Os pequenos olhos de Lúcio ficaram ainda menores quando viu a mulher pendurar cuidadosamente na parede, e em lugar de honra, o enorme retrato de seu tio-avô Aurélio, morto recentemente. Feio demais, pensou o marido. A boca, no entanto, salivou, quando pensou que a feiúra nada significava se comparada à fortuna do velho. Após a leitura do testamento, que foi presenciada por meia dúzia de gatos pingados escolhidos a dedo, a mulher não deu um pio. Ele esperou pacientemente por uma boa notícia, mas o tempo passou e nada. A conta bancária continuava da mesma maneira. E ele em queda vertiginosa rumo a mais absoluta miséria. Rico jamais havia sido, é bem verdade, mas nunca, como agora, precisara tanto de dinheiro. Questão de vida ou de morte, mais de morte, se computadas as ameaças dos agiotas a quem devia uma boa quantia. Resolveu perguntar a ela o que, afinal, o velhote lhe deixara. “Ora, o retrato e a coleção de armas brancas. Ele sabia que eu adorava polir suas facas.” “Estúpida! Em que mato sem cachorro fui me meter!” Ela não deu um pio. Em homenagem ao tio, escolheu as segundas para polir as armas. Lúcio observava a mulher desembainhar as facas, limpá-las e, novamente, guardá-las dentro das bonitas caixas de madeira. O ritual exasperava Lúcio. Ela sabia. E gostava. Ela sabia dos jogos, das mulheres, das dívidas, da ganância, do desprezo. E do coração fraco, além do caráter. Ela sabia. Tão pequena e serena. Tomou gosto. Todas as segundas desembainhava e polia. Todas as segundas experimentava o fio e o corte. Às vezes, nos dedos, outras, nas coxas. O sangue ralo gotejava como uma mísera torneira sem conserto. E a tudo ele espreitava. Com irritação, de início. Depois, com pavor. Pior era a calmaria dos olhos de Emma, a placidez medonha da satisfação. O coração era fraco, ela sabia. Mais fraca e providencial, porém, foi a veia partida, esmigalhando a razão. Melhor tivesse morrido. “Adonaldo, por favor, apronte Lúcio, vista-lhe um terno bem bonito. Hoje, às dez, vem aqui um retratista argentino, o mesmo que pintou o quadro de meu falecido tio. Não sei se já lhe contei, Lúcio, mas conheço muitos artistas e o retrato de titio foi um presente meu, pouco antes de sua morte. Ficou tão feliz, o pobrezinho. Tão vaidoso.” “Senhora, será que ele a compreende?” Ela não respondeu. Colocou-se cara a cara com o homem na cadeira de rodas. Olhou-o demoradamente e, com satisfação, percebeu os olhinhos apequenarem-se ainda mais.
***
TERROR NOTURNO
Acordou suado à hora de sempre. Nessa noite, no entanto, além do suor, sobreveio o sufocamento. Não aguentou, cutucou a mulher. Ela abriu um olho.
— Na festa do nosso casamento você me perguntou quem era aquele ‘cara estranho e triste’, e eu respondi que não sabia, lembra?
— Não…
— Mas eu sabia, ele era bacana demais. Bem mais do que um amigo. Inseparáveis: cama, mesa e banho. E eu sacaneei. Arrependimento, se matasse…
Ela abriu o outro olho. Não fez questão de conhecer o resto da história.
— Peça desculpa a ele, ué.
— Nem sei por onde ele anda.
— Peça perdão a Deus, dá no mesmo.
— Você sabe que eu não acredito em Deus.
— Então não encha a minha santa paciência.
Voltaram a dormir. Pela manhã, à mesa do café, ele estava recomposto e ela, absolutamente encantadora, enfiada num vestidinho lilás.
o final se oferece
em lendas
e o mito
perde sua grandeza
na igualdade do mistério.
***
Janela
Nada me vale a janela
se não posso
ver as construções
de igualados prédios
em vistas circunscritas
aos arredores: a janela …………………..do novo prédio …………………..me contempla.
Pedro Du Bois é natural de Passo Fundo e reside em Itapema, SC. Escreve poemas e contos. É editor-autor, com livros feitos em casa, em tiragens mínimas, não comercializáveis. Foi vencedor do 4º Concurso Literário Livraria Asabeça, categoria poesia, com “Os Objetos e as Coisas”. Em 2009, “A Criação Estética” foi publicado pela Editora Corpos, Portugal. Em 2013, seu livro de poemas “O Senhor das estátuas” foi publicado pela Editora Penalux (SP) e “Iguais” pelo projeto Passo Fundo.
Noite fria. Eu esperava na padaria da esquina. Olhei as horas. Precisava de um cigarro. Se pelo menos eu fumasse. Passavam das dez quando Jaca apareceu. Entrei no carro.
– E a cachaça? – Jaca disse.
– Tá aqui – eu disse.
– Tranquilo, então. Eu trouxe a galinha.
– Que galinha?
– Roque da Lua foi claro. Uma garrafa de cachaça e uma galinha.
– Porra, acho melhor deixar a galinha de fora.
– E o bode?
– Que bode, caralho?
– O bode que enterram em seu quintal?
– Ok. Cadê a galinha?
– Na mala.
– Na mala?
– Lavei o carro hoje.
– A porra vai morrer sufocada.
– Fique tranquilo. A galinha tá na dela.
Jaca era um amigo dos tempos de escola. Daqueles meninões idiotas que levavam a culpa de tudo. Seu apelido naquele tempo era peitchola, por causa dos seus peitos grandes e pontudos. Ficava puto. Hoje trabalha como segurança de loja. Acontece que eu andava numa fase daquelas. Havia deixado a velha agência, e Regina era coisa do passado. Para os diretores de criação, eu não tinha o menor talento. As mulheres pensavam a mesma coisa. Nada dava certo. Sem dinheiro, sem trabalho, só na punheta. Então eu estava por aí, na merda, quando encontrei Jaca. Contei minha situação. Jaca teimou que aquilo devia ser praga de Regina. Macumba, essas coisas. E disse que esse tal Roque da Lua podia me ajudar.
Quando chegamos, convenci Jaca a pegar leve com a galinha. Primeiro, daríamos uma conferida no terreno. E se fosse necessário, pegaríamos o animal. Parecia um lugar agradável. Só aquele som de tambores que arrepiava os cabelos mais crespos do meu ovo. Havia essa figura no portão de entrada. Negro, alto, jovem. Não sei o que esperava da vida, mas segurava uma vela com as duas mãos.
– Boa noite – disse Jaca – o Roque da Lua está?
O garoto não respondeu. Só olhava para frente. Reto. Ele e a porra da sua vela. Parecia um rapaz determinado. Pelo menos a não dar as boas vindas a Jaca.
