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135ª Leva - 02/2020 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

A Literatura é esse território repleto de vivências, cenários e impressões sobre o mundo. Ao mesmo tempo, é atividade que ultrapassa o real e, algumas vezes, não se rende a necessárias relações com ele. O mister de um autor é também algo que não se digna a maiores explicações, a tentativas exaustivas de classificação. Se definir é limitar, cobrar de um escritor as exatas diretrizes de seu engenho com as palavras não parece ser nem um pouco um gesto razoável.

No panorama das narrativas ficcionais, há quem seja profundamente estimulado a criar tendo como norte a necessidade de contar uma história. Mas não é apenas isso. É construir um texto cuja consistência narrativa confira qualidade ao que se está dizendo, sobretudo através da consciência de que aspectos técnicos também são imprescindíveis para quem pretende dizer algo através dos conteúdos elaborados. E quando encontramos alguém movido pelo intuito de trazer ao mundo uma boa história, supomos de pronto que os primeiros indícios de um trabalho digno de ser apreciado estão se delineando. É o caso de Paulo Bono, escritor cuja obra merece especial atenção em razão dos empenhos exitosos com a construção narrativa.

Baiano de Salvador, Bono é um escritor cujos textos prendem a atenção do leitor pela sua fluidez, ritmo e potencial imagético. Some-se a tais atributos a peculiar capacidade que o autor tem de elaborar diálogos que acabam funcionando como verdadeiros atrativos. Diga-se de passagem, muitos desses diálogos têm por virtude maior dar sustentação às expressões dos personagens. E aqui é preciso mencionar que os tipos humanos engendrados por ele encontram correspondência com personalidades que transitam aos montes no nosso cotidiano. O xis da questão é que o autor os molda com habilidade dentro de um universo de cenários e possibilidades comuns a tantas existências diluídas no conjunto dos dias.

Autor do livro de contos e crônicas “Espalitando” (Ed. Cousa, 2013), dentre participações em antologias e coletâneas, Paulo Bono foi também roteirista do curta-metragem “O Garoto”, lançado em 2014. Mas o seu momento atual está voltado para os desdobramentos tidos a partir de seu primeiro romance, “Sexy Ugly”, lançado em 2019 pela Editora Mondrongo. O livro mostra Bono cada vez mais à vontade em sua lida com as palavras, tecendo uma narrativa que subverte expectativas e que tem como um de seus motes o protagonismo de pessoas costumeiramente não aceitas nos padrões de beleza socialmente impostos. E para falar da experiência com seu novo rebento e de outros temas relacionados às vias literárias e mundanas, Paulo Bono recebeu a Diversos Afins para uma conversa marcada por opiniões diretas e certeiras, prova inconteste de que a objetividade é uma das valiosas ferramentas de expressão do pensamento.

 

Foto: Vinicius Xavier

 

DA – Seu mais recente livro, “Sexy Ugly”, tem um olhar aguçado sobre cenas contemporâneas, pois há nele também uma crítica sutil sobre o sujeito mergulhado em dilemas pessoais que envolvem a luta pela sobrevivência, os desejos sexuais e os afetos. Como foi arquitetar a construção narrativa nesse território cheio de tensões tão nossas? 

PAULO BONO – Foi uma arquitetura de idas e vindas. Aquela coisa de levantar e derrubar pilastras o tempo todo. Na primeira versão do livro o protagonismo era da Propaganda. A história era sobre os bastidores das agências. Com muito mais casos e entrelinhas desse ambiente. Mas achei que estava se tornando um livro de gueto. Joguei tudo fora e recomecei com uma história tipicamente noir. Com mais peso nos crimes, no sexo e no mistério. Mas veio uma necessidade de conhecer melhor o detetive. Foi então que Deco Ramone virou o mestre de obras dessa construção. Descobri que a história era sobre ele. Os bandidos, a femme fatale, os amigos bizarros, a filha, as agências e o puteiro eram na verdade um espelho de Deco. Assim os crimes perderam peso, o noir virou linguagem e a propaganda passou para pano de fundo. O livro seria sobre um publicitário falido que precisava descobrir como vender um puteiro para pessoas feias enquanto lidava com bandidos, com o futuro incerto e com o distanciamento de sua filha. Uma história sobre sobrevivência, expectativas frustradas, autodecepção, sobre a beleza da feiura e a feiura da beleza. Acredito que desta forma a investigação de Deco se tornou mais universal e ele descobriu que somos todos sexy ugly. Ah, e preferi pintar as paredes com humor. De drama já basta a vida.

 

DA – O personagem Deco Ramone é, assim como você, alguém envolvido com publicidade. Em “Espalitando”, seu livro anterior, as narrativas remontam ao bairro da Lapinha, lugar de Salvador que marcou a sua trajetória pessoal. Não há como não observar, na sua obra, essa recorrência a referências que falam de você em alguma instância. De que modo você reflete sobre isso? 

PAULO BONO – É como disse o Hemingway, você tem que escrever sobre o que conhece. O roteirista Charlie Kaufman também comentou uma vez que só podia escrever sobre ele mesmo, pois era o único assunto que escreveria sem errar. E olha que as histórias do Kaufman são bem loucas e inventivas. Acho que é por aí. O “Espalitando” era uma parada mais pessoal até porque veio de um blog que funcionava quase como um diário. Já o “Sexy Ugly” não é sobre mim, estou longe de ser o Deco Ramone. Mas acrescentei muita coisa do que vivi em 20 anos de propaganda. Fante, Bukowski, Céline e muitos outros também iam por esse caminho. Alguns dizem que é um recurso menor, uma limitação. Foda-se. Não acho que há certo ou errado. O importante é o texto. Se ficar bom e verdadeiro, será universal, alguém vai se identificar e não será mais uma história sobre Bono. Recorrer às nossas referências é como dar um pulo num porto seguro só pra pegar uma arma secreta. Se um dia eu escrever sobre uma guerra intergaláctica, acredite, a Lapinha também estará presente.

 

DA – De fato, ainda há muita controvérsia, inclusive, sobre o próprio conceito de autoficção, algo até subestimado por alguns. Não lhe parece mais genuíno saber aliar o texto ao que vivemos, pois tudo sempre esteve no mundo e apenas transformamos as coisas ao nosso modo?

PAULO BONO – Por aí. Mas nem acho que exista um modo mais ou menos genuíno. Cada um faz o que acredita. Genuíno tem que ser o texto. Pra isso é legal saber o que está escrevendo. Claro que é mais difícil o cara fazer um conto sobre futebol de rua se ele nunca fudeu o joelho num baba no asfalto. As palavras acabam soando artificiais. Isso afeta a qualidade do texto. Mas um autor pode descrever bem uma mãe dando à luz sozinha num quarto escuro, se conheceu de perto e aprendeu alguma coisa sobre medos, dores e angústias das mulheres. Não sei se é questão de aliar o texto ao que vivemos. Mas talvez de usar o que vivemos como recurso. Sobre os que subestimam a autoficção, prefiro subestimar as histórias mal contadas.

 

Foto: Vinicius Xavier

 

DA – “Sexy Ugly” tem uma narrativa de forte apelo imagético, além de apresentar diálogos muito bem construídos e que prendem a atenção do leitor. São dois elementos constituintes, por exemplo, do cinema. Como é que você percebe essa aproximação?

PAULO BONO – O lance é que até os 20 anos li muito pouco. Minhas primeiras referências vieram do cinema. E antes de pegar em literatura eu já era roteirista de audiovisual. Não sei se isso é bom ou ruim, mas acho que qualquer coisa que eu escreva vai levar certa dose imagética. Apesar de serem linguagens bem diferentes, a depender do gênero, acredito que alguns recursos transitam bem entre a tela e a página. É o caso do universo noir do “Sexy Ugly”. O  noir que levou o Dashiell Hammett pro cinema e equilibrou o Raymond Chandler entre livros e roteiros. Eu queria aquela estética na descrição das cenas, queria aquele ritmo tão específico e queria os diálogos rápidos e cínicos. Os diálogos do Sexy foram minha zona de segurança e meu parque de diversões. Ainda quero um dia ser dialoguista de filmes.

DA – “Sexy Ugly” tem, de fato, uma agilidade narrativa, um modo muito peculiar de contar a história, que muito se aproxima com a instantaneidade da própria vida contemporânea. Nestes tempos de excesso de informações, mídias sociais e tudo o mais, comunicar algo através da literatura é um desafio?

PAULO BONO – Em tempos de radicalismos, dificuldades de interpretação, quando tudo é tudo, e opinião é verdade, eu diria que é um puta desafio. Hoje, por exemplo, é difícil escrever um personagem escroto, machista, mesquinho e com pensamentos assassinos sem aparecer alguém pra achar que aquilo é seu ponto de vista. E se colocam isso nas redes, fudeu, vira a verdade. Tem autor que hoje escreve segurando dicionário, bíblia e constituição. O tempo todo julgando previamente seus personagens para não ser ele o condenado. Acho que o perigo está aí. Quando o autor, para ser aceito e por medo de ser mal interpretado, acaba matando a própria arte. Não deixa de ser também um suicídio. Não sei, é difícil. Ritmo, linguagem, estrutura, construção de personagens. As ferramentas estão aí pra vencer esse desafio. Não vai sair legal algumas vezes. Se a comunicação falha até num “bom dia” de elevador, imagina na literatura. Só não pode desistir.

 

DA – Longe de recursos panfletários, como é que os escritores podem se posicionar diante desse estado de coisas em que vivemos?

PAULO BONO – É complicado dizer como cada um deve se posicionar. Já temos muitos heróis, juízes e vigilantes por aí. Escritor patrulhando escritor é foda. Acho assim, acredita numa bandeira? Vai lá, parceiro. Acha que tal caminho é o melhor pra sua escrita? Jogue duro. Quer escrever tal coisa pra ficar bem na fita? Vale também. Mas faça bem feito, conte uma boa história. Só não venha explanar uma cartilha de posturas. Não venha me dizer que eu deveria colocar uma gravata borboleta no meu texto. Isso complica ainda mais esse estado em que vivemos. Acho que é isso. Fazer o que acredita e deixar o outro em paz.

 

DA – O bom mocismo é um desserviço à Literatura?

PAULO BONO – Para mim desserviço são as regrinhas implícitas, os manuais de bom comportamento da escrita, como se a boa literatura fosse produzida de itens de editais. Não é questão de bom mocismo. Existem milhares de livros sensacionais com histórias transformadoras, personagens grandiosos, mensagens bonitas e temas ligados a causas importantes. Problema é elevar esse bom mocismo ao patamar de pedra fundamental deixando a literatura em segundo plano. Não curto muito esse papo de livro necessário. Necessário é contar bem uma boa história.

 

Foto: Vinicius Xavier

 

DA – Como é que você avalia o papel das editoras independentes na cena literária brasileira atual?

PAULO BONO – Se fosse no futebol, acho que a editora independente seria como um jogador da lateral. Precisa defender lá atrás sua sobrevivência todos os dias e ainda ter fôlego e agilidade pra chegar na linha de fundo e cruzar bem a bola para os autores tentarem marcar um golzinho. Tudo isso jogando contra uma seleção de impostos, altos custos, comissões extorsivas das livrarias, falta de incentivos e um estádio lotado torcendo contra. Porque estamos falando de um país que não lê. Quando você trabalha com uma editora pequena, claro que terá dificuldades em distribuição, por exemplo. Mas autor e editor independente jogam no mesmo time. Se jogarem limpo com diálogo e honestidade, já é uma boa parceria.

 

DA – Somos um país de leitores subestimados?

PAULO BONO – Acho que o último dado que saiu foi que brasileiro lê menos que dois livros por ano. Eu conheço muita gente que afirma com certo orgulho que não gosta de ler. Filmes com legenda? Esquece. Por aqui só se lê manchetes, memes e textos de WhatsApp quando convém. E duvide da interpretação correta dos mesmos. Se somos um país de leitores subestimados? Acho que nem leitores somos. Adoraria que alguém argumentasse o contrário e mostrasse que sou apenas um pessimista falando bobagem.

 

DA – Agora estamos vivendo um período nefasto de pandemia mundial, fato talvez imaginável apenas nos livros de ficção. De que modo você observa esse momento que estamos testemunhando? Estamos em xeque sob vários aspectos?

PAULO BONO – Claro que estamos em xeque. Estou no maior cagaço. Tenho conversado com muitos amigos e todos eles também estão com muito medo. Medo do vírus, medo da morte de pessoas queridas, medo do futuro. Ninguém sabe ao certo o que está por vir. Só não acredito que sairemos dessa pessoas melhores. Existe aí uma pandemia paralela de gente egoísta, mesquinha, exploradora, hipócrita, ignorante, oportunista e cheia de ódio que piora tudo. Com ou sem diminuição de curva, essas pessoas não vão mudar. Pra não achar que sou apenas pessimismo, acho que salvar o dia de hoje já ajuda. Leiam um livro, assistam a séries, escrevam, brinquem com seus filhos, façam suas lives, faça um bolo, ligue prum amigo, ouçam música, durmam até mais tarde. É normal despirocar de vez em quando. Mas não adianta muito pensar no futuro agora. É salvar o dia de hoje.

 

DA – Esse presente perturbador tem te desafiado a desenvolver algo específico em relação à literatura?

PAULO BONO – Não costumo escrever sobre algo recente. As coisas ficam muito embaralhadas, uma mistura de impressões. Não consigo focar em nada. Até porque sempre tento trabalhar com o humor, mas agora não está rolando. Tenho escrito algumas coisas nas redes, mas são apenas arrotos do cotidiano dessa loucura. Talvez no futuro apareça alguma história sobre um gordo apaixonado por uma prostituta em meio a uma pandemia mortal. Mas os planos para o futuro estão temporariamente fechados.

 

DA – Afinal, por que escrever?

PAULO BONO – Acho que não tenho um motivo nobre. Não escrevo para transformar as pessoas, contribuir pra uma sociedade melhor, defender causas ou despertar reflexões. Só sei que na primeira vez que consegui escrever um conto, acho que isso tem uns 18 anos, eu me senti muito bem. Estava na pior, sem grana e sem muitas perspectivas. Mas pensar na história, no que dizer e labutar aquilo no computador fazia eu me sentir vivo. Até hoje é assim. Pode estar tudo certo, pagando as contas, todos com saúde, mas se eu não estiver com um projeto ou texto engatilhado ou dialogando com um personagem, fico mal humorado, criando problema em casa e me sentindo a pior das criaturas. Então é isso. Escrevo pra salvar minha cabeça e não ser um pé no saco.

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista amador, mestre em Letras e doutorando.

 

 

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134ª Leva - 01/2020 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

De quantas travessias é feito o caminho com as palavras? Certamente de uma infinidade delas. No entanto, há algo na jornada de um escritor que confere um sentido especial às experiências vividas. Esse algo não está na busca meramente exasperada por melhores soluções criativas; tampouco reside no terreno das exposições de uma personalidade que se mostra incensada e cultuada na esfera pública, arena que também alimenta vaidades de ocasião. Estamos a falar aqui do vigor que uma obra ganha quando volta suas atenções para perceber o humano em suas mais diversas acepções.

A noção de que as paragens literárias são instrumento de comunicação e expressão das nossas humanidades é ponto de destaque para uma literatura que fratura apagamentos sociais. E não somente a denúncia de nossas mais comezinhas e seculares mazelas aflora nesse percurso que incomoda, mas também a ideia de que é preciso mostrar universos de existência que trazem suas peculiaridades, seus modos naturais de ser e estar no mundo sem que tal matéria seja reduzida aos cínicos requintes do exotismo.

Refletir sobre certas invisibilidades e inscrevê-las na pele do texto demonstra ser um relevante objetivo para um alguém como o escritor baiano Itamar Vieira Junior. Dono de uma escrita segura e atenta às questões de seu tempo, Itamar vem construindo sua trajetória literária de modo deveras consistente. Desde livros de contos como “Dias” (Caramurê, 2012) e “A Oração do Carrasco” (Mondrongo, 2017), este último finalista do Prêmio Jabuti, já era possível perceber como o autor acenava com um domínio técnico e criativo afinado com a qualidade.

Se Itamar já nos chamava atenção com seus livros anteriores, é com seu último trabalho, o romance “Torto Arado” (Todavia, 2019), que sua obra parece atingir uma espécie de apogeu das percepções. E falar desse ponto alto não significa apenas abordar a ótima repercussão que o livro obteve, incluindo aí uma premiação internacional, mas referendar a continuidade de um processo que é marca registrada do escritor, sua capacidade de olhar para o povo negro e mostrá-lo protagonista diante das reiteradas investidas de invisibilidade patentes em nossa história. A partir da impactante atmosfera de seu recente livro, pudemos conversar com o autor sobre os processos atinentes à escrita de tão significativa obra, além de transitarmos sobre questões fundamentalmente relacionadas à condição humana e algumas de suas implicações no trato social. De todo o dito, Itamar Vieira Junior é um nome de relevância no contexto atual da literatura brasileira, não apenas pela qualidade de seus escritos, mas também pela propriedade do seu pensamento crítico e desperto diante da realidade.

 

Itamar Vieira Junior / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Lendo “Torto Arado”, é impossível não pensar no Brasil profundo que ali está, principalmente se considerarmos tensões que envolvem as populações quilombolas e seu, digamos assim, permanente desterro. De que maneira você mergulhou no cotidiano dessas comunidades e dali retirou subsídios para a feitura do livro?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Sou geógrafo de formação e há quase 14 anos eu trabalho com as populações do campo. Primeiro no estado do Maranhão, onde conheci comunidades quilombolas, indígenas, ribeirinhos, sem-terra, e depois no estado da Bahia. Anos mais tarde fui fazer meu doutoramento em Estudos Étnicos e Africanos, que estava intrinsecamente relacionado com o meu trabalho como servidor público, e pude aprofundar minha pesquisa. A história de “Torto Arado” me acompanha há mais de 20 anos. O título, inclusive, remanesce dessa minha primeira tentativa de escrevê-lo – sem êxito – na adolescência. A história das irmãs, a relação com o pai que fala com os espíritos, todo esse núcleo central da trama permaneceu. Com o passar dos anos a história incorporou questões de ordem sociológica que refletem a minha formação, a minha ancestralidade e o interesse pela história do Brasil. Ao longo de anos – eu que nasci numa grande cidade -, tive o privilégio de conviver com camponeses, escutá-los, aprender sobre a vida no campo e conhecer suas histórias. Era o que eu precisava para retomar esse antigo projeto de escrita.

 

DA – Nessa sua aproximação com as comunidades, certamente foram inúmeras as narrativas escutadas. Ao mesmo tempo em que você teve contato com esse manancial de depoimentos, percebeu também uma necessidade de visibilizar tais grupos no seu mister de escritor? Indo mais além, diria que “Torto Arado” encerra um clamor consciente?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Primeiro acho que é desejo de qualquer escritor contar uma boa história. Embora esteja previsto no meu projeto literário percorrer caminhos diferentes para refletir minimamente a grande diversidade da nossa sociedade, o que me levou a escrever “Torto Arado” foi a vontade de contar uma história que contemplasse o anacronismo dos nossos processos sociais, a herança da escravatura, a luta pela terra como o direito mais elementar da existência porque sem chão não há vida, movimento, não há alimento. O romance trata de um grupo de trabalhadores que, em contato com outros grupos que travam lutas por melhores condições de trabalho e por terra, se identifica como quilombola. Mas poderiam ser indígenas, ribeirinhos, geraizeiro, sem-terra, qualquer agrupamento humano que detivesse este elo de coexistência com a terra que nós, ocidentais e urbanos, parecemos ter perdido.

 

DA – As irmãs Belonísia e Bibiana são algo emblemáticas na medida em que expressam, dentro de duros enfrentamentos sociais, o vigor do universo íntimo que as atravessa. Pelo olhar de cada uma delas, o livro ganha uma pulsação narrativa diferenciada, evocando o duplo interno/externo a partir do modo como ambas pensam e vivem suas trajetórias. Diria que tal escolha narrativa lhe foi mais desafiadora?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Concebi a história inicialmente narrada por uma única irmã, a Belonísia.  A determinada altura da escrita eu percebi que a diferença e a complementaridade de suas vivências só poderiam ser transmitidas ao leitor de forma plena se conhecemos as suas perspectivas individuais. E por que são as mulheres, as narradoras, e não os homens? Pelo simples fato que nesta região, no interior do Nordeste, encontrei mulheres que pela ausência do homem por diversos fatores – morte por baixa expectativa de vida ou violência, emigração para o trabalho ou mesmo o abandono da família -, as mulheres assumem um protagonismo que precisava ser visibilizado. Por isso são elas a narrarem a história. E são três narradoras que contam as suas perspectivas sobre o que aflige a população de Água Negra: seja pelo olhar infantil e sonhador de Bibiana, ou pelos gestos duros de quem não sabe viver além da terra de Belonísia, ou pelo olhar de quem pôde atravessar a história para contar que o passado não nos abandona, por mais que tentemos nos afastar. Na nossa trajetória social quase sempre iremos alcançar as respostas sobre o presente em um passado aparentemente distante, mas que se perpetua em práticas vigentes que refletem uma segregação secular e colonial.

 

DA – A atmosfera de “Torto Arado” também nos lembra a existência daquilo que podemos chamar de invisibilidade em camadas, ou seja, de experiências de apagamento que, num efeito cumulativo, agregam simultaneamente a condição da negritude, da pobreza, do ser mulher, dentre outras. O que dizer desse delicado território de humanidades?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Com a tecnologia que dispomos acho que essa invisibilidade só persiste porque é interessante ao sistema. A literatura reflete também as diferenças deste mesmo sistema: quem tem acesso à educação de qualidade? Quem pode ler bons livros, escrever conforme a norma culta ou experimentar novas formas? E durante as últimas décadas, com honrosas exceções, a literatura não refletiu a nossa diversidade étnica e cultural. Esteve durante muito tempo voltada para os conflitos da classe média branca. Esse é um ponto crucial quando me proponho a escrever: quero que a literatura se volte para as clivagens sociais, os cantos esquecidos do país. Talvez nessas experiências limites de humanos ocultados por um sistema esteja a chave para entender o todo. É o que eu gostaria de capturar com a escrita: o mais profundo dessas existências, que consequentemente será nossa também.

 

DA – A fixação do homem do campo à terra também levanta reflexões para quem lê seu livro. E estamos falando aqui duma noção de pertencimento ao solo ancestral, mesmo que não se tenha, por sucessivas gerações, a posse formal dos territórios em que tais pessoas habitam desde sempre. Na sua opinião, de que modo continuamos nos equivocando quando o assunto é pensar e viabilizar uma reforma agrária no país?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – O atual problema fundiário brasileiro reflete as questões da formação do país: a primeira diz respeito à exploração do solo brasileiro imposta pela colonização em modelo de sesmarias, que legou grandes extensões de terra a particulares que gozavam de status ante à Coroa. A segunda foi quando esse modelo de sesmarias foi substituído pela lei de terras de 1850, que firmou a compra como a única forma de acesso à terra. E quem poderia comprar? Foi assim que se consolidou parte da nossa desigualdade social, que poderia ter sido corrigida pela reforma agrária, que foi, nos últimos governos, incipiente, e agora se encontra definitivamente abandonada como política pública. Esta é a nossa mais elementar questão social, porque um país não pode prescindir de alimentar a sua população de forma extensiva e ambientalmente correta, protegendo a natureza. Não pode querer que sua população renuncie o direito à terra, porque sem a terra não há vida. Ainda não temos asas para vivermos suspensos na atmosfera, e mesmo os que têm, os pássaros, precisam descer para comer o que nasce do chão. Daí a importância dos muitos movimentos que lutam por seus territórios: indígenas, quilombolas, dos atingidos por barragem e ribeirinhos. Para essas populações, a terra não é um bem econômico, mas, sim, a sua história. É a extensão de seu corpo. É a sua morada. E o modelo neoliberal em curso privilegia as grandes corporações que não têm nenhum vínculo com a terra, que a usa como um recurso sem vida, sem passado ou qualquer esperança de futuro. Não há conciliação quando se tem os graves problemas fundiários, que não são somente fundiários, mas fundantes da nossa desigualdade social.

 

Itamar Vieira Junior / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Nos últimos anos, o meio acadêmico tem sido cada vez mais palco de pesquisas, dissertações e teses que buscam discutir e repensar os diversos apagamentos sociais que enfrentamos cotidianamente. Você mesmo é egresso de um doutorado em Estudos Étnicos e Africanos, por exemplo. De que forma tais esforços podem romper o confinamento universitário e ser algo efetivos na sociedade?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – As pesquisas e o pensamento decolonial que encontraram abrigo nos centros universitários têm chegado de muitas formas à sociedade. A literatura é apenas um dos caminhos que tem sido percorrido. De forma pragmática, essa produção acadêmica tem sido atravessada pelo pensamento decolonial: da arquitetura às ciências humanas e sociais, passando pelas artes. Ela tem possibilitado a construção de uma sociedade menos desigual, onde se discute e se pensa formas de reduzir os danos de nossa própria história. Principalmente quando as pesquisas estão voltadas para fora da universidade, quando não se encerra nos gabinetes e salas de aula, e tenta pensar o mundo com os próprios sujeitos da história. É claro que essa evolução não é permanente, nem mesmo constante, um exemplo é o estado de regressão das pautas sociais em que o Brasil e o mundo mergulharam nos últimos anos. Mas a produção universitária continua, mesmo sob ataque, e será um farol para reconstruirmos o que está sendo destruído.

 

DA – Em escala global, acredita que estamos vivendo um processo de desumanização?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Não creio. Se olharmos a trajetória da humanidade, cercada de violência e grandes calamidades, vivemos uma época de ouro. Houve avanços para os direitos humanos no século XX, muitos surgidos a partir de grandes tragédias, como o holocausto nazista. É claro que vivemos em um mundo conservador, pouco afeito às mudanças, então elas quase sempre vêm acompanhadas de reações, como as que vivemos atualmente com a ascensão política da extrema-direita e dos regimes autocráticos em alguns países. Mas a humanidade tem ganhado consciência, humanidade, e nosso século promete mais avanços em relação aos direitos humanos.

 

DA – Sua carreira literária hoje assinala uma visibilidade bastante significativa, com sua obra sendo reconhecida e atingindo repercussão dentro e fora do país. O que mudou, de fato, em sua trajetória em face dessa projeção? O homem Itamar hoje é sujeito de ânimo renovado em face dos aprendizados? 

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Acho que o mais interessante disso tudo foi o contato que pude estabelecer com escritores e leitores, seja no Brasil ou em Portugal. E também o fato do livro ter sido editado por um grande grupo editorial me fez conhecer o trabalho dos editores de carreira, as estratégias de marketing e a profissionalização da escrita. Tenho aprendido muito, mas, de fato, pouca coisa mudou. Porque o que continua a me mover é a paixão pela literatura, e para tanto não precisei estabelecer uma carreira ou obter um prêmio, apenas dei liberdade à minha intuição.

 

DA- Há quem sustente que mergulhar nos caminhos da arte seja também uma alternativa para suportar o peso que a realidade das coisas nos impõe em certa medida. É razoável considerar essa espécie de fuga diante do universo oceânico e desafiador que é o autoconhecimento?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Não considero a arte uma “fuga”, ela é parte da experiência humana. Desde as pinturas rupestres, que datam de 40 mil anos, aos nossos dias, o que existe e persiste é a necessidade do homem criar e comunicar a sua existência. Concordo que dentro do conjunto de expressões humanas, a arte talvez seja a que nos permita “suportar o peso da realidade”, porque está intrinsecamente relacionada à nossa dimensão subjetiva. É nela ou a partir dela que nos autoconhecemos: o medo, os afetos, as grandes questões da vida, ainda que num plano subjetivo. Por ser subjetivo, talvez nos permita emular a nossa própria vida e enfrentar os problemas que estejam por vir. A literatura, em especial, é generosa neste sentido: quando pegamos um livro para ler nós estabelecemos um “contrato” com o autor e as personagens de que, durante um período, no processo silencioso e íntimo da leitura, “viveremos” aquelas vidas. Assim, nos colocamos no lugar do outro num denso movimento de humanização. É o que chamamos de empatia.

 

DA – Afinal, por que escrever?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Esta é uma pergunta interminável, porque não se encerra em nenhuma resposta. Lembro de ainda adolescente ter lido uma entrevista da escritora Rachel de Queiroz e fiquei muito intrigado com a resposta à mesma pergunta, onde ela dizia que escrevia porque não sabia cozinhar. Anos depois vi uma lendária entrevista do jornalista Jaime Lerner à escritora Clarice Lispector que devolvia a pergunta com outra pergunta: “e eu sei?”. Eu imagino que esse imenso desejo humano de se comunicar e legar para as gerações futuras um registro é que nos move a ler e interpretar o mundo através da arte. Penso nos homens e mulheres que nos deixaram registros da arte rupestre, quais eram as suas intenções ao pintar as paredes das cavernas que habitavam? Certamente queriam comunicar algo aos seus pares e legar, quiçá, registros para as gerações que viriam. O que me move a escrever é a vontade pessoal de registrar o meu tempo, de comunicar aos que se interessarem o meu olhar sobre o mundo, que reflete por sua vez os olhares dos que me influenciaram. Ao mesmo tempo, escrever reflete uma fé inabalável na literatura, não de que ela possa mudar ou alterar nada, mas de que possa ser um exílio, confortável ou não, para os que buscam conhecer a si mesmo.

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista amador, mestre em Letras e doutorando.

 

 

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133ª Leva - 05/2019 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

A Literatura segue como verdadeira ponte entre mundos, lugares que deslizam entre o vivido e o imaginado. Nesse ínterim, acepções das nossas humanidades se delineiam de modo a compor um painel difuso sobre as tramas da existência. Olhando assim de tal forma, escrever pode representar substancial exercício de vivências na linha sutil a divisar realidade e ficção. As paragens literárias comportam um contingente imensurável de subjetividades possíveis, de cenários e situações que marcam o indelével e imponderável espírito humano. Há sempre um quê do autor numa determinada obra, ainda que seja apenas algo alimentado pelo campo das referências, pela inalienável observação e assimilação dos fenômenos mundanos que se nos atravessam teimosamente por entre os dias.

Como poderíamos definir, por exemplo, o que seriam os caminhos da autoficção? Quem de fato nos conduz nesta complexa estrada que transborda do texto para a vida? Imprecisões à parte, parece ser melhor pensar que se desdobram eus no corpo vasto de uma certa escritura, relatos de si que reverberam experiências tidas ou imaginadas, as quais muitas vezes nos estimulam pela impressão de realidade que sugerem. Se estamos então mergulhados nas tensões cotidianas, aí é que os textos podem nos revelar mais do que meras predileções estéticas ou estilísticas.

Ficamos, pois, com os vestígios e marcas palpáveis da vida quando nos deparamos com um livro como O Enigma de Daniela. Nele, sua autora, Lelita Oliveira Benoit, mais do que uma obra autoficcional rica em informações e detalhes, constrói uma narrativa que envolve o leitor pela capacidade de mesclar percepções e relatos frutos de uma realidade que emerge brutal. Nesse sentido, o texto procura o leitor, seduzindo-o a ponto de fazê-lo (o leitor) testemunha próxima de tudo aquilo que é pormenorizadamente contado. À personagem-narradora coube a cuidadosa missão de contar a história verídica de Daniela, jovem médica que, ainda estudante, viu seu destino ser marcado por um irresponsável acidente automobilístico que limitou para sempre seus movimentos. A partir daí, desenrolam-se batalhas de superação pessoal da jovem diante de suas restrições físicas e, sobretudo, de sua readequação mental para seguir vivendo, além do enfrentamento judicial das questões que envolveram o acidente, tendo em vista que o motorista causador do atroz infortúnio estava embriagado na ocasião.

