Categorias
102ª Leva - 05/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Susanna Busato

 

Ana Pérola
Foto: Ana Pérola

 

 

Cindida no tempo resgato o meu rumo no passo a descoberto das pegadas sempre invisíveis que faço nas pedras. Caminho rota entre as rotas que traço louca no papel de riscos: linhas sobrepostas às margens violadas pelas letras, sempre enormes, abastadas de esperança. Cindida pelo tempo do fim gasto meu rumo descompassado às margens frescas da próxima folha de papel, namorando a tenra superfície de pedras invisíveis para as pegadas dos trilhos que me levarão a você.

 

 

 

***

 

 

 

Socorro

 

Ao menos uma fresta,
um ar, uma réstia,
uma salva de promessas.
Qualquer coisa qualquer
que salve bem
depressa.

 

 

 

***

 

 

 

A aguda serpente finca e dobra o corpo dormente nas tramas da pele fina e branca, linho de algodão, leve no vento e no roçar da fria camada serpentina da agulha que se finca a cada hiato da pele, dócil trama que plasma o leve e a aspereza do toque e se entrega à aguda e violenta investida do seu roteiro de estradas e trilhos a céu aberto.

 

 

 

***

 

 

 

on part

 

 

part
ida

à espera e à deriva
como um lenço ao longe
a cena assina

sino úmido
lusco-fusco
som pregueado no branco
punho abrupto de pedra

réstia de tempo
que se engole
sem pressa

 

 

 

***

 

 

 

Éramos nós em cada ponta do lençol. Nas dobras, as sobras de nossa pele. O dia ia longo e o branco do tecido cada vez menor. O gesto repetia o compasso. Olhares de corpo. De um avança o segundo que retorna. Lento o lance das mãos. Leve o lençol entre os dedos. Nas dobras feitas, o tecido de nós.

 

Susanna Busato é uma gaivota no rastro do rasgo roto da palavra. Com a poesia na rota da vida, constrói seus voos e só consegue aterrissar nas pedras, única terra firme que lhe oferece a verdade de que tudo é fingimento até mesmo a realidade. Deixou suas pegadas no livro “Corpos em Cena”, Patuá, 2013, que lhe valeu figurar como finalista do Prêmio Jabuti de Poesia em 2014. Deixou rastros em outras terras como nas páginas da Revista Cult, Revista Brasileiros e nas revistas eletrônicas  Zunái, dEsEnrEdoS e Aliás.

 

Categorias
102ª Leva - 05/2015 Destaques Olhares

Olhares

Indeléveis dimensões

Por Fabrício Brandão

 

Ana Pérola

 

A cada passo dado, as sandálias do caminhante desgastam-se num ciclo irreversível. É o tempo com suas investidas e artimanhas. No mesmo instante em que se olha para trás, os rastros deixados já não são mais os mesmos. Inexplicavelmente, nossa capacidade de perceber o exíguo prazo de duração de um estar no mundo é inversamente proporcional ao que podemos reter de fato. Assim, anda-se muito. Assim, fala-se em demasia. Assim, perde-se o essencial da viagem.

É possível a fuga do mundo quando ele nos apresenta a sua face mais cruel? Nem sempre. Muitos dirão haver saída nos incontáveis manuseios da abstração. Outros verão a tudo com certa resignação e tentarão ressignificar viciadas paisagens. Alguns mais darão um beijo de língua nessa divindade chamada caos. Seja qual for a alternativa elegida, em tudo haverá um pacto, o qual, silencioso ou não, adentrará dias e noites convidando corpos e almas a refastelarem-se no grosso caldo da incerteza.

De toda sorte, há combates entoando seus cantos por todas as frentes. Se guerreamos, consentimos em deixar partes nossas nos vãos devastados e tentamos conviver com o saldo dos vestígios. Se nos omitimos, duras revoluções implodem nosso ilustrado castelo de cartas falivelmente projetadas. Por tudo isso, a desordenação das coisas até pode assustar hordas de desavisados, mas haverá quem vislumbre nela a oportunidade de olhar a tudo como uma outra dimensão da existência.

 

Ana Pérola
Foto: Ana Pérola

 

O que dizer, então, quando nos deparamos com as fotografias de Ana Pérola Pacheco? Arriscar na resposta uma ideia de que o caos nosso de cada dia é um lugar de aproximações. Se o mundo afugenta por suas complexas questões indecifráveis, a artista estreita os laços com o seu tempo, seu espaço e, sobretudo, sua gente. É uma predileção que não ressalta escolhidos, mas sim alça os seres a um patamar de igualdade entre si.

Numa dinâmica de comunhão entre pessoas, lugares e esferas intangíveis, Ana desfila seus olhos ante o girar da vida. O resultado é uma delicada apresentação do real segundo uma ótica que não negligencia as hesitantes intervenções humanas. Afinal, somos um barro cujos moldes apontam para sabidas imperfeições.

Quando a constatação das visões da vida nos revela a pungência das adversidades, aí então notamos o caráter essencial da expressão de Ana Pérola: poder observar as tensões mundanas e retirar delas saídas poeticamente imagéticas. Tal perspectiva não vem acometida por uma necessidade de redenção ou purificação diante de um mundo declaradamente conturbado. O viés adotado pela fotógrafa também intenta uma leveza que seja capaz de minimizar a solidão dos homens, propondo-lhes caminhos de aproximação.

 

Ana Pérola
Foto: Ana Pérola

 

Nascida no Rio de Janeiro e vivendo atualmente em Florianópolis, Ana também se dedica à literatura, tendo publicado poemas e ensaios. Mantém o blog Sentidos e é colaboradora do site Poesia: Falsidade Ideológica.

De mãos dadas com a poesia, a fotógrafa promove suas imersões num mundo que, por vezes, todos julgamos conhecer. Mas será que o sabemos de fato em sua inteireza? Melhor confessar que não, pois a pretensão é superior à concretude de nossas constatações. Assim sendo, Ana crê num caminho que constrói perspectivas, valorizando um ambiente no qual nossas humanas idades representem menos turbilhão e mais serenidade. E no âmago dessa busca, ela mesma nos diz:

 

Há quentura na sombra
E há também frieza no vazio.
Os pés que te levam
É o meu retorno para o lado contrário
Nossa estação de passagem
Transborda fantasia
Aguça a alegria do sonho
Esquenta
E danço, como o fogo quando queima a lenha
Voo pr’um mundo que não sei, que não vi
Desafio-me no olho do desconhecido, vibro
Talvez eu ame algum dia. Talvez.
E até dê flores aos Amigos
Talvez eu me encoraje e abra a porta
Dê descarga, deixo ir a sobrecarga
Me banho na água do rio e vou
Correnteza. Ser oceano.

 

Ana Pérola
Foto: Ana Pérola

 

* As fotografias de Ana Pérola Pacheco fazem parte da galeria e dos textos da 102ª Leva

Categorias
102ª Leva - 05/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Ricardo Paião

 

Foto: Ana Pérola

 

Drama-
tis personæ — mão — inversos toupeiros sem corpo — zuze — varanda aqui ao lado — Solitude Alfa — couraças múltiplas da insónia

 

27’6—2014

 

 

A
mão estende se abertamente, es-
tende-se na plenitude dos cinco dedos desocupadíssimos d’objeto,
estende-se a tatear com muita força o vazio inteiro, estende-se
enquant’as falangetas fremindo acerca de superfície nenhuma.
Perfeita ausência de texturas. Perfeita ausência de queimaduras.
A
mão estende-se abertamente, es-
tende-se a idealizar afagos no amplo dorso
do indomável nada.

 

 

 

31’12—2014

 

 

De-
monstrar
que as virilidades funcionam num modo subterrâneo
que as asas são escavando o vento
que as nuvens consistem no cérebro
d’inversos toupeiros sem corpo.

De-
monstrar
as profundas galerias do surdo olvido sideral
onde os cânticos se abortam
eternamente.

De-
monstrar
o interior do peito
o bunker do coração.

 

 

[3] 19’1—2015

 

 

Chamava-se
zuze simplesmente zuze

um raio de nome
tão fácil
tão onomatopeico — insetí-
fero.
Chamava-se
zuze simplesmente zuze

e na sua extrema gula cumpriu de-
vorar cidades inteiras.

 

 

[3] 27’1—2015
receando o inestético

 

 

Quão
luminosa a manhã.
Na
varanda aqui ao lado
uma abundância de cuecas estendidas
a querer ridicularizar-me o poema.

 

 

[4] 10’3—2015
Solitude Alfa

De
que vale alguém como eu rascunhando Solitude-Alfa passageiramente na muita azáfama de um caderníssimo diário oh perguntinha filhadaputa cuja resposta sabe-se lá. Nunca alcanço as importâncias daquilo que escrevo.

 

 

[4] 13’3—2015

 

Con-
juntura de
pálpebras sobre pálpebras sobre
pálpebras
couraças múltiplas
da insónia
ou arremessos de fosforescência
contra o noturno estuque
situacional.
É
como que o próprio quarto a regurgitar-me
nunca saberei
dizê-lo de outro modo
que resulte menos sísmico.
Os
meus cobertores
num vértice de tudo e de nada.

 

Ricardo Paião Oliveira nasceu a 23 de maio de 1983 em Lisboa.

 

Categorias
102ª Leva - 05/2015 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

 

Há a infância da vida e a infância da memória. A primeira cabe aos vivos, a segunda cabe aos mortos. Todavia não a morte do corpo, a decomposição da matéria, e sim o cumprimento de um estágio, o tempo incinerado de uma existência, onde as lembranças perdem tiras da sua pele original que são preenchidas pela invenção. “Lugar comum”, seleta de contos com a qual a escritora Nara Vidal estreia na literatura adulta, está repleta dessas recordações entretecidas pelo novelo do encantamento que, paradoxalmente, ao se metabolizarem em ficção, passam a ser os registros mais fiéis do olhar de uma menina, a que ainda corre descalça pelos quintais com cheiro de bolo no interior de Minas Gerais.

Reconstruir esse mundo, portanto, é a forma possível de enxergar o presente, mesmo que o olhar dependa do filtro da escrita, pelo qual a vida vai incorporando detritos de fingimento que desgastam o verniz da realidade. Olhar além de si, além do território, além da concretude. Interiorizar-se para ocupar espaço. O escritor não deve ser produto do seu meio, mas criar um meio que seja produto da sua imaginação.

