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114ª Leva - 08/2016 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Lima Trindade

 

Com amplo reconhecimento da crítica especializada, Sidney Rocha é hoje um dos mais expressivos escritores em atividade no Brasil. Ganhou diversos (e importantes) prêmios literários, teve parte de seus livros traduzidos para o espanhol e para o inglês, figurou em uma antologia temática de contos da prestigiada Granta e foi um dos 21 autores que Nelson de Oliveira apostou como os mais representativos surgidos no início deste século em nosso país.

Sua prosa é aguda. O seu campo de interesses não possui limites, restrição de assuntos. É uma prosa que busca representar e apresentar a vida em toda a sua pulsação, toda a sua força. Tornou-se um lugar-comum elogiar o tratamento que ele dá à linguagem. Porém, o seu truque, a sua habilidade maior, como convém aos bons artesãos, está justamente em fazer que a distância entre os signos e os significados seja esquecida. Rocha jamais subestima a inteligência e a capacidade de imaginação de seus leitores. Sua generosidade está na oferta de uma leitura onde prazer e reflexão não precisam vir dissociados.

Às vésperas de lançar Guerra de Ninguém, seu terceiro livro de contos, após os aclamados Matriuska (2009) e O destino das metáforas (2011, vencedor do prêmio Jabuti), o autor faz uma pausa nas comemorações do seu aniversário de 51 anos e, do quarto de um hotel em Maceió, ao lado de sua querida filha, a cineasta Anny Stone, concedeu esta entrevista exclusiva para a Diversos Afins, onde fala do começo de sua carreira de escritor, do amor pela poesia, de problemas culturais e políticos brasileiros, ambições artísticas e do que se trata o seu novo livro.

 

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Sidney Rocha / Foto: Anny Stone

 

DA – Você começou sua trajetória literária com um livro de poemas, Mais que o rei, publicado em 1991. O título é muito provocativo (principalmente ao lembrarmos do “Vou-me embora pra Pasárgada” do Bandeira). Como você avalia esse seu primeiro passo, decorridos mais de 25 anos?

SIDNEY ROCHA – Sua boa pergunta tem uma ótima resposta no Galáxias, de Haroldo de Campos, que escreveu tão bem sobre começos, justo no começo daquele livro: “e começo aqui e meço aqui este começo e recomeço e remeço e arremesso / e aqui me meço quando se vive sob a espécie da viagem o que importa / não é a viagem mas o começo da por isso meço por isso começo escrever / mil páginas escrever milumapáginas para acabar com a escritura para / começar com a escritura para acabarcomeçar com a escritura por isso / recomeço por isso arremeço por isso teço escrever sobre escrever é / o futuro do escrever sobrescrevo sobrescravo em milumanoitesmiluma- / páginas ou uma página em uma noite que é o mesmo noites e páginas / mesmam ensimesmam onde o fim é o começo onde escrever sobre o escrever / é não escrever sobre não escrever e por isso começo descomeço pelo / descomêço desconheço e me teço um livro onde tudo seja fortuito e”…

Acho que todos os autores que nasceram depois do advento do modernismo no Brasil começaram a publicar com aquela ambição de escrever mil páginas para acabar com a escritura, e de que sua obra tenha múltiplos significados. É uma meta ambiciosa e, para ser pleonástico, nada modesta, especialmente se tal começo é pela poesia. Acho que na minha trajetória venho cumprindo, com irônica humildade, aquilo que afirmou William Faulkner: “Talvez todos os romancistas queiram primeiro escrever poesia, e depois descubram que não podem e tentam o conto, que é a forma mais exigente depois da poesia. E depois de fracassar no conto, só então um romancista se dedica a escrever romances.”.

Tenho tentado e mantido a tentativa nos três gêneros, o que mostra algo óbvio demais: o de que sou menos que o rei Faulkner e outros reis. Mas você me pede para avaliar o primeiro passo, depois de tanto tempo, e respondo: foi um começo válido, ou um dos tantos começos que faz um escritor antes da primeira ousadia de fato, que é publicar. A avaliação deve ser não somente literária, mas editorial. Naquela época era muito mais difícil publicar do que agora, e a autocrítica, embora não tão grande, era maior do que agora para a maioria dos autores. A facilidade de meios praticamente nos converteu a todos em escritores, e muitos e muitos se desobrigam de ler, que é o primeiro dever, o primeiro prazer de um escritor autêntico.

DA – Há uma incidência enorme de grandes contistas e romancistas que começaram publicando poesia e, depois do primeiro livro, nunca mais voltaram a ela. Você ainda cultua o gênero, escreve sistematicamente e pensa em sua publicação?

SIDNEY ROCHA – Sim, continuo a escrever poesia. Aqueles do primeiro livro eram poemas imaturos. Os que agora escrevo tenho a ilusão de que sejam mais maduros, e, como um paradoxo, a poesia somente conserva a força se conseguimos aquele vigor inocente da juventude, e, como você citou Manuel Bandeira, na primeira pergunta, termino com os versos dele esta resposta: “Amor total e falho… Puro e impuro…/ Amor de velho adolescente…/ E tão Sabendo a cinza e a pêssego maduro…”

DA – Acompanha a produção dos poetas contemporâneos? Acha relevante esses trabalhos? Atravessamos um bom momento criativo?

SIDNEY ROCHA – Acompanho mais os romancistas, contistas e ensaístas contemporâneos do que os poetas. Quanto a se atravessamos ou não um bom momento criativo, é uma pergunta muito difícil de ser respondida, pois, como nos falta a perspectiva, não é possível que sejamos justos com os contemporâneos, e por isto mesmo comentamos tantas vezes os nossos colegas de modo leviano. Não quero ser apressado na opinião. Não existe um termômetro para avaliar a criatividade, e ainda menos de todo um tempo. Além do mais, publica-se tanto hoje em dia que seria impraticável, mesmo para o leitor mais voraz de poesia, acompanhar o que sai e opinar com justiça.

DA – Sua prosa, por meio de uma sintaxe e evocação de imagens pouco convencionais, costuma apresentar um alto teor de tensão no trabalho de linguagem, exigindo leitura atenta e reflexiva. Essas características não restringem seu alcance? Ou são os autores que subestimam a capacidade dos leitores?

SIDNEY ROCHA – Nunca escrevo pensando em coisas assim, se o texto é mais tenso ou menos tenso, ou mais ou menos denso, nem sobre o que pensará o leitor. É muito interessante e inteligente o que você diz. Mas refletir sobre o alcance da obra e os seus leitores é tarefa mais dos editores e críticos do que dos escritores.

DA – O predomínio da literatura de entretenimento nas gôndolas das livrarias e listas de “mais vendidos” são indicativos da mudança do perfil do leitor brasileiro em relação ao das últimas décadas do século XX?

SIDNEY ROCHA – A mudança de perfil é mundial, não especial no Brasil. O Brasil, como por sinal em praticamente tudo, faz nada mais que seguir a onda global. Mas pode-se dizer que talvez tenhamos contribuído para o início dessa voga, quando exportamos autores como Paulo Coelho. Na atualidade, dá-se a exacerbação do que já vinha antes como tendência.

DA – A política vigente de “democratização” do fazer artístico, que nega a especialização, a profissionalização, e desqualifica a técnica em nome da simples expressão, defendendo que todos são escritores, que todos podem e devem publicar seus livros, independente da relevância do que tenham a dizer, não acaba por se constituir num grave problema de diluição e enfraquecimento da cultura?

