Categorias
101ª Leva - 04/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Paola D’Agostino

 

Victor H . Azevedo
Desenho: Victor H. Azevedo

 

Esta esplanada não existe
é mais um sonho marcado
para acontecer talvez num Setembro
mas entretanto avista faróis
do último piso de um estacionamento.
Clandestinidade de luxo
que a cidade sabe oferecer
ao delírio de sair de si
nas horas mortas
encontramo-nos aqui
em lugar abusivo
o único sítio onde te consigo

Quando arrancares
o relógio da carne
não te esqueças de sorrir
ao virares
a clepsidra do oblívio.

E depois lava bem as mãos
que está um tempo sujo cá fora.

 

 
***

 

 

A vida às tantas se parece com aquela grande loja de artigos para o lar
que toda a gente conhece na Baixa mas entretanto
alguns sobem ao último piso para aproveitar a vertigem do panorama
e beber uma imperial no reino das águas furtadas
enquanto outros só procuram mesmo a secção das flores de plástico
e compram cascatas de glicínias
para enfeitar a sala e eventualmente um gancho
que prenderá o cabelo em dias bonitos

e todos juntos
uns e outros
encontramo-nos no espelho do elevador
e sorrimos.

 

 

 

***

 

 
Vício, forma mais violenta de estar vivo

 
A lei do espanto mandava em tudo
e nem tudo obedecia às leis.
De resto nada tenho a assinalar

Eu quis
voltar a entretecer-me de raiz
com outra curiosidade.

 

 
***

 

 

Um lugar ao sol e um tempo na sombra

 

Eu vim pactuar com o crime a esta praia
porque a geada aperta no hemisfério
do continente gasto
aqui no cérebro.
Porque sair de casa a meio da noite
em busca de sacrilégio
é arte
de aventureiro
que se deve provar
uma vez pelo menos.
Por essa gota de adrenalina suja
que fomenta a inconsciência
de Prometeu
como um revérbero
ao sair de si.
Eu vim
desafiar a imortalidade
do mal
que havia em mim.

 

 

 

***

 

 

 

Quantos cais este oceano permite?

 
Como um papel de parede
que descolando amarrota na queda
todas as vidas anteriores
e repõe no espaço dos fantasmas
a candura das paredes nuas
perfeita casa
como
tabula rasa.

 

Paola D’Agostino aprendeu a caminhar por volta de 1976 e desde então nunca mais voltou para casa. De momento reside em Lisboa. Seus livros chamam-se “Largo das Necessidades” (2006), “Este Frio e Outras Histórias de Amor” (2011), “Dançam; Dançam” (2014) e o mais recente “Catar Catataus”, um diálogo ideal com o Catatau de Leminski (três últimos poemas desta seleção). Tem textos espalhados por revistas e antologias em Itália, Portugal, Alemanha. Um dia tocará acordeão, talvez.

 

Categorias
101ª Leva - 04/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Diego Moraes

 

Victor H. Azevedo
Desenho: Victor H. Azevedo

 

LIRISMO É O ÚNICO DEUS EM QUEM ACREDITO

 

Eu compro a trigésima lata de cerveja e saio caminhando até o delírio parar de latejar. Gosto de sentir a brisa de Manaus lambendo meu rosto. Não tenho dinheiro para luxo. Não tenho grana pra viajar. Não tenho grana pra passar uma temporada no Texas. Não posso pagar um psiquiatra. Quem não tem grana para fazer análise, vai para o bar ou liga a televisão. Gosto de ver televisão. Gosto de um canal de vendas na tevê a cabo em que aparece o George Foreman vendendo churrasqueiras e um troço de fazer sanduíche. Se eu não tivesse entrado nessa furada de querer ser escritor, certamente seria um baita pugilista. Um boxeador fracassado cuspindo sangue num balde de alumínio encostado nas cordas de um ringue da terceira divisão dos pesos pesados. Minha mãe virou evangélica. Tem pregado versículos da Bíblia na geladeira e colou um adesivo na traseira do carro: “se Deus é por nós, quem será contra nós?”. Todo mundo é contra nós e a minha literatura é contra o mundo. Fico feliz por ela. Dia desses deu pra a ouvir orando de voz embargada. As paredes da minha casa são finas. “Que meu filho arrume uma mulher e seja feliz”. O lance é que não quero arrumar uma mulher. Não quero casar. Não quero filhos e conta conjunta no Itaú. Acostumei-me com a solidão. Não tenho pensando em comer ninguém. Meu pau balança mole faz alguns meses. Nunca pensei em arrumar um emprego na Volkswagen e casar com uma loirinha formada em propaganda e marketing. Tenho só pensado em poesia o dia inteiro. Tenho sonhado com literatura. Minha cabeça anda povoada de frases e parágrafos gritantes que poderiam fazer Dostoievski me rasgar de elogios. Puxo vinte reais do bolso e dou na mão do traficante. Ele diz que pareço com o Frejat só que mais gordo. A música dele (Frejat), que fala que um cara limparia os trilhos do metrô pelo amor de uma mulher, tenta atravessar a minha memória, mas não permito. Aí Cazuza tenta invadir cantando Vida Louca, mas apago. Deixo que a imagem da fotografia do Cazuza abraçado com Caio Fernando Abreu dure três segundos e pulo para o remake de Vicio Frenético filmado pelo Herzog na cena que o Nicolas Cage tá chapado de heroína e vê camaleões cantando no meio de um acidente de trânsito. Eu curto pra caralho essa cena. É uma das minhas prediletas. Também curto aquele tchau do Anthony Hopkins no desfecho de O Silêncio dos Inocentes. Hannibal Lecter vira as costas num terno azul e crianças negras seguram balões coloridos no meio da rua. Aí sobem os créditos. Sinto vontade de cheirar pó. Entro num bar que não faz bem para minha alma. De derrotado já basta eu. Saco o olhar desdenhoso de um otário que não tem a terça parte da minha vivência. Ele se escora no balcão. “você anda escrevendo muito. Quando sai o próximo livro?” falo que não quero papo. Ele abre um sorriso cínico. Digo pra ele cair fora. Que estou querendo ficar na minha escutando Belchior na máquina jukebox. Ele fala algo sobre Bukowski. Diz que o velho era só um bêbado. Antes de ele falar outra merda, meu cotovelo acerta o seu nariz. Respingos de sangue mancham a camiseta branca dele dos Beatles. Todo jornalista tem uma camiseta branca dos Beatles. Chuto a cara dele. Conhecidos gritam pra eu parar, mas já venho aturando esse cara faz tempo. Faz tempo que ele atravessa meu caminho com um sorriso idiota fazendo perguntas embaraçadoras como se eu não fosse escritor ou imitasse o velho Buk. Entro num táxi e acordo na porta da minha casa. Acendo um Derby na varanda e começo a rir. Minha gargalhada acorda os cães da vizinhança. Deito na minha rede e ligo a televisão. Edir Macedo fala que temos que dar para receber. O lirismo é o único Deus em quem acredito.