Nara sabe e trabalha muito bem isso. Há cerca de quinze anos residindo fora do Brasil, compreende que a literatura é o seu elo com a pátria-mãe. As palavras, que se estrangeiram cotidianamente aos seus ouvidos, resistem em português no papel, onde também ganham relevo dissabores e constatações desprazíveis da nação pretérita que sequer o desterro pode relevar. Assim, o livro se desenvolve sobre dois eixos de significação. As narrativas da criança, edulcoradas por laços familiares, pelo passeio por reminiscências dotadas de cheiros, sabores e quimeras, e as narrativas da adulta, embebidas por tonalizações mais retintas, ora melancólicas ora ásperas, o travo do desenfeitiçamento natural ao caminho rumo à finitude, pontuado por perdas, autoenganos e certezas incontornáveis. A qualidade literária, contudo, é singular em ambos os casos. O requinte da linguagem, o domínio técnico.

Reconhecida autora de livros infantis, Nara tem plena noção de que a única maneira de conquistar o leitor é dizendo a verdade; de modo que entrevistá-la é a oportunidade de ouvir verdades, de todos os tipos e tamanhos. Sem condicionantes e com uma “mineirice inglesa”, ela fala sobre a transição do olhar pueril para o adulto, as visitações às memórias, o uso da literatura nas escolas, o conflito entre educação e leitura, o mercado e os prêmios literários, a importância do conto, a relação entre produção e maternidade e a percepção estrangeira sobre a literatura brasileira. “Existe interesse, mas até onde vejo, me parece muito limitado e ainda visto como exótico”. Um papo sem lugar-comum.

 

Nara Vidal / Foto: Arquivo pessoal

 

DA – Na apresentação de “Lugar comum”, o escritor Alonso Alvarez chega à conclusão de que o livro tem “o gosto de vida”. Entretanto, é uma ideia de vida construída através de um mosaico de lembranças, de pequenos registros de um olhar infantil que naturalmente mistura realidade e fantasia. Voltar a esse tempo não seria mais contar histórias de uma personagem que a da menina Nara?

NARA VIDAL – Gosto muito da ideia embaralhada de ficção. “Lugar Comum” é muito pessoal, mas é ficção. Quis muito provocar o meu leitor com esse conceito de sonho, memória, mentira. Eu sou uma contadora de mentiras. Acho difícil relatar um fato sem que ele adquira acessórios no meio do caminho e vire uma baita invenção. A aleatoriedade das histórias no livro tem esse propósito de confundir até certo ponto. Falo muito de mim e falo de quem inventei, essa menina tão recorrente dentro da narrativa. Alguns contos escapam claramente da memória infantil. Foram esses que me deram mais condições criativas, feito “A caminho”, “A notícia” e “Vida de escritor”. Mas mesmo elementos relatados da minha infância vêm revestidos do distanciamento do tempo e do lugar. Eu não teria condições de criar esse mosaico de lembranças, ao qual você se refere, se não tivesse saído da origem. Falo de um lugar comum mas que não existe mais pra mim porque é todo feito de memória cada vez mais apagada, mais distante, que adquire, portanto, certo romantismo.

 

DA – Um lugar comum no qual a menina, na casa da avó, vê os primos chegarem “feito torneira aberta” e, ao lado da irmã mais velha, mostra que estão ali “pra brincadeira. Da séria”, como lido no conto “O táxi”. A maioria das narrativas é mobilizada por esse circuito de passagens, de toques, de cheiros e de sensações. A leitura aparece lá para o final, contudo focada numa experiência marcante, um encontro com um “livro de gosto ruim”. Como a literatura surgiu para você e qual foi o grau de contundência?

NARA VIDAL – Não sei se sua leitura é incrivelmente atenta ou se foi uma coincidência levantar o fato do conto “A leitura” ser o penúltimo do livro. Ninguém havia notado isso ainda, eu acho. O posicionamento daquela história ali, no fim, tem o significado particular e expressa o meu atraso para com a literatura. Enquanto crescia, durante a ditadura dos anos 80, não tive livre acesso aos livros da escola, da biblioteca. A figura da bibliotecária era feito um obstáculo a ser quebrado. Nada ficava nas nossas mãos. Escolhas aleatórias não eram permitidas. Faixa etária era seguida rigorosamente. Uma professora contava um capítulo de um livro uma vez por semana e me lembro disso com gosto. Meus pais, professores, estavam sempre envolvidos com as Letras, mas demorei a pegar gosto, seguir o exemplo. Fiz Letras porque gostava de escrever. Lembro-me das provas e dos livros de provas. Tudo era muito rigoroso, com propósito de notas. Não gostava daquele limite. Não conseguia sentir prazer naquela rigidez. No entanto, havia ali, do lado de fora da minha casa, no passeio, os casos. De adultos a crianças, todos nós contávamos histórias e era ali que eu me envolvia com a literatura, com as fábulas das quais gostava muito. A história, o conto, sempre me interessaram. A leitura da literatura chegou tardia, talvez no segundo grau, quando tinha relativa escolha, mas sempre com o propósito do teste, nunca pelo prazer, pela arte só. Na Faculdade de Letras, a literatura veio com força e de maneira irreversível, quando me deparei com professores como Edimilson Pereira, Godofredo de Oliveira Neto, Eucanaã Ferraz, Ana Cristina Meirelles, Ronaldo Lima Lins e Gloria Sydenstricker. Tudo foi muito impactante para mim e foi ali que disse sim para a literatura com comprometimento, com prazer, com até certa maturidade, já que antes a imposição me distraía e me excluía desse envolvimento.

 

DA – Você cita um equívoco que penso preponderante para entender o desinteresse de muitas crianças pela literatura: a obrigação da leitura com o único propósito de fazer prova. Isso é devastador para a relação entre livro e leitor, para o tempo de sedução que cabe ao texto. Outro caso é a aplicação de obras que não fazem parte do universo da criança, com uma linguagem erudita e temas alheios ao contexto em que vive. Você não acha que, ao invés de fomentar essa ladainha conveniente de que o Brasil é um país de não-leitores, não deveria se repensar o programa escolar, dar-se conta de que autores como Eça de Queiroz, Aluísio de Azevedo e José de Alencar, embora notáveis e imprescindíveis, não são os mais adequados para implementar o processo de introdução à leitura nas escolas?

NARA VIDAL – Falar desse assunto é o mesmo que mexer numa caixa de marimbondos. É um tema polêmico porque, no geral, a qualidade da educação pública, e muitas vezes a particular, é precária. Sem dúvida há professores que, além de qualificados, são comprometidos e apaixonados pela sua função. Mas isso é raro. Uma profissão maltratada e vista com descaso por todo governo que entra e sai não tem como oferecer qualidade. Esse é um dos pontos fundamentais, básicos. Em relação à introdução da literatura especificamente, muitas vezes isso ocorre com falhas que são passadas feito herança, feito tradição. Eu me lembro muito claramente do dia que fui apresentada a José de Alencar e sua Iracema. Batia muito sol na sala e senti uma vontade incontrolável de dormir. Nada do que era dito fazia sentido algum. Nós, alunos, não tínhamos referência de nada que se relacionasse com o texto. Não sabíamos nem mesmo o que era uma graúna! Foi uma experiência penosa, não menos solene. Eis um dos grandes problemas: a grande literatura é apresentada de uma maneira tão preciosa, tão erudita, que ali mesmo, naquele início já cria distanciamento e exclui muitos leitores. É como se aquela experiência fosse para poucos e raros. Minha filha, que estuda numa escola pública da Inglaterra, já ouviu falar de Shakespeare, Roald Dahl, por exemplo. Mas você veja que nada é apresentando de maneira cerimoniosa. Os livros e as histórias desses autores são naturalmente inseridos no dia a dia e identificados e aplicados em assuntos diversos. Depois, mais na frente, vão ouvir de novo sobre os mesmos autores e, quem sabe, até ler suas obras na íntegra. Aí, já terão outra bagagem e poderão identificar uma leitura diferente daquela de início.  Há iniciativas no Brasil que tentam implementar planos assim e sinalizar uma mudança. Já é um passo e tanto pra frente. Eu acredito que seja possível introduzir gentilmente as nossas literaturas brasileira e portuguesa clássicas aos leitores iniciantes. Mas é preciso fazê-lo com democracia. É necessária uma visão além do texto. Propor discussões e temas que cercam “Iracema”, por exemplo. Podemos falar do “descobrimento/invasão portuguesa”. Podemos falar de tribos, línguas e culturas indígenas. Podemos atrair o leitor e indicar que aquela literatura, mesmo sendo grande e rica, é uma leitura acima de tudo e pode ser compreendida porque é embasada por elementos que podemos reconhecer no nosso cotidiano. Mas fazer isso sem reconhecer os professores através de salários altos, ou pelo menos justos, não será possível.

 

DA – Concordo plenamente. Sem um embasamento contextual, a identificação torna-se alheamento e, daí, as consequências são o desinteresse e o trauma. Contudo, assim como ocorreu comigo, essa experiência ruim não arrefeceu a chama da escrita. De onde vem esse desejo de contar histórias, e qual é a primeira lembrança de ter escrito algo que lhe desse orgulho ou, ao menos, coragem para tornar público?

NARA VIDAL – Tenho escrito cada vez mais contos. Tenho muitos na “gaveta”. Nos contos gosto tanto da história embrulhada neles quanto da passagem de palavra por palavra até o fim. É uma atividade que me dá muito prazer, escrever contos. Com o livro “Lugar Comum”, eu senti vontade de compartilhar as histórias e criei uma página no Facebook com o mesmo nome. Foi interessante observar as leituras que eram feitas. Mas você mencionou uma palavra importante pra esse processo de escrita e leitura: coragem. Falta-me certa coragem na maioria das vezes e vou te contar que já enviei muito material com pseudônimo. O motivo disso é insegurança. Insegurança que é, aliás, poderosa ferramenta do escritor. Sem ela não há melhora, não há procura, não há investigação nem releitura. Já publiquei coisas movidas por pura ansiedade e que não publicaria hoje. Mas não me castigo por isso. Tudo faz parte de um processo e esse é o meu. E há coisas que escrevo que sinto vontade de contar. Com coragem, compartilho.

 

DA – Mas você concorda que um autor nunca caminha sozinho? Há um dado momento do percurso literário que a presença de alguns autores consagrados passa a ser fundamental, não como destino, mas feito bússolas com as quais o texto vai adquirindo compatibilidade, feições estruturais, e todo novo livro, de alguma forma, acaba por fazer parte desta gestação abstrata, uma amálgama de referências de maior ou menor intensidade. Em qual momento você encontrou os escritores que caminham contigo até hoje, e quem são eles?