SIDNEY ROCHA – Essa é uma questão muito complexa. Não acho que o problema seja a democratização ou a democracia, e sim justamente o contrário. Do baixo nível da educação, do baixo nível dos meios de comunicação. Nunca houve tantos escritores, nunca houve tão poucos escritores, pode ser a máxima paradoxal e óbvia. O excesso de publicação não representa uma vitalidade, e sim um enfraquecimento. Não é pela superabundância de livros que alcançamos nem a quantidade nem a qualidade de leitores. Por outro lado, a cultura não é feita somente da chamada Alta Cultura, e sim de todos os meios de que dispõe o homem. Não cabe a um escritor ser juiz – por sinal, que profissão detestável a de juiz – do seu tempo nem da sua cultura, nem dizer o que vale a pena ou não ser fruído. Mas não devemos nos rebaixar ao mainstream.

DA – Sofia e Matriuska trazem questões em torno da identidade feminina, seu universo de representação, simbologias, condições existenciais e, sem sombra de dúvida, as relações de poder e violências que a cercam. Você se identifica como feminista? Se enxerga como autor engajado em causas de interesse social?

SIDNEY ROCHA – Sim, mas os meus livros de ficção não são obras de ativista nem panfletos ou manifestos a favor da causa A ou da causa B, por mais justas que sejam. A ambição do escritor é a da beleza, não a da verdade, da emoção humana, não das discussões políticas e sociais. Em Matriuska e Sofia há personagens de ficção, não mulheres de carne. As mulheres de verdade sofrem muito mais injustiças e são muito mais inspiradoras e dignas de amor, admiração e enlevo que as modestas figuras que há nesses e noutros livros.

DA – Acho o título de O destino das metáforas sensacional. A capa também é um feliz achado. Sei que você, sendo igualmente editor, se envolve em todos os processos criativos dos próprios livros. Seria arriscado dizer que esse volume de contos recusa com virulência todo e qualquer realismo?

SIDNEY ROCHA – Obrigado pelo elogio ao título e à capa, devo os dois a meu editor e amigo Samuel Leon. Você acertou em cheio no que diz respeito à recusa virulenta. Quem busca reinventar a vida em palavras tem de ser capaz, ou pelo menos, tentar tocar a Realidade, não o realismo, que continua a ser a doença infantil da literatura brasileira.

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Sidney Rocha / Foto: Anny Stone

DA – Ministrar oficinas de escrita criativa e leitura crítica se tornou muito comum entre os escritores. Você abriu um curso recentemente, onde estabelece como um dos objetivos principais o exame da “emoção”. Pode detalhar essa história?

SIDNEY ROCHA – O curso foi uma tentativa mais de estimular leitores que formar escritores. Se a tarefa de um escritor é, por excelência, antiacadêmica, é natural que um curso que se dedique a percorrer os caminhos da escrita se concentre na emoção. Se um arquiteto como Le Corbusier falava de máquinas de morar e mover, um escritor move-se pela emoção, mora na emoção, ela é a sua casa, o seu meio de transporte. Foi isso que tentei despertar nos alunos-escritores-leitores no modesto, rápido e introdutório curso. Um exercício de sensibilização, mais do que a carpintaria da escrita.

DA – Em Fernanflor há a afirmação que “todo retrato é um retrato falado – ou uma imagem que fala”. Nesse jogo, em que o objeto se livra do criador e se torna outro por via da linguagem, é onde se encontra a chave da sua libertação: a experiência direta, sem intermediários?

SIDNEY ROCHA – Que pergunta profunda e, portanto, difícil. Creio até que já contém a resposta, tão rica ela é. O fato é que a linguagem tem muitas dimensões e camadas. Mas não é a própria linguagem um meio? E sendo meio, intermediária? Ainda não chegamos àquele estágio reclamado pelo poeta Rimbaud, de uma linguagem de alma para alma. Talvez não haja chaves nem portas, para prosseguir na metáfora que você usou, e não haja também uma experiência direta e sem intermediários, exceto no misticismo, e literatura não é misticismo, embora, para muitos seja uma forma de mistificação.

DA – Nesse caso, sua afirmação caminha no sentido oposto ao dos estruturalistas, que viam a linguagem como fim e nunca meio. O conteúdo para você é tão importante quanto a forma?

SIDNEY ROCHA – A linguagem é meio, é fim, é princípio. A ambição de todo escritor é que a forma e o conteúdo estejam de tal modo em harmonia que o leitor não note que haja diferença entre uma coisa e outra.

DA – A Lutécia de Cristina e Jeroni Fernanflor evocou em mim a lembrança da estranha e lúgubre cidade de Fernanda, esposa de Aureliano Segundo em Cem anos de solidão. Qual o lugar da literatura hispânica sul-americana na construção do seu imaginário? Crê que o realismo mágico esgotou inteiramente suas possibilidades estéticas?

SIDNEY ROCHA – Todas as cidades podem ser lúgubres e estranhas, e uma das artes das boas leituras, como a que você aponta, é estabelecer correlações que nunca ocorreram ao escritor no momento em que escrevia seu livro, pela simples razão de que ainda não ocorreu a influência desse imaginário da literatura hispânica em mim, a realidade da América, sim; algo diferente do realismo, claro, com magia ou não. Coisas como Realismo Mágico e Autoficção são clichês inventados pelos acadêmicos e a mídia apenas para designar práticas tão comuns na narrativa desde que o primeiro não-escritor contou a primeira história.

DA – Guerra de ninguém será o nome do seu próximo livro de contos? Ele fechará uma trilogia ou não apresentará vínculo com os dois antecessores? O tema central seria o desencanto com a falta de perspectivas para um bem comum coletivo, a falta de horizontes políticos?

SIDNEY ROCHA – Sim, será o terceiro livro de um conjunto publicado pela Iluminuras, mas, como os anteriores, o conteúdo não está necessariamente atrelado a horizontes políticos, nem a regiões ou espaços específicos, e nunca faltarão as viúvas das vidas secas para reclamá-los. É um livro sobre seres humanos de qualquer parte. Os nomes das pessoas e das cidades não são nem simbólicos nem pontos de inflexão ou reflexão, apenas a maneira lúdica que tem um escritor de nominar o que não poucas vezes é inominável.

DA – Mas não há um tema, questão ou ideia comum a atravessar os contos?

SIDNEY ROCHA – Escrevi Guerra de Ninguém sonhando que o livro fosse um imenso campo minado.

DA – Essas indefinições de horizonte político e espaço físico também se estendem ao tempo histórico?

SIDNEY ROCHA – São vários tempos e várias histórias. O modo de tratar tudo isso, e também as vidas dos personagens, está longe de qualquer solenidade ou preocupações com ideologias. Ainda que algumas dessas figuras sejam nomeadas e tenham cenas de suas vidas reais identificadas por algum leitor que conheça suas biografias, vivem mesmo é no espaço literário, este é o seu horizonte.

DA – Pode dar uma pista de qual seria esse conflito sem combatentes insinuado no livro, o que os leitores podem esperar de você?

SIDNEY ROCHA – Os combates são os cotidianos, os dos sonhos de uns, as desilusões de outros, e, como em todas as guerras, os limites, os extremos, as derrotas estão em questão.

 

Lima Trindade é autor de “Todo Sol mais o Espírito Santo” (contos, 2005), “Supermercado da Solidão” (novela, 2007) e, entre outros, “Aceitaria tudo” (contos, 2015). Foi editor da revista eletrônica Verbo21 por mais de quinze anos e é mestre em teoria da literatura pela UFBA.

