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111ª Leva - 05/2016 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Big Jato. Brasil. 2016.

 

 Big Jato

 

Big Jato, de Claudio Assis, não é exatamente uma inflexão no cinema do diretor pernambucano, mas radicaliza sua obra para uma alegorização do Brasil e para a poesia libertária das imagens.

Essas características já estavam presentes em seu filme anterior, Febre do Rato, que se passava no ambiente do Recife, num quase-alegórico anos 70, filmado em preto-e-branco. Ambos escritos pelo roteirista Hilton Lacerda (que é também o diretor de Tatuagem, um filme bem afim desses dois filmes de Assis), Febre do Rato e Big Jato opõem os princípios da ordem e da liberdade.

Em Febre do Rato, Zizo é um poeta das ruas, libertário, anárquico, amante de todas as mulheres, sobretudo das mais velhas, de quem faz a felicidade, mas se apaixona “platonicamente” pela jovem e bela Eneida, que evita se envolver com ele. A poesia e a libertinagem correspondem à ideia de liberdade. Já o princípio da ordem é a própria ditadura militar, não abordada diretamente, mas intuída nas cores P&B e no sentimento de “beco-sem-saída”. Na cena final, a nudez dos corpos se contrapõe à própria nudez do autoritarismo do regime, que não consegue lidar com o inusitado de uma performance corporal de poesia em plena comemoração do 7 de Setembro.

Em Big Jato, a alegoria é total. A história se passa em Peixe de Pedra, um município fantasioso do sertão mais entranhado do Brasil, com suas paisagens que lembram os chapadões, as rochas antiquíssimas, onde estão depositados os fósseis pré-históricos mais antigos da fauna do continente.

O filme traz a história de Chico Filho, adolescente que acompanha Chico, seu pai, num caminhão limpa-fossas denominado justamente de Big Jato. Chico Filho acompanha e ajuda no trabalho de seu pai de sugar com a mangueira o excremento das fossas das casas do interior sertanejo ainda não atendidas por saneamento básico. Apesar de ter outros três irmãos, um deles mais velho, que estuda matemática, apenas Chico ajuda o pai em seu trabalho.

Chico Pai e Chico Filho no caminhão limpa-fossas
Chico Pai e Chico Filho no caminhão limpa-fossas / Foto: divulgação

Chico Pai, vivido por Matheus Nachtergaele, é um trabalhador que durante sua jornada de labuta ensina a seu filho adolescente a virtude e honra do trabalho. “Quem não reage, rasteja” está escrito no paralamas de seu caminhão. Uma ética do trabalhador que o pai quer transmitir ao filho para que ele se afaste da atividade ociosa da poesia.

Chico Filho, o adolescente, sacoleja no caminhão trepidante pelas estradas do Brasil profundo e parece gostar de ajudar seu pai em sua jornada de trabalho. Mas ele também nutre fascinação por Nelson, seu tio, um personagem que é o avesso de seu pai: Nelson é radialista, apaixonado por rock, e tem um enorme desprezo por trabalho e pelos “urubus de carteira assinada”, como chama os trabalhadores. Nelson, que é também vivido por Matheus Nachtergaele, disputa com seu irmão Chico Pai a mente do sobrinho adolescente, incentivando seu talento nato para a poesia. Dá de presente ao rapaz uma máquina de escrever para seduzi-lo por outra vida e para semear seu desejo de fugir da cidade e não ficar condenado a ser um “limpa-bosta”, como se refere ao pai do garoto.

Assim, os dois irmãos, vividos pelo mesmo ator e que durante o filme nunca se encontram, representam em Big Jato a oposição entre ordem e liberdade. Ordem dessa vez é a prisão de um trabalho sem sentido e sem futuro, enquanto liberdade é a poesia, o rock e a vida ociosa.

Entre pai e tio, o adolescente também trava amizade com o Príncipe, personagem vivido por Jards Macalé, filósofo e vagante das ruas de Peixe de Pedra. O Príncipe medeia a indecisão de Chico Filho entre seguir o exemplo de trabalhador do pai ou o de libertário do tio. Ele ensina ao rapaz outra dialética: a das vísceras e do amor. As vísceras são aquilo que nos empurram com a força de sua necessidade.  Já o amor é uma prisão, como já havia provado o poeta Zizo de Febre do Rato. O amor testa Chico Filho em sua paixão pela menina do vilarejo, a quem dá um vidro de perfume e dedica um poema. Mas a menina já está noiva de outro rapaz…

Um dos maiores problemas do filme é que a oposição entre ordem e liberdade, representada pela oposição existencial entre os irmãos, é bastante esquemática. Por um lado, Chico Pai é o típico patriarca, provedor, cheio de filhos, que quando chega em casa se enche de cachaça, agride verbalmente a mulher e fisicamente os filhos, incentiva a iniciação sexual do filho com prostitutas, opõe a matemática à poesia, sendo a primeira o caminho certo de estudo para subir na vida e a outra a rota para uma vida de vadiagem. Já seu irmão é precisamente seu avesso, tendo repugnância pelo trabalho, amante da liberdade e da ética do rock’n’roll e pela conjunção vital entre poesia e música.

O libertário Nelson
O libertário Nelson (direita) / Foto: divulgação

Chico, o adolescente, parece transitar bem pelos dois mundos e está à vontade em ambos. Tanto ouve com atenção as histórias carregadas de sabedoria do próprio pai, em sua visão de mundo de trabalhador, como tem admiração pela trajetória libertina do tio. Nesse aspecto, ele é tanto um mensageiro entre os dois mundos (que nunca se encontram), como relativiza a tensão opositiva entre seus dois modelos.

Afinal, os modelos não são assim tão opostos e o filme descontrói o contraste entre os irmãos. Por um lado, o pai, com seu discurso, repleto de metáforas de excremento, matéria-prima de seu trabalho, considerado o elemento universal da vida, e se afigura assim como um sábio contador de histórias; por outro lado, Nelson, o tio, é um dedicado radialista, fascinado pela banda Os Betos, que em sua mitologia pessoal teriam influenciado os Beatles. Ambos constroem mitos e histórias que fascinam o adolescente e servem de material para sua imaginação.

E quando o infortúnio se abate sobre ambos, pai e tio, essa infelicidade está ligada a um destino comum: o de se tornarem “fósseis” da mesma cidade onde vivem e não podem sair. Pois seja o trabalho (e a família) de Chico Pai, como a liberdade de Nelson, radicam-se em Peixe de Pedra como as formações rochosas do lugar. Se há uma magia imemorial do Brasil profundo, no entanto, a utopia está na fuga, única possibilidade de resolver as contradições.

Sem cenas explícitas de sexo, como é comum na obra do autor, Big Jato se revela ao final um curioso filme jovem, cuja perspectiva é a de um adolescente, que não por acaso usa óculos. Numa das cenas do filme, o próprio filho de Claudio Assis faz uma ponta como o duplo do protagonista. Talvez seja essa uma das razões do esquematismo do filme, já que percebemos ser uma fábula moral vista e rememorada pelos olhos de um jovem, indeciso ao ter que escolher seu futuro. A seus olhos, os mundos que lhe surgem como inconciliáveis talvez não sejam tão distantes entre si, e que é possível fazer poesia com matemática. Em tempos de ocupações secundaristas, o filme de Claudio Assis se apresenta como algo interessante de ser mostrado em nossas escolas públicas para jovens que procuram utopia na realidade e realidade na utopia.

 

 

 

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor. É autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Ed. Oito e Meio/2014), e um dos organizadores do coletivo literário Clube da Leitura no Rio de Janeiro, tendo participado como autor e editor das três coletâneas lançadas pelo grupo. Atualmente, é doutorando em Teoria Literária da UERJ, onde realiza pesquisa sobre a aproximação entre Literatura e Ciência. Escreve sobre cinema desde 1995, quando recebeu um prêmio de crítica literária do Grupo Estação e do Jornal do Brasil num ensaio sobre o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.    

 

 

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111ª Leva - 05/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

L. Rafael Nolli

 

Luma Flores
Arte: Luma Flôres

 

Paraíso

 

1
muito além das plantações de agrotóxicos
esquecido depois da derradeira ponte

do último homem que por ali passou
não resta o menor vestígio

o que ele viu – há tantos anos atrás –
é o mesmo que um satélite vê agora
da imensidão do espaço sideral

nenhum dos dois sequer suspeitou

 

2
onde hoje a árvore produz sombra
o prédio da prefeitura se erguerá

o rio prateado pelo sol
escorrerá
sinistro & pesado
dentro de uma galeria

pouco depois da colina
um sinal de trânsito determinará o fluxo
para o que agora é só vale e vento

 

3
sobre esse chão as pessoas
conhecerão fome e sede
e lutarão até as últimas forças

onde hoje prospera a grama miúda
a estátua de um boçal apontará o dedo
para a imensidão do espaço sideral

 

 
***

 

 

Hefesto/Vulcano/Völundr

 
Era um deus, no entanto.
Porém, não o poupavam. “Coxo Coxo
…………………………………………Coxo”
sussurravam pelas ruas.

Nos inferninhos e na boca do lixo
o consenso era geral:
“feio como um beliscão no cu”
“a própria mãe reconhece a merda que fez”
& demais despautérios.

Entre os seus, em língua grega
– ou naquela que lá se fala
& tampouco compreendemos –
a fama de corno corria aos quatro cantos:

“vencido por um amor de espuma”
“enfeitiçado pelos olhos de cigana oblíqua…”
& coisas do tipo.

Distraído, no cômodo do fundo
iluminado pelo fogo da fornalha
ele nada ouvia
senão o som do martelo malhando o metal.

 

 
***

 

 
23 horas 56 minutos e 4,09 segundos

para Érico Baymma

 

 

1
dias ruins
por coisas pequenas
quase-nada
pingo no i na letra errada
tropeço no cadarço desamarrado

dias ruins
por grandes problemas
estouro de boiada
um caminhão entalado bloqueando a paisagem
azia no banqueta das musas

dias ruins
por bobagens corriqueiras
coisas banais
azar no jogo
– dardo, RPG, carta –
ter que repetir a frase
(quando não se disse nada)

 
2
dias bons
por coisas pequenas
ou por nada
um sorriso (alado)
um pássaro pousado no retrovisor do carro

(ou por qualquer coisa fugaz rápida
como a queda de um meteorito
o bote de uma naja)

dias bons
por coisas grandiosas
que tomaram tempo
& cansaram o espelho
que consumiram a tinta do calendário

dias bons
por coisas improváveis inesperadas imprevistas:
encontrar um novo amor
ao pegar o caminho errado

(ficar perdido
até ter que mudar de casa)

 

 
***

 

 
O vendedor de algodão

 
o vendedor de algodão doce
se anunciava com um apito

senhor de diversas cáries
distribuía nuvem cristalizada
tingida de azul ou rosa

aceitava cascos de cerveja
que guardava em um saco de batatas

quando passava por uma criança
que não atendia ao seu chamado
ou simplesmente não se interessava
saía resmungando

curvado sob o peso do fardo

 

 

 

***

 

 
Cidade dos sonhos

 
1
Antes do amanhecer
estarão tomando a praça central.

A imensa cavalaria
sedenta pelos jardins

arqueiros posicionados
no alto das colinas

a infantaria
dinamitando as pontes.

