Cada dia sobre a Terra encerra uma multiplicidade de cenários. Mesmo que muita coisa nos soe insistentemente familiar, há sempre algo que escapa aos domínios de nosso imediatismo. Seja por pressa ou alguma mera negligência do olhar, deixamos de lado um recorte mais detido e profundo sobre muito daquilo que, no final das contas, também faz parte do que somos.
Nesse movimento de ausências, a construção do olhar acostumado parece ser um impeditivo de se enxergar no mundo sua real essência. Acostumar-se, aqui, é se deslocar pelo manto fácil e superficial dos acontecimentos sem buscar um entendimento sobre aquilo que verdadeiramente se vive.
Os fenômenos que compõem o mundo no qual respiramos estão muito além do que supomos e dos nossos ambientes compartimentados em solidão. Partindo do princípio de que não somos os únicos detentores das narrativas que atravessam os dias, sentimos o quanto é necessário ampliarmos os territórios da percepção.
Sob os nossos narizes, a existência pede passagem. E é necessário perceber a tudo e a todos com ares de naturalidade. Afinal, somos a mesma amálgama humana que compõe o planeta desde sempre. Dela, retiramos virtudes e mazelas, suavidades e complexidades, sem jamais passarmos intactos. Por ela transitamos quando temos por guia gente como o fotógrafo Luiz Navarro, artista que desvia a nossa atenção para ambientes os quais raramente são alvos de algum foco especial.
Foto: Luiz Navarro
Entre gestos e ritos dum cotidiano densamente captado, Luiz prefere percorrer lugares nos quais a simplicidade consolidou morada. Nesse fluxo de apresentações do real, o fotógrafo vislumbra alguma pungente singularidade em espaços frequentemente absorvidos por uma espécie de esquecimento. Suas lentes trazem à tona muito mais do que o resultado secular das disparidades socioeconômicas que assolam um país continental como o Brasil, mas, sobretudo, evidenciam quão espessa é a trama que perpassa nossa face.
E Luiz Navarro, nascido em Manaus, vislumbra o mundo a partir de seu próprio locus. Das paragens amazônicas, vê-se não somente o berço que gestou o artista, mas também toda uma profusão de sentimentos que acabam por dar vez e voz a pessoas e ambientes diluídos por uma invisibilidade que lhes é viciosamente imposta.
Mas eis que o artista não sucumbe a qualquer ato piedoso quando seus personagens retratados compõem o painel da desigualdade e da marginalização reinantes no país. Pelo contrário, vislumbra semblantes dotados duma emblemática serenidade, cerzindo suas trajetórias de modo a não pactuarem com qualquer percepção que os estigmatize como vítimas ou fracassados.
Ao mesmo tempo em que edifica um panorama valioso do ponto de vista humano, Luiz capta com precisão as paisagens naturais que cercam o seu entorno de observações. Por tamanha habilidade com as lentes, custa-nos acreditar que para ele a fotografia possui um caráter de hobby. Munido de uma postura sensível, o artista extrai um resultado poético para seu trabalho, algo que o faz evidenciar adjetivos relevantes escamoteados no vaivém da vida. Se o que se apregoa por aí é que o essencial é invisível aos olhos, o melhor mesmo é apurar os sentidos rumo às despretensiosas epifanias diárias.
Foto: Luiz Navarro
* As fotografias de Luiz Navarro integram a galeria e os textos da 92ª Leva
Tantas eras já atravessadas e o caminho das palavras continua a se guiar pelos imperativos da liberdade. Podemos aqui falar em liberdade a abranger tanto o campo criativo quanto o editorial. No primeiro caso, a conjunção entre forma e conteúdo confere vigor a todo e qualquer escrito. Com relação ao outro, novas investidas são pensadas como estratégia de trazer ao lume do mundo vozes muitas vezes nunca dantes percebidas.
O fato é que editoras não funcionam sem que tenham em suas mãos algo valioso. De nada adiantaria todo um trabalho de garimpagem de escritos os mais diversos possíveis se os sujeitos que os representam não trazem a marca da qualidade em suas expressões. O tempo em que vivemos tem trazido alternativas significativas no que se refere a publicações de obras. Nesse ínterim, um ânimo renovado irrompe. Na contramão dos ditames puramente mercadológicos, os quais segregam muitas obras a espaços confinados ou as enquadram num círculo duvidoso de preferências, o papel das pequenas editoras tem proposto novas reflexões sobre o tema. Através do uso de tiragens reduzidas e de ferramentas de comercialização e divulgação diferenciadas, tais empresas intentam não somente um lugar ao sol, mas também servirem como espaços de democratização de expressões.
Um dos exemplos vivos dessa nova aurora editorial é o da Mondrongo Livros. Sediada em Itabuna, no sul da Bahia, a editora tem como seu fiel condutor o escritor paulista Gustavo Felicíssimo. Há pouco mais de vinte anos, Gustavo, que é natural de Marília, escolheu as paragens baianas como seu novo espaço no mundo. Sempre foi um obstinado ativista cultural e durante muitos anos fomentou a recuperação de obras de relevantes nomes da poesia baiana, bem como colaborou com a divulgação de outras tantas vozes. Sem dúvida alguma, sua vivência de poeta e de apaixonado pela literatura é que faz dele um homem mais preparado para enfrentar as vias editoriais. Dentre suas obras, estão os livros Outros Silêncios (2011), Procura & Outros Poemas (2012), Blues Para Marília (2013), todos pela Mondrongo. Experimentando um outro momento em sua feição de editor e prestes a lançar seu mais novo rebento poético, Gustavo nos recebe para um diálogo cujo tema maior não poderia ser outro: a marca indelével da literatura.
Gustavo Felicíssimo / Foto: Fausto Roim
DA – Num determinado ponto de sua trajetória com a literatura, eis que surge a Mondrongo Livros. A partir daí, sua feição de editor, já acostumado a projetos diversos, ganha um substancial impulso. Que tipo de necessidade marca a origem da editora?
GUSTAVO FELICÍSSIMO – A Mondrongo nasceu de uma imensa e profunda insatisfação que eu vivia com tudo o que me cercava profissionalmente há anos. Posso dizer que foi o Teatro Popular de Ilhéus, através do Romualdo Lisboa, que em 2011 livrou a minha alma de um infarto fulminante ao me convidar para o desafio de fundar a editora com o objetivo claro de fomentar a literatura no sul da Bahia. Agora a Mondrongo está em voo solo, desvinculada do grupo, e batendo suas asas para além das fronteiras sulbaianas, mas a gratidão é e sempre será imensurável.
DA – Como está sendo o processo de expansão da editora? Há uma clara intenção de abrir espaços para autores de outros recantos do país?
GUSTAVO FELICÍSSIMO – Há uma assertiva atribuída a Tolstói, que diz mais ou menos o seguinte: se queres ser universal, começa por cantar a tua aldeia. Eu digo que para tornar a Mondrongo uma editora de relevo nacional, primeiramente ela precisa, além de tempo, ser importante para o local em que nasceu. Assim, após três anos de existência e já tendo consolidado uma posição de relevo na cultura sulbaiana, começamos a pensar na ocupação de um espaço estratégico na Bahia. Para tanto, criei a “Série Horizontes”, que vem, desde o final de 2013, publicando alguns dos principais poetas baianos da chamada “Geração Anos 2000”, como o João Filho, Henrique Wagner, Silvério Duque, Nívia Maria Vasconcelos, Patrice de Morais e Herculano Neto. Esse nosso empenho em prol de uma geração vem dando bons frutos, atraindo público satisfatório para os nossos eventos, e olhares interessados tanto das academias quanto do próprio meio literário, o que comprova o acerto das nossas escolhas. Até o final de 2014, somente nesta série, teremos 10 obras publicadas. Criei também a “Série Mondronguinho”, exclusivamente para a publicação de obras infantis e infanto-juvenis. Fruto de uma demanda natural, a Mondronguinho tem dado um retorno muito positivo e alargado os nossos horizontes, pois é uma seara nova para mim e com a qual venho aprendendo muito e consolidando parcerias estratégicas. Já em um plano mais amplo, mas nem por mais importante, trabalharei para tornar a Mondrongo uma referência nacional para o Haikai, essa forma poética tão importante, mas ao mesmo tempo tão marginalizada, publicando, inclusive, autores de relevância. Para isso tenho em desenvolvimento a edição das cinco primeiras obras que deverão ser lançadas até outubro deste ano. Enfim, a expansão está acontecendo de maneira natural. Ou seja: de acordo com o que avançamos no cumprimento das metas planejadas, outras metas vão se impondo naturalmente.
DA – Na sua avaliação, quais características marcam a nova face da literatura baiana?
GUSTAVO FELICÍSSIMO – A face é sempre a mesma. Em “Oropa”, França e Bahia, como em qualquer lugar, a literatura é multifacetada. Não há características que a possam definir. O que existem são os bons e os maus escritores. Os primeiros são capazes de escrever obras que marcam nossas vidas; outros, mal conseguem preencher os espaços vazios na estante.
DA – Cada vez mais, as editoras independentes vêm ganhando espaço no Brasil. Uma das alternativas de atuação delas está no uso de tiragens reduzidas como estratégia de sobrevivência e também de reação ao mercado editorial vigente. De que modo você percebe esse processo?
