A cidade apresenta seus matizes. E há muito por trás disso. Tudo traduzido num ritual de cores, linhas, formas, luzes, sombras e gestos. Dentro da metrópole, reinam sentidos múltiplos, escondem-se outros tantos segredos. O concreto não existe por si só, enquanto resultado de décadas e décadas de feituras arquitetônicas, mas assume uma nova conformidade na medida em que os habitantes dos seus domínios alimentam o vaivém dos dias com o fluxo das suas ações.
Estar numa cidade é fazer parte de um imenso campo de abstrações. Por mais que se tome as coisas como fruto imediato das observações mais aparentes da vida, um quê de mistério ainda resiste. Quanto sentimento pode caber nos corredores viários, nas ruas, alamedas e avenidas? O que, de fato, define as paisagens urbanas?
São questões razoáveis, plausíveis. Certamente, a resposta está no modo como as intervenções humanas protagonizam seus papeis. Na caótica rotina urbana, pessoas passeiam suas efusões e dores, carregam suas máscaras, consolidando um verdadeiro e difuso espaço de representações.
No trabalho de um fotógrafo como Ricardo Laf, a imagem traz em si um caráter fortemente voltado aos aspectos acima descritos. É como se o artista retivesse instantes e extraísse deles alguma máxima do tempo, espécie de testemunho insone das coisas.
Foto: Ricardo Laf
Nas fotografias de Ricardo, a perspectiva física dos lugares vem redimensionada pelas marcas que os homens assinalam em suas passagens. Assim, a matéria incorpora os ecos de seus personagens transformadores, assumindo também uma faceta ativa. É como se houvesse uma confluência entre os dois mundos, um de carne, outro de pedra.
Quando incursiona pelas vias citadinas, o olhar desse artista mineiro também sonda vestígios, verdadeiros lugares de ausência que são pressupostos de silenciosos e anteriores ímpetos humanos. O saldo dessas marcas reflete um complexo painel de histórias camufladas pela rotina. Aos poucos, vislumbramos também narrativas de vida dispersas nos vãos da colossal matéria. Mesmo onde impera algum tipo de devastação, uma memória ali se instalou.
Jornalista por formação, Ricardo Laf também estudou Ciências Sociais, Teoria da Literatura e Semiótica. Confessa-se com uma intenção estética de, através da fotografia, dar vazão ao registro visível do mundo. Sua relação com a imagem remonta à mais longínqua infância, despertada por uma pueril curiosidade.
Bem sabemos que muito se perde no torvelinho cotidiano. De tão acostumadas, nossas horas tendem a refletir um ciclo de ações por vezes mecânicas. Com tal comportamento, alteramos as configurações dos espaços em que transitamos sem sequer desconfiarmos que neles alguma porção da vida restou coagulada. E o que mais fascina nesse automático processo de desprezo é saber que de algum modo alguém nos chamará a atenção para as sutis epifanias do esquecimento, seus cenários repletos de histórias possíveis.
Foto: Ricardo Laf
* As fotografias de Ricardo Laf são parte integrante da galeria e dos textos da 108ª Leva
Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.
A velha sentada na varanda suspensa de madeira não mexe mais os olhos para ver o que acontece no chão, cinco metros abaixo. Ela não respira. Para não sentir o cheiro da podridão que vai além das fezes dos animais e do mijo dos bêbados e da porra dos homens que trepam com as prostitutas no beco e das línguas que envenenam histórias nos ouvidos fracos e do tabaco vagabundo dos operários. Ela não está morta. Mas é como se estivesse. E talvez esteja. Não da morte que deita no caixão e põe nas narinas algodões para aparar os fluidos fétidos do corpo. Ela morreu de inexistência. Do dia após dia em que ganhar nunca foi opção. Ela perdeu. Tudo. Os dentes da boca infectada; os cabelos brancos fracos e finos que os anos trouxeram antes ainda da velhice; o tesão que aliviou tantas noites cansadas de dias de trabalho insano; os filhos que não vingaram na barriga por causa da fome e das doenças; o companheiro que foi embora deixando para ela uma cria doente que mal vingou e quatro tíquetes de refeição que recebeu em pagamento por um serviço de pedreiro. Além dessa cria, que depois virou anjinho, ainda ficou para trás uma solidão que também tinha fome. A única que ela conseguiu nutrir até que os farelos se acabaram.
Inerte na varanda. É assim que ela vive. Na cabeça, um pano encardido para esconder a calvície. E um vestido preto que não é de luto, mas da sobra dos sacos de caridade da igreja. Um dos olhos já quase não se abre; e o outro não se importa. Ela não sente nada. Nem alívio. Ao lado, um prato de comida que alguém traz quando pode. Vazio. E uma caneca de água pela metade. Ela sempre come tudo. E bebe aos goles. Deixa que mãos estranhas a banhem numa bacia de água fria, a vistam com o mesmo vestido preto, envolvam a sua cabeça no mesmo pano encardido, e a levem de volta à cadeira na varanda. Ela come e bebe porque quer ficar forte para continuar a vigília. E se esquecer de tudo o que fede e grita cinco metros abaixo. Quer se aprumar para caminhar com a morte quando ela chegar. Na direção do céu que só existe bem longe. Lá, ela vai rever a cria, o pai funileiro, a mãe costureira. Gente que a saudade desassossegada nunca deixou partir do pensamento. E vai ganhar vestido novo. Todo branco. E uma tiara brilhante para prender os cabelos pretos, longos, cheios. Essas coisas que só Deus dá. No céu.
***
Na escuridão não existe cor-de-rosa
Quando eu era pequena, eu queria ser bruxa. Bruxas não usam cor-de-rosa. Nem são loiras. Eu não conheço bruxas loiras. Só conheço fadas. Castelos. Sonhos. Varinha de condão. Sapatos número 35 — vá lá, 36 nos dias de calor! —; manequim 34. Gestos delicados. Passos de gata no cio. Ou de gazela, ou de garça. Esses bichos dissimulados. Cabelos loiros. Loiro Ultraclaro 90. Koleston. Nem cachos, nem ondas. Liso europeu. Fadas são europeias. Olhos azuis bem claros. Da cor do mar de Aruba. Que não é na Europa. O mar das bruxas não é azul. É escuro. De tempestades e naufrágios. Mar Negro. Afunda cinco navios de uma vez. Carrega tudo para as águas de baixo. Embaixo d’água não tem fada. Fadas não podem molhar o cabelo. As bruxas podem. Bruxas têm cabelos de anêmona. E se grudam nas rochas do fundo do mar. E afundam navios. Cinco de uma vez. Para brincar de contar os corpos inchados dos afogados e os pedaços de barcos e lemes e adriças e quilhas e estais e gaiutas e birutas. Birutas são as fadas. Mornas como as correntes do Golfo. Bruxas são geladas. Como as correntes de Humboldt. Cheias de plânctons, de peixes. Ou quentes pela chegada afrodisíaca de El Niño. Eu queria ser bruxa. Quando era pequena. Vassoura, caldeirão, poções de magia, chapéu de ponta. A carruagem das fadas não é segura. Ela rola no precipício. No precipício das bruxas. Onde moram as cobras, os lagartos, os sapos que nunca viram príncipes. E os corvos, essas criaturas dadas às carnes mortas. Que só comem quando sentem fome. Que limpam a sujeira que não fazem. Limpam, limpam, limpam. Para que as fadas pisem terra sem restos. Para que as fadas não cheirem a podridão da morte. Mas as fadas insistem em preferir os passarinhos. E os dias de sol. E os meninos e meninas com juízo. E os homens bonitos. E o pagamento em euros. Ou libras. Cotação em alta. E tudo cor-de-rosa. As unhas, as bochechas, o pôr do sol, a vulva, a moldura do espelho. Bruxas não gostam de luz. Nem de reflexos. Por causa das verrugas que têm no nariz. Que afastam os meninos e meninas cheios de juízo. E os homens bonitos. Bruxas só gostam da noite. Entranhada dos sons das criaturas invisíveis. E da igualdade mais estranha. Na escuridão não existe cor-de-rosa. Nem fadas. Porque as fadas dormem com as galinhas para ter a pele mais bonita. Eu queria ser bruxa. Desde pequena. E de tanto gritar para a boca da noite, ela me respondeu: Your wish is my command!