Pé ante pé, rua a rua,
as posições sendo tomadas.

No entanto
antes que declarem o seu triunfo

um golpe decisivo dissolve o inimigo.
Abro os olhos: acordar basta.

 
2
Um dia a guerra estará perdida
e o povo daquela cidade
que só existe em meus sonhos
ficará entregue a própria sorte.

Um dia, quando eu não acordar mais,
a cidade se extinguirá
com todos que por lá transitam –
ou eles migrarão para outros sonhos?

Quem sabe, enfim,
esse seja o dia em que terei que defendê-la
de corpo presente
com as próprias mãos…

 
3
Saberei eu no sonho de quem?

 

L. Rafael Nolli nasceu na cidade de Araxá, MG, no ano de 1980. Publicou Memórias à Beira de um Estopim (JAR Editora, 2005) e Elefante (Coletivo Anfisbena, 2013).

 

 

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111ª Leva - 05/2016 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Panis Et Circencis

Por Sérgio Tavares

sobrepessoasnormais

Corre, pelos contos de “Sobre pessoas normais”, de Marcela Dantés, um tipo de eletricidade nociva. Altos de tensão cujas descargas irão deflagrar inevitáveis tragédias. A esse circuito, a autora mineira condena seus personagens, confrontando-os a situações-limite, a momentos de fraturas em que o abismo provém de uma singela decisão ou da crueza com que se constitui a normalidade da vida.

Marcela parece observar o ordinário por um buraco na parede e, à medida que seu campo de visão se amplia, a cena inicial se desdobra de maneira imprevista, conduzindo a narrativa para um desfecho arrebatador. Uma mulher trancada no banheiro irradia, pelo contato frio dos azulejos, a dor do que foi abortado de si; outra escreve para o ex-amante que o cão deles morreu de saudade; mais um cachorro morre, agora ao ser atropelado pelo carro que leva uma noiva à igreja, e desencadeia a dúvida se é caso de sorte ou de azar.

No excelente “Maré alta temporada”, um homem observa, com desprezo, os dias de uma família em férias na praia, quando é surpreendido por um acontecimento de funda tristeza. O mesmo peso dramático rege “Alencar”, sobre uma mulher que quebra o segredo e vai ao enterro do amante, levando o filho que “não podia exibir o pai que a vida lhe dera”, sem que isso o desabonasse do afeto. “Cada mãe com seu filho na mão, um duelo de lágrimas, quem sentia a maior dor? Alencar, por certo, que nunca desejou isso para ninguém. Se soubesse, não teria morrido. Mas morreu hoje”.

Marcela escreve com contundência, sem se furtar da delicadeza. A violência percorre suas histórias, porém nunca é usada de modo a provocar o choque ou em detalhes explícitos. Está na natureza da circunstância, no acúmulo de sensações que leva o personagem a reagir e, a reboque, faz com que o leitor sinta-se ligado a essa humanidade precária, talvez por também assim o ser. É o caso do conto que dá nome ao livro, no qual um paciente, revidando seu estado terminal, regozija-se ao transitar pelo hospital e presenciar os leitos desocupados pelos que morreram. “Fazia pouco tempo que conseguia controlar o esfíncter, mas preferia continuar mijando nas pessoas, como nos primeiros dias”.

O assalto da maldade também se compraz no exercício da sutileza, e Marcela demonstra talento para articular essa relação em seu processo de escrita e na consistência da forma, adotando um ritmo lento de quem se dispõe a passar o tempo necessário com o conto até entendê-lo lapidado. Desse modo, fica o espanto ao se dar conta de que se trata de uma estreia e, mais ainda, diante da decisão de uma autora que visivelmente esperou estar pronta, madura para finalmente publicar. Isso é raro. Muito, nos dias de hoje.

Tomando emprestado o título de um dos contos, cada um carrega a cruz que pode, pouca gente paga em moeda. “Sobre pessoas normais” não deixa dúvida de seu alto valor.

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

 

 

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111ª Leva - 05/2016 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Anderson Fonseca

 

LUMA FLORES
Arte: Luma Flôres

 

A caixa

 

Caro Williams, se porventura notar que a literatura como a conhece está assumindo outra forma, a culpa é minha. A razão que me levou a fazer certa escolha de valor ambíguo deve-se a um anseio natural de contemplar um universo ruir para outro nascer, como também a uma inclinação da alma para a desobediência – como sabe, não sou afeiçoado por ordens -, sobretudo, pela curiosidade, talvez de natureza infantil, em conhecer os mistérios que nos cercam. Creio que faça parte disso minha história com jogos de azar. Ainda lembro, quando com 17 anos, você deu-me um dado chinês do século XVIII e advertiu-me a respeito da sorte, o quanto ela possui duas faces – como Jano – e só vemos no momento em que é feito o lance. De lá para cá, meu espírito inclinou-se a crer que a sorte é a lei constituinte do mundo. A todo instante jogamos dados e alteramos a ordem dos eventos. Somos uma espécie de deus preso às próprias leis que criou. Mal da onipotência? Quem sabe. Por isto, reafirmo que a curiosidade aliada à paixão pelo acaso levou-me a imaginar as inúmeras possibilidades que cerceavam minha escolha tão funesta. Eu a fiz. Este é meu crime.  Mas a fiz por desejar, – como já afirmei -, que este universo ruísse para outro de suas cinzas emergir.

Certamente não está a entender nada do que lhe digo, e com isso pergunta-se do quê exatamente conto. Antes de esclarecer suas dúvidas, quero agradecer por ter sido meu mentor, pai e herói. Não me esqueço do pequeno ladrão que fui um dia, e, ao encontrá-lo, no bibliófilo reconhecido em que você me tornou.  E venho desculpar-me pela escolha que fiz, estou arrependido, talvez se eu não tivesse olhado, se eu não tivesse aberto a caixa, se não tivesse desobedecido à ordem do senhor Barrington, talvez… talvez tudo permanecesse o mesmo.

Foi na noite de terça-feira, 23 de abril, logo após ter saído do bistrô do Paço Imperial, mal ter entrado em casa, aberto o Cabernet Sauvignon, derramado em uma taça, umedecido os lábios, e deitado no sofá, o telefone tocou. Quando atendi, ouvi uma voz seca dizer: – Senhor Xavier? É o senhor Xavier?

– Sim. É ele quem fala.

– Boa noite. Perdoe-me o incômodo a essa hora tão tarde. Sou o Dr. Barrington, creio já ter escutado a meu respeito. Venho de uma família nobre, reconhecida por preservar artefatos históricos. Há dias estou em busca de um bibliófilo a quem conferir um objeto de inestimável valor, pertencente à minha família, até descobrir seu nome. Sua fama o precede, senhor Xavier, não somente por seus feitos, como por sua ética, por isso, quero muito seus serviços e será bem remunerado.

– Agradecido, senhor Barrington, por solicitar meus serviços. Estarei em sua casa na quinta-feira, pois amanhã preciso com urgência resolver uma questão de trabalho.

– Dr. Xavier, não tenho tempo para esperar. Meu chofer já se encontra em frente à sua casa. Por favor, venha logo.

Lembra-se da vez em que você deu-me um soco tão forte no rosto que caí? Foi assim que me senti quando Barrington desligou o telefone. E como um gato perseguindo o fio de lã puxado pelo dono, segui aquele misterioso convite.

O mordomo abriu a pesada porta de madeira maciça entalhada em flores; contei 12 passos até o salão principal. No centro, sentado à mesa de mogno retangular, o Sr. Barrington mantinha os olhos sobre a pequena caixa de ferro. Sentei-me ao seu lado, ele levantou os olhos voltando-se para mim, e disse com a voz trêmula: – Dr. Xavier, estava ansioso pela sua chegada. Agora, sinto-me aliviado ao vê-lo aqui à minha frente.

– É um prazer estar aqui, Sr. Barrington. Mas, até o momento, não entendi o motivo do convite. Estou ansioso a respeito do trabalho que irá me designar. Por favor, diga-me por que estou aqui.

– Direito e lacônico… Agirei do mesmo modo. – E sorriu. – Vê essa caixa? Ela é o tesouro de minha família. Há séculos protegemos seu conteúdo. E jamais algum de nós ousou abri-la. Esclareço: Nessa caixa está o texto original de O Fausto de Wolfgang Goethe. Sim, Xavier, a grande obra que influenciou a literatura moderna. Como sabe, Goethe escreveu duas partes da obra, a primeira publicada em 1808, e a outra em 1832. Ao menos é isso que sabem os especialistas. Na verdade, há uma terceira, intermediária entre as duas edições. Esta obra chamada por Goethe de Fausto – a tragédia humana ficou apenas como rascunho da segunda publicação. Nela encontravam-se resquícios da primeira edição e o projeto da segunda. Tratava-se, portanto, de uma obra intermediária. Diz a lenda que Goethe levou os rascunhos a um feiticeiro para lançar sobre as folhas um encantamento. Dali em diante, as duas publicações estariam entrelaçadas a esta, de forma que qualquer intervenção alteraria os traços das duas edições e, assim, a literatura alemã. Um efeito no tempo. Ciente do poder que continha os rascunhos, Goethe os guardou em uma caixa de ferro e ordenou que jamais fosse aberta. Dr. Xavier, o senhor já ouviu, sem dúvida, falar na mecânica quântica. Há duas teorias bastante interessantes propostas por essa mecânica. Uma delas é conhecida como entrelaçamento quântico. Imagine você dois objetos, digamos duas maçãs tão fortemente ligadas entre si que se torna impossível que uma seja descrita sem mencionar a outra. Ou seja, suponha que eu pegue uma dessas maçãs e gire para a esquerda, a outra irá girar subitamente para a direita. Eu poderia separá-las, colocando uma distante da outra por milhares de quilômetros, e ainda assim, ao girar uma para a esquerda, a outra se moverá na direção contrária. De um modo maravilhoso a informação viajou mais rápida que a luz rompendo com as leis da física.

– E se eu morder um lado da maçã? – perguntei para distrair.

