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152ª Leva - 02/2023 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Rodolfo Guimarães Neves

 

Foto: Magali Abreu

 

O DIA DO SACI

 

Mais um 31 de outubro havia chegado. Dias antes, na reunião de condomínio, os moradores do edifício Porto do Sol, à beira-mar de Boa Viagem, haviam decidido em maioria, por mais um ano, comemorar o Halloween, o famigerado Dia das Bruxas. Não sem antes ouvirem o costumeiro e veemente protesto de Patrícia, que insistira que a festa deveria ser em homenagem ao Saci, conhecida figura do folclore pátrio. Voto vencido, por mais um ano.

— Pois que encham este prédio com essas abóboras ridículas. O verdadeiro homenageado do dia é o nosso querido Saci!

Filha do falecido Major Vital, do glorioso Exército Brasileiro, Patrícia havia aprendido com o pai o amor à pátria e a valorização da cultura nacional. Contudo, dividia o andar com Cláudia, que considerava uma dondoca americanófila imbecilizada, entusiasta da festa estrangeira. Detestavam-se há anos, sobretudo nessas ocasiões. Aliás, o Quatro de Julho era outra data insuportável para Patrícia.

Pois muito bem, o Dia das Bruxas, digo, do Saci, havia chegado e as crianças perambulavam fantasiadas de andar em andar, pedindo doces ou ameaçando com travessuras.

A primeira leva de crianças do condomínio apareceu no andar do conflito “americano-brasileiro” e tocaram a campainha das duas portas opostas do hall. Ambas as adversárias ideológicas as abriram ao mesmo tempo e, de relance, encaram-se, para logo desviarem os olhares para as crianças.

— Doces ou travessuras! — gritaram em uníssono, estendendo sacolas.

A patriota, com uma grande sacola cheia de bonecos de sacis de pelúcia, distribuía os brinquedos, sempre lembrando: “hoje também é o dia dele, garotada.”

Cláudia, fantasiada de bruxa e com enfeite de uma assustadora abóbora na porta, distribuía doces dos mais variados à criançada. Não tardou para que estas corressem ao elevador. Cláudia não pôde deixar de censurar Patrícia:

— Você vai ficar dando esses bonecos ridículos a noite toda, vizinha?

— E você é bruxa de verdade para andar com essa roupa patética, querida? — retrucou Patrícia.

Fecharam as portas ao mesmo tempo.

E foi assim por toda aquela assombrada noite, as crianças ganhavam bonecos e doces e as duas trocavam ofensas das mais estapafúrdias.

— Você é uma alienada!

— Você não sabe brincar. São crianças, sua metida!

E por aí foi.

— Não sei como seu marido tolera você vestida assim na sua idade!

— E você só se manteve solteira por causa da pensão militar deixada por seu pai! Ou então porque é sem graça mesmo e nenhum homem a quer!

Essa tinha sido demais, mexeu com os brios de nossa patriota. Bateram as portas.

E passou aquele dia para o sossego de Patrícia. Rancorosa, guardou as palavras da vizinha como ofensa pessoal e à cultura nacional.

Passou-se um ano, nova reunião de condomínio, nova derrota de Patrícia, que, além disso, pelas normas estabelecidas para a ocasião, deveria dar apenas doces, em vez de bonecos de saci. Inclusive, foi uma insistente proposta de sua rival.

Porém, Cláudia não sabia com quem estava mexendo. Patrícia era filha de militar e, pior, realmente versada nos mistérios das ciências ocultas, cujos segredos, ecleticamente abrangendo desde a Wicca a magias de matrizes de diversas regiões do mundo, foram-lhe ensinados por sua mãe, que a iniciou numa secreta instituição mística feminina, durante a faculdade.

As crianças começaram a perambular nos andares de baixo. Até chegarem ao nono, onde moravam, Patrícia iria praticar sua travessura com aquela alienada fútil!

Primeiramente, dirigiu-se para a grande fotografia de pintura a óleo de seu pai, em trajes de major. “Não neste ano, pai.” Era bicentenário da independência do Brasil. E prestou sua reverência numa continência com semblante respeitoso e resoluto. Logo após, correu para um cômodo específico do seu apartamento, com um altar, um espelho e um monte de objetos cerimoniais misteriosos. “Mal-amada nunca, americana de araque”, pensou.

Numa cerimônia um tanto macabra, despejou um óleo perfumado, pétalas de rosas e outros ingredientes num caldeirão. Após isso, canalizou seu rancor a uma boneca de pano, em cuja perna esquerda enxertou um graveto para, em seguida, sussurrando: “quebra”, parti-lo em dois, ao tempo que se ouvia um estridente grito vindo do apartamento do outro lado do hall. Um malicioso sorriso de satisfação esboçou-se em sua bela face.

As crianças alcançaram o nono andar. As campainhas tocaram.

— Doces ou travessuras!

Patrícia, toda fantasiada de bruxinha, com direito a chapéu pontiagudo e estampa de luas e estrelas em seu vestido negro, abriu a porta com o sorriso de alegria.

— Aqui, meninos, muitos doces!

— Obrigado, tia!

Os pequenos voltaram-se para o apartamento de Cláudia e tocaram a campainha de novo, com ansiedade.

— Já vai!

Quem abriu a porta, no entanto, foi o marido de Cláudia. Esta veio mancando por trás e se apoiou nos ombros do marido. Sua perna direita estava quebrada. Escorregara durante o banho.

— Dessa vez não temos doces, minha esposa se machucou, estamos indo ao médico.

— Sem doces? —  Um garoto com máscara de Freddy Krueger, valendo-se do anonimato, foi audaz:

— Que quebre as duas pernas, velha manca e mocoronga!

E todos os meninos correram rapidamente pela escada de incêndio abaixo, aos risos.

— Essa juventude… não sei onde vamos parar… —   disse o marido da Cláudia, amparando-a no seu mancar em direção ao elevador —   a propósito, vizinha, você está linda de bruxinha.

Cláudia fuzilou os dois com os olhos. Não queria acreditar no atrevimento de seu marido e sequer imaginar qualquer coisa além de um inocente elogio.

— Obrigado, querido — disse Patrícia com sorriso nos olhos e uma piscadela — e feliz Dia do Saci para vocês! — finalizou retirando um involuntário sorriso do marido de Cláudia. Esta lhe deu um leve tapa na nuca, indicando com os olhos o elevador. Foram-se. Patrícia estava radiante, correu à sala e bateu nova continência diante da fotografia de seu saudoso pai. Missão cumprida! Doce travessura!

E nunca mais nossa bela e querida patriota foi impedida exaltar a cultura nacional no condomínio, ainda que fosse a entregar os já afamados sacis de pelúcia, seja no detestável Halloween, seja nas ocasiões de comemoração do nosso folclore. Pois bruxa que é bruxa de verdade encanta, não apenas nas vestes, como também enfeitiça em sigilo… em qualquer dia do ano.

 

Rodolfo Guimarães Neves. Nascido em 01/11/1979, em Olinda, Pernambuco. Teve poemas e contos selecionados em diversas antologias. Seu conto “O Mal Iluminado” compõe a antologia de contos “23 Formas de Morrer”, da Editora Amélie. É autor da ficção científica “A Dinâmica Orgânica”, da Editora Paradoxo, e roteirista da HQ homônima, nela baseada, juntamente com o quadrinista Pedro Ponzo. É também autor da antologia de contos e poemas intitulada “Eles, Outros Contos e Poemas” e da peça teatral “Ressentimento”, estas últimas da editora IGP. Foi selecionado no concurso de contos “KosmoKontos” da Editora Ventura com seu conto “A Invocação” (2022). Por fim, é autor do frevo de bloco “Cidades Irmãs” e do frevo canção “Aurora das Festa”, cujos arranjos foram elaborados pelo Maestro Parrô Mello e encontram-se devidamente registrados na Biblioteca Nacional.  