***
Bonecas
Sentada na beira da cama, inexpressiva, ela deixa que ele vista seu corpo com o vestido azul brilhante. O batom vermelho e os cabelos arrumados como os de uma boneca importada são detalhes que ele ajeita com meticulosidade assustadora. Com as mãos trêmulas, ele prossegue, tirando do bolso da camisa um par de brincos pingentes. São caros e já foram usados. Ela não é a primeira. Longe disso. É de meninas como ela que ele sobrevive faz tempo. Muito tempo. Meninas compradas por algum dinheiro, meninas que ninguém quer. Ele quer. Com a obscenidade dos monstros.
Não sente culpa. São elas as culpadas. Os demônios que o fazem desejar e obter. São elas, e seus olhos ainda sem história, e seus corpos ainda sem forma, que o atraem para o pecado. Por isso ele as odeia. Criaturas malignas. Feitas para lançar no inferno homens como ele, que não resistem à pureza.
É um vício caro. Porque ele não repete nenhuma delas. Uma vez tocadas, não servem mais. Mas de onde vem uma, vêm todas. Histórias e histórias que se repetem nas ruas e nas periferias miseráveis. Todos os dias. Meninas oferecidas por pais e parentes em troca de pouco dinheiro. Ou espalhadas por avenidas e portas de cinemas, de teatros, de igrejas, em bandos barulhentos. Ninguém sabe delas. Ninguém quer saber. Ele quer.
Geralmente, o cafetão as entrega num quarto de motel. Mas acontece de ele mesmo ir buscá-las, quando os instintos se descontrolam em urgência. As roupas, no entanto, ele faz questão de escolher. Cada vestido, cada sapato, cada colar ou brinco. Os batons e a maquilagem dos olhos são baratos. Comprados sempre em lojas diferentes, mas com a mesma desculpa: presentes para a esposa. Como se a dele usasse batom barato, maquilagem barata. Como se a dele não fosse tratada a coisas caras. Como se a dele se prestasse às imundícies que ele comete nos motéis. A cadela de luxo que não quer lhe dar filhos. Ela jura que não pode, mas ele sabe que é mentira. Logo ele não é pai. Ele que quer tanto as suas próprias crianças para ninar e pôr para dormir. Para serem só suas.
Faltam apenas as sandálias. Mas ela continua sentada na beira da cama. Esperando. Indefesa como todos os impotentes. Pensando que nas ruas estaria dormindo no chão duro, sem ter o que comer. Que estaria fugindo do cafetão que bate em todas as meninas como ela. Que estaria com frio. Apenas por isso, e por tudo isso, ela acredita que tem sorte de ter sido escolhida. E olha a boneca bonita e sorridente que ele lhe deu. A boneca que é mais cara do que ela. Mais limpa. Mais feliz.
Ele a toca. E ela pensa que talvez seja melhor dormir na rua, com fome, sobre o chão duro forrado com pedaços de papelão das caixas de supermercado, agarrando-se às outras meninas para não sentir frio. Mas também pensa em tudo o que mais quer: a boneca. Tão bonita, tão limpa, tão feliz.
Então, ela se lembra do pequeno presente que as meninas mais velhas lhe deram. Confere, cuidadosamente, sob a língua desacostumada, o aço da gilete. Ele se ajoelha para lhe calçar as sandálias douradas, de salto alto. Assim, os dois na mesma altura, ele lhe parece apenas o que é: um bicho pronto a dar o bote. Um bicho que agora esguicha sangue no vestido azul.
Lentamente, ela começa a tirar aquela roupa suja, mas sempre olhando para ele. Para as mãos que pararam de tocá-la e que agora tentam estancar o sangue que jorra do pescoço. Para os olhos que se desesperam, esbugalhados. Para o corpo que se contorce grotescamente. E os sons da besta em agonia estranhamente a alegram.
Ela não chora. Não pode. A boneca bonita, toda suja de sangue, precisa dela. Coitadinha.
***
Bomba suja
Sujos, mortos, frios. Sobre a lama misturada ao sangue, quatro corpos de crianças. Não. Cinco, que vejo agora mais um que se esparrama aos pedaços. Nos rostos, uma paz estranha que não tem em gente grande quando morre. Morreram sem saber, sem pressentir, sem querer, sem poder, sem valer para nenhuma estatística mundial ou para a grande mídia. Morreram de estilhaço, de explosão, de insensatez. Da contabilidade da guerra, que nunca fecha.
E, contudo, estão serenos na morte. Como a dizer que o deus que se chama Alá, Emanuel, Buda, Krishna ou Coisa Nenhuma está com eles. Será? Não esteve. E, se esteve, é fraco esse deus que não vê, não impede, não ergue a mão pesada sobre os poderosos gestores das carnificinas, nem estende a mão-escudo aos homens de boa vontade.
São anjos deitados em fila. Apenas dormindo. Um deles parece sorrir. E talvez seja isso mesmo. Ri de nós que sobramos neste lugar de desconsolos. Ri dos nossos protestos caseiros, das nossas teses distanciadas, dos nossos fracos vômitos de repúdio.
Seriam adultos bonitos, posso ver daqui. Quatro deles. A menina — única em meio aos corpos — cresceria mãe. Essa profissão macabra que engendra e alimenta humanos para depois vê-los cair, cadáveres, sobre a lama remexida pelas bombas sujas. Os três ao seu lado, eu os diria homem santo, agricultor e soldado. Dou-lhes profissão para não os imaginar mendigando pão ou carregando água em vasilhas sobre as cabeças infantes. Disso, já me fartei.
O homem santo ensinará aos outros que ter virtudes neste mundo garante apenas o próximo. O agricultor contará aos outros que não conhece o gosto do alimento que produz. O soldado mostrará a eles que a blindagem antiminas do moderno Al-Zarar que conduz é a única fé que o satisfaz.
Para a quinta criança não tenho profissão. Nem palpite. É um menino — conta alguém que o reconhece não sei como. E permanece lá, multiplicado pela lama ensanguentada. Sem rosto sereno, sem rosto algum. Apenas um futuro estilhaçado em pedaços de carne imolada. Ele me lembra o cordeiro em sacrifício, morto em honra do deus que se zanga e vira as costas e se esquece de ser mais pai que senhor.
Sigo a trilha abjeta daquele corpo de criança explodido pela bomba suja e ensurdeço meus ouvidos aos lamentos das mulheres que choram em ódio e incompreensão. Elas não me interessam. São, como tudo o que ainda resta vivo, revolta inútil.
Quero vasculhar o barro fétido. E buscar os olhos da criança enterrada na lama vermelha. Só eles me mostrarão se a dor se leva para o outro lado.
***
Arremate
Escuto o uivo do cão e por um momento quero voltar e abraçá-lo e lhe dizer que eu também preciso gritar. Mas se eu me virar sei que nossos olhares se encontrarão em solidão e ele vai me pedir que o leve comigo. Não posso. Não quero enganar o cão. Ele sabe. Lambeu tantas vezes meu rosto aguado de tristeza. Deitou-se em cumplicidade enquanto eu maquilava de afeto as máscaras. Foi um cão fiel. Caminhou ao meu lado, saltou feliz, abanou o rabo e latiu à porta. Mas foi também um amigo de silêncios prestados. Para onde vou não se leva um cão fiel. Apenas a carcaça dos erros e a pressa de esquecer o que é supérfluo: amor, decência, humanidade. Adeus, cão. Agora que fechei a porta entre nossos destinos, tudo fica mais fácil.
O caminho hoje está molhado. Eu prefiro assim. Não gosto quando os sapatos roubam o pó vermelho da estrada. Nem de deixar pegadas rasas que qualquer vento apague. Quando chove tudo é diferente. A caminhada afunda na abundância do barro e a terra se abre a um gozo de estocadas. É bom que ir seja em dia de chuva. Talvez eu também chova se ainda souber. Talvez eu tente desfazer o nó que desoxigena meu peito. Talvez eu só sinta saudade. Do armário cheio de roupas compradas para ir onde nunca fui. Da estante com santos, duendes, budas e patuás exaustos de me negar pedidos. Da risada estridente dos filhos que não tive. Do verde intenso roubado a uma janela aberta. De cada homem ao meu lado sob o lençol do dia seguinte. Do cão. Talvez. Mas de uma coisa tenho certeza: quero gritar entre a agonia e o livramento. Porque é bom que ir seja em som. É justo que a alma se esvazie num vômito barulhento. Até que o ritus se complete. E tudo seja paz ou nada. Antes de tanto, porém, um arremate. Preciso de alguém que me faça um último favor. É que me esqueci de mandar soltar o cão. Se ninguém abrir a porta, ele vai morrer sozinho. De fome, de sede, de abandono. O cão, não.