 

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114ª Leva - 08/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Cândido Rolim

 

milton-boeira
Foto: Milton Boeira

 

FIBRA

 

Arranca do corpo a
camisa listrada levemente
defumada de suor e salga
Nas ranhuras da pedra
água e detritos de um
sabão de cor azul –
tempo inestimável
Até prender-se à grade
da janela deixando que
a gravidade e o vento
refaçam esse afinco: arrancar
fio por
fio
a memória dura de esvair-se

 

 

***

 

 

ESTE CAMINHO

 

este caminho
ninguém sabe onde
começa só
nós – suspensos – entre
um pressentimento e
outro

 

 
***

 

 

Desculpe, but

 

Desculpe, mas pertenço a um mundo desvirtuado
Também não me sinto moralmente apto a
tirar da experiência um lema
Desculpe, mas minha formação musical é promíscua
Desculpe, infelizmente essa metáfora não me atinge
Obrigado, mas não vivo de ênfase
Desculpe, não planejo dizimar a ideia contrária
Desculpe, mas não concluí a tarefa com êxito

 

 
***

 

 

A RAZÃO PERIFÉRICA

 

Esses só
vistos quando e
onde in
visíveis

Esses ausentes
estofos da
razão que os
alveja

Esses que
por motivos bem
diferentes
nascem

 

 

***

 

 

FICHÁRIO

 

Aquela vida que não
serve de presente nem traz uma
lição ou clareza de propósito.
Sem um proceder moralmente aproveitável lições
virtudes adquiridas.
Aquela vida sem fato
digno de nota.
Aquela
vida.

 

 

***

 

 

Essa leveza

 
Tipo peso se
ausenta
da cama
e………….. é
percebida: o corpo desloca
a transparência

 

Cândido Rolim nasceu na região do Cariri, sul do Ceará. Morou em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Porto Alegre. Atualmente trabalha em Fortaleza. Tem poemas, resenhas e ensaios publicados na internet, em revistas e jornais (clareiranaselva, cronópios, germinaliteratura, corsário, sibila, jornaldepoesia, Continente Sul, etc). Publicou os livros “Arauto” (Edições Dubolso, Sabará/MG, 1988), “Exemplos Alados” (Letra e Música, Fortaleza/CE, 1997) e “Pedra Habitada” (AGE, Porto Alegre, 2002), “Camisa qual” (Èblis, Porto Alegre, 2010). E-mail: candidorolim@hotmail.com

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114ª Leva - 08/2016 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

As dexistências em Victor Prado

Por Lisa Alves

 

capa-bastardo

 

”Bastardo” é uma obra poética desmembrada em três capítulos, “Voçoroca”, “Passeio” e “Caleidoscópio”, e possui cerca de 57 poemas dentro de 124 páginas. O livro foi lançado recentemente pela Editora Urutau (que já chama atenção pelo design e qualidade de seus livros e a acertada escalação do corpo de autores). Victor Prado (1995) reside em Franca/SP, publicou dois livretos digitais Mamute (2014) e Onde Eu Poderia Estar (2016). Tem poemas publicados na revista Mallarmargens, Diversos Afins, Enfermaria 6, Jornal RelevO, entre outras revistas e sites literários.

 

“Mas dizer sempre é pior do que ouvir.”

 

Clarões, pequenas interrupções, movimentos e a linguagem arriscando explicar os desentendimentos que nos cercam em torno da palavra. Tenho a sensação que estou assistindo um filme, mas é um poema, o primeiro, talvez o principal – aquele que batizou a obra de Bastardo“.  Lembrei de Blanchot em “Espaço literário”, quando diz que ler não é obter comunicação da obra e sim fazer com que a obra se comunique. Sou leitora, escritora e não tenho condições de criticar qualquer obra literária, mas posso comunicá-la tal como ela se comunicou comigo. Mas advirto: a obra poética de Victor Prado não é explicável, não é uma composição química que podemos separar os elementos envolvidos. Sendo assim, é preciso ler “Bastardo” e degustar uma, duas, três ou infinitas vezes. Vamos lá?

Um dos pontos que mais me atraiu durante a leitura do livro foi a reprodução de títulos seguidos por números, indicando uma sequência ou uma série – confesso que inicialmente fiquei incomodada, afinal de contas o 5 não pode vir antes do 2. “Não mesmo? Quem disse? Quem determinou?” – me questiono. Então lembro à leitora (aqui dentro) que na arte a ordem temporal linear é inútil (ou no mínimo desnecessária) e então afogo meu suposto incômodo e volto a imergir na obra de Victor. Lembrando que vários outros poemas de “Bastardo” seguem também a sequência numérica, tal como os poemas “Arquitetura de Percepção”, “Sábado”, “Domingo”, “Confissão” e “Mal-Estar”, porém comentarei apenas duas séries, pois não pretendo dissecar a obra de ninguém (não acredito em roteiro para leitor), tal como não desejo que façam com a minha, é irresponsável e pretensioso. Acredito que cada leitor é capaz de procurar o próprio caminho durante a comunicação com uma obra (independente do gênero). Sendo assim, destacarei então as sequências “Não-Sei-Onde” e “Domingo”.

A série “Não-Sei-Onde” me trouxe a percepção de uma constante fragilidade na voz do eu poético – uma voz brotada das profundezas, uma voz que assessorou na montagem de um mosaico recheado de quedas, naufrágios e soterramentos. O primeiro poema da série se encontra no primeiro capítulo, “Voçoroca”, é intitulado por “Não-Sei-Onde 5″ e discorre acerca do desmoronamento do ser ao lidar com sentimentos (próprios ou de outros):

(…)

Tua saudade me engole
e eu murcho e sou engolido

 

Não saindo para muito longe, no mesmo capítulo, encontro “Não-Sei-Onde” (agora sem número), que versa o autoconhecimento (nem sempre bem-sucedido) e fatidicamente tem o afogamento como resultado. Paro para digerir o poema e percebo o amplo dedo na ferida que Victor decidiu empregar. De fato, quando nos analisamos de forma profunda não somos capazes (no primeiro minuto) de mergulhar e ter a dimensão da profundidade que estamos nos lançando e tampouco temos a ideia das armadilhas que nos esperam. Mergulhar pode ser um caminho sem volta:

(…)

Mergulho
e desapareço

 

Já lá no segundo capítulo, “Passeio”, dou de cara novamente com outro “Não-Sei-Onde 2” – mais uma vez a série aborda o encobrimento, a ocultação, só que, diferente do primeiro capítulo, o poema atravessa antes pelos escombros materiais do que psicológicos. Victor nos lembra de Mariana – a cidade soterrada pela lama (a lama não metafórica “é a lama, é a lama”) e a lama não para por aqui, outra vez ressurge no poema “Não-Sei-Onde 4“:

(…)

De outros mangues
e critério
e achismos
Me afundo nesta lama
de não-sei-o-quê.

 

E a série é finalizada no capítulo com “Não-Sei-Onde 3”:

(…)

Dexistimos em períodos iguais
Rexistimos com frequências diferentes.

 

Na série “Domingo”, há dois grandes poemas, duas pérolas comoventes e que convidam o leitor a desvestir da própria carne e se lançar no outro, no diferente, no estrangeiro. Leiam os dois poemas na íntegra:

Domingo (cap. Voçoroca, pág. 37):

 

Entro no mercado
e vou ao açougue
E lá está ele:
um japonês-brasileiro
E aquele rosto
me lembra outro mundo

/

me bate uma vontade
de ir pro Japão
de abraçar o japonês
De deixar a fila
sair do mercado
de recomeçar tudo
em outro lugar
em outro tempo
de novo.

 

Domingo 2 (cap. Passeio, pág. 60):

 

O japonês vai embora,
continuo na fila
Um senhor de idade
fura fila e conversa
com o homem na minha frente
Eles sorriem
eu sorrio junto
como se fizesse parte da conversa
O senhor pesa suas batatas
e vai embora
(a fila aumenta)
Eu sou o próximo.

 

“Bastardo” de Victor Prado é um convite poético para um quebra-cabeça sem figura definida. Quer sentir? Então siga além e não se deixe levar apenas por minhas limitadas percepções.

 

Lisa Alves nasceu em 1981, é mineira (Araxá/MG) e radicada em Brasília. É curadora da revista Mallarmargens. A autora tem textos publicados em diversas revistas e páginas literárias (nacionais/internacionais), e poemas publicados em sete antologias lançadas no Brasil, Argentina e País Basco. Lançou em agosto de 2015 seu primeiro livro de poesia, Arame Farpado, pela editora carioca Lug em parceria com o Coletivo Púcaro.