GUSTAVO FELICÍSSIMO – Cada dia mais me parece que ser independente é, necessariamente, depender de todo mundo. Mas o que aqui se deve entender como “independente” é o fato de ser uma editora pequena, de poucos recursos financeiros, que valoriza o autor e tem um olhar diferente para projetos inusitados, muito embora, como qualquer empresa, necessite trabalhar com os pés no chão para não quebrar por conta do entusiasmo. O capitalismo nos deu tecnologias, possibilitando pequenas tiragens com boa qualidade, custo acessível e canais de venda via internet, possibilitando que nos distanciemos cada vez mais das livrarias convencionais, muitas vezes parecidas a cemitérios de livros. Deu-nos ainda, em certa medida, a condição de ignorar a mídia tradicional, que sempre nos quis ver com pires na mão. Parece-me que o caminho dessa “reação” passa por aí.
DA – Desde 1993, você elegeu a Bahia como morada. E seu livro “Blues para Marília” é algo pungente na medida em que pontua a sua travessia como escritor até aqui. Como você vislumbra esse seu exílio íntimo de poeta?
GUSTAVO FELICÍSSIMO – Minha ligação com a Bahia é algo muito especial, transcendental, diria. E Marília é a base da minha gênese. Em 1970, meu pai, que era Caixeiro viajante, esteve em Salvador a trabalho e trouxe consigo a minha mãe. Quando retornaram, ela estava grávida. Daí por diante, sempre que ele se lançava no mundo dizia: “Mulher, cuida bem do nosso baianinho”. E na volta, inevitavelmente, perguntava: “E aí, mulher, como está o nosso baianinho?”. Daí que para mim não há mistério algum ter vindo parar ocasionalmente a trabalho na Bahia, em 1993, e daqui não ter saído mais. A par disso, posso dizer, literalmente, com as palavras do Gilberto Gil, que a Bahia me deu régua e compasso, que aqui, graças a todas as influências, sobretudo culturais, fui forjando o homem que sou, o entendimento de mundo que tenho. Foi aqui que entendi que sem a literatura a minha vida não poderia mais acontecer. E o que me é mais caro: aqui nasceu a minha filha, esse ser que amo tanto e que me mostrou o quanto sou pequeno. É à margem do que sou que sei exatamente o que não fui.
Sobre Blues para Marília, penso que essa pungência atribuída à obra se deve pela inserção de um forte componente emocional, minhas mais alegres e dramáticas reminiscências. Com elas me fiz e me desfiz nos caminhos da vida. Foram dez anos de escrita, dez anos tentando entender as minhas agonias para traduzi-las em imagens, algo que somente a poesia, com sua potência verbal, pode dar conta. Isso se o autor trouxer consigo uma profunda consciência literária e o respeito pela tradição. Somente assim é possível manter a poesia liberta, em pleno voo. O livro foi lançado em abril de 2013 e vendeu os 500 exemplares iniciais, o que me forçou a providenciar uma segunda edição ainda mais caprichada, disponível para aquisição.
DA – Criar é notadamente uma confissão de pertencimento?
GUSTAVO FELICÍSSIMO – Em todos os sentidos. E mais: é uma questão de identidade. Afinal, nossa escrita é o reflexo do que somos. Mas criar é também uma espécie de defesa, uma forma do ego repelir a angústia e a ansiedade, sublimando-os.
Gustavo Felicíssimo / Foto: Fausto Roim
DA – A memória afetiva pode ser também um terreno melindroso para o poeta?
GUSTAVO FELICÍSSIMO – Se, como afirmo anteriormente, nossa escrita é um reflexo do que somos, logo a “memória afetiva” é parte da identidade do autor. É ela que repudia os contrários gerando tensão. Essa oposição gera a necessidade de se diluir a tensão, proporcionando a força motriz da criação. O Anthony Storr, em “A dinâmica da criação”, explica que uma pessoa criativa necessita de um mergulho incomum no seu interior para conter e fazer uso do que descobrir ali.
DA – Em “Procura e outros poemas”, você experimenta o gosto de uma maturidade literária. E há ali também uma, digamos assim, alusão ao uso responsável do verso livre. Diante dessa atmosfera, quais reflexões lhe parecem mais relevantes?
GUSTAVO FELICÍSSIMO – Embora transite por diversos gêneros literários, sempre fui conhecido, ou mais conhecido, como poeta. Talvez por isso a Mondrongo venha se firmando e merecendo atenção por conta dos projetos e publicações nessa área. Quanto a meus livros, o que posso dizer é que sempre tive a consciência de que um compêndio de poesia precisa ser formado por uma unidade, um aspecto qualquer que o perpasse como uma espécie de fio condutor, afinal, um livro do gênero não deve ser um ajuntamento aleatório de poemas, mas antes de tudo uma proposta conceitual, seja ela discursiva ou formal. Daí eu ter levado, em média, dez anos para aprontar cada um dos meus livros. Mas sejam em versos medidos ou não, me parece importante que os volumes de poesia reflitam essa proposta estética, muito embora não tenha muita esperança quanto a isso, pois os poetas, de um modo geral, historicamente interpretaram de maneira inadequada o modernismo, permitindo que a sua influência lhes prestasse, em verdade, um desserviço na medida em que se confundiu liberdade com permissividade e até mesmo vulgarismo. É como disse o Elliot: não existe verso livre para quem quer fazer um bom poema.
DA – No conjunto de sua obra, há uma busca consciente por uma unidade formal?
GUSTAVO FELICÍSSIMO – O termo “formal” da pergunta parece vir revestido de um significante pejorativo, no entanto é necessário considerar que todo poema é uma unidade formal se levarmos em conta que não poderá ser considerado como tal se não conseguir amalgamar em seu bojo elementos como “imagem”, “melodia” e “ideia”. O problema é que termos como “forma”, “métrica” e “versificação” se transformaram em verdadeiros xingamentos para os poetas na modernidade. Só que não conheço nenhum bom poeta que não domine esses elementos fundamentais, até para quem se identifica mais, ou mais especificamente, com o chamado verso livre. Todavia, como afirmou Ildásio Tavares, esse é um processo dialético e o esvaziamento de um conduz à valorização do outro. À parte essas considerações, o importante é que, seja em verso livre ou concebido dentro de alguma forma, se faça poesia. No entanto, é necessário lembrar aqui um provérbio latino que diz fit orator, nascitur poeta.
DA – Você está prestes a lançar seu mais novo livro, “Desordem”. Com qual clamor estes versos surgem?
GUSTAVO FELICÍSSIMO – Mesmo não tendo nenhuma certeza quanto a isso, posso dizer que “Desordem” foi se construindo permanentemente assistido por um rigoroso discernimento crítico. Nele, através do uso da metalinguagem, estão contidas diversas das minhas reflexões sobre a poética e o fazer poesia, também há uma suma importante de reflexões sobre a morte, resumidas em um capítulo formado apenas por elegias, e, por fim, há um capítulo intermediário em que floresce muitas vezes o meu lado combativo em poemas de feições diversas, normalmente de características obscuras e até mesmo pessimistas.
DA – Nesse universo de percepções que abriga o poeta e o homem, o quanto Gustavo Felicíssimo conhece Gustavo Felicíssimo?
GUSTAVO FELICÍSSIMO – A única maneira que tenho para responder à pergunta é com um antigo poema, intitulado Autorretrato.
Sou como o invisível céu
que não vos inspira cuidados,
pois retorno depois das névoas
sobre os campos abandonados;
sou finito e celebro o fogo
infindável do grande jogo
a nos enlaçar a garganta;
creio no vórtice da voz
sacrossanta que a tudo encanta:
trago os haveres desse mundo;
sou terra, sou campo fecundo.
– 3 POEMAS INÉDITOS* –
À POSTERIDADE
Ocorreu-me de escrever
um poema à posteridade.
Um poema que assegure
a permanência do meu nome,
seja lá o que isso signifique.
Um poema tão claro e puro
quanto essa exclamação:
posteridade, vá se foder!
***
EU NASCI DECLARANDO GUERRA A VOCÊ
Para Cristiano Jutgla
Dane-se essa onda do politicamente correto,
essa mania de não poder desagradar nunca,
afinal, a existência não é mais que um incêndio.
Que importa restarem cinzas depois das chamas?*
Que importa a bondade dos liquidados?
Não procurar a verdade na imensidão da verdade,
senão na força falsa de um imbecil diplomado
é o mesmo que não se aplicar em traduzir
o que a vida mesma está sempre a nos dizer.
Não tecerei alvíssaras a mais pura mediocridade.
Não vencerei o tolo jogando o seu jogo.
Ele surge como se fosse o novo,
mas é o farol apagado no meio da imensidão.
Assim ele marcha: num cortejo fúnebre.
Assim se mantém: com muletas que não o sustentam.
Nenhuma filosofia o alimenta ou ampara.
Estúpido, que na estupidez se espelha,
eu nasci declarando guerra a você:
eu nasci odiando a tua mediocridade.
* O verso é de Mário Quintana
***
UMA FAGULHA
Essa corda que vibra
no poema é a vida
pois se nela um sopro insiste
se um fio de esperança ……..ainda resiste
é por que enquanto houver gente
haverá sempre o sonho
uma fantasia qualquer
que fará da poesia tão somente …………….o sol na face …………….o sorriso da criança …………….o seio da amada
– e porque não –
um domingo de futebol
e a torcida na arquibancada.
