Cidades são muito mais do que aglomerados de pessoas e espaços demarcados. Nelas, pululam vozes, pensamentos e manifestações conscientes de que há possibilidades diversas de representação em meio ao tecido social multifacetado. Afinal, cada recanto é porta-voz de peculiaridades por vezes ocultas diante de todo o aparato dos centros hegemônicos de poder, os quais insistem em cobrir com um manto de invisibilidade tudo o que contrarie suas agendas controladoras.
Quando as epifanias da periferia resistem, muitas alternativas podem surgir dessa atitude afirmativa. A melhor delas está no fato de que os apelos da cultura popular, tradicionalmente posta à margem por alguns, evidenciam a consolidação de espaços próprios, irradiando para outros centros a genuína pulsão de suas expressões. No eixo que aglutina pensamento, criação e atividade, a periferia das cidades agrega muito mais do que uma retrógrada noção de atraso sócio-econômico.
Sem dúvida, o contexto da arte é uma verdadeira mola propulsora no quesito de superação de certos anacronismos e distorções. O resultado é positivo na medida em que a periferia rejeita o discurso da vitimização e põe à mesa reflexões sobre a sua capacidade de pensar não somente as questões de seu entorno, mas também as de um contexto maior, o mundo. É justamente esse tipo de sentimento que emana de trabalhos como os do BaianaSystem, verdadeiro agrupamento de criadores imbuídos de expressar seus modos de conceber a vida.
Para entender o trabalho dessa junção de músicos baianos é preciso sondar suas origens e influências. O ponto de partida vem da rua, da vivência com o movimento do sound system perpetrado nos bairros afastados de Salvador. Capitaneada pelo coletivo Ministéreo Público, a experiência consistia em levar àquelas localidades toda uma dinâmica de som de rua, com caixas potentes que reproduziam basicamente reggae e disco, ação fortemente derivada da cultura musical jamaicana.
É justamente desse poder sonoro, e também discursivo, o qual emana dos espaços públicos externos, que ganha corpo o projeto do BaianaSystem. Num misto de samba-reggae, salsa, bases eletrônicas, ijexá, Kuduru e pagode, dentre outros elementos, o grupo constrói sua identidade pluralizada tanto no plano musical quanto no plano das letras.
Segundo disco da banda, Duas Cidades foi um álbum que nasceu de um processo inverso de concepção, pois partiu das ruas e shows para o estúdio, num caminho que fugiu do fluxo natural das realizações fonográficas, trazendo dos ecos do público e do cotidiano uma consistente base para sua criação.
BaianaSystem / Foto: divulgação
Transitando por elementos vocais e percussivos, DJ’s, e marcado especialmente por uma virtuosa utilização da guitarra baiana, o disco carrega um sentimento caracterizado pela cartografia urbana das identidades, evocando em suas letras questões que refletem sobre aspectos críticos do modo pelo qual vivemos como sociedade.
Logo na abertura, deparamo-nos com a mensagem clara e direta de Jah Jah Revolta – Parte 2, canção que exalta as consequências naturais das ações semeadas no convívio com nossos iguais. Em Lucro (Descomprimindo), desponta um momento especial do disco, tempo de pensar o espaço urbano como um verdadeiro palco de nossas contradições, principalmente quando os avanços derivados da ferocidade capitalista interferem tanto na paisagem quanto no modo como os habitantes se percebem num contexto sociológico.
É na faixa Duas Cidades que o espírito representativo do disco se traduz com vigor. Diz em que cidade que você se encaixa? Cidade Alta/Cidade Baixa? é a pergunta que flutua por toda a canção carro-chefe do álbum, clamando por uma resposta que signifique o ato de assumir papéis por parte de quem divide os espaços físicos. Quiçá ela possa ser entendida também como um vivo jogo de expor idiossincrasias que ora apresentam diferenças gritantes, ora tendem a se aproximar de algum modo. De qualquer maneira, a luta pessoal dos indivíduos, guardadas as devidas divisões sociais, econômicas e culturais, é capaz de traçar uma cara para a referenciada metrópole.
Enquanto Playsom aposta em todo peso sonoro característico de uma ambiência jamaicana, Panela mostra, por sua vez, a atmosfera típica da gênese do carnaval da Bahia, enaltecendo a condução precisa da guitarra baiana, grande matriz do trio elétrico.
Como se não bastasse a potência vocal e interpretativa de RussoPassapusso, a guitarra baiana de Roberto Barreto, o baixo de SekoBass, a guitarra de Junix, a percussão de Japa System e as atuações dos DJ’s João Meirelles e Mahal Pitta, o novo álbum do BaianaSystem recebeu toda a atenta condução do talentoso Daniel Ganjaman, produtor que traz em sua bagagem trabalhos com artistas do quilate de Sabotage, Criolo, Planet Hemp e Emicida, dentre outros mais.
Duas Cidades é a consolidação de uma trajetória que, partindo das ruas, becos e vielas, amplifica a visibilidade necessária de frentes valiosas da cultura popular. No momento em que impulsiona recortes identitários e bem representativos de mundo, deixando de lado obviedades panfletárias, consegue seu resultado maior: fazer da música um instrumento de percepções que vão além do nosso umbigo. Por certo, ainda ouviremos falar muito dessa força sonora chamada BaianaSystem. É vida que segue, arte dançante que ecoa.
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.
Enxerga a flor
com toda tua retina.
Apalpe-a
com toda pálpebra tua.
Assiste – nas pupilas –
todo o seu desabrochar.
Pois não se sabe quando
a cegueira da candura anoitece.
Nem
se em fruto a
manhã será.
***
INAUGURAL
Há-me um paladar
de fascínio inaugural
pelos abismos, rotas de dentro
pela nova ciranda: dança de redemoinhos
movendo-se em espiral
nos tantos brotos tormentos
da aurora
e do ocaso (que é dia-noite a dentro):
plúmbeo lábio de cima
beijando
o outro baixo ocre
lábio feito.
***
URBICÍDIO
A cidade é um templo:
arranha-céus.
A idade
nela
é um tempo
átimo veloz.
O zumbido dos carros
(catarros)
é o mesmo zumbido de dentro.
Para onde, …….anônimos, ………..antônimos ……………perdidos corremos?
Para onde
os assombros
escombros
destinos que havemos.
***
PASTAGENS
para Alberto Caeiro
Cada poema
é um rebanho …….berro de palavras
pasmo essencial
a sintaxe das emoções
a semântica do intelecto
descendo o olhar por flores
em novilhos de versos
e lã
grudada em carne
o súbito relâmpago relance
voo (insight de aves)
onde se cruzam os cantos
trôpegos pensamentos:
fluxos de pastagens.
***
NA CASA DOS MEUS TRINTA ANOS
Na casa dos meus trinta anos
concebi o tempo
por furacões
cada átimo
encarnava-se-me veloz
e passei a alijar superficialidades
aglomerar o intenso
por paladar de flor
e entrâncias de espinho
pegando o travo e o doce
por dentro
sabendo
como o limo sabe da pedra
no grude gesto ……..do tempo.
***
A TRAMA DO BORDADO
Olhares sobre o tear inacabado
a guerra sem fim inconsumida
Penélope e seus dedos finos falhos
Ulisses e o retorno: e ainda
Ainda a Tróia maldita distante
e a solidão no novelo em Ítaca.
Ainda o flerte dos interessados
o cavalo que vai — e que fica
O arco duro, tão rígido
só quem o deixou
pode bem a(r)má-lo
E como flecha
pelos machados
a trama do bordado se finda.
Weslley Almeida nasceu em Feira de Santana, Bahia. É poeta, compositor, e formado em Letras pela UEFS. Atua como colaborador e revisor do Jornal Fuxico (do Núcleo de Investigações Transdisciplinares – NIT/UEFS). Os poemas aqui publicados integram seu livro de estreia, “Memórias Fósseis” (Editus), vencedor do Prêmio Sosígenes Costa de Poesia 2016.
O pequeno estava com fome, muita fome. Havia dias que não comia nem bebia. A boca era o deserto com rachaduras nas extremidades, de algumas emanavam fios de sangue. Mas o pequeno não chorava. Não gemia. Emudecido fechara-se num ovo. O sol castigara suas costas. O ovo rachou. As cascas uma a uma caíram. O pequeno lembrava um feto mal formado. Um urubu o viu e bicou seus olhos, depois seu estômago, depois chamou os outros que fizeram o mesmo. O que restou? O desenho do pequeno na terra.
***
À beira de um edifício, em pé, uma menina olha o horizonte. Atrás dela, alguém diz: – Você vai pular?
– Não.
– Seu pai pulou, sua mãe e seu irmão também. Você vai pular?
– Não.
– Olhe para trás.
Ela olhou e viu uma multidão enfileirada.
– Eles aguardam a vez.
Um velho lá do fundo gritou: – Pule menina!
– Não posso. Não quero perder a visão do horizonte.
A voz então lhe disse ao pé do ouvido: – Feche os olhos. É igual.
E a empurrou.
***
A garotinha estava brincando com o urso e um gatinho de pelúcia. Os dois bichinhos dialogavam.
– Como foi seu dia? – perguntou o urso.
