O segredo atrás da porta:
Olhos
absorvendo
cores e musgos
do mundo em silêncio
Segredo:
A cor sugando ..a vida
pelos olhos
***
Cisão
O pássaro não pensa
em seu corpo
O pássaro não pensa
em seu movimento
O pássaro não é dois
O pássaro é uno
É movimento
que se realiza
***
Rasgo
Trago o tempo entre os dentes
é preciso morder a existência pelas bordas
para que não escape
É necessário rasgar a carne
para o que está dentro
possa vir à tona
Rasgar entre a luz e a fumaça
Mexer as imagens com os dedos
Acordar entre a loucura e poesia
Sonhar até ficar vazia
Não há mais delicadeza
Apenas pólvora queimando sem rima
Poesia frita em óleo sujo
Translucidez
O ser é tempo iluminado
que se desdobra em sua espessura
e vira a esquina
***
Púbis
Raízes crescem nos pés
sobem pelas pernas
se entrelaçam nos pelos
Enterrando-se no concreto
descobrem a terra escondida
Arrancar toda a pele
Para encontrar-se com o avesso
Desfigurar as palavras
até que não sejam mais de ninguém
***
Fragmento
Espero pelo raio
na textura efervescente do dia
Os pensamentos
extraviam-se nas folhas
Padeço de fragmento
Hesitado vai o tempo
Monica Marques nasceu no carnaval de 1988 em São Paulo. É poeta, formada em filosofia pela Universidade de São Paulo e, atualmente, desenvolve projeto de pesquisa. Com Transversais (lançamento em breve pela Ed. Patuá) foi finalista e recebeu menção honrosa no Programa Nascente 2014 promovido pela USP.
Comentários sobre Corpo SepulcroouO extenuante júbilo da morte
Por Maurício de Almeida
1. O corpo sepulcro
Autor dos romances Retorno ao pó, No vale de ossos secos, Amor em tempos de solidão e Terapia das almas suicidas, Mike Sullivan lançou recentemente mais um trabalho, que nasceu reconhecido: o romance Corpo Sepulcro recebeu menção honrosa no Concurso Nacional de Literatura Prêmio Cidade de Belo Horizonte, em 2013.
Corpo Sepulcro é um livro trágico. Resumidamente, o narrador sofre de uma doença degenerativa que o paralisa por completo, fazendo-o perder não apenas a independência funcional, mas progressivamente todos os sentidos. Ao receber o diagnóstico, o narrador se questiona:
Como seria ver meu corpo morrer pouco a pouco, transformando-se num sepulcro a envolver minha mente ainda viva?
Da resposta provém o romance: absolutamente incapacitado e deixado à morte, ao narrador resta apenas o olfato e a capacidade cognitiva que o permite realizar um exame de consciência, rememorando as culpas que guiaram implacavelmente a vida e que, afinal, resultaram na situação absurda em que morrerá.
Nessa revisão, recupera-se a trajetória de um tradutor que se vê obrigado a retornar ao Brasil para amparar a mãe no momento em que o pai fica inválido por conta de um AVC. Esse retorno ao país é também um retorno ao passado – e a todas as culpas que o pautam e das quais quis fugir em um intercâmbio para a Inglaterra. Embora tente reiniciar a vida, ao assumir a tradução de Orlando (Virginia Woolf) e se embrenhar em um relacionamento casual com a editora Jasmine, compreende-se que a culpa do personagem é inescapável e se tona força motriz de uma vertiginosa derrocada.
Narrado em primeira pessoa, há dois elementos que conduzem a trama por serem obsessões do personagem: o olfato, único sentido que lhe resta no momento em que narra e, portanto, por meio do qual ele conduz suas recordações, e a morte, constante dramática que guiou a vida ao estabelecer com ele um jogo – a morte o persegue na medida em que ele persegue a morte.
2. O cheiro ou He was born a scentless apprentice
Já nos primeiros capítulos do livro somos informados sobre o evento fundador do personagem, seu drama de origem: a morte de Dominique, a irmã gêmea. Constante e veladamente reiterada pelos pais, a culpa do narrador decorre de sua participação na morte. Contrariando a mãe, foi por insistência do personagem que o pai retornou com os filhos ao lago no qual haviam passado o dia. Uma fatalidade faz submergir a irmã, que nunca mais foi encontrada.
Esse fato leva uma família aparentemente comum à ruína. E sob o signo dessa morte vive o narrador de Corpo Sepulcro. O mérito de Mike Sullivan é demonstrar como o personagem reencontra o evento da morte da irmã em todas as tragédias que o cercam e, por isso, se responsabiliza por elas. Não por acaso, a culpa já insuportável transforma-se em autoflagelo, como se a expurgação fosse impossível e a única solução é tornar-se vítima constante de uma morte perpétua.
Interessante notar o funcionamento dessa engrenagem: devido ao seu estado debilitado e tendo à disposição apenas o olfato, é por meio do cheiro que o personagem conecta todas as tragédias à tragédia fundadora. No entanto, ele não possui registro algum desse acontecimento originário que, justamente por isso, aceita todo e qualquer odor que o personagem entende por trágico.
Assim, as iniciativas desesperadas e inúteis de expurgar a culpa são direcionadas por esse entendimento: mijo, merda, suor, porra, corrimentos e inúmeros odores hediondos o rementem ao sexo furtivo e marginal. E, afinal, rementem a ele mesmo:
Dei-me conta então de que a origem da podridão se dava em mim, incrustada nessa personalidade de estrutura arenosa. Aceitei essa condição. Entreguei-me aos perfumes mais ordinários, e passei a extrair prazer daquilo que era considerado repugnante pela maioria maciça dos humanos. Eu queria ser apenas um libertino, um depravado, um imoral.
Eis o movimento circular que inicia o giro: a culpa que leva ao sexo que retorna à culpa – e a espiral que se realiza tem como ponto central (e inatingível) a morte.
3. A morte ou Wine is fine but whiskey’s quicker, suicide is slow with liquor
Ao longo de toda história que antecede a invalidez, o narrador consome quantidades excessivas de álcool. Tal qual o sexo, o álcool corresponde a uma suspensão da consciência que de certa forma o aproxima da morte, possibilitando, na verdade, que ele morra indefinidas vezes, e criando também uma punição constante às tragédias pelas quais se responsabiliza.
Dessa forma, justifica-se o jogo que ele estabelece com a morte: ela o persegue na medida em que ele a persegue, pois, devido à culpa que assume pela morte da irmã, ele pauta a vida por todas as mortes que o rodeiam, uma vez que é responsável por todas. E elas são muitas: o intercâmbio à Inglaterra para fugir da irmã, o retorno ao Rio de Janeiro para acompanhar a agonia do pai, a esbórnia deflagrada pelo acidente do cão. E é, afinal, em sua derradeira tentativa de reverter o desgoverno da vida que o narrador encontra a morte derradeira: a esposa.
4. A curva extrema do caminho extremo ou Die, die my darling
Por vezes, o narrador soa como se rodeasse o problema, mas temesse eviscerá-lo. Nomeá-lo é um primeiro passo: a morte da irmã, a responsabilização e fúria passiva-agressiva da mãe, a doença do pai, o ressentimento de Jasmine, o escapismo pelo álcool e o sexo como entorpecimento. Que esses fatos são mobilizados pela culpa que sente e da qual não consegue abrir mão, ele assume com todas as letras. Entretanto, existem situações e reações do personagem que soam amenizadas em seu relato, como se declinasse uma análise mais profunda para somente descrever os acontecimentos.
É verdade que, feito um autômato, o personagem apenas reage obsessivamente e a repetição do ciclo álcool-sexo-culpa-álcool leva à insensibilidade. É verdade também que a história narrada são reminiscências que, por sua natureza, permitem distanciamento. Mas julgo haver um elemento que justifique esse comportamento quase desinteressado e passivo: a impossibilidade.
Considero Corpo Sepulcro um livro sobre a impossibilidade. Lidando constantemente com a morte, a maior das impossibilidades, e encenando-a de diversas formas sem conseguir de fato realizá-la ou ao menos expurgar a culpa, o personagem relata desvarios, pois sabe que eles foram vãos. Corrobora com essa leitura um símbolo persistente na maior parte da história: a tradução inconclusa de Orlando. Antes de ser solapado pela doença, o personagem faz a seguinte confissão à editora:
É que me vi impossibilitado, de maneira muito misteriosa, de traduzi-lo.
Ademais, não se pode esquecer que a narração acontece quando o personagem se descobre finalmente realizando a curva extrema do caminho extremo, o que a ele significa alívio, mesmo que a situação seja absurda e angustiante. No limite, portanto, ele discorre sobre situações impossíveis e passadas que, se possuem desdobramentos, no momento em que são narradas significam muito mais despedida, uma vez que será permitido a ele esquecer. E, como não poderia deixar de ser, não haveria outro desfecho ao livro senão o personagem ser velado pela própria morte.
Maurício de Almeida é autor de ‘Beijando dentes’ (Ed. Record), livro de contos vencedor do Prêmio Sesc de literatura 2007.
Reparem no descaso
das formigas
no espelho fosco
das placas de gelo.
Morrem, …….aos montes, …………em fila, ……agarradas
à impossibilidade.
