Aos 21 anos, Liniker – que poderia ser nome artístico, mas é legítimo, em tributo ao ex-jogador de futebol inglês Gary Lineker – é um conceito libertário. Longe dos pré-fabricados que se aproximam da identidade de gêneros para angariar votos ou likes, a autenticidade do seu grave em lábios de batom, bigode e vestes femininas fazem dele um artista único. Talvez Platão identificasse em criador e criatura o denominado [duplo] dualismo psicofísico, dois corpos e duas almas habitando o mesmo ser e os mesmos versos. Mesmo que sua figura estética não usasse qualquer artifício, em algum momento sua voz ligeiramente rouca nos arrebataria. E arrebata, deslumbra, fascina. Tim Maia, do alto do céu do soul, deve dar o aval e liberar o tal ‘dançar homem com homem e mulher com mulher’, de Vale Tudo, à trupe formada em Araraquara (SP) há quase 2 anos.
Nascido em família de músicos, Liniker desabrochou artisticamente após flertar com a cena teatral, o que talvez explique sua grandiloquência no palco. O sucesso do EP Cru(2015) fez o cantor percorrer o Brasil e conquistar o Youtube com mais de 5 milhões de visualizações de suas performances. Remonta, primeiro álbum de sua banda, lançado em setembro e disponível nas principais plataformas digitais, traz arranjos refinados ao universo do soul e da black music. As 13 faixas da obra são resultado de 5 anos de composições e experimentos ao vivo, muitas delas conhecidas do público que o acompanha. Aliás, o disco contou com financiamento coletivo para sua produção e ultrapassou a meta pré-estabelecida. Impossível ficar passivo frente ao fenômeno Liniker de ser/cantar.
Liniker e Os Caramelows / Foto: divulgação
Após uma breve Intro de vinte e poucos segundos que aproxima o clima épico dos shows para o registro de estúdio, a circense Remonta (como se não bastasse a guerra também/de te ver todo dia, meu bem/tem o dissabor dessa ferida, tem/que germina na pele e insiste em ficar) abre o álbum como uma espécie de epílogo do que está por vir. Prendedor de Varal (enquanto você prometer e eu acreditar/serão só manhãs, um dia, um meio tom) – que faz referência à Chocolate, do eterno síndico – também presente nas apresentações ao vivo, deixou de ser bossa para ganhar ares de funk. Se a dualidade de Lina X (a personalidade dela era um tanto dividida/parece Poliana/querendo o que é de Frida/queria a parte outra da metade/o todo, o tudo, a casualidade) vai além letra, a primaveril Sem Nome, Mas Com Endereço – que tem o piano e a sanfona de Marcelo Jeneci – garante um dos momentos mais líricos do álbum. Enquanto o blues Tua (são cinco versos, seis ou mais/que me fazem querer gritar/tiro a roupa com um riso acanhado/meu bem, me chame de tua) envolve mais que os turbantes do músico, o bolero Você Fez Merda (você fez merda ao dizer que não me ama/depois da transa que eu dei pra você) contrasta a letra divertida com a profundidade vocal e sonora, numa espécie de dueto entre Maria Bethânia e Cauby Peixoto.
Das três canções presentes no EP dispostas ao longo do disco, a poética Caeu (dava tanta coisa, dava nó de nós/de nós, de eu) foi a que menos sofreu alterações. Se a carro-chefe de Cru, Zero (a gente fica mordido, não fica?/dente, lábio, teu jeito de olhar) perdeu o romantismo e ganhou intensidade, Louise du Brésil recebeu o saxofone de Thiago França (Metá Metá) e um groove altamente dançante. Funzy, única canção instrumental, reforça que Liniker tem mais que uma banda de apoio e apresenta toda a grandeza dos Caramelows, composta por: Renata Éssis (backing vocal), Márcio Bortoloti (trompete), Rafael Barone (baixo), William Zaharanski (guitarra) e Péricles Zuanon (bateria). Vale lembrar que na metade do ano o grupo sofreu a perda da backing vocal Barbara Rosa, vítima de câncer. A radiofônica BoxOkê – primeiro single liberado –, com introdução que lembra trilha de seriado de ação, tem a participação do grupo Aeromoças e Tenistas Russas e da cantora Tássia Reis, e aborda o “empoderamento das minorias”. A balada cênica Ralador de Pia tem parceria de Tulipa Ruiz e encerra Remonta em ritmo dramático.
Em suma, Liniker – que fisicamente lembra Luiz Melodia na juventude – e sua obra dialogam com dualidades e pluralidades: é o ‘homem feminino’ de Pepeu Gomes que versa sobre o [des]amor e suas vertentes. As influências da sonoridade, definida por ele como MPB (Música Preta Brasileira), mesclam samba-rock, partido-alto, soul e rap e seu discurso aborda a desconstrução do gênero sexual. É música com embalagem, conteúdo e contexto. Se hoje você está na fossa, amanhã você coloca seu melhor vestido e dança até lacrar o dia. E afinal, o que é a vida, senão um constante remontar-se?
Larissa Mendes promete exercitar diariamente a Bênção do Lacre.
Eu não tenho religião
(senão a poesia que me leva aos céus)
mas tremo com os sinos
que uivam badaladas
em todo dorso de tarde.
Eu não tenho religião
embora acolha a pompa dos templos
na solidão de algum dilema.
Eu, que não tenho religião,
me sacralizo
com os guizos do tempo
e me purifico
com a ausência de um deus feito de homem.
***
Oásis
O deserto é uma janela aberta:
o que escapa de seus camelos,
forjados n’água de vapor e sal,
é o calcanhar de todos os desejos.
Nas areias feitas de mistério
conta-se de terras que jamais fui.
Lá, os fantasmas de meu rio seco.
***
Aceno
Lâmina afiada
dobrada no peito
Fenda aberta
onde escapam
deuses
Lua que derrama
um deserto
de agulhas
Chamas que queimam
estrelas
Tudo reunido:
a dor do adeus.
***
Aborto
As redes lançadas não trouxeram peixes
Tragaram luzes e pomos abandonados.
Os peixes que não vieram estão mortos
Como o poema que acaba de nascer.
***
Fenda
Há tempo o menino ficou lá fora.
Espera, espreita a barra da porta,
mas já não pode passar.
Todos os longos anos de preparo –
escola, dentista, boxe –
e a busca pelos jogos de montar,
pelo seio roído da mãe que já foi.
Uma vida de busca e solidão,
a passagem do peito fechada:
só o túmulo aberto da infância.
***
Irmandade
Qual a cor do teu drama?
Quantos lares saem de teus cabelos?
Com quantos homens se reparte
o último fio de desespero?
Em tempos de paixão e fome
os credos são maiores que as roupas
os voos maiores que as asas.
Clarissa Macedo, doutoranda em Literatura e Cultura, é escritora, revisora, professora e pesquisadora. Apresenta-se em eventos pelo Brasil e fora do país, integrando diversas coletâneas, revistas, blogues e sites. Publicou “O trem vermelho que partiu das cinzas” e “Na pata do cavalo há sete abismos” (Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia, 2014).
