retiro a carne deste corpo
que de corpo
sequer corpo é
e exponho ossos
sobre este rosto
que reluz a máscara
que eu nunca quis,
que eu nunca aceitei usar
não são maus os homens que roubam
nem as mulheres que choram
pelas esquinas da fome
pelas ruas do hoje
não cabe
sua vontade de ser gente.
***
CORPOS ABERTOS
Abrem
Lapsos sem regras
Vívidos tatos
Pupilas dilatadas
Dilatam
Grampos em pernas
Límpidos bálsamos
Mãos entrelaçadas
Entrelaçam
Bocas servas
Segundos grávidos
De prazer sem calma
Mundos recíprocos
Lascivas mostras
De corpos abertos.
***
VOCÊ MEIO FIM
e lá
quando chego ………………. ..no meio
de você
e aqui
quando logo ……………. ..no fim
de mim
chega logo
aqui e lá …………..no meio e ………………………no fim
de você em mim.
***
CHÃO
Desterritorializo
O liso mundo
não me serve
Absinto de si
Coágulos de outros
Alquimia delirante
Religião sem hão
Tudo é
Sondo limites
Embriago o mundo
Chão é sempre chão
Os pés têm memória.
***
LIBERTUS
Não amarrarei
uma fita colorida
ao rabo do gato
Ser livre,
liberto,
libertino
Dói
Nem sempre
é lindo.
***
UM DESTINO É POUCO
Nunca tive morte tranquila
todas elas foram desesperadas.
Um tiro de desilusão no meio do peito,
uma facada de solidão no fundo da alma.
Vi as tripas da minha tristeza por tantas vezes
que perdi as contas.
O afogamento é sempre o mais comum,
o gosto do sal desidrata.
O encontro com o chão da realidade
depois de mergulhar no amor do trigésimo andar,
levantar com as costelas da esperança quebradas.
Nunca foi fácil.
Eu sigo morrendo,
sou o pior dos vasos
porque ressuscito.
***
PANTERA
Lampejos de vida sem frio
Sem freio
Veias abertas no seio da fera
Feitas a ferro
Olhos fundos e sem beleza
Profundas brutezas
Corpos sobre a mesa
Servidos à francesa
Tiro único e certeiro
No meio do peito
Prova não ser passageiro
Ainda que sem leito
Cobre-se de miudezas
Enche-se de sutilezas
Dança sem presteza
Morre sem nascer.
Vanessa Douradoé escritora e feminista latino-americana. É autora do livro “Palavras ressentidas” – Editora Giostri, 2015 – e colaboradora na Revista Berro, vive em Buenos Aires.
Há mãos que procuram por gestos. Rostos que marcam cartografias de sentimentos por entre dias e lugares difusos. A vida, um cenário que alterna o estático e o dinâmico, a fuga e a presença das cores. Onde a capacidade de se vislumbrar além dos espaços naturais de alcance imediato? Onde um fôlego de poesia em meio à massa cotidiana de intervenções humanas?
O que um olhar genuíno é capaz de proporcionar suplanta os aborrecidos caminhos do óbvio. Vai além, penetra na camada intrínseca das coisas. O gosto pela essência rege caminhos marcados fundamentalmente por um amplo território de subjetividades. Decerto, somos todo um universo que agrega, a um só tempo, papéis aparentes e ocultos. E assim cumprimos um misterioso ritual das horas como profundos desconhecedores do destino.
O que caberia a um fotógrafo diante desse colossal ambiente de incertezas? Quiçá a rota imprecisa das navegações pessoais. Algo que denotasse indícios de que nos vãos da existência há margem para compreendermos um pouco do que somos.
No trabalho de um artista como Antonio Paim, sujeitos e objetos trafegam em planos paralelos e também distintos. A busca da imagem reflete uma peculiar maneira de tentar captar o idioma encerrado no gestual de certas epifanias humanas. Assim, fotografias transbordam sentimentos característicos de sujeitos que possuem modos diversificados de expressão diante do mundo.
Harmonicamente integrado a determinados ambientes de observação, Antonio testemunha com maestria manifestações especiais da cultura popular brasileira. Nelas, evidencia elementos místicos que apontam para um caminho de transcendência dos valores terrenos da experiência humana. É, por exemplo, o que acontece quando direciona suas lentes para registrar as intensas nuances presentes nas celebrações afro-brasileiras. O resultado é um todo orgânico, revelando uma estética que contempla fé, entrega e consagração da vida ante a representação do divino.
Foto: Antonio Paim
E o fotógrafo também volta suas atenções para contextos urbanos. Aqui, cidades significam muito mais do que aglomerados de pessoas e concreto. São a mais pura e espontânea tradução dos trajetos individuais e sua relação com a construção do coletivo. Seja a partir de uma metrópole ou pequena vila, Antonio nos mostra que é o externar das identidades singulares (e aqui tomemos o termo como sendo algo que distingue os seres em sua essência pessoal) o que de fato confere sentido a um determinado lugar.
Fazendo uso de recursos como a dupla exposição, Antonio ousa nos sugerir outras possibilidades de leitura imagética. Essa escolha criativa, baseada na sobreposição de imagens, resulta num diálogo entre diferentes tempos e espaços, o que amplia o leque de interpretações do observador. Essa, digamos assim, manipulação dos contextos serve como uma valiosa provocação, talvez uma tentativa de questionar o conceito de realidade.
O fato é que está também nos propósitos desse artista baiano fazer com que as pessoas possam vislumbrar interpretações autônomas para as fotografias que ele produz. Significa deixá-las à vontade para que recriem mundos a partir desse mundo ofertado, mesmo que este seja a mais sincera representação do nonsense ou de meros devaneios presentes no cotidiano do fotógrafo.
Natural de Salvador, Antonio Paim coleciona em sua trajetória diversas participações em exposições individuais e coletivas, tendo recebido relevantes premiações com seu trabalho. Entre seus projetos, destacam-se as séries Preces (registro especial sobre os festejos que cultuam Iemanjá na Bahia), Átimo (trabalho que enaltece a memória a partir de imagens captadas em cemitérios) e Todo carnaval tem um pouco de navio negreiro (espécie de crítica à situação dos cordeiros de blocos no carnaval de Salvador).
Certamente, a boa fotografia não é aquela que tão somente acate os ideais de beleza plástica. É algo maior, que subjaz, transpõe limites aparentes. Um pacto silente entre criador e observador, reserva do inimaginável e fonte incessante de visões. Captar a luz também é traduzir a si e a outros, eterno deslocar de sujeitos.
Foto: Antonio Paim
*As fotos de Antonio Paim fazem parte da galeria e dos textos da 116ª Leva
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.
A primeira correspondência que Paula Dip recebeu de Caio Fernando Abreu foi um bilhetinho insolente, com ares de intimação. Prenunciavam-se os anos 80, e ambos trabalhavam na editora Abril, em redações convizinhas. À época, Paula organizava uma festa de comemoração de seu aniversário e Caio não figurava na lista de convidados. Foi então que aterrissou sobre a mesa da jovem jornalista a seguinte mensagem: “Todos já receberam o convite para o seu aniversário; por acaso você teria se esquecido de mim ou ainda posso ter esperanças de ser convidado? Sei que a festa é amanhã e prefiro pensar que foi uma distração de sua parte; detestaria imaginar que foi proposital”.
Conhecido pelo temperamento forte (e volátil), essa era, na verdade, a maneira de Caio dizer para Paula que queria ser seu amigo. Ele foi convidado para a festa, naturalmente, e a amizade se configurou por vinte anos. Paula viu, de muito perto, o jornalista se tornar escritor, dramaturgo, roteirista; ganhar prêmios; morar fora do país; retornar; sofrer por amor; sobreviver à ditadura militar; descobrir-se portador do vírus HIV; morrer. Durante esse período, eles trocavam inúmeras cartas, que ficaram guardadas por uma década, esperando que o intolerável da ausência desse trégua e os amigos pudessem se reencontrar naquele tempo retido no papel.
A volta às cartas, afinal, deu forma ao livro “Para sempre teu, Caio F. – Cartas, conversas, memórias de Caio Fernando Abreu”, lançado em 2009. Sucesso de público e de crítica, o misto de memórias e correspondências inspirou um premiado documentário de mesmo nome. Agora, uma nova compilação de cartas vem a público, outra vez organizada por Paula Dip. Em “Numa hora assim escura”, a jornalista se debruça sobre as missivas trocadas entre Caio F. e a escritora Hilda Hilst, entre os anos 70 e 90. O lote, até então inédito (alguns envelopes ainda se mantinham lacrados), revela duas pessoas que, através de um vigoroso laço afetivo, completaram-se artisticamente e forneceram, ainda que de maneira incidental, um panorama precioso de suas épocas, sobretudo no que diz respeito à literatura.
Os textos epistolares remontam a um Caio recém ingressado na vida adulta, com a cabeça tomada pelos cabelos compridos e um tanto de ideais, que se muda para a mística Casa do Sol, em Campinas, onde Hilda havia se refugiado para se dedicar à literatura, após uma vida de luxo e matrimônio. A relação dos dois, a princípio de pupilo e mentora, pouco a pouco se fortifica num pacto de amizade, que durou por toda a vida, e que foi inestimável para a formação literária de Caio. Prova disso é que nunca se desligaram, fosse qual fosse a distância geográfica, fosse qual fosse a gravidade das circunstâncias. As cartas os uniram na vida e na morte.
Em entrevista exclusiva à Diversos Afins, Paula Dip expõe detalhes sobre esse encontro incomparável entre dois de nossos principais autores contemporâneos, rememora sua própria convivência com o amigo, revela particularidades do escritor e reflete sobre seu papel de proteger e dimensionar o legado de Caio Fernando Abreu. Além disso, fala sobre novos autores, literatura feminina, o reconhecimento da obra de Caio F. por parte de uma nova geração de leitores e a experiência de se reconstituir parte de uma existência através de relatos contidos no secreto da troca de cartas. “Reorganizei a obra de ambos de um novo ponto de vista: a amizade que os uniu, confidências, afinidades, as brigas, as gargalhadas. Desenhando uma linha do tempo com suas cartas, contos, gritos e sussurros. Foi uma viagem deliciosa”.