– Foi bom, muito bom. – respondeu o gatinho.
– Me conte o que aconteceu. – suplicou o urso.
– Eu estava passando em meio aos escombros dos prédios, quando vi um buquê de flores. Elas começavam a murchar. Corri para pegar ao menos uma rosa e cheirá-la. Assim que me aproximei, agachei, estendi a mão. Mas era difícil puxá-la, algo a segurava com muita força. Então fiz força também para arrancá-la. Dei tudo de mim, até que a rosa veio, mas um líquido vermelho escorria do caule, um líquido espesso. Abaixei para ver de onde veio a rosa. Olhei através dos escombros. Uma mulher tinha os punhos cerrados em torno do buquê. Era um sinal de amor que a bomba tornou em morte. E como foi o seu?
– Ontem à noite… – disse o urso. – Sai à procura de uma estrela cadente. Ouvi dizer que elas realizam nosso desejo. Basta olhar para elas e pedir. Eu estava com sorte. Depois que me sentei em cima de uma pedra e levantei os olhos, dezenas de estrelas atravessaram o céu. E aí eu sussurrei, “Quero estar ao lado de um amigo, porque sozinho é difícil superar o mal da guerra”. E agora estou com você.
Ao lado da garotinha dormiam seus pais.
***
– O que você fez com suas mãos? – perguntou o soldado à menina.
– Folheava um livro.
– Livro? Diga o nome.
As mãos dela estavam sobre a mesa.
– O sol é para todos.
– Repita.
– O sol é para todos.
– Diga mais uma vez.
– O sol é… – antes de terminar a frase, o soldado desceu a lâmina sobre as mãos dela.
– O sol é dos que o conquistam. – encerrou o soldado.
***
Quando Omran acordou, viu que as cinzas ainda estavam sobre ele. Quando tocou a própria face, sentiu-a manchada de sangue. Quando perguntou sobre seus pais, não ouviu resposta. Quando o silêncio cortou o ar, uma lágrima desceu.
Anderson Fonseca, 35 anos, é autor dos livros de contos “Sr. Bergier & outras histórias” e “O que eu disse ao general” – o primeiro de uma trilogia sobre a guerra e a política. Os contos aqui publicados fazem parte do seu próximo livro, “Crianças deitadas jamais se levantam”, obra que é a segunda da trilogia.
Essa palavra que me estrangula ………………………..As pernas
É generosa apenas …………………….com as ideias
E a distância que nos separa ……………………Um passo
É mais próxima do que um …………………………Aceno
Mais distante do que um …………………………Abraço
Mas eram ideias os braços (lembra?) …………….Que nos enlaçavam
O desvelar mútuo ……………………Da linguagem
Que é também linha ……………………E tece
Me aconteceu de bordar …………………..Vestir
A roupa que palavras suas …………………..Costuraram
Coberto delas então encaro ………………….O reflexo
Nada mais é do que o meu reverso ………………….Obstáculo
É quando você me vai ………………….Despeço
***
A pequena semente infinita
A semente
Tão pequena é
E leva por dentro
A vida
A vida
Também tão pequena
E guarda no centro
O infinito
O infinito
Com tudo contido
É, ainda assim,
Invisível
***
desaconselha-se
vai girando
a vela e leva
de bom grado
o vento
vai graduando
a fala (e leva)
sem tanto crer
o argumento
e aumentando
a idade caia
a fé e faça
por onde um dia
te alcance crua
a companhia
inútil e grave
de alguma graça
***
Tudo se mexe
Tudo se mexe
Ao redor da sala
E no centro
Eu me sento
Tudo ao redor da sala
Sou eu sentado
E esse movimento
Que diviso por dentro
A criança cruza
O cachorro salta
É a televisão
Verborrágica
O silêncio canta
E descreve o mundo
A lápis no verso
De um formulário velho
Catalogado, o ser
É as frases no inventário
Do que vê a sitiá-lo
A mesa esquiva e eu
Um tapete movediço e
Esta porta uma boca afoita
Que me chama de verdade
Imaginária e inventada até
***
Engarrafado
Engarrafado
Como o trânsito
O álcool
Não do carro
Ou do ônibus
Que ele toma
Pela manhã
A caminho do trabalho
***
Ilusão de crítica
O homem que parecia (de pé)
um certo crítico (no balcão)
literário (bebia algum trago).
Seu olhar pesaroso (fixo)
e uma pobreza excessiva (na roupagem)
que o denunciava (mais um)
um engano (meu).
(E eu sem meus originais à mão,
ainda pensei)
Acenamos um brinde, afinal,
à distância.
Leandro Jardim publicou a novela “A Angústia da Relevância” (2016), “Peomas” (2014) e o livro de contos “Rubores” (2012), todos pela Editora Oito e Meio, “Os poemas que não gostamos de nossos poetas preferidos” (Orpheu, 2010) e “Todas as vozes cantam” (7Letras, 2008). Possui contos publicados nas antologias “Veredas – panorama do conto contemporâneo”, “Para Copacabana, com amor”, entre outras. Em parceria musical com Rafael Gryner, lançou os EP’s “O Sonhador” (2014) e “Sementes musicais para um mundo cibernético” (2011).
Latejos vermelhos das rochas: o delicado e selvagem exercício do desvio
Por Carla Carbatti
O que buscamos num livro é a maneira pela qual ele faz passar alguma coisa que escapa aos códigos
G. Deleuze
Segundo Lucrécio, os átomos se movem para baixo através do vazio e pelo seu próprio peso. Em nenhum lugar ou tempo fixo eles se desviam e se chocam com outros átomos formando novos corpos, novos mundos. Não fosse isso eles cairiam nas profundezas do vazio como gotículas de chuva e não haveria nada. Em outras palavras, tudo que vive é uma desviação.
Também a linguagem, para Blanchot, só é possível no movimento de desvio. Diz o autor que ali onde tudo é indeciso (e onde não o é?), não se pode viver mais do que em um perpétuo desvio, pois ater-se a algo suporia que há algo determinado a que se ater. Seria retirar da vida sua imanência e condená-la a uma finalidade. Essa é nossa fragilidade e potência: a vida, força infinita, não se significa, não se explica, vive-se. É preciso, então, dizer, que a escrita viva é aquela que desliza, declina e se desloca.
Katyuscia Carvalho, no seu maravilhoso poemário Vermelho Rupestre (Ed. Patuá), já na capa, numa epígrafe, inicia sua incapturável dança com a vida: “preciso ouvir alto quando falas com essa tua voz rente às estrelas”. A voz, foz, a vida roça com o brilho fascinante desse astro morto, retumba, faz a curva e escapa. Entrar no seu livro é uma espécie de tateamento em uma caverna de Lascaux, onde o grito vermelho das rochas se desprega como que “escapado da fogueira”, “desgarrado do corpo”. Caverna que é o símbolo da origem, do nascimento, do útero. Mas, vejam bem, como em Clarice Lispector, seu texto está “ferido de vida breve”. A caverna, como lugar de re-nascimento, não seria mais do que um potencializador do “instante já”, “um calafrio na pedra” que propaga não a palavra original, mas suas infinitas reverberações. Corpo-corpus-copulamento: os latejos das rochas produzem signos vermelhos que transbordam a margem linguagem no delicado e selvagem exercício de tocar a vida. Vida amorosa, vida política, portanto, vida indomável. É possível que, o amor e a política, sejam as duas linhas de forças mais potentes da sua escrita. Não o Amor ou a Política, Instituições, mas amor e política criação de uma nova cartografia para a vida: ”habito o corpo de outra terra mas sinto o pulso e o peso do meu continente e recito uma encantação clandestina.” Seu texto em momento algum é fundação, ainda que dialogue com as vozes ancestrais das índias, dos índios, com o nome materno, com os tambores negros, com as “raízes do céu”, seu movimento mais poético, mais político e amoroso é o desvio, “sons de buraco”, “fissura no vento”, “pedras caindo”, “tanger de chuva”, linhas de fugas traçadas, em vermelho rupestre, disparos de novos problemas para errar em outras rotas, vibrações do verso que estremece e abre novas vias: passagens de vida.
“(…) Eu que me amparo em madeira que range”
Vermelho Rupestre é esse lugar de desorientação e encontro. Um ângulo mínimo de formação de um torvelinho: uma turbulência, “uma dança extraviada”. A agitação mesma naquilo que não se assenta, que sedenta, não sedia, experimenta as forças incolonizáveis das palavras, como “um pássaro insano abrindo fissuras na carne do céu”.
Carla Carbatti é mineira, das montanhas, do mar, nômade. Doutoranda em Estudos da Literatura e da Cultura pela Universidade de Santiago de Compostela. Poeteira comtodos os átomos, possui moléculas poéticas ligadas à Subversa, Zunái, Germina, Alagunas, Mallarmagens, Diversos Afins, Escritoras Suicidas, Contratiempo, etc., à Antologia RelevO 5 anos, ao ESCRIPTONITA: pop-esia, mitologia-remix& super-heróis de gibi e agrupadas no livro autoral “Na Cadência do Caos”, editado pela Urutau.