Fatos extraordinários e cenas do cotidiano na poética de Jorge Elias Neto
Por Shirlene Rohr de Souza
Dimensões
As palavras estão lá, Com seus olhos atentos A me observar do silêncio (Jorge Elias Neto)
Jorge Elias Neto / Foto: arquivo pessoal
Entre as vozes da poesia que se erguem neste tempo de tantas novidades e inquietações, este texto trata especificamente da lírica de Jorge Elias Neto, cuja poética se funda em uma linguagem que alterna violência e ternura, ou potência e fragilidade, e que revela, de uma forma ou de outra, uma convicção niilista. O ceticismo do poeta, contudo, não o paralisa frente aos dilemas humanos: a poesia é a sua ação que nasce de combinações de diferentes perspectivas, tais como impressões do seu entorno (“Nada menos humano, menos carnal que o verde”), observações da vida em cena (“A vida não é um jogo de baralho. Não poderei simplesmente dizer “passo”), personagens (“Vó Bela! / O homem é assim”) e de imagens surreais (“Não me importo / com numerar as penas do cisne”). Este ensaio trata das temáticas que se destacam na poética de Jorge Elias, cuja linguagem está plasmada em testemunhos do cotidiano e em convicções pessoais. Os temas, na poética de Jorge Elias, podem ser, em uma determinada perspectiva, colocados em duas esferas de interesses e situações: fatos extraordinários e cenas e ocorrências do cotidiano. Os fatos extraordinários, pela sua condição de eventualidade, ocorrem com menos frequência, mas são profundamente marcantes na escrita do poeta.
Os fatos extraordinários
Os fatos extraordinários se elevam acima dos fatos rotineiros. Alguns poemas de Jorge Elias Neto surgem de uma condição ou de acontecimento extraordinário; esses temas podem sair dos noticiários, mas também podem surgir de vivências de eventos marcantes. No primeiro caso, destaque para “Caligrafia do Bruto”, que revela o assombro do poeta com uma notícia de jornal; no segundo caso, destaca-se “Discurso para o cadáver”, marcado pelo evento da morte.
“Caligrafia do Bruto” surge de uma notícia chocante: sob as referências das matrizes greco-latinas e judaico-cristãs, o mundo ocidental ficou assombrado com a notícia de que uma mulher seria apedrejada até a morte, acusada de adultério e de ter conspirado pela morte de seu marido; o assombro provinha das inconsistências da acusação e da truculência do veredito dos juízes.
A jovem senhora comoveu o mundo quando a mídia deu visibilidade à sua história e, graças à estrondosa repercussão do caso, houve uma reação em cadeia mundial em seu favor: vários organismos internacionais emitiram pedidos de clemência, apelando para os Direitos Humanos e pedindo sua absolvição. Por fim, a pena de morte de Sakineh foi revertida em anos de reclusão. Mas o que, de fato, aconteceu a essa mulher? Qual seu verdadeiro destino? Quantas sakinehs sucumbiram no anonimato sombrio das tradições religiosas, no oriente e no ocidente?
Se o corpo de Sakineh não foi apedrejado – sua pena foi revertida em chibatadas e reclusão – sua alma de mulher foi despedaçada, irreversivelmente ferida e machucada. Essa é a imagem capturada pelo poeta: a lapidação moral de uma mulher. Corrompida e maculada pelas leis dos homens, Sakineh, a mulher proscrita, nunca passou de mais uma das centenas de milhares de histórias que se encontram em mídias e redes sociais, fadadas ao esquecimento. Mas a violência da narrativa tornou-se perene na poesia de Jorge Elias Neto, para quem essa história representa mais uma escrita da barbárie nas letras dos homens, na caligrafia dos brutos. A barbárie não é o contrário da civilização, é apenas sua outra face, sua irmã siamesa.
Em contraposição à brutalidade da história de Sakineh, que circulava nas redes de internet, os versos do poeta também circularam nas redes sociais, constituindo assim uma resistência em rede contra a violência, de uma curiosidade perversa, da mídia: a poesia fez medrar a ternura de alguém que, como uma multidão de outros anônimos, não se conforma com brutalidade que se exerce sobre as pessoas em nome de uma religião, em nome do poder. Ao colocar o poema “Caligrafia do bruto” em circulação, de alguma forma lança luz sobre um problema universal: a condição feminina nas culturas do mundo cristão, islão ou pagão; a condição da mulher no Brasil ou em países da África, da Ásia, de todas as cidades, de todas as vilas, de todo o mundo. As mulheres são vítimas potenciais de uma intolerância social que impõe um jugo pesado sobre sua alma, seu corpo e seu destino. Silenciadas por um código moral violento, às mulheres cabe um lugar de desvantagem nas culturas do oriente e do ocidente.
Ao falar das damas do Século XII, Duby (2013, p. 110) parece se referir à realidade de muitas sociedades contemporâneas: “Existe assim um espaço fechado reservado às mulheres, estritamente controlado pelo poder masculino”. E não se trata de exceções: tacitamente, não se aceita a presença da mulher em posição de comando, e isso ocorre em todas as sociedades, ainda que em algumas as conquistas e o reconhecimento da mulher sejam mais evidentes. A vida pública é reservada a poucas personalidades femininas, pois insidiosamente grupos de forças tradicionais tramam contra a emancipação da mulher, contra seu sucesso e ascensão, sob o entendimento de que o lugar das mulheres é o recato do mundo privado, onde podem ser vigiadas e punidas, se ousarem tentar romper essa barreira. As conquistas femininas, com notável força a partir do Século XX, são evidentes e importantes, mas ainda pequenas, frágeis e restritas. A pena capital é uma realidade no mundo inteiro, seja pelas leis religiosas, seja pelos códigos masculinos: mulheres são humilhadas, violentadas, espancadas e assassinadas a todo instante. A poesia é impotente frente ao drama das mulheres, impotente frente aos males do mundo, mas ela não se cala e não se esconde frente ao que é extraordinariamente humano: a poesia revela os paradoxos e as dores desses tempos. O poema sublima histórias de horror. A poesia é o afeto do poeta.
“Discurso para o cadáver” trata de um dilema da humanidade: a morte. Ainda que a morte seja um fato corriqueiro do cotidiano, afinal todos os dias morrem pessoas, ela torna-se um evento extraordinário na privacidade dos lares, na intimidade de uma família, na organização de um grupo; a morte arranca as pessoas de sua rotina, fazendo-as pensar, cada uma delas, na própria morte. Assim, a morte constitui um fato extraordinário, sobre o qual o poeta tem muitas coisas a dizer.
“Discurso para o cadáver”, pois, é um pequeno monólogo dirigido a um cadáver. E apenas no título Jorge Elias Neto usa a palavra “cadáver” que, por sua natureza semântica ligada à morte, soa como matéria, puro objeto. A escolha dessa palavra reforça o posicionamento do poeta ante a morte: tudo está acabado. Segundo Houaiss, a etimologia da palavra “cadáver” é de origem latina, significando “corpo morto”; mas a intervenção popular vai além e associa “cadáver” a uma expressão latina: CArne DAta VERmem (Carne Dada aos Vermes). Seria a palavra cadáver, assim, uma sigla. A pessoa reduzida à carne. Na cultura popular, outra palavra contempla o significado de “cadáver”: a palavra “corpo”. Essas palavras traduzem com exatidão semântica aquilo que a morte representa: ausência de alma, ausência de espírito. Falta a vida.
Nos versos do poeta: “Do ponto / em que se parte / ― se esquece ― / o espectro / da carne / ― do irremediável”, outra escolha emblemática: “espectro”. Esta palavra, popularmente, é associada a fantasma. Contudo, a existência de fantasmas pressupõe uma continuidade da vida após a morte, em uma dimensão misteriosa e inexplicável. Ora, uma convicção niilista não permite tal interpretação, restando à palavra um sentido semântico muito diferente: “espectro” como “coisa”: “coisa vazia, falsa; ilusão”. A vida é uma ilusão. A morte é o fim da ilusão.