NARA VIDAL – De certo! Antes de sermos autores e escritores, somos leitores. Pelo menos deveria ser assim. Eu li uma entrevista do Milton Hatoum em que ele dizia que a meta diária dele era escrever dez linhas e ler cinquenta. Faz todo sentido, não? Há muita confusão em relação à produção escrita, mas continuo achando que a preparação para um bom texto precisa ser a leitura, não necessariamente a própria! Eu tive um período muito ambicioso na faculdade de querer escrever poesia. Lia Baudelaire, Mallarmé, Florbela Espanca… Sou apaixonada por Shakespeare, particularmente seu material menos conhecido: os sonetos. Na conclusão de qualquer texto meu, tento achar algo aproveitável de forma atemporal. Mesmo que limite períodos históricos, o que geralmente acontece, gosto de procurar uma leitura que independa de condições. Sou louca por Macbeth. Aquela tragédia nunca saiu de moda. Há tantas interpretações para os personagens, que uma releitura é possível com frequência. O alfinete de Shakespeare espeta em todos os defeitos do ser humano dentro daquela peça. A ambição, a covardia, a família, o papel dissimulado e manipulador da mulher por trás do homem, a vingança, a loucura, a vaidade. Ainda dentro do teatro, que tanto gosto, Moliére, assim como Shakespeare, me interessa profundamente. O disse-me-disse, os desencontros cômicos, são elementos que tentei empregar, claro, dentro da minha capacidade, nos meus dois livros adolescentes.  E claro, há autores que eu leio e admiro, aprecio seus estilos, suas técnicas, suas narrativas de força, impacto. Rubem Fonseca é um deles. Gosto particularmente dos seus contos. Guimarães Rosa me envolve com sua narrativa poética, com seu neologismo feito de terra batida. Gosto do João Carrascoza pela delicadeza do simples. Gosto do Godofredo de Oliveira Neto pelo refinamento nos seus romances. Lydia Davies pela narrativa extra curta e humor. Neruda e Bilac para falar de amor doído e/ou platônico. Sylvia Plath me intriga. Confesso que não consigo ler nada dela sem, de imediato, relacionar à sua vida breve e trágica. Tenho lido alguma coisa do poeta inglês Philip Larkin, coisas escandalosas para uma para uma moça de passado católico! Ivan Lessa tem sempre minha leitura. Temos em comum, Londres, a Inglaterra. Seu sarcasmo, humor e certa melancolia nas crônicas sempre me fisgam. Sinto-me em boa companhia quando fala da sua desistência e impaciência em relação ao Brasil. Agora, aqui no final, me dei conta de que você me colocou num mato sem cachorro, já que falar dos escritores preferidos e que nos acompanham é algo tão injusto quanto impossível.

 

DA – Pois é. Mas, além da armadilha, fica essa bela estamparia de nomes, não? Penso que a percepção sobre um bom autor se inicia por suas referências, e as suas são de alto quilate. Também sou fã de muitos desses nomes. Agora, interessante citar o Lessa, pois vários contos de “Lugar comum” têm mesmo esse travo, esse olhar meio zombeteiro, meio amargo, sobre relações de brasileiros com territórios estrangeiros. “Estreito de Dover”, por exemplo, narra a viagem de uma família mineira pela Europa, até se deparar com a “inteligência” de um banheiro público alemão. Ainda que conduzido com leveza, é um texto com um teor bem ácido. E isso acaba por tornar o livro um tanto agridoce, concorda? Há os contos da infância, recheados de passagens edulcoradas, e os contos adultos, marcados por esse sarcasmo impiedoso, esse certo desencanto.

NARA VIDAL – É interessante que o meu editor, o Marcelo Nocelli, que escreve lindamente, notou qualquer coisa do Lessa nos meus textos quando apresentei a ele o original do livro. Os textos que estão mais distantes daqueles da infância são mais amargos sim. Parece-me natural que seja assim. Só a infância pode suportar, em vivência e em texto, a doçura. Depois ela passa a enjoar, enojar. É preciso usá-la e prová-la com parcimônia. Há também enorme falta, saudade nos textos: minha mãe. Ela foi uma mulher muito culta, atenta às artes, sensível. Sexta-feira era dia de folga dela, na escola. Na folga fazia faxina. Elis enquanto limpava a sala, Chico a cozinha, Betânia nos quartos. Era uma força da natureza aquela mulher. Fez um buraco quando foi embora. Os textos adultos relembram sua presença e lamentam sua ida. Vamos guardando a doçura da lembrança numa caixa dentro do armário e o sarcasmo, o desencanto, certa amargura vão ocupando seus espaços também grandes. Mesmo na ficção, esse processo de vida vai formando nossa escrita, criando certas características. Mas o bom humor salva. Vide Lessa!

 

DA – Mas é importante salientar que, há quase 15 anos, você está fora do Brasil. Como este olhar estrangeiro, essa ambientação fora da pátria, teve influência na sua literatura e o quanto isso é/foi importante para o fortalecimento do seu processo de escrita?

NARA VIDAL – No que se refere ao processo criativo, a minha distância geográfica do Brasil talvez tenha mesmo impulsionado a minha escrita. A minha permanência aqui promove a mim diariamente pontos de vista e um olhar estrangeiro em profundo exercício. Veja que, em setembro, faz quinze anos que eu cheguei em Londres e ainda hoje procuro manter meu olhar de fora. Ainda tenho certa dificuldade no ajuste cultural, ainda tenho choques de diferenças, ainda chego atrasada na terra do Big Ben, algo que é realmente lamentável, reconheço. Ao mesmo tempo, meu distanciamento do Brasil, mesmo que não seja aquele emocional, me faz valorizar o beijo no rosto do brasileiro, e apreciar o aperto de mão do inglês. Na criação de “Lugar comum”, tenho certeza que os textos aconteciam por pura teimosia minha em querer registrar o que não é mais possível, não só pelo tempo já passado, mas por eu ter começado a criar raízes próprias aqui. Meus filhos não são brasileiros, portanto houve uma motivação para escrever sobre o que foi uma infância mineira com toda a sua simplicidade e sua glória. Sinto a Inglaterra como território fértil para minha criação. Há uma certa paz, ordem e calma que, para mim, funcionam como elementos opostos à melancolia, ansiedade, saudade, caos que levo dentro do que escrevo, apesar da certa calma aparente que pode se refletir no meu trabalho. Além de tudo isso, dessa minha inadequação tanto aqui quanto no Brasil, já que sou eternamente o “meio do caminho”, condição difícil de aceitar, encontro na Inglaterra um país que me dá oportunidade para trabalhar como escritora. E o que acho mais bacana é a discrição em tudo que o inglês promove. Aqui a gente não vê festas de lançamento, feiras literárias em todo canto, facebooks de autores “bombando” (risos). Há bem menos festa e consideravelmente menos vaidade aparente. Mas o que você vê é gente lendo no trem, no ônibus, no metrô. Gente de toda idade. Vê livrarias cheias. Vê bibliotecas lotadas, confortáveis, sedutoras, modernas, com recursos. Eu sempre digo que há uma certa mineirice no inglês: trabalham duro, mas trabalham quietos. Eu, como tenho uma produção de livros infantis, trabalho muito no Brasil exatamente em lançamentos, feiras, escolas. Precisamente o que não tem muito por aqui. Mas me dá imenso prazer essa possibilidade de observação do estrangeiro. Para mim vale feito um privilégio, tanto no meu dia a dia quanto na minha produção literária.

 

DA – Queria falar justamente dos livros infantis. Curioso que eles surgem na sua trajetória literária antes do que se poderia chamar de ficção adulta, muito embora seus contos tenham uma influência direta da sua infância em Minas Gerais. Por que isso? Foi proposital iniciar com a literatura infantil ou surgiu a oportunidade e você embarcou nela?

NARA VIDAL – Eu nunca na minha vida imaginei escrever livros infantis. Esse universo era muito distante de mim. Aí veio minha filha. Com ela, a aquisição de duas línguas simultaneamente. O bilinguismo sempre me maravilhou. Estudei alguma coisa sobre isso na faculdade. Quando ela começou a crescer e a falar, mergulhei no assunto e escrevi uma série bilíngue que vendeu incrivelmente bem. Foram três livros. Aí, por questões editoriais, a série acabou. Porém, o assunto é fascinante e eu tenho um trabalho novo nessa área. Desenvolvi uma espécie de material bilíngue que pode ser aplicado em escolas, tanto para o aprendizado da segunda língua, no caso o inglês, quanto para o processo do desenvolvimento da língua materna, o português. Foi escrito inclusive com livro de atividades, feito material mesmo. Tem uma editora analisando a proposta para apresentar em escolas. No entanto, o meu grande sonho, que é ver o inglês desde os seis anos nas escolas públicas, fica cada vez mais distante. Não há prioridade na Educação no Brasil e a implementação de uma ideia assim teria como primeiro obstáculo a falta de professores capacitados e treinados para ensinar a língua estrangeira. Nos “cafundós do mundo”, conforme falamos em Minas do lugar onde Judas perdeu as botas, não existe facilidade assim. Muitas vezes nem nas capitais existe facilidade tal. Uma pena. Nunca vai existir igualdade social dentro da Educação, enquanto o ensino do inglês for negado às escolas públicas. A desvantagem começa aí e, lá para a frente, já sabemos como a história termina. A série bilíngue foi adotada em muitas escolas, todas particulares, infelizmente. Meus filhos são uma enorme fonte de inspiração para meus infantis. Estou envolvida até o pescoço com essa aquisição da arte e da criação de literatura infantil. Administro uma oficina para 11 alunos, toda semana, sobre literatura e produção de histórias. Isso me deixa com vontade de continuar a escrever literatura para criança. Revigora a gente, sabe? Apesar do mercado, apesar das políticas de Educação, apesar dos pesares.

 

DA – Seus filhos vivem e estudam na Europa e, obviamente, têm uma relação com a arte, em especial com a literatura, que, imagino, você não teve, que muitas crianças ainda não têm no Brasil. Da sua experiência com literatura infantil, acredita que existem diferenças práticas na maneira de introduzir o livro nesses universos distintos? Qual método que funciona bem aí que poderia ser adaptado por aqui?