É que enquanto houver no homem
a sede de afrontar a angústia
e a fome ……..implacável ………………….de viver
haverá por certo uma explosão
algo fazendo tinir
o cristal que nos move
e não deixa morrer a ilusão
de que a poesia ……..– para sempre – ……..continuará a ser
uma fagulha que inflama a existência.
*Os poemas acima fazem parte do livro Desordem, a sair pela Mondrongo em 2014.
São profundos
os cortes nas noites,
e não se diferem
dos cortes nas tardes
nem cortes nas longas
madrugadas.
Volta e meia
surgem novos cortes
mínimos; disfarces
envolvidos, sedas,
afins. Pormenores,
mas profundos.
***
Mapa em alto-relevo
Eu não sei, das mãos,
qual leva, enraizada,
pena ou espada.
Soubesse: tatuaria o então.
***
De cifras e ações
A José Inácio Vieira de Melo
Guardas nos instantes
de harpa e dicionário,
castelos e pedras,
cactos e cavalos.
Escombros de árvores
revelam as mãos
que bate e que escreve
cinzas do ser tão.
Pássaros da mente,
pardo missionário,
são as soluções
do teu boticário.
Pianos e aboios
ao verso, sons dão,
e inscrevem no vento
a continuação.
Duradouro arder
de ausente ocaso,
são tuas solidões
as que, em mim, disfarço?
***
Para depois de dezembro
Um bilhete pontiagudo –
agulha no corte da carne,
explodira o desejo proibido
de pérola do seio da primavera.
Amor – olho que tudo desenxerga,
reivindicara, à lucidez do papel,
uma fresta, uma linha, mais nada.
As palavras atravessadas
calaram-se atravessadas.
Um caminho de boninas,
canas, rosas – deusas raras;
as duas cabeças de girassóis
encantando a praça;
os peixes cantando borbulhas,
mesmo na fumaça do balé;
ou, então, o aconchego
das folhas verdes sobre a terra úmida:
o verde que tingira de um belo
o cinza,
como papagaios e periquitos
em dias de criança.
O bilhete – porta para o que há de ser,
em sua frase única, fora claro:
pela palavra,
tudo há de nascer.
***
Pontas
E fez-se um labirinto
cheio de assombro e luz.
Do nada, nada pôde ser gerado:
até a sombra nascia de um estalo.
Em busca da ponta da ponta,
empenharam caminhadas,
declamaram evangelhos
que, no fim, inventavam caminhadas.
Do outro lado do labirinto,
alimentados de milho e feijão
– alunos do colégio solar –
dedilhavam no instrumento do chão
as escrituras mais que encantadas.
De cá ou de lá,
ninguém notara um certo velho.
Não… Ninguém notara…
Porque se entendessem o rubi
sem fim ou começo que era o amor
nos olhos daquele cego,
abririam pico no mundo;
acertariam os provérbios.
Finda caminhada.
Paulo Sérgio Lima, antes de ser baiano, é jequieense e brasileiro – a Bahia está no meio. Nasceu em 1989. Só em 1998 conheceu uma sala de aula e seu universo de letras. A universidade chegou em 2010 – Licenciatura em Letras Vernáculas pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB/JQ. Acredita que a paixão pela leitura, pela poesia, tenha surgido do ato de folhear livros didáticos de Língua Portuguesa na adolescência. Tem poemas publicados na revista virtual Verbo21 e no blog Clandestinos.
Ariano Suassuna, nascido na Paraíba em 1927, completou, no dia 16 de junho, 87 anos de idade. Boa parte desses anos tem sido dedicada ao teatro, à literatura e à defesa da cultura brasileira contra a massificação. Em 1947, então com 20 anos de idade, escreveu a tragédia Uma mulher vestida de sol, com a qual conquistou o primeiro lugar no concurso de âmbito nacional promovido pelo Teatro do Estudante de Pernambuco (TEP). À época, Hermilo Borba Filho, um dos fundadores do TEP, escreveu: “Tenho a impressão de que o Nordeste encontrou em Ariano Suassuna o seu poeta dramático mais capacitado para transformar em termos de teatro os seus conflitos e suas tragédias”. E não estava enganado. Porém, a comédia, mais do que a tragédia, é que lhe permitiria expor com sagacidade e irreverência a alma do povo nordestino, sempre às voltas com as complicações do meio ambiente e as desigualdades sociais.
O teatro de Ariano Suassuna impressiona pela capacidade que o autor apresenta de mesclar o erudito e o popular, seguindo, de forma coerente, as linhas mestras do Movimento Armorial, cujo objetivo era “criar uma arte erudita a partir de elementos da cultura popular do Nordeste brasileiro” (Wikipédia). Além disso, podemos perceber no seu texto dramatúrgico a rica herança da cultura ibérica e do cristianismo, mais precisamente aquele ligado à Igreja Católica. Suas raízes estão fincadas na tradição cuja fonte encontra-se lá nos autos da Idade Média, no humanismo do teatro de Gil Vicente e, no século XVII, no teatro barroco de Calderón de La Barca. Tanto nos textos do autor português quanto nos do autor espanhol, o elemento popular e o religioso têm uma presença muito forte.
Numa entrevista à Folha de São Paulo, em 1991, Suassuna diz o seguinte a respeito das suas influências literárias: “Recebi uma influência enorme de Cervantes e de vários autores espanhóis, inclusive de Calderón de La Barca. Talvez até maior que a de Cervantes foi a de Calderón”. Esses autores são, na verdade, sua matriz estética, e com eles o autor de O santo e a porca mantém um diálogo constante. É, no entanto, na cultura popular nordestina que Ariano Suassuna sedimenta as bases da sua dramaturgia. Dos folhetos de cordel nascem algumas das suas peças, como é o caso do Auto da Compadecida, que se originou, segundo o autor, “da fusão de três folhetos de cordel: O enterro do cachorro, O cavalo que defecava dinheiro (ambos de Leandro Gomes) e O castigo da soberba (de Anselmo Vieira)”. Ocorre, nesse caso, não a cópia, mas sim a recriação de textos da literatura popular nordestina, dando origem a um texto teatral em que o popular e o erudito fundem-se de modo brilhante.
A visada crítica sobre a realidade brasileira, mais especificamente a realidade nordestina, com seus costumes arraigados, frutos de uma sociedade oligárquica e de uma cultura popular marcada pela religiosidade profunda, também colabora para tornar o texto do mestre Ariano mais contundente. Caracterizados, essencialmente, pelo humor corrosivo e farsesco, seus textos, através dessa crítica aos costumes e aos desvios de conduta de indivíduos que ocupam uma posição hierárquica significativa na sociedade, conseguem reverberar para além do riso momentâneo. Embora tratem de questões locais, próximas ao ambiente em que o autor vive, a temática abordada neles é de caráter universal: a avareza, a vaidade, a oposição vida/morte, a opressão, a corrupção, a esperteza como meio de se livrar da opressão do mais forte etc. Faz valer, desse modo, o que disse Tolstói: “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”.
No universo dramatúrgico de Ariano Suassuna, a oposição entre Bem e Mal dá-se no embate entre o sertanejo nordestino desprovido de riqueza material, mas senhor de uma esperteza impressionante, beirando, às vezes, o picaresco (podemos citar como exemplos João Grilo e Caroba), e o rico que o explora ou o oprime. Nesse embate, leva sempre a melhor o tipo fraco, desprovido de riqueza material, mas esperto e que conta, geralmente, com uma ajuda do além – uma espécie de deus ex machina. Pode-se dizer que essa esperteza é, de certa forma, o único recurso que o pobre possui para sobreviver num mundo comandado por poderosos despidos de humanidade. Isso demonstra a opção ideológica clara do autor a favor dos menos favorecidos.
Na Farsa da boa preguiça, por exemplo, o preguiçoso poeta Joaquim Simão conta com a ajuda de um santo (Simão Pedro) para se contrapor ao poderio econômico de Aderaldo Catacão e à tentativa de Fedegoso e Quebrapedra (dois diabos) de levá-lo para o inferno. Num primeiro momento, inclusive, o capitalista Aderaldo Catacão conta com a simpatia de um anjo (Miguel Arcanjo), mas vai perdê-la ao final quando este constata a extrema avareza do seu protegido: “Ah, é assim? Pois esse peste/vai perder quem ainda lutava por ele!”. Junto também com os dois enviados dos céus encontra-se Jesus Cristo (Manuel Carpinteiro), que a tudo observa e avalia. Essa relação direta dos seres celestiais com os seres terrenos, empenhando-se, no caso, para influenciar no seu destino, aproxima-se claramente do universo da mitologia grega, onde os deuses participavam diretamente do destino (Moira) dos mortais. Na Ilíada e na Odisseia temos os deuses (Zeus, Hera, Afrodite, Poseidon etc) confrontando-se para proteger ou castigar heróis gregos ou troianos. Já nos textos de Ariano (e dos autos medievais), marcados pela presença da mitologia cristã, anjos e santos enfrentam demônios para evitar que os personagens sejam punidos com o fogo do inferno.