Barrington riu escandaloso, depois olhou-me firme e disse: – Ora, Xavier, a outra maçã perderia sua parte. Agora não me pergunte se estaria no estômago ou não, pois ignoro a resposta.  – E voltou a rir. Depois emendou: – A outra teoria é o famoso paradoxo de Schrodinger. Trata-se de uma incoerência, uma incerteza que só é abolida mediante a interferência de um observador humano. Dessa vez, imagine um gato dentro de uma caixa lacrada. Nessa caixa há um frasco contendo veneno ligado a um contador Geiger que acionará um martelo para quebrar o frasco, caso seja detectada a presença de radiação. Para Schrodinger há duas realidades: uma em que o frasco está quebrado e o gato morto; noutra, não. No entanto, segundo ele, estas realidades existem simultaneamente, isto é, o gato tanto está vivo como morto. Acontece que, quando a caixa é aberta por um observador humano, a dualidade é desfeita e o gato aparece vivo ou morto. Isso depende do observador, ele decidiu a vida ou a morte do pobre felino. Se não fosse ele, se não tivesse aberto a caixa, o gato permaneceria nos dois estados. É uma grande surpresa. Só saberemos se ganhamos ou perdemos depois de olharmos para dentro do abismo. Você entendeu, Dr. Xavie

– Sim, entendi completamente. O senhor explica de forma tão clara que faz um assunto complexo parecer um jogo infantil.

– Quem sabe não seja isso o que diz… ser a verdade. Quem sabe não seja tudo o que vemos um jogo na mão de deuses. – refletiu. – Mas, veja, estas duas teorias explicam a importância de não abrir a caixa. Para tornar ainda mais óbvio esse valor, acrescento a teoria da causa retrógrada. Ela afirma, em poucas palavras, que um observador ao medir o estado quântico de uma partícula no presente está alterando seu estado no passado. Nessa linha de pensamento, é possível que o efeito seja anterior à causa. Assim, duas partículas entrelaçadas podem desobedecer às leis da física. Se eu medir uma partícula no presente, estarei alterando a outra partícula a qual está entrelaçada e que existe no passado. A informação viajou no tempo. Isso é paradoxal, mas possível. Da mesma forma, as duas edições de Fausto estão entrelaçadas à terceira, a que se encontra nessa caixa. Este livro aí guardado existe tanto no passado quanto no presente, e, enquanto ele não for observado por ninguém, as duas edições se manterão inalteráveis. Contudo, se a caixa fosse aberta, a dualidade desapareceria e a informação do presente viajaria ao passado alterando as edições emaranhadas à terceira. Isto afetaria toda a história da literatura e o mundo como conhecemos se tornaria outro. Portanto, escuta-me. Jamais… jamais… jamais abra a caixa e olhe para o livro. Estou morrendo, faltam poucos dias para eu partir. Ao contrário dos meus antecessores, não tive filhos. Então me perguntei a quem passaria este legado, e aí descobri você. Espero que aceite o convite. Será bem recompensado.

– Eu aceito, senhor Barrington.

Levantamos e apertamos as mãos, assinei um contrato de confidencialidade e voltei para casa. Quatro dias depois, Barrington falecia em seu leito. No dia seguinte recebi a caixa e toda a fortuna da família Barrington. Para manter meu novo status quo e a boa qualidade de vida, era preciso apenas não descumprir o acordo.

Os dias seguintes, as semanas, os meses… foram os mais terríveis que vivi, Williams. O que você teria feito em meu lugar? Aceitado aquela caixa de Pandora? Ou teria rejeitado? Para mim foi como receber das mãos do Diabo um maldito presente. Não sei por qual motivo aceitei o trabalho, quem sabe, insanidade. Ao longo de oito meses não dormi, meus olhos permaneciam fixos no objeto misterioso. Perguntava-me sobre as possibilidades ocultas na abertura da caixa. E se… e se… e se… Estava seduzido pela ideia do fim da literatura e o surgimento de outra. Obsessivo, paranoico, doente, tornei-me pela ideia. Nada me salvaria.

No dia 22 de maio, recebi o convite para uma conversa de Carlos Pinheiro, famoso crítico literário, ex-colega de faculdade. Precisava sair, respirar. Nos encontramos no bistrô do Paço Imperial. O prato: bolo de chocolate amargo acompanhado de café sem açúcar. Em meio à conversa, Pinheiro, declara: – Xavier! Vou deixar a carreira de crítico literário e me dedicar à pintura.

– Por que essa decisão brusca?

– Bastante simples o motivo. Cansei-me de buscar a obra que fosse o espírito de nossa nação no presente século. Nada encontrei. Desde 1980 que não se vê um autor cuja obra carregue essa alma. Estou arrependido, aliás, vencido pelo tempo.

Eu sei que você, Williams, já sabe o final. Já deves ter concluído minha decisão. No fim daquela tarde, escolhi olhar o livro, graças ao infortúnio da conversa. Embora não concordasse com Pinheiro, partilhava de sua tristeza. Até então não tinha visto obra comparável a de Goethe, tão impactante a ponto de influenciar os séculos. Saí da conversa, emotivo, abalado; destruído pela falta de esperança, de uma obra que contivesse em suas páginas o drama humano. Durante nove horas fiz-me a pergunta: “E se Goethe não tivesse escrito Fausto, será que outra obra surgiria em seu lugar – quem sabe neste século – e salvaria a história?” Pergunta estúpida. De repente, uma palavra que significa incerteza e possibilidade, invadiu minha consciência. E se… E se Goethe tivesse sua obra alterada? Bêbado e abatido, levantei-me da cadeira, peguei a caixa, joguei-a sobre a mesa, apanhei a chave guardada no criado-mudo, e, diante dela por uns instantes, hesitei. Depois pensei: “Dane-se, vou abrir”. E assim que abri a caixa e olhei, vi os papéis que ali estavam subitamente desaparecerem. Neste preciso instante, compreendi que havia destruído a literatura.

Pois, se agora Williams sente o mundo em ruínas e algo novo surgindo, a culpa é minha. E, apesar de estar profundamente arrependido, não posso fazer nada.

X.

 

Anderson Fonseca nasceu em 1981, no Rio de Janeiro (RJ). Professor ensaísta, é também um dos editores da revista de contos Flaubert. Publicou “Notas de Pensamentos Incomuns” (contos, 2011) e “Sr. Bergier & Outras Histórias” (contos, 2016, Penalux). Organizou a antologia “Veredas – Panorama do conto contemporâneo brasileiro” (2013). É autor de “O que eu disse ao General” (contos, 2014), considerado pela revista Literatsi um dos melhores livros de 2014.  Vive atualmente na cidade de Brejo Santo (CE), com sua esposa e filha.

 

 

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111ª Leva - 05/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Geraldo Lavigne de Lemos

 

Luma Flores
Arte: Luma Flôres

 

a meu tempo

 

faço muito uso do quando
porque o tempo me parece inconstante

às vezes é água represada
por outras, atira-se como cachoeira

sabido desta verdade
não costumo confiar nas máquinas
pois meu tempo confunde os relógios

confio, sim, na linha da vida
que, tesa, dispara o carretel
e, frouxa, para-o

 

 

***

 

 

poeira iluminada

 

o inverno desce
……………..pelas galerias

nada mais o tempo tece

em minha terra,
neve é poeira iluminada

………….fato perene
………….na calçada

 

 
***

 

 
Cachoeira

 

louvo o curso deste rio
pela mensagem silente
de amar o inimigo

espumo palavras
entre meus dentes
: leito calado
e impotente

espero um dia
poder vomitar enchentes
como fez o rio em 67

 

 

***

 

 

magarefe

 

eu não descabelo mais o porco
na água fervente
enquanto ele sangra pelas ventas
e grita os meus pesadelos

não marreto mais o carneiro
para deixá-lo demente
e colher-lhe o sangue
entre os espasmos

nem trespasso mais a lâmina
na garganta do garrote
apeado aos meus pés

hoje, o máximo que me ocorre
é ver um frango
circular sem cabeça
tingindo o piso

sento em minha cadeira de couro curtido
e da varanda vejo as moscas
cobiçarem o meu jazigo

peço às larvas
que esperem meu corpo esfriar
antes de me terem engolido

 

 

***

 

 

melodia sazonal

 

o capim verde expõe as sementes
no alto de seus dois metros

o campo contrasta a cor do céu
pousa uma dúzia de cardeais

o vento enverga os talos
e todos dançam
…….folhas ornadas com vestes santas

aguardo para ouvir o canto do bando
…….coral de notas fartas

 

 

***

 

 

somos da linhagem do pau-brasil

 

temos o lenho
….duro
………bravo
…………..e resistente

….espinhos firmes
……..como dentes

nosso colorido sumo
…..denota o calor
………das nossas entranhas
enquanto as folhas miúdas
….relatam o minucioso
……. – e permanente –
………esforço

não esperamos piedade

ouçam apenas o ressoar do violino
……..através de nosso cerne

 

Geraldo Lavigne de Lemos é natural de Itabuna e radicado em Ilhéus. Membro da Academia de Letras de Ilhéus, autor dos livros À Espera do Verão (2011), amenidades (2014), alguma sinceridade (2014) e Massapê: Solo de Poesia (2016), todos de poesia e pela Editora Mondrongo. Integra a antologia Diálogos – Panorama da Nova Poesia Grapiúna (Editus / Via Litterarum, 1ª ed. 2009; 2ª ed. 2010). Realizou a Exposição Interativa Tempos Invernosos com poesias na galeria do Teatro Municipal de Ilhéus em 2008, remontada no Instituto Nossa Senhora da Piedade como parte do Ano Ibero-americano de Museus. Foi membro do Conselho Municipal de Cultura de Ilhéus no biênio 2011/2012.

 

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111ª Leva - 05/2016 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

Há duas maneiras de um escritor revisitar o passado: por meio da autobiografia ou através da ficção. Em seu livro mais recente, o volume de contos “Eles não moram mais aqui”, o mineiro Ronaldo Cagiano se posiciona diante do cruzamento entre essas duas vias, acessando os fatos que constituem sua obra ao converter matéria autobiográfica em matéria literária.

O resultado é um diálogo permanente entre invenção e memória, no qual os personagens são agentes de suas próprias histórias, mas também a consciência latente do autor observando a própria vida a uma devida distância. A infância na pequena cidade de Cataguases, a descoberta da leitura, a poesia como faísca elementar para a escrita, as mudanças para Brasília e, anos depois, para São Paulo.

Uma formação humana permeada pela literatura e por uma galeria de autores cujas influências apontam um norte e explicam a própria carreira. “Creio que a criação literária é caudatária de nosso histórico de leituras e não há como afastar-se dessa sintonia, desse beber em outras fontes para enriquecer a nossa, pois somos influenciados, sem dúvida, pelo que acumulamos, e essas pistas nos formam e isso não apenas na literatura”, conclui.

Em entrevista exclusiva, Cagiano esclarece as circunstâncias por trás de alguns dos contos, partindo de assuntos específicos para fazer uma ampla reflexão sobre o ofício da escrita. Com mais de uma dezena de livros publicados, entre novelas, antologias poéticas e infantojuvenis, o autor ainda debate os (des)caminhos do mercado literário, o surgimento de novos autores e editoras, a parceria com a escritora Eltânia André, cujo primeiro romance já está no prelo, e sua atuação como crítico de livros, pelo qual é um dos mais respeitados do país. “A literatura continua sendo o único lugar onde se pode ser livre”, justifica o empenho em prol de um fazer literário que vai além do seu.