– Boa noite, amigo – Jaca insistiu – Eu marquei com Roque da Lua.
Nenhuma resposta. Somente o som dos malditos tambores.
– Esse merda não vai falar nada – eu disse.
– Será que é doente?
– Quero que ele se foda.
– Ô maluco! Tá me ouvindo? EU QUERIA FALAR COM ROQUE DA LUA!
– Vamos sair daqui, caralho!
– Tô quase metendo a porra nesse moleque.
– Cuidado, esses caras manjam de capoeira.
Então surge do nada esse baixinho todo de branco segurando a porra de um cacho de bananas. Pelo jeito que rebolava, eu não tinha mesmo certeza por onde ele ia ingerir aquelas bananas.
– Jaquinha! – disse o mestre das bananas – chegou bem na hora.
– Seu Roque – disse Jaca – o garoto aqui não queria colaborar.
– Ah, esse é Tico-Tico. Tico-Tico tá de castigo. Pra aprender a se comportar.
– Esse é Paulo – disse Jaca – o amigo que lhe falei.
– Ah, o que tá desempregado e não consegue trepar.
– É, tô no cu da cobra – eu disse.
– Vem, vamos entrar, vamos entrar. Tico-Tico, você se comporte.
– Aguente firme, Tico-Tico – eu disse.
Lá dentro, havia esse pátio de terra. Cercado de uma varanda com portas e de algumas árvores. Havia também essa roda de gente. Vestidos de branco. Aquela batucada. “Cadê Roque da Lua?” – Jaca perguntou. O danadinho das bananas desapareceu do nada. Então ficamos por ali como dois imbecis. Volta e meia alguém pulava no meio da roda e arriscava alguns passinhos. Até que veio essa morena. Começou a sambar. Nova, pele escura e os dentes mais brancos da noite. Seu corpo? Bem, digamos que eu saberia o que fazer com seu corpinho num quarto escuro. A moleca dançava. Girava. Levantava a saia, ia até o chão, revelava as pernas e, por milésimos de segundo, sua calcinha. Não é por nada não, mas eu já estava de pau duro.
– Será que ela toca berimbau? – perguntei a Jaca.
– Ham?
– Tá sentindo o quê, porra?
– Calor da porra!
Então aumentaram a batucada e a morena enlouqueceu. Começou a revirar os olhos e a retorcer o corpo. Em um desses solavancos, seus peitinhos saltaram da blusa. Como se gritassem por liberdade e quisessem participar da festa. Eram peitinhos firmes, santos e loucos. Eu pensava, por que essas porras parecem mais gostosas quando estão dando santo? Aliás, o santo devia saber que havia um gordo por perto que estava doido pra cair de boca naqueles peitinhos. Eu estava em pânico. Tentava não pensar em sacanagem. Mas só conseguia pensar naquela xoxota em chamas. Nessa hora, algum escroto que gosta de ver o circo pegar fogo soltou uma galinha no meio da roda. Vou dizer uma coisa. Nunca havia visto nada mais inocente do que aquela galinha. Querendo aparecer. Caminhando para o meio da putaria. Balançando a cabeça. No ritmo dos tambores. Pelos olhinhos, estava drogada. Parecia sorrir. Quando a morena a pegou pelo pescoço e ZAP! Passou a faca no animal.
– Puta que pariu – eu disse a Jaca – esquece a galinha.
– O quê?
– Porra, você tá suando pra caralho.
– É o calor, porra.
Adivinhe quem apareceu do nada. Sim, ele mesmo. Roque da Lua. Dessa vez, sem as bananas. Mas com um charuto que não tinha mais tamanho. Dançando, se remexendo e dizendo coisas que eu não conseguia entender.
– O que é que esse porra tá falando? – perguntei a Jaca.
– Não sei. Entendi, não sei o quê Paca Capim, Paca Capim, Paca Capim…
– Jaca, você tá branco.
– Dor de cabeça…
– Porra, será que você tá dando santo?
– Eu tô tranquilo…
Enquanto isso a roda pegava fogo. A morena, os peitinhos e Roque da Lua. A galinha perdeu o melhor da festa, fazer o quê? E do nada, Roque da Lua largou o charuto e começou a dar saltos. Grandes saltos. Saltava e girava rapidamente para todos os lados, fazendo o Mestre Yoda em ação parecer uma velha tartaruga manca. Roque da Lua pulava sobre as pessoas na roda, dizendo coisas e dando gargalhadas. De repente, esse merda veio em minha direção, com os olhos ardentes. Pensei, fudeu. Só deu tempo de pensar isso mesmo, porque logo depois Roque da Lua me empurrou para o lado, apertou os peitos de Jaca e berrou com uma voz fininha “PEITCHOLA! PEITCHOLA! PEITCHOLA!”. Jaca tentou se defender empurrando Roque da Lua, que saltou para trás, dando um desses golpes de capoeira e raspando o pé no queixo do meu amigo.
Três minutos depois, Roque da Lua seguia seu show, enquanto Jaca e eu nos despedíamos de Tico-Tico e entrávamos no carro.
– FOI VOCÊ QUE DISSE! – Jaca berrava
– Vai tomar no cu, Jaca!
– FOI VOCÊ QUE DISSE!
– Como é que eu ia dizer alguma coisa? Eu nem conhecia aquele viado. Você que me trouxe aqui, porra!
– E como é que ele sabia desse negócio de peitchola?
– Sei lá, esses caras sabem tudo da nossa vida.
– Ele me pegou desprevenido.
– Mas você viu aqueles peitinhos?
– Jesus é mais forte!
Bem, o que resta contar é que passei um bom tempo ainda sem trabalho e sem mulher. Que Jaca segue sua vida como Segurança. E que a galinha na mala do carro sobreviveu.
Paulo Bono é baiano e nasceu na Lapinha, tradicional bairro do centro antigo de Salvador. Formou-se em relações públicas, é pós-graduado como roteirista, trabalha como redator publicitário e escreveu o blog de contos e crônicas Espalitando Dente durante 6 anos. Em 2013, lançou o livro de contos Espalitando (Editora Cousa).
O ano era 1978. No Brasil, experimentava-se um cenário de ditadura ainda inglório e obtuso. Nem o que se convencionou chamar de “abertura lenta e gradual” serviria como motivo para amenizar o efeito altamente negativo que tal estado de coisas causou à nação. A cidade de Recife abrigava em seu seio tradicionalmente cultural um coletivo de seres impactados pelas vias da arte. Em seu microuniverso, pautado por uma expressão marcantemente libertária, a trupe do cabaré “Chão de Estrelas” afirmava-se como sendo muito mais do que um espaço de expressão artística.