Lelita Oliveira Benoit, além de escritora, é psicanalista e Doutora em Filosofia pela USP. Sua tese de doutorado, Sociologia Comteana: Gênese e Devir (1999), publicada em livro pela Discurso Editorial/FAPESP, foi indicada ao Prêmio Jabuti em 2000, sendo que anos depois, em 2007, viria a ser traduzida para o francês e editada pela L’Harmattan. Também é autora de Livro da Madrugada (E de outras enigmáticas horas amorosas), livro de poemas publicado em 2013 pela Iluminuras. Com O Enigma de Daniela (2019), editado também pela mesma editora, a autora estreia na prosa. E foi justamente para falar desse seu novo momento literário que ela concedeu uma entrevista à Diversos Afins, pontuando aspectos fundamentais de seu processo criativo, desafios e perspectivas do mister. O saldo da conversa que agora segue é deveras positivo, não apenas pela expressão da intelectualidade de Lelita, mas principalmente por sua sensibilidade em dividir conosco reflexões profundas sobre a condição humana.

 

Foto: Julieta Benoit

 

DA – “O Enigma de Daniela” é um livro vigoroso na medida em que trata, de forma densa, delicada e informativa, de um tema que ainda nos é muito caro: as limitações do corpo físico diante da tragédia. Que espécie de desafios se configuraram de imediato em sua escolha narrativa?

LELITA OLIVEIRA BENOIT – Agradeço as suas fortes e sensíveis colocações iniciais. Me tocou muito ao sentir na minha pele, na minha alma, a sua leitura do meu romance de estreia. Indo agora em direção à sua pergunta. Diria que não fiz escolhas narrativas. Não tive como ponto de partida uma ou outra escolha ficcional. Diria sim que fui sugada pelo tempo – que era então, o tempo presente da minha vida passada. Foi essa a escolha, pela vida. Fiz da vida, ficção – como é inevitável no espaço da escrita do romance, ou talvez, do romance de qualquer ser humano. E acrescento mais. A escrita desta ordem particular, a do romance, para mim ao menos, acaba sendo máscara do eu – do meu eu. Pois não há outro caminho (methodos, em grego clássico) para ser Outro de si mesmo, no espaço ficcional. Me dupliquei. Me transformei em máscara do meu eu. Na escrita do romance, da poesia, sou (ou somos, não sei bem…) Outro sendo eu mesma. E confesso que tenho grande dificuldade em fazer a interpretação daquilo que lancei ao papel. Para clarificar um pouco a minha enodoada resposta, lembro aqui do segundo prefácio que Rousseau escreveu para o seu romance Julia, ou A nova Heloisa, que tem como subtítulo “Cartas de dois amantes de uma cidadezinha ao pé dos Alpes”.  No prefácio, é transcrita a conversa entre o filósofo-escritor com o seu editor, e este último se refere ao conteúdo do romance, composto por cartas. Pergunta o editor ao “homem de letras”: “Esta correspondência é real ou trata-se de uma ficção?” Lhe responde Rousseau: “Para dizer se um Livro é bom ou mau, que importa saber como foi feito?” Rousseau se refere à zona do fazer que me parece mergulhada na própria escrita literária. É a sua zona mais desordenada, tumultuada, caótica, sei lá… Pois é o espaço da criação artística. Implica a subjetividade do eu que escreve, entrelaçada às suas vivências e escolhas indeslindáveis, quase sempre. Poderia recorrer à psicanálise, a Freud. Mas prefiro outro caminho, mais nas proximidades da literatura ficcional.  Então me permito “roubar” aqui a fala de Mikhail Bakhtin, em O romance como gênero literário. Lá escreve o grande teórico da literatura que prefere escutar a voz do romancista ao invés de recorrer aos linguistas ou filósofos da linguagem. Prefere Bakhtin acolher as vozes de romancistas tais como Rousseau, ou Friedrich Schlegel, ou Dostoiévski e outros mais, pois são eles que “participam da formação viva do romance enquanto gênero literário”. Me coloco sempre ao lado da criação literária, portanto, ao lado da vida, e tendo a concordar com Bakhtin. Que parece ter escutado a minha voz de romancista.

 

DA – Dentro dos percursos autoficcionais, seu romance vai desfiando cenários, situações e personagens que envolvem o leitor numa sensação permanente de realidade. Nesse sentido, quem lê a obra está amparado por cuidadosos requintes descritivos e informativos a respeito de assuntos que transitam, por exemplo, entre os saberes médicos e jurídicos. Como você vislumbra tal perspectiva?

LELITA OLIVEIRA BENOIT –  O meu romance se fez da perspectiva de intenso desejo – e, assim espero, com delicadeza e muita poesia. O desejo de tocar com os meus dedos imaginários a realidade. Desejo amoroso sempre. É o amor que a tudo pode enlaçar, acredito eu. No meu romance, a  realidade emerge do fluxo do meu desejo amoroso, entre as letras e palavras, se desmanchando em fios – “desfiando”, na sua bela imagem – acontecimentos vivenciados, portanto situações verdadeiras, na alternância das histórias lá contadas, sempre com o meu eu-máscara enlaçado a elas. Sempre. O meu desejo amoroso foi recolhendo, aqui e ali,  saberes diversos e múltiplas vozes que foram costuradas –  não encontro palavra melhor… – às minhas diversas leituras  das belíssimas páginas da literatura judaica (Amós Oz, Bashevis Singer, Kafka, I.L. Peretz e outros mais), das narrativas fortes e poéticas da Bíblia Hebraica, da longeva história do povo judeu, e ainda de escritores não judeus, como Jorge Luis Borges que reverenciou esse povo milenar em sua produção literária – que se leia o magnífico “El Aleph”! Então, o meu desejante olhar amoroso – ou, o meu eu-máscara – foi guiando com delicadeza os meus dedos para que tocassem a realidade da sabedoria médica que, além da cura dos nossos corpos biológicos, procura sempre a Justiça como exercício da Ética, tão ausente agora, e talvez desde sempre. Lado a lado ao saber médico,  toquei a realidade de seu outro inseparável comparsa, o saber jurídico. Descobri que este último segue, quase que aos trancos e barrancos, tentando preencher os vazios que permeiam a medida humana do justo e do injusto. Algumas vezes, chega bem perto, em outras, falha completamente. Com os meus dedos de romancista segui tecendo um enredo, às vezes caótico para mim, no qual tanto o saber médico quanto o jurídico se mostravam quase que imobilizados diante da tragédia de um acidente automobilístico criminoso, que é o mote central de O Enigma de Daniela. Enfim, o romance – e não apenas o meu, com certeza! – é minha voz, voz reflexiva e altamente elaborada, incluindo certa desordem da minha escrita, que tem o poder de abrigar outras vozes, vozes íntimas e coletivas,  jurídicas e médicas, de professores e da estudante de medicina, do pai amoroso e da bela filha resgatada da tragédia pelo amor paterno, vozes dos amantes enlaçados pelo mútuo encontro feliz, e tantas outras vozes significativas. E sim, o meu romance toca a realidade presente e com beleza estética, desejar apontar futuros possíveis, e – tenho esperanças! – mais humanizados. Para que um dia, talvez – quem sabe ao certo? – consigamos nos libertar do Holocausto pós-moderno no qual estamos como que paralisados, literalmente sufocados pela injustiça universal – e agora me remetendo às inspiradoras palavras da poeta Maria Lúcia Dal Farra, que escreveu a apresentação de O Enigma de Daniela. Paralisados nós todos, e não apenas as pessoas portadoras de tetraplegia que o meu eu-máscara abrigou, acolheu com amor, no fluxo dessa minha narrativa romanceada de acontecidos reais, verdadeiros.

 

DA – Nunca é demais pensarmos sobre o que realmente desejamos para o Outro, exercício de alteridade no qual a promoção do bem coletivo nalguns momentos parece resvalar na utopia. Acredita que estamos presenciando, em escala global, um acelerado processo de desumanização?

LELITA OLIVEIRA BENOIT – Para responder à sua pergunta, retorno a Mikhail Bakhtin que, nos dias de hoje, muito me tem inspirado com a sua teoria do romance. Escreve Bakhtin que, no gênero romance, a realidade fica de tal forma próxima da ficção que é como se aquela pudesse ser agarrada e tocada pelas mãos do escritor, ou colocada de pernas para o ar, ou exibida em suas vísceras carnais. Essa grande proximidade com o presente produz, no gênero romance, o seu permanente inacabamento que o abre ao futuro, em leituras que seguem o recriando a qualquer momento e sempre. O gênero romance se estabelece como mais próximo do futuro do que do passado, resvalando às vezes na utopia, comenta ainda Bakhtin. O que isto tudo pode nos inspirar? Que o romancista tende a se encostar sim em certa utopia, no nenhum-lugar,  no lugar do supostamente irrealizável, porém desenhado nas páginas de milhares de romances.   Pois, do outro lado da escrita ficcional,  do romance, se encontra o seu Leitor.  Este último vai preenchendo o vazio ou o adensamento excessivo entre as palavras, essa rara espécie de nenhum-lugar, com o cimento da própria experiência existencial. É assim criado um tipo particular de diálogo no âmago da escrita ficcional. Do Escritor do romance e de seu Leitor:  inseparáveis no tempo da leitura ou das reflexões elaboradas após a leitura, e que talvez acompanhem o Leitor por toda a sua existência. Refletindo um pouco mais em torno do elo entre o Escritor e o Leitor.  Ao menos para mim, que me bebo também nas fontes da filosofia, os diálogos de Sócrates, contados por Platão, seriam romances de vidas, pois narram histórias reais. E há muito mais a dizer. O diálogo socrático está ali não como mera possibilidade de ser vivenciada por Outro, um suposto Leitor, mas está lá de corpo presente, cravado em palavras e se entrecruzando na forma dialógica da escrita de Platão. No que também tendo a concordar com Bakhtin, que viu nos diálogos platônico-socráticos os primórdios do romance europeu. E do nosso, por consequência. O rápido processo de desumanização – ao qual você se refere e com o qual tristemente tenho que concordar – poderia talvez ser sustado com o retorno ao romance, à poesia, à totalidade da literatura e, é claro, com o retorno às demais criações culturais: artes plásticas, cinema e qualquer tipo de invenção artística (que se fragmentam em múltiplas formas de aparição, nos dias de hoje). Li há pouco um discurso proferido pelo poeta Federico Garcia Lorca, no dia da inauguração de uma biblioteca pública em sua cidade natal.  Nesse discurso lírico, afirma o poeta que não só de pão vive o ser humano. E se por acaso ele, o poeta, estivesse faminto, pediria metade de um pão e um livro. É esse um provável caminho, quem sabe… Lembro ainda que tive o privilégio de, em pequeníssima parte,  vivenciar algo semelhante, desde 1985, como professora de Filosofia em escolas de ensino superior, direcionadas particularmente a trabalhadores pobres. A fome (ou, nos dias de hoje, a alimentação carente de nutrientes necessários à vida)  se manifesta na fala e na escrita da maioria dos estudantes. Mas é em igual medida que os mesmos estudantes manifestam fome por cultura. Se o pão lhes foi negado – mesmo que no corpo perverso da “comida” atual – a cultura igualmente lhes foi roubada descaradamente. E nos dois sentidos, o fosso é muito profundo entre a fome e o se sentir saciado.

 

Foto : Julieta Benoit

 

DA – Essa ideia de saciedade pelo acesso aos bens culturais deveria ser respeitada como um direito humano inalienável, posto que também estimula a formação do pensamento crítico. Você aposta na libertação do sujeito pela fruição da arte?

LELITA OLIVEIRA BENOIT – Gostaria de dar um toque psicanalítico a minha resposta. Breve retorno a Sigmund Freud, nas questões da arte e dos artistas. Relembro de um curto texto no qual o psicanalista-fundador discorre sobre o “princípio de prazer” e o “princípio de realidade”. Segundo Freud,  esses dois princípios parecem guiar, dar direções ou doar significados à vida psíquica de cada ser humano. O princípio de prazer é quase onipresente em nossas primeiras escolhas, ainda no berço, na primeira infância. Sua tarefa mais importante seria, a todo custo, evitar o desprazer. Mas aos poucos, o princípio de realidade coloca interdições ao primeiro, vai se impondo e ganha cada vez maior espaço no psiquismo humano, determinando nossas decisões relacionadas ao mundo exterior, à sociedade em que vivemos. Às vezes, chega quase a sufocar por completo o princípio de prazer. Trocando em miúdos, seria algo bem semelhante ao princípio de adaptação à realidade.
E me desculpe se faço um resumo tão tosco de reflexões tão poderosas! Mas prossigo, apesar da precariedade. O artista é aquele que, por um talento inexplicável, consegue aproximar, entrelaçar os dois princípios de funcionamento do psiquismo quando produz uma obra de arte. A um só tempo, a obra artística dá prazer ao próprio criador e ao seu fruidor. Enfim, a obra passa a compor a realidade e surge nela como objeto artístico. Observação muito importante: o artista se recusa à aceitação do princípio de realidade e, de certa forma, faz a sua negação, mesmo que parcial. O fruidor da arte é aquele que compactua – talvez, secretamente ou inconscientemente – com a insubmissão do artista ao mundo em que vivemos, embora não consiga realizar o ato de rebeldia, a obra de arte. No nosso tempo presente, vigora a sensação de que prevalece apenas o sufocante e puro princípio de realidade. É muito triste que assim seja. A arte e o seu criador, o artista, são censurados,  banidos ou ignorados o tempo todo e por diversos meios.  Não há horizonte visível, ao menos para mim, de libertação dos seres humanos pela fruição da arte. E me pergunto muitas vezes que significado pode ter um direito, mesmo que inalienável, se não se pode o exercer, ainda que parcialmente? Me permita repetir o que já disse antes: o fosso é muito profundo entre a fome e o se sentir saciado, tanto pelo pão quanto pela cultura. Diria que é o fosso da terrível desigualdade, em todas as suas formas de aparição, na realidade contemporânea. E contudo, quando se sente fome, acredito que ainda vale parafrasear o poeta Garcia Lorca – e há ainda quem o faça sim! e aos gritos! – que meio pedaço de pão aplacaria a necessidade básica de todo ser humano, caso chegasse acompanhado de um bom romance.

 

DA – Por falar em psicanálise, há um exercício de escutas que norteia a relação entre a personagem-narradora e  Daniela, servindo de base para a exposição dos relatos e situações. Em que medida a sua porção de psicanalista auxiliou nessa construção?

LELITA OLIVEIRA BENOIT – Você tocou num assunto muito importante para o processo de elaboração do meu romance. Antes de tudo, devo confessar que o meu ser psicanalista só se mostrou por inteiro após finalizar as escutas de Daniela.  Me explico. Foi a moça que me revelou o que eu não sabia ainda, ou não era bastante claro para mim. Daniela me disse que eu tinha sido a sua psicanalista durante um longo tempo, um ano ou mais. Se bem que,  acrescento eu, não nos moldes tradicionais. Era eu que me deslocava até o apartamento de Daniela. Não havia, como o habitual, o consultório da psicanalista.  Não recebi  pagamento em dinheiro por tais escutas.  Porém outros detalhes ocorriam. Dois significativos exemplos: o tempo sempre fechado da escuta e Daniela me revelando segredos. Sim, segredos os quais, após o romance já composto, ela resistiu bastante quanto à publicação de alguns trechos, pois seriam seus “segredos”. Hoje, quando  junto as pontas do já acontecido,  se revela para mim um exercício de inspiração psicanalítica intensa no decorrer da escuta não apenas de Daniela, mas igualmente, do pai da moça, o médico Alberto, da advogada Cleide e das demais pessoas, de cujas falas me ocupei para a construção – um tanto caótica, confesso –  do enredo do meu romance. Veja só que precisei de mais de quatro anos até colocar um ponto final em tudo. E enquanto isso não acontecia, não era muito claro para mim o significado e os limites da minha experiência de escutas de inspiradas na psicanálise. E vou além. Penso que  as pessoas – que pelo ato mágico da escrita ficcional, tornaram-se personagens do meu romance – todas elas são singularidades humanas, são únicas e insubstituíveis, e se faltasse uma apenas, o enredo não seria o mesmo, se enfraqueceria muito, ou talvez nem sequer existiria. Pois nunca se tratou de um enredo construído conscientemente, foi muito mais uma escrita beirando a desordem, durante aquele tempo em que fui sugada pela vida.  Talvez por isso, no romance finalizado, conservei por inteiro as vozes que escutei. Mesmo que eu tenha enlaçado  as falas das pessoas-personagens naquilo que é só meu, a minha rede de pescadora das vozes de Outros e que resultou no meu eu-literário.  Aquela que sou sustentou aquela que inventou a fantasia de Outros e a minha, a um só tempo. Isto tudo acontece sempre na escrita de qualquer romance? É a minha pergunta ainda sem resposta. E nem pretendo encontrar uma que seja acabada e, portanto, sem vida, fria e morta.

 

DA – É interessante perceber que o processo autoral no seu romance acaba resultando numa convergência de vozes. É a sensação ali de não se ter uma autoria fixa, centrada num sujeito apenas, mas na intersecção de subjetividades. Desde sempre você apostou conscientemente nisso?

LELITA OLIVEIRA BENOIT – “Convergência de vozes” e  “intersecção de subjetividades”: bonito! Gostei das expressões, ou melhor, da sua interpretação. Essa pergunta me conduz a  Roland Barthes (brilhante escritor, quase “démodé”, infelizmente…). Me recordo de Barthes discorrendo sobre a “morte do Autor” e dando a própria interpretação da literatura e do romance, em particular.  “A escritura é a destruição de toda voz, de toda a origem… a começar pela do corpo que escreve”.  Destruição das origens, a do corpo que escreve e de sua voz. Com qual finalidade Barthes decreta a morte do Autor? Para realçar, penso eu, a própria escrita ficcional e dar espaço para que falem as múltiplas vozes ali acolhidas. E igualmente, para destacar a importância singular do Leitor.  Sem leitores não há romance que se sustente no presente, ou que perdure por muito tempo. Você me perguntou se foi escolha consciente o ato de descentralizar ou dissolver a minha autoria na “intersecção de subjetividades”. Respondo que sim, foi consciente, e ao mesmo tempo, que não foi consciente. Explico o sim: é porque pertenço a uma geração que tendia ao coletivo,  ao partilhado. O romance é lugar ideal para manifestar as vozes que me habitam. E Barthes, de certo modo, falava e escrevia para esse meu outro tempo, talvez por isso esteja um pouco fora de moda. Agora, o não. E é bem difícil de explicar que não foi inteiramente um ato consciente, que eu me inclinava, de certo modo, à minha anulação. Dei voz a  tantos, partilhei com muitos a minha voz de escritora.  Olhe, tenho que detalhar alguns dos meus procedimentos literários.   O gravador de voz  foi o instrumento mais importante para realizar as escutas. Escutava ao mesmo tempo que gravava e depois, eu mesma elaborava as falas, cuidadosa em conservar o melhor: o ouro, ou o mais precioso delas. Ressalto, ainda uma vez mais, que há outras vozes – além das pessoas reais, transformadas em personagens da minha ficção – vozes que recolhi da história escrita do povo judeu, do melhor da literatura judaica, das preciosas citações da Bíblia Hebraica. E é certo que, poucas vezes, me deixei falar, a minha voz é silenciosa, quase ausente. E quando aconteceu de eu falar… Bem, você já sabe, é o meu eu-literário que se apresenta, um “eu” que é ficção do que eu sou. No meu romance, outra vez trocando em miúdos, me apresento como uma quase mentira de mim mesma, fantasia do meu eu.

 

DA – É impossível não notar como a ideia da fé atravessa todo o seu livro. Nesse contexto, as citações de passagens da Bíblia Hebraica estão sempre a introduzir cada capítulo e acabam dialogando, de algum modo, com a atmosfera que emana das narrativas. Diga-se de passagem, a saga do povo judeu, em especial, é algo emblemática no transcurso da história, sobretudo pelos desafios enfrentados. O caminho da espiritualidade é uma via de esperança?

LELITA OLIVEIRA BENOIT – As suas perguntas me jogam sempre para o lado de escritores que me apaixonam! Como a atual. E agradeço por me dar a oportunidade de dizer algo, ainda que bem sucinto, em torno do escritor judeu israelense Amós Oz. A Bíblia Hebraica entrou no meu romance por intermédio dos seus ensaios de Os judeus e as Palavras. Oz, em um deles, se autodenomina “escritor secular” e demonstra ver na Bíblia Hebraica o lugar da pura literatura, e da mais alta qualidade, encontrando nela poesia e encantamento. De passagem, recordo que Amós Oz possuía uma grande e fértil erudição, que se manifestou em diversas direções, como no romance Judas e na autobiografia De Amor e Trevas. E há mais, muito mais que não caberá nesta simples resposta. Oz escreveu, neste ensaio que citei,  que o povo judeu tem uma relação muito particular com as palavras. Durante séculos e séculos, não tiveram outra terra ou país a não ser o das palavras, a começar pela Bíblia Hebraica, ou a Torá, para ser mais precisa. E quando alguém folheia, de modo despreocupado, o meu romance O Enigma de Daniela, encontrando lá, em suas páginas, citações bíblicas, norteadoras de cada um dos seus capítulos, poderá talvez pensar: “Caramba, este deve ser um romance religioso”. Mas não é de modo algum. É, isto sim, um livro que muito  gostaria de cativar os seus leitores com palavras e apenas palavras, através de existências humanas significativas, vivas, como quando ocorre, em suas páginas, o enfrentamento de quase intransponíveis desafios diante de um acidente criminoso e que abruptamente atingiu a jovem mulher judia Daniela, de apenas 23 anos, roubando-lhe os movimentos mais importantes do seu corpo. Para completar, lembro aqui de um tema presente no meu romance, o da complicadíssima relação entre religião e tradição judaicas. Dou um exemplo que me chega das minhas relações pessoais, portanto, de fora do romance.   Tenho uma grande amiga cujo pai era  judeu alemão e que imigrou para o Brasil nos anos da 2ª Guerra Mundial. Este senhor era ateu e marxista, no entanto, colaborou financeiramente para a construção da Sinagoga do Rio de Janeiro. Me parece que muitas vezes é bem complicada para os judeus e judias resolverem a equação religião versus tradição. Enfim,  se tenho alguma fé, é nas palavras escritas, no seu poder de encantamento, que pode mover o íntimo das pessoas para algum lugar melhor, dentro ou fora delas. Mas há também, nos dias atuais – e aliás, sempre existiram –  palavras que ferem e, às vezes, são letais. Difícil de responder… Me afasto sempre de caminhos pré-fabricados. E de um poema me lembro agora, do espanhol Antonio Machado, que assim escreveu: “Caminante no hay caminho, sino estellas en la mar”.  A ver

 

Foto: Julieta Benoit

 

 DA – Que espécie de polêmica a capa do seu romance gerou?

LELITA OLIVEIRA BENOIT – Ótima pergunta, que me possibilita dizer algo a esse respeito. Mas, antes de tudo, gostaria de agradecer ao excelente e prestigiado fotógrafo Ângelo Pastorello, que assina a foto de capa do meu romance. E também ao artista Eder Cardoso que compôs a capa a partir da foto de Pastorello, e ainda é o criador do bonito projeto gráfico do meu livro. Indo agora direto à polêmica, que dividiu opiniões. Alguns, que criticaram insistentemente a foto, disseram que se trata de um resultado fotográfico resvalando a publicidade, talvez um kitsch fotográfico. Outros, que a aprovaram – aliás, a maioria – viram nela algo próximo a conceitos da “pop art”. É engraçado, pensei, que uma opinião não anula a outra, mas se complementam. Preferi  então beber na fonte e fui conversar com o fotógrafo Ângelo Pastorello.  Diálogo bastante interessante e  bem surpreendente, pois  me remeteu às minhas escolhas – ou não-escolhas, para ser mais precisa – na escrita de O Enigma de Daniela. Veja, de forma bem sucinta, o que Pastorello me revelou. Que nunca teve como ponto de partida um conceito, em particular. A sua única escolha foi a de fazer um portrait, ou seja, um retrato espontâneo, sem truques, em interação viva e livre entre o fotógrafo e a pessoa fotografada, no caso, Daniela.  Para fazer o retrato, apenas escolheu, isto sim,  o tipo de luz, uma luz mais volumosa, luz de cinema,  para acentuar as expressões faciais e corporais da moça. De resto, completou, tudo aconteceu de maneira empírica e espontânea, entre o fotógrafo e Daniela.  Enfim, Pastorello ressaltou bastante que não foi guiado por um ou outro conceito, e é bastante subjetivo falar de conceitos em fotografia. Se dissesse, por exemplo, que a intenção era a de passar a seriedade ou o humor da moça, isto não seria completamente verdadeiro.  Pois sempre é o ponto de vista do fotógrafo que prevalece, um olhar apoiado por um aparato técnico-fotográfico. Enfim, nada tem a ver com conceitos pré-estabelecidos, específicos e, durante a sessão de fotos – que se prolongou por um dia inteiro –, nas palavras de Pastorello, “deu-se a liberdade de improvisar”. E concluiu me explicando, uma vez mais, que a imagem carrega muito da subjetividade do próprio fotógrafo, mas acima de tudo, a de quem olha a foto.  Na verdade, é ainda mais importante, pois a pessoa olha e sente a imagem de acordo com o seu Universo próprio e único.

 

DA – Você me confidenciou que estava trabalhando num novo livro. O que pode nos dizer a respeito desse futuro projeto?

LELITA OLIVEIRA BENOIT – Sim, revelei um segredo para você. Mas posso adiantar algo sobre esse novo projeto, já em curso. Será (ou já está sendo) um romance de vidas, como foi O Enigma de Daniela. São muitas vidas femininas que estou agora abrindo a minha escuta às suas vozes internas: seus gritos de aflição, de dolorida existência e também, aos seus desejos mais intensos. Os meus dedos de romancista tocam a vida real de mulheres, envoltas em grandes dificuldades e lutando contra elas, o tempo todo. São dificuldades, diria eu, diferentes daquelas enfrentadas pela família judia Bortman e, em particular, pela mulher Daniela. São dificuldades vivenciadas por muitas mulheres que se remetem à pobreza material,  à falta de moradia digna, de uma formação escolar humana.  Sendo de natureza material e espiritual, as muralhas erguidas por tantas dificuldades seguem tentando impedir ou talvez, espedaçar o futuro dessas mulheres entristecidas, mas resistentes. Os seus sonhos femininos persistem com tenacidade, com admirável beleza, apesar de tudo e contra tudo, insistem em existir.  Sobreviventes no caos do dia a dia, universo que as sufoca. Ao sofrimento feminino estou abrindo a minha escuta neste novo romance de vidas. Nele, insisto, é acima de tudo a voz feminina que fala. Já tenho um título, talvez provisório: O deserto e o canteiro belo. Invenção de uma jovem mulher, desprovida de tudo, mas ainda assim, dotada de imensa criatividade. Aliás, como o atual romance, O Enigma de Daniela, cujo título foi escolhido pelo médico neurocirurgião Alberto Bortman, pai de Daniela.  Pois, a criação de um romance de vidas envolve sempre a escritora, o meu eu-literário, e as vozes que nele acolho – como que encantada! Sim, encantada, surpreendida e, sobretudo, emudecida. Sempre tentando transformar tragédias em literatura, em romances, em poemas. Mesmo que apenas seja beleza literária, e no papel lançada.

 

DA- Afinal, por que escrever?

LELITA OLIVEIRA BENOIT – Sem escrever, nada sou. É tão natural como respirar, sabia?  Sem escrever, não há como eu sobreviver. Questão de vida ou morte, ao menos para mim. Escrevo como respiro: se me faltar a possibilidade de escrever, é o mesmo que me sentir sufocada ou sem ar respirável. Ao final do processo de escrever poemas ou romances, ou até mesmo, artigos ou livros de filosofia ou psicanálise, sinto –  é sensação, sim! – que vozes múltiplas falam através das minhas palavras. De certo modo, já me habitavam desde não sei quando.   Sou apenas a voz de Outro.  Procuro ser a transcrição poética das vozes que sendo de Outro, coincidem, de algum modo, com o meu eu-literário, o eu que escreve – e respira! Reforço: até mesmo na escrita teórica, de natureza filosófica ou psicanalítica. Como disse no começo desta conversa inspiradora – à qual só tenho que agradecer a oportunidade – sinto intransponível dificuldade de interpretar a minha escrita. Respiro: eis tudo… Quando faço tentativas de buscar sentidos na minha escrita, o ar me falta, fico ofegante, gaguejo, ou sei lá o quê… O que pode ter acontecido, no decorrer desta entrevista.

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista e mestre em Letras.

 

 

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132ª Leva - 04/2019 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Não calar a voz diante da vida, seus desígnios, chamados, imperativos e desafios. Não se curvar a toda sorte de vaticínios propalados pelo pensamento autoritário e totalizante. Não deixar de ser parte nos processos que compreendem o entendimento de nossas humanas idades. Tomadas assim, em doses contínuas de arremessos, tais negativas resumem em si o gesto mobilizador de uma existência que não se furta a travar inalienáveis combates com o Tempo. Ah, o Tempo, este senhor de domínios difusos, majestoso disseminador dos mistérios nos trajetos que cada ser experimenta. Se saber e sabor caminham juntos, o ato performativo de viver parece se perder na amplidão do mundo, arranca deste a marca poética do sopro vital.

De todo o acima dito, o agregar de tenacidade, vivacidade, paixão e intensidade serve bem para apresentar uma pessoa como Rita Santana, Mulher, Poeta, Professora, Atriz e Artista. Todos esses atributos, assinalados aqui em iniciais maiúsculas, são mera tentativa de enfatizar atuações de relevância diante da constatação de que os papéis desempenhados pela artista em questão são feitos com a vivência apaixonada da verdade. Mas o exercício da verdade aqui é, dentro dos mergulhos pessoais, a noção de que uma pessoa como Rita pensa para além dos seus domínios, engendrando em seu ofício de escritora a manifestação ativa da preocupação com o coletivo, com o Outro. São percursos reflexivos que denunciam violências e tiranias, mas que também sabem ofertar, sobretudo em versos e opiniões, proposições necessárias de delicadeza e sensibilidade.

Autora de obras impactantes como “Tratado das Veias” (Letras da Bahia, 2006) e “Alforrias” (Editus, 2015), dentre outras, Rita Santana compartilha agora conosco toda a pungência lírica que habita seu mais novo livro de poemas, o emblemático “Cortesanias” (Caramurê, 2019), cujos versos desnudam significativas tensões e encantamentos da condição humana. Na conversa que agora segue, Rita acolhe a Diversos Afins para manifestar não somente confissões em torno do impacto de seu novo rebento, mas principalmente para falar de si, dos processos individuais que desaguam na sua criação de modo determinante. Perseguidora da Beleza, estamos diante de uma artista profundamente marcada pelos desatinos que testemunhamos no presente. São reflexões que fazem com que cada recanto desta entrevista contenha em si demonstrações de lucidez e entrega.

 

Rita Santana / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Seu mais novo livro, “Cortesanias”, mostra uma Rita Santana no apogeu de sua maturidade poética. E dizer isso não significa que todos os aprendizados estejam postos e encerrados em si mesmos, mas refletem uma consciência de mundo bastante expandida. Como você percebe esse momento?

