Diálogo entrecortado de melodias adoráveis. Há anos conheci rapidamente a Elaine Guedes (1968). O meu olhar se deteve em sua alegria de viver e o meu ouvido em sua voz entranhável. Logo em seguida o silêncio se ramificou entre nós de todas as formas. Quando nos reencontramos, seu currículo já havia dado um salto qualitativo vultoso, com discos gravados e livros publicados. Surpreendeu-me descobrir na cantora um duplo poético, autora de letras e poemas. E foi essa descoberta de uma Elaine Guedes que é tudo menos alheia à tensão entre dois mundos paralelos que se chocam entre si com frequência destrutiva, o doméstico e o da criação, que me levou à realização dessa entrevista. Os bastidores guardam sua singularidade saborosa, com recortes tais como: “Eu achava que fazer música era coisa de uma espécie de ser humano diferenciado. Mas até o mergulho na música é uma questão de trabalho, de estudo, não é solitária como a escrita e é bom saber do que estamos falando ao dialogar com o músico.” Ou essa preciosidade: “Sucesso para mim é fazer algo que se quer ler ou ouvir repetidas vezes. E propor uma novidade, coisa tão difícil, que todo mundo diz ser impossível hoje em dia. Eu não acho. Nesses tempos em que as pessoas sobre a tortura light, todos estão conduzidos sem perceber, espremidos, o consumo é um paliativo e se chega na segunda-feira sem perceber. Eu quero viver percebendo, tendo a possibilidade de encontrar um trabalho bom.” Tamanha vitalidade existencial me fascina em meio a uma estrada gasta por onde circula a arte em nosso tempo, engasgada no tempo, retida numa alfândega de valores revolucionários já datados. Não há nada mais saudável do que um artista que quer romper com a pasmaceira virulenta em que se converteu seu próprio tempo. Elaine é um bom exemplo dessa atitude guerreira. A voz de Elaine Guedes em uma canção sua. A voz de Elaine Guedes em um poema meu. A voz de Elaine Guedes no diálogo que tivemos e que agora compartilhamos com os leitores de Diversos Afins.
Elaine Guedes / Foto: Julio Cerino
FLORIANO MARTINS – Como a música entra em tua vida?
ELAINE GUEDES – Meu nome foi escolhido porque meu pai ouviu anunciar uma cantora na rádio, e não devia ser brasileira. Na minha casa música não existia, e o clima Polícia Federal era bem pesado, pai e mãe. No entanto eu pedi aos nove anos um som de presente, o primeiro compacto que comprei foi Crosby, Stills, Nash and Young (I can see clearly now) e Billy Paul — Me and Mrs. Jones.
Aos dez anos eu cantava na Igreja Católica, mas uma madre insistia que minha alegria era over. E eu abandonei os dois. Sinto que me tornei uma pessoa com grande dificuldade de me expressar, por isso procurei a música, ela é um canal não tão racional, pra dentro de mim mesma.
Rapidamente me vi em Fortaleza fazendo backings para o Tazo Costa no Teatro da Encetur. Depois comecei minha carreira-solo e fui estudar com Paulo Fortes, cinco anos de canto lírico. Cantei com o Tim Maia, Cassiano e Jorge Ben Jor.
FM – Desde quando começaste a escrever sempre esteve presente essa atenção a um “estado de entrega”? Suponho que isto queira dizer que tens uma disposição para o mergulho em grandes águas, o que nos leva inclusive à improvisação. Já falaremos da música, mas comecemos pelas fontes literárias: tuas leituras.
ELAINE GUEDES – Estado de entrega é uma necessidade, é vital porque é algo que fica ruminando, então eu tenho que ir lá ver o que é, e vejo escrevendo.
Eu acho que sempre precisei escrever. E ler. Aos treze anos eu ganhei uma leitura que, não sabia por que, me marcou para sempre: os contos de Voltaire, em especial Candide. Lembro de uma vez, aos dezoito anos, ter causado certa fúria em minha mãe por ter chegado com 20 livros de uma só vez em casa, dentre eles muitos da coleção Civilização Brasileira. Li muito sobre temas sociais e os filósofos — cursei primeiro Serviço Social, depois Ciências Sociais na UFRJ, não terminei. Então aos dezoito já havia lido Descartes, Morus, Platão… Ao mesmo tempo, ou um pouco antes, eu lia todos os bolsilivros de Lou Carrigan com sua agente Brigitte Monfort. Li Os 7 Minutos, Irving Wallace, e comprei todos os autores citados. Leitura é uma curiosidade, e estou sempre contrabalançando a literatura. Sou apaixonada por romance histórico. Agora estou na fase Guerra de Fogo e Gelo, leitura adolescente, que me faz dormir e sair da minha realidade. Que não chega nem perto de meu livro quase predileto, Terra Nostra, de Carlos Fuentes. Em matéria de fantasia… é sem comparação. Como vê, me interessa estar com a cabeça em grandes ondas imaginárias. Preciso disso porque estou gravando, durante o dia, o áudio do livro do Roberto Campos, Lanterna na Popa.
FM –Conversávamos em outro momento sobre tua ideia de introduzir uma linguagem do jazz em algumas canções. Considerando a íntima relação entre jazz e surrealismo, eu sempre observo a criação artística no Brasil um pouco refém de uma racionalidade excessiva que contrasta com outro excesso, o de sua potencialidade mágica. É como um tipo com dotes espíritas nascido em uma opressora família católica. Essa relação acaba por criar um trauma. Então por vezes eu vejo a tradição da poesia e da canção popular no Brasil como devorada por esse trauma que lhe afastou do saudável convívio com o surrealismo e o jazz. Observe que falo em canção popular, o que exclui a música instrumental, pois esta é dotada de um sentido de liberdade magnífico que vem lá de um Pixinguinha, passa pelos chorões, a gafieira, essa figura magistral que foi Radamés Gnattali, e mestres como Paulo Moura, Egberto Gismonti e essa impressionante escola natural de multiplicações incansáveis de vertentes que é Hermeto Pascoal. Já a canção popular atendeu a dois caprichos, o da conveniência de mercado e o esvaziamento de discurso por limitação de linguagem expressiva. Quando me falas em teu projeto de aproximação do jazz ele me soa como um canto de libertação. Comenta um pouco tua impressão sobre o que menciono aqui, e me fala de tuas ideias jazzísticas.
ELAINE GUEDES – Bem, a música pop tem regras, a arte não tem regras. Fez-se muita música para Wall Street, que é a teoria do consumo rápido, não da surpresa. Bem objetivo. Tudo o que não quero fazer. E acho que esse empobrecimento da linguagem tem a ver com setorizar. Você foi perfeito na sua colocação. Eu estou buscando sempre a mim mesma, através da escrita e da música. Cantar é descobrir meu retrato em mutação… Adotei um processo interessante, gravar à capela antes de gravar com os músicos. Depois ouvir e ter a mim mesma como referência, quando a música é conhecida. Isto me impede de ter outra cantora como parâmetro pra a canção.
A música pode ser “cinematográfica”. A música tem que ter o cenário. Jazz talvez represente apenas essa liberdade. Eu estou até mesmo pensando em simplificar as harmonias, usar bastantes ostinatos, tornar as bases simples para me sentir bem à vontade. Eu acho que isso fica mais perto dos ouvidos populares, e fica mais perto de mim, que tenho a informação do rock, na veia.
FM –O Brasil é aparentemente um país antissistêmico. Há inúmeros ensaios sobre o que se chama de carnavalização de nossa cultura. No entanto, essa leitura é fruto de uma estratégia de poder, dentro do espírito mais primário do conceito de “pão & circo”. Quando John Lennon foi assassinado a mídia projetou uma overdose mítica, já de todo desnecessária, por sua importância inquestionável. O brasileiro Almir Chediak foi estupidamente assassinado por um sequestrador incompetente. A mídia no Brasil jamais conseguiu entender a grandeza de sua importância para a música brasileira. Sua série de songbooks tem uma dupla importância que se pode dizer épica: a histórica, a recuperação de patrimônio, o ensinamento do amor pelo que é nosso, no caso dos compositores, ao lado da lição que dá aos cantores, de que fiquem atentos ao veio riquíssimo de nosso cancioneiro, inclusive variando repertório e concepção de arranjo. Sempre buscamos equivalências em casa para o que há de mais patético no mundo e nunca nos orgulhamos do que temos de mais relevante. Fala um pouquinho disso tudo.
ELAINE GUEDES – Tenho duas lembranças que ilustram isso: uma, um texto de Antônio Bezerra de Menezes, que quando vice-cônsul em Nova Orleans, se via obrigado a legalizar faturas consulares de milhares de dólares em casacos de peles e automóveis usados, como forma de dissipar um precioso saldo pelo abastecimento da máquina de guerra americana com nossos minerais, essenciais: urânio, areias monazíticas, manganês etc.
Essa noção de valor a que você se refere parece cópia da estátua da liberdade na Barra da Tijuca.
Nós nos acostumamos com a humilhação, por sermos colonos ou sermos escravos.
A postura de não nos valorizar ainda não mudou. Eu me lembro também de certa vez em Nova York um amigo me chamar a atenção porque eu dizia em demasia “I’m sorry”. Então passei a observar que somos um enorme “I’m sorry”. Até bem pouco tempo, e acho que não mudou demais, observa: se uma pessoa pobre, ou negra, enfim, levasse um esbarrão de outra pessoa branca, ou rica… Era o pobre e negro quem pedia, ou pede, desculpas. E se esquecermos esta questão… às vezes ando de bicicleta pela calçada e se alguém me percebe atrás de si, se afasta e ainda me pede desculpas! É uma postura que sempre tivemos, não pensamos como independentes. Inclusive deve ser por isso que não se produzem tantos filmes sobre a nossa história, não se diz nas escolas o quanto a música brasileira elevou o Brasil. Tem uma coisa mudando, mas tem uma filosofia perigosa também, no meio da atual inclusão: a nivelação por baixo. É talvez a ideologia de parte da classe dominante que se lançou na esquerda, e que achava operário “pobre coitado”. Eu acho que isto diminui a qualidade do homem, do cidadão. É a filosofia da Rede Globo, atualmente, e de quase todas as emissoras, a de que o povão, agora consumidor, não “alcança” a qualidade intelectual. Eu acho que o governo também faz isso em muitos programas e procedimentos, visto a escola pública que pouco reprova, se reprova.
O que nós temos de melhor é por outro lado a espontaneidade que brota apesar dos comandos, apesar das ditaduras e das correntes, sempre aconteceu. Com um sorriso de desculpas às vezes, com força outras…
O funk tem força, é espontâneo… Mas é uma manifestação perigosa porque ela acorrenta os valores, que são o retrato de um país cuja elite não valoriza a cultura, a elite que trocou nosso urânio por casacos de pele! Cultura do eu, do meu… Cultura em sua plenitude quer dizer: “um homem educado é a suprema obra de arte”. Não sei de quem é esta frase.
Elaine Guedes/ Foto: Julio Cerino
FM-Vamos conversar sobre os discos gravados até aqui. O que marca a tua voz? O que ela deseja de ti?
ELAINE GUEDES – O primeiro foi Comer, pela Niterói Discos, que concorreu ao Prêmio Sharp, foi mal compreendido e também mal trabalhado, porque o CD era feito, mas não se acompanhava todo um caminho posterior. Esse disco tem uma sofisticação, nunca economizamos nos acordes. Eu ouvia muito hip-hop e Anita Baker, sempre a mistura. Aliás, comecei a compor porque o selo não queria pagar direitos autorais, Arhur Maia e Altay Vesolo me entregaram músicas para eu colocar a letra. Um processo que não faço mais. O segundo foi bacana, Elaine Guedes, independente. O terceiro foi ao vivo, gostei muito, tem uma música inédita do Lenine.
Tudo o que fiz foi um processo. Sinto que estou encontrando unidade agora, estou trabalhando mais também. Durante um tempo fiquei apegada demais à família, não zelei o tanto que a carreira exigia.
FM –Tens um bom sentido estético de direção de teus projetos. Escrever as letras para outros parceiros, considerando que serás, em grande parte, a cantora das canções, pode em algum caso gerar uma frustração ante o surgimento de uma melodia que não era exatamente a que esperavas para compor o ambiente da letra. Isto costuma acontecer? Sentes falta do domínio de algum instrumento que pudesses tocar para te ajudar na composição?
ELAINE GUEDES – Já acontece demais, até que desisti de fazer música esperando cantá-la. Agora eu canto se achar que tem a ver com o projeto do momento. Cantar minhas músicas nesse atual projeto Bluesy vai ser fogo! São canções de Cartola e Thelonious Monk! O Moacyr Luz fez uma música comigo, claro que eu mandei um monte de canções pra tentar seduzi-lo, mas o sedutor é ele, ele sabe o que a música pede e tem seu jeito pessoal, ficou linda. Mas essa cabe, é difícil dizer que cabe, porque estamos falando de canções geniais. O Aleh Ferreira está com outra letra, e depois de ver meu encanto por Nelson Cavaquinho, jurou que procuraria uma inspiração nele. Assim vamos caminhando.