Paula Dip / Foto: Johnes Mattos
DA – O Caio era alguém que acreditava no esotérico, em planos astrais, na incidência do sobrenatural no dia a dia. No prólogo do novo livro, você escreve que esse volume de cartas chegou a você “como num passe de mágica”. Depois da ótima repercussão de “Para sempre teu, Caio F.”, livro seu que serviu de matéria para um premiado documentário, acredita que, de alguma forma, ele queria que esse pacote terminasse contigo? Que você continuasse protetora do legado dele?
PAULA DIP – Caio dizia que, além de ser escritor, sempre quis ser um mago “como Cortázar”, em quem se espelhava. Desde muito jovem estudou astrologia, espiritismo, foi Rosacruz, aproximou-se do candomblé, do Santo Daime, consultava cartomantes, videntes, jogava I Ching e Tarô. Quando conheceu Hilda Hilst, desenvolveu ainda mais seu lado místico. Assim que ficamos amigos, ele leu minha carta astral e analisou minhas revoluções solares algumas vezes, fez o mapa da minha filha quando ela nasceu, de tal forma que, com a convivência, aprendi a entender e a respeitar os sinais que, segundo Caio, o universo nos envia; basta estarmos atentos e fortes, ele dizia, citando Caetano e Gil. Visitava sempre sua mãe de santo no Rio, Sonia de Oxum Apará, e aqui em São Paulo certa vez me levou a um terreiro para visitar um pai de santo. Quando chegamos ele ficou muito à vontade, participou da roda, cantou, dançou e pediu a benção aos orixás. Eu assisti de longe, não tive desenvoltura para participar da festa e nem para me entregar ao ritual que ele parecia conhecer bem. Sempre fui cética. Depois disso ele não me convidou de novo para tais atividades, mas eu sempre respeitei seus credos. “Yo no creo em brujas pero que las hay, las hay”, diz o ditado, e por tudo isso, passei a prestar atenção aos sinais. Nos anos 80, eu e Caio fizemos um pacto que respeito até hoje de escrever nossa história e tornar públicas suas cartas. Quando Caio morreu, em fevereiro de 1996, por exemplo, eu morava fora, não havia internet ou celular, só fui saber da morte dele alguns dias depois. Eu vivia em Boston, era inverno, uma madrugada houve um acidente de carro na frente da minha casa, um rapaz morreu dentro de um carro que pegou fogo. Eu nunca havia visto nada tão impressionante e quando soube que Caio havia falecido justamente naqueles dias, fiquei muito sensibilizada. Aquilo parecia uma premonição, um aviso. Outro exemplo: quando esse pacote de cartas dele para Hilda veio parar em minhas mãos, pensei até em fazer uma tese de mestrado a partir delas, mas acabei decidindo publicar o livro. Logo no início do trabalho fui atrás da bibliografia de Hilda e encontrei um livro dela, “Tu não te moves de ti”, que ele me presenteou em 1980, com um bilhete/dedicatória, que estava perdido há 30 anos na minha biblioteca, outro sinal. Falo disso no meu livro novo, publico um fac símile do bilhete. Hilda combinou com Caio que ele viria visitá-la depois de morto para garantir que havia vida após a morte, e ela contou que ele esteve na Casa do Sol algumas horas depois de morto, para lhe mostrar que estava bem, conforme haviam combinado. Ele era um cara que cumpria suas promessas, um amigo muito leal. Não estou sozinha nisso, muitos outros amigos de Caio se sentem assim, ligados e atentos aos seus sinais. Tudo isso faz parte da lenda de Caio Fernando Abreu, mas acima de todos os mitos e mistérios sobre sua pessoa, o que importa é que ele foi um escritor talentoso que merece ser lido e cultuado. Finalmente respondendo à sua pergunta, não sei se ele queria que o pacote de cartas terminasse comigo, ou se desejava que eu protegesse seu legado, mas acredito em seguir minha intuição no sentido de levar a publico cartas, textos, conversas, memórias, e todos os inéditos de Caio que chegarem às minhas mãos.
DA – Você conta, no livro, que conheceu o Caio na redação da editora Abril, onde firmaram uma amizade que durou 20 anos. Ainda assim, há algo nessas novas cartas que a surpreendeu durante a leitura? Há, em algum aspecto ali, um Caio que não conhecia ou não sabia que existiu?
PAULA DIP – O que mais me impressionou nesse pacote com parte da correspondência entre Caio e Hilda é a juventude, o frescor do texto. Quando o conheci, entre as redações das revistas Pop e Nova, Caio estava com 30 anos, já morara dois anos na Europa, tinha livros publicados e premiados. À época, ele escrevia os primeiros contos do livro “Morangos mofados”, lançado em 1982, pela Brasiliense. Até hoje guardo um bilhete dele se convidando para minha festa de aniversário, o início de nossa amizade. Aos 17, Caio escrevia o romance “Limite branco”, quando decide se mudar para São Paulo e depois para a Casa do Sol, em 1968. Hilda é autora da epígrafe e editora do texto final desse romance. As cartas falam exatamente desse momento. Fiquei encantada com aquelas confissões de menino, sonhos e perrengues de final de adolescência; a vocação do escritor, o precoce amor às palavras. Nas primeiras cartas que envia a ela do Rio, em 1970, Caio menciona Caetano Veloso, Antonio Bivar, Luiz Carlos Maciel, ídolos no nosso tempo, como sendo os papas da contracultura. É o deslumbramento de uma geração. Caio diz a Hilda que “é uma loucura a lucidez e a abertura espiritual que eles têm”. Eu que só fui ver Caetano rebolando no palco do TUCA, em São Paulo, com os Tropicalistas, fiquei encantada. Caio, assim como Caetano, era artista plástico, desenhava, fazia colagens que às vezes transformava em cartas, com estrelinhas, entrelinhas, anúncios, desenhos, detalhes. Cartas lindas, apaixonantes. Não é por acaso que o livro fala de uma paixão literária.
Caio Fernando Abreu e Paula Dip em 1982 / Foto: Arquivo pessoal
DA – O conteúdo das cartas é marcado por uma sobrecarga de afeto, em especial a admiração e o carinho que Caio demonstrava pela Hilda. Muito mais que uma confidente ou uma amiga, a figura da grande escritora que já era, quando se conheceram, mostra-se fundamental para a formação da escrita do jovem autor. Obviamente que havia nele um talento nato, contudo o quanto acredita que o convívio, naquele exato período de sua vida, tornou a Hilda imprescindível para a literatura de Caio?
PAULA DIP – Mais do que imprescindível, Hilda foi um bálsamo na vida de Caio F. A vivência de quase dois anos, que tiveram na Casa do Sol e continuou por toda a vida, foi troca fundamental para a formação literária dele. Afinal ele era um garoto de 19 anos! Teve acesso à biblioteca completíssima e principalmente aos escritos dela, às suas ideias. Eles se reconheceram imediatamente no amor à palavra. Caio virou assistente, ela ditava textos num gravador que ele depois datilografava numa operação crucial que o fez ouvir a própria voz desafinada e fazer exercícios para encorpá-la. A voz engrossou e o milagre foi atribuído à figueira mágica, claro. Caio aprendeu com Hilda a ler seus textos em voz alta, e a dedicar muitas horas de seu dia à escrita e à leitura. Buscar na palavra a sua superação. Assim nasceu a lenda esotérica que até hoje envolve os dois. Hilda era educada, culta, levava uma vida original, reclusa e ao mesmo tempo cercada de mil pessoas interessantes. Foi uma moça bonita, rica e badalada na capital paulista, onde estudou direito no largo de São Francisco. Namorou Deus e o mundo. E fugiu do carrossel de paixões e viagens ao redor do mundo, aos 35 anos, quando largou tudo para viver numa casa de campo, para escrever seus poemas e focou em sua obra genial durante o resto de seus dias. A Casa do Sol tornou-se um espaço de reflexão, estudo, até hoje referência para artistas, poetas, escritores, cineastas. Acredito que ele foi muito influenciado por ela, e vive versa; Hilda aprendeu muito com Caio. Ela foi o mestre e ele o aprendiz, mas é dos grandes encontros praticar a alteridade, e certamente eles trocavam de lugar. O rapaz trouxe o frescor da juventude, enquanto ela o confortou com a sabedoria da maturidade. Até conhecer Caio, Hilda só havia escrito poesia. Em 1970, publica “Fluxo-Floema”, seu primeiro mergulho na ficção, e dedica a ele um conto, “Lázaro”, para mim um dos mais belos da língua portuguesa. Logo depois, Caio publicou “Limite Branco”, seu romance de formação, cujos capítulos ela editou, escreveu título e epígrafe. Um verdadeiro encontro de almas.
DA – Numa das cartas que escreveu em Londres, Caio faz um comentário bem mordaz sobre um livro póstumo da Clarice Lispector: “Acho que ela morreu na hora certa, porque tava repetindo demais a receita”. Um pouco antes, você relata que Caio trazia, da juventude, uma obsessão literária por Clarice que, depois de se relacionar com Hilda, veio ao chão. O que se tornou essa paixão, afinal, para Caio, a ponto de ele trocar até de musa?
PAULA DIP – Caio se encantou com Clarice na adolescência, quando as paixões são fortes, platônicas e eternas. Eles viveram coup de foudre, tipo um romance muito avassalador que não existe mais, irmão do amor à primeira vista, que é mais como um soco no peito. Clarice o convidou para se sentar ao seu lado e o chamou de “meu Quixote”, numa noite de autógrafos em Porto Alegre, e, embora tenham trocado telefones, nunca se viram. Ele deu sorte na escolha da musa, dona de uma energia tão mágica e misteriosa que alguns a chamavam de bruxa. Como não amar tal musa? Caio se apaixonava perdidamente por suas musas. Seu texto foi marcado pela profundidade abissal de Clarice. E o amor pela musa nunca morre, amores e musas se acrescentam. Clarice era distante, calada; Hilda, um turbilhão. E Caio não esteve perto da Lispector no cotidiano, como aconteceu com Hilda. Bastou ele chegar à Casa do Sol e outro coup de foudre. Eles imediatamente diziam tudo, riam de tudo, brigavam por tudo, duas crianças. Quanto ao comentário ferino que você cita, é a cara dele! Caio perdia um amigo, mas não perdia a piada. Exercia um humor ferino, era witty como poucos. Para ele, poder zombar por escrito de Clarice, numa carta para Hilda, era como provar a si mesmo que a fila andava e que o futuro ainda lhe reservaria muitas musas, graças a Deus.