Temos essa presença de seres celestiais e de seres demoníacos intervindo também no destino dum grupo de mortais no Auto da Compadecida, de 1955. Nesse texto, porém, a ação se dá já no mundo dos mortos. João Grilo e outros personagens estão mortos e precisam da ajuda de Nossa Senhora (A Compadecida) e de Jesus Cristo (Manuel) para que não sejam encaminhados ao inferno. Aqui, temos a aproximação com o Auto da barca do inferno, de Gil Vicente, escrita em 1517. Diferentemente da peça de Gil Vicente, em que a maioria dos mortos não escapa ao fogo do inferno, na peça de Ariano, com a argumentação precisa de Nossa Senhora e de Jesus Cristo, livram-se todos do castigo. É um final típico da comédia, como nos diz Renata Pallottini no seu livro Dramaturgia: a construção da personagem: “Seu desenlace é, via de regra, feliz, otimista. O público sente-se solidário com o desenrolar da trama, se descontrai com o desenlace, que lhe dá uma espécie de catarse que não é catarse porque não implica piedade e terror, mas uma empatia cuidadosa, onde o riso é às vezes de cumplicidade, outras vezes de superioridade”.
Ariano Suassuna / Foto: Demis Roussos
Na Farsa da boa preguiça, escrita em 1960, a intervenção celestial, para evitar a vitória do diabo e do rico Aderaldo Catacão, dá-se no mundo dos vivos. Então, faz-se necessária a descida desses seres celestiais ao mundo dos mortais. Nesse caso, os seres celestiais precisam assumir a condição de um mortal e andar entre os homens como um deles. Nessa condição de mortal, pode ocorrer algum desvio ou conduta que fuja do que se espera de um anjo ou de um santo. É o que ocorre com Simão Pedro: ele encontra um queijo que pertenceria a Aderaldo Catacão e decide ficar com ele. Ao final, temos os três seres celestiais (Manuel Carpinteiro, ou seja, Jesus Cristo, Simão Pedro e Miguel Arcanjo) disputando a posse do queijo num jogo. A proposta é feita desta maneira por Manuel Carpinteiro: “Então vamos fazer o seguinte:/enquanto a história do Rico e do Poeta continua,/a gente vai ali dormir um sono e sonhar!/Quem tiver o sonho mais bonito/fica com o queijo todo, está bem?”. Depois, quando vão revelar os sonhos, Simão Pedro confessa: “Então, sonâmbulo, como sempre fui,/acho que me levantei,/porque quando acordei,/tinha comido o queijo:/só estas cascas encontrei!”. E essa sua esperteza é ainda exaltada por Manuel Carpinteiro: “quando escolhi este para Príncipe dos Apóstolos/e chefe da Igreja,/foi porque sabia que o cabra era esperto!”. Aqui, poderíamos dizer que o texto de Ariano se aproxima da Sátira Menipeia, pois ocorre o rebaixamento de um ser celestial, fazendo-o comportar-se como um simples mortal afeito aos desvios de conduta.
Para Aristóteles, a comédia, em contraposição à tragédia, “é a imitação de homens de qualidade inferior”. O universo teatral criado por Ariano Suassuna, a partir de suas fontes populares e eruditas, é marcado por tipos que se encaixam nessa definição do filósofo grego. Seu olhar generoso, no entanto, faz com que seus personagens pertencentes à camada menos favorecida da sociedade ganhem a simpatia do público por investir-se de esperteza, graça e malícia – elementos capazes de fazê-los sobrepor-se ao outro, que se impõe, geralmente, pela força física ou pelo poder econômico. É o caso das personagens Caroba e Pinhão na peça O santo e a porca, de 1957. O público pode até se opor ao modo interesseiro com que ambos agem inicialmente, mas não tem como não simpatizar com eles ao descobrir que são explorados vergonhosamente pelos patrões. É o que nos revela a fala de Pinhão no Terceiro Ato: “Mas onde está o salário de todos estes anos em que trabalhamos, eu, meu pai, meu avô, todos na terra de sua família, Seu Eudoro? Onde está o salário da família de Caroba, na mesma terra, Seu Eudoro? (…) Onde está o salário de Caroba durante o tempo em que trabalhou aqui, Seu Euricão?”.
Caroba e Pinhão, assim como João Grilo, possuem linguagem e esperteza que lhes permite negociar, argumentar e tramar em proveito próprio ou dos outros. E se podem fazer isso com tanta desenvoltura, em relação à linguagem, é porque, nas peças de Suassuna, não há distinção entre o nível de linguagem usado pelos patrões e o usado pelos empregados. Ou seja, a correção gramatical é um elemento presente tanto na fala dos menos favorecidos quanto na das elites econômicas. Menos que incorrer em inverossimilhança, o que Ariano faz é armar os representantes das camadas mais pobres da sociedade com o mesmo poder de comunicação dos que detêm o poder. Dá-lhes a mesma “competência lingüística” dos seus opressores. Isso permite, então, que o embate verbal não penda só para um lado, ou seja, dos representantes das forças econômicas. Seus personagens, nesse caso, não sofrem da mesma angústia de um Fabiano, no romance Vidas Secas, do também nordestino Graciliano Ramos. Por ser limitado em relação à linguagem, o personagem de Graciliano não pode exprimir-se da maneira que gostaria e que precisaria para se livrar da exploração e da opressão.
Por conta de toda essa riqueza estética e convicção ideológica, o teatro criado por Ariano Suassuna nos encanta, conscientiza, diverte e humaniza. Daí sua força inesgotável como obra de arte capaz de nos manter atentos às complexidades da alma humana e às riquezas culturais do nosso país.
Geraldo Lima é escritor, dramaturgo e roteirista. Tem algumas obras publicadas, dentre elas: Baque (contos), UM (romance) e Trinta gatos e um cão envenenado (peça de teatro). Mantém o blogue Baque.
Atalhos: Leda e o relógio acertavam o tempo. O vento mais úmido, ameaçando. E o cão vira-lata não mais a seguia. Cansara de dizer não aos pedintes. E em seu coração chovia. Quem disse Salvador um verão sem tréguas? Salvador a levava à loucura. Eram as melhores horas. Um homem com alma de cidade.
Entalhes: o ateliê não recebia um turista há séculos. Na verdade, dos doze anos vividos ali, tirara muito, reconhecia. Hoje, a rua, escura e funda, exalava odores de morte. E a luz, que iluminava o saguão, mal servia para nortear os olhos de doninha do proprietário. Real Antiquário. A letra u, pintada numa caligrafia caprichada, apagou-se por si própria, cansada de se apresentar na placa comida de ferrugem. Apesar disso, Salvador continuava a empunhar o formão, talhando uma nova cópia de peça barroca. Os cabelos raros e brancos de velho espanhol. As mãos grossas e ainda fortes. Sua mão era seu sexo: os dedos hábeis e macios, moldando a carne rebelde de Leda.
Retalhos: Conheceram-se numa noite clara em que o céu estava fatiado de azul e as estrelas nasceram ofuscadas. Leda & Salvador. Tocava uma música sensual nas escadarias do Carmo. Salvador, bêbado. Leda, chapada de maconha. Sorriram um pro outro: o gringo e a negrinha. Ele sem saber dançar a salsa. Ela já acostumada ao ritmo e à voz de Gerônimo, ao balanço e à malícia de Gerônimo, à pena pintada de vermelho na ponta e na cabeça de Gerônimo, ao sorriso malemolente dos quadris de Gerônimo, seu cantor preferido, preto – apesar de branco. Eu sou negão… Eu sou negão… Meu coração é a Liberdade. E assim Salvador se libertou, subindo os degraus até sua pequena Oxum, que girava já dentro de sua cabeça desde tempos atemporais.
Atalhos: Guardava a lembrança da avó, anéis de ouro e balangandãs. Escrava como Leda, pobre como a mãe de Leda, mulheres juntando o comércio do amor possível. No iorubá, língua-mater, xingava o feitor de puto, viado, ladrão. Em português desfiava mentiras quentes como a cor do dendê. Ela ela e mais ela sabia sabiam que o amor e o sexo são as palavras. Não quaisquer umas, porém, as palavras.
Entalhes: As hastes dos óculos eram flexíveis e envolviam as orelhas grandes. Uma das lentes quebrada. Bem no meio. Daí a imprecisão. E lascou a beirada do lábio com sua ânsia. Os dedos molhados. De suor. Mesmo assim avançou. Podia-se ouvir um espasmo ou suspiro no ar. O vento revirando as folhas do catálogo sujo sobre a mesa. Salvador acariciou o peito quase reto, quase liso da escultura, não fossem os dois biquinhos. Ele cuspiu um cuspe grosso na ferramenta – outrora tão luzidia. E com a outra mão desferiu o golpe entre as pernas do anjo.
Retalhos: Carregara a menina no colo como um noivo leva a noiva em suas núpcias. Entretantos entretantos, ela o escolheu como homem, assim como Zeus escolhia suas vítimas. Talvez a beleza da jovem o embalasse para uma armadilha. Dois marginais sairiam de algum canto escondido e o roubariam e o assassinariam, deixando seu desejo enterrado num vão, tornando Salvador nota e número de um jornal esquecido e em ruínas. O susto veio. Leda Leda Leda. Dezessete aninhos e já passara para antropologia na universidade. Como podia? Mais susto. Ela conhecia arte. Mesmo no lixo que era a loja. A influência européia, séculos de oro y plata, porcelanas chinesas e azulejos azuis, castiçais, ornamentos em peças cotidianas. Danada. Susto maior. A raiva de Leda. Raiva dos homens e seus preconceitos na pele. Raiva tão grande quanto a delicadeza.