Diego Moraes (Manaus, 1982) é um escritor brasileiro. Publicou os livros “A fotografia do meu antigo amor dançando tango” (2012), “A solidão é um deus bêbado dando ré num trator” (2013), ambos pela editora Barteblee, e “Um bar fecha dentro da gente” (2015), livro de poesias publicado pela Douda Correria, de Lisboa.

Categorias
101ª Leva - 04/2015 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

A sagrada profanação do corpo: os ritos literários de Saint Genet

Por Rafael Peres

 

 

 

“Vocês”, um pronome que demarca a fronteira e o distanciamento entre nós e o personagem autobiográfico Jean Genet, em seu Diário de um ladrão (2012). Embora seja chamada de “diário”, tal obra apresenta-nos um painel anacrônico das memórias de Genet, as quais são dispostas de maneira multiforme, destituída de linearidade cronológica. Também não há como precisar se a narrativa é uma autobiografia, uma memória ou um diário, ainda que todos estejam em seu bojo. Além desse embaralhamento de gêneros, vemos um desfile de facínoras e ladrões, malandros de toda espécie, com os quais Genet confunde-se, tornando-se um caleidoscópio de suas amoralidades. Ao invés de compor uma ode aos valores da ordem social vigente, Genet canta as idiossincrasias de sua classe, em detrimento das instituições, com exceção do poder executivo, cuja ação violenta e punitiva é, para o autor-personagem, um traço que a aproxima da barbárie.

Seguindo a esteira de Baudelaire e de outros poetas malditos, Genet utiliza o grotesco como adubo de suas “rosas brancas”, extraindo da imundície a luz benfazeja de seu lirismo. O embaçamento de si mesmo durante sua herética travessia pelas margens sociais confere-lhe uma identidade ornada de magnificências ultrajantes, concebendo assim Jeannot, o amante platônico de Stilitano, um dos asseclas mais queridos do autor-personagem. Este se desdobra nas abundantes descrições, nas quais retrata uma torrente poética atingindo todos os ladrões, de modo que suas impurezas tornem-se matéria transcendental. Assim, o véu do catarro de Stilitano resplandece, ganhando tons até então impensáveis, principalmente em se tratando do pensamento popular em relação aos fluidos expelidos pelo corpo. Mostrar suas inúmeras facetas mediante uma poieses invertida demanda também fugir do cânone imposto pelo gênero, o que acentua o caráter ritualístico baseado na transgressão, uma vez que o autor suspende a narrativa a um plano etéreo e disjuntivo, cálice abjeto para a ordem dominante.

A santidade, segundo Genet, alcança a epifania à medida que uma corrupção de maior calibre sobrepõe-se a outra, numa busca incansável pela pretensa anulação do caráter. Com essa postura, o autor escolhe a traição como o estigma subversivo por excelência, tendo em vista sua capacidade ilimitada de sobrepujar os vínculos benéficos dentro de um grupo. Desse modo, a fraternidade, a gratidão e a honra são ceifadas, com a finalidade de proporcionar uma nova e paradoxal união, ou seja, o estabelecimento de um vínculo sagrado por intermédio da ruptura de tais valores. Logo, camadas gradativamente nocivas consomem as inferiores, produzindo uma massa disforme de sujeira moral e física, a qual gravita em torno da traição, já que a mesma não se circunscreve somente na ruptura de valores metafísicos, mas também no abandono da sanidade corporal. É mediante essa atitude que Genet olvida-se, reinventando suas facetas num prisma grotesco, de modo que este se torne uma cosmogonia insurgente de seu caos. Todavia, deve-se ressaltar que esse apagamento não significa a extinção de sua identidade, mas sim a procura por sua renovação, desnudando o que há de mais rasteiro entre os excluídos.

O corpo é um templo sagrado, “morada de Deus” para a tradição católica. Genet apropria-se dessa ideia, mas com enfoque completamente diverso, tendo como base perversões libidinosas, relações homossexuais e excreções. O sagrado e o profano têm relações estreitas, se analisados do ponto de vista antropológico, sobretudo deixando de lado a concepção ocidental de pureza e higienização. Entre os Bambaras, por exemplo, há uma classe de iniciados de nome “Abutres”, a qual “engole as forças profundas do universo” alimentando-se dos detritos. “Ao consumi-los, o abutre assimila o mundo por intermédio da coprofagia” (ZAHAN, in: CHEVALIER & GHEERBRANT, 2006, p. 412). Essa liturgia com elementos abjetos é recorrente na narrativa de Genet, que igualmente se vale de situações repugnantes para tentar justificar sua existência e reanimar as “forças profundas do universo”:

Os piolhos nos habitavam. Às nossas roupas, eles davam uma animação, uma presença que, desaparecida, as tornavam mortas. Nós gostávamos de saber – e sentir – pulular os bichinhos translúcidos que, sem serem domesticados, eram tão nossos que o piolho de outro que nós dois nos dava nojo. Nós lhe dávamos caça, mas com a esperança de que durante o dia as lêndeas teriam nascido. […] Não jogávamos os cadáveres – ou despojos – no lixo, nós os deixávamos cair, sangrando com o nosso sangue, em nossa roupa descomposta. Os piolhos eram o único sinal da nossa prosperidade, do próprio avesso da prosperidade, mas era lógico que ao fazer o nosso estado operar uma inversão que o justificasse, nós justificávamos ao mesmo tempo a marca desse estado. Tornados tão úteis para o conhecimento da nossa decadência como as joias para o conhecimento daquilo a que se dá o nome de triunfo, os piolhos eram preciosos (GENET, 2012, p. 35-36).

 

Revitalizando essa condição miserável, os piolhos são elevados a “joias”, em cujo brilho translúcido flagra-se outra realidade. De acordo com os povos tribais, os excrementos constituem a síntese energética da natureza, o elo do homem com o plano sagrado, não possuindo, assim, o arquétipo escatológico criado no ocidente. Muitos radiestesistas acreditam que os dejetos têm uma energia similar à emanada pelo ouro; trata-se de uma crença observada em muitas tradições. Classificar metaforicamente os piolhos de pedras preciosas é uma inversão que valoriza o abjeto como um estado anímico triunfante, gênese da beleza no “próprio avesso da prosperidade”. Minérios superiores são cotejados com o que há de mais infame na cultura ocidental, erodindo, com isso, os limites entre o sagrado e o profano, evidência das dicotomias entre o homem e sua corporeidade. Porém, mesmo na tradição judaico-cristã, nota-se essa ambivalência, uma vez que o ritual da eucaristia consiste em se alimentar do Cristo vivo, a fim de sanar os pecados e resguardar-se para a vida eterna. É visível, então, que a antropofagia funciona simbolicamente como a restituição vital do ser humano, cujos detritos, em outras culturas, também adquirem valor equivalente. Dos restos dos piolhos, o autor-personagem contempla o próprio sangue, sua marca existencial que o assinala no mundo. Seu “renascimento” acontece graças ao sacrifício da morte, perfazendo um fluxo intermitente, no qual as criaturas escatológicas servem como adubo e fertilizante para a germinação de uma nova vida. Nessa óptica, o ouro, o excremento, a joia e o piolho são igualmente importantes para o ciclo, o que endossa a premissa genetiana de utilizar elementos abjetos para alcançar o sublime.