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114ª Leva - 08/2016 Destaques Olhares

Olhares

As inexplicáveis visões da rua

 Por Fabrício Brandão

 

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Foto: Milton Boeira

Um simples movimento para além de nossos domínios supostamente protegidos e muita coisa já parece diferente. E tal transição não é feita apenas de mudanças do ponto de vista físico, mas essencialmente de alterações de percepção, algo que habita o campo abstrato da vida.

Estar na rua é, para muitos, um necessário exercício de libertação. Mas aqui não falemos de um conceito encerrado apenas nas infindas possibilidades de um ir e vir, o que nos apresentaria de imediato uma noção mais óbvia de liberdade. Pensemos naquilo que nos aguarda quando entrecruzamos nossas experiências com as de tantas outras pessoas, as quais automática, rotineira ou despercebidamente também constroem o mosaico complexo das cidades.

Bem sabemos que o concreto e suas múltiplas acepções arquitetônicas são uma espécie de lado aparente das coisas, quiçá dos sentimentos humanos. No entanto, é percorrendo alguns sinais deixados pelos ímpetos pretensamente civilizatórios que conseguimos entender um pouco que tipo de gente empresta seus tons à dinâmica de ruas, avenidas, esquinas, moradas, pontes, torres, viadutos, catedrais e arranha-céus.

Há quem nos permita saborear a experiência visual dos lugares numa atitude ao mesmo tempo contemplativa e densa. É o caso do fotógrafo Milton Boeira, artista que estabelece uma especial maneira de mergulhar no universo urbano. Cada apresentação dos espaços contida nas lentes dele faz com que nos sintamos abraçados pela poética emanada de um vasto tempo, personagem que se desloca ditando o ritmo da existência.

milton boeira
Foto: Milton Boeira

Depois de promover um mergulho de anos à caça de imagens urbanas que melhor definissem sua procura, Milton chega num resultado ao qual batizou por “Metrópole”, projeto que lhe rendeu duas exposições individuais. O saldo dessa busca é um verdadeiro acervo de sensações, seja na forma como retrata pessoas e lugares, seja no modo como extrai do todo observado um sentido de pertencimento.

É justamente por se sentir parte integrante do espaço urbano captado que Milton Boeira faz de sua arte um espelho de vivência. Em lugar de observar a tudo com estranhamento e enaltecer distanciamentos proporcionados pela alteridade, coloca-se como um ser componente do mundo por suas lentes apresentado. Tal sentimento é tão amplo que o artista nos confessa: “Me sinto parte da rua, da calçada, da arquitetura e principalmente das pessoas”.

Nascido no Rio Grande do Sul, Milton atualmente reside em Curitiba, cidade que lhe possibilitou estudar fotografia como arte. Apropriando-se de um conceito denominado Pós-Fotografia, além de uma marcante influência das Artes Gráficas, aponta como norteadoras do seu trabalho de construção visual temáticas ligadas a pessoas, arquitetura, natureza urbana, signos, cultura, dentre outras.

Se há uma contraposição habitual entre interno e externo, duas esferas de vivência aparentemente diferentes, a arte de Milton Boeira parece ignorá-la. É como se fazer parte do mundo fosse o entendimento de uma coisa só: visitar e sentir paisagens urbanas sem perder dessa experiência o valor dos instantes, o poder dos deslocamentos imateriais.

Milton Boeira
Foto: Milton Boeira

 

*As fotos de Milton Boeira fazem parte da galeria e dos textos da 114ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.

 

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114ª Leva - 08/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Liv Lagerblad

 

milton-boeira
Foto: Milton Boeira

 

entrecerro os olhos e o olho trans-consciente gira
cerro os olhos e o estrondo do sonho sacode-me as omoplatas
um pio baixo / um silvo / a nuvem prata no horizonte
deito-me com ícelo e morpheus ao lado
é como deitamos todos mas a metamorfose de aromas
não mente .
animal ferido gane nas redondezas

as coisas respiram em ondas volumosas de calor
em oscilações e um momento é frangalho, outro faca
pudera corresponder à grandiloquência
esse tutano plúmbeo, essa pedra incrustrada no peito
lá fora alguém cantarola um funk

onde útero um concílio de vespas
frequência um marasmo e à volta chistes
coincidente o calo na garganta, foz do bolor no verbo
e a derme arredia de algumas relações poucas

 

 

***

 

 

Amo sem dono / meu corpo-casa
Sem dono a casa que me faz sólida
Desaba qual n’O Espelho
O reboco do teto. Sobre meu corpo nu
Meu corpo nu embaixo das vestes
Sempre, com todas as ranhuras : nu
Retinindo sua marca na terra

Meu corpo nu e sujo sobre a grama
Sobre os ciprestes sujo, nu, repulsivo
Sobre o asfalto, coberto de relva
Na mata, no cimento, no mar
Nu. Imundo. Esverdeante pele clara
Esse corpo ainda & nunca outro.

 

 

***

 

 

todo impropério é o por quê da fome amarga
dia turvo da hora turva como magma que se resfriasse
açoite que se fizesse perene de uma luz abundante
carvão transmutado em diamante
são o mesmo
disse–me joana d’arc palpitando entre as labaredas
o abismo era cavado com os pés
estômago,
é de aço pra caber o plúmbeo dos braços que sopesam
desejar ardente uma chaga
que fizesse parte do estado das coisas latentes
rasgasse entre os dentes
despontar ilesa do outro lado do labirinto
sólida como pedra que há no meio do caminho
há no punho cerrado que se desvela e erra o alvo
há no coice na foice na voz amedrontada e firme
há no vínculo desconexo e frouxo qual laçarote desfeito
ah no fumo que trago e trago como fosse sanar–me o vazio

 

 

***

 

 

quando se espreme uma esponja suja
em cima de um papel, ela:

 

1. mancha as folhas
2. fica mais leve
3. libera um líquido asqueroso
4. continua parcialmente úmida

 

 

***

 
1

honey baby está tão cansada que também não acredita em si
mesma
o livro-cinza ao seu lado exala um cheiro de cera
apareceu na escada um recorte de papel com a letra A
como fazer um texto sem essas premissas?
esse texto branco, como a letra seca da lei se pretende
quando começo, azeda linha
agora plácida, inteiriça
nenhuma língua que eu não possa desossar me é válida
nenhum poeta ganha os créditos no reino das referências
se preciso refaço os caminhos
pra chegar ao mesmo ponto as entranhas
tão um só pedaço de carvão úmido
discretamente secretam certas fuligens opacas
restam algaravias mal–ajambradas
cá estão fleumáticos os grampos como frames que se colam
[às retinas
pudera ser touro me lembro do rapto de europa:
a imagética figura do colonizador era uma musa fragilíssima
e que ornou de flores a testa de zeus
transmutado em touro branco : não tendo medo é que teve
fim posto que dançava nua à beira–mar
e carregada pr’além mar
foi mesmo colonizada, dilacerada

 

 

***

 

 

Today

 
cada um que me passa pela rua é um soco no estômago
demasiado strong
to my sensitive stomach : they say smack they say boa noite e
cachaça
they say num lasco da tua carne eu passo a faca
mai lirou bitxe letis renguin aut togeder
and i’m saindo pela culatra e dizendo no no no
let’s fuck until we die in the moment of the orgasm
diz no meu ouvido
i’m
always
like
no
no
tanks

 

Liv Lagerblad, poeta e artista plástica, nascida em 89, serpente no horóscopo chinês, um livro publicado, com pdf disponível online no site da editora Cozinha Experimental na coleção kraft, onde foram publicadas as primeiras recolhas poéticas de dez poetas. Outro no prelo pela editora Urutau, chamado “o crise”.  