Em alguns versos o poeta reforça seu ceticismo categórico, carregado de lirismo telúrico: “A você, o privilégio / da dimensão / onde se plantam flores”. A terra, o fim de tudo, onde o “cadáver” encontra seu destino final, o sossego da extinção da alma. Ou talvez não: na dimensão da vida, alimentando os vermes, o cadáver inicia um novo ciclo de vida, adubando raízes de flores de todas as cores. Nas palavras de Arendt (2001, p. 57): “É isto a mortalidade: mover-se ao longo de uma linha reta num universo em que tudo o que se move o faz num sentido cíclico”. Mas, enquanto o corpo está presente, acima da terra, o profundo respeito do poeta pelo cadáver, o qual faz lembrar que a vida é breve: “Teus olhos / não mentem / essa simplicidade / em dizer: / tão breve, a vida, enquanto saturamos / o ar”.
Os fatos extraordinários eventuais – uma notícia, uma morte ou acontecimento marcante – projetam-se em meio aos acontecimentos de rotina; chamam a atenção por algum motivo, por algum aspecto. A eventualidade é uma força esporádica que atrai o poeta, mas é, certamente, do cotidiano que Jorge Elias Neto pinça seus temas: nas cenas e ocorrências do dia-a-dia.
Jorge Elias Neto / Foto: arquivo pessoal
Cenas e ocorrências do cotidiano
As cenas e as ocorrênciasdo cotidiano fornecem os temas mais frequentes à poética de Jorge Elias Neto. O cotidiano, como substantivo, corresponde às ações que se realizam todos os dias, continuamente, ações que se repetem todos os dias, na vida de todos os indivíduos. Hannah Arendt (2001, p. 221) lembra que: “O único atributo do mundo que nos permite avaliar sua realidade é o fato de ser comum a todos nós”. Apesar de o mundo social ser comum a todos, pois, em sua rotina diária, todos o compartilham, as percepções são estritamente pessoais: o mesmo acontecimento pode ser aplaudido por uns e rejeitado por outros. Qualquer ruptura da rotina torna-se um fato extraordinário. Assim, todos os dias, as pessoas se movem em um mundo comum, ainda que, pelos seus sentidos particulares, esse mundo seja compreendido singularmente, por cada indivíduo. Hannah Arendt (2001, p. 221) desenvolve essa ideia e infere:
se o senso comum tem posição tão alta na hierarquia das qualidades políticas, é que é o único fator que ajusta à realidade global os nossos cinco sentidos estritamente individuais e os dados rigorosamente particulares que eles registram. Graças ao senso comum, é possível saber que as outras percepções sensoriais mostram a realidade, e não meras irritações de nossos nervos nem sensações de reação de nosso corpo.
Pelo cotidiano, o poeta, em sua singularidade, depara-se com ocorrências percebidas por todas as pessoas, mas sentidas singularmente por ele mesmo. Pelo caminho da singularidade, o poeta questiona certezas e verdades: as convicções estão instaladas em um ponto de vista, o qual apresenta uma versão possível, nunca uma versão absoluta. A poesia é sempre um outro ponto de vista possível. No cotidiano, a rotina se constitui de ternura, violência, dor, risos, expectativas e, no cotidiano do poeta, mesclam-se muitos elementos da vida sensível: saudade, lembranças, amor, família, morte, dor, frango com farofa, passeios, olhares perdidos no nada. Tudo isso, cenas e ocorrências do cotidiano, alimenta os temas da poesia de Jorge Elias. Tudo pode ser o início da poesia, como ocorre com “A poesia começa assim”, cujo segundo verso, demonstra que o poeta está mergulhado no cotidiano: “deixando as mãos rendidas aos gestos costumeiros”. Todavia, a palavra é a força capaz de desmembrar ou de desprender alguma ação, algum gesto ou algum objeto da realidade cotidiana, mas contra a qual ele se rebela: “jogar-se nos trilhos / para salvar a flor”.
É também pela expressão poética que Jorge Elias Neto demonstra sua profunda descrença em alguns grandes pilares da civilização, como a religião, há muito tempo tragada pela linguagem científica, pela lógica da economia e pela exatidão dos resultados apresentados por laboratórios renomados. O poema “Agora é tarde, pintei o muro” dá grande mostra do espírito cético do poeta que, em tom lacônico, afirma: “Comer todas as hóstias / na infância – de uma só vez – / só me serviu para matar a fome de Deus”. Contidos e serenos, esses versos confirmam a tese de T. S. Eliot (1989, p. 44): “o que conta não é a “grandeza”, a intensidade das emoções, dos componentes, mas a intensidade do processo artístico, a pressão, por assim dizer, sob a qual ocorre a fusão”. Dessa maneira, o poeta expressa a condição solitária do homem, sem amparo divino.
Adorno e Horkheimer (1985) advertem que a perda do apoio da religião na reconfiguração moral dos homens contemporâneos não levou as sociedades ao caos cultural, mas ao contrário, não há caos, tudo se movimenta em torno de um ordenamento pragmático do mundo: o arrefecimento da fé integrou um conjunto de forças que redirecionaram o mundo para um novo modelo cultural, submetido a uma prática econômica perversa e imperturbável. Para Adorno e Horkheimer (1985, p. 113), esse novo modelo “confere a tudo um ar de semelhança”. Dominadas pela racionalidade calculista e destruidora, as religiões não se prestam mais ao consolo: “O alento da cristandade / não sei se volta”. Todavia, se obsoletas como campo sagrado, elas ressurgem como uma grande feira de milagres. O vínculo entre o homem e as religiões não se rompe, apenas se corrompe: as religiões sucumbiram às leis do mercado.
Ainda como cenas e ocorrências do cotidiano, uma imagem chama a atenção do poeta: uma árvore morta, uma ingazeira. Na pressa, poucas pessoas reparam as árvores vivas ou agonizantes. Só reparam nelas quando são arrancadas por ventos e interrompem a passagem de carros e pessoas. Reparam e reclamam. O cotidiano exige pressa e emite imprecações. Mas o poeta faz uma reverência, afetuosa em “Poema à morte da ingazeira”, que também reforça o traço de visão niilista do poeta no verso “partir para o esquecimento”.
As cenas e as ocorrências do cotidiano constituem traços de uma poética que se consolida forte, coerente e vigorosa. Os versos de Jorge Elias Neto, de uma maneira geral, expressam diferentes sentimentos, de forma alternada: revolta, rebeldia, ternura, saudade, nostalgia, indignação, contemplação. Alguns poemas são notavelmente especulares, tais como “Seu Jorge” e “Nomear poemas”. O uso do próprio nome indica um mergulho na própria alma, na própria atividade poética que realiza. O primeiro verso do poema “Nomear poemas” torna-se muito revelador e emblemático, considerando o conjunto de uma poética fortemente marcada pelas próprias experiências, lembranças e reminiscências: “No fundo, os poemas chamam-se Jorge”.
À sensibilidade do olhar do poeta para pessoas, objetos, cenas e acontecimentos de seu tempo, agrega-se ainda um importante diálogo com o sistema filosófico. Com uma linguagem intimista, serena, até mesmo melancólica, Jorge Elias Neto dialoga com questões universais, com muitas referências à vida e à morte, à dor e à alegria. A condição humana e os paradoxos da existência estão em sua poesia.
A caligrafia do poeta
“Os artistas são as antenas da raça”, afirma Pound (1997, p. 71). A afirmação do poeta-crítico-ensaísta é, com toda justiça, repetida em ensaios de crítica literária. Não seria tão frequente se não fosse verdade. A atividade do artista está relacionada a uma faculdade excepcional de ser sensível às ocorrências que a grande massa ignora ou não percebe. O artista se inclina para um detalhe, nuanças de um evento banal, mas indicativo de algo novo. Artista da palavra, o poeta se esgueira para um pequeno vão, de onde se lança com coragem ao mais profundo precipício, para um abismo onde se vê as raízes da humanidade; ou se lança ao voo mais alto, plainando sobre as paisagens gerais. O poeta capta o que é indizível e traduz seus sentidos em versos, revelando ao mundo seus significados. No registro das paixões, Jorge Elias Neto coloca o juízo da poesia no corpo frágil do verso. O poeta tem algo a dizer sobre as metamorfoses da vida e, no labirinto de palavras enigmáticas e enérgicas, sobre sua própria metamorfose: “(só sei transformar sapato em borboleta)”. Na escrita potente e sensível de Jorge Elias Neto, a caligrafia registra cenas do cotidiano, bem como os fatos extraordinários. Mas não fala o poeta de si mesmo, para si mesmo: fala para outros. Escuta o poeta.