Falta do domínio de um instrumento? O tempo todo, eu me sinto capenga por isto, quase com uma perna só! Falta de cultura minha. Quando comecei a cantar tinha muita namorada de músico cantando. O Ed Motta falou que o Brasil ainda é assim, até me aborreci, mas é o resultado de nossa cultura. Isto está mudando. Agora música é matéria obrigatória nas escolas, e música é mais que cantar sem ter uma noção imensa do que isto significa. E tocar um instrumento tem que fazer parte de aprender a cantar. Eu só arranho.
FM– O mercado da música hoje me parece mais interessado na contraimagem do que na imagem em si. Observo isto porque em nossas conversas dizias que a Adele teria que emagrecer para seguir vendendo discos. Suicidas em potencial como Amy Winehouse ou gordas adoráveis como a própria Adele contestam um pouco a tua assertiva. O mercado já converteu a moral em algo repleto de glamour. Mas a essência estava no glamour e nunca na moral. Agora o escândalo volta a ter certo charme.
ELAINE GUEDES – Eu adoro toda quebra de conceitos! É o mercado que quer que Adele emagreça, eu não, acho-a linda! Eu adoro ver o sucesso Antony & the Johnsons, Björk é sensacional, eu não estou nem aí pra estética, mas eu me sinto cobrada com relação à imagem.
O escândalo está de volta porque a mídia não conseguiu produzir nada avassalador ultimamente. E nem mesmo consegue pegar a ideia da quebra de paradigma para produzir revolução! A essência está sempre na necessidade, não na ideia de sucesso.
FM – Agora mesmo estás em processo de preparação de repertório e arranjos de um novo show, o que certamente acabará remetendo à gravação de um disco. O que já podes revelar do que andas planejando?
ELAINE GUEDES – Apenas que abortei temporariamente a ideia de gravar as canções que compus com tanta gente pelo mundo afora, pela Internet. Ficou sem unidade. Então fui cantar na Lapa com músicos estrangeiros, e me dediquei a um repertório que nunca tinha esperado cantar. Clássicos. Mas eu quero só é achar o meu jeito de interpretá-los. Dá o maior trabalho não me apoiar na interpretação dessas divas como Billie Holliday, por exemplo.
Eu só quero ouvir a minha voz quando pensar numa dessas músicas que escolho.
FM –Publicaste um livro, O Amor Nu, e agora tens um novo título em fase de edição. Como se encontram essas distintas formas de expressão?
ELAINE GUEDES – Dentro da minha casa, onde eu produzo, é aqui que me encontro, sou essas coisas e pronto. Alguns dos poemas de O Amor Nu viraram música, tem links na Internet. Algumas eu não gravei. O livro novo é mais ousado e escrito a quatro mãos, Poemas em Cortes Profundos, com João Ayres. E ganhei um presente imenso da vida: um prefácio do Ivan Lins, escrito magistralmente.
Encontro-me na emoção das coisas que faço. Revelo-me nelas, inclusive para mim mesma.
FM – Esquecemos algo?
ELAINE GUEDES – Essa foi a pergunta mais difícil.
(Floriano Martins (Brasil, 1957) é poeta, editor e ensaísta. Dirige aAgulha Revista de Cultura. Entre os seus livros mais recentes, se encontram “Autobiografia de um truque” (2010) e “Susana Wald – La vastedad simbólica” (2012))
Qual seria o melhor abrigo para um poeta? Refugiar-se no “Olimpo” da criação ou diluir-se por entre o ritual cotidiano dos mortais? Esse tipo de autor é mesmo um ser supremo, ao qual lhe é dada a exclusividade de ver através do escuro do mundo? Talvez passássemos o resto de nossos dias buscando respostas para tais indagações, mas o fato é que há quem se debruce por esses caminhos com um olhar de necessária inquietude. E melhor ainda, ouse atirar seus versos ao vento como forma de marcar sua trajetória de vida. Estes e outros atributos nos servem de guia para entender um pouco do que paira sobre a obra do poeta mineiro L. Rafael Nolli, criador que invariavelmente tem a existência como uma dissonante orquestração de porquês.
Natural de Araxá, Nolli deixa clara em seus versos a pulsão vigorosa e, nalguns momentos, ácida desse desvairado ato que é viver. Não bastasse a marca crítica e irreverente de seus escritos, o autor também sugere um caminho alternativo para o lirismo. Aqui, diga-se de passagem, os dotes da emoção são projetados para um ambiente no qual a contemplação pura e simples vai empunhar outras bandeiras. Nesse ínterim, a inconformidade conduz a voz do poeta e, assim, o texto assume o lugar duma fratura exposta daquilo que representa a miríade sociológica do mundo. O clamor presente em Nolli traz entalada na garganta a espinha dorsal da sociedade de consumo, arregimentando um modo permanentemente insone de conceber tudo aquilo em que nos transformamos. O homem máquina, subproduto duma metafórica e agastada miopia, é personagem predileto da jornada desse autor que, sem fazer concessões de qualquer tipo, não lamenta pelas vias tortuosas da humanidade.
O desejo de poder dialogar com o autor de Memórias à Beira de um Estopim (JAR Editora, 2005) e Elefante (Coletivo Anfisbena, 2012) é algo que há muito permeia o ambiente da Diversos Afins. Assim, ousamos sondar um pouco do que compõe o universo particular de L. Rafael Nolli. O resultado disso implicou na materialização de sentimentos, todos eles bastante coerentes com o que a obra desse incansável poeta contemporâneo sugere.
L. Rafael Nolli / Foto: Arquivo pessoal
DA – Sua manifestação poética possui um caráter aguçado diante da vida. Erguem-se imagens e signos diversos em torno duma atitude desperta e crítica. Aceita o atributo de que seus versos são um exercício de resistência?
L. RAFAEL NOLLI – É muito fácil deixar a poesia em segundo plano, esquecê-la em detrimento de todas as atividades banais que movem a nossa vida. É fácil esquecê-la pelo fato de que não há espaço para a poesia na correria do dia a dia, na velocidade em que tudo acontece; é fácil esquecê-la diante do pouco retorno que ela nos dá: são poucos os leitores, escassos os espaços para publicação e praticamente inexistentes os incentivos. Desse modo, escrever é uma forma de resistir, de impedir que eu me torne mais um pobre diabo correndo do trabalho para a casa, da casa para o trabalho, sem tempo para nada que extrapole o óbvio, o superficial.
Em muitos casos, nem é necessário que um poema seja escrito. O fato de ter um poema em processo, sendo elaborado, mesmo que ainda completamente nebuloso, já basta para me sentir vivo. Nesse sentido, acho que o termo “resistir” cai muito bem, pois a poesia é a minha boia de salvação.
O poema do Drummond diz tudo: “gastei uma hora pensando em um verso que a pena não quer escrever. […] Mas a poesia deste momento inunda a minha vida inteira”.
DA – Na construção de um discurso que engendra aspectos sociológicos, você consegue afugentar o viés didático e quiçá panfletário atinente a tais reflexões. Percebe isso como um desafio criativo?
L. RAFAEL NOLLI – Tudo relacionado à poesia é um desafio. Com certeza, o didatismo e a poesia panfletária são coisas que quero evitar ao máximo, da mesma forma que o obscurantismo, o hermetismo, o sentimentalismo e o discurso pomposo, ainda que exista certo romantismo em torno da ideia de que a poesia panfletária é menor por não sobreviver ao tempo. E que poema sobrevive ao tempo? Entre os modernistas, centenas de poetas publicavam, buscavam espaço, alguns muito bons. Desapareceram. Tenho um pouco de medo da ideia de que se deve evitar o poema panfletário porque o poeta deve criar algo sublime que irá mudar o rumo das coisas no futuro. Muitos poetas pensam assim, como seres excepcionais que estão criando coisas grandiosas e eternas. Bobagem. Como disse, a poesia é exigente demais. O desafio é enorme, sempre.
DA – Sua resposta anterior lembra muito a questão da chamada angústia da criação, na qual alguns poetas se debruçam num esforço descomunal em torno de um resultado impactante. Há mesmo algum sentido nessa necessidade de se erguer uma obra monumental e que traga em si um status de permanência?
L. RAFAEL NOLLI – Acho difícil uma pessoa criar um projeto de escrita “monumental”, assim como se cria o projeto de uma casa. Quem dera as coisas fossem assim: bastasse elaborar um plano de escrita genial, colocá-lo em prática e zás, eis mais um Fernando Pessoa! Como disse, a poesia é muito exigente, não existem fórmulas ou métodos para se conseguir um bom poema, não há atalhos. Se um poema permanecerá, pouco podemos fazer para que isso aconteça além de publicá-lo. O resto não cabe a ninguém, é um processo aleatório que independe do poeta. Aí está uma das belezas da poesia, não se pode transformá-la em um fenômeno como se faz com um romance, usando meia dúzia de fórmulas e uma campanha de marketing. O poema corre por fora, como um azarão. Se ele sobrevive, dificilmente isso ocorrerá porque o seu criador o quis assim. A angústia em criar algo duradouro me parece um delírio faraônico. Ela deve ser canalizada para se criar algo honesto, sincero. O tempo faz o resto.
DA – Um poeta, quando “desce da montanha” onde buscava algo supremo, não parece mais coerente com a condição essencialmente humana?
L. RAFAEL NOLLI – Com certeza, é mais coerente. Claro que subir a montanha pode ser importante, assim como foi para o Zaratustra do Nietzsche, que retornou pregando a vontade de viver e o amor à terra. Subir a montanha pode ser também uma defesa, já que o poeta muitas vezes não encontra leitores ou respaldo entre outros escritores. Essa postura de isolamento é muito comum, o poeta se fecha em seu blog ou em um perfil do facebook e faz disso a sua trincheira. Em outros casos, pequenos grupos de poetas constroem uma montanha e lá sobem, impedindo a todos de se aproximarem. O panorama me parece mais ou menos esse: todos sobre montanhas, alguns em grupos, outros sozinhos, cada um falando uma língua, a maioria confortavelmente escondida do mundo. O problema pode mesmo ser a falta de leitores ou de incentivos para aproximar a poesia das pessoas, ou pode ser um problema criado pelos poetas que não querem diálogo nenhum e se sentem confortáveis com a ideia de praticarem uma arte para poucos ou para ninguém. Nesse momento, sinceramente, acho que subir e se esconder não é o melhor caminho. Porém, não estou muito seguro se, ao descer, o poeta não vá conviver com outros senão aqueles que também desceram da montanha.
DA – De algum modo, carecemos de desmitificar a poesia rumo a um caminho efetivo de aproximação com os leitores? Se sim, como fazê-lo sem desnaturar o gênero?
L. RAFAEL NOLLI – Não tenho uma teoria digna para esse assunto, apenas especulações. Desmitificar a poesia parece um caminho, mas talvez não resolva o problema. Muitos leitores, de contos, romances, biografias, não possuem livros de poemas em casa. O que alegam? Que a poesia é chata? É difícil, complexa, incomunicável? Como mudar essa visão? Valorizando autores? Está nas aulas de literatura o problema? A impressão que temos é que a poesia está escondida, em sua torre de marfim, e ninguém se arrisca a salvá-la.
Uma ação possível que atraia leitores pode ser retirar a poesia das prateleiras das bibliotecas, ou de obscuros blogs e levá-la à rua. Recentemente, participei de um projeto que unia graffiti e poesia. Após as aulas teóricas, onde se aprendia a fazer moldes, usar as cores, etc, os alunos saíam para a aula prática, espalhando poemas pelos muros da cidade. O retorno foi ótimo. Muitas pessoas paravam – e creio que ainda param – diante dos graffitis e ficavam impressionadas com aquilo. As pessoas se surpreendiam com o que liam e, em geral, tinham dúvidas que foram jogadas por terra pela geração de 22: “mas isso é poesia? Não rima, não fala de amor, tem gírias, palavrões…” etc. Ainda persiste, infelizmente, o conceito de poesia rimada, com palavras difíceis, praticamente incomunicável, distante da vida real. Levar poemas para a rua me parece uma forma de desmitificá-la, aproximá-la das pessoas. Uma parte da poesia produzida hoje é produto laboratorial, feita em salas fechadas, sem uma única janela aberta que dê um vislumbre da rua. Ferreira Gullar diz que “Quando surge uma ideia, vou para a rua. Tenho prazer em conceber o poema no meio das pessoas que passam e nem suspeitam que ali, naquela hora, ele está nascendo”.
Levar o poema até as pessoas, na rua, em fusão, simbiose com outras formas de arte será o caminho? Isso não levaria a uma descaracterização do poema como o conhecemos? Como disse, são especulações apenas.
DA – “Elefante”, seu mais recente livro, vem ao mundo de modo não apenas independente, mas artesanal. Qual o maior significado dessa sua opção editorial?