As figuras de linguagem utilizadas por Genet em suas descrições associam-se quase sempre à natureza, espaço indômito, às vezes cruel, mas que evoca a beleza, extraindo dolorosamente seu caos. Os minérios, as seivas e as luminosas imagens locupletam os sentidos, paralelamente dispostos aos órgãos genitais, como a rosa branca e o voluptuoso escarro entre as pernas do assassino. O autor-personagem reitera que essas marcas poéticas são tentativas de alcançar uma moral superior, sobre a qual não se pode julgar conforme os paradigmas sociais. Genet chama seu lavor artístico de “santidade”, ou seja, é um tipo de cognição sensorial que busca asceticamente a totalidade, ainda que seu escopo seja inatingível; “afasta-se quando me aproximo dele” (GENET, 2012, p. 231), explica. Essa percepção estética apresenta maior grau de complexidade, pois o artista não lida meramente com algo prosaico ou com um simples fato do cotidiano, e sim com inúmeros signos escatológicos do corpo.

A expressão substantiva “Um ladrão” não identifica a pessoa que pratica o delito; assim quer Genet em seu texto, como sugere o título de seu “diário”. Quando alguém rouba um objeto de valor, sua intenção é basicamente usufruir de seu saque em benefício próprio e/ou de outrem. Todavia, a relação entre o meliante e seu furto ultrapassa essa acepção, posto que o indivíduo apropria-se indevidamente de uma particularidade de outra pessoa e a transforma num novo apêndice (que varia conforme a natureza do produto roubado) de sua identidade. O direito de posse é uma convenção que torna o objeto individual, opondo-lhe sua universalidade material e simbólica. Embora o espólio roubado seja um domínio alheio, o ladrão lhe concede novo significado, expandindo-o semanticamente, ao apropriar-se dele. Se o autor-personagem tem plena convicção de que é capaz de trair Armand, afanando-o em benefício de Stilitano, presume-se que o produto do roubo deva simbolizar não somente a apropriação de uma subjetividade, mas também sua partilha em prol de uma agremiação.

A cruel autoridade dos dois ladrões, Armand e Stilitano, cria a aura de erotismo e devoção, com a qual Genet banha-se de luz, assimilando o que há de mais nocivo nos comparsas: a traição. A gula pela vileza não se satisfaz, mas é sobre sua incompletude que o autor-personagem constrói seu altar, onde os corpos sacrificados são colocados à mostra e à revelia da sociedade. Os ganhos obtidos por Armand pelo tráfico de ópio são uma das oferendas, não considerados assim meramente pelo valor financeiro, mas, sobretudo, por encarnarem a postura transgressora do criminoso, um dos maciços blocos de sua personalidade infame. O traiçoeiro roubo das do outro possibilita a Genet a apropriação sensorial da maldade alheia e de seu próprio mal, aproximando, dessa maneira, seus pólos negativos. Com isso, os ladrões comungam um sentimento de redenção mediante o abjeto. As relações sexuais também revelam essa permuta identitária, que é simultaneamente morte e vida, indivíduo e coletivo, carne e espírito. O eixo de tais oposições consiste no vínculo da beleza com o grotesco, um oxímoro avassalador, benção de Saint Genet, o ladrão de joias poéticas…

Referências:

 

CHEVALIER & GHEERBRANT. Dicionário de símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. Coordenação de Carlos Sussekind; tradução de Vera da Costa e Silva… (et al.). Rio de Janeiro: José Olympio, 2006.

 

GENET, Jean. Diário de um ladrão. Tradução de Jacqueline Laurence e Roberto Lacerda. Editora Saraiva: São Paulo, 2012.

 

Rafael Peres nasceu em Patos de Minas, Minas Gerais, em 1986. Possui graduação em Letras pelo Centro Universitário de Patos de Minas (UNIPAM). É Mestre em Teoria Literária, pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Já escreveu os contos “O olho da máscara”, texto classificado no Concurso literário “Cidade das Asas”, “Ana Clara”, terceiro colocado no II Concurso Literário Icoense – CLIC – Poeta José de Oliveira Neto, e “Anátema”, obra inclusa na antologia do Prêmio Henry Evaristo de Literatura Fantástica. É também um dos vencedores do 48◦ Concurso Literário de Contos do FEMUP, tendo como mérito seu conto “Os Girinos”.

 

 

Categorias
101ª Leva - 04/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Vander Vieira

 

Desenho: Victor H. Azevedo

 

Parece-te mais uma faca cravada em meu crânio

 

Parece-te mais uma faca
cravada em meu crânio.
Quando levanto-me do teu sonho
não ouço o rumor dos
………………………. [pássaros.
Como beijos embotados,
tua boca lança silêncios ao vazio;
palavras morrem antes que tu as balbucies.
Parece-te uma avó desalmada
com o agravante do assassínio letral.
Estavas ontem mesmo em minha estante;
eu a fitar-te e tu, brilhante, de soslaio,
a comer-me a visão.

Se plantasse cheiros nenhum deles daria em ti.

 

 

***

 

 

O espantapássaros

 

qual o lar do espantapássaros?
quem sorri a ele? os senhores? os vermes? as viúvas?
se ele trocasse de roupas, nós o reconheceríamos?
na capa do jornal de domingo
escondido entre as feras, alheio
ao reto do caminho, caminha
o espantapássaros.
mastiga ele a areia fina dos temporais
e sua caixa de fósforos
está encharcada de visões solitárias.
alguém ouve o espantapássaros? suas fendas?
seus fecundos sonhos intranquilos?
as sensíveis assembleias camponesas
ouviram seus apelos por um guarda-sol?
se a solidão torce os ossos dos não-vivos
o que faremos com quem tem coração?

 

 

***

 

 

Levarei ao chão todas as bicicletas cor de fogo

 

Levarei ao chão todas as bicicletas cor de fogo.
Jogarei no lixo os buquês de flores cor de vinho.
Apagarei todas as imagens coloridas.

Nada disso, no entanto, afagará a ferida aberta
pelo escoar do tempo no corpo.
Um corpo todo desmedida,
todo bifurcação de possibilidades,
todo abraço dado ao acaso.

Nada disso dá conta das fissuras vazias na tal parede
do tempo – nem mesmo mil pás de cal estancariam essa hemorragia.

Passo em frente a uma boutique:
manequins me olham e seus olhos não guardam expressão alguma.