RITA SANTANA – É um momento de muita liberdade, mais ousadia, menos freios.  O Tempo tem sido generoso comigo, pois ando mais feliz, mais disposta aos erros, aos desafios, às alegrias. Busca! Sou uma mulher de buscas! Hoje, quero alegrias, curto alegrias, vivo as alegrias. Menos preocupada com aquela felicidade idealizada de outrora. Vivo uma Solidão prazerosíssima! Quando tenho tempo livre, estou sempre assistindo coisas, lendo, ouvindo música. Sinto falta do Mar. Sinto uma falta tremenda do Mar! Vivo a minha maturidade, ainda povoada de pequenos equívocos, mas com uma consciência maior sobre tudo que me atinge, tudo que atinge o outro. Dou um foda-se muito mais intenso a qualquer um que tente atropelar minhas opções, meu caminho, meu estilo, meu jeito, minha obra, minha vida. O mundo exterior, as opiniões importam cada vez menos. Gosto de mim pra caralho e de tudo que construí, o meu universo. Assim,  chega Cortesanias, em plena maturidade! A proximidade da velhice me permite ser com uma fluidez deliciosa. Ser com mais verdade. Ando mais disposta à vida, enquanto envelheço. Completei 50 anos! Não sei se o livro revela ou não uma maturidade poética, mas revela certamente a minha disposição para ousar, para ser fiel ao meu desejo de expressão. Tudo convergia para uma situação de plenitude e de felicidade.  Arrisquei assumir minhas paixões que fervilhavam naquele momento: a pintura, as artes plásticas, a Música – de maneira sub-reptícia, pois não entendo tecnicamente nada de música, sofro com uma desafinação congênita e constrangedora, mas amo a Música! Não vivo sem Ela. É ela quem busco quando escrevo prosa ou verso. Cortesanias reflete esse momento de assunção dos desejos. Sou uma escritora comprometida com o meu Tempo e tento acompanhar suas demandas, mesmo que de uma forma às vezes anacrônica, com a minha linguagem arcaica, modos arcaicos, estilo distante desse Tempo que eu persigo. Ideologicamente, abordo no livro questões que me afetam profundamente e que sacolejam meu equilíbrio no mundo. Vivemos tempos de desmoronamento absoluto de todas as certezas. O que você chama de expansão talvez seja um momento de muita contemplação que vivi de forma intensa naquele período que antecedeu e encontrou a feitura do livro. Me sentia drogada, como se estivesse alterada o tempo inteiro. Uma sensação sinestésica que me atravessava – e ainda atravessa de outra forma – a minha vida, o meu olhar.  Calhou de receber minha licença-prêmio e ter tempo para viver com mais intensidade aquele momento. Há algo muito especial que influencia o livro: o plantio e a espera da germinação das sementes. Compro sementes e aguardo a surpresa das flores, acompanho o processo e essa atividade me dá um prazer terrível! O livro é fruto dessa paixão pela beleza! Persigo a Beleza! Durmo com as cortinas abertas e observo o movimento dos astros! Fotografo os amanheceres e os versos expressam essas experiências. Sou louca! Eclipses, planetas, o Cosmos, tudo isso me atinge em cheio e o livro é a revelação dessas paixões, obsessões. Talvez daí essa sua afirmação de expansão, pois Cortesanias é fruto desse processo de observação, descoberta, pesquisas. Cortesanias é o meu olhar e a minha oferenda à Beleza.

 

DA – “Cortesanias” abarca também um sentimento de partilha social, do envolvimento com as questões vividas coletivamente. Isso, por exemplo, aparece com força num poema como “As Comedoras de Batatas”, o qual também exorta uma comunhão do feminino, traço forte de sua caminhada enquanto poeta. Que tipo de reflexões essa atmosfera movimenta em você?

RITA SANTANA – Eu sou uma artista de esquerda e sempre convivi com petistas e comunistas. Tenho um sentimento de que precisamos tornar o Brasil menos excludente, mais justo, melhor.  A tela de Van Gogh toca essa sensibilidade, pois estamos diante da miséria, da pobreza e da exploração, no entanto, há uma mesa em torno da qual se compartilha o alimento, comem batatas. Van Gogh fez-se um deles, viveu como eles para experimentar a alteridade com mais verdade. Isso trouxe para mim, diante da tela, a consciência de que, mesmo na Literatura, travamos embates de gênero, de classe, racismo, intolerância, pensamentos excludentes. Vivenciei um conflito coletivo com mulheres no qual essas questões explodiram de forma danosa para o coletivo ou os coletivos envolvidos, forjaram rupturas irremediáveis dentro de mim, mas, principalmente, possibilitaram um olhar ainda mais arguto para uma multiplicidade de interesses, omissões, posicionamentos e posturas nesse meio literário especificamente – éramos mulheres e escritoras! Daí, convoco as mulheres escritoras que comem batatas comigo, que compartilham o pão – como companheiras, camaradas. Mas também resolvo a querela real, através do recado simbólico que deixo ali, também para mim que sofri reformulações e aprendizagens. Faço uma analogia com o MST, o lado em que estou e o outro lado, o lado de mulheres que são donas de vastas terras improdutivas e não estão dispostas à empatia! Apesar do discurso pomposo de coletividade, de igualdade, permanecem alheias ao outro, às outras e suas idiossincrasias, sua realidade de exclusão, invisibilidade. Na hora H o que preponderará será o pensamento das brancas, classe média, legitimadas como escritoras. O momento é de deslocamento. Saio desse embate mais forte, mais combativa e mais corajosa. Com perdas, muitas perdas.  Às vezes, também sofro de prepotência e julgo o meu discurso perfeito, corretíssimo, sem observar o lugar de fala; sem atentar que há um discurso muito mais pertinente que o meu, o discurso de quem sofre na pele a dor. Estou muito disposta a aprender e essa disposição é indispensável para a transformação que almejamos. Hoje, sofremos a morte de Ágatha Vitória Sales Félix, fuzilada no Rio de Janeiro, hoje foi o seu sepultamento. O poema me conecta com uma coletividade de mulheres negras que perdem seus filhos, filhas; com uma gente que teme o retrocesso político que vivemos com censuras impensadas na arte, na cultura, através de discursos absolutamente deploráveis que foram legitimados pelo povo brasileiro nas urnas. Os coletivos são difíceis! A minha forma de atuar no coletivo é através da minha atitude pedagógica como professora, promovendo sonhos, reflexões e transformações sociais e como escritora denunciando injustiças, criando imagens e delírios, fazendo arte. Sou cada vez mais combativa! Estou entre todos, todas e todes que sonham um mundo melhor. Aprendendo com Malala, Greta. O diálogo com Van Gogh é um sonho porque como artista também sou vulnerável, confusa, desejosa, débil, o oposto do que acredito, contraditória, insana e sonhadora. Uma feminista aprendiz cheia de conflitos com a velha Rita. Mas tenho 50 anos e estou mais disposta aos enfrentamentos comigo mesma e com esse mundo escroto que temos que enfrentar diariamente.  Um mundo velho demais para tantos desejos lindos!

 

DA – Estamos vivendo um processo de desumanização, através do qual também perdemos esperanças, seja aqui ou em outras partes do mundo?

RITA SANTANA – Desumanização plena! As máscaras caíram. Falar em direitos humanos hoje virou uma piada, é preciso ter coragem, inclusive na escola, espaço que sempre foi de respeito aos direitos humanos, à Democracia. É preciso exercer uma verdade muito plena interna para se dispor a Ser e exercer a liberdade de cátedra, expondo e revelando a sua formação humanista, humanitária, respeitosa às leis. O discurso das armas venceu as eleições no Brasil, no Rio de Janeiro. Vivemos um pós-golpe, onde uma mulher foi destituída do poder por crápulas, alguns presos, com discursos absolutamente ridículos, violentos, desumanos. A sociedade se mostra violenta, homofóbica, racista. A elite brasileira se sentiu ameaçada com a nossa ascensão em universidades, em ministérios, em espaços de poder: mulheres, negros, gays, lésbicas, indígenas. As elites não suportaram! Aqui, vivemos ainda uma sociedade colonial, com pensamento escravocrata, excludente. No entanto, tenho esperanças! Sempre terei esperanças! Ainda temos leis que respaldam a sociedade e temos a nossa voz. Há artistas! Ainda temos muitos professores e professoras decentes em nosso País. Retomaremos o nosso País! Retomaremos o caminho da busca por uma justiça social, sim. Sou das Utopias! Cresci ouvindo os tropicalistas e nasci em 1969, um ano de transformações e sonhos. Convivo com muitos alunos e alunas que sonham e que mantêm um olhar crítico e sensível, portanto, há Esperança! Aqui e acolá temos decisões judiciais que retomam a Democracia. O Intercept revelou o que já supúnhamos e transformou o olhar de muita gente sobre  Moro e sua turma. É óbvio que meu coração anda susceptível e a tristeza diante desse quadro político é perturbadora. Óbvio que tudo é desalentador diante do retrocesso que vivemos. Estamos adoecendo! Mas há a Poesia, a Arte e jovens atentos. Há Glenn e suas denúncias! Há reações contundentes contra os fascistas. Somos muitos! O mundo está conosco contra o discurso misógino de Bolsonaro e sua família! Há Resistência! Há a Literatura e ela humaniza.

 

DA – Avançamos um pouco no que se refere à participação dos segmentos minoritários na literatura brasileira?

RITA SANTANA – O Brasil é racista! A Literatura não é uma ilha alheia ao País. Nossas vozes hoje são mais ouvidas, indubitavelmente. Entretanto, é como se estivéssemos em compartimentos específicos, em gavetas que são abertas em horas apropriadas para razões específicas, interesses. Durante os eventos, sinto que nos apartam das escritoras e dos escritores consagrados, como se um abismo nos separasse dessa camada olímpica. Quando há mesas de escritores, geralmente são os mesmos nomes de sempre. Nossas mesas são dedicadas às mulheres, às mulheres negras, às vozes divergentes. Acho ótimo participar e estar entre os meus, entre as minhas, mas constato também que o confronto de vozes e experiências tão absolutamente diversas seria ainda muito mais rico para os eventos, para os possíveis e futuros leitores. Sempre que posso, denuncio e registro esse incômodo. Durante uma edição da Flica, Aidil Araújo Lima esteve numa mesa com Julián Fuks, sou apaixonada pela escrita de ambos e só perdi aquele encontro porque a minha mãe adoeceu. Essa possibilidade de diálogo me interessa muito. Fiz o prefácio do livro de Aidil , “Mulheres Sagradas”, e li “A Resistência” de Fuks. Imagino como deve ter sido lindo o instante em que ambas as delicadezas se tocaram. Não importa a disparidade midiática que corta e separa seus nomes e suas vivências. Espero que esse seja o novo momento: o momento dos encontros improváveis, dentro da velha perspectiva canônica. Assim, os abismos culturais são atenuados. Ou não?! Há um movimento de Leitoras de mulheres, Leitoras de mulheres negras que mobiliza muita gente por todo o país e, principalmente, leitoras qualificadas, envolvidas, politizadas. Além disso, as universidades se abrem – mesmo que com alguma resistência – às vozes que destoam/diferem/ou não são canônicas/ do canônico, para eventos importantes, tradicionais, com reconhecimento histórico; há uma divulgação das nossas poéticas nas graduações e se torna cada vez mais frequente o estudo de nossas obras na academia, o que considero uma das maiores riquezas que o Universo nos proporciona, pois, simbolicamente, é preciosa demais a dedicação em torno de nossa escrita, o registro permanente nas faculdades, ou seja, a inserção de nossos nomes em um dos mecanismos canonizadores mais vigorosos da sociedade. Legitimidade! Apesar dos avanços, percebo que são poucos e poucas os eleitos negros para que se destaquem no mundo literário e as razões me parecem quase sempre extraliterárias! Não sei! As pesquisas revelam e observo uma preponderância branca, classe média, masculina entre os escolhidos. Mulheres e homens do eixo Rio/São Paulo, quase sempre. O resto do Brasil parece resistir em reconhecer os nomes que temos, como se não houvesse talento ou vida literária no Nordeste e no Norte! São minhas impressões, minhas inquietações, observações.  Elegem alguns escritores negros e algumas escritoras negras para que o abismo não se torne um vexame ainda mais explícito. O desconhecimento, a falta de circulação de nossas obras não significa que não tenhamos tesouros preciosos em nosso território. Portanto, vivemos uma segregação! Nossos textos ainda são medidos com referências pautadas nos preconceitos arraigados numa sociedade com padrões eurocêntricos, com referenciais projetados por processos midiáticos, e razões que nem sempre passam apenas por critérios literários. São muitos os dados que movimentam o universo literário, o mercado. É um campo que reflete tantas de nossas exclusões. As minorias sociais ainda precisamos de muita luta, resistência e insistência para que um dia a História seja outra e tenha muitas faces, reflita a nossa diversidade em gênero, etnias, classes, origens… A inserção dessas minorias nas universidades brasileiras certamente será e é um agente de profundas transformações em todos os campos e esse movimento é irreversível e pungente. Há revoluções no cinema negro, no cinema de mulheres negras e tudo isso é fruto de um projeto político de inserção social que tomou conta do País e transtornou a elite brasileira. A revolução está em curso e é poderosa!

 

DA – Você é bastante ativa nas mídias sociais, sobretudo no que se refere a divulgar sua obra e aspectos de seu processo criativo. Vivemos na contemporaneidade uma tendência de que o autor cuide de sua produção e também a faça circular, espécie de curadoria de si mesmo. Como equilibrar as ações num tempo em que a superexposição da vida privada, nalguns casos, parece adquirir mais relevância do que a obra?

RITA SANTANA – As redes sociais são utilizadas por mim primeiramente porque, como professora, preciso me atualizar e fiz alguns cursos pelo estado em que aprendíamos a utilizar algumas ferramentas. Uma necessidade de acompanhar o meu tempo e, desde sempre, divulgo a minha escrita, a escrita de outras escritoras. O próprio blog surge assim, após aprender o básico, criei Barcaças com o  propósito de divulgar meus interesses, de forma tosca, amadora, e acabei gerando uma rede de conhecimentos e trocas que se tornaram importantes para a escritora. O blog está desativado por algumas razões: escassez de tempo para alimentar suas páginas e completa incompetência para resolver problemas técnicos. Nunca paguei a um profissional para alimentar minhas páginas, infelizmente. O Facebook promove uma série de prazeres e satisfaz algumas necessidades. Além das trocas intensas entre escritoras e escritores, leitura de textos e oportunidade de conhecer muita coisa e autores bons que circulam na rede,  muitas vezes facilita contatos profissionais importantes que seriam abortados, caso eu não estivesse lá, exposta. Há o aspecto político, fundamental, da informação que circula por lá. É uma ferramenta de militância política, onde explicito opiniões e posicionamentos, e faço camaradagem virtual com intelectuais de esquerda. Há divergências e convergências importantes para resistir aos tempos atuais. É fortalecedor saber que há muitos de nós no mundo dispostos ao Belo e à Justiça. Há uma teia de notícias que circulam na rede e que têm uma qualidade que não constatamos em velhas estruturas midiáticas. Há embates, perdas. Serve também como uma peneira ideológica que me guia sobre confiança, admiração e respeito. Exercito generosidades e aprendo com as generosidades alheias. Faço alguns filtros para não adoecer com tanta gente violenta e perversa. Não exponho minhas dores ou pelo menos não o faço de forma escancarada. Não sinto necessidade de que a rede se torne um confessionário, tento apenas dividir beleza, quando possível, literatura ou impressões políticas. Não estou no mercado e não sou uma criatura midiática; sempre me assusto quando alguém me diz: estou te seguindo! Sou velha demais para certa semântica. A  entrada no instagram se deu primordialmente por causa de Cortesanias, do seu lançamento. Sempre tenho uma responsabilidade com os meus livros, principalmente no período de lançamento e, como  sou tosca, muito ilhada no meu universo pessoal, torno-me uma senhora que busca se atualizar para acompanhar tantas mudanças e não me sentir – como me sinto – tão incapaz de vivenciar tantas experiências, linguagens e ferramentas que se tornam obsoletas a cada segundo. Faço reflexões sobre a exposição excessiva e ainda não cheguei a um termo, mas sinto necessidade de um certo afastamento, às vezes, sem fazer alarde, sem proclamar a minha ausência futura, enfim! Quando preciso de férias, eu busco férias. Há também o aspecto lúdico! As redes são um jogo interativo, de trocas, perdas, duelos, guerras, máscaras, egos, ilhas paradisíacas onde encontramos conhecimento e beleza, aprendizagem. A sua revista é uma prova disso e há outras tantas possibilidades de experiências profundas assim. Não sou uma celebridade, por isso  me sinto tranquila no que exponho; número de seguidores ínfimos e completamente incompetente e indiferente às disputas. O que realmente me faz feliz é tocar sensibilidades com o que escrevo. É o sentido maior. Resisti ao instagram, mas estou gostando da coisa: moda, arquitetura, designers, notícias de artistas que gosto, imagens. Quando me sentir adoecida com tudo isso, procurarei – e talvez já seja a hora – a cura, o afastamento ou um equilíbrio maior. 

 

 

DA – E a porção atriz de Rita Santana? Algum retorno pensado ou em curso?

RITA SANTANA – A atriz é cada vez mais um retrato na parede. Hoje, estou cheia de vontade mesmo é de me aposentar e ter mais tempo vago para mim e meus projetos, prazeres. Estou afastada do universo do teatro e isso é muito sério, quase irrevogável. Às vezes, penso que, após a aposentadoria, farei oficinas de voz, dança, dramaturgia e assim me aproximarei da atriz. Mas não sei. Quero Tempo para o sossego, a paz. Pretendo evitar o trânsito, pois ele é infernal e me adoece. Quero ler os livros que me esperam, retomar velhos projetos de escrita e criar novos. Quero ver o mar mais vezes, ir muito à praia. Tudo, hoje, requer muita coragem. Até ir à praia requer coragem. Cheguei aos 50 anos e sou muito fiel ao que eu sinto. Não sei o que sentirei nesse processo de construção de novas identidades, novos desejos, novos lugares, deslocamentos.  Recentemente, vivi uma tragédia familiar e isso também macula os projetos futuros, macula um pouco o brilho dos desejos. As perdas profanam os desejos, os sonhos. A vida é muito séria, assustadora. Quero ir mais ao cinema, frequentar exposições. Tudo isso é tão caro e me dá tanto prazer, que talvez a atriz deva ir mais ao teatro, simplesmente. Ler mais dramaturgia, escrever talvez, peças de teatro. O estado sombrio do país também causa um pânico interior, um medo, um estado de insegurança. Todo o cotidiano está muito feroz, selvagem. Os projetos pessoais perdem a importância diante do risco que corre toda uma coletividade. Sem exageros! O país me afeta! O país me afeta muito. Sou essencialmente política. Enfim, há uma melancolia pairando no ar.

 

DA – A Literatura tem algum compromisso?

RITA SANTANA – O professor Antônio Cândido escreveu “Direito à Literatura”, onde ele explora o caráter imprescindível da Literatura para o ser humano. Ele diz: incompressível! Outro dia, li que um país inseriu o livro entre os direitos básicos do cidadão, como mais um dos itens de uma lista que envolve alimento, moradia, água, educação. E é isso! A Literatura é essencial para o processo de humanização, de sensibilização. A Arte é libertadora! Quem faz Literatura deve ter um compromisso com a sua Arte, com a sua expressão, a expressão dos seus sentimentos, das suas inquietações, do que deseja revelar ao mundo ou decifrar com o mundo, compartilhar. A partir desse compromisso com sua própria verdade interna, outros compromissos se firmam com as pessoas, com a sociedade, com a transformação do outro. Se o artista tem compromisso social, responsabilidades políticas com a sociedade, ele vive esse compromisso sempre, portanto, sua literatura terá esse teor de engajamento, sendo ou não panfletário. Caso não tenha um compromisso político ou social, a sua obra cumprirá o seu papel de reflexão e transformação, provavelmente, porque o tecido da obra é sempre o humano, a humanidade. Como somos seres políticos, aprecio obras críticas, perturbadoras, que me inquietam. A Beleza é transformadora! A Arte provoca – mesmo sem que haja uma militância política da sua autora, do seu autor – transformações: ela modela a alma, lapida a nossa rudeza, nosso lado animalesco, nossa selvageria aniquiladora. Em Cortesanias, dedico muitas páginas à contemplação da Arte, mas sinto a necessidade de olhar para o mundo de hoje, suas conturbações sociais, as injustiças, movimentos migratórios, a onda obscurantista que vivemos hoje. Não poderia deixar de olhar para o Brasil sombrio dos tempos atuais. Censura, perseguições, exílios, prisões políticas e arbitrárias, cortes, perseguição às pesquisas, tudo é muito terrível para que eu permaneça contemplando apenas – e isso já é grandioso! – a beleza das telas, da música. As grandes autoras que li e os grandes autores são artistas que me provocaram emancipações, portanto, o compromisso social, político, crítico é necessário para mexer com as estruturas dos homens, das mulheres, dos jovens. Às vezes, não há esse engajamento, mas a beleza provoca uma sensibilização, um olhar mais delicado para o mundo, e isso também é libertador.

 

DA – Que tipo de relação você estabelece com o silêncio?

RITA SANTANA – Outro dia, ouvi um cara dizendo que o silêncio não existe! É física acústica! (risos) Eu tenho uma relação muito íntima com o silêncio, mas sempre um silêncio que tem som. Antigamente eu tinha um sonho – um sonho primordial – que se repetia: umas esferas que levitavam, gigantes, e o ruído eu sempre associei ao barulho do útero. Nunca mais tive esse sonho, mas ele me acompanha na memória. Moro sozinha! Passo muito tempo só e isso me liga à possibilidade de ficar muito livre comigo mesma, num solilóquio profundo e divertido. Sim, eu me divirto muito comigo e com minhas loucuras! Ouço muito música clássica, e fico muito tempo envolta no silêncio da música, no silêncio da Casa, em meu silêncio interior. Sofro com o barulho dos ventiladores em todas as salas em que leciono; acho perturbador; acho que parte do cansaço e stress do cotidiano vem daí; os alunos ficam excitados demais, enfim. Professores gritam na hora do intervalo, enquanto conversam, e isso me perturba profundamente. Nós, professoras, falamos muito alto! Então, estar em silêncio, em Casa, é como estar num santuário, num monastério ou recolhida num terreiro de Candomblé, que também deve ser assim, imagino, com muitos momentos de silêncio, silêncio interior.  Os livros são fonte de silêncio! Ler é mergulhar em silêncios; escrever é imergir em silêncio! O meu silêncio conversa muito com o silêncio das minhas plantas, com o silêncio das minhas paredes, o silêncio dos meus botões. Isso, esse contato com os silêncios, aprofunda a consciência e a crítica, a exigência sobre mim mesma. Mas isso não me torna uma pessoa melhor! Aliás, isso aprofunda a crítica sobre mim mesma e minhas ações! Hoje, por exemplo, descobri que não sou uma heroína! Não sou uma mulher de atitudes diante das injustiças que tanto proclamo detestar! Vivo o tempo inteiro num jogo de acusações, investigações e perdões comigo mesma! Não tenho paciência com quem perturba a minha Paz e o meu Silêncio! Busco equilíbrio! Há pessoas muito perversas, barulhentas e desequilibradas que podem desestruturar toda a construção perene em que vivo para não enlouquecer. É possível enlouquecer, diante desse ruído político, diante da masculinidade tóxica agressiva que nos cerca, diante da falta de caráter das pessoas. A busca pelo silêncio é também uma forma de permanecer com uma sanidade mínima para se manter viva, em convívio social. A loucura anda à espreita! Eu rezo! Rezar é também se conectar com o Silêncio! Dormir e sonhar me ajudam muito a resolver os eloquentes dramas da existência! Apesar de tudo ser tão dramático, eu rio muito e sou muito leve – acho! (gargalhadas)

 

DA – Enquanto mulher e escritora, que tipo de reflexões a passagem do tempo apresenta para você?

RITA SANTANA – Cheguei aos 50 anos! Como escritora, permaneço em processo de aprendizagem e leitura, carecendo de organização para ter tempo de escrita, mas sem exasperações. Respeito muito o meu Tempo. A leitora anda mais sequiosa de Tempo: quero ler os livros que me aguardam, minhas preciosidades, meus tesouros. Sinto algumas inquietações em relação a minha escrita, mas essa situação agônica sempre me acompanhou e talvez esteja sempre comigo. Inquietação que me faz crescer, promove deslocamentos. Peso muito a minha realidade, minhas circunstâncias quando pondero acerca da minha escrita no mundo. Trabalho 40  horas como professora, assim sobrevivo e não gosto de sacrifícios ainda maiores, não gosto de sofreguidão e esgotamentos, além dos que já tenho. Gosto de respirar, ter tempo para o nada, descansar. Espero que a aposentadoria seja produtiva para a escrita, para a leitura. Espero também fazer bastante sexo durante a aposentadoria e, quem sabe amar com mais leveza; encontrar parceiros mais leves e resolvidos, enfim, mais maduros. Exercitar orgasmos. Quem sabe encontrar parceiros mais amorosos… e continuar, principalmente isso, no meu caminho muito particular de paz, de serenidade, de equilíbrio. Nada nem ninguém poderá desequilibrar essa minha busca, minha conquista! Sou muito feliz sozinha! A mulher de 50 me encontra mais disposta a dar um foda-se para os impertinentes, os tóxicos! Não temo as perdas porque já vivi grandes perdas e estou preparada para continuar vivenciando essas situações, onde a minha sobrevivência deve falar mais alto; a minha dignidade e a minha paz interior. A minha verdade sobrepõe-se a qualquer tirania! A escritora pretende retomar velhos projetos, mas se sabe cada vez mais fiel a si mesma, quase indiferente ao anonimato, ao silenciamento. Fico feliz em ter pesquisadoras lendo e aprofundando a minha obra; fico feliz com as mesas especiais em que dialogo com meus pares, minhas companheiras de escrita. Estou muito mais tranquila como Mulher e como Escritora. Sou uma pessoa muito mais livre, mais corajosa para ser, para assumir minhas vontades. Observo, experimento, vivencio e – após pesar – decido por aquilo que não me fira, não me atinja. Sou nobre demais, deusa demais para aceitar situações indignas, ultrajantes, mesquinhas. Sou inteireza e só posso viver inteirezas, em todos os planos. Gosto muito da construção que fiz de mim mesma; gosto muito de conviver com uma Rita que eu admiro muito. Estou em processo, em crescimento. Pela escritora e pela mulher, pretendo viajar, conhecer lugares e situações, namorar homens que me façam rir bastante, adoro rir bastante. Ver exposições, ouvir orquestras, ver o Grupo Corpo mais vezes, o Balé do TCA, ver o Balé Folclórico da Bahia, ir às feiras literárias como escritora e como leitora, turista. Quero reler e ler livros fascinantes, participar de festivais gastronômicos, visitar museus. Pretendo ter disciplina para aprender idiomas, coisa que nunca tive. Pretendo continuar conhecendo poetas latino-americanos, países da nossa América, enfim! Conhecer pessoas da minha tribo, que amem esse universo que eu amo. Estou muito disposta à Vida! Cinema! Ir mais ao Cinema! Dançar! Quero dançar mais! Quero continuar aprendendo, conhecendo! Triste demais com o derramamento do óleo nos mares do Nordeste! Quero passar muitas tardes e manhãs vendo o mar e andando nas praias. A escrita vem desse movimento! Quero ter disciplina para caminhar. A Mulher e a Escritora estão de mãos dadas.

 

DA – Qual o sentido da vida para você?

RITA SANTANA – Não sei! Não tenho uma religião, mas acredito na fé, acredito em deuses e deusas. Acredito que a Ciência se cruza e dialoga com os mistérios espirituais, cada vez mais. Acredito nos mistérios. Há metafísica bastante em não pensar em nada! “O Guardador de Rebanhos” toca ou desperta a minha necessidade de ver, tocar, observar, contemplar o mundo. Aprendi muito cedo a perceber a divindade que há nas árvores, nas flores. Os poetas e as Poetas são faróis que nos guiam no caminho. Os grandes artistas são guias! “O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!” Busco um sentido para a minha vida! Já que estamos aqui e expostos ao mundo, precisamos construir sentidos; eu preciso construir sentidos. Fico tentando me modelar, me aprimorar. Vivemos num período de recrudescimento das liberdades, um tempo perigoso, tempo de homens partidos! Sinto a responsabilidade que tenho com o agora. Sinto que posso interferir. Isso é construção de sentido: ter responsabilidade com seus alunos, seus amores, com os meninos da Síria, com todo o processo migratório que está matando a nossa gente da África. Também vivemos – paradoxalmente – um período de pensamentos e ações coletivas em torno de um bem comum: a proteção ao meio ambiente, a busca por medidas que reduzam o aquecimento global, um presidente ameaçado por retaliações internacionais devido ao seu discurso e suas ações retrógradas em relação às liberdades e ao meio ambiente, aos nossos povos originais, à Amazônia. Temos Malala, Greta e o Nobel da Paz  – Abiy Ahmed – que luta por diálogos em territórios inimigos na África, pois tenta solucionar conflitos na Etiópia, o próprio Papa se posiciona como um dos nossos, em muitos momentos. Vivemos um período bonito de assunção da diversidade dos gêneros,  onde o feminino, tão fortemente atacado, é assumido por corpos e vozes que o desejam, o sentem e o assumem. “E quem irá dizer que não existe razão nas coisas feitas pelo coração?!” O sentido da vida é ser melhor! Amar mais e expandir os horizontes, pois a vida pede amplidões. As certezas já não são. Estar sintonizada com a dignidade humana e com valores nobres, humanistas. Estar sempre ao lado de uma evolução do pensamento, do sentimento. O que não descarta o ser absolutamente humana e explosiva, arrogante, e ter sentimentos vis. Estou em processo! Aprender sobre Solidariedade. Assisti o “Coringa”! Completamente apaixonada pela interpretação de Joaquim Phoenix. A Arte é esse lugar da reflexão, da emancipação! É parte desse capital simbólico que temos e precisamos para refletir e aprender. O “Coringa” nos põe diante de uma sociedade midiática que expõe o sem voz, o sem poder e a audiência aplaude a ridicularização de si mesmo, do pobre, do desprovido de voz e de lugar. O “Coringa” expõe o quão a nossa sociedade é perversa, abusiva, violenta e indiferente às dores alheias. Estarei sempre, como educadora e como artista, atenta para minhas atitudes e para o outro, que também sou eu.  Tenho refletido muito sobre alteridades. A nossa televisão é tão podre quanto aquela exposta na tela. A exposição de homens e mulheres e crianças e jovens negros pela TV brasileira é acintosa; é como se vivêssemos num país sem lei, vivêssemos na barbárie. Tenho responsabilidade com tudo isso. Somos grosseiros demais! Professores arrastam cadeiras como os alunos e não se sentem deseducados por isso. Arrastamos um ignóbil à presidência e um homem tentou matá-lo. Não é fácil ter saúde mental num mundo tão dantesco.  Os Coringas existem. O presidente acaba de vetar psicólogos nas escolas públicas, o que permitiria assistência a inúmeros jovens deprimidos que estão cometendo mutilações, cortes, suicídios.  O presidente diz que não assinará o diploma do nosso prêmio Camões – Chico Buarque – e isso é aviltante num país de homens e mulheres que primam pelo respeito, pelos acordos, pela palavra, afinal, viver em sociedade requer atitudes assim. Num país que possui Chico Buarque não se pode admitir ações tão indignas dos nossos representantes. Viver pra mim é continuar a busca interior para ser melhor, ser menos arrogante, menos distante das pessoas, menos ególatra, menos radical talvez! Ao mesmo tempo em que me sei humana e odeio me atropelar, por isso, assumo rudezas, desinteligências, deselegâncias às vezes. Busco errar menos! Sou muito intuitiva, muito observadora por causa da professora, da atriz, da escritora. Mas isso me leva a certezas absurdas que preciso evitar. Sentido: ser feliz com minhas conquistas, meu universo. Contribuir com a construção de uma sociedade melhor. Continuar na luta! Eu me sinto muito rica, muito privilegiada no lugar onde estou. Não busco grana! Ao contrário! Quando a grana significa sacrifício do meu tempo, sacrifício da minha paz, abdico facilmente! Odeio burocracias burras! Não preciso de muito para viver e acho isso sábio. Música, livros, silêncio. Não perturbar os vizinhos, tentar ouvir música e cantar mais baixo por respeito às paredes alheias.  O sentido final é cuidar das pessoas, da vida em sociedade, dos direitos humanos e da Democracia. Nesse difícil diálogo com o mundo, ouvir música boa, ler livros, escrever, cuidar de plantas, organizar a casa e o universo pessoal, evitar o contato ou a permanência do contato com pessoas abusivas, tóxicas. Ler mulheres, ler mulheres negras, ler feministas, ler bons autores. Buscar equilíbrio. Ler colabora com o encontro de sentido, a vida fica mais plena. Ser uma artista é a busca de sentido da vida. É o desejo de transcendência, de deixar marcas da sua Existência.  Mas, principalmente, é buscar sentidos para a vida que é tão sumariamente cotidianizada, vulgarizada em regras, rituais, exigências que não acreditamos. Daí, questionar através da Arte. Ser artista é ser uma espécie  que desvia, que contraria e tem afinidade com os estranhos aos olhos da normalidade porque também se sabe e se reconhece estranho. Por isso, ficamos tão felizes quando estamos entre os nossos, os da nossa tribo. A busca por uma vida mais ética! Talvez resida aí todo o sentido. Mirar-se sempre ao espelho para perceber os desvios e buscar novamente o caminho da dignidade. Conversar com você e ler a sua revista, construída com Leila Andrade, é construir sentido para a Existência. O sentido da vida seria então encontrar sentidos. Sair do cinema e trazer o “Coringa” pra casa para dialogar com você porque você é responsável por tantos coringas sociais. Sair do cinema e saber-se Coringa. Quem busca sentido para a vida nunca está em paz, pois é responsável pelo mundo e isso é terrível e imprescindível.