***
Ilustração: Felipe Stefani
Discurso para o cadáver
Teus olhos
não mentem
essa simplicidade
em dizer:
tão breve, a vida,
enquanto saturamos
o ar
com subterfúgios
e preces.
Do ponto
Em que se parte
– se esquece –
o espectro
da carne ………… – do irremediável.
Da carne
à cinza,
do torrão de
terra
ao desprezível
mármore
– questão alheia –
(prevalecerá a vontade …………..do Universo).
Que os vivos
tratem da espessura
das trevas.
A você, o privilégio
da dimensão
onde se plantam flores.
Agradeço
a sinceridade
azul
em teus dedos,
ao lançares os dados
que julgarão
os versos
impossíveis.
E o que disse
da memória…
A memória sem lar,
desnecessária,
posta a ausência
cúmplice.
Se pudesse
te acenderia um cigarro…
Deixaria a guimba ………….pendurada.
em teus lábios.
(Como é bela e …………..inútil
a última centelha…)
Logo
chegarão.
(A boca aberta da cidade …………..despeja ………………..suas crias.)
Vestirei a máscara
e restarei
um momento – breve –
(o tempo de observar a indecisão
das chamas perante o choro ……….humano).
***
Ilustração: Felipe Stefani
Clandestino
A verdadeira clandestinidade
se pratica simplesmente mantendo-se vivo
Jorge Elias Neto
Acorda-se do último sonho
em uma esquina vazia,
e o que se acreditava
se dispersa
além dos olhos.
O contorno das montanhas
desfez o sentido
das encruzilhadas
(desvios
só interessam aos apressados; ………….. e já não se tem mais pressa).
***
Ilustração: Felipe Stefani
Os raios oblíquos da manhã
Poesia
não é encosto,
não é escora
Na primeira manhã
foi um entregar-se à dádiva
da escolha.
Passam os dias,
e as encostas
escorrem sob o peso
do que se repete.
***
Ilustração: Felipe Stefani
Matilha
Amor: quantas palavras necessárias para
que um gesto se torne inscrito no tempo?
Hilton Valeriano
Nomeados
os lobos,
desembanhei os caninos …… – incógnitos –
e ensaiei a dança
solitária
do uivo
na imensidão austral.
***
Ilustração: Felipe Stefani
Fração do indizível
O branco desse gelo
é todo poema – …….verdade possível.
Entre o amor,
e outras alucinações,
o inefável me acena
caridoso.
(A grande face
e sua biografia …….de renúncias
e equívocos.)
Minha distância
não é exercício de retórica,
apontamento
de um ególatra,
tons pastel despejados
na boca de lobo.
Não há indiferença
quando parto
e retribuo
o aceno.
Jorge Elias Neto (1964) é médico, poeta, cronista e ambientalista. Capixaba, reside em Vitória – ES. Livros: Verdes Versos (Flor&cultura ed. – 2007), Rascunhos do absurdo (Flor&cultura ed. – 2010),Os ossos da baleia (Prêmio SECULT 2012), Glacial (Editora Patuá – 2014) e Breve dicionário poético do boxe (Patuá – 2015). Colabora com poemas em vários blogs e na revista eletrônica Diversos Afins, Germina, Mallarmargens e no Portal Literário Cronópios. Membro da Academia Espirito-santense de letras, onde ocupa a cadeira de número 2.
“Eu gosto dos que têm fome Dos que morrem de vontade Dos que secam de desejo Dos que ardem.” (Adriana Calcanhoto – Senhas)
A dor e a sensação de intumescimento aumentando, uma sede horrível queimando-lhe a garganta. Tateou no chão, perto da cama, o copo plástico e a moringa com água. Bebeu o resto da água que havia e deixou cair pesadamente a cabeça no travesseiro. Depois de serenada a sede, recordou-se do alívio que sentira quando interromperam a música do trio elétrico em frente ao palanque dos homens do governo. “Não sei de onde o Genésio saiu. Eu naquele desespero, sem saber o que fazer, para quem apelar. Contei a ele. Ele me disse: toma um gole. Liga não, corrente. Ó, se tu quiser, tu pode entrar num lance comigo e mais dois bróder. Ó, vai rolar a maior grana, tá ligado? Na quarta de cinza vamo estourar um caixa vinte e quatro horas na Pituba… Mas, ih, cara! É nenhuma para você, deixa, esquece, eu só falei por falar, só porque cê tá nessa de horror aí com o tal do isopor. Você é moral, eu sei. Teu negócio é ficar lá enfurnado com a tua nega no barraco. A Sussuarana toda sabe. Tô ligado, só ali ralando na empreiteira que corta os gatos de luz, né? Toma, bebe um gole dessa onda aí, vai te fazer bem….” O zunido da guitarra do trio, sendo afinada, entrando nos ouvidos como o voo rasante de um mosquito gigantesco. Genésio falante, falando alto e suando, a pele negra brilhante. “Eu sei, mano, que a maré não tá boa pra ninguém, só para eles – fez um gesto para cima com o polegar – sempre os mesmos. E os tiras não tão brincando não. Se você vacila, pegam, apagam e desovam o corpo na primeira pirambeira. Depois abafam e não se fala mais nisso. Tá afim de um baseado? Não? Tá limpo. Comigo eu não vacilo, viu? Tá aqui, vê só o cabinho do três oitão aqui no meu abadá. Polícia se mete comigo, meto bala no meio dos peitos desses putos”.
O barulho de música de carnaval recomeça estrondoso, e uma morena, lá no alto, canta berrando: – E tá um empurra-empurra aqui / mas tá gostoso / Ô, ô, ôooo… – Genésio deixou-lhe a garrafa plástica, cheia da bebida liquorosa à base de álcool. Multidão enlouquecida, dentro do bloco aquelas meninas minas do Itaigara, tudo linda, tudo loura, tudo cabelo liso, solto, escorrido, molhado, tudo mamãe-sacode. No apertume chegou a roçar no braço de uma loirinha do bloco, calçada com tênis importado e tornozelo enfeitado com correntinha de ouro. O empurra-empurra invadindo os domínios do bloco, até que a turba recuou na ação encapelada e firme da corda grossa de amarrar navio, jogando longe os do lado de fora da tribo.
“Não sei onde foi para o pé esquerdo do meu tênis velho, o que já estava com o cadarço partido, e aí senti aquela pontada, a dor fina na planta do pé. Primeiro não liguei muito não, e depois que aquela bebida bateu na cabeça, a minha raiva, o cansaço virou uma alegria besta, deu uma zoeira que esqueci até da fome, do isopor; queria mesmo era sacudir os braços, beber da garrafa plástica, me misturar no meio da multidão, daquela zoada maluca até madrugada alta, pra botar pra fora de mim esse mar de amargura, essa rotina de dificuldades, esse cabresto de miséria o ano inteiro. Como é? Tanta gente rica e eu fodido? Aquela bebida tonteia o cabra até os ossos!”
Uma dor de pontadas elétricas partia daquele rasgo e começava a invadir todo o pé esquerdo, o tornozelo, a batata da perna, subindo com força pelo joelho.
“Maria lá na terra dela vendo se o irmão empresta algum pra a gente ir tocando enquanto eu não arranjo um trampo. Eu não queria, mas ela só ficou falando naquilo… Deixei ela ir porque queria pegar o dinheiro do seguro desemprego, sem que ela soubesse. Me deu na ideia ver se eu não fazia o mesmo que muita gente faz aqui: vender de ambulante no carnaval. Comprei a caixa de isopor, comprei as caixas de copinhos de água mineral. As latinhas de cerveja, já não dava o dinheiro, tive que pegar fiado no depósito do Jorge. O que sobrou foi a conta de comprar as barras de gelo. Eu queria dobrar o dinheiro do seguro, fazer uma baita surpresa pra Maria quando ela voltasse. Por que a Maria ainda não voltou? Eu já tô aqui assim faz quanto tempo? Dois dias… ou três?… Maria na estação da Lapa. Olha daqui, olha dali, todo dia enquanto o ônibus dela não vinha, eu trepado no andaimezinho trocando lâmpada da estação, Maria trabalhando em casa de família, gostei dela logo, jeitosinha mesmo. Maria magrinha, fraquinha, ficou tão minha amiga… Ficamos de lá para cá. Só não deu para parir. Não é mulher parideira não.”
A secura na garganta voltou a incomodar-lhe a goela seca, a sede, a seca.
“Sempre a seca matando, a eterna história miserável da seca. Só mandacaru para suportar. A minha sede é tanta agora que estou enxergando a cortina da porta do quarto igual a quando o sol abrasa a terra já ressequida, e sobe aquela ondulação de calor de miragem… Que agonia meu Deus. Até quando isso vai durar? Valei-me nossa Senhora… Foi isso… Isso mesmo que mãe disse quando contei que vinha para Salvador tentar vida melhor. Valei-me, Nossa Senhora! José, você num vá, Zé. A capitá num tá prestando mais não, diz que não tem mais emprego, Zé. Fica aqui, Zé. A gente tem pouco, mas tem com que passe. Zé, ô Zé! Cê é que sabe… É, mãe, a senhora acertou mais uma vez… Eu preciso suportar mais um pouco. Se tivesse um talo de bananeira aqui pra botar o leite na ferida… Também, se não tivesse vindo, não tinha encontrado a Maria, a minha Mariazinha… Ai que dor desgraçada, não gosto de médico, e quede dinheiro? Nada! Sempre tive boa saúde.”