 

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114ª Leva - 08/2016 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Márcia Barbieri

Milton Boeira
Foto: Milton Boeira

Carta a um anônimo

Não, não te escrevo do silêncio incômodo das madrugadas, embora tenha certo apreço pelos guinchados dos ratos domésticos, escrevo com o barulho imperceptível dos automóveis, o barulho das velhas máquinas de ponto, os ruídos dos estômagos de crianças famintas e com o sol se pondo em algum beco que não posso prever. Quando nos habituamos à loucura das cidades, os rumores deixam de ser ensurdecedores. Pensei muito sobre tudo que me disse, agora tento me organizar e respondo um pouco das suas indagações, contudo nunca tive o dom da clareza, não herdei o cérebro sistemático de certos predadores. Me pergunto, como poderíamos manter uma encenação amorosa dentro desses hotéis baratos com ambientação minimalista e objetos impessoais, com toalhas e lençóis mal higienizados e com espelhos embaçados duplicando o trágico-cômico de nossos corpos? Não sei se já te disse o quanto ando cansada de ter um corpo, preferia ser feita desses materiais sintéticos e impermeáveis, que se lava de quinze em quinze dias.

Como poderia te oferecer a ilusão de um amor se tenho consciência que tudo não passa de uma mentira burguesa bem contada? Nos ludibriaram feio, pode crer. Como posso dormir sossegada nos braços de um estranho se o amor não passa de um disfarce para negar nossa íntima semelhança com os primatas? Sim, sinto decepcioná-lo, embora saiba que você não é ingênuo, apenas se recusa a acreditar que animais são seres fatigados e não se procuram além da carne, não passamos de macacos com terno, gravata e emprego fixo.

Como te enganar se o desejo apodrece rente aos latões de lixo e a rua mal iluminada? Se a morte também estraga os cadáveres jovens? Se a vontade se desvanece perto dos cachorros sarnentos e abandonados pelos seus donos, que procuram bichos menos trabalhosos e mais ornamentais? Como ainda querer se há muito me perdi entre as compotas vermelhas, a pia abarrotada de louça e as faturas exorbitantes do cartão de crédito?

Não posso deixar esse espaço quase claustrofóbico, mesmo por poucas horas, apenas na invalidez desses cômodos eu suponho o significado da palavra imensurável, aqui eu já conheço o hábito das formigas, sei onde devo espalhar o inseticida, já experimentei a fúria dos marimbondos, conheço os pardais entediados que batem com frequência nas vidraças fechadas, sei onde as rachaduras deram lugar a infiltrações impossíveis de conter, sei onde as aranhas tecem suas teias e esperam compassivas para devorarem suas presas, sei em quais buracos as minhocas se escondem, sei o trajeto suicida dos pernilongos, sei da fome mediana dos peixes de aquário, sei como os cupins foram desaparecendo quando trocamos os móveis de madeira maciça pelos de MDF, sei que as abelhas sumiram há algum tempo e muitos afirmam que isso é uma das piores catástrofes ambientais e trará danos irreversíveis, mas nos calamos, agoniados pela cumplicidade do mesmo assassinato, a verdade é que a polinização das abelhas nos parecia afrontosa.

Como posso te vender um engodo? Se ao menos eu tivesse o corpo bonito, apetecível… se pudesse subtraí-lo ou doá-lo… No entanto, meu corpo é pesado, insosso, sem querer me recordo da anatomia intrigante dos elefantes, sinto a flacidez se instalando no meu ventre, as pernas perdendo os músculos, a gordura se acumulando e me proporcionando o aspecto de um ser dócil e inofensivo como as toupeiras. Invisível sim, não entendo como pode reparar na minha existência transparente, depois de certa idade as mulheres deixam de ser enxergadas, nos tornamos fantasmas gordos, cansados e sonolentos e quase sempre atrapalhamos a felicidade inconsequente dos adolescentes, porque fazemos questão de explicar antes de sermos interrogados sobre as necroses das paixões.

Entretanto, se apesar de tudo isso ainda me quiser, venha, eu te espero, mas venha rápido, pois está entrando dezembro e as baratas voadoras costumam romper os ferrolhos e se instalar nas frestas poeirentas da veneziana.

 

Márcia Barbieri é paulista, formada em Letras e mestre em Filosofia. Tem textos publicados em várias antologias e nas principais revistas literárias brasileiras. É uma das idealizadoras do Coletivo Púcaro e do canal Pílulas contemporâneas. Publicou os livros de contos “Anéis de Saturno” e “As mãos mirradas de Deus”, os romances “Mosaico de rancores” (no Brasil pela Terracota e na Alemanha pela Clandestino Publikationen), e “A Puta”. O romance “O enterro do lobo branco” será lançado esse ano pela editora Patuá.

 

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113ª Leva - 07/2016 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Rety Ragazzo
Desenho: Rety Ragazzo

 

Quantas acepções cabem na palavra continuidade?  Por certo, um sem fim de significados. Mas talvez o mais importante deles seja o da manutenção de um desejo: fazer com que a chama de um projeto permaneça viva e disposta a se nortear pelas virtudes necessárias da mudança. E o tempo assinala desafios trazendo para perto de nós sinais de que outros diálogos são necessários. A Diversos Afins obriga positivamente seus editores a um salutar estado de alerta, qual seja o de perceber novas possibilidades que agregam valores criativos. Seja nas artes visuais ou sob a forma de textos, pessoas surgem diante de nossos domínios ofertando suas peculiares experiências de conceber o mundo. É deveras interessante sermos surpreendidos com arremates poéticos ousados ou construções diferenciadas do olhar. Isso prova que não há espaço para a monotonia em nossas vidas, pois podemos usar as ferramentas de expansão da arte como importantes aliadas no processo do entendimento sobre nós mesmos. Não se trata de ocupar o tempo ou a mente para matar o infame tédio de algumas humanas horas, mas de abrir caminhos sugeridos de vivência e, com isso, saborearmos inusitadas sensações. É gente como a artista plástica Rety Ragazzo, que agora ilustra a nossa atual edição com uma singular visão de mundo, capaz de romper padrões impostos e apontar vias de libertação do olhar. O momento é feito também das reflexões do escritor Tadeu Sarmento numa entrevista concedida a Sérgio Tavares, conversa marcada por uma salutar criticidade ante o complexo palco das realizações literárias. Registramos os ímpetos da poesia de Clarissa Macedo, Tiago Dias, Marília Floôr Kosby, Maíra Mendes Galvão e Rita Isadora Pessoa. Há um olhar aguçado de Guilherme Preger para o filme brasileiro “Aquarius”, do diretor Kleber Mendonça Filho. Carlos Trigueiro revisita memórias numa merecida homenagem ao saudoso escritor cearense Nilto Maciel. Diferentes cenários surgem em meio às narrativas de Vicente Franz Cecim, Maira Moura e Geraldo Lima. O mais recente trabalho musical de Liniker e os Caramelows está presente nas detidas escutas de Larissa Mendes. Num ensaio, Shirlene Rohr de Souza mergulha fundo na obra do poeta Jorge Elias Neto. É a terceira etapa das celebrações dos 10 anos da revista refletida numa 113ª Leva. Boas leituras!

Os Leveiros

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113ª Leva - 07/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Tiago Dias

 

rety-ragazzo
Desenho: Rety Ragazzo

 

Os poemas seguintes são uma singela homenagem a Orides Fontela, o verdadeiro pássaro de sol que ainda existe.