Cinthia Kriemler nasceu no Rio de Janeiro e mora em Brasília. É contista. Queria ser poeta. Autora dos livros: Na escuridão não existe cor-de-rosa (2015); Sob os escombros (2014); Do todo que me cerca (2012), todos pela Editora Patuá. E de Para enfim me deitar na minha alma (2010), projeto aprovado pelo FAC-DF. Na Amazon Brasil, mantêm os e-books Atos e omissões e Contações. Está em diversas antologias de contos, em algumas poucas de poemas. Escreve todo dia 16 para a Revista SAMIZDAT.
palco é precipício
passo raso falso risco
quando possível
incerto e plástico
de impacto previsível
ou talvez
dor inteira
no instante mínimo
em que se faz laica ………………….a vida
entre risos, rumores,
vaias, choros, mitos,
é ainda assim
o silêncio interno
fingir explícito
a múltiplos cúmplices
e por fim
sedento de aplausos
o pé tão firme
em chão descalço
exige de si
o alívio, o delírio
de ir além do recuo
– à queda imprescindível.
***
Leitura neon-reciclada
Despetalo
do olfato
o gosto pelo cheiro
de livro velho
livro novo
e adapto-me
a um novo formato
do qual a brochura
– outrora
imprescindível
enfeite cabível na estante – já ñ vincula páginas
pq hj
discorro os olhos
sobre a luminosidade ………agressiva
sem cheiro ou tato preenchido posto q a matéria
ñ mais palpável
morre
imune
a rabiscos riscos
dobras rasuras
fixada que está em tela
luzes cliques
***
assim é caetano
vez ou outra ..amargo
avesso a quase …..tudo
e até no papo
solto
que se bate
qualquer murmúrio
uma frase.
amar ..o caetano
dom de poucos
pq difícil
separá-lo
da arte
tragá-lo
sem som
deixar o público ……sujeito
à parte.
e quando cai
caetano
no júri moral
do populaço
o que fora amado
em singelas canções
sofre agouro …..inflamado
de quem detesta
quando ele testa
numa ideia
num compasso.
preferem vê-lo
ao mar
naufragá-lo
para se houver
talvez braços
achar ilha
em que se ache
[isolá-lo]
ver o caetano
delirado
mirar-se n’águas
a perguntar:
e pq não amá-lo?
***
Quentura
Esta quentura
suor e queimaduras
q o sol impõe e apavora
nos dias de verão
só não me causam
o subversivo gosto
de reivindicar
paulistanas garoas
ou horário marcado ….preciso
das chuvas q assolam
Belém do Pará
pq a luz q irradia
em Salvador
torna suave
meu olhar cansado
nas esquinas
de onde brotam
seios
quadris e coxas
q me convertem
o ensolarado grito: “Não acabe na mulher a menina ………………………….– Deus queira: a deleitosa estação ………………………….– nunca termine.”
***
Sem brechas para Brecht
Ter a irresponsabilidade
de Dalton Trevisan
– sem a necessária Curitiba –
é mais revolucionário que a bandeira de Brecht.
O cinismo urbano de Machado de Assis
é infinitamente mais oblíquo
que qualquer personagem proletário
de Brecht.
Até mesmo a proposital podridão de Bukowski
fede mais que os uniformes nojentos
dos dramas de Bertold Brecht.
(tudo,
pisando a grama,
como quem não sabe de placas).
***
Ofício
poesia é ofício de alto risco
que aos dedos do poeta
sofre embaraço
do inacabado esboço
teimosia do diamante …………quase pronto
sempre apto a ser lapidado
ou por desacerto
súbita menção a dilacerá-lo
lançar sem pudor
todos os versos ao lixo
pelo nobre motivo
do eterno recomeço
– nunca desperdício.
Cazzo Fontoura é poeta e escritor; escorpiano corrompido; pai de João, filho de Eva, tem uma mulher que é só dele; publicou um livro de poemas: Leitura neon-reciclada (editora organismo, 2014) e um de crônicas: Anticarta de Dona Lúcia – crônicas da fatídica copa do mundo no Brasil (Amazon, 2014); assina hoje o projeto Selfie Poesia (entrevistas com poetas), no youtube.
Todos fantasmas: A instrução da noite, de Maurício de Almeida
Por Rafael Gallo
Chego só agora que a noite é alta, Teresa, e os degraus se acumulam desproporcionais e cheios de saliências, deformando-se em espirais da garagem à porta desta casa na qual a chave
(com seus muitíssimos dentes)
não entra, veja, Teresa, veja. Soco a porta com violência para colocar a casa inteira abaixo, apenas a chave no chão rindo de mim numa mandíbula desmontada […]
Assim começa A instrução da noite, romance de Maurício de Almeida, recém-lançado pela Editora Rocco. Estreia do autor na narrativa longa, o livro é sucessor de Beijando dentes, coletânea de contos que lhe valeu o Prêmio Sesc de Literatura, e que traz algumas pequenas joias da literatura recente como Duelo, Cadência e Às quatro e meia da manhã.
Na obra mais recente, tratada aqui, um protagonista-narrador se vê preso a uma realidade familiar e pessoal com a qual não consegue conviver, e da qual tampouco se sente apto a escapar (“esse incômodo no qual fiz morada”), representada principalmente pelo ambiente doméstico. Não à toa, a história se inicia e se encerra com o personagem diante da porta de casa, incapaz de atravessá-la. O lar dilacerado de uma família moderna adquire atmosfera kafkiana, em uma narrativa que tem notável estilo particular, “com uma escrita severa e sincopada, mas também de alto teor poético”, tal qual aponta o escritor e crítico José Castello, na orelha do livro.
Um dos primeiros méritos a se destacar no livro é o de o autor dar conta do imenso desafio de conduzir, por páginas e páginas, um personagem ao mesmo tempo patético e dramático, sem permitir-se resvalar nos dois perigos sempre muito próximos: o sentimentalismo de seu lado dramático ou o deboche de sua faceta patética. Trata-se de um grande desafio para qualquer escritor e Maurício não falha ao conciliar os dois polos, para que eles inclusive se potencializem mutuamente, e não se neutralizem de forma tediosa, como seria fácil acontecer. É um feito admirável de construção textual.
Essa é uma daquelas obras das quais contar a história diz muito pouco, diante do todo. Mas, para efeito do mapeamento necessário, a sinopse poderia ser resumida no seguinte: o pai, que abandonou a família na infância do protagonista e de sua irmã, Teresa, ressurge sem que ninguém esteja preparado e funciona como estopim da crise pessoal do protagonista, da qual o romance capta um relance (não é difícil presumir que a angústia dele vem de muito antes e se estenderá ad nauseum após o fim do relato). Completam o restrito (melhor seria dizer claustrofóbico) elenco de personagens as ainda moradoras da casa: Alice, a namorada, e a mãe da família.
Todos esses personagens atuam como fantasmas (“nós todos fantasmas que não se resolvem com a morte e tentam aplacar o ressentimento assombrando-nos uns aos outros”), especialmente no sentido de serem ao mesmo tempo presença e ausência. Cada um traz diferentes matizes dessa dualidade e é interessante ver como se configuram suas particularidades. A mãe continuou com os filhos, mora com o protagonista até os dias atuais, mas é absolutamente alheia, impossível de se dar a um contato real, com seu sono e torpor por antidepressivos, seu silêncio e suas miradas ininterruptas à televisão. Alice tem um vasto (e excessivo) universo particular, do qual o protagonista e namorado não participa e pelo qual é intimidado, representado especialmente pelas fotografias que ela tira de si mesma e de outras pessoas. Teresa, a irmã, é a interlocutora imaginária constante, sendo a figura mais “presente” para o protagonista, que, no entanto, está sempre distante dela, no tempo e no espaço. O pai impôs o peso insuportável de sua ausência com o abandono (e a ideia desse abandono é uma grande presença) e, ao regressar, impõe a carga também intolerável de sua proximidade perturbadora. A presença ausente é de todos, pessoas descoladas de seus próprios papéis nos relacionamentos. A incomunicabilidade é uma chave central do livro, e o fato de o protagonista-narrador ter uma verborragia voltada apenas para si mesmo (ou para Teresa, a interlocutora imaginária que ainda não é nada mais que sua esfera solitária), sem verdadeiro contato com os outros, solidifica ainda mais as paredes que cercam os indivíduos da história, fazendo de cada um deles a sua própria casa abandonada.