DA – Por outro lado, apesar da quantidade de missivas que remetia dentro e fora do país, Caio chegava a ficar meses sem receber uma resposta de Hilda. Proporcionalmente, aliás, as cartas enviadas pela escritora parecem bilhetes diante dos textos de várias páginas escritos pelo autor. Qual a relação que faz disso? Ainda que trocassem impressões e laços fortes de sensibilidade, percebe que existia nele um interesse mais grave, um apreço que não era correspondido à mesma altura por ela?
PAULA DIP – Hilda morava no campo, raramente checava a Caixa Postal que ficava longe, no Correio da cidade. E as cartas já estavam velhas, talvez não achasse necessário responder. Era uma vida reclusa, mas bem cheia a que Hilda Hilst levava na sua Casa do Sol (e também tinha a Casa da Lua, na praia. Dona de terras, grande dama do interland paulistano, nascida Almeida Prado por parte do pai poeta. Sabia receber comme il faut aos inúmeros cães, amigos, artistas, amores. Tudo isso dava trabalho a essa taurina com lua em Aquário, que escrevia sem parar uma literatura genial, tresloucada, comparada a de James Joyce, não menos. Caio viajava pelo mundo, essa era sua paixão. Mudava de cidade e de emprego como respirava, naquele seu ritmo budista. Voz mansa, profunda, muitos silêncios. As cartas eram um respiro, uma forma de manter a pouca sanidade mental. Escrever cartas era como manter um diário; havia dias que escrevia cinco ou seis cartas para amigos, amores e familiares. Hilda foi uma destinatária privilegiada, assim como eu. Caio escrevia para si mesmo, como desabafa na epígrafe do “Numa hora assim escura”, para organizar a cabeça, fazer planos, registrar um memorial. Escrevendo, eu falo pra caralho, era seu mote. Quanto à reciprocidade do amor, dura falácia. Como se sabe, não é a quantidade e nem o tamanho que revela o teor do afeto. Eles foram platônicos perfeitos: viviam conectados em outro plano, praticavam telepatia entre outras formas de comunicação. Apesar das poucas cartas que Hilda enviou a ele, a afeição entre ambos sempre foi correspondida e eterna enquanto durou. Foram amigos e irmãos até o fim. Quando Caio morria em Porto Alegre, Hilda era uma das poucas que telefonavam todos os dias. Ela chorava e ele a consolava. Amor de amizade, diziam.
Estrelas, carta de Caio a Hilda Hilst (1975)
DA – Embora tenha as cartas como ponto de partida, o livro apresenta uma estrutura coesa, cuja narrativa remonta passagens tanto de Caio quanto de Hilda que antecedem e sucedem as situações abordadas nas cartas. Obviamente que, pelo seu livro anterior e pelo próprio convívio com o Caio, você já detinha desse material do autor. Porém como foi reconstruir os momentos de Hilda? Já havia uma aproximação com a vida e com a obra da autora, ou ocorreu um processo inverso, no qual as cartas a levaram a pesquisar sobre o passado dela, inclusive com o recurso de entrevistas?
PAULA DIP – Conceber um livro de cartas é revelar a passagem do tempo, o movimento social, o pensamento coletivo, o processo histórico. Sem falar nas emoções etéreas e aéreas que só as cartas contêm. É fascinante ver as pessoas dessa forma, tudo se encaixa. Antes de jornalista e escritora, sou formada em História na PUCSP, em 1970, e desde então procurei ver as coisas a partir do processo dialético. Cheguei a considerar seriamente a possibilidade de ser professora, ter uma carreira acadêmica, mas naquele tempo as pessoas viviam sendo presas na faculdade: ter lido Marx era uma condenação. Foi uma orientadora, a Zilda Zerbini, que me sugeriu ir trabalhar nos fascículos de História da Abril. Caio havia trabalhado, antes de mim, deixado pistas invisíveis. Pois foi assim que descobri a escrita. Estudiosa em Português, criava histórias que lia para a classe, trocava poemas com colegas de redação, escrevi poemas desde menina. Mas foi ali na Abril Cultural, que senti que eu poderia ser uma escritora. Com esses olhos, fui atrás da mulher de quem Caio sempre me falou muito: poetisa vivendo na Casa do Sol e amiga do meu amigo, Hilda era personagem frequente de nossos papos. E, sim, parti de um extenso memorial da nossa geração, que virou meu primeiro livro. Mas os livros atraem gente que gosta deles e chegaram outras pessoas que conviveram com a dupla, entrevistei dezenas delas. Reorganizei a obra de ambos de um novo ponto de vista: a amizade que os uniu, confidências, afinidades, as brigas, as gargalhadas. Desenhando uma linha do tempo com suas cartas, contos, gritos e sussurros. Foi uma viagem deliciosa.
DA – As cartas, além de serem registros de uma relação bem particular, estão carregadas de retratos de suas épocas, por meio de olhares deliberados, de comentários incidentais. Você consegue identificar um valor histórico na mesma proporção que literário nessas missivas?
PAULA DIP – Com certeza. É isso que me fascina nesse tipo de livro: as cartas são fontes primárias da experiência existencial de uma determinada geração. Elas revelam o cotidiano, o desenrolar da cena histórica em que viveram o autor e seus contemporâneos, cada um fazendo sua arte, levando sua vida. É um flashback de um determinado momento, como o depoimento de uma testemunha ocular revelando tudo. Nesse sentido as cartas que publico são documentos sociais e políticos de um período muito conturbado da vida brasileira. Entre 70 e 90 (data da primeira e da última carta desse pacote) vivíamos às voltas com uma ditadura cruel, e embora os dois escritores não fossem exatamente militantes, foram vítimas da Censura e da repressão. Hilda hospedou e preservou vários amigos procurados pelo DOPS, e Caio foi um deles. Além de registrarem uma relação bem particular, as cartas são lindas e seu valor literário é inestimável. O professor de literatura gaúcho Luis Augusto Fischer acredita que, se olhadas com o devido distanciamento, essas cartas têm a mesma importância literária dos contos, crônicas e romances dele. Concordo inteiramente.
DA – Algo que fica explícito nas cartas é a voltagem emocional de Caio, sobretudo suas variações. É curioso quando ele aconselha Hilda a não se importar com as críticas, sendo que ele próprio fica extremamente melancólico diante de uma leitura negativa de seu livro. Dentro de uma mesma carta, por exemplo, há notícias de alegria e trechos em que se mostra introspectivo, desencantado quanto à vida que levava. Quem era esse Caio, afinal? De alguma forma, ele escrevia essas cartas também endereçadas a ele?
PAULA DIP – Esse Caio era muitos, como aliás, todos nós somos, mas ele não fazia disso segredo. Escrevia suas cartas como se fossem páginas de um diário, registros em alta voltagem de seus altos e baixos cotidianos. Ele usava a literatura e a correspondência como uma forma de estar em contato com as pessoas que ele amava, fazer uma espécie de auto reflexão. Pensar a vida. Era uma pessoa muito transparente; quando estava triste, revelava sem pudor o motivo de seu desespero, às vezes acordava achando que a vida não valia a pena e me ligava de madrugada, dizendo que queria morrer. Nos textos, despedia-se da vida num parágrafo e, no outro, já estava rindo da própria tristeza. Ele vivia numa gangorra emocional, porque tinha coragem de se jogar nos abismos da dor nu e sem medo, como diziam alguns que testemunharam esses mergulhos. Isso fica muito claro em sua obra; ele se jogava lá no fundo das emoções, das mais sutis às mais despudoradas. É disso que vive um escritor. E quando ele estava feliz, não havia ninguém mais feliz que ele. Era engraçadíssimo, queria sair, dançar, fazer festas, jantares, adorava rir, dançar e namorar muito. Hoje ele seria considerado bipolar. Caio sempre fez análise, frequentou um psicanalista até o final da vida.
DA – Outro aspecto, dentro desse mesmo contexto, é o fato de que, nas cartas mais antigas de Caio, as palavras “suicídio” e “morte” aparecem com alguma frequência, diferente das mais breves, datadas nos anos 90, quando já estava infectado com o vírus HIV, que iria matá-lo. Você acredita que, diante da finitude, ele se deu conta de que a literatura era o que sempre o manteve vivo e, portanto, tornou-se mais determinado a escrever?
PAULA DIP – Sem dúvida foi isso mesmo que aconteceu. Caio era um insatisfeito, sempre reclamou da vida e ameaçou acabar com ela muitas vezes, até descobrir, em 1994, que era portador do vírus da AIDS. Quando o exame deu positivo, e isso naquele tempo significava uma sentença de morte, em vez de se matar, ele decidiu viver intensamente e “positivar” sua relação com o mundo. Voltou para a casa da família, no bairro do Menino Deus, em Porto Alegre, e nunca mais reclamou de nada. Começou a cuidar do jardim com o pai, velhinho, com quem havia se desentendido na juventude. Aproveitou todos os minutos de sua sobrevida para finalizar a obra, revirou gavetas, reeditou textos, publicou um livro póstumo, o “Ovelhas negras”. Antes mesmo de morrer, fez projetos, planejou, viajou, despediu-se da vida de forma gloriosa. É claro que teve momentos difíceis que dividiu com Deus e com poucos e íntimos amigos, e todos se encantaram com sua aceitação Zen e sua decisão de sair da vida de uma forma suave. “Que seja doce”, dizia.
DA – Um trecho marcante é de uma entrevista da Hilda na qual ela denuncia que o então editor de Caio havia dado um bom adiantamento para o livro de uma atriz, enquanto o autor, já com reconhecidos livros publicados, lavava pratos em Londres para sobreviver. Penso que isso, de certa maneira, é um dos fatores que contribuíram para sua obra ter ganhado o devido respeito somente anos depois de sua morte. Na condição de amiga – e também de fã -, como lida com essa questão? É inevitável conter um resquício de mágoa ou parte do princípio de que melhor o reconhecimento tardio que reconhecimento algum?