Ronaldo Cagiano
Ronaldo Cagiano / Foto: arquivo pessoal

DA – Em seu livro mais recente, o volume de contos “Eles não moram mais aqui”, você utiliza como matéria ficcional a memória, as lembranças de lugares e de pessoas da cidade mineira de Cataguases, onde nasceu. Acredita que todo escritor, em algum momento, invariavelmente volta para casa?

RONALDO CAGIANO – Creio que a literatura é uma ponte entre o passado (com sua carga de memória ancestral: afetiva, geográfica, familiar, psicológica, histórica) e o presente. Estamos sempre dialogando com nossas raízes e experiências remotas. Penso que tanto na prosa quanto na poesia não há escrita puro-sangue, ou seja, tudo que escrevemos é um diálogo entre a invenção e a memória, pois, como dizia Cyro dos Anjos, “a literatura se nutre do real”. Assim, vejo Cataguases como o Capiberibe de “Cão sem plumas”, de João Cabral, pois minha cidade é como aquele rio: “Está na memória; como um cão vivo/ dentro de uma sala”. Vivi até os 18 anos em Cataguases, passei 28 anos em Brasília. Se esta me deu régua e compasso, como na música de Gil, foi Cataguases quem me (in)formou como ser, como leitor e como escritor. A mitologia da cidade é (o) que me alimenta ficcional e poeticamente, pois quando volto os olhos para o vazio ou do escuro do passado, é de lá que retiro matéria e circunstâncias para minha prosa e minha poesia. E a barbearia do meu pai foi a grande escola desse aprendizado de ver e ler o mundo, em seu salão, onde fui engraxate dos 8 aos 14 anos, (re)colhi as histórias da cidade, capt(ur)ei o seu imaginário e chafurdei no seu inconsciente,  uma espécie de vitrine crítica da vida individual, coletiva, social e política. A cidade povoa minha experiência criativa a partir dali, onde circulavam multifários seres, de onde eu mirava, como um promontório, os acontecimentos do dia a dia, as figuras folclóricas e pitorescas, a gente miúda em sua coreografia diária pelas ruas, esses tecelões de mistérios que tanto invocaram nossa imaginação. “Nenhum rosto é tão surrealista quanto o verdadeiro rosto de uma cidade”, disse Walter Benjamin, assim a cada conto, a cada história, a cada poema, tendo desvelar a face de uma cidade que a cada dia, apesar da distância dos anos e do meu asilo em outras plagas, é a mesma e é outra.

DA – O poema de João Cabral, a que se refere, está no conto “Sombras”, possivelmente o mais emotivo da coletânea, um tipo de relato inflexivo no qual você transporta, para o contexto imaginário, o luto que, mesmo com o escorrer dos anos, não se dissolve por completo. Livros, como “Carta a D.”, de André Gorz, e “Altos voos e quedas livres”, de Julian Barnes, tratam igualmente desse sentimento de tristeza profunda pela morte de alguém muito querido. Você acredita que a literatura, de alguma forma, é um canal pelo que esse vazio possa ser confrontado ou, ao menos, compreendido?

RONALDO CAGIANO – Nesse conto, particularmente, (es)corre uma espécie de hidrografia sentimental: no fluxo das lembranças de um acontecimento real, migrei para a ficção a experiência de um luto sofrido por uma família, que teve de purgar a dor de uma perda tão precoce. Creio também na literatura como instância para certas catarses, em que a vivência pessoal (ou a alheia que, muitas vezes também nos servem como fonte literária) nos possibilita um mergulho e uma reflexão sobre as imponderáveis contingências de nosso percurso ou de nosso tempo. Estamos sempre fazendo literatura além das expansões oníricas, transcendendo a realidade por meio de uma (in)tensa tentativa de compreender (ou superar) os vazios, silêncios, perdas e outras dores que vivemos ao longo de nossa fugaz e precária existência. Dessa forma, escrever como exercício permanente de confronto com realidades distintas, é a maneira que encontramos de dialogar com aquilo que nos perturba, desconforta e de, certa forma, nos desestabiliza e nos modifica.

DA – Outro aspecto que salta aos olhos, na coletânea, é um diálogo constante com inúmeros escritores, que se cristaliza no conto “Esboços para a (de)composição do naufrágio”, em que o narrador se lança numa incursão pelo território literário, encontrando-se com nomes como Machado de Assis, Cervantes, Kafka e Plínio Marcos. O quanto desse espelhamento há na sua formação e, por consequência, em seu processo literário? De uma maneira representativa, acredita que o autor, por mais completo que seja, nunca escreve sozinho, que todos os textos decorrem de um impulso de influências e recortes acumulados durante a leitura?

RONALDO CAGIANO – Entendo a escritura como sendo uma experiência-rio: ela carrega (ou transporta) as recolhas de nossa caminhada, seja como ser, leitor ou escritor. Dessa forma, no que escrevo, tudo flui impregnado de outras referências. Aquilo que li, o que vi, ou o que vivências alheias me serviram como exemplo, farol ou lição. Sempre incorporo algo da garimpagem que realizo ao mergulhar no aluvião estético de outros autores. Certa vez, um amigo escritor dizia que, embora gostasse muito de ler meus contos (e até poemas), sentia-se incomodado na maioria das vezes, por ter que pagar pedágio às epígrafes. Argumentei que o uso desse recurso (Murilo Rubião foi um dos que mais o utilizaram em seus contos; da mesma forma o mineiro João Batista Melo), mais que intertextualidade, ou além da homenagem a autores e livros que me marcaram, vejo também como um diálogo temático e afetivo, uma ponte dialética entre o que escrevi e o que li, no sentido não de plágio ou carona, mas com a função análoga e simbiótica de espelhar sentimentos e expressões que, de outra forma, e melhor, disseram a respeito do mesmo tema. No fundo, creio que a criação literária é caudatária de nosso histórico de leituras e não há como afastar-se dessa sintonia, desse beber em outras fontes para enriquecer a nossa, pois somos influenciados, sem dúvida, pelo que acumulamos, e essas pistas nos formam e isso não apenas na literatura.

DA – A poesia, que se faz substância de alguns contos do seu livro mais recente, foi também seu ponto de partida na carreira literária, com o lançamento de “Palavra engajada”, de 1989. Essa predileção de gênero seguiu por alguns anos, até finalmente você se encontrar com a prosa. A que atribui esse movimento? Sua primeira experiência com a leitura parte da poesia? Há com ela uma ligação de cumplicidade afetiva ou foram os versos a maneira pela qual primeiramente compreendeu seu impulso artístico?

RONALDO CAGIANO – Considero-me essencialmente poeta, embora tenha me incursionado pela ficção com mais vigor nos últimos anos. Mas, desde os primeiros livros, leitores e amigos identificaram uma certa predisposição à prosa, por perceberem um fôlego discursivo em meus poemas. Embora, paralelamente, à escrita e publicação de livros de poesia tenha sempre produzido prosa, seja em jornais (desde a adolescência colaborava para um hebdomadário tradicional de minha cidade, com crônicas, pequenos contos e artigos de opinião), seja por meio de histórias que deixava na gaveta, foi somente depois de alguns títulos de poesia que optei por dar à luz meus primeiros textos ficcionais, na esteira da sugestão desses amigos, que insistiam para que eu investisse no gênero. Assim surgiu “Dezembro indigesto”, volume em que reuni alguns contos inéditos, tendo com ele vencido o Concurso Bolsa Brasília de Produção Literária de 2001, com a publicação pela Secretaria de Cultura do Distrito Federal. A partir dessa feliz estreia, dediquei-me mais à confecção ficcional, sem abandonar a paixão pela poesia, para a qual fui despertado aos 11 anos, quando li os versos candentes de “Eu”, de Augusto dos Anjos, livro que representou um divisor de águas na minha vida de leitor, instigando-me a escrever os primeiros poemas. Creio que essa ligação visceral e umbilical com a poesia delineia minha prosa, porque essa ligação afetiva e sensorial com ela pode ser sentida no que escrevo, porque sempre persigo a prosa poética como êmulo a meus projetos ficcionais.

Ronaldo Cagiano
Ronaldo Cagiano / Foto: arquivo pessoal

DA – Há dois pontos, em sua resposta, que eu gostaria de me aprofundar. O primeiro é o que chamou de perseguição da prosa poética, cujo ápice, no meu entendimento, está no conto “Mar de dentro”, que se passa em Teerã. É notável, na sua escrita, essa relação com a cidade, o espaço geográfico, muitas vezes em tom de diálogo, como se este servisse de cenário e, ao mesmo tempo, de interlocutor. Você nasceu em Minas, mas viveu em Brasília por muito tempo e, agora, em São Paulo. Consegue notar uma influência latente de cada um desses lugares em sua literatura, ou acredita que o escritor ocupa um território expatriado, tão vasto dentro de si?

RONALDO CAGIANO – Compartilho uma expressão de Baudelaire para reafirmar isso: “Seja poeta, mesmo em prosa”. Quando li isso, certa vez, percebi que pertencia à família dos que, ao fazerem ficção, não se preocupam apenas – e de forma descarnada – em contar uma história. Penso que o amálgama para uma história, no conto ou romance, é a própria linguagem e ela, muitas vezes, é tão forte e determinante quanto a trama ou a psicologia dos personagens. Essa talvez seja uma peculiaridade no que escrevo, uma espécie de relação íntima com minha gênese literária, a origem primordial do que crio está na poesia que procuro retirar dos pequenos dramas e tragédias, dos conflitos e dilemas individuais ou coletivos, da banalidade ou transitoriedade das coisas. Por outro lado ressalto, ainda, o fato de trabalhar na minha literatura os espaços em que vivi e que me influenciaram, como forja do homem e do escritor: o geográfico, o psicológico, o afetivo, que delineiam meu arcabouço existencial. São pilares que sustentam o meu processo criativo, mergulho no território da infância, nas experiências afetivas, nos apelos históricos, nas invocações sensoriais para compor o painel de minha leitura pessoal e crítica desses universos e atmosferas que me forjaram e me inspiram tantas revisitas. Essa ancestralidade tão referencial nos habita e nos chacoalha, nela estão as fontes de nossa relação com o agora, nas quais a literatura é instância de expansão, catapulta. Certa vez li no livro “Manual Prático de Levitação”, de Agualusa, a fala de um personagem que me parece espelho do que ocorre quando revolvo essas reminiscências: “O passado é como o mar: nunca sossega”. Então, essas águas vivem redemoinhando dentro de mim, as águas do rio Pomba, tão mí(s)tico em minha infância e adolescência, com suas cheias alarmantes nos expulsando de casa; as águas do Lago Paranoá, em Brasília, cidade onde vivi 28 anos e que me deu “régua e compasso”, como diz a música de Gil; e agora nessas novas (c)(t)orrentes, em São Paulo, onde estou há nove anos, levando-me a outros fluxos nesse eterno e imponderável mistério que é o destino. Essa interlocução com o passado remoto ou recente (Cataguases, Brasília), esse diálogo com o presente (São Paulo) é uma maneira de me situar em meio ao cipoal caleidoscópico de realidades distintas (e suas contradições), que vivi e vou experienciando. E a literatura abriga cada um desses pedaços (sentimentais e físicos). Em “Interpretação de dezembro”, Drummond me ajuda reconhecer que “É o menino em nós/ ou fora de nós/recolhendo o mito”.  Esse menino que f(l)ui, pega na minha mão e escreve sobre o que hoje em mim é fluência e desatino. Portanto, não consigo separar o que escrevo do que vivi, tudo se manifesta como uma sinergia de sensações acumuladas, que se atualizam cada vez que a ficção se embebeda do real.  Cada viagem a Minas é um manancial de recorrências afetivas tão fortes e esse caudal sentimental se transformará em matéria literária ou apreensão poética nalguma oportunidade. A cidade que (re)vejo (ou visito) hoje não é aquela cidade que me transformou ou transtornou, a que está intacta na minha percepção, pois hoje sou estrangeiro nesse mundo que lá está transplantado e, para fugir desse exílio compulsório, me asilo no “inexílio” da memória e nela afugento os fantasmas do presente. Como no conto “Da próxima vez”, de Carrascoza, “A cidade da infância, tão outra nos meus olhos se comparada à memória.” Ou algo similar num poema de Ascânio Lopes, poeta modernista da minha cidade, morto precocemente na década de 20, que fala: “Cataguases! Cataguases!/ Vale a pena viver em ti./ Nem inquietude./ Nem peso inútil/ de recordações./ Mas a certeza que nasce/ das coisas/ que não mudam bruscas./ Nem ficam eternas.” No mais, tomando emprestado de Ortega y Gasset a ideia da influência, para o qual “eu sou eu e minhas circunstâncias”, eu diria que eu sou eu e minhas leituras, eu e minhas viagens e relações com o que me cerca.