Em uma das muitas cenas memoráveis do livro, a família se reúne para a primeira refeição com o pai após seu regresso perturbador, e os conflitos calados entre ele e o filho se revelam através de pequenos gestos. O descompasso entre a ação exterior e o universo interno do protagonista, sempre em ebulição, é um dos elementos mais perturbadores do livro. Maurício demonstra, nessas sequências, ser não somente um grande escultor da linguagem, mas também um rico observador e construtor de personagens:
Forjando imponência, observei as mãos dele graves e perdidas sobre a mesa, duas ossudas aranhas armando o bote que realizaram ao bolso da camisa. Os dedos amarelecidos pegaram outro cigarro, mas, dessa vez, ele parecia nervoso
(certamente os sapatos tamborilando o chão)
uma longa tragada irritadiça antes de perguntar novamente com uma voz mais gutural, rouca e seca de nicotina
– tudo bem?
ao tempo em que as pupilas dele se expandiram imensas naqueles olhos pequenos fincados em mim, uma réstia de fumaça lhe contornava o olhar que me diminuía e ao qual me curvei e fugi não sem antes responder num tímido fio de voz
– sim, pai.
A casa e a cidade em que moram são também personagens, também fantasmas, cujas caracterizações formam uma sinfonia de significados e expressividade bastante vigorosa. A atual morada da família é uma espécie de corpo desarranjado (“porque conheço a intimidade dos tijolos entremeados por fios tramando em volts os nervos desta casa”; o lar e a escola da infância são buscados, mas estão desfeitos como o passado (“a luminária descabelada sobre a porta em fios ou o zinco do corredor aos pedaços, as coisas transformadas em outras numa impertinência do tempo”); os monumentos urbanos se transfiguram, em impressionantes efeitos de plasticidade e dramaticidade. O melhor exemplo desse recurso é provavelmente a estátua do maestro Carlos Gomes, que ora está “regendo a tarde sob a qual nos sentamos neste bar”, ora “no dolorido silêncio de um câncer pendurado na garganta acenando adeus à orquestra que se afogou sonhando escafandros”, conforme os sentimentos expressionistas do protagonista-narrador. O já mencionado bar, com suas imagens entorpecidas, sua selvageria transcendental, mostra que a escrita de Maurício alcança um nível de elaboração que muitos dos escritores atuais, por vezes cultuados somente por inserir a palavra “bar” ou “boteco” no texto, nem sonham.
Maurício comprova, em A instrução da noite, que falar dele como um dos destaques da nova geração de escritores brasileiros é pouco. É um dos grandes autores em atividade, ponto. A leitura desse romance, tecnicamente primoroso e emocionalmente intenso, deixa o leitor assombrado como poucas obras são capazes.
Rafael Gallo é paulistano, autor do romance Rebentar (Record, 2015) e de Réveillon e outros dias (Record, 2012), livro de contos vencedor do Prêmio Sesc de Literatura e finalista do Prêmio Jabuti. Tem ainda contos publicados em diversas antologias, como o eBook Desassosego (Mombak, 2014) e a Machado de Assis Magazine (FBN, 2013).
Nathan Sousa (Teresina, 1973), é poeta, escritor, professor, tecnólogo em Marketing e letrista. E poeta, mais que qualquer outra coisa, já que é da costura lírica de seu verbo de onde nascem poesia, prosa e música – esta, aliás, que já lhe rendeu mais de 30 composições gravadas em parceria, dentre outros, com o maestro Beetholven Cunha, e que já foram interpretadas em Portugal e na Inglaterra. Radicado em São Gonçalo do Piauí, ele é autor dos livros O percurso das horas (Edições do Autor, 2012), No limiar do absurdo (LiteraCidade, 2013), Sobre a Transcendência do Silêncio (Prêmio LiteraCidade 2013), Um esboço de nudez (Penalux, 2014), Mosteiros (Penalux, 2015) e um romance: Nenhum Aceno Será Esquecido (Penalux, 2015). Mais que títulos exuberantes, que já revelam um pouco do perfume que exala de suas linhas, os livros do autor referido são fortes e bem regados; pois ele tem o cuidado que a palavra exige para os que dela bebem. É Ivan Junqueira quem nos alerta: “Não sou eu que escrevo o meu poema: / ele é que se escreve e que se pensa, / como um polvo a distender-se, lento, / no fundo das águas, entre anêmonas / que nos abismos do mar despencam.”. E é esta a sensação que desabrocha durante a leitura de um livro como Mosteiros, por exemplo: uma autonomia, porque, depois de sentirmos, instância primeira que se despe durante a contemplação de um artefato artístico, mesmo com os protestos da arte conceitual, notamos a palavra erguida de sua própria matéria, sem aquele zelo excessivo que deixa o verso raquítico e o poema sem corpo de tão insosso. O que se desvela é uma literatura sem arestas, mas proeminente de golpes e pétalas:
Destilado
não mais poderia aquela imagem flagrar o espanto em que meus olhos armou suas persianas de água. e agora que correr é um exercício de luz e córnea (um desentranhar de sonho e acervo) aparo as gotas de meu precipício para destilar a sede de outras intempéries, burladas entre o vermelho e o lenço.
A identidade de sua escrita é a beleza, em seu sentido mais vivo e carnal; é o lírico destilado, fecundado, cheio de imagens que pescam o leitor de um só arranque.
Integrando 20 antologias e sendo vencedor de 23 prêmios literários, dentre eles o Assis Brasil 2013, o II Prêmio de Literatura da Universidade Federal do Espírito Santo, o Prêmio Machado de Assis 2015, da Confraria Brasil-Portugal, e o Prêmio José de Alencar 2015, da União Brasileira de Escritores – UBE, Nathan tem poemas publicados em algumas das principais revistas de literatura do Brasil, é membro da Academia de Letras do Médio Parnaíba e membro-correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni-MG. Seus livros estão em 36 bibliotecas espalhadas por 12 países. Mosteiros está na lista do projeto de tradução da Universidade de Santiago, no Chile.
Mais que um vasto currículo para um escritor que vem publicando há pouco tempo, Nathan Sousa é poeta. E sua obra sussurra plenitudes e coerências, com o espírito daqueles que elegem a literatura como opercurso das horas.
Nathan Souza / Foto: arquivo pessoal
DA – Nathan, iniciando por uma pergunta clichê: como começou isso de escrever literatura?
NATHAN SOUSA – Fiquei realmente encantado com a literatura ainda na adolescência, com os livros de uma tia (Tia Nileide). Depois, aos 14 anos, em Teresina, eu conheci a Biblioteca Desembargador Cronwell de Carvalho e fiquei encantado com todo aquele universo. Acabei me tornando, e digo sem modéstia, um leitor compulsivo. Mas, decidir escrever, alimentando a ideia de um dia ter um livro publicado, isso só me ocorreu em 2010, quando eu já tinha 36 anos.
DA –De onde parte o que você escreve?
NATHAN SOUSA – Parte da combinação entre a minha experiência de vida (meu contato com o mundo real, minhas perspectivas, meus anseios, minhas perdas e ganhos), o acúmulo verbal que eu consegui ao longo de todos esses anos dedicados aos encantos da literatura, somando-se a isso o olhar automatizador que sempre me perseguiu e que está sempre muito afeito ao meu processo de maturidade. Este ímpeto pelo dizer que nós não sabemos mensurar, nem dizer para onde vai.
DA –A literatura é, por excelência, criadora de uma zona discursiva marginal, que trabalha com sentidos mais amplos e imaginários. Como você mencionou, somado a isso, a criação e a própria literatura são um “ímpeto pelo dizer que nós não sabemos mensurar, nem dizer para onde vai.”. Em que medida é possível “utilizar” a literatura? O que ela vale numa sociedade como a que vivemos?