Comandados por Clécio Wanderley, personagem vivido por Irandhir Santos, os artistas daquele espaço ousavam ser algo além do seu ofício natural. Com seus espetáculos críticos e sarcásticos, intentavam resistir a um tempo no qual as liberdades individuais há muito estavam minadas. Diga-se de passagem, essa noção de liberdade possui uma dimensão especial, pois vai tocar no delicado terreno das amarras do corpo e da mente.
Olhando por esse prisma inicial, Tatuagem até poderia aparentar ser um filme motivado pelas torpezas da ditadura militar oriunda do Golpe de 1964. Mas logo fica claro que esse não é o mote da obra. O período negro de nossa história é mero coadjuvante diante da necessidade que a produção traz de evocar a temática da liberdade em sua acepção mais vasta possível. A um só tempo, o filme engendra temas complexos como homossexualidade, amor, crítica social e política, dentre outros.
O romance que se estabelece entre Clécio e Fininha (interpretado por Jesuíta Barbosa) opera aproximações entre dois mundos fundamentalmente opostos. Enquanto Clécio representa um símbolo de irreverência e contestação, utilizando-as como ferramentas de difusão artística, Fininha, um jovem soldado do exército, traduz um universo até certo ponto pueril, cuja inocência aponta para a afirmação de suas descobertas pessoais em meio aos primeiros passos da fase adulta. Quando se encontram pela primeira vez, os dois correspondem à paixão numa fluidez de entrega que só respeita à lei do desejo irrefreável. A questão da homossexualidade é muito mais uma aspiração libertária e genuína do que qualquer outra coisa. Longe de trabalhar com rótulos, o filme explora a relação de amor entre dois homens da forma mais natural possível, sem levantar inúteis tensões de gênero.
Fininha e Clécio em cena de Tatuagem / Foto: divulgação
De modo especial, Tatuagem é uma obra que se impõe pelo seu caráter fortemente teatral. Assim, os espetáculos do “Chão de Estrelas” parecem transbordar para o mundo circundante, instaurando uma estética muito voltada para os apelos da representação. Nesse ínterim, vida e arte se confundem e proporcionam a compreensão de mundos através duma atitude encenada da existência. E o que parece favorecer esse ambiente de criações é justamente o espírito de comunidade que permeava a trajetória do grupo. Todos eles moravam num mesmo casarão do Recife, compartilhando os territórios de uma verdadeira república das artes.
Dirigido por Hilton Lacerda, a obra merece destaque por enaltecer o saber e o sabor da experiência coletiva das sensações. Os movimentos de câmera são soltos e mergulham nos ambientes de forma a conferir um sentido de naturalidade aos cenários abordados. A própria câmera, ao flagrar as ações teatralizadas, deixa de ser um corpo estranho e invasivo para se tornar um componente intrínseco da obra. E é justamente nesse ponto que Tatuagem revela um comportamento híbrido quando propõe uma valiosa interposição entre teatro e cinema. O resultado dessa zona de convergência aparece muito bem pontuado pela forma como a narrativa, nalguns momentos, é dividida em esquetes.
Outro ponto forte do filme é a utilização do corpo como instrumento máximo de representação, seja sob a forma de resistir à ordem sócio-política do contexto, seja na afirmação das potencialidades de construção dos diálogos da arte. As apresentações do “Chão de Estrelas” serviam como um painel vivo para as expressões corporais de seus artistas, sobretudo porque simbolizavam um rico cenário de expansão da consciência. Para os membros da trupe, o ato de estar no palco significava ir mais além duma aparição exaustivamente ensaiada. Servia também como uma perspectiva de integração ao mundo através de um prisma notadamente ideológico. Tudo isso bem longe de qualquer atitude panfletária.
A trupe do Chão de Estrelas em ação / Foto: divulgação
Por se tratar de uma produção na qual a expressão teatral é traço abundante, era de se esperar que o trabalho do elenco tomasse o centro das atenções. E isso ocorre com a maioria dos atores. No entanto, é impossível não mencionar as destacadas atuações de Irandhir Santos e Jesuíta Barbosa, na pele de protagonistas cujas sinas pessoais sustentam densamente os polos de tensão principal da história. Outro ator que se destaca por sua relevante aparição é Rodrigo García, ao encarnar o espalhafatoso personagem Paulete.
Com seu enredar de delicadezas, Tatuagem é uma obra atemporal, sobretudo porque privilegia o exercício ativo e consistente do pensamento. Dentro de nós, é bem provável que tenhamos alguma dificuldade em saber lidar com toda a vastidão de um horizonte que sempre se delineia complexo, o da liberdade. E isso o filme nos lembra a todo o tempo. Então, resta a pergunta: se marcadas a ferro e fogo, até onde nos levam nossas aspirações e desejos?