 

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152ª Leva - 02/2023 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Aline Aimée

 

Foto: Magali Abreu

 

gira

 

entender que a função
do giro
é a propulsão ocasional
para fora da órbita

…………..mas também

aprender a me mover
fora da febre
das apostas

dentre aquilo que gira:
mais que roleta,
ser engrenagem

mais que engrenagem,
……………..ser móbile

 

 

 

***

 

 

 

não sei dar forma ao cristal

 

minhas mãos cansadas
acompanham mais
o ritmo frágil
quebrável
dos grafites,
a intimidade
do borrão

decerto minhas prendas
te parecerão precárias
perdidas em folhas vadias
……….,…que aspiram à aderência de tuas costelas
……….,…que aceitam a destruição
……………………………………………………….no calor úmido
……………………………………………………….de tuas palmas

………….que admitem inaugurar funções:
marcar as páginas
dos teus segredos
(confissões expiradas
em dobras-cicatrizes)

manejo grafites para que
ao te furtar um instante
…… a suspensão de um ou dois
…… pensamentos
…….(talvez a sorte de uma lembrança)
meus rabiscos se percam
na paisagem do teu caos
expondo-se ao risco
de um resgate:
………………………………uma nota apressada
………………………………um abano
…………………………….. um corte no dedão

………..o mistério de uma mancha indecifrável

[uma virada de tempo
uma mudança de estação]

preferíveis à dignidade imóvel
do totem sempre à vista
na prateleira alta
…………….translúcido de costume
…………….empoeirado de apostasia

 

 

 

***

 

 

 

devora-me

 

sustentar os ouvidos aos uivos
deixar-me emudecer pelos enigmas

parasitar o labirinto das entranhas
que me devoram

ofertar os braços aos ecos
que me cravam as unhas em atrasos:
aprender a costurar a sombra
em lugar de cinzas

 

 

 

***

 

 

 

um sopro para Emily Brontë

 

o céu é pouco
e a relva é rara

a noite se fantasia
entre ruídos mecânicos
e luzes frias

resoluções se iluminam
na escalada
……..de degraus
………..e de aparelhos aeróbicos
onde murmuram
joelhos e manivelas

sei que palavras imortais
enchiam os sussurros dos teus sonhos

mas se quero interceptar
a síntese dos tempos
preciso filtrar
ladainhas elétricas
que não me resfriam
a pele
e que só me arrepiam
por estática

preciso lembrar que por trás
dos pixels
também se sangra

 

 

 

***

 

 

 

legente

 

sei que tardo
que insisto
em fazer morada
no fundo
onde espáduas tantas
deslocam-se
inermes à minha leitura:

curvaturas apontando
as variações
dos sonhos

 

 

***

 

 

 

exercícios de pouso

 

baixar num canto
à sombra
minha bagagem
deixar que o vento
devasse
os umbrais
que restos repousem
no encontro
cada qual
com seu anteparo

deixar no abraço escuro
da crisálida
delicadamente
os nós que me
sustentam

desatar
membros frescos
para novos
movimentos

 

Aline Aimée é carioca, servidora pública e mestre em Literatura Brasileira pela Uerj. Publica poemas e fala de livros no Instagram e no Youtube, é mediadora em clubes de leitura. Tem textos publicados em sites e revistas literários, é autora de “Doze pétalas, nenhuma flor” (edição independente) e “Uma reserva de sutilezas” (Editora Patuá), participou das coletâneas “Leia Mulheres – contos e Prêmio Off Flip 2021”. “Exercícios de pouso” (Editora Patuá) é seu livro mais recente.

 

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152ª Leva - 02/2023 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Mato seco em chamas. Brasil. 2022.

 

 

Lançado em 2022 no Festival de cinema de Berlim, sendo aclamado em outros festivais internacionais, como o “Cinema du Réel”, em Paris, ou o Festival do Rio (2022), a última obra da dupla Adirley Queirós e da portuguesa Joana Pimenta só foi lançado em cinemas comerciais no Brasil neste ano de 2023. Para falar desta obra insólita, no entanto, é preciso retornar à obra anterior da dupla, Era uma vez Brasília, de 2017.

Em Era uma vez Brasília, o agente intergaláctico WA4, após fazer um loteamento ilegal em seu planeta de origem, chamado de Sol Nascente, é preso e para ser perdoado deste crime e receber uma moradia para ele e sua família, recebe a missão de viajar no tempo e no espaço e matar o presidente Juscelino Kubitschek no Brasil.  No entanto, devido a problemas em sua nave precária, WA4 cai em Brasília em 2016, precisamente no momento histórico em que ocorre o processo de impeachment da Presidente Dilma Roussef. Sua história é contada por Marquim da Tropa a Andréia Vieira, a Rainha das Kebradas, que será a responsável pela rebelião para expulsar os monstros que tomaram conta da sede do governo brasileiro.

Assim, nesse filme de 2017, o estilo da ficção científica fornece uma alegoria cinematográfica para confrontar o retrocesso representado pelo impedimento da Presidente deposta: só através do desaparecimento da capital brasileira seria possível salvar o Brasil. Contra o projeto golpista da “Ponte para o Futuro” (expressamente citado no filme), Adirley e Joana apresentam a viagem no tempo para o passado e a temática do “paradoxo do avô”, temas clássicos dessa abordagem narrativa. O filme também recupera o personagem viajante e cadeirante Marquim da Tropa, do filme anterior de 2014 (apenas de Adirley) Branco Sai, Preto fica, assim como a temática das viagens no tempo através de naves precárias (neste último filme representada por um container). Por sua vez, o personagem de Andréia Vieira estará presente em Mato seco em chamas, de 2022. Assim, os três filmes de Adirley, os dois últimos com Joana Pimenta, estão conectados, menos como uma saga ou uma série, mas como uma passagem cinematográfica de bastão. Cada filme recupera do anterior um gancho, uma peça do argumento, que serve como um “fio” para sustentar o roteiro minimalista da obra seguinte.

Em Mato seco em chamas, três ex-presidiárias, Léa (vivida por Léa Alves da Silva), sua irmã Chitara (vivida por Joana D’Arc Furtado) e Andréia Vieira (ela mesma), acham petróleo num oleoduto que passa no subsolo de seu terreno de moradia (de Chitara) e montam uma refinaria “caseira” para extrair o combustível e vendê-lo a um preço barato aos motoboys da favela Sol Nascente em Ceilândia. Elas se tornam então famosamente as “gasolineiras”. Ao mesmo tempo, Andréia começa a campanha para se eleger deputada pelo PPP – Partido do Povo Preso. O negócio das meninas é visto com preocupação pelas forças da lei, da ordem e do mercado, e as amigas precisam montar guarda na refinaria, que está ameaçada por uma espécie de caveirão, um blindado com agentes fiéis ao lema Deus, Família e Pátria. O enredo se desenrola entre as eleições de 2018 até o momento da posse do ex-presidente Jair Bolsonaro, em janeiro de 2019.

 

Mato seco em chamas / Foto: divulgação

 

Há, portanto, pontos de contato, como “encaixes” narrativos entre os três filmes, mas o que de fato os liga definitivamente é o “estilo” cinematográfico de Adirley e Joana. Os diretores são conhecidos por construir cenários e roteiros de “ficção científica periférica”, ou ficção científica precária. De fato, o autor brasiliense, com sua produtora 5 do Norte, assim como seus colegas de Contagem (MG), da produtora Filmes de Plástico, já bastante comentados nesta revista, são cineastas da periferia, ou como disse um crítico, do “ponto de vista da laje”. Esses autores não fazem filme sobre a periferia, mas da periferia. É a perspectiva (ou a objetiva) da própria periferia que está em ação. Seus filmes comungam do registro não só da realidade como da fantasia das comunidades periféricas.  Assim, em Marte Um, de Gabriel Martins, um menino da periferia de Contagem, que já é periferia de Belo Horizonte, sonha em estudar astrofísica e viajar para Marte. Este sonho recupera um ideal tecnológico como utopia da periferia, num momento em que justamente os horizontes utópicos se rebaixaram. As amigas Léa, Chitara e Andréia, que montam uma refinaria e extraem petróleo com seus próprios meios e braços, já produzem sua própria utopia, e sonham a partir daí com uma vida melhor, transformada.