Atalhos: Cada nó de suas tranças contava uma estória de espoliação. Queriam-na mais trágica, menos feliz. Não permitia. A beleza de sua alegria guerreira era estampada na fronte. Arrastou Salvador pelos braços, apresentou-lhe o Ilê. Nada de Chicletes com Banana, Babados Novos, Harmonias do Samba ou quem quer que representasse a estupidez de uma alegria embalada por uma maré sem ventos. Por isso, odiava os circuitos de carnaval e o automatismo dos corpos nas danças sincronizadas. Não era o vento que a insuflava. Sim, as tempestades. Fechou as mãos com mais força e sentiu as jóias machucando as palmas. Jogou tudo dentro da mochila: anéis, brincos e pulseiras. Aproximava-se da casa de John, um velho sobrado caindo aos pedaços na Mouraria. A poucos passos, ouviu o cachorro latir.
Entalhes: O telefone tocou. Era Leda no celular. Salvador ouviu tudo em silêncio, apenas murmurando o consentimento. Não restavam mais alternativas. Precisavam sair da cidade, abandonar o país. Quando montou o ateliê, havia outros artistas. Verger costumava visitá-lo. Salvador falava vários idiomas. Filho de brasileira com italiano, nasceu na Espanha. Durante a infância, morou em Portugal. Os pais não sentavam lugar. Mudaram-se para a Itália, Grécia e, por fim, fixaram-se na África do Sul. Com dezoitos anos completos, a mando do pai, foi buscar trabalho na França. Lá, aprendeu a pintar e a esculpir, enquanto vendia pães em cestos nas ruas de Paris. Numa noite de boêmia, recebeu convite de Truffaut para fazer figuração num filme. Assim, começou carreira no cinema. Não se saiu de todo mal. Logo, outros cineastas o convidaram. Godard, Jean Vignon, Louis Malle e até Fellini, que visitava os estúdios de produção de La Rivière de Cassis. Dividia seus dias entre a sétima arte e as aspirações políticas da época. Tornou-se marxista. Contudo, sentia-se um estranho em qualquer chão que pisasse. Gostava de aventuras. As mulheres o agradavam e não se recusava aos homens, conquanto fossem bonitos e tivessem alguma graciosidade. Participou das manifestações de maio em Paris, viajou para a Bélgica, Alemanha e, quando se cansou, decidiu estudar política na Inglaterra. Os anos foram passando e Salvador cada vez mais desterritorializado. Viu com terror a queda do Muro de Berlim, teve depressão, isolou-se. Até que um dia caíram em suas mãos novamente o cinzel e o martelo. Ele os recebeu, gratificado.
Retalhos: Tinha bebido e nem por um instante pensara numa razão íntegra o suficiente para se satisfazer: que queria a menina? Andava pela sua caverna como se dela fosse, afastando peças, sorrindo e dançando entre as vênus e dianas. E tinha se apercebido – sim, nesta hora precisa –, Salvador lembrou e se conscientizou de que era um velho. Leda beijou sua barba por fazer. Leda arrancou seus óculos da face. Leda abriu os botões da sua camisa. E Salvador, Salvador não sentiu nada. O pinto tão murcho como ultimamente. Mas não era um completo vazio o que sentia. Dentro, lá dentro, era um sentimento abrasador, pulsante e extremamente vivo. A questão era se para Leda bastava isto, olhar. Leda segurou o sexo de Salvador em sua mão de menina. Sexo grande, macio e mole. Salvador tentou se recolher e fugir. Mas Leda o deteve, baixando a mão até suas bolas e apertando com firmeza.
Atalhos: Uma empregada-zumbi abriu a porta e segurou o rottweiller pela coleira. A mulher era um caniço, mas de um lado a vassoura e do outro a grande fera assassina. Leda escapou para o corredor e, de lá, direto para o jardim, nos fundos, de onde uma luz natural se projetava para o interior, e da porta se viam duas cadeiras de ferro, uma mesa de madeira, caixotes e mais caixotes amontoados e uma vista linda. John molhava as pontas dos bigodes loiros numa xícara de café, óculos escuros, bermuda e camisa florida aberta no peito. Um chavão, pensou Leda.
– Hey! Ledá!
– Diz aí, John.
– Coffee? Está uma d’lícia.
O quintal e a casa ficavam acima da rua posterior, a diferença de altura propiciando a visão das torres das igrejas do Pelourinho, os telhados vermelhos enegrecidos das casas, janelas de edifícios e muitas antenas por toda parte. Um forte.
– O que vai ser desta vez? – falou o americano em bom português.
– Nada de compra. Trouxe um negócio para você.
– Oh, really? E do que se trata?
– São jóias. Coisa de primeira. – Ela pôs a mão na mochila.
Ouviu-se um grunhido. A cabeça do cão surgiu na janela da cozinha.
Entalhes: Era preciso lixar a madeira, passar verniz e deixar secar. Depois, lixar novamente – com uma lixa mais leve – e pintar com tintas foscas, para dar a impressão de antiguidade digna de uma obra de arte. Reconstituir o passado. Inglaterra. Um dia, chegou uma carta da África do Sul. Os pais completavam quarenta anos de casados. Junto, uma foto do casal. Estavam mais gordos do que imaginara. O pai nada escrevera, somente a mãe, sua doce e meiga mãe brasileira. Contava que não se acostumara ao abandono, que chorava antes de rezar, à noite, enquanto o marido roncava. E pedia cuidados ao anjo da guarda do filho. Salvador deslizou a ponta dos dedos sobre o papel e acreditou que talvez uma lágrima houvesse molhado e turvado as tintas da caneta. Perguntou-se que mãe era essa que ele não conhecia perfeitamente, tão amorosa e sentimental ao mesmo tempo? Suas lembranças não davam conta da família. Acostumara-se à solidão e, também, à independência. Forjara-se homem pelos próprios esforços. E sobrevivera. Na infância, a mãe era uma presença viva, enquanto o pai, bom comerciante, contentava-se em pôr a comida à mesa, fazer as vontades da mulher e perguntar como ele andava nos estudos. Em todo o resto, era como se não existisse. Já a mulher, de pele apessegada e olhos puxados, abraçava Salvador sempre que ele chegava, tratava-o como um eterno menino. Daí, raciocinou ele mais tarde, o desprezo e a ferocidade com que o pai se apressou em despachá-lo para longe. Era pela mãe que escrevia postais ocasionalmente. E, pelo pai, a decisão de nunca telefonar nem voltar para casa. Quando o velho morresse, quem sabe? Mas, dois anos depois, a mãe descobriu-se com um câncer – sua falta?, ele se perguntaria – e então faleceu em poucos meses, evitando o reencontro. Salvador montou uma exposição com seus trabalhos, recebeu críticas extremamente desfavoráveis e se recusou a criar algo novo no futuro. Tornou-se um exímio copiador. Um artista que sobrevivia graças ao desejo daqueles que não tinham dinheiro e desejavam mais que tudo um nome famoso na parede da sala, num canto da biblioteca ou no alpendre da fachada da nova casa. Numa tarde fria de março, pegou seu agasalho, abriu o guarda-chuva e, na agência de viagens mais próxima, comprou uma passagem sem volta para o Brasil.
Retalhos: Sussurros, pequenos sinos, timbres, sim, avança o sinal, pára, segura e lança seu uivo de salvação e despertar, óleos oleosos pelos vãos escavados, caindo atrás de você o trovão, eu um raio apagado no tempo, estamos às voltas e envoltos em odores, disfarçamos nossos nãos, entrelaçando os sentidos e fazendo, oh, estamos fazendo, mesmo?, tão perto assim, a glória e o altar, cantarei gregorianos cantos, chuvas móveis em sua face, pergunto-me como e eu desejarei sempre, você, Leda Leda Leda, sem enganos, beija, meu coração, beija meus dedos fatigados, beija-me com teus lábios novamente, fechando e abrindo e dobrando a espinha, chorando em mim, mais uma vez chorando em mim… Eu, inteiro, encoberto por suas tranças, encoberto por sua volúpia.
Atalhos: Leda tirou os anéis e os balangandãs e John admirou-se da formosura.
– Quanto?
– Cinco mil dólares.
– Não. É muito.
Ela ameaçou guardar de volta na mochila.
– Pago dois mil.
– Quatro. E mais duas trouxinhas.
O americano sorriu maliciosamente.
– Se quiser, te dou dois mil e – olhou para as pernas da menina – posso lhe compensar com uma coisa melhor que drugs – apalpou o volume na virilha.
– Nem pensar. São quatro mil e só.
– Se quiser, dou três e deixo você cheirar algumas carreiras.
– Pra eu ter uma overdose? Não, obrigada. Aceito os três. Em dinheiro. Deixo as jóias aqui e saio imediatamente com a grana, sem mais conversa.
– All right! Estou d’acordo. Mas isso não é material roubado?
– São heranças de família. Você ainda não precisa se preocupar com a concorrência.
Entalhes: Para que guardar os entulhos e fingir e se convencer e retornar a uma rotina solitária, colhendo os caquinhos do Velho Mundo, asfixiando-se com a invasão, com a depreciação da vida, os prédios, outrora casarões repletos de vida, desabando sobre ele, Salvador, sem fio de esperança, a desapropriação, o governo, os turistas, a placa REAL ANTIQUÁRIO uma mentira, uma ilusão, os sonhos dos meninos seminus cheirando cola na esquina, olhando para ele, Salvador, sem ao menos expelir o medo que assegura a não-violência, evita a morte, o perigo desse outro inóspito, falando outros idiomas, as palavras pintadas com cores de amor e sexo. Palavras. Leda quer ir embora para o lar que ele deixou, viver uma outra guerra, estar no centro do poder, fazer cócegas, ser uma bárbara no Império, ou ainda na periferia do Grande Império.