PAULA DIP – Não acho que a falta de reconhecimento, por parte do público ou do editor, seja um fator para que a obra dele tenha ganhado o devido respeito somente anos após sua morte. Caio sempre viveu adiante do seu tempo, é mais compreendido hoje do que foi então. Ele estudava seu próprio mapa astral e dizia, com sabedoria pontuada de ironia, que só seria famoso depois de morto. Até nesse sentido ele e Hilda eram parecidos, pois ela também não teve uma fortuna crítica enquanto vivia e nunca vendeu muitos livros. Ambos nunca se deram bem com alguns de seus editores, que chamavam de “cornos”, e ela tomou as dores do amigo quando o editor da Cia das Letras preferiu publicar um livro de Bruna Lombardi (que Caio adorava, diga-se de passagem), sem se lembrar de que o escritor pudesse passar por dificuldades financeiras em Londres. Nesse caso específico, que ocorreu nos anos 90, ele lavava pratos para sobreviver, no restaurante L’ Ecluse, em Camden Town, enquanto, na livraria ao lado, seus livros, com a tradução para o inglês de “Os dragões não conhecem o paraíso”, vendiam bem e enfeitavam a vitrine. Ironias do destino. Na verdade, Caio havia recebido um adiantamento de autor em parcelas mensais para escrever seu novo livro, que seria “Onde andará Dulce Veiga?”, mas o adiantamento acabou e ele ainda não terminara o livro. Quando ficou pronto, o editor cumpriu o prometido e o livro foi publicado. Mas nada disso o impediu de viajar pela Europa inúmeras vezes para lançar traduções de seus livros em alemão, italiano, francês e holandês, entre 1990 e 1996, quando morreu, justamente no momento em que sua obra começava a ficar mais conhecida fora daqui.
DA – Você coloca que os contos de Caio eram mobilizados por uma energia cuja fonte estava além da literatura; vinha de um pendor crítico social, de uma necessidade indispensável de usar a máquina de escrever como arma contra toda forma de poder, de ser um antídoto contra qualquer manifestação de tirania. Diante do quadro da literatura brasileira construído nos dias de hoje, acredita que falta um pouco dessa energia aos novos autores?
PAULA DIP – A palavra é uma arma contra a tirania. Foi assim antes, durante e depois dos tempos da ditadura, e continua sendo assim. O texto é um instrumento de expressão e de luta, e escritores, pensadores, filósofos, poetas, compositores sempre enfrentam censura, incompreensão, muitos são perseguidos, torturados e às vezes mortos. Mas a obra deles permanece viva. É bom lembrar que naquele tempo não havia redes sociais, celulares, essas tecnologias que banalizam e embaçam as relações, roubam nosso tempo, mas por outro lado aceleram e ampliam as possibilidades de comunicação. Dizer que a literatura das máquinas de escrever era mais pura, mais autêntica e mais inspirada que a de hoje soa como nostalgia, acho que a boa literatura não tem data, a força da palavra sobrepuja tudo. O século 21 é um momento histórico em que vivemos mais, morremos mais tarde, a longevidade nos dá o tempo e os instrumentos para fazer ao vivo, em cores e em tempo real uma autocrítica de nossa passagem pelo planeta. Quer coisa mais excitante? Só virar jovem de novo. Os temas estão todos aí. Não falta assunto para que os escritores criem bons livros e, aos bons autores, não falta energia. Por incrível que pareça, acredito que, quanto mais a situação piora, mais material os escritores terão para contar nossa história. Escrever é inevitável.
DA – Ao reconstituir a trajetória de Hilda, você ressalta a dificuldade que era para uma mulher, nos anos 60, tomar a carreira de escritora. Nos últimos anos, um debate de mesmo centro tem chamado atenção para a presença de mais autoras no mercado. Acredita que, meio século depois, pouco mudou em relação às mulheres na literatura?
PAULA DIP – As mulheres foram e continuam sendo menos valorizadas que os homens em todas as áreas, vivemos num mundo machista. Não faz muito tempo as mulheres não votavam, sequer frequentavam as universidades. É como se as mulheres existissem apenas para procriar e cuidar da casa e dos filhos. Hilda, que se casou apenas para atender a um pedido da mãe, vivia delatando o “engodo” do casamento; sempre lutou contra essa situação de inferioridade da mulher. Ela foi uma guerrilheira à sua maneira, viveu muito adiante de seu tempo, assim como Caio também o fez. Não quero entrar nesse assunto, que considero vital e altamente inflamável, digno de outra entrevista tão ou mais longa que essa. A literatura dita “feminina”, independente e bem antes do viés de gênero, sempre foi de resistência. Escrever é uma luta árdua, diária, e como disse Virginia Woolf, em 1928: “É preciso ter um teto só seu para poder se dedicar à escrita”. Continua igual, ou pior.
Bilhetinho de Caio F. a Paula Dip (1980)
DA – No prólogo do seu livro anterior, “Para sempre teu, Caio F.”, você relata que um jovem atendente de videolocadora reconheceu o seu nome como o da amiga de Caio, em razão de um conto dedicado a você. É muito interessante notar essa redescoberta da obra dele por uma geração que, na ocasião da sua morte, sequer existia. A que atribui essa conexão, num mundo comandado por outros valores, por outras realidades além daquela em que morangos mofam?
PAULA DIP – Como não amar e viver a redescobrir Shakespeare, Dante, Clarice, Pessoa, Machado? Os bons textos atravessam gerações. Tenho certeza de que, quando estudarem a literatura do final do século 20, o escritor Caio Fernando Abreu será considerado um clássico. Morangos continuam mofando e os dragões ainda não conhecem o paraíso. Para mim é muito natural que as novas gerações se encantem com o trabalho dele. Ele começou a escrever muito cedo, sua linguagem, embora singela e irretocável, revela uma originalidade enorme e um perene apelo jovem.
DA – Se Caio seguisse escrevendo hoje, quais temas, supõe, que seriam os de interesse dele?
PAULA DIP – Caio estava sempre muito atento a tudo. Era um escritor político, no sentido largo da palavra, via a vida como um todo, nunca deixou de criticar os problemas da nossa geração; lutou à sua maneira contra a ditadura e todos os seus males. O mais incrível é que parece que o Brasil não mudou. Costumo dizer que ele era meio vidente por ter sido um dos primeiros a falar de ecologia, dos venenos do capitalismo, das questões de gênero, temas que hoje são muito presentes em nosso cotidiano. Vários assuntos que ele abordava ainda estão aí, a serem resolvidos. Crise econômica, corrupção, descuido com a vida no planeta, poluição, desmatamento, o eterno retorno, o desencanto da juventude diante de tudo isso. Ele tinha um olhar agudo e muito focado em relação a esses problemas e acredito que continuasse assim. E como seu trabalho era autobiográfico, de sorte que ele era o herói de suas próprias fábulas, certamente estaria falando da velhice, da maturidade, ainda buscando o amor e sofrendo com a falta dele, em tempos conturbados e escuros como os que vivemos. Daí o título do meu livro. “Numa hora assim escura” é uma frase que encontrei numa carta dele à Hilda escrita nos anos 70, ainda tão atual. É isso que faz dele um clássico: seus textos se referem a questões humanas que não têm prazo de validade, são eternas.
DA – Ao fim, você conclui que Hilda estava sempre à procura de Deus, e Caio escrevendo sobre amor. O que lhe conduziu a esse pensamento?
PAULA DIP – Essa busca por Deus e pelo amor é universal, e está bem evidente na obra deles. E tanto em relação ao amor quanto a Deus, Caio e Hilda tinham sentimentos semelhantes: acreditavam duvidando. Dizem isso em muitas entrevistas. Caio adorava muitos deuses e pedia a eles: quero porque quero me casar. Perseguiu até o fim um amor realizado, mas zombava do próprio desejo garantindo que, se o tivesse encontrado, teria parado de escrever. No caso de Hilda, creio que desenvolveu como poucos uma linguagem extremamente coloquial com Deus e, nesse sentido, eu a comparo a Saramago, especialmente no conto que já citei, “Lázaro”, do” Fluxo-Floema”. Adoro esses versos dela, em “Mula de Deus”, do livro “Estar sendo, Ter sido”, cujo início é assim:
Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO
Alta, dourada, me pensei.
Não esta pardacim, o pelo fosco
Pois há de rir-se de mim O PRECIOSO.
Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO
Lavei com a língua os cascos
E as feridas. Sanguinolenta e viva
Esta do dorso
A cada dia se abre carmesim.
Se me vires, SENHOR, perdoa ainda.
É raro, em sendo mula, ter a chaga
E ao mesmo tempo
Aparência de limpa partitura
E perfume e frescor de terra arada[…]
DA – Talvez a pergunta mais difícil tenha ficado por último: qual o seu texto preferido de Caio Fernando Abreu?
PAULA DIP – Quando a gente convive de perto com um artista e desenvolve certa intimidade com a obra dele, fica difícil pinçar favoritos. É claro que, pelo fato de ter visto nascer os contos de “Morangos mofados”, eu tenho um xodó por esse livro (que, aliás, é sua obra mais conhecida), e um carinho especial pelo conto “Pela passagem de uma grande dor”, que ele me dedicou. Amém. Trata-se do relato poético de uma conversa telefônica entre dois amigos, que realmente aconteceu. Caio fazia uma literatura de autoficção, contou nossa história a partir de fatos e pessoas reais, posso nos ver e a muitos de nossos amigos naquelas histórias. Foi um cronista fiel da nossa geração de baby boomers, hippies, yuppies, punks, revolucionários, loucos, criativos; mudamos o mundo e estamos envelhecendo. Ele construiu uma obra coesa e muito representativa daqueles anos loucos que temos o privilégio de rever. Somos a primeira geração realmente vintage. Aos poucos, a partir do nosso encontro, ele foi me presenteando com seus primeiros livros, dos anos 60 e 70, como o “Inventário do irremediável”, “Pedras de Calcutá”, “O ovo apunhalado”. Caio era um escritor generoso, dividia com os amigos suas dúvidas sobre o trabalho, nos mostrava rascunhos, alguns textos nos entregava em mãos, tenho até hoje originais que ele me deu e já reli milhares de vezes. Li tudo o que Caio escreveu, desde as cartas e as crônicas, passando pelos contos, os textos teatrais e os dois romances, “Limite Branco” e “Onde andará Dulce Veiga?”; o primeiro, seu romance de formação dos anos 70, e o último, dos anos 90, sua despedida do gênero. Adoro “Pequenas epifanias”, “Cartas para além dos muros”, “Os dragões não conhecem o paraíso”. Quanto à dramaturgia, meu texto favorito é “Pode ser que seja só o leiteiro lá fora”, peça escrita em Londres, em 1973.
Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.
um desejo rupestre
viaja no fio vermelho do corpo,
em seu zodíaco de sigilos luminosos,
na fauna barulhenta dos cabelos.
decifra a linguagem dos sinais
por meio de sílabas incendiárias.
amanhece um artefato do amor
na confusão da matéria.
um desejo rupestre
assume as formas de um abraço
& demora um pouco mais;
descobre o endereço da ternura
& trocam cartas de fogo;
retorna ao silêncio onde habita
& desarruma o tédio da casa.
ordena lembranças com o som
de um gemido.