Referências:
ARENDT, Hannah. A condição humana. Tradução de Roberto Raposo; posfácio de Celso Lafer. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001.
ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento. Trad. De Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
DUBY, Georges. As damas do século XII. Tradução de Paulo Neves e Maria Lúcia Machado. 1.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
ELIOT. T. S. Tradição e Talento Individual. In: _____. Ensaios. Tradução de Ivan Junqueira. São Paulo: ArtEditora, 1989.
ESPECTRO. In: HOUAISS. Dicionário Eletrônico da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.
ELIAS NETO, Jorge. Verdes Versos. Vitória-ES: Flor&Cultura, 2007.
____. Rascunhos do Absurdo. Vitória-ES: Flor&Cultura, 2010.
____. Os Ossos da Baleia. Vitória-ES: Secult, 2013.
____. Glacial. São Paulo: Patuá, 2014.
HOUAISS. Dicionário Eletrônico da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.
POUND, Ezra. ABC da literatura. Trad. Augusto de Campos e José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix, 1997.
Shirlene Rohr de Souza é professora Mestre da Universidade do Estado de Mato Grosso – UNEMAT, Campus de Alto Araguaia. O presente ensaio é vinculado ao Projeto de Pesquisa Poetas Críticos, coordenado pelo Prof. Dr. Isaac de Almeida Ramos (UNEMAT).
Esperou que ela entrasse e fosse direto para o banheiro, como era de costume. Ah, sempre com a bexiga cheia, prestes a estourar. Ouviu o baque da porta sendo fechada e em seguida o jato do xixi batendo na água do vaso sanitário. O barulho da descarga, da porta sendo aberta e, por fim, o som de passos vindo em direção ao quarto.
Esperou sentado na borda da cama. Mas a espera tornava-se mais longa do que ele desejava. Os passos pareciam fazer um trajeto enorme, como se de repente a casa tivesse triplicado de tamanho. Para aumentar-lhe a ansiedade, ela fez um pequeno desvio e passou primeiro pela cozinha. Havia se esquecido de que, vez ou outra, ela chegava faminta. Cansada e faminta.
Esperou sentado na borda da cama e com o envelope pardo numa das mãos. Ela iria perceber, tão logo passasse pelo vão da porta, que o rosto dele não trazia aquela serenidade de sempre, o sorriso e a alegria por vê-la chegar em casa depois do trabalho. O quadro era outro, turvo e sombrio.
Esperou sentado na borda da cama até os passos começarem a ressoar como se já estivessem dentro do quarto. O coração deu um salto grande e sufocante, obrigando-o a se pôr de pé. No envelope pardo, as mãos deixavam marcas de suor e nervosismo.
Esperou sentado na borda da cama até aquele instante, em que ela adentrou o quarto com o rosto banhado em luz e graça. Ela vinha de uma outra alegria que não podia se conter, mas, ao deparar-se com a imagem corrompida pela dor e exposta com tanta nitidez, acusou o baque, – o rosto desbotou-se e ela entendeu logo a razão daquele envelope brandido com fúria diante dos seus olhos.
***
ASSIM, DO NADA
A duas camadas de tecidos abaixo da pele negra, sentiu o motor da máquina-corpo falhar. A disritmia. O corte brusco no bombeamento de combustível através da malha de veias. A fisgada, não de peixe, mas de faca que penetra aguda e tensa. Queria duvidar: cessar assim, sob sol matinal, o pulsar forte de todos os dias? O pulsar sanguíneo, ininterrupto? Pois não estava de pé há anos, numa demonstração de vigor e saúde esse tempo todo? Árvore frondosa, milenar, que não tomba nunca – baobá invencível pelo tempo. Até uma certa arrogância, de pretensa eternidade, nesse modo de viver. A esposa, mesmo pregando no deserto, alertava sempre, Não facilita, com saúde não se brinca.
Ainda há pouco havia planejado uma série de ações para os próximos dias, tal o estado de excitação e energia que lhe tomava o ser. Bebeu uma xícara de café bem quente e acendeu um cigarro. Ah, não poderia haver prazer maior que esse. Fuma lá fora, a esposa lhe pediu. Então abriu a porta e a brisa morna da manhã bateu de leve no seu rosto. Uma carícia tão agradável que o fez lembrar-se dos primeiros anos ao lado de Alice. Afastou-se alguns metros e foi aí que sentiu como que um soco no peito.
A duas camadas abaixo da pele negra, o motor da máquina-corpo enguiçando, dando sinais de uso e corrosão, de sobrecarga de emoção e estresse. Um bater agora fraco, quase nenhum. O som abafado do motor de um Teco-Teco pifando no alto, até vir abaixo e bater no solo. A mão invisível que puxa uma cortina enorme para diante dos olhos, isolando-os da paisagem. Não poderia esperar jamais um final assim tão abrupto, fora do script, sem tempo nem para agradecer ou dizer adeus.
***
DONA DE SI
Era uma mulher livre – no sentido pleno da palavra.
Ele a conheceu assim, um horizonte amplo e indefinido. Ainda que o amasse, não conhecia fronteiras nem amarras. Era uma dessas capazes de nos fazer sofrer mesmo em pleno gozo, tal a sensação de fluidez do seu espírito e o estado sempre movediço do seu corpo. Um corpo que, estando em nossos braços, já escorregava para outro plano, outros desvãos de desejos e sonhos.
– Morri no dia em que ela me deixou – ele me revela com a voz ainda doente, cravada de pus e dor. Essa sua voz sem cura reverbera em minha pele e atravessa minha mente de ponta a ponta.
Dela, ele se recorda principalmente do cheiro de carne e de alma em brasa. Isso que, para ele, é uma incisão profunda na memória, como essas que o vento, ao longo de séculos, milênios, inscreve nas rochas.
***
ODISSEU
Estou prestes a adentrar uma região vasta, assustadoramente vasta. Mundo ermo, movediço, imprevisível. A partir daquele ponto ali, onde a luz cega e alucina, meu ser vagará à deriva, entregue aos caprichos da sedução.
Posso, nesse caso, fechar os olhos e tapar os ouvidos, blindando-me contra o fascínio da beleza e a magia da voz. Poderia, inclusive, fazer meia-volta e retornar daqui, onde sinto ainda a terra, firme e segura, sob meus pés. Poderia. Mas uma força extrema me arrasta para fora de mim.
Ah, um deus furioso deve ter me atirado nessa aventura insana, pois nunca alimentei em mim tanto desvario. O fio da razão rompeu-se. Ouço o canto da sereia e avanço despido de juízo e prudência.
***
GRITOS
De repente o tempo fechou dentro do salão. Vi um brilho de metal luzir sob a luz da lâmpada e dezenas de pessoas precipitarem-se em direção à porta. A porta, como era de se esperar, tornou-se estreita demais para tantos corpos, para tanto desespero. Consegui vazar pela janela e sumi dentro do breu. Parei uns quinhentos metros depois, sem ar nos pulmões e coragem para avançar no escuro. Então fechei os olhos e tapei os ouvidos para não ouvir nada, nem o tinir do aço nem o estalido das armas de fogo. Mas na mente, sem que eu pudesse interromper, a cena continuou a desenrolar-se violenta e gangrenada.