(Uma mesa diante de mim expõe uma laranja partida em duas)

 

 

*** 

 

 

O espantapássaros II

 

O espantapássaros pendurou seus ossos
nas janelas ocres do seu passado.
Longamente meditou sobre a dor que o crucia.
Um escravo tísico, desses sem-vida,
perguntou ao espantapássaros
em qual braço do horizonte o sol faz a curva
que nos queima a pele eternamente?
Um homem comeu minha língua, ele disse
enquanto volvia os olhos às colinas
que mantinham entre os seios hirtos
os últimos dedos de luz.
Sem os acenos da noite, em qual cômodo da casa
o espantapássaros chora seus dias?
qual a sua bússola? e seu relicário?
sobra-lhe mãos e tempo para espantar as moscas
que lhe cobrem a face lúgubre?
ou seu senhor lhe ordenou que mantivesse
os braços abertos mesmo em dias sem abraços?

 

 

***

 

 

Parassempre

 

Hoje eu quero apenas uma pausa de mil compassos
Paulinho da Viola

 

 

Enquanto vivermos
seremos parassempre
bem como as canções, o engano e as pedras.
Pedras não são provisórias.
Tudo o que se pode ser, um pouco menos,
um pouco além, um pouco lago, é
impreterivelmente no tempo, que alumia.
Não se vê só com os olhos
mas só com os olhos é que se vê.

Rebento incréu, pobre e
marginal
lodo e nicotina
vias falais meio entupidas.
Por vezes
um entardecer.

 

Vander Vieira é poeta, mineiro do interior do estado e tem 25 anos. É bacharel em Filosofia e vive em Vitória/ES desde 2009. Venceu o prêmio UFES de Literatura Portuguesa 2013/14 na categoria Coletânea de poemas, tendo 10 poemas publicados na coletânea de mesmo nome, oriunda do prêmio. Tem também poemas publicados em revistas literárias como Samizdat, Desenredos e Mallarmargens.

Categorias
101ª Leva - 04/2015 Destaques Olhares

Olhares

Um estrangeiro e íntimo caos

Por Fabrício Brandão

 

Victor H. Azevedo
Desenho: Victor H. Azevedo

 

Se o mundo é tal como o vemos, então muito ou quase tudo pode ser reinventado com os ingredientes de cada olhar. Definir, com precisão, se uma quantidade infindável de coisas pode ser relativizada frente aos repertórios que as atravessam é humanamente impossível. Melhor mesmo é deixar que cada artista exponha sua marca nesse ambiente vasto e tresloucado ao qual chamamos de realidade.

Diante das possibilidades de se representar o mundo no qual habitamos por empréstimo, a concretude das coisas pode curiosamente estar bem harmonizada com a múltipla capacidade de abstração. É como se o caráter físico e, portanto, palpável da vida fosse apenas uma camada a revestir o intangível. Então, vem a pergunta: quantas fronteiras existem entre o vivido e o inventado?

A resposta fica por conta de cada um, se é que ela existe. No entanto, parece plenamente possível a um criador modelar a realidade de forma a obter dela entradas e saídas. Em se tratando dos desenhos de Victor Hugo de Azevedo Macêdo, ou simplesmente Victor H. Azevedo, os acessos lembram-nos que vislumbrar o real é fazer um pacto constante com a transformação.

Metamorfoseando a realidade em distintos recortes, Victor vai saciar sua sede na fonte do caos que simultaneamente ordena e embaralha o mundo. Abraçado a uma perspectiva de manipulação das formas, o artista consegue fazer da sua existência uma reprodução da inquietude. Nesse ínterim, a vida que o circunda mostra suas faces dispersas pelo nonsense, certa dose de ironia e por alguma acidez dos dias.

 

Victor H. Azevedo
Desenho: Victor H. Azevedo

 

No plano do discurso, a arte do jovem potiguar também comunica pelo inconformismo, o que significa dizer que nem tudo o que o mundo oferece a Victor ele está disposto a aceitar sem que haja, no mínimo, algum filtro. Prova disso está no modo como ele posiciona a condição humana diante de temas como a solidão e os efeitos advindos da modernidade.

Quando os sentimentos que reproduzem seu tempo não são capazes de minar as barreiras aparentes, Victor flerta com o realismo fantástico. Entretanto, essa atitude não implica em fuga, mas numa constatação de que ao mundo ainda é possível a criação de outros tantos sentidos.

Nascido em Natal, Rio Grande do Norte, Victor H. Azevedo publicou vários zines, dentre os quais doze canções, fábrica de flores e O amor é simples. Além disso, também se dedica à poesia e aos quadrinhos.

Victor é porta-voz de uma manifestação que busca no externo a sua razão de ser. Com todas as nuances intrínsecas que se possa conceber, aquilo que está fora revela-se o elemento maior da criação, instância esta que só se materializa porque há olhos que se interessam por perscrutar o mundo, jamais negligenciá-lo. E, assim, contido em seu afluxo imensurável, o artista confessa: “cada traço e contorno é como uma braçada num lago”.

 

Victor H. Azevedo
Desenho: Victor H. Azevedo

 

*Os desenhos de Victor H. Azevedo fazem parte da galeria e dos textos da 101ª Leva

 

 

Categorias
101ª Leva - 04/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Catarina Santiago

 

Victor H. Azevedo
Desenho: Victor H. Azevedo

 

Catedral

O meu tórax é a catacumba
onde se empilham os esqueletos
de todos os males e monstros.
Quando praguejam em tosse seca
a tua mão,
catedral universal da pequenância,
absolve-os com pancadinhas côncavas
transforma-os em passarinhos e voam.
Ofereço-te o espelho que me resta
– bebe-o.

 

 

***

 

Escultura fantasma

A pele ventilada adquire malhas
as mucosas arenecem
de tão estrábica
a consciência deixará de questionar
quando perderás a paciência
e começarás a gritar-me rente ao tímpano
aspergindo-me o perfil esfíngico
………………….. …..o sorriso bovino

dormirás com um cadáver
porque terei um sono de olhos vítreos
serei incontinente e esfregar-me-ás fezes na cara.

Por isso mudo-me já para
uma morada isolada
numa encosta escarpada
numa ínsua porque-não-atlântica
rodeada de galinhas e carpas
azedas e acelgas
atabúas e maçãs bravas
salinas e beterrabas
enquanto sou um freddy krueger
mínimo e híbrido que aprecia
fermentações e aves canoras.

 

 

***

 

 

Arca

Pedes licença
trancas-te no lavabo
tocas-te e é o dilúvio nas instalações sanitárias
– ossos do ofício inegociáveis –
sais com girinos e moreias numa enxurrada
chamas a tua meia-cara
“escancara-te, temos de ir de viagem”.

O que tens para oferecer são
intuições penduradas da pestana da alma
onde conseguirás reservar florestas várias
culturas esquecidas da grande ásia
novas estirpes do vírus da malária
enxertos para preservar vinhas roxas hereditárias.
Esgotadas, fechar-se-á a pálpebra.