***
visão do infinito
vejo o terrível corpo de alguém que não conheço
deitado na terna música das pedras – no som arfante do lodo
na severa melodia dos alísios
um terrível corpo – paisagem antrópica na película vegetal
a dança estarrecida dos sóis sobre o ventre negro
meus pequenos sonhos loucos na manhã carnívora
– as primeiras vibrações da ternura mais remota
gestos de um rito diário – adorno cinético da antiga alquimia
deslizo pelo túnel das costelas – pela ferrovia óssea da noite
meus olhos chovem na dureza de uma nuvem torácica
cruzo as cicatrizes no campo risonho da memória
agora rasgar a plumagem opaca dos segredos
descer ao recôndito maquinário das corridas & chutes
fazer girar a doce roda das vontades à mercê de um abismo azul
a visão é um sentido egoísta – o tato é um garoto obsessivo
desemboco na roupa das vísceras & entoo a litania do amor
contemplo nos fragmentos de nudez a visão do infinito
***
lições sobre o silêncio
para Demetrios Galvão
o poeta me disse
que o silêncio é uma lição valiosa.
que na pressa do mundo não cabe a poesia
& que a natureza tem múltiplos disfarces,
mas um único gesto para a liberdade das aves.
o poeta me disse
que este mundo anda viciado nas próprias sombras.
que a língua dos homens é uma lâmina de ódio
& que da areia que cobre os sentidos
brota uma paisagem arcaica de cactos raivosos.
o poeta me disse
que um dia também cultivou na pressa sua voz,
mas um calendário de vazios o puxou pelos cabelos
& lhe mostrou que nas pedras do caminho
habitavam ensinamentos perdidos.
o poeta me disse
que o ato da paciência evita golpes imprecisos.
que é pela visão que a sabedoria primeiro se achega
& que o peso do voo é mais leve que a pena
que empluma o olho do vidente em seu sonho.
o poeta me ensinou
que na peregrinação há riscos muito maiores,
mas que somente assim é possível aprender o tempo
& voltar-se mais vivo à bagagem de afetos.
***
wake up, mr. L!
acompanhado de John Cage
quando despir-se o místico por trás dos muros,
haverá uma turba de segredos aguardando passagem.
não existem falsas proposições. é preciso um ato ligeiro.
atravessar o ciclo dos vinte:
reencontrar infâncias num artefato muito antigo.
arrastar as cortinas da tarde:
enfrentar o pandemônio das ordens com Lentidão.
visito um oráculo asteca à procura de desvios na memória.
(devoro presságios para esquecer do futuro)
***
pelas cercanias
desiludidos,
cruzavam a espera
levando um mapa de ausências,
uma distância inquieta.
ruínas
e compulsões revisitadas.
desertos povoados novamente.
(as trilhas guiavam
a antigos hedonismos)
eles herdavam o sigilo
de seus quartos e recordavam
conversas aflitas.
em seus corpos
ardia a inscrição da noite:
os piores dos cegos. os piores dos cegos.
era tempo de saber
o paradeiro da angústia
e abrigar-se no conforto das conchas.
tempo de habitar
silêncios.
Lucas Rolim é poeta e fez algumas traduções. Nasceu em Teresina, onde habita e é habitado. Membro do coletivo “Tensão, Tesão & Criação” com o qual espalha a palavra poética pela cidade. É autor dos zines de poesia “Tetrapoemas” (três volumes, 2015), “Esquizofrenia” (2015), “No Panorama do Tempo o Menino se Alarga” (2016) e “Mr. Mojo Risin’” (tradução, 2016). Tem poemas publicados na coletânea “Baião de Todos” (fundapi, 2ª ed., 2016). Edita desde julho de 2016 o zine “Besouro”, em parceria com o poeta Demetrios Galvão.
A primeira vez na cozinha comendo biscoito enquanto a minha mãe preparava o jantar não havia nada de diferente de outras cozinhas ou de outras mães que preparam o jantar enquanto o filho come biscoitos, sentado à mesa, na cozinha. A cozinha tinha armários, potes de conserva, fogão, geladeira, mesa e quatro cadeiras. Não tinha nada de diferente de uma cozinha em que se senta para lanchar, conversar, almoçar, cear e jantar como todas as demais cozinhas em todo o mundo.
A minha mãe não parecia diferente de qualquer outra mãe que prepara o jantar para a família: o avental, o cabelo com uma rede, os sapatos de solado rasteiro, os olhos atentos às instruções dos manuais de receita, o fogão aceso com as panelas brilhantes, a pia com louça para ser lavada, o santinho no caramanchão da parede sobre a porta, o rádio tagarelando incompreensivelmente e eu sentado, comendo biscoito na lata de alumínio amassada, herdada de minha avó como todas as outras latas herdadas de antepassados por todas as mães de todas as casas de minha rua.
As pastilhas das paredes brilhantes como pequenos sóis despontavam por toda a cozinha, encimadas por uma listra azul que percorria todo o perímetro; o pequeno pinguim com fraque e o paliteiro e a cesta de frutas, o pequeno capacho para limpar os pés para quando se entra pela área de serviço, com os sapatos enlameados ou com detritos grudados em suas solas. Como toda outra casa deve ter igualzinha, sem tirar nem por, só que esta mais especial, por se tratar de minha mãe na cozinha, enquanto prepara o jantar para a família como todas as outras mães preparavam, a essa mesma hora, o jantar.
Para os maridos famintos vindos do trabalho, de pasta na mão, com o semblante grave e o jornal enrolado embaixo do braço, como o meu pai chegava e acredito que todos os pais chegavam com a mesma gravidade em seus lares, sentavam-se nas poltronas, ligavam a tevê, despindo o terno, a gravata, os sapatos, apoiando os pés na mesinha de centro, beijando os filhos, conversando amenidades como fazia o meu pai com a minha mãe e comigo, e todos os pais e mães comportavam-se da mesma maneira, porque era o rito, nada poderia ser alterado e se fosse alterado seria afetado o equilíbrio de toda aquela paisagem – a que meus olhos estavam acostumados – e tudo ruiria, o que seria uma temeridade, uma infelicidade e ninguém quer ser infeliz.
E em todas as casas todos tinham um modo de chamar pela felicidade e em nossa casa tínhamos o nosso que não deveria ser especial porque todas as outras residências deveriam ter método semelhante, e ser feliz é muito melhor do que ser triste. E ser triste é algo que todos queriam esquecer, porque não prestava para coisa alguma. Aliás, os meus pais acham que existe muita coisa triste, enumerá-las é um meio de se tornar triste também e as condenam ao silêncio como todas as outras famílias que não pronunciavam palavra sobre a tristeza. A minha mãe era bonita como qualquer outra mãe bonita e me amava como deve amar uma mãe. Ela me dizia que nem sempre as mães amam e me mostrava no jornal a notícia de uma mãe que havia matado o próprio filho. Era uma exceção, pois toda mãe amava ao seu filho e o filho amava a sua mãe como em toda a família, especialmente aquelas de propaganda de televisão.
Toda a família quer ser como a família da televisão. É assim que deve ser toda a família e ninguém duvidava de que aquele modelo era verdadeiro, porque se não fosse não estaria na televisão e aquela família não seria uma família, a mãe não seria a mãe e o pai tampouco ele seria. Eu comia biscoito sentado à mesa, esforçando-me em ser um garoto como o daquela família que era igual a todas as outras da minha rua, que era uma rua igual a todas as outras do mundo.
2.
A minha casa era igual a todas as outras e os meus colegas todos eram muito parecidos. As casas todas tinham dois andares, três quartos, sala, cozinha, banheiro, churrasqueira e piscina. Todas as casas tinham o mesmo gabarito. Os meus amigos todos se pareciam tão profundamente que passariam por irmãos, e se errassem de casa, uma noite, os pais não ficariam preocupados ou perplexos.
Os pais vestiam-se iguais para ir ao trabalho, tomavam o mesmo ônibus e voltavam no mesmo transporte, sempre a mesma hora, sem atraso, sem imprevistos, sem sobressaltos, seja em que parte da cidade trabalhassem. Talvez nem trabalhassem, talvez o ônibus ficasse dando voltas no quarteirão enquanto estávamos na escola. Talvez nossas mães soubessem de tudo isso e nos escondessem para a nossa felicidade. Porque não há nada mais importante do que a felicidade. Todas as portas tinham pregada a tabuleta com os dizeres que não há nada mais importante que a felicidade. Em todos os canteiros havia homenzinhos verdes sorridentes, cães felizes, gatos simpáticos, varredores satisfeitos, lixeiros contentes.
Não havia discórdia alguma ou maledicência. Todos pactuavam com o lema não há nada melhor que a felicidade. A minha família era partidária extremista da palavra de ordem. Bastava acordar um dia com uma leve indisposição orgânica para ela ser considerada uma ofensa ao manual de viver bem daquele lugar. Um leve mau humor situava o indivíduo à margem dos eventos, quando não era encaminhado a uma junta, que decidiria como restaurar a boa vontade, o arejamento e a abertura de espírito necessária à convivência democrática FELIZ. Às vezes tudo isso soava monótono e a única fuga era a prática hedonista dos esportes: o único momento em que o silêncio era respeitado não pelo que significava de reflexão, interiorização ou balanço interior, nada disso.
O silêncio, ali, era um apetrecho da atividade narcísica: quando os olhos percorriam regozijados os músculos torneados, as curvas boleadas como o aço e não valia por si mesmo, por seu valor intrínseco. Eu passava a maior parte do tempo na academia para ficar em silêncio e eliminar barriga. Eu comia muitos biscoitos. Tudo isso seria normal se a minha vida não fosse afetada de modo irreversível naquele dia de muitos outros dias em que se pratica as mesmas coisas de todas as vezes, sem alteração alguma do cotidiano e que me tornaria marcado para sempre dali em diante em minha comunidade em que nada fugia ao comum.
Eu voltava da academia e me sentava à mesa da cozinha em minha casa para comer biscoitos. A trivialidade do gesto já me escapava por repeti-lo inúmeras vezes, que despido de importância, se me substituíssem o biscoito ou se acrescentassem escorpiões à lata ou que me sugestionassem comer anchovas tudo daria na mesma coisa. E talvez fosse melhor que uma das coisas descritas ocupasse o lugar do que me aconteceu, porque o extraordinário não era bem-vindo e se o extraordinário viesse seguido de incerteza, bem menos. E se fosse seguido de infelicidade, era o caos.