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista e mestre em Letras.

 

 

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131ª Leva - 03/2019 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Mirar a vida, observar seus fenômenos mais detidamente. Deparar-se com os territórios do humano sem deixar de levar em conta o olhar reflexivo e transformador, esse algo capaz de movimentar rotas sem se perder no campo limitador das retóricas. Frases, quando ditas ao léu, não demarcam a substância das ideias, posto que sequer ensaiam mudanças ou vislumbram auroras. No meio disso tudo, um poeta rasura os postulados disfarçados de razão, engendra nos seus versos a tradução de um estado de espírito que transcende a materialidade das coisas. Tudo isso sem se embriagar pela fácil sedução das travessias meramente contemplativas ou daquelas que se limitam a ver tudo como um jogo puramente estético.

Não existe poesia fora do humano: eis a impressão que arrisco em colocar quando o artífice das palavras é um alguém como Alberto Bresciani. É ele um autor não somente envolvido com a construção textual dos seus versos, mas especialmente com o impacto que tais escritos terão em quem os lê. Não se trata aqui de uma preocupação com a adesão de simpatias, e sim de um diálogo vivo sobre o qual estão apoiadas bases de nossas tenras e complexas existências. Acima de tudo, Alberto nos incita ao enfrentamento de questões cruciais à nossa percepção enquanto humanos, erigindo um universo poético que se fundamenta em doses de emoção, lucidez e estranhamento.

Autor de livros como Incompleto movimento (2011) e Sem passagem para Barcelona (2015), ambos editados pela José Olympio Editora, o carioca Alberto Bresciani vive hoje em Brasília. E o momento atual desse escritor aponta para os desdobramentos em torno de sua mais recente obra: Fundamentos de ventilação e apneia, lançada este ano pela Editora Patuá. O livro apresenta um sofisticado emprego da linguagem, denotando profunda sensibilidade e entrega a temas que correm imbricados a tudo o que vivemos. As incursões do poeta por elementos que constituem certa dinâmica do mundo animal correm paralelas ao que somos enquanto espécie dita racional. Dentro do delicado mecanismo que descreve os fenômenos de outros tantos seres vivos, Alberto nos conclama a mergulhar intensamente em nossos próprios percalços como se necessitássemos de um resgate.

Para falar um pouco sobre seu novo momento com as palavras, o poeta, de modo extremamente gentil e atencioso, concede a entrevista que agora segue. Na conversa, abordou-se de um tudo: os impactos do novo livro, reflexões sobre o papel da arte, o fazer literário e seus desafios, entre outros temas. De todo o dito, nada é mais valioso do que perceber, pulsando com vivacidade, o aflorar de uma sensível consciência de mundo, notadamente preocupada com uma ampla noção de humanidade.

 

Alberto Bresciani / Foto: arquivo pessoal

 

DA – “Fundamentos de ventilação e apneia” faz uso de mecanismos pertencentes ao mundo animal, uma sensível construção poética cuja linguagem corre paralela às questões humanas. Diante do que somos hoje enquanto espécie, seu livro pode ser tomado também como um grito de alerta?

ALBERTO BRESCIANI – Observar animais e estudá-los, na medida do possível, sempre foram atividades interessantes para mim. Observá-los com prazer e, ainda, com assombro. Tive animais de estimação de todos os tipos e, quando criança, gostava de os tornar personagens de histórias que inventava. Em regra, é difícil resistir à tendência de antropomorfizar o comportamento dos animais. Fazemos isso quase involuntariamente. Embora diferentes enquanto espécies, partilhamos, todos os seres vivos, um mesmo mundo e, em situações várias, a luta pela sobrevivência na natureza se iguala ao esforço que, entre homens, fazemos para enfrentar os dias. Há momentos em que os animais parecem saídos de um Éden criacionista. Também temos nossos espaços de paz. No entanto, a violência está à solta. O ritmo é assustador. E isto remete à violência presente nos enredos naturais. Perceber e sentir as injustiças da contemporaneidade, as ameaças de retrocessos civilizatórios, a devastação que causamos no meio ambiente e traduzi-los, como conceito, pelo instante, por exemplo, em que o predador impiedosamente abate sua presa apavorada, foi um dos recursos metafóricos que utilizei. A poesia é, a todo tempo, um sinal de alerta. Alerta que vai desde as situações mais íntimas que afligem o poeta até as questões maiores que sacodem o planeta. Os poemas de Fundamentos de ventilação e apneia surgem nesse contexto.

 

DA – Caberia, então, dizer que a arte, sobretudo pelos caminhos da palavra, seria capaz de operar em nós alguma possibilidade de transformação ou reinvenção?

ALBERTO BRESCIANI – Sim. Não tenho dúvidas. A arte estimula a reflexão sobre o mundo em que vivemos, dialoga com a filosofia. E se habilita a fazê-lo, em sua essência, para além dos círculos das regras, da ética e da moral, dos paradigmas vigentes em um dado momento da história e dos preconceitos. Era o que dizia Adorno. O artista está – e deve estar – livre para se expressar, para entender o que acontece e pregar suas denúncias, noites e luzes em cada porta. No caminho das palavras, como diz, encontramos, individualmente, quando lemos ou ouvimos, possibilidades de habitar outros eus e corpos, de outras vidas e experiências. Podemos perceber os erros de circunstâncias históricas e de falsas verdades impostas pelos interesses de plantão. Podemos também alcançar nossas verdades. Há livros que nunca acabam, personagens que nunca nos deixam, frases tatuadas na lembrança, poemas que nos alimentam e advertem. Do ponto de vista do artista, a descoberta de sua vocação pode construir uma vida nova, uma vida plena, reconstruir o que parecia ruína. É importante, no entanto, ressaltar que, antes de tudo, é necessário que se tenha acesso à arte. E isto só é possível com a educação. Com alimentos na mesa e cidadania. Não somos um povo ilustrado. Poucas mudanças favorecem imensa parte da população, que se mantém dentro de uma bolha isolante da cultura – e de tanto mais – desde o período colonial. Alguns projetos pioneiros, sabemos, têm grande sucesso, levando livros, música e dança a comunidades carentes. Que se multipliquem, prosperem. Seremos assim, um dia, quem sabe, uma sociedade melhor e mais feliz.

 

DA – Esse tema do acesso à arte é deveras interessante quando pensamos que, na contemporaneidade, a contribuição de autores e artistas contra-hegemônicos vem ganhando cada vez mais relevância. Muitos desses criadores, periféricos ao mainstream, encampam, através de suas obras, uma defesa afirmativa de suas identidades, de suas visões de mundo. Como você vislumbra a força que emana de tais subjetividades?

ALBERTO BRESCIANI – Com interesse, reconhecimento e muita simpatia. Somos diferentes em múltiplos sentidos. Infelizmente, a intolerância e o desrespeito sempre desaguaram na edificação de nichos e no aprisionamento, nesses nichos, de diferentes grupos, recusados pela compreensão dominante. São porções de matizes variados, separadas por hemisférios, circunstâncias históricas e sociais, gêneros, etnias, crenças. Todas têm legitimidade e direito à sobrevivência e ao acatamento pelas demais. Há também aquelas violências que a sociedade, como um todo, prefere ocultar. A literatura é o espaço da denúncia. Autores que não se moldam àquela compreensão dominante ou ao protótipo consagrado traduzem, com a força de sua escrita, experiências de vida muitas vezes desconhecidas ou nunca pensadas com atenção. Por alienação, pelo impacto da grande mídia ou por lacunas de vivências, verdades são esquecidas. Ao pronunciá-las, esses autores permitem a tomada ou a renovação de consciência, com a possibilidade, após alguma decantação, de construção de novas regras de convívio, de alargamento da razão. Se há liberdade de expressão, é de valor extremo toda contribuição que permita a evolução do que se compreende como “o humano”. Mesmo que a prática da literatura, dentro do mainstream, não seja, necessariamente, condenação eterna ao último círculo da desqualificação, romper seus limites, como efeito da forma ou da temática, por si, já é coisa boa.

 

DA – Voltando ao seu novo livro, é possível perceber nele a ideia de que sua poética está mergulhada nos imperativos colocados pelo presente em que nossas humanidades estão mergulhadas. Enquanto escritor, em que medida você assume a condição de dar um testemunho de seu tempo?

ALBERTO BRESCIANI – A literatura fotografa o momento histórico em que acontece. Aliás, é uma fonte de pesquisa histórica fabulosa. É impossível não reagir ao que o mundo nos oferece ou empurra garganta abaixo. Vivemos em um país de diferenças sociais inimagináveis. Isto me incomoda a vida inteira. Sou juiz do trabalho já há muito tempo. Não direi que, entre erros e acertos, o trabalhador sempre está com a razão. Mas também não posso ignorar a enormidade de horrores que a experiência me apresenta. São humilhações impostas a quem não vende a quantidade de produtos desejada pelo empregador, com castigos que ultrapassam o absurdo, acidentes do trabalho em volume trágico, com perdas de vidas e mutilações, crianças trabalhando e longe dos estudos, pessoas escravizadas, a miséria que nos assola desde tempos coloniais. Além da bagagem profissional, um caminhar pelas ruas das grandes cidades, conhecer zonas de extrema pobreza de nosso país-continente trazem marcas desoladoras. Ao lado disso, o noticiário nos abarrota de visões catastróficas da fome, dos abusos, da falta de compaixão no mundo inteiro. Somos testemunhas de uma época terrível. Algumas dessas situações transparecem em Fundamentos de ventilação e apneia e tendem a estar ainda mais presentes em meus próximos livros.

 

DA – Qual o seu maior incômodo diante do cenário de retrocesso que experimentamos hoje no nosso país, sobretudo nos matizes culturais?

ALBERTO BRESCIANI – Sinto espanto, sobressalto. O pasmo segue em uma escadaria de Escher, pelo que está mais próximo e pelo que acontece em tantas partes do Globo. Circum-navegação do espanto e pela conivência. Uma amiga de muita inteligência diz que a humanidade e o país já passaram por provações tão diversificadas e, ao final, tudo foi superado. É preciso, nem que seja no fundo da alma, manter alguma esperança de ressurreição dos valores.

 

DA – Atualmente, é possível perceber que o mercado editorial vem se reconfigurando no que se refere às possibilidades de participação. No cerne desse processo, está a atuação das editoras independentes, as quais inauguraram modelos alternativos de negócio, oportunizando espaços para novos e anônimos escritores. Na sua avaliação, acredita que esse novo panorama veio para permanecer e transformar efetivamente as práticas de publicação e circulação das obras?

ALBERTO BRESCIANI – Percebo essa democratização da possibilidade de publicação com muita alegria. A realidade da internet, com seus portais e blogues, e das redes sociais, com a comunicação em tempo real, já fez muita diferença. Não consigo enxergar mérito nenhum em um sistema no qual somente grandes editoras podem consagrar vozes ou em que apenas determinados autores são os escolhidos. Todos que escrevem merecem espaço e algum crédito. Quem decidirá se terão direito à leitura e à permanência serão os leitores. E, aqui, vale lembrar que há públicos diferentes, que elegem seus estilos e gêneros. Pensando em poesia, há quem prefira textos fáceis, doces. Há quem prefira os que desafiam um pouco mais. As pequenas editoras têm permitido o acesso de autores e leitores à boa literatura, que, de outro modo, estaria condenada à gaveta eterna. Editoras como a Patuá – e não posso deixar de me referir ao  Eduardo Lacerda, com seu heroísmo todo -, como a Penalux, de Tonho França e Wilson Gorj, tantas outras, são vias maravilhosas para a publicação de novos escritores de qualquer idade. Os livros têm qualidade editorial e circulam o suficiente para concorrerem aos maiores prêmios literários do país. Sei de jovens escritores acantonando editores e se esfalfando para merecer atenção das grandes editoras, e não vejo sentido. É muito bom ser publicado. É muito bom ser publicado por uma grande editora. No entanto, uma editora menor, com toda certeza, será mais atenciosa para com o autor e lhe poderá trazer muita sorte. Penso que, no momento, é um modelo que veio para ficar. Digo “no momento”, porque o mundo se tornou uma metamorfose permanente, com tecnologias que nos atropelam quando menos se espera.

 

Alberto Bresciani / Foto: arquivo pessoal

 

DA – O curioso, dentro dessas tecnologias que nos atropelam, é perceber que alguns papéis se modificam nesse contexto de aparições digitais. Com certa frequência, autores deixam de ter a sua importância atrelada à obra e passam a ser incensados como celebridades apenas pelo que representam em matéria de performance pública. À reboque disso tudo, também há o fenômeno da superexposição da intimidade, no qual aspectos da vida privada dos escritores assumem um lugar de destaque, sobretudo em mídias sociais.  De que modo esse estado de coisas pode comprometer as práticas literárias?

ALBERTO BRESCIANI – A chegada da internet e das redes sociais trouxe uma quantidade muito grande de questionamentos e alterações sensíveis no comportamento das pessoas. Há muitos estudiosos, como Castells, que se dedicam ao tema. Não sou especialista e respondo como expectador interessado.  A performance como meio de promoção pessoal não é um fenômeno contemporâneo às redes sociais e peculiar aos escritores. Existia antes. Existia e existe em outras áreas de atuação. Convenhamos que já não há tanto espaço para o escritor recolhido, misterioso, recluso. Ou há, mas o alcance de sua literatura será, muito provavelmente, restrito. As editoras não têm tempo ou energia para a divulgação de todos os autores que publicam. Vale para as grandes editoras também. É necessário que o autor se ocupe com a sua própria divulgação, com a divulgação de seu trabalho. Isto, porque, exatamente pela quantidade de autores no mercado, outro feito do presente é colocar maior foco no leitor e no que lê do que nos autores propriamente ditos. As redes sociais facilitam aquele trabalho. Também é preciso considerar que o conceito ou o valor da privacidade não tem o mesmo feitio para as gerações mais jovens. Assim, há quem transforme sua vida em um livro aberto, um relato ou uma autoficção online. E com sucesso. Conquistam milhares de seguidores e vendem milhares de livros. Há quem adoeça nesse processo e adquira obsessão pelo monitoramento de seus perfis nas redes sociais e deixe de produzir ou, então, rebaixe a qualidade de sua produção ao que é mais palatável para as redes. A performance – e é preciso ter talento para isso –, como eu dizia, por si, não é necessariamente má, quando busca a divulgação de obra de qualidade. Causará algum prejuízo quando representar o exemplo de trabalho sem qualidade literária. Como o exemplo arrasta, notaremos – e notamos – outros escritores, com grande potencial artístico, tentados a reproduzir o comportamento e aquele formato menor em sua produção. De qualquer modo, a literatura ainda é maior e mais do que tudo isso. Ainda.

 

DA – Há quem sustente que a crítica literária perdeu sua força no Brasil, a ponto de praticamente não mais existir. Concorda com essa percepção?

ALBERTO BRESCIANI – Pelo viés tradicional e canônico, concordo. Com a quase extinção dos cadernos especializados e com as dificuldades por que passam jornais impressos, os espaços até então reservados aos críticos desse molde diminuíram. A crítica, com características mais convencionais, migrou, de certo modo e em parte, para a academia, com menor alcance em termos de público e sob formato mais técnico e, assim, hermético. A própria natureza e as exigências do trabalho acadêmico, ao lado do extenso número de livros hoje publicados, também impedem a velocidade, a atualidade e, em consequência, o debate mais vivo. É evidente que os trabalhos assim produzidos têm qualidade e importância. Em contrapartida, um novo modelo de crítica surge com a atuação contemporânea de jornalistas, de escritores, pela via da resenha, de matérias e da concessão de visibilidade às obras que esses formadores de opinião – e também o mercado – decidem que merecem destaque. Ressalvados poucos jornais literários e revistas impressas que ainda resistem bravamente, a avaliação, que se poderia talvez dizer mais suave, é publicada em periódicos virtuais, o que, apesar de  limitar seu alcance a usuários habituados a endereços eletrônicos e às redes sociais, repele filtros que a grande mídia costuma impor. Torna-se mais democrática.

 

DA – Somos apenas um corpo com finitude decretada? 

ALBERTO BRESCIANI – Pergunta delicada. A sobrevivência (e a morte em paralelo) é um dos temas centrais de Fundamentos de ventilação e apneia. A compreensão da morte tem movimentado mentes privilegiadas. De Platão a Todd May, passando por Schopenhauer, Montaigne, Sartre e tantos outros. Vejo a morte como parte da vida. Mas não, não somos apenas um corpo com a finitude decretada. Todos os seres vivos morrem. Não há dúvidas. Nisso, irmanamo-nos. Os outros animais, no entanto, enxergam a morte somente quando ela os ameaça, como o meu porco-espinho, acantonado pelas feras. Os humanos, diferentemente, são capazes de pensar a respeito, mesmo que saudáveis e protegidos. A morte dá sentido à vida, nubla o tédio da eternidade física ainda impossível, faz com que desafiemos o destino, como antílopes que atravessam rios repletos de crocodilos, buscando o futuro, um novo presente, logo ali na outra margem. A morte amplifica o valor do presente. Assim como killifishes, nunca teremos a certeza de uma nova chuva que nos permita (sobre)viver. Somos, assim, corpos destinados às experiências e repletos de possibilidades enquanto conservarmos a consciência. Se a perdermos, o fim antecederá o perecimento do corpo. De maneira sincrética, acredito em Deus. Do mesmo modo, sinto que a morte do corpo não representa absoluta finitude.

 

DA – O quanto Alberto Bresciani conhece Alberto Bresciani?

ALBERTO BRESCIANI – Eu pediria alguns anos para responder melhor. Sei ou tento saber do que se passou comigo, do que testemunho agora. Para o futuro, insistir é o que posso. Sou, normalmente, silencioso, melhor com a escrita do que com a voz. Verbalizar é sempre um risco de exageros. O silêncio me obriga à minha companhia com intensidade, a conviver com toda a perplexidade do que não consigo compreender, com o maravilhamento das coisas belas que alcanço, com todas as boas e más memórias, erros e acertos. Tenho o vício da busca de informação, com o desassossego que vem no estojo. Sou um “olhador”, um contemplativo. Posso me esquecer do mundo e da vida diante de uma planta que desafia o cimento da calçada. Gosto da eloquência silenciosa dos livros. Gosto das palavras e dos livros, do poder da música, de ficar em casa, de chocolate, terra, vegetais e animais, de abusar do conforto e do abrigo da minha família.

 

DA – Afinal, por que escrever?

ALBERTO BRESCIANI – Catarse, coragem ou covardia, justificativa? Copio René Char, é como se houvesse um atraso em relação à vida, que compele à superação. Porque é preciso dizer mais do que a voz permite.

 

Fabrício Brandão confessa que, definitivamente, não consegue sobreviver sem arte. Por isso, atira-se a livros, discos e filmes com o sabor perene da primeira vez. Por isso, edita a Revista Diversos Afins, é baterista amador e Mestre em Letras: Linguagens e Representações (UESC), aliando Literatura, Comunicação e Cultura.

 

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130ª Leva - 02/2019 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

 

Resiliência é uma palavra que, há pouco tempo, entrou em uso comum no vocabulário popular. Segundo o dicionário Houaiss, o sentido figurado do termo ilustra “a capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças”. Ou seja, toda pessoa que, apesar das adversidades, vai adiante, encarando a vida de frente.

No entanto, outro conceito, surgido faz tão pouco tempo e que sequer consta nos dicionários, tem a ideia de representar com mais intensidade a resistência humana: a antifragilidade. Não que seja o oposto da resiliência, mas um significado diferente. Uma pessoa antifrágil é aquela que, diante das adversidades, torna-se mais forte. Não importa de quão alto ela caia ou quão profundo possa ser ferida, ela sempre vai crescer na relação com seus desafios e problemas; sempre vai reafirmar seu poder.

É difícil identificar qual desses conceitos melhor se adequa a Lígia Vitalina, protagonista de “Por cima do mar”, de Deborah Dornellas. Em sua estreia no romance, a jornalista, escritora e artista plástica carioca/brasiliense, há sete anos radicada em São Paulo, dá voz a uma mulher negra, filha de um operário e de uma dona de casa, que passou sua infância e adolescência na periferia de Brasília enfrentando dificuldades sociais, discriminação e um estupro que preferiu esconder, de modo a alcançar seus objetivos.

A personagem Lígia estudou com o ensino disponível, entrou para a faculdade e formou-se em História, seguindo carreira acadêmica centrada na pesquisa entre a cultura brasileira e a africana. Numa viagem ao Rio, conhece um professor angolano, com quem se casa, tem filhos e passa a viver na cidade de Benguela.

Certos componentes do enredo refletem a própria vida da autora, também casada com um angolano e com uma carreira acadêmica voltada para o estudo da cultura africana. São fusões entre realidade e ficção que tornam a personagem tão bem delineada em seu aspecto humano, que, na dúvida se sua característica mais marcante é resiliência ou antifragilidade, não foge à certeza de que se trata de uma das protagonistas mais fortes e inspiradoras da literatura contemporânea brasileira.

Prova disso é que o romance foi agraciado, no fim do ano passado, com o prêmio Casa de las Américas, distinção oferecida pela fundação cubana que tem, em seu catálogo, vencedores do porte de Maria Valéria Rezende, Ana Maria Gonçalves, Nélida Piñon e Luiz Ruffato. No comunicado de apresentação do prêmio, os jurados defenderam ser um livro relevante e envolvente, tratando com originalidade e profundidade a vida difícil da protagonista e das mulheres negras que vieram antes dela. E arrematam chamando atenção para o cuidado com a pesquisa histórica e a performance literária de alta qualidade.

Na entrevista a seguir, Deborah Dornellas fala sobre o longo processo de composição do livro, a maneira como recebeu o prêmio e sua visão do meio literário. Além disso, valendo-se das circunstâncias que envolvem sua personagem, toca em temas como racismo, a participação das mulheres na sociedade e a presença de autores negros na literatura contemporânea brasileira, pensando na literatura como um instrumento também capaz de fazer o leitor voltar os olhos para fora do livro.  “Não sei se os artistas têm o dever de se manifestar sobre questões que afligem a sociedade por meio de sua arte, mas eu invisto nisso. Acho sim que a literatura tem o poder de conscientizar o leitor de maneira a que isso reflita em suas ações e em sua visão de mundo. Aconteceu e acontece comigo muitas vezes, tanto com a leitura quanto com a escritura. É incrível o que um único livro pode fazer na vida de uma pessoa!”, reflete.

 

Deborah Dornellas / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Seu romance tem sua força motriz concentrada no aspecto humano da sua protagonista, uma mulher negra, de origem pobre, que, em meio a uma série de fatos ruins e de circunstâncias adversas, supera o passado e, por amor, cruza o Atlântico. Como foi organizar um livro que se desenvolve em várias linhas narrativas, indo e voltando no tempo, para que, a certa altura, o leitor ficasse com a impressão de que toda a história aconteceu de verdade, de que a narração progredisse de forma intuitiva?

DEBORAH DORNELLAS – Foi uma aventura. Entre o primeiro parágrafo e o ponto final, mais de cinco anos se passaram. O parto foi longo.  E o livro como uma narrativa fragmentada, com cenas avulsas. Tentei algumas vezes domar o texto, ter mais controle sobre o processo de escrita, mas não consegui. A narrativa fragmentada, indo e vindo na linha do tempo, se impôs. Depois de relutar um pouco, no início, acabei me rendendo. Percebi que esse livro só se escreveria assim. Muitas cenas, inclusive, foram escritas em madrugadas insones, no bloco de notas do celular, no tablet etc. Eu escrevia a cena, salvava, enviava para o meu e-mail e no dia seguinte revisitava, editava. Foi assim até quase o fim do processo. Felizmente, descobri, depois de algum tempo, que isso poderia trabalhar a favor da protagonista-narradora e da história que ela estava contando. Somente em 2017 comecei a montar uma estrutura. Confeccionei uma espécie de escaleta gigante, de cartolina branca, que preguei na parede do quarto. Enumerava as cenas e as colocava numa determinada ordem, para conseguir visualizar melhor. Cada cena tinha uma breve descrição, escrita a lápis, para que eu pudesse apagar e trocar de posição, quando necessário. Mais ou menos como fazem os roteiristas. Aliás, muitas vezes me foi útil o pouco conhecimento de roteiro que tenho. Parecia que eu estava escrevendo um filme de longa metragem. “Por cima do mar” foi minha primeira experiência em prosa longa, e eu não tinha nenhum treino nisso. Na verdade, tive que montar um quebra-cabeça de muitas peças para pôr o livro de pé. Essa primeira montagem não sobreviveu, mas foi fundamental para eu ter um norte. Dali em diante, comecei a trabalhar na costura das cenas, mantendo sempre essa característica da fragmentação, com capítulos curtos, mas já com uma noção de sequência. Em alguns trechos, optei por emendar capítulos que tinham continuidade, porque nesses casos a fragmentação prejudicaria o entendimento. Apesar de ter lido e estudado material sobre técnicas narrativas e de ter tido interlocução desde o início da escrita (o romance nasceu em 2013, como trabalho de conclusão de curso, para a pós-graduação em Formação de Escritores do ISE Vera Cruz, e por isso foi lido e comentado durante as oficinas avançadas), acho que o processo de produção do texto foi um bocado intuitivo também.

 

DA – Há situações e tomadas de caminhos na vida da protagonista de seu livro que muito se aproximam daquelas que configuraram a sua própria vida. Isso foi algo espontâneo, quase como um flerte involuntário com a autoficção, ou, desde o começo, você teve esse intuito de visitar trechos da sua realidade através de recortes ficcionais?

DEBORAH DORNELLAS – Tive sim o intuito de visitar trechos da realidade de Brasília, do Brasil e de Angola por meio de recortes ficcionais. E também emprestei à protagonista alguns elementos de vivências minhas, de situações que conheci de perto. Acho que muitos ficcionistas fazem isso. Mas não sinto que tenha exatamente flertado com autoficção.  Não é uma vertente que não me atrai como escritora, embora como leitora eu aprecie algumas obras que vão por esse caminho. Quanto a mim e Lígia Vitalina, a protagonista-narradora, nossas biografias apenas se tocam em alguns aspectos: somos mulheres, ambas criadas no DF, pertencemos a gerações próximas (ela é de 1967, eu sou de 1959), estudamos na UnB, gostamos de música e escrevemos poesia. Mas me parece que as semelhanças são apenas essas. Não diria que nossos caminhos de vida se aproximam por isso. Na verdade, ao longo da produção do livro, fui criando situações para Lígia Vitalina de maneira a tentar aproximá-la mais de mim, já que somos bem diferentes. Lígia é negra, nascida e criada na periferia do Distrito Federal, numa família pobre. Eu sou branca, de classe média alta, nascida no Rio e criada do Plano Piloto de Brasília. Existe um apartheid geográfico e social entre essas duas experiências, esses dois pontos de vista. Lígia olha para Brasília, para o Plano Piloto, de fora para dentro. Sua trajetória, suas desventuras, as violências que sofre, sua reconstrução emocional, sua travessia de volta à geografia ancestral, seu lugar de fala, tudo é muito diferente da minha experiência. Nós não falamos do mesmo lugar. A meu ver, os cenários e episódios da história coletiva de Brasília são mais relevantes para a história da personagem do que os elementos da minha história que emprestei a ela. Mas, desde que me joguei nessa aventura, eu quis fazer justamente o exercício de me colocar no lugar da outra, de olhar a partir do ponto de vista de uma mulher com uma biografia muito distinta da minha. Para isso, era fundamental que a própria personagem contasse sua história, que tivesse voz. Por isso escolhi a primeira pessoa para narrar. Foi uma escolha arriscada. Imaginei que suscitaria várias questões, como esta do provável namoro com a autoficção, e outras, relacionadas justamente ao lugar de fala. Procurei tomar muito cuidado com isso. Mas me pareceu que a primeira pessoa da narrativa era a única possível, para o livro que eu queria escrever. Desde o começo, Lígia queria contar, ela mesma, essa história. Esse romance só existe porque ela não desistiu dele (e de mim) todo esse tempo. “Por cima do mar” nasceu com Lígia Vitalina da Conceição Brasil e por causa dela, e assim se sustentou até o fim. Impressionante a força dessa personagem. Apesar de ela ser uma personagem completamente ficcional, penso em Lígia como uma pessoa de carne, osso, vísceras e vontade. E, mesmo depois de tantos meses da publicação do livro, às vezes tenho a sensação de que vou encontrá-la numa esquina. Ficamos amigas.

 

DA – Os personagens de seu livro vivenciam episódios marcantes da história do Brasil, com base no Distrito Federal, a exemplo do incidente do Quarentão (antigo clube da música negra, invadido a tiros pela polícia, nos anos 80) e do enterro do presidente Juscelino Kubitschek, em 1976. Qual o cuidado que você teve ao trazer esses registros históricos para seu livro, contextualizando com a formação dos personagens, sem soar aleatório ou didático? Há alguma regra para se manipular a História?

DEBORAH DORNELLAS – Não sei se há regras para se manipular a História. Acho que precisamos ter muito cuidado com isso. Fiz o possível para respeitar os episódios históricos que trouxe para o livro. Até porque a protagonista-narradora é historiadora e professora de História. No âmbito coletivo, da História do Brasil, de Brasília e de Angola, procurei mesmo reproduzir os fatos conforme os encontrava nas pesquisas, sempre feitas e checadas em mais de uma fonte. Fiquei meio obsessiva com datas, por exemplo. Mas também me senti bem livre para ficcionalizar elementos que servissem à narrativa, no âmbito da micro-história, das histórias do cotidiano, da experiência dos personagens que criei. Colocava o personagem na cena de maneira a que a situação interferisse na ação dele ou dela, e não o contrário. Em alguns trechos, criei cenas completamente ficcionais, mas em cenários e eventos reais, com personagens reais, como a Cássia Eller, por exemplo, que interage com alguns personagens (Lígia, Virgínia, Moscão), mas não ficcionalizei nada da história pública da Cássia. A mesma coisa com o enterro de JK, o baile black no Quarentão, o episódio do “massacre da GEB” e algumas passagens da História de Angola, como a guerra do Huambo. A dimensão histórica fez parte da proposta do livro desde o início, lá atrás, quando eu tinha apenas o conto “Vitalina”, germe do romance. Desde a apresentação do projeto, já anexei os resultados de algumas pesquisas, tanto da história de Brasília quanto da de Angola. Pessoas que leram partes do texto ao longo dos primeiros dois anos, inclusive professores da pós e, posteriormente, membros da banca examinadora, sugeriram que a história da personagem caminhasse, por pouco que fosse, junto com a história de Brasília. E que eu também falasse de Angola e incluísse episódios de sua história recente. Acolhi de cara a sugestão. Gosto muito de História e queria mesmo mostrar Brasília, minha cidade, e Angola, um país tão importante para o Brasil e tão pouco conhecido aqui, infelizmente. Para isso, fiz bastante pesquisa em livros, websites, textos, conversei com amigos brasilienses e angolanos etc. Durante todo o processo de escrita e reescrita, tomei cuidado para não passar dados históricos falsos ou imprecisos. Chequei datas, lugares, nomes, vocabulário inúmeras vezes. Em 2016, viajei para Angola, visitei Luanda e Benguela. Essa viagem foi fundamental para o livro. Mais para o final de 2017, algumas pessoas em Angola e no Brasil leram a primeira versão. Essas leituras foram muito importantes e úteis para mim. A partir das devolutivas desses leitores escolhidos, corrigi muita coisa, inclusive informações históricas e geográficas. E também excluí trechos, por serem didáticos demais, explicativos, ou muito contaminados pela linguagem jornalística – sou repórter de formação, e alguns cacoetes profissionais podem às vezes contaminar a escrita ficcional.