Geraldo Lima é escritor, dramaturgo e roteirista. Tem algumas obras publicadas, entre elas, “Baque” (conto, LGE Editora/FAC), UM (romance, LGE Editora/FAC), “Trinta gatos e um cão envenenado” (peça de teatro, Ponteio Edições) e “Tesselário” (minicontos, Selo 3×4, Editora Multifoco). Participou de algumas antologias literárias, como: Antologia do conto brasiliense (org, por Ronaldo Cagiano, Projecto Editorial/FAC, 2004); Todas as gerações – o conto brasiliense contemporâneo (org. por Ronaldo Cagiano, LGE Editora, 2006); e Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro (org. por Anderson Fonseca e Mariel Reis, Oito e Meio Editora, 2013). É autor do roteiro do filme O colar de Coralina (em fase final de edição).
salvem a pátria dessas estrelas
pois minha terra natal acabou de ruir
sem cortejo ou cerimônia
meus mortos me trouxeram
os panos sujos de limpar memórias
vieram até minha casa
não comeram
nem sorriram
verde
como sorriem as serpentes
de tristeza
os mortos rastejaram até a janela
viram que o céu não cabia mais no mundo
e cantaram seu choro cósmico de notas repetidas
esquecer é da vida
o único milagre
***
beduína
a cidade leu a minha mão
e descobriu que ela não tinha linhas
que o meu destino era traçado
a pinceladas curtas
impressionando ou não
o que for feito de mim
só se saberá já pronto
só terá sentido pra quem olhar de longe
***
inconveniências
coração em pedra
ferida é
me preocupo com
esse órgão vital
no corpo fóssil
***
demônios
as sombras tropicais
sobrevivem à hora mais triste do dia
mas só as sombras tropicais
de resto
todo mundo morre um pedaço
entre uma e duas da tarde
à parte a vantajosa desmatéria
há um esconderijo secreto
debaixo dos pés do mundo
onde cada sombra
guarda seu rosto
e o extinto gozo
de poder ser contraditória
***
o beco
incólume cometa,
desembainha a tua fábula
e o negro porto do teu hálito
explodirá vestígios
do metro em que nossos passos foram mímica
***
prenda
meridional
por força das entranhas de minha mãe,
nasci de onde falo
mediterrânea,
por vazão da honra
que coube aos meus homens,
a mim e as minhas prestou-se apenas a desonra
tocamos no pó de um segredo
o calafrio de um sul febril
o sul das sangrias desatadas
de índios que viraram vento
velando e varrendo esse chão raso
chão que devorou negrinho
solo que carcomeu negrões.
Marília Floôr Kosby nasceu em Arroio Grande, extremo, extremíssimo, extremoso sul do Brasil, em 1984. Poeta, compositora, antropóloga. Entre os anos de 2008 e 2012, alimentou os blogs de poesia Salamancas Supersônicas e A Sanga das Patavinas. É autora dos livros de poemas Os baobás do fim do mundo (2011; 2015) e Siete colores e Um pote cheio de acasos (2012). Os poemas selecionados para esta edição de Diversos Afins compõem o livro “Os arroios não voltam”, obra ainda inédita.
A essa altura, o que resta dizer de Aquarius? Desde, talvez, Tropa de Elite, um filme brasileiro não é tão discutido publicamente. À época do lançamento do filme de José Padilha, não havia ainda as mídias sociais. Agora, no entanto, opiniões e posicionamentos se multiplicam na internet, mas também nos bares e nas rodas de conversa. Resenhas tornam-se assim supérfluas e há algo de positivo nisso. O filósofo francês Jacques Rancière tem defendido que a estética é um movimento essencialmente político, pois através do juízo estético toda e qualquer pessoa se torna um receptor potencial da arte. Saudemos então a discussão política-estética de Aquarius.
No entanto, o evento de protesto durante a exibição em Cannes, antes de sua estreia, e a subsequente polêmica em relação à sua classificação etária, talvez tenha dirigido sua recepção nas salas de exibição. Muitos vão ao cinema preparados para assistir um filme de resistência política. Alguns saíram francamente decepcionados. Outros entusiasmados. Protestos e brigas antes e depois das sessões foram frequentes. Os conflitos que fracionam o país foram levados para as salas de cinema. E geraram ruídos num filme onde a música tem presença fundamental. Não há como desprezar os ruídos, mas talvez eles nos façam perder certas nuances do filme de Kleber Mendonça Filho.
É um esforço importante de reflexão estética imaginar como o filme poderia ser recebido se não fossem as crises política, econômica e ética e se não fosse todo o processo de impeachment contra o qual seu diretor, os atores e realizadores se opuseram em Cannes. É evidente que o filme se colou ao seu momento histórico. Toda obra de arte é um sistema de traços que faz um recorte no interior de um ambiente. Mas a historicidade de uma obra de arte deve ser vista na maneira como esses traços a articulam imanentemente. É necessário procurar o próprio desafio que a obra impõe de não ser cooptada pelo seu tempo e não se tornar um mero registro ideológico.
O enredo de Aquarius todos já conhecem. É a história de Clara (vivida por Sônia Braga), jornalista musical, apresentada em dois tempos: em sua juventude no início dos anos oitenta, quando a jovem supera um câncer de mama com uma mastectomia e depois na atualidade, 35 anos depois, quando enfrenta outra luta, dessa vez contra a especulação imobiliária. Moradora do mesmo apartamento herdado da família, onde cresceu e criou seus três filhos, se encontra agora sozinha no prédio antigo da Praia de Boa Viagem, no Recife, onde todos os demais apartamentos foram vendidos e onde uma construtora deseja levantar um “moderno” empreendimento residencial e arquitetônico à semelhança de muitos outros na mesma orla.
Sônia Braga no papel de Clara / Foto: divulgação
Há muitos pontos de contato com o filme anterior de Kleber, o premiado O Som ao Redor (2012) que também se passa na mesma vizinhança de Recife. À semelhança deste, Aquarius se inicia com uma espécie de prólogo fotográfico com imagens antigas da praia de Boa Viagem antes que a especulação imobiliária a desfigurasse. Em ambos os casos, o prológo funciona como uma linha que dirige criticamente a recepção, como se guiasse o espectador nas imagens-movimento seguintes.
Podemos dizer também que ambos os filmes trabalham a questão da arquitetura e do urbanismo. O tema mesmo de O Som ao Redor é a de como certas fantasmagorias atávicas das relações sociais brasileiras, no modelo “Casa Grande e Senzala”, penetram a modernidade kitsch e selvagem da urbanização de Boa Viagem. Trata-se, sobretudo, de uma abordagem sobre a “modernidade conservadora” que não anula antes intensifica, pela proximidade física e pela caoticidade urbana, os valores semi-escravocratas da discriminação social, no ambiente dos condomínios fechados de classe média da cidade do Recife.
O Som ao Redor é um filme menos linear, mais ousado esteticamente do que Aquarius. Também não possui nenhuma personagem claramente focal, não apresentando um protagonista desenvolvido. Essa distinção é fundamental em relação a Aquarius onde a personagem Clara é uma protagonista absoluta da história. Também as relações temporais em Aquarius são muito mais lineares. O fio narrativo é também mais evidente neste filme, sendo um dos trunfos do filme anterior de Kleber certa obscuridade em relação ao fechamento da trama que dificulta sua interpretação.