O caos, meu pai dizia, é um menino segurando um balão de ar vermelho em uma chuva de cometas. O caos, dizia a minha mãe, era um exército tomar a sua cozinha e acampar sob a mesa. O caos, descobriria, era o mundo escorrer entre os meus dedos e eu não saber montá-lo. Mas quem acreditaria que o mundo se desfaria?
3.
Cheguei em casa e meu pai não estava sentado na poltrona para assistir ao noticiário. Estava no banho. Minha mãe, estática na pia da cozinha, limpava peixe. Quando fui abraçá-la esbarrei em seu avental que se desfez em milhões de pequenas peças espalhadas por todo o chão. Caía em cascata. Minha mãe parecia não ter notado o avental desfeito. Milhões de pequenas peças escorriam da cintura e do enlace da vestimenta. Uma delas saltou para pia, intrometendo-se na carne limpa do peixe. Minha mãe suspendeu a tarefa para retirá-la com cuidado – como a uma impureza. Quando me desculpei, ela, com o olhar bondoso, parecia dizer não foi nada.
Meu pai saiu do banho, enrolado em uma tolha. Ao olhar para os seus pés, percebi: estava quadriculado. Sentia fortes dores na sola e passou a massageá-la. Ao realizar o gesto, desprendia-se uma parte ou outra que formavam os dedos. Não dói? , perguntei. Deveria ser um mal passageiro, um problema de pele como as micoses e com tratamento, logo estaria resolvido. À hora do jantar, sentados à mesa, percebíamos uma tensão em nossa conversa. Minha mãe tranquilizou-me, prometendo buscar um médico. Meu pai renovou a promessa e reforçou que aquilo, naquela época do ano, era comum. Não era. Nenhum dos vizinhos tinha pés quadriculados ou roupas que se desfaziam em cascatas de pequenas peças.
O meu pai, para ir ao trabalho, passou a vestir um longo sobretudo que lhe cobria os pés, para não ser importunado pelos colegas dentro do transporte para a firma. Minha mãe tomava um excessivo cuidado para não ter os vestidos desfeitos por um movimento brusco ou por um acidente de percurso. Eu procurava uma explicação para tal acontecimento e não a encontrava. A cozinha, como todas as outras, lentamente se modificava. E não era mais como tantas outras da vizinhança. A minha mãe não era mais igual à mãe dos meus amigos, apesar de bonita e simpática.
O meu pai não era como todos os outros pais. Ele chegava em casa e fechava as cortinas para não ser visto. Chamava de lepra aquela anomalia. Triste, retirava-se mais cedo para o quarto e lá fazia também as refeições. Minha mãe tinha pernas de que se podia orgulhar, no entanto, com a metamorfose, passou a usar saias compridas ou calças jeans. O cabelo não precisava mais ser penteado, os sapatos trocados ou qualquer outra coisa alterada. Os meus pais passaram a me evitar. E logo toda a rua passou a ser como os meus pais e os filhos permaneciam como eram – pareciam divertidos.
À noite, espiei o namoro de meus pais, pela fechadura. Viam-se multiplicadas milhões de peças quadriculadas: encaixavam-se e se desencaixavam ao sabor das emoções experienciadas por ambos. A predominância por peças vermelhas, azuis e amarelas e as inúmeras paisagens formadas por seus esforços amorosos enchiam o quarto de uma poesia única. A minha mãe, na manhã seguinte, irreconhecível, porque parecia desfigurada por um programa de computador para ocultar testemunhas de crimes brutais, dirigiu-se a mim, perguntando o que queria para o café da manhã e instantaneamente transformava-se em um microondas. Segundos depois, avisava que os ovos estavam prontos. Meu pai descia para trabalhar e poderia ser confundido com um quadro cubista. Ele e todos os outros pais que tiveram suas formas alteradas no decorrer da semana do surto. Os médicos não tinham resposta para a epidemia, nem ideia de quanto tempo duraria.
4.
A casa não suportava mais o meu peso. Desfazia-se, quando me apoiava contra os móveis. Eu não dormia mais em minha cama. Acordei várias vezes no piso da sala com fortes dores nas costas por ter caído indefinidamente pelos andares da casa. Minha mãe me servia comida de plástico, montada por aquelas milhões de pecinhas.
Ela e meu pai não encontravam problemas em mastigá-las ou eliminá-las. Eu não suportava mantê-las durante muito tempo na boca e corria para vomitá-las. Todos os meus colegas das casas seguintes pediam pizza e coca-cola para quase todas as refeições. O dinheiro escasseava, porque ninguém mais trabalhava. E os poucos que ainda aventuravam-se, tinham o soldo pago em dinheiro de banco imobiliário, portanto sem nenhum valor. Os meus pais cada vez me reconheciam menos.
Eu não tinha o cheiro, o aspecto ou o rosto deles. Portanto, em suas cabeças, não deveria ser seu filho. Folheava álbuns de fotografia para lembrá-los de quem eu era. Todas as fotografias quadriculadas e ali, entre eles, aquele estranho. A minha mãe, com a voz modificada, sugeriu que me adotassem. O meu pai parecia não achar um negócio direito. O melhor era chamar a polícia e me encaminhar ao juizado de menores. Em cada uma das casas, parado à porta, estava um ônibus das autoridades, confiscando crianças normais de pais quadriculados. Vigiados por policiais, que se desfaziam e se refaziam instantaneamente, como se as milhões de pequenas peças fossem organismos vivos e independentes.
A expressão idiotizada não dizia nada a respeito dos sentimentos das autoridades ou dos pais, apenas o gesto de minha mãe encostar a cabeça no que parecia o ombro de meu pai demonstrava a sua consternação. De nenhuma outra maneira ela poderia ser percebida. Quando me despedi dos dois, alisei o rosto de minha mãe que se desfez em minhas mãos como areia, e as suas feições, se assim posso chamá-las, condoídas pela separação, pareciam revelar a verdade a meu respeito.
Entretanto, o cérebro parecia recusar-se a lhe dar crédito sobre o parentesco entre nós, e a natureza, contradita em minhas linhas, provava ser impossível. Aquilo que lhe pareciam os olhos, em misto de dor e de ansiedade, fez que o restante de voz humana escapada de sua garganta, soasse como a palavra filho. Depois se tornou um incompreensível glamerô – para nós que éramos retirados das casas, e levados para campos de concentração em que médicos estudariam a nossa faculdade estacionária.
Os pais de outros colegas olhavam estupidificados do portão para os ônibus lotados e suas mentes de plásticos não alcançavam o motivo de tantos de nós termos invadidos os seus lares e as suas vidas. Por que éramos tão diferentes? Não saberíamos nunca a resposta. Os médicos não trabalhavam mais em cura alguma. Não havia enfermidade. Ou a enfermidade éramos nós com nossas aparências monstruosas: redondas e angulares. A contradição vivida por nós era que a liberdade era fácil; arrebentar-se-ia com facilidade as paredes e se escaparia daquele lugar. Mas para onde se iria? Eu tinha saudades de minha mãe e de meu pai, lembrava de suas feições de areia ou de peças plásticas articuláveis e remontava com pedaços da parede de minha cela os retratos de ambos. Descasquei com tanta severidade a parede que abri espaço para o meu corpo atravessá-la sem dificuldade. Não tinha vontade ou coragem de ir embora. Os planos de fuga eram diversos. Construíam-se aviões, submarinos e outros transportes para se dar o fora e se voltar para aquela rua. Restava a dúvida de que seríamos ou não aceitos e a imobilidade decorrente da dúvida.
O livro é o de estreia na poesia, mas os versos se apresentam encorpados dentro de uma rota em que a linguagem, a subjetividade e o imponderável, da delicadeza à brutalidade, clarificam-se em uma expressão pessoal e em uma estética representativa do que nos é universal e inesgotável em confronto com o que nos é singular e finito e vice-versa. Bífida e outros poemas, de Alexandra Lopes da Cunha, uma das vozes mais originais da nova poesia brasileira contemporânea, concilia, em sua dicção ora coloquial ora sofisticada, a escalada e a queda, não necessariamente nessa ordem, dos sentimentos e das inquietações peculiares a todos os seres humanos, em especial, às mulheres, suas nuances e seus espaços.
O título do livro não é aleatório. Bífida, feminino de bífido, vem do latim bífidu, aquele que está fendido em duas partes, que foi partido ou separado. “Dividida de nascença, / bipartida na origem,” são os versos que abrem o poema que leva o mesmo nome da obra e que serve também como indício, quem sabe porto seguro, da visão de mundo complexa, reflexiva e dialética da autora. Seu pensamento é lúcido, autoconsciente, crítico. Suas emoções, viscerais. Se por um lado, há ponderação, quase meditação, sobre o sentido da vida, por outro, há indisciplina, quase revolta, sobre o desconcerto de estar no mundo.
Os desdobramentos dos poemas, quarenta e nove organizados em ordem alfabética, são diversos. O corpo na multiplicação da vida: “Na nudez do meu útero / acumula-se o pó dos anos.”; as obrigações do narcisismo culturalmente impostas: “Sou mulher sem qualidades / Desqualificam-me os adjetivos / e os advérbios ignoram-me / solenemente.”; e a pulsão sexual em constante combate com as intimidações da sociedade patriarcal: “Penetra meu corpo pelos poros de minha pele, / imprime em minhas retinas tua onipotência.” são três temas recorrentes do mosaico poético inaugurado por uma das questões mais presentes, senão a maior, da humanidade: a morte.
Os três, repetindo-se e reproduzindo-se, funcionam como uma espécie de tripé ou de paradigma social e emocional para as invasões e desenvolvimento dos demais assuntos e para a consumação do todo poético, do mesmo modo, político, filosófico e ideológico, não havendo um maior ou mais impactante. Por detrás das fragmentações e da discreta falta de nitidez, comunicam-se e convergem-se identidades que nos traduzem.
Nada disso, entretanto, nos permite desvendar ou dominar o Bífida e outros poemas. A abrangência e o significado mais profundo de cada poema se ampliam a cada releitura, renovando o campo semântico e as possibilidades de apropriação e de fruição dos leitores. Uma experiência ressignifica a outra e a outra e assim por diante assim como, também, ressignifica a herança literária e cultural das gerações passadas.
