(Ditado por um cavaleiro à sua amada distraída em despetalar uma rosa)
A rosa, palpitando em meus dentes, ornasse
a cortina mais densa de brasa em meus beijos!
Mas, escrínio e mudez, tu te envolves em seda,
enquanto, com a cravelha, procuro o cadeado.
Imagino em minha boca o sabor mais desperto,
engrossando minha febre, num alcance de enlevo
– melhor é deslembrar esse enlace gozoso,
e bebê-lo no dia, a pascer horizontes.
Te imagino no leito, sonho ou devaneio,
eu, besta grave e lenta, libando teu peito,
para te oferecer cascatas de deleite.
Mas que importa! Rasguei, em incalculáveis horas,
com o desejo em fervor de adentrar a tua cona,
a concha de tua mão, roçando a língua morna.
***
O NOVO TORSO DE APOLO
Eu só vi tua cabeça e a percebi inteira.
Quando as pupilas amadureciam, eu vi
teu torso a brilhar mais do que uma tocha acesa,
na qual o teu olhar, de si mesmo saído
detém-se e reverbera. Ou então não poderia
teu mamilo cegar-me, e nem a doce curva
dos rins teria mãos de abrir o meu sorriso
até este teu centro, donde o sexo uiva.
Diversa vejo a carne densa e inaugurada
sob a curva de seda – nos ombros, a imagem.
Meu ser não fremiria, na pele selvagem,
e nem te deixarias além de suas raias
qual astro que se mira – nele não há quina
que não me toque, lenta, e diga: dá-me a vida!
***
SONETO DA PREMONIÇÃO
A ciência de saber que a vida segue
não diminui a dor de te perder.
Foste tu que bateste à minha porta,
abri-a par a par, e sem temer.
Entraste deslumbrado, eu, generosa –
vivera mais que tu, sempre a me ter,
doesse a corda louca e uivasse a rosa,
eu me esmerava em ser como mais ser.
Sei que um dia essa febre vai passar,
e vou lavar meu corpo com cuidado,
apagando o roteiro do desejo.
Espera e agora escuta: há um alarme no ar.
Em nossa porta, foi estilhaçado
o cadeado azul de nosso beijo.
***
APOSTA À DERIVA
Perdi. Perdi o jogo. Esvai-se a vida,
em si, presa paixão de intenso gesto.
Jamais pensara ser, cada partida,
aposta já perdida, sem ciência.
Não pressentira, então, o desabrigo
de cada dia, luto tão absorto,
rude bocejo a esfumaçar o rito
de prosseguir, sem pátria no alvoroço.
Estanca a desistência da miragem –
que se faz e refaz, futura imagem
do desarrimo, embora tão presente.
Tarja de luz, suspensa a esmo, aclara
espectro de aura torva, que deambula
ao susto vesgo de carta marcada.
***
ORFEU QUÂNTICO
Fragmentos de corpo destroçado
espalham-se pelo tempo.
a história infinita,
ali inscrita.
O difícil é escrever essa história,
com o corpo bípede profanador
em sua vaidade assassina.
***
QUINTA-FEIRA
Corpo meu tão gentil, minha alma ardia,
viajando em teu mastro – n’ alma o vejo,
e mantenho minha flama: é meu desejo,
conservar a tua luz lume em meus dias.
Ao mirar o teu sono, se esbraseiam,
o meu corpo e a minh’ alma, e é tão sobeja
a impaciência a singrar por teu beijo
em naves de paixão – que se encandeia,
presa, minha vida – em uma só cadeia!
Ditosa aquela sina, que se atreve
a apagar ardentias e tormentos
em momentos que a tinta não transcreve!
Possuem-me, Senhor, teus elementos,
enquanto gelo em fogo e fuljo em neve.
***
VISITA
Apenas isto: andar, buscando a vida.
Sem carregar consigo nenhum tempo.
No céu, é tarde. A voz não pressentida
emite um grito vão, irmão do vento.
Andar assim, o corpo numa lágrima,
indagando um destino de demência,
a contemplar estrelas: só, em pânico,
e este silêncio frio, e esse silêncio…
Viste a louca mudez da estátua fria?
Já o dia se cumpria, e o abismo abria-se,
nos meus olhos vendados e vazios.
Talvez a ida seja breve e pura
ao suspiro letal em hora túrbida,
mas visito a paisagem cada dia.
Maria da Conceição Paranhos nasceu em Salvador e escreve desde os 4 anos de idade. Formou-se em Letras pela Universidade Federal da Bahia, onde também fez mestrado. Concluiu seu doutorado na Universidade da Califórnia, Berkeley, em Literatura Comparada, e seu Pós-doc. Na Universidade de Viena, em Estudos de tradução. Tem vários livros publicados, entre os quais “Dr. Augusto chegou” (contos, relatos e sonhos), “Chão circular”, “Os eternos tormentos, “As esporas do tempo”, “Minha terra e outros poemas”, “Delírio do ver” (poesia). Recentemente, lançou “Poemas da Rosa” (Ed. Mondrongo).
Um mundo a revelar suas faces. Em cada rosto, a expressão daquilo que está por trás do ritual dos dias. É preciso muito mais do que a mera anunciação da rotina para entendermos que a fotografia transcende a aparência das coisas. Assim, vemos transitar os homens com toda a vastidão de cenários que lhes são peculiares e íntimos.
Já que estamos falando de humanas paisagens, não há como deixar de ressaltar o caráter antropológico do trabalho de um artista como Patrick Arley. É, de fato, o que causa maior impacto num primeiro momento em que nos debruçamos sobre seu ofício. O homem apresentado nas fotografias de Patrick é o mais puro reflexo do ambiente em que vive, pois traz em si o vigor de suas práticas sociais, seus laços de pertencimento, seus traços culturais, seu lugar no mundo, enfim.
Cada semblante retratado pelo fotógrafo mineiro em questão transpõe nuances de um estratégico contraste entre luz e sombra. É como se diante da natural ambiguidade que o ser apresenta, emanasse simultaneamente tanto o que está para ser visto como também aquilo que carece um sentido de reserva. Então, poderíamos concluir que as faces humanas observadas estão ali impregnadas de um fluxo de expansão e retração. Estão expostas naturalmente porque cumprem um papel material do qual não se pode fugir. Entretanto, mantêm um lado oculto devidamente preservado pela construção da subjetividade.
Foto: Patrick Arley
Quando avançamos mais no microuniverso de cada pessoa flagrada pelas lentes de Patrick, sentimos a leve presença de espaços intangíveis. De um lado, a materialidade das coisas; do outro, vastas possibilidades de abstração, as quais tanto podem estar situadas no plano do observador como naqueles vividos pelos reais personagens.
E o fotógrafo vai mais além. Ousa percorrer temáticas envolvidas em mistério, como é o caso da morte. O resultado disso é uma representação cujo trânsito de imagens faz circular elementos como silêncio, vestígios e memória. Ainda dentro dessa atmosfera, uma espécie de contemplação do mistério parece surgir quando a existência física dá lugar a sacralizadas lembranças.
Foto: Patrick Arley
Outro ponto de destaque no trabalho de Patrick está no registro de manifestações da cultura popular. Delas, o artista consegue extrair recortes que mesclam crenças e elementos folclóricos. O testemunhar das tradições, sobretudo as de origem afro-brasileira, mostra que a fotografia também pode estar a serviço da preservação das raízes que fundam um país de proporções continentais como o Brasil. Há beleza no modo como as imagens que tratam desse tema retratam um êxtase tanto individual quanto coletivo, principalmente quando seus apelos denotam uma esfera mística de experiências.
Nascido em Belo Horizonte, Patrick Arley formou-se em Ciências Sociais, fez mestrado em Antropologia e atualmente é doutorando (também em Antropologia) pela Universidade Federal de Minas Gerais.
O viés imagético seguido pelo artista em foco demonstra uma valiosa opção por tentar compreender um pouco daquilo que integra os papeis humanos. Movidos por paixões ou pelo ritmo automático de nossas existências, somos seres outros, talvez um pouco melhores do que antes, quando assinalamos posições marcadas pelo captar de gestos simples da vida. A habilidade de olhar verdadeiramente o outro, respeitando seus domínios, implica num entendimento sobre nós mesmos.
*As fotos de Patrick Arley fazem parte da galeria e dos textos da 112ª Leva.
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.
Antes de dizer qualquer coisa, o título que uso nessa resenha de “A Loucura dos Outros”, estonteante livro de contos de Nara Vidal, é importante porque, na própria palavra que sugere insanidade, encontramos a “cura” das paixões que desarranjam a alma. Mas como viver sem esse desarranjo, ser feliz no meio de um mundo tão louco? Será que a loucura existe somente nos outros ou é vista apenas com nossos olhos cheios de razão sempre a nosso favor?
O drama feminino percorre todos os contos vividos por 21 personagens: Ifigênia, Marta, Ana Rosa, Vanessa, Cecília, Adriana, Maria Dulce, Selma, Lúcia, Amanda, Ana, Marelena, Rita, Olívia, Sílvia, Flávia, Érica, Regiane, Débora, Miriam, Íris. Todas elas envolvidas em dramas que lembram as tragédias gregas, mas, ao mesmo tempo, sendo difícil classificar cada conto dentro de correntes literárias estudadas nas escolas porque há um pouco de tudo. O subjetivismo com sua falta de clareza do movimento simbolista; a prosa realista com seu caráter ideológico onde são discutidos problemas sociais (especificamente num ambiente restrito do universo feminino), quando a autora explora, sem nenhuma hipocrisia, sem pudores e numa linguagem bem clara focando sexualidade, a exploração, a infelicidade, a prostituição, o incesto, a insatisfação da figura feminina atemporal.
Se poderia dizer que são contos de escola naturalista pela forma como a palavra é usada e as ações das personagens com suas histórias tão chocantes que deixam o leitor com os dentes travando e rangendo ao mesmo tempo. No entanto, se poderia dizer que é uma prosa com características existencialistas bem marcantes quando é mostrado o ser humano com suas circunstâncias subjetivas, com sua ânsia de liberdade, mas ao mesmo tempo aprisionado no meio em que vive.