Entretanto, naquela altura, uma aflição começou a morder-lhe o íntimo como uma advertência. Aquelas dores faiscantes que não paravam eram um sinal que o ameaçava. Quis gritar, chamar por alguém, chamar por Maria, mas o grito saiu como um murmúrio arrastado da garganta ressequida. Procurou ver o pé, aquela coisa disforme em que se transformara toda a sua perna, supurando e sangrando. O sangue novo em cima do coagulado, tingindo o lençol, escorregando da cama, pingando no cimentado do chão. Já não conseguia distingui-lo precisamente. Um nevoeiro impedia-lhe a visão e, pela primeira vez, frágil, desprotegido contra o que podia acontecer, teve medo, tremeu de medo.
“Mãe nunca demonstrou ter medo de nada, nem nunca chorou. Ficava triste às vezes, ficava com o olhar distante, perdido na barra da serra, sempre ali na janela, calada, olhando, matutando. Nunca. Desde que nasci sem pai, e que me alembro, sempre ali. Forte. Só quando já tava sentado no ônibus que vinha para cá, quando dei o último adeus pra mãe, foi que vi aquelas duas lágrimas escorrerem por seu rosto comprido, sulcado de rugas. Mãe ficou ali com Guardião ao lado, sentado sobre as patas traseiras, os dois me olhando… me olhando”.
O mal-estar aumentava, febre e suor, mal-estar aumentando e trazendo com ele uma sonolência cheia de delírios.
“O cabo de alta tensão energizado, treze mil volts explodindo o caixa eletrônico, incendiando o dinheiro, ele subindo em poste, descendo de poste em turnos de trabalho de doze horas, descascando fios e calos da mão também, folgando lâmpada em poste sim, racionando, poste não, racionando, todo mundo embolado, fio descascado, gente descascada, descarnada, cobre exposto, demissão, bala de trinta e oito no peito do empreiteiro da companhia de energia elétrica que usava uma bota roubada de eletricista e que parecia protegê-lo do des/emprego de corte de lata de cerveja lascada, derramada no chão impermeável do asfalto da avenida carnavalesca, na blitz da fiscalização da prefeitura, o peso enorme do isopor, a cantora gritando sai de baixo meu irmão que lá vai a zorra! Dois dias na base do acarajé, emendas de licenças para ser ambulante, emendas de fios de agarra, tudo embolado, toda hora dando descarga, faíscas, curtos, choques imensos carbonizando o pé calçado numa bota, uma explosão elétrica! A velha casinha no mesmo lugar ao pé da serra, agora reformada. Em volta, um bosque irrigado, com muitas árvores, tudo verdinho, verdinho. A luz dourada filtrando-se por entre a folhagem das árvores. Um cheiro de terra úmida misturado a exalações de flores silvestres. Porteira nova que ele mandara fazer, as ripas e caibros do telhado novinho que ele mandara substituir, mãezinha pitando o cigarrinho de palha, passando o café cheiroso, fartura na mesa. No pátio a bicharada solta, flores e crianças brincando de roda. Quem seriam aquelas crianças? Seriam seus filhos? Brincavam de roda. Guardião de um lado para outro correndo, latindo, perseguindo galinhas histéricas, sob o olhar omisso de vacas leiteiras, uma arruaça engraçada de se ver. Sua atenção se fixa nas crianças brincando. Sentiu-se participando da antiga ciranda de sua infância, cantando a débil canção infantil: Eu sou pobre, pobre, pobre, de marré-de-si”.
Um violento calafrio percorreu-lhe o corpo. Minutos depois, com surpresa, conseguiu erguer devagar a cabeça. Alívio de suave vertigem. Sentia-se agora pairando alguns centímetros acima do próprio corpo dormente. Incomoda-lhe menos a perna, a sede quase que cessara, e o peito, como que liberto, abre-se para uma calma inspiração.
Em meio à tontura de ambiência nevoenta, ressoou mais uma vez o coro infantil… E seu rosto assumiu uma expressão de deslumbramento, porque, girando na ciranda, divisou nitidamente o semblante de Maria a sorrir-lhe docemente.
Quando cerrou vagarosamente as pálpebras, tinha nos lábios o esboço de um sorriso de secreta alegria.
Krishnamurti Goes dos Anjos é escritor e pesquisador. Autor de “Il Crime dei Caminho Novo” (Romance), “Gato de Telhado”, “Um Novo Século”, “Embriagado Intelecto e outros contos” e “Doze Contos e meio Poema”. Tem participação em várias coletâneas e antologias, algumas resultantes de prêmios literários. Possui textos publicados em revistas literárias na Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. Seu último livro, “O Touro do rebanho”, publicado pela editora portuguesa Chiado, obteve o primeiro lugar no Concurso Internacional de Literatura da União Brasileira de Escritores UBE/RJ em 2014, na categoria Romance.
Uma janela permanentemente aberta para o mundo. Assim podemos entender a Literatura quando ela nos oferece possibilidades variadas de diálogo. Outras tantas epifanias do pensamento, dispersas pelos mais variados campos da arte, servem de combustível para a criação, fazendo com que o ato de escrever represente uma amplitude de sentidos.
Há uma avidez de mundo na obra de um alguém como W. J. Solha. Estamos diante de um autor que tem apetite por conexões quando a atenção se volta para a vida. Toda a sua trajetória está marcada por uma valiosa referência a outros campos do conhecimento, a uma desperta e explícita menção a tudo o que leu e viveu. Trata-se de um escritor com uma marca, qual seja a de deixar registrado em seus livros um verdadeiro mosaico de sensações e observações diante do que o universo da arte foi capaz de lhe ofertar.
Em meio ao que vislumbra da existência, Solha segue os rumos de sua peculiar inquietude, arrematando considerações, louvando o que merece destaque, questionando o que lhe acomete os sentidos. Possui uma extrema capacidade de eleger a memória como um precioso guia de suas incursões criativas. Tem uma vida dedicada não somente aos livros, mas também às artes plásticas, teatro e cinema. Na sua lida com as palavras, construiu obras memoráveis, como é o caso de livros como “Israel Rêmora” (Romance), “História Universal da Angústia” (Novela) e “Relato de Prócula” (Romance). Com “Trigal com Corvos”, enveredou-se na elaboração de poemas longos, o que se seguiu em “Marco do Mundo”, “Esse é o Homem” e, mais recentemente, “DeuS e outros quarenta PrOblEMAS”. No cinema, atuou em filmes como “Era Uma Vez Eu, Verônica” e “O Som ao Redor”, dentre outros.
Nascido no interior de São Paulo, em 1941, Solha confessa ter renascido em 1962, quando se mudou para a Paraíba por razões profissionais e lá foi atingido em cheio por descobertas que marcaram profundamente seus caminhos culturais. Na entrevista que agora segue, terceira que fazemos com o autor, há reflexões pungentes sobre eixos não somente literários, mas também filosóficos. Uma conversa que evidencia o espírito invencível de um criador que, mesmo diante das intempéries tão próprias do seu ofício, resiste tanto pela manifestação explícita do seu pensamento quanto na necessidade eventual de se recolher e silenciar.
W. J. Solha / Foto: Andréia Solha
DA – Seu novo livro sugere uma verdadeira intersecção entre poemas e problemas, entre Deus e o eu. Ao mesmo tempo, operam-se os contrastes. A vida é uma equação que não se resolve?
W. J. SOLHA – Embora mantenha uma linha de trabalhos explicitamente investigativa em meus “brevíssimos ensaios muitíssimo ilustrados”, dez dos quais você pode conferir aqui – , todos os romances, peças de teatro e a poesia que tenho feito tentam equacionar a vida. Sou contra a velha limitação imposta aos criadores dessas áreas, segundo a qual isso seria de domínio exclusivo da ciência e filosofia. Até o final do ano, por exemplo, estreia meu “Édipo no Terceiro Milênio”, em João Pessoa, em que coloco a tragédia original de Sófocles acontecendo hoje, ou um pouco mais pro futuro, acompanhada de perto por uma Equipe Freud, numa nave. Isso porque nunca me conformei com o desastre final do grande personagem grego. Ou seja, pegando carona no final de sua pergunta: tentei resolver uma equação que me parecia mal formulada. Sófocles, absolutamente genial, foi vítima de seu tempo, mas sinto que ele tentou superá-lo. Já em “DeuS e outros quarenta PrOblEMAS” discuto esse binômio eu-Deus, servindo-me do outro, o dos meus poemas/problemas. Expedito Ferraz Jr., no prefácio, diz que se trata de um conjunto de escritos de natureza híbrida (algo entre poesia e ensaio) em que se desenha a espiral de uma reflexão que é, ao mesmo tempo, memória,estética, história, teologia. Fui feliz nisso, não fui? É o mesmo que me perguntar se é válida a fórmula que criei pra meus ensaios, que vou desenvolvendo já com uma quantidade enorme de fotos como parte do discurso. Acho extremamente poético – e arriscado, lógico – fazer o que fiz num dos poemas do livro, por exemplo, no qual faço os autores do Novo Testamento “fecharem” o Livro – a Bíblia – até então em aberto, ao contrabalançarem o Gênesis com o respectivo e necessário Apocalipse, ao tempo em que reformulam a lei mosaica, judia, com a novidade platônica, numa montagem cinematográfica. O curioso é que a grande maioria de meus leitores se choca muito mais com a escolha do tema para esses meus versos do que com eles.