NATHAN SOUSA – Há um “modo continuum” na natureza humana que direciona nossas ações para a satisfação das necessidades em seus avançados graus. Mas, pegando de empréstimo um termo do genial João Cabral de Melo Neto “isso ainda diz pouco.”. A literatura serve, antes de tudo, para nos fazer compreender melhor essa complexidade desenfreada de relações a que chamamos de sociedade. Impulsiona o homem para o mergulho na subjetividade e, de lá, abre seu campo de visão. Há centenas ou talvez milhares de livros, por exemplo, a respeito do sul dos EUA. No entanto, quando o leitor se depara com os romances de Faulkner, passa a ter uma compreensão maior desse amálgama de vidas, de relações econômicas, enfim…. do conjunto que formou aquela região.
DA –E você acha que ela á apontada como “difícil”, “cansativa” por um público por ser um mergulho tão intenso na subjetividade? Por perfurar mais que acolher?
NATHAN SOUSA – Literatura é, antes de tudo, uma devoção. É subir ladeiras sem se importar com as dores. E esse ato, para os verdadeiros escritores e poetas, traz sensações que passam despercebidas, tendo em vista que a leitura e escrita sempre serão atos da mais pura existência. Depois é que vêm a mídia, os holofotes, os prêmios, as badalações… mas se não vierem, a devoção continuará a mesma.
DA – O que significa, em seu íntimo, chegar aos lugares por onde a literatura tem te levado?
NATHAN SOUSA – Significa um reencontro. Sim, eu me reencontro de forma consciente nos momentos de experiências de leitura, de releitura, quando vou aos saraus, quando sou homenageado, quando lanço livros, quando falo, incansavelmente, de literatura, desta necessidade inexplicável de ler, de escrever, de revelar e se deixar levar pelos mistérios que a própria literatura arrasta consigo.
DA – O que é para Nathan Sousa ser premiado pela UBE e finalista do Jabuti?
NATHAN SOUSA – Os prêmios ajudam, principalmente, a divulgar a obra. Sabemos que a literatura não recebe um tratamento caloroso aqui no Brasil. Ser premiado, e em romance, pela UBE, seguido de estar entre os finalistas (em poesia) do mais destacado prêmio das nossas letras, o Jabuti, é afirmar que tudo o que eu fiz até aqui, em matéria de arte literária, valeu a pena. Já valeria sem os prêmios. Dá-me também a sensação de que as minhas escolhas (mergulhar nos clássicos e me refrescar com o que há de mais significativo na produção contemporânea) estão me levando para onde eu verdadeiramente quero, ou seja, para aprender a escrever melhor, sempre melhor.
DA – E além de escrever melhor, até onde você quer ir com/na literatura?
NATHAN SOUSA – Até onde minhas últimas forças puderem me permitir pensar, debater, ler e escrever, mergulhar nesse universo. Eu não conseguiria fazer outra coisa na vida. Portanto, ainda penso no mundo, na minha razão de viver, no sentido dessa caminhada, como uma grande biblioteca. Sou, assumidamente, borgiano, nesse aspecto. Ainda tenho muitas aspirações como poeta e escritor (a de continuar buscando novas experiências de linguagem com a poesia; a de escrever um grande romance (uma grande novela), a de ler muito, mas muito mais).
Nathan Sousa / Foto: arquivo pessoal
DA – Você fala sobre escrever um grande romance. O romancista e o poeta se encontram em algum momento?
NATHAN SOUSA – Sim, a todo momento. Eu costumo dizer que o que enriquece a minha poesia é a suposta afinação com a prosa de ficção e vice-versa (risos).
DA – Você saberia definir sua obra? Elegeria algum tema central?
NATHAN SOUSA – Certa vez, Garcia Márquez disse que todo escritor está sempre escrevendo o mesmo livro. Ele disse que o dele era o livro da solidão. Seguindo essa concepção do mestre do realismo mágico, eu diria que a minha escrita tem enveredado pela estrada da transcendência e do silêncio. Não sei definir com clareza a minha literatura, mas sei muito bem que eu realizo o ato de escrever para alargar a minha identidade, e não somente para me reconhecer existencialmente.
DA – Conte-nos sobre sua experiência como mais novo membro da Academia Luminescência Brasileira – ALUBRA.
NATHAN SOUSA – Fui indicado à Academia Luminescência Brasileira – ALUBRA, por dois membros de lá. A instituição tem sede em Araraquara-SP. As academias são clube e não seleção, como quer a maioria. Eu sou membro e atual secretário geral da Academia de Letras do Médio Parnaíba. Entrei aos 39, mais para representar o orgulho de minha mãe, que faleceu um mês antes da minha posse, no começo de 2013. Pelo menos no meu caso, a academia me aproximou de outros escritores e poetas de uma forma mais intensa e harmoniosa. Eu ainda acredito que muito pode e deve ser feio por essas instituições, principalmente no que diz respeito à divulgação da literatura de seus membros e da comunidade que cada uma delas representa. Ainda não vimos isso, mas eu não me sentiria bem em negar o convite e ficar do lado de cá, resmungando. Ainda sou membro correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni-MG.
Eu digo sempre o seguinte: Assis Brasil, O G Rêgo de Carvalho, H Dobal e Da Costa e Silva, quatro dos mais destacados nomes da literatura piauiense, fazem e faziam parte da Academia Piauiense de Letras. Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto e Jorge Amado faziam parte da ABL. Por que, então, eu me recusaria a ser membro de uma instituição literária que deseja ter meu humilde nome entre os seus?
DA – A respeito disso, é interessante pontuar a postura de alguns escritores que alegam não sentirem desejo de publicação, mas publicam, ou afirmam sua obra como irrelevante, embora aceitem convites para eventos literários. Como você vê este tipo de postura? Como é a sua relação com a “fama literária”?
NATHAN SOUSA – Com relação aos que se posicionam dessa maneira, a meu ver, querem conservar uma posição de elegância pela ausência, pela despretensão, por uma simplicidade que é típica dos que querem ser lembrados, mas não querem ser vistos. Tenho convivido com certa projeção literária em tempo muito curto de carreira, não nego. Eu tenho procurado aproveitar essa projeção para tentar realizar dupla função: promover a minha escrita/despertar o gosto pela leitura e a coragem para publicar. Tenho me deparado, ao longo dos últimos três anos, com poetas de boa qualidade, enclausurados na redoma do receio. Eu digo a que vim no meu primeiro poema (Combate, vide O percurso das horas – 2012): “Escrever poemas / é como rasgar a camisa / mostrar o peito / se armar com uma faca cega / olhar no olho do mundo / e autorizar: / pode vir”.
DA – Rasgar a camisa exige coragem. E além de coragem, como uma espécie de mensagem, o que mais você gostaria de dizer aos leitores da Diversos Afins? (desde já registro o meu muito obrigada pela sua disposição em responder essas perguntas).
NATHAN SOUSA – Eu agradeço imensamente por essa entrevista tão rica e tão amigável, o que não poderia ser diferente, em se tratando de uma entrevistadora/poeta com a sua competência e afinação com as palavras, e gostaria de dizer aos leitores da Diversos Afins que intensifiquem cada vez mais o gosto pela leitura. Ninguém sairá perdendo com isso.
Clarissa Macedo nasceu em Salvador e vive em Feira de Santana, Bahia. É licenciada em Letras Vernáculas (UEFS), mestre em Literatura e Diversidade Cultural pela mesma instituição e doutoranda em Literatura e Cultura pela UFBA. Atua como revisora e professora. Ministra oficinas de escrita criativa. É autora de “O trem vermelho que partiu das cinzas” (2014) e “Na pata do cavalo há sete abismos” (Ed. 7 Letras).