Em Aquarius, o fluxo do tempo tem um papel importante na história, pois justamente a personagem de Clara vive a experiência temporal de forma bem particular e marcada. No flashback analéptico, quando o filme abre, no início dos anos 80, o enquadramento buscado por Kleber mimetiza a lógica visual do cinema de então. Esse enquadramento permanece quando viajamos ao tempo presente, como se fosse esse o enquadramento do ponto de vista da personagem, uma perspectiva de quem se recusa a abandonar completamente o tempo passado.
Uma das questões fundamentais do filme é trabalhar o contraste entre dois tipos de sensibilidade: a sensibilidade analógica de Clara, cercada por seus discos de vinil, pelo gosto das fotos impressas e desbotadas, pelo apego ao espaço físico do apartamento, sede de suas melhores lembranças afetivas e por sua marca corporal (a perda do seio); do outro lado, a sensibilidade digital dos mais novos, nos jovens criados pela cultura do MP3 e pela ausência da memória afetiva dos tempos e lugares.
Não fosse a atmosfera política, poderíamos dizer que o contraste entre duas maneiras antagônicas de viver o tempo, a analógica e a digital, seria o conflito principal do filme. Assim, o projeto da construtora de simplesmente destruir um edifício de significado arquitetônico e passar uma tábua rasa para construir um empreendimento modernoso seria o equivalente a uma sensibilidade digital que só distingue o vazio ou um inteiro e não se importa, ou ignora completamente, os processos históricos de construção da memória, que passam por uma valorização da passagem do tempo e de suas marcas. Como diz, numa de suas falas em ato falho, o jovem construtor Diego com “sangue nos olhos” (vivido por Humberto Carrão): “o edifício que existia aqui”. O velho edifício Aquarius ainda estava de pé, mas já era parte de um passado a ser esquecido.
Mas é na construção de sua protagonista Clara que se encontram os motivos mais polêmicos deste filme. A escolha da estrela Sônia Braga é uma de suas apostas mais decisivas. Como representante ícone do cinema brasileiro, famosa por sua beleza prodigiosa e retornando às grandes telas após longo período de afastamento, Sônia reaparece com as marcas da passagem do tempo em seu rosto. Seu retorno às telas do cinema nacional é, para a maioria dos espectadores, um salto temporal quase tão abrupto como o salto fílmico (analepse) da passagem entre os anos 80 e o tempo presente. Clara é uma viúva financeiramente resolvida que tem o seu desejo de tranquilidade existencial interrompido pela agressiva abordagem comercial da construtora que lhe oferece uma proposta “irrecusável”.
Sônia Braga / Foto: divulgação
Acossada pela construtora, pressionada pelos ex-vizinhos que esperam receber parte de seus acordos monetários com a concretização do negócio, e finalmente questionada pelos próprios filhos, Clara vê sua solidão de viúva, com a qual se relacionava com certa harmonia, tornar-se angustiosa e até ser um motivo de temor. No entanto, Clara tem o apoio de suas amigas, de seu irmão “de esquerda”, de seu sobrinho que a admira, de uma emprega doméstica e de um salva-vidas da praia de boa viagem onde toma banho protegida dos tubarões que infestam aquele mar. E é com esse apoio familiar e social que ela encontra as forças e o apoio para resistir às investidas da construtora. Essas relações de afeto, mantidas fielmente por Clara, não são apenas seu esteio afetivo, mas também a própria maneira como ela organiza sua existência em torno de corporeidades, conversas, música e fotografias. Uma das melhores cenas do filme é um encontro com “as amigas” numa festa de clube em volta de uma mesa. Todas numa situação de meia idade para cima discutem afetos e sexo, cochicham fofocas, ou seja, tocam palavras e afetos, enquanto a câmera capta com excepcional naturalidade a espontaneidade das conversas no meio do ruído animado da festa.
No entanto, é a posição social de Clara, que na tensa conversa com os filhos admite ser proprietária de “cinco apartamentos”, além de um carro utilitário e da companhia frequente de uma empregada doméstica, que faz emergir a situação de classe do filme. Foram muitos os que viram nessa posição de classe uma contradição na obra, pois a situação de Clara está longe de ser uma condição desprivilegiada. Aliás, a oferta que ela recebe para a compra de seu apartamento foi realmente vultosa. O conflito entre Clara e a construtora não seria então um conflito interclasses, mas intraclasses, um conflito no interior da própria classe burguesa, brasileira ou nordestina, e sobre duas formas diferentes de se relacionar com a subalternidade e as classes pobres. Para uma parcela dos críticos, essa questão reduz o alcance da crítica política do filme, ou sua perspectiva de “filme de resistência”. Há mesmo quem ache que o filme sequer é de esquerda e que o rapaz que gerencia a construtora está mais à vontade no Brasil do crescimento econômico “chinês” do Nordeste, com suas obras frenéticas de construção civil residencial para condomínios das classes emergentes, do que entre a geração de Clara, com seus vagos ideais humanitários e sua cultura idealizada.
E embora essa crítica tenha procedência para a avaliação política do filme, por outro lado ela é o sintoma de uma expectativa que nunca esteve assumida por seu diretor. Aquarius não é um filme de resistência política. Por outro lado, ela revela uma noção equivocada sobre a importância política de uma obra cinematográfica. Ninguém poderia imaginar, por exemplo, críticos de cinema italianos nos anos 60, criticando diretores como Antonioni e Visconti, ambos comprometidos com a agenda política socialista ou mesmo comunista, por só filmarem as elites abastadas da Itália (salvo filmes proletários como Rocco e seus irmãos e os filmes neorrealistas de Antonioni). Esse tipo de análise seria impensável naquela época.
A respeito mesmo da representação de classe em Aquarius, é preciso dizer que ela não é ingênua, mas é tematizada no interior do roteiro. Uma das cenas fala alto nesse aspecto: quando Clara, seu irmão, cunhada e sobrinhos, olham fotos antigas da família e onde surge a imagem de uma empregada negra, cujo nome Clara era incapaz de se recordar e que havia sido acusada de fazer pequenos roubos na família. Sua cunhada nessa hora lhe diz: “nós os exploramos e eles nos roubam”. Nesse mesmo momento, a empregada de Clara interrompe a cena para mostrar uma foto de seu filho que a própria patroa desconhecia, causando um constrangimento na experiência nostálgica da família. Finalmente, a empregada negra das fotos aparecerá em sonhos de Clara bisbilhotando suas joias. É nessa hora que essa empregada morta, no interior do sonho, observa que Clara está sangrando por uma ferida…
Assim, Aquarius traz para o interior da trama a má consciência de classe, consciência que é uma mancha atávica na relação de classes entre as famílias proprietárias do Nordeste (e do Brasil) e sua legião de serviçais. Essa questão é também um dos principais e mais fortes motivos de O Som ao Redor. Mas em ambos os filmes, a questão de classe não se dá num embate franco entre as classes, mas é obscurecida pela malha das relações “cordializadas” (ou “mestiçadas”, para se servir do dialeto de Gilberto Freyre) de trabalho, favor e família que dissimulam a relação de subalternidade ou mesmo dominação.
Em Aquarius, a questão de classe emerge justamente quando a protagonista é obrigada a deixar sua “zona de conforto” existencial, com a aposentadoria garantida e vida estabelecida para se confrontar com seus traumas: a idade, a viuvez, a solidão, o sexo e a marca corporal de seu câncer. Longe de causar uma empatia imediata, o personagem vivido de Sônia Braga causa desde sempre certo estranhamento, ou deslocamento, que é, sobretudo, de si própria e que impede uma imediata identificação com o espectador, mesmo que ele seja de sua mesma classe. O filme mesmo é transpassado por um sentimento de melancolia e de inadequação temporal. Essa melancolia talvez seja um signo político mais relevante do que o de resistência. Sem dúvida Clara resiste a “ceder de seu desejo”, como diria Lacan, que é tanto mais forte quanto mais é gratuito e quanto mais é realmente fruto de um desejo e não de um interesse por dinheiro, tranquilidade e conforto. E essa melancolia é maior, quanto mais ela afasta a personagem de seu próprio tempo.