DA – Numa das letras da fase solo de sua carreira, John Lennon dizia que Deus é um conceito pelo qual medimos nossa dor. De algum modo, você também comunga desse pensamento?
W. J. SOLHA – É tão estranho ouvir essa frase numa canção, que Lennon diz “I’ll say it again” (espertamente rimando com “our pain”) e a repete. Ao contrário dele, porém, acredito em Kennedy e Elvis, em Hitler e nos Beatles. “I just believe in me”, ele afirma cartesianamente, e – freudianamente – se corrige: “Yoko and me”. Em meu primeiro romance – “Israel Rêmora” – faço meu protagonista dizer que “o Penso, logo existo, é de uma lógica extraordinária, mas deixa o resto fora de cogitação”. Quando, no título de meu novo livro, escrevo “DeuS”, inspirado na logo da revista Mother & Child, em que o “&” se insere no “o” de “mother” como um feto, estou com Lennon e Descartes, mas a esse núcleo acrescento “e outros quarenta PrOblEMAS”, implicitamente incluindo Kennedy, Elvis, Hitler, os Beatles, John e Yoko, ao tempo em que assumo que esse “DeuS” (Não crês que Eu estou no Paie que o Pai está em mim? – Jo 14:20) é, também, PrOblEMA”. E se é problema, dor. Sua pergunta é mais profunda do que imaginei à primeira vista, Fabrício. Lennon realmente disse tudo. “DeuS e outros quarenta PrOblEMAS” é um livro que tenta medir a minha – logo nossa – dor, a partir dessa relação feto-e-útero, feto, no caso, que tenta ser dado à luz, livrando-se do provisório abrigo que, no caso evangélico, é o deus tribal dos judeus; no meu, o deus que tomou o lugar dele, por que o considero também absolutamente insatisfatório, como revelo no poema em que digo ao leitor que, felizmente, ele não é cristão, porque – se fosse, mesmo -, estaria perdido.
DA – Não sabemos lidar com aquilo que nos transcende?
W. J. SOLHA – De modo geral, não. Há um fascínio dominante pelo mágico. Porque ele deslumbra e é de fácil assimilação. Certa vez – há muitos anos – um livreiro me mostrou uma das suas estantes, cheia de “Eram os deuses astronautas?”, “O 12o. Planeta” e assemelhados, dizendo-me que era a dos livros que mais vendiam. Taí o Paulo Coelho. As pessoas, sem ter quem lhes diga de maneira concreta quem são, o que são, de onde vieram e para onde vão, fazem como as crianças: ouvem os contos de fadas. O Alcorão é um, a Bíblia é outro, e há os Vedas, Upanhishads, Baghavad Gita, etc, etc, etc. Difícil é convencer que a vida, por si só, com seus prazeres, sofrimentos e mistérios, já é o bastante pra nos apavorar e deslumbrar. Difícil é convencer que nenhuma religião tem coerência. Embora eu tenha - além do “DeuS e outros quarenta PrOblEMAS” – vários outros livros explicitamente abordando isso, como os romances “A Verdadeira Estória de Jesus” (Ática, 1979) e “Relato de Prócula” (A Girafa, 2009) ou o poema longo “Esse é o Homem” (Ideia, 2013), não discuto religião. Porque não adianta, por exemplo, lembrar aos que veneram São Jorge – patrono de Londres e da Inglaterra, de Portugal e da Catalunha, de Moscou e da Etiópia, além de, extraoficialmente, do Rio – que não existem dragões.
DA – É curioso como homens se sujeitam ao que ditam outros homens quando, por exemplo, o tema é o da espiritualidade. O agravante aqui é que há uma espécie de institucionalização secular do olhar, cujos artefatos prediletos são a culpa e o temor. Estamos piores nesse quesito?
W. J. SOLHA – Espantam-me as multidões – em que pesa à informação cada vez mais acessível – que comparecem ao Ganges, Aparecida do Norte e em torno da Caaba. Ante elas eu me sinto voz no deserto. Como o Inconsciente é, na verdade, o Consciente, a vontade, frequentemente, é de botar a viola no saco e de me mandar. Mas vou escrevendo meus livros.
W. J. Solha / Foto: Andréia Solha
DA – Em seu “Notas do subsolo”, Dostoiévski discorria sobre o que ele chamava de consciência exagerada (ou amplificada) versus a consciência do homem comum. Com certo tom sarcástico, ele sustentava que seria mais adequado fazermos uso da segunda opção, tendo em vista que a primeira encerrava uma excessiva percepção das sutilezas da vida. Trazendo para o contexto atual, como você pensa tal contraposição?
W. J. SOLHA – Certa vez, nos começos da informatização em massa, vi uma propaganda, numa revista, em que, acima dos retratos de Leonardo, Édson e Einstein, havia uma chamada curiosa: “O que eles têm que v. não tem?” O texto respondia: “Software. Enquanto você e a maioria contam apenas com hardware.” Confirmo isso quando olho pra um dos muitos autorretratos de Rembrandt – como se deu no fim de setembro, agora, no Louvre – e me lembro de algum, meu. Ou quando leio “el otro poema de los dones”, do Borges, e o comparo com qualquer um que eu tenha feito. Dostoiévski só poderia dizer isso com sarcasmo mesmo. Como eu não poderia querer ser como ele quando criou “Crime e Castigo” e, mais ainda, como Tolstói quando fez “Guerra e Paz”, ou Aristóteles ao escrever a “Poética” e a “Política”? Ou como Shakespeare, Virgílio, Homero, quando produziram “Hamlet”, “A Eneida” e “A Ilíada”? Deve ser uma delícia ter “uma excessiva percepção das sutilezas da vida”. Felizmente a informática – como na propaganda – vem se desenvolvendo e está dotando muita e muita gente desse software, pelo menos no que se refere a uma enorme quantidade de informações que disponibiliza, facilitando-nos as associações de ideias. Mas continua sendo extraordinário ver Santo Agostinho, por exemplo, discorrendo como ninguém antes e muito tempo depois, sobre o Tempo. “Consciência amplificada”. É a maravilha humana em ação.
DA – DeuS e outros quarenta PrOBlEMAS reafirma um traço característico de sua obra, que é o de apresentar o mundo a partir de seu repertório pessoal, utilizando-se de referências artísticas, literárias, filosóficas, dentre outras. Diga-se de passagem, é uma característica inconfundível de seus escritos. Quem é essa ferramenta chamada memória? Conseguimos driblar suas artimanhas?
W. J. SOLHA – Meus romances, poemas, libretos pra balé e ópera, peças de teatro, quadros, são, todos, PrOblEMAS, Fabrício, principalmente esse, o de nenhuma dessas áreas sobreviver sem as outras. Talvez eu tenha escapado disso apenas como ator, pois ao representar deixo de ser eu pra me tornar um camponês abrutalhado em “A Canga”, ou um empresário com obscuras raízes de sua fortuna, em “O Som ao Redor”, o que me custou, sempre, esforço tão desesperado quanto o de uma sessão mediúnica, daí que tive de desistir dessa atividade ou – sem exagero – sucumbiria. Ri muito quando o grande Ivo Barroso me disse, ao assistir ao “Era uma vez eu, Verônica”, que se eu participasse de um “Tropa de Elite”, voltaria pra casa cheio da bala. Pois bem. “Quem é essa ferramenta chamada memória?”, você, me pergunta, curiosamente não dizendo “o que?”, mas “quem?” Claro que ela somos nós, pois sem sua presença – no Alzheimer, por exemplo – deixamos de existir, ficando de nós – tristemente, para os que nos cercam – algo como zumbis. “Conseguimos driblar suas artimanhas?”, você quer saber. No meu caso, parece-me, apenas me tornando um pistoleiro, em “O Salário da Morte”, ou o tenente Maurício, em “Fogo Morto”. No mais, sou o imenso Inconsciente (na verdade, Consciente) produzindo. Ciente disso, sempre usei um processo de criação – descrito em meu primeiro poema longo, “Trigal com Corvos” -, que consiste, primeiramente, em formar um “banco de frases” elaboradas em intensas “leituras” de fotos, de um Cartier-Bresson, Robert Capa ou Sebastião Salgado, ou de livros de Ciência ou Arte. A cada vinte, trinta páginas delas, manuscritas, repasso-as para o computador, já eliminando as descartáveis. Aí vou buscar combinações entre elas. É onde surgem – depois de encontrado o ritmo, introduzidas eventuais rimas – os meus versos. “DeuS e outros quarenta PrOblEMAS”, portanto, como “Esse é o Homem”, “Marco do Mundo” e “Trigal com Corvos”, não vem de um tema premeditado. Fiz o que o Inconsciente quis. Mais ou menos como a cidade de Petra, que não foi construída, mas escavada na rocha. Só aceito essas “artimanhas da memória” – como você as chamou – porque elas me dão livros que julgo maiores que eu.
DA – Logo no início do mais novo filme de Godard, “Adeus à linguagem”, há uma passagem que diz: “Aqueles que não têm imaginação buscam refúgio na realidade. Resta saber se o não pensamento contamina o pensamento”. O que dizer diante disso?