 

 

***

 

 

Plutão

A oriente
lambia o sol
da manhã aliviava
o rubor da queimadura
com um gole de água fria
e um fio de azeite na língua.
Perseguia-o o resto do dia
até tombar na distracção
do mar
sem vertigem
sem veneração.
Sonambulismo
e nada mais.

***

 

 

Baço

O sofrimento afunila-te.
E depois mergulhas na lagoa ou
……………………..;…as mãos em cabelos amantes.
E depois escalas a montanha.
E depois rumas ao Oriente.
E depois tens uma criança.
Curas o corpo como quem
atravessa uma ponte.

O absoluto de ontem agora perspectiva.
Tu descansas.

 

Catarina Santiago Costa nasceu em Lisboa, em 1975. Frequentou o curso de Comunicação Social na Universidade da Beira Interior (Covilhã) e licenciou-se em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa (Lisboa). Desde 2005  publica os seus poemas num blogue pessoal. O site português Enfermaria 6 (e sua respectiva revista Caderno) divulgou alguns dos seus poemas.O seu primeiro livro será publicado este ano, pela editora portuguesa Douda Correria. Dele farão parte os dois últimos poemas desta seleção.

 

Categorias
101ª Leva - 04/2015 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

O Sal da Terra (Le Sel de la Terre). França/Brasil/Itália. 2014.

 

O sal da Terra

 

“No fundo, a fotografia é subversiva, não quando aterroriza,
perturba ou mesmo estigmatiza, mas quando é pensativa”.
(Roland Barthes)

Em 40 anos de profissão, a obra do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado personificou por completo a definição de Roland Barthes. Seja em Serra Pelada, na Indonésia ou em Ruanda, sua estética impactante sempre foi encravada de reflexão. Acusado por parte da crítica por alastrar o que chamam de “cosmetização da miséria”, as lentes de Salgado apenas captam o que há de mais amargo nos paladares da humanidade, por mais manipulador e piegas que isto soe. Dirigido por Wim Wenders — que já filmou com destreza vida e obra dos músicos “super-avôs” cubanos, em Buena Vista Social Club (1999) e da coreógrafa alemã Pina Bausch, em Pina (2011) — e Juliano Ribeiro Salgado, primogênito do fotógrafo, O Sal da Terra foi indicado ao Oscar 2015, porém perdeu a estatueta para o documentário americano Citizenfour (2014), de Laura Poitras, sobre o escândalo de espionagem da NSA (National Security Agency), revelado por Edward Snowden.

Cena de O sal da Terra
Sebastião Salgado em cena de O Sal da Terra / Foto: divulgação

 

Apesar de não se tratar de um registro cronológico e linear, o documentário pontua brevemente sua infância em Minas Gerais, a graduação em Economia, seu casamento com Lélia Wanick, o mestrado na USP, sua longa estada na Europa e os primeiros contatos com a câmera, fotografando esportes, casamentos e até nus. Aponta suas primeiras expedições ao lado do filho Juliano e seus livros/exposições mais expressivos, com destaque para Outras Américas, Sahel – O Homem em Agonia, Trabalhadores, Êxodos e Gênesis. No entanto, o interesse maior dos cineastas diz respeito ao ser humano por detrás da objetiva, o filho-marido-pai septuagenário ante o fotógrafo social. Filmado na maior parte do tempo em P&B, com narrativa em off de Wenders e depoimentos de “Tião” e seus familiares – destaque para o pai e a esposa, peça fundamental em seu trabalho – o filme apresenta algumas cenas coloridas e uma infinidade de fotografias belíssimas – e ao mesmo tempo de uma crueza quase ficcional – obtidas pelas lentes de Salgado. Tais imagens fundem-se de tal forma que parecem ganhar até mesmo movimento quando projetadas pelo cinema de Wenders.

O sal da Terra
As minas de Serra Pelada (1986) – Sebastião Salgado. Foto pela qual Wim Wenders conheceu o trabalho do fotógrafo

 

Em um segundo momento, O Sal da Terra retrata a fundação do Instituto Terra, ONG criada em 1998 e destinada ao desenvolvimento sustentável do Vale do Rio Doce. Gerada em parceria com a esposa Lélia, que idealizava “plantar uma floresta”, ou seja, reflorestar a Mata Atlântica nas proximidades da fazenda da família em Aimorés (MG). A Fazenda Bulcão, que deu sustento e educação aos 7 filhos do patriarca e encontrava-se à beira da destruição hoje transformada em Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) é um exemplo de “pasto transformado em floresta”, como diz a abertura do site da instituição. É a devolução do empréstimo que a família fez à própria natureza. A recuperação da estância curou também a alma de Sebastião Salgado, tão castigada com as agruras captadas, sobretudo em sua longa jornada pela África. Exausto da desventura e brutalidade humana, ele passou a dedicar-se a um projeto ambiental, fotografando ecossistemas pouco explorados, reconhecendo-se em cada animal, em cada planta, em cada povo primitivo. A documentação disso culminou no livro Gênesis, sua obra-prima, uma declaração de amor ao planeta.

Em suma, O Sal da Terra é um documentário intenso e sensível sobre o processo criativo, o mundo e a condição humana. Trata-se do encontro de dois artistas formidáveis, autores de algumas das imagens mais surpreendentes do nosso passado recente real ou imaginário e sua perturbação artística, porém esperançosa, diante da vida.

Larissa Mendes tem procurado diminuir o contato com o sal da Terra.

Categorias
101ª Leva - 04/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Vicente Franz Cecim

 

POEMAS CIRCULARES

 

Vicente Franz Cecim
Imagem: Vicente Franz Cecim

 

Noite de nutrições profundas

 

Para nutrir o Lodo,
tu não escreves      Tu

és o Livro

que se lança em todas as direções nas Regiões Escuras: Agora
oO Círculo
cintilante

que te envolve
E nos limites      da Esfera,
se te voltas para te ver Fonte
que se jorra,
vê:

o Outro,

Água que no Centro da Esfera ainda Lá és tu de novo, murmurando:
Tu
és o Livro,

que se lança: Chama

 

 

***

 

 

Celebração das fontes fatigadas

 
há Desesperos circulares, Tu sabes desesperos
como o do animal no Escuro escuro
Girando
contido no Centro que seu giro gera
E a cada giro, Pura
emissão de intensidade busca as margens para Além das margens