L. RAFAEL NOLLI – Foi uma opção que fiz e que me agradou muito. Em 2005, publiquei Memórias à Beira de um Estopim. Procurei financiamento em meio a empresas, levantei o dinheiro, e uma gráfica se encarregou do resto. Fiquei com uma pilha enorme de livros em casa, ocupando espaço. Desde então, venho buscando uma alternativa para publicar novamente. É triste depender de empresas privadas para isso. As editoras não estão abertas a poesia, pois essa não vende; os projetos de incentivo, como a Lei Rouanet, por exemplo, são de uma burocracia sem tamanho. Foi nesse contexto desanimador que conheci a cartonaria. A ideia é bem simples e apaixonante, os livros são confeccionados um a um, de forma artesanal, com capa de papelão ou de leite longa vida, sendo que cada exemplar é personalizado, único. Existem muitas editoras fazendo isso, todas são pequenas, sem finalidades comerciais, publicando em pequeníssimas tiragens, muitas vezes com Financiamento Coletivo (Crowdfunding). Assim, resolvi criar uma editora nesses moldes, convidando amigos para ajudar na tarefa. Assim, veio ao mundo meu livro Elefante e uma coletânea, chamada Fórceps, com autores de Araxá. Lentamente, vamos confeccionando os livros, pintando as capas, montando os cadernos, colando, costurando, etc. É um projeto autossuficiente: os lucros, que são mínimos, são investidos em material para se fazer mais livros, criando um ciclo.
L. Rafael Nolli / Foto: Arquivo pessoal
DA – No Brasil, como seria possível vislumbrar uma harmonização entre mercado e poesia?
L. RAFAEL NOLLI – Acho cada vez mais que “poesia e mercado” são inconciliáveis. O mercado transforma tudo que toca, formata e modifica para facilitar a venda e ampliar os lucros. Não consigo vislumbrar, nesse sistema em que vivemos, baseado no consumo rápido e desenfreado, um lugar seguro para a poesia. O grande problema mesmo, me parece, é sistêmico: vivemos em um mundo onde tudo é produto de consumo rápido, tudo é descartável. A poesia necessita de reflexão, de tempo. Para piorar, a poesia exige releitura, digestão: quem leu um poema uma única vez não o leu! É um projeto em longo prazo, de compromisso. O mercado exige que a mercadoria se estrague, perca a validade, saia de moda: a obsolescência programada.
A única saída é a formação de leitores. Não há, salvo raras exceções, leitores de poesia que não sejam poetas. O pior em tudo, o mais lastimável? Poetas que sequer são leitores de poesia! Como eu disse, é uma questão problemática, muito complexa. Um exemplo prático: as tiragens de livros de poemas são modestas. Isso ocorre porque não se encontram “compradores” em grande escala. É uma regra simples, o mercado se equilibra em Oferta e Procura e, nesse momento, a palavra poesia mais assusta do que atrai. Vale a pena ressaltar que o problema dos leitores está muito longe da alçada dos poetas. Claro que eles – os poetas – contribuem para aprofundar o problema, mas em geral esses poetas são pequenas peças em um tabuleiro. A falta de incentivos, de editoras especializadas, de espaços para leitura, de debates, de possibilidades de divulgação, a feiras, etc, amplia o problema. Não acredito em poesia como um produto rentável, nem vejo como isso possa acontecer. O que me preocupa é não haver espaço nenhum.
DA – Entre sua porção de educador e a de escritor, quais pontos de convergência considera especiais?
L. RAFAEL NOLLI – São muitos os pontos de convergência. Recentemente, li o livro “Conversas com Elizabeth Bishop”, uma coletânea com as principais entrevistas concedidas pela escritora norte-americana. Nessa obra, ela se orgulha do fato de ser a única poeta estadunidense que vive sem dar aulas. Bishop era uma exceção e nos mostra que a relação escritor e sala de aula não é uma coisa recente. Conheço muitos poetas que ganham a vida como professores. Já que ninguém consegue viver de poesia, é natural que poetas ganhem a vida em sala de aula, como jornalistas, ou algo similar. A sala de aula é um ambiente muito enriquecedor, que possibilita uma troca enorme, não só de informações, mas de comportamento, formas de ver o mundo e interpretá-lo, etc. A sala de aula, como a escrita, exige sensibilidade, percepção apurada, paciência.
DA – Há que se combater certos determinismos em matéria literária. Talvez o pior deles seja acreditar que a maioria das pessoas em nosso país é permanentemente desinteressada pela leitura. Em que medida autores também são responsáveis pela manutenção desse discurso?
L. RAFAEL NOLLI – Infelizmente, somos um país de não-leitores. Os números não mentem: temos 8% de analfabetos (algo em torno de 10 milhões de pessoas), apenas metade da população pode ser considerada leitora. A média de anos de estudo é ridícula: 7,4 anos! Ou seja, a maioria dos brasileiros não possui o Ensino Fundamental completo. Por fim, outro número dessa tragédia: nossa média de livros lidos por ano é de apenas 4! Isso sem entrar no mérito referente à qualidade literária dessas obras! Digo isso sem cair no erro do determinismo, que é uma enorme bobagem.
Acho apenas que o desinteresse, que é real, não é permanente, imutável. Trata-se de um momento, já extenso e duradouro, que é fruto de uma série de problemas que têm raízes profundas. Porém, nada impede que essa realidade mude. Falta incentivo, interesse político, boa vontade da mídia e não sei mais o quê. Uma dezena de motivos. Tenho certeza de que se as pessoas tiverem acesso ao livro, o problema será resolvido, pois não conheço nada melhor do que ler. Temo que muitos grandes livros estejam perdidos, esquecidos, aguardando uma geração de leitores.
Sempre ouvi dizer que a leitura nunca vai ser incentivada pois “um povo que lê não pode ser enganado”, “um povo que lê sabe cobrar os seus direitos”, “sabe votar”. Sei que isso é uma ideia romântica, idealizada, bobinha. Mas não creio que seja uma ideia totalmente errônea. Ler pode mesmo fazer a diferença, mudar o rumos das coisas, ainda que não seja uma ação voltada para isso. Conhecimento é poder? Com certeza. Sabemos que temos muitos nos governando que nunca mais seriam eleitos se o povo passasse a buscar mais informações. Parece teoria da conspiração? Pode ser. Mas não vejo outro motivo plausível para tamanho desprezo, por parte do poder político e da mídia, que explique essa situação.
Com todo o exposto, o papel do escritor, nesse caso, me parece muito pequeno, pois ele luta contra uma máquina poderosa, muito maior do que pode imaginar. O papel dos escritores deveria ser apenas o de escrever bons livros. No entanto, isso não basta, é preciso lutar contra essa máquina. Como lutar? Recorro mais uma vez ao Drummond: Posso, sem armas, revoltar-me? Espero que sim.
DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?
L. RAFAEL NOLLI – Essa é uma questão interessante. Em duas ocasiões, estudei, no sentido mais didático da palavra, a pós-modernidade: quando me formei em Letras e, posteriormente, em minha graduação em Geografia. É um assunto interessante, muito enriquecedor, porém, algo complexo, difícil. Não endosso, por exemplo, esse conceito de que as ideologias morreram, que não há espaço para utopias, que o século XX enterrou todas utopias.
Reconheço que o século XX mostrou o fracasso de alguns modelos de socialismo. No entanto, o socialismo, enquanto ideologia, continua vivo, atual, e urgente. Novas tentativas podem ser feitas, já que o arcabouço ideológico é enorme, riquíssimo. O capitalismo nunca deu certo e estamos aí assistindo a tentativas e mais tentativas de mantê-lo de pé. Por que não com o socialismo? A ideia de que não há mais por que se lutar me assusta muito. Quando alguém cita Fukuyama, me dá um arrepio horroroso na espinha. É uma grande idiotice acreditar que a história chegou ao fim. Esse finitismo é um veneno para a sociedade – com reflexos sombrios sobre a arte.
DA – Abraçando a noção de se travar embates pela palavra, em que nível de percepção está a poesia de L. Rafael Nolli?
L. RAFAEL NOLLI – Essa é, com certeza, a pergunta mais difícil de todas. Eu escrevo, mas isso é um processo que não domino ou entendo por completo. De repente, tenho uma ideia na cabeça e sei que essa ideia vai virar um poema (ideia é uma péssima palavra para descrever esse processo, mas não consigo pensar em outra melhor). Ou seja, é um trabalho inconsciente que não está sob as minhas ordens. Lógico que depois de escritos posso juntar esses poemas e tentar entender o que eles abarcam, notar familiaridades que revelam um padrão, que criam um eixo. Agora, em que nível de percepção eles estão? Realmente, não sei. Temo que seja impossível sabê-lo!
*Alguns poemas de L. Rafael Nolli podem ser lidos aqui
Um importante eixo filosófico movimenta o ambiente da criação. Talvez por isso um autor empreenda percursos mais vigorosos ao cerne daquilo que o impele a edificar palavras. Não raro, vê-se imbuído em complexidades que remontam muito mais a indagações que a respostas de toda ordem. Nesse ínterim, a face misteriosa da existência é senhora absoluta das horas, configurando um cenário através do qual pouco importa o saber dos significados. Ganha corpo o sabor dos desavisos e de como são indomáveis o tempo e seus rompantes.
O escritor com quem conversamos agora traduz em sua obra um pouco desse fluxo incessante em torno do mistério da vida. Trata-se de Edson Bueno de Camargo, poeta cujos versos instauram um especial sentido de ligação com a gênese do mundo. E está a se falar aqui de como a palavra funda territórios e ergue estruturas, todas elas a compor um vasto painel de características que nos ajudam a perceber quão imersos estamos no oceano do insondável. Não bastasse essa hercúlea trajetória sugerida pelo trato com as letras, em Edson temos também a referência ao papel do tempo, seja como componente de transcurso dos homens e suas ações, seja na constatação de que os signos da permanência nos revelam mais atributos do que supomos.
Nascido em Santo André, no interior de São Paulo, o poeta traz embutidas em suas travessias diversas premiações em concursos literários e participações em antologias e revistas impressas e virtuais. Dentre suas publicações em livro, estão: “Cortinas” (edição artesanal), com poesias suas e de Cecília A. Bedeschi – Mauá – 1981; “Poemas do Século Passado – 1982-2000” (edição de autor – Mauá – 2002); ”O Mapa do Abismo e Outros Poemas” (Edições Tigre Azul/ FAC Mauá –2006) e “cabalísticos” (Coleção Orpheu – Editora Multifoco – Rio de Janeiro – 2010). Seu mais recente rebento poético, “A fome insaciável dos olhos” (Editora Patuá – 2013), reforça a sensação de que estamos diante de um autor comprometido com as incursões possíveis da palavra. Nessa entrevista, Edson Bueno de Camargo compartilha conosco traços importantes de sua obra, bem como impressões a respeito desse labiríntico espaço chamado literatura.
Edson Bueno de Camargo / Foto: Arquivo pessoal
DA – A começar pelo título, seu mais recente livro traz em si uma profunda carga imagética. As paisagens poéticas ali presentes mesclam ausências, silêncios, chamados e revelações, tudo a compor uma arquitetura delicada para a existência.“A Fome insaciável dos olhos” pode ser tido como um exercício de travessias diante da fragilidade da vida?
EDSON BUENO DE CAMARGO – Lembro de, em 2006, assistir a uma palestra da Adélia Prado em Paraty, onde ela falou sobre a fragilidade de nossa existência, de como somos seres precários, e de como aquilo me marcou profundamente. Creio que o poeta carrega esta viagem das possibilidades, fazemos o tempo todo esta travessia, ao tentar transformar o tempo em palavras, algo como um xamã imperfeito, tentando enganar o tempo e a morte.
Um bom amigo e grande poeta, José Carlos Mendes Brandão, fala que escreve porque sabe que vai morrer. Creio que seja isso, escrevemos nossos breves epitáfios, o poema é uma conversa com a morte e ao mesmo tempo uma celebração com a vida. A palavra é o fiel da balança.
DA – Chama atenção o caráter orgânico do livro, estabelecendo, nalguns momentos, um elo entre os homens e seus sentimentos quiçá mais primitivos. Em que medida seus versos questionam a gênese das coisas e do mundo?
EDSON BUENO DE CAMARGO – Creio que não seja questionar, mas sim ser a própria gênese. Em muitas religiões tidas como primitivas, é a palavra ou o som da palavra o grande gerador das coisas.
Na própria Bíblia é a palavra que principia tudo. A grande relação mágica da poesia é o conceito de que a palavra cria a coisa ao nomeá-la. A poesia é minha relação com o sagrado.
DA – Diria que essa sua ligação com o sagrado é também uma resposta às tradicionais amarras ideológicas do pensamento?
EDSON BUENO DE CAMARGO – Sagrado não significa necessariamente religião. É um rito de ligação.
Sempre estamos em busca de respostas, nós humanos. Sinceramente, não saberia dizer se a ligação da poesia com o sagrado seria alguma resposta a uma amarra ideológica. Creio que a contemporaneidade não exige mais respostas absolutas e que, principalmente, não existe mais uma resposta única. Sinto por aqueles que acreditam em respostas prontas. Este mundo fácil e explicável não existe (e nunca existiu).
Vivemos no trânsito entre os mitos, cada um criando seu próprio mitologema diário. Além do que, não seriam também as ideologias, uma forma de religião tentando, ao seu modo, dar uma explicação para o mundo?