W. J. SOLHA – Isso já foi muito discutido em artes plásticas. De repente a Grécia clássica passou a perder de longe pra África, que compareceu com força no Demoiselles D´Avignon, quando Picasso tentava pôr a Teoria da Relatividade, então bastante recente e chocante, pra tela. Há um belo livro, Beyond Impressionism – The Naturalist Impulse, de Gabriel P. Weisberg, que mostra como, antes do cubismo, o impressionismo, “o escândalo do impressionismo” já apagara um outro grande movimento artístico de sua mesma época, o naturalismo, que – influenciado pela literatura de Zola – usava e abusava da nascente fotografia pra evidenciar a injustiça social que havia (e há) por toda parte. Em meu romance “Arkáditch”, transfiro pra meu protagonista Zé Medeiros, professor de filosofia da UFPB, uma experiência que vivi em Madri: ao sair de uma mostra sobre a evolução de Mondrian e Kandinsky até o abstracionismo, entrei noutra, do espanhol Cristóbal Toral, que fizera o caminho inverso, do abstracionismo – na moda em sua juventude – pro hiper-realismo. Como os dois primeiros morreram em 44 e o outro nasceu em 40, aquilo me pareceu uma síntese do trajeto do século XX, centúria vítima de um terremoto cujo epicentro fora Hiroshima, 06 de agosto de 45, afetando tudo que acontecera antes e se daria depois da desintegração nuclear, desintegração que vinha crescentemente se processando nas artes, principalmente na pintura e na literatura (vide Finnegans Wake), desde que se criara a fórmula E=mc2 e se pensara numa arma com tal poder de devastação. Diante disso, parece-me que a realidade não seja um refúgio, um não pensamento. Van Eyck e Velásquez me perturbam tanto quanto Max Ernst ou Pollock. Essa questão me surgiu quando, nos anos 60, em Pombal, no alto sertão da Paraíba, onde eu era o subgerente da agência do BB, recebi pelo ônibus que vinha de João Pessoa (pois a cidade não tinha livrarias nem bancas de jornais) meu primeiro exemplar dos fascículos de Gênios da Pintura, que foi sobre Holbein, com muitos elogios à minúcia de sua reprodução da realidade, seguindo-se a isso o segundo fascículo, com iguais elogios às breves e densas pinceladas com que Cézanne “reproduzira” suas frutas. “Como pode?” Acabei por formular uma teoria a respeito: o gênio está em se sair com brilho de um problema estético, qualquer que seja. As realíssimas naturezas-mortas holandesas do século XVII – que chegaram ao trompe l´oeil – são tão fascinantes quanto as instalações de José Rufino ou os quadros de Beatriz Milhazes. Daí que é tão bom ver um filme de Almodóvar ou Kleber Mendonça Filho, quanto um Godard.
DA – Todo escritor é, no fundo, um exibicionista?
W. J. SOLHA – Se é, não sou escritor. O que busca exibição é sua obra, e confesso que nunca colaborei muito para que a minha aparecesse. Sequer faço sessões de lançamentos, com autógrafos e tudo mais. Feiras literárias? Nem pensar. Na verdade, trabalho mais pela obra alheia. Há pouco fiz a resenha do novo livro de Ruy Espinheira Filho; ontem, o prefácio para os haicais de Saulo Mendonça. Um de meus trabalhos publicados é “Sobre os 50 Livros de autores brasileiros contemporâneos que eu gostaria de ter assinado”, que saiu pela Ideia, acho que em 2012, edição paga por mim, coisa que, aliás, vem acontecendo com tudo meu que está por aí, inclusive com este “DeuS e outros quarenta PrOblEMAS”. No final de 2010 participei de dois longas pernambucanos e de dois curtas paraibanos, como ator. Um dos filmes – “O Som ao Redor”, do Kleber Mendonça Filho – teve forte repercussão, meu trabalho idem, acimentado pelo prêmio de melhor ator coadjuvante que recebi no Festival de Brasília pelo “Era uma vez eu, Verônica” (do Marcelo Gomes). Jamais tive, com meus romances e poemas, evidência semelhante. Nunca fui procurado por editora alguma, porém recebi exatos vinte e dois convites para outros longas e para séries de TV, todos recusados, porque resolvi não mais atuar. Veja isto: certa vez participei de um comercial da televisão local e, no dia seguinte, conversando com um amigo numa rua bastante movimentada de pedestres aqui em João Pessoa, fui tantas vezes cumprimentado por passantes, que o companheiro me gozou: “Solha, você conseguiu, com 30 segundos de TV, o que não conseguiu com 30 anos de literatura.” Exibicionismo, portanto, não é um de meus defeitos, e olhe que tenho muitos.
DA – Hoje presenciamos no Brasil pequenas editoras tentando suas investidas. Fazem verdadeiro trabalho de formigas operárias, publicando livros em tiragens limitadas, dando espaço a autores iniciantes e, muitas vezes, atuando de modo artesanal. Como você avalia esse panorama?
W. J. SOLHA – Tenho trabalhado com pequenas editoras desde que Affonso Romano de Sant´Anna leu os originais de meu primeiro poema longo, “Trigal com Corvos”, elogiou-o imensamente, mas me avisou: “Você não vai encontrar editor pra ele”. E não encontrei. Banquei uma edição de 500 exemplares na Imprell – daqui de João Pessoa -, e os mandei – à minha custa – a quem os pediu. O mesmo se deu com “Marco do Mundo”, “Esse é o Homem” – ambos pela Ideia, também daqui, e, agora, o “DeuS e outros quarenta PrOblEMAS”, pela Penalux, de São Paulo – este com uma tiragem de apenas 200 exemplares. O drama é que se fica sem a distribuição nacional que as grandes editoras – mesmo com má vontade – empreendem. O pior é que minha ficção já estava enfrentando a mesma barreira. Lancei minha “História Universal da Angústia” pela Bertrand Brasil em 2005, o livro ficou entre os finalistas do Jabuti, ganhou o prêmio da UBE Rio, mas, quando lhe mandei os originais de meu romance Arkáditch, foi-me dito que sua publicação apenas aconteceria quando a História cobrisse suas despesas. Aí ganhei o prêmio da Funarte de incentivo à literatura com o projeto do romance “Relato de Prócula”, mas a obra só saiu pela A Girafa porque paguei por isso. E, uma coisa triste: sempre, depois de cada prêmio, uma derrota. Ganhei o Fernando Chinaglia em 74, com meu primeiro romance, “Israel Rêmora”, ele saiu pela Record e teve uma senhora fortuna crítica, mas jamais conseguiu uma segunda edição. Morreu ali. Ganhei o INL, em 88, com “A Batalha de Oliveiros”, que saiu pela Itatiaia, mas o livro nunca foi distribuído. O mesmo se deu com “Shake-up”, lançado pela editora da UFPB. “Zé Américo foi Princeso no Trono da Monarquia” saiu pela Codecri, mas ela faliu em seguida, com a quebra do Pasquim. A Ática me disse ter, por engano, picotado dois mil exemplares de “A Verdadeira Estória de Jesus”, depois que eu fechara negócio com ela pra evitar o desastre resultante, segundo me disse, do encalhe. A Girafa também faliu, logo após o lançamento do “Relato de Prócula”. Daí que ontem – 15 de 10 de 2015, um número bonito – parei, de repente, o livro que estava escrevendo e me disse “Chega”. Parei, Fabrício. Estou com 74 anos e isso torna a decisão definitiva. Sua entrevista veio testemunhar o fim de um processo que envolveu muito trabalho, muito prazer e muito sofrimento. Valeu a pena? Valeu, apenas pra mim, mas valeu.
W. J. Solha / Foto: Andréia Solha
DA – Essa tendência maior de ser lido apenas pelos pares causa algum desencanto?
W. J. SOLHA – Comecei a ler por influência de minha mãe, que lia muito, embora desse conta da casa com quatro filhos, sem qualquer alívio de cozinheira, faxineira, babá, lavadeira e ainda costurava calças para o escritório e macacões para os operários da Estrada de Ferro Sorocabana, onde meu pai era carpinteiro. Não há equivalentes àquela dona Ermelinda entre meus leitores. Ô, mas nem ela me lia, por me achar muito difícil. Exclusividade minha? Não. Já no tempo de Cortázar se sabia que os escritores não eram mais os mesmos. Mas ele foi e é muito lido, como Guimarães Rosa e James Joyce. Logo, o problema não está em ser lido apenas pelos pares, mas nem por eles.
DA – Foi a Paraíba quem lhe deu régua e compasso?