E a cada giro, o Não
Escrita de grades: a palavra Dor não é a palavra Sim
Mais um giro, e eis: a Queda
Luz fenecendo
o Centro que des
morona, des
falece em centro Oo
E se esmorece
o Desespero, e se
se apaga: Se sob a pele Negra olhos se ocultam,
na harpa de grades a pausa é breve e não há Música

pois foi escrito no Bosque Sem Ternuras, em nossa Face: Que os olhos que uma vez se
fechem outra vez se abram,

e eles se abrem,
Cílio sem paz se

acende o Desespero
e Testemunha: as Grades permanecem Lá

E se adormece para os Sonos dos Alívios? Sem
remédio Sem
remédio,

porque sonha Grades

ah, tudo oculta em sonhos a Catedral de cinzas
as Margens

o Círculo
e a chave perdida

Animal escuro,
te tornaste o próprio Centro escuro
Tece teus cílios de Hera sagrada
Cintila
nas noites Sonha
com a Alvura

Não sabes que Outro centroO
te Ilumina,

mais Escuro?
há Desesperos circulares, Tu sabes

 

 

***

 

 

Asa dos olhos

 
Quando um Lago
for lançado num Círculo

fora do tempo

por mãos vazias antes do gesto

Quem

estará na Margem
para receber, sem mãos,

as Doações do Centro adormecido

que Se amplia

despertado

em gratidões gratidões gratidões

em Cinzas Cinzas Cinzas

 

Vicente Franz Cecim é autor de Viagem a Andara oO livro invisível – Grande Prêmio da Crítica da Associação Paulista da Críticos de Arte/Apca, 1988. Edita seus livros no Brasil e em Portugal. Nasceu e vive na Amazônia, Brasil, Belém do Pará.

 

 

Categorias
101ª Leva - 04/2015 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Jamais sorveremos o ar da perfeição. Quiçá consigamos algo que nos aproxime de um ponto de equilíbrio, alguma ínfima fração de ponderação entre acertos e desvãos. Vez por outra, alguém relembra-nos o quão imprecisos somos no quesito das certezas. Seria presunção demais apostar em cenários bem definidos quando o alvo é compreender a natureza humana?

Eis uma instigante questão. Por enquanto, ainda está longe ser possível estimarmos a dimensão das virtudes ou das quedas. Ousemos apenas respirar e seguir adiante construindo moradas na superfície das horas. Nesse ínterim, a nossa capacidade de abstração e mergulho pode, sobremaneira, fornecer-nos pistas valiosas sobre o que de fato nos tornamos. No diapasão que contém passado, presente e futuro, há algo além da materialização do pensamento em ações. Resiste a memória como peça fundamental da existência.

Nada melhor do que percebermos a visão que um determinado criador tem sobre o universo através do qual orbitam suas expressões, principalmente quando esse mesmo agente credita à memória um status de significativa importância. Assim o faz o escritor baiano Dênisson Padilha Filho quando lhe cedemos escutas. Mas ouvi-lo não é o bastante. Ler seus escritos revela-se um componente essencial para apreendermos um mundo no qual as perspectivas são múltiplas no quesito inquietude. Sentir-se incomodado parece ser um ingrediente especial na concepção criativa desse autor que, além de dedicar-se à literatura, é também roteirista de audiovisual.

A trajetória de Dênisson com as palavras está materializada em livros como “Aboios celestes” (contos – 1999), “Carmina e os vaqueiros do pequi” (romance – 2003), “Menelau e os homens” (contos e novelas – 2012) e, mais recentemente, “O Herói está de folga” (contos – 2014). A consistência presente ao longo de sua obra é o grande motor que move a entrevista que realizamos com o autor. Seja na capacidade de construir imagens ou na dimensão que edifica o texto, Dênisson demonstra sua propriedade narrativa porque fez da leitura a gênese de seu ofício. Entrevistá-lo é desconfiar que, por trás das letras, habita um território de coisas insondáveis.

 

Foto: Renata Rocha
Dênisson Padilha / Foto: Renata Rocha

 

DA – “O Herói está de folga” é título emblemático, que nos sugere percursos já em sua aparência nominal. As histórias nele contidas desnudam certa condição humana. Vivemos num tempo de desesperança?

DÊNISSON PADILHA FILHO – São nove contos que sugerem que os homens são virtude e vício. Naturalmente, são representações, alegorias, fantasias criadas sobre o arcabouço de desvio e de retidão que nos estrutura. Ter esperança não muda as coisas, a não ser pra quem a sente.

 

DA – Nesse caminho que perpassa altos e baixos da natureza humana, seu sentimento de autor prefere o estranhamento ou o espanto?

DÊNISSON PADILHA FILHO – Estranhamento é condição fundamental para nascer a arte, não é? E causar estranhamento também. A literatura convoca o leitor não quando traz respostas, mas quando o inquieta com aquelas perguntas adormecidas que nos estruturam e desafiam nosso dia a dia. A literatura é vingativa na medida em que mostra que nós não temos respostas nem saída, mas por ela dizemos, “aqui estamos, Papai do Céu, estamos no mato sem cachorro, mas não pense que não sabemos”. Já espantar-se com as oscilações da natureza humana beiraria o patético. Essa perplexidade soa meio fresquinha; não combina com a literatura.

 

DA – Diria que a lucidez foi uma companheira inseparável na concepção do seu mais novo livro?

DÊNISSON PADILHA FILHO – Acho que a idade trouxe um pouco mais de tentativa de lucidez e amadurecimento, ainda bem. É como se a pulsão que nos move a escrever ganhasse algo mais de serenidade e consciência de que o texto custa a estar pronto. Considero que meu caminho literário deu uma guinada a partir dos 37 anos (estou com 44). Foram novos conceitos, menos preconceitos estéticos. A visão de mundo e a lucidez se refletem, naturalmente, mas o que vou procurar fazer é sua recriação. A matéria prima é a verdade, a concretude, sem dúvida; mas a literatura se ocupa de alegorizar a vida e seus achaques.

 

DA – O ato de escrever encerra alguma espécie de libertação?

DÊNISSON PADILHA FILHO – Libertação nenhuma. Muito pelo contrário. Embora a literatura seja a arte de fantasiar e reinventar – não só a língua, mas o mundo –, recorremos sempre à memória, porque, para nosso desconforto, é só o que temos. Da memória, derivam a dor, a culpa e a saudade. Há um mito muito citado que diz que quando realizamos uma história, processamos as coisas e nos livramos delas. Uma coisa nada tem a ver com a outra, a meu ver. O escritor se distancia um pouco do mundo para criar, é verdade; isso traz uma analgesia, claro, mas nada de libertação. Se liberta, não é literatura.

 

DA – A pungência de uma cronologia interna toma conta de seres e lugares em “O Herói está de folga”. Assim, a sucessão dos instantes não é materialmente mensurável. Quem é este ser a quem chamamos tempo?

DÊNISSON PADILHA FILHO – Eu não tenho certeza, mas desconfio que dentro de uma lógica divina, passado, presente e futuro são a mesma coisa. Nada vem, nada vai, nada existe, tudo é. Essa minha perspectiva naturalmente vai se refletir aqui e ali na minha criação; foi assim nos contos de “O herói está de folga”. Tudo está ali, os contos são quadros, e como toda alegoria da vida, os quadros não passam; a gente passa por eles. Isso confirma minha impressão de que as coisas não vêm, nem vão, simplesmente são; a gente é que passa por elas.