 

Nunca amar o que não vibra nunca crer no que não canta*

 

deixar a porta aberta para varrer o chão
com a voz entardecida ter no canto a cigarra
a escrever um haicai sabido que da vida
leva-se as chances de ter cantado.
no movimento dos braços a fé no suor
a construir a dança fecunda
como os pés apoiados no chão
varrer o chão com a porta aberta
ter as primaveras para lembrar
da procrastinação ou não
esquecer para olhar o céu
agrestes pássaros de sóis

 

 
***

 

 

Ouvir um pássaro agora ou nunca*

 

feitos de fotografias e espadas
penduradas na parede branca
seus gestos são o pêndulo
a oscilar natural
o prego
por detrás das fotografias e espadas
tal como a sacada
as flores de álcool e vozes
sob a sacada ainda
todas as cabeças planetas
sob a sacada axiomas

 

 
***

 

 
Mais vale o canto agreste do que o vívido silêncio branco além do humano sangue*

 

a nossa voz vive
no oco do oco
de onde levanto os olhos
mesmo que ofusque
as retinas e siga
desfocando tudo talvez
essa seja a solução
quero beber da mesma água
em que me banho
a correnteza arando as minhas costas
esfoliando a pele preparando
quero ser solo sempre

 

 
***

 

 
Ouvir um pássaro é sempre*

 

há uma linha indizível
dentro de cada um de nós
por onde escorregamos
um paradoxo que bebemos
comemos como tremoços
não há nada mais fluido
do que a vida uma linha
não virgem
mas intensamente
…………….prenhe
de outras linhas mais finas
que desenham motores
ventanias tufões alaridos
cores até cores

 

 
***

 

 
Mais vale o pássaro mais vale sangue*

 

o anti-pássaro carrega
em suas asas o olhar
sobre o seu tempo nada
é mais urgente nada
do que o seu voo
manipulando a luz
na nossa face e pensa
que é muito fácil ser adorado
o anti-pássaro é o sangue

 

 
***

 

 
A estrela da tarde é infecunda e altíssima*

 

carrego no bolso uma folha
de erva-cidreira para aceitar
o vermelho da rosa entre espinhos
carrego o bolso furado
e o coração atento
para o que posso dar
quando faltar-me o chão
novamente o que posso dar
como pingos de chuva a cair
no mar somos água
enchendo e vazando carrego
no bolso uma folha

 

 (* )Orides Fontela

 

Tiago D. Oliveira, de Salvador-BA, professor e pesquisador, estudou letras na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e na Universidade Nova de Lisboa (UNL). Tem poemas publicados em blogs, portais, revistas e jornais especializados como Avenida Sul, Canal de Poesia, Cronópios, Cultverso, Enfermaria 6 (Portugal), Escamandro, Hyperion (UFBA), Literatura Br, Mallarmargens, Musa Rara, Revista Saúva, Janelas em Rotação e Jornal Livre Opinião. Em 2014 teve seu primeiro livro editado de poesia, “Distraído”.

 

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113ª Leva - 07/2016 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

SÔBOLAS FRONTEIRAS

Por Carlos Trigueiro

 

Nilto Maciel
Nilto Maciel / Foto: arquivo pessoal

Em 15.04.2014, o carteiro que entrega a correspondência do prédio onde moro no Rio de Janeiro (entre o Jardim Botânico e a Lagoa Rodrigo de Freitas), deixou na portaria, dentre envelopes, jornalecos, convites e contas, embalagem proveniente de Fortaleza (CE), identificada como livro remetido por Nilto Maciel, autor que eu sabia também pesquisador, crítico, memorialista, editor, poeta, ensaísta e ficcionista talhado, penso, no seu ambíguo fazer literário: percepção evanescente do mundo ao redor e questionamento fixo sobre a própria existência.

O porteiro do prédio costuma entregar a correspondência dos moradores pela hora da Ave-Maria (expressão varrida pelo tsunami da tecnologia). Coincide com o meu retorno da caminhada diária à borda da Lagoa Rodrigo de Freitas, após suar por quatro, cinco, seis quilômetros conforme disposição interior e reação às paisagens e segurança exterior. Sim, também poderia dizer “sôbolas paisagens” – já que “sôbolas” é expressão arcaica, quinhentista/seiscentista, e significava “sobre as” como aparece em textos camonianos.

Tão logo cheguei a casa e abri a correspondência, estava lá o último livro publicado por Nilto Maciel: “Sôbolas manhãs” (Editora Bestiário, Porto Alegre/RS, 2014, 260 páginas). A dedicatória, surpreendente para mim, não veio manuscrita na primeira ou segunda página como em seus outros livros que me presenteou, mas impressa num papelote: “A Carlos Trigueiro presenteio este exemplar de ‘Sôbolas manhãs’. Tenho dúvida de ter ou não mencionado seu nome em algum dos artigos. Não pude organizar índice onomástico. Se quiser ler ou dispuser de tempo, ficarei muito grato. Tenho certeza de ter escrito um livro de boas ideias ou, pelo menos, com o melhor dos intuitos: o de divulgar os escritores brasileiros avessos ao ‘jornalismo de resultado’, à crítica tendenciosa e aos vendedores de pedras falsas. Fortaleza, 27/3/2014.”.

Ao ler o raro título do livro e sapear capa, cores, índice e quarta de capa, logo constatei uma coletânea variadíssima, dividida em quatro partes, abrangendo crônicas, memórias, registros de viagens, artigos, críticas, e no dizer do autor: “algumas considerações, nada científicas ou acadêmicas, a respeito da gênese (no indivíduo) da escrita literária, do processo criativo e da constatação de que a minha agonia – nada tem de fantástica ou sobrenatural. Porque tudo é feito de barro e servirá a outras construções ou simplesmente será levado ao lixo ou ao cemitério do esquecimento.”.

Nem a orelha do livro, com dados biográficos do autor (nascido em 30.01.1945, no sopé da Serra de Baturité), mencionando devaneios revolucionários de adolescente, nem seus muitos prêmios literários nacionais e estaduais, nem o conteúdo dos respectivos livros agraciados, dentre outros, “Tempos de mula preta”, “Os luzeiros do mundo”, “Punhalzinho cravado de ódio”, “A última noite de Helena”, “Pescoço de girafa na poeira”, “Vasto abismo”, nem mesmo “O cabra que virou bode”, transposto para a tela (vídeo) por Clébio Ribeiro em 1993, retratariam a personalidade incrédula de Nilto Maciel, mormente nos últimos tempos, do que suas próprias palavras transcritas no parágrafo anterior.

Outros comentários de Nilto Maciel também poderiam retratar seu estado de espírito nos últimos anos. Na página 112 de “Sôbolas manhãs”, por exemplo, ele registra que, ao publicar o primeiro capítulo de “De meu sol nado”, respondeu a amigos escritores que lhe aconselhavam cuidados, isso e aquilo sobre suas citações a respeito de gênios da Literatura mundial. Daí que a certa altura dos comentários, solta bem ao seu jeito: “Tenho lido gênios e medíocres também. A vida não pode ser feita só de alturas. É preciso chafurdar na lama também. Ser porco alguma vez.”.

Em verdade, nos idos 28 de janeiro de 2013, datado por ele mesmo na página 113 de “Sôbolas manhãs”, Nilto andava às voltas com a sua coletânea de artigos de mais de trinta anos e título estranhíssimo: “Gregotins de desaprendiz.” Na ocasião, registra não conseguir ler tudo o que os numerosos amigos escritores lhe enviam (diz ter 53 livros para ler), embora vivesse exclusivamente para a Literatura, e também confessa seu comportamento suicida: “ler e escrever sem parar, beber e fumar (já parei), viver em cidade grande, dirigir carro, comer em restaurante, ver televisão, etc.”.  Era assim que respirava, sofria e vivia a sua agonia literária, além de repugnar: “as editoras não investem em literatura, a mídia não dá a mínima importância ao livro…”.

Conheci Nilto Maciel em 1976, quando (aqui peço licença poética) se juntou a outros escritores “entre caminhos e palavras, diversos e afins”, e participou da invenção e publicação da revista literária “O Saco”, ousadia sem par naqueles tempos tupiniquins militarizados. E “O Saco”, esteticamente, parecia ou era mesmo não mais que uma espécie de envelope, na verdade um saco de papel encorpado, onde cabiam páginas soltas (ou quase) contendo textos literários de diversos autores brasileiros, cearenses ou não. Surpresa nacional: “O Saco” vazou sôbolas fronteiras do Ceará e inundou o Brasil.