Comum também a todos esses filmes é a indeterminação entre realidade e fantasia. A fronteira ficcional nunca está completamente clara, sobretudo em Mato seco. As moças que são, na ficção, ex-presidiárias, também o são na “vida real”. Léa também se chama Léa e Andréia, Andréia. Chitara era o apelido de capoeira de Joana Furtado. Léa e Chitara são efetivamente irmãs. Numa das cenas do filme elas conversam sobre seu pai. Este é ao mesmo tempo um registro documental e ficcional, pois está inserido dentro da trama, das moças que conversam enquanto montam guarda na refinaria fictícia (que, no entanto, é um cenário dramatúrgico efetivamente construído para a realização do filme e que permaneceu na comunidade durante alguns meses). Por outro lado, a própria atriz Léa torna a ser presa durante as filmagens. Essa prisão é incluída igualmente na montagem final. E finalmente, há as cenas referentes ao contexto histórico. Distante alguns quilômetros da refinaria, Jair Bolsonaro toma posse. O filme inclui as cenas, feitas pela própria equipe produtora, do dia da posse presidencial, quando a Praça dos Três Poderes é tomada pelo público “verde-amarelo” apoiador do ex-presidente. A história ficcional se passa paralelamente à História oficial. Os mesmos fogos de artifício que iluminam a sede de governo também iluminam a laje da refinaria.

No entanto, este paralelismo gera no filme de Adirley e Joana um estranhamento cognitivo: o tempo da ficção se ramifica e se dobra em torno de si mesmo gerando efeitos não-lineares. A montagem cinematográfica privilegia não uma narrativa de temporalidade linear, mas se desenvolve em torno de eventos singulares, cuja localização temporal é indefinida. Léa, que é presa numa cena e encaminhada ao presídio feminino, reaparece depois livre conversando com seu irmão motoqueiro. Não sabemos se esta conversa acontece antes ou depois da prisão. Ele, o irmão, mostra a Léa a comunidade transformada e eles passeiam pela construção do que será, futuramente, um enorme presídio federal bem no meio da comunidade. Sol Nascente, recentemente recenseada como a maior favela brasileira, é transposta então para um tempo feérico. O estilo de ficção científica periférica, pela qual o diretor Adirley é conhecido, se torna fantástico, como um Mad Max brasileiro ou, ainda melhor, como um novo Bacurau.

 

Mato seco em chamas / Foto: divulgação

 

No entanto, a ficção científica de Mato seco é mais um “mcguffin” do filme. Ela permite embaralhar fato e ficção, o real e a fantasia. Como disse Adirley numa entrevista, para falar de futuro é só ligar uma câmera na periferia. Há neste filme, como nos anteriores, uma “estética da sucata”. Assim como as naves construídas em containers ou em kombis, agora é toda a refinaria que é construída de forma “artesanal”, com os materiais disponíveis. A fábrica de petróleo é movimentada inteiramente por braços femininos, que recuperam para o contemporâneo toda uma nova dignidade para o trabalho físico e manual. A sonoplastia do filme é um elemento fundamental dessa estética. O som incessante das máquinas funcionando ressoa como elemento acústico de atrito e de intervenção de um real material, obrigando a que o próprio contexto histórico (que acentua o trabalho imaterial) pareça fantasioso.

Essa fantasia não serve para borrar a fronteira entre fato e ficção, mas para figurar outra temporalidade que transcorre cortando a realidade histórica dominante. O filme de Adirley e da portuguesa Joana Pimenta (com fotografia e cenografia primorosas) tem a linguagem do corte ríspido (na edição incrível de Cristina Amaral) e do choque estético que contrapõe nossas noções de classe (como na cena do churrasco na refinaria, quando sentimos aflição com as moças comendo com as mãos cheias de graxa). A cena em que a quarta parede cai é uma intrusão diegética súbita do real na ficção. Se os espectadores ficam “chocados” com as personagens fumando ao lado de tanques de petróleo, era essa mesma a intenção dos diretores. Esse choque estético tem um elemento de real que se contrapõe à cena esdrúxula da posse do ex-presidente. Seus apoiadores, em seu culto desvairadamente kitsch, parecem mais irreais do que as personagens ficcionais.

É incrível que filmes como Marte Um e Mato Seco sejam precisamente obras que abordam os modos como a periferia teve que se “virar” no período bolsonarista. Ambas as obras se passam exatamente no mesmo período histórico, quando as periferias brasileiras se defrontaram com o fato da extrema-direita chegar ao Poder. É, no entanto, uma estética sobre a pluralidade dos mundos: cada periferia é um mundo autônomo não só do ponto de vista da realidade, bem como de seu imaginário. No filme de Adirley e Joana estão justapostos na noite seca de Brasília o Poder e a Periferia. A estética da sucata funciona como um modo próprio (ou impróprio) de se trabalhar materiais e signos em reciclagem e para construir outro mundo autônomo em coexistência. Esta obra tem base numa filosofia da gambiarra, numa gambiologia. Isso significa não apenas um elogio ao precário, ou mesmo ao precariado, mas antes a uma ideia de que a obra de arte não é um produto acabado, mas que funciona com “ganchos” ou “puxadinhos” semióticos, com ligações com outras esferas de reprodução da vida, como a economia ou a política, ou ainda com a própria estética. E finalmente entre realidade e imaginário. A estética ficcional “gambiarrada” do filme não é afinal a da tradicional montagem cinematográfica, mas sim a de uma DESMONTAGEM poética do padrão global, hegemônico, da verossimilhança dos paradigmas narrativos dominantes e sobretudo das falácias da ideologia de extrema-direita, com suas conspirações, mentiras e violência.

 

 

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor, doutor em Teoria Literária pela UERJ (2020). É autor de Capoeiragem (7Letras, 2013) e Extrema Lírica (Oito e Meio, 2014). É organizador do Clube da Leitura, coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro, atuante desde 2007 e foi editor das quatro coletâneas do Coletivo. É autor do blog Fabulação Especulativa e seus trabalhos acadêmicos podem ser visitados aqui.

 

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152ª Leva - 02/2023 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Adriano Espíndola Santos

 

Foto: Magali Abreu

 

Um dia depois

 