 

DA – “Menelau e os homens” é um livro especial pelo modo como os trajetos narrativos ali se constroem, sobretudo pela disposição das imagens, o que acaba por envolver o leitor. Qual o sentido maior dessa obra para você?

DÊNISSON PADILHA FILHO – Concordo com você, “Menelau e os Homens” é um livro especial. Traz duas histórias marcadas pelo signo da memória. Em consequência disso, seus personagens são homens fugindo de homens e fugindo de si.  A primeira fase da obra do escritor estadunidense Elmore Leonard teve muita influência sobre a concepção das histórias. A segunda história que integra o livro – a novela Calumbi – está marcada também por um signo de opressão e terror psicológico, um pouco de Edgar Allan Poe; mas em todo o livro há situações de perseguição e suspense entre caçador e caçado; são tributos meus ao autor de Hombre e O último posto do Rio Sabre e de tantos outros. Creio que tenham sido de fundamental importância as sugestões de imagens e paisagens no livro para que o leitor sentisse todos os momentos de impotência, opressão, perseguição que as histórias propõem. Bem, sobre qual sentido maior dessa obra, devo dizer que não há o grande sentido. Eu costumo dizer que a literatura em prosa não deve ser regida apenas pelo plano do conteúdo, ou melhor, pela dimensão narrativa; mas também pela dimensão estética. Acho que o sentido, desse e dos meus outros livros é tentar alcançar esse equilíbrio. Em outras palavras, inquietar pela narrativa e reinventar a palavra. Não é fácil, mas é um desafio que resolvi encarar.

 

Foto: Renata Rocha
Dênisson Padilha / Foto: Renata Rocha

 

DA – É razoável pensar que, por mais que tente, um autor não pode fugir de si mesmo?

DÊNISSON PADILHA FILHO – Se pensarmos do ponto de vista da existência, teremos que parafrasear Antônio Cândido e dizer que a matéria prima do escritor é a memória. Por outro lado, se pensarmos na arte literária e em procedimentos estéticos, devemos pensar que o escritor dotado de um mínimo de consciência do seu fazer só se satisfaz quando viola seu modelo anterior. Porque arte é ruptura e, embora faça parte do grande campo da cultura, especificamente, ela, quando repetida, contraria suas próprias motivações. Nesse sentido, não conseguir fugir da memória, fugir de si, e encontrar saídas estéticas é um paradoxo que alimenta esse fazer artístico.

 

DA – Sob o ponto de vista autoral, há quem considere o conto uma espécie de escalada para o romance. O que pensa a respeito?

DÊNISSON PADILHA FILHO – Vou confessar minha preguiça para responder essa (risos). Sinceramente, não há consideração mais sem sentido do que essa que dizem por aí. Posso ficar aqui citando à exaustão nomes de escritores, grandes mestres, que se eternizaram como contistas.  E por que será que ficaram nessa tal “escalada” por toda a vida? Não!  É um erro crasso, uma ingenuidade, até bonitinha, achar que o conto é rito de passagem para um romance. São pretensões diferentes; no romance há lugar para digressões que não vão caber no conto. Enquanto que, grosso modo, no conto, a concisão vai fazer pulsar a dimensão estética do texto muito mais do que num texto longo. Além de outros aspectos que não caberiam aqui. Apesar de discordar radicalmente e achar isso um equívoco, reconheço que é um erro muito difundido. Veja por exemplo, na América Latina, a grandeza de Carlos Fuentes – que além de romances e novelas, também exercitou o conto largamente – e Juan Rulfo. Embora notabilizados mundialmente, não alcançaram a popularidade de Gabriel García Márquez, eterno pelos seus romances. Parece que até o mainstream mercadológico insinua, “sem querer querendo”, que o texto longo é o ápice.

 

DA – O que mais chama sua atenção na literatura feita no Brasil hoje?

DÊNISSON PADILHA FILHO – Não estou tão certo quanto à resposta, mas acho que é a diversidade do que se produz.   Há muita gente talentosa, de carreira sólida, e também surgindo. Vou esquecer o nome de muita gente que faz boa literatura, para além de José Inácio Vieira de Melo, Menalton Braff, Antônio Carlos Viana, Mayrant Gallo, Gustavo Rios, Lupeu Lacerda e Sérgio Faraco. Aqui tem de tudo, meu amigo. Por outro lado, isso não é tão positivo quanto parece, é uma constatação um pouco desanimadora, porque há muita coisa sendo chamada de literatura. Há um batalhão de gente fazendo ‘coisinhas bonitinhas’, interpretação enviesada da magnitude estética Manoel de Barros, arremedos de minimalismo; é gente que acha que basta que o besourinho seja citado para que se faça minimalismo. Vivemos a maior concentração de Bukowskis por metro quadrado de todos os tempos. O santo nome da corrente brutalista está sendo evocado de forma leviana por gente que coloca um punhado de tiros no enredo, dois palavrões e uma cara de mau na orelha do livro e pronto. Além disso, há a produção de muita coisa ruim mesmo. Muito texto ruim, muita gente sem leitura, sem estofo literário se arvorando a lançar livro. Não, não posso conceber que, por exemplo, um organismo seja rico em ferro, se não consome alimento rico em ferro. Sem consumir literatura sistematicamente, portanto, como um sujeito pode criar arcabouço? É muita ilusão de potência, mas isso é imanente ao homem, não tem jeito. Eu não consigo conceber a carreira de um escritor de verdadeira literatura (e não me pede pra explicar, por favor) sem uma rotina de investigação literária e leitura contumaz.

 

DA – O ato laborioso de escrever pode ser tido como um processo permanente de desconstrução?

DÊNISSON PADILHA FILHO – Ainda hoje cedo pensava em algo parecido. Toda desconstrução pressupõe um mínimo conhecimento, por dentro, de como foi feita a coisa a ser desconstruída, não é? Senão é só uma implosão energúmena. 

 

DA – O quanto Dênisson Padilha Filho conhece Dênisson Padilha Filho?

DÊNISSON PADILHA FILHO – Quase nada. Cada dia que nasce é uma nova muralha de Jericó.

 

DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?

DÊNISSON PADILHA FILHO – Desconfio que, em qualquer tempo, viver é tatear numa sala escura. Nesse nosso tempo, não acho que as incógnitas são mais numerosas que em outrora; acho que sempre foi assim.

 

DA – Somos algo além de uma matéria arremessada para o fim?

DÊNISSON PADILHA FILHO – Por enquanto, somos só esses bonequinhos de carbono mesmo. Depois é outra história, a orfandade acaba, a queda acaba. Mas isso é depois, bem depois.