Sou daqueles que chegaram à conclusão de que não existe de fato um sentido nas coisas. A poesia não responde, não explica, não salva, e ao mesmo tempo nos dá o indicativo do que de fato é importante.
Ao mesmo tempo, acredito que o exercício da arte, e a poesia é uma delas, senão o mais importante, é o que de fato nos revela. Responde-nos? Explica-nos? Não creio que isso seja possível.
Somos essencialmente humanos, o exercício do poético talvez seja a forma mais adequada de nos afirmar isso. Caso contrário, o que nos separa e separaria das máquinas?
DA – Seus versos assinalam uma metamorfose do mundo sem se preocupar com ares de novidade. Diga-se de passagem, tem-se a sensação de que o novo é o velho transmutado, permanência relativa das coisas, fluxo através do qual percorremos ciclicamente as mesmas vias. O que pensa a respeito disso?
EDSON BUENO DE CAMARGO – Realmente não tenho uma preocupação muito grande com a novidade. Para mim o texto tem de ser autoral, ter o seu sinal e a sua marca, mas, ao mesmo tempo, tenho a plena consciência de que toda a escrita é intertextual. De alguma forma, repetimos os nossos poetas prediletos, e simultaneamente damos nossa contribuição para este continuum espaço–tempoda palavra. Somos o resultado de nossas leituras, leitura de livros, de autores, de mundo, de nossas experiências de vida. O formato que usamos para o poema é o mais conveniente e possível para cada um. O poeta que se apega a uma forma única ou a pré-requisitos corre o sério risco de se abortar criativamente.
Quanto aos ciclos, ao tempo e ao fluxo, recorro, neste caso, ao Octávio Paz, que em “O arco e a lira” afirma que todo o poeta é um novidadeiro e ao mesmo tempo um nostálgico incorrigível.
Esta noção de tempo linear é assumida pela sociedade ocidental como a única que existe, ou a que é “certa”. No entanto, junto às sociedades arcaicas, a noção de tempo circular é muito mais aceita. Ocorre do poeta ser uma espécie de xamã, mais adepto às sociedades arcaicas que da “modernidade”.
O tempo da poesia é circular, é o tempo dos deuses, o tempo da contemplação e não o tempo do labor industrial. Uma coisa pode ter acontecido e, ao mesmo tempo, estar acontecendo, sem prejuízo a que ela ainda aconteça. Não raro, poetas antecipam acontecimentos, o acaso objetivo está aí operando o tempo todo.
DA – A lucidez encerra grandes desafios a um poeta? Seria ela um antídoto contra a traição dos sentidos?
EDSON BUENO DE CAMARGO – A lucidez pode ser uma armadilha. Nossos sentidos estão conectados a um mundo que muitas vezes pode se tornar fugidio. O nosso cérebro acredita que tudo o que ele sente é verdade, a ponto de existirem momentos em que podemos trocar memórias. Sei que muitas das memórias que carrego hoje não são minhas, mas ainda assim as sinto, me entristeço com acontecimentos que não vivi, choro saudades que não são minhas.
Não só os sentidos nos traem, a memória das sensações também. As pessoas que vivem nas cidades estão mergulhadas em um caldo de sensações diversas: um cheiro pode detonar uma memória, o cinema, a televisão, a leitura de ficção podem provocar viagens e trânsito entre os mundos.
O poema pode ser a tentativa frustrada de recompor o mundo das coisas, mas não creio que possa fazer realmente este papel. Talvez seja por isso que Sócrates expulsa os poetas da República, por essa ilusão entre o que de fato sentimos e o que de fato esta sendo sentido. Não há um antídoto para isso.
Edson Bueno de Camargo / Foto: Arquivo pessoal
DA – Há um quê de memória afetiva a percorrer algumas vias do seu novo livro. Ali, pessoas e lugares ganham corpo especial diante do poeta que reflete as marcas do tempo. Esse contínuo devir pressupõe um experimentar de mistérios?
EDSON BUENO DE CAMARGO – Toda a escrita é autobiográfica, mas nem sempre o que lembramos ter vivido corresponde necessariamente a um acontecimento real ou a uma vivência. Tomamos do mundo o que precisamos. Por que não também as memórias?
Estou a todo tempo a observar as pessoas, tenho um sentimento voyerista, fico imaginando o que essas pessoas fazem, como se amam, como se comportam diante do mundo. E isto acaba por compor o poema, que é um catalisador de sensações e realidades experimentadas.
Às vezes, penso que a memória afetiva é a única memória que realmente temos, nos lembramos das coisas que nos apaixonaram, pelo amor ou pelo terror. O poeta pode carregar a memória coletiva de sua comunidade. Elias Canetti fala que os poetas são cães de seu tempo, vivem a febre profética dos deuses, mas nunca conseguem fugir daquilo que os circunscreve.
Santa Tereza D’Ávila dizia que até as panelas da cozinha são objetos de sacramento, que são tão sagradas quanto os mistérios do altar, do cálice, do vinho. Acredito piamente nisto. Quando repetimos os rituais cotidianos, penetramos nos mistérios do mais profundo sagrado, todos podemos experimentar as sensações do sublime. Os poetas estão alguns segundos antes das pessoas no tempo. Há momentos em que as pessoas necessitam ser lembradas do que sentem.
O poema, quando cumpre realmente sua função, recupera o campo do sagrado onde o mistério é nossa vivência cotidiana.
A rotina industrial e o tempo linear que são impostos às pessoas afastam-nas das coisas que realmente são importantes. O poeta também tem a obrigação de lhes indicar o sentir, o ser, que deve ser nosso objeto primeiro.
DA – Em matéria de literatura, carecemos hoje da manifestação de vanguardas?Até que ponto a existência delas seria algo relevante?
EDSON BUENO DE CAMARGO – Em primeiro lugar, teríamos de definir o que é uma vanguarda, um termo militar que foi absorvido pelos movimentos artísticos. No campo de batalha, a vanguarda é a infantaria ligeira, os primeiros a romperem as linhas inimigas, mas também o grupo que sofre as maiores baixas (o número de mortes, suicídios e insanidade entre poetas é bem representativo). Pouco o que fizermos irá superar o que foi feito na virada do século XIX e princípios do século XX. Creio que ainda estamos aturdidos pelo que foi feito neste período, não sei como poderemos superá-los.
Vivemos num tempo onde, aparentemente, não existem movimentos culturais, onde parece que tudo já aconteceu e que tudo se repete. Mas fico pensando em até que ponto isso é realmente verdadeiro. Como poderemos saber se não passamos por um grande processo de transformação se estamos inseridos nele? É muito mais fácil visualizar algo de fora, de longe, com o distanciamento que por vezes só o tempo pode dar. Quem disse que a “Semana de Arte Moderna” foi um movimento importante para a cultura do país, foram os analistas posteriores. O movimento de vanguarda mais interessante que ocorreu, para mim, foi o Surrealismo, que primeiro aconteceu, com seu manifesto e tudo mais, e depois buscou as motivações e inspirações do movimento, nomeando ao bel prazer seus precursores.
Para mim o grande movimentador cultural da atualidade é o uso da Internet como mídia literária, o uso de novas plataformas, a facilidade de pessoas de diversos pontos do mundo poderem usufruir de uma forma quase imediata de contatos pessoais, mesmo que virtualmente. No que pese que uma nova mídia jamais substitui completamente a velha, e meios de comunicação de diversas épocas e tempos convivam harmoniosamente. Um grande exemplo disso é a radiodifusão, que logo faz cem anos e não dá nenhuma mostra de perder o fôlego, ao ponto que a Internet, não só não substituiu, como absorveu o modelo. Temos muitas rádios on line operando por aí. Então, o uso da Internet é uma grande novidade velha, só que antes o correio postal, o telefone, faziam a função que hoje se tornou mais fácil e acessível. A grande revolução da Internet é a democratização da informação e do acesso, mesmo com possíveis críticas que lhes devem caber.
Creio que o que hoje falta é um manifesto, um movimento com um formato fácil e reconhecível, aquelas lutas pela hegemonia da razão. O que sinto e vejo hoje são pessoas muito talentosas, mas não muito afeitas ao contato físico e a reuniões intelectuais e políticas (muito chatas para quem não gosta). Pessoas que não sentem a necessidade de um mote agregador em sua arte, mas que também não se incomodam de trocar experiências com outros poetas, mesmo que virtualmente. Mas existem também manifestações que têm acontecido pelas bordas. Uma garotada com grande energia, nas periferias dos grandes centros, fora dos grandes eixos e dos circuitos tradicionais, sem uma preocupação com o reconhecimento, com seus fanzines, publicações alternativas, blogues, revistas virtuais. Quem sabe estes escritores venham a consistir alguma vanguarda, ainda que sem ter esta percepção?
Fica a reflexão. A poesia marginal dos anos setenta não teve nenhum manifesto, saiu às ruas para declamar poesia, enfrentou os anos de chumbo da ditadura militar e hoje, aos poucos, está recebendo o reconhecimento merecido de seus poetas. O Paulo Leminski está ficando até pop e frequentando as listas dos mais vendidos.
DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?
EDSON BUENO DE CAMARGO – Acredito que a pós-modernidade já passou, pisamos na praia da contemporaneidade, e pouco sabemos o que isso pode significar.
Não seria necessariamente o que não endosso, mas me irrita profundamente (risos) é uma certa atitude blasé que alguns escritores assumem, em geral atualizando textos e agindo de forma a operar um revisionismo histórico, descobrindo que para chamar a atenção, ao invés de mostrar uma produção de qualidade, se especializam em falar mal de escritores consagrados em algum período: em especial, as críticas mais ferozes são para o Carlos Drummond de Andrade e para o Mário Quintana, não sei por que razão.
Em geral, estes senhores e algumas senhoras desfilam uma miríade de diplomas acadêmicos e especializações, lógicas incontestes, autoridade presumida, medalhas de honra ao mérito, e tudo o que possa ser usado para afirmar que sua razão é única e qualquer um que venha a confrontá-los corre um sério risco de virar alvo.
Fora isso, somos sempre fruto de nosso tempo, e, muitas vezes, poetas são criaturas meio deslocadas de sua época e lugar. Pego-me chorando sobre os versos de um poeta chinês da dinastia Tang e, ao mesmo tempo, admirado com a poética de um jovem blogueiro desconhecido até o momento. Nada que é poesia me é estranho.
O que vale é o que nos toca. A fruição poética é algo absolutamente pessoal, como uma religião pessoal.
DA – Como aproximar mais as pessoas das palavras sem a intervenção demasiada dos ditames meramente institucionais ou quiçá demagógicos? Somos, de fato, uma nação que subestima potenciais leitores?
EDSON BUENO DE CAMARGO – Talvez nem seja o caso de discutir “a intervenção demasiada dos ditames meramente institucionais”. Pessoalmente, nem enxergo isto como um mal em si, mesmo porque muitas vezes o que vejo é uma ausência total de políticas culturais para a literatura e a leitura. Costumo dizer que preferiria combater uma política cultural ruim a me deparar com uma política cultural ausente ou inexistente. Já ficaria muito feliz se as autoridades constituídas fizessem alguma intervenção, de fato, neste sentido. O pouco que é feito sempre vem no sentido de compra de livros, programas feitos para grandes editoras e um conteúdo pasteurizado. Os autores e pequenos editores independentes estão fora da jogada.
Toda vez que falamos de leitores, penso em nossos vizinhos platinos, que têm uma tradição literária mais antiga e arraigada, e muito mais hábito de leitura que nós brasileiros. O que neles é tão diferente neste aspecto que nós? Temos a mesma formação jesuítica, católica, opressora, caótica.
Qual será o mistério que faz com que o brasileiro não seja um leitor habitual? O hábito da leitura parece ser algo que não está na alma brasileira, ou está e não vemos. Mais uma vez, acredito que a questão está na educação. Enquanto no Brasil a primeira Universidade surge no século XIX, no mundo de nossos hermanos, as universidades têm quase o tempo da colonização. No que pese que esta educação foi sempre europeizante e excludente da massa das populações indígenas, é um diferencial a ser considerado.
No fundo, creio que o nosso grande problema seja o analfabetismo funcional. Não há leitores entre pessoas que não conseguem ler bem e com desenvoltura. Outra questão a ser considerada é que havia um caldo de cultura em populações ágrafas, quer nativas, quer por emigração forçada, que foi menosprezado por muito tempo.
No fundo, somos uma nação que desperdiça potenciais em quase tudo. Temos ainda uma alma colonialista que não consegue olhar para dentro de si mesma, onde as elites e, por reflexo, o governo, veem a cultura como um artigo de luxo, não reservado às castas inferiores. A leitura não consegue ser popularizada porque não se acredita nela e nem que a mesma deva ser para todos. A universalização do ensino deve deixar de ser um grande engodo, além de passar a se pensar em diretrizes que funcionem como real educação.
A leitura é uma coisa cumulativa. Quanto mais se lê, mais se sente necessidade de ler.
DA – Na conjunção das feições de leitor e criador, de tudo o que viveu até aqui com as palavras,Edson Bueno de Camargo aproxima-se mais do espanto ou da revelação frente à existência?