O ano de 2016 começa aqui na Diversos Afins com um repertório de possibilidades. A primeira delas é a de celebrar a continuidade dos caminhos, empreendendo esforços para que outros renovados encontros continuem a alimentar nosso trabalho. É também o ano em que completaremos dez anos de estrada. De fato, um marco temporal se assinala, mas o verdadeiro lado especial disso é constatar que alcançamos um patamar de trajetos através dos quais pudemos consolidar ainda mais o projeto. A revista tem servido como uma plataforma de potencialização de discursos, olhares e distintas formas de percepção da vida. E mesmo com as múltiplas individualidades mescladas num só caldeirão de expressões, o arranjo de textos e imagens consegue trilhar uma estrada harmônica e equilibrada. Somos um organismo vivo por natureza, tendo em vista as marcas humanas essenciais a tudo o que fazemos. Nesse início de ano, nada melhor do que elencarmos as vozes que agora chegam e que compõem uma nova investida editorial. Uma delas está diluída em toda a 107ª Leva. Trata-se de Deborah Dornellas, que com seus desenhos desperta por aqui reflexões em torno de sua valiosa capacidade de abstração. Em matéria de contos, há o atravessar de pungentes territórios por parte de autores do quilate de Kátia Borges, Claudio Parreira e Cristiano Silva Rato. Apresentando-nos uma recente experiência de leitura, Orlando Lopes compartilha suas sensações sobre o mais novo livro do poeta Jorge Elias Neto. Percorrendo um instigante caminho de indagações, Sérgio Tavares entrevista o escritor Julián Fuks. As vias da poesia são contempladas com versos de Alex Simões, Fernando Naporano, Ellen Maria Vasconcellos, Marcus Vinícius Rodrigues e Tanussi Cardoso. As linhas de Marcos Pasche estão voltadas para a obra poética de Alexei Bueno. No caderno de cinema, Guilherme Preger escreve sobre as sensíveis abordagens do filme brasileiro “Boi Neon”. Há também espaço para considerações acerca do disco de estreia do cantor e compositor Liniker. Tudo isso posto, caros leitores, sejam bem-vindos ao nosso novo painel de expressões!
só este pássaro perdido
que ainda insiste suas asas.
***
Uivo
Já não escuto o que é agudo ou grave
Mesmo as aves são mero voo obscuro.
Ouço apenas os mudos,
estes lobos de olhares ocos
a percorrer bosques de fome,
onde tateio uivos.
***
De como morder
Meu amor não me beija os pés.
Ele morde meus calcanhares.
Eu nunca escapo, embora tente,
e quase sempre engasgo
de também o ter entre os dentes.
***
Tudo que sei
Posso saber do mar distante
Pelo barulho longe
e do sol que brilha
pela sombra que o esconde.
Posso saber que a terra gira
só de olhar para o alto
e, tonto, olhos fechados,
ainda o sangue em correnteza
pela erosão do corpo gasto
na marcha da vida,
sei o que você não disse
na hora da despedida:
– Somos nossa única certeza.
***
Mensageiro
Era como um guerreiro
por entre as farpas do destino,
ia perdido e em seu caminho
colhia espadas que caíam,
o fio cortante de uma lembrança,
a lâmina cega de uma paixão,
o corpo em talhos de quem curar-se
sempre e em vão ainda tenta,
nesta sina de mensageiro
que em si leva a sentença.
Marcus Vinícius Rodriguesnasceu em Ilhéus-BA e vive em Salvador. Escreve ficção e poesia. Publicou os livros “Pequeno inventário das ausências” (Poesia, Prêmio Fundação Casa de Jorge Amado, 2001); “3 vestidos e meu corpo nu” (Contos, P55 Edições, 2009), “Eros resoluto” (Contos, P55 Edições, 2010), “Cada dia sobre a terra” (Contos, Ed Caramurê/EppPublicidade, 2010), “Se tua mão te ofende” (Novela, P55 Edições, 2014) e “Arquivos de um corpo em viagem” (poesia, Editora Mondrongo, 2015). Seu conto “A omoplata” venceu um dos concursos Newton Sampaio, edição 2009, promovido pela Secretaria de Cultura do Estado do Paraná.
Com o predomínio audiovisual dos vídeos pela internet e dos seriados que revigoraram a linguagem televisiva, esquecemos de perguntar se o cinema ainda tem algo a dizer sobre a função política da imagem. O melhor de Boi Neon, filme brasileiro de Gabriel Mascaro, ganhador do prêmio Redentor do Festival do Rio de Janeiro, e vencedor de vários prêmios internacionais, como Havana, Veneza e Marrocos, é o questionamento renovado do valor político da imagem cinematográfica nesse novo século, em especial nesse país que não se decide entre ser uma potência econômica central ou subalterna.
Boi Neon segue a “pesquisa estética de contexto”, como definiu o crítico Carlos Alberto Mattos, de seu filme anterior, Ventos de Agosto. O contexto, no caso, é o universo nordestino nos dias de hoje. Ventos de Agosto se passa no literal remoto de Alagoas, e aborda as relações culturais da lavoura de coco, atualmente uma verdadeira indústria cuja incessante produção escoa para circuitos alimentícios e turísticos de todo o Brasil. Boi Neon foca no Nordeste interior e sertanejo, de Pernambuco e Paraíba, com a mistura econômica e cultural das indústrias têxteis, das vaquejadas e do comércio equino e bovino, movidos todos pelas usinas térmicas que iluminam o frenético desenvolvimento econômico da região nos últimos anos.
Iremar (Juliano Cazarré) é um boiadeiro que trabalha com os rebanhos bovinos das vaquejadas, espécie de competição arcaica na qual cavaleiros cercam um boi para derrubá-lo agarrando-o pelo rabo. Além de cuidar dos rebanhos, a função de Iremar é passar cal e areia no rabo dos bois para facilitar o trabalho dos cavaleiros. Ele trabalha com uma trupe de companheiros que inclui Galega (Maeve Jinkings), motorista do caminhão que conduz o gado, sua filha pré-adolescente Cacá (Alyne Santanna) e outros dois boiadeiros. Juntos, eles formam uma espécie de “família estendida”, não apenas trabalhando, mas morando num barraco de argila no meio do sertão.
Esse retrato tradicional de boiadeiros é desde o início desconstruído pelo filme de Mascaro: logo nas primeiras cenas vemos Iremar medindo com uma fita métrica a cintura de Galega, numa cena que, se parece erótica ao espectador, é tratada com naturalidade pelos personagens, como um momento comum entre eles. Na verdade, Iremar é um boiadeiro apaixonado por costura e em seus momentos livres desenha modelos de moda. Ao longo do filme, muitos estereótipos da cultura brasileira serão bagunçados: Iremar é um vaqueiro apaixonado pelo desenho de estilo, Galega é uma mulher “bronca” que dirige caminhões e domina a mecânica dos motores (a exemplo de Vento de Agosto, onde também havia um caminhão dirigido pela mulher protagonista), mas se apresenta à noite em danças sensuais de cabaré travestida de mulher e égua, Cacá é uma menina que acompanha boiadeiros, e sonha com cavalos. Os outros membros da trupe, boiadeiros rudes, convivem com os demais sem maiores estranhamentos.
Juliano Cazarré em cena de Boi Neon / Foto: Rachel Ellis
Na verdade, o estranhamento, se existe, é apenas dos preconceitos do espectador que gostaria de imaginar uma realidade mais simplória para a pobreza nordestina. Boi Neon tem como sua principal virtude complexificar esse quadro, mostrando seus personagens num trabalho arcaico e na vida pobre, mas alimentando sonhos e fantasias modernas. Boi Neon não é um filme sobre o “Brasil profundo”, onde um contexto mais tradicional traria um olhar inocente sobre a realidade brasileira. Inicialmente, seus protagonistas são trabalhadores humildes que servem ao universo das vaquejadas, uma espécie de competição que recorda um histórico de maus tratos aos animais, inadmissível para o olhar urbano, mas que caminha junto com o aspecto lúdico das festas e das feiras nordestinas, sua tradição de folguedos populares. Por outro lado, as vaquejadas acontecem também na mesma região que se tornou um polo têxtil, com várias indústrias de confecção, polo que traz ao ambiente empobrecido e brutalizado dos boiadeiros e cavaleiros o imaginário ora estiloso, ora sensual, ora fetichista da moda.
Nesse contexto, Iremar é um mensageiro, um personagem que trafega pelos vários mundos que coexistem temporalmente. De um lado, como vaqueiro, seu convívio com os animais é rude, entre a violência e a ternura, numa relação quase horizontal. Podemos dizer que o filme propõe algo como uma “bestialidade estética”, sem que esse termo denote um sentido pejorativo ou negativo. Momento ímpar é a cena performática do cavaleiro e sua égua que interrompe a narrativa: numa dança erótica, animal e homem contracenam num bailado igualitário de afetos e sensações corporais sensuais. Os dois, égua e cavaleiro, terminam deitados juntos e agarrados. Nesse aspecto, Boi Neon é o exato oposto de Baixio das Bestas de Cláudio Assis. Bestialidade aqui é um “devir animal” que se opõe em sua potência de desejo ao mundo bestificado retratado no filme de Assis.