 

DA – Dois temas surgem com muito impacto na trajetória da sua protagonista, o racismo e a violência contra a mulher. O primeiro, em forma de preconceito e segregação; e o segundo, por meio de uma cena forte de estupro coletivo. Qual a relevância concreta da literatura como canal para se discutir assuntos como esses? Você acredita que a ficção tem o poder de conscientizar o leitor e fazer com que, de alguma maneira, isso se reflita no modo de enxergar a sociedade? E, dentro da temática do racismo, qual o seu ponto de vista em relação às polêmicas recentes envolvendo alguns dos livros de Monteiro Lobato?

DEBORAH DORNELLAS – A literatura, assim como a arte em geral, é sim um canal relevante para discutirmos muitas questões da nossa sociedade. Faço uso desses canais na minha criação. Não acho que temos sempre que produzir “arte engajada”, para usar um conceito antigo e muito questionado. Isso poderia ser uma camisa-de-força para a expressão artística, o que não é bom. Eu pessoalmente gosto de usar minhas possibilidades de expressão para tratar de assuntos que me mobilizam, intrigam, incomodam, sejam eles coletivos, da sociedade ou individuais. Quero ter o direito de fazer isso livremente. Ainda mais em tempos tão sombrios. Não sei se os artistas têm o dever de se manifestar sobre questões que afligem a sociedade por meio de sua arte, mas eu invisto nisso. Acho sim que a literatura (prosa de ficção, poesia) tem o poder de conscientizar o leitor de maneira a que isso reflita em suas ações e em sua visão de mundo. Aconteceu e acontece comigo muitas vezes, tanto com a leitura quanto com a escritura. É incrível o que um único livro pode fazer na vida de uma pessoa! Conheço muitos exemplos. Quanto ao Monteiro Lobato, acho que é fundamental que, ao ler sua obra, o leitor seja informado sobre as posições ideológicas racistas e eugenistas do autor. Até porque acho que ele nunca escondeu suas ideias a esse respeito. Há elementos em muitos de seus livros, inclusive nos mais populares, lidos por crianças há gerações. É preciso que se dê nome às coisas. Nunca fui leitora de Lobato. Talvez não tenha sido apresentada a ela na infância como os brasileiros escolarizados da minha geração foram. Conheço personagens e trechos de seus livros, claro, mas muito por causa de programas de TV. Se tivesse que dar aulas sobre a obra de Lobato hoje, por exemplo, teria que ler tudo, e certamente leria com filtro. O viés racista em sua criação prejudicaria minha fruição.

 

DA – Outro aspecto fundamental do romance é uma resistência a fazer da protagonista, sufocada pelo sistema, sufocada por seus próprios dilemas, vítima da sociedade. Muito pelo contrário: há um fator de resiliência e de vontade de vencer muito grande na maneira de ela encarar a vida. O quão importante para a construção da personagem foi idealizá-la dessa maneira? E como essa imagem pode se refletir na representação da mulher negra na sociedade de hoje?

DEBORAH DORNELLAS – Nos primeiros tempos de escrita do texto, Viltalina (que ainda não tinha o nome Lígia acrescentado ao seu), era uma mulher melancólica, quase depressiva, muito ferida pela vida. E carregava uma herança de pai e mãe que fizeram dela uma pessoa tímida, contida. Se ela tivesse permanecido assim, teria se tornado uma mártir, uma vítima da sociedade, uma personagem pálida, e eu não queria isso de jeito nenhum. Seria muito pouco para essa personagem. As feridas de Lígia Vitalina a constituem, mas não a resumem. Além disso, seria um desserviço para a luta das mulheres, especialmente das mulheres negras. Com a evolução da escrita do romance, a personagem cresceu, amadureceu, ganhou força e autoestima elevada, até se tornar uma mulher aguerrida. Essa transformação fica evidente ao longo da vida de Lígia. De 2015 em diante, comecei a prestar mais atenção à produção intelectual das negras brasileiras e a seguir várias pensadoras negras, ler seus posts nas redes sociais, conhecer melhor seus pleitos, entender sua luta e de que lugar elas falam. Também procurei ler mais livros de escritoras negras. Essas leituras e essa atenção, mais o material que eu já tinha pesquisado e escrito, trouxeram a Lígia muitas características que ela não tinha antes, e penso que isso enriqueceu muito a personagem, tornou-a mais complexa. E verossímil. Esse crescimento e aprimoramento da personagem foram muito importantes para Lígia Vitalina que resultou, para a heroína brasileira que me desafiei a construir desde que tive a ideia de transformar um conto com problemas de construção numa prosa longa mais trabalhada. O cuidado com a representação da mulher negra na sociedade de hoje foi sempre meu norte na produção desse livro. Principalmente porque sou uma escritora branca que escreveu um livro que conta a história de uma personagem negra. Meu objetivo é juntar forças. Como disse a Ana Maria Gonçalves num programa de entrevistas em 2017, a ideia é “falar junto” e não “falar por”.

 

DA – A certa altura, a sua protagonista se apaixona, casa e vai morar em Angola, terra natal do seu marido. Você também é casada com um angolano e passou um tempo no continente africano. Nesse caso, o quanto de sua experiência pessoal serviu de matéria para o livro? E, desse conhecimento empírico, consegue traçar paralelos e diferenças entre a cultura angolana e a brasileira, sobretudo no que corresponde à literatura?

DEBORAH DORNELLAS – Lígia se casou muito antes de mim. Na verdade, Vitalina se casou quando a história ainda era um conto, antes de 2013. Quando iniciei a escrita do romance, e logo nos dois primeiros anos, mantive o mote e muitos dos elementos do conto original. Zé Augusto está lá desde o começo. Ele, sua biografia, parte de sua família. Uma das primeiras sequências que escrevi foi o encontro deles no Rio, por exemplo. Nesse momento, eu ainda não conhecia meu marido. Na verdade, foi o trabalho com o livro que me levou a ele, e não o contrário. Em 2013 e 2014, comecei a pedir amizade a vários angolanos e angolanas pelas redes sociais, justamente porque precisava conhecer melhor os costumes de Angola, expressões das línguas nacionais, indicação de fontes de pesquisa. Foi nesse contexto que conheci o Carlos, meu marido. A amizade virou namoro virtual no finalzinho de 2015. Em março de 2016, ele veio viver comigo no Brasil. Nunca nos tínhamos visto pessoalmente. O romance tinha então mais de 100 páginas escritas já. Carlos só conheceu a história de Vitalina aqui, com a leitura do material que eu havia apresentado à banca, no começo de 2015. Até então, eu ainda não tinha ido a Angola. Só pude viajar para lá em novembro de 2016, porque só então tive condições financeiras. E também quem me hospedasse em Luanda e Benguela e me enviasse a carta-convite, que o governo exige para expedir o visto. Quem fez isso foi minha amiga Judith Luacute, que conheci pessoalmente aqui no Brasil em 2014, também a partir de um primeiro contato pela rede. É ela que eu homenageio com o sobrenome da família de Zé Augusto. Pude ir sozinha para Angola – Carlos ficou no Brasil – muito por causa da generosidade da Judith e de alguns amigos do meu marido, que na época moravam em Benguela e me acolheram. Passei apenas 17 dias em Angola. Nunca vivi lá. Essa viagem foi fundamental para que eu pudesse afinar algumas cenas, enriquecer descrições, andar pelos cenários. Muitas cenas do cotidiano das ruas de Benguela, por exemplo, foram escritas depois da viagem que foi muito curta, mas inesquecível. Quero voltar logo. Angola entrou na minha vida há muitos anos, por duas portas: a primeira foi a cultura popular brasileira de matriz africana, especialmente maracatu e congado; a segunda, a literatura africana em língua portuguesa, que conheci para valer em 2004. De lá para cá, tenho lido tudo o que me cai nas mãos e sempre vou atrás de mais livros de autores angolanos, moçambicanos, cabo-verdianos etc. Pepetela, Agualusa, Ondjaki, Ana Paula Tavares, Gociante Patissa, Mia Couto, Paulina Chiziane, entre outros. Durante anos, entre 2004 e 2007, só lia africanos. Acho que “Por cima do mar” é tributário dessas literaturas, de alguma maneira. Há muitas semelhanças e diferenças entre as culturas brasileira e angolana. Do nosso lado do Atlântico, há sobrevivências importantes, plasmadas ao longo de toda a diáspora: aspectos da religiosidade brasileira, elementos da culinária, da música, das danças, do português brasileiro etc. Mas a Angola que está no nosso imaginário é uma Angola mítica, um lugar parado no tempo, no espaço de uma África oitocentista. Do lado de lá do oceano, a cultura brasileira tem muita influência e há um bom tempo. Nossa música é bastante conhecida, admirada e consumida lá. E nas últimas décadas, acho que dos anos 80 para cá, as telenovelas entraram em Angola com força total. Quando estive lá, assisti a alguns capítulos de duas ou três telenovelas que já tinham passado aqui. Outro fenômeno notável na Angola atual é a presença massiva das igrejas evangélicas neopentecostais, com seus templos enormes e sua rede de TV, mas isso é assunto para outra conversa. Noutras décadas, a literatura brasileira foi muito lida em Angola. Toda uma geração de angolanos leu boa parte da obra de Jorge Amado, por exemplo. Vários escritores brasileiros são conhecidos dos angolanos. Mas infelizmente essa é uma via de mão única. Poucos brasileiros sabem alguma coisa de Angola, menos ainda leem literatura angolana. Dois ou três autores angolanos são conhecidos aqui. Acho que a maioria dos brasileiros nem sabe que Angola é um país de língua oficial portuguesa. E muito pouca gente conhece ou se interessa pela história recente do país. É uma pena que o Brasil seja este país tão autocentrado, ou tão voltado para Europa e América do Norte. África e América Latina têm muito mais a ver conosco do que grande parte da sociedade brasileira imagina e deseja.

 

Deborah Dornellas / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Sua formação é de jornalista, com mestrado em História, por meio do qual você tem uma pesquisa profunda sobre a influência africana na cultura brasileira. Transportando esse conhecimento para o campo literário, como avalia a representação do negro na literatura brasileira? E, na sua opinião, ainda há pouco espaço para escritores negros?

DEBORAH DORNELLAS – Há pouco espaço para as escritoras e escritores negros na nossa literatura. Se pensarmos em termos de representatividade, menos ainda. Esses dias, li uma entrevista da Conceição Evaristo em que ela questiona justamente o fato de sua obra só ter começado a ter visibilidade muito recentemente, quando ela já passou dos 70 anos de idade. Há décadas ela trabalha, escreve, estuda, luta por espaço. Isso quer dizer muita coisa. Uma obra com essa relevância já deveria estar sendo lida há muito mais tempo. Para ilustrar a representação do negro na literatura brasileira, uso uma fala da mesma Conceição Evaristo, que ouvi numa das mesas da FLIP de 2017. Ela comentava mais particularmente sobre a representação da mulher negra na literatura brasileira. Segundo um levantamento que ela fez, as negras na nossa literatura tradicional em geral são estéreis, não são capazes de ter descendência. Isso é tão cruel quanto revelador. Acho que alguns ventos favoráveis a que isso mude estão começando a soprar, mas ainda é preciso correr muito trecho. E isso os intelectuais negros e negras têm feito muito bem. É nessa trincheira que eu quero estar.

 

DA – Seguindo esse mesmo raciocínio, uma avaliação superficial do mercado literário deixa claro que o espaço e o interesse por livros escritos por mulheres ainda compõem um percentual inferior a aquele ocupado por homens. Recentemente, a divulgação de um prêmio literário para autores inéditos também demonstrou essa disparidade. Trabalhando também como tradutora, seu olhar de dentro do mercado literário tem essa mesma percepção? Acredita que ainda exista um preconceito e uma “dificuldade” para com os livros escritos por mulheres, tanto dos leitores quanto das editoras e das comissões avaliadoras de originais?

DEBORAH DORNELLAS – Não sou tradutora literária. Talvez um dia me aventure por esses caminhos, que me atraem muito. Mas imagino que o mercado de obras traduzidas aqui no Brasil reproduza o que o mercado literário de livros nacionais faz: o reforço da hegemonia masculina. Isso se dá por várias razões que não cabe elencar aqui, mas principalmente porque o mercado literário de uma sociedade machista é fundamentalmente machista. Tenho muita implicância com o termo “escrita feminina”, por exemplo. O que seria isso? Existe “escrita masculina”? Podemos falar talvez de escrita de autoria feminina, de literatura feita por mulheres, mas só com o intuito de marcar nossa posição num mercado que resiste em abrir as portas para nós. No mais, qualquer rótulo é restritivo. O mesmo serve para escritas de negros e negras, LGBTQs, periféricos, indígenas etc. Tudo que está fora da perspectiva do homem branco, heterossexual, de classe média para cima, euro-centrado é visto como exótico. Isso, além de ser uma bobagem inominável, não é sequer inteligente, porque não leva em consideração o que o tal mercado literário, que eu nem sei bem o que é, poderia lucrar se investisse mais nessas escritas que ele próprio tende a desqualificar. Parece que isso está mudando, mas bem devagar. Em 2018, o Prêmio São Paulo de Literatura, por exemplo, só premiou mulheres em suas três categorias. Isso nos deve dizer alguma coisa sobre a literatura que estamos produzindo. Integro dois coletivos literários, o Martelinho de Ouro, composto somente por mulheres, mas sem perfil feminista, e o Mulherio das Letras, de perfil mais militante. Atesto, olhando de dentro de ambos, que nós temos uma força de produção e realização impressionante. O mercado que fique atento.

 

DA – Uma parte de seu romance se passa numa comunidade pobre, em Brasília, e é estranho como ainda hoje um autor surgido da periferia, da favela, ainda causa um fascínio pela maneira como interpreta esse ambiente e o transpõe para a ficção, valendo-se de uma linguagem própria. Foi assim, por exemplo, com o livro de contos “O sol na cabeça”, do autor carioca Geovani Martins. Pensando nas características desse tipo de literatura, como você avalia o olhar de fora para esse universo particular? Acredita que ainda exista uma barreira para o que foge da norma culta e traduz esse movimento como algo exótico?

DEBORAH DORNELLAS – É como eu disse aí acima. O olhar de fora é limitado e tende a rotular de exótico tudo que não traduz a perspectiva hegemônica. A periferia é olhada de fora por quem dita as regras no mercado. A ascensão rápida do Geovani Martins é uma exceção a essa regra. Gosto muito do trabalho dele, li “O sol na cabeça” numa noite. O texto tem muita força. Ocorre que quando as coisas começam a aparecer no centro, provavelmente já estão acontecendo há muito tempo na periferia. A periferia pulsa. E é de lá que vem o novo. E não só na literatura. Basta olhar para todos os movimentos que têm acontecido nas periferias do Brasil há décadas para constatar isso. Na área da literatura, há saraus, slams, feiras literárias – como a FELIZS em São Paulo, a Movida, no DF, e FLUP, no Rio, por onde inclusive o Geovani Martins passou e passa –, casas editoriais independentes etc. Mas os caras só enxergam isso pela sua lente. E com delay.

 

DA – Por falar em linguagem, embora com uma força de escrita descritiva, seu romance traz um teor visível de lirismo no modo como compõe certas cenas e narra a maneira com que a protagonista decifra o mundo externo e o interno. De onde vem essa verve poética, e como ela se encaixa na construção do seu livro?

DEBORAH DORNELLAS – Escrevo poesia desde muito cedo. Foi por essa porta que entrei na escrita literária. Embora seja uma leitora mais frequente de prosa, a poesia é minha forma de expressão mais orgânica. Meu primeiro livro publicado foi uma coletânea de poemas, TRIZ (In House, 2012). Desde 2012, comecei a fazer oficinas literárias. Fiz duas com o Marcelino Freire, antes de entrar na pós-graduação para escritores. Foi nesse ambiente que comecei a arriscar textos em prosa. A coisa se destravou aí, mas foi só no ano seguinte, quando entrei para o Coletivo Literário Martelinho de Ouro, que tive coragem de publicar alguns dos meus contos. Desde 2013, temos publicado coletâneas de textos todos os anos, em formato de livro ou fanzine. Quanto ao lirismo, acho que não sei escrever sem ele. Aliás, acho que não viveria sem lirismo. No romance, ele está por toda parte. A poesia esteve presente desde o início da escrita. Com uma particularidade: poesia e prosa poética funcionam como uma espécie de refrigério para a protagonista. E acho que para o leitor também, em alguns momentos. Descobri que esse é um recurso meu. Quando não dou conta de narrar, por alguma razão, recorro à poesia. Emprestei esse recurso à Lígia Vitalina, e ela aceitou. A poesia entra em momentos muito difíceis ou intensos para ela.

 

DA – “Por cima do mar” é seu primeiro romance, e ganhou, no ano passado, um dos prêmios literários mais prestigiados do mundo: o Prêmio Casa de las Américas. Eu queria saber como foi sua relação com a editoras, quando estava procurando um selo para publicação, até finalmente o original do romance ser aceito pela Patuá? E se, após a conquista do prêmio, surgiu algum tipo de interesse pelo seu trabalho por parte de outras editoras, talvez alguma daquelas consideradas grandes?

DEBORAH DORNELLAS – Não houve relação com editoras. O Martelinho já publicava com a Patuá. Conversei com o Eduardo Lacerda, dono da editora, dei uma parte do manuscrito original para ele ler e logo em seguida já combinamos a edição. Foi um processo bem rápido. Nossa relação é muito boa e fluida. Consegui fazer o livro que eu quis, no formato que escolhi. E foi o Edu quem sugeriu que eu mesma ilustrasse o romance. Isso talvez não fosse possível se eu estivesse numa editora dessas consideradas grandes. Nenhuma delas veio me procurar ainda.

 

DA – Qual o grau de transformação você acredita que um prêmio desse porte pode trazer para sua carreira de escritora?

DEBORAH DORNELLAS – Receber o Prêmio Casa de Las Américas, ainda mais com o primeiro romance, é uma grande alegria e uma imensa honra para mim. Acho que as coisas já começaram a mudar. E podem mudar mais ainda, em relação à visibilidade do livro e ao interesse que ele desperta. Qualquer prêmio relevante pode ser uma alavanca para a carreira da escritora ou do escritor. Desde que foi divulgado o resultado do prêmio, pessoas começaram a me procurar para entrevistas, resenhas foram publicadas, convites para participar de feiras literárias começaram a pipocar. Estou adorando, claro, e surfando nessa onda. Afinal todo livro é uma aposta, um sonho e envolve muito trabalho.

 

DA – Há um momento muito bonito em seu livro, no qual a protagonista percebe que suas escolhas de vida a levaram a se completar no outro. Pensando na literatura como uma escolha para entender a si mesma, de que maneira o exercício da escrita e da criação lhe completa?

DEBORAH DORNELLAS – Que bonita essa percepção. Não tinha pensado nisso, nem em relação a ela, nem em relação a mim. Escrever, poder expressar-se é muito bom, e o exercício da escrita e da criação pode sem dúvida ser um caminho para o autoconhecimento, a autopercepção, o auto-acolhimento. Os momentos mais prazerosos para mim são aqueles em que estou escrevendo, pintando, lendo, pensando sobre um próximo livro, trabalhando numa ideia. Criar, mesmo quando dói, é bom. Descubro isso todos os dias.

 

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

 

 

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129ª Leva - 01/2019 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Elis Matos

 

Ana Mendes nasceu em São Paulo do Potengi, interior do Rio Grande do Norte, em 1994. Graduanda em Filosofia, pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, escreve desde os 12 anos e declama desde 2014. Teve poemas publicados na coletânea Profundanças 2, publicou nas antologias CidaDelas (2017, Sebo Vermelho) e Blackout (no prelo), participou do grupo de declamadores Dirocha, assina a fan page Erro Errante, no Facebook,  e o blog Pensamentos avulsos. Utiliza-se ainda de zines, como forma de publicar seus escritos, tendo publicado: Birgona, diário de um Cego; Prazer Pega Mate e Come e Terno. Seu feito mais recente foi ganhar o Concurso Othoniel Menezes, com a antologia poética intitulada Bélica. Os traços desencontrada(mente) brilhantes que marcam a identidade poética da potiguar falam muito sobre seus embates com o mundo, ao passo que geram o encontro perfeito da inspiração com a palavra. De olhar emblemático e postura crítica, Ana Mendes denuncia em seus escritos vários dos problemas sociais brasileiros e mundiais. Para além das lutas identitárias, percebe-se certa agudez nos versos que instigam reflexões variadas aos leitores. Mulher lésbica, poeta, declamadora e educadora, é no encontro com o papel que o brilho de Ana se faz forte. Quando Ana declama, aí sim, é Açofrio entrando pelos olhos e ouvidos e significando ainda mais do que se pode denotar, no aqui e agora da arte!

 

Ana Mendes / Foto: Talne Freitas

 

DA – Captar os múltiplos sentidos que a palavra assume, tanto no momento da feitura, quanto na emissão e recepção da poesia, cremos ser uma das sensações mais intensas vivenciados pelos poetas. Quando a poesia é impressa em livros, esta troca se dá com um intervalo de tempo mais espaçoso do que quando a obra é declamada! Você participa junto com outros sete poetas do Coletivo itinerante Di Rocha, cujo lema principal é: “Poesia pede rua!”. Conte-nos um pouco sobre a experiência de declamar seus poemas para o público, no aqui e agora da arte.

ANA MENDES – Grata pelo convite, esta é uma linda oportunidade de me aproximar das pessoas que possam vir a ler meus poemas.  Anterior ao Di Rocha, eu já me experimentava declamar na cidade de Natal, mais ou menos desde o final de 2014 para cá, pois o Di Rocha é de 2016 e encerrou as atividades no mesmo ano. Então, antes disso, eu já declamava em saraus improvisados ou organizados, festas (tipo “invadir a programação” e irromper nas brechas, entre uma atração e outra, com um poema), eventos culturais de modo geral. Declamar foi um desses acontecimentos ébrios e espontâneos, fui percebendo sua potencialidade através das reações das pessoas, a princípio, e pelas sensações que performar me suscitavam; não necessariamente nesta ordem, mas achei curioso dizer assim… Como todo acontecimento, não sabia ao certo tudo o que o impulsiona, mas sempre tentei refletir o que eu queria com isso, além de gostar da adrenalina (risos), isto é, o que fazer disso, a ponto, inclusive, de precisar dar uma pausa para pensar sobre.  Apesar de comunicativa e fazer um curso (Filosofia), que dá uma boa base argumentativa, eu me percebi silente em alguns espaços de debate (ou do cotidiano mesmo) por ene motivos. Assim, compreendi a voz-palco como a guisa de me projetar no mundo, ou, pelo menos, na cidade de Natal, já que sou uma interiorana estudando na capital, acredito que foi também a forma que encontrei de conhecer a cidade e me fazer conhecer. Sobre a experiência em si, para mim, é ato puro, pois tenho impressão que minha mente/pensamento, por alguns minutos, está em suspensão. Acredito que declamar, no hoje, é um manifesto de liberdade, seja qual for a forma/estilo ou conteúdo do poema.

 

DA – Em seus poemas há algumas menções a palavra erros, como no zine independente Bigorna – diário de um cego, onde, ao final, você assina: “diagramação e todos os erros sobrepostos: Ana Mendes”, além disso, você é autora da página erro errante, criada em 2017, na rede social Facebook, que funciona como uma vitrine com parte de seus escritos. Qual a acepção do ritmo errante em seus textos? Há alguma relação existencial? A seu ver, em qual medida o erro é importante à existência humana e qual sentido eles tomam em seus poemas? 

ANA MENDES – Birgorna foi minha primeira zine, a versão que te passei foi a primeirinha.  A frase no final era uma ironia aos possíveis erros gramaticais e de estrutura, que eu poderia ter deixado passar. Não apenas ironia, porém assumindo os “erros” que são próprios de escritos de diário, uma vez que fiz uso de “automatismo”, isto é, deixar me levar pelo subconsciente.  Em outra versão, tem a revisão de Ayrton Alves (risos). Bom, creio que Bigorna é um marco. Porque eu tive muita resistência de criar um material físico, pois era um tipo de “exposição”, que foge do meu controle, ao contrário do blog, da página no Facebook. Mas é marco não apenas por isso, porque também é uma transição na minha forma de escrever, aqui assumo a prosa e certo surrealismo. Apropriei-me de erro e errância, refletindo sobre como me sentia na época e ampliei isso para uma perspectiva mais “universalista” sobre a vida. Então, sim, possuía uma veia existencialista nesse movimento. Apropriei-me das palavras também, como que relembrando a mim do engodo da perfeição, dessa busca obsessiva que, por vezes, caio. Quando criei a página era a fim de dar mais visibilidade aos textos, de perder o medo de me expor, pois até então utilizava apenas no blog e num grupo de Facebook. Mas, com o passar do tempo, fui percebendo que erro errante se tratava de um projeto, de me tornar mais íntima de mim mesma e da minha escrita, a tentativa de romper com minha própria maneira de escrever, fazendo uso do automatismo e depois “lapidando”, retirando vírgulas, maiúsculas, quebrando a sequência das orações, por exemplo, e, contraditoriamente, empreender a busca por uma identidade. Sobre a importância do erro: acredito que quando não o confundimos com a perspectiva cristã de pecado, é uma delícia, pois é abertura aos múltiplos significados na literatura e, também, se atentarmos mais aos processos do que à finalidade (o certo), iremos perceber o quão plural foi o aprendizado sobre algo (na educação). Então, meu exercício é me voltar mais ao movimento de cada “estilo” de escrever (quando observo meus poemas antigos) do que uma execução fidedigna do que projetei – isso quando o escrito tem uma intencionalidade “traçada”. Não sei se expliquei direito (risos). Hoje, acredito que estou muito mais analítica do que errante, mas gosto de relembrar os processos pelos quais passei…

 

DA – Falando em processos, conte-nos: como ocorrem seus processos criativos? Muito da abordagem estética dos poemas decorre das influências e vivências dos seus criadores. No poema “Escrever poemas é…”, você deixa escapar algumas dicas de como sua criatividade passeia por um eterno pique esconde / de enxergar o olho ocultar o choro. Seu locus social enquanto mulher lésbica influencia em sua poesia? De que maneira isso reverbera?

ANA MENDES – Acho que não sei responder a estas perguntas, acredita? Mas posso tentar pensar aqui e agora alguns elementos: sobre processos criativos, quando os mencionei, é como um olhar em retrospectiva, de ter me percebido mudando. Mas há algumas intenções que sempre me permearam, como, por exemplo, intentar poemas concretos e poemas cada vez mais concisos e precisos, ainda que sempre me parta de um “descontrole”, quando bate a vontade de escrever, isto é, não tenho muito controle no exato momento que tenho vontade de escrever. Às vezes, parto de palavras específicas, que vejo se repetirem nas minhas leituras. Talvez muito do meu processo criativo se dê por repetição, ou seja, aquilo que sempre me visita, em sons/gestos, ideias, imagens. Fico intrigada quando estou “perseguindo” a mesma coisa, por certo tempo. Ultimamente, tem sido elementos bélicos. Sobre ser mulher lésbica, creio que sim, reverbera, só não sei descrever como na poesia ou em processos criativos isso se dê. Mas faço questão de declamar um poema que tenha algum conteúdo explícito sobre minha sexualidade, o amor por uma mulher, entre outros. Inclusive, a primeira coisa que tentei escrever (acho que aos doze anos) foi uma música que eu falava que gostava de uma “pessoa”. No começo, eu ocultava os pronomes femininos para que ninguém soubesse. Mas acredito que parte de não saber responder tua pergunta também seja porque estou refletindo muito sobre meu gênero, e isso perpassar, experimentar a minha feminilidade e masculinidade, ou algo entre os dois. O que ainda posso comentar sobre ser lésbica e a poesia é que fico puta em ver que quando nós temos espaço na literatura, ou quando somos reconhecidas em certos espaços, é sempre através da poesia erótica, que, para mim, só escancara o quanto há de fetichismo e hipersexualização.

 

Ana Mendes / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Na sua fala “quando somos reconhecidas em certos espaços, é sempre através da poesia erótica, que para mim só escancara o quanto há de fetichismo e hipersexualizaçãohá uma clara denúncia à construção estereotipada da mulher lésbica dentro do campo editorial. Estereotipação essa que condiciona a escritora a uma temática específica: a erótica. Qual o mecanismo utilizado por você para se desvincular dessa armadilha? Além disso, há entre os seus escritos textos que problematizem estas questões? Se não, quais os perigos em se abordar estas questões de identidade do mercado literário?

ANA MENDES – Sendo curta e grossa: eu não escrevo mais poemas eróticos, e, se escrevo, não publico online e tento experimentar passear por estilos de escrita de tempos em tempos. De imediato, não foi uma escolha consciente, mas, quando li sua pergunta sobre quais mecanismos utilizo, me veio essa resposta súbita. Sobre a segunda pergunta, acredito que, quando voltei a escrever em 2014, eu problematizava muito sobre a questão da gramática, não apenas como crítica, mas foi também a guisa de expurgar a ideia de não ser “boa”, por não dominar tudo da gramática e da história da literatura. Sobre os perigos, eu não saberei responder a essa questão porque, sinceramente, não penso a respeito do “mercado literário” convencional como um risco ou obstáculo para mim. Por que eu estou no mundo, sabe? A melhor publicidade é estar na rua, trocando com as pessoas, e outra, estou atenta às micro editoras e pessoas que desenvolvem seus trabalhos alternativos e afetivos em suas produções, como a Muganga Edições (RN), Sol Negro (RN) Padê Editorial (DF). Numa perspectiva mais crua, empoderamento e questões identitárias ganham cada vez mais força, portanto, vendem. Então, acho que o mercado deva se adaptar (suponho que já esteja, pois capitalismo é isso (risos)). No mais, boto fé em micropolíticas; por isso, minha atenção voltada para essas editoras.

 

DA – No que toca as temáticas, quando analisamos a história da escrita das mulheres, notamos que existe uma grande luta no sentido de colocar a voz da mulher enquanto uma voz humana, capaz de falar sobre mais variados temas. Isso porque, durante muito tempo, os temas ditos universais eram reservados aos homens, enquanto às mulheres foi oferecido o recorte “literatura feminina”. Nesse sentido, também caminhou o espaço reservado às escritoras lésbicas. Como você enxerga o comportamento do mercado literário com relação a sua literatura? Qual importância tem a coletânea Profundanças 2, que utiliza selo online, como forma de driblar a dinâmica desse mercado?

ANA MENDES – Huumm…  fiquei surpresa e grata com o convite da Daniela Galdino. Um convite como este, que integra uma diversidade de mulheres e de conteúdos – pelo modo que foi e é manejado (muito dialogado e articulado para dar visibilidade a singularidade da todes) – amadureceu minha visão sobre produção e divulgação da literatura, como também me pôs a refletir sobre o meu ser escritora e o que eu queria disso, ou seja, amadureceu minha confiança, pois alguém (que admiro o trabalho) gosta e confiou naquilo que produzo. Assim, creio que a importância e o diferencial do projeto é o diálogo que a coletânea Profundanças 2 estabelece entre ela e o social, a fim de resolver o problema  que é a invisibilidade do nosso trabalho literário e intelectual. Sobre o mercado em relação à minha literatura, irei me ater a minha cidade e como tenho visto a dinâmica por aqui, pois minha vivência sobre publicações que envolvam outrem é muito restrita, já que produzo independentemente meu material (zines). No geral, vejo que há poucas editoras interessadas numa troca sincera para além do lucro. Será que beiro a ingenuidade descrevendo assim? (risos). Percebo como há um movimento de usura, de apropriação de algumas lutas para obter vantagem (financeira) apenas para si, uma vez que o “apoio” às pautas é apenas pontual e não sistemático.