Um dia depois da derrota do bozo saí à rua com a pretensão de passar despercebido. Cláudia me pediu prudência e cuidado. Eu estava pouco me fodendo com o que os bolsonaristas iriam pensar. Para mim, o caso estava superado; sem mais brigas e discussões daí para frente. E, além de tudo, estava com uma ressaca filha da puta, que me revirava os miolos a cada passo. Eu deveria estar no escritório às 10h, pelo menos. Recebi mil mensagens de felicitações, por nosso novo presidente, mas uma em particular me afetou: “Petista vagabundo, está morto”. Claro, o número era confidencial. Pensei em fazer um B.O. na delegacia, mas percebi que não adiantaria muito, não iria “dar em nada”, como ouvi algumas vezes. Cheguei ao escritório, e uma amiga olhou para mim sorrindo, leve e feliz, sem esboçar qualquer palavra; ela é do meu time. Os outros colegas são, em sua maioria, “em cima do muro”, ou seja, bolsonaristas enrustidos. O ambiente estava tenso. Um colega passou na minha mesa e me deu os parabéns, com um ar zombeteiro, querendo puxar conversa: “Eu sabia que Lula ia ganhar, rapaz… Com ele no jogo, não tem para ninguém… Aliás, agora, não tem para ninguém mesmo!”, insinuando que Lula havia roubado e que estaríamos numa ditadura – fiz essa interpretação porque sei com quem estava falando. Suspeitei dele, sobre a maldita mensagem. Ele é do tipo rasteiro, sujo, capaz de passar a perna até mesmo no Honório, um antigo colega de trabalho, que saiu por implicância do dito cujo, o baba-ovo do dono. Stélio, o chefão, não poderia ser, apesar de não disfarçar a raiva e a apreensão. Entrou na nossa sala aturdido, dizendo que teríamos de resolver as nossas pendências “para ontem”, porque “o ano não estava para brincadeira”. Decerto, contava com o estado comunista; que nos tornaríamos, logo, logo, uma Venezuela, coisa do tipo. Mirei-o com um olhar sereno, para transmitir tranquilidade e estabilidade. Soube que ele, no mesmo dia, havia feito o desligamento de duas empresas de mídia, porque havia o risco de uma guerra civil no Brasil, iminente. Apesar das nossas profundas diferenças, ele me tratava bem por ser o seu braço direito na formulação das peças jurídicas, sempre intrincadas por sua mente caótica; e eu, logo eu, era responsável por desatar o nó. O novo colaborador, Jackson, mal olhava para os lados. Era meu imediato. Cumpria tudo a rigor, sem precisar de carões e afins. Nesse dia, teria saído mais cedo para resolver uns problemas no banco, para o chefe. Não poderia ser ele o agressor. Tácio e Lorena, os atendentes, não teriam tal liberdade, ainda que remotamente eu receasse que Tácio tivesse virado a cabeça, lunático que era. Ele, sim, era bolsonarista de carteirinha. Usava um broche com a bandeira do Brasil desde o começo do ano. Poderia ele planejar um atentado? Não consigo imaginar, com aquela cara de tacho e uma cabecinha trivial. Desde que eu havia chegado ao escritório ele não cruzou comigo; estava no almoço, depois na sala do chefe e no banheiro. Quem mais poderia me desejar a morte? Descartei Lorena, que era muito frágil e maria-vai-com-as-outras; votou talvez no belzebu por influência de seu parceiro de trabalho, com quem também mantinha relacionamento. É fato que, nesse tempo eleitoral, havia arranjado vários desafetos. A família estava dilacerada, não por mim, mas por parte achar que era dona da razão; por se juntar a um projeto de morte; por estar acampada em frente aos quartéis – e ainda dizia que iria salvar o país, mesmo para um comunista como eu. Apesar dos pesares, não consigo vislumbrar que algum desses malucos teria a capacidade de me ameaçar ou me desejar a morte. A não ser Francisco, o marido de minha prima. Puta que pariu, por que não me lembrei antes? O canalha, antes das eleições, apostou até o carro, alegando, veemente, que o bozo ganharia. Deve estar falido e desesperado. Liguei imediatamente para Cláudia, minha digníssima, e desmarquei a nossa ida ao aniversário da filha do sujeito, que se daria em duas semanas. Melhor prevenir do que remediar. Cláudia, bastante triste, disse que também temia a imagem brutal de Francisco. Bem, estas linhas são para descrever o pior dos cenários: Francisco está preso em Brasília, depois do 8 de janeiro. Saiu em todos os veículos de comunicação que ele foi um dos responsáveis por organizar o ato terrorista. Em seu celular, descobriram que havia um plano para dizimar a população comunista, incluindo o vencedor do pleito presidencial. Esse “um dia depois das eleições” se arrasta e ainda gela os meus ossos.

 

Adriano Espíndola Santos é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”; em 2021 o romance “Em mim, a clausura e o motim”, pela Editora Penalux; e em 2022 a coletânea de contos “Não há de quê”, pela Editora Folheando. Colabora mensalmente com as Revistas Mirada, Samizdat e Vício Velho. Tem textos publicados em revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir – sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo de Escritoras e Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.

 

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152ª Leva - 02/2023 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Tallýz Mann

 

Foto: Magali Abreu

 

Arquitectônica

 

Essas paredes brancas
tangíveis e mudas
haverão de tergiversar
sobre o futuro do mundo

Cal e superfície
na fundação permanente
de faces nebulosas
ocultai vossas fissuras!

Padecerão atônitas
vendo tão necromantes
esporófitos e poros
anunciarem o fim dos tempos

E ainda temerosas
ouvirão o (com)passado
líquido invasivo
a corroer a matéria das certezas

Orbe de destruição
contra a face insuspeita
por dentro a fisionomia
a máscara atravessada

À ruína anunciada,
fragmentos orgulhosos
cantam a supremacia
das paredes brancas
e suas texturas
ultrapassadas

 

 

 

***

 

 

 

Terraplanário

 

Extinguiu-se a órbita
do geoide farsante
nessas ilusões geométricas
de bestas quadradas
a Verdade virá

Fomos todos precisos
à beirada do mundo
e caímos nos abismos
abismados da constatação

Planos sinistros
na planície terrestre
planaram proféticas
anunciações
jamais em nenhuma circular

Esféricos delírios
postos à prova
pelo incrível
homem Chato

Compacto
nivela todos os seus
à mesma superfície

 

 

 

***

 

 

 

Lembre-se de não viver

 

Desinstalar a vida
já que a morte
não nos constrange
e nada do que ficar
será nenhuma lição
apenas acumularemos
ossos frios e apatia
a certeza da crueldade
de um rebanho irascível
pisando firme
na borda do abismo

Desinstalar a vida
já que a morte
é nossa rotina
e jantamos na sala
com o cheiro de defuntos
devotos devorando
a carne podre do salvador

Desinstalar a vida
já que a morte
é o que capitaliza
e toda nossa ruína
é a ferrugem
que corrói
a efígie de prata

 

 

 

***

 

 

 

Radícula

 

Laboras a terra
doando de si
tudo em solo e ternura

Revolve pedras
e guarda seixos
pavimento de caminhos
sinuosos

Dança das raízes
no absoluto desejo
ramagens violentas
intromissão e segredo

Aragem promissora
pois deita as sementes
envoltas de futuro

Tão logo rompe
numa brecha arriscada
broto vacilante
dizeres de planta
utopias sazonais

 

 

 

***

 

 

 

Aquarius

 

Sombras da morte
noite dorida
sob corpos já cansados
atados vigilantes
guardam as portas
dos templos de outrora
tão poucos esperam
vivos e resilientes
nascituros da aurora

Um raio de luz
pois age certeiro
gume radioso
ferindo espessa escuridão

Faz ansiar pelo dia
banha os espíritos inquietos
na trilha do tempo
ritual da memória

Deságua na força do ser
águas de outros riachos
aquosa revolução
tudo destrói e cria
na dinâmica do mundo
animal que crê e luta

 

 

 

***

 

 

 

Liturgia das Horas

 

Para meditar ao som
de Ventura Profana

Dayse
por aqui se fechou tudo
os goles de concreto
descem rasgando
a garganta
& dilata-se
cotidianamente
a abertura ao horror

Dayse
por aqui se queimou tudo
terra bruta e quente
na qual nenhuma raiz
rizoma ou sortilégio
passará pela brecha

Dayse
por aqui se aniquilou tudo
com palavras de benevolência
que aninharam
serpentes sacerdotais
chocadas no ninho
do Pai Eterno

Dayse
por aqui se viveu pouco
choveu sangue massivo
retinto, pobre, dissidente
desembocando
na voz da violência

Dayse
por aqui ainda se luta
quando uma trava
desce o morro
para sovar o pão
nosso de cada dia

& o reparte
com as outras
discípulas do sangue
& corte

 

Tallýz Mann é uma byxa-travesti não-binária, natural de Jussari, cidade que fica no litoral sul baiano. Licenciada em Letras Espanhol/Português, é Mestra e doutoranda em Letras pelo PPGL: Linguagens e representações, da UESC (Universidade Estadual de Santa Cruz). Atualmente tem pesquisado sobre as escritas de si de autoras transvestigêneres brasileiras contemporâneas. Escreve versos desde os nove anos. Participou de antologias poéticas e recentemente publicou PoemAtos & outras: inscri(a)ções (2023), pela editora Patuá.