Atalhos: Entalhes: Leda pagou as passagens e despacharam as malas e se abraçaram longamente. Faltava mais de uma hora para o vôo partir. Salvador segurava uma pequena bagagem de mão, Leda uma bolsa. Salvador. Go home!. Leda. Eu amo Salvador. Ele a presenteou com um perfume caro. Uma gota em cada lado do pescoço. E disse parabéns, menina! Feliz aniversário! Ela sorriu, beijando sua boca. Atravessaram o portão de embarque juntos, pisando primeiramente com o pé direito. No avião, Leda deixou que a paisagem se dissipasse entre as nuvens e finalmente olhou a janela e o céu fatiado de azul.
(do livro corações blues e serpentinas)
Lima Trindade nasceu em 23 de dezembro de 1966 em Brasília, DF. Vive em Salvador desde 2002. Publicou três livros de contos e uma novela. Participou de diversas antologias, entre elas “Tempo bom,” (Iluminuras, 2010) e “Geração Zero Zero: fricções em rede” (Língua Geral, 2011).
Com o tempo, fica a marcante impressão de que as coisas precisam seguir um curso natural, sem a geração de expectativas demasiadamente projetadas. Vontades existem, isso é fato inegável, mas o bom mesmo é fazer delas uma peça favorável à instigante engrenagem das descobertas até mesmo involuntárias. Em que medida a palavra resistência pode representar o principal mote dos caminhos que norteiam a Diversos Afins? De modo especial, o convívio e, por conseguinte, o aprendizado estabelecido com as pessoas que se aproximam de nosso projeto à frente da revista torna a trajetória um tanto mais serena. A busca pela qualidade é uma meta editorial que não sofre os efeitos de regramentos limitadores da criação. Entendemos que critérios pautados no bom senso, razoabilidade e, sobretudo, sensibilidade são definitivamente aspectos fundamentais em nossa jornada de pesquisa e seleção de materiais publicáveis. E é sempre bom frisar que, nesse ponto, o apego a verdades universais nada contribui para que novos diálogos se consolidem. Então, é preciso rechaçar a imutabilidade do pensamento, principalmente quando ela impede que o entendimento sobre os fenômenos que nos cercam possa se efetivar. Talvez aqui o termo resistência possa ser empregado, tendo em vista a importância de combatermos a mediocridade do pensamento. Sem dúvida alguma, o grande lado benéfico dessa reflexão é sustentar a amplitude da busca pela diversidade sem perdermos os referenciais indispensáveis a uma adequada análise e difusão dos conteúdos. O comprometimento maior que se opera a cada nova publicação está na perspectiva de estreitar laços entre criadores e o público almejado. A partir do momento em que uma obra se lança ao mundo, já não é mais a mesma, pois seus leitores e apreciadores, com suas esferas interpretativas próprias e quiçá singulares, conferem a ela um status de renovação sem a perda do seu ímpeto originário. Nesse exercício permanente e dinâmico de aglutinações, traçamos percursos dotados de certa autonomia quando, por exemplo, contemplamos e também internalizamos as sensações tidas a partir da expressão de Marcantonio, artista que expõe entre nós a espinha dorsal de sua epifania mundana. Compartilhando também desse sentimento libertário, apreendemos as vivências poéticas de gente como Juliana Krapp, Dheyne de Souza, Zeh Gustavo, Madjer de Souza Pontes, Winston Morales Chavarro e Pedro Du Bois. Na entrevista com a escritora Helena Terra, os densos caminhos da palavra atravessam a vida de uma autora que veio fazer morada entre nós. Na seara da música, o mais recente disco dos pernambucanos da Nação Zumbi vira alvo dos apontamentos de Larissa Mendes. Os diferentes modos de usar a vida enredam os contos de Paulo Bono, Thays Berbe e Mariza Lourenço. O mais novo livro do poeta Zeh Gustavo é tema das precisas observações de Leonardo D’Avila. No caderno de cinema, todas as atenções estão voltadas para o intenso Tatuagem, filme dirigido por Hilton Lacerda. O espírito reinante na Leva que agora surge rende homenagens ao saudoso escritor e parceiro Nilto Maciel, autor que dedicou imensa parte de sua vida à sua cumplicidade com as palavras. Com ele, aprendemos, dentre outras coisas, a cultivar a continuidade dos caminhos editoriais. Assim, fundamos mais uma especial edição.
Veias, coração, desejos, legado. O trecho de Cuidado, faixa do oitavo álbum da Nação Zumbi parece sintetizar a capa e o sentimento presente no mais recente trabalho da banda. Vinte anos depois do icônico Da Lama Ao Caos (1994), o sexteto pernambucano afaga as cicatrizes deixadas pela prematura morte de seu idealizador Chico Science, em 1997, e lança um disco calcado nos primórdios do manguebeat. Com uma roupagem solar e dançante, Nação Zumbi (2014) traz 11 faixas inéditas, depois de um intervalo de 7 anos desde Fome de Tudo (2007) – hiato este marcado por projetos paralelos de seus integrantes, pelo lançamento do DVD Ao Vivo no Recife (2012) e do duelo Mundo Livre vs. Nação Zumbi (2013), no qual a trupe comandada por Fred 04 canta músicas do grupo de DuPeixe e vice-versa.
Produzido por Kassin e Berna Ceppas, o conceito do novo álbum parece inspirado na passionalidade narrativa de Nelson Rodrigues. Isso talvez explique a visceralidade que permeia toda a obra. A matriz manguebeat eternizada por Science é mantida, porém, vez ou outra, pop e rock se fundem de maneira exótica, o que pode causar certa estranheza aos fãs mais radicais, ávidos pelo compasso dos tambores. Como frisou o vocalista em uma entrevista, ‘é um caminho diferente para a mesma casa’. Distribuído pelo selo Natura Musical/SLAP (Som Livre), o trabalho está disponível em diversas plataformas digitais, incluindo o canal oficial da banda no YouTube. Todas as composições são assinadas por Jorge DuPeixe (vocais), Lúcio Maia (guitarra), Dengue (baixo), Pupillo (bateria) e pelos percussionistas Gilmar Bola 8 e Toca Ogan.
Nação Zumbi / Foto: Divulgação
Cicatriz, faixa de abertura e primeiro single do disco, fala das marcas estampadas na derme da nossa vida (fica bem desenhado só pra ser bem lembrado/risco do erro malvisto, malquisto e mau-olhado). Os versos crus de Bala Perdida relatam a fração de segundo que separa a vítima do sobrevivente (vi quando você passou/pra se esconder em outro alguém/senhora bala, me deixe passar/logo eu que sou pacífico/senhora bala, me dê licença/eu não sirvo pro seu destino não). Defeito Perfeito tem uma levada funk e os sempre potentes riffs das guitarras de Lúcio Maia. O Que Te Faz Rir ensina, entre outras coisas, a manter ‘a leveza num dia de cão’ e conta com os backing-vocals de Laya Lopes (cantora da banda cearense O Jardim das Horas) e de Lula Lira, filha de Science.
As três canções seguintes compõem o momento mais suave do álbum. A primeira delas é a ‘ciranda que não para’, A Melhor Hora da Praia, balada com arranjos de cordas e participação de uma onipresente Marisa Monte. A cereja do bolo (ou o caranguejo do mangue) fica a cargo da onírica Um Sonho (estão comendo o mundo/ pelas beiradas/roendo tudo/quase não sobra nada), onde DuPeixe empresta toda sua verve melódica, até então pouco explorada, para cantarolar sobre um doce devaneio. Os versos de Novas Auroras (feliz pelo que ainda não veio/saudades do que nem foi/esperando o melhor dos agoras/nem temos o antes e já queremos o depois) encerram o bloco analisando nossa insatisfação com o tempo, ou com o ‘Hoje, Amanhã e Depois’, parafraseando a canção de Futura (2005).
Se Nunca Te Vi (vivo na promessa de encontrar você/me perco na incerteza disso acontecer) aborda a busca por alguém idealizado, a intensa e belíssima Foi de Amor – já presente em shows da banda antes do lançamento do álbum, inclusive em sua apresentação na edição brasileira do Lollapalooza deste ano –, compara o amor a ‘uma droga mais que letal/quando não mata, aleija/faz esse temporal/não tem nem contraindicação/dependendo da dose/acelera e racha o coração’. As sirenes de Cuidado (quando você não ouve seus passos/você perde o chão) anunciam uma espécie de indie-rock preventivo que deságua na explosiva Pegando Fogo, encerrando o álbum com todo o amor e fúria dos mangue-boys.
É bonito de ver que, duas décadas depois, como profetiza Mateus Enter, faixa que abre Afrociberdelia (1996), o coletivo permanece ‘com Pernambuco embaixo dos pés e a mente na imensidão’, fazendo um som vibrante, renovado e sem síndrome de underground. E se ‘você dá um passo à frente e não está mais no mesmo lugar’, nada mais justo que todos os caminhos levem à Nação Zumbi.