Acredito, porém, que qualquer tentativa de classificação seria desnecessária porque a autora certamente não esteve preocupada com isso enquanto escrevia sobre a alma nua e dolorida da mulher.
Não foi à toa que Nara Vidal abriu o livro, tendo como epígrafe um poema de Silvia Plath – Canção de amor da jovem louca – já que os contos tratam da loucura encoberta pelos cílios de suas personagens. Depressivas, algumas delas cometem suicídio por não suportarem o peso da vida, assim como a poetisa que termina seu texto com os versos abaixo que sinalizavam sua depressão e suicídio:
(…) Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro. Imaginei que voltarias como prometeste Envelheço, porém, e esqueço-me do teu nome. (Acho que te criei no interior de minha mente)
Interessante também observar que a contista dedica o livro a Ismália. Seria uma homenagem e referência ao poema deAlphonsus de Guimaraens? Certamente. A loucura, o miolo da loucura está bem presente. Vejam:
Quando Ismália enlouqueceu, Pôs-se na torre a sonhar… Viu uma lua no céu, Viu outra lua no mar.
No sonho em que se perdeu, Banhou-se toda em luar… Queria subir ao céu, Queria descer ao mar…
E, no desvario seu, Na torre pôs-se a cantar… Estava perto do céu, Estava longe do mar…
E como um anjo pendeu As asas para voar… Queria a lua do céu, Queria a lua do mar…
As asas que Deus lhe deu Ruflaram de par em par… Sua alma subiu ao céu, Seu corpo desceu ao mar…
O desfile das personagens se inicia com Ifigênia, num conto dolorido e surreal, a mulher que perdeu a cabeça (literalmente) por amor ao palhaço Vareta. Em seguida, vem Ana Rosa, conto com um depoimento estarrecedor de um traficante assassino, seu marido, que a amava loucamente. E Cecília? Não conseguia mais olhar para o marido. Será que se suicidou no metrô? Nara Vidal brinca com a imaginação do leitor, deixando-o na incerteza. Maria Dulce, nome doce, coitada – a sem coração – deixa cair o filhinho de dois meses, talvez por não suportar que ele viesse a passar pelas mazelas da vida com a coragem necessária. Lúcia, a que fazia queijo de cabras, depois de a fabriqueta ser fechada o marido fica desempregado e não consegue mais ver as estrelas que tanto apreciava com a mulher. Amanda sofria de baixa autoestima e era espancada pelo marido e ainda achava que ele tinha razão. Medo? Vergonha de ter um casamento falido? O que leva uma mulher a sofrer esse tipo de maltrato e ainda ser grata pela comida que o marido bota na mesa? Entre outras comoventes personagens, trago aqui Marelena, a garotinha que limpava a bunda compulsivamente até se ferir. Transtorno obsessivo-compulsivo. O que teria levado a garotinha a adquirir essa doença? Meio em que vive? Abuso sexual? A autora sacrifica o leitor não deixando claro o porquê… é preciso uma ginástica mental para descobrir. Negligência dos pais? O que houve ali?
É interessante conferir a vida das outras personagens para tentar entender suas loucuras. Não se fala aqui da loucura sobre a qual Aristófanes designava na Idade Média. Algo até como divino. “Enlouquecer é ser submetido à angústia e ficar prisioneiro do universo do não sentido, em que nossa linguagem fica aquém da possibilidade de interpretar o que experimentamos” (Birman, 1983). Em todos os contos a vida dessas mulheres anda de mãos dadas com a “loucura”, a angústia, a morte, mesmo que ela não mate a personagem de morte matada ou morte morrida ou, quem sabe, a morte de quem continua vivo.
Creio que a loucura tratada neste denso livro de contos é a insensatez, o desencontro da coerência com a incoerência de pessoas que correm sem saber por que, para onde a fim de encontrar não sei o quê. Talvez essa loucura de que fala a autora seja a do miolo mole mesmo.
Em verdade é a loucura que nos faz viver felizes, lembrando Erasmo de Rotterdam em seu livro Elogio da Loucura, escrito em 1508. Assim como a loucura é a personagem de Erasmo, ela também se reinventa nos contos de Nara Vidal, mostrando quão hipócritas somos de não termos coragem de aceitar que os loucos existem para chamar os sãos à razão; mostrando que o desmiolamento alheio, em seus contos do livro “A Loucura dos Outros”, pode ser aceito e criticado, mas não as nossas loucuras nossas de cada dia, principalmente no universo feminino. Nesse universo, há que se ser louco para suportar o peso da razão e encontrar um pouco de felicidade.
De repente, encontramos uma cura na Loucura das personagens da autora. Vejamos!
Neuzamaria Kerner, baiana de Salvador, é professora e escritora. Tem publicados os livros: “Fragmentos de Cristal”, “Eu Bebi a Lua”, “A Presença do Mar na Prosa Grapiúna”, entre outras publicações em revistas literárias. Seu mais recente rebento poético é “O Livro-Arbítrio das Evas – Dentro e Fora do Jardim” (Ed. Editus – 2014).
e seria sereia encantada.
Eu, montada no lombo do seu grosso navio,
meu Odisseu,
nada em ti cessaria de querer,
nem tuas mãos atadas.
Eu cantaria macio,
com a carne da minha entrega
uma canção de fêmea na sua orelha
e das águas de teu suor geminariam insutilezas.
Na deriva de um quarto enorme,
navegaríamos a cama pequena.
Enquanto os lençóis, de pura onda,
Imitam o tecido das estrelas.
Sem rota, bêbados de maresia
nos acharíamos pelo cheiro
no faro puro de que é feito o desejo.
Eu cantaria esta canção antiga,
encantadeira,
enquanto destroços de sua boca caminhariam ……….pelo meu corpo
tangendo novos naufrágios.
***
Confissão
Tenho medo deste meu coração de Água.
Há nele tanto peixe ligeiro,
Miuçalha de ondas por cima.
Tenho medo, por que as ondas param,
E eu mato, sem medo, o ligeiro dos peixes
Devorando suas guelras.
Tenho medo deste meu coração de Água
Que molda pedras macias.
Temo pelas pedras que moram nele,
Por que sei que viro lâmina afiada
Que fere a pedra.
Tenho medo pelas plantas pequenas que se trançam nas bordas,
Pelos peixes famintos que atravessam minha pele
Até pelas oferendas que colocam a meus pés,
Eu temo.
Temo por que sou rio, e meu caminho é desaguar.
Penso nas embarcações que me atravessam,
No pescador todo feito de peixes
que eu conquistei sem nem cantar
Penso em virar seu barco no meu meio mais profundo
Lacerar sua pele de homem, com meus dentes de nada,
Dar a ele a respiração de afogado, que só eu sei dar
E seguir, andando sobre meu próprio corpo
Com os meus olhos prenhes de mar.
***
Desamparo
Os filhos são feitos de partir
e toda casa é feita oca para sua ausência,
e grande, para que se percam
Parido, o útero silencia,
implode,
e das constelações que abrigou enorme,
nada vive que tenha sido estrela.
***
Ausência
Como se tece o amor, este manto fino?
Que fazer dos dedos feridos pelo gesto repetido de amar?
Quarenta dias acordaram para o vazio,
quarenta noites abrigaram silêncios.
Nenhum barco atacava, nenhum trazia você.
Sua alma dura
Meus dedos finos, de carne e sangue vivos
Os olhos secos: lágrimas impossíveis.
Que fazer do amor, deste sacrifício,
desta faca pura lâmina que morde minha carne?
***
Antes que chova
(Último poema)
Antes que ele venha eu já sou feliz.
Se ele vem às três da tarde,
eu já amanheço iluminada
pelo por vir do tempo,
e as horas caminham languidas enquanto eu me banho,
perfumo e me preparo
para sua chegada.
Ainda antes que ele chegue
Meu corpo está calmo e prenhe de sua presença.
E quando ele chega, eu já estou
Luminosa pelo fim da espera.
Antes que ele chegue eu já sou mulher,
Sou inteira e nada me aparta de mim.
Ele a mim se acrescenta,
onde nada falta.
E este excesso de aço e negrume,
estes brancos que se desenham
em barbas no seu rosto
esta boca de libélula nas minhas madrugadas
a mim se somam.
E apenas por que sou inteira
ele vem completar-me ali,
onde nada falta.
E o afeto que tange nossas almas
nos emancipa e dilata
como se o amor pudesse
***
Insurreição
seria mais fácil não amar os pessegueiros macios
e nada sorver do seu perfume,
mas os meus dentes querem a carne do seu corpo,
minha língua deseja lamber do seu sumo.
O certo seria plantar a semente e esperar,
dos laços e nós dos caules finos,
aspergir-se o perfume da fruta vindoura.
mas meu corpo tem pressa
e não respeita os relógios que inventam o tempo.
Minha natureza é temporã.
Eu sou das fêmeas que vão!
Ficar é para quem tem raízes,
ceder é para quem deseja morada: eu sou o desabrigo.
quero a fruta furtada do pé.
comer seu gosto ainda verde,
morder suas entranhas ainda duras.
não sou das que esperam,
Sou das que não querem nem chegar,
Sou de partir e, no precipício, ainda ser silenciosa,
inteira.
Sou uma destas mulheres que vão.
ficar é raiz.
partir é imensidão.
Lívia Natália, sou baiana de Salvador, poeta e contista. Escrevi o livro de poemas Água Negra, 2010 (Prêmio Banco Capital de Poesia) e Correntezas e outros Estudos Marinhos, 2015. Sou doutora em Teoria da Literatura e professora do curso de Letras da Universidade Federal da Bahia.
O ano, 1998. O espírito que paira na atmosfera de ações traduz-se numa palavra profundamente motivadora: encantamento. Diante disso, há que se reconhecer que projetos de vida, sobretudo aqueles que são ligados à arte e seus amplos matizes, ganham corpo na medida em que se baseiam num genuíno desejo de transformação. Evidenciar os sentimentos humanos é, sem dúvida alguma, um diferencial de qualquer investida artística. Marcado por tal lema, eis que surge, em Salvador, o Grupo Teatro Griô.