 

 

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152ª Leva - 02/2023 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

CRÔNICAS DE VIDA E OBRA

 

Por Sandro Ornellas

 

 

O chileno Benjamín Labatut, em Quando deixamos de entender o mundo (2022), é um escritor borgeano que abandonou o misticismo gnóstico presente no argentino para se dedicar a tratar literariamente da ciência moderna em narrativas igualmente desconcertantes e de gênero incerto. Algo entre biografia geracional, poesia cosmológica e ensaio especulativo. Mas o que me chamou a atenção num primeiro momento foi o esforço de caracterização de cientistas como aquele tipo de herói que parece decalcado do que eram os poetas românticos do século XIX: obcecados por suas ideias brilhantes, excêntricos, doentios, gênios incompreendidos, místicos, competitivos, trágicos e apaixonados. Muito do que marca o estilo dessas caracterizações é uma adjetivação implacável, seja através dos próprios adjetivos – como os que usei acima para seus personagens –, seja por orações adjetivas. Além de caracterizar sujeitos que o senso comum toma por alheados do mundo, tal procedimento dá sabor e riqueza literária aos textos.

Um outro traço das histórias de Labatut – mais sofisticado do que essas representações romantizadas – é sua capacidade de articular narrativamente enredos, o que dá aos seus textos certo caráter de crônicas da vida e da obra de uma geração de cientistas. Um dos elementos de que lança mão são as datas, o que possui lá sua objetividade histórica, embora a articulação não seja verídica, e sim verossímil. Isso é reforçado por aspas retiradas de cartas e diários como fontes comprobatórias do que narra. Mas é a especulação o que mais me chama a atenção, e o que pode nos levar a nomear suas narrativas como ensaios especulativos. Encontramo-la às vezes como um tipo de poesia cosmológica, que são as tentativas de Labatut em verbalizar as brilhantes equações matemáticas que os obcecados cientistas formulam para fenômenos de existência puramente teórica.

Há uma passagem do conto “Quando deixamos de entender o mundo” em que Werner Heisenberg ouve de Niels Bohr que “o físico – como o poeta – não devia descobrir os fatos do mundo, mas apenas criar metáforas e conexões mentais. […] Esse aspecto da natureza requeria um novo idioma”. É como se essa passagem, que Labatut reputa como de Bohr, referendasse as próprias descrições de Labatut das equações de Heisenberg e seus rivais. Falando do matemático Alexander Grothendieck em “O coração do coração”, Labatut escreve que “adorava escolher le mot juste para os conceitos que descobria, como uma forma de amansá-los e torná-los familiares antes de que fossem compreendidos sem uma totalidade. Suas étales, por exemplo, evocam as ondas tranquilas e dóceis da maré baixa, o mar como um espelho imóvel, a superfície de uma asa esticada ao máximo ou os lençóis com os quais se cobre um recém-nascido”.

Se, então, essa poesia descritiva da cosmologia científica dá às narrativas seu traço de ensaio especulativo, há também algo dessa especulação ligada a uma outra cosmologia, talvez o principal arcabouço do livro, amarrando textos autônomos. Refiro-me ao contraste estabelecido entre a última das narrativas e o “Epílogo”. Ela ocupa metade das páginas e com o mesmo título da tradução brasileira, é a que trata da história de alguns dos principais físicos teóricos que depois se reuniriam na Bélgica no ano de 1927 para de alguma forma fundar a física quântica. Trata-se de uma geração dourada de cientistas europeus nobelizados que pareciam, com suas formulações brilhantes e rivalidades teóricas, alheios ao mundo de ascensão do nazifascismo no período entreguerras, bem como às arriscadas consequências de suas invenções.

Não é uma história nova essa contemporaneidade entre a criação de uma ciência teórica, distante anos-luz do mundo cotidiano, a ascensão do nazismo, a guerra daí decorrente e a bomba que pôs fim ao conflito no Japão. No livro, também encontramos essa contemporaneidade logo na primeira narrativa, “Azul da Prússia”, sobre a origem, como pigmento azul para pinturas, e os usos do cianureto para suicídio por oficiais nazistas. “Azul da Prússia” é um exemplo da habilidade de Labatut em amarrar histórias aparentemente díspares. Essa especulação narrativa, encontramos, por exemplo, no enredo que entrelaça de modo misterioso as histórias do matemático japonês Shinichi Mochizuki, admirador de Alexander Grothendieck, cuja vida e obra são contadas até seu voluntário isolamento nos Pirineus. Na hora de sua morte, em 2014, lemos a sugestiva hipótese de o japonês estar ao seu lado do leito hospitalar. Pura ficção entrelaçando vidas de dois matemáticos brilhantes e desconfiados das instituições responsáveis por financiar pesquisas avançadas.

Já o Epílogo, todavia, intitulado “O jardineiro noturno”, aponta para o título original do volume, Un verdor terrible, e explicita um contraponto a todas essas histórias trágicas: um narrador (o próprio Labatut?), entre reflexões sobre a vida junto à natureza, descreve a exuberante paisagem andina encontrada no Chile, em especial junto de uma pequena cidade onde se depara com um ex-matemático que abandonou a profissão para se tornar jardineiro e aprender a lidar com plantas. Teria abandonado a matemática inspirado justamente pelo desaparecimento voluntário de Grothendieck. O jardineiro lhe conta saber como árvores cítricas morrem: “sucumbem por superabundância”. Então o narrador lhe pergunta quanto tempo de vida teria seu limoeiro, ao que o jardineiro lhe responde que “não havia como saber, pelo menos não sem antes cortá-lo e olhar dentro do tronco. Mas quem iria querer fazer isso?”. Assim, o livro se encerra e deixa para o leitor a tarefa de comparar esse limite de curiosidade do jardineiro com a hybris trágica que brilhantes cientistas legaram à humanidade.

Concluí a leitura notando que Einstein pouco aparece em suas páginas, sendo esses momentos preciosos contrapontos ao brilho científico dos demais, como quando ele acusa Bohr e Heisenberg de, com seu princípio da incerteza, desmaterializar a realidade física, afirmando que “Deus não joga dados com o universo”. Inspirado pela presença sibilina de Einstein nas narrativas, lembrei de outro livro, No tempo das catástrofes, da filósofa da ciência belga Isabelle Stengers. Nele, ela faz invectivas para que os cientistas politizem suas pesquisas, diante da catástrofe ambiental instalada e crescente, a que chama “Intrusão de Gaia”. Stengers sugere a ciência e os cientistas passaram a ser hoje cultuados, como se tivessem

muito a ver com a ideia de que o pensamento “é algo que se conquista’” [que] pede renúncia e solidão. Por isso muitas daquelas “cabeças pensantes” poderão, por outro lado, se curvar com respeito diante da paixão de Antonin Artaud, que berrava e vociferava que o pensamento não estava “na cabeça’” Mas o que é importante para eles é que berros e vociferação traduzam uma experiência radical, na vizinhança mais próxima possível da loucura. Artaud, promovido a herói cultural, nos oferece então a confirmação de que o Homem é capaz de afrontar, ainda que se perca nele, o caos abissal que é preciso manter a distância para pensar.

Há algo nessa passagem de Stengers que liga Artaud aos cientistas de Labatut que propiciaram, com seus ímpetos de conquista científica, a criação da bomba atômica e, daí, a crise ambiental que proporções planetárias e que apenas começamos a adentrar. Esses “heróis culturais” do século XX afrontaram “o caos abissal” e, se nos legaram orgulhosas fórmulas de enorme conhecimento abstrato, também nos puseram na rota de um risco iminente. Mas isso não é Labatut quem diz – sou eu, leitor, que concluí com o fim dessa leitura fascinante.

 

Sandro Ornellas é poeta, escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Bahia. Autor de Herberto Helder e a questão dos fins (Villa Olívia, 2022), Dói-me este mundo de violentas esperanças (Patuá, 2021), Em obras (Cousa, 2019), dentre outros.