EDSON BUENO DE CAMARGO – A revelação deve ser feita pelo espanto. Mesmo que em alguns momentos seja tomado por esta melancolia dos trópicos, e seja tentado a ser tomado pelo ceticismo e pelo pragmatismo, abre-se sempre uma janela para me reconhecer como humano e dono de um potencial de criação infinito.
Os homens foram criados pelos deuses para a beleza. Só precisamos lembrar disso novamente e sempre.
*Alguns poemas de Edson Bueno de Camargo podem ser lidos aqui
Estar entre os mortais e perceber nisso um trunfo é algo, no mínimo, instigante. E pensar que deixamos, muitas vezes, o filme da vida passar, desavisadamente e sem maiores considerações, diante de nossos olhos é mais curioso ainda. Caberia, então, somente a um escritor repisar as corriqueiras epifanias restritas, em sua maioria esmagadora, ao cenário das individualidades? Quem mais se habilitaria a expelir a seiva de nossas verdades esquecidas?
Na música Peter Gast, Caetano Veloso, por exemplo, entoa o canto de um homem comum, enganando entre a dor e o prazer. E vai mais longe, confessando-nos a sina de atravessar uma existência sob o manto da insignificância, encontrando alento num coração de poeta que, mesmo condicionado à solidão, ainda seria capaz de algum voo. Guardadas as devidas proporções, talvez seja mesmo esta a trajetória de um escritor, sobretudo quando a luta maior seja fazer ecoar sua voz num universo de múltiplas representações do ser.
Adentrar os becos e vias difusas das letras de Rodrigo Melo pode nos ajudar a perceber porque divagamos outrora sobre a necessidade de perceber as coisas que nos cercam. Oriundo das paragens marítimas de Ilhéus, na Bahia, Rodrigo é um daqueles artífices da palavra que têm predileção por dissecar a alma humana. Com um tom lúcido e sagaz, seus contos põem em xeque algumas costumeiras zonas de conforto, muitas vezes propondo arremates decisivos a algumas situações. Utilizando-se de uma linguagem despojada de elaborações mais formais, é hábil em fazer de sua obra um elo de aproximação com os leitores. Suas narrativas privilegiam aspectos tão vivos e intensos de nosso tempo, embalando revelações e propondo olhares especiais sobre o mosaico de complexidades que reveste as pessoas. Autor de O sangue que corre nas veias (Ed. Mondrongo – 2013) e, mais recentemente, integrando a coletânea de contos 82 – Uma Copa – Quinze Histórias (Ed. Casarão do Verbo), Rodrigo Melo nos recebe para uma entrevista. Fala um pouco de seu caminhar literário e expõe algumas opiniões sobre o meio. De todo o dito, fica a impressão de que estamos próximos a um alguém que valoriza a arte do encontro, vislumbrando no leitor um sujeito ativo na condução das histórias.
Rodrigo Melo / Foto: Thalita Leite
DA – O livro é o “82 – Uma Copa – Quinze Histórias” e, com o conto “A culpa foi minha”, você demarca seus territórios naquela coletânea de difusas vozes literárias. Sua escolha narrativa passa ao largo de ter uma partida futebolística como o centro das atenções. Qual a real dimensão da aposta nesse, digamos assim, deslocamento temático?
RODRIGO MELO – Não sei bem se foi uma aposta. Parece clichê, mas acho, na verdade, que não tive escolha, porque não recordava o bastante daquele jogo. Ao buscar alguma lembrança, o que vinha era a infância e, consequentemente, a casa de minha avó. Aqueles três gols de Paolo Rossi feriram o Brasil, mas, antes disso, a minha família, porque era essa a minha referência – e foi assim: minha tristeza não existindo por conta do jogo, mas pela dor que os outros sentiam. Lembro que, por uma semana ou mais, depois que tudo acabou, todos, voluntariamente, abdicaram da felicidade. Para um moleque de onze anos, vivenciar aquilo era como ficar um tanto mais maduro antes da hora. Calculo, então, que ligar aquela copa de 82 à minha família foi, de todo modo, inevitável.
DA – A maneira como você articula o mote da culpa por entre os personagens é algo que chama atenção. Nós, míopes mortais, estamos acostumados a esse jogo de transferências quando buscamos respostas para as coisas. Seriam as armadilhas dum incorrigível espírito humano?
RODRIGO MELO – Imagino que somos todos uns sofistas, afinal. Porque, como você mesmo cita, a alma tem as suas armadilhas. Já devem ter dito que entendê-la assemelha-se a desvendar um labirinto, e é o que também me parece. Esse labirinto tende a crescer ou diminuir. Calculo que tudo vai de acordo com o dia, a fase, ou, quem sabe, a evolução. O mais provável, e comum, é que cresça, e, embora pareça antagônico, enxergo um encanto nisso. Encanto e esperança. Mesmo falível e sem saber verdadeiramente qual o combustível que o move a sair e fazer as coisas, mesmo sem entender muito bem o que é e qual a finalidade de existir, vivendo numa espécie de superfície, ou miopia, evitando qualquer mergulho que o molhe um pouco mais, o ser humano segue contínua e insistentemente em busca da redenção. Chega a ser bonito: a eterna luta para alcançar a luz, luz essa que nem sempre é divina.
Por conta disso, creio que somos todos corrigíveis, embora também acredite que a humanidade ainda recenda a uma multidão correndo em direção à saída de emergência, ou a um bêbado, no escuro, tateando pelo interruptor.
DA – Depois de algum tempo de lida com as palavras, você lançou seu primeiro livro, “O sangue que corre nas veias”. A obra veio no momento certo?
RODRIGO MELO – Tenho certeza que sim. Quando Gustavo Felicíssimo (poeta e editor da Mondrongo) me convidou a lançar, me senti honrado, quiçá vaidoso, ao mesmo tempo em que surgiu a dúvida. O material que tinha eram os contos antigos, escritos, quase todos, há mais de dez anos, e eles necessitavam de bastante atenção. Além disso, eu vinha de um longo período sem contato com a literatura – não escrevia, sequer lia algo. De alguma forma, abaixara a guarda, ou, como se diz, colocara a sujeira debaixo do tapete, e estacionara. A possibilidade de ser editado trouxe de volta a vontade de pegar o mundo todo num ouvido só. Passei dois meses revisando e, se pudesse voltar no tempo, passaria mais dois. No entanto, o resultado me agrada, me satisfez. Acho que “O sangue que corre nas veias” dá seu recado.
DA – As paisagens que você visita no livro refletem um universo onde os personagens, com certa frequência, vivenciam situações de limite extremo. Entre hesitações e impulsos, desfechos se operam arrematando com um golpe certeiro os destinos entrelaçados. O que dizer de tais escolhas?
RODRIGO MELO – Situações limite, e creio nisso cada vez mais, não precisam necessariamente estar envolvidas em violência ou trauma. Elas podem ser a expectativa de que algo aconteça ou a frustração daquilo não ter acontecido: um tiro que será disparado, um beijo que ficou pra depois. Acho que foi o Raymond Chandler quem disse que quando uma história vai mal, o certo é matar alguém. Eu, embora goste dele, protelo mortes. Busco, hoje, no cotidiano, nos acontecimentos ditos banais, comuns, que pra mim têm força, beleza e significância, o mote para escrever. E não há nada mais doido e grandioso que existir – os sonhos, os medos, a vida de cada um. Acho que tento pegar esses pequenos pedaços, eles sempre em andamento, posto que nada para.
DA – E é interessante perceber que a linguagem através da qual você engendra suas histórias, dotada de clareza e simplicidade, sustenta com propriedade as narrativas. A que você atribui essa sua aproximação com o coloquial?
RODRIGO MELO – Muito provável que pelo desejo de ser entendido. Admiro a técnica, ao mesmo tempo em que alimento um distanciamento do virtuosismo. Penso que pode ser uma armadilha. Talvez pense assim por comodismo, não sei bem. A questão é que, embora valorize a forma de dizer as coisas, acredito que vale mais o que se diz. E é essa a busca: ser, dentro do possível, simples, sem ser simplório. Claro que é difícil e, quase sempre, o tiro acerta o pé. A tentativa, no entanto, já conta.
DA – Dois aspectos presentes em seus contos e que merecem destaque são a fluidez e um ágil ritmo narrativos, traços bem típicos do cinema. Some-se a isso, também, o viés imagético. Diria que sua literatura mergulha conscientemente nas influências da sétima arte?
RODRIGO MELO – Gosto dos cortes, da velocidade que os filmes têm, e penso que aplico, ou tento aplicar, muito desse “dinamismo” no que escrevo. Aliás, bem antes de Rubem Braga, Carlo Mossy já era um herói. Ele e tantos outros. Crescemos vendo tv. Lembro de “Agarre-me se Puderes”, um dos filmes que marcaram, e todas as vezes eu ficava com aquela espécie de encantamento, satisfação. A mesma coisa com os filmes dos Trapalhões. Depois vieram os outros. Hoje, e não digo por desdém, mas porque, imagino, a forma de contar as histórias se ampliou, ou quem sabe por já saber o final, não assistiria novamente “Agarre-me se Puderes”, nem mesmo pelas perseguições. O mundo mudou e eu, provavelmente, também. De qualquer maneira, o filme cumpriu o seu papel. Assim como “As Minas do Rei Salomão”. Porque somos todos uma esponja, carregando algo de tudo o que experimentamos, cada vivência nos transformando, a operação de uma tia ou o último lançamento dos Coen, juntos e misturados num recipiente só.
Acho, então, que tanto a tentativa de fluidez quanto essa questão da imagem, em grande parte, vêm, sim, dos filmes que assisti. Mas acontece também, por outro lado, que há certas pessoas, e elas podem escrever, filmar, pintar, cantar, tirar fotos ou fazer malabares, tanto faz, essas pessoas às vezes mandam muito bem, e isso te força a pensar que também dá pra conseguir. A mais forte influência, acredito, é sempre essa.
Rodrigo Melo / Foto: Thalita Leite
DA – Em matéria veiculada recentemente pelo site Estadão, apontou-se um outro panorama no que se refere à aparição dos novos escritores. Muitos deles estão preferindo submeter seus primeiros escritos na via dos concursos literários, almejando prêmios e, com isso, suporte para publicação, em lugar de buscarem diretamente editoras.O que pensa a respeito disso?
RODRIGO MELO – Os prêmios dão visibilidade, e, com a verba, imagino que uma tranquilidade maior. Escrever é por vezes recompensante, mas quase nunca pelo lado financeiro. Isso raramente acontece. O sujeito tem que ser professor, fiscal de trânsito, corretor ou leão de chácara antes de ser escritor. Escrever soa até como uma contravenção. Pode-se também conseguir um mecenas, mas parece que os mecenas, historicamente, sempre se amarraram mais aos pintores e escultores. Penso então em alguns caras que lançaram excelentes livros, e, afora algum evento, só fazem sucesso com uma pequena turma, e a grana que juntam, quando conseguem, não vem desses livros. Porque ao sentar-se no sofá e ligar a tv, ou o som, depois de uma hora e meia, no máximo duas, a pessoa se levanta com, pode-se dizer assim, a missão cumprida. Com um livro, entretanto, ela terá muito mais trabalho pela frente. Isso causa, em muita gente, uma aversão à leitura. E há outros fatores que fazem com que os livros fiquem nas estantes (de casa ou das livrarias). Se existe, então, esse tipo de subsídio, que, a meu ver, vem por merecimento, deve ser levado em conta.
Por meu lado, só participei de um concurso. Foi em Recife, anos atrás, e eu estava em lua de mel. Escrevi um conto num bangalô de frente pro mar. O bangalô era uma porcaria, o conto também, mas eu não sabia – estava envolvido pelo clima do mar, do por do sol e da lua de mel. Acabei não me classificando.
DA – A necessidade de reconhecimento é a maior inimiga de um escritor?
RODRIGO MELO – Penso que a pressa é a maior inimiga do escritor. A busca pelo reconhecimento me parece algo natural, humano, e independe da área em que se atue. Quem não quer vencer, afinal? Mas o talento se faz na prática. De alguma forma, todos precisamos de maturação.
DA – Para alguns, a única faceta do conto é a de se contar uma história. Pensar dessa forma não implicaria numa limitação dos desdobramentos possíveis de um texto, sobretudo na sua perspectiva de transcendência?
RODRIGO MELO – Não acredito que o gênero defina a qualidade ou importância da escrita. Ou, como diz, a transcendência. Talvez se imagine que, pelo tamanho reduzido que tem, um conto seria mais fácil de se construir. Por esse prisma, os poemas também seriam. E não são. Tampouco mais profundos ou necessários. Tudo vai de quem escreve. Dalton Trevisan e Rubem Fonseca, excelentes prosadores, encontraram-se no conto, e não os vejo simplesmente contando histórias. Há sempre algo entranhado ali. Portanto, não acho que o tamanho ou o gênero do que se escreve tem a ver com sua força ou precisão.
DA – Vivemos num tempo em que muita gente se atira à criação literária. No entanto, parecem ser poucos os que ainda o fazem com propriedade. Separando o joio do trigo, não precisaríamos mais de leitores do que escritores?