Juntamente com sua parceira na vida e na arte, a atriz Tânia Soares, o também ator Rafael Morais demarca os primeiros passos do que é hoje uma das principais companhias de teatro da Bahia, certamente também do Brasil. Originalmente vindos da arte teatral e circense, Rafael e Tânia voltaram suas atenções para a fabulosa ferramenta da oralidade e seus desdobramentos. Abraçando fundamentalmente o viés da narração de histórias, o Grupo Teatro Griô assinala todo um despertar em torno do que seus fundadores preferem chamar de palavra viva, aquela que une, mobiliza e promove mudanças no ser pensante e pulsante.
Sobretudo depois de testemunhar alguns espetáculos do grupo, os quais mostram o quão viva está a nossa memória diante dos caminhos da expressão oral, veio com vigor o desejo de entrevistar Rafael e saber dele que espécie de sustentáculo mantém acesos tais caminhos da arte. Com suas feições de ator, diretor, professor, Mestre em Artes Cênicas (UFBA), ele fala com a propriedade de quem vive o processo criativo cotidianamente, sem negligenciar seus apelos, chamados e também seus abismos.
Na conversa de agora, fica registrado um breve balanço desses 18 anos de atividade do grupo, através do qual Rafael Morais confessa que ali está também a dinâmica real de sua expressão enquanto ser humano. Suas respostas confirmam que o poder transformador da arte, movimento que se opera principalmente de dentro pra fora, é marcado especialmente pela capacidade de materializar os sonhos.
Rafael Morais / Foto: arquivo pessoal
DA – O Teatro Griô surge como resposta a alguma necessidade em especial?
RAFAEL MORAIS – O surgimento do Teatro Griô não foi algo planejado. Veio de uma necessidade de falar sobre a nossa própria cultura. Na época, estávamos fazendo um trabalho voltado para o circo, para o teatro popular, e fomos realizar algo na Itália e Inglaterra com alguns pesquisadores teatrais e também da área de palhaço. Naquele momento, eu senti uma vontade de criar uma apresentação que falasse das nossas histórias. Logo que chegamos da Europa, fui fazer algumas oficinas a pedido dos professores da Escola de Teatro, e um deles, o querido e saudoso Carlos Petrovich, me convidou para ir a um terreiro de Candomblé em Salvador, o Ilê Axé Opô Afonjá. Fiquei encantado e, logo depois, o mesmo professor nos chamou para fazer um trabalho numa escola municipal de Salvador como pesquisadores do Núcleo de Estudos do Teatro Popular, o NET-POP, da UFBA. Fomos eu e Tânia como pesquisadores bolsistas do CNPq para fazer um trabalho de valorização da cultura oral, das histórias, dos mitos naquela escola a qual me referi e que fica dentro do terreiro. A partir daí, esse universo da tradição foi nos arrebatando. Isso em 1998. Começamos a desenvolver uma metodologia própria para levar essas histórias para as crianças da escola, os professores e também para o pessoal da comunidade, trazendo uma releitura, um universo de transposição dessas narrativas de tradição oral para a cena. Então, encenamos algumas histórias, fizemos cortejos, tentando realizar algo que não fosse o teatro tradicional. Vimos que o que fazíamos naquele momento em termos de teatro não contemplava aquele universo. À medida que íamos fazendo, criamos um jeito nosso de lidar com essas histórias, valorizando a simplicidade, a sinceridade, o contato direto com o público, o envolvimento das pessoas, tudo como se fosse uma festa, um encontro, uma roda de histórias com as pessoas mais velhas, sem tirar o brilho, o encantamento, buscando algo não artificial, mas sim uma palavra viva, que trouxesse essa cultura viva. Acho que foi um encontro mesmo, pois a gente ouviu aquelas histórias e pensou que tinham tudo a ver com o que estávamos querendo, mas nem sabíamos direito o que desejávamos encontrar. Foi a arte de contar histórias. Percebi que ela contemplava tudo o que buscávamos, um teatro popular, de encontro direto com as pessoas, que valorizasse nossa própria cultura, envolvesse as pessoas e pudesse ir a diferentes espaços. Queria fazer algo que não fosse restrito apenas ao palco italiano. Ir ao encontro do público, nos barracões, escolas, terreiros, praças.
DA – Qual a importância do viés da matriz africana no trabalho de vocês?
RAFAEL MORAIS – Foi desde o início uma grande inspiração. No entanto, o Teatro Griô não se limita às narrativas de tradição oral africanas ou afro-brasileiras. Trabalhamos com a tradição oral que existe no mundo todo em diferentes povos e culturas. Então, narramos histórias da Península Ibérica, da Rússia, Índia, do Oriente, dos árabes. Com a cultura afro-brasileira não poderia ser diferente, pois estamos na Bahia, onde essas histórias, cantigas e narrativas como um todo são predominantes. Ela tem uma importância muito grande por conta até desse contato com o público. A gente trata de histórias do mundo inteiro e temos diversos espetáculos inspirados em histórias de vários lugares. A matriz africana nos inspirou muito. No teatro, já éramos muito ligados a histórias da mitologia grega, nossa formação ocidental. Sempre gostamos de mitologia, e quando nos encontramos com os mitos dos Orixás, por exemplo, foi um encantamento, uma alegria. Acho que pelo encantamento essas histórias nos pegaram. Conseguimos, a partir dessa cultura afro-brasileira, perceber a junção da palavra cantada, essa ligação entre o sagrado, o mítico e o cotidiano. Aprofundando a pesquisa, fomos compreender que existe um mundo vasto de histórias de matriz africana, não somente dos Orixás, mas histórias como os contos de Ananse, a primeira aranha que existiu e que ensinou a arte de contar histórias aos homens. Tem contos muito mirabolantes, epopeias, uma riqueza muito grande do continente africano. Também temos histórias fascinantes em todos os povos, como é o caso dos árabes. Na verdade, a gente, com a cultura afro-brasileira, conseguiu tocar em narrativas que transcendiam as histórias dos irmãos Grimm, os tradicionais contos de fadas. Perceber essa diversidade foi fantástico. E a cultura afro-brasileira teve esse papel de abrir as portas para nós nesse universo da tradição oral.
DA – Há um viciado costume de se olhar a cultura de matriz africana apenas sob um ponto de vista meramente exótico, como se não houvesse um reflexo possível na realidade. O que você acha dessa redução?
RAFAEL MORAIS – Esse não é nosso olhar para com a cultura afro-brasileira. Não tem nada dessa questão do exótico, do que as pessoas chamam de folclórico, de buscar esses elementos que sejam mais histriônicos. A importância dessa cultura é muito grande, ainda mais aqui na Bahia. Mais do que imaginamos, essa cultura é nosso berço de civilização, de humanização e formação. Acho que isso também está muito relacionado à tradição oral, à questão de uma certa importância maior que se dá à palavra escrita como se a oralidade não fosse algo profundo. Acabamos muitas vezes desvalorizando por uma questão cultural, política, ideológica, dessa coisa de achar que tudo o que vem da África não presta ou que vem de um universo menor. Em nossas pesquisas, percebemos isso o tempo inteiro. E vemos o quão equivocada é essa visão de mundo que coloca a tradição oral, as referências africanas como algo menor. Temos alguns avanços acontecendo, algumas leis, como é o caso da Lei 10639 de 2003, que obriga o ensino da cultura afro-brasileira nas escolas. Mas as pessoas às vezes não sabem como fazer. Alguns professores não têm a formação adequada, não sabem como trabalhar isso, pois a vida inteira tiveram uma formação que privilegia o eurocêntrico, desprestigiando tudo o que vem da África. Mas sinto que isso está mudando. No Teatro Griô, fugimos esteticamente desse campo do exótico. Inclusive, fazemos questão de não levar para a cena essa visão de mundo, tanto que não representamos, por exemplo, Orixás em cena, ou seja, mudamos muitas vezes as melodias das canções, trazemos um universo que coloca o ser humano e os sentimentos das histórias em evidência. Essa dramaturgia é construída não para reforçar o exótico. Temos, por exemplo, o espetáculo “Histórias de Mãe Beata” que é bem simples, mas que é uma festa de samba de roda que acontece e as pessoas vão contando histórias, mas em nenhum momento representamos os Orixás em cena. Não vamos ao terreiro e copiamos o que existe ali. É uma atitude também de respeito e de aprofundar essas questões. Acho que é um perigo muito grande você tratar um universo tão rico como algo simplesmente exótico. É um desserviço e um desrespeito, até uma ofensa a toda e qualquer cultura tradicional você se apropriar dela e não devolvê-la como se deveria. Buscamos valorizar a vivência, que é tão rica da cultura afro-brasileira, e a palavra viva, os grandes narradores que temos, não apenas os griôs, mas os akpalôs, que significam fazedores de histórias. Essa palavra viva que toca nos sentimentos humanos, de pessoas de qualquer lugar do mundo. Recentemente, apresentamos em São Paulo cinco espetáculos no Festival Internacional de Narradores, o Boca do Céu, e tinha gente do mundo inteiro que ouviu essas histórias da cultura afro-brasileira e se encantou, pois contamos e essas pessoas se emocionaram não porque acharam engraçado e se envolveram. Procuramos burilar os sentimentos e tratar isso como a gente sente e vive. Muita gente olha os africanos com a questão das cantigas, com essa coisa do feitiço das palavras, do sagrado com uma condição de se assustar porque eles (os africanos) transcendem a culpa, vão para o prazer no sentido do corpo que dança, está vivo e ligado à magia. Aqui no Ocidente parecemos ter perdido essa magia, mas ela está em todos os povos. Se você for ver as histórias dos nórdicos, dos orientais, o tempo inteiro esse universo de magia está presente nelas. As histórias afro-brasileiras encantam porque mantêm ainda viva essa sabedoria que está muitas vezes mais generalista do que específica, valorizando a vivência, a experiência, o momento aqui e agora, as cantigas, os poemas, os orikis. É muito lindo esse universo. Não tem como reduzir ao exótico. Tratamos essas histórias da mesma maneira como tratamos as demais. Reinventamos aquilo para a cena. Acredito que precisamos ter da cultura afro-brasileira essas referências. As histórias que o Teatro Griô acaba levando para pessoas de diferentes lugares têm um papel muito importante de ser mais uma referência. É muito bacana percebermos as crianças afrodescendentes assistindo o espetáculo e se reconhecendo nele a partir das histórias e não da forma em si, transcendendo inclusive a cor da pele. É a história que passa adiante, o universo do imaginário. Então, é uma riqueza e um poder muito maior do que a própria imagem que está se vendo ali. Uma importância muito grande nesse sentido de formação e de educação. A narração de histórias afro-brasileiras tem esse componente de ser civilizatória, das pessoas reconhecerem a cultura como algo que fala diretamente a elas, os sentimentos humanos, os heróis e anti-heróis. As histórias aproximam as pessoas, não as excluem. É a busca da gente se reconhecer enquanto ser pensante, que sente e vive nesse mundo. Além de uma importância grande de formação e educação, vem desmistificar e revelar a luz que existe nessas histórias e que às vezes está por baixo de um véu de exotismo e de ridicularização do outro. A arte de narrar histórias consegue desvelar esses sentimentos, essas imagens e trazer para nossa vivência cotidiana de ser humano que vive e pensa. Temos as particularidades da cultura de cada um, que são importantes enquanto reconhecimento das diferenças, mas no fundo somos feitos de sonhos e sentimentos.