 

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152ª Leva - 02/2023 Destaques Olhares

Olhares

Entre enigmas e suas reconfigurações

 Por Fabrício Brandão

 

Foto: Magali Abreu

 

Sob o delicado manto das formas, há um universo embebido em mistérios que são fruto de nossas humanas idades. Nele, cabem as paisagens múltiplas que contemplam as porções interiores do ser, espaços constituintes do vivido e também do imaginado. Todo esse acervo é fonte de um manancial imagético capaz de retratar mundos no mundo, recortando possibilidades e sensações ao alcance do olhar que tem predileção pelos detalhes.

E eis que assim o faz Magali Abreu em sua travessia artística. Com um trabalho que ajunta os fragmentos sensíveis da existência, a fotógrafa nos oferta um panorama de alternativas cujas imagens simbolizam o gesto da recomposição da vida, processo este que não se descola da ideia de que o mundo pulsa intermitente entre os sentidos das dissoluções e reconstruções.

Ouso dizer que as fotografias de Magali ressignificam memórias em torno de pessoas e lugares. E na confluência entre a matéria tangível das coisas e a atmosfera das porções abstratas, forma-se um conjunto orgânico de sensações visuais que contêm afetos e também contemplam saberes e sabores particulares, desses que fazem sentido dentro da esfera líquida e secreta das imagens.

Daí que faz todo sentido se deixar guiar pelas imersões propostas pela artista, posto que ela nos atrai a um movimento que se assemelha também a um mosaico de representações. Mas para que isso se opere é preciso observar todo o véu poético que recobre as imagens da fotógrafa. É ele quem protagoniza os modos de exibição duma arte que encontra seu diferencial por não nos entregar facilmente os mapas de todos os percursos sugeridos.

 

Foto: Magali Abreu

 

Dito isso, cabe-nos o salto e os efeitos das descobertas para regiões mais profundas, zonas por onde circulam sentidos passíveis de espanto e/ou encantamento. Da mesma maneira, as fotografias de Magali Abreu parecem conter clamores em favor de uma nova ordenação para o humano, condição que retira do caos que nos acomete o fruto de eventuais libertações. Afinal, se o nosso olhar mais atento é capaz de redimensionar o modo como miramos o interno e o externo, também a arte poderia fazê-lo por intermédio de seus provocadores atributos.

Como a própria artista confessa, seu processo criativo é um se deixar levar pelos impulsos, fluxo por onde transcorrem naturalmente os estímulos dinamizadores de sua obra, a qual busca emocionar pessoas. Além disso, Magali assinala privilegiar o caráter subjetivo de seu trabalho, estabelecendo elos com suas porções íntimas, além de promover uma mescla entre o onírico e o real. Em sua trajetória, a fotógrafa baiana reúne exposições, premiações nacionais e internacionais, bem como menções honrosas.

A partir da aura enigmática que perpassa as fotografias de Magali Abreu, nos é dado perceber que a arte é fundamentalmente o encontro com a sugestão, considerando que um artista é aquele que nos conduz até certo ponto da jornada, pois o restante do percurso, muito provavelmente a sua maior parte, é feito por todo aquele que se permite mergulhar naquilo que se apresenta diante da sua visão. E é de se suspeitar que somente o mergulho não garanta a fruição da viagem, já que ninguém passa incólume pelas paragens artísticas, ainda mais quando estas desacomodam inquietudes.

 

Foto: Magali Abreu

 

* As fotografias de Magali Abreu são parte integrante da galeria e dos textos da 152ª Leva

 

Fabrício Brandão é editor da Diversos Afins, sonhador, míope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais. 

 

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152ª Leva - 02/2023 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Samara Belchior

 

Foto: Magali Abreu

 

aos ecos há ecos. você os ouve? tranque-se no banheiro, escreva nos azulejos o que ouvir. há mais eco agora, o seu. nós escrevemos para nos ouvir, para tatear nossas experiências de dentro e de fora, para te entregar o convite de ser bicho, ficar com as unhas sujas, lembrar de terra molhada, rodar, plantar lantejoulas, evaporar no chuveiro, sangrar, desenhar camaleões, passar as mãos na ossatura do tórax, deixar-se marcar com tinta vermelha, aportar em silêncio depois de sentir arquipélagos nos cabelos.*

 

* texto produzido a partir de alguns poemas do primeiro livro do coletivo bidê, do qual sou integrante.

 

 

 

***

 

 

 

la cruz

 

o vento
colar na areia um nome santo

a pachamama
o vento nos seios

os continentes
colarem as areias

os capitães
o vento nos veleiros

os pés
dançarem a pachamama

a dança e um veleiro
o santo e um ventre

a pachamama
engravidar de petrolato

a gravidez
um capitão solto no vento

o santo
ser homem na areia

o batismo e o aborto
da pachamama

 

 

 

***

 

 

 

silêncio!

 

a vida como ela é
um arrastão pelo asfalto
porque não há mais terra
……………………………….não há mais pétalas de rosa nem para se bater numa mulher
é tudo plástico
a língua seca
não chove, nunca mais choveu
………………nunca ficamos em silêncio

deixamos
as árvores com troncos deficientes
comemos as omoplatas uns dos outros.
corcundas, nos arrastamos nas calçadas
em fileiras
nosso olhar em cascas

se deus nunca, nunca tivesse existido
no interior dos nossos peitos mancos
………………nunca nos calamos
matamos a semente de mato do nosso parto
estamos à deriva
…..se nunca tivéssemos sido os deuses do nosso peito
…..fomos deuses humanos
…..nosso banho é cinza, pixe
………………nunca fomos peixe e alga
………………nunca nos calamos
…..não chove, nossa voz cobriu o som dos tambores
………………nunca fomos pássaro
…..nossas moléculas endureceram
nem pele, nem pena
…..nem leito escasso nos quer
…..nossas moléculas empalharam a correnteza
………………nunca estivemos tão secos

 

 

 

***

 

 

 

dissecação

 

conhecer um corpo por dent
ro t
er um corp
o a ser conhecid
o por dentro separar as part
es para encon
trar a fisiolog
ia exig
e a mort
e e a mort
e não é bon
ita bonito é o c
orpo desmontad
o

 

 

 

***

 

 

 

australopithecus

 

isto não é uma dança
é o ringue dos tempos
mesmo meus pés com meias

porque você não dá seu
céu?

quando subi
me sustentei nas linhas
pra não te ferir
…..fiz bailarina
tentando equilibrar
meu ponto

você luta
com o quadril
até quando o ponto é meu

quando você subiu
desviei
mordi teus beiços
segurei de novo
de novo

na selva da língua
contra língua
foi um nocaute
você por cima
eu morangos

 

 

 

***

 

 

 

mata

 

à noite
cheira e sua
nome de mulher

na cachoeira
os bichos
não vou
…..vou lá
lisa
no pegajoso
…..a água leva
banha
os meus bichos

na falta do sol um céu
na falta…..o som

não há silêncio na selva
na
…..pedra ensebada
no
…..cabelo córrego
na
…..escama
no
…..musgo de iara

 

 

 

***

 

 

 

desnome

 

"As coisas perdidas ou inalcançadas foram as únicas que possuí"
Maura Lopes Cançado

 

 

eu sou uma data
vasculho o interior dos tempos
em busca desse calendário

eu sou……………………….stella do patrocínio
clarice lispector
maura lopes cançado

sou uma terra…………..a pá
e a escavante
o artefato
a semente
regada das minhas mães
sou solo e indecisão

sou a reta que encurvou na batida
o trauma do acidente
…………………………………………a desorientação

eu sou a gagueira e a palavra nova que sibila
o defeito e ………………………………………… o espelho

 

Samara Belchior (1987) mora na Zona Leste de São Paulo, onde leciona na rede municipal de ensino. Foi aluna do CLIPE poesia (2021) e do poesia expandida (2022) na Casa das Rosas onde atualmente é aluna do CLIPE prosa. Cursou licenciatura em história pelo Prouni, licenciatura e bacharelado em filosofia na Universidade Federal de São Paulo. É autora de “bruxismo e outras automutilações” (Ed. Urutau) e “pra não ser de plástico quero ser bruxa” (Ed. Primata). Compõe o coletivo de poesia “bidê”. Se interessa por bruxaria, anatomia e coisas invisíveis. Tem dois gatos.