Por acaso (ou os fantasmas que visitam os escritores me sopraram) dei de cara com a publicação dependurada numa tradicional banca de jornal chamada “Boa Sorte” no bairro do Leme, no Rio de Janeiro, na esquina das ruas Aurelino Leal com Gustavo Sampaio. Na época, morador das redondezas e antigo conhecido do jornaleiro, pedi para ver e manusear a novidade. Acabei comprando, lendo e matutando sobre “O Saco”, pois, mesmo não sendo cearense, assunto com o Ceará no meio é como ainda costumo dizer e registrar: saí do Ceará em 09.12.1956, mas o Ceará nunca saiu de mim.

Naqueles anos, eu costumava viajar muito a trabalho por nosso continental País. E calhou de, em fins de 1976, ir à Fortaleza, onde procurei a turma empreendedora de “O SACO”. Encontrei, dentre outros sonhadores, o Nilto Maciel (que me confirmou não se lembrar disso). À noitinha, num bar pelas bandas da praia do Meirelles, ou seria da Iracema ou, talvez, do Náutico — Deus saberá, diria Saramago — enfileiramos muitas cervejas regadas a conversas literárias e no idioma exaltado que a fantasia impõe aos escritores marginais. No avançar da noite, da camaradagem e conversa fiada, afiada e desfiada sobre “O Saco” (que se extinguiria em 1977), tudo entre copos, gostos, desgostos, tira-gostos e mulheres praieiras, adquiri uma tela do pintor primitivista cearense Chico Silva (sua marca registrada: briga de galos coloridos, datada de 1975) que ainda mantenho na parede do refúgio doméstico onde costumo escrever, ler e matutar.

Muito mais tarde, por volta de 1994, reencontrei Nilto Maciel (ele também nunca me confirmou isso) em Brasília, no lançamento do meu livro de contos “O Clube dos feios & outras histórias extraordinárias”, no bar CARPE DIEM que se prestava àquele tipo de evento e reunia gente de toda arte, parte e sotaque: autores, leitores, jornalistas, editores, músicos, políticos, estudantes, curiosos, servidores públicos, caçadores de autógrafos, mulheres rueiras amadoras ou profissionais. Na época, tirei pequenas férias e vim ao Brasil especialmente para o lançamento do livro no Rio de Janeiro e em Brasília, pois havia anos trabalhava no Exterior.

Depois disso, e porque a vida e o mundo dançam sem ritmo, passo, fronteira e tratos combinados, e muito menos com papel-passado, ficamos, Nilto Maciel e eu, anos e anos sem trocar palavra, mesmo tendo retornado definitivamente ao País em 1996. Porém, como disse antes, “saí do Ceará em 9.12.1956, mas o Ceará nunca saiu de mim”, e, aos poucos, tomei ou retomei contato, via publicações na internet, com alguns escritores cearenses em atividade (Raymundo Netto, Jorge Pieiro, Pedro Salgueiro, Soares Feitosa e outros).

Entrevista com o escritor cearense Nilto Maciel Foto: Marcos Campos, em 31/01/2009
Nilto Maciel / Foto: arquivo pessoal

Creio que por volta de 2010/2011 através de cruzamentos de blogs e revistas virtuais, reencontrei Nilto Maciel. E foi assim que conheci o blog “Literatura sem Fronteiras” — editado por ele — e a publicar textos de sua autoria ou de autores amigos cujas obras passavam por seu ríspido critério. Trocamos muitos e-mails, livros, informações e ideias de projetos literários até que Maciel se encorajou a publicar alguns textos de minha lavra no excelente “Literatura sem Fronteiras”.

Presenteou-me vários de seus ótimos livros, dentre outros: Contos Reunidos, Volume I e Volume II, Quintal dos Dias, Gregotins de desaprendiz, Como me tornei Imortal, Menos vivi do que fiei palavras, Os Guerreiros de Monte-Mor e o já citado Sôbolas Manhãs. Sobre alguns desses livros escrevi minhas impressões e que ele publicaria em seu blog.

Convém registrar sua predileção por colecionar e juntar manuscritos, bilhetes, cartas e afins de autores de todo gênero e de toda parte, a tal ponto que dizia ter milhares de documentos encaixotados. A propósito, narrou que, certa vez, Soares Feitosa o convidara para captar composições ficcionais de vários autores para o seu prestigioso JORNAL DE POESIA. Pois bem, Nilto Maciel enviou-lhe 500 obras! Pode-se imaginar o espanto de Soares Feitosa…

E como eu disse antes, o mundo e a vida dançam sem ritmo e passo combinados… Pois bem, Nilto Maciel convidou-me para uma conferência que iria proferir em 08.11.2011 sobre o tema “Epistolário hoje: e-mails, blogs”, nada menos do que na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro. Claro que compareci ao evento e ouvi sua palestra (abordada no seu último livro “Sôbolas Manhãs”). Acadêmicos o receberam e Nilto Maciel saiu-se muito bem principalmente com a experiência adquirida no seu blog “Literatura sem Fronteiras”. Creio que até saiu um pouco do seu estilo áspero e provocou risos na plateia lendo pormenores e dados de seu blog. Houve bom e interessado público. À saída, entre outros seus amigos escritores, cumprimentei-o e trocamos abraços. Inutilmente, tentei lembrar-lhe do nosso primeiro encontro em 1976, mas ele me confessou quase ao pé do ouvido a penúria em que se encontrava a sua memória (fato que registrou na página 120 de “Sôbolas Manhãs”).

Nos anos de 2012, 2013 e início de 2014 trocamos muitos e-mails. E por mensagem de 18.04.2014, convidou-me para participar do seu próximo projeto literário – um livro só de entrevistas com escritores. Respondi-lhe que aceitava o convite, mas pedi-lhe um prazo para iniciarmos a entrevista, pois eu estava terminando de escrever um romance.

Em 19.04.2014, respondeu-me por e-mail dizendo-se agradecido com a minha concordância em participar do seu livro de entrevistas, e, como era próprio dele, aproveitou para criticar um de nossos amigos escritores que se recusara a colaborar em seu novo projeto. Na mesma mensagem me antecipou como seria o teor da entrevista. Aquele e-mail foi nosso último contato, já que dez dias depois, em 29.04.2014, aos 69 anos, em casa, sozinho, Nilto Maciel atravessou a fronteira final deste mundo. Recebi a triste e inesperada notícia por e-mails de amigos escritores cearenses, além de ler pela internet o resumo da fatalidade no jornal O Povo, de Fortaleza.

Numa singela homenagem ao escritor Nilto Maciel, neste conjunto de edições comemorativas pela passagem do 10º Aniversário da prestigiosa Revista “DIVERSOS AFINS”, na qual também colaborou, transcrevo abaixo o seu “PERFIL NÃO CONVENCIONAL” de autor, redigido e rememorado por ele próprio na abertura do livro memorialista “QUINTAL DOS DIAS”, e que, penso, resume convicções presentes no seu espírito:

                     “PERFIL NÃO CONVENCIONAL”

“VENHO DA SERRA, do verde do Ceará, mas meus pais e avós vieram do sertão seco. Do tempo do trabuco, da injustiça, da perseguição, de Antônio Conselheiro (Antônio Vicente Mendes Maciel), aquele de Canudos, que as tropas militares massacraram. Não esqueci isso. Li a História desses povos, dessas gentes. Mas li também Camões, a Bíblia, Alencar, Machado, cordel, Moreira Campos. E me pus a escrever também. Mais para relembrar aquele povo e seus descendentes. Para recriá-los. Ou mesmo criá-los, porque talvez nada exista. O que existe é a obra de arte, que é ficção. Nada é real. Quanto mais antigo mais irreal. Ninguém me conhece, ninguém me lê. Sou marginal da literatura. Há muito deixei de sonhar com glórias e famas. Tudo isso é passageiro. O que é bom fica, permanece. Sem precisar de muletas, fanfarras, galardões, medalhas. Sou apenas um escritor de poemas, contos e romances.”.