no teto um alçapão
madeirame entrecortado de conduítes
onde o escuro nasce
e os ratos passeiam
a noite exibe as evidências
não há fantasias não haverá mais
reviravoltas possíveis
sobre nossas cabeças sob a cumeeira ….em casa …….vibra
a clausura dos ratos
não estão em nós ….– vivem além
de nossos crânios
à revelia
dos emaranhados de beleza ou pavor que se enroscam ao sono
entretanto nossas coisas são suas coisas
e delas fazem ninhos
onde se embaralham
e proliferam
sobre nossas cabeças
sem asas sem remédio
respiram conosco ……….guincham
e permanecem
não estão como nós …..baratinados
porém sua verdade
é nossa verdade – mesmo eles ……..têm um corpo quente ……..a carne magra o esqueleto oblíquo que guarda um único coração ……..exausto ao cair da manhã
mesmo eles
morrem e então fedem
sobre nossas cabeças
quando isso acontece
em alguns domingos
abre-se a portinhola
e a pá retira do escuro um volume flácido ..– a infância estranha …a falta de sangue
à noite voltamos a mergulhar
juntos
na viscosidade cada um em seu avesso
da casa apartados
pela irmandade impossível
um pai uma mãe tentam ordenar
que torne surdos os ouvidos
que estanque a todo custo
a corrosão da pureza
querem dizer
que há simultaneamente
o alheio que é o do outro
e o alheio que nos é
indiferente …– ante a opressão das paredes …..sobre nossas cabeças …..a alteridade se excita
os ratos passeiam
e vem a época de nos caírem os dentes
estranhos inexplicáveis núcleos sem dor
que precisam ser jogados para o alto
para o teto da casa
como indica
a etiqueta doméstica
e o folclore desta parte do mundo
ainda estão úmidos
mas não parecem
saídos de uma boca …– talvez de uma fenda ou concha de alguma …..cavidade morta
serão lançados
à zona secreta onde agora prevalece
o silêncio
após o êxtase desconhecido ……– e para sempre irá nos assombrar a extravagância ……..dessa inútil oferenda
***
tipografia
às vezes
em geral domingo
eu o vejo: coágulo
escuro massa estanque que se instaura
pedra singrando
ao redor da qual o dia vai crescendo
e apodrece
porque no centro da verdade há um viço
e eu olho simplesmente olho impossível não reparar camada
após camada a casca reluz seu calcário arregalado e já não somos mais
eu e você mas sim espessuras
singulares silhuetas de arvoredo passando em velocidade difícil
distinguir as formas por trás do vidro quando somos apenas
duas melodias ou melhor duas
ênfases de melodia como se disséssemos sempre
um píer não é uma margem um píer é o ponto
de ver o estuário de esperar o espalhafato
com que a água ameaça a membrana que é este domingo um posto
de observação onde a ideia de arbítrio extingue os procedimentos
familiares a esta cama e você se torna fantasmagórico com sua espessura tão
diferente da minha já que estou só
com esse coágulo na mão uma substância órfã que aninho enquanto
temo o viço da verdade a mentira que não se insinua apenas passa
em sua marcha secreta um novo ponto agora talvez mais claro
não o coágulo em si só outra fruta
inútil apodrecendo na correnteza
***
Roteiro
O vaivém das galés contracenando com os diques
A emboscada da neve ao redor das vidraças
As nervuras da pedra
que enregelam o olho da atriz
– Essencial mesmo é o cenário
onde tudo acontece
foi o que ele nos disse
antes de partir
Arranje um lugar
para que o salto das feras
fuja aos radares
Para que as escarpas acobertem
a possibilidade do crime
– A cidade, muito ao longe
apenas reluz
Para contar uma história
uma savana
deve parecer um insulto:
arvoredos esparsos
sob o risco constante de incêndio
O incômodo do barro contrastando
com a arruaça da topografia
Uma nevasca
é sempre um bom começo
Por detrás da janela há uma garota
mordiscando o próprio coração
Um bicho dorme, uma tevê
silencia. A paisagem inibe os loops
Ou um lugar conveniente pode ser apenas
massa de negrume condensado
Um buraco no meio da testa
Uma angra escura
onde a sujeira
se enrodilha à superfície
e o herói morre
num tenebroso acidente
Juliana Krapp é jornalista e vive no Rio de Janeiro. Publicou poemas em revistas como Inimigo Rumor e Modo de Usar&co. Teve poemas incluídos na antologia espanhola Otra línea de fuego. Quince poetas brasileñas ultracontemporáneas, com organização de Heloísa Buarque de Hollanda.
Se indagado sobre as razões que movem seu ofício, um artista poderá ofertar como resposta toda a gama de sensações advindas dos seus percursos pessoais. Mais do que isso, usará dos dotes complexos do oceano da subjetividade para dar vazão ao que fundamentalmente alimenta seus caminhos de criador. Mas o que é, então, a arte se não a soma de todas as variáveis contidas no âmago de cada ser?
Sem didatismo, podemos evidenciar, sobretudo, uma espécie de revolução que parte de dentro para fora. E não se trata de um mero ato de expelir visões íntimas da existência, mas principalmente de externar ao mundo um componente possível de transformação. É, na verdade, um fluxo cujo dinamismo opera efeitos consideráveis sob o ponto de vista que harmoniza ação e pensamento. Assim, materializar em obras uma multiplicidade de sentimentos, implica também num ritual de inconformismo perene, especialmente marcado pela ruptura com a passividade estética.
Um artista motivado pelos cenários de seu tempo acaba por gerar um resultado fortemente efetivo quando a questão é retratar o mundo sobre o qual põe verdadeiramente os seus pés. Transitando pelo hiato de aproximações entre o vivido e o inventado, o criador apresenta suas versões para tudo aquilo que explode ao seu redor. Nessa esteira de sensações, trajetórias como as de Marcantonioservem como parâmetro valioso de constatação de que a vida ganha mais consistência ao afugentarmos verdades imutáveis. E não são poucas as argumentações que podemos utilizar para considerar tamanha epifania artística.
De forma substancial, há três eixos fundamentais que permeiam a sólida obra de Marcantonio. O primeiro deles reside no importante trabalho de observação de um fenômeno que assola indistintamente nossos estratos sociais: a violência urbana. Tomado pelos efeitos gerados por tragédias como as da chacina da Candelária e de Vigário Geral, ambas situadas no Rio de Janeiro, sua terra natal, o artista transpõe para suas telas as pungentes marcas assinaladas nas páginas dos noticiários. A série, intitulada “O avesso do jornal”, ousa tocar em feridas que compõe um delicado painel de nossa duradoura perplexidade social.
Ao passo que a linha do tempo desenrola seus ímpetos, Marcantonio se depara com a necessidade de buscar novos rumos para suas criações. É então que surge o segundo eixo importante em suas andanças, a série “O julgamento de Páris”. Marcada por elementos da mitologia grega, essa coletânea de telas intenta uma representação erótica do corpo feminino. Diga-se de passagem, é possível notar que tais trabalhos apontam também para uma aspiração libertária da mulher, conciliando vigorosamente força e delicadeza.
Arte: Marcantonio
O terceiro eixo é, segundo o que o próprio artista confessa, uma espécie de ápice de sua busca. Vivenciando o gosto de uma maturidade no nível da linguagem e da elaboração conceitual, Marcantonio traz à tona a série “Melancolia”, a qual explora essencialmente as perspectivas da liberdade de representação. Mesmo tendo atingido um sentido de unidade a partir desse conjunto de trabalhos, o artista rechaça qualquer condição de uniformização dos caminhos, deixando abertas as possibilidades de adesão às transformações futuras. Com isso, exalta o dinamismo sobre o qual se funda uma verdadeira obra de arte.
Na percepção constante de que nunca estamos inteiramente prontos, é que alongamos os dias pela terra. Quiçá o desvencilhar das facilidades sedutoras ofertadas no meio do caminho seja artifício a se ter na boa medida do equilíbrio. Ao que tudo indica, há quem nos dê indícios de tamanha lucidez. Negando a rapidez ilusória dos atalhos, é válido testemunhar as epifanias pretendidas a partir de um ser espantado como Marcantonio.
Arte: Marcantonio
* As telas de Marcantonio são parte integrante da galeria e dos textos da 91ª Leva.
vezes caminha em mim uma saudade que é um pouco arredia, um pouco insolente.
Ela vem com esses passos de noite como quem acorda um escuro.
Ela toma a mão dos meus sonhos e começa a cerzir metragens curtas.