NARA VIDAL – Você tem razão. A relação que eu tive com a literatura e as artes, quando criança, é muito diferente da que têm os meus filhos. Eu, com esse meu tempo de observação por aqui, fico achando que o segredo da popularização da literatura e das artes em geral é a familiarização dessas expressões desde muito cedo. Parece-me que a arte entra na vida das pessoas de forma muito natural por aqui. Principalmente não enxergo, nas escolas, a literatura como privilégio. Vejo que por aqui as artes, inclusive a literatura, são introduzidas de forma muito democrática. Não há também uma supervalorização. Explico: se um adolescente não se interessa por literatura clássica, a escola, os professores, não tendem a excluí-lo como se fosse a apreciação pelas artes clássicas um divisor de águas.  Vejo também a História sendo revivida e reapresentada incansáveis vezes. Datas, dias, são menos importantes. O que se discute mais, ao invés, é o impacto que determinada batalha teve para o país. É difícil traçar comparações entre aqui e o Brasil. Talvez seja mesmo impossível. Acho que a Inglaterra pode aprender com o Brasil a ser mais amorosa no trato com as crianças. Mas vejo muita qualidade na Educação daqui, apesar de certa frieza que nós, latinos, gostamos de enxergar.

 

Nara Vidal
Nara Vidal / Foto: JL Bulcão

 

DA – Já que estamos nessa seara de filhos, gostaria de lhe propor uma questão de cunho mais pessoal. Eu tenho uma filha pequena, que também é a minha maior fonte de incentivo e de inspiração, contudo, de maneira prática, no que se refere a tempo, concentração e solidão, elementos fundamentais para o processo da escrita, ter de lidar com a paternidade foi aprender a trabalhar com períodos diminutos, muitas vezes distribuídos durante o dia. No seu caso, a maternidade provocou esse choque com a literatura? Nara, a escritora, teve de se adaptar a esse novo contexto e planejar seus horários para o texto?

NARA VIDAL – Outro dia fomos visitar a casa do Roald Dahal. Ele tinha um escritório no jardim da casa, ia para lá às 10h e escrevia até o meio-dia. Almoçava, descansava, escrevia. Às duas da tarde, tomava gim tônica e escrevia até às cinco. Isso praticamente todos os dias. Senti uma inveja gigantesca daquele respeito pelo ofício meio ocioso de ter ideias e escrevê-las. Você sabe que às vezes elas demoram a aparecer de forma consistente. Quando os filhos entram nesse cenário então… É uma coisa louca aqui porque escrevo em qualquer momento livre que tenho. Qualquer um! Ultimamente tem sido ao som de robôs, transformers, essas coisas. Aprendi a trabalhar assim, senão não escrevo. A única coisa que ainda preciso aprender é lidar com interrupções. Se isso acontece e eu estou mergulhada no texto, acho difícil parar e voltar. Eu aprendi a adaptar meu trabalho ao ambiente. Mas confesso que adoro a solidão. Gosto tanto que, nas raras vezes em que estou sozinha, não consigo escrever porque fico apreciando a calma, o silêncio. Meus filhos sabem que meu trabalho é ler e escrever. Mas isso não significa que pratiquem o respeito e não vão parar debaixo da minha mesa num pique-esconde qualquer. Além de tudo isso, aqui na Inglaterra a gente normalmente faz todo o trabalho doméstico sozinha, sem ajuda. Quando as crianças estão na escola, preciso escolher entre trabalhar, cuidar da casa ou fazer comida. Gosto também de acordar antes da casa, ainda no escuro, fazer um café e começar o dia em calma. Mas essa paz não dura; ainda bem, diga-se! Fora isso, tenho suporte e, vez ou outra, viajo no fim de semana só para ver a solidão de perto e colocar ideias no papel. Ou se não conseguir escrever, experimentar artes novas. Preciso desse tempo e consigo tê-lo, vez ou outra. É feito aquela respiração profunda que a gente faz para encontrar energia. A inspiração dos filhos vem mais da convivência, da simplicidade das coisas, de uma ida ao parque, ao mercado. As perguntas que fazem, os pontos de vista, as opiniões deles são sempre fontes inesgotáveis de observação e admiração minhas.

 

DA – Recentemente, participei de uma mesa no Festival Nacional de Contos, ao lado dos escritores Carlos Henrique Schroeder, Altair Martins e Walther Moreira Santos, na qual falamos sobre concursos e prêmios literários. Ao fim, chegamos a uma conclusão não muito animadora, que honraria tem um peso muito mais particular que de servir como trampolim para a carreira do escritor. Você conquistou o Prêmio Brazilian Press Awards, em 2013, e, no ano seguinte, o Maximiano Campos, na categoria Contos. Qual o efeito que essas distinções tiveram no caminho do novo livro, da apresentação do original até a publicação?

NARA VIDAL – Há pouco tempo, eu estive na Flipoços com o fantástico Luís Serguilha, por quem tenho grande afeto e admiração. Numa mesa de bar, falávamos disso e ele me fez rir dizendo que os prêmios só servem para pagar as contas. No meu caso, nem isso!  Para falar a verdade, quase nunca participo de concurso. Participo de poucos. As editoras também cuidam dessa parte. Mas tenho muita preguiça da burocracia dos concursos no Brasil. Geralmente desisto enquanto penso se participo ou não. O Maximiano Campos, por exemplo, foi inscrito online. Um avanço, uma maravilha! Daí, participei. Além disso, não posso participar de vários concursos porque não sou residente do Brasil, outra maluquice das regras, na minha singela opinião. O Press Awards é um prêmio e para ele eu fui indicada, o que é muito bacana. No fim das contas, o que eu já ganhei só serviu para um tapinha nas costas de cinco minutos. Depois a gente cai na real, vê que não tem importância e sai em busca do trabalho de novo. Não sei se é assim para quem ganha um dos prêmios de maior prestígio no Brasil, feito você que ganhou o Prêmio Sesc de Literatura? Mas acredito que aí seja outra história. Deve ter te trazido a glória, o prestígio, a fortuna! (risos). De qualquer maneira, a única coisa que deve importar, no processo de criação, é a busca pelo pote de ouro no fim do arco-íris, ou seja, a qualidade total da escrita. Essa insatisfação e impossibilidade devem ser o fio condutor do ofício, do desejo de aprimorar, de praticar, de trabalhar.

 

DA – Sim, eu fiquei bem rico. Hoje, além de escrever, tenho uma fazenda onde crio cronópios e famas (risos). A glória teve a duração de um ano. Tem uma tradição entre os ganhadores do prêmio que a passagem da faixa de miss. Para aqueles que não sabem, além do lançamento do livro, o Sesc também leva o novo autor para vários eventos, em vários cantos do país, durante este período. O ano de miss. Já o prestígio é relativo. No meu caso, não garantiu que eu continuasse publicando pela editora que lança as obras vencedoras. O que me leva a uma questão: você chegou a apresentar o original de “Lugar comum” para alguma das editoras brasileiras consideradas de grande porte? Ou, assim como no caso dos concursos, a burocracia, a espera, a expectativa fizeram com que nem tentasse?

NARA VIDAL – Cronópios e fama… Bela criação, Sérgio! Eu entendo e percebo esse prazo de validade em relação à divulgação e à badalação de um livro. Somos um país de cada vez mais autores e menos leitores. Há muita competição por espaço, por prateleira, por leitura. Ontem li um conto seu publicado pelo Formas Breves, “Terra do nunca”. Tocante. Você é um talento. Mas tenho certeza de que gente de calibre de fato já te disse isso. Só não li suas outras publicações porque não encontrei em e-books. Olha, vou te dizer uma coisa: eu nunca tive a ambição de mandar original meu para aquelas editoras grandes, dos prêmios. Não posso ser hipócrita, pois claro que gostaria de ser editada por uma delas. Não há escritor sem vaidade, será que você concorda? Afinal, quem pensamos que somos ao escrever algo que acreditamos ser relevante o suficiente para ser publicado, lido por um tanto de gente? Há vaidade e vaidade. Melhor ficar com a primeira… (risos) Mas não saberia nem por onde começar em relação a apresentar originais aos grandes grupos editoriais. No entanto, apesar do mercado se mostrar cada vez mais estreito, vejo com extremo otimismo o surgimento de editoras novas ou até independentes. São, na maioria das vezes, espaços fundados por gente apaixonada por literatura que, de uma forma até romântica, luta pelas Letras. Eu acho isso muito comovente. Eu tive três propostas de edição do “Lugar comum”. Fechei com a Pasavento porque senti uma afinidade entre mim, Marcelo e Rennan. Deram-me uma leitura atenta, com críticas, comentários. Ouvi de um editor uma vez que o meu texto era irretocável e estava pronto. Saí correndo e nunca mais consegui olhá-lo com seriedade. Mas eu gosto de variar editoras. Faço isso com os infantis. É uma forma excelente de provar formas diferentes de trabalho, encontrar afinidades ou concluir que não há nada em comum. Acho importante para ganhar experiência. Dito isso, há editoras com as quais eu trabalharia sem parar. Sobre as editoras grandes… Já pensou, ter seu livro lá na prateleira de entrada de uma grande livraria? Deve ser bom!

 

DA – Muito grato pelos elogios! Fico feliz. Como também é uma alegria ler sobre editores que trabalham junto ao autor, visando exclusivamente a qualidade literária. Também tive essa sorte na Confraria do Vento, que publicou meu segundo livro. O caso é que nem sempre é assim. Com a proliferação de novos selos, cresceu de modo exponencial o número de novos autores, muitos dos quais imaturos, com potencial, mas ainda precisando de um tempo para robustecer seu texto; o que, a meu ver, deveria ser o papel do editor, pegar o cara e dizer: “Espera um pouco. Não publica agora. Vamos melhorar esse original”. Encarando dessa forma, você não teme que, com a enxurrada de novos autores despreparados, chegaremos ao ponto de nivelarmos a literatura brasileira por baixo? A tal democratização não poderia ser, a longo prazo, uma maneira de se consolidar alguns privilegiados?