Rafael Morais / Foto: arquivo pessoal
DA – O que dizer da oralidade enquanto essa verdadeira mantenedora da memória?
RAFAEL MORAIS – Interessante essa pergunta porque a gente poderia imaginar justamente o contrário, que aquilo que não escrevemos o vento leva, como diz um ditado popular, ou seja, não conseguimos registrar. A tradição oral, inclusive, faz nascer a escrita. E a memória é viva, o tempo inteiro a gente está reinventando, revendo tudo. A tradição oral tem muitas funções e estratégias mnemotécnicas de fazer permanecer essa memória a partir das suas transformações. Temos muito material de tradição oral que se manteve vivo além da escrita. Hoje a gente consegue ver que os contos, mitos, estão aí nas coletâneas de recontos, histórias, em material escrito. Muitas vezes isso tem sido uma possibilidade muito bacana para pesquisadores, artistas e para o próprio povo conhecer essas histórias que transcendem os tempos. Ao mesmo tempo, a tradição oral mantém essa palavra viva, que não está ali só cristalizada, mantém a magia. A magia você encontra no conto que está escrito, mas é bem diverso de você poder ouvir uma história de boca para ouvido. Essa dinâmica da tradição oral tem sua própria força porque é flexível, se transforma, vai mudando com os tempos, com o saber que a gente já construiu há muitos séculos. É como se fosse uma espiral nesse movimento de memória e de passagem dessa tradição. A própria arte de narrar histórias sempre foi essa mantenedora, a trama da história sempre foi passada do mais velho para o mais novo por sucessivas gerações. Se a gente atentar, vamos perceber no dia a dia a quantidade de histórias nas vivências de cada pessoa. Estamos o tempo todo transformando isso. A escrita passou a ser mais um instrumento de interação, mas esse mecanismo de memória continua vivo o tempo inteiro no ser humano. Nós todos somos seres épicos, narrativos, além de lúdicos e pensantes. Por que será que permanece vivo o encantamento no mundo de hoje? Por que é que hoje em diversos ambientes que chegamos há o interesse de pessoas de todas as idades com as histórias de tradição oral? É algo inexplicável. Todo mundo reclama que os meninos ficam muito ligados na internet, televisão, nos joguinhos, mas quando eles estão diante de uma história que está sendo contada é como se reacendesse um mistério na memória dessas crianças. Essas crianças são de todas as idades, pois em alguns espetáculos nossos, às vezes, vêm adultos sozinhos. Nosso público é bem heterogêneo e é bem bacana perceber esse jogo de memória que há na gente, essa necessidade de ouvir essas histórias e depois sair espalhando elas por aí. No Brasil, acontece uma coisa muito interessante. A cultura popular está viva nas cantigas, não somente naquelas de infância, mas também nas cantigas de trabalho, nos mutirões, cirandas, diversos ritmos espalhados pelo país. Aqui na Bahia temos as cantigas de roda de tirar versos. É uma maneira de se preservar através da música. É interessante que as histórias de matriz africana, a maioria delas, se mantiveram preservadas na África por conta de cantigas, mas aqui no Brasil perdemos muito isso, ficou mesmo a trama se passando. A cantiga traz um momento de lembrar a trama inteira da história. No Teatro Griô, gostamos muito de misturar a palavra cantada com a falada, a palavra poesia, a palavra lírica.
DA – A contação de histórias pode ser melhor abrigada no seio da educação formal?
RAFAEL MORAIS – Com certeza. E não apenas com objetivo explícito de ensinar, pois a história, a narrativa de tradição oral transcende a informação e educação, vai além, para o universo do encantamento, do tocar as pessoas. Nesse universo onde tudo acontece pleno, você está o tempo todo aprendendo. Esse aprendizado que vem de uma sessão de histórias é difícil de descrever no sentido mais amplo porque é muito profundo. Além de tudo o que está sendo ensinado a partir da narrativa, a história ensina por si só nessa experiência de arte. As escolas muitas vezes estão preocupadas apenas com um depósito de informações para uma resolução prática que é fazer provas, o que acaba sacrificando todo o ser que está ali para aprender. Aprender não somente no sentido de conhecer, mas de ser mesmo. A história vem para esse campo da convivência, do aprender a instigar, a correr riscos, sonhar, a você perceber o universo do imaginário, que é tão rico, e de fazer isso se desenvolver cada vez mais em alunos de toda e qualquer idade. A narração de histórias pode acompanhar todos os momentos de nossa vida, do nascimento até nossa despedida aqui dessa experiência de vida. O tempo inteiro estamos contando histórias. O bom professor conta histórias a todo tempo, mesmo quando não acha. Um tema bem narrado é o papel de todo professor, aquele que consegue revelar o que não está acessível ao outro ser. Os excelentes professores têm esse domínio da narrativa, da comunicação. Muitas vezes a gente vê a arte sendo usada como um simples instrumento de aprendizado das disciplinas. Precisamos mesmo ter momentos de apreciação estética nas escolas, pois senão ficamos colocando a arte a serviço de determinados conteúdos. Nesse momento, temos um ganho em todos os sentidos, cognitivo, afetivo, interpessoal, imaginário. Precisamos descobrir isso com urgência para dar um pouco mais de frescor à educação. A arte de contar histórias vai num ponto crucial da educação, que é o pensamento crítico, a formação desse ser que é capaz de encontrar seus caminhos. A arte de contar histórias não entrega tudo de bandeja, ela convida você a enveredar nesse caminho de descoberta de si mesmo. O bom contador sabe que não está ensinando, está ali aprendendo junto. É nesse encontro entre narrador e ouvinte que acontece essa magia, que é a arte de narrar histórias. É muito bonito você perceber o aprendizado que surge daí. E, claro, não tem nada a ver com as lições de moral, como acontece muitas vezes num sentido de podar a criança. Na arte de contar, a história passa à frente e as pessoas vão conseguindo fazer suas próprias interpretações sem que alguém precise impor algo, dizendo que é isso ou aquilo. É um momento de liberdade artística, no qual as histórias podem ser aliadas da educação com alegria, encantamento, ludicidade e plenitude. Para mim, o valor está no próprio encontro da narração, momentos das pessoas poderem ouvir e contar histórias sem se preocupar com os mecanismos didáticos.
DA – Uma coisa bastante interessante no trabalho do Teatro Griô é a multiplicidade de atuações, ou seja, não apenas a encenação dos espetáculos é o foco, mas também desdobramentos variados sob o ponto de vista da formação, das rodas de conversa, intercâmbios, sem falar na mescla de elementos presentes, tais como o clown, música, dança. Como é atuar dentro dessa intenção multifacetada?
RAFAEL MORAIS – É um presente para o artista. Uma oportunidade de não separar as possibilidades criativas de expressão. Temos tudo ali ao mesmo tempo. Você está ali contando a história, mas de forma plena, com movimento. No sentido da formação, ela é muito ampla, de elementos do cômico, do palhaço, do teatro de rua. O aprendizado para o artista com relação ao espaço cênico da rua é fantástico. Essa possibilidade de ter esses elementos técnicos da voz, da interação com o público, da disposição do espaço. O Teatro Griô é realmente um presente para nós que o integramos porque é nossa morada artística, digamos assim. É a possibilidade de você conviver com tudo aquilo que acredita. É uma fonte que nunca seca. Parece que o tempo inteiro estamos descobrindo coisas novas, pesquisando. É uma obra muito aberta que vamos construindo no contato com o público. Ao mesmo tempo em que é um presente, é também um desafio você lidar com essa metodologia do Teatro Griô, tanto que vira e mexe a gente faz audição, algumas pessoas ingressam e temos uma maneira própria de trabalhar que acaba unindo esses elementos todos que você falou, mas com muita simplicidade. Fugimos um pouco do que é esse mundo do espetáculo, acabamos entrando num encontro com a arte em diversos lugares e matrizes culturais. Buscamos esse momento de convivência do público com os narradores, as histórias. E, claro, tem todo um aprimoramento técnico com diversos profissionais que acabam contribuindo. É um universo muito amplo, que a gente busca dar unidade e simplicidade. No grupo, uma coisa bacana é que os atores não sabiam tocar um pandeiro e hoje a gente já tem os narradores tocando percussão, rabeca, acordeom. É um trabalho que não para nunca. O tempo inteiro estamos aprendendo, exercitando, pesquisando, aprofundando. É muito instigante fazer parte como artista desse núcleo. Mas a tradição oral, a palavra viva, é o que dá unidade a todo esse trabalho.