Em outro extremo, Iremar é um verdadeiro estilista de moda que desenha figurinos para danças sensuais nas festas. Ele domina a arte do desenho de moda e todo seu imaginário orbita na relação entre as formas do corpo e o adorno das vestimentas. Numa cena, Iremar desenha sobre uma “revista de mulher pelada” cobrindo o corpo nu e exposto das modelos com o desenho a caneta de peças de roupas.
Boi Neon embaralha os estereótipos das representações de gênero não porque retrata personagens em ocupações exóticas ou inesperadas. O que de fato confunde as classificações de gênero nesse filme não são as representações deslocadas, mas a transversalidade dos desejos que atravessam os personagens. E não se está falando de sexualidades cruzadas, pois todos os personagens mantém sua heteronormalidade “cis”, mas sim do desejo que alimenta fantasias e fetiches. Iremar sonha com o mundo da moda e elabora figurinos que dão vida a fantasias de glamour e neon, mas isso não torna sua ocupação de vaqueiro insuportável, mas é aquilo que num ambiente pobre e inóspito permite a ele continuar vivendo com dignidade. A fantasia da moda abre para Iremar outro mundo que não é incompatível com o mundo de gados e cavalos, mas que se adiciona a esse, o enriquecendo de forma complexa. Há uma cena exemplar no filme sobre a função emancipatória da fantasia. Quando Iremar e Galega discutem o sonho de Cacá de ter um cavalo, Galega, sua mãe, se preocupa: é bacana, porém sua filha jamais terá um cavalo. A essa afirmação, que segue um estrito princípio de realidade, Iremar lhe contrapõe: “Isso nunca se pode saber”. O desejo é aquilo que abre um mundo de alternativas à realidade existente.
Melhor dizendo, o desejo é o que permite a coexistência de muitos mundos com temporalidades diversas. Uma das principais virtudes do filme de Mascaro é apresentar imagens cuja potência expressiva está em nos mostrar a contaminação recíproca entre mundos e tempos diferentes. Isso se dá numa reflexão sobre a imagem que aparece como um vértice de contrastes que não se excluem mas se impregnam mutuamente. Em outra cena ilustrativa, Iremar, que domina a linguagem do desenho gráfico, quer produzir um logo, uma marca para suas vestimentas e vai a uma loja de impressão. O rapaz da loja lhe diz então que a imagem precisa ser “vetorizada”, querendo dizer simplesmente que ela precisa ser digitalizada, o que pode ser feito numa lanhouse qualquer. Assim, essa cena reúne três níveis de imagens: a imagem tradicional desenhada pela mão de Iremar, a imagem do “logo” que é escrita para ser impressa e a imagem digitalizada.
Essas imagens, com lógicas distintas, se sintetizam na imagem em movimento cinematográfica. E o que se move como veículo dos desejos que ancoram mundos e tempos são os corpos dos personagens, exuberantemente retratados na tela de Boi Neon. Se Iremar realmente é um mensageiro que atravessa mundos e tempos distintos é porque seu corpo é carregado de desejo. Habitando uma região em rápida transformação econômica que é ao mesmo tempo agrária e tradicional (onde não se veem celulares ou computadores) e outra que é industrial, com usinas térmicas e fábricas de roupas, o corpo de Iremar está fendido pelo desejo para se deixar contaminar pelo imaginário da moda e da festa. Não por acaso, sua única relação sexual no filme será dentro de uma fábrica têxtil. E ele não é o único personagem capturado pela lógica subversiva do desejo, pois a aura fetichista da moda que paira sobre o sertão desolado ao redor das fábricas têxtis parece contaminar os corpos de todos os personagens. Fetiche que não se transforma nunca em aprisionamento das vidas, mas é devorado pelos corpos, de humanos e outros animais, compondo as fantasias que os fazem reluzir de glamour e neon.
Guilherme Preger é engenheiro e escritor, autor de “Capoeiragem” (Ed. 7Letras) e “Extrema Lírica” (Editora Oito e Meio), e também organizador do Clube da Leitura da Baratos da Ribeiro no Rio de Janeiro.
As estrelas estremeceram quando a avalanche de pobres, sem conotações, passou a descê-las e seus valores começaram a deturpar-se em meio à solidão das notas recolhidas. Seus valores já não existem mais. Fodas. A cidade é o próprio artifício, indigestão recheada de restos. De tudo. Nuvens cinzas em um outubro de um ano marcado pela falta de sensatez. Humanidade. Estúpida. Perdida nas porras dos números. “Esclarecidos” da modernidade, esses moderninhos filhinhos de papaizinhos “esclarecidos”. Nem sei se devo tomar partido. Às vezes me recubro de pensamentos fascistas, quero persegui-los e demonstrá-los em gráficos como animais em extinção. Quantos por cento? A quantidade necessária. Cientificamente inferiores, não é? Não são inteligentes. Será que têm alma? Matar todos.
Esta noite os sons se ruíram. Me atirei como uma foice russa na direção de todos e queria acariciar, dolorosamente, seus fios de cabelos bem cortados e aparados. Suas roupas estetica-mente, perfeita-mente fora dos eixos. Toda revolta simulada me dá nojo. Subi como louco em uma das mesas do Mc Donald’s e, em gotas, saiu a, vodka, b, o cachorro-quente do tio da esquina com bastante maionese e ketchup, c, o álcool etílico, que queimou minhas cordas vocais, por isso, acho, não urrei feito um motor de caminhão no meio da madrugada. Provei em segundos aquele gosto azedo do vômito no salão e nos corpos purificados que estavam lá.
Interferência – Antes do fogo queimar, vaguei feito o desespero, haviam olhos ardilosos/ porco asqueroso/ o ar sempre fica pútrido/ algo neles me arrepia.
Passo vagamente. Um felino, rajado, cambaleando por todos os lados, dançando feito um chinês americanizado dos filmes da Sessão da Tarde. A metáfora não é uma metáfora. Os sentidos estão menosprezados na massa ardilosa assentada toscamente em uma parede de um quarto de motel na Guaicurus com São Paulo. Todos os cômodos deste hospício são resquícios de pessoas perdidas nas esquinas mal iluminadas, cheias de carros novos e sem-tetos. Virei a lágrima na boca e reconfortei a mente com mais um pouco. Chega.
Estamos agora parados em frente à máquina. Ela nos olha, vigia-nos, foi programada para isso. Logo chegaram os guardas, com seus olhos esfumaçados enxergando microcoisas, treinados, socando e atirando, dissimulando, nos campos de concentração. A raiva sob os olhos. Necessidade e desejo de tocar algo real. Senti uma forte pressão nos calcanhares, como se fosse uma batida entre caminhões frigoríficos. Meu peito ardeu com a mão, mas os dentes resistiram ao impacto com o chão. Olhei debochadamente para todos e sorri.
***
Trilha sonora
Belo Horizonte. Aqui todo dia tem uma manifestação. São professores, músicos, carteiros, moradores de rua. Isso, antes mesmo de virar moda. Todos os dias chego, me arrumo para labuta, depois de navegar dentro de dois ônibus lotados, e caros. Esse, por sinal, o estopim para qualquer mente cansada do barulho da cidade. Nem é mais só o centro. Tem carros com auto-falantes enormes, caixas de som portáteis e uma infinidade tecnológica de microaparelhos, servindo para tudo. Desde a sacanagem liberada a uma forma de divulgar a violência do Estado. Eu, vamos assim falando, há muito tempo cansei de pedir explicações destas tais autoridades, virei ateu. Nem azul, nem vermelho, nem rosa choque. Vivo com meu sax, nas ruas, das ruas e para as ruas, há muito tempo ocupo isso aqui, a única verdade, acredito, estas veias que pulsam.
De repente o tempo não era mais… Há alguns dias, o barulho mudou de tom. Um cheiro, esteve parado, circulando, como os gritos, outra hora, um copo de cerveja. Quente. Mijo, à revelia no poste à minha frente. Em seguida cambaleio até o Fórmula 1. Não sei se sou eu, ou outro, caminhando, com seu virtuoso, pomposo, entendimento da psicanálise clássica. Seu grupo. A música é a morte anunciada. Adolphe Sax e seu invento mágico. Há sempre um compasso, uma cadência, uma levada, mesmo quando nós… Tento acompanhar. A bota de couro apressada, pisando em papéis descartáveis, leve fantasia de uma criança sendo arrastada pela mãe, pela tarde. O medo.