NARA VIDAL – Olha, eu concordo com a sua colocação de que é trabalho do editor cuidar do texto e filtrar o que chega, se apresenta. Recusar, lógico. Claro, o escritor, por mais detalhista, perfeccionista, auto-crítico que seja, sempre vai querer a publicação do seu texto, por isso ele o envia para editoras. O autor não tem o distanciamento do seu texto necessário para avaliá-lo. Daí a leitura do editor ser tão importante. Claro, quando explicam a razão da recusa, é muito digno. Mas, às vezes, o escritor não encontra uma editora: encontra uma gráfica. No entanto, vivemos tempos interessantes: há uma moçada que lê muito. O que lê? Bom, aí nós caímos naquela questão da literatura elitista que eu não curto. Acho tão esnobe quando se cria essa opinião comum de que os best-sellers, principalmente os brasileiros, são literatura de questionável qualidade! Essa postura só serve para perpetuar o que já discutimos aqui: a literatura, essa rara e sofisticada forma de arte, privilégio de poucos. Isso é muito negativo e tem o impacto exatamente no número de leitores no Brasil. Eu acredito que leitura é leitura. Cada um no seu tempo, na sua hora, na sua maturidade, vai chegar ao que todos classificam como literatura clássica. Uns vão demorar pouco, uns vão demorar muito. Outros não vão conseguir gostar. Não vejo problema nisso. Não acho que só o que eu li na Faculdade de Letras e só o que a mídia e os prêmios classificam como alta literatura seja a única forma de leitura aceitável. De uma certa forma, o mesmo se aplica aos escritores. Hoje em dia só não publica quem não quer. Há inúmeras editoras que cobram do autor e prometem editar. Há a auto-publicação. A Amazon oferece aqui um serviço de livros em e-book e físicos que você pode publicar em menos de uma hora. No final das contas, um livro mal editado e de um escritor ansioso que publicou antes da hora pode ficar tão empacado quanto o de um imortal da ABL. Gosto da democratização, de certa igualdade na oportunidade de publicar. No entanto, sabemos bem que o que é bom é relativo e, por isso, talvez seja verdade que um tipo de literatura não tira o lugar da outra.

 

DA – Desse tempo em que você está fora do país, tem acompanhado o que ocorre na literatura contemporânea brasileira? O que chega por aí de maneira espontânea, fora das autopromoções das redes sociais?

NARA VIDAL – Acompanho sim. É a minha área não só de interesse como de trabalho. Sigo tudo o que está ao meu alcance. Pouco daí chega aqui, pouco daí é amplamente conhecido aqui. Preciso ressaltar que falo sobre o que eu vejo e sobre o que vejo na Inglaterra. Existe a FlipSide, da Liz Calder, a mesma idealizadora da Flip. Esse evento, bem pequeno, acontece em outubro, em Suffolk, um lugar pitoresco, bonito de se ver. Pelo tamanho do evento, ainda é possível encontrar e conversar com os autores de maneira mais espontânea que na Flip, por exemplo. É um charme. Em 2013, estiveram por lá o Milton Hatoum, Adriana Lisboa, Ferrez e um tanto de nome bacana. Ano passado veio a Socorro Accioli, por exemplo. Além disso, há, nas universidades, os departamentos de estudos latino-americanos. Vez ou outra, há alguma arte nossa representada lá, seja em literatura, seja na música, seja na dança ou nas artes plásticas. Há poucas semanas, estive na University College London, com a Sylvia Morgado e o Dedé Laurentino, e falamos para uma plateia de brasileiros, veja bem. Eu participei de uma mesa do Cheltenham Festival, o maior por aqui, falando sobre Brasil. Existe interesse, mas até onde vejo, me parece muito limitado e ainda visto como exótico.  A Embaixada e o Consulado também se esforçam para divulgar a nossa literatura aqui, mas esbarram em obstáculos financeiros, por exemplo.

 

Nara Vidal por Louis Hallam
Nara Vidal / Foto: Louis Hallam

 

DA – Um tanto desanimador, não? Mesmo com o crescimento dos autores, das feiras que homenageiam o país, da pluralidade da literatura contemporânea brasileira, ainda persiste essa visão do exótico, do pitoresco, do regionalismo, além das nossas fronteiras. Desses eventos europeus que participa, qual o tipo de pergunta recorrente? Já se pegou tendo de explicar que não somos índios fazendo sinal de fogo?

NARA VIDAL – Bom, se existe o desejo do escritor brasileiro de ser reconhecido por aqui, na língua inglesa, é de fato desanimador. Mas desanimador mesmo é esse estereótipo. Um tanto cansativo também. Essa foi precisamente a minha tese de mestrado aqui, na London Met. Falei sobre a imagem e o estereótipo brasileiros, com foco em Minas. A imagem, como sendo a experiência e o estereótipo, aquilo que motiva a experiência. Fiz um “focus group” com britânicos para a minha tese e, de dez, só um tinha ouvido falar em Minas Gerais. Mesmo assim porque é um “lugar não longe do Rio que não tem praia.” A minha tese foi publicada aqui e está disponível na British Library. Ofereci ao Governo de Minas, mas não tive resposta. Desenvolvi no trabalho exatamente a tentativa de destruição do estereótipo brasileiro, propondo saídas concretas para o aumento da visibilidade de Minas nas brochuras de turismo. Cheguei a falar de Juiz de Fora e suas riquezas mais óbvias, como Murilo Mendes, Rubem Fonseca e Mariano Procópio que, mesmo não tendo nascido em Juiz de Fora, foi juizforano. Falei da arte barroca, dos trens de ferro, da História, da culinária. Mas mesmo assim, o Rio e as praias ainda são o Brasil. Algumas impressões não são estereótipos, são realidade. A violência é um enorme obstáculo para atrairmos o olhar estrangeiro desconectado da noção de exótico. No festival literário de Cheltenham, para quebrar o gelo, contei a história de quando fui a um aniversário em Oslo e, lá, os amigos noruegueses do meu marido aguardavam ansiosamente a presença exótica da brasileira. Cheguei, sentei-me à mesa, bebi, comi e, à certa altura, um deles comentou que não tinha ainda visto a tal brasileira. Olhei para os seus curiosos olhos azuis e quebrei o encanto: a brasileira era eu, feito ele, também tinha olhos azuis e era loira. A partir dali, contei pra ele sobre o sul do Brasil e seus alemães, sobre o sudeste e seus japoneses, italianos, sobre o nordeste e seus holandeses, sobre todas as cores que nos enriquecem. Já o estereótipo da nação do futebol, pelo menos aqui em casa já foi massacrado. Minha filha sabe bem que o Brasil é perna de pau, pois me viu derrotada naqueles 7×1 até hoje inacreditáveis.

 

DA – Falando em massacre, não sei se acompanha essa polêmica do conto aqui no Brasil. Esse olhar enviesado para o gênero, sob o argumento de que não vende, de que não há um interesse robusto dos leitores pelas breves narrativas. Hoje temos a soberania do romance, inclusive com algumas editoras percebendo a literatura brasileira estritamente nesse formato. O que pensa sobre essa discussão? Como avalia a importância do conto, na esteira do lançamento da sua antologia?

NARA VIDAL – Eu acompanho sim. Engraçado que, há um ano, eu e mais três autoras queríamos escrever um livro juntas. Eu pensei em contos e até cheguei a propor. Na hora vieram comentar que conto não vende. É impossível eu comentar sob o ponto de vista de uma editora. Fico pensando que o “não vende” no Brasil é muito mais abrangente. Eu acredito que uma vez quebrado esse preconceito em relação ao conto, visto que somos um país de leitores preguiçosos, o conto pode se tornar atraente, pelo tamanho mesmo. Mas veja a armadilha: contos são caprichosos, difíceis. Precisam ter grande riqueza e primar pelo impacto, pela dinâmica, a rapidez. Uma vez ouvi alguém dizer, não me lembro quem, que escreveu uma carta com dez páginas porque não conseguiu escrevê-la em cinco. Eis a ilustração da dificuldade do conto. A economia das palavras é apenas quantitativa. A qualidade deve ser precisa. Talvez o mercado editorial aposte num molde estrangeiro, quem sabe? Aqui fora as “short stories” vendem menos, mesmo se comparadas com os romances. Mas vejo com otimismo a destruição do preconceito em relação ao conto. O selo Formas Breves é um bom exemplo do novo ar que vem entrando nessa casa velha cheia de teias de aranha. Outra beleza da qual me lembrei é a Lorrie Moore, escritora americana que já esteve na lista dos mais vendidos por tempos com seus livros de contos. Sabe o que ela fala sobre contos? Que são fotografias. Romances são filmes. Contos são um caso de amor. Romance, casamento. Parece-me que os leitores brasileiros estão precisando um caso de amor. Urgentemente!

DA – Falando em casamento, como é a sua relação com o leitor? Você pensa nele durante o processo de escrita ou o percebe no papel de espectador?

NARA VIDAL – Enquanto eu escrevo, não penso em quem vai ler não. Isso nunca me passa pela cabeça enquanto há o processo criativo. Sinceramente, acho que se você para para refletir sobre quem vai ler enquanto está escrevendo não deve chegar nunca a lugar algum. Depois de publicado o livro, gosto de ouvir e saber das leituras. É interessante ver como foram parar aos olhos dos outros. Feito um telefone sem fio, leituras e olhos se modificam na experiência única de cada leitor. Acho bacana ver como acontece essa parte viva da literatura. Nos meus trabalhos de literatura para criança e jovens tenho um contato bem direto. Há turmas que fazem prova de livro meu, há homenagens, há dias de autógrafos em escolas. Há um contato muito legal e muito honesto. Há abraço apertado, há olho no olho, há elogio muito sincero relacionado ao que leram. Se morasse no Brasil, teria o pé na estrada o tempo todo visitando escolas, feiras. Gosto bem.

 

DA – Como você gostaria que seus filhos vissem seus livros quando adultos?

NARA VIDAL – Há uma coincidência na sua pergunta: outro dia, por volta das 7h30 da noite, colocava minha filha para dormir (as crianças aqui vão dormir bem mais cedo. Por volta de 7h, já começam a ouvir as histórias e ler os livros). Ela pediu que eu ficasse com ela até cair no sono, o que não faço porque ela aprendeu a se acomodar e ir dormir sozinha. Acho vantagem isso, não quero estragar. Mas fiquei com ela um bom tempo. Disse que precisava descer e continuar a trabalhar. Daí ela me perguntou se era mais um livro e eu disse que sim. Ela me surpreendeu quando me perguntou o que eu quero desses livros todos que eu escrevo. Confesso que não soube a resposta. Como ela não aceitou o meu silêncio, eu disse que queria escrever 100 livros. Quando esse dia chegasse, eu pararia. Ela riu e disse que eu perdi, já que a Julia Donaldson escreveu mais de 130! Acho que quero deixar isso: o meu afinco para com o meu trabalho, provar que posso fazer o que amo se equilibrar com todo o resto. Que mesmo que cada livro tenha tirado um pouco do meu tempo com eles, os meus filhos, eu estive muito feliz e viva na produção do meu trabalho. Acima de tudo isso, quero que vejam e sintam a língua portuguesa. Costumo pensar que, se todo o resto falhar, pelo menos dei a eles uma língua inteira. É o melhor que poderia dar.

 

 

Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites literários nacionais e internacionais. “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura.