A relação do escritor Alexandre Staut com a França não tem início com a literatura. Nasce da memória afetiva de “O garoto selvagem”, longa dirigido por François Truffaut, que assistiu, pela primeira vez, numa madrugada dos anos 80, na célebre Sessão Coruja. Na história, um menino achado na floresta é preso e levado para um vilarejo, onde passa a viver sob os cuidados de um médico. Aparentemente surda-muda, a criança reage à presença alheia com grunhidos, logo sendo tratada, pelos locais, como um animal de entretenimento. A missão do médico é justamente estancar essa bestialidade e incutir no menino o comportamento civilizado, através do exercício repetitivo da comunicação. O que ele resiste, a princípio, em fugas de retorno à natureza, até que a força da razão o domestica para a sociedade.
Foi a lembrança do filme de 1970 a primeira imagem que ocorreu a Staut, ao descer na estação de L’Aber Wrach, um vilarejo francês a oeste do país. Ele se percebeu um selvagem ali, no sentido de desconhecer os costumes, o comportamento e, sobretudo, a língua nativa. Passava o ano de 2002, e o então jornalista tinha viajado à França a convite do amigo Yann Danjou, que estava prestes a abrir um restaurante. Staut e Danjou haviam se conhecido, alguns anos antes, em Londres, onde o brasileiro viveu um período, e passou de lavador de pratos a ajudante de cozinha em restaurantes refinados. Foi ali que aprendeu a cozinhar bem.
A proposta, então, era usar essa experiência no modesto restaurante na cidade litorânea de Brest. O desdobrar dos fatos é o que movimenta a trama de “Paris-Brest”, publicação recente de Staut. Misto de romance de formação e diário de viagem, o livro apresenta, de maneira muito original, o gênero da auto-ficção. O autor manipula, com perícia e envolvimento, as próprias memórias a favor de uma narrativa que reconstitui o passado no adesivo de expressões artísticas: a música, a literatura e, predominantemente, a gastronomia. Prova disso é que muitas iguarias são descritas em seus modos de preparo, revelando outra característica do livro: ser também um volume de receitas.
Acima dessa estrutura compósita, porém, flui um texto coeso, um relato íntimo marcado pela sensação de não pertencimento ao mesmo tempo que por uma gana de que as coisas deem certo, mesmo que tudo aponte para o fracasso. A cozinha do restaurante é seu pináculo particular, de onde enxerga o Brasil através de pratos típicos que encantam os franceses, a exemplo do frango a passarinho e da indefectível coxinha, mas também onde orbitam suas frustrações, seus anseios e suas saídas; é onde se dá conta de que, de omeletes a terrine de foie gras de ganso, a arte da culinária não consegue sobrepor, em si, a arte da escrita.
Em entrevista de opiniões diretas e reveladoras, Staut refaz os passos que o levaram até o romance, partindo da própria literatura para debater sobre o meio e o mercado literário. Criador e editor da conceituada São Paulo Review, seu olhar agudo descortina a realidade brasileira de livros e de autores que, inexplicavelmente, está mais clara para os franceses que para nós mesmos. Educação, literatura de gênero, festivais. Uma ficção que tem o tamanho da própria altura. “Sou um sujeito triste que escreve para tentar ser feliz”.
Alexandre Staut / Foto: Giuliana Nogueira
DA – O seu novo livro tem uma concepção, digamos, sui generis. Há momentos em que é um diário de viagem; noutros, um livro de receitas; e, de maneira geral, um romance de formação. Entre a memória e o processo de composição, qual foi o ponto de partida para escrevê-lo? E como fez para trabalhar com esses três gêneros bem distintos num único texto, sem que a narrativa perdesse a coesão?
ALEXANDRE STAUT – Inicialmente, cinco anos após voltar da França para o Brasil, tentei escrever um romance em que um personagem de um país distante e não identificado chega numa pequena comunidade francesa, longe dos grandes centros culturais do país. O mote tinha a ver com minha viagem, mas principalmente com o filme “O garoto selvagem”, de Truffaut, um filme que amo e que assisti a diversas vezes, desde os anos 80, na Sessão Coruja, da TV, em DVD e num cinema obscuro de Paris. Passei uns dois anos com essa história, mas o livro estava emperrado. Quando já estava quase desistindo, meu amigo Yann (que me levou para a experiência na França, e para quem “Paris-Brest” é dedicado), disse que eu devia escrever sobre minha experiência de vida em L’Aber Wrach, cidadela ao lado de Brest, o primeiro lugar onde morei na França. Porém ainda demorei uns anos para começar a escrita do livro. Morei lá entre 2002 e 2006. Parece que precisava esperar a história decantar de alguma maneira, para que eu conseguisse observar o colosso de coisas que vivi como imigrante no país de uma forma pouco sentimental, com olhar crítico, ora engraçado. Às vezes é engraçado e patético ser estrangeiro num lugar. Me lembro que, já há um bom tempo no lugar, numa mesa de refeição, uma senhora me pediu para passar a baguete. Disse que eu tinha “braços longos”. Como em francês, vezenquando, uma palavra se junta a outra, na hora da fala, não entendi o que queria dizer quando falou “bras longs” (pronúncia: “bralon”). Perguntei o que queria e percebi que meu francês não era tão bom quanto achava que era (risos). Mas voltando à criação do livro em si, houve um dia, dez anos após minha volta, em que acordei e percebi que tinha uma história pronta. Ainda não sabia que o livro ia ser uma mistura de romance de formação, livro de receitas e diário de viagem, algo talvez novo na literatura contemporânea brasileira. Quando estava perto dos dez mil caracteres escritos, percebi que tinha um romance para resolver, nas mãos.
DA – É incrível esse tempo de maturação e, sobretudo, como você bem transferiu uma estadia, que durou anos, de maneira condensada para o livro. O que me leva a pensar sobre a integridade dessas memórias. Durante esse período, você teve algum diário onde anotava sobre os dias, e que serviu de fonte para o romance? Ou foi mesmo um esforço de percorrer essas lembranças, revisitar os lugares, rever as pessoas, sentir os cheiros e os gostos dessa época? A mesma pergunta serve para as receitas. As tinha anotado num caderno ou as escreveu de cabeça? Precisou consultar ou falar com algumas das pessoas daquele tempo?
ALEXANDRE STAUT – Quando Anita Deak, editora do livro, preparava os originais, surgiu a questão sobre os possíveis diários. Ela queria lê-los, talvez publicar parte deles com minha caligrafia. Mas nunca os fiz. Adoro ler diários de escritores, mas nunca escrevi uma linha, a não ser diários terapêuticos, que nunca virão a público (risos). Gosto dos diários da Virginia Woolf, do Lúcio Cardoso, são tantos… Acontece que o período em que vivi na França sempre foi muito presente na minha vida. Quase todos os dias, antes da publicação deste livro, lembrava-me de flashes de memórias, histórias truncadas. Para escrever o livro, quando não conseguia seguir adiante, acionava o trabalho do escritor de ficção que sou, sem me importar muito com a fidelidade dos fatos. Há inclusive alguns nomes trocados no livro, para que assim não comprometesse moralmente pessoas que cruzaram meu caminho na França. “Paris-Brest” é um livro de auto-ficção. É um gênero que gosto. Acabo de ler um livro alucinante da Delphine de Vigan, que se chama “Baseado em fatos reais”. Indico! Sou leitor de auto-ficção, gosto dos livros do Ricardo Lísias e do Julián Fuks, que exploram essa literatura. Falando sobre cheiros, sabores, lembranças, algumas pessoas acham que sou um dândi… faço banquetes para os amigos, participo de festas literárias, criei um site de literatura importante no Brasil (São Paulo Review), escrevo ficção, faço críticas gastronômicas, atuo como ator em peças de teatro e no cinema. Talvez Proust seja a inspiração mais real para este livro… a tiazona dândi mais poderosa que já existiu. Falo dele algumas vezes no texto, cito as suas madeleines, dou a receita original do doce. Bem, queria fazer um livro que despertasse sensações. Por isso, exploro bastante as receitas, o cheiro das feiras livres. Sem contar que de uma receitinha todo mundo gosta. Quando resolvi inseri-las no livro, testei cada uma. Mas minhas receitas não têm medidas certas. Uso punhados, faço medidas na concha da mão. Uma coisa meio bruxo… que sou (risos).
DA – Sim. As referências literárias e as musicais são um tempero à parte no livro, se me permite o trocadilho (risos). Mas já falamos sobre isso. Queria voltar a um momento que é descrito meio en passant, logo no começo, que é sua temporada em Londres, a qual precede os anos na França. Como se encaixa esse tempo em território inglês com sua formação de jornalista, já que viajou para Brest depois de trabalhar um tempo em redações no Brasil, escrevendo sobre gastronomia? Foi em Londres que aprendeu a cozinhar, não? E lá também que conheceu o Yann, um personagem sem o qual o romance não existiria. Como se deu esse encontro?