DA – O que dizer da resposta do público nesses diferentes ambientes por onde vocês circulam?
RAFAEL MORAIS – Impressionante. Aqui em Salvador a gente vai para diversos ambientes e às vezes quer atingir um público distante. Por exemplo, fizemos um projeto de teatro de rua na Casa da Música, no Abaeté, em Itapuã, e para nossa alegria veio gente da cidade inteira. Temos percebido que o público tem acompanhado a gente. As pessoas vão percebendo o grupo como uma grande família e criam um certo vínculo com a gente, o que acho bacana. Cria uma intimidade e as pessoas encontram a gente na rua e falam conosco como se fossem amigas. Falam das histórias e de como foram tocadas por elas. E a gente percebe uma sinceridade. Acabamos criando uma maneira diferente de narrar as histórias, que não é teatro convencional, um caminho artístico autoral. Seja em comunidades mais distantes como quilombos, comunidades rurais, ou em grandes centros urbanos, a receptividade é ótima. Em São Paulo, por exemplo, a recepção foi fantástica. As pessoas lotavam as apresentações, os ingressos esgotavam em meia hora, elas se interessavam pelas histórias. Engraçado que tem gente que pergunta se as histórias são reais. Então, o vínculo que criamos com o público acaba sendo de cumplicidade. Acho que é o maior presente que o artista pode ter, saber que as pessoas estão se importando. Em São Paulo, conhecemos na plateia alguns artistas de fora do país, tanto que estamos indo pra Buenos Aires por conta disso. Fomos convidados a apresentar três espetáculos nossos num festival internacional de narração oral porque o público assistiu. É um envolvimento que não é frio. A gente acaba de alguma forma passando para o público um pouco do que vivenciamos em nossas salas de ensaio, essa relação de sinceridade, esse mergulho nos sentimentos humanos. E o público percebe.
O Grupo Teatro Griô / Foto: divulgação
DA – Salvador é uma cidade que abraça verdadeiramente o teatro?
RAFAEL MORAIS – Pergunta complexa (risos), porque há vários públicos e tipos de teatro. Tudo da Bahia é muito paradoxal mesmo. Você não tem um único jeito, mas sim uma infinidade de possibilidades com relação a essa recepção. O teatro pode ser melhor abraçado. Tem um amigo que diz que se amanhã fecharem todos os teatros de Salvador, ninguém vai sentir falta (risos). É uma piada, mas faz a gente refletir, pois se fecharem, as pessoas não vão protestar. O teatro também é algo muito amplo. A Bahia tem uma tradição de teatro muito grande, não só pela primeira faculdade da América Latina, a Escola de Teatro da UFBA, que possui grandes mestres, mas também pelo histórico de teatro popular que influenciou muita gente. O teatro em Salvador é muito forte. Quando cheguei em Salvador há quase 20 anos, senti que a pulsação de espetáculos era realmente muito maior que agora. Alguma coisa se quebrou nesse mecanismo de atração do público, de constância do público buscando os espetáculos. Porém, quando acontecem determinados espetáculos, o público vem. Então, não é algo estático. Tem a coisa do mercado também, não é só questão do público abraçar e gostar. Aqui em Salvador, ao mesmo tempo em que o público ama teatro, a gente percebe que ele poderia abraçar mais. No entanto, quando acontecem os espetáculos de rua, alguns atingem um público imenso. O que tem acontecido com o Teatro Griô é o fato de encontrarmos pessoas que dizem ser aquela a primeira vez em que foram ao teatro. Acho que estratégias, caminhos e possibilidades podem ser buscados para aproximar as pessoas ao teatro. O teatro na Bahia é muito forte, rico e valorizado. Tem uma vanguarda em pesquisa. O público que vai ama o teatro, mas acho que mais pessoas poderiam ser atingidas. Aqui em Salvador, apesar da imensa afeição das pessoas com espetáculos realizados na rua, não há um teatro de rua pulsante. Interessante esse paradoxo. A gente tem uma demanda, digamos assim, muito grande por teatro de rua, pessoas que lotam os espetáculos quando eles acontecem. Fizemos um espetáculo chamado Circo Teatro na Estrada, que saiu por diversos bairros de Salvador, e em todos eles a recepção era imensa, as pessoas ficavam felizes com o que estava acontecendo, querendo que acontecesse novamente. Com relação a isso, o público abraça mesmo. Você conta nos dedos os grupos que fazem teatro de rua em Salvador, e mesmo assim não fazem com aquela constância porque se acredita que não tem tradição, mas tem sim. O público quer abraçar, mas como vai fazer isso se não tem muitas vezes algo que se aproxima dele?
DA – O que o faz continuar naquilo que você definiu como a arte de sonhar acordado?
RAFAEL MORAIS – Essa pergunta é muito difícil. Eu me pergunto muito isso. No entanto, tenho continuado, tenho seguido em frente porque fazer arte aqui, não só na Bahia, mas no Brasil, não é fácil, pois além das dificuldades do ofício, tem todo um mundo de coisas que precisamos superar a cada momento. Durante muito tempo, pensei que não era algo racional, pois se sabia que era essa dureza por que continuava? Tenho continuado e, quando olho para trás, percebo que realmente é meu caminho. Não dá pra explicar muito. Hoje consigo compreender esse desejo de seguir em frente, que ultrapassa o medo, pois a cada projeto novo há um risco muito grande. Hoje se fala muito em crise, mas para quem faz arte é pior ainda, pois a gente vive daquilo que tece, do trabalho cotidiano, dos espetáculos, do processo criativo que por si só já é algo efêmero. Aí, a gente seguindo adiante com isso é muita coragem. Agora, não me vejo fazendo outra coisa. Claro que surgem propostas de seguir por outros caminhos, longe da arte, o que muitas vezes poderia trazer uma segurança no sentido material. Mas acho que é a arte que me mantém vivo, pois abraço um caminho de crescimento e vida, um ofício. É meu lugar no mundo, minha maneira de continuar seguindo em frente, sonhando. O meu trabalho se confunde com meu sonho. Acho que isso é muito profundo. É ao mesmo tempo o meu devaneio no sentido do processo criativo e de tudo o que implica você fazer arte, de mergulhar nos abismos desse processo que não é fácil para ninguém, ainda mais nesse tempo que estamos vivendo. Um outro nome que se dá ao pessoal que segue esse ofício das histórias é Gente das Maravilhas, pois se encantam com a simplicidade e grandeza da vida, com o encontro. Quando entra num processo criativo, nem imagina descobrir coisas que nem sabia que existiam em você. Isso quando experimenta de verdade o processo criativo, pois tem muita gente que executa determinadas funções ditas artísticas, mas não vive ele. Você não consegue largar. Estou aqui hoje pensando em novos projetos, novos caminhos. É também a ideia da missão. Sinto isso muito forte. Tenho vontade de continuar fazendo teatro, mas ao mesmo tempo é maior do que tudo isso, pois arrebata, chama e você não tem saída. E também você acaba se comprometendo. Eu mesmo tenho compromisso com esse grupo, que hoje tem vários artistas que sobrevivem junto com a gente, alguns com outros empregos. Então, você acaba entrelaçando sua missão com as de outros parceiros cúmplices. Eu e Tânia, que fundamos o Teatro Griô, temos uma responsabilidade muito grande. Minha filha também, que desde pequenininha está envolvida no universo artístico do teatro. A gente virou uma grande família que faz isso, meio que vive e respira o tempo inteiro isso com grande responsabilidade, mas também com muita alegria. As dificuldades não são a tônica, pois a gente supera todas elas e vem um ganho imenso que não sabemos dizer o que é.
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.
troco os santos e os vasos e os espelhos de lugar: signo obsoleto. se não troco me aqueço em demasia ao secar os cabelos. não topo com minha cara e santa efigênia no mesmo caminho dos dias das horas pelos dias. trocaria as horas dentro dos dias trocaria o minuto por um segundo: signo mó. trocar os lugares pelas imagens. iemanjá espelho são francisco a carranca oca que ganhei de um amor que já não. trocar em acordo com o peso que a coisa perde e ganha. o peso: signo da propensão ao ato: trocar. troco um beijo por um pedaço de pizza trocada no momento do encaixe anterior à entrega. troco um olho do entregador por uma palavra espelhada. troco santos hábitos por cerveja gelada. troco signos troco idade troco as capas das almofadas os nomes dos gatos. troco o dragão de são jorge pelo espelho de ontem da noite de ontem. a lua: signo de troca. troca: signo vaso trincado.
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congelo a cara e o corpo da cara diante da árvore da primavera. me paraliso me petrifico. em sempre foi a dificuldade em encarar a beleza crua cruel colorida cheirosa bem vestida galanteadora. sinto frio nos dentes diante da árvore: signo descascado vivo. cruel demais. corre a seiva abusada nas minhas veias. medo e mitificação. seguro não subir o olhar até a copa não é seguro. crianças me olham passarinhos com olhos idosos e carteiros. todos eles trilham meu medo sou achincalhada pelos olhos. penso em agulhas alfinetes espetos lanças. a primavera me gela. sabe meu rosto nas todas espessuras desse horror e desse horror perfumado me esgano a descer a escadaria das flores. a escadaria das flores e estou frita para seguir resistindo ao mundo: signo em monet sob influências da camisola da época em questão. questão: o signo mais comum: doador universal.
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o signo da onça ocorre em trocas cada vez que um homem diz o mato. porque é mancha sobre mancha a onça não diz o homem. limpa os bigodes no mato mata um roedor para o filhote come o couro tritura os ossos. é o signo mar. pendure uma onça diante do mar. leve nos olhos e pendure a figura diante do mar. é o signo onça. no nada de mar dita a onça em tudo de onça todo o mundo com lua onde o mar. porque é cratera ante cratera o homem faz abismos entre o banheiro e a varanda. entender não dura: o signo da onça ocorre em trocas cada vez que um homem se diz.