O signo político do filme talvez se deva ao fato de que essa melancolia tem um valor mais urgente do que teria um filme mais claramente de “resistência”. Clara fez parte de uma esquerda histórica que viveu certa ilusão humanista de que a educação e a cultura seriam forças transformadoras sociais. Mas as forças do dinheiro e do esquecimento parecem ser muito mais poderosas e vencedoras. Mas a melancolia pode ser um afeto poderoso contra o sentimento derrotista frente ao fracasso das lutas por transformação. O filósofo Walter Benjamin descreveu duas formas de tristeza: a acedia, que é a “simpatia com os vencedores”, e a melancolia que é propriedade daqueles alegóricos que reúnem as ruínas do mundo para reorganizá-las em outras configurações. Mesmo quando elas estão carcomidas ou roídas por vermes e cupins. A melancolia de Aquarius é o que devemos aprender quando o justo sentimento de revolta atual começar a passar e for necessário aprender outras formas de luta e organização.
Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor. É autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Ed. Oito e Meio/2014), e um dos organizadores do coletivo literário Clube da Leitura no Rio de Janeiro, tendo participado como autor e editor das três coletâneas lançadas pelo grupo. Atualmente, é doutorando em Teoria Literária da UERJ, onde realiza pesquisa sobre a aproximação entre Literatura e Ciência. Escreve sobre cinema desde 1995, quando recebeu um prêmio de crítica literária do Grupo Estação e do Jornal do Brasil num ensaio sobre o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.
“tenho fome de me tornar em tudo o que não sou” – Waly Salomão
no meio da tarde li essa frase
no meio da noite acordei brotando
em dada hora da manhã, de novo
havia sonhado com alguém a que doravante chamo “você”
mas você não era presente, nem passado
tinha órbitas encauchadas
pálpebras jamais cerradas
uns lábios mastigados e virgens, quase
e um discurso que saía entrecortado
um arremedo de diálogo
naquele cenário multiverso
naquele mundo subjétil
naquela luz insaturada
não sei se era o que sou
constituo ou sou enervante
de fibrosas correntes
de túnel monóculo fitava
sua boca
que dizia coisas, enquanto
saíam bolos, de uma lata,
de carne moída
mais encruada do que cozida
e você, de mancheias
deglutia
destacado
do gesto em si, até do simbólico
aquela massa aflorada
comia e dizia e era homem, era outro
e o apetite não era impulso
não era reflexo
era artifício, era palavra, era método.
***
(ana)crônica de uma ótica ou a eterna moribunda
meu sestrodestro
esturdido véu
nele, tão excentro
olho
os modos
as ameaças
as vergonhas
se concentram.
para enxergar, um
só basta
adestro
– olho de fossa
para escoar bofes
– olho de fumaça
para esconder gafes
– olho de faca
para extirpar bifes
– olho de coxia
para elevar fobos
locus horrendus
donde espreita a impostura
extemporal
olho – orco – ôminos.
***
acuidade vulnácula
fibromiasma no lugar de leito
a cabeça de penas e lacunas
um aperto nas conas – a de nervo e a de sangue
– melindroso fez visita
impromptuosa
lancina ancora cona-píncara
e retorna, anacruz.
***
cristalografia
no crisol, cristalogia que intento acumular
é o avistado que se embrenha e transforma
nas cristas e crenelagens, grisol
o zênite se espraia e, de gris, tinge
de vez, tudo pré-maduro,
sustentando o suspenso sem fim,
adiando a mundos, afora de resolução,
tateando em letras o vocovocífero
do verde de lastro e pedra.
dos limites das sombras e
de seu deslocamento, vejo,
em quase glaceada órbita,
toda a petrologia
e ignitude
em seus recônditos de cumes geminados,
pretenso planalto,
por isso vivente.
aceito, assim,
a topologia,
que, de rompante, iterativa me acompanha
e reconheço essa face das faces,
cresta em toda volta,
com intenção de ser infinda
crostalogia,
fundante assombração.
***
Ersatzspielerin
teimo em não acender a luz, encalhada
sem saber se quem – eu ou o mundo
é suplente de algo primevo
se o que existe é a tensão ou
degrau de recursividade.
o violento da memória é a retenção do vazio.
penso em palavras multiportantes, como não me escapa fazer:
merimnologia, ou: considerar é arder.
mermeridade, ou: ansiar é condenar-se.
metameridade, ou: a parte pelo todo.
palavras me procuram, procuram a nós
porque as salvamos de um desígnio adjunto
nos lançamos aos fins da tensão.
me vejo merócrina, exocito
e a elas entrego
qual impostora estertorada
o grau primeiro das coisas.
Maíra Mendes Galvão nasceu no planalto central em 1981, estudou Desenho Industrial e Filosofia na Universidade de Brasília. Depois de formada, morou na Inglaterra e passou a dividir seu tempo entre Brasília, Alto Paraíso e São Paulo (e outras cidades nos interlúdios). Trabalha como tradutora e revisora desde 2004 e foi assistente editorial na UNESCO. Publicou na Revista Geni, na Revista Raimundo e escreveu um poema especialmente para a antologia “Golpe: antologia-manifesto”. Realiza oficinas de leitura e criação de poesia e conversas sobre literatura feita por mulheres junto com Jeanne Callegari.
……..havendo adormecido sob a lua amarela, a que nos alucina nas noites, de olhos fechados
……..um tal K despertou
……..em pleno dia, sob o encanto da lua branca, a que nos alucina nos dias, de olhos abertos
…….. E viu que havia se transformado em homem aéreo, já não mais humano.
…….. Pois em suas omoplatas havendo sido semeadas asas, agora, já então, ele fosse:
…….. O umanoh.
…….. Ah,
…….. sendo assim possível essas coisas em Andara
…….. e aonde mais seriam? Na vida, a sutil que para nós se adensa, para nós, os ainda os que ficamos, humanos?
…….. Sendo assim então, e em Andara fosse possível isso de asas nascendo de omoplatas humanas
…….. – hein? Onde estou? O que foi, hein? O que? Isso? Que mão Imensa, esta, hein?
…….. Se perguntando aquele tal K, aquela letra que ascendendo havia deixado o Alfabeto Humano.
…….. Fosse uma vez, em Andara
…….. Enquanto isso, lá embaixo, na Terra se acendesse um fogo, mais uma vez um fogo, para em torno dele se contar histórias
…….. Enquanto no alto, um Céu escuro de estrelas
…….. Mas isso já seja a outra voz que me fala
…….. Vejam: depois dessas palavras descendentes, caindo dos céus como chuva sobre nós,
…….. agora outras palavras, em torno desse fogo aceso
…….. as que pesadas mas querendo ascender àquele Céu escuro de estrelas
…….. sua Areia Lenta
Vicente Franz Cecim é o autor de “Viagem a Andara oO livro invisível”. Lançado em 2005 em Portugal e agora, em 2016, no Brasil, “K O escuro da semente” é um dos livros visíveis que integra a Viagem a Andara.
Um vasto mundo pode ser reproduzido através de um determinado ponto de vista. E tal peculiaridade assume um importante valor quando não se fecha ao jogo inútil dos determinismos. Quem expressa em seu ofício uma específica vertente do pensamento, não pode impor ao outro padrões de observação. Importa deixá-lo à vontade nos domínios dessa majestosa senhora chamada percepção.