W. J. SOLHA – Especificamente Pombal, no alto sertão paraibano, em que vivi de 63 a 70, como funcionário da agência do Banco do Brasil, da qual fui um dos fundadores, chefe da carteira agrícola por quatro anos, subgerente durante dois. Eu tentara a pintura, em Sorocaba, na adolescência. Como trabalhava desde os quinze, estudando arte à noite, um dia, certo de minha mediocridade e por necessidade de autossuficiência, deixei a escola do mestre italiano pela de contabilidade, o que me levou pra dentro do banco. Fui surpreendido pela grande cultura que descobri nos papos em grandes rodas de amigos nas calçadas, em plena caatinga, a quantidade de livros que havia nas casas dessas pessoas. Li todos os grandes clássicos – gregos, romanos, Shakespeare, os russos, franceses, americanos, dos hermanos e brasileiros nesse período, tudo com livro emprestado, pois na cidade não havia nem livraria nem banca de jornais. Isso também aconteceu com os colegas do banco. Por influência do escritor José Bezerra Filho, que trabalhava comigo, comecei a fazer contos. Por influência de outro, Ariosvaldo Coqueijo, fiz minha primeira peça de teatro e trabalhei nela como ator. Com José Bezerra fundei uma empresa de cinema e rodamos, lá na cidade, o primeiro longa paraibano em 35 mm, de ficção, dirigido por Linduarte Noronha, famoso pelo documentário “Aruanda”. Pela primeira vez compareci a uma tela de cinema, no papel de um pistoleiro. Como Zé Bezerra, já em João Pessoa, escreveu e dirigiu a peça “O Mundo Louco do Poeta Zé Limeira”, vi, no chamado Poeta do Absurdo, um tipo de criação sem fronteiras, que acabou sendo também minha marca registrada. Na capital, senti que todo o estado tinha uma vida intelectual e artística muito rica. Tanto, que passei o ano 2000 e metade de 2001 fazendo as capas do segundo caderno do jornal O Norte, só com retratos de página inteira de grandes nomes da Paraíba, como Assis Chateaubriand – fundador do MASP e dos Diários Associados -, José Américo de Almeida – fundador da literatura regional brasileira, o pintor Pedro Américo – o do Grito do Ipiranga e Batalha do Avaí, o genial poeta Augusto dos Anjos, o grande Zé Lins do Rego, etc, etc, além de Marcélia Cartaxo, a primeira atriz brasileira a ganhar o Urso de Ouro de Berlim pelo filme “A Hora da Estrela”, o maestro José Siqueira que, entre outras coisas, fundou a Orquestra Sinfônica Brasileira, o romancista e dramaturgo Ariano Suassuna, o dramaturgo e ator Luiz Carlos de Vasconcelos, os grandes irmãos cineastas Walter e Vladimir Carvalho, os compositores Zé Ramalho, Sivuca e Chico César – a lista não tem fim. Mas foram 70 os retratados por mim para o jornal. Hoje seriam muitos mais: a Paraíba, por exemplo, foi o terceiro estado com mais participantes na XXI Bienal de Música Brasileira Contemporânea, no Rio, agora, sendo um dos convidados, o terceiro mais votado pela comissão, na hora de decidir quem receberia os contratos para apresentação de obras inéditas, o maestro Eli-Eri Moura, para quem fiz o libreto da ópera Dulcineia e Trancoso, apresentada no Recife em 2009. Ainda ontem, por coincidência, como se a coisa permanecesse circulando, fui gravar a narração de um documentário sobre Assis Chateaubriand para uma das emissoras locais de TV.
DA – Enquanto atividade, ainda há espaço para o Cinema e as Artes Plásticas na sua vida?
W. J. SOLHA – No mesmo dia 15 de 10 de 2015 montei maquete para um quadro, que no dia seguinte comecei a pintar. Imaginei, antes, tirar um atraso de minhas leituras, que está grande, mas na primeira tentativa já deu pra ver que não tinha cabeça, por enquanto, para deixar de escrever mas continuar lendo, feito casal que se separa continuando amigo. Houve como um processo de saturação, comigo. Nas primeiras duas horas de pintura, senti enorme cansaço e fui dormir, isso às 10 da manhã. Jamais sentira isso pintando, nem quando passei nove meses fazendo o painel “Homenagem a Shakespeare”, para a UFPB. Pensei no problema da idade, mas vi que não foi isso. É que não estar escrevendo, depois de 40 anos de carreira, foi terrível. Quando você pinta, as palavras somem, você pensa apenas em termos de cor, luz, contraste, volume, contorno. Você funciona… noutro canal. E isso, caramba, dói. Quanto ao cinema, eu já decidira parar quando fui convidado para “O Som ao Redor”. Fui vencido pela enorme qualidade do roteiro. Aí fui fazer o “Era uma vez eu, Verônica”, levado pela empolgação de trabalhar com o Marcelo Gomes. Aí emendei com dois curtas paraibanos… e fui derrotado pela estafa, de que fui me livrar só uns seis meses depois, quando já decidira parar com o cinema. Não só por não ter estrutura para ser alguém diferente de mim, sem me arrebentar. Também pela vida cigana que levaria nessa atividade. Tive convites para Recife, Brasília, São Paulo, Salvador e até Montevidéu. Sou sedentário – daí a literatura, a pintura. Quem sabe eu não encontre algo novo, um dia destes?
DA – O quanto W. J. Solha conhece W. J. Solha?
W. J. SOLHA – Ao resenhar o último livro de Ruy Espinheira Filho, percebendo a enorme presença, nele, do que ele foi, menino, lembrei o início do “El sentimiento de no estar del todo”, de Cortázar:
Siempre seré como un niño para tantas cosas, pero uno de esos niños que desde el comienzo llevan consigo al adulto, de manera que cuando el monstruito llega verdaderamente a adulto ocurre que a su vez éste lleva consigo al niño, y nel mezzo del camin se da una coexistencia pocas veces pacífica de por lo menos dos aperturas al mundo.
Muitas vezes, em minha vida adulta, vi em mim o mesmo comportamento do que fui, por exemplo, aos 11 anos, quando, deslumbrado com a descoberta de uma revista em quadrinhos especial – “Epopeia”, da Ebal – deixei de lanchar, em meu primeiro ano ginasial, para, com os dois cruzeiros que minha mãe me dava todos os dias para isso, comprar, a cada semana, dois números atrasados – como “O Correio do Czar”, ou “Aquila Maris”, cito dois deles – que me custavam cinco cada um. Pois bem: passei os últimos dez anos como funcionário do Banco do Brasil sem almoçar, para ter um pouco mais de tempo para escrever e ler. Sempre fui desesperado por leituras especiais. Pelo conhecimento. E meus livros foram, todos, resultados de algo que não encontrava nisso. Daí meu primeiro romance, “Israel Rêmora” (Record, 1975) ser tão autobiográfico, como também foram “Relato de Prócula” (A Girafa, 2009) e “Arkáditch” (Ideia, 2012) e meu primeiro poema longo – “Trigal com corvos” (Imprell, 2004). Foi o velho “Conhece-te e conhecerás os deuses e o universo” funcionando. Mas Hamlet, Édipo e Cristo me tiraram – personagens enormes – desse egocentrismo. Em 1984 lancei pela Codecri meu “Zé Américo Foi Princeso no Trono da Monarquia”, fascinado pela descoberta de que “A Bagaceira” do José Américo de Almeida – que rompia com a influência da literatura inglesa no Brasil – era uma adaptação do Hamlet, o próprio romancista vivendo, dois anos depois de lançar seu famoso romance, o papel do príncipe da Dinamarca, literalmente dentro de um palácio, o da Redenção, na capital paraibana. Já em 1979 eu lançara “A Verdadeira Estória de Jesus”, pela Ática. E até o final do ano deverá estrear, aqui em João Pessoa, meu “Édipo no Terceiro Milênio”, direção de Jorge Bweres. Conheço, inclusive, meus limites. Meu último livro começa com estes versos: “Gênio não tenho. / Me empenho”. Isso sou eu.
Paixão Judaica (Acrílica sobre tela 80 x 100 cm) / Pintura: W. J. Solha
Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.
Nada contemporâneo
Há um arcaico olhar em mim
Que não sabe ficar de fora
Adentra qualquer alma que passa
Não há nada de moderno
Ainda amolo o poema
No fêmur
E descolo a métrica na mandíbula
E se a morte vem
Matuto que sou
Ofereço um café
Para a transa durante juventude
Nada de Andy Warhol
Tem Monet na minha testa
Nada de nada
E você vem
Prova e reprova
É que sou sujo e amargo
Velho em inédito
Nada contemporâneo
Há um poema, leitor,
Brotando no teu peito.
***
Das Guerras
Todo ensejo que orvalha da alma
Vem metralhar quem passa.
E olha…
Tua fé
Já não é.
Eu amiúdo
Versos
Para que não vá
Sem um doce (se quer).
Gritamos.
Sujo tua roupa
Com leite materno
Enrolo tua alma
À minha,
Nada por perto para se agarrar.
Filho,
O que sobra da coragem
São pequenas ervas daninhas,
Que nascem dos olhos
Dos que choram demais.
***
Bombardeios
Os bombardeios seguem a rotina,
Destroem e constroem.
Não sei meu choro
Já faz tempo.
As ruas vastas…
Ainda.
E repouso
Minha desilusão
Pelo batente
Observo tanta ganância
Minhas mãos sujas
De amor
E o mundo acabando
Com o pouco do eu
Que me resta
Na janela.
***
Manger un Réactionnaire
Por onde saliva
É caminho obscuro
Se o faz
Por más línguas.
Ontem um corvo
Açoitou minha sorte
Levou em algemas
As revoltas.
E deles, tão pertencentes,
O descaso calcifica
A frívola passagem
Por essa vida.
O mundo geme
E pede
Em jarra
Nosso sangue.
E nada a alcovitar
A perfeição
Com as almas
Incisas em sistema
Errôneo.
Ladram as partituras
Falsas
Da valsa sem reação,
E gritam em meio
à barricada:
“Homens
Que propendem à política
Matam sufocadas
As pobres poesias!”
***
Infante Moral
Eu recuso o tratado que o mundo oferece
Quero meu próprio tormento
Com os ventos que minha mente reproduz.