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amo. amo até no desrespeito. até no desleixe até no despeito até no desespero. eu amo. e assim será o que sei ser até que sempre. porque vou morrer amando. me entrego ao cascalho. amo lascas da rua. amo até a vez que não é minha. não parece. mas eu amo. amo por não querer acabar e amo por querer tanto de mar e de fim. amo e tenho medo de cair do mundo. e odeio. porque é signo par. é estranho e eu amo me machuca mas eu amo. e odeio. porque é signo par nunca vou deixar de amar. até morrer até matar até derramar até engasgar até esganar. amo passarinho morto e o vivo. sobretudo o morto: porque as formigas que eu tanto amo.
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a tarde carrega a noite na lomba da palavra mais corcunda. a manhã nasce no pôr dos olhos da mulher atrás do lençol no varal. seus filhos múltiplos de amanhã: o signo da lua e do adubo. suas plantas todas e suas unhas sua boca e seu dedal. a tarde lambuza as pernas da mulher atrás da máquina de costura. o sol cauteriza seus furos seus dedos suas plantas toalhas panos de prato lençóis. no mandiocal uma preá come sua cria morta. a névoa cresce pelos raios dos olhos da bichinha dolorosa. a mulher: signo do lençol. a alvorada desce os dedos na página 2: dia bom para anoitecer o fumo no peito esposo: signo d’água. a mesma tarde carrega a manhã na lomba da mulher. a noite nasce do pôr os pratos debaixo do alimento: signo de dois gumes.
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um casebre sem rio pela janela não tem signo. o homem corta a madeira pensando longe e longe é onde fica o rio. as formigas não respeitam mais a evolução nas redondezas. um rio faria tudo ser como abunda as redondezas de um casebre com rio: lá no alasca: signo dúbio e mantenedor do que se passa na cabeça de quem vê o vidro que falta à janela única. o homem esconde uma faca entre as pernas. faca bem próxima ao pênis. afiada feito o pênis: signo de três gumes. uma formiga passa rente carrega um pedaço do tudo: signo ímpar e provedor da vertigem que sentiria o homem. derrubaria o homem sobre a faca: signo movediço. seu duplo come e bebe além da conta num casebre inundado no alasca. a vida segue o leito daquilo que um dia foi caminho foi fadário de brocardos capados. o vidro que falta: signo da mulher que um dia. um dia: signo da vida dúbia.
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o lume do inseto noturno: signo par com o signo vítreo. limpamos o aquário três vezes por mês. meu ajudante limpa peixe por peixe até que o brilho: signo cruzado com o signo vítreo. meu ajudante limpa meus dentes com a língua até que o desrespeito. até que o desleixe seja calcado por mim para que meu ajudante. assim é assim será não tento e nem ele tenta me enganar. limpamos o aquário: signo usual. peixe por peixe: signo sujeito na frase: em lá as escamas. o lume nas ondas de lua cheia. limpo limpamos como é limpo o mar imundo de gentes nele. cruzamos espécies durante a limpeza do fundo: signo derivado do signo oriundo: é mar não é mar. reparamos o mundo aquário peixe por peixe. o lume do inseto nada. porque o amor: signo dessa luminosa psicose.
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sei que existe um desconhecido signo. maternal e inquieto. espera a convocação que se dará pelas cordas dos sinos. sob esse signo nascemos envelhecemos morremos sobrevivemos. com a óbvia exceção: caramujos e poetas. está para chegar o dia em que uma onda de mornura elétrica levantará todos os fios de todos os cabelos das criaturas sob o signo desconhecido. não sei se é astrológico. se é matemático ou escatológico. sei que o dia está chegando. dia maternal e inquieto feito o próprio signo. o dia em que caramujos e poetas herdam o planeta. sutilmente. temos motivos para a preocupação: signo das mutações.
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como se constrói um muro sem letras. o homem faz o muro e alguém coloca letras. o homem destrói o muro e faz outro. alguém coloca letras: signos solares. anos se vão e o homem faz outro muro para cobrir o muro com letras. alguém coloca letras e números no muro do muro do homem: signo da inconstância sob a distância da evolução. anos de amor e luz sem letras: signo do buraco sem fim. o muro é comportado e alguém coloca ovos sobre os tijolos do cume. o homem tem um rifle e mata ovo e mata ovo e mata ovo. alguém coloca alvará: signo dependente: o homem vive e morre sem pinto algum entre numerados muros letrados. fim: signo de derrubar muros.
Carla Diacov, São Bernardo do Campo, 1975. Formada em teatro. Seu livro de estreia, Amanhã Alguém Morre no Samba, foi publicado em Portugal pela Douda Correria em 2015. Ainda esse ano, publicará Ninguém Vai Poder Dizer Que Eu Não Disse, também pela Douda Correria, e a metáfora mais gentil do mundo gentil, pelas Edições Macondo.
E chegamos a 10 anos de publicações. Com 111 edições lançadas, a Diversos Afins está, no formato e conteúdo, já um tanto distante do seu embrião. Em 2006, quando vinha a público a primeira leva, a revista ainda apresentava uma estrutura incipiente, bastante artesanal. Por certo, não se imaginava tamanha longevidade, apenas existia uma investida puramente romântica bem digna de ímpetos iniciais. De lá para cá, não somente o tempo transcorreu assinalando percursos numéricos, mas serviu de impulso para inúmeras possibilidades de aprendizado e experimentação. O propósito nunca foi o de se portar como um veículo autorreferente, do tipo que vangloria os feitos de seus idealizadores. De fato, nascemos em plena era de efervescência dos blogs, verdadeiros cadernos eletrônicos de onde saíram importantes nomes do cenário literário e artístico em geral. Foi também possível testemunharmos o surgimento de portais e tantas outras revistas ligadas aos temas culturais. Alguns se mantiveram, outros, por razões das mais distintas, ficaram pelo caminho. Hoje, não temos dúvida de que a persistência foi nossa melhor aliada, pois sempre acreditamos que seguir adiante sempre fez sentido. E não foi em vão que escolhemos o lema “desengavetar expressões” para capitanear nossa trajetória até aqui. Sabíamos o que representava ser um veículo de comunicação num momento em que as perspectivas editoriais em relação à literatura, por exemplo, apresentavam um cenário de radicais mudanças. A Internet foi uma mola impulsionadora de todo um processo no qual criadores expuseram seus trabalhos de forma independente. E ter contato com muitas dessas expressões foi fundamental para a consolidação dos caminhos da nossa revista. Fez-se necessário estabelecer critérios próprios de seleção, pautados em aspectos de qualidade que não representavam juízos de valor. O mais importante de se completar 10 anos de jornada pelas vias culturais é certamente a ideia de se agregar pessoas. Perdemos a conta de quantos colaboradores deixaram suas marcas impressas em nossas páginas ao longo de todo esse tempo. Também não saberíamos mensurar o quão valiosa é a atenção dos leitores em relação ao nosso trabalho. Cada autor e artista que por aqui passam, com suas distintas vozes, reforçam o nosso desejo original pela diversidade. E assim vamos seguindo. A leva 111 pretende ser a primeira de uma série de cinco edições especiais que celebrarão nossa primeira década de vida. Para inaugurar o momento, destacamos os versos de poetas como Bruna Mitrano, Wesley Peres, L. Rafael Nolli, Micheliny Verunschk e Geraldo Lavigne. No território da prosa, contos de Márcia Denser, Anderson Fonseca e Maria Camargo Freire (heterônimo de Caio Russo). É Larissa Mendes quem rende escutas ao novo disco do rapper brasileiro Criolo. Sérgio Tavares realiza uma especial entrevista com o escritor Ronaldo Cagiano. As atenções cinéfilas de Guilherme Preger desta vez estão voltadas para “Big Jato”, filme do diretor pernambucano Claudio Assis. A volta do caderno de teatro é marcada pela sensível exposição da dramaturga Yara Camillo sobre a peça “Donantônia”, encenada pelo Núcleo Ás de Paus, do Paraná. São muito contundentes as linhas de Sérgio Tavares quando nos convidam à leitura do livro de estreia de Marcela Dantés. Conferindo um brilho especial a todas as expressões contidas na nossa leva atual, os desenhos de Luma Flôres visitam mundos que correm paralelos na experiência humana. Com imensas felicidade e gratidão, dedicamos a nossos leitores a continuidade dos nossos passos. Boas leituras a todos!
da janela, aparávamos a água com as palmas em concha – serpeava prata nos antebraços. duas vezes, ela juntou os dedos e fez como se lavasse as costas dum recém-nascido. abaixávamos as cabeças e víamos a chuva de onde deus a vê, umas linhas semiperfeitas a estrelar no chão. nossos ombros unidos, sua pele lisa e negra. no meu rosto, o vapor frio do seu sorriso sem palavras. não olhávamos pra trás – o quarto branco, a cama ao centro, os lençóis usados. não nos olhávamos. (eu esperava o sol, quando a morte me tocava).
***
já não alcançava seu sono
lembrava de quando podiam ser tristes juntos.
soubesse a hora de ir, calaria
e encolheria o corpo raquítico sob a coberta embolorada.
por outro extremo, lacunava-se em palavras rasas,
entregue, farta, extasiada –
que não pesasse ser pó, havendo mãos.
***
o ruído dos dedos esfregando a barba
os olhos inarticulados dos pesadelos diurnos
as luzes fragmentadas nas paredes exaustas de tantas
falas – era quando fingíamos ser livres
desconjunturando a barbárie
desses tempos inaudíveis.
***
o sangue no antebraço
que a luz baça faz preto
punho cerrado
uma lasca de vida agarrada como última –
nada importa se há dor.
***
o cobertor no chão
invólucro seguro que não se ousa enjeitar
abraça uma ausência morna
fora, o dedilhar contínuo de quem olhando a tela teme –
absurdos Morte muxoxa bate de leve o punho na perna direita –
o imponderável particular.
***
já não sabiam se temiam por si ou pelo outro. a cabeça de lado, o pelo na língua, os roxos na pele. aqueles homens apaixonados pelas coisas erradas, pelas pessoas erradas. estive muito tempo dentro dos dias, e não olhar pra trás era o mesmo que pedir não me deixa ir. mas há beleza no hálito doente, nas vicissitudes dos corpos, no rasgo imprevisto na carne, e não tão só, quando a espera é o grito imanente, irreversível.