Sou Carlos Trigueiro, amazonense dos igarapés, igapós e tucumãs; paraense do Ver-o-Peso, açaí e  muçuãs; cearense dos areais, coqueirais,  do mar de esmeralda e dos ciriguelas nos quintais; carioca do Rio Comprido, bloco do Bafo da Onça, dos bondes com reboque e do chope à beira-mar; castelhano das ruelas e dos “bocadilhos” de Madri e, claro, dos “cochinillos”  de Toledo; romano da “Via Appia”, da “Via Veneto”, do café “ristretto” e dos vinhos a granel ; chinês de Macau, provador de chás e aprendiz de “Tai-Chi-Chuan à beira do Rio das Pérolas; americano do meio oeste, curtidor do frio polar e das cafeterias de Chicago; enfim, brasileiro batizado, leitor atabalhoado e aprendiz de escritor ultrapassado.

 

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113ª Leva - 07/2016 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Maira Moura

 

rety ragazzo
Desenho: Rety Ragazzo

 

52 hertz

 

Muito longe das bravuras humanas, dos arcos urbanos e das balbúrdias eletro-retrógradas, dos klaxons e apitos polifônicos, das freadas aromáticas, do parquinho das crianças, do farfalhar e do piar, da massa atmosférica que uiva no campo, no deserto, na charneca, e mesmo longe das costas salgadas, das areias meladas e da última espuma.

Longe demais, em um universo todo azul, maior ou do mesmo tamanho que o universo estrelado; um sítio de densidade, iluminado por cima, trevoso por baixo, é onde mora a última de sua espécie. Queria dar um bom nome para ela, como uma espécie de consolo: “você é especial, merece nome de gente. Que tal Elizabete? Catarina? São nomes de rainhas”. A baleia tem olhos pequenos e doces e uma potente voz que satisfaz a música de todo um mar. Vaga pela estrada submersa de joias crustáceas e… “vaga”? Seria mesmo um vagar sem rumo ou teria um propósito? Não é por lhe faltar um papel na família tradicional, uma ocupação burocrática na conjuntura dos mamíferos marítimos, ou da idosa moderna, que ela seria uma vadia. Caso contrário, seriam os animais todos uns vadios. Nada disso. Ao menos para os animais, existe um propósito suficientemente definido e propriamente nominado: o Ciclo.

Mas a senhora não procriará, ela é a última de sua espécie.

Cresceu redondinha, adolescente tímida, embaraçada de sua própria falta de jeito perante os animais menores; sua dimensão astronômica que ao mesmo tempo que a aproxima dos outros seres (por uma questão espacial), a distancia dos mesmos. Tentou penetrar uma família de jubartes, como um pato criado por cisnes, mas só conseguiu que a chamassem “baleia feia”.

Baleia
Como és feia
Uma chata bedelha
Some, se der, esgueira
Que o mar te aconselha

Por isso geme. Na infância gemeu “Papai? Mamãe?”; na adolescência gemeu por seu par. Agora, velhinha, não nos dá pista de quem chama. Não há em sua estante uma caixinha de contas com o retrato adesivo do neto sobre a tampa, nem na geladeira um desenho feito pela neta pregado com o ímã-lembrança da viagem para o litoral. (Preciso colocá-la em uma casa de senhora porque não compreendo suas referências azuis – porque entendo a essência de sua solidão, mas não a dimensão. E porque saio a humanizar tudo o que não compreendo, para satisfazer meu desprezo à ignorância. Não suporto ser ignorante.)

Medrosa da humanidade, não se permitiu ser vista, somente escutada. Um dia vai morrer e consigo enterrar a história de sua família (o que seria uma boa vingança). Os cientistas não vão prestar luto, mas criarão muitas teorias em sua memória.

Nunca nos encontraremos, me basta a gravação do seu gemido, frequência 52 hertz. Embora seu rastro seja sonoro, tão audível quanto o desabrochar de uma flor, e o meu seja o desastroso rastro da humanidade, ainda insisto em levá-la no coração, como uma irmã sentimental. Porque também sou uma solitária, a última de minha espécie.

 

 

 

***

 

 

 

Trecho para hipnose

 

Não estou dizendo que o livro funcione como um estimulante psicoativo, mas digo que aconteceu comigo. De qualquer forma, não é nada prático como uma pílula ingerida com saliva ou o método sublingual, mas leva pelo menos trezentas páginas até a primeira onda, que é pseudo-onírica, porque você precisa estar encaminhado para o sono, ainda sem dormir. Depois das seiscentas páginas os cavaletes e cavalinhos começam a cair como chuva no seu quarto, mas talvez isso seja pessoal porque os cavaletes são o símbolo do meu suporte e cavalinhos, símbolo da minha força. Chegando às oitocentas páginas, você não vai lembrar quem é e andar nu publicamente não é uma impossibilidade. Já ouviu falar na loira nua do parque Ludwig? Ela estava carregando um exemplar pocket totalmente improvável desse livro.

 

 

 

***

 

 

 

Saudade e nostalgia

 

Um menino perguntou ao avô:

– Qual é a diferença entre saudade e nostalgia?

– Bem, é muito pouca e só tem uma maneira de explicá-la, que é contando a história do homem que foi para guerra. O homem que foi para guerra havia acabado de se casar, ou estava prestes a casar, quando partiu e deixou sua mulher, que era tudo para ele. A partir do momento em que saiu pela porta de casa duas meninas começaram a segui-lo, e com ele foram à guerra. Estavam quase sempre ao seu lado – evitavam as trincheiras e tinham medo de armas, mas bastava que ele se desocupasse por um segundo que elas surgiam. Eram duas irmãs muito parecidas, quase gêmeas, e seus nomes eram Saudade e Nostalgia. Às vezes, o homem cobria os olhos com as mãos enlameadas, enquanto as meninas corriam em sua volta, cantando cantigas de distância.

“Um mês, duas milhas,
Meu amor está longe
Três cartas, quatro feridas,
Nos separa um monte”

– Outras vezes, tinha vontade de estrangular os pescocinhos, mas isso não podia fazer. Quando a guerra acabou, as meninas os seguiram até a porta de casa. Era branca, a porta, e por trás dela vinha a mulher, que ia dizer o seu nome quando ele a pegou, abraçou e beijou, sem intervalo entre essas coisas.  Não se deram conta da segunda explosão, que foi o tiro que ele deu em Saudade. Ela não morreu imediatamente, foi agonizando por dias, enquanto o homem e a mulher se acostumavam, outra vez, um com o outro. Contudo, Nostalgia seguiu ao lado do homem. E era justamente perto da esposa que mais ele escutava a canção de Nostalgia. E por mais que tentasse pegar Nostalgia, não conseguia alcançá-la.

 

 

 

***

 

 

 

Mania

 

Jéssica tinha a mania irritante de comprar relógios caros e olhar, quando perguntamos a hora, o visor do celular. Mateus escrevia sem usar vírgula e isso era além da conta. A mania irritante de Cléber era a música alta no carro dele (e ainda achava que dava para conversar). Sócrates tinha a mania da higiene dental e escovava os dentes à cada balinha de menta que lhe ofereciam. Carlos Alberto era um falastrão, mentindo sobre números e mulheres, mas ele não podia parar, era mania. Lola, quem eu nunca chamava para jantar, comia fazendo barulho que nem uma engrenagem. A mania irritante de Sofia era mostrar para todo mundo a foto que tirou com a Madonna e a minha é anotar manias irritantes.

Nascida e residente do Rio de Janeiro, Maira M. Moura é formada em Letras, leitora, contista e autora do livro O Jardim Animado (ed. Multifoco), além de ter contribuído para alguns periódicos, de papel ou não.