DA – Bela resposta. Passou-me a frase de Borges que diz que todo autor sempre escreve o mesmo livro. Há uma memória basilar para todos os enredos, e isso que se configura a literatura. Agora voltando ao segundo ponto, você menciona a bolsa de criação literária e, complementando a ideia, alguns dos contos de “Eles não moram mais aqui” foram previamente premiados. Com a extensa carreira que tem, o quanto considera importante para um autor esses dois recursos? Como um financiamento ou uma premiação pode ser producente ou prejudicial?

RONALDO CAGIANO – Sem dúvida, acredito que essas alternativas são a saída, sobretudo num país como o Brasil, em que o sistema editorial é extremamente hegemônico e monopolizado, sem critérios definidos para a recepção, avaliação e publicação de autores, prevalecendo, na maioria das vezes, as relações, as panelinhas, os guetos, as igrejinhas, as amizades e outros sistemas perversos de vasos comunicantes, em detrimento da qualidade da obra, perpetrando-se históricas e abomináveis injustiças (autores de qualidade negligenciados sem pudor, enquanto mediocridades são incensadas sem nenhum constrangimento). Nesse ambiente literário dominado por interesses, percebo também o total descaso de grande parte da crítica que milita na grande mídia impressa e seus cadernos de cultura, salvo raríssimas e honrosas exceções, pois só reconhecem vida inteligente na literatura publicada por grandes editoras. São pernosticamente indiferentes a um bom autor que tenha sido editado por um selo desconhecido, principalmente se fora do eixo Rio-São Paulo.  Então, o que resta aos autores sem “pedigree” são os concursos literários, as bolsas de publicações e outros programas de incentivo e apoio municipais e estaduais, que funcionam como estimulantes para os novos e até mesmo para veteranos sem oportunidades nas grandes casas editoriais. São alternativas concretas para tornar menos injusta a partilha de espaço nesse cenário tão dominado pelos ditames do deus mercado, e na maioria das vezes, esses certames sinalizam uma maior visibilidade, chamando atenção da crítica e proporcionando acesso a edições e distribuição mais amplas. Ressalto que, em meio a esse deserto de possibilidades, um oásis se mostra como interdição desse processo: é o papel das pequenas editoras que, a meu ver, de forma hercúlea e quixotesca, com seus editores matando um leão por dia e nadando contra a maré do mercado editorial, vêm publicando autores e obras de inegável qualidade, inclusive nada devendo às grandes editoras quanto ao esmero gráfico, sendo que muitas delas vêm conquistando prêmios em importantes concursos de nível nacional, entre as quais destaco Patuá, Dobra, Confraria do Vento, LetraSelvagem, Penalux, Oito e Meio, Reformatório, Kazuá, Casarão do Verbo etc.

DA – Essa é uma situação complicada e, em muitos casos, desleal. Há algum tempo, conversava com um escritor superpremiado, com livros traduzidos fora do país, que se encontra sem editora, desmotivado. Um vexame, uma vergonha para o meio literário. Mas gostaria também que enxergasse esse contexto por um outro ângulo. Você não percebe que, com o surgimento de muitas editoras e a escancarada democratização da publicação, temos também autores estreando sem a devida bagagem, com livros que, amadurecidos mais um pouco, teriam muito mais a oferecer em termos de qualidade literária?

RONALDO CAGIANO – Concordo plenamente quanto ao fato de que essa facilidade de acesso aos meios editoriais mais disponíveis (pequenas editoras, plataformas e suportes na internet, como blogs e revistas eletrônicas etc), ainda que possibilite a livre publicação, também impõe o risco do nivelamento por baixo, ao despejarem muitos títulos sofríveis, autores de duvidosa qualidade e obras sem a devida maturidade. Acabam por entupir o mercado, empurrados pelas águas da avidez, açodamento e desespero de escritores que pretendem publicar a qualquer custo e são seduzidos ou cooptados por algumas editores sem escrúpulos, empresas caça-níqueis que se aproveitam da g(r)ana dos incautos. Vale para isso um antigo aforismo popular: “Nem tudo que cai na rede é peixe”. Assim, entendo, ser preci(o)so também ter o discernimento necessário, tanto de editores quanto de leitores, para se separar o joio do trigo, pois as pequenas editoras sérias acabam sofrendo o estigma pela falta de critérios de outras tantas.

DA – Por outro lado, temos os escritores que se colocam num patamar superior, que só participam de coletâneas, eventos e demais expressões artísticas mediante pagamento. Embora renomado, com prêmios e publicações fora do país, você é muito ativo em colaborações em jornais, revistas, sites, além de participar e organizar antologias. O quanto considera essencial, para sua carreira, continuar desbravando novos territórios para sua literatura? E, desdobrando a pergunta, não acredita que, para um jovem autor, o melhor caminho não seria iniciar com colaborações para adquirir um pouco de “casca” e, enfim, publicar o primeiro livro?

RONALDO CAGIANO – Evidentemente, há certos escritores convertidos em sumidades, cuja literatura e nome alçam o patamar de uma grife, que impõem certas condições financeiras para suas participações (entrevistas, colaborações em jornais, seminários, palestras, feiras literárias, resenhas, orelhas, prefácios), gente que não sai de casa sem pagamento, sob o pálio da profissionalização de suas carreiras. Creio que o escritor exerce uma atividade que em nada difere de qualquer outra, portanto deve ser remunerado pelo que produz. No entanto, vivemos num país que, histórica e culturalmente, só acredita naquilo que culmina em produtividade material, aferível sob o ponto de vista da produtividade. Portanto, atividade intelectual e artística, sobretudo a literária, sempre foi vista com menoscabo e indigna de pagamento, porque alcança uma minoria, ainda mais que somos uma nação sem leitores e livro não faz parte da cesta básica. Muitas vezes somos forçados a nos prostituir para ter o mínimo de espaço, ao emprestar o talento e a força de trabalho mental e intelectual sem a devida contraprestação, pois, na maioria dos casos, jornais e revistas já não pagam mais pelas colaborações, assim também alguns convites para palestras em escolas e eventos menos suntuosos ou concorridos em que o autor não pode deixar de comparecer, sob pena de receber a pecha de esnobismo. Lembro-me de que, quando organizei três antologias (“Poetas Mineiros em Brasília”, “Antologia do conto brasiliense” e “Todas as gerações – conto brasiliense contemporâneo”) tive dificuldades em convencer dois ou três escritores para o projeto, porque exigiram remuneração e direitos autorais, o que não acho de todo ilegítimo, não obstante a realidade em que vivemos. Ainda que eu ponderasse que as edições não tinham cunho comercial, mas funcionariam como registro da produção poética e ficcional brasiliense, e o organizador não receberia nada por isso, tendo cada autor, na edição de 1.000 exemplares de cada, a uma quota de 10 livros, mesmo assim esses não aceitaram participar. Entendo que nem sempre devemos atuar de graça, porque em muitos casos há instâncias e organizações que podem e devem remunerar pelo trabalho produzido. Nos países desenvolvidos, a atividade de escritor é devidamente valorizada e qualquer atividade não prescinde do devido pagamento, até mesmo uma modesta aparição com foto numa matéria de jornal é motivo suficiente para pagamento. Enquanto não atingirmos esse estágio ou consciência do valor e a necessidade de se dar a justa contraprestação financeira ao trabalhador literário, é necessário tentar harmonizar os interesses, não fugindo à raia quando determinados espaços nos solicitam ou convocam, justificada a impossibilidade, pela própria precariedade desses meios, de pagamento ao autor, até porque já são tão exíguos os espaços e muitas vezes são estes que nos oferecem alguma janela ou visibilidade, abrindo possibilidades para circulação de textos, poemas, artigos, resenhas, crítica etc, o que, de certa forma, credencia o autor, sobretudo em início de carreira.

DA – Por falar em resenha, um outro ofício que você se firmou como um dos mais respeitados do país é o de crítico literário. Eu, inclusive, já tive a alegria de ter a sua precisa análise de um dos meus livros. Hoje temos centenas de blogs, sites e os chamados booktubers que, de maneira geral, enquadram suas impressões literárias entre o gosto pessoal e a superfície analítica. Como é, para você, atuar como leitor crítico? Como começou esse trabalho? Recorda-se da primeira resenha? Algum crítico o inspirou? Quais as ferramentas fundamentais para se escrever um boa resenha?