Não há citações, mas é possível vislumbrar influências, rastros; é possível estabelecer conexões e diálogos do Bífida e outros poemas com a produção de outras mulheres poetas: Marina Tsvetáieva, “ não serei animal ferido que se / arrasta”; Wislawa Szymborska, “habitualmente, acordo na condição da testemunha atrasada, / com o milagre já consumado”; e Emily Dickinson, certeira com o seu “uma palavra morre / quando falada / alguém dizia. / Eu digo que ela nasce / exatamente / nesse dia”, são alguns exemplos da substância contagiante e libertadora da poesia, que se for de verdade, não há por que duvida, já nasce assim de pé e inteira.
Helena Terra é gaúcha, escritora e ilustradora. Publicou contos, poemas e textos em antologias e revistas literárias e o romance A condição indestrutível de ter sido.
Chegamos à última etapa de celebrações em torno dos 10 anos da revista. Com essa nova leva, vem também a constatação de que 2016 foi um ano repleto de realizações editoriais por parte da Diversos Afins. Apesar da conturbada fase política que acomete o Brasil, situação que contamina todos os demais segmentos por plantar no país um grave clima de desconfiança em torno do papel das instituições, é necessário continuar demarcando posições e trabalhando efetivamente em prol da cultura. Autores e editores das mais diferentes linhagens tornam essa continuidade dos caminhos possível na medida em que enxergam nas suas realizações um motivo de evocação da liberdade de expressão e pensamento. Poder criar e mostrar ao mundo suas produções faz de muitos criadores verdadeiros agentes da democracia, palavra tão questionada ultimamente em nossa continental nação. Todos somos seres políticos nalguma medida, e isso se confirma nas práticas cotidianas. A grande questão que fica é saber se temos um compromisso consistente com a consolidação da democracia, indagando até que ponto ela não representa um conceito vazio ou mero elemento de retórica. Um artista não está desvinculado do seu tempo e dos fatos marcantes constituintes da sociedade em que vive. E se ele pode contribuir com seu ofício para compreender e modificar paradigmas, já é uma outra importante questão que se estabelece. Numa visão mais otimista, todos poderíamos ser componentes ativos de quaisquer tentativas de mudanças nos planos social, político e cultural. Saber como tal processo se daria demanda um outro nível de compreensão que não se esgota nessas breves linhas de um editorial. Prosseguimos aqui com o intuito de revelar aos leitores e apreciadores da literatura e da arte perspectivas de experimentar alternativas de criação. A Leva 115 vem marcada, por exemplo, pela forte carga visual e provocadora dos desenhos de Re, jovem artista plástica que apresenta ao mundo suas inquietudes. Novas veredas poéticas são instauradas através dos versos de JoãoGabriel Pontes, Hanna Halm, Weslley Almeida, Alexandra Lopes da Cunha e Leandro Jardim. São as linhas de Guilherme Preger que trazem à tona as reflexões presentes no documentário “Cinema Novo”, do diretor Eryk Rocha. Numa conversa que mescla literatura e gastronomia, Sérgio Tavares entrevista o escritor e editor Alexandre Staut. “Quando me abriram portas”, livro de poemas de Renato Suttana, é cuidadosamente percorrido pelas leituras de Jorge Elias Neto. Há uma abundância de possibilidades narrativas encerradas nos contos de Helena Terra, Anderson Fonseca e Cristina Judar. Dentro de um valioso processo de inventividade artística, marcado pela cultura popular, “Duas Cidades”, novo disco do grupo BaianaSystem gira nas linhas de Fabrício Brandão. É Carla Carbatti quem promove delicadas incursões em “Vermelho Rupestre”, obra poética de Katyuscia Carvalho. Seguiremos firmes em 2017. Agradecemos a todos os nossos leitores e colaboradores por tornarem sempre especial a nossa jornada. Saudações!
Será um dia a minha morte.
Ou noite, tarde, um instante
cravado, remate em meu tempo,
minhas horas findas, neste momento
até então desconhecido, impreciso,
imprevisto, mas sabido desde sempre.
Será e eu deixarei de ser.
Será e eu calarei o fluxo contínuo
de minhas palavras profusas,
o fluxo pulsante de meu vasto sangue,
o ar exalado será frio, insignificante,
carregará resquícios de mim.
Os meus olhos, que foram outrora
tão bonitos!
Janelas despertas…
Abertas
agora ao nada.
Fechados agora para tudo.
***
PreTérito
Não é. E não somos mais que destroços,
trastes cobertos de ferrugem
e da poeira dos séculos.
Mariposas exaustas
a flutuar
na imobilidade rarefeita
do ar antes da chuva.
Já somos pretérito,
amor morto.
Já somos.
***
Definição
Sou mulher sem qualidades.
Desqualificam-me os adjetivos
e os advérbios ignoram-me,
solenemente.
Substantiva até a medula dos ossos.
Também abstrata, se me convém…
Dos verbos imperativos, mantenho distância.
Prefiro os condicionais, hipotéticos.
Pretéritos? Sempre imperfeitos.
Artigos indefinidos,
pronomes impessoais,
não sou amiga de coletivos.
Só eu, poeta,
em algumas horas do dia.
***
Criador e Criatura
Criaste um demônio
ao pousar em mim teus olhos
escuros de pólvora.
Queimei, incandesci,
desabrochei em primavera antecipada,
rubra flor carnívora,
expectante de ti.
Deste luz a este ser faminto dos teus afetos
e te foste,
irresponsavelmente desavisado,
as mãos nos bolsos, aos lábios,
uma melodia sibilante.
Me fiz em teus olhares,
deste forma ao meu corpo
na dança de tuas mãos,
moldaste-me ao teu gosto
e te foste!
A cria que iluminaste
com o fogo do teu desejo
consome-se,
devora a si mesma,
grita, urra sua dor
de amante órfã.
Por que te foste?
***
Ressaibo
Deixo que descansem as palavras
no dorso úmido de minha língua.
Molhadas na saliva amarga
dissolvem-se, feitas em água
tépida, espessa, algo repugnante.
Devia cuspir o caldo abjeto que tenho à boca,
vomitar as palavras que represo,
que me fecham a garganta,
e causam náuseas.
Ao invés disso, inspiro o ar
pesado de todos os dias.
Insisto e se abre a glote.
Engulo todo o veneno das palavras fermentadas.
O que resta sobre a língua é o ressaibo,
o travo triste de engolir fracassos.
***
Vórtice
Desejei com a ânsia dos amantes
alcançar-te e prender-te nos meus braços.
Servir-te de meu corpo, calabouço,
afogar-te em minha boca, fundo poço,
e prender-te entre as pernas, duplo laço.
Exaurir-te num tempo sem começos.
Em embates intrincados nunca findos
e as tréguas momentâneas eram hiato
a separar o que eu almejava unido.
Amaria assim até a morte,
a tua, por suposto, esgotado.
Entre os meus desejos consumido,
entre os meus abraços acorrentado.
Alexandra Lopes Da Cunha nasceu em Brasília, DF. É formada em Administração de Empresas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e tem mestrado também em Administração pela mesma instituição. Tem dois livros de contos publicados: Amor e Outros Desastres (2013), Vermelho-Goiaba, vencedor do prêmio IEL 60 anos, na categoria autor estreante, e Bífida e outros poemas, pela editora Kazuá, lançado em 2016. Aluna do programa de doutorado em Escrita Criativa da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, onde mora.
desalojavam-se continuamente, suas vulvas em estado crescente, duas luas. permitiam-se pernas, ventriloquismos diversos e endoidecimentos, sob a pena de não darem conta de toda a noite. os desejos, secos, queimavam os ventres livres das senhoras estandartes. navegavam em solo profundo para depois ressurgirem soberanas em mantos de fúcsia e líquen. roucas. em uma rua qualquer da bela vista. que era madame, e também era Satã.
o bar improvisado em uma garagem de frente tocava em looping um CD mequetrefe com a miscelânia: pet shop boys e bauhaus, the cure, cindy lauper e “radio gaga”, do queen, como se tudo isso fosse a mesma coisa. o dono do lugar sempre diz: “é tudo a mesma coisa”. ele ama o tecno brega soante enquanto come o churrasquinho da calçada, ao lado da loja da moça de roupas de renda que tem como freguesas as crentes de bíblias quentes.
mas, voltando ao quarto, revolvendo os tecidos, tudo vazava em encanto, expurgo e esconjuração. uma delas sorvia o próprio batom, o sabor ácido & pastoso, ele, passado nos lábios para que a aparência garantisse o embelezamento aliado ao devido ultrapassar de fronteiras, em instantes ela iria subir por um elevador transparente que trafegava rumo ao alto, tão rápido a ponto de dar vertigem, com luzes roxas e douradas exibidas do lado de fora da caixa acrílica. um top of the rock imaginário, mas, mesmo assim, top of the rock.
esse era o cenário da orgia literária de bocas que dizem mais do que mil livros. quando emudecidas nos instantes preliminares de fortes contrações físicas e comportamentais. tensão e expansão do mundo entre lençóis. arquitetas do universo, ditavam sinfonias astrais como quem não está nem aí.
***
ordem X
Era de rituais e mitos que elas viviam. Os recriavam, os compunham, incluindo e desconstruindo personagens de jornadas virtuosas sem a vergonha de serem autoras suficientemente despreparadas para o negócio. Recitavam suas estórias em descompasso, para ninguém prestar atenção. Seus giros e circumambulações eram purificados com a água de córregos super habitadas por ovas de pequenos insetos que acreditava-se possuírem propriedades reconciliadoras quando grudavam nos fios de cabelo, formando coroas visíveis apenas telescopicamente. Coroas necessárias. As brigas eram frequentes e sempre aconteciam assim que o círculo era desfeito.
Não era para menos, a composição de braços, pernas e cabeças não podia ser mais desconjuntada, eram tantos os membros que subiam e desciam ao som de kalimbas e de um xilofone de brinquedo. Seus pensamentos também não adornavam ideias em comum, eram dotadas de uma consciência infantil, dada a criar cenários fantásticos de vestidos longos e transparentes, perfumados com incenso de patchouli (pogostemon cablim). Adorariam ter um tambor, mas as moedas que angariavam não davam nem para bancar alguns parafusos. De fato, dinheiro era o que menos havia por ali, apenas sêmen seco, excrementos de andorinhas e folhas em abundância. As amoras colhidas em ramos baixinhos tingiam suas unhas mas serviam como alimento. E molhavam seus corpos por dentro.