RODRIGO MELO – Tudo indica que a diferença entre o joio e o trigo esteja na relação com a leitura. Parafraseando meu camarada Heitor Brasileiro Filho, “Melhor ser um bom leitor a um mau escritor”. Antes de esvaziar o tanque, é preciso ter algo dentro. Imagino agora um sujeito: ele tem uma história original, uma história que fala sobre as coisas que ele viveu e sentiu – ele está nas ruas, ele conhece a vida, ele sabe o que dizer -, vai na internet, faz um blogue e a coloca, ou então a publica em um livro. Anos depois, descobre que tanto Voltaire quanto Patativa do Assaré já tinham falado sobre aquilo, de uma forma mais sincera, melhor. Claro que não dá pra ler tudo, tampouco considero obrigatório o eruditismo. Todavia, sobretudo para quem escreve, a leitura é necessária. Ela te situa. E é com ela, imagino, que se enche o tanque.
DA – O que impele Rodrigo Melo a continuar escrevendo?
RODRIGO MELO – A vontade de criar boas histórias. E conseguir tirar alguém do seu ramerrão diário, cheio de desassossegos ou garantias, com qualquer coisa que escrevi.
Conferir olhos ao mundo é atestar a complexidade da nossa própria existência. E, certamente, essa conclusão não é novidade alguma para grande parte das pessoas que se enveredam pelas vias da fotografia, ora como criadores, ora como simples apreciadores. Em termos artísticos, representar o mundo através de imagens vem deixando de ser um exercício meramente contemplativo para dar margem a uma série de possibilidades. Dentre estas, uma das mais importantes é a que sugere um profundo direcionamento de atenções aos tipos humanos e suas noções de pertencimento.
Frequentemente, homens e seus lugares são objeto das observações emanadas da fotografia documental. No entanto, poucos são os fotógrafos que sabem captar com valoroso viés diferenciado a caracterização desse nicho. Fala-se aqui duma perspectiva de abordagem de mundo que procede de forma harmoniosa, mantendo intactos os usos e costumes do universo observado. Não bastasse esse cuidadoso penetrar de cunho antropológico, um atributo também poético ao olhar é capaz de fazer dos registros especiais celebrações de vida. E tudo o que aqui tratamos em matéria de qualidade no ofício de captar a luz se aplica ao trabalho do baiano Peterson Azevedo.
Agregando sua formação de geógrafo à de fotógrafo, Peterson vislumbra nas imagens uma representação poética do mundo. Ao revelar, de modo sensível, a trajetória dos homens, intenta a descoberta de outros territórios. Em seus registros, podemos abstrair o que vemos imediatamente em matéria de constatação de um plano físico imediato e somos conduzidos a testemunhar outras esferas de convívio. Novos signos afloram, sobretudo quando o tema é refletir acerca das questões ligadas à cultura popular. Para falar um pouco sobre seu caminhar pela fotografia, Peterson nos acolheu para uma conversa, diálogo que evidencia, de maneira bastante especial, um percurso por outras terras.
Peterson Azevedo - Autorretrato
DA – Quando observamos suas imagens, percebemos o quanto faz sentido pensar na questão das territorialidades, algo forte em seu trabalho. Para além do que chamamos de real, a noção de transcendência sugere outras fronteiras aos homens e seus lugares. Qual o significado disso para o exercício do seu olhar?
PETERSON AZEVEDO – Sim. As questões de identidade sempre me acompanharam. Quando me encontrei com a geografia e suas categorias, logo me apaixonei pelo universo do popular e de seus imaginários. A territorialidade que construímos, ao longo de nossa vida, se apresenta sempre em forma de comportamento e atitudes sociais. O que tento fazer é eternizar esses movimentos em forma de imagens, como você bem disse, transcendendo para o meu mundo particular, onde as territorialidades das imagens que faço se misturam com a minha identidade. Essas ações significam muito, no sentido de observar o mundo como geógrafo, colocando uma pitada de imaginação individual.
DA – Nesse mergulho no universo popular, que tipo de desafios você destaca como sendo os mais significativos?
PETERSON AZEVEDO – Realizar um registro etnofotográfico requer uma paciência tibetana (risos). Os desafios são muitos. Primeiro, deve-se ter a compreensão de que aquele grupo social ou indivíduo, além de sua história pessoal, possui uma relação de pertencimento ao lugar que vive e suas relações com os “iguais” não podem e nem devem ser vistas como um simples modelo para seu olhar. Antes de levantar a câmera, é importante que estabeleça um breve vínculo identitário e/ou social com o ambiente, para entender e compreender o que se vai registrar. Acredito que esse seja o grande desafio. Conseguindo estabelecer essa relação, vem então a recompensa. Não nego o valor documental da fotografia, mas prefiro pensar que ela é muito mais do que um mero registro e sim uma oportunidade de eternizar momentos com poesia e arte.
O popular e seus encantos não podem ser alvo mercadológico do ato fotográfico, deve ser respeitada a construção de seus espaços geográficos e suas territorialidades e é por isso que estou evitando ir a festas populares na Bahia. Esse respeito no tempo e no espaço está, cada ano, sendo invadido, de maneira abrupta e tumultuada, com um único objetivo que é fazer o registro simples e descontextualizado, atropelando os rituais, descaracterizando-os irresponsavelmente. A foto nunca deve ser mais importante que o ritual simbólico popular construído há milhares de anos. Acho que hoje é meu principal desafio, esperar essa enxurrada tecnológica acalmar, e/ou outro foco de interesse na fotografia baiana surgir, para que possa me debruçar novamente ao popular, mas com o devido respeito que merece.
DA – Acredita que essa inabilidade de alguns fotógrafos em lidarem com temas tão ricos e profundos, emanados da cultura popular, está numa obcecada e, portanto, distorcida busca pela representação do real?
PETERSON AZEVEDO – Pergunta delicada, mas sim, a busca pelo real, muitas vezes, cria em nós uma “cegueira imagética”. A realidade é, no tempo e espaço, construída com valores e instantes dinâmicos e imperceptíveis, carregada de signos, ou seja, é humanamente impossível retratá-la de maneira verossímil. François Soulages escreveu que uma foto é um vestígio da realidade, mas qual realidade? Do objeto retratado ou de um fragmento dele mesmo? Um vestígio de quem fotografa ou de quem é fotografado, ou mais de quem vê a foto? Acredito nisso também, acho que os fotógrafos devem criar sua realidade no tempo e espaço, uma realidade permanente própria e que só é possível após a perda de um instante, e é, neste momento, que entra em cena a arte, o fazer artístico que por si só transcende a noção do real e passa a fazer parte do mundo filosófico.
DA – Numa entrevista concedida à Diversos Afins, o fotojornalista Evandro Teixeira considera que as facilidades da era digital foram responsáveis por uma banalização do ato de fotografar. Como você avalia essa mudança de paradigma? Há, de fato, muitas rupturas conceituais em curso?
PETERSON AZEVEDO – Não importa como se vê, o importante é ver! Hoje, vivemos num mundo cada vez mais veloz e repleto de informações e é, nesse sentido, que a imagem vem assumindo uma importância muito grande, no nosso dia-a-dia. A sociedade moderna é, por si só, uma sociedade orientada pela imagem, onde a TV, a internet, os dispositivos móveis como o ipod,o ipad e o tablet, outdoors e a mais antiga de todas as representações imagéticas do mundo, afotografia, têm papel decisivo na forma como entendemos a realidade. Entendo a crítica que Evandro faz, só não posso concordar com o termo “banalização”. O que ocorre é que o avanço na Tecnologia da Informação e da Comunicação possibilitou, sim, uma democratização do olhar. É complicado entrarmos na discussão do “belo” e do “feio”, que é completamente complexa, em temos epistemológicos e estéticos. Se lembrarmos, já vivemos essa dialética com o cinema, no qual os críticos diziam que iria acabar com o teatro, que a televisão acabaria com o cinema e que a fotografia destruiria a pintura.
Todos somos representantes de nossos mundos, responsáveis pelo que construímos e registramos na nossa história. A imagem é um elemento fundamental para contarmos os nossos tempos.A fotografia deve ser encarada como elemento de escrita e o nosso olhar como a ferramenta desses rabiscos. Não importa se a foto registra arte ou documento, se a câmera é digital ou analógica, pin-holeou de celular, cara ou barata, pequena ou grande. O importante é como você vai usar essa ferramenta poderosa, possibilitando a construção de um olhar mais crítico sobre a realidade e, assim, de um mundo melhor.
DA – Numa acepção mais ampla do termo, considera que o seu olhar sobre o mundo assume um caráter politizado?
PETERSON AZEVEDO – Sim, somos seres sociais, logo, politizados. Vivemos em um sistema de organizações e leis, vivemos em um sistema de relações interdependentes, e esse sistema nos condiciona a viver em constante interação, fazendo escolhas de acordo com regras e/ou ideologias. Com a fotografia não é diferente. Ela é a representação de nós mesmos, carregada de histórias de vida, formações ideológicas e escolhas de mundo. Às vezes, não temos essa percepção imediata, mas se você analisar seus registros, vai encontrar algo de questionador, pode ser uma indignação, uma constatação ou até mesmo um grito revolucionário. No meu caso específico, sim, considero meu olhar politizado, e muito influenciado pelo meu lado geógrafo, tento sempre retratar meu mundo de maneira crítica, mas colocando sempre uma pitada de cor, de esperança, e nunca de maneira catastrófica ou apocalíptica.
Peterson Azevedo - Autorretrato
DA – O quanto sua formação de geógrafo demarca trajetos em torno da fotografia?
PETERSON AZEVEDO – Meu encontro com a fotografia se deu na faculdade. Na época, a realidade digital ainda não tinha aportado no Brasil. Um amigo recém chegado do exterior tinha comprado uma câmera SLR e não conseguirá vender, ela acabou caindo no meu colo, não entendia nada de fotografia, foi quando um professor solicitou a turma que fizéssemos um registro fotográfico e etnográfico de pescadores e marisqueiras de uma cidade no Recôncavo Baiano, foi então que surgiu o primeiro desafio: aliar geografia e fotografia. Foi um desastre, imagens tremidas, sem foco, mas serviu como estímulo para minha aprendizagem. Desde então não larguei a fotografia, ela passou a me acompanhar em minhas caminhadas como pesquisador e professor. A fotografia que faço esta impregnada de conhecimentos ligados à geografia, principalmente aos ensinamentos de dois grandes mestres, o Professor Milton Santos e o Professor Josué de Castro, que me inspiram constantemente. A territorialidade de quem ou o que fotografo, é o que busco sempre colocar em meu olhar.
DA – Você sustenta que a fotografia documental não é a única via a seguir. Esse modo de pensar está ligado a uma impressão de que essa modalidade fotográfica está excessivamente relacionada a uma perspectiva antropológica, na qual o outro é sempre um objeto estranho e, portanto, passível de pactos, mesmo que silenciosos, de aproximação?
PETERSON AZEVEDO – Sim. Entendo que os estudos etnográficos devem sempre caminhar junto com a fotografia documental. Se pularmos a etapa de contato e convívio, a meu ver os momentos serão sim, um universo de escolha, mas apenas isso, perdendo a oportunidade de mergulhar no universo do fotografado e estabelecer o encontro com o universo de quem fotografa.
DA – Quando o assunto é o olhar sobre pessoas, parece haver, em alguns momentos, um processo de coisificação do homem, reduzindo-o a mero objeto de observação. O que pensa a respeito disso?
PETERSON AZEVEDO – Como já conversamos anteriormente, o mais importante para mim é o encontro. O encontro de mundos. Quando eu fotografo, procuro realizar esses encontros de maneira tranquila, sem amarras mercadológicas, sem interesses politiqueiros, mesmo sabendo que, como ser social, fazemos política a todo segundo de nossa existência. Acho que quando se refere a “objeto”, entendo que essa discussão se dá no pós-registro, o que será feito desse instante capturado. O que se deve discutir são os interesses por trás da câmera, e muitas vezes é aí que se estabelece a coisificação do humano, como elemento de contradições ideológicas.
DA – Em matéria de linguagem, a transgressão é um atributo que lhe soa familiar?
PETERSON AZEVEDO – É complicado e difícil realizar uma crítica do próprio trabalho. Se transgredir é ultrapassar o limite, não se preocupar sempre com regras e técnicas, acho que poderia dizer que sim. Gosto de trabalhar com policromáticos, sem me preocupar com palheta de cores. Costumo pensar que é a imagem que escolhe seu “destino” (risos). Quando estou editando, não penso o que pode e o que não pode ser feito, mas compreendo que esse processo só é possível quando seu trabalho é livre e liberto das encomendas e amarras publicitárias e de mercado (não tenho nada contra a publicidade). Quando estamos em um processo de criação, devemos estar abertos a todo o universo criativo, se isso é transgredir, que bom que sou um “transgressor” (risos).
DA – Quais marcas de nosso tempo merecem a especial atenção de um fotógrafo?