RONALDO CAGIANO – Primeiramente, não me considero crítico nem ensaísta, porque minha formação é em Direito (advoguei durante muitos anos, até 2002, paralelamente à minha vida de bancário) e não tenho formação acadêmica em Letras, muito menos, pós ou doutorado, portanto, careço do embasamento teórico-científico, não sou versado em linguística nem em teoria literária, como soi acontecer com os especialistas. Dessa forma, vejo-me exercendo essa atividade apenas de modo intuitivo, emulando minhas impressões mais como um colega de ofício e leitor apaixonado, que só escreve sobre os livros de que gosta, pois não tenho predisposição para a crítica iconoclasta, hepática e demolidora, porque entendo que um livro ruim não merece atenção e ele sucumbirá pelo próprio demérito no desgosto dos leitores ou mesmo da crítica. No máximo, quando percebo que a obra mereça qualquer amparo ou reparo crítico, se tenho alguma intimidade com o escritor, procuro abordá-lo e comentar pontos que parecem relevantes no sentido de dar toques, pistas ou oferecer sugestões ou indicar parâmetros (principalmente leituras) para qualificar melhor seu trabalho. Seria uma crítica pessoal e sincera, sem o espírito desmantelador que uma crítica pública desencadearia, pois entendo que ela poderia abortar uma carreira ou desestimular um escritor ainda em gestação.  Essa necessidade de expressar-me à margem das leituras ao longo da vida surgiu ainda na adolescência, quando comecei a escrever os primeiros textos para um jornal dominical de Cataguases, atividade que foi crescendo ao mudar-me para Brasília, quando tomei contato com a obra de críticos antigos e contemporâneos, cujo mergulho estético, filosófico, exegético, hermenêutico e ensaístico me despertou interesse, principalmente pela forma como incursionavam seus olhares nos diversos meandros de uma construção literária. Entre essas primícias, cito José Guilherme Merquior, Álvaro Lins, Antonio Olinto, Otto Maria Carpeaux, Alceu Amoroso Lima, Antonio Houaiss, Afrânio Coutinho, Antonio Candido, Wilson Martins, Aurélio Buarque de Holanda, Benedito Nunes, Luiz Costa Lima, Antonio Carlos Secchin, exemplos marcantes de críticos literários, independente de suas vinculações ideológicas, mas pela lucidez e coerência de suas postulações. Minhas primeiras opiniões sobre livros recaíram sobre autores do círculo literário de Brasília, quando comecei a publicar no Correio Braziliense, Jornal de Brasília, Revista Literatura, Jornal da ANE e DF Letras, depois ampliando minha participação em outros veículos regionais e nacionais, como o Opção e o Diário da Manhã (Goiânia), O Dia (Teresina), O Estado (Florianópolis), Correio das Artes (PB), Estado de Minas, Hoje em Dia e O Tempo (BH), Jornal da Tarde e O Estado de S. Paulo (SP), Jornal do Brasil e O Globo (RJ), Guia de Livros da Folha, Rascunho, dentre outros, além de incursionar por alguns blogs com frequência, atividade que se viu reduzida há alguns meses, por absoluta falta de tempo. Para mim é uma atividade esteticamente prazerosa, porque além de me proporcionar o contato com novos autores de diversas regiões do país, com inegáveis surpresas, ajuda-me a penetrar no insondável do processo criativo individual e na gênese de cada obra. Para mim, o resenhista tem o dever de ir fundo, ser sincero, fazer crítica não como caridade, não apenas homologatória, para agradar a quem quer que seja, mas com o dever de apontar no trabalho sua qualidade, sem ceder às paixões pessoais ou amizades, mas sempre com uma inflexão dialética, de modo que tenha uma ampla visão da obra e não da vida do autor, permitindo-lhe um percurso capaz de penetrar as filigranas e retirar os palimpsestos de uma arte que está sob seu olhar e bisturi, como se fosse um cirurgião a penetrar as vísceras de um corpo com suas engrenagens e fluxos, como considero ser um texto de ficção ou de poesia. Sempre tive em conta uma lição de Graciliano (que recolhi de uma entrevista sua de 1948) quando vou analisar um livro e tentar perceber se o autor andou nessas águas ou bebeu nessas fontes: “Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.”

Ronaldo Cagiano
Ronaldo Cagiano / Foto: arquivo pessoal

DA – Seguindo, então, com as palavras do Graciliano, como analisa o que é “dito” pelos novos autores? Escapando do saudosismo, percebe uma geração detentora de uma literatura inferior a de outros tempos, ou uma apenas distinta, que se comunica com outros meios e, por conseguinte, constitui uma tendência em evolução?

RONALDO CAGIANO – Em termos comparativos, é inegável a profusão de autores e obras atualmente em relação ao que se produzia antigamente, razão pela qual em meio a uma variedade de títulos, a prevalência de literatura ruim é também bem maior, na mesma proporção em que há bons autores em todos os gêneros. Esse fenômeno vem a reboque das facilidades para veiculação de material literário não apenas nos meios tradicionais (livros, revistas, jornais, suplementos), mas também nas plataformas e suportes eletrônicos. Estes, particularmente, exercem um papel preponderante na disseminação desse acervo de criação ficcional e poética que a cada minuto a internet disponibiliza, democratizando o acesso tanto de quem escreve quanto a quem lê.  Acredito que a literatura, como qualquer arte ou ofício, sofre suas metamorfoses, seguindo a ordem natural do próprio processo evolutivo, humano e social, como dos meios que os legitimam. Assim como o mundo mudou, a tecnologia e as facilidades da comunicação trouxeram inexoravelmente suas vantagens em todos os campos, assim também a escritura deu seus saltos (éticos, estéticos, dialéticos) e essa transformação se dá primordialmente pela linguagem, que considero a instância em que essas mudanças se operam e são assimiladas com mais vigor. O leitor e o escritor de hoje não são os mesmos dos tempos de Bilac, Alencar, Machado, Graciliano ou Rosa, nem por isso uma e outra geração se anulam. Antes, se comunicam de forma sinergética.  Hoje, outros são os influxos, referenciais estéticos e culturais. Outras também são as influências do meio, da cultura de massas, da dita civilização movida pela informatização, uma realidade permeabilizada por trocas intensas e profundas, não só internamente como com outras culturas e realidades, e tudo sob o império da velocidade e do rápido escalonamento de valores. A língua e a literatura caminharam nas águas dessa corrente, impregnando a dicção dos novos autores, os quais foram apreendendo novos cenários, realidades, emulações e influências não apenas físicas e geográficas, mas também psicológicas e históricas. Isso é tangível e aferido nos aspectos formais e temáticos de cada autor contemporâneo, cuja literatura é irrigada por novos sentimentos e sentidos, sem, contudo, perder o liame com o passado remoto ou mais recente da nossa história bibliográfica. O mundo e as pessoas que escreviam, liam e se comunicavam na era do telégrafo não são os mesmos que escrevem, leem e se comunicam on time e online, com outros recursos e possibilidades de expressão. E literatura é fruto desses novos tempos, autores e obras antenados com essa emergência inexorável.  Então, não se trata de mensurar ou menoscabar o que se produz hoje em relação aos cânones ou mestres do passado. O mundo que a obra de um autor moldura e modula hoje não é diferente daquele, porém as sensações e olhares diferem no modo de perceber e deslindar questões, conflitos, dramas e situações, sob a perspectiva de uma linguagem que é especular dessa contemporaneidade exigente e avassaladora, atualizando a dicção com que aquela geração distante – com os recursos e limitações da época – dispunha para falar e incursionar pelos universos e atmosferas distintos, o que torna defeso impor a pecha de anacronismo ou supremacia de uma época sobre a outra.

DA – Outro aspecto marcante de sua carreira são as parcerias. Em 2012, por exemplo, você lançou a novela “Moenda de silêncios”, em parceria com Whisner Fraga. Uma outra parceria de longa data é com a escritora Eltânia André, com quem é casado. Como funciona esse relacionamento, que é margeado pela literatura? Vocês compartilham ideias, sugestões e leituras? Há a influência de um no processo criativo do outro?

RONALDO CAGIANO – Foram experiências partilhadas com outros escritores numa interessante simbiose, um exercício de escrita colaborativa, de coautoria ou de obra a quatro mãos. E o primeiro convite surgiu no final dos anos 1990, quando o amigo e escritor alagoano (radicado em Brasília) Joilson Portocalvo, que na época realizava oficinas literárias no Presídio da Papuda, propôs o desafio para que escrevêssemos um livro juntos. Então, nasceu a novela juvenil “Espelho, espelho meu”, projeto encampado e publicado pela Editora Thesaurus, em que tratamos de temas ligados aos conflitos da adolescência, mapeando as tensões dentro de uma família de classe média com a abordagem de situações relacionadas ao relacionamento pais-filhos, ao sexo, à gravidez precoce, drogas etc, numa linguagem que postulasse uma discussão, sem caricaturas ou dissimulações, desses conflitos tão comuns na realidade familiar. Depois, outro convite do escritor Whisner Fraga, que culminou na novela juvenil “Moenda de silêncios” (contemplada com o prêmio de publicação do ProAC/Secretaria de Cultura do Estado de SP), que faz um percurso em outra vertente,  tratando dos encontros e desencantos, dos sonhos e frustrações de dois jovens do interior mineiro perdidos no cipoal de suas expectativas e nas engrenagens da cidade grande, para onde foram em busca de um futuro ou de um sentido para suas vidas, obra que recolheu um pouco dos vestígios de nossas experiências em Cataguases e Ituiutaba. E a mais recente incursão pela escrita conjunta é o romance “Diolindas”, escrito com Eltânia André, minha esposa, obra que estava hibernada há uns seis anos, porém sairá do anonimato em breve, quando será publicada pela Editora Penalux, história que mergulha na vida e revezes e litígios de uma família. Nesse particular, tem sido proveitosa, instigante e complementar à vida afetiva a relação literária do casal, não apenas gerando o fruto de um livro, mas em razão da peculiar e mútua cumplicidade, sintonia e empatia no campo da criação, pois dividimos e comunicamos nossos espaços, nosso modus operandi, idiossincrasias, inquietações e outros aspectos ligados ao ato de “escreviver”. E, não obstante as diferenças de estilo e linguagem, as motivações e interesses distintos, há um canal permanente, um fluxo intenso entre nossos processos e experiências passadas e recentes, tanto da própria escritura individual quanto relativamente ao histórico de leituras, de modo que um torna-se, naturalmente, leitor crítico do outro (e de si) e esse trânsito tem sido extremamente profícuo ao nosso amadurecimento como seres e como autores. De certa forma, a intensidade dessa participação ativa de um na vida do outro, nos afetos e na criação, tem contribuído para uma influência que valoriza e estimula o que vimos construindo.

DA – Uma notícia fantástica essa do novo livro! Contudo, essa não é a primeira parceria de vocês. Em seu recente romance, o formidável ‘Para fugir dos vivos’, Eltânia se apropria de experiências vividas para criar uma ficção particular, não?

RONALDO CAGIANO – Trata-se de um livro de ficção em que Eltânia  recolheu apenas alguns detalhes de nossas experiências pessoais, para esboçar o perfil dos personagens, no entanto a história é outra, não a que vivemos. Fomos criados na mesma rua e durante nossa infância compartilhamos amizade, histórias comuns e relações familiares. Nesse sentido a sua ficção se apropriou de características físicas, de pessoas e ambientes comuns à nossa convivência, para a construção de personagens híbridos, porém, nem a trama nem os protagonistas são recriação de episódios vividos ou acontecimentos presenciados, mas uma realidade inventada a partir de flashes ou flagrantes de realidades distintas, enfim, a autora, na minha ótica de primeiro leitor de seus textos, teve autonomia para juntar os cacos de experiências de terceiros e esboçar um outro painel puramente ficcional. Portanto, não houve, de minha parte, qualquer participação ou intromissão nesse processo criativo, apenas um ou outro detalhe sobre alguma circunstância histórica ou social que nos eram comuns e que pude aclarar.