Como se minha vida fosse uma fita me fita, essa memória meio insalubre, com os seus olhos de carpir montanhas. Com esses olhos de um tema curvo. Com essa displicência do momentâneo. Paisagem que dorme sem leito.
Mas não é sempre que me toca a pele esse vestido leve de sentir o peso.
Muitas vezes querendo que me perca me bato me espanco me ergo me enleio sentindo saudade desse modo específico de sentir falta.
É que ela me espinha o passado.
É que ela me aborta o presente.
É que me faz esquecer de ser para lembrar o que podia se fosse.
É que ela me ensina a ser forte, a ser grosso, a ser firme com seu meio ríspido de me tirar daqui. Com o seu gesto insípido de me lembrar que o instante é tudo o que tenho e deixo. Com o seu freio de desapego. Com o seu jeito, enfim, me devolve praticamente ileso.
Assim. Tem dias, confesso, que me pega bem preparado e eu lhe chamo de nomes bem feios – da forma que eu consigo dizer, que nunca fui muito afeito a maltratos. Mas digo mil coisas vis. Minto que esqueci de todo o berço. Grito que tenho costas limpas. Urro que no meu olho há cílios secos. Corro tanto a lembrar o quanto sou que tropeço e quando me aqueço azulejo já nem ri.
O que eu dizia mesmo?
Que às vezes ela não pisa nos meus medos.
E eu fico assim em vigília.
Eu fico assim dia a dia.
Sabe?
Eu vou ao supermercado e compro uma bala azeda.
Eu corto o cabelo em outra.
Eu rio uma piada negra.
Mudo de endereço. Danço. Corro.
Vou à academia louco a levantar esses pesos.
Bebo.
Mas ela me assiste em uma poltrona macia. Porque sabe que quando sento, quando meu olho esbarra na janela, que pena.
É uma ressaca pelada, sabe?
Assim meio desencapada.
É quando falo com meu cigarro.
Quando me abro com um café, me banho um blues.
Quando tenho alma feito desmaio.
Olhando buracos.
Catando sílaba.
Medindo o vácuo.
Sentindo uma saudade oca de senti-la.
Dheyne de Souza está em Curitiba, escreve poesia, prosema, caos e guaritas.
De modo pungente, os caminhos que levam a um entendimento sobre a condição humana nos tomam de assalto. Com eles, algumas cômodas certezas vão sendo questionadas e muitas vezes colocadas numa complexa perspectiva de reformulação. No universo das palavras, o ato primevo e substancial da leitura representa uma experiência impactante sob o ponto de vista da alteridade. O que seria, então, de nós sem essa vigorosa perspectiva de olhar o Outro como uma imprescindível fonte de compreensão das coisas que nos cercam?
O fato é que a Literatura, com seu acentuado caráter de revolver mundos, é capaz de nos dar indícios de que tudo gira ao nosso redor como as imagens de um caleidoscópio. Nesse processo, leituras e escrituras são faces de uma mesma moeda: a do desejo irrefreável de nos vermos com certa dose de profundidade. Por mais libertário que possa parecer, o ato de ler revela também uma necessidade que temos de exercitar um mergulho em nós mesmos. Com isso, se o que buscamos são respostas, as dimensões vividas ganham proporções verdadeiramente abissais.
Sob o ponto de vista de quem escreve, o ofício não é menos ruidoso. E o ato contínuo de vislumbrar os recortes humanos é um elemento deveras motivador da criação. Nesse sentido, autores como Helena Terra parecem nos ofertar uma bússola para algum tipo de orientação. Quem se permite desfolhar as páginas do romance de estreia da moça gaúcha, alcunhado de A condição indestrutível de ter sido (Ed. Dublinense – 2013), pode suspeitar por quais veredas sua criadora transitou. Num tempo em que nos acostumamos a tratar a temática do amor com certa reserva, o livro de Helena nos mostra que, para além da viciada noção efêmera, o terreno das relações não se presta a observações reducionistas. Engana-se quem pensa que o escapismo do outro diante de nossos projetados domínios é a razão de ser da obra. Um lapso temporal da delicadeza move a narrativa de tal modo que flutuamos pelas acepções possíveis da incompletude humana. Especialmente pela atmosfera que emana desse seu rebento literário, Helena acolheu a Diversos Afins para um breve diálogo. Para nós, fica o testemunho de uma autora altamente comprometida com as implicações de seu tempo, vertendo, de modo favorável, suas íntimas imagens em hábeis letras.
Helena Terra / Foto: Arquivo pessoal
DA – “A condição indestrutível de ter sido” marca sua estreia no romance e traz um tema cuja presença na contemporaneidade é bastante emblemática. O amor, da forma como o percebemos hoje, não lhe parece impregnado de uma substancial volatilidade?
HELENA TERRA – Não. O que me parece é que há uma urgência em encontrá-lo e em se dizer eu estou amando, o que complica as relações afetivas contemporâneas e as torna sujeitas a inúmeros equívocos. Primeiro, porque o amor não é um produto disponível nas melhores lojas do comércio ou em sites de internet. Amor não é algo que se escolhe em uma vitrine, que se digita no google, se diz quero esse modelo e se veste, consome, exibe para depois ser devolvido no setor de produtos com defeitos ou descartado diante de uma nova oferta. E segundo porque o amor é um sentimento exigente, que implica sabedoria emocional, virtudes de caráter e constância, trabalho mesmo. Como a felicidade, o amor exige trabalho. Raduan Nassar e Charles Bukowski escreveram duas frases relevantes sobre ele. Escreveu Raduan, no Lavoura Arcaica: eu que não sabia que o amor requer vigília. E, Bukowski, em o Amor é tudo que nós dissemos que não era: o amor é uma palavra usada muitas vezes e muitas vezes cedo demais. Concordo inteiramente com eles.
DA – A protagonista do seu livro transita pelos, digamos assim, territórios protegidos do amor. Nesse aspecto, há a presença dos mecanismos de defesa proporcionados pelas redomas tecnológicas que tanto nos envolvem. Como você percebe tal questão?
HELENA TERRA – A narradora do livro me parece ser, por natureza, uma pessoa reservada e, até conhecer Mauro, estar intensamente focada em sua relação com as palavras e com os livros. Em algum momento, o leitor sabe que ela esteve dentro de uma relação afetiva com alguém do que entendemos por mundo real, mas não há pistas sobre como esse encontro/desencontro se desenvolveu e porque acabou. E não há de propósito. Não acredito em modelos amorosos e em espaços perfeitos para o amor e para as paixões. Os motivos que levam casais a se unirem e desunirem, não importando o tempo em que permaneçam juntos, fogem da nossa compreensão e fogem também das partes envolvidas. O, digamos, diferencial da internet é que ela permite uma maior ousadia e uma maior velocidade no processo de se conhecer ou desconhecer outra pessoa. Mas essa ousadia e essa velocidade são opções e não uma regra. As pessoas que criam personagens de si mesmas no mundo virtual costumam fazer o mesmo no real. As que tendem a mentir, mentem. As que tendem a exagerar, exageram. As que tendem a enlouquecer, enlouquecem. E as que tendem a amar, amam. Os simulacros não se sustentam a longo prazo. A internet é um dos espaços mais democráticos para a circulação das verdades e da maturidade emocional de cada um.