Com uma receita que levava manteiga, cardamomo, cerveja, uma gota de aguarrás, mel e sódio era possível preparar uma espécie de refeição ritualística com as mesmas amoras, que depois de tantas luas viradas, as mulheres não supunham mais conhecer o sabor – o que, para um estranho que por acaso passasse por ali, poderia parecer até interessante. Esse homem se esconderia atrás de alguns galhos, observando-as com os olhos quase cerrados, até que a celebração acabasse e o alimento da confraternização fosse finalmente liberado. Nesse meio tempo, elas realizariam a dança das estações, simulariam a morte e o renascimento com gestos exagerados e dançariam a Euforia até a contração final. Duas delas cairiam no chão, esmaecidas, corpos em formato de X, circundadas pelas irmãs de sua ordem.
***
Para que servem os atores
A antiguidade tem um cheiro próprio, mais desagradável do que a constatação de que muito tempo já passou. Naquela fantasia, o náilon de tonalidade castor estava grudado como nacos de jaca endurecidos, com aquela sua cola intrínseca e naturalmente eficaz. Tufos das fibras sintéticas carameladas entravam pelas minhas narinas, me fazendo engasgar com suas colônias de fiapos, ácaros coçavam tanto o céu da boca quanto o labirinto auricular e a minha ambição aos pedaços anteriormente embutida, hoje inerte.
Para fugir do autodesprezo e daquela agressividade humana que introjetamos na mente – a fim de obter a dignidade Crística de alguma punição – fingíamos ser macacos coffee & latte. E tentávamos parecer blasés. À nossa frente, a parcela animal da cena era enfatizada pelas patas da cadela de pelos curtos e duros, próprios para espinhar antes a alma do que a pele, ela de coleira com layout fetichista, tachinhas, couro preto e lembranças (dos carinhos e das mãos de pessoas).
“Puxe o rabo deles”, “Compre outro hot dog enquanto observo um pouco mais o animal humano da esquerda”, “Mãe, onde esse bicho se enquadra”, “Ele não olha, mira”, “mais mostarda, please”. Eram essas algumas das vozes e pensamentos que eu pressentia enquanto olhava pra tudo através daquele buraco forjado na pelúcia de forma grosseira, naquele universo passageiro em que o mundo não nasceu quadrado, mas encontrava-se oblíquo e coberto por penugens ruivas aparadas de maneira ordinária.
Pelos 25 dólares, eu finalmente teria o T-Bone e uma Weiss, mas o que eu queria mesmo era comprar um aparelho dentário para Mary Lee. Pena que faltariam mais uns 70 dólares. Eu mentiria que o sorriso dela era belo, portanto.
***
balanço de um rito não muito bem sucedido
Choviam notas xamânicas. Penas dos orixás nos toques redondos.
Plumb, plumb, plumb, para o coração relado.
As chamas coloridas pelos tocos das velas de cento e noventa e quatro dias.
Precipício, crepúsculo, pai Antônio, cobra coral aos pés, e era rápida, listrada ela.
Para comer depois do rito, flores e frutos, água da mina aplacava as visões.
Do suor, a tenda rezada, palavra náusea, plausível, gota, risível, racha.
Mil e uma visões eu ri.
E pulei de astro em pedra, jagunço sem cinta, liga, peguei o carro na estrada miúda, cerrada.
Fui que fui, a cento e oitenta graus por hora arremeti contra o espelho.
No ar, parei no meio, em legítima suspensão Matrix mas sem roupa de látex negro.
A onça pintada virou-me os olhos pra dentro.
De ouro, eles viram pepitas encravadas nas minhas vísceras.
Rico, eu rei.
Raptado, a verdade menti.
Pústulas nas flores murchas, pus.
Pari, parti, patriarcado, proletariado, picto.
Tudo em uma noite, um cocar de luz, aldeia das sete ondas, triste, chefe das sete contas, ralé das boas e aprendiz, com menos 250 reais na carteira, voltei pra São Paulo pela Rodovia Fernão Dias.
Cristina Judar é escritora e jornalista, autora das HQs Lina (Editora Estação Liberdade) e Vermelho, Vivo (Devir), ganhadoras do ProAc de HQ em 2009 e 2011. Seu livro de contos “Roteiros para uma vida curta” (Editora Reformatório) recebeu Menção Honrosa no Prêmio SESC de Literatura 2014. Em 2015, durante uma residência artística com foco em literatura na Queen Mary University of London, deu origem ao projeto autoral “Questions for a Live Writing”. Atualmente, está em fase de finalização do seu primeiro romance, “Oito do sete”, contemplado pelo ProAc de Literatura em 2014. É uma das editoras da revista eletrônica de cultura LGBT “Reversa Magazine”.
Cinema Novo de Eryk Rocha se colocou a difícil tarefa de trazer às telas de cinema contemporâneas a potência expressiva das imagens do que se convencionou chamar de Cinema Novo. E a primeira justiça que temos de lhe fazer é que conseguiu ter êxito nessa tarefa. E, no entanto, dizer isso não basta para a sua justiça. Só podemos ser fiéis a esse filme se formos capazes de compreender de onde vem essa potência estética.
Ensaio poético e trabalho de arqueologia visual, segundo seu diretor, o filme é sobretudo uma seleção luminosa de imagens do movimento cinematográfico. Não há didatismo algum nas referências e quase nenhuma explicação narrativa que dê coesão a seu roteiro. Apenas “explodem” na tela as cenas exemplares de muitos filmes e entrevistas com alguns diretores, gravadas na mesma época em que realizavam suas produções. E essa foi, com certeza, uma boa decisão estética, pois acompanhamos a energia vibrante de diretores como Cacá Diegues, Glauber, Leon Hirzmann e Joaquim Pedro de Andrade trabalhando conceitualmente suas próprias imagens, mostrando que Cinema Novo foi muito mais do que produção de rolos de película. Foi também movimento de ideias, exatamente aquilo que o filósofo Gilles Deleuze denominou de imagem-pensamento.
No único trecho explicativo do filme, durante a cartela de abertura, o Cinema Novo é tratado como um movimento de diretores que com ideias na cabeça queriam trazer novas imagens do Brasil. Mas essas novas imagens não deveriam ser apenas a representação de um país que existiria na cabeça desses cineastas. A potência de suas imagens estava diretamente ligada a uma recusa da ideia de representação. Não era simplesmente uma ideia de trazer à superfície o “Brasil profundo”, postura fatalmente idealista. Era mostrar que já na superfície havia profundidade.
As câmeras captavam as imagens reais do Brasil em sua constituição fragmentária e não sua tradução como um mapa integral da nação. Não era o Brasil em sua totalidade, mas o Brasil em sua diversidade que só podia ser captado através do “transe”, lembrando o filme emblemático de Glauber. Como um movimento de imagens vibrantes. As câmeras não traziam assim uma representação de segunda mão, mas imagens que eram ainda mais verdadeiras do que as cenas que aconteciam fora do enquadramento, como conformadas ideologicamente. Assim, nas primeiras imagens de Cinema Novo, vemos uma série de cenas de personagens em corridas desabaladas e ofegantes. O que querem insinuar essas imagens? Que o país corria contra o atraso do subdesenvolvimentismo? Era exatamente contra essa ideia de atraso que se voltavam os diretores-intelectuais. As imagens de personagens correndo, na verdade, atestam a urgência do movimento. Não é como se a câmera corresse atrás de um suposto Brasil que lhe fugia, mas, ao contrário, são os próprios personagens, brasileiros, correndo em direção à câmera para alcançar afinal a sua verdadeira figura, como se fossem os portadores de um desejo por imagens intensamente prenhes de historicidade.
Cena de Cinema Novo / Foto: divulgação
Uma insistente afirmação dos cineastas é que o Cinema Novo foi também uma revolução tecnológica, com a introdução de equipamentos mais leves e o uso direto do som e da luz. Assim, se produziu uma indeterminação de fronteiras, entre documentário e ficção. Da câmera passava-se diretamente para o tecido da realidade, como se o foco cinematográfico guiasse a visão para o olhar renovado. Ver o Brasil sem as falsas lentes colonizadas do subdesenvolvimento só se tornava possível após uma reeducação do olhar pelas lentes do Cinema Novo.
Como disse seu autor, Eryk, numa entrevista, sua intenção foi evitar realizar um retrato nostálgico do movimento, mas arrancar sua urgência e a mensagem que os filmes trazem ao Brasil contemporâneo. A coexistência do Cinema Novo com o golpe de 64 e com a ditadura militar se encontra subitamente em correlação com a posição do espectador contemporâneo e sua vivência confusa do Golpe de 2016. Como diz o diretor Glauber Rocha, numa das cenas em off, o golpe de 1964 de início visava, segundo as elites, construir um regime “liberal-fascista”, mas depois descambou para o militarismo. Não há nessa fala a sugestão de uma sutil ligação entre os cenários de 1964 e 2016, como se situação atual fosse a realização tanto tempo reprimida pelas elites de perpetrarem um regime fascista sem os militares? Assim, da mesma forma como durante a ditadura militar era necessário mudar a relação do olhar com o país, atualmente também é necessário um olhar mais “arqueológico” para enxergar o que muitas vezes está dado na própria superfície, mas permanece obscuro à visão desatenta. O contraste entre a figuralidade profusa, diversa e vertiginosa do povo e o retrato audiovisual mistificador das grandes mídias esclerosadas não pode ser mais radical. O Cinema é Novo.
O único registro melancólico desse filme poético e intenso transparece com a avaliação dos cineastas de que o povo se mantinha alheio, entretanto, àquela revolução estética, pois os filmes não chegavam afinal às salas de cinema. Talvez o que faltou ao filme de Eryk foi fazer a relação díspar entre revolução estética cinenovista e a hegemonia do modo audiovisual televisivo que iria impor padrões sobre a percepção visual popular nesses últimos 50 anos. Como muitas revoluções de nossos tempos, também o Cinema Novo foi uma revolução não televisionada.
Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor. É autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Ed. Oito e Meio/2014), e um dos organizadores do coletivo literário Clube da Leitura no Rio de Janeiro, tendo participado como autor e editor das três coletâneas lançadas pelo grupo. Atualmente, é doutorando em Teoria Literária da UERJ, onde realiza pesquisa sobre a aproximação entre Literatura e Ciência. Escreve sobre cinema desde 1995, quando recebeu um prêmio de crítica literária do Grupo Estação e do Jornal do Brasil num ensaio sobre o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.