ainda Joana, a dos Matadouros, de outra peça brechtiana.  Ou como Joana D’arc, personagem legendária da obstinação e firmeza de caráter.

Como todas essas personagens, Jenny sabe que precisa prosseguir no caminho que traçou para si, suportando as consequências de sua decisão. E como todas essas personagens famosas, sofrerá o mal estar social e a insatisfação que se mobiliza contra aqueles que lutam pelo desígnio da justiça, pois esta desarruma a ordem estabelecida, baseada no silêncio, na violência e na acomodação mútua. E é assim que o desejo pessoal de reparação deixa de ser simplesmente uma questão egoísta de pacificar a consciência individual e ganha uma amplitude social e política. A aventura ética de Jenny se torna também uma jornada feminista de resistência contra o machismo. Em várias cenas do filme, personagens masculinos agridem ou ameaçam fisicamente Jenny.

Numa entrevista a um jornal brasileiro, os diretores disseram: “Vivemos num mundo predominantemente masculino. Existe, e não se pode dizer que sem motivos, essa desconfiança muito forte com o mundo muçulmano, visto como ameaça. Nesse mundo, em especial, estamos convencidos de que a mulher representa o futuro”.

A Garota Desconhecida não foi bem recebido pela crítica especializada e chegou mesmo a ser vaiado em Cannes na sessão para a imprensa. Por causa das críticas, a versão definitiva que chega aos cinemas foi encurtada em alguns minutos. Apesar disso, os diretores insistem que é o filme mais radical deles. A reação negativa talvez seja a parte do esperável por ser um filme que se apresenta como problema, cuja economia de meios evita qualquer adesão fácil. Mas a obra é o acontecimento inesperado que produz uma abertura de horizontes. Como diz Jean-Pierre Dardenne, em outra entrevista: “Fazemos um cinema simples visualmente, sem adereços, sem excessos de luz, para mostrar que ainda é possível crer na esperança”.

 

 

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor. É autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Ed. Oito e Meio/2014), e um dos organizadores do coletivo literário Clube da Leitura no Rio de Janeiro, tendo participado como autor e editor das três coletâneas lançadas pelo grupo. Atualmente, é doutorando em Teoria Literária da UERJ, onde realiza pesquisa sobre a aproximação entre Literatura e Ciência. Escreve sobre cinema desde 1995, quando recebeu um prêmio de crítica literária do Grupo Estação e do Jornal do Brasil num ensaio sobre o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.

 

 

 

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117ª Leva - 02/2017 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Izabela Leal

 

Ilustração: Bianca Lana

 

1 de abril

 

Cena 8. Enganos.

 

acordei  vestida  no  meu  próprio  corpo. faz tempo não acontecia havia outra habitando a minha pele. despertei com os primeiros feixes de luz ela não estava lá. braços e pernas estirados um tecido elástico sem fecho ecler. reconhecia os movimentos a alegria de ser a proprietária de algo sem valor. um fruto e sua casca. ela viria ainda chegaria com a noite impregnada daquilo que em mim não era meu. roubaria minha pele seus trapos. eu tentaria não partir.

 

6 de maio

 

Cena 15. No banheiro. Impressões.

 

ninguém melhor do que um assassino para exibir um estilo floreado. gosto dessa tradução. aquilo me fascinava. you can always count on a murderer for a fancy prose style. é possível citar outras soluções: pode-se sempre esperar, num criminoso, uma prosa de estilo extravagante. ou ainda: sempre se pode contar com um homicida para uma prosa de estilo rebuscado. sutilezas na variação. qual seria a diferença entre assassino e homicida? ela também apreciava. para a vida do crime só lhe faltava uma pistola. não existe homicídio sem cadáver ela dizia. e não sei atirar. é claro que ninguém percebia. as trepadeiras se alastravam pela sacada tudo parecia muito natural. no início de abril eu adoeci. inflamação na garganta. a febre me deixou de cama por vários dias. ela passou a cozinhar cuidar da casa. não podia controlar sua presença. certa manhã depois da faxina deixou aberto o registro da banheira. a água escorreu por horas formou uma poça enorme no chão. a lua violenta entrava pela janela estraçalhava o vidro. pisei ali sem querer. distraída.

 

9 de março

 

Cena 5. Às 08:30.

 

coloquei o despertador pras 6:00 e acordei às 8:30. acontece de vez em quando. também pudera. chovia canivetes. são 8:30 de uma sexta-feira. abri os olhos. a gata estava na cama. chamava-se lolita. foi aí que ela disparou: vovô era americano. não sei o que ele foi fazer na itália durante a guerra. dirigia uma ambulância. era estrangeiro. apaixonou-se por uma enfermeira da cruz vermelha. não sei o que ele foi fazer na itália. entregou seu sangue a pele e os cabelos o coração e os rins. foi durante a guerra. sorte ter se apaixonado. talvez não. uma história triste. durante a guerra. o amor não dá conta. chovia canivetes. ela morreu de parto estava com medo. não sei o que ele foi fazer na itália. ninguém sabia. ali entre bombas obuses granadas. ela morreu de parto na suíça. estava com  medo. a chuva não cessava.

 

Izabela Leal é poeta, ensaísta e professora de literatura portuguesa. Nasceu no Rio de Janeiro. Tem poemas publicados em diversas revistas literárias e em antologias editadas no Brasil, México e Espanha. Participa do núcleo editorial da revista literária “Polichinello”. Recebeu o Prêmio Rio de Literatura pelo livro “A intrusa” (2016). Produziu, em parceria com Galvanda Galvão, as videoartes “Nam Sibyllam” (2016), “Transluciferação” (2016) e “Entre o anjo e o polichinelo” (2017). Atualmente reside em Belém.