DA – Ao passo que sua protagonista e o Mauro, objeto da paixão dela, vão estabelecendo aproximações no campo do real, o impacto das sensações se modifica e vai perdendo um tanto do vigor inaugural. Em que medida a intimidade pode ser também um lugar de desconstrução?
HELENA TERRA – A intimidade, paradoxalmente, pode ser a nossa zona de conforto e também a de confronto. Fantasia e realidade ganham dimensões diferentes com o convívio com outra pessoa. Ela, de certa forma, funciona como um filtro em que o incompatível com a natureza de cada um e com suas expectativas é eliminado ou purificado. Na relação da narradora com Mauro, o impacto das sensações se modifica porque, apesar da sintonia virtual, eles não esperam o mesmo um do outro e, porque, como é comum na internet, a sedução se estabelece por meio da literatura e das palavras. Os dois não deixam de ser uma ficção, mesmo depois do encontro na cidade em que ele mora, porque fazem o recorte de si mesmos, selecionam as facetas e o que desejam que o outro saiba quando se escrevem mais por impulso que por tempo de maturação do relacionamento.
DA – Há algum aspecto marcante desse turbilhão chamado pós-modernidade que moveu fundamentalmente suas escolhas narrativas?
HELENA TERRA – Não, creio que não. Não optei por uma narradora em terceira pessoa porque queria dar a sua voz o máximo de carga dramática e optei por ter como pano de fundo desse discurso o ambiente virtual porque ele se constrói a partir da palavra. Na internet, ela é o carro chefe. Por mais que imagens possam contribuir para o desenvolvimento de qualquer tipo de relacionamento, sem a linguagem escrita não se tomam decisões nem se avança em direção alguma.
DA – A afirmação de algumas bandeiras de gênero parece tomar significativa proporção no debate literário moderno. É o caso, por exemplo, de se considerar a existência de distinções como literatura gay, feminista e etc. Essa territorialização limita as possibilidades criativas na medida em que volta suas atenções para focos de resistência?
HELENA TERRA – Não compactuo com essas distinções e considero qualquer uma delas como uma forma de auto-exclusão. Essa ideia de se encaixar em um grupo é redutora e alimenta preconceitos. Não me considero uma escritora de literatura feminina por ser do sexo feminino, não me considero uma escritora gaúcha por ter nascido no Rio Grande do Sul. Sou uma escritora de língua portuguesa por ser essa a minha língua mãe. E é dentro dessa circunstância, livre dentro do imenso vocabulário e de todos os recursos gramaticais que o nosso idioma nos oferece, que exerço meu potencial criativo e a minha sensibilidade. Literatura implica humanidade e humanidade está acima de rótulos.
Helena Terra / Foto: Arquivo pessoal
DA – Quais aspectos você julga serem os mais importantes na composição do atual cenário literário brasileiro?
HELENA TERRA – Não sei exatamente pontuar o que é mais importante. Mas o cenário atual me parece mais generoso no sentido em que hoje há uma série de instrumentos a favor da profissionalização de um escritor e da divulgação de um livro. Na última década, surgiu uma quantidade significativa de cursos, oficinas, laboratórios etc., buscando a qualificação dos textos; surgiram novos prêmios, alguns com incentivo financeiro; o interesse estrangeiro pela literatura brasileira se confundiu um pouco com o interesse pelo próprio Brasil, criando um novo público de leitores e um novo mercado editorial fora do país; e também houve uma abertura maior, uma curiosidade maior de público e de editoras em conhecer o que está sendo produzido agora. Isso não significa que esteja tudo em ordem. A cultura no Brasil está, como nós todos, buscando cidadania.
DA – Uma outra feição sua é a que lhe faz trilhar os caminhos das artes plásticas. De que modo você vislumbra o mundo a partir desse lugar?
HELENA TERRA – Por natureza, sou uma criatura estética. Procuro e vejo beleza, expressão, força, emoção, mesmo que em um recorte pequeno de algo, em tudo. Tenho no olhar e na linguagem os meus dois interesses mais desenvolvidos, e os dois se misturam. Vejo uma imagem configurando-a em som e palavras. Escuto palavras e sons atribuindo a elas imagens. Do ponto de vista profissional, são universos, embora artísticos, diferentes, em que as carreiras seguem com completa autonomia.
DA – Gabriel García Márquez dizia que, para escrever, um autor deve saber muito bem quais rumos sua narrativa vai tomar. Há pouco tempo, você deu indícios de que um novo livro já faria parte de seus planos. Nesse futuro trajeto da criação, como você engendra a arquitetura da obra?
HELENA TERRA – Não sei até que ponto esse saber muito bem quais rumos uma narrativa vai tomar é realmente importante. Os processos criativos são inúmeros. No meu caso, preciso saber sobre o que quero escrever, saber qual o ponto a ser carregado por toda a narrativa. No A condição indestrutível de ter sido, meu foco era a confiança tanto nas pessoas quanto nas palavras, mas eu não tinha um projeto definido que envolvesse início, meio e fim. Tinha o título em mente como um fio condutor. Nesse novo livro, a escrita está se construindo de outra forma. Escrevi, em uma caderneta, uma espécie de mapa e de quebra-cabeça da narrativa e algumas instruções em causa própria de como proceder para manter a disciplina. Aparentemente, a Helena que está escrevendo esse novo livro não é a mesma que escreveu o outro. Mas é. E o interessante em ser gente é exatamente isso: ser um podendo crescer, se transformar e ser quem se é sendo também outro.
DA – Na fluidez de palavras e imagens, o quanto Helena Terra conhece Helena Terra?
HELENA TERRA – Bastante. Dois caminhos me conduziram nesse sentido: a literatura e a análise psicanalítica. Na literatura, lendo mais que escrevendo, ainda que o processo de escrita exija muita reflexão. Lendo autores de várias gerações, geografias, estilos, ampliei minha visão de mundo. Com Dostoiévski, por exemplo, compreendi que os homens nunca sentem da mesma maneira, então, os castigos a eles impostos serão sempre desiguais. Temos de levar em conta o significado de cada sanção para cada espírito. Os livros, e aqui me refiro aos livros corajosos que servem à vida e não às vaidades, nos provocam, sacodem e reconfiguram.