 

Categorias
101ª Leva - 04/2015 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Fernando Marques

 

Desenho: Victor H. Azevedo

 

Amor e seus disfarces

 

1. Longevos

 

Da mesa de trás vinha a informação:

– A cana tem 18 por cento de açúcar. Já isso aqui tem 99 – o homem referia-se provavelmente ao branco açúcar sobre a pequena mesa da confeitaria.

Ao chegar, eu os tinha notado, ele bem mais velho que a mocinha. Naquele momento, o tema da conversa era a longevidade.

Um homem maduro ao lado de uma quase adolescente – ela devia ter 20 e poucos – nos dá a impressão, decerto convencional, como que automática, do Lobo prestes a devorar Chapeuzinho, coitada.

Ele sabia coisas, verdades várias, e as depositava na mesinha, perdulário. A garota o seguia e, de vez em quando, falava. Uma dessas conversas que ouvimos sem querer e das quais só escutamos bem uma das vozes; a outra, casual e tímida.

O empenho virtuoso em assegurar afeto. Assim, até eu – a ponta perfurocortante da inveja. Vaticinava:

– Ainda estarei firme daqui a 150 anos! Espero que você esteja por perto – a voz sorria, insinuando a promessa.

Levantaram-se. Ele, a bolsa a tiracolo à maneira de outras décadas; o cabelo muito preto parecia pintado. Ela, pequenina, o vestido cândido a denotar simplicidade. Desapareceram de mãos dadas.

 

2. Papéis trocados

 

Adelaide devia ter 17 anos, estávamos na década de 70, 1979, talvez. Não sei ao certo. Lembro seu rosto suave.

O corpo acima do peso a incomodava, sim, mas o que de fato a fazia infeliz eram os pais fora do esquadro. O esquadro careta, sejamos claros.

A tendência para a obesidade vinha deles, ambos gordos; não desarmoniosos, porém. Aquele era seu estado natural, baixos e volumosos. Nada demais, pois.

O que chamava a atenção residia no comportamento. O pai tinha um ar lânguido, adocicado; a mãe, ostensivamente masculina, os gestos em ângulo reto. As vozes que usavam – a dele, aguda e ciciante, a da mulher, cava e rouca – também obedeciam ao lugar-comum dos papéis trocados.

A menina sofria com a evidente estranheza diante de seus pais, que muitos sentiam e que seus amigos adolescentes não disfarçavam. Não se fizesse uma piada, ficaria magoada, talvez chorasse mais tarde. Não se ousasse um comentário, neutro que fosse, já se conseguiria perturbá-la. Amava os pais; doíam as exclamações, o sarcasmo.

Eram diplomatas, cultos, de hábitos sofisticados. Praticavam equitação, coisa de grã-finos. Imaturo, uma vez os vi e achei engraçadas as roupas de montaria, as calças largas que se afunilavam, as botas de cano longo, o chicote petulante numa das mãos… As fatiotas tornavam-se mais curiosas ao ser usadas por aquelas pessoas, que pareciam não ter braços para a tarefa que as roupas sugeriam.

Manifestei o espanto divertido. Foi o quanto bastou para atingir a minha amiga, de quem gostava. Recordo a expressão machucada no rosto de Adelaide quando cometi a brincadeira ambígua, a palavra pouco generosa.

A menina pensava que, ao menos comigo, estivesse a salvo de tais grosserias. Creio que me achasse alheio, superior a elas. Não reagiu ao perceber que o jovem de conversas etéreas era capaz de perfídias. Mas a amizade acabara.

 

3. O beijo empírico

 

Sabemos que as brigas entre namorados podem ter motivos ocultos, diferentes daqueles que os próprios envolvidos alegam; razões alheias às disputas explícitas.

Já os arranca-rabos entre ele e ela, os dois iniciados em questões literárias e filosóficas, não faziam dessas questões meras desculpas, substitutos das verdadeiras desavenças. Não. O casal era capaz de arengar em torno de temas puramente abstratos:

– Pensei que você realmente acreditasse na possibilidade de totalização do real – disse ela com um travo de desencanto. – E não partilhasse o ceticismo que abre caminho a todas as desistências… Vejo que me enganei. Como fui tola – reclamou, enfática.

Era devota dos teóricos marxistas, entre eles Lukács, o da totalização.

– Pode-se até acreditar nas possibilidades racionais de apreender o real – respondeu, persuasivo. – Mas quem sabe o empirocriticismo estivesse correto ao combater as teses materialistas…

– Lenin é que estava certo; aliás, ele venceu a polêmica – rebateu ela, que não sabia direito o que era empirocriticismo, mas tinha ouvido falar.

– As bases de nosso conhecimento são sensíveis, sensoriais – afirmou, sutilmente explicando o que fosse aquele monstrengo conceitual, com o cuidado de não melindrar a namorada. – O que podemos afiançar sobre as coisas em si mesmas, amor? Nada! Somos reféns de nossos cinco sentidos. Dos sete buracos de nossa cabeça, entende?

Ela abriu o Dicionário de filosofia, volume de 1200 páginas que lhe pesava na bolsa, ao qual recorria nos momentos agônicos. Localizou ali o verbete “Materialismo dialético” e leu desafiadora: “Há coisas que existem independentemente de nossa consciência, independentemente de nossas sensações”, recitou nervosa, mas ainda afável.

– Como refutar a evidência? – ela fez a pergunta retórica. Ao ver que o namorado silenciava, insistiu: “Não existe e não pode existir diferença alguma de princípio entre o fenômeno e a coisa em si. A única diferença efetiva é a que existe entre o que é conhecido e o que ainda não o é”.

– Lembro perfeitamente dessa passagem – ele informou com uma superioridade quase imperceptível. Lenin dizia que “o conhecimento nasce da ignorância” e…

Não terminou a frase. A namorada calou sua boca, fechando-a com um beijo demorado e ávido. Adorava aquele homem porque sentia que ele estava à sua altura.

– Não podemos esquecer, porém, que entre Lenin e Lukács houve problemas sérios. Quando o filósofo lançou História e consciência de classe em 1923… – pontificou, valendo-se de certo tom didático, paternal, que a irritava bem.

Ela esperou por um longuíssimo instante, prestes a perder a calma. Ele:

– Ora, imaginar que os acontecimentos históricos estejam prefigurados na matéria, isto é, nas relações de produção, como pretende o Lenin…

A luta recomeçou. Logo berravam, batiam com os pés no chão, pueris e autoritários. Os dois se amavam.

 

Fernando Marques é professor do Departamento de Artes Cênicas da UnB, jornalista, escritor e compositor. Publicou “Retratos de mulher” (poesia; Varanda, 2001), “Contos canhotos” (LGE, 2010), “A comicidade da desilusão: o humor nas tragédias cariocas de Nelson Rodrigues” (ensaio; Editora UnB/Ler Editora, 2012) e as peças “Zé” (adaptação do Woyzeck de Büchner) e “Últimos” – comédia musical (livro-CD), ambas pela Perspectiva.