Paz. Edifico, desmoralizo,
Não adquiro sua cruz.
E o que você julga eterno
Na minha vida perece,
Muita lei e muita regra.
Olha o cheiro da liberdade…
Tem gente que até esquece.
Empurram um sofá e a arte de trena.
Vão medir minha letra
E criticar o poema.
Esqueci o clássico
O marginal
O cubismo em poesia
Não pude lembrar
Já que alienaram
Minha vontade,
Por pura hipocrisia.
(Quero mais esquina)
Eu confundia as letras
Gritava tudo errado
Era o feio certo
Mas entoava meu passado.
Hoje o mundo me concertou
Na falha da perfeição
E tento a cada brisa
Voltar à pureza daquela
Vadia claudicação.
Camila Passatuto nasceu em São Paulo. Escreve desde os 11 anos e começou atuar nos meios digitais, com blogs e participações em revistas digitais, em 2007. Entre os seus principais trabalhos publicados, podemos destacar: 2010, e-book “Apenas o Necessário”, co-autora da Antologia de micro contos reunidos pela Poesis, em parceria com a ETC Bienal, Fundação Volkswagen e Governo do Estado de São Paulo; 2012, Antologia “Nossa história, nossos autores (Editora Scortecci); 2013, escritora exposta na mostra de Twiteratura no Sesc Santo Amaro.
Talvez uma das formas mais comuns de literatura seja aquela que está vinculada a um território. E aqui uso a palavra não como representação de lugar, mas sim de um nicho. Fundamentalmente, uma escolha.
Grosso modo, temos autores “regionais” na forma e na construção de seu eu-personagem – a imagem que o mesmo escolhe de si para o mundo; o chapéu na foto, a biografia na orelha do livro. Outros preferem a urbanidade em suas infinitas formas. E se inventam. Muitas vezes indo além do tripé “asfalto, quebrada, concreto”.
Usando o raciocínio simplório acima, quando o autor faz sua escolha traz consigo a linguagem, matéria e antimatéria de seu trabalho. Isso é terrivelmente óbvio, sei. O “urbano” vai buscando o entendimento através das gírias, do fraseado louco e comum das ruas, enquanto o “regional” se vincula ao que de mais rincão existe. Tal situação os obriga a uma busca incessante. Talvez na tentativa de manterem proximidade com seu universo, seu quinhão. Ainda que as novas possibilidades artísticas os afastem de suas raízes, é preciso encostar o ouvido ao chão. Sentir a trepidação, escutar; manter a essência – seja ela inventada ou não, pois quem cria a paisagem é o autor, não o contrário.
Existe, porém, outra espécie de escritor. Um tipo que vai além. Geralmente tal artista em algum momento arrancou de si a aldeia. Aquela, universal por natureza. E nesse movimento certamente revelador, se fez completo, um autor sem amarras. Arrancando de si também a linguagem que o vinculava ao seu possível território. Convertendo-a, de limitadora em ilimitada.
Em Fernanflor (Iluminuras, 2015, 112 páginas), de Sidney Rocha, tive tal impressão logo no começo. As palavras existem, não fogem de nossa compreensão. Os elementos narrativos não são disparates. Nem viagens sem volta no doce mundo das abstrações. Todavia, Rocha demonstra saber utilizar a linguagem a seu favor. Ampliando-a até outro patamar. Indo além.
Para ele, o território, o lugar, ou qualquer conceito semelhante é a própria linguagem.
Não existem ali as dificuldades comuns aos pretensiosos. Dos que se excedem no uso de palavras complicadas. Nem tampouco o fluxo de consciência, tipo de arte que, nas mãos dos tolos, se torna artifício. Apesar da velocidade com que o ganhador do Jabuti de 2012 desenvolve seu romance, fica bem evidente o cuidado com a construção, com a estrutura e com a intenção, principalmente. A velocidade aqui é fruto de seu intento. A rapidez é resultado de trabalho, um artesanato, lido, relido, analisado não de forma obtusa e engessada, mas com a paixão dos que sabem aonde querem estar – não por acaso, o livro levou cerca de oito anos para terminar, além de ter sido submetido a uma leitura pública há cerca de quatro anos em várias capitais do Brasil.
Apesar de não ser hermético, Fernanflor também não pode ser lido de forma desleixada. O fato de Sidney ser um autor que subverte a noção/ideia de território nos obriga a reinventar nossa leitura. A literatura flui e nos escapa, se a gente vacilar.
Cada página nos força a construção de possibilidades. E nunca estamos satisfeitos, pois a todo instante vemos algo distinto. Jeroni, o protagonista, poderia ser resumido a um dândi. Talvez possua as mesmas posturas e angústias comuns aos outros da história da literatura. Porém, cada novo instante é de fato novo, exige mais do leitor.
Sidney consegue uma literatura de deslocamentos. E, antes que tal afirmativa se transforme somente numa frase de efeito, é possível tentar justificá-la com uma ideia simples: a cada página conquistada entendemos que nada é linear nem previsível. Em nenhum aspecto.
Do enredo à linguagem, as coisas se renovam. O novo não surge somente nas ações do personagem – aonde ele vai, o que fará em seguida, qual seu destino, sua tragédia e seu triunfo. O novo surge também na linguagem. Na escrita. Em diálogos que aparecem do nada, surpreendem, dilatam a literatura “deslocada” de Rocha.
Uma epifania não é fato isolado. Ela se desdobra. Atinge não somente o instante na história, mas também a linguagem que lhe dá guarida. É um conjunto de sensações. Pluralidade, literal e literária:
“Retirada a laje, a areia volta ao bojo das pás. Milhões de pétalas são lançadas para cima e, outra vez, se pode ver o vidro limpo. Os cordames grossos, de algodão puro, se enfiam na terra e içam o diamante. Sentimos o cheiro das rosas, mas é a respiração da terra ruminando o odor da terra molhada. Por um segundo crê que o diamante levita, depois as mãos o carregam até o suntuoso catafalco.
“Na câmera ardente, não há mais espaços para mais rosas nem palmas.”
E presenciamos cisnes que “desnadam”. E um Jeroni que vê “(…) lágrimas subirem das faces das mulheres e serem sugadas de volta ao fundo dos olhos”.
Outro ponto a ser destacado é o uso de elementos pictóricos. Sendo Jeroni pintor, tal recurso é fundamental. Justificável em maior ou menor escala. Contudo, aqui mais uma vez insisto nas teses do deslocamento e da pluralidade, para dizer que em cada trecho onde Sidney resolveu usá-los, o risco (ou seria traço, ou pincelada?) valeu.
Ou seja, supondo que o autor não seja artista plástico, ou que ele tenha algum grau de intimidade com a pintura, os trechos onde isso foi necessário não serviram somente de arcabouço para o protagonista. Nem descrições frias resultantes de pesquisas. A pintura que Lourenço Mutarelli cita na orelha do livro tem a ver com a linguagem – e opiniões como as dele, escritor e um dos melhores quadrinistas do país, tem peso e medida, assim como as do português Gonçalo M. Tavares, dono de um texto fundamental sobre Fernanflor. Provando mais uma vez que ela é o alicerce. A mesma linguagem inovadora que nos conduz desde a primeira página. Com cores, vibrantes ou não – o vermelho e o cinza são escolhas firmes do autor, mesmo quando desbotam: o desbotamento também sendo escolha, recurso. Com os retratos e com a vida que deixam Jeroni Fernanflor sempre à beira de um precipício. Usando seus sapatos lustrados, suas roupas bem cortadas.
Somos seduzidos pelo artista. Pelo dândi que desde novo olhava o mundo como um quadro vigoroso, mas nunca estático. Pelo artista que se mostra nos silêncios que o Mutarelli diz, mas que se esconde nas “(…) frases claras, mas nunca evidentes.”, opinião do escritor português Gonçalo M. Tavares em seu texto.
Fernanflor é o começo. A primeira parte de uma trilogia arquitetada por um grande autor. Um inventor de possibilidades: e que os outros dois livros nunca encerrem a aventura, ainda que tenham um fim.
Gustavo Rios é autor do livro de contos “Allen mora no térreo” (Mariposa Cartonera, 2015), entre outros.
O mundo pode ser um imenso jardim onde depositamos o tamanho de nossas expectativas. Podemos regá-lo de acordo com conveniências misturando doses reais e fantásticas. E talvez não seja tão relevante procurar saber se apreciamos mais a aparência ou o conteúdo das coisas quando a intenção é a de se ter uma atitude contemplativa diante da vida. Mergulhar mais fundo significa uma escolha a produzir seus próprios resultados.
Eis que há um outro sentido de busca na captura das imagens do mundo. É quando o artista, numa atitude libertadora, deixa-se conduzir pela pulsação própria da existência. Nesse ato, ele sai ao encontro do inesperado sem saber ao certo quais sinais irão se insinuar diante de seus sentidos. Entra em cena o desperto exercício da observação, mola propulsora do trabalho de gente como Juca Oliveira.
Juca não sabe ao certo o que vai encontrar quando permite que o mundo o apresente suas tantas e tamanhas imagens. Não há um roteiro prévio a comandar os impulsos da criação. A orientação primeira de desenhos e ilustrações vem de uma atitude de desapego à conformidade, uma sensível vontade de se deixar surpreender pelas manifestações externas. Assim, há um significativo eixo de posicionamentos, através do qual o artista, seu olhar e os objetos/sujeitos flagrados compõem uma tríade de papéis.