A caravana persistente desvenda
um catálogo de explorados a cada visita.
A coleta sela um compromisso
entre extirpados; só há silêncios
neste varal de desistências.
O calejo revela um contingente
de adormecidos em órbitas de suor.
Nenhuma voz, por enquanto, foi capaz de ceifar
aquilo que sustém novelo tão infame que produz
o costume de costurar-se a si próprio
(bocas olhos ouvidos tripas),
que se impôs e impera, lento no sufocar,
com seu sopro de ar letal a comprimir
todos os ossos. De ecos e fósseis são feitos
os que restam.
Empreendido mais um turno das pedradas;
emparedadas, embora sem termo, as alternativas
de trajeto distinto, ao final só se veem
estilhaços e espatifados, em manutenção de sua
corredeira de negações.
***
ANULADO
Ando dizendo
palavras em branco
Meu caminho não permite
pontuação
Minha sintaxe desmanchou-se
nela mesma
Estou desvalido de
ideias formas causas
Só me restam algumas
frases falas
Fragmentos me faturam
(cada pedaço é cada pedaço)
Me encontro meio sem
e sem meios para
Me desalimento
com zeros de dores
Desprovimentos me exageram
me impertinam
A invalidez me doutrina
Conclusões me observam
E eu me escasseio
pelo ralo
da rotina
***
A SOCIEDADE DO ESCAPE
a Guy Debord
Toda a vida atual consiste
em um seminário de distâncias;
a distância é uma semana invisível
num calendário perdurante,
uma estância perdida onde não se há
o que se é, e o que seria também sucumbe;
um instante posta-se noutro
e o próximo desafago é apenas uma porta aberta
para um longe de afetos frustrados;
o dia encosta na noite, de relógio-alarme
em punho, cerrado de rotinas;
a voz imposta-se no grito de uma árvore
presa em tela seca na garganta;
e por fim uma chama fica cega,
quando a cor de tudo em torno é fuga, sem exílio.
***
BÊBADO
a Fernando Palhaço
I
Meu bêbado segue sob forte massacre.
Ele me chega em casa todo dia exausto.
Não dorme, deita rosnando. Fica a acordar
ao longo da madrugada e, quando finalmente
é posto ao despertar, mostra-se ainda mais destruído.
Bebe café, pinga colírio e vai consumar o dia;
sob o forte massacre.
Meu bêbado é fraco. Não sabia que era
tão fraco este bêbado franco que ranqueia dores
no corpo-dó,
qual equilibra seus cabelos raros
pela penumbra velha das horas vagas.
Meu tempo engole meu bêbado.
Tenho dúvida da existência de ambos,
mas confio mais na existência do meu
bêbado fraco franco frágil que na do meu
tempo flácido frenético frígido.
Meu bêbado ogro drena o sangue silencioso
que esse meu tempo oco finge não derramar.
O tempo expira. O bêbado vai tragando.
Seus bens de bêbado são beijos depenados
de um amor sem lugar no tempo. Seu lugar,
biroscas depredadas onde o vento que trabalha
para o tempo não adentra, só cobra à saída as
horas pendidas. Bêbado, envidraçado; posta-se,
debaixo da lua, curtindo trapos e tangos
e troças e tremoços,
ainda preparando transas com o que lhe resta de tempo.
II
Vidrado segue o meu bêbado forte sob massacre.
Não sabia que era tão forte, fraco. Não sabia
que se sofria tanto, dentro e fora de si. É de manhã
e ele me sinaliza algo sobre o sol da feira por que
passeamos e eu lhe pago um caldo de cana, o pastel
ele não quer – já não tem gosto, massaroca vaziúda.
Muita gente assim que passa, também.
Doravante é cumprir tabela, com tantas mortes
pesando nas costas rasgadas de lembranças.
Um dia o meu bêbado vai, de vez. Ficará o seu
último chapéu, guardador das suas sentilezas – o seu,
o meu último abrigo, sob forte massacre.
***
10 SOLUÇÕES SUBJETIVANDO O DESCAMINHO DOS SERES
1. Buscar uma melhor visualização do chão.
2. Dependendo do público-alvo, obter namoros de uma mulher do tipo nuvem ou de um homem do tipo pássaro.
3. Criar nichos no ralo do banheiro social.
4. Empregar aranhas oriundas do mercado informal de insetos.
5. Gestar pessoas dentro do olho esquerdo, se destro, ou do olho direito, se canhoto.
6. Cheirar os sentimentos para eles adquirirem uma cor mais agradável.
7. Desvirgular as razões no meio de sua sintaxe.
8. Seguir sem preestabelecimentos direcionais.
9. Traçar paralelas de modo a aproveitá-las de referência para encontros amorosos.
10. Dançar deitado na ponta dos pés.
Zeh Gustavo é escriba de ofícios variados – poeta, ficcionista, compositor, cronista, revisor de textos. Como autor, publicou, entre outros livros, “Pedagogia do Suprimido” (Verve, 2013), “A Perspectiva do Quase” (Arte Paubrasil, 2008) e “Idade do Zero” (Escrituras, 2005), além do conto “Comuna da Harmonia”, presente na antologia “Porto do Rio do Início ao Fim” (Rovelle, 2012). Participou da organização e da curadoria das edições 2012 e 2014 do FIM – Fim de Semana do Livro no Porto.
Esta tristeza que vem, e senta nos caraminguás da minha sala escura, se acomoda numa poltrona suja e furada, que já tem o formato de seu corpo. Uma visita inumana, inexata, me observa enquanto passo um cafezinho para ela.
– Você vai derramar tudo, diz. –Pó, água e chororô.
Mania irritante de prever o futuro, penso. Não digo nada. Não levanto a voz. Não peço para ela ir. Aceito sua companhia, como quem se rende a verdade.
Derrubei o pó.
Ela pede pra eu perder a timidez e pular as protocolares etiquetas de uma anfitriã, que disfarça mal a falta de hábito em receber pessoas.
Me diz em tom maternal:
– Esqueça o cafezinho, chora de uma vez criança. Não me venha com chá de cadeira, estou bem acomodada. Transborda as tolices de agora, antes que eu comece a vasculhar suas gavetas.
– O que você ganha com isso? Protelei eu.
-Prazer.
Todas as chaves da casa penduradas em seu colar tilintavam ao menor movimento. Desconfio que minha senhoria adormece e se banha com aquelas correntes em torno do pescoço, que esverdeiam sua pele, que anunciam sua chegada e partida e que eu encaro de viés quando seus olhos não me fitam, querendo roubá-las. Não, não tenho um bom plano.