Bruna Mitrano (1985) é favelada, professora da rede pública e mestre em Literatura Portuguesa (UERJ). Em 2010, esteve entre os vencedores do Prêmio Off-Flip, na categoria Conto. É autora fixa na revista Mallarmargens. Tem textos e desenhos publicados nos: Contemporary Brazilian Short Stories (Califórnia), Flanzine (Portugal), jornal Plástico Bolha, revista Germina, Zine Joia, blog da Confraria do Vento, blog da Editora Oito e Meio, Fórum Virtual de Literatura e Teatro, revista Tlön (Portugal), revista Diversos Afins etc. Participou das antologias “Algum vazio nesta paz fajuta” e “Clube da Leitura Vol. III”. Seu primeiro livro de poemas e desenhos – “Não” – será lançado em breve pela editora Patuá.
Donantônia, personagem do mais recente trabalho do Núcleo Ás de Paus, é uma senhora que adora receber visitas para um café, uma Prosa ponteada de um humor que volta e meia traz a Poesia na manga.
Quatro Menestréis abrem o espetáculo, estendendo a ponte entre Donantônia e a plateia – essa entidade que se forma e se recria diante de todos os palcos do mundo –; quatro entes que anunciam, narram, comentam, adivinham, concluem o que se passou, o que se passa ou vai se passar com Donantônia. Quatro energias que luzem, trafegam, estrelas e guias de roupagens várias, ora anjos, ora diabretes, erês, deuses-meninos que sopram aos viventes um sem-fim de sentidos e caminhos.
Donantônia vive só, na companhia das memórias que gosta de despertar, de trazer ao agora, compartilhando-as com as visitas entre um café e um pedaço de bolo. Memórias que ganham vida, ocupam espaços, reacontecem; e por aí vai se desenhando uma eternidade insuspeitada na aparente finitude das coisas.
Entre as memórias, impossível não evocar o amor primeiro: Argeu, argonauta que viaja pelo afeto de Antônia afora, pelo afeto de Antônia adentro e ali faz morada, e numa noite já perdida no tempo propõe o irresistível: a fuga. Antônia em doce apuro se vê: se por um lado diz “sim” e parte, deixando pais e família para trás, por outro se nega, apesar do amor se nega, deixando Argeu sozinho na estação; e dessa noite em diante não se passa um dia sequer sem que ela pense em como seriam as coisas, se tivesse dito “sim” a Argeu. Mas o caminho de Antônia não se bifurca apenas, não é dual. Entre um “sim” e um “não” há outras tantas possibilidades, uma gama quase sem fim de caminhos, de “talvez”… E assim se manifesta uma terceira via de Antônia, aquela que não vai nem fica, que de uma hora para outra vê-se sozinha no mundo, sem paz, sem pais, sem Argeu, sem ninguém, sem nada, sem mais. Assim abrem-se em leque suas cartas-memórias.
Uma lembrança chama outra, um caminho leva a outro, o amor por Argeu remete a histórias tantas da vida de Antônia que se compõe, recompõe, se reinventa, dando ou prestando conta de suas escolhas, sua natureza tripartida, sua Humaníssima Trindade.
Antônias e os Menestréis / Foto: Edmilson Luiz Perrota
Enquanto isso, Antônia vai encontrando seu lugar no coração da plateia, que vai se encantando com suas graças e manias e venturas e aflições, “Antônia que nem é pouco, nem é muito, mas também não é nada, só Antônia, velha, sozinha, aposentada, vivendo só nesta casa…” Uma senhora, um arquétipo como tantos, Antônia vai se tornando única, assim como todo ser que nos rouba de nós mesmos, por um instante que seja, e nos acolhe e chama para o tempo de um olhar, de alguma atenção, algum afeto. As múltiplas, aparentemente desconexas escolhas de Antônia, que tornam seu pensamento “abilolado”, como a própria Antônia diz, a alentam, acalentam, questionam, tornam feliz e infeliz; e lá vai Antônia de novo se abrindo, dividindo, tripartindo entre um “sim”, um “não”, um “talvez”. E é esta última Antônia quem se rebela e diz: “Se eu pudesse viver duas vidas, se eu pudesse ir e não ir! Nunca vi maldade maior do que dizer que dois proveitos não cabem num peito… Por que não? Por que não pode caber neste peito tudo o que há de mais bonito na Vida? Um, dois, todos os proveitos aqui, aqui dentro, por que não? Tenho tanta gana, tanta garra, tantos dedos, e minha sede de viver me dará quem sabe firmeza para reter, entre eles, umas tantas promessas de felicidade.”
Por aí segue o espetáculo, com Antônia revivendo horas de sutil relevância, que passariam despercebidas a qualquer olhar menos atento; por aí vai Antônia revivendo fatos, hiatos, uma noite, uma fuga, uma presença, uma permanência, uma dúvida… E de novo se depara com seus caminhos fragmentados, suas partições ali incorporadas: as escolhas – ou lá o que sejam –, tão palpáveis que chegam a parecer, cada uma, um ser independente a desconstruir Antônia que já não se vê só, mas na companhia das Antônias que a habitam, que ganham corpo a ponto de assustá-la, de se tornarem tangíveis, visíveis mesmo, embora ela ainda tente recusar o incômodo presente: “Sabe o que vou fazer? Vou contar até três e quando abrir os olhos verei que sou uma e não três… Só eu, só uma, uma única Antônia. As coisas são do jeito que a gente vê e eu não estou vendo ninguém nesta casa, a não ser eu, eu, e eu…”
Sem ter para onde fugir – se assim quisesse, mas nem sabe se quer –, sem ter onde se aninhar, para ordenar as ideias e recobrar o fôlego perdido entre tantas cartas embaralhadas de si mesma, Antônia pede uma pausa, um café, um descanso para a alma. Um café para respirar e pôr em ordem os pensamentos. Sentam-se as Antônias à mesma mesa onde, por anos, cada uma delas esteve ou pensou estar sozinha, para um café, uma reflexão. Olham-se, repetem gestos e palavras que há tanto tempo são ditas em torno de uma mesa – ou de uma fogueira, de qualquer ponto onde seja possível a comunhão –, oferecem xícaras, pires, colheres, açúcar, perguntando-se: “Aceita? Aceito…. Aceita? Aceito. Aceita…?”
O café das três Antônias / Foto: Leticia Nakadomari
E vão as Antônias se aceitando, se acertando, até se atrevendo a um dedo de prosa:
“Como será que a gente faz para dar um tangolomango nas lembranças, para que elas não venham nunca mais? Mas, pensando bem, melhor deixar que se acheguem e sentem e aceitem um pedaço de bolo e tomem café… Algumas doem, é verdade, principalmente as felizes. Mas que venham as lembranças, mesmo porque, pensando bem, não estou mais na idade de dizer adeus a ninguém. A ninguém.”
O depois é o depois que só o Teatro oferece. Antônia do Sim, Antônia do Não e Antônia do Talvez encontram-se, triangulam-se num ciclo, num círculo que não se fecha, ao contrário: abre-se em outros, numa pulsação contínua, numa roda que gira sem cessar… “Pois tudo o que agora acontece, tudo o que agora está sendo, ou é ou foi ou será.”
É um pouco assim que acontece Donantônia, terceira montagem do Núcleo Ás de Paus, de Londrina, Paraná.
Conheci esses artistas em 2010, por ocasião de seu trabalho de estreia, A Pereira da Tia Miséria, um texto adaptado para o palco por Luan Valero e sua rara sensibilidade, a partir de um conto de uma coletânea que traduzi, Contos Populares Espanhois (Landy Editora, 2005). Era uma criação coletiva e a Arte habitava, plena, aquele trabalho. Meu afeto pelos artistas do Núcleo veio em simultaneidade e sintonia com minha admiração pelo trabalho de cada um e do grupo, como um todo. A Pereira percorreu várias regiões do Brasil, oferecendo seus frutos, em cerca de 190 apresentações. Depois o Núcleo estendeu suas asas, suas águas, rumo a outros territórios e daí nasceu o espetáculo Singra, em 2013. Em 2016, após dois anos de pesquisas, nasce Donantônia, trabalho do qual participo, em parceria com o Núcleo, na construção da Dramaturgia.
Se Donantônia alimenta seus convidados, sua plateia, com café e outras delícias, alimenta também a alma de quem a conhece e acaba por levá-la um pouco para casa, para si, para algum recanto da memória talvez já enamorada dessa velha senhora.
Assim diz a canção de Thunay Tartari, enquanto a plateia se serve dessas doçuras: Permitamos que em nossos corações floresça / A maravilhosa gratidão pelo sustento / Manifestado pelo alimento presente / Em nossa mesa de comunhão.
Permitamo-nos, então, “um café, uma pausa, um pensamento, um descanso para a alma.” Um café sem cerimônia, na companhia de Donantônia.
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Ficha Técnica:
Direção e produção: Núcleo Ás de Paus
Dramaturgia: Núcleo Ás de Paus e Yara Camillo
Direção musical: Thunay Tartari
Elenco: Adalberto Pereira, André Demarchi, Artur Junges, Camila Feoli, Rebeca Oliveira de Carvalho, Rogério Francisco Costa e Thunay Tartari
Iluminação: Rogério Francisco Costa e Altair de Souza (Borracha)
Cenografia: Rogério Francisco Costa
Marcenaria: Claudiomar Meneguetti
Serralheria: Carlos Miguel da Silva
Figurino: Núcleo Ás de Paus
Costura: Inês Zeidel Grassi
Perucas e máscaras: Daniele Stegmann
Design Gráfico: Arthur Duarte
“O Núcleo Ás de Paus surgiu em 2008, em Londrina, Paraná. Trata-se de um coletivo de artistas que se uniram por uma pesquisa teatral pautada no trabalho colaborativo. Em suas produções, instrumentos de equilibrismo, como pernas de pau, muletas e bastões, entre outros, formam os denominados “prolongamentos do ator”, síntese de um entendimento continuamente pesquisado por seus integrantes, em estudo diário.”