Me surpreendi aquela manhã. Ouvi rumores. Mega manifestações em São Paulo, não achava que chegariam a BH. Nem pensamento. Talvez, sonho, mais truculento, energético, vandalístico, vivo. Por aí vai. Creio, até, fiz uma trilha sonora. Acordes dissonantes. Cambaleio pelo pouco espaço que sobra, os pés tentam seguir aquele ritmo. Trilho um, dois, três, não consigo mais contar. O beque, bolado. O ouvido afinado. Morto como Cristo no terceiro dia, de todas as formas, grito junto com a multidão. Uivo. Ginsberg. Meus dedos perderam o controle. O sopro vem junto com o tambor, com a macumba…
Mais um… engrosso o caldo desse feijão… tropeiro. Caminhamos, marchamos nesta festa. Risos altos. De principiantes. Lembro bem. Como esquecer tanto alvoroço pela manhã? O centro, sempre com seu ritmo conservado. Passos apressados, polícia para todo o lado. A praça. Aquela manhã não. Apareceram uns “bombadinhos”, sem saber o que fazer, lembro, tomei um bicudo. Filha da puta! Pensei. Em manifestação tem de tudo, até caso de possessão, vai explicar como uns caras pegam armas e atiram contra seus vizinhos, familiares e desconhecidos.
Não querem mais manter as portas abertas. Os bares. Botecos. Lojas de outros gostos. Bancos. Tropeço e erro a nota caída ao chão. Sorrio bem alto. Há uma tropa no meu gargalhar, meus dedos esquecem o corpo, perco a consciência quando queimo. Não deixo escapar o barril de minhas mãos. Álcool. Amargo, adoçando o fogo cristalino de séculos de abandono. Eu. Nunca estive tão só. Uma moça de trajes elegantes, hoje, curtos e colados ao corpo, realçando seus dias, bem alimentada e bebida de primeira, com maquiagens sutis como devassos moribundos, rela sua perna, no meu pé. Carrega um cartaz. Me olha com desdém, como se tivesse pisado em merda. Pegue minha mão. Pois a casa está quente garota. Me deixe levá-la para dançar. A casa está quente, baby. Eu grito, eu canto, desafino. Atinjo outros tons. Consigo ouvir o piano, a bateria. A casa está quente. Todas as calças são iguais. Saco da mochila o sax e acompanho a melodia. Dou mais um gole, na bebida, respiro. Sopro meu momento na multidão.
Relação mais próxima com a praça, ou pedra como os malucos costumam chamar. Os malucos de estrada, ou artesãos de rua, ou hippies, e/ou micróbios, na verdade existe uma infinidade de tipos e variantes. Nenhuma controlável, todas com suas liberdades, malucos. Existe uma proximidade de… “Traz logo a cerveja pô”. Como ia dizendo, maluco… A cidade é mesmo algo insondável, cheio de tipos, e esses, de repente, se agruparam no centro, na praça sete de setembro, em junho, foi um hospício. O que teve de notícia, de branquinho voando para o exterior, não cabia no jornal. Foram dias agitados. Nunca vi tanta gente reclamando ao mesmo tempo e na falta da voz, apareceu cartaz feito até com papel higiênico. Acho que até vi alguém vendendo cartaz. Mas cada um ajuda como pode, né? Quando aquele povo todo começou a andar em uma direção, pensei umas duas, três, e por aí vai, se ia ou não com eles. No meio disso tudo, vi passar uma galera, com instrumentos, tambor, macumba, violão, pandeiro, apito…
Tinha de tudo. Hipocrisia. Verdade. Fé. Tudo misturado. E alguém, e alguns, uma grande maioria, sem saber sobre o deserto. Ao olhar. De baixo para cima, e retorno, não escondo o volume crescendo. Meu escárnio. Abro a mochila. Lhe grito. Tocarei Sing Sing Sing, em homenagem ao seu belo sorriso… sua luta… e cartaz. O pisar fica mais pesado. A melodia… perde… a alegria… entra tristeza. O sentido do domínio. A alegria. Deixamos de sonhar… ou sonhamos demais? É preciso atingir a realidade. Observo seu pesar. Desisto. A casa não está para alegrias anunciadas. Ela adentra a multidão, como vulto tortuoso, um enigma. Retorno ao meu confinado pensamento, e um irmão, maluco, esses que ficam vagando pelo mundo, pelo menos, o Brasil, me oferece outro trago em uma garrafa com tantas misturas, que seria difícil para um químico descobrir a origem. Ah! Esses alquimistas de rua. Preparam os melhores venenos.
Cristiano Silva Rato nasceu em Japonvar, norte de Minas Gerais. Viveu a infância em Belo Horizonte (Vila N. Sa. de Fátima); a adolescência em Contagem (V. Pedreira Santa Rita), na Ruína II (V. Primavera), em Ibirité, e a juventude na Vila Formosa (BH). Atualmente vive no Morro do Papagaio, também na capital mineira. Em todos os lugares morreu e nasceu. No momento possui um blog (desatualizado). Tem um livro publicado (Sentido Suspenso, lançado em 2012, pela Editora Multifoco) e textos espalhados pela web e fanzines.
Verdade é uma palavra que, de tão aborrecida, muitos têm medo de pronunciar. Há quem relativize seu conceito por temor ou respeito a opiniões contrárias. Por seu curso, tem também quem faça uso dela por vias deterministas, rio que desemboca no pantanoso terreno do absoluto. Afirmar que uma verdade é universal, por exemplo, é assinar um papel em branco, convite a se perder no labirinto da insensatez.
Falemos, pois, da capacidade que uma pessoa tem de delinear sua própria identidade com uma noção de verdade que é essencial à sua sobrevivência. Assim o é quando testemunhamos a expressão de um artista como Liniker. Quem o vê pela primeira vez pode tentar imaginar que a apresentação visual com a qual ele se reveste é um mero arranjo cênico de possibilidades. No entanto, há muito mais por trás disso tudo.
Vindo das paragens interioranas paulistas, mais precisamente de Araraquara, Liniker aparece para o mundo tal como gostaria de ser visto, um sujeito sem definições de gênero. Nos palcos, veste-se com trajes femininos, usa batom e deixa brotar solto todo o vigor e precisão que emanam de sua voz. Dentro dessa representação estética, não compõe um personagem, pois, do mesmo modo que se traja nos shows, assim também é seu cotidiano.
Sua aparência não deixa de ser um importante fator de discurso e de afirmação, mas, em se tratando de música, é relevante destacar que Liniker possui um talento tanto voltado para o canto quanto para a composição. A voz é marcante, com uma colocação discretamente rouca, e vem apoiada por letras autorais que orbitam em temas como o amor e por perspectivas de identidade e gênero.
Liniker / Foto: divulgação
O caminho escolhido pelo artista em Cru, seu EP de estreia, é o da black music, com pitadas clássicas de funk e soul. São três faixas que ficam como um grande prenúncio para o que poderá ser a carreira dele, verdadeiro aperitivo. Assim sendo, Liniker não é promessa, e sim realidade. E, pelo visto, ainda tem uma gama de coisas a nos oferecer nessa estrada que se mostra longeva e fértil.
Carro-chefe do disco, Zero é uma canção que nos toma de assalto. Vem com uma suavidade soul ao mesmo tempo em que perpassa as alamedas do desejo avassalador. O saldo do amor ali cantado é crer que o coração é uma espécie de cofre com memória, onde o que é belo pode ser devidamente acolhido e guardado.
Em Louise Du Brésil, uma pegada funk setentista toma conta dos espaços. É uma celebração de vida muito bem arranjada com elementos de nossa brasilidade. Já Caeu, a outra faixa do disco, atravessa os cenários das relações numa perspectiva imagética bem interessante, desenrolando um enredo plausível de sensações.
O trabalho tem um cuidado especial com os arranjos, sobretudo no que se refere ao uso de sopros. Reunindo a atmosfera vocal com as potencialidades sonoras dos instrumentos, Cru é um disco que pontua um universo todo marcado pela delicadeza.
Num momento em que as discussões sobre questões de gênero andam a boiar num grosso caldo fervente, a arte sempre aponta caminhos de libertação. Segui-los é imperativo porque a verdade de cada um confere sentidos às coisas. Tudo aquilo que nos envolve em aparência pode ser uma fabulosa ferramenta de comunicação, não apenas uma banal casca.
Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.