DA – Agora o personagem real, o menino que se descobriu poeta em Cataguases e atuou, com afinco, em prol da literatura e da própria literatura, qual o saldo que faz da carreira? A literatura lhe proporcionou mais alegrias ou decepções? Atribuindo a você uma das frases mais emblemáticas do novo livro, conseguiu sair de Cataguases para não ficar menor que ela?

RONALDO CAGIANO – Num rápido encontro de contas, o saldo é positivo, no que eu considero literatura para mim não como profissão, mas empenho que se recicla a cada dia, como tentativa de me comunicar, expressar-me diante dos dilemas e inquietações pessoais e coletivos, de vencer o tempo para exorcizar fantasmas ou enganar a morte. E tentar compreender o nosso (des)lugar nesse mundo. Vivo para a literatura – para um ler e “escreviver” em constante renovação – e não da literatura, porque é impossível sobreviver material ou financeiramente tendo-a como atividade principal, sobretudo num país sem leitores, em que o escritor precisa da segurança, da estabilidade e do conforto de uma profissão para ordenar a vida prática, em que essa atividade tão estigmatizada sofre menoscabo e nos faz sentir que o escritor parece mover-se num grande camelódromo, tendo que ser mascate da própria obra. Então, nesse balanço, posso dizer que a literatura deu-me alegrias e encontros. A vida, o sistema e o convívio literários, incontáveis decepções e frustrações. Mas, como literatura não é agitação nem o falso verniz das flips e quejandos, dos holofotes e das re(l)ações oportunistas tão comuns a esse  meio viciado e viciante; nem a busca obsessiva e arrivista das vitrines e da figuração, o que me interessa é o texto e não o contexto, por isso não crio expectativas nem sofro. O que tiver de ser será, fruto da própria peneira do tempo, dos leitores e da crítica honesta. Tomo emprestado de Northrop Frye para amalgamar o que penso sobre o papel da escritura em minha vida: “A literatura continua sendo o único lugar onde se pode ser livre”, reconhecendo, ainda, outro papel fundamental, pois, segundo Borges, “A literatura é revanche de ordem mental contra o caos do mundo”.  E foi ela que me antecipou que existir era bem maior e sempre um movimento contínuo de transformações, permitindo-me sair do isolamento, do provincianismo, da mediocridade e da alienação parasitária que nos afetam na vida interiorana, para que não fiquemos menores que ela.

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

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111ª Leva - 05/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Micheliny Verunschk

 

LUMA FLORES
Arte: Luma Flôres

 

Um Klint

 

A cor falsificada,
a textura
imprecisa,
o nome esquecido
entre sinapses.

Talvez chame-se espelho
isto o que vejo.
Talvez chame-se afeto
isto o que quebro.

As cores,
ruivo,
laranja,
castanho,
branco azulado.

A palavra se perde,
mas era eu
em lâminas de ouro.

 

 
***

 

 
Naturezas-mortas

(a propósito de uma série de poemas de Robert Melançon)

A Jerusa Pires Ferreira

 

I

Emana da pele
vermelha
das maçãs
uma luz plácida
e persistente:
seis pequenas estrelas
dentro de um cesto de palha.
A cozinha
(por um instante)
suspende
seu movimento contínuo
e as maçãs reverberam
explosões mínimas
dos centros de si mesmas.

 

II

As frutas ciosas
dos seus açúcares
emudecem
sobre a mesa,
galáxia escura
de madeira velha.
Concentradas
nos próprios cristais
nas cisões e trocas moleculares
amadurecem
silenciosas.
Um pássaro depenado e triste
será a próxima refeição
e por um instante
nenhuma nobreza na morte.

 

III

Maçãs
pêssegos
laranjas.
A cabeça de São João Batista
num prato de porcelana.
Os olhos
pequenos frutos imóveis
condensados
no trabalho das cores.

 

 
***

 

 
Quadro

 

Ao centro da mesa
o pão
de sementes de girassol
compacto e luminoso
como a estrela
escondida no fermento
ou na palavra
orbita
denso
e leve
enquanto suas migalhas
faíscas
inventam novos mundos.

 

 
***

 

 
Balada

 

quando paquito guzman morreu, seu corpo estendido na mesa, a toalha de renda, a mulher chorosa, dez velas acesas, uma rosa entre os dedos, no bolso, um bilhete, na lapela, um lenço, dois dentes de ouro, um tigre no peito, el guapo chorou. um choro moído, um choro sentido, da boca, um soluço, da carne, um gemido. quando paquito guzman morreu, el guapo, uma gota de sangue no lábio mordido, el guapo, coitado, moço tão bonito, perdeu-se a si mesmo, a lua nos olhos, o norte esquecido.

***

 

 

Desenho

 

A axila nua
e o cheiro quase doce de suor.
Os gatos não sabem do medo,
só do desenho e simetria
dos seus pares.
Álacre,
o salto é resina
e o gato…………………um risco.

 

Micheliny Verunschk é autora de “Geografia Íntima do Deserto” (Landy 2003), “O Observador e o Nada” (Edições Bagaço, 2003), “A Cartografia da Noite” (Lumme Editor, 2010) e “b de bruxa” (Mariposa Cartonera, 2014). Foi finalista, em 2004, ao prêmio Portugal Telecom com o livro “Geografia Íntima do Deserto”. Publica em 2014 seu primeiro romance, “Nossa Teresa – vida e morte de uma santa suicida” (Editora Patuá, com patrocínio do Programa Petrobras Cultural), vencedor do Prêmio São Paulo de 2015. É doutora em Comunicação e Semiótica e mestre em Literatura e Crítica Literária, ambos pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

 

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111ª Leva - 05/2016 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Márcia Denser

 

LUMA FLORES
Arte: Luma Flôres

 

Os autógrafos de Paul Anka

(Das DesMemórias – capítulo 12)

 

Jamais imaginei que fosse contar este episódio, era um dos meus segredos mais secretos e bem guardados, a sete palmos no último cofre da vergonha: foi precisamente assim que a garotinha de 11 anos se sentiu a vida inteira em relação à coisa toda. Não foi legal. Na verdade, foi horrível. Hoje, por exemplo, ainda é difícil contar essa história com alguma dignidade. Porque antes teve o episódio dos gibis – não sei bem por que estou associando esses dois eventos – talvez por implicarem em mentiras deliberadas.

Melhor falar antes dos gibis: eu tinha oito anos e era uma devoradora selvagem de gibis – Pato Donald, Tio Patinhas, Pateta, Mickey, Luluzinha, Superman, Fantasma (era fissurada no Fantasma!), e como já expliquei também era filhadaputamente discriminada pelas colegas do colégio de freiras, minha vida era uma merda. Por mal dos pecados, Isaura se enturmara com a mãe delas e agora vivia marcando cabelereiros, dentistas, chás, compras na Clipper direto com as novas amigas.

Que traziam junto as filhinhas cretinas – as mesmas que me maltratavam na escola. E minha mãe: o que é isso, filha, que implicância! (eu simplesmente queria matá-la!) Significando doses extras de desaforos sub-reptícios que eu não precisaria engolir, não em casa, não à paisana, não mesmo: Yarinha, Julinha, Clarinha perto das mães era uns anjos: vamos, Marcinha, lá fora pular corda.

Sei.

Lá fora, me gelavam, fingiam que eu não existia, me davam as costas, deixavam de lado, no toco, de castigo da vida, sempre a mesma merda. Quando não insultavam a troco de nada: tenho-te nojo, garota, diziam: olha só a cara dela, parece débil mental, ha,ha,ha! Filhas da puta, eu trancava o choro, cerrava os dentes e os punhos, vermelha feito um pimentão: simplesmente queria matá-las!

Teréca não, essa se enturmava, porém com as pequenas – aí meio que não valia, tinha graça brincar com as nanicas? Humilhação em dose dupla (quando se é criança, dois anos e meio fazem uma tremenda diferença).

Certa vez, na casa de Dona Yolanda, mãe de Yarinha e Clarinha, duas das mais cretinas, esta me vendo jururu num canto, me levou até o sótão lotado de gibis: mergulhei feliz no meio deles. A tarde ia avançada quando percebi que não conseguiria ler todos, de forma que enfiei um monte sob o vestido, abotoando o casaco. Já anoitecia quando mamãe e a dona da casa vieram me buscar: íamos embora. Levantei, me ajeitando.

Você ainda está lendo? perguntaram, percebi que mamãe e D. Yolanda se entreolhavam, constrangidas: pode levar quantos quiser, meu bem, vejo que gosta de ler, disse esta. Encabulada (poxa, se soubesse que ia ganhar, não teria enfiado na roupa, ainda pensei), respondi que não, obrigada, Yolanda insistia: mas leve quantos quiser, encabulei mais ainda: não, não precisa, obrigado!

De repente, com um puxão, mamãe me arrastou até o banheiro e arrancou-me os gibis: e agora vá devolver e pedir desculpas já, tremendo vexame você me fez passar! Afinal, devia estar IMENSA com aquele volume sob o casaco, mas não percebera: auto-imagem aos oito anos? Bobagem.

Mas esta é uma história de rejeição: se estivesse na rua, brincando de pegador, não precisaria enfiar gibis na calcinha. A outra trata dos autógrafos de Paul Anka.

Três anos depois – eu já era quase uma mocinha – as coisas tinham melhorado um pouco para o meu lado no ginásio, eu fizera a primeira cirurgia plástica que corrigira o lábio, simetrizara o nariz. Já a cicatriz, esta enraizara na alma. E aí não havia plástica nem cirurgia que resolvesse: o mal estava feito.

Experimentava minha primeira paixonite pra valer: o cantor e compositor de rock balada de origem sírio-libanesa, o canadense Paul Anka – da mesma safra de Neil Sedaka e do rei Elvis Presley. Tinha todos os seus long-plays, sabia sua biografia, acompanhava a coluna do Louis Serrano na revista Cinelândia onde este relatava as peripécias do meu ídolo em Hollywood, seu namoro com a starlet Annette Funicello, aliás eu andava furiosa com o Louis: este previa que Anka seria um astro passageiro, não ia ficar.

(De fato, atualmente no Brasil ninguém mais se lembra de Paul Anka, eu mesma precisei entrar no Google pra conferir sua trajetória: por exemplo, no próximo sábado, 30 de janeiro de 2016, descubro pelo viagogo, que ele estará em Barcelona no Gran Teatre del Liceu, apresentando-se a seguir na Polônia, República Checa e Eslováquia, um  circuito bem of-of. Depois dumas 47 cirurgias plásticas, não lembra nem vagamente o rapazinho árabe das fotos dos LPs gravados em 1960 quando cantava Diana e My Heart Sings. Leio que fez carreira em Las Vegas na esteira de Elvis, sendo compositor de alguns sucessos como My Way de Frank Sinatra e She’s a Lady de Tom Jones).