 

 

Categorias
102ª Leva - 05/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética III

Carla Diacov

 

Carla Diacov
Arte: Carla Diacov

 

ela anda com as solas das
mãos para fora
vermelha
anda como quem pede
e se dormir andando
e se espirrar andando
ela dorme como quem peca
vermelha
e se um caco de vaso a segurar pelas mãos?
e se um rouxinol a atropela?
e se lhe resolve pesar o vermelho no coração?

 

 

 

***

 

 

 

a leviandade por ser presença
fica
teu vulto evolui e se encrespa a ser novo vulto através das pontas dos meus dedos
há já algum resíduo
na inocência e na violência é minha
a pressa
envelheço me ajoelho tiro a sorte na posição dos dias
você vem?
na inocência e na acedência
a leviandade
você vem fica
há o resíduo penando no fundo do poço
você vem?
há um pássaro em repouso
se você não chega
como tudo que vibra por baixo do gesto
respira voa é violenta inda cisca
há uma ave que eu não
há alguns metros que eu não
há uma esferográfica e há um século e meio sobre
a mesa se você chegar antes

 

 

***

 

 

o raio é posto, parada e rio
não chegam os olhos ao nó da garganta
quando de lado a vida
o corte é trilha carcomida e zarolha
inda me sobra te dizer assim:
venha comigo, deixe o cavalo ao meio, de nada adianta, deixe o cavalo comigo.

 

 

 

***

 

 

 

Anatomia Forense

era pra eu ser mulher de morar, mas sou amável.
era pra eu ser deparável.
mas sou odiável.
sou serial e sou adjetiva demais. era pra eu seu de morar, mas sou oxidável.

 

 

 

***

 

 

 

pela combustão

 

o vento enche a minha cara dos fios dos meus cabelos
tento outra posição
porém o vento
me agacho
junto ao tronco da palmeira

carco fogo nas velas
o céu da boca não orna com a boca que não souber o que é uma boa fogueira
eu por exemplo ou falsidade envernizada
sou essa capela em chamas
à beira-mar
desejo redes e só sei queimar

 

 

* Os poemas integram o livro AMANHÃ ALGUÉM MORRE NO SAMBA pela Douda Correria (Portugal/ Abril, 2015)

 

Carla Diacov (1975), São Bernardo do Campo – SP. Publicou “Fazer a Loca” (e-book) pelo selo Ellenismos. Tem poemas na Coyote número 25 (Kan Editora com distribuição pela Iluminuras).Integra a coletânea 70 POEMAS PARA ADORNO, Editora Nova Delphi (Portugal).Em Abril de 2015 lançou AMANHÃ ALGUÉM MORRE NO SAMBA, livro de poesias pela Douda Correria (Portugal).Tem participações no site Cronópios, nas Revistas Germina Literatura, Zunái, Mallarmargens, Usina, Diversos Afins, Ellenismos, Cruviana, Musa Rara e integra o Escritoras Suicidas. 

 

 

Categorias
101ª Leva - 04/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Victor H. Azevedo
Desenho: Victor H. Azevedo

Há pouco entramos num marco centenário de publicações. Agora, seguir adiante é manter acesa uma chama que sabe a sonho e alguma espécie de teimosia. Tem quem prefira classificar como resistência, mas pensar assim implica um pouco em firmar a ideia de que se está lutando contra uma força qualquer. Não seria esse o propósito de trilhar caminhos na seara cultural. É fato que algumas adversidades se agigantam no meio da jornada. No entanto, elas servem para nos mostrar que o jogo das oposições se estabelece muito mais por uma necessidade de se firmar posições e ideias, construindo diálogos e debatendo uma vasta gama de assuntos. Ao mesmo tempo em que se busca externar pontos de vista pautados nas mais diversas formas de expressão, poder fomentar o pensamento significa também estar aberto à mudança. É entender que, como organismos vivos racionais, estamos sujeitos a toda sorte de interferências e sugestões que nalgum ponto da trajetória são capazes de nos indicar vias substanciais de transformação. Em outras palavras, lidar com forças humanas é constatar a vulnerabilidade das certezas. Ao fim de tudo, é bom concluirmos que ninguém detém a patente da verdade. E o que faremos com tal arremate? De fato, são infinitas as possibilidades, mas cada pessoa configura as leituras seguindo uma ótica que mescla razão e sensibilidade. Precisamos da arte para romper a dureza dos dias quando nos percebemos seres aborrecidos pela rotina mecanizada. Necessitamos da arte enquanto prova inconteste de que estamos vivos e prenhes de saber e sabor. Somos arte na ruptura, na desconstrução e na inconformidade. Somos, enfim. Os acessos da Diversos Afins anseiam pela comunhão de signos advindos das mais distintas correntes de expressão. Assim, vamos buscando a expansão de um ideal de multiplicidade de rostos e vozes, todos eles com o que há de melhor: o vigor de sua individualidade. Vejamos, pois, que, diante de um mundo atravessado pelo caos do pensamento e da ação, há espaço para os olhares marcantes de gente como Victor H. Azevedo, jovem artista movido fundamentalmente pela atuação das forças que circundam seu caminho sensível. Na linha que agrega percepções inquietas sobre a existência, é oportuno frisar a conversa que tivemos com o escritor Dênisson Padilha Filho, autor que vem construindo uma obra valiosa na prosa contemporânea brasileira. Nos recortes poéticos de então, abrimos alas para as epifanias de Vicente Franz Cecim, Catarina Santiago, Leonora Rosado, Vander Vieira e Paola D’Agostino. Noutro ponto da edição, Larissa Mendes empresta seus olhos para toda a beleza e força presentes no documentário “O Sal da Terra”, filme sobre a trajetória do fotógrafo Sebastião Salgado. Há também o provocador percurso de Sérgio Tavares nas impressões sobre o mais novo romance de Carlos Trigueiro. Dispersa nos contos de Fernando Marques, Tadeu Sarmento e Diego Moraes, a vida mostra suas muitas faces. O olhar poético de Daniela Galdino confere ao mais novo disco do cantor e compositor Lirinha um lugar de destaque. “Diário de um ladrão”, romance de Jean Genet, é alvo dos esmerados apontamentos de Rafael Peres. Com estes e outros trânsitos possíveis, caro leitor, ofertamos a você uma 101ª Leva!

Os Leveiros

 

 

Categorias
101ª Leva - 04/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Leonora Rosado

 

Victor H. Azevedo
Desenho: Victor H. Azevedo

 

Há um alçapão no fundo do mar
Subsolos imaginativos de orquídeas
Que ardem e submergem ainda
Mais fundo
Onde a luz é dilatada pelo rumor
De algas mortíferas peixes ferozes
Ao brilho gasto de cada grão
A areia traça nas mãos um indelével
Golpe
O sangue emerge
E o mar incendeia-se
Num sobressalto
Ecos vindos das planícies sob
Dunas marítimas
Dizem que há pássaros
Mais além e que ainda se pode voar.

 

 

 

***

 

 

 

No começo
De um luto
Lavado,
Impuro,
Tecer
De pano
As cinzas
De uma
Teia,
Há flores
Vindas
De longe
Que escutam
Os meus passos
Em branco
Como o assentir
De outras mortes,
Que inclinadas
Sobre vidro,
Quebram-se.

 

 

 

***

 

 

 
Ficou do meu corpo
Apenas o ensaio das curvas
A pressa de ir ao fundo
Onde a porta se fecha
A boca de anzol
Onde morrem as perguntas
Translúcidas e vazias de vago
Em cada respirar.

 

 

 
***

 

 

 
No começo da linha
Há uma curva imaginária
Uma sombra incendiada
Um sofisma gritante
Uma estrofe muda
Um desistir veloz
Que nos perpassa
O ponto de início
É uma flor em cinzas
É o amor essa emergência
Que pulsa
Veias para o garrote
Estreito
A linha perde-se no contexto.

 

 

 
***

 

 

 

As mãos descuidadas
Os dedos mordidos
Como um Inverno quente
Em que estalam as folhas
O corpo uma extensão de areal.

 

 

 
***

 

 
Na pressa de queimar cicatrizes
Deixo-me ficar na penumbra.

 

 
***

 

 
Só tenho um sentido de vida:
O do caos.

 

Leonora Rosado nasceu no concelho de Sintra em 1971. Desde muito cedo revelou interesse quer pela leitura assim como pela escrita, poesia, sobretudo. Teve o privilégio, de ainda em criança, cruzar com poetas nomeadamente, Ruy Cinatti, Joaquim Ferrer entre tantos outros… A escrita é a sede que ávida tenta saciar incessantemente em eterno retorno. Insaciedade de Tântalo. Em vertigem constante.    

 

Categorias
101ª Leva - 04/2015 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

Um ultraje contra o Brasil, esse país de gente honesta

Por Sérgio Tavares

 

 

 

‘Mierdamorfose’ (7 Letras/172 pgs.), de Carlos Trigueiro, é um acinte. Uma bazófia, o apregoamento doidivanas de um despropério num país, que é de senso comum, foi instituído o politicamente correto, a caretice, o bon ton.

Como pode um cidadão, que se lê na orelha pós-graduado na Universidade de Roma, homem do mundo e autor de obras literárias de vulto, insinuar que, no Brasil, incorra o expediente da desonestidade, da corrupção, do toma lá dá cá, do jeitinho, do dólar na cueca?

Uma temeridade, um absurdo!

Só para registro, vamos ao livro: depois de despertar subitamente de ‘sonhos indecifráveis’, o professor universitário Anastácio Penaforte se percebe metamorfoseado. Tudo se inicia com um estremecimento incontrolável, seguido de uma ‘sensação de vislumbre generalizado’, que evolui para uma espécie de sexto sentido e, por fim, para a instalação de uma ‘fenomenal consciência’.

Tal processo insólito, que muito se assemelha ao sofrido por Gregor Samsa na novela ‘A metamorfose’, do tcheco Franz Kafka, não o transforma num inseto monstruoso, mas desencadeia anormalidades físicas, como uma descoloração do seu cabelo para um tom arruivado, o comprometimento da fala numa insuspeita língua presa e o soltamento de ‘uma coisa escura e pastosa da pele’, que torna a água do banho lamacenta e fétida.

Sentindo-se, então, ‘uma pessoa limpíssima, cristalina, decente, proba, digna, boa, honrada, íntegra’, Anastácio Penaforte passa a semear radicalmente a honestidade, tanto contra os desvios particulares quanto os públicos.