Larissa Mendes é uma mangue-girl do oeste catarinense.
no poema não cabe a vida
é mais um talho preciso
que se grava em cada face
no crispar de cada ricto
uma coisa que essencial:
é de uma fratura a quota –
do laminar-se da faca
da alma ferida nas costas –
renúncia – por algum tempo –
da vida cotidiana:
é a reserva do silêncio
quando a voz tudo abocanha –
hiato eterno de relógio
com a medida que cresça
no pulso de cada homem
a liberdade que o expressa
***
[alheio]
o estranho se reconhece
no que de estranho em nosso olho
como quando um turvo espelho
cruza num outro o seu rosto:
face a face dois espelhos
gera-se mais um abismo
e sejam turvos ou limpos
não se calcula preciso:
é que num semblante alheio
pretendemos qualquer fim:
um reflexo que no espelho
soe semelhante há dois sins –
são dois mares desiguais
dimensão sob dimensão:
se água límpida ou toldada
mergulha fundo a visão
***
[outra parte]
dentro em pouco serei cinza
que volve ao leito primeiro
como se dentro de casa
duma vez puxado – inteiro –
ou o arcabouço de uma imagem:
restos de fotografia
para quem ali os visse:
é esse que há pouco vivia –
talvez só me reste o nome
quiçá dito em certa prece
que o precário que se deixa
tem o silêncio que merece –
ou nem o nome sequer
só uma coisa transparente:
como uns resmungos à noite
feito um eco inconsequente
***
[o poeta sonâmbulo]
cedo vieram bater à minha porta
perturbaram-me o já baldado sono
prenunciaram-me sem chances de fuga
tudo que pelo dia vário serei
na rua interrompe-me a cada degrau:
homens sedentos vasculham os bolsos
à procura de um ímpeto de vida
e sempre cedo – minha dor é cedo –
passeiam na confusão de meus braços
minhas mãos gravam seus sonhos em mim
e quando ausentes chaves recupero
é uma nota que incha na garganta –
a janela me abre à rua-do-dia-curvo
e o mundo afora me pesa no lápis –
mas quando me virem beijando a noite
permitam-me o delírio das essências
***
[truque]
logro: medida precisa
que no ouvido do traído
concretiza-se na língua
do paladar corrompido:
a fala dá um passo a frente
mas um passo cauteloso
que o ouvido do outro se feche
ao que o verbo leva no bojo –
e a palavra realizada
assenta pedras precisas
e quando o outro se depara
não credita ao passo ferida –
é dizer não como sim
ou sim embutindo o não
na balança o dito posto
a alma se põe noutra mão
Madjer de Souza Pontes nasceu na cidade de Pedra Branca, Sertão Central do Ceará. Editor da Revista Pechisbeque e da Editora Substânsia. “o núcleo selvagem do dia” é o seu primeiro livro de poemas.
Memória e rasura: a “Pedagogia do Suprimido” de Zeh Gustavo
Por Leonardo D’Avila
Um poeta não se forma sozinho. Ao mesmo tempo, não há pedagogia ou maneira de ensino que dê conta dessa tarefa. Não apenas por uma questão de intersubjetividade, mas principalmente porque, paradoxalmente, a poesia não surge das conclusões, porém das passagens, das metamorfoses. Assim, a artimanha poética precisa de algum tipo de fetiche para que alguém se coloque nas fronteiras do funcionamento da linguagem. Quando o poeta não conta mais com alguma aura de heroísmo ou prestígio social, atividades muito mais corriqueiras podem ser o impulso inicial da escrita para o vates contemporâneo. A cena do escritor perante a máquina de escrever para ver o que simplesmente “sai de dentro dela” é clássica, mesmo ao se saber que a máquina em si seja vazia de conteúdo. Suponhamos, pois, que o poeta tenha perdido seu objeto-oráculo, esteja ele no teclado do computador, no papel A4 ou na caneta “bic”. Sim, a poesia é queda, mas que se tente imaginar por um momento o que acontece quando o poeta já não está tão afinado com seu instrumento de trabalho, isto é, toda a sua parafernália, que já era frágil. A “Pedagogia do Suprimido”, livro mais recente de Zeh Gustavo, põe o leitor diante dessa tentativa. Enquanto em seu trabalho anterior, intitulado “A Perspectiva do Quase”, havia uma boa dose de recursos que demonstravam erudição, metaliguagem e experimentalismo, em uma tentativa de evidenciar a potência vazia que tece o fazer poético, em “A pedagogia do Suprimido”, editado pela Verve no final de 2013, o foco não é mais esse. Pelo contrário, nota-se um menor comprometimento formal acompanhado de coloquialismos e pensamentos que fluem de maneira direta até serem violentados com as palavras, a exemplo da proliferação viral de neologismos, e da impressão forçada de sons rompendo com o sentido que seria esperado, como já se anuncia no título.
A supressão que nomeia o livro não cabe na dialética entre oprimido-opressor (com uma alusão clara a Paulo Freire), pois não persiste a esperança de sujeito emancipado, formado, lúcido ou qualquer coisa do gênero para sustentar utopias como a emancipação ou a desalienação. Os prefixos são extremamente significativos para entender essa mudança de sujeito oprimido para suprimido. Na (ob)pressão ainda existe olho no olho, combate frontal no qual um leva a pior. Na (sub)pressão, não existem dois sujeitos de mesmo nível num confronto. Há apenas o resto da tentativa de formação do impossível, um vestígio de sujeito que nunca consegue se estabelecer, que nunca se forma de maneira definitiva. Na verdade, diferentemente da opressão, na supressão já não há nem mesmo confronto, senão uma miríade de pisadas tão vertiginosa que já torna impossível a separação daquilo que pisa daquele que sofre. Em suma: quando o tédio ou a descrença chegaram em palavras e em coisas, “neste giro sem sina / sem sal nem viço”, não há mais um privilegiado: principalmente a função “poeta”, afinal, o artifício já se emancipou. A face daquele que escreve está na perda dos dispositivos (de máquinas de escrever a princípios poéticos) e não mais apenas na do sentido.
CONTO FUNESTO
Perdi um som quando ele tava a se encostar
Na ponta da minha língua
Perdi depois a língua.
Perdi uma palavra quando ela pendia já do traseiro
Para a ponta de minha caneta.
Perdi depois a caneta.
Achei um cinzeiro desbarafutado de utilidades.
(Eu que achara tão-cedo as inutilidades!)
Despejei as minhas cinzas
Que não havia visíveis.
Achei minha face. (p. 47)
Zeh Gustavo demonstra que o desespero de um mundo pré-governado por dispositivos só não é maior do que o de um mundo no qual já nem mesmo haja a interação com os dispositivos. A perda da língua, da caneta e da urna funerária para depositar as cinzas chegam a dar um tom nostálgico do momento em que as coisas tinham função, seja a palavra para escrever ou o caixão para sepultar. Contudo, o poeta não quer uma volta à funcionalidade. Apenas constata que, por mais que as coisas continuem a fazer sofrer, pois talvez até não tenham nunca deixado de operar, não é mais possível interagir com elas. Por isso, neste seu último livro já não há um escrever sobre o escrever ou um escrever sobre o não-escrever, como acontecia em “A Perspectiva do Quase”, já que os instrumentos, se não se perderam, estão completamente desafinados. E não há nem corpo, nem linguagem nem inconsciente suficientes para acalentar o suprimido.
O principal gesto que se destaca em “A Pedagogia do Suprimido”, diante dessa condição da supressão, está no fato de que quem perde a sua caneta “bic”, seu mecanismo de escrita, arranha com prego mesmo. A grande força da lírica de Zeh Gustavo está na rasura, procedimento indeterminado, porém teimoso daquilo que descreve como “ânimo-vândalo”. Se são observados traços da inventividade de Paulo Leminski no autor, este, ao brincar concomitantemente com o som e a escrita das palavras, já não causa a mesma liberação de tensão típica do cômico. Neologismos como “teimoazia” ou “autoboicorte” imiscuídos em variações de tons menores, expressam-se na recorrência do grito, do rabisco. Rasuras insistentes de um livro de poemas com um forte teor autobiográfico, sem velar sua ficcionalidade, sendo, possivelmente, “desmemorialístico”, à maneira de Manoel de Barros. Nesse sui-gênero, o autor até consegue prender a atenção do leitor a ponto de fazê-lo acreditar brevemente, como em um sonho, na investida introspectiva, fazendo jus a uma pedagogia apenas por um lapso, em uma prosa-poética de formação. Isso se reforça ainda mais pela coloquialidade e pelo descompromisso de muitos pensamentos, os quais, muitas vezes fazem parecer que há perante o leitor um sábio contador de histórias. Porém, o próprio texto se assume eventualmente como nada mais que um texto, e todo um hermetismo que parecia surgir entre os poemas sem mais nem menos vai ser comparado, de uma hora para outra e sem aviso prévio, por exemplo, a uma tela de pintura, uma justa superfície mais a ser observada do que propriamente lida. Eis que surge para aquele que lê um autoarremeter, uma troca de olhar para destacar a pura tipografia, meros caracteres sobre uma tela, antes de ser um fluir da imaginação proustiano sobre papel A4 ao qual o leitor fora previamente induzido. É o que discretamente se declara no poema “Na gare, com Delirium Tremens”: “Eu me exprimo em papel-tela / Qual prosa já sem contador nem / Personagem / Só fatos tortos jorrados em borro tarde morta / Tetos em desabares sob picotes-edifício do céu / Texto surrupiado”.