 

DA – A autopublicação pode guardar duas faces distintas, por um lado o autor tem a liberdade criativa garantida, por outro, a responsabilidade sobre o processo de distribuição aumenta significativamente. Você disse que produz independentemente o seu material (zines). Explique sobre esta forma de auto publicar. O que é uma zine? Qual a dinâmica da produção e da divulgação?  Aproveite e fale um pouco sobre as temáticas abordadas por você nestes materiais.

ANA MENDES – Ah! Zine, a palavra é um diminutivo de fanzine, que consistia numa revista improvisada (não profissional) e de baixo custo de produção, feita por fãs, sobre bandas ou outro conteúdo, que surgiu nos EUA no século 19. Foi largamente utilizada com diversas intenções, tanto no movimento punk, literário e de artes gráficas, como é o caso dos quadrinhos. No Brasil, é conhecida como qualquer produção independente e muito usada pelo movimento literário. Sobre a dinâmica de produção e divulgação, sigo intuitiva e orgânica. Produzo conforme vai me batendo a vontade de ir a algum evento cultural da cidade; no geral, sigo escrevendo e “guardando” material e, quando vejo ali um padrão de narrativa, passo a organizar para impressão. Assim, por ser uma produção/escrita espontânea, não há uma temática escolhida de antemão. Mas sobre os temas nos zines já publicados: Bigorna, diário de um cego é um relato em prosa, em micro textos, de sonhos; Prazer, Pega Mata e Come são pequenos poemas eróticos; Terno, concisos poemas sobrepostos como cílios, escritos movidos pelo tom terno de conteúdos diversos.

 

DA – Nas imagens contidas na obra Profundanças 2, você tem um olhar bem emblemático, forte, além disso algumas delas estão em preto e branco. Fale um pouco sobre o processo criativo dessas fotografias. Você pôde dar sugestões ou aprovar as imagens? Outra coisa, o quanto de Ana Mendes há naqueles frames? Conte um pouco de sua trajetória enquanto intelectual e escritora fazendo uma correlação com as imagens da coletânea.

ANA MENDES – Ah! Adorei a ideia de uma antologia literária e fotográfica, as fotos deram corpo e cor à diversidade literária ali. Inclusive, nunca tinha feito um ensaio antes. Sobre o processo criativo das fotografias, foi algo bem dialogado entre nós, eu e Josi Oliveira, a fotógrafa. Ela captou bem as características recorrentes nas minhas fotografias pessoais postadas no Instagram, como também daquilo que, por vezes, se faz intenção nelas, que é propriamente esse jogo de luz (claro e escuro). Também tentamos aproveitar o espaço que tínhamos disponível, utilizando como cenário alguns bairros que gosto muito na cidade de Natal, a Ribeira Cidade Alta e Alecrim, por exemplo. Sobre o que há de Ana naquelas fotos, hoje, talvez uma objetividade mais concreta a respeito desse jogo de luz: comecei a fotografar e filmar, neste ano, com uma câmera mesmo (antes só por celular). Minha trajetória intelectual… Bom, acredito que comecei a pensar mais sistemática/filosoficamente sobre o entremeio da filosofia e poesia, porém “performando” não apenas com a declamação, mas utilizando de recursos audiovisuais, nos quais não sou a protagonista, a princípio.

 

DA – O seu poema sem título publicado em Profundanças 2 é uma criação muito forte, com imagens e  mensagens bem diretas: “Sempre que resisto/ Sou arrastada, esfolada, pisoteada. (…) Quem eu sou?/ Sou o sonho da Humanidade/ Que vocês esquecem e perseguem”. Acreditamos ser uma poesia de protesto. Fale um pouco sobre as denúncias pretendidas por este poema. Em qual lugar de sua identidade ele toca?

ANA MENDES – Este é o poema que acho muito “completo” e o que uso de front em todo espaço novo, portanto, é um poema para ser declamado.  Foi escrito em 2016, após o rompimento da barragem da Samarco (empresa da Vale) de Mariana, num período no qual estava acontecendo muita coisa e eu estava muito atenta. Ah! Enquanto recorte, este poema é medo e violência, por esta mulher, LGBTGI+, baixa renda e também fala sobre muitos dos meus, em outros recortes de situação de vulnerabilidade social.

 

DA – O poema é uma catarse que denuncia a situação de medo e vulnerabilidade vivenciada pela comunidade LGBTGI+, no Brasil e no mundo. Mas um trecho chama a atenção pela sua menção à parte oriental do globo: “Afogam-me na lama/ Me bombardeiam no oriente / Às vezes, caminho com um fuzil / Que me pesa mais que meu corpo/ E a fome, minha companhia inseparável”. Se possível, fale-nos um pouco mais sobre o processo criativo e a rede de significados presentes em seu poema. 

ANA MENDES – Confesso que receio dissecar demais o poema, mas tendo em vista seu conteúdo, acho necessário discutir sim. Bom, como foi escrito em 2016 não recordo muito bem, mas lembro de ter escrito de uma vez só e precisei fazer pouquíssimos arranjos, de tão súbito. Deu-se a partir de diversas imagens, que ora oscilam sobre o oriente, ora quanto às periferias do Brasil. Intentei uma diversidade.

 

DA – Por fim, estamos em um período de transição presidencial bastante delicada, favorecida por uma onda conservadora bastante forte. Como você analisa a atual conjuntura? Quais seus sentimentos e prognósticos para os próximos anos, no Brasil? Qual papel assume a arte nos processos de resistência? Quais reflexões imediatas que movimentos de repressão provocam em você, enquanto escritora?

ANA MENDES – Uau… Muitas questões. Então, há um tempo venho no autocuidado de me preservar e fortalecer, filtrando pessoas, ambientes e discursos. Apesar de uma sensação de maior sobriedade, de perceber todos esses movimentos individuais e políticos, não me sinto hábil para fazer uma explanação sobre a conjuntura de modo geral, porém, me vem uma palavra: estreitamento, de direitos e oportunidades, portanto, de realizar sonhos, sim, sonhos, projeções de nós mesmos em outro espaço-tempo, em plenitude e com dignidade. Em 2019, me formo, sem perspectiva de atuar como professora de Filosofia (algo que descobrir que gosto e quero, de fato). Porém, em 2018, quando precisei repor a grana da bolsa do PIBID (Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência) do qual participava (foi então que trabalhei num sebo, desde abril), então eu percebi o quão é improviso e também possível delinear estratégias a longo prazo (dentro de um ano?!). Precisamos nos lembrar da experiência de ver pessoas fora da bolha da universidade, tanto em coletivos como também individualmente (minha mãe), que se fazem de improviso-estratégias, desde sempre, não se encerrando numa perspectiva de medo. Assim, atentar o olho para o que acontece em minha cidade e atuar cotidianamente-vivendo, habitando a cidade, em toda sua confusa interação. Desde eventos culturais às economias criativas, intercâmbio de conhecimentos e autocuidados em práticas. Como exemplo, pretendo dividir, junto ao Ateliê Sunsarara, uma oficina/minicurso de argumentação lógica, o ateliê da artista visual (grafiteira) Solar Shana Precária, que visa criar um espaço, no qual se reúnam mulheres, para trocar conhecimentos e artes, regularmente, em 2019. Então, acredito que a arte, pelo menos em minha vida, enquanto catarse me provoca uma “força-cuidado” criativa de me projetar no mundo, é minha espinha dorsal. Desse modo, enquanto escritora/performer/educadora, estou atenta aos improvisos-estratégias que possam me desviar. Desejando que as repressões não alcancem meu íntimo e oferecendo, no diálogo com o outro, a mesma brecha.

 

Elis Matos é “cria” da Universidade Estadual de Santa Cruz, licenciada em Filosofia e bacharela em Comunicação Social, especialista em Gestão Cultural e mestranda em Linguagens e Representações. Trabalhou enquanto Coordenadora de oficinas, workshop e mesa do Festival de Cinema Baiano, nas suas IV, V e VI edições. Pesquisadora, cronista e palestrante feminista, lançou a tag #ondeofeminismomechamaeuvou e vai!  Aprendeu a sonhar uma vida justa até as últimas consequências…

 

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128ª Leva - 06/2018 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

 

Na mesma proporção que uma boa escrita carece de técnica e imaginação, é preciso que o escritor tenha sensibilidade para capturar e decifrar o espírito do seu tempo. Em seu mais recente livro de contos, a mineira Eltânia André processa os códigos que representam, cada vez mais, a sociedade contemporânea, em especial a brasileira. “Duelos” trazem narrativas que se constroem a partir de disparos de violência, crimes de ódio, agruras urbanas, desmazelos e injustiças sociais. São retratos muitos claros e contundentes do nosso cotidiano, que revelam o quanto perdemos o senso de absurdo e a capacidade de reação, por exemplo, diante de mortes de crianças pelas chamadas balas perdidas. “Há mais homicídios no Brasil do que ​nos anos do conflito no Vietnã e atualmente na guerra da Síria, ​mas, em nosso país, esse passivo recai, em sua imensa maioria, ​sobre as populações desassistidas da periferia”, lamenta a autora.

Em entrevista exclusiva à Diversos Afins, Eltânia conta sobre o processo de composição de seu livro, ao mesmo tempo que reflete sobre o Brasil de hoje, repartido por conturbações sociais e político-partidárias, e sobre o real poder da literatura em se oferecer como um instrumento de recondução coletiva. “Melhor seria se os livros fossem objetos íntimos ​habitando o imaginário do nosso povo, mas tantos ainda precisam do básico e do urgente: saúde, alimentação, escola, dignidade”, alerta.

Morando em Portugal há cerca de dois anos, a escritora ainda traça um paralelo entre a produção literária feita no Brasil e na Europa, constituindo um painel de pequenos detalhes que espelham a realidade atual do mercado do livro no Brasil e a sua própria relação com a escrita e a publicação. “Seria bom se meus livros tivessem distribuição e fossem mais lidos, mas não houve nenhuma abertura. Não gosto do silêncio que se instala sobre os pedidos que lotam as caixas das (chamadas grandes) editoras, acho cruel e desrespeitoso​ a indiferença ou as cartinhas com negativas ​automáticas e burocráticas”, declara a autora.

 

Eltânia André / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Seus livros anteriores são marcados pela exploração do território da memória, no esteio de uma escrita com tendência poética. “Duelos”, por outro lado, trata de uma realidade atual, regida por temas agudos e contundentes que ilustram o caos da sociedade brasileira. O que motivou tal mudança?  

ELTÂNIA ANDRÉ – Aconteceu naturalmente. Quando percebi, a violência estava posta em vários contos. O que fiz foi ceder à temática e seguir produzindo com o título, “Duelos”, eleito. ​A severidade da vida e a realidade que ​nos circundam me guiaram na busca de personagens e histórias, porém tentei através da linguagem levar um pouco de ternura, não sabendo se havia possibilidade do paradoxo ​ou se seria possível suavizar a brutalidade. Mesmo assim arrisquei. Quanto à memória de longo prazo, ela também está presente em vários contos, com sutileza, talvez. Os contos estão circundados pelo horror ancestral, mas também pelo crescimento da violência urbana​, circunstâncias que recheiam gráficos: há mais homicídios no Brasil do que ​nos anos do conflito no Vietnã e atualmente na guerra da Síria, ​mas, em nosso país, esse passivo recai, em sua imensa maioria, ​sobre as populações desassistidas da periferia, sobretudo jovens negros.

 

DA – “Uma das mil e uma noites”, conto que abre a coletânea, acompanha uma cena chocante em que um jovem gay é espancado por conta de sua orientação sexual. Até que ponto, você acredita, a literatura é capaz de transcender seu valor artístico e servir como instrumento de alerta social? 

ELTÂNIA ANDRÉ – O narrador d​esse conto é surpreendido pelo desejo de salvar a personagem, mas ele não tem o antídoto para salvar o homem do veneno da estupidez. Assim, instala-se no texto a angústia que paralisa a história e que faz a  narração se dilatar em múltiplas vias, exigindo do leitor a saída brusca do cenário de horror e deixando, imediatamente, o convite para a pausa reflexiva. É a angústia da autora também, ​pois tenho em mim tantas dúvidas e, por outro lado, tanta fé na arte. Mas, sim, a literatura é um dos instrumentos de alerta social, mas suspeito que não seja apenas isso. Há uma potência, que eu particularmente sinto, de que a literatura me permite estar em contato com o silêncio para ouvir outras vozes, sem reservas, sem receios – personagens e mundos múltiplos. Paro para ouvi-los, contemplo-os e, em alguns casos, torno-me íntima deles, outras vezes me torno outra(s) e assim fico mais próxima de mim. A literatura produz empatia, produz proximidade, arrisco a dizer que possa produzir novos sentidos; somos atravessados pelas palavras e num determinado momento essa força produz mudanças. Tudo isso pode mobilizar individualmente ou coletivamente o universo social, mesmo que nos pareça imperceptível. Melhor seria se os livros fossem objetos íntimos ​habitando o imaginário do nosso povo, mas tantos ainda precisam do básico e do urgente: saúde, alimentação, escola, dignidade.

 

DA – Numa outra chave narrativa, alguns contos tratam de mecanismos de violência, que não se fortificam na brutalidade, mas que não deixam de ser violência, a exemplo do descaso público com a saúde, a educação, a aposentadoria pública. De maneira geral, são temas poucos explorados pela literatura brasileira. Você acredita que falta, aos escritores contemporâneos brasileiros, um olhar mais penetrante para esses problemas cotidianos, que parecem menores, mas não são? 

ELTÂNIA ANDRÉ – Talvez esses temas estejam ​diluídos na literatura contemporânea, implícito na realidade das personagens, porque não é possível testemunharmos nosso tempo sem observarmos esses fenômenos que trituram nossas vísceras.

 

DA – A violência contra a mulher é outro tema recorrente. Mulheres abusadas, oprimidas, inferiorizadas. Traçando um paralelo com a literatura, e levando em conta o último prêmio São Paulo de Literatura, que elegeu três escritoras campeãs, como analisa a participação das mulheres no mercado literário? Percebe que ainda há restrições por parte das editoras, dos leitores, comparado aos espaços permitidos aos homens?  

ELTÂNIA ANDRÉ – ​Comemorei o resultado do Prêmio São Paulo, três mulheres vencedoras, mas gostaria que um dia fato​s como esse não necessitasse​m de comemorações ou fossem alvo de ​uma visão pitoresca, entre críticas e deboches, porque se pensarmos na quantidade de vezes que somente homens venceram prêmios​, isso ocorreu sem nenhum destaque ou suspeita. Gostaria que um dia nós tivéssemos ​naturalmente esse espaço; a escrita como processo, como exercício e resultado de esforço combinado com talento. Há tanto tempo as mulheres escrevem, o que deveria importar? A força da escrita​, não a hierarquização ou os rótulos. Seria mesmo bom se assim fosse! O mercado literário nunca foi imparcial, não só com relação às mulheres, nem mesmo justo com as escolhas das obras, ​pois nem sempre a qualidade é o farol. Claro, percebo que há restrições e há tratamentos desiguais. Mas não vamos nos calar. O Mulherio das Letras, que surgiu sob a batuta da escritora Maria Valéria Rezende, tem mais de 6.600 mulheres. Um número expressivo, não acha?

 

DA – O conto “Matança de passarinhos”, que integra seu novo livro, originalmente faz parte da coletânea “Perdidas – Histórias para crianças que não têm vez”, que reuniu textos de autores em protesto aos casos repetidos de crianças mortas por balas perdidas em comunidades carentes do Rio de Janeiro, no ano passado. Como foi o processo de composição desse conto, e de qual maneira ele serviu de norte para a ideia central de “Duelos”?  

ELTÂNIA ANDRÉ – Na verdade, eu já estava quase terminando o “Duelos”​, quando Alexandre Staut me convidou para participar da antologia “Perdidas – Histórias para crianças que não têm vez”. Mas é sempre difícil enfrentar essa guerra em que as nossas crianças são alvo, ao invés de receberem proteção e direitos, ​como os que estão inseridos no ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). A realidade é ​rude, meu amigo: Maria Eduarda tinha 13 anos, cursava o sétimo ano do Ensino Fundamental e estava participando de uma aula de Educação Física, numa Escola da Zona Norte do Rio de Janeiro, no momento em que foi beber água e recebeu em seu corpo os disparos de fuzis. Muitas outras crianças e adolescentes foram vítimas de histórias trágicas. “Matança de passarinhos” foi escrito com muita tristeza, e confesso que gostaria que fosse totalmente ficcional e distante da realidade, mas é uma fotografia do Brasil, infelizmente.

 

DA – Há uma frase muito emblemática no conto “Poesia que ninguém lê”, que diz: “Os versos inacabados estarão sobre as contas a pagar na segunda gaveta do criado”. É uma imagem muito representativa da relação entre vida comum e a literatura; do quanto escrever, no Brasil, pode ser comparado a uma obsessão diante da ausência de qualquer recompensa associada, sobretudo a financeira. Por que, então, seguir escrevendo? E, principalmente contos, que é um gênero mal visto pelo mercado? 

ELTÂNIA ANDRÉ – Também insisto em me questionar. Não é mesmo fácil enfrentar as contas na gaveta e o poema que insiste em sobrepor​-se à matemática e às obrigações diárias. A maioria de nós precisa se dedicar a outro trabalho para sustentar também a própria produção literária. Mas o que mais me incomoda é ter que ser a caixeira​-viajante, mascate da minha obra, isso é bastante desconfortável. Escrevi o artigo “Por que escrevemos”, ​que foi publicado em dezembro de 2017, na revista Caliban, de Lisboa, para tentar encontrar algumas pistas para es​sa interrogação que me assalta frequentemente. Não encontrei uma resposta justa, mas não consigo parar de escrever (algumas vezes penso que deveria). Encontrei esse modo de comunicação comigo mesma e com o mundo que teima em não cessar.  Quanto ao gênero do conto, eu não me importo com o tratamento do mercado, tenho muitos contos ainda para produzir, e quer saber: dane-se a ditadura do mercado, o conto é soberbo e valente.

 

Eltânia André / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Seus livros foram publicados por editoras de médio e de pequeno porte. Isso se deve a uma escolha sua, pensando em ter mais gerência sobre a preparação de suas obras, ou chegou a tentar contato com editoras de maior circulação e não obteve êxito? Qual sua relação com o mercado do livro? 

ELTÂNIA ANDRÉ – Ainda não tentei encaminhar meus livros para editoras de maior circulação, desacredito que serei avaliada. Seria bom se meus livros tivessem distribuição e fossem mais lidos, mas não houve nenhuma abertura. Sou orgulhosa, não gosto do silêncio que se instala sobre os pedidos que lotam as caixas das editoras, acho cruel e desrespeitosa​ a indiferença ou as cartinhas com negativas ​automáticas e burocráticas (não creio que leiam os textos sem que haja indicações). Admiro o trabalho das pequenas editoras, como a Patuá, que publicou meu romance “Para Fugir dos Vivos” e “Duelos”. Reconheço que vem apresentando ao mercado livros excelentes, com primoroso trabalho estético e, além disso, há a abertura do diálogo com os editores.  ​Afinal, justiça seja feita, são esses laboriosos pequenos editores que nos dão vez e voz num cenário tão viciado, e já algum tempo temos visto autores dessas casas serem contemplados com prêmios nacionais.

 

DA – Você é natural de Minas Gerais, mas já morou em São Paulo e agora está radicada em Portugal. O quanto a existência por essas cidades trouxe de enriquecedor para a captura de temas e o desenvolvimento de sua escrita? 

ELTÂNIA ANDRÉ  Nasci e vivi durante 24 anos em Cataguases, e foi convivendo com meu irmão (que se encantou com a poesia, publicou um livro artesanal e, meses depois, morreu​ precocemente, aos 19 anos, vítima de um acidente) que o desejo insólito de ser futuramente uma escritora foi despertado e ficou hibernado por anos. Em 1990, decido viver em Belo Horizonte e lá permaneço por uns 15 anos. De 2004 até 2009, permaneço em Barbacena, para estudar Psicologia. Em 2007, começo a escrever e publico, apressadamente e de forma independente, meu primeiro livro de contos, ​”Meu nome agora é Jaque”. Depois de minha formatura e de meu casamento, parto para São Paulo e lá fico por muitos anos. A escrita passa a fazer parte de minha rotina e finalizo os livros “Manhãs Adiadas”, contos, selecionado pelo PROAC e publicado pela Editora Dobra, em 2012; “Para fugir dos Vivos”, romance, publicado pela editora Patuá, em 2015; e “Diolindas”, romance escrito em parceria com Ronaldo Cagiano, que saiu pela Editora Penalux, em 2016. Em janeiro de 2017, saio do Brasil, passo a viver em Lisboa e continuo a escrever e revisar “Duelos”, que, em agosto deste ano, é lançado pela Patuá. Sair do território natal foi o primeiro e fundamental passo para minha formação ​e experiência existencial, pois o deslocamento nunca é apenas geográfico. É um trânsito filosófico, é tornar-se outro, é a metáfora da errância no sentido de desviar-se do caminho original, espalhar-se em outras direções e, ao mesmo tempo, carregar em si e na memória o que fomos na representação do passado com todas as suas complexidades. Só consegui começar a escrever depois de muitos rompimentos: com o mercado, com Deus; com valores que introjetei da cultura e do senso comum. A literatura exigiu um enfrentamento comigo mesma. O deslocamento físico acaba refletindo no subjetivo e tudo isso implica na linguagem, na vida.

 

DA – Falando em Portugal, do tempo em que você reside na terra-mãe, qual a sua impressão sobre a relação dos portugueses com a literatura? Especificamente, no que diz respeito ao interesse pela leitura e por eventos associados ao contexto literário, levando em conta também a maneira que enxergam a literatura brasileira? 

ELTÂNIA ANDRÉ – Como disse acima, cheguei a Portugal em janeiro de 2017. Desde o início, comecei a ler autores portugueses; muitos dos quais não temos acesso no Brasil.  Durante um período li com intensidade escritoras portuguesas ​de uma prosa visceral, entre as quais Maria Velho da Costa, Hélia Correia, Agustina Bessa-Luis, Gisela Ramos Rosa, Maria João Cantinho, Teolinda Gersão, Lídia Jorge, Maria Teresa Horta, Maria Gabriela Llansol, Inês Lourenço, Maria do Rosário Pedreira, Sophia de M. B. Adrensen, Maria Judite de Carvalho e Ana Margarida de Carvalho. A literatura portuguesa é riquíssima, e ainda ​há um fértil terreno ficcional e poético a se explorar.  Percebo que a Clarice Lispector foi eleita como um cânone da literatura brasileira. Encontramos nas livrarias de Portugal os nossos clássicos e alguns contemporâneos, mas poderia haver um interesse maior já que falamos a mesma língua​. Percebo que o acesso à literatura brasileira, em Portugal, ainda é pontual. A música brasileira, sim, é muito apreciada pelos portugueses​ e tem histórica difusão.

 

DA – Seu marido, o escritor Ronaldo Cagiano, acaba de lançar seu segundo livro por uma editora portuguesa. Como funciona essa relação de autores brasileiros com selos de livros em Portugal? É mais fácil, para um escritor brasileiro, lançar um livro em Portugal que no Brasil? 

ELTÂNIA ANDRÉ – Mais fácil no Brasil. Não acredito que haja uma boa abertura para os autores brasileiros, as editoras portuguesas não estão de braços abertos para a literatura do Brasil​, há resistência ou desinteresse, que não é de hoje, uma espécie de mecanismo de defesa contra a bibliografia brasileira, que é enorme. Há algumas pequenas editoras que têm publicado brasileiros, sobretudo na poesia, mas são poucas. Caso o livro tenha tido uma boa repercussão no mercado nacional, a possibilidade é maior. Em editoras de médio e de grande porte é conveniente que o autor tenha contrato com algum agente literário​, pois na Europa são esses profissionais que induzem os editores a publicá-los, diferente do Brasil, onde ainda funciona o contato autor-editor. A figura do agente literário no Brasil é quase dispensável para os autores novatos ou ainda não reconhecidos pelo mercado; funciona bem para os já estabelecidos. Por outro lado, a publicação de portugueses no Brasil tem sido facilitada, porque há incentivos, como a DJLAB (Direção Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas), que apoiam e incentivam a publicação no Brasil de obras de autores portugueses e de países africanos da mesma língua. Há também o nosso franco interesse pela literatura portuguesa.

 

DA – Na condição de autora, e também de leitora, o que mais lhe impactou na maneira de tratar o escritor e o livro no continente europeu? 

ELTÂNIA ANDRÉ – Ainda me sinto prematura para responder esta questão. Mas notei pequenos detalhes, por exemplo, quando ocorrem os lançamentos​, os livros são analisados e apresentados para o público e para o autor. É um momento de muito respeito e de celebração da literatura. Não é apenas um encontro para autógrafos. ​Essa é uma prática tradicional, em que um livro não é apenas um acontecimento social, mas uma oportunidade de se conhecer autor e obra e, para tanto, antecede-se uma mesa, com algum convidado apresentando a obra do autor em lançamento. Nas Feiras do Livro, os autores põem-se disponíveis e próximos dos leitores, é fácil o acesso. Outra observação importante é que frequento muito as bibliotecas, estão espalhadas pelas freguesias, e é muito bom vê-las sempre cheias, principalmente de estudantes.

 

DA – De volta aos debates que estimulam seus contos, recentemente tivemos uma eleição para presidente do Brasil, na qual muitos artistas abriram seus votos via rede social. Você acha que é dever do escritor se manifestar publicamente, defendendo uma bandeira ideológica, ou a política pertence mais ao cidadão que ao artista? 

ELTÂNIA ANDRÉ – A arte acaba exigindo um embate com o mundo e sabemos que a política interfere diretamente na vida das pessoas. Na verdade, a literatura também é um ato político. Não estou falando de política partidária. Quanto aos autores, admiro os que estão ao lado dos direitos humanos, da igualdade social, da diversidade, admiro os que lutam, os que se expõem. E estranho os que se isentam ou aqueles que escolhem ficar ao lado contrário, como o do fascismo. Cidadão e artista, em sua essência, são os mesmos, não há como separar um do outro. Respeito, entretanto, o modo que cada um encontra para se manifestar.

 

DA – Dos dramas tratados em seu livro, como o poder da leitura pode incidir de maneira a pôr um fim? 

ELTÂNIA ANDRÉ – Não há como pôr um fim, ​esse ideal seria uma utopia. Há retrocesso​s que avacalham com a ​civilização e a humanidade – já era tempo de igualdade e paz, mas a irracionalidade do homem não deixa. No Brasil, o desafio é enorme e há um longo caminho pela frente. Muitos dos dramas podem ser tratados com adequadas políticas públicas,​ como por exemplo ​a violência urbana. E o acesso ao conhecimento e aos livros são ferramentas poderosas.  Mas diante do golpe de 2016 e o resultado da eleição deste ano, como ser otimista?

 

DA – Qual o maior duelo em ser um escritor no Brasil? É possível sair vencedor, de alguma forma?  

ELTÂNIA ANDRÉ – Os meus são vários, e todos passam pela angústia. Primeiro e constante é luta solitária com o que borbulha desordenadamente dentro e o que respinga na folha branca, depois burilar, lapidar – sempre fica um resto que não sabemos bem se terá fim, mas tudo bem, ele é ameaçador, mas produtivo. Desse duelo pessoal, passamos a ansiedade pós-criativa: encontrar editora, prazos que se prorrogam, lançamento, expectativas quanto à receptividade e um montão de eteceteras. Não há vencedores muito antes de Auschwitz.

 

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

 

 

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127ª Leva - 05/2018 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

 

Bruno Ribeiro não é um autor dado a temas fáceis e convencionais. “Febre de enxofre”, sua primeira incursão no romance, é protagonizado por Yuri Quirino, um poeta desiludido com a literatura e com o amor, que recebe uma proposta bizarra de escrever a biografia de um tal Manuel di Paula, um sujeito soturno, que o arrasta para uma jornada de assombros pelas vielas de Buenos Aires. O enredo é livremente inspirado no clássico “Fausto”, do alemão Wolfgang von Goethe, sobre um homem que negocia a alma com o diabo em troca de um tipo de eternidade, mas também pode ser lido como uma investigação sobre vampirismo. Em suma, um terror vestido por um escopo mais complexo.

“Glitter”, que acaba de ser lançado, também margeia a fronteira da literatura de gênero. É um romance pop, de certo modo; ou melhor, uma antiutopia pop. Vinte modelos com sérios desvios são contratadas pelo estilista e escritor Guilherme de Boaventura para atuarem no experimento La Poésie Vivant. Uma espécie de reality show, no qual as participantes ficarão confinadas dentro de um shopping center durante um ano, encerrando o exílio com um desfile em que irão se suicidar diante de um público selecionado. É um livro crítico, provocativo, que expõe as dissimulações e os delírios que (des)governam a sociedade contemporânea.

Com o mesmo tom afiado e repleto de personalidade, o autor mineiro radicado na Paraíba responde a esta entrevista exclusiva para a Diversos Afins. Ribeiro mira seu olhar sobre sua produção e o mercado do livro, observa a geração de novos escritores em que está inserido, fala sobre prêmios literários, oficinas de criação, editoras independentes e o tempo em que morou na Argentina, por conta de um período acadêmico. Uma posição que não se exime de tomar partido, sem artificialismo ou disfarce, e até certo ponto provocativa. “Assim como uma modelo com a bunda grande demais pode perder um trabalho, um escritor que passou do ponto ou não respeita as regras do bom mocismo literário pode perder sua chance de publicar numa editora “importante” ou até de participar de um evento badalado”, dispara.

 

Bruno Ribeiro / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Seu primeiro romance, “Febre de enxofre”, pode ser lido como uma revisão portenha do “Fausto”, de Goethe, no qual o diabo figura entre os personagens centrais. “Glitter”, que acaba de sair, trata de um experimento no qual vinte modelos problemáticas são confinadas num shopping, focalizando em seus desmoronamentos psicológicos que resultam em atos de violência repletos de grafismo e baldes de sangue. De maneira involuntária ou não, seus livros têm a intenção de se estabelecerem como literatura de gênero?

BRUNO RIBEIRO – A pergunta é muito pertinente, porque adoro me debruçar nos procedimentos da literatura de gênero e creio que eles atuem como um espelho distorcido no meu trabalho. Faço uma literatura de gênero que nega seus próprios mecanismos, uma espécie de anti-gênero. “Febre de Enxofre” pode ser lido como um romance de terror, mas tenho consciência de que transgrido algumas regras deste tipo de livro, assim como injeto diversas referências pouco comuns ao estilo. Já “Glitter”, tem uma chave policial em certos momentos, mas também nunca se entrega totalmente ao que podemos chamar de romance policial. E isso também ocorre em outros textos, como nos contos de “Arranhando Paredes” e nos meus inéditos. Eu abraço o gênero em toda sua complexidade no cinema, pois os projetos em que trabalhei como roteirista foram todos de policial, thriller ou terror. Na literatura, utilizo-os como uma sombra que a qualquer momento pode sumir e aparecer no texto, por isso talvez seja difícil me estabelecer como autor de gênero, pois estou sempre por perto, entretanto me esquivando da responsabilidade de ser, de fato, um autor de literatura de gênero. Neste sentido me inspiro na forma como a literatura latino-americana, especificamente a argentina, lida com essa questão; cito aqui Ricardo Piglia e Borges, que conseguiam brincar e subverter com os procedimentos do policial como ninguém.