Quando ela me alugou o espaço onde moro firmamos um contrato,
DAS CONDIÇÕES DO IMÓVEL CORPO:
Cláusula 43: A proprietária terá todas as chaves, com livre acesso. Não precisando de aviso prévio por tempo indeterminado. Sendo essa cláusula não respeitada, a locatária sofrerá punições, previstas na lei natural das coisas, estando sujeita a ordem de despejo.
E, por assim estarem justos e contratados, mandaram extrair o presente instrumento em três (03) vias, para um só efeito, assinando-as, sem testemunhas.
***
Estômago
Francisca,
A pizza era de aliche, a maldita pizza era de aliche. A maçaroca desmantelada no chão, que você provavelmente viu antes de perder a consciência, era uma mistura de molho de tomate, queijo derretido e aquele peixe salobre que bloqueou suas vias respiratórias aos 9 anos de idade, na pindérica festa de casamento da tia Ilde. Papai insistiu pra você experimentar um pedacinho, sem saber que era alérgica. Lembra? Quem poderia supor? Na colisão, Você rolou sobre as folhas ressecadas no asfalto, quebrando uma pluralidade de vértebras. A pizza escapou da caixa de isopor que o Motoboy levava nas costas, derrapou na pista oito metros, saindo da caixa, destampada aos pulos, chegando quente e espatifada junto ao seu corpo. Nunca mais comi pizza, mana, nunca. Soube que você estava morta porque seu tórax não mexia mais, seu olho ficou aberto e vazio. Gigantescas fichas da obviedade colidiram com o meu mundo. “O tórax nunca para de expandir e contrair, nem o piscar dá sossego pro ver, de formas tão sutis, que a vida até parece despretensiosa e evidente”. Até mesmo numa festa aparvalhada de casamento, com babados de plástico e confeitos cor-de-rosa, no salão do prédio da tia Ilde, podemos ser traídos por nossa ingenuidade.
Quando ouvi o estrondo e a vozearia, saí do caixa da padaria correndo, sem pagar pelos cigarros. Te procurei entre os curiosos. Havia um peso na cautela com que todos se moviam. Existe um momento, quando a morte se anuncia, em que perdemos a noção de espaço e a vida é suspensa em um campo gravitacional por dois segundos, em câmera lenta. Quando cheguei perto, havia um pedaço seu, de dentro, bojudo e mole, derramado. Encarei sua víscera como se eu pudesse colar você, como se fosse um segredo teu mal ventilado. Desmaiei. O motoqueiro, você, a pizza e eu, sentindo nossas vidas vazarem pelo asfalto, enquanto em algum canto da cidade, um motorista de ambulância saía às pressas do banheiro, fechando a braguilha da calça, pra atender o rádio sobre a mesa do cafezinho.
Sabia, mana, que quando a gente morre todos descobrem nossos segredos? A maioria deles. Eu também não sabia até você ser atropelada num domingo pelo entregador da Pizzaria Tutti, enquanto seu sorvete de casquinha escorria muito. Depois disso as pessoas interrompem suas contas bancárias, entram no seu quarto, fuçam suas coisas, dividem-nas em três partes; doação, venda, e o que cabe numa caixa de lembranças. Os objetos falam a maioria das coisas sobre você, mas a caixa de remédios, a sujeira embaixo da cama e o computador, falam mais.
Depois do seu velório, era difícil pentear meus cabelos, cacheados como os seus. Era difícil ouvir música, comer queijo, atravessar a rua, expandir o tórax, piscar. Disseram que o sinal já estava fechado pra você, mana, e que o moço tinha pressa. A pressa devora tudo. As azeitonas que se espalharam na pista enquanto seu corpo arremessado perdia tufos de músculos pelo caminho, eram verdes e graúdas, como seus olhos roliços. Eu tenho a sensação de que uma simples azeitona poderia me asfixiar pra sempre.
Num dia ruim, inventei de contar ao Dário todas aquelas imagens do acidente, que me perseguiam. Contei os detalhes, mana. Daquela luz alaranjada nos prédios, quando a tarde se recolhe em tom de candeeiro, impingindo fachos luzentes pelas frestas das nuvens e tudo parece fazer parte de um instante inabalável. O farol de pedestres abriu, eu apertei o passo e entrei no Marajá Pães e Doces pra comprar cigarros e não te deixar esperando, para não nos atrasarmos pro show do Otto. Você se distraiu com algum livro de capa colorida da sessão de R$ 1,00 daquele sebo mofado, e atravessou em seguida com seu vestido azul de algodão. Contei como era a primeira tripa humana que eu vi. Contei qual era o sabor do sorvete. Contei tudo, porque o Dário era o meu marido, e eu precisava de colo. Fui uma testemunha tresloucada dos acontecimentos, precisava enfraquecer o que me perturbava, eu precisava de ajuda.
Ele se pôs a chorar, mana. Primeiro um ruído impreciso caía de sua boca e do seu nariz ao mesmo tempo, seus olhos apavorados foram desistindo de ficarem abertos e se afundaram no rosto a medida que espremia a cara com força. As bochechas subiram formando sulcos na pele da testa ao queixo. A língua se projetou levemente e Dário entregou- se aos soluços, que evoluíram para um violento choro, desesperado e alto. Elevou as mãos enormes e tremulas, e sem saber o que fazer com elas, grudou-as no rosto, abafando o inesperável.
Ficou claro. Causaria menos dor a ele se eu tivesse pegado a faca de pão da mesa e destacado seu jovem coração. Ou, se eu tivesse arrumado as malas e saído de casa com os vinis do Duke Ellington. Ou quem sabe ainda, se fosse eu a estar distraída, com uma casquinha do Mc Donald´s, meio baunilha, meio chocolate, atravessando a rua Martins Fontes, e sofresse uma colisão de alto impacto com uma pizza de aliche.
Fuçar no seu computador depois dessa bandeira, foi a primeira coisa que eu fui fazer.
Gostaria de saber se todas aquelas trepadas que vocês deram no hotel Delmar da República, eram para superarem essa minha mania de controlar tudo?
Quando acompanhei mamãe naquele ritual patético de atirar suas cinzas ao mar, um contravento soprou flocos seus no meu rosto. Me debati, me senti imunda.
Eu teria te matado. Mesmo te amando tanto.
Thays Berbe gosta de florestas. Frutas secas. Texturas e cores. Viagens. Lama. Coisas antigas e coisas que viram outras coisas. Plástico bolha e bolhas de sabão. Falar, cantar e ficar em silêncio. É especialista em comunicação audiovisual pela faculdade Belas Artes e Anhembi Morumbi e desenvolve seu trabalho como roteirista e redatora.