Então Paul Anka veio ao Brasil indo se apresentar no Teatro Record. Não sei como tive a ideia, mas inventei (já era ficcionista naquela época) que minha prima e o namorado iriam me levar todas as noites para vê-lo, aí não sei qual das colegas da classe pediu: me traz um autógrafo? Como eu hesitei, as demais fizeram coro, me assediaram, caíram sobre mim: subitamente eu virara o centro das atenções!

Aquela tarde e todas as subsequentes – enquanto Anka estivesse por aqui – eu carregaria cerca de 30 a 40 livros de inglês no trajeto de ida e volta ao colégio – um peso considerável! – a serem autografados advinhem por quem? Eu, naturalmente, que garatujava algo assim “Of me for you, Paul Anka” (Eu queria dizer “De mim para você” e saiu isso, até porque não sabia nadica de inglês nem ia perguntar, right?).

Repetindo, estas são histórias de rejeição: uma delas foi descoberta, pois a ladrazinha era demasiado estúpida. A outra não – mas pela estupidez alheia! Até porque as pessoas odeiam admitir que foram feitas de idiotas. Histórias que não acabam bem, não acabam nunca: são a crônica duma cicatriz.

 

A escritora paulistana Márcia Denser publicou, entre outros, Tango fantasma (1977), O animal dos motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), A ponte das estrelas (Best-Seller, 1990), Caim (Record, 2006), Toda prosa II – obra escolhida (Record, 2008). É traduzida em nove países e em dez línguas. Dois de seus contos – “O vampiro da Alameda Casabranca” e “Hell’s Angel“ – foram incluídos nos Cem melhores contos brasileiros do século, organizado por Ítalo Moriconi, sendo que “Hell’s Angel“ está também entre os Cem melhores contos eróticos universais. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, é pesquisadora de literatura e jornalista. Foi curadora de literatura da Biblioteca Sérgio Milliet em São Paulo.

 

 

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111ª Leva - 05/2016 Destaques Olhares

Olhares

Uma tênue linha entre dois mundos

Por Fabrício Brandão

Luma Flores
Arte: Luma Flôres

Se nos fosse dada a possibilidade, será que cada um de nós realmente saberia responder qual mundo carrega dentro de si? Antes de arriscarmos algo, percebamos as vias paralelas que podem fluir na epifania particular de duas imediatas dimensões: interna e externa. A interna, portanto intimista, é o indivíduo em si, suas convicções, nuances e filtros. A externa, por sua vez, é o gigantesco mosaico de cenários dispersos no lado exposto da vida, suas complexidades, seu turbilhão.

Há paralelismos plausíveis nas duas dimensões abordadas, mas ocorre também certa dinâmica de oposições na medida em que as percepções individuais atravessam modos difusos de conceber as coisas. O externo seria apenas uma paisagem estática a se contemplar não fossem os arremessos que cada pessoa é capaz de promover.

Experimentar o mundo que cresce ante nossos olhos é saber que nem todos o veem da mesma forma. Isso é benéfico por sugerir que a não uniformidade de visões e pensamentos acaba sendo uma característica valiosa. Então, como poderíamos pensar num outro lado das possibilidades se tudo fosse baseado num imutável consenso?

LUMA FLORES
Arte: Luma Flôres

Já que o mundo externo, por natureza, é um colosso de imagens, é de se imaginar quantas surpresas podem estar abrigadas no universo particular de cada pessoa que por ele transita. No caso da artista plástica Luma Flôres, a proporção especial de um mundo íntimo serve de exemplo para tanto entendermos o que passa nos seus domínios, como também aquilo que permeia a relação com o exterior.

Luma contrapõe as duas dimensões de mundo sobre as quais trataram as linhas introdutórias deste texto. Seus desenhos nos dão notícias de territórios marcados tanto pelo real quanto pelo imaginado. Notadamente, são duas vigorosas formas de se lidar simultaneamente com a superfície e a profundidade daquilo que se pretende observar.

Importa dizer que é a porção intimista e subjetiva do olhar da artista quem estabelece uma conexão com o mundo em que vivemos. Assim, surgem camadas de experimentação para cada ser ou lugar apresentado. Passando por aquarelas, gravuras e também colagens, Luma mostra-nos perspectivas da existência marcadas pela fragmentação de sentimentos humanos. Revelando um gestual poético, tanto existe a face contemplativa, sensível e delicada quanto a porção que indaga inquietamente sobre os destinos humanos.

LUMA FLORES
Arte: Luma Flôres

Nascida em Vitória da Conquista, na Bahia, Luma Flôres cursa Design na Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia, em Salvador. Em duas oportunidades, nos anos de 2014 e 2015, seus trabalhos foram premiados pela Escola de Belas Artes da UFBA. Além disso, participou de várias exposições em espaços da capital baiana, bem como levou sua arte para cidades como Juazeiro, Vitória da Conquista e Rio de Janeiro.

À medida que penetramos nas dimensões propostas por Luma, compreendemos que algo transcende o mundo físico no qual habitamos.  Miramos o fundo de um imenso espelho e lá encontramos algumas pistas do que somos. O reflexo disso é, para além do reconhecimento, um estranhamento de tudo aquilo que nos tornamos enquanto seres imperfeitos. No espaço intermediário entre os mundos concreto e abstrato, transitam delicadezas, hesitações, poucas certezas, sentimentos sublimes, efusões, tristezas e alguma controvertida verdade pessoal, esta última uma personagem que, ao que parece, jamais conseguirá ser absoluta.

LUMA FLORES
Arte: Luma Flôres

*Os desenhos de Luma Flôres fazem parte da galeria e dos textos da 111ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.   

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111ª Leva - 05/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Wesley Peres

 

LUMA FLORES
Arte: Luma Flôres

 

Segredos para dormir:
ouvi um cão orando para as águas;
meditei chamas para entender o rio;
respirei águas e me parti em dois;
de fora desses dois em que me parti, flutua a coisa que sou.
Também foi ela quem me aconselhou a sonhar em terceira
pessoa.
 

 

 

***

 

 

 
Um grito ou um cisco metafísico:
nítidos lábios se pronunciam.
Úmido o olhar de quem venta,
e a carne de quem olha para dentro,
imensa de almas perdidas.
Se tenho boca, é para vesti-la,
se tenho águas, é para falar-me.

 

 

 

***

 

 

 

Quase espuma

 

Breve, poderosa matéria,
metáfora inconsútil de toda
e qualquer coisa
até o não.

Sua carne é o nada, sabe-se,
assim como de ossos d’água é
a musculatura invisível de suas cores.

O vento não a destrói não a sustenta
nem a habita, apesar de que habita
o dentro e o fora dela, pulsando
o imóvel de suas circunferências.

Limítrofe, essa mais efémera coisa eterna,
pois o que é, é da exata nervura
do tempo que a sua esfera encerra.

 

 

 

***

 

 

Não sou eu aquela máquina — sétima meditação

(sobre a Crueldade Impessoal)

 

 

VOZ 1

De uma fogueira, à beira, tenho nas mãos um papel em branco — e o meu corpo. Vim para onde estou, só. Cansado de verdades. Uma certeza que seja, será pedir muito, Caro-Bom-Deus-Maligno? Uma mísera certeza, é só o que se pede.

VOZ 2

Me deleito em me perder. Me identifico com o que rápido desaparece, as nuvens e o que de negro relampeja no olhar de quem amo. A equação do corpo é um olhar, e um olhar é também a celebração da morte. Deus, Bom ou Maligno, alavancou as engrenagens do mundo e desapareceu, foi cuidar da vida Dele, se é que a palavra vida é aplicável ao Deus.

VOZ 1

Se é que a palavra vida é aplicável ao Deus, há de haver um sol, uma sintaxe dos afetos, chuvas desenhadas pelo som de um sonho nada sonoro, pura forma. Não há lugar na República para a palavra cariada, para o silêncio que não siga o regime dos esquadros. O mundo maquinal, Deus deu o impulso, e se inclui fora dele, do mundo, Deus foi cuidar de sua vida.

VOZ 2

Deus foi cuidar de sua morte, e não o perdoamos por isso. Sonho com o dia que o pensamento terá a curvatura de um vaso chinês quebrado. Faço possível para ver, serei despedaçado em corpo, como agora já o sou ainda que discretamente. O corpo não fala, os átomos do corpo sangram.

VOZ 1

O corpo sangra, como sangra o cérebro de um homem enquanto sonha. O Deus maligno enfeitiça os triângulos e as equações, a certeza e a objetividade só sobrou aos mortos. É preciso morrer, assim: anular o corpo, matá-lo escrevendo-o em fórmulas exatas. É preciso duvidar — sobretudo do que na palavra é pássaro.

 

VOZ 2

Sobretudo o que na palavra é pássaro. “Pensar é estar doente dos olhos” e dos nervos, é infectar o nervo, escavar a nódoa da angústia. A angústia é branca e legítima. Só um homem doente não é angústia a todo instante — um corpo que pensa.

VOZ 1

Não sou eu aquela máquina, digo: esta. Estaquelamáquina, essa coisa externa à coisa-eu que pensa porque não sabe ser outra coisa. Estaquelamáquina: de origem, livre da desinfecção dos relógios. Os relógios salvaram o mundo da repetição. Os relógios orderam os ciclos em tal enlace que retificou o tempo, tornou-o uma seta. A máquina-mundo, eu não sou aquela máquina, não as suas engrenagens. Sou, sim, como a estrutura eólica, o movimento lógico, não-analógico, o alinhave numérico, a configuração por detrás do que você come e voa com os olhos, nada é igual ao que você vê.

 

VOZ 2

Nada é igual ao que eu vejo, o mundo é o cheiro azul-azedo-áspero-e-rouco do vento se destroncando nossa pele pulsando soltando o invisível pó, que é o que de cada humano resta no mundo, pois é isso que resta, e não qualquer número ou lógica que por acaso tenha obturado, escondido os rasgos da tapera que somos enquanto somos.

Enquanto isso, dois tumores (cada um instalado no corpo de cada

uma das vozes) iniciam os trabalhos, nem lógico, nem ilógico,
…………………………………………………………….apenas iniciam seus trabalhos alheio

 

Wesley Peres, autor de ROMANCE: As Pequenas Mortes (Rocco, 2013), Casa entre Vértebras (Record, 2007), finalista do Prêmio São Paulo 2008, vencedor do Prêmio Sesc de Melhor Romance 2006 e indicado ao Portugal Telecom 2008. POESIA: Palimpsestos (Editora da UFG 2007); Rio Revoando (USP/Com-Arte 2003), Água Anônima (AGEPEL, 2002).É também psicanalista, Doutor em Psicologia Clínica e Cultura pela Universidade de Brasilia (UnB); Mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Mora, atualmente, em Catalão-GO.