 

DA – O escritor norte-americano Chuck Palahniuk, autor de “Clube da luta”, trafega entre vários planos temáticos – o terror, a distopia, o consumismo, a pornografia, a fábula – para acertar sempre num alvo: a sociedade de seu país. Com uma forte carga crítica, que causa do choque ao riso nervoso, qual é o verdadeiro alvo de “Glitter”?

BRUNO RIBEIRO – A escritora francesa Christine Angot disse que “escrever é sempre violar uma intimidade”. Acredito nessa frase e quando não estou violando a minha, busco violar a de outros ou até a de certas estruturas e campos, como foi o caso de “Glitter”. A indústria da moda é duramente criticada e “violada” no meu romance, mas ela é uma cortina de fumaça. O principal alvo de “Glitter” – pois existem vários – e no qual busco as entranhas é a religião e o capitalismo. Giorgio Agamben disse que “o capitalismo é uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua”. Este conceito serviu bastante de inspiração para a construção do livro: uma religião sem fome, pura voragem, glamour e sangue. Pensar que o shopping é um sinônimo de igreja do capital, aonde a sociedade vai diariamente pagar seus dízimos e se ajoelhar perante as infindáveis lojas de departamento é assustador. Outra coisa terrível é pensar que tudo pode e é devorado pelo capitalismo, coisa que acontece numa chave distópica em “Glitter”. Pense que alucinado é ver diversas obras de arte, desde o mictório de Duchamp até os grafites, estampados em museus e sendo vendidos a preços absurdos para ricões que desejam lavar dinheiro e afagar seus egos. Impossível? Com o capitalismo isso acontece: tudo é absorvido, até aquilo que nasceu para bater de frente com ele. Em “Glitter”, a própria morte se torna tendência; a tortura de modelos, no futuro remoto que criei, vira purpurina, publicidade, padronização coletiva, novas formas de se vender roupa e encantar os olhos alheios. Por isso que a moda e todos seus melindres, profundezas e superficialidades, belezas e feiuras, sublime e profano, clássico e vanguarda, – toda a dicotomia que a envolve – representa a sociedade e a forma como o capitalismo a atinge: um treco que se molda a qualquer coisa para lucrar, da sarjeta ao luxo, da vida à morte.

 

DA – Você consegue traçar um paralelo entre a experiência de confinamento das modelos e o processo de escrita? Ou, porventura, com o mercado literário?

BRUNO RIBEIRO – Sem dúvida. Por isso o livro brinca ao colocar as modelos para escreverem poemas e especificamente isso fica mais claro no trecho em que elas estão numa livraria do shopping buscando inspiração. Todos os meus textos ficcionais lidam com o processo criativo. Tento fugir ao máximo dos clichês ao falar deste tema, que é extremamente batido, mas tanto o poeta seduzido por um demônio em “Febre de Enxofre” como as vinte modelos seduzidas pelo estilista ermitão em “Glitter” estão sendo puxadas para um inferno vasto e que pode ser lido como o demônio da criação e as diversas dificuldades que nos rodeiam enquanto artistas; no caso do meu poeta: as dificuldades para sobreviver e escrever uma biografia; no caso das minhas modelos: as dificuldades para sobreviverem e escreverem um poema. Esses personagens precisam lidar com seus problemas e principalmente em manter a sanidade na hora da criação. Ambos romances, “Febre de Enxofre” e “Glitter”, mantêm um diálogo forte com a literatura do século XIX; os românticos, os duplos, a decadência, a perda da beleza e da pureza, frustrações, o lirismo carregado na linguagem, a dor do poeta ou do criador em lidar com sua obra, vida, entorno; minha mente ao criar tramas e personagens vai de Mary Shelley e sua criatura arrebatadoramente poética e monstruosa, vindoura da mente do doutor Victor Frankenstein, à Charlotte Brontë, Goethe, Baudelaire, Rimbaud, Stevenson, Edith Wharton, Oscar Wilde, Poe, Bram Stoker, Huysmans, e por aí vai. Todos esses autores, à sua maneira e de diversas formas, lidaram com o mesmo que lido em meu projeto literário. Quanto ao mercado é possível, sim, fazer comparações entre o literário e o fashionista. O jovem escritor sofre tanto quanto o jovem modelo, a diferença é que o meio literário esconde sua escrotidão por meio da intelectualidade e das etiquetas, o mundo fashion não esconde tanto, o abuso é mais explícito e visceral. No livro, pergunto se “a morte não é a melhor metáfora da eternidade?”, e a frase se encaixa em moda e literatura. Autor morto não vende mais livros? Modelo ou estilista morto não vende mais roupa? Quando Alexander McQueen se matou, suas roupas e looks esgotaram ao redor do mundo. E isso tudo é reflexo da alucinação midiática que vivemos, o que me faz pensar que toda distopia, por mais bizarra que seja, acaba se tornando palpável. Basta ver o que vivemos ultimamente no Brasil: nada é tão absurdo que não possa se tornar realidade.

 

DA – Há poucos meses, o meio literário foi sacudido pela aparição de um prêmio internacional para livros inéditos, cujo vencedor levaria a bagatela de 200 mil euros. Passado o furor inicial, descobriu-se que era uma grande fraude, criada para sustentar uma performance artística realizada durante a última Festa Literária de Paraty – Flip. Ao investigar com agudeza os interstícios do universo da moda, você também intenciona expor um mecanismo de artificialidades que movimenta o mercado literário?

BRUNO RIBEIRO – A literatura ainda é muito conservadora e isso me inquieta bastante, pois como disse César Aira, ela é a “rainha das artes”, tudo cabe dentro dela, e mesmo assim nossa amada ainda é a mais tímida nas transgressões de forma e conteúdo. Sobre o prêmio internacional que você fala, o Babel Book Award, eu o achei bem instigante. Tenho algumas críticas? Obviamente, mas pelo menos estremeceu um meio que é movido por faíscas fracas demais, sabe? É tudo muito morno no meio literário. E quando algo pega “fogo”, sempre é de forma burlesca, tosca, sem noção, realizada por meninos birrentos e ególatras. Por isso sou fã do Kenneth Goldsmith, poeta americano que criou a Escrita Não-Criativa e causa arrepio nos arcaicos da literatura. E no Brasil, claro, sou fã do Ricardo Lísias, que escreveu a orelha de “Glitter” e é um dos escritores contemporâneos brasileiros que mais admiro, exatamente porque seu projeto literário sai da zona de conforto e não fica só na repetição. O artificial em “Glitter” pode ser comparado com o mercado literário no sentido da plasticidade deste meio: as falsidades, risadinhas, panelinhas… E assim como uma modelo com a bunda grande demais pode perder um trabalho, um escritor que passou do ponto ou não respeita as regras do bom mocismo literário pode perder sua chance de publicar numa editora “importante” ou até de participar de um evento badalado.

 

DA – Um dos aspectos curiosos de seu livro é que muitas de suas modelos não têm nomes comuns, sendo denominadas por atos de linguagem que misturam características físicas, adjetivos, estados emocionais e designações parentais, a exemplo de Netinha Abusada. Lembrou-me, de imediato, o romance “O Todo-ouvidos”, do búlgaro Elias Canetti, que é, de fato, um estudo de caracteres, previsto como uma forma de protesto contra a importância que o personagem assumiu, ao longo do tempo na literatura, tornando-se maior que a própria narrativa em que está inserido. No caso de “Glitter”, qual foi sua motivação ao criar esses nomes bizarros?

BRUNO RIBEIRO – Gosto muito de fábulas e a ideia partiu muito dessa referência. Fora isso, eu queria criar arquétipos da moda, por isso pensei em nomes que pudessem representar não só uma modelo, mas um nicho. A “punk” que poderia ser colocada no nicho de uma Kate Moss da vida, a “netinha” mimada, a noiva que foge do casamento e tenta a sorte no mundo da moda, a princesinha do Projac, representando as modelos que trabalham na TV, a negra que é taxada de louca, a miss universo, a polêmica, a maconheira, a suicida, a fofinha, a que morou fora, a da cidade pequena, e enfim, cada nome parte deste pressuposto de causar um estranhamento e tentar resumir um perfil estereotipado de top model.

 

DA – Ao longo do livro, além de sobreviver ao confinamento, as modelos têm de protagonizar um grande desfile final e escrever um poema. Obviamente que está aí inserido uma ironia crítica, mas a quem ela se dirige? Ao mercado que despreza a poesia? Às editoras pequenas que revelam poetas a cada semana? Ao gênero em si?

BRUNO RIBEIRO – A frase que conduz meus trabalhos literários vem do Charles Baudelaire: “seja poeta, mesmo na prosa”. No meu mestrado de Escrita Criativa, meu tutor foi um poeta, o Guillermo Saavedra, e quando ele terminou de ler “Febre de Enxofre”, disse enfaticamente que eu era um poeta escondido no corpo de romancista. Eu amo poesia e ela me influencia muito. Matar poetas e torturá-los em meus livros é uma forma de botar para fora minha frustração por não ser um poeta. Quanto à crítica, ela vem do mesmo lugar que partiu a do “Febre de Enxofre”: o excesso de poetas e a falsa glamourização em cima deles, o mercado que não sabe onde colocá-los, os bons poetas que morrem sem ser publicados, a estranheza deste gênero que parece não se encaixar em nenhum lugar. A poesia é a liberdade total, sem ressalvas, é o mais perto que temos dos procedimentos das vanguardas na literatura, e por isso sempre a levo comigo, pois a poesia é o não-lugar, e essa posição de incômodo em que ela reside, de não fazer parte nem do mercado nem daquilo que está fora dele, me interessa muito enquanto escritor. A poesia é repleta de técnicas e regras e, paradoxalmente, também é indomável e libertária, e é essa pegada dicotômica que busco na minha literatura.

 

DA – “Glitter” foi finalista do Prêmio Kindle de Literatura. Anteriormente, você tinha sido revelado entre os vencedores do Prêmio Brasil em Prosa, promovido numa parceria entre o jornal O Globo e a Amazon. O que significa isso, afinal? Qual o resultado prático para a carreira de um jovem autor ganhar um prêmio? Olhando para trás, você percebe que lhe ajudou de alguma forma ou é, no fim das contas, apenas uma informação boa para constar na biografia?

BRUNO RIBEIRO – Ajuda a ganhar alguns leitores e espaços, mas acredito que pesa mais na biografia do que numa alavanca rumo ao sucesso. Assim, consegui entrada em alguns eventos, como a Flinksampa e FLIP, mas não é algo que tento levar tanto em consideração quando estou escrevendo. É bom? Sim. É essencial para mim? Não. A escritura sempre vence, pois já nasceu derrotada e não tem mais nada a perder: seja com troféu ou com sarjeta.

 

DA – Falando em biografia, apesar do holofote dos prêmios, seus dois livros (e, aqui, falo sem qualquer ideia de desmerecimento) foram publicados por editoras com circulação mais restrita. Você chegou a tentar um contato com os grandes grupos editorias; utilizar da repercussão dos prêmios para chamar atenção para seus livros? Ou foi mesmo uma opção, pois enxerga a literatura brasileira sendo produzida dentro de uma nova configuração? Qual é a sua relação com as editoras?

BRUNO RIBEIRO – Vivemos no tempo do autor, onde somos zagueiro, meio de campo, atacante e goleiro ao mesmo tempo. Neste novo tempo, a editora surge mais como uma parceira a meu ver do que alguém extremamente decisivo na minha vida literária. Atualmente ando tentando uma aproximação com editoras maiores, mas porque o livro que pretendo apresentar para elas seria interessante que tivesse uma maior distribuição. Cada livro tem sua demanda e é assim que penso quando vou tentar publicá-los. Sobre a minha relação com os editores e editoras, afirmo que sempre foi ótima; sou amigo do pessoal da Penalux, Pátua, Moinhos, Escaleiras, Cousa, Bartlebee, Mondrongo, e acho muito gratificante que assim seja. Juntos somos mais.

 

DA – Você também tem publicado o livro de contos “Arranhando paredes”, que foi traduzido para o espanhol e lançado pelo selo argentino Outsider. Essa aproximação vem de um período em que você estudou literatura em Buenos Aires. Dessa experiência, você consegue opinar se os caminhos para um autor iniciante são menos pedregosos na Argentina que no Brasil? O que tem de diferente na maneira de se compreender a nova literatura entre esses dois países?

BRUNO RIBEIRO – É pedregoso também. Escritor se fode em todo canto. As diferenças começam com a forma que o mercado lida com a literatura, vejo que lá a coisa funciona de uma maneira mais justa, principalmente a aproximação das editoras com livrarias, que me parece menos predatória. Outra coisa que muda é o grande número de editoras independentes de qualidade, fenômeno que estamos começando a ver brotar no Brasil. Outro ponto é que na Argentina há mais leitores e formas de se destacar no meio literário. No Brasil ainda estamos muito ligados a isso de ganhar prêmios, por exemplo, como forma de chancelar sua obra. Não vi isso por lá. É importante faturar um prêmiozinho? É, mas pelo tempo em que vivi lá, notei que não é isso que fará você alcançar um status mais interessante no meio literário ou sequer receber alguns aplausos. Existem outros processos e maneiras para ser lido e conseguir se destacar, e essa pluralidade de caminhos é uma das coisas mais interessantes na vida literária argentina. Mas tirando esses pontos, muitos autores argentinos que conheci reclamavam tanto quanto nós aqui do Brasil. A dor é a mesma, mas talvez a deles seja mais doce. Culpa do tango e de Borges.

 

Bruno Ribeiro / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Assim como no cinema, a literatura argentina é melhor que a brasileira?

BRUNO RIBEIRO – É um pouco complexo dizer que uma literatura é melhor do que a outra. O Brasil vive um momento de eclosão, anda se publicando muito e tem gente boa pra caramba à solta, assim como o mercado argentino também está pipocando. Tem coisas boas e ruins em ambos cenários. O cinema argentino mesmo chegou aonde chegou por causa de anos e mais anos de investimentos, coisa que só começamos a ter recentemente, e os louros disso já estão surgindo: muitos filmes brasileiros começaram a aparecer nos principais festivais de cinema do mundo e estão se multiplicando por aí: não só em quantidade, mas em qualidade. Com a literatura a coisa não muda muito de figura, o mercado argentino – apesar dos pesares – investiu mais no decorrer do tempo, distribuiu melhor também, tanto que isso de autor argentino sair vendendo livro pelo inbox de Facebook é algo raríssimo; em Buenos Aires mesmo, onde vivi, estudei e convivi com escritores por quatro anos, acho que dá pra contar no dedo de uma mão as vezes que vi isso acontecer; geralmente o autor lança seu livro e o divulga nas redes, mas falando para o pessoal ir comprar nas livrarias. Ou seja, a distribuição e o número de tiragem são melhores do que no Brasil, onde colocar um livro pra vender na livraria é praticamente pedir para falir. Fora ver livros de editoras pequenas sendo vendidos em livrarias grandes, é preciso ressaltar também a tremenda força das livrarias pequenas e independentes; lá tem muitas e elas conseguem sobreviver e aquecer o mercado. Fora aquilo que todos já sabem: na Argentina tem mais leitores. Então, a questão de melhor ou pior acaba se tornando pequena quando comparamos com esses termos que são tão importantes quando tratamos de distribuição e produção de literatura e arte.

 

DA – Ainda no universo do conto, além do seu livro, você é muito ativo na participação e na organização de antologias de narrativas breves. Percebendo a dificuldade do mercado literário de lançar novos autores, você considera que participar de antologias, de coletivos literários, é uma forma eficaz de apresentar os primeiros textos? É possível ter uma carreira independente e ter relevância dentro do meio literário?

BRUNO RIBEIRO – Eu organizo antologias por acreditar de verdade no projeto e principalmente nos autores que convido. “Cem anos de amor, loucura & morte”, “Língua Rara”, “Estamos aqui”, “Um Jardim de Promessas”, todas foram antologias que organizei mais pela paixão do que pelo retorno. Publicar em antologias é uma boa maneira de começar a publicar, de apresentar um primeiro texto, mas convenhamos que pouquíssimas pessoas leem antologias. Pra vender é extremamente difícil e quando você vende raramente alguém lê. Mas estamos aí, na luta e organizando antologias, fazer o quê? O meio literário ainda tem suas resistências com os escritores independentes. Muitos insistem em dizer que não, mas é visível essa resistência e preconceito. Seja como for, sou mais integrado do que apocalíptico, pois vejo que a abertura para os independentes, seja em prêmio, festas, publicações, espaços ou eventos, está aumentando e isso é ótimo. Pode melhorar? Pode, mas pelo menos o barco está andando e aos poucos vamos quebrando a roda.

 

DA – Você também é muito ativo nas novas plataformas de publicação e nas redes sociais. Para um autor que não conta com o aparato de divulgação que envolve os livros lançados pelos grandes grupos editoriais, tais ferramentas são fundamentais para apresentar, anunciar e badalar um livro e a própria carreira. No entanto, a larga exposição acabou constituindo um espaço também favorável a vaidades, rixas, cabotinices e quebra-paus. Há um limite para o bom-senso nas redes? Ou é cada um por si mesmo?

BRUNO RIBEIRO – É preciso ter bom senso na vida como um todo, não só na internet. Infelizmente, muitos autores pensam que estão em seus banheiros e saem vomitando merda pra caramba por aí. Mas essas presepadas fazem parte do processo, pois as redes sociais democratizam de forma grandiloquente seus espaços, então temos acesso a coisas incríveis e, logo em seguida, a coisas escrotas. São as dores e amores da democracia e eu prefiro isso a uma rede que censure discursos e diga o que pode ou não pode. A internet ajuda bastante na divulgação dos meus textos, sem dúvidas. Se não fossem as redes sociais, uma boa porcentagem da literatura contemporânea brasileira estaria sem meios de se divulgar. A web veio para ficar e é uma ferramenta extremamente válida e útil para romper com a diáspora existente no mundo literário.

 

DA – Já que estamos na seara da crítica, recentemente a Folha de São Paulo publicou um artigo em defesa da crítica negativa, na qual a autora do texto reclamava o direito de tratar o livro (e consequentemente o autor) “a chibatadas”. Seus livros, pelo que eu me recordo, foram bem recebidos pela crítica, sendo um deles, inclusive, selecionado por um renomado crítico como um dos melhores lançamentos do ano. Mas se fosse de outra forma: como reagiria se algum de seus romances fosse defenestrado? E como funciona sua relação com a crítica literária: acha importante, não lhe interessa ou entende como um tipo de conceito de avaliação ultrapassado?

BRUNO RIBEIRO – A crítica é essencial. O sentido de uma obra passa pela mão do leitor e os grandes livros são aqueles com uma ambiguidade potente o bastante para conseguir se reinventar durante os séculos. Vide Madame Bovary ou Dom Casmurro: um leitor acha isso, outro acha aquilo, e essa pluralidade de leituras é o que enriquece um livro. A importância do crítico passa neste ponto: é um escritor – pois vejo o crítico como um escritor – que disseca uma obra e a amplia, nunca fecha. Críticos que fecham livros dentro de conceitos restritos e predeterminados me incomodam. Ou seja, acho válido um livro ser duramente criticado, mas que isso seja explicado tecnicamente e que o crítico não isole o livro e suas possibilidades, que deixe algo em aberto, que jogue as vísceras do livro no palco, mas que não o resuma a adjetivos banais e reducionistas. Fora os críticos que fecham ao invés de abrir as obras, outra coisa que me incomoda é a agenda de muitos deles. O meu incômodo surge ao ver certos críticos descendo o pau em livros de editoras pequenas e exaltando os de editora grande e, só vez ou outra, descendo o pau em um livro das grandes. É sério que editora pequena só publica porcaria? Não tem unzinho que preste? Aparentemente é muito fácil jorrar verdades absolutas sobre um meio literário que você só conhece um pedaço. De metonímias e bocas grandes o mundo tá cheio, mas se debruçar de fato sobre um universo para assim, e só assim, dar uma opinião relevante sobre um mundo tão complexo e vasto como o literário nacional é mais difícil e poucos o fazem.  Nesses casos, o que vejo é a boa e velha torre de marfim reinando, pois impor uma agenda claramente conservadora e que só elogia um lado… Não vale é de nada para mim. Um crítico literário deve ter uma agenda ampla, sem conservadorismos e preconceitos, e caso não seja assim, acredito que deva ser honesto sobre suas intenções pelo menos, porque senão passa uma imagem errada e totalmente ultrajante a meu ver. Se o crítico tem uma responsabilidade, essa é a de ser transparente.

 

DA – Além de autor de ficção, você também ministra cursos e oficinas literárias. Muito se discute sobre a capacidade desses laboratórios de escrita de formarem um escritor em contrapartida ao que é considerado, por alguns, como uma aptidão, uma qualidade inata. Da sua experiência, o que de fato uma oficina pode oferecer para quem pretende ingressar na literatura? Um escritor, afinal, pode ser “ensinado” a escrever bem?

BRUNO RIBEIRO – Inicialmente, a experiência me inquietou. Hoje, sinto-me realizado nesta posição de professor de escrita criativa. Acompanhar e ler textos de diversos gêneros e estilos é um verdadeiro aprendizado. Aprendi a ler de tudo, pois um professor de escrita criativa precisa estar aberto para todos os tipos de literatura, afinal, só assim é possível avaliar tecnicamente uma obra que fuja do seu agrado. Não é fácil, mas aprendi. Uma oficina pode entregar técnicas, procedimentos literários e principalmente leituras. Uma indicação de livro pode mudar a vida de um aluno. Outra coisa importante é aprender a ler, esmiuçar de verdade um texto, a linguagem, trama, personagens. Ler o amigo de oficina é mais importante do que escrever, pois ao julgar o texto alheio você indiretamente está aprendendo a avaliar o seu texto também. Aprender a escrever é algo estranho e que sempre me soa pesado, apesar de achar que uma pessoa pode aprender a escrever bem, obviamente. A diretora do meu mestrado de escrita criativa, a poeta argentina Maria Negroni, no primeiro dia de aula disse que o objetivo da pós-graduação não era de formar escritores e sim de criar espaços para encorajar as dúvidas e perguntas, pois a verdadeira escritura sempre é uma arte subjetiva, acima inclusive da matéria que esteja sendo estudada. Assino embaixo disso aí. Ricardo Piglia disse que “a literatura é a experiência mais intensa que existe”. Até hoje, essa frase é o meu lema neste ofício tão árduo. E tento passá-la para os meus alunos, pois, sem processo, confronto, intensidade e pulsão, não há escritura. Seja sacra ou profana, sem gana, não rende. Resumindo: é possível sair mais “enriquecido” literariamente de uma oficina, curso ou pós-graduação de escrita criativa, mas se a pessoa vai se tornar ou não um escritor, isso é algo que só as suas obras poderão dizer.

 

DA – Nesse mesmo campo, a sua convivência com jovens que pretendem se tornar escritores lhe mostra que há neles a formação de leitor. Os jovens estão preocupados em ler bem, investigar com afinco o que está acontecendo na literatura contemporânea brasileira, ou sofrem do mesmo mal que acomete os leitores em geral?

BRUNO RIBEIRO – Uma professora de Campina Grande, Anna Giovanna, passou o meu romance “Febre de Enxofre” para os seus alunos lerem. O resultado foi sensacional: os alunos se vestiram como os personagens do livro, criaram cartazes e banner, e eles fizeram uma sabatina incrível comigo. Muitos ali leram muito bem o meu livro e tascaram perguntas instigantes e profundas. Eram alunos do segundo ano e, veja bem, essa é uma época da vida onde dizem que a garotada quer saber de tudo, menos ler. Claro que não vou pegar este recorte da minha vida para falar que os jovens amam ler, mas o utilizo para falar que quando um professor luta para colocar na mão dos seus alunos obras mais desafiantes, instigantes, e, melhor ainda, botam o autor dessa obra na sala de aula, a coisa muda um pouco. Porque muitos alunos ainda veem escritores como seres arcaicos, corcundas, velhos chatos, mortos. Logo, apresentar um escritor local para eles e o livro dessa pessoa, mostrar que é possível fazer uma literatura distinta daquilo que eles precisam ler para passar do ENEM, pode sim mudar suas vidas. Enquanto professor, eu sempre apresento trechos de livros de escritores independentes. Quando leio o começo do romance “Palavras que devoram lágrimas”, do Roberto Menezes, a galera vibra, adora, assim como quando leio o começo visceral e lírico de “Nossa Teresa: vida e morte de uma santa suicida”, da Micheliny Verunschk. O mesmo ocorre quando leio trechos de “Modos inacabados de morrer”, do André Timm. “É sério que pode fazer isso na literatura?”, muitos alunos perguntam. São obras que dificilmente cairiam na mão da galera, então é bacana falar que esses livros estão sendo lançados atualmente e por autores vivos. Quando ministro oficinas em colégios, um ou outro tem interesse em se aprofundar no que apresento, e é nisso que creio: nos pequenos atos e revoluções. Não penso em mudar o todo, mas se conseguir impactar uma pessoa ali, pra mim já tá valendo. Formação de leitores é isso: um trabalho de formiguinha, que deve ser feito com paciência e paixão, sem esperar grandes e imediatos retornos.

 

DA – Hoje há um consenso desanimador de que quem realmente lê os livros dos autores nacionais são os próprios autores nacionais. Isso, ao meu ver, configura-se em razão de algumas circunstâncias: a falta de distribuição, as baixas tiragens, a crise do mercado editorial e o baixo consumo dos leitores. Publicar um livro diante de todos esses obstáculos, portanto, não seria mais um capricho? Literatura, no Brasil, é mais paixão e resistência que a construção de uma carreira? 

BRUNO RIBEIRO – Já parei pra pensar sobre isso: por que eu publico um livro? É difícil pensar em que estado eu estou na minha “carreira”. Tanto que nem uso o termo carreira literária, e sim vida literária. Nem é para pagar de diferentão, mas é por pensar de verdade que a literatura atravessa mais a minha vida do que uma carreira. Fora o blá blá blá de só recebermos 10% do livro e tudo isso, o que mais ferra nossa vida é a distribuição. O pessoal do cinema sofre o mesmo. Se houvesse uma distribuição melhor, a coisa mudava. Basta ver o caso do Giovanni Martins e o seu “O sol na cabeça”. Um livro de literatura e não um best-seller exportado ou um livro de youtuber vendendo pra caramba? Como pode isso? Distribuição, boa tiragem e investimento. Sem dinheiro, é complicado de chegar, por isso mesmo que a internet e os diversos meios alternativos de publicação, divulgação e distribuição são tão importantes. Bater de frente com o mercado é dar soco em ponta de faca, a verdade é que precisamos estar em outros lugares e driblar as imposições do capitalismo. Por isso participo de todos os eventos que me chamam, vou para as escolas, feiras, puteiros, igrejas, até pra livraria eu vou se me chamar, porque é importante ocupar os espaços e jorrar sua palavra – literatura – no ouvido alheio. No final das contas, o que me importa é tentar estar nesses lugares sem fazer tantas concessões também, sabe? Sigo o lema do Zagallo: “vocês vão ter que me engolir”. Minha literatura é isso e fim de papo. E é uma luta tremenda seguir essa linha intransigente, vez ou outra até penso se publicar é tudo isso mesmo, até porque vou continuar escrevendo, publicando ou não, mas aí penso um bocado e decido entrar no jogo, afinal de contas, apesar das desgraças, pelo menos eu me divirto um pouco e consigo um ou outro leitor.

 

DA – Voltando ao seu primeiro romance, “Febre de enxofre”, temos um vínculo entre dois personagens que se conforma uma relação de vampirismo. Logo no início de “Anos de formação”, Emilio Renzi, alter ego do escritor argentino Ricardo Piglia, tenta definir o que é a escrita para si; “seria uma mania, um hábito, um vício”, ele se pergunta, sem chegar a uma conclusão. O que é essa necessidade de escrever? Tornar-se escritor é, de fato, um pacto vampiresco? Algo que se aloja dentro de si e cresce na dependência?

BRUNO RIBEIRO – Amo essa ideia do pacto vampiresco, provavelmente por me sentir como um escritor do século XIX vivendo no XXI: a criação pra mim bebe bastante do romantismo, decadentismo e simbolismo. A diferença é que eu sugo essa inspiração e injeto uma boa carga de humor e deboche nela, pois a transgressão pra mim só funciona se houver riso e certa desconstrução, ou seja: um não se levar tão a sério. Quanto a isso, admiro e me inspiro muito no Michel Houellebecq; ele também bebe de influências românticas e decadentistas do século XIX, mas consegue reinventar os lugares comuns e seriedades dos autores deste período com sua linguagem e olhar repletos de contemporaneidade e humor ácido. No excelente texto “Permanecer Vivo: um método”, ele diz que “um poeta morto não escreve. Daí a importância de permanecer vivo”. Acho que essa frase consegue condensar tudo o que penso enquanto projeto literário: há humor, poesia, absurdo, cinismo, profundeza. O humor – aquele debochado que critica e fala verdades afiadas – é uma ferramenta essencial nos meus livros, assim como a própria descrença nos procedimentos que utilizo. E por isso que nego o gênero e tudo que devoro para escrever um livro também… Às vezes nego até a linguagem. A dependência à escrita, aquele velho jargão compatível comigo e vários comparsas: “escrevo para sobreviver”, por exemplo, é muito tosco. Não há como falar uma frase dessas sem colocar uma gargalhada em seguida; é meio sofrível ver gente levando a sério a desgraça que é escrever. O vício pra mim, o pacto vampiresco e infindável do escritor que aloja e não sai mais, é como um bobo da corte flutuando em abismos de mentirinha, mas que se o cara pular no negrume se tornam reais e ele afunda; é o sorriso e o susto, o grotesco inserido numa grande gargalhada, e é neste campo tão conflitante que estou na literatura, mergulhado em um pacto que causa dependência e risos nervosos.

 

DA – Seria possível recriar o mesmo experimento de “Glitter”, porém com escritores? Qual seria a dinâmica e quem você acha que deveria participar?

BRUNO RIBEIRO – Seria possível, claro! O Manuel da Costa Pinto faria as vezes do estilista ermitão de “Glitter” e selecionaria vinte e um escritores para participar do “A Literatura Viva”: uma espécie de grande sarau que seria finalizado com o fuzilamento dos escritores. O assassino que estaria responsável pela chacina lírica seria o franco-atirador Marcelino Freire; segue a lista dos vinte e um: eu, Roberto Menezes, você (Sérgio Tavares), Aline Bei, Bernardo Carvalho, Tiago Germano, Cláudia Lemes, Débora Gil Pantaleão, Adriane Garcia, Cristina Judar, Noemi Jaffe, Mike Sullivan, Ricardo Lísias, Adriana Brunstein, Tadeu Sarmento, Eduardo Sabino, Irka Barrios, Micheliny Verunschk, Ana Paula Maia, Mariana Basílio e André Timm. Mas, assim como todos os conflitos que ocorrem dentro da nossa bolha literária, a plateia descobriria rapidamente que as balas eram de mentira e que os vinte e um escritores só estavam simulando suas mortes: era uma performance para divulgar uma antologia de contos e poemas sobre o tema: A MORTE DO AUTOR. Todos aplaudiriam e se abraçariam no final do ato; tiraríamos muitas fotos para o Facebook e, enquanto um escritor bravo dava um soco murcho no peito de um escritor chorão, iríamos pra casa rastejando e carregando nossas vitórias e louros nas costas cansadas de tanto escrever e tirar fotos.

 

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

 

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126ª Leva - 04/2018 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

 

Copa do Mundo de Futebol na Rússia, 06 de julho de 2018. Nas quartas de final, o Brasil é eliminado pela Bélgica, pelo placar de 2 a 1. Agora imagine uma outra situação. Aos 48 minutos do segundo tempo, a atacante Roberto Firmino é derrubado na pequena área. Com o auxílio do VAR, o árbitro sérvio marca a falta. Neymar, então, pega a bola e se encaminha para a marca do pênalti. Se fizer o gol, a seleção brasileira empata e segue viva na prorrogação. Se perder, o Brasil volta para casa, desmoralizado. O craque do PSG se concentra, mas antes de decidir em qual canto chutar a bola, vem à sua mente as intermináveis chacotas, as memes escarnecedores, o apelido de eterno cai-cai. Será que vale a pena fazer o gol para o país que o trata com tamanha zombaria ou agora é o momento de dar o troco?