Fatos tortos e desafinados porque estão borrados pela superposição de sílabas a surrupiar o texto a todo momento. É bem notável a esse respeito que o título convidativo do livro já na contracapa vem como “Pedagogia do Suprimido”, o que também acontece na subdivisão interna, onde os capítulos aparecem tachados. Essa rasura, também mostra seu incômodo e sua força, desmontando um fluir lírico, nos inúmeros neologismos e paronomásias, através dos quais o poeta é pródigo ao rabiscar sufixos e prefixos constantemente. Como ele mesmo superpõe, a escrita da rasura no “ânimo-vândalo” vem em conjuntos notáveis de experimentação, por exemplo, quando o autor aproxima as palavras descalamento, desrecalcado, dessupressão, desvio, desafogo e desabrigo. O uso do prefixo des-, entre muitos exemplos, prova que aquele que escreve não se interessa mais tanto pela linguagem como promessa de desconstrução (diferença e adiamento), tendo em vista que faz dela um vírus, uma des-qualquer coisa. No vaivém de cair no poema e grifá-lo, para logo acordar do sonho, é provocada uma imersão em uma experiência expressionista que parte de uma autobiografia declaradamente ficcional, mas muito envolvente, que é logo marcada pelas repetições dessas rasuras, em que os sentidos são concentrados até a estafa sem que se consiga fazer uma transubstanciação. Qualquer tentativa de heroísmo se esvai quando Zeh Gustavo arranha o disco com suas repetições de um experimentalismo despretensioso, porém de extrema sensibilidade, algo que se relaciona com o que o autor chama de “alto exaustão”. Paralelamente ao rumo da introspecção que não chega nunca a formar um personagem, manifesta-se o gesto deformador (mas não formalista) da rasura, como de um vândalo que descobriu que todo objeto à sua volta lhe pode lhe ser útil como projétil quando abre mão de encontrar a marreta perdida. O risco de prego, a escrita que grita com o rabiscar sobre o sentido, é capaz de concentrar toda a dúvida, a agressividade e a impulsão dos que assumem que já perderam a caneta ou o papel, isto é, que há força, mesmo quando se põe em dúvida a formação, esteja ela em entusiasmo ou em procedimentos poéticos.
Doutorando em literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina, Leonardo D’Avila é tradutor da poesia latina de Arthur Rimbaud, publicação do editorial Cultura e Barbárie (no prelo).
Caín
Hermano de vientos, nubes, diluvios y ríos
Un mar de luces opalinas gravita en los guáimaros de la ciénaga
Y se aglutina en mi espejo
Como un prisma que nos dice:
La muerte es una puerta
Y el tiempo una ventana
Por donde nuestros pasos presurosos
Perciben otras cosas, otros mundos.
Bello Caín
La quijada de burro con la cual me mataste
Tenía el olor de las encinas y los pinos,
De tus labios venían hasta mi norte
Unos chopos amarillos
Que enhilaban mis pétalos melancólicos
En el hilo de la muerte.
Hermano profanado por los cielos
El dolor de tu hacha cavernoso
Penetraba mi topografía más remota
Mi geografía y mi valle más sagrado.
Ante el golpe subceleste
Que yo he encontrado sutil y generoso
Y que tú asestaste con una sabiduría infinita
Yazgo en la orilla de tu río, pensativo.
Oh, amado Caín
Tus huellas de madreselva
Van decorando mis entrañas,
Van vistiendo de semillas, de hiedras y resinas olorosas
Mi cuerpo fatigado por los viajes.
Mi sudor se impregnaba de tus frutas;
Tus piñas, toronjas y zapotes
Decoraban mi cabeza
Con coronas tejidas por cientos de cuchillos.
Nada soy sin tu golpe
Herrero milenario;
Tus manos son el yunque
Que moldean, a la sombra de estas islas misteriosas,
La herradura, los cristales y los cuarzos
De otras Islas en el hado de la muerte.
Caín
Hermano de mis antepasados
Hay en ti un pretexto para silenciar la historia
Como si la memoria de las dagas
No aceptaran la muerte de Goliat
Como una templanza de David,
Mi muerte es una templanza tuya.
Amado Caín
Por tu golpe y tu palabra
He conocido el paraíso.
***
A EVA EN EL DESTIERRO
Qué hermosa es Eva
Qué hermosa la serpiente que le rodea
El árbol que crece en su talle
El fruto carnoso que despliegan sus labios
Al posar sobre la ocarina
Su música en las orillas del bosque.
Qué hermoso su cabello
-Grajillas oscuras que caen sobre sus hombros perfumados-
su nariz que respira otros mundos
y crea para tantos laberintos
el azahar y las guirnaldas que los sustituya.
Qué hermosa es Eva
Qué hermosos sus tobillos
Las huellas que dibuja sobre la arena
Para marcar el camino hacia la luz y hacia las sombras.
Qué hermosos los hijos que le ha arrojado al mundo
El río que desciende por las colinas de su vientre
El volcán de sus ojos de fuego.
Qué hermosa esta costilla pensante
Este polvo sagrado
Esta caña aromática
Que guarda en sus pechos fragantes
Otra manzana para las épocas de lluvia.
***
CARTA DE UN ESCRIBA A MAGDALENA
Yo no sé de dobleces de campanas
De sanear o purificar sepulcros
Pero un torbellino de hojas secas me conduce hacia tu vientre
Y alguna parte de esa música secreta
Que tú reinventas y traduces.
Yo no sé de multiplicación de pájaros y peces
Ni siquiera escanciar las ánforas de vino
Pero busco tu cuerpo Magdalena
Como si fuera ese santuario
Donde redimir mis carnes y mis velas
Agobiadas por los golpes de las sombras.
Yo no sé de resurrecciones
-Acaso mi carne no soporte tantas instancias-
No se perdonar las querellas con el polvo
Pronosticar las épocas de lluvia
Pero estoy seguro Magdalena
Que mi amor te reivindica de las culpas
Y talla en tu ofertorio
Una parvada de pájaros azules
Donde sopesar tus deudas y tus vinos.
Yo no sé de estrellas y ovellones
De esferas cuyo fin esté más allá del cosmos,
Pero mi conocimiento en tu cabello
Quiebra los mapas
Y mis manos no poseen otro lenguaje
Que el mismo que tú diagramas
En el río de la muerte.
Desde las selvas sirias
Hasta el mar occidental,
Desde el monte Nebo
Hasta el río Rogitama
Irá mi ancho y dulce amor, bella Magdalena,
Revestido de luz para tus hombros
Y un collar de caracolas
Hará tejido con peces de distintas geografías
Para adornar tu pubis
Y tus cabellos crispados por los astros.
Yo no sé de oratorias y viejas enseñanzas
Mi lenguaje no supera los silencios de la tierra
Pero acaso me domina la palabra
Y un Te Amo
No sea otra respuesta
Que el peso enamorado de esta cruz.
***
LÁZARO
A Jader Rivera Monje.
Ahora que soy tantas cosas al tiempo
Ahora que asumo mis vidas pretéritas
Y las lanzo a la carne o al barro
para que se vuelvan poemas
o pequeñas hojas que se enfrenten
al aire rizado del Zaire
me llaman Lázaro.
Soy Lázaro
El hijo de Betania
El hermano de Martha y de María
He conocido la muerte
Su río de rosas, gladiolos, violetas, mirtos y lirios
Que he transitado, navegado y respirado
En los cuatro días que duró
Esa odisea por el mundo fascinante de las sombras.
Soy Lázaro
Tengo setenta nombres
Música, viento, pájaro, buey, lluvia
Son algunos de ellos
Creo en la resurrección
En la pervivencia
En el soplo cálido que trasciende
Más allá de estas tribus.
Me he levantado del barro nueve veces
Y ahora
Soy el polvo que no vuelve al polvo.
Mis manos y pies
Todavía están atados con envolturas de entierro
Pero también es cierto
Que bajo mi cuerpo crece la hierba
Circundan el gusano, el ciempiés, las calambrinas olorosas,
La gaviota que remonta su vuelo
En busca de otras corrientes de aire.
Soy Lázaro
Habitante de Betania
Amigo de las sinagogas
De Canaám, de Cafarnaum, de Nazaret, de Galilea
Y de otras tierras lejanas
Cuyos nombres no entenderían
Tengo el rostro cubierto con un paño
Pero cada vez que me levanto a la vida
Cada vez que una mariposa
Me recuerda que he nacido de nuevo
El paño va cediendo paso
A otras estrellas, a otras luces, a nuevas especies de animales,
A otros caminos.
Soy Lázaro
Y en este viaje al final de la vida
Me sentaré sobre otra roca
A hilar el cordón sagrado
El pedazo de río
Que me devuelva a otra corriente
En donde todas las voces clamen,
Todos los músicos canten,
Todas las lluvias digan:
“Lázaro, levántate!”
Winston Morales Chavarro nasceu na Colômbia, em Neiva. É jornalista e professor universitário. Seu trabalho poético logrou vários prêmios dentro e fora de seu país. Dentre outras obras, publicou: Aniquirona (Trilce Editores, 1998), De regreso a Schuaima (Ediciones Dauro, Granada-España, 2001), Memorias de Alexander de Brucco (Editorial Universidad de Antioquia, 2002), Camino a Rogitama (Trilce Editores, 2010) e La Douce Aniquirone et D’autres Poemes, Somme Poétique (Editorial Gente Nueva, 2014).