ALEXANDRE STAUT – Cozinho desde criança. Minha tia Lia fazia bolos de festa. Eu ficava vendo aquele capricho todo. Aos 11 anos, quando queria comer bolo, não pedia para minha mãe. Ia para a cozinha e fazia. Meu pai, que morreu quando eu tinha sete anos, era um grande cozinheiro. Todos os domingos ia para a cozinha, eu acordava com a casa cheirando feijoada, dobradinha. Ele gostava de receber parentes e amigos. Era festeiro. Herdei isso dele. Falo sobre minha família paterna, que é mezzo italiano, mezza judia, e sua relação com a cozinha e a música, no meu primeiro romance, “Jazz band na sala da gente”, de 2010. A Inglaterra aconteceu na minha vida em 1998. Trabalhava num jornal de São Paulo e, ao ser demitido, uma amiga jornalista, Ana Paiva, sugeriu que eu fosse para lá me tratar de tanto álcool e balada. Lá, bebi mais ainda (risos). Mas comecei a trabalhar em cozinhas de hotéis bacanas. Conheci Yann Danjou num desses hotéis e foi identificação à primeira vista. Ou paixão. Uma semana depois, morávamos juntos. Yann foi (e é) meu amor, amigo, irmão, pai, namorado, confidente. Uma amizade que resistiu a três países (moramos juntos na Inglaterra, Brasil, França e depois Brasil, mais uma vez) e a muitas cidades. “Paris-Brest” foi escrito de presente para ele, não é só um livro dedicado ao Yann, é um livro escrito para ele, uma forma de agradecer tanta coisa que vivemos juntos. Hoje, ele mora na França e eu no Brasil, mas nos falamos quase todos os dias. Rimos e choramos muitas vezes juntos. Na mesma semana em que o conheci, em Londres, tive a notícia do suicídio do meu irmão, de vinte e poucos anos, no Brasil. Nunca me esqueço da tarde em que liguei para minha mãe, de uma cabine na Bayswater Road, e recebi a notícia. Sentei no chão da cabine e desmontei. Desliguei o telefone e liguei imediatamente para Yann, que foi me encontrar debaixo de uma árvore no Hyde Park. Chorei até anoitecer e o Yann ficou ao meu lado, calado. Nunca me esqueço dessa árvore. Passava ali depois e via que essa era a árvore da infelicidade. Até hoje essa é a árvore da infelicidade. Achava no suicídio algo chique, via atitude… Ana Cristina Cesar e companhia. Isso até acontecer dentro da minha casa. Enfim, nesse momento, grudei no Yann. Uns meses depois, pedi que me levasse para morar na França. Mas voltando ao livro, ele foi escrito como forma de agradecer ao Yann, pela sua presença nesse momento de dor. E também como forma de levantar seu astral quando o Le Patio Gourmand, restaurante que ganhou dos seus pais, faliu, na França. O livro foi uma coisa pensada como forma de agradecimento. Senti-me um pouco Virgina Woolf ao escrever “Orlando” para Vita Sackville-West. A obra-prima de La Woolf é uma carta de amor, num momento em que a nobre Vita faliu e se viu sem autoestima. Bem, muitos leitores devem conhecer a história da amizade das duas inglesas.
DA – Uma história bonita, afinal, que resiste aos duros golpes da vida. Um fato curioso, que você cita no começo do livro, são os três livros que levou para França. “Como cozinhar um lobo”, da americana M. F. K. Fisher; “O livro das frutas”, da britânica Jane Grigson; e “Jules e Jim”, romance do francês Henri-Pierre Roché. Diante de toda uma bibliografia universal, gostaria que comentasse sobre as escolhas específicas desses livros. E a ausência de uma obra de autor brasileiro deveu-se a uma razão intencional?
ALEXANDRE STAUT – Havia começado a ler livros de gastronomia, e me apaixonei pelo da M. F. K. Fisher. Aliás, este não é só um livro de gastronomia. T.S. Eliot chegou a dizer que Fisher era uma das melhores prosadoras de meado do século XX. E é mesmo. Seu livro mais famoso, “Como cozinhar um lobo”, é sobre guerra e paz, é um manual de sobrevivência em épocas de guerra, é filosofia da mais alta qualidade. O livro de Grigson caiu nas minhas mãos por acaso, dias antes da minha viagem. É de uma beleza sem fim para quem gosta de botânica. Já “Jules e Jim” é um clássico maravilhoso, embora a tradução portuguesa que eu tenha seja lamentável. Único livro de Roché. Adoro autores de obra econômica. E até desconfio daqueles que têm dezenas de livros publicados. Escrever romance é algo muito difícil. Às vezes, o cara escreve um único livro e aquilo é uma obra-prima. Não levei qualquer livro brasileiro para a França. Acho que propositalmente. Mas uns dias antes da viagem lera “Eles eram muitos cavalos”, do Luiz Ruffato, que me deixou transtornado. Ruffato tinha sido meu editor-chefe no Jornal da Tarde. Acompanhei um pouco a criação desse livro que reacendeu em mim a vontade de ser escritor. Ao chegar na França, arrumei um computador e comecei a escrever, a escrever… Tinha um esboço de um romance, nos primeiros tempos lá. Mas era algo muito ruim que joguei no lixo. O mundo está cheio de livros ruins, não queria parir mais um. Falando nisso, não gostaria de ter lançado meu segundo romance, “Um lugar para se perder”. O título é bom, mas, para mim, não é um bom livro. Dois leitores muito especiais gostam dele e o elogiam, Maria Valéria Resende e Leonardo Tonus. Mesmo assim, acho um romance estranho, mal resolvido. Uma vez me encontrei com Sônia Coutinho na Livraria Cultura. Ela tinha lido “Um lugar…” e me disse: “Seu livro é estranhíssimo. Você é escritor” (risos).
DA – Ser estranho também é uma qualidade. Como bem disse, o mundo está cheio de livros ruins que, caso fossem ao menos estranhos, talvez seriam melhores. Mas, à parte a memória e as referências literárias, o livro cede espaço para observações de natureza histórica, a exemplo dos capítulos que se dedicam a desvendar os costumes e os produtos da Idade Média. Como foi o trabalho de pesquisa e por que considerou válido incluir essas informações?
ALEXANDRE STAUT – Ah, sim. Sou apaixonado pela Idade Média, literatura, costumes, alimentação, comércio, comunidades urbanas. Estudo por conta própria o período há muito tempo. Li tudo e vi os filmes sobre Fausto, alquimista, astrólogo e mago, protagonista de uma lenda da Idade Média alemã, que teria feito pacto com o demônio, um arquétipo da alma humana e das nossas aflições. Mas gosto também de livros teóricos sobre o assunto. Na França, há muitos. E é possível sentir a Idade Média bastante presente em diversas cidades do interior. Os cemitérios no centro de alguns vilarejos, na frente da igreja principal do lugar, acho fascinantes.
DA – É marcante também a aparição de canções por todo o livro. Algumas delas, inclusive, apresentam o caráter latente de uma trilha sonora dessa época. Em dado momento, você menciona a participação de Gilberto Gil e Jorge Mautner, num festival em Brest; este último, aliás, de quem você é fã e tentou um encontro, que acabou não acontecendo. Por outro lado, a literatura faz parte de um processo muito mais íntimo que mundano. Há a citação de um encontro com o escritor Humberto Werneck, mas nenhuma outra tentativa de buscar no outro o espírito literário. Nos anos em que passou na França, você mantinha, de alguma forma, contato com a literatura brasileira ou mesmo com jovens autores franceses? Chegou a frequentar feiras literárias, eventos que fossem pautados pela literatura?
ALEXANDRE STAUT – Não tinha pensado nisso. O livro tem, sim, mais música que literatura. Foi um período muito musical da minha vida. Inclusive meu encontro com a música eletrônica. Ia dançar quase semanalmente. Meus encontros com escritores aconteciam por meio de programas de TV e de leituras. Incrível a quantidade de programas de TV na França, com a participação de escritores. Eu assistia a todos. Assim, conheci duas autoras que me acompanham até hoje. Anne F. Garreta, que participa do Oulipo, uma figura bem estranha; e Amelie Nothomb, belga que faz muito sucesso na França com seus romances de títulos esquisitos: “A higiene do assassino”, “Antichrista”, “Cosmética do inimigo”, “Biografia da fome”. Nos três anos e pouco em que estive por lá, basicamente eu li. Li em francês. Ler numa língua estrangeira é uma forma de entrar em contato com as sutilezas de tal língua. Isso requer dedicação. Foram anos em que me dediquei a aprender essa língua que para mim era um tanto desconhecida. Lia autores brasileiros recém-traduzidos lá também. Hilda Hilst, Caio Fernando Abreu. Já conhecia a obra do Caio inteira. Foi bacana lê-lo em francês.
DA – Interessante você citar essa transposição da língua, pois, salvo eventos esporádicos, a exemplo do Ano do Brasil na França, a literatura brasileira parece algo ainda muito limitado a seu próprio território. Você citou Hilda e Caio F., porém, imagino, que deve ter topado com traduções de outros autores contemporâneos. Qual foi sua percepção do interesse da literatura brasileira entre os franceses? Ainda somos vistos pelo viés do exótico, do tropicalismo que exulta suas belezas naturais, seu calor endêmico?