 

 

Categorias
117ª Leva - 02/2017 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Rita Santana

 

Ilustração: Bianca Lana

 

 

ADUSTO

 

Primeiro Movimento

 
Ele me invade, árcade selvagem!
E lança suas mãos ávidas sobre
A minha pele de avelã madura,
Sobre a minha casca de aroeira.
Abeira-me de abismos e abis.

Toca a minha pele de tâmara –
Qual trovador em cítara –
Matura o tempo do meu luto
E engravida-me de avencas.

Vejo-o mascar nêsperas de esperas
Para ver a flama do meu Desejo.
Vate do Alentejo!

E eu, que tanto tramara muros,
Furto seu nome que
– de eloquência e loquacidade –
Excitara precipícios de manhãs
Em minhas planuras de Poeta.

Entanto, nada me alenta!
E, ao relento, clamo por seu epíteto,
Eu, bastarda pantera de pântanos!
Contemplo-o aliciar palavras
Que serão doadas ao meu Oratório!
Ao meu templo de dispersões e cordilheiras.

Manifesto a minha Divindade
Em protestos de fúria.
Eu, toda feita de ínsulas e rudezas,
Uma ilhoa sacerdotisa
A cultivar papiros
No Oráculo de Sapho.

Vejo o meu Vate
Assistir ao itinerário da trepidez da Mulher
– toda eu!
Que tremula em sua presença.
Tocada pela arquitetura dos seus gestos
E pelos alicerces e declives
Da palma da sua mão.
A mesma mão que alimenta o gado
E que me alivia a fome,
O estado de viuvez
E de ausência.

 

 

Segundo Movimento

 
– Vem, Adusto!
Consome meu ventre
E adentra meus poros!
Sê justo, derrama teu sêmen
E tua semeadura de Servo
Sobre as minhas alfombras,
Sobre os meus alfarrábios,
Alforrias, o meu tratado de veias,
Tramelas, arcas, eras, heranças e plagas.

– Enterra a tua fidelidade de Sáurion
Em sarcófagos da memória.

Eis-me toda cômoros
E comoção de cavidades,
Toda inumação de abrasamentos,
E de brasas.
Toda inumação de archotes de vontades acesas.

– Grado!

Assim, chamo-te, pois há muitos nomes
Para te ocultar da avidez das mulheres
E da sordidez tirânica dos homens.
Eram tuas, Grado, as candeias,
Os candelabros, os candeeiros
Que arfavam luzes sobre os nossos pelos
E sobre as nossas bocas desmaiadas,
Ante os cânticos de Salomão e a sapiência da Rainha de Sabá!
Naquele campo noturno das avenas,
Fizeste–me revelação de árias e templários.
Desvelaste, em anunciação de mistérios,
Sacros nomes: Baobá, Barriguda, Imbondeiro!

Desses tempos, Adusto, tenho feito minha homilia,
Minha hóstia, minhas oferendas.
Meus sacrifícios de animais, de sangue,
De penas, de mortes e de vidas.
Sulcos rompem meu corpo
E, nauta e louco, o teu olhar
Ainda imprime em mim desígnios
De fome e tormentas!

– Gótico Senhor dos Passos,
Senhor dos meus Vestígios,
Senhor dos meus tormentos de Escriba!
Vem, criva-me de cravos, bromélias, anêmonas!
Vem, criva-me de fados, fandangos, fagotes!

Em Carcassone, Árcade Selvagem,
Quedam-se meus burgos.
Abro minhas defesas para tua epiderme,
Tu, verme gentil que me consumiste a pele,
Entrego-te ânforas onde armazeno
Aromas e câimbras de amores pretéritos.

– Adusto, vem!
Aporta novamente em minha Casa
E anula qualquer nuança de presença alheia
Em meu leito, em minha alcova
Ou no rocio que cerca o meu terreiro.
Pousa teus olhos sobre o meu Universo,
Pois, tudo que o teu olhar toca
É-me sagrado!
E ganha magnitude de Eterno.
– Não vês?
A minha pele fez-se imortal e casta.
Temo levitar sobre as evidências do mundo.
Temo levitar – em observância – sobre o teu cotidiano apaziguado.
Temo realizar milagres de peixe, vinho e pão.
Temo hipnotizar bússolas, ponteiros
E as translações da terra!
Temo tornar-me nociva ao mundo, às marés
E aos ciclos eternos da Lua.
Tamanho é o meu poder de fêmea tocada.
Sinto-me Harpa destinada a te conduzir,
Enfim, de volta, àquele sítio onde só há
Desejo.

 

Rita Santana é atriz, escritora e professora Língua Portuguesa na Rede Estadual de Educação do Estado da Bahia. Em 2004, foi uma das premiadas no Braskem de Cultura e Arte para autores inéditos com o livro de contos Tramela. Logo depois, o seu livro Tratado das Veias (poesia) foi publicado pelo extinto selo Letras da Bahia, em 2006. A Editus publicaria o seu Alforrias (poesia) em 2012.  Participar da antologia Outro Livro da Estante organizada por Herculano Neto e publicada pela Mondrongo em 2015 com o conto Ondas, Trânsitos e Trilhos, além de ter o seu poema Adusto na revista organismo, organizada por Ederval Fernandes e Alex Simões.