PETERSON AZEVEDO – Essa discussão da contemporaneidade é bastante complexa. Será que já saímos da modernidade? Pois bem, nós somos desafiados a ser criativos a todo momento, seja no nosso dia-a-dia, seja na nossa profissão, e, como seres inquietantes que somos, temos que dar respostas imediatas a essas demandas. A fotografia é para mim o subterfúgio destas angústias, procuro entender o ato fotográfico como um dialogo comigo mesmo, logo, um diálogo no meu tempo e espaço. Na dita contemporaneidade não será diferente. Acredito que com a revolução técnico-científica-informacional a fotografia vai junto nessa enxurrada, e terá também que dar respostas a esse clamor. Quando esse tempo chegar, vou tentar me afastar um pouco desse turbilhão informativo, e olhar mais para o interior do País, para questões que sempre me interessaram, mas por vários motivos ainda não tive a oportunidade de dialogar com esse universo – que é o Sertão. Sinto-me mais maduro e preparado para mergulhar no mundo sertanejo, buscando, em algum lugar, a minha territorialidade.
*Alguns trabalhos de Peterson Azevedo estão expostos em nossa 80ª Leva
Ergue-se um caminho especial quando um autor abraça as questões de seu tempo. A impressão que fica é a de que sua obra ganha uma dimensão algo mais ampla, pois amarra os dotes da subjetividade ao testemunho vivo e prático de um processo histórico que se constrói no dia a dia. Essa capacidade de observação da realidade a serviço dum exercício literário adquire corpo novo a partir do momento em que seus porta-vozes não se deixam levar pelas armadilhas de um discurso vazio e demagógico.
Entre nós, é verdadeiro achado descobrir quem o faça com habilidade e, sobretudo, sensibilidade. Ao percorrermos a obra de uma escritora como Rita Santana, temos a convicção de que o ato de maquinar palavras rompe barreiras meramente estéticas e assinala olhares bem lúcidos em lugares tidos como viciosamente preestabelecidos. Na construção de seus versos, Rita, ao mesmo tempo em que entoa seu lírico canto por sobre o novelo delicado da existência, sabe como poucos bolinar feridas tradicionalmente marcadas a ferro e fogo em nós. Sem levantar bandeiras despropositadas ou qualquer tipo de comportamento panfletário que o valha, a poeta, atriz e também professora ambienta seus cenários tendo como guia uma precisa e afirmativa veia feminina.
A condição de mulher aliada à de escritora fez com que Rita Santana ousasse acertadamente transpor barreiras de toda a ordem. Desde muito jovem, essa baiana, nascida nas paragens de Ilhéus, devotou atenções às questões que permeavam o entendimento de seu papel no mundo. Nomes como Rachel de Queiroz, Simone de Beauvoir e Clarice Lispector, dentre outros, serviram-lhe de guias na formação de uma consciência representativa do universo feminino. E a passagem do tempo mostrou que a autora de livros de poemas como “Tratado das Veias” (As Letras da Bahia – 2006) e “Alforrias” (Editus – 2012) vem ocupando um lugar cada vez mais consistente no universo literário. Sua estreia em livro se deu com os contos de “Tramela” (Fundação Casa de Jorge Amado), pelo qual recebeu o Prêmio Braskem de Cultura e Arte – Literatura, em 2004. Nessa entrevista, Rita dá um verdadeiro testemunho dos processos que lhe tornaram escritora, reflete sobre o papel da mulher na atualidade, enfatizando a força que sua visão feminina de mundo empresta à gestação de suas palavras. É ler para crer.
Rita Santana / Foto: Edgard Navarro
DA – Seu caminhar poético, tanto em “Alforrias” quanto em “Tratado das Veias”, assinala um olhar carregado pelas marcas da existência. Ao mesmo tempo em que evoca delicadezas e traços sensíveis, promove embates entre carne e alma. O que dizer desses percursos que nos atiçam os sentidos?
RITA SANTANA – A existência atravessa as minhas preocupações desde os primórdios. Adolescente, ainda, decorei Essa NegraFulô de Jorge de Lima e recitava aqueles versos sempre. A denúncia e o teor de resistência já mexiam com a consciência precoce da minha identidade. Fernando Pessoa estava por lá e me afetou muito cedo com o seu questionamento sobre Deus em O Guardador de Rebanhos. No mesmo período, Neruda – eu tinha 12 anos – estava comigo. Cem Sonetos de Amor foi o primeiro livro de poesia que tive e que me deixou marcas líricas muito profundas. Ainda nesse período, Dôra Doralina, de Rachel de Queiroz, fez uma revolução grande em todas as minhas certezas, pois trazia uma representação feminina muito vigorosa, ousada, cheia de desejos e de subversões. Lá, encontrei uma mulher dona de si, senhora do seu corpo, da sua vida, além da demolição completa da família. Tudo muito revolucionário para uma menina e tudo aquilo dinamitou o mundo pronto e formatado em que eu existia. Mais tarde, Clarice Lispector me ajudaria a descobrir que a inadequação, medos, angústias e preocupações, pertinentes ao universo feminino e humano, poderiam ser a matéria-prima da minha literatura. OSegundo Sexo, de Simone de Beauvoir, já estava em minhas mãos desde 1989, quando eu era uma jovem de 20 anos, e já manifestava minhas insatisfações em relação ao existir como mulher nesse mundo, posto que já havia em mim a revolta contra os lugares preestabelecidos para serem ocupados pelo gênero feminino. Os dramas de ser mulher e negra numa sociedade racista e machista também já se debatiam dentro de mim em todas as relações sociais, acadêmicas, amorosas, artísticas, familiares. É impossível não ser afetada por essas questões. A minha casa foi o primeiro espaço de constatações e de contestações. A escrita veio, portanto, como arma, como contradiscurso necessário para que eu assumisse o meu posicionamento político e poético no mundo.
Há repressão também na linguagem da mulher e sempre me rebelei contra essa violência. Em Tratado das Veias, por conseguinte, por ser um livro que obedece – principalmente nos primeiros momentos do processo criativo – ao fluxo de consciência, esses questionamentos existenciais são mais contundentes e o erotismo mais agressivo, mais urgente. A literatura que faço tem um compromisso fundamental com a beleza. Acredito que haja nas páginas do Tratado um lirismo abundante, permeado pelo erótico e pela mulher política em que me transformei. Otávio Paz, em Amor e Erotismo, diz que “a relação entre erotismo e poesia é tal que se pode dizer, sem afetação, que o primeiro é uma poética corporal e a segunda, uma erótica verbal”. A minha linguagem poética busca exatamente esse diálogo entre um corpo e uma língua completamente libertos, cujos símbolos são transmutados em favor da sonoridade, da imagem, do belo, da delicadeza e do inusitado dessas combinações. O prazer sexual sempre foi uma forma de resistência, alvo de perseguições e ele está atrelado ao grande tema dos meus poemas que é o Amor. O Amor é imprescindível a minha escrita porque também sou romântica e, num processo consciente, o desconstruo porque o questiono e sei da sua natureza perversa na construção da independência e da libertação feminina – muitas vezes.
A poesia é o espaço da rebelião da linguagem, onde ela se nega a servir simplesmente ao convencional, ao lógico da língua, das regras. Sou muito simbolista, pois tocada pela sonoridade, pelos sentidos sinestésicos da existência. Sou aquela que vê no símbolo o exercício de uma experiência onírica, musical. Essa marca herdei também de Cruz e Souza: vozes veladas veludosas vozes, cuja impressão sempre me perseguiu. Sou – também eu – uma Emparedada. A poesia é o espaço da libertação dos sentidos e as aliterações, cores, odores e os processos metafóricos me perseguem. Quando atrelo o poético ao erótico, a feitiçaria inunda o espaço do poema e da existência. Em O Arco e a Lira, Otávio Paz já tocava na experiência da litania. Esse ebó, essa hóstia, essa festa onde o profano e o sagrado comungam da mesma linguagem, do mesmo rito, do mesmo banquete, da mesma oferenda, num único cântico. O poema é o lugar onde carnes e êxtases, palavras adormecidas e imagens se confundem. E o amor pode ser libertação e a poesia, alforria. Alforrias é o resultado dessa busca, dessa tentativa de ser liberta e atrair palavras e sons alforriados.
DA – Você trabalha a questão do feminino de um modo deveras especial, sobretudo como objeto de contestação a certos valores negativamente arraigados em nossa sociedade. Chama atenção mesmo é o fato de seus versos não reverenciarem o amor servil. Como conceber o amor num tempo em que parecemos tão carregados de contradições e alguns retrocessos?
RITA SANTANA – O amor é uma grande armadilha! A nossa formação folhetinesca é deformadora. O amor romântico – cujas raízes estão no amor cortês do século XII – ainda hoje ronda o nosso imaginário. Há um bombardeio social de fórmulas e idealizações amorosas dificilmente praticáveis na vida real, mas, muitas de nós, alimentamos essa ilusão, mesmo reconditamente. Entretanto, a vida é muito severa e cobra posturas da mulher para que ela resista e imponha – já que a negociação nem sempre é possível – o seu pensamento e as suas decisões diante do Outro. A primeira imposição que se estabelece é a da liberdade e ela nem sempre é azul. A liberdade é vermelha, feita com lágrimas, sangue, suor, trabalho, estudo e muitas rupturas. No relacionamento amoroso essas cisões são inevitáveis, visto que a liberdade financeira e o olhar para os nossos próprios desejos são incompatíveis – em alguns relacionamentos – com as expectativas masculinas em relação à mulher.
A nossa sociedade é profundamente machista. Até num barzinho, observa-se a insistência de alguns homens em dominarem a conversa, monopolizando o discurso e ignorando as tentativas de interlocução das mulheres. Nas ruas da Bahia, a grosseria e as ofensas com cunho pornográfico são tão frequentes que já fazem parte da paisagem. Propaga-se a cada dia o sintoma patológico de agredir – verbal e fisicamente – mulheres sem quaisquer cerimônias. Nas nossas ruas, homens dirigem olhando traseiros e nos lançando palavras obscenas, atrapalhando o trânsito e também o transitar do respeito e da liberdade. Daí a importância real da Educação, da introdução dos Estudos de Gênero na formação das educadoras, da sua valorização salarial que, ainda hoje, é prática discursiva circunstancial e eleitoreira. Políticas públicas mais efetivas para a libertação financeira da mulher colaborariam efetivamente para a redução da violência física e verbal contra elas, principalmente nos seus santos lares.
A mulher que ocupa os espaços públicos enfrenta, no território amoroso, a difícil arte do convencimento, da lógica, da dialética constante, do ciúme e das negociações. No terreno privado, o controle é muitas vezes masculino, principalmente quando há domínio financeiro. O amor não é uma instituição neutra, onde prepondera o sentimento e o desejo de estar com o Outro. É um terreno onde vivenciamos todas as mazelas sociais. É uma construção social que lentamente desmorona para muitas pessoas, principalmente as muito ávidas, sequiosas de liberdade, de espaço, de reflexão e de felicidade. O homem ainda não consegue encarar o discurso da mulher, pois – segundo Maria Rita Kell – a fala representa simbolicamente o falo e isso apavora. Algumas pessoas conseguem vivenciar o amor romântico, encontram seus pares e, ainda que enfrentem uma série de dificuldades e obstáculos na convivência, estão determinadas a seguirem o projeto romântico de felicidade. Essas são as consideradas felizes, plenas. Só suas consciências o saberão.
A janela era o espaço – no século XIX – do único diálogo entre o mundo privado e o público para a mulher. À mulher era destinado o espaço privado. Já pulamos a janela, invadimos as ruas, principalmente as mulheres negras que anteciparam essa invasão há séculos, devido à sua livre penetração em espaços proibidos às brancas. O trabalho nas ruas do Brasil escravocrata foi também uma espécie de alforria. Novas janelas são abertas hoje, mas desmontar, no nosso imaginário, essas construções que já viraram ruínas é muito difícil, e não apenas para o homem, que precisa repensar o seu lugar no mundo e na vida da mulher de hoje. É também complexo para nós – mulheres – que observamos com lucidez o fenômeno amoroso. Raciocinar o amor é necessariamente desconstruí-lo, destituí-lo da sua edificação romântica e começar a reinventar uma vida longe dos velhos clichês. O Amor está ruindo para muitos. Restará o desejo de realização com o Outro, mas não no outro, certamente.
Meus versos devem perturbar alguns homens, pois a estratégia de resistência da minha escrita é provocar reflexões e expor que também somos absolutamente humanas, sexuais, eróticas, livres, possuidoras do Verbo e desejosas de felicidade. Meus versos buscam esse amor idealizado, mas o desnudamento faz-se necessário. É preciso denunciar a covardia de homens diante de mulheres que tomam o verbo como instrumento de reflexão, de análise do cotidiano e da sociedade. Acredito que muitos amores tenham se perdido diante do medo masculino em ceder a alguns dogmas, convicções, pressupostos, por isso abdicam de mulheres poderosas ao seu lado. Vê-se em estatísticas o índice de divórcios entre casais em que as mulheres galgam níveis acadêmicos mais elevados. O estabelecido é que a mulher ocupe o papel passivo daquela que está em casa para apoiar a ausência do marido, enquanto ele cresce. Apoiá-lo na volta ao lar diante da sua traição, apoiá-lo durante suas crises existenciais que abalam o relacionamento. O oposto não é aceito! A mulher que trai ainda hoje tem que viver inquisições medievais.