ALEXANDRE STAUT – Estava lá nos tempos anteriores do Ano do Brasil na França, inclusive no momento da festa. O Brasil estava na moda. Traduziram muita coisa boa. Hilda e Caio estavam nessa leva. Era um orgulho chegar às livrarias e ver bancadas de autores brasileiros. Os programas de TV que discutem literatura (são vários, até em canal popular tem!) falavam sobre a gente. Discutiam Guimarães Rosa, liam trechos. Lembro que, em 2005, Lya Luft estava na onda, no Brasil, com os seus livros de autoajuda. Num programa, me lembro, alguém leu um trecho de um desses livros dela, e a apresentadora cortou o entrevistado: “Isso é uma bosta” (risos). Mas não podemos nos esquecer de que, antes da autoajuda, Lya foi uma grande escritora. Hoje em dia, graças ao professor da Sorbonne Leonardo Tonus, a literatura nacional ficou mais em evidência na França. Tudo trabalho do Leonardo! O que ele fez e faz para a literatura nacional por lá já entrou para a história! Há também o trabalho de formiguinha do livreiro e editor Michel Chandeigne, dono de La Librairie Portugaise et Brésilienne, e da Éditions Chandeigne, que já publicou Ferreira Gullar, Affonso Romano de Sant’Anna, Moacyr Scliar, Armando Freitas Filho, Francisco Alvim, Henriqueta Lisboa, Ana Cristina Cesar, Mário Chamie, entre tantos outros.
Alexandre Staut/ Foto: Juliana Carrascoza
DA – Realmente o professor Leonardo Tonus tem feito um trabalho irretocável em prol da literatura brasileira. Mas falaremos disso mais adiante. De volta ao livro, um dos momentos que considero mais tocantes é aquele em que você escala umas pedras à beira mar, onde fica sentado por horas, isolado, escrevendo num caderno. Para mim, essas passagens irradiam toda a narrativa com uma luz de melancolia. O que eram esses momentos para você, afinal? Havia ali mais literatura ou mais autorreflexão?
ALEXANDRE STAUT – Era uma mistura de tudo. Sempre gostei de ficar sozinho, de caminhar, tanto na cidade quando no meio da natureza selvagem. Resolvo cenas de livros em caminhadas, ou então sentado em posição de zazen, principalmente em locais silenciosos. No caso dos momentos de meditação, sentado na falésia do lado esquerdo da cidade de Arromanches-les-Bains, eu olhava os destroços do porto construído pelos ingleses na Segunda Guerra. Havia acabado de ler “Un pedigrée”, do Patrick Modiano (romance sobre os momentos em que seus pais viviam escondidos, por lugares obscuros de Paris, para não serem encontrados pelos nazistas – ainda não traduzido no Brasil). Assim, inspirei-me a escrever um livro sobre meu avô Eduardinho, judeu alemão cuja família migrou para o Brasil. Ele era músico de uma pequena orquestra no interior e dono da funerária da cidade, Pinhal. O livro se chama “Jazz band na sala da gente”. É sua biografia romanceada. Interessante você notar que “Paris-Brest” é um livro melancólico. Você percebeu um traço importante do livro, que também é meu traço. Sou um cara triste. Como Orhan Pamuk, sou um sujeito triste que escreve para tentar ser feliz.
DA – É também nesse instante em que se dá conta de que a escrita é mais forte, em você, que a gastronomia, que o desejo de se tornar um chef. Consegue traçar um paralelo entre o processo de criação e a elaboração de uma receita? Em que a arte culinária e a literatura se aproximam e em que se divergem?
ALEXANDRE STAUT – A escrita sempre foi mais forte em mim do que qualquer outra coisa. É uma necessidade física, real, acho até que só consigo tomar conta do vácuo que vivemos neste planeta por meio da escrita. Talvez ela me distraia da loucura que é estar girando há mais de 700 km por hora, num planeta, sabe-se lá para onde. Quanto a ser chef, nunca o quis. Trabalhei como cozinheiro por uma necessidade momentânea. De qualquer forma, amo cozinhar. Me distrai bastante. Quando estou de saco cheio do mundo literário, vou pra cozinha. Considero a gastronomia uma arte, assim como a literatura. São artes diversas. A gastronomia também é uma coisa mágica. Uma pena que no Brasil muitos intelectuais e até escritores consideram culinária coisa de fresco. Muita gente pensa assim. A gastronomia é um patrimônio da humanidade. É possível relatar a história do planeta Terra por meio dela. Adoro os países em que a gastronomia é tratada como patrimônio; França, Portugal, Espanha, México. Aqui ainda estamos longe disso.
DA – Em compensação, a gastronomia explodiu com um dos carros-chefes de muitos programas de TV. Há canais a cabo, inclusive, que preenchem toda a programação com chefs nacionais e internacionais (e famosos que se acham chefs de cozinha) esbanjando a arte culinária. Esse “fenômeno” acabou por migrar também para a literatura, fazendo com que todas essas celebridades televisivas entrassem na mira das editoras, que abastecem cada vez mais as prateleiras com livros de culinária, de receitas, de viagens relacionadas à gastronomia. Como encara essa fascinação por esse tipo de programa, por livros dessa natureza? E você acredita que, assim como na literatura, há uma banalização da arte culinária; a consolidação de um pensamento de que qualquer um pode cozinhar, assim como qualquer um pode escrever?
ALEXANDRE STAUT – Acho ótima esta explosão do mundo da gastronomia. Acabo de voltar do Piauí, onde fui fazer uma grande reportagem sobre a culinária local. Antes da gastronomia regional entrar na moda, não se bebia cajuína. Disseram-me que hoje tem em todos os bares, vendinhas, restaurantes, supermercados, aeroportos… É a valorização da cultura alimentar. Por outro lado, as pessoas ainda conhecem mais Nutella do que, por exemplo, o tucupi (caldo da mandioca usado na região Norte, para se fazer vários pratos), ou então dão mais valor ao risoto do que ao baião de dois. Mas, com a popularização da arte gastronômica, espera-se que isso possa mudar um dia. Acho que qualquer um pode cozinhar, como pode escrever. São duas atividades democráticas. A escrita, por exemplo… para escrever basta um pedaço de papel e um lápis. Você pode escrever se nascer rei na Europa ou numa aldeia perdida no Brasil ou na África. Claro que aqui entra a questão do analfabetismo no Brasil, por exemplo. Mas esta já é outra história.
DA – Sinceramente me desagrada essa ideia generalizada de que qualquer um, com papel e caneta, possa escrever. É claro que escrever, sim, mas não fazer literatura. Penso o mesmo da arte culinária. Minha esposa gosta de programas de gastronomia. Certa vez, ela assistia um de competição que, para entrar, o candidato tinha de fritar um ovo; e a maioria não conseguiu. Eu adoro cozinhar, cozinho todos os dias, contudo sei que estou longe de ser um chef. Por outro lado, considero-me um escritor, pois estudo, leio, pratico, entendo as técnicas, os meandros da escrita, e busco, com isso, aperfeiçoar meu texto. Sendo também um crítico literário (escreve para o Valor Econômico), você não acredita que, a despeito de uma importância incontestável, a democracia na literatura tem seu limite na qualidade da narrativa?
ALEXANDRE STAUT – Ah, sim. Também acredito que com papel e caneta não se escreva literatura. É preciso estudar, ler, treinar. Um bailarino, para dar uma pirueta no ar, treina uma vida inteira. Existe uma faísca inicial, que é a inspiração. Depois, o que tem é o trabalho. É preciso trabalhar duro para escrever literatura. Mas ainda acredito que esta é uma arte democrática. O cara precisa de papel, lápis e tempo… além de ler livros, que ele pode comprar por R$ 5, na banca de jornal da esquina, ler de tudo um pouco.
DA – Alguns anos depois de retornar ao Brasil, você lança dois livros: “Jazz band na sala da gente”, de 2010, e “Um lugar para se perder”, de 2012. O primeiro foi uma edição do autor, e o segundo foi publicado por uma editora de pequeno porte. Na ocasião, chegou a procurar um grande selo editorial, mandou o original para a análise de alguns desses? Como avalia essa relação entre um autor inédito e as editoras, no Brasil?
ALEXANDRE STAUT – Não há relação! (risos). Os grandes editores não leem autores em começo de carreira, salvo algumas exceções. Mas até entendo. Editoras recebem 30, 40 originais por dia. Resolvi publicar “Jazz band…” em edição de autor, pois naquele momento tinha uma necessidade quase física de ter um livro lançado. Quando ficou pronto, percebi a importância de uma editora por trás do trabalho. Eu não sabia o que era “preparação de texto”. Para quem não sabe é uma espécie de “direção de arte”, como se faz no cinema. A preparação é essencial. O meu livro saiu com palavras repetidas na mesma página, sem necessidade. Errinhos que só um preparador iria pegar. Quando ficamos muito tempo com um texto, a leitura se torna oração. A gente lê sem se dar conta de cada palavra, da importância de cada palavra no contexto. De qualquer forma, este é um bom livro e merece uma segunda edição, agora caprichada. A dica que dou para quem quer publicar independente: não deixe de contratar dois profissionais antes de imprimir o seu livro, um preparador e um revisor. São trabalhos diferentes, e que só podem ser feitos por pessoas especializadas, que estudaram para isso.