 

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152ª Leva - 02/2023 Destaques Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

MATEUS FAZENO ROCK – JESUS Ñ VOLTARÁ

 

 

A pseudo-semelhança com Matuê e o sorriso fácil do jovem de 29 anos é só uma faceta das águas profundas em que Mateus Henrique Ferreira do Nascimento flutua. Depois de algumas tentativas de redigir acerca do mais recente álbum de Mateus Fazeno Rock logo após o lançamento de Jesus Ñ Voltará (2023), em abril, e após ter perdido tudo que já havia rascunhado sobre criador e criatura, nada mais justo do que revisitar este álbum que tanto me impactou no primeiro semestre para celebrar os 17 anos de Diversos Afins. Hoje entendo que o tempo foi crucial para que eu conseguisse expor em palavras o impacto que a obra adquiriu em mim. Até porque 6 meses se passaram e poucos discos me agradaram tanto – do início ao fim – quanto este.

O segundo álbum de estúdio do artista, ao contrário do que sugere seu título, não faz das matrizes religiosas sua fonte principal de discussão. O trabalho dialoga sobre vivências e dores atemporais, que vão além do que limites geográficos ou socioeconômicos supõem. Criado no bairro da Sapiranga, periferia de Fortaleza, além de músico, Mateus é ator, cantor, compositor e performer. O artista também é fundador do “Rock de Favela”, termo que identifica a cena de rock que vai além de questões clichês e aborda a temática negra e periférica. Ele também é a cachola criativa à frente da banda que o acompanha em suas apresentações ao vivo, composta por: Roberta Kaya (guitarra), Eric Lennon (contrabaixo), Glhermee (bateria) e DJ Viúva Negra. Completam o time as backing vocals Mumutante, Bianca Ellen e Jocasta Brito, e os dançarinos Larissa Ribeiro, Rafael Lima e Rafael Tomás.

 

Foto: Jorge Silvestre

 

A faixa-título Jesus Ñ Voltará (a autodestruição começa quando descobrimos quem somos/e principalmente quem somos e aonde estamos) tem a participação de Jup do Bairro e é o abre alas do seu rock de favela, onde logo adverte que o salvador não retornará, mas mesmo assim “quer(o) crer num Deus que bota fé em mim”. A resiliente Pode Ser Easy (firme eu sigo na disposição/se me fazem mal não aceito como algo vital) desemboca num refrão otimista e fácil, extremamente fácil (para não perder o trocadilho) capaz de nos fazer cantarolar por dias a fio: e pode ser easy/e pode ser que eu aterrize/e pode ser que faça bem/eu ir além do mundo que eu sempre estive. Pose de Malandro/Me Querem Morto é outro ótimo momento do disco. Trata-se de uma parceria com Big Léo, que se divide em dois atos, mesclando uma vibe de charme de baile funk com um rap que lembra Criolo em suas canções mais politizadas. Nome de Anjo é poesia pura e talvez uma das mais belas canções do disco – quiçá do ano – sobre alguém que, como dizia Renato Russo em Love In The Afternoon, foi embora cedo demais. Enquanto o reggae Melô de Aparecida (favela pra mim é horta/e fruta podre é composta/bota na terra de volta) é divertida, a doce Pôr do Sol Marrom – composta enquanto pedalava pela orla num entardecer em Fortaleza – tem a profundidade de canções como “Cru”, que lançou Liniker ao grande público.

O “intervalo” entre o primeiro e segundo bloco de canções é composto pela declamação da carta intitulada Feito Um Porco Indo Pro Abate (é difícil pensar que temos que nos cuidar/por saber que nos matando/nós estamos matando alguém/é difícil pensar que temos que nos cuidar porquê…/porque já estão nos matando, aliás, como é isso?), uma reflexão visceral sobre as mazelas que nos assolam. Na sequência, a “no love song” Indigno Love, parceria com Brisa Flow, fala da própria arte de fazer música e é “um caô que você vende como amor”. Apesar do refrão angelical, Da Febre e Rezo lembram os bons tempos d’O Rappa, enquanto a potente Só Suor e Lágrima (eu, de manhã vou pro trabalho/mas quando é tarde da noite eu choro) parece mais a melô de todo trabalhador brasileiro. Se Vontade Nego é contação de histórias da melhor qualidade, Da Noite (e não é só de mitologia/que se vive que se tem prazer/em dizer que a favela venceu/quando ainda estamos a morrer/a gente corre/a gente insiste) é quase uma ciranda de oração (coincidentemente à capela) e tem um pequeno coral formado por Mumutante, Bianca Ellen e Jocasta Brito.

O artista tem como inspiração o grunge capitaneado por Nirvana e Djavan – aliás, o ídolo lhe rendeu a faixa Melô de Djavan, presente em seu primeiro álbum Rolê Nas Ruínas (2020) – e “não sustenta a pose de malandro”, até porque não o é. Mateus Fazeno Rock é um operário da poesia, maior que qualquer gênero possa encaixar ou definir. Não à tôa, compõe a partir da narrativa e só depois constrói a melodia. Criativo e performático, é um sopro de fertilidade no terreno da Nova MPB. O suburbano – que já fez de tudo na vida – hoje faz rock, rap, reggae e R&B como veterano, ainda que contestador como toda juventude sugere. Mateus e sua trupe começam a se aventurar em mares além Nordeste e fazer shows em todo o Brasil, incluindo o lendário Circo Voador, no Rio de Janeiro, e é uma das atrações confirmadas do Primavera Sound que acontece em São Paulo, em dezembro. Jesus pode até não voltar, mas Mateus Fazeno Rock chegou para ficar.

 

 

Larissa Mendes não tem nome de anjo, mas carrega Maria em sua identidade e o rock como oração.

 

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152ª Leva - 02/2023 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Kátia Borges

 

Foto: Magali Abreu

 

Nosso coração era um gigantesco Luna Parque

 

Escrevo de memória, a nossa história na exposição de pães. Vivíamos na triangulação dos nossos sonhos, entre cultura, mídia massiva e história, fornecendo postais a um hippie argentino. Nos vernissages da moda, circulávamos como se fôssemos grandes artistas, em meio a hordas de poetas e punks. Naquela noite, fomos parar na Escola de Belas Artes, na abertura de uma instalação. E então, como numa performance, decidimos matar a fome dos pedintes que dormiam ao relento nas ruas do bairro do Canela. Não lembro quem teve essa ideia. Daquela época, recordo com exatidão de poucas coisas. Há sempre uma cena de filme, com trilha sonora do Velvet Underground, e uma pessoa desconhecida que acena, efusivamente, do outro lado da rua. O coração da gente era um gigantesco Luna Parque. De modo que tudo ali acontecia como no poema de Adília Lopes e, antes que cada sequência fosse para a sala de montagem, ninguém sabia bem ao certo no que ia dar aquele set. Um curta indie, quem sabe, talvez best-seller. Ou apenas mais uma memória substituta, algo absurda, em nossa coleção da Vagalume. O coração da gente era tão pequeno que cabia no bolso como no poema de Raymond Carver.  Mas isso, confesso, eu escondia. Porque havia o sol nas bancas de revistas e eram tantas as notícias. Páginas e mais páginas, os romances que a gente lia, flutuando nas águas do Rio Ouse. E as tais pedras, as tais pedras, no meio do caminho. Você, meu personagem predileto. As suas mãos desfazendo com ousadia a instalação do artista, apanhando os pães com que se fazia a arte do nosso século. Como na metáfora da música de Gilberto Gil, a sereia que veio dar à praia, com o seu busto de deusa Maia. Enchemos as nossas mãos naquela noite mágica, desfazendo a arquitetura cara da instalação, e saímos distribuindo os pães aos mendigos pelas ruas do Canela. Queríamos o rabo da baleia para a ceia dos famintos, ainda que aquilo nos custasse pagar algum mico e a revolta furiosa de um artista.