Seu périplo em defesa dos preceitos morais tem início pela faculdade onde leciona Literatura Comparada. Adentra, sem cerimônia, o gabinete do diretor e confessa suas infrações escoradas na autoridade de professor, entre os quais beneficiar alunas com a garantia de levá-las para cama e a fraude na autoria de um livro. O docente superior fica pasmo, credita o testemunho a um surto mental, e endossa um afastamento temporário.

Ato contínuo, o professor encaminha-se a uma delegacia próxima e, diante de um inspetor de polícia, averba uma ‘declaração espontânea de supostos delitos’, acusando-se de ter usado celular em locais proibidos, comprado produtos piratas, fumado maconha, desrespeitado a faixa de pedestre, apostado no jogo de bicho, perseguido alunos gays, mentido para escapar do serviço militar e cabulado reuniões de condomínio, dentre outros.

O próximo passo é uma consulta com o doutor Rubião (n. do resenhista: curioso esse nome) que não encontra nenhum mal patológico, associando tais mudanças a um fator fantástico, em especial a impossibilidade de pronunciar a sílaba ‘po’, trocando-a pelo som do antigo ‘ph’, a exemplo de ‘phoder público’. É inclusive conduzido ao checkup de uma fonoaudióloga, contudo a causa da anomalia permanece em mistério.

Ora, até este ponto o livro transcorre sem problemas. A gravidade dá corda adiante. Durante o testemunho na delegacia, Anastácio Penaforte anuncia o interesse de articular, junto ao Senado Federal, a implantação da ‘Comissão Nacional da Radical Honestidade’, e, veja só estimado leitor, a iniciativa provoca calafrios, desarranjos, desmaios, febre, preocupações nos assessores e no próprio senador Justo Varejão Raposo Neto.

O que estaria dando a entender o autor com isso? Passaria pela sua cabeça desconfiar da lisura, da incorrupção, da retidão, da probidade do parlamento brasileiro? Será que possa cogitar que haja desvios na conduta modelar de nossos políticos?

O caso é que por praticar, com seu discurso, ‘um gravíssimo crime político contra a segurança nacional’, como assinalado pelo senador Varejão, o professor Anastácio Penaforte é retido em prisão preventiva. Mas, no confinamento, se desdobra um desatino ainda maior. O preso leva uma vida de marajá, com direito a jornais de escolha, livros e outras regalias que, obviamente, não condizem com a realidade, só aceitas na mais delirante ficção.

Não se pode negar, todavia, que a remessa de leitura do condenado seja composta por obras imprescindíveis. Assim como a narrativa esteja amarrada por um domínio técnico preciso, a todo momento dialogando com a literatura, que a torna irresistível da primeira à última página. No entanto, isso não invalida o caráter ultrajante de ‘Mierdamorfose’ contra o Brasil, esse país de gente honesta e exemplo mundial de educação, saúde e segurança.

Dito isso, não me resta outra opção senão a de cobrar às autoridades a detenção preventiva do autor Carlos Trigueiro, da mesma forma que Machado de Assis, Lima Barreto e Mario de Andrade deveriam ter sido detidos em suas épocas.

N. do editor.: Dominado pelos vapores intoxicantes que exalam as páginas deste livro, o resenhista compôs o texto munido da mais fina ironia.

Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites literários nacionais e internacionais. “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura.

Categorias
101ª Leva - 04/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Tadeu Sarmento

 

Victor H. Azevedo
Desenho: Victor H. Azevedo

 

Flores no microondas       

 

O que mais gosto é que você parece ter guardado um segredo durante todo o dia só para me contar. No fundo sei não ser verdade. O fato é que abro tuas pernas como facas uma ostra. Isso é real. Mas o real nem sempre é melhor. São os mal-entendidos que colorem o mundo. O melhor é depois conversarmos na janela do nono andar, fumando, olhando os (daqui) pequenos carros na rua. Da janela sinto o mundo recolhendo acontecimentos que nos atingiriam em eco caso estivéssemos lá embaixo. Mas, não estamos. Saio do teu corpo como um prazer satisfeito ou uma doença. Dentro você é macia pista de gelo quente. Fora, todo este teatro à disposição. A luz é a continuação de outro mundo, refletido em teus cabelos. O segredo que você tanto guardou durante o dia é sempre a mesma história, com pequenas alterações. Surpreendo teus lapsos como às vezes a vista surpreende a mão em gesto automático. Mas, sempre finjo não notar. Gosto de ouvi-la, desse hálito golpeado pela hortelã do teu cigarro mentolado. Por exemplo: a cada vez você troca o nome dos mortos que inventa. Por mim tudo bem. Nomes de mortos não são mais úteis. Só acho engraçado esse esforço de encenação. É como se eu me importasse. Finjo me importar. Bato à tua porta porque estou cansado. Entro carregando nas costas meu próprio corpo. A mim bastaria que você apagasse os incensos da sala. Eles fedem a pétalas de plástico queimado. Você se deixa entender; eu me deixo escutar. Com você o sexo sempre vem acompanhado pela máscara da compaixão. Teus pais são indianos e te prometeram em casamento a um velho de setenta anos. Por isso você fugiu de casa e está aqui, vivendo essa vida. Mas, quantos nomes diferentes teus pais têm? Eles já morreram mesmo, e de tantas formas assim? Teus lábios são lâminas líquidas mordendo pequenas peras de luz. Percebi que quando você mente esfrega o pulso com o nó dos dedos. Mas, quem não mente? A mentira é a principal função da linguagem. Só que poucos esfregam o pulso como você. Quando você se espreguiça lembra um anjo abrindo as asas. Outro dia você disse que eu era apático. É que gosto de ficar quieto, silencioso, observando você. Tenho quatrocentos adjetivos diferentes para falar das tuas costas. De qualquer modo, tomei como um elogio. Nossas vidas são tão minúsculas. Somos tão indefesos, tão pequenos, que tenho vontade de rir. Gosto das suas estórias. São segredos escritos a lápis. Por isso você os apaga e os reescreve toda vez que eu chego. E eu sempre chego, carregando meu cadáver nas costas. Retirando o peso da verdade, os corpos ficam mais gratificados, menos constrangidos. Ficam menores, mais do que já são. Vivemos a vida dentro de um sonho. Às vezes, quando estamos na janela, sinto um insuportável desejo de saltar.

***

Aeroportos de papel de carta

Conheço cidades distantes através das malas esquecidas no aeroporto. Não são muitas, nem é todo dia que as encontro. O ritual é tão estranho quanto gratuito. Geralmente sento em um dos bares próximos à pista de decolagem, para beber embalado pela tristeza do som das turbinas, admirando, sem entusiasmo, a indiscreta velocidade dos pássaros pesados, as asas de cor cinza, metálicas. Depois, atravesso a rua como se fosse viajar. Outra tarde, dividi a mesa de um desses bares com Diego M., ator, escritor brilhante, biógrafo de índios assassinos, decidido a embarcar atrás de uma harpista francesa que, segundo ele, cheirava bem na pele de madrepérola, encimada por olhos mansos (cor de rins). Fique longe do amor e dos aeroportos, aconselhei, dessa combinação explosiva que seduz a alma dos ladrões, pintores, imbecis, palhaços descalços. O amor não deve nunca embarcar. Nunca. A curva do sol refletia nos copos um sorriso de luz quando eu disse: no dia em que os turcos tomaram Constantinopla derreteram os sinos da cidade para fabricar munição. De modo que o melhor é esperar em casa, sentado, a bala turca vir ferir de vez seu coração de puta, que decidir ouvir de perto a sacra música das catedrais. As malas, Diego, procure as malas com rodinhas nos saguões. Seus donos são descuidados. Abra-as, sinta o cheiro de vitrine das roupas amassadas, o odor gordo da fumaça dos carros impregnando as gravatas, leia os tíquetes de estacionamento que falam sobre esquinas desconhecidas, descubra assim as ruas dessa cidade de origem, proteja-se. Um erro convertido em amor. Não negocie sua alma por isso. Aprecie os aeroportos de longe, as delgadas aeromoças em uniformes azuis, esses patins rosa que giram sozinhos na esteira rolante, ou o denso cheiro desse plástico que brilha como ouro falso. Da espessa vegetação dos números coloridos calculando fusos horários aprenda a gostar desse sentimento de que nada dura até o fim da curvatura dos gráficos. Pois o amor acaba porque tudo acaba um dia. O amor sai na urina, entre os cristais da cerveja que tomamos agora, um brinde. De resto, mulheres são cruéis quando é você o estrangeiro. São muros cercando o incêndio brilhante. Se Henry Miller tivesse vivido na era dos aviões não teria ido a Paris atrás de suas bonecas vazias. De navio, teve tempo suficiente para se entusiasmar e arrepender-se, longe da enjoada sensação de primavera de tudo o que se movimenta rápido. Anaïs Nin, afinal, era só uma ninfomaníaca com curso de datilografia e, segundo Artaud, tinha um péssimo gosto para calcinhas. O amor não servirá de abrigo antiaéreo caso a bomba imploda da caserna. Ele acabará um dia, na sala de embarque ou desembarque, pois esse tipo de amor se apaixona por si mesmo, bebe de suas unhas o próprio futuro que não terá. É a estrela dos cansados, farol dos cegos, cartaz de filmes castigado pela chuva. Fique longe desse tipo de amor. Se possível, de qualquer tipo de amor. Fique longe de mulheres brancas, francesas, com sotaques estranhos, traços orientais de estátua. São anjos, mas usam coturno. E usarão os coturnos, quando você menos esperar. De modo que não é possível amar uma mulher para depois amar a cidade em que ela vive. Cidades distantes costumam enforcar os invasores. Melhor manter-se em pé, atrás das janelas. Sobretudo manter distância dos lugares onde poderia ter sido feliz. Não seja feliz. Não fará diferença alguma. Em breve estaremos todos mortos.