DA – Excelentes dicas, de fato. Outra coisa que você fez, ao voltar ao Brasil, foi criar a São Paulo Review, um dos portais de literatura mais prestigiados nos dias correntes. Como e por que surgiu a ideia de montar a página? E, nesse tempo de existência, a SPR lhe trouxe mais amizades ou inimizades?
ALEXANDRE STAUT – Pois é, sempre li as “Reviews of Books” e percebi a lacuna. O Brasil não tinha nenhuma. Fui com a cara e a coragem e registrei o nome, em 2013. Chamei Viviane Ka, que é do mundo editorial, para ser minha sócia. Em pouco tempo, escritores e leitores perceberam que havia qualidade no trabalho e começaram a nos passar pautas, sugerir resenhas. Surgiu um time muito bom de colaboradores. Nos últimos tempos, a jornalista Ana Weiss se juntou a mim e à Viviane, para fazermos a revista juntos. Ana é uma das jornalistas culturais mais importantes do país. O time está formado e o projeto caminha muito bem. Estamos agora fazendo um plano de negócios para conseguirmos patrocínios, para que possamos ir mais longe ainda. Nunca se sabe, mas acho que consegui mais amigos. Sou contra detonar livros. Sou um jornalista/editor/crítico ecológico. Acho que não vale a pena gastar celulose e energia elétrica para falar mal de escritores e livros ruins. Melhor deixá-los no limbo.
Alexandre Staut / Foto: Macus Steinmeyer
DA – Há pouco você mencionou a questão do analfabetismo no Brasil como um dos principais adversários da literatura. Do tempo em que passou na França, o que trouxe de experiência da relação entre educação e literatura? O que representa a literatura, na vida comum de um francês? E o que poderíamos transferir para nossa realidade?
ALEXANDRE STAUT – Convivi bastante com crianças e adolescentes na França. Eles leem por toda parte, no metrô, andam pelas ruas com livro aberto, na frente da cara. As escolas incentivam a leitura desde muito cedo. Minha enteada, na época uma adolescente, andava com livros para cima e para baixo. Os seus professores passavam tanto obras clássicas quanto contemporâneas. Lembro-me dela comentar com prazer autores que conversam com nosso momento histórico, como Amelie Nothomb. A leitura por lá parece estar incorporada ao modo de vida francês. Talvez seja o país que mais valoriza a literatura. Aqui, falta o trabalho de base. Falta incentivo do governo. É uma questão um tanto complexa, né, não sei se um dia será resolvida. De qualquer forma, não acredito na frase que dizem por aí de que brasileiros não leem.
DA – Falando em professores, quero trazer à conversa o Leonardo Tonus, professor da Universidade Paris-Sorbonne, que tem feito um trabalho inestimável em prol da literatura brasileira na França, em especial no reconhecimento dos escritores contemporâneos. O grande evento que coordena, “Primavera Literária”, no qual autores brasileiros participam de debates na capital francesa, contou com sua participação numa das edições. Como foi voltar à França, desta vez com status formalizado de escritor?
ALEXANDRE STAUT – Participei da “Primavera Literária” em seu primeiro ano, em 2014, junto do Michel Laub, Julián Fuks, Marcelino Freire e Ana Martins Marques. Íamos à Sorbonne e falávamos com os alunos de estudos lusófonos do Leonardo Tonus sobre nossos livros, discutíamos literatura em língua portuguesa, de forma geral. O trabalho do Leonardo na Sorbonne é uma beleza. Ele valoriza cada um dos seus alunos, no que eles têm de mais genuíno. Conheci alguns que não gostavam de estudar e que depois do Leonardo viraram críticos literários, escritores. Mas antes disso, em 2013, ainda a convite do professor e de passagem pela França, dei uma palestra para sua turma, também nas dependências da Sorbonne. Senti um misto de medo, timidez, vaidade. Chegando à sala, todo mundo me deixou super à vontade. Para minha surpresa, estavam na minha palestra Humberto Werneck, Daniel Antônio, ótimo jornalista cultural brasileiro, entre diversos ex-alunos do Leonardo. Tive a sorte de ficar amigo do Tonus, que me chamou para criar o “Outono Literário” ao seu lado, e ao lado da Mirna Queiróz (Revista Pessoa) e Simone Paulino (editora Nós).
DA – Iria perguntar mesmo sobre o “Outono Literário”, realizado este ano em São Paulo, que surgiu como uma derivação da “Primavera Literária”, de Paris. Como foi pegar um evento de sucesso, com suas próprias características, e transportá-lo com mesma relevância para o Brasil? E quanto ao futuro: vocês têm a intenção de torná-lo regular? Buscar parcerias, replicá-lo em outras cidades, ampliar a programação de debates, inclusive com a presença de autores internacionais?
ALEXANDRE STAUT – O “Outono” nasceu no primeiro semestre deste ano, uma união de forças do Leonardo Tonus, da Mirna Queiróz, Simone Paulino e minha. Fizemos eventos na livraria Blooks, com lançamento de livros; numa escola da Zona Leste, onde acontece o Sarau dos Mesquiteiros; na Unibes Cultural; e no Bistrô Ó Chá. Reunimos mais de 20 escritores de todo o país, para falarmos sobre literatura no Brasil. Houve também um evento no Rio de Janeiro. O “Outono” nasceu como proposta de integrar discussões de norte a sul do País, e como evento a se realizar anualmente. Logo mais divulgamos a agenda para 2017.
DA – Desde o ano passado, têm ganhado relevância debates sobre a literatura de gênero, chamando atenção para uma participação mais ampla de mulheres, de negros e de homossexuais tantos nas editoras quanto em festivais literários. Na condição de curador e de autor, como se relaciona com essa discussão?
ALEXANDRE STAUT – No Brasil, o racismo é endêmico e cultural. Por isso, infelizmente, só nos resta uma solução: as cotas. No mais, basta ver os autores e os livros que fazem sucesso, tanto nos cadernos culturais quanto entre o público. A literatura brasileira é branca, heterossexual e “macha”. Com o perdão do trocadilho, acho um saco isso.
DA – Retornando ao livro, há dois momentos bem simbólicos de transição: a sua saída do Brasil para a então desconhecida cidade de Brest, e depois a sua primeira volta ao Brasil, quando se dá conta de que ainda sua estada na França não tinha chegado ao fim, daí você retorna. Mesmo que não tenha qualquer citação, esses momentos me trouxeram à memória o famoso poema de Manuel Bandeira, “Vou-me embora pra Pasárgada”. Consegue traçar um paralelo entre esses anos e os versos de Bandeira?
ALEXANDRE STAUT – Este poema me persegue. Gosto tanto, que incluí um trecho na minha peça de teatro “Marquesa”, encenada pela atriz Paula Cohen, no festival Satyrianas, semanas atrás. Há uma vontade de fugir para encontrar a felicidade, um desejo de percorrer o mundo, como um cigano, ver paisagens. Há também um sarcasmo e uma ternura que são próprios do Bandeira e de muitos autores nacionais. Quando escrevo, tento olhar para o Brasil com essa ternura… mesmo que esteja escrevendo sobre a França, ou qualquer outro lugar do planeta.
DA – Lá, no começo da nossa conversa, falamos sobre os três livros que você levou para França. Se soubesse que algum francês viria passar uma temporada no Brasil, qual dos três livros você recomendaria que ele trouxesse?
ALEXANDRE STAUT – Recomendaria que comprasse três livros aqui… para que entendesse um pouco mais a gente. Para conhecer a vida política brasileira, “Memórias de um sargento de milícias”. Para conhecer a sociedade brasileira, “A hora da estrela”. Para conhecer a alma do brasileiro, “Grande sertão: veredas”.
Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.
entre certos instantes de brahms e uma cloaca, III
O curumim se pendura no avental de Hera
para tentar escalar suas tranças graciosas.
E são fundadas acrópoles a partir dos inefáveis
desejos humanos,
as caçarolas de alumínio
sobre bocas de dragões furiosos.
O contorno da romã se desfaz
em linhas,
e o curumim consegue, afinal,
vislumbrar os paralelos que fatiam
a superfície do planeta.
Como é fácil se encantar pelos Trópicos!
Gira-se a torneira
e a água molda o espaço,
e a água molda as ideias & os sentidos
do curumim.
O ralo da pia bebe vastos açudes de provações
e desaparece.
A carne plástica das dobras do sifão
recobre o túnel de aros de uma tranqueia
esganada.
………………………………. “Incêndio em mares de água disfarçado! …………………………………..Rio de neve em fogo convertido!”
Hera senta
o curumim à mesa, serve
o almoço e reza
pela alma do marido,
que deu o couro às varas
faz poucas semanas. ……………………………………………………………..Sim:
todos respondemos pelas escolhas
daqueles que pisaram estas campanhas
estéreis antes de nós. ……………………………………………………………..Sim:
nossos escritos são medíocres
reproduções dos palimpsestos que abarrotam
a biblioteca suspensa pela sobreposição
dos anos. ……………………………………………………………..Sim:
este cheiro de serragem molhada,
que tanto me incomoda as narinas
sensíveis ao fracasso, também atordoará
os belos deuses do futuro.
E o curumim marcha entre trovões.