Mas eis que uma artista como Rety Ragazzo, ao nos indicar seus caminhos autorais, aponta para contemplar o mundo com o poder das formas. Dona de um estilo próprio, ela recria a experiência humana ao representar o universo feminino pela abundância corpórea de suas personagens.
Mais do que apresentar em seus desenhos e ilustrações o corpo feminino avantajado por vias naturais ou de quaisquer ordens, Rety consegue extrair da sua arte um sentido especial de libertação. Na medida em que esteticamente professa um traço singular sobre as figuras humanas retratadas, a artista promove uma construção inclusiva da mulher gorda dentro de uma ótica que afugenta indícios de panfletarismo.
De fato, a artista em foco abraça a causa das mulheres gordas por também se assumir como sendo uma delas. E assim nos diz: “Tenho muitas dobras e, desde que parei para observá-las, resolvi desenhar a quebra de padrões e ampliar discussões feministas e contra a gordofobia”.
Desenho: Rety Ragazzo
O que deseja, então, a artista quando nos apresenta a vida povoada por mulheres gordas? Não há dúvida de que a resposta para tal questão encontra abrigo num valioso fator de provocação. Aparentemente, vemos um mundo povoado exclusivamente por aquelas mulheres. No entanto, a principal simbologia dessa opção criativa está na crença de que gordos são naturalmente integrantes do mundo sem que seja relevante olharmos para eles com os matizes da diferença física. Melhor ainda é perceber que a representação formal de mundo habitado apenas por pessoas gordas não prejudica o caráter de igualdade sugerido pela artista. É como se, gordos ou magros, também estivéssemos ali expostos com as devidas marcas de nossas individualidades.
A arte de Rety segue pelas trincheiras da ruptura de padrões e não hesita em firmar posições ideológicas diante da vida. Além de acumular as feições de pedagoga e professora da educação infantil, toma para si as frentes de feminista e esquerdista. Confessando-se uma mulher em emancipação, a artista torna o conceito de liberdade algo dinâmico na medida em que a construção de sua identidade se opera num deslocar de espaço e tempo, na vivência cotidiana que a tudo vê e sente, das coisas banais até as mais complexas.
Rety também expande seus traçados para outras fronteiras. É, por exemplo, o caso da série “santos & orixás” (desenhos bem humorados feitos em parceria com Ana Roxo). Há também uma multiplicidade de tons e formas agregados sob a alcunha de “traços livres”.
Com a liberdade entre os dentes, Rety Ragazzo reinventa a própria existência e tudo que a cerca. Investe contra a rotina dos dias de modo a transformá-la numa fundamental aliada de sua arte. Cumpre seu ritual de pessoa comum e é capaz de desvendar pequenos mundos constantemente. Permite-se voar mesmo com os pés fixados ao chão.
Desenho: Rety Ragazzo
*Os desenhos de Rety Ragazzo são parte integrante da galeria e dos textos da 113ª Leva
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.
mordo e observo partes duras
movendo-se na oscilação entre
luminosidade e desaparecimento.
mordo,
em busca de algo que reflita luz, sem
pontos de interferência, sem
sobreposição de planos sensoriais,
essa sinestesia opressiva que anuncia
que toda alegria é temporária.
ando mordendo a ponta dos dedos,
mordendo as páginas estrategicamente
abertas
e a essas alturas do quase verão
do rio de janeiro,
eu preciso de neve como quem precisa
acordar de um sonho excessivo,
lindo sim, mas
com a beleza descomunal
dos colapsos e vulcões despertos.
tenho sentido uma compressão lenta
da alma, como se estivesse me tornando
uma pessoa pequena aos poucos, diminuindo
milímetro por milímetro, ainda assim
mantendo as proporções,
como uma anã liliputiana de Rosa Montero,
aguardando o eventual desaparecimento.
“é um engano”, é o que você diria,
e eu ainda estou esperando,
estou esperando que você me diga
“sim, você está enganada”, mas eu não estou.
sim, pequenas surpresas ardem na virada do dia,
mas não estou enganada quanto a isso:
hei de inventar um outro nome para isso que morre
na virada do dia e renasce bicho difuso, ainda sem
penugem, sem consciência
da metamorfose que guarda em si.
***
“síndrome de estocolmo”
[ …..isso é o ensaio de algo?…… ]
, você me pergunta na porta ………..do quarto – os hiatos
em meu discurso abertos à tua
observação, ao teu toque ruidoso. …….centro ….e margem dispostos,
como num jogo de tabuleiro
e eu peço um tempo para responder,
pois não sou boa com cenas, com cri-
anças ou fogões, você sabe e sorri teu
sorriso netuniano. eu meio que desvio
o olhar e busco, nas paredes de cal,
por um orifício, um traço que turve ………o teu corpo solarizado, bruto,
logo você me pergunta, irisado
de repente:
[….. mas isso, isso tem nome?….. ] ……………..não, eu digo.
volto-me para a cama, desolada, pois
estes lençóis freáticos de crisálida …….em desalinho, desaguam …….no mar …….e não retornam jamais. ………………………e esse é o ponto angular
da tua célula terrorista, amor,
cá estamos a lutar pela terrível liberdade
de bater os dentes , tremer de fome,
sede, amor,…………………. hipnotizados
[…. e agora, ainda é um ensaio? ….] …………….pela oportunidade
de morrer, amor,
de morrer de medo.
***
“nascimento de vênus”
……primeiro ……………hei ……de lavrar
esse teu mar …guardando ……..na terra .o que funda ……..o seco
…….é preciso
toda uma era
para indicar ….o nascimento …………..da ilha ………..e seu eixo
…..imprimo …de ….leve
na tua imagem .ossos inteiros …..e tua dupla
Exposição …..emerge …….óbvia ..tal qual paleta …..de cores ….primárias
no auge do verão
cai a tarde
e circulam ..silêncios
como aves …em torno …….de um
coração
que parte …..à vela
…inteiriço ………ainda que ……curvo
***
“diário do ano da cabra”
{caro centauro}
decidi ignorar
solenemente
o som de seus …………cascos
soterrar
essa mulher
de mistérios
alagados
bárbaros
porque isso
NÃO É
um poema
porque o ano
da madeira
[suas lascas
goivas foices]
termina aqui
~lembre-se
de que isto
não é um poema~
………………é que ………………morrer
d.e.v.a.g.a.r.i.n.h.o ……exige fleuma
delicadeza suprema .uma certa finesse ..que não possuo …………………:….não é …………………..fácil cair …………em…. câmera …. lenta
***
“dos rumores que se instalam”
….não posso dizer que ..ignoro com seriedade
a consciência do medo ……………nas gengivas
e a eletricidade que alimenta
o corpo venoso brutal
da vergonha porcamente
equilibrada nos joelhos. ………como é possível
que a despeito de tudo ………as gentes sejam?
que sejam com pavor,
e dentes caninos a mostra, ……………..mas que sejam.
a mim, é impossível
deslizar com graça
por essa existência
de pequenos naufrágios
de impossibilidades rotundas
de quebra-mares.
ouço um fino assovio …………..que assegura
o cativeiro de muitas feras
nos porões deste navio ……..e sei dos rumores
instalados, pesando sobre
grossas cordas e velas içadas:
o coração batendo vivo
no fundo desta caixa.
Rita Isadora Pessoa nasceu no Rio, em 1984, é graduada em Psicologia e não graduada em Estudos de Mídia. Estudou a poeta Sylvia Plath, no mestrado em Teoria Psicanalítica (UFRJ), e é atualmente doutoranda em Literatura Comparada (UFF), onde estuda o duplo em sua modalidade animal. Trabalha como tradutora, revisora, astróloga e taróloga. Seu primeiro livro de poesia, “A vida nos vulcões”, foi lançado no final de agosto de 2016 pela Editora Oito e Meio.