***

Subtração

Eu sempre vou te querer. Sempre. Quando ninguém mais te quiser, eu vou. Mesmo depois de você ficar velha, curvada, lenta, bem gasta. Quando ninguém mais te desejar, eu irei: desejá-la, querê-la tanto. Mesmo se você engordar, ou emagrecer demais, ou cortar as unhas até a pele sangrar. E quando a ninguém mais for suportável tua tristeza, teu humor negro, teu pessimismo, a mim será, pois, quando ninguém mais suportar ouvi-la falar de Thomas Bernhard, eu vou querer te ouvir falar de Thomas Bernhard. E mesmo se todos se cansarem dos teus longos silêncios eu não me cansarei, até por ser durante teus longos silêncios que eu escrevo. Porque quando você fala eu prefiro o som da tua voz ao dos meus dedos no teclado. Porque escrever é sempre dizer que você não está, ou está, mas calada. Que o teu silêncio é a minha imaginação. Então quando todos cansarem de ti, dos teus dentes manchados, tortos, afiados, do teu hálito de nicotina, das tuas mãos gesticulando nervosas, eu não me cansarei nunca. Mesmo quando teus seios caírem, teu rosto enrugar, tua memória falhar, teus pulmões virarem esponja. Quando você for traída, esquecida, humilhada, trocada por uma mulher mais jovem ou mais fútil, eu vou te querer ainda mais, e para nunca te trair, te esquecer, te humilhar, te trocar. Quando você estiver sem dinheiro, sem emprego, sem cigarros, esperança. Quando pouco ou nada sobrar de você, eu ainda vou querer esse pouco, esse nada, esse tudo que se puder raspar do prato raso dos teus sonhos. Sim, mesmo quando teu gato envelhecer, e passar a dormir dezoito horas por dia, e você se sentir sozinha sem ele, eu vou estar sempre acordado para você. Até mesmo se você tiver adquirido manias, tiques, doenças, dívidas, varizes, joanetes, verrugas, manchas na coxa. Pois, quando tuas tatuagens forem se apagando aos poucos e deformando-se conforme tua pele for enrugando, ainda assim gostarei delas, quererei vê-las. Digo: depois que o sexo (gás do pânico) já não for mais tão importante, e tudo for esse imenso vazio negro do desejo saciado. Sim. E depois de ninguém mais suportar teu bruxismo, tuas bebedeiras, teu choro, tuas olheiras, tuas cólicas, eu te pegarei pelos braços e te darei banho, e limparei teu vômito, e te deitarei na cama, e velarei teu sono por toda a noite. Enquanto eu estiver aqui eu estarei sempre aqui. Porque aprendi coisas novas para te contar. Que agora sei onde as modelos de Klimt enfiavam os dedos enquanto ele as pintava. Descobri hoje. Mas isso eu não vou te contar agora. Eu sempre vou te querer. Sempre. Mesmo que o amor não signifique mais nada para mim. Eu sempre vou te querer pelo simples fato de ser impossível para mim que eu não te queira. É impossível. Pois quando estou na rua e alguém me pergunta que horas são eu sempre respondo que é a hora certa. E sempre é a hora certa. Sempre será a hora certa. Sempre. Sempre. Sempre.

 

Tadeu Sarmento nasceu no Recife, safra de 1977. É autor dos livros “Breves Fraturas Portáteis” (Fina-Flor Editora, 2005) e “Paisagens com Ideias Fixas” (Bartlebee, 2012). Em 2014 foi um dos vencedores do II Prêmio Pernambuco de Literatura, com o romance “Associação Robert Walser para sósias anônimos” (Cepe Editora, 2015). Defende trincheiras indefensáveis no Visões de Ezequiel e despejou entulhos literários no Lontra Hiperbórea. As três narrativas acima integram o inédito “Sete Palmos Debaixo do Céu”.

 

Categorias
101ª Leva - 04/2015 Gramofone

Gramofone

Por Daniela Galdino

 

LIRINHA – O LABIRINTO E O DESMANTELO

 

CAPA


“transformarei a ferida
numa orquídea de luz mineral”
(Lirinha, em “Ser”)

Processar as dores. Curar as feridas. Lavar os velhos rancores. Depuração parece uma palavra bem associada ao novo disco de Lirinha que acaba de vir à tona neste 2015. Temos aí um salto corajoso rumo ao incerto: abismo ou labirinto. Lirinha reúne fragmentos e nos traz a experiência de retorno daquele homem, artista que não interrompe a caminhada para dizer. Fala em movimento. É outro. Desmantelado, re-montado: nos amores, nas artes, na (des)aventura de ser.

Em O labirinto e o desmantelo (2015) Lirinha acentua a escolha já trilhada a partir de LIRA, disco lançado em 2011. Com feição ainda mais harmonizada estão, no disco de agora, a poeticidade cortante, os efeitos eletrônicos, os tons de suspensão mística. Acertadíssima a parceria com Pupillo, que assina a produção musical. O Lirinha destemido, corajoso na sustentação dos caminhos escolhidos se apresenta para desafiar as classificações e desmantelar a identificação nítida dos gêneros musicais. São dez canções muito bem irmanadas. Em todas elas fica evidente um hibridismo que torna a audição do disco uma deliciosa brotação de inusitados.

Por exemplo, em “Pra fora da terra” dá para perceber um flerte erudito. A partir disso, ouvimos delicadezas que nos fazem lembrar os antigos realejos desaparecidos das ruas. Num flash, dois mundos irmanados. E nessa mesma canção surge o sopro contemporâneo sintetizado, a guitarra que arranha delicadamente. Lembranças, em círculo, bailam, ressoam em palavras, em sons. Nessa faixa temos também uma poeticidade que causa a intensa sensação de circularidade, no sentido de fluidez, de movimentação de energias renovadoras: “lavo com água corrente/ teu poço dos velhos rancores”. Grata surpresa, bela aparição do inesperado.

A canção “O labirinto e o desmantelo” nos faz lembrar as incursões experimentais de Lula Côrtes & Lailson no lendário disco Satwa (1973). Fica esse gosto de nitidez mística bem ao modo setentista, o que, sem muito esforço, traz também à cena o Pedro Santos de Krishnanda (1968). Lirinha vem para compor uma densa tríade, mas sem o compromisso das filiações. Ele se apresenta deixando visível – aqui e acolá – os (in)discretos fios que o ligam às experimentações dos mestres, mas o faz com um modo muito seu, com os elementos do momento de agora, remontando e transgredindo. Já havia esse anúncio no disco anterior, LIRA, com a canção “Adebayor”, mas nessa segunda experiência vemos um Lirinha mais evidente no desafio de encenar uma dicção própria, resultado das siderações que ele constrói.

Se em LIRA fomos surpreendidos com a participação de Ângela Rô Rô na faixa “Valete”, nesse segundo disco temos a presença de Céu na canção “Filtre-me”. Extremidades mediadas por Lirinha. Em ambas as canções a intensidade. Essa conexão com artistas pernambucanos não é novidade para a cantora/compositora Céu, ela já havia participado de discos de Siba, Otto, Nação Zumbi. De alguma maneira essa presença fica sendo um desafio que pendula entre o conhecido e o não esperado. Aqui, dividindo os vocais com Lirinha, Céu compõe uma bela fusão e algo muito sinérgico se acentua mesmo no momento em que ambos entoam: “quando passa em mim a tua voz/ tão cercada de poeira/ não esqueço o filtro do amor”. A música se confunde com a espinhosa maciez da experiência amorosa.

Lirinha por Caroline Bittencourt
Lirinha / Foto: Caroline Bittencourt

Uma imponente tuba vai abrir caminhos na canção “Mergulho”. Digo caminhos porque essa música nos deixa com a sensação de deslocamento, atenta contra a nossa possível imobilidade. “Mergulho” é mesmo um passeio para o qual eu não estava preparada, apesar das surpresas que tive ao escutar as músicas anteriores. É nesse momento do disco que Lirinha nos leva para as profundezas. Profundezas do corpo, das vontades. Aí, palavras e musicalidade indicam amplidões sem pudor algum. A ânsia é tanta que o trânsito é por lugares inesperados: “agora o plano é te fazer feliz/ correr os tubos do teu coração/ provar além/ cicatrizar o chão/ e sonhar/ andar nos fios que ligam às estrelas/ capacidade de mudar as coisas”. É o corpo ou é a amplidão? Essa é uma canção imensa, aliás, em todo o disco dá para perceber que a alquimia de Lirinha aproveita bem tudo o que é vasto. “Mergulho” é também um intenso eco, tenho morado nessa música (e ela em mim) desde a primeira vez.

“Odin” é uma canção aguda. Por in-coincidência encerra o disco. Nesse momento Lirinha requisita quem está do outro lado da margem, ou seja, nós, para perguntar “quem sabe encontrar/ alta forte felicidade”. A Combustão das experiências particulares. Essa equação sempre será difícil de ser resolvida quando se tratar de arte. A essa altura, muita coisa irmanada, não dá para dizer que o disco é hermético ou é um relato sonoro do particular porque, ouvindo com atenção todas as dez canções, já sentimos (e nos sentimos) “a planta pisada/ o cais retorcido/ farol mergulhado/ um balde de sonhos no fundo da casa/ onde o mar se tornou salgado”. Já somos o coro que acompanha a voz de Lirinha. Quando essa última canção se conclui, fica a ação imediata de escutar a sequência novamente, sem maiores preocupações com o tempo do relógio. O disco dá uma impressão de ciclo que se renova, de círculo que se movimenta.

É um disco tão amplo que somente ao escrever este texto fui perceber que todas as faixas, juntas, totalizam 35 minutos. Nas vezes em que escutei tive a sensação de que a experiência havia ultrapassado os ponteiros, juro que imaginei que o disco durava mais de uma hora, juro. Isso é que me deixou impressionada: Lira, sabedor de que está dentro e fora das lógicas do mercado fonográfico, insere músicas com menos de 4 minutos de duração, mas implanta expansões em cada uma delas. Nessa aventura sensível fiquei desorientada de cronômetros. E assim não dá para detalhar o disco faixa a faixa, melhor convidar outros seres para colocar na roda as suas impressões. Aí só o contato direto com a musicalidade de Lirinha poderá mover as sensibilidades.

Esse disco “O labirinto e o desmantelo” deve ser incluído no repertório das nossas urgências. Não duvido. Deixo apenas um aviso (até desnecessário): é para escutar de peito aberto, inútil mover-se (ainda) pelo saudosismo dos tempos do Cordel do Fogo Encantado. Aqui encontraremos um outro artista, porque é outro o homem e outros são os tempos não marcados por apagamentos, mas pela ânsia de descobertas.

Agora, cinco discos depois, o que podemos dizer da trajetória de Lirinha é o seguinte: ele é o outro que não sepultou o mesmo. Com o entendimento de que se faz impossível apagar as origens, fico muito mais instigada em descobrir como esse ser-tão dialoga com paragens diversas e alimenta as inquietações artísticas. E para inconcluir a questão, vem o eco: “que lugar é esse labirinto / desse nosso desmantelo?”

 

 

Daniela Galdino é Poeta, Performer, Produtora Cultural e Docente da UNEB. Muito principalmente é construtora de pontes aéreas e defensora do direito ao delírio (como forma de sobrevivência).