***
Copérnico
Com o intuito de estancar a sede irresistível
que me pôs acordado ………………….no momento exato do alvorecer,
recorro ao catálogo das variedades ………………………………anarquicamente dispostas …………nos compartimentos da geladeira.
Deparo-me com uma jarra de vidro …………………………………………quase vazia.
No fundo desse crisol ilegítimo, ………….a emular o resultado ………….de ensaios químicos frustrados, ………….o resto do suco de laranja ………….que eu mesmo havia preparado ………….antes de dormir.
Uma quantidade ínfima do líquido
em cuja acidez estão concentradas ……………………todas as minhas perversas manias.
…………………………….Ralho comigo.
Por que não bebera tudo de uma só vez?
Por que guardara o último gole ………………………………para depois?
Preocupo-me somente ……………………com as sobras, ……………………com os resíduos, ……………………com os resquícios. ……………………A abundância das horas, deixo-a
aos que ainda esperam muito da vida,
aos que anseiam por algum clímax
ou por alguma absolvição,
aos que não puderam estar presentes
no velório de Ivan Ilitch.
Meus inimigos dizem que não tenho ambições. ……….E eles têm razão. ……… (Eu não quero ter razão.)
Prefiro o resto do suco de laranja
à revolução da laranjeira,
…………………..espécie ímpar em um bestiário …………………..de leviandades, …………………..utopia petulante a servir-se …………………..de uma filigrana lexical
que ora descreve
a mecânica dos corpos celestes,
ora retém
o anelo dos corpos históricos
por mudanças drásticas.
Mal sabem os filólogos ocidentais que,
em termos ontológicos,
não há diferença
entre a lente arguta do telescópio
& a lâmina implacável da guilhotina.
………………………………A tradução da liturgia ………………………………na diagonal deve ser feita ………………………………porque graça não há ………………………………em seguir da ordem canônica ………………………………a tradição (da liturgia).
……..Se a guerra & a poesia ……..constituem, por excelência, ……..os espaços de negação ……..do tempo e dos arquétipos ……..partidos que veneramos,
……………………..os restos já são, por si, revolucionários.
***
Apocalíptica
O silêncio da madrugada & minhas confusas
vaidades inundam a sala de jantar.
Sobre a mesa de tampo redondo, o copo
farto de uísque.
Apenas o odor do malte já me embriaga.
Meus pensamentos se transfiguram
e você surge diante de minhas vistas
cansadas.
As pernas como colunas de mármore,
os braços em um abraço de fogo,
das ancas, larga baía,
& a boca convidativa
& os olhos que me desafiam, esfíngicos.
Sua voz, suave melodia de realejo.
Seu perfume, o escrúpulo dos oceanos.
Ouço as trombetas de mil anjos caídos
e você chove de fora para dentro.
Quimera bamba. Falsa musa.
Sua beleza me leva a descumprir todas
as promessas que fiz a meus fantasmas.
………Alguém me fala sobre doenças ………e sobre consultas médicas, ………sobre planos de saúde ………e sobre seguros de vida.
Alguém me fala sobre os preços dos remédios, ………………que aumentaram por causa dos altos índices ……………………………………………..de inflação.
…………………….Alguém me fala sobre meus amigos;
e, ao que parece, quase todos já honraram …….o famigerado axioma bíblico: ao pó retornaram.
……………………Alguém me fala sobre reencarnação.
……………E salienta que, de acordo com determinadas …………………………………………………… [religiões,
o fenômeno do crescimento vegetativo a nível mundial ………………………………explica-se ………………………com base na transmigração dos espíritos.
………Confesso: com o fim do espaço público, ………a ideia de um amplo câmbio interplanetário de almas ………(versus a intimidade de minha casa) ……………………………………….me tira o sono.
……………..Prefiro ser enganado pelas manchetes ……………..e pelos anúncios publicitários ……………..de meu próprio planeta. ……………..Prefiro os mortos ……………..de meu próprio planeta. ……………..Prefiro também os relógios cruéis ……………..de meu próprio planeta,
muito embora suas engrenagens,
gáveas de presas anônimas,
ainda conspirem por minha capitulação,
independentemente de qualquer teoria fabulosa
acerca do além-túmulo.
……………………..A arquitetura da tabacaria ……………………..é rude, quase vulgar, ……………………..mas preciso reconhecer: tê-la, ……………………..em sua frouxa metafísica, põe ……………………..minhas cicatrizes em estado ……………………..de graça.
……..Olho para mim. ……..Olho para meus mortos. ……..Olho para o relógio em cima do piano. ……..Que tédio.
João Gabriel Madeira Pontes é um poeta carioca nascido em 1992. Seu livro de estreia, “Indiscrição”, foi lançado este ano pela Editora Kazuá.
Os dias caminham sobre o imenso território do planeta. Vez por outra, estamos inebriados ao ingerirmos, muito sem querer, doses cavalares de realidade. E a pergunta fica: alguém de fato encontra completude diante da incessante rotina do real?
De um lado, o que vemos e tomamos como coisa viva e presente na lonjura do tempo. Do outro, as construções internas reivindicando espaços libertários de representação. No consumo diário das cápsulas da realidade, alguém sempre encontra espaço para modificar a tônica ensaiada das coisas. E quando o livre universo da abstração adentra uma janela de nossa frágil casa, ali, na porta dos fundos, foge exasperada a banal figura de um olhar domesticado das coisas.
Definitivamente, não somos animais feitos para acostumar as horas. Podemos até, com certa frequência, negligenciar a face do inconformismo e postularmos alguma espécie de acomodação do olhar. Mas chega um momento em que isso não se torna mais possível, pois há chamados apontando rumos nada cartesianos, nos quais tempo e espaço são elementos nem um pouco mensuráveis sob aspectos de quantificação aparente.
A valoração íntima do modo como cada pessoa vislumbra as nuances do mundo alveja diretamente alguns lancinantes cenários. São recortes da existência a nos provar que é possível ressignificar a vida em grande parte. É o que tenciona a artista plástica Re, quando faz da sua arte um mergulho constante no território complexo e misterioso da introspecção.
Ao nos mostrar seus desenhos, Re põe em evidência uma espécie de desconstrução das formas tradicionais. As paisagens humanas por ela visitadas são o reflexo de um universo pessoal de abordagens, filtros de um olhar que expõe em certa medida o caráter maculado das nossas humanidades.
Desenho: Re
Seja na deformação de corpos, na utilização de sutis recursos irônicos ou na acidez crítica dos contextos, a desenhista invoca a urgência fragmentária das identidades mundanas. Trata-se de um vasto painel de sombras duma consciência dispersa por entre os vãos das desventuras dos homens, suas escolhas, bem como o idioma dos equívocos nossos de cada dia.
Mas eis que há a palpável constatação de que mergulhamos no fosso abissal da chamada pós-modernidade. Nesse contexto largamente indefinido pela fluidez das identidades e, sobretudo, pela ausência de um sujeito único e assentado numa zona de segurança, é que percebemos a contribuição da artista no que se refere ao desafio de pensar o estado atual das coisas às quais estamos submetidos.
Re é na verdade a persona artística de Renata Lisboa, trans, paulista, estudante de arquitetura, um alguém que vai moldando sua identidade em meio ao fluxo de alumbramentos inquietantes. Sua jovem idade (19 anos) é inversamente proporcional à promissora capacidade que possui de pôr em xeque através de sua obra a fixação de qualquer verdade universal.
Transitando entre o niilismo e o pessimismo, a artista confessa que suas inspirações vêm de nomes como os de Tim Burton, Jodorowsky e Iberê Camargo, além de artistas independentes, sobretudo aqueles pertencentes ao surrealismo pop.
Na inscrição traumática e apocalíptica dos seus desenhos, Re traz à tona as marcas de uma arte que provoca e, ao mesmo tempo, não congratula com vãs esperanças de futuro. É como se cada forma, contorno ou cor empregados fossem um vivo atestado de que estamos implicados até o pescoço com aquilo que quiçá também somos: misto de sujeitos errantes com falsas ilusões de salvação.
Desenho: Re
*Os desenhos de Re são parte integrante da galeria e dos textos da 115ª Leva
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.
O que registro agora aconteceu anteontem, ontem e hoje de madrugada quando abri a porta do quarto de trabalho. Talvez tenha acontecido também em outras noites e mesmo durante outros dias. Não me lembro dos dias. Passaram, devagar, sem testemunhar a nudez da luz noturna. Nunca escrevi sobre eles. Pensei que escrevia enquanto dava nomes às plantas e substantivava os perfumes e os detalhes da casa. Mas as palavras nunca foram minhas. As letras e os sons sempre pertenceram aos rasgos e à caligrafia do mundo dele, torrão alquebrado pelas estantes e pela imortalidade da mesa – madeira de lei como a carne de seus pés úmidos – perdido por entre os papéis amassados e os relógios repletos de hiatos.