Tomando as devidas proporções, Saúva, o protagonista de “A cobrança”, primeiro romance do pernambucano Mário Rodrigues, passa por um dilema parecido. O cenário é o mesmo: a Copa do Mundo de Futebol na Rússia. Na final entre Brasil e Alemanha, o capitão da seleção brasileira está diante da marca do pênalti, que poderá dar o hexacampeonato ao escrete canarinho. Ocorre que o jogador, de origem humilde, com a infância marcada pela pobreza extrema e por traumas familiares, nunca foi bem tratado por esse país que agora depende de apenas um chute certeiro para alcançar a glória. Está aí, portanto, a chance de ele se vingar da pátria (nada) amada, Brasil.

Ao contrário do que se disse por aí, Mário Rodrigues, sim, usa do futebol para se falar de política. Mostra os efeitos da corrupção no alto escalão e nas profundezas mais ordinárias. Os governos que se alternam sem nunca, de fato, mudar o quadro das mazelas sociais, dos marginalizados, dos abandonados de tudo. Dividido em três eixos narrativos, o romance se constrói dentro da história mental de seu protagonista. O menino moldado pela miséria, por abusos e ausências, que acompanhou o pai ser quebrado pela Era Collor e, agora, enquanto aguarda o árbitro autorizar a cobrança do pênalti, avalia se conceder a vitória seria justo ante tudo que passou, ante o que ainda passam milhares de brasileiros.

Na entrevista a seguir, o autor, cuja obra de estreia conquistou o Prêmio Sesc de Literatura, revela os bastidores de seu livro. O processo criativo, as motivações, a influência do famigerado 7 a 1 e o interesse em tratar o futebol em sua vocação metafórica e como instrumento para se deslindar os contrastes que configuram a sociedade brasileira. Com mesma incisão e clareza, Mário Rodrigues ainda fala sobre mercado literário, prêmios, educação, leitores, literatura nordestina e o ofício da escrita. “Em países periféricos como o nosso, ser escritor é uma afronta. Uma excrescência. Uma aberração”. Pelo visto, não só Saúva vive um dilema.

 

Mário Rodrigues / Foto: arquivo pessoal

 

DIVERSOS AFINS – “A cobrança” se passa durante a partida final de uma Copa do Mundo, na Rússia; exatamente como acabamos de presenciar nos últimos dias. Como nasceu a ideia para a construção do livro? Houve um planejamento para que estivesse pronto e fosse lançado juntamente ao mundial?

MÁRIO RODRIGUES – Sempre apreciei o esporte. É também do meu interesse a relação do futebol com a sociedade brasileira, como marca relevante de nossa construção social e cultural. Após a Copa do Mundo de 2014, a mim ficou patente que uma página significativa foi virada nessa relação entre a seleção, como herança cultural, e o povo brasileiro. Era algo gestado já há um bom tempo com a expatriação muito cedo de nossos bons jogadores, criando um abismo de interesse entre os torcedores e os atletas. Uma torcida sem empatia, sem reconhecimentos. Porém, o que aconteceu em 2014, com os 7 a 1, foi mais profundo. Há duas rupturas ali: a seleção brasileira se afastou em definitivo (não do torcedor iniciado, com este isso já ocorrera), mas, sobretudo, se alienou daquele torcedor ocasional, o típico torcedor de Copa do Mundo. Nossas avós, que só assistiam aos jogos da Copa, mesmo elas perderam a sintonia com a equipe. Além disso, o próprio jogo mostrou que, sim, éramos vulneráveis, vencíveis – e vencíveis com grau de humilhação inédito. A Copa de 2014 partiu a relação entre povo e a seleção. O futebol saiu do campo cultural e social para ser um fator meramente esportivo: isso é significativo em excesso como dado histórico. “A cobrança” tem a pretensão de capturar esse momento. Com uma diferença: como se fosse um movimento de dentro para fora. Que a ruptura ficasse latente a partir do campo de jogo e se dispersasse pela vida pública. E que no ponto mais sensível do esporte – uma disputa de pênaltis na grande final – nós pudéssemos refletir sobre o aspecto mais íntimo desta relação: querer cortá-la. O livro ficou pronto em meados de 2017, o que tornou viável sua publicação em 2018, no primeiro semestre. Claro que comercialmente seria interessante essa data, pois aproveitaria o fluxo da Copa. Foi isso que fizemos. Obviamente, porém, há o desejo de que a força dessa história extrapole esse período. As leituras que vêm sendo feitas me deixam muito feliz. Percebo que o livro levanta várias questões pertinentes e aponta para inúmeros destinos – o que provavelmente lhe dará uma vida útil para além do período de Copa.

 

DA – No seu livro, temos um jogador de futebol brasileiro diante de um dilema. Se fizer o gol de pênalti, ele dará o hexacampeonato ao Brasil; se perder o pênalti, ele se vingará do país que virou as costas para ele durante toda a vida. Na sua opinião, qual a melhor leitura para esse drama? A maneira realista ou a alegórica?

MÁRIO RODRIGUES – É de Nelson Rodrigues a famosa tirada: “A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana”. Imaginemos, portanto, a final de uma Copa do Mundo disputada com penalidades máximas – seria o auge dessa dramaticidade. O livro trabalha com um olhar muito próximo, sobretudo na caminhada do jogador até a marca do pênalti. Cada detalhe – gramado, braçadeira, bola – vai ganhando ressonância. Detalhes trabalhados, às vezes, de modo claustrofóbico. Isso, pretendo, dá uma dimensão quase palpável e real daqueles passos. Mas, como se espera da literatura, a alta, esse cenário é feito para acessar outras instâncias da história de Saúva e da experiência do leitor. No fundo, o jogador que tem que tomar a decisão de se vingar do seu país ou não. É metáfora sobre cada um de nós e sobre todos nós. Dentre as várias caminhadas, como humanos e cidadãos, essa alegoria nos é oferecida: o prazer egoísta da vingança – mesmo justificada – está acima do bem estar coletivo (mesmo que este seja ilusório e não reconhecido)? No país que herdamos, é justo basearmos nossas escolhas e nossas éticas pessoais na vantagem individual ou ainda há espaço para pensarmos na coletividade? Um único momento de glória pode justificar a vida de um homem e um único momento de vingança poderia ter o mesmo efeito?

E um último reflexo: não estamos nós, a cada dia, diante deste mesmo pênalti? É no meio dessas angústias que encontramos Saúva. Diferente dele, porém, não estamos acompanhados por bilhões de espectadores. Estamos sozinhos.

 

DA – A partida em que se ambienta a história é uma final de campeonato mundial entre Brasil e Alemanha. A escolha do adversário tem a ver com o famigerado 7 a 1, que tomamos na Copa de 2014? E como você desconstrói aquele resultado, sabendo hoje de toda a corrupção que envolveu a preparação daquele evento?

MÁRIO RODRIGUES – Na verdade, vejo a Alemanha como o grande rival futebolístico do Brasil (mais do que a Itália – e nem cito a rivalidade com a Argentina tão artificialmente forjada pela Rede Globo). Em números de conquistas e participações, em quantidade de gols marcados, em história, em peso de camisa, são essas as grandes potências. Mas há algo além: a espécie de jogo, a forma como se pratica o futebol. As escolas. Mesmo os alemães tendo nos últimos anos se aproximado de um futebol mais suave, é impossível fugir do próprio DNA. Sintetizando: o futebol alemão é o método; o nosso, improviso. São opções estéticas, as duas melhores já feitas nesse esporte. Mas é impossível fugir do 7 a 1. A maior vergonha da história do futebol. A possibilidade de uma catarse não poderia ser descartada. Como tudo no livro, todavia, é uma catarse módica, nos pênaltis. Mas só teria sentido contra a Alemanha, nosso algoz. Para o bem e para o mal, o esporte espelha a vida. Por mais que, com o tempo, os aspectos extracampo possam contribuir para certas explicações, é o resultado que fica para a história. Podemos pensar no acaso que foi o Brasil de 1982 perder para a Itália com três gols do corrupto Paolo Rossi; podemos pensar no craque Zico perdendo um pênalti em 1986, porque não estava plenamente recuperado de contusão; podemos pensar na água batizada que os argentinos deram a Branco na copa de 1990; e na misteriosa convulsão do “Fenômeno”, em 1998. Tudo isso, porém, orbita sem relevância diante do astro significativo: o placar e a eliminação. Por mais que o negócio futebol tenha se corrompido – e se corrompeu de modo imperdoável em todos os seus patamares –, o esporte continuará. E será efetivamente o que foi feito em campo que será lembrado. De modo que para sempre o 7 a 1 representará uma vergonha inapagável.

 

DA – O protagonista do seu livro é um jogador de futebol que teve uma infância miserável, como é comum a milhares de jogadores brasileiros que vieram dos espaços marginalizados das grandes cidades. Um menino ruivo, de apelido Saúva, com um drama familiar bem pesado, que encontrou na bola um instrumento de salvação. Como foi dar vida a este protagonista? Foi inspirado em aspectos da realidade ou é produto estritamente da ficção?

MÁRIO RODRIGUES – É preciso antes uma nota técnica. Em ficção, acredito que o personagem é essencial, tudo emana dele. É o personagem que dá vida à narrativa. Para que o argumento de “A cobrança” funcionasse, seria preciso um protagonista com várias especificidades. Não poderia ser um zagueiro-brucutu que daria um bico para fora na hora do pênalti nem tampouco o craque-instagram que daria uma cavadinha humilhando o goleiro desesperado. Deveria ser um volante: o elo entre a defesa e o ataque. A mais ambígua das posições do futebol: aquele que pode ser a síntese do que de mais fino já foi apresentado no futebol (Beckenbauer) com o que mais bruto foi apresentado (Dunga). Depois, entra a composição física: Saúva é ruivo. É um alienígena, um estranho no futebol brasileiro. Quantos atletas ruivos defenderam a seleção brasileira? Esse aspecto físico deixam inseguras nossas conclusões. Esse sujeito seria capaz de tudo. Além disso, Saúva é o capitão do time (a formiga que trabalha pela coletividade). A bússola moral. Guarda em si uma obrigação: ele é farol não pela técnica, mas pela seriedade, pela entrega que demonstra em campo. E é exatamente essa entrega que justifica qualquer atitude tomada por ele. Fiquei muito feliz com a maneira com que esse personagem descambou para as páginas. É difícil esquecê-lo e esquecer seu drama depois de habitar sua mente naqueles segundos que o levam ao pênalti, naquelas páginas que levam à cobrança. Porém, seria necessário que Saúva tivesse uma história que oferecesse verossimilhança às suas possíveis escolhas diante do goleiro alemão. Então, colocamos aquele menino em seu processo de formação – como dito: nem um pouco fácil. Entram aí a fabulação e a invenção, o caráter mesmo da literatura. Manusear como títeres aqueles infelizes personagens, o pai e a mãe, para que eles fornecessem a matéria humana complexa que gerou nosso capitão, Saúva. E, claro, minha posição preferida em campo, até hoje, é a de volante.

 

DA – A literatura ficcional brasileira tem um histórico de bons livros sobre futebol. Eu cito Nelson Rodrigues, Moacyr Scliar e Sérgio Sant’Anna, por exemplo, como grandes autores que se debruçaram sobre o tema. No caso da preparação de “A cobrança”, você chegou a criar uma bagagem bibliográfica para estruturar seu livro ou não precisou, pois imaginou o futebol mais como um dispositivo para dar forma ao seu enredo?

MÁRIO RODRIGUES – Minha relação com o futebol sempre foi muito próxima, tanto praticando quanto assistindo. Acho mesmo que há algo de especial, de superior, neste esporte. As mesmas palavras e impressões podem ser aplicadas à literatura. Acho mesmo que há algo especial nesta arte. De modo que livros sobre futebol – sobretudo de grandes autores – foram sempre um interesse meu. Além dos citados, ainda lembro com destaque de contos do Marcelo Moutinho, do Rubem Fonseca, o livro do Laub, os ensaios do Wisnik e do Hilário Franco. Assim, naturalmente, ao longo da minha formação de leitor, essa bagagem, de modo natural, vinha sendo montada. Essas leituras – embora prazerosas – pouco influenciaram na escrita efetiva de “A cobrança”. As maneiras como as engrenagens do livro foram dialogando pediam certas escolhas técnicas e formais muito específicas, exclusivas desta história.

 

Mário Rodrigues / Foto: arquivo pessoal

 

DA – No seu livro anterior, “Receita para se fazer um monstro”, os contos também tratam de personagens com infâncias fraturadas, convertidas numa fase de desarranjo emocional, de falhas e de crueldades sofridas e infligidas. Você consegue estabelecer uma ligação entre seus dois livros? E há, em seu estímulo criativo, uma preocupação permanente em dar voz a personagens marginalizados?

MÁRIO RODRIGUES – É do Paulo Mendes Campos aquele belo verso: “Sou restos do menino que passou”. Há também aquela frase-clichê do Brás Cubas: “O menino é o pai do homem.” É impossível fugir da infância – e lá estão receptáculos de boa parte da ficção que foi produzida. É para mim um espaço essencial à criação. Na minha biografia, há um dado que é importante. Tive infância sem traumas: família estruturada, lar sem violência, financeiramente sem pobreza extrema e sem riqueza ostentosa. Isso me deu, creio, o distanciamento necessário para pensar e refletir sobre as outras infâncias, alheias a minha. E que tipo de repercussão infâncias disfuncionais gerariam na alma e na índole e nas ações desses personagens quando na vida adulta. Tanto o protagonista sem nome do “Receita…” como o Saúva de “A cobrança” são resultados diretos de suas infâncias torpes – e que, agora, estão diante de momentos crucias de suas trajetórias. Há algo neles, contudo, que é muito caro a mim. Longe de qualquer tipo inescapável de determinismo, eles seguram as rédeas de suas vidas, de suas escolhas. Eles próprios asseguram que têm o poder de escolher, o prazer e o ódio lhes pertencem, a responsabilidade é deles – e não fogem disso. Esses seres humanos no limiar de suas decisões me interessam. E acho que devem interessar à literatura. Nesse ponto, os livros dialogam muito. A literatura é a maior lente de aumento que existe: não dá para desperdiçar essa ferramenta – mesmo, como se sabe, tendo ela perdido relevância social no último século. Acho enfadonha essa literatura ensimesmada que vem sendo feita no Brasil (uma ressalva: feita e incensada; porque há outra literatura, fortíssima, pujante e original – e que passa ao largo desse patético mainstream literário brasileiro). Então, realmente, não me ocupo com escritores-personagens que passam uma temporada macambúzia em Paris e acham que isso é matéria de interesse para a literatura e leitores. O abismo é o que me interessa.

 

DA – Embora tenha esse apelo do futebol, seu livro problematiza alguns assuntos sempre atuais acerca do contexto social brasileiro, como a pobreza, o descaso total do Estado, a corrupção, a ineficiência dos mecanismos de serviço público. Você é a favor do uso da literatura como veículo de denúncia? Acredita que, por fatores que estão além do pendor artístico-criativo, falta engajamento para grande parte dos autores brasileiros?

MÁRIO RODRIGUES – Em primeiro lugar devo dizer que não há nada de errado em um autor ter consciência política. Aliás, o ideal é que ele a tenha e seja ético e coerente com a defesa da mesma. Militante até, se for o caso. O Rubem Figueiredo diz taxativo: “A literatura é política”, algo que endosso. E mais: uma obra literária pode mudar (antes mais do que hoje, em virtude do esvaziamento social do discurso literário) os paradigmas de um povo. Vejamos a obra de Graciliano Ramos, meu escritor favorito. Vejamos a foto do García Lorca recitando poemas contra os fascistas que o fuzilariam: é das coisas mais forte feitas por um ser humano. Porém, é preciso cuidado: uma vez eu (escritor) descobrindo uma demanda social, a necessidade de um determinado grupo de pressão, uma vez determinada uma pauta politicamente correta, então eu (escritor) montaria uma obra ficcional para afagar esses nichos e por eles ser aceito e endeusado e reconhecido e a partir daí ter minha literatura (duvidosa) apreciada e circulante. Isso é falho. Já o é do ponto de vista estético, do ponto de vista ético é um acinte. Ocorre que, na minha concepção de arte, a literatura está acima, não necessariamente dissociada, mas acima de discussões e contingências políticas. A literatura é maior, simples assim. Como Goya, na Espanha deflagrada, que colocou sua arte acima da politicagem. E, no entanto, será “Os desastres da guerra” o testemunho mais visceral e pungente de sua época e a crítica interminável dos desmandos dos poderosos. “A cobrança” não é um livro pusilânime. É livro corajoso. Que não se esconde do zeitgeist em que vivemos. Mas eu não aponto caminhos em minha literatura. Proselitismos. Não há didatismo, beletrismo e autoajuda. Minha obra é labirinto. Joga o leitor nos canais e corredores. Há a direita e há a esquerda e há o centro. E, neste labirinto, está Astério, o minotauro.  Se você vai escapar dali com um fio de ouro na mão e a lâmina banhada pelo sangue antropobovino ou se terá seus fatos eviscerados pelos chifres pontudos do boi-real é, mais do que escolha, competência de cada leitor.

 

DA – Estamos num ano interessante, em que tivemos uma Copa do Mundo de Futebol seguida de uma eleição para a presidência do Brasil. Nos anos 70, no auge da ditadura, a conquista do campeonato mundial foi intensamente utilizada como peça de propaganda pelos militares. Traçando um paralelo com seu livro, qual o perigo que o futebol pode oferecer quando visto sob o prisma político? E parafraseando Nelson Rodrigues, futebol é mesmo o ópio do povo brasileiro?

MÁRIO RODRIGUES – O poder de penetração emotiva na alma coletiva de um povo que o esporte possui já foi inúmeras vezes aventado e aplicado. Vejamos, por exemplo, Mandela e o rúgbi na África do Sul pós-apartheid, os panteras negras nas Olimpíadas de 1968 e ainda Muhammad Ali. É dado da natureza, também, que autoridades se apropriem disso para adaptá-lo a seus discursos, sejam eles nacionalistas, partidárias, xenofóbicos etc. Capitalizar em cima de vitórias esportivas é algo a sempre ficarmos atentos. A Copa de 1970 foi emblemática nesse sentido, sobretudo quando lembramos que Médici realmente gostava de futebol e entendia de seus meandros. Porém, esse perigo já foi mais real. Hoje, como disse, a relação do brasileiro comum com o futebol mudou sobremaneira. Durante a Copa da Rússia, poucas ruas foram decoradas com as cores da seleção; houve alunos meus (portanto, a nova geração) que perguntaram por que não haver aula durante o jogo da seleção brasileira? O número de pessoas realmente apaixonadas pelo futebol, aquele futebol do dia a dia, no Brasil, é relativamente pequeno. Mesmo um hexacampeonato terá pouca influência nos caminhos políticos da nação. Como Saúva, será a revolta íntima e individual, somada às revoltas de cada um, a única força transformadora deste país, se a apatia não nos vencer a todos. A metáfora do Nelson envelheceu. Assim como o ópio e a heroína deram lugar a outras drogas, o que nos aliena hoje, como povo, já não é mais o esporte.

 

DA – Com o seu primeiro livro, você conquistou o Prêmio Sesc de Literatura, na categoria Contos. Diante da realidade do mercado literário brasileiro, qual o maior benefício de se ganhar um prêmio de literatura e qual a maior ilusão que um autor premiado pode ter? 

MÁRIO RODRIGUES – Sou um defensor e admirador ferrenho do Prêmio Sesc, antes mesmo de tê-lo conquistado. É a maior iniciativa para os escritores iniciantes da literatura brasileira. O Henrique Rodrigues e o Fred Girauta, que encabeçam o projeto, são dois sujeitos que tenho na mais alta admiração pelo belo trabalho que fazem, pelos nomes que têm revelado, pelos livros que surgiram a partir desse prêmio. E, claro, faço menção à Editora Record, que acreditou no projeto lá nos idos de 2003. O prêmio se bifurca em dois grandes benefícios. Primeiro, o selo de uma grande editora. Embora isso não chancele sua obra em relação a você mesmo (afinal, subtende-se que um escritor deva ter a autocrítica necessária para saber quando seu trabalho tem força ou quando é franco, sem necessidade de chancelas externas), impressiona a maneira diferenciada como o mercado, os leitores e a mídia veem um livro publicado por uma grande editora. E inevitavelmente isso abra portas – falando de maneira madura, é uma mudança de patamar para o escritor (volto a dizer: não uma mudança de seu talento, mas da visibilidade que esse possível talento recebe). O outro benefício: o circuito que o Sesc faz com os ganhadores, estes participando de palestras e mesas pelo Brasil afora: a quantidade de pessoas com quem você dialoga neste ano que compreende o prêmio é incrível. Aprende-se muito. Alguns funcionários do Sesc são artistas brilhantes e o convívio com eles é muito interessante. E há o contato com os leitores. Pessoas que efetivamente leram seu livro, sem o ranço intelectualóide de certas leituras. Leram pelo prazer da imersão em um personagem e em um mundo, seu mundo e seu personagem. É sempre uma troca muito rica. Por exemplo: tive a honra de participar em Paraty de um clube de leitores – pessoas que leram e debateram meu livro durante um mês e, no final do período, fui até eles para conversarmos sobre a obra. Imagine-se a quantidade de coisas que descobri sobre meu próprio livro… além disso, fizeram aqui em Pernambuco uma amostra de teatro onde as histórias do “Receita…” foram encenadas e então vi o personagem pular das páginas –  sem dúvida, experiências que não têm preço. Sem o Prêmio Sesc, simplesmente elas não iriam existir. Quanto à principal ilusão: acredito que tudo decorre de uma visão equivocada sobre o ofício de escrever e sobre o mercado literário. Alguns escritores colocam o ofício no mundo do showbizz, encarando a si mesmo como popstar, uma diva. Esperam camarotes com infinitas toalhas brancas, paparazzi, contas milionárias: é a paulo-coelhização da literatura. Não é por aí que a escrita caminha. A literatura é a confecção lenta e silenciosa de uma obra. É o principal patrimônio de um escritor. O prêmio, seja ele pecuniário e de outra ordem (dar visibilidade), é apenas um incentivo, por vezes módico, para que essa obra seja construída. Aparecer na TV, ser popular no Facebook, frequentar certa cena literária, coisas que prêmios proporcionam, não devem ser nunca a razão de ser de um escritor. E não é. A vela do escritório de Flaubert servindo na madrugada de pequeno farol para os barcos de Rouen é o melhor símbolo para um escritor.

 

DIVERSOS AFINS – Ainda em relação ao prêmio, você é um autor do Nordeste do país, que atingiu visibilidade nacional em razão de o seu livro ter sido publicado por um grande grupo editorial. Olhando com distância essa realidade, você acredita que teria chance de publicação com tamanha amplitude, caso não tivesse sido premiado? Ainda é necessário o autor estar no eixo Rio-São Paulo para que seu trabalho consiga ser enxergado?

MÁRIO RODRIGUES – Não. Não haveria a menor chance de publicar por uma grande casa editorial sem o caminho aberto pelo Prêmio Sesc. Não é que o mercado literário brasileiro seja fechado. É simples: não existe efetivamente o mercado literário no Brasil. Ninguém está interessado em descobrir o grande romance brasileiro. Naturalmente, existem os autores estabelecidos que interessam às casas editoriais (mesmo que seus livros atuais não tenham nenhum valor efetivo) e outros autores novos que, por um motivo ou outro (um agente literário mais influente ou se enquadram em certos nichos de cor, opção sexual e classificação social-financeira), fazem parte desses portfólios. Mas uma política de fomento à nova literatura não existe. Tornou-se muito fácil no Brasil imprimir um livro, mas publicar um livro é das coisas mais difíceis. Explico: contratar um serviço de uma gráfica ou de uma gráfica camuflada de editora é fácil. Mas o escoamento desse material é sempre muito angustiante. É o momento em que se percebe que você não tornou pública sua obra, não houve a publicação. Você apenas imprimiu seu texto. Estar no eixo Rio-São Paulo também não ajuda muito. Com minha personalidade, se eu morasse em Ipanema ou nos Jardins, no Complexo do Alemão ou em Itaquera, não publicaria meus livros senão através de um prêmio como o Sesc. A mera situação geográfica não ajudaria em nada. O que ajuda – e agora nós entraremos num terreno mais capcioso – é o que chamam, termo horrível, de network, sua rede de trabalho. É você estar disposto a fazer o jogo. Como se diz no esporte: “Jogo é jogado, lambari é pescado.” Se o sujeito estiver disposto a mendigar amizade de grupelhos de escritores com certa influência sobre certos grupelhos de editores, paparicá-los em oficinas literárias pagas ou acompanhá-los em eventos esvaziados de público nos quais eles participam e ser aquele seguidor ferrenho em suas redes sociais, forjar talvez uma amizade artificial (ambos sabendo dessa artificialidade), o sujeito assim pode receber, um belo dia, algum tipo de convite, uma inserção no famigerado mundo literário. Mas é preciso ter a índole necessária para isso. Nem todos têm. Eu não tenho. Grupelhos autorreferentes são aquela imagem do Paul Auster: a fachada bonita de um castelo, mas quando você se aproxima é de papelão. Ao atravessar a fachada, não há nada lá.

 

Mário Rodrigues / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Você trabalha com escrita e literatura, ensinando redação para adolescentes. Constantemente, pesquisas dão conta de um número ainda inexpressivo de brasileiros que leem ou mesmo que se envolvem com a literatura na condição de hábito e de lazer. Da sua experiência diária, como enxerga esse panorama? Os jovens estão lendo de fato, demonstrando interesse pela literatura, ou ainda estamos longe de uma geração efetivamente de leitores?

MÁRIO RODRIGUES – A resposta varia. Meus alunos são bons leitores. É comum vê-los com livros nas mãos – mas é preciso fazer um recorte específico. Acabo dando aula, na maioria das vezes, para alunos de certa classe social mais privilegiada, onde o acesso ao livro não é algo exótico, poderia dizer que é algo natural. Há livros no seu cursinho em abundância e disponibilidade, há livros em casa. Os pais têm condições, se os meninos assim quiserem, de bancar a aquisição de livros para que seus filhos os leiam. Porém, mesmo nesse caso raro, a literatura consumida é muito específica. Não há aí nenhuma crítica, mas são séries superficiais e há pouquíssima transição dessa literatura para algo mais apurado artisticamente ou temas mais sofisticados e camadas mais profundas. Em resumo, há um momento em que o jovem perde esse ímpeto leitor. O papel do professor é fazer essa ponte. Muitas vezes, contudo, os josés de alencar inviabilizam o diálogo e a sensibilidade dos jovens leitores com o potencial da literatura. O professor atento faz a mediação, ganha leitores. Mas há poucos desses professores. Saindo desse nicho socialmente privilegiado, a situação é díspar. É deprimente. Não teremos uma geração de leitores. O livro é inacessível para a maioria dos jovens brasileiros. Os poucos que têm acessos a eles não têm o nível de leitura capaz de lhes fornecer a abstração. Não há leitura: há decodificação de letras e fonemas, apenas. Existe uma luta, em boa parte da nossa sociedade, pela sobrevivência imediata. Nesse mundo, o livro e a literatura não são realidades distantes, são realidades inexistentes.

 

DA – A educação está na literatura na mesma proporção que a literatura está na educação?

MÁRIO RODRIGUES – Infelizmente, não. Há muito pouca literatura na educação. De modo geral, as aulas de literatura são sucateadas, mecânicas, decorebas. O currículo escolar é anacrônico, e não adaptado às necessidades etárias e de maturidade dos alunos. Parece mesmo que a literatura na educação, na escola, é forjada de tal modo a afastar leitores. Nos vestibulares e no Enem, que poderiam servir como farol para o que é feito em sala de aula, cada vez mais a literatura se encontra subalterna – mesmo em provas essencialmente de interpretação de texto. Nestas, textos técnicos, científicos e jornalísticos predominam. É realidade: a literatura está esvaziada – e a escola reflete a sociedade (não o contrário). A visão jesuítica de educação, que não estimulava a criatividade e apenas a apreensão nos fez muito mal. E literatura é criatividade. Por outro lado, quanta educação e quanto ensinamento guarda um bom texto literário! Quanto a literatura nos educa! Como pessoas, como cidadãos, como críticos. Como transformadores de uma realidade individual e, quiçá, social. Milton Hatoum: “Se não fosse a literatura, eu seria um bobalhão” – é uma verdade. Não há forma melhor de aprender sobre o Norte deste país do que num livro como “Eu receberia a pior notícias dos seus lindos lábios”, de Marçal Aquino, nem sobre o Nordeste num livro como “Emissários do Diabo”, de Gilvan Lemos. Como não aprender tudo sobre a sombra do nazismo depois de ler Bruno Schulz e sobre a colonização da África depois de “O coração das trevas”? O paraíso é uma espécie de biblioteca, diz o poeta. Mas não podemos obrigar ninguém a entrar nele.

 

DA – Muito se fala do esporte, entre os quais o futebol, como ferramenta elementar para oferecer um futuro melhor para crianças oriundas de comunidades de baixa renda, em muitos casos dominadas pelo crime. Na sua opinião, a literatura pode ter ou tem esse mesmo poder de transformação social?

MÁRIO RODRIGUES – Em teoria, sim; na prática, não. A literatura perdeu sua função social (não quer dizer que um dia, no futuro, não possa ser reconquistada, embora não acredite nisso). Ela interessará cada vez mais a um grupo menor de pessoas. Imaginemos a matemática e o xadrez, ramos do conhecimento apaixonantes, mas deslocados da realidade, embora sideradores de grupos específicos. Este é o futuro da literatura: tornar-se cada vez mais o conhecimento de um grupo, uma seita de iniciados. Há, inclusive, quem defenda que a literatura só sobreviverá assim. Se arvorar a um papel de transformadora dos hábitos sociais e culturais, é erro. O viço estaria exatamente em sua introspecção. Não há lamento nessa visão. Perdemos muitas oportunidades. Afunilando para o Brasil, em vários anos de relativa estabilidade econômica e política, não soubemos transferir para a educação o protagonismo. Preferimos consumir celulares em vez de cultura, bibelôs em lugar de livros… Poderíamos estar vendo, agora, a aurora de uma nova geração leitora, crítica e consciente, mas observamos o nascer de pensamentos ainda mais retrógrados. É o preço que pagamos. Há livros transformadores. Mas estão lacrados, perdidos em alguma prateleira empoeirada de raríssimas bibliotecas públicas – que nunca estão abertas.

 

DA – No Brasil, é mais fácil ser escritor ou jogador de futebol? 

MÁRIO RODRIGUES – Houve tempo em que ser jogador de futebol era coisa de malandro, de vagabundo, de quem não queria trabalhar. Hoje, essa visão mudou radicalmente. Há pais que fazem disso a meta de vida de seus filhos, mesmo antes destes aprenderem a caminhar direito. O irmão do Ronaldinho e o pai do Neymar são prova disso. De modo que difícil mesmo é ser escritor. Em países periféricos como o nosso (mas isso acontece em menor grau em várias partes do mundo), ser escritor é uma afronta. Uma excrescência. Uma aberração. Meu amigo (e um dos melhores contistas em atividade no país), Nivaldo Tenório, tem uma imagem perfeita: o escritor está em seu escritório compondo o livro que vai mudar a literatura brasileira, então a mulher o recorda de que é preciso limpar as bostas do cachorro no quintal. A literatura é menos importante do que as fezes a serem recolhidas. Ser escritor, no Brasil, é tentar compor uma obra, mesmo rodeado de fezes.

 

DA – Se você estivesse no lugar de Saúva, marcaria ou perderia o pênalti? Por quê?

MÁRIO RODRIGUES – Eu perderia o pênalti. Pois quem não reage, rasteja.

 

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.