 

 

***

 

 

O repouso do acaso

 

Inveja mesmo, ele sentia de quem dorme no ônibus. E de pessoas distraídas que esquecem objetos importantes em lugares inusitados. Também invejava aqueles que os encontram e emprestam alguma subjetividade aos acontecimentos. Estar atento é cansativo sem o repouso do acaso – esses portais repentinos que se abrem, em lapsos e elipses, no cotidiano. Acordar em sobressalto. Longe de casa, ainda atordoado pelo sono. Um menino toca seu ombro como se fosse um anjo. Esteve ali todo o tempo. Entregue aos olhos do desconhecido, como por encanto, segue seguro até o ponto final do coletivo. Dali retorna sonolento. Talvez adormeça de novo. Chegará ao seu destino como em sonho.  Buscar na bolsa, no bolso, o documento. Essencial para movimentar um processo estagnado, estava ali ainda há pouco. Talvez o tenha deixado em algum trecho do trajeto entre o apartamento e o cartório. A certeza das mãos ocupadas. Na entrada do prédio, o esquecimento atravessa lentamente um Saara. Se fechar os olhos, quase pode ver a caravana. O sentimento de que a vida é inexata torna frágil a precisão do poema sobre a navegação em cabotagem. É preciso enfrentar outra vez o processo burocrático da perda. Molhar as plantas com cuidado, sem pressa, como se não houvesse amanhã. E será que há mesmo? Água fresca nas folhas da memória, tão verdes quanto se pensa o coração. Mas será só intuição que ainda pensasse nela? Será só coincidência que o vento tenha trazido aquela certidão de casamento justo no dia da sua separação? Vivia esperando que algo mágico acontecesse. Então ali, quem sabe, estivesse o sinal do que ainda existia. Pensando nisso, dobrou o documento achado no chão em quatro partes e guardou no bolso.

 

 

***

 

 

Uma menina vinda de Marte

 

A menina aceitou aquele desafio no desajeito de sempre, sem saber dar resposta. Levaria para a escola o tal brinquedo que todos queriam, que muitos já possuíam, objeto de desejo de nove entre dez crianças de oito anos. Voltou para casa lamentando não ser como a maioria dos colegas, que já começava as aulas com mochila e uniforme novos, livros didáticos, caixas de lápis de cor, merendeira colorida. Seus pais mal conseguiam manter as finanças domésticas em dia. Brinquedos só no Natal, quando muito. E era sempre penosamente que davam conta de quitar a imensa lista de material escolar de cada ano das duas filhas. Agora, metera-se naquilo. Os colegas ririam de sua tolice como se fosse mentirosa. Ao lado da mãe, descendo a ladeira íngreme em silêncio, pensava em um jeito de comprar o tal carrinho. Ainda mais essa, um brinquedo de menino! Talvez se desejasse uma boneca, dessas que vive de olhos arregalados, a mãe até fizesse um sacrifício. Possuía um coração tão generoso. Costurava roupas na máquina madrugada adentro, ajudava o marido nas despesas. De vez em quando, sobravam uns trocados. Mas como explicar que havia dito aos colegas que possuía o tal carrinho e que duvidaram dela? Por alguns dias, suportou todo tipo de zombaria na escola. Até que simplesmente deixou de ir ao recreio. Sozinha na sala, sob o olhar curioso da professora, arrumava o lanche na mesinha e comia: Ki-Suco de morango, pastel de carne. Rezava por dentro para que a aula acabasse. Diante de sua mãe, ninguém riria dela. Dois meses que buscava um modo de pedir que comprasse o tal brinquedo de menino e nada de coragem. Deixa de esquisitice, talvez a mãe respondesse, dando o caso por encerrado. E olha que nem desejava tanto assim o tal brinquedo. Só falou que o possuía por absoluta estultice, falta de jeito de puxar assunto. Nunca soube se comunicar direito com nenhum deles. A menina vinda de Marte. Seu primeiro, seu eterno apelido. Enquanto se alongava, aquele impasse, foi inventando desculpas para faltar às aulas. Tudo ia bem, em suas súbitas rinites, até que chegou a época das provas. Sem uma alternativa, procurou a mãe e implorou que lhe comprasse o carrinho, réplica de um Ford colorido que abria e fechava as portas. Não era Natal nem nada. E nem ela era um menino. Mesmo assim, as duas foram juntas ao supermercado. Na seção de brinquedos, passaram direto pelas bonecas de olhos arregalados, em busca do carrinho colorido que, brilhando na caixa, custava mais que um dos livros pendentes na lista de material didático. A mãe olhou para ela e disse que o dinheiro só daria para comprar um fusca. As duas riram. No dia seguinte, na escola, foi um alvoroço e todos se sentiram enganados. Mas a menina já não se importava nem um pouco com isso.

 

 

***

 

 

O enigma da rosa

 

Ela releu a mensagem repetidas vezes como se fosse a destinatária, mesmo sabendo que aquela dedicatória viera parar por acaso em suas mãos, entre as folhas amareladas de mais um livro de poemas achado num dos sebos da Rua Ruy Barbosa. Bem mais barato que outros tantos que já havia comprado, por conta da ausência da capa original. O dono da loja a olhava de lado com indisfarçável desprezo, porque ela sempre comprava os seus piores exemplares usados. Os mais velhos, os menos conservados, aqueles que ele fazia questão de esconder lá nos fundos, quase implorando para que alguém os achasse e levasse embora por um valor mínimo. Ela preferia justamente esses, os desvalidos, aqueles que ficavam quase escondidos, largados num cesto de vime que seus amigos apelidaram de asilo. Era bem ali que os resgatava, pelos mais inacreditáveis preços, conferindo apenas se traziam dentro, entre as suas páginas, alguma dedicatória, algo desenhado ou escrito. Costumava tomar para si cada dedicatória, emprestando novas histórias a personagens desconhecidos, presenteados com mundos imaginários que perdiam todo o sentido ao mudar de mãos. Talvez procurasse algo específico, um recado perdido entre as dezenas de títulos descartados que encontrariam novo lar em sua casa. Doados, vendidos? Pouco se sabe. Inventava também seus registros, construindo novos percursos entre o abandono e o encontro. Este mesmo, por exemplo, teria vindo de uma cidade distante, que tanto podia ser Pasárgada ou Macondo. Pelas estradas, pelos ares, voava ainda a sua capa, hoje liberta do miolo. As frases escritas por antigos donos nem sempre traziam um recorte bonito da vida, esse enredo que se espalha em fluxo, fragmentado em milhares, em milhões, de corpos. Algumas sequer vinham inteiras e decifráveis. Mas é que ela também se interessava pelos fragmentos que despencavam dos frontispícios. Feito um poema secreto guardado: “registro que um dia toquei seu coração”. Naquele livro, e então logo despedaçado. De modo que já não se podia intuir o destinatário da única palavra legível, quer fosse de amor ou rechaço. Muito menos quem ali deixara entre as páginas uma flor ressecada, tatuando entre as letras a sua forma.

 

Kátia Borges é autora dos livros “De volta à caixa de abelhas” (As letras da Bahia, 2002), “Uma balada para Janis” (P55, 2009), “Ticket Zen” (Escrituras, 2010), “Escorpião Amarelo” (P55, 2012), “São Selvagem” (P55, 2014), “O exercício da distração” (Penalux, 2017), “A teoria da felicidade” (Patuá, 2020) e “Tudo será daqui pra frente” (2022). Tem poemas incluídos nas coletâneas “Roteiro da Poesia Brasileira, anos 2000” (Global, 2009), “Traversée d’Océans – Voix poétiques de Bretagne et de Bahia” (Éditions Lanore, 2012), “Autores Baianos, um Panorama” (P55, 2013) e na “Mini-Anthology of Brazilian Poetry” (Placitas: Malpais Rewiew, 2013). Foi semifinalista ao Prêmio Jabuti 2021, na categoria crônicas, com o livro “A teoria da felicidade” (editora Patuá, 2020).