Ele me viu espremida no canto, e não se mexeu na cadeira. Por um momento, abriu e fechou os olhos, mapeando minha presença em seu solo sagrado. Por um momento, pensei ele vai estender-me as mãos e depois aferrolhar-me em seus braços. Dos meus, escorriam saudades. No entanto, nem nossos olhos nem nossos corpos se falaram. Então, avancei, escondendo, ainda, a súplica sob a camisola. Ele não disse nada. Tampouco eu pude. Dizer seria uma desonra. Apanhei o bloco de rascunho e um lápis e, sem arrancar a folha, fui vencida pela repentina desobediência dos dedos: vim em busca de amor, escrevi. Frase curta, certeira. Dentro e fora do coração. Ele, o náufrago capaz de chorar apenas de rir, manteve o olhar pregado nas ranhuras da mesa, provavelmente, calculando em que momento as lágrimas me avassalariam o sangue e a debilidade. Responda, insisti em uma letra desesperada, jogando o bloco em seu peito para que ele rompesse com a falsa concentração do que antes fora sua labuta. Não tenho afeto para dar foram as cinco palavras escolhidas.
Zelosa, ajeitei o bloco no lugar de costume, ganhando tempo para refletir sobre a sentença. Meu marido não seria capaz de acreditar em meia palavra do que escrevera. Se sua verdade escapava deformada, era porque ele pensava não precisar mais dela. Precisava, sem saber o porquê, ofender, esfolar de modo absurdo. Portanto, não hesitei em dar a volta na mesa e, como em tantas vezes, parar atrás de sua cadeira. Ele continuou imóvel, decidido a ignorar-me, mas eu, habituada a seu ritmo, não me dei por vencida e, com a ponta das unhas, rocei seu pescoço e cabelos como antigamente nos pedíamos nos instantes de gozo. Ele fechou sobre a minha mão o punho, apertando-me os dedos cada vez mais e mais até a dor calar o gemido. E foi nessa altura que eu, num gesto explícito, puxei meu braço, flutuando, rápida e miserável, em direção à janela em busca de um copo de ar.
Deparei-me com o meu colo sufocado pelos botões e pelo laço da camisola. A rotina a usara contra mim, contra ele. Cerceara-me os contornos, os vícios. A fidelidade dos meus desejos secara sob o tecido opaco como murchara a de meus seios e de meu ventre inconfundível, o ventre seco e desprezado pelo sêmen dele, pela vontade do deus e dos demônios dele. Meus demônios. Devassos e impuros, ao alcance também de minha fome e das artimanhas, todas, mescladas a tudo, misturando tudo, inconfidentes, terríveis no comando, provocando os limites do perigo. E eu cedi a elas e voltei à ação, desamarrada, quase despida, crua, oferecendo-me para um último golpe, esfregando-me na densidade de sua pele, abocanhando os seus pelos, forçando com o pé a entrada do meu prazer, do meu amor, mas ele se desembaraçou sem pressa, ajeitando o pijama e recolhendo os pés dele um por um sob a cadeira como se eu estivesse parada na vida e ausente feito um sonâmbulo.
Helena Terra é gaúcha, escritora e ilustradora. Publicou contos, poemas e textos em antologias e revistas literárias e o romance “A condição indestrutível de ter sido”.
Fecham-se em tamanhos miúdos
caixas de desgraça e poeira, rotas claves
do passado em pausa.
Lágrimas marcadas no negativo da fotografia,
São as dúzias de brincos perdidos em festas
como a fase terminal da doença
Embrulham-se em milhas de pacotes nunca postados
elásticos apodrecidos
Brilham como cacos remendados
no espelho escuro pelos fungos da casa vazia
e pastos inteiros incendiados.
É morte gratuita, sujeira presa
nos olhos do vento, desvairado.
Falta lei e proteção devida às unhas que sangram…
o dinheiro corre as ladeiras da rua
como o pó caído de um cinzeiro.
Fica a pólvora do armamento esquecido nos arquivos.
Punhos fecham-se em tamanhos miúdos
sem direito de guardar escolhas em armários de aço
nem se podem levantar por covardia
a exemplo dos homens que escrevem mudos
sobre suas mesinhas demasiadamente limpas
da liberdade moderna. Do sonho popular
calados diante o som oco que se faz
nas palmas das secas mãos
presas pelo descuido dos símbolos de perda
e das músicas jamais tocadas nas rádios.
Fecham-se em tamanhos miúdos
são como as línguas soldadas ao céu
das bocas frias e incapazes
Escondem-se pelas calças de bolsos fundos
e se alcançam, por uma estranha ventura, as lâmpadas
que pendem nos postes de cada espasmo necessário
às bambas pernas, petrificam-se na recordação do músculo
como um tumor gerado no infinito.
***
Cabide
depois de tanto morder meus olhos e
proteger os pés da minha frieza,
falava de mim feito fantasma
envenenada em seus próprios dentes
na escuridão dos seus dias
completos, ricos de palavras
incompreensíveis.
e corria estórias
pelas esquinas,
estrofes e gargalhada
em vão, batuques
nas panelas de casa
como fazia crer
falava de mim
e ouviam os desconhecidos
doenças anciãs de minha carne
dita suja
odiosa
carne
falava de mim
sorrateira como o trigo ao vento e
sufocada em meu seio
cuspia bolas de pelo roto
seca
falava de mim, rouca
invalida pelas garras de
um carma inventado
nua
exausta
falava de mim.
***
Ramal Japeri
se tão cedo sou massa
me aquieto
no canto que me cabe
em trilho reto sigo
curvo meu caminho ao
ganha pouco, pão
indigno dos dias tantos
ossos gemem,
estalam pobres
a febre embalada a
vácuo.
finda a tarde, gado
me atiro à não-vaga e
com menos pressa chego
a casa, permito graça a noite
já se afasta prum dia
aplico
a favor de mim e meu bem
sonhos órfãos
surreais
a posição que me
agride o trem.
***
Deixem abertos os meus olhos
deixem abertos os meus olhos, e
sobre o meu peito
feche minha mão
como uma cuia a espera de
lágrimas repreendidas.
compreenda minha altura,
metragem antiquada de índia
(misto de sangue e confusão)
calce-me com botas moles
gastas pelo couro judiado
que andei a vida.
quero sussurros de adeus
ditos ao pé do ouvido surdo
quero meus cabelos penteados
com a calma da escrita
e minha camisa branca
de botões e gola livres
casando minha
íris fosca,
seca feito a boca
que se há de morder.
não hei de perder no breu
tal antropofagia
declarada no berço
que cedo me deitei
e retorno em perímetro maior
para até onde dura
a poeira na vista
que agreguei durante os dias.
***
Clandestina
sim. eu quero ficar
o refúgio nesse caos é a sua própria construção
não pretendo descolar a marca úmida
a entrega da sua pele a minha estadia
pode ser que encontre num terreno impróprio
mas nunca em rotas paralelas da vida
um termo entre o meio e a desgraça
nesse labirinto estreito
de estar sempre respirando as tuas sobras
em copinhos de café expresso no corredor escuro
e manhãs corridas para não ser vista
passo os moveis estalam junto minha coluna
dolorida, a calma já não parece alternativa
se desço de carros apressada e deito
sobre lençóis a serem trocados
sem força para desvendar o koyosegi do nosso futuro
adoeço pretensiosamente ao escovar os dentes
e ouvir conversas de uma voz e meia
em silêncio morro um pouco a cada racionado toque
mas morro esquecida no espelho do armário do banheiro
ao provar a pasta de menta
e saber de ti em outro quarto
arquétipo que não me cabe, reconheço
meu espaço entre as quinas da caixa
sufoco toda vez em minha permanência
***
Sexta-feira
perdi as contas dos telefonemas
você dizendo que viria ao meio
dia de mala e cuia
pra bater na porta e me chamar
exclusivo, único
as unhas arranhando a madeira
cantareira batucando o
tempo que levo apressado
do sofá da sala ao armário
da cozinha onde deixei
a cópia das chaves
que já eram tuas
faz mais de um mês
fiz na esquina de casa
acompanhando a maquinha
compor pra você o poder
de entrar quando quiser
pantograficamente
sem ser chamado
mas vi tantos sois a pino
quanto pude enfrentar
a superfície lunar
trezentos e oitenta e quatro mil
quatrocentos e três quilômetros de
distância pro nó de nossas pernas
sobre a cama descoberta
ainda assim contei minutos
chequei as pilhas do relógio
voltei a vestir minha camisa
de dormir e liguei
a tv no canal nove
a mesma coisa, desimportância
inquietação interna
a extravasão das pálpebras
conta-gotas no travesseiro
fronha branquinha que troquei cedo
de manhã, os pombos batem na janela
arrulham a pior música para a
reforma que não programei,
mudei armário de lugar
aquela mesinha fica no canto, agora
mas talvez eu jogue fora,
ocupar a cabeça é difícil – o que houve?
até te comprei sobremesa
mais uma vez – pra
preencher a geladeira e
colecionar embalagens de papel – choveu forte
tive problemas com o carro
o pagamento não caiu na conta
não tive folga
tá uma confusão, chegando aí te conto – sim…
mas quando você vem?
eu espero.
Hanna Halm (1993) é poeta, musicista e historiadora nascida em Queimados, Rio de Janeiro. Participa do coletivo de publicações independentes Drunken Butterfly e do selo fonográfico fluminense Efusiva. Tem poemas publicados no blog Poema Diário, no jornal Plástico Bolha e na revista eletrônica Avenida Sul.