Yara Camillo nasceu em São Paulo, SP. Formada em Comunicações – Cinema – pela Fundação Armando Álvares Penteado, FAAP. Trabalha com Literatura e Teatro. Na Literatura, como escritora e tradutora. No Teatro, como dramaturga, atriz e diretora. É autora de dois livros de contos, “Volições” (Massao Ohno Editor, 2007) e “Hiatos” (RG-Editores, 2004); participa de várias antologias e sites literários, coordena Oficinas de Teatro e Oficinas de Criação Literária. Contato: yaracamillo@gmail.com
Foi a única vez que amei meu pai por detrás dos acordos sociais, do afeto obrigatório que irradia não do progenitor propriamente dito, mas na perversa escola de costumes sincrônicos que denominamos família por medo de alcunha pior; meu pai foi um bronco, crescido em sítio andava pela cidade nauseado pelo fascínio arredio de animal silvestre, se deixássemos correria em quatro patas por aí, se entocaria em uma viela arisco dos odores em cinza-chumbo espargidos pela rua; enriqueceu na vida de comerciante, mamãe deu-se até ao luxo de tornar-se alcóolatra com whisky, e ele continuou amarfanhado sob o casulo do terno que o repelia simplesmente pela alfaiataria de bom gosto, pinguim no deserto citadino, envergonhava-me dele; era de esquerda, lutava pelas minorias, contra o sentimento elitista que aflorava vez ou outra inopinadamente, mas na formatura lá estava ele, aquele homem que não diferenciava Rembrandt de Tintoretto, em sua tacanha mente esses nomes não soariam apenas estrangeiros, soariam intransponíveis, inaudíveis em comas de sutilezas desconcertantes; nem fingir sabia, mamãe ao menos escondia as origens em seda, em vestidos drapeados de alta-costura, papai comia de colher quando em casa; acordei conturbada por uma ressaca dessas que atravessarão o dia sem pestanejar, havia comemorado na noite anterior minha primeira exposição solo em galeria de arte, a única dissonância noturna era meu pai, pedaço de cerca-viva ali parado entre as telas, ondulando entre as brisas de um “Olá” ou um “Como vai?” em que respondia num farfalhar rupestre verde-oliva, roufenho, na orla entre palavras e ruídos indistintos; sobre a mesa um pequeno bilhete: “Eu te adimiro muito filha, seus desenhos lembram o sítio quando eu era pequeno, o pão da vó, as botas do vô que você não conheceu, eu te adimiro e te amo”, aquele “i” inteiramente inconveniente berrava, no lugar da mudez costumeira havia a interferência de uma tulipa nascida sóbria, lisa, envolta na graciosidade do próprio rubor, um tronco exposto, lisonjeiro, inefável, a xilogravura da face de papai impressa naquele “i” de sobrancelhas arqueadas, elevadas em busca da cabeça calva, na espera de um pingo de choro abscondido, naquele qualquer momento, amei papai.
São Paulo,11 de abril de 2013.
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Tricô
Deito-me no mole solo oco na espera de que o opaco entardecer assopre as brilhantes velas dessa opressora luz diuturna, carregando-as para lá dos meridianos sem nome, nas beiradas de um precipício por se fazer, externo chão agora sóbrio na sisudez supostamente sempiterna, oculta na lisura do planalto a delgada vala tímida, semente de abismo vindouro, também sinto saudades da choupana ao pé da montanha que nunca tive, angustia meu corpo a nostalgia dos lugares que nunca estive, também sofro por paixões, rasgo o verbo em brigas homéricas com namorados, maridos, amantes furtivos que não me conhecem, às vezes basta um bom dia do padeiro para termos três filhos e um deles está de recuperação em matemática e por isso nada de jogos no computador; sou solitária e tenho de consolo os gatos que afago, o enfiar dos dedos nos ternos pêlos, pouso olhar sem pressa nos novelos trançados com poeiras que a brisa da noite trouxe, sou alérgica e por isso meus felinos são fogos-fátuos que eu pinto enquanto me balanço calma na cadeira que ainda terei um dia, de um vime lustroso que fará inveja nos olhos de minhas amigas, ficarão famintas, feéricas para fazer parte da minha família órfã, mas eu só permitirei que elas se sentem na sala ou, no máximo, na cozinha, nunca o quarto, lá meus segredos, as intimidades de minha vida proscrita em santidades exalam dos cantos, por mais que se guarde, alguma perversão de mesmidade corriqueira pode aflorar e flutuar em faces inocentes, depois terei de colher os espantos que elas soltarão espontaneamente, ali pausadas como espantalhos; saio para o jardim adornar com carinhos silenciosos as hortênsias juntinhas em favos de um anil amigável, ainda não tenho o terreno, o solo arado nem a disposição necessária; hoje o café da tarde será em Paris, quem sabe não encontre meu Sartre que tenha usado tampão na infância enredado na própria náusea de seu chá de hibisco morno, não é meu chá favorito, prefiro o de tília que nunca tomei, mas lembro-me de sua infusão levemente embriagante, de seu odor macio que sorvi enquanto lia Proust, não conheço Paris, nem quero; os únicos seres fascinantes que encontrei perambulantes por estradas de terra batida foram os que nasceram quase-abortados, que levam no pescoço a brandura frouxa de quem não sabe para onde olha, saíram espremidos para o mundo, no respirar nota-se que falta um dedo de fôlego, ainda que não tenham problemas respiratórios, queria cruzar com gente assim algum dia; o carteiro tomou-me por confidente, acho que por conta desse ar de anciã púbere, as rugas dobradas umas sob as outras por debaixo de minha pele lisa, adoentada de um rubor saudável, confessou-me que traiu a mulher com o vizinho já idoso que sofria de catarata, achava que ele tinha um espiar charmoso, um jeito elegante de ver todo mundo pela metade, meio invisível como somos mesmo, iceberg de vísceras às escuras, ele contaria se pudesse, mas tem jeito de solteirão, o cachorro dele precisou fazer uma cirurgia às pressas, não sabia que hérnia dava até em bicho, ficou nem quinze segundos, entregou a encomenda e não disse nem “oi”; pouso a caneta cuidadosa na caixinha, essa inimiga que me atormenta, que me torce os tendões e mói um tanto da minha loucura em pigmento escondido, depois de escrever fico um pouco translúcida, fantasmática, mas hoje acabou a tinta e o último caderno eu rasguei ontem, faz frio em Portugal.
Lisboa, 07 de setembro de 1998.
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Estilhaços
Pendulo, desde antes da infância se perder póstuma numa parede de cal seco, pela posse de objetos quebrados, frágeis, seja um relógio sem ponteiros, um alfinete amassado descartado logo pela costureira na prova da próxima cliente, sentia na palma da menina muda que eu era a atmosfera lúcida das coisas falidas, o halo daquelas rebarbas do tecido, aquelas linhas inúteis que não ligariam mais nada, a liberdade do que deixou de cansar-se, o ócio daqueles fios viravam em minha mesa arabescos marroquinos desse lado do Atlântico, uma vez trouxe para casa quatro cacos de copo, a aba de porcelana que fora de uma xícara, dois isqueiros acabados e um gato morto, o que me rendeu várias cintadas e o primeiro berro de “Menina, você é louca” de minha mãe, depois ela descobriu minha coleção de bitucas, tampas, canetas sem tinta, jornais rasgados em que as notícias ou propagandas ficaram ilegíveis (eu tinha critérios), ouvi do quarto “Rogério, é mais sério do que pensávamos, mas deve ter tratamento” num timbre tão indiferente que se pudesse eu teria reunido à minha coleção de destroços; passei a acumular seres imateriais, andava horas pela cidade coletando falas desgastadas, contornos de desvalidos estirados ali na praça da Sé, teve até um olhar fosco de um senhor alto que se sustentava pelo hábito de andar previsivelmente por ruas asfaltadas de certezas num cinza inóspito, outro dia há pouco colhi a elegância no desfilar de uma prostituta em fim de noite, voltava para casa mas mantinha os trejeitos infecundos miscigenados nos tons da maquiagem que se equilibrava indolente entre o vulgar e o borrado; acho que para comemorar minha cura milagrosa fomos em família ao circo, na época ainda havia leões, olor de estrume de animais repisado por desconhecidos envoltos em pipoca amanteigada, o palhaço no centro do picadeiro era hilário para todos que não fossem eu, meu riso viera cindido, um pequeno abscesso interno feito de frustrações com fraco efeito fora, o truque consistia em jogar uma azeitona para o alto e fingir que se engasgara, enquanto o público se acabava de gargalhar a brincadeira ia dando certo no esôfago do coitado, estertorou sufocado, embrulhado nos sons do próprio trabalho, agricultor soterrado em seu celeiro de amareladas sojas, foi se esvaindo o riso até que a tragédia consumada engoliu todos os lapsos de pilhéria, naquele instante pulei em risos, saltei no picadeiro levantando ao redor de mim uma poeira fina de tão agastada, raptei o rosto retorcido por debaixo da massa de pó branco, também o nariz de um vermelho vivo, enfiava no bolso enquanto os outros artistas vinham atropelados socorrer o cadáver; ainda hoje rio inaudível ao disparatar para mim mesma a imagem de que em algum cemitério pode ter nascido, transgredindo garganta, caixão e terra, uma vistosa videira.
Madrid, 22 de fevereiro de 1995.
Maria Camargo Freire é artista plástica, tem 63 anos e mora atualmente em São Paulo. Conjugou em sua obra o barroco de Caravaggio, a sinuosidade de Giacometti e o neo-expressionismo de Bacon; lacera-se em pequenos cortes de vida por respirar em excesso o bálsamo dos dias cinéreos. Escritora diletante, pretende esboçar um romance em prosas poéticas: suas “Telas de uma exposição”. Heterônimo de Caio Russo, escritor, historiador e pesquisador em Estética, Arte Moderna e Teoria da Literatura. Hedonista estóico, cínico peripatético que preza pela sutileza do sofrimento sentado. Tem por prazer fumar embaixo d’água.