No seu trajeto para ver o mundo, Juca assume o desafio de articular e harmonizar elementos abstratos e concretos. Nesse momento, a intuição configura-se uma ferramenta fundamental, pois possibilita ao artista vislumbrar cenários e engendrar campos de atuação para seus personagens.
Arte: Juca Oliveira
Seres, coisas e lugares dão o tom ao ofício de representação que nos é proposto por Juca. Dialogando com traços da contemporaneidade, o criador lança mão de recursos provocativos, irônicos e também dotados de suavidade. Faz uso de cores e formas que assinalam um modo peculiar de captar o que a vida lhe oferta incessantemente. Se o fluxo de informações é grande, Juca prefere o exílio voluntário, momento em que, num amplo processo de tomada de consciência, rende-se a apelos cotidianamente ignorados.
Outro ponto forte da trajetória desse artista baiano é a elaboração de histórias em quadrinhos. Com certa dose crítica e sarcástica que o gênero demanda, Juca conduz seus imaginados enredos. Suas tirinhas sequenciais apresentam uma robusta capacidade de equilibrar e condensar texto e imagem.
Na sua intenção confessa de se deslocar para um tempo diferenciado, mais lento, no qual desacelerar significa ampliar perspectivas de apreensão das coisas, Juca Oliveira edifica o habitat de sua arte. Alheio ao turbilhão que desconcentra e por vezes desvia, o artista encontra refúgio na percepção detida de um tudo. Com isso, reconecta-se a si mesmo, evidenciando o poder dos silêncios e abrindo canais de entendimento sobre a existência.
Arte: Juca Oliveira
* As ilustrações de Juca Oliveira são parte integrante da galeria e dos textos da 105ª Leva.
Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.
hoje eu disse que, se sensibilidade fosse pólvora e texto (e não digo qualquer texto, digo daquele que. sabe) fosse fogo, eu explodia. que hoje estou minúsculo e daqui, sabe, as coisas são. obviamente, sim. maiores. eu sei. às vezes fico perdido sem você, ana. sem. caio. hoje eu queria escrever um romance de uma personagem que nasceu esses dias no semáforo. foi quando ela nós ali ante o vermelho que às vezes acho que é o espírito do trânsito tomando aquele fôlego para uma jornada abrupta rumo ao sucesso ao shopping ao dentista ao café ao terapeuta ao sexo a noite amanhã um dia. e ela havia nela um vinco bem no centro da sua testa que era onde o sol se punha naquele fim de tarde. o céu depunha ali nódoas e eu pude, veja, colher muitas cruas nacas de desejos entre, bem entre, assim como se abaixo dos lábios pequenos um pouco à esquerda do caos e eu vi do negro o avesso. que, e também me impressionei, era escuro. mas o que quis dizer dessas montanhas de areias vincadas ali naquele pedaço de face que via do meu vidro fumê a película que a abraçava vinha da sua mão escorrendo como quem não esperasse o verde a ação o futuro em sua parte que é breve. e essa mão de manchas feito a nuvem quando nada no mar. ela puxava assim tão gratuitamente uma mecha do seu cabelo que nem era leve talvez sedoso quando recém-lavado mas ela. ela emaranhada naquele fio suado que me contava do dia da fila do espaço do riso quando criança naquele balanço. eu quase ofereci um cigarro mas eu tive um medo tão grande de romper a sua Verdade. eu tive um medo tão grande de roubar dela e de mim aquela sobra do dia que vinha enquanto uma rima um verso branco mas tão rosa. feito a fresta do sol que dormia na sua testa. feito o vento que arrumava a cama enquanto o seu cotovelo ali despejado na porta do carro, suspeitando do meu olho feito cinema, decerto, tentava me esconder. ou me falar da lama que pousa nos sapatos. ou me contar da trama que sustenta o passo. ou me livrar do assalto que se tem quando. a vida da gente bate no. sinal aberto.
***
às vezes me preocupo tanto com minha memória, sabe, Acaso. é um duto hieroglifado. assim como se as paredes houvessem flâmulas a cada guelra. é uma espécie de nado, Nada, isso de transmutar o tempo, veia memória condão. a cada agora um apocalipse a cada desinência pretérita um epitáfio. e o olho que segue no túnel que era, veja bem, Tudo, era uma era. era uma escada sem step by step. que esse discurso fode-me, se me permite ser um pouco daquilo que vende mais. ouça, Todo, miragem pó e instante é tudo feito de achos. cachos. pedaços. dê-me uma pence de som, Silêncio. dê-me um soneto de escória, Mudez. dê-me uma toalha que não acho a vida líquida porra nenhuma é o meu olho que memora.
***
Um osso do verso
O cheiro que acorda a manhã tem raízes ocres.
E se se esquece a palheta?
E se se perde o horário?
E se tragando no tráfego no rádio no atropelamento na lembrança na resposta se se des-cobre o olfato? Digo, praquilo que é da Verdade, o não dito.
Que às vezes aquilo vem feito deus feito orvalho feito o rouco do locutor que erra o erre feito a cor dos pares. A dor dos semblantes. Mas isso tudo é muito pequeno, veja: já não se vê como toca. Como tolhe. Come-se. Sem olhar os dentes. Sem orar os crentes. Sim, senhora. Às vezes, deveras, vê-se sorrateiramente, quando a vida em estado comercial, de esguelha. Vezes se se cura com o sinal, vezes não. Que há o atropelo de som e de líquido e de insípido que é o. Isso. De ver que seja insípido. A sorte é que há sempre outros semáforos, há passos, há laços lassos. Do que se faz alimentar esses ó(s)culos. Pra ver melhor o não.
***
sem título
ah a vida e esse cheiro que vela
como um cavalo no escuro no pesadelo da espora
como uma grama que acorda molhada pra ser pisada
como um refém que habita o esconderijo da porta
como uma escolta. paulatina. versando que a vida há
“Dame ilusion, esperanza, ganas de vivir y no me olvides”. (Frida Kahlo)
sustento apenas
o status de sobrevivente
o dia que é azul no alto
a febre na maçã do rosto
o dito que por medo não saiu
o ar filtrado em filme termoplástico
são sintéticas as redes em que me fabrico
há um adesivo em meu peito que diz:
não modular a vida
tudo transparece quando violado
o amor o perdão a mágoa o inferno
conservar-se irrita e descontinua
a origem do cuidado pode ser o ferimento
elefante e pomba têm o mesmo peso nas nuvens
***
A CONSTRUÇÃO DO DIA
para Ana Lúcia Sorrentino
seja como for
tomar a arma dos punhos
e cometer questões
contra toda possibilidade
exigir de si o plano essencial
dos tentares
a tal grau de cuidado
dotar o coração de pássaros
para refratar os prontos
ser vivo o bastante
para morrer pelo êxtase
das coisas até mesmas
servir abismos aos olhos
nos esmagos de inverdade
e padecer de interminâncias
***
FERIDAS FERIDAS
na vastidão do que vivemos
(os dias correm sem nos consultar),
há algo que não nos deixa ser pó:
um rumor contínuo dentro de nós
(só o amor desafia a morte da alma).
os pés caminham para o incerto,
o coração para o único destino que conhece,
o amor é a graça de ser simples e
o privilégio das lágrimas não é dos fracos.
o amor não passa ileso
(passamos amor nas feridas
e ferimos o amor com mágoas).
olhamos além e o medo não foge.
resistimos (vamos comemorar as nossas resistências?)
e cambaleamos em sonhos.
os olhos cansados não nos deixam ver
a flor no asfalto, ao dobrar a esquina
o texto é o mesmo na boca do morto
que nos alarga a esperança
(“o mais sórdido dos sentimentos?”).
vagueamos em vertigens sãs.
a alma pedindo pão,
os olhos pedindo céu,
os ombros pedindo chão
(pelo correio: nuvens de papel).
desabamento de chuva sem fim:
o amor pedindo perdão.
***
O SIMPLES AMOR
amor meu imaculado
única matéria irretratável
impossível de ser detida
manipulada ou destruída
amor meu
céu de proporções ideais
canal de abismos
acesso de revoluções
de amor
***
ESSAS TARDES NENHUMAS
na implacável badalada das horas
(agredindo o universo com agouros de morte),
ouve-se um tímido ressoar de rebeldia: o corpo
(ora desperto, ora entorpecido por repetição)
regurgita o cansaço e – vomitando regras –
ensaia uma humilde resistência.
em segundos, une-se à alma dizendo não.
as mãos afrouxam os laços, os pés deixam
os sapatos: olhos contam nuvens.
e quase que se consegue chegar a si.
mas as horas gritam derrubando os ombros,
espalhando náusea. então pisamos o chão das coisas mortas.
o relógio bate forte, as horas levam o sangue.
Germano Viana Xavier, 31, nasceu na Chapada Diamantina, é mestrando em Letras, bacharel em Comunicação Social/Jornalismo em Multimeios e licenciado em Letras/Português e suas Literaturas. Possui textos publicados em diversas revistas eletrônicas. É colunista nos portais Página Cultural, Entrementes e idealizador/coordenador editorial do Jornal de Literatura e Arte “O Equador das Coisas” (ISSN 2357 8025).