Não há retrocessos! Estamos buscando, aprendendo, e a experiência amorosa é muito pessoal e cheia de conflitos, contradições, paradoxos de toda ordem. O amor é diverso e o difícil é encontrar alguém que queira experimentá-lo da mesma forma que você, afinal cada um de nós é tão cheio de especificidades, idiossincrasias. É preciso viver cada um a sua forma, a sua descoberta – e isso às vezes leva décadas e requer muita coragem! Adorei ler algumas cartas de Simone de Beauvoir a Nelson Algren, pois desfiz a ideia de que Sartre fosse o seu grande amor. Amei ver Simone absolutamente humana, insegura, mulher amorosa, amante, e absolutamente apaixonada por outro homem. Devo retomar essas cartas algum dia. O fato é que nos apaixonamos! E a armadilha também pode ser maravilhosa, se houver cumplicidade, respeito e parceria. Caso contrário: “Aos demônios o cacete dos homens demasiadamente homens!”. (Alforrias, 57)
DA – Sua verve poética está impregnada do que você chama, em Tratado das Veias, de “eu sáfico”. É impossível dissociar sua voz dessa marcante simbologia?
RITA SANTANA – É impossível! Sapho é uma mulher impressionante e fundamental na minha escrita e na história da humanidade. A sua imagem acompanha muitos dos meus versos, principalmente em Tratado das Veias. No poema Ciúme, eu digo: “O que me resta é entrar na roda e tergiversar/Ou só versar, tocar minha lira/E virar Safo de mármore na praça de Ilhéus,/ Minha Lesbos abandonada.” Declaro-me sua filha no poema Anjos Negros: “são anjos cultos, sarcásticos, sacros somente nos altares. Nas minhas asas são libertinos, vorazes. E eu, filha de Safo, gosto muito.” Eu sou uma ilhoa, ilheense e na minha cidade natal – Ilhéus – há, na praça J.J. Seabra, uma belíssima estátua de Sapho que está lá desde 1924, portanto, a sua imagem é um ícone misterioso que sempre esteve a olhar para mim e a proteger os meus versos. Os meus poemas são sáficos porque sempre tive a necessidade de ter a lira para acompanhar o ritmo dos textos – inclusive da minha prosa – nessa busca por uma música invisível, insondável que tento buscar quando escrevo. Mesmo quando ausente em citações, a sua lira me acompanha. É óbvio que é a minha lira! Lira negra, não aristocrática – mas com tons clássicos – que se mescla à herança dos meus ancestrais, às suas cordas, às suas danças, às chiuhumbas de quatro cordas que meus parentes negros trouxeram da cultura africana com a diáspora, e que está no meu sangue.
Ela é a décima Musa proclamada por Platão. A sua insurgência em tempos tão remotos sempre me impressionou, apesar de não me sentir – em muitos aspectos da minha prática cotidiana – uma transgressora. De vez em quando, olho-me ao espelho e reconheço ser uma grande guerreira, mas, muitas vezes, sinto-me fraca, covarde, pequena, indigna. E Sapho simboliza essa mulher cuja obra resistirá ao fogo, ao tempo e à incineração católica que a sua poesia sofreu no século XI. Há um lirismo dramático em meus versos que vem da atriz, mas que também herdei dela, da sua ira. Assim como observo um desespero amoroso, uma insanidade passional terrível, um enfrentamento agônico diante de amores frustrados, impossíveis que estão presentes na minha escrita e na dela. Ela é dramática, suave, intensa e o ritmo dos seus versos é sedutor. A sua métrica admirável está a serviço da expressão e não o oposto, isso me encanta. Arrebata-me.
DA – Em que medida a sua porção de escritora converge com a de educadora?
RITA SANTANA – O conhecimento é imprescindível! Adoro aprender e conhecer coisas novas. Sou apaixonada por descobertas e a professora me proporciona essa experiência contínua. Os livros didáticos – escolhidos pelo corpo docente – já são mais interessantes, atualmente, com informações sofisticadas sobre arte, literatura, teoria, e isso me motiva bastante a divulgar e dividir tais conteúdos com os meus alunos, ampliando nossos horizontes. A leitura de mundo é marca indelével a minha prática. Eles – os livros – dialogam com o mundo inteiro e trazem informações que me seduzem, além de promoverem uma cumplicidade apaixonada entre os alunos – afinal um novo mundo é descortinado. Sou a mediadora desse processo mágico, perturbador, revolucionário. É prazeroso testemunharmos essa transformação – lenta – da escola pública brasileira. É uma verdadeira conquista o direito ao livro. Além disso, a minha cosmovisão, minhas leituras, experiências como atriz e paixões intelectuais oportunizam grandes encontros na nossa convivência pedagógico-passional. Pois, sem tesão, não há!
Estar em contato com os adolescentes traz também uma atualização permanente do português falado, recriado e reinventado a cada dia. Surpreendo-me com a criatividade linguística da juventude, sorrio muito e valorizo esse falar gostoso dos jovens. A escritora observa atentamente tais fenômenos. Às vezes, na sala de aula, surpreendo-me diante de algum texto, alguma referência desconhecida, alguma observação de um aluno. Vejo que a atriz, a escritora e a professora constroem uma harmonia com outras tantas Ritas que há em mim. Elas criam – juntas – um universo muito peculiar e criativo. O que escrevo é fruto dessas coexistências, desses desdobramentos.
Tive professoras de Português absolutamente indiferentes ao prazer da leitura, ao encontro com escritores e seus textos, aprisionadas que eram a uma gramática sem relação alguma com a descoberta da nossa Língua. Uma ortodoxia asfixiante e improdutiva que distanciava – e ainda distancia – o encontro do estudante com a Beleza. Precisamos da literatura em sala de aula para tornar o nosso aluno mais humanizado, mais sensível. Sinto, à medida que esse elo se estabelece, que temos cidadãos melhores, mais delicados no tratamento social, mais conscientes e mais gentis. A arte educa, informa, modifica. Por isso a responsabilidade de um país com a Educação é muito grande, afinal, somente ela poderá provocar fundamentais mudanças na sociedade. Vejo o potencial dessa transformação todos os dias. E o que vejo é um verdadeiro milagre, um pasmo essencial. Negligenciam o óbvio, enquanto isso, a violência nos atinge em todos os espaços. O professor Raimundão no meu universo adolescente foi capaz de promover o encantamento pela poesia em muitos de nós jovens, rebeldes e sequiosos de libertações, em Ilhéus. É um professor que tatuou o seu nome – através da poesia – em nossas almas, por isso é eterno.
Rita Santana / Foto: Edgard Navarro
DA – Não é difícil encontrar mulheres que incorporaram visões machistas, reproduzidas no comportamento ou nas ideias. O que, de fato, isso pode representar?
RITA SANTANA – Os Estudos Feministas sobre as Relações de Gênero são ricos em análises que elucidam as conexões de poder na sociedade. O desconhecimento desses processos históricos gera a naturalização do estabelecido. Precisamos divulgar nomes, biografias e a produção intelectual das mulheres que sofreram inquisições ao longo dos séculos. Estudar a colaboração perniciosa das ciências na difusão de mitos sobre a mulher, onde a própria loucura e a histeria eram atribuídas insistentemente ao gênero feminino, faz-se urgente para a transformação não apenas da ideologia dos homens e das mulheres, mas de toda a sociedade. Tudo passa necessariamente pelo investimento em Educação. Se fôssemos formados sabendo de mulheres como Nísia Floresta, que manteve uma relação afetiva e intelectual com Augusto Comte no século XIX, devido à sua extrema competência como pensadora e revolucionária, talvez tivéssemos mais respeito às mulheres que atuam nos espaços públicos, mulheres que produzem conhecimento. A omissão desses fatos nos livros didáticos fortalece o equívoco de que tais posições eram apenas ocupadas por homens. Gerações são formadas ignorando a luta e a presença de mulheres na história do País e da sua formação. As escolas deveriam divulgar a produção feminina do século XIX em paralelo com os estudos dos romances masculinos. Li Lésbia de Maria Benedita Bormann e aprendi com ela aspectos sociais do Brasil do século XIX nunca abordados pelos autores clássicos do período. A Editora Mulheres faz um trabalho de divulgação importante de muitas dessas personalidades que fizeram a História. Aqui na Bahia, é imprescindível conhecermos figuras como Jacinta Passos, divulgada inicialmente no livro da escritora Dalila Machado, A História Esquecida de Jacinta Passos, e Elvira Foeppel, estudada pela pesquisadora Vanilda Salignac S. Mazzoni no livro A Violeta Grapiúna Vida e Obra de Elvira Foeppel; Bárbara de Alencar, no Ceará. Publiquei alguns desses estudos e publico muitas escritoras no meu blog Barcaçasexatamente para contribuir, minimamente, com essa transformação. É um trabalho de formiga! Mas conhecimento e estudo não são suficientes, é preciso revolucionar a nossa forma de educar! Muita gente ilustrada resiste a admitir a necessidade de uma transformação nas mentalidades e no cotidiano das relações e nos acusam de machistas ou de mulheres-machos. As fogueiras ainda ardem e queimam a nossa carne! Entanto, Resistimos, Escrevemos!
DA – Somos um país de leitores subestimados?
RITA SANTANA – A leitura não é a única prioridade em minha vida. Adoraria que fosse, mas preciso trabalhar 40 horas para sobreviver. Eu me sinto exausta quando cumpro essa carga horária estúpida. Logo, preciso dedicar algumas horas ao vazio, ao nada para me recuperar e começar tudo de novo. Assim deve ser a rotina de muita gente trabalhadora no mundo. Leio quando há tempo, quando estou disposta e leve. Quando a leitura assim acontece, ela é plena e provoca desejos e projetos de escrita, desejos de outras leituras. Não sou uma obcecada por números de livros lidos durante o ano – como se estivesse em uma competição invisível – mas estou sempre atenta, iniciando leituras que às vezes demoro meses para concluir. Enquanto não leio livros, leio a realidade, ouço falas, músicas, discursos, paisagens, cores, movimentos, pessoas. O meu trabalho envolve livros e leituras diárias. Estive em Amargosa, na Bahia, para o lançamento do livro da professora Ana Rita Santiago Vozes Literárias de Escritoras Negras e, além do evento em si, que foi uma oportunidade de muitas aprendizagens e leituras, li muito a paisagem montanhosa do lugar e fiquei realmente deslumbrada. Não sai da minha cabeça a redondez daquelas montanhas.
Sempre que penso nas minhas leituras, incluo os filmes e as músicas, os compositores que formaram a minha personalidade, o meu estilo. Os livros são possibilidades – entre tantas – de leitura. Adoro cinema e também gostaria de ter mais tempo para assistir aos filmes do meu desejo. Adoro ir a exposições e museus e não encontro muito tempo para esses prazeres. Aguardo o metrô chegar até a Lauro de Freitas. Sou louca por fotografia. Tudo isso me tortura bastante, portanto, ler é um universo muito mais amplo. Ler o mundo, disse Paulo Freire. Ele esteve na UESC, a minha Universidade que fica em Ilhéus, e foi um verdadeiro acontecimento! O auditório foi incapaz de abrigar os seus leitores e ele teve que falar para uma multidão que se estendia infinitamente pelo Campus. Foi uma multidão de leitores apaixonados. Uma cena marcante, cinematográfica, maravilhosa. Lemos ali, os seus olhos, a sua postura, o seu magnetismo e a concretização do seu pensamento.
Quando estive na França, fiquei deslumbrada com o número imenso de pessoas que liam no metrô, nas ruas, em todos os lugares. Mas essa é uma construção cultural, uma conquista histórica. Quando – a cada ano letivo – trabalho com os meus alunos a ciranda de leitura, onde disponibilizo livros escolhidos por eles para que os levem para casa, o resultado é sempre um mundo de meninos e meninas envoltos em leituras durante as aulas vagas, as férias, os intervalos. A paixão é acesa e não se apagará. Oportunizar a leitura é essencial e ser um professor leitor, pesquisador é indispensável para a proliferação da leitura entre os jovens.
A Educação é que – de fato – precisa ser revista em sua completude, e muitos caminhos são abertos, mas tudo ainda é insuficiente porque há urgências seculares esperando políticas mais sérias. Muitas bibliotecas das escolas públicas estaduais e municipais na Bahia são tratadas com descaso: profissionais com problemas de saúde são jogados lá, como traças, sem quaisquer envolvimentos com a leitura, sem qualquer afinidade com o espaço. As nossas bibliotecas são depósitos em todos os sentidos. A biblioteca do colégio em que trabalho passa grande parte do ano letivo fechada, e isso há anos. Os problemas um dia serão resolvidos. Quando? Muitos já deixaram o colégio sem terem vivenciado esse momento, essa felicidade que não chega nunca em toda a vida. A nossa cobertura da quadra esportiva desabou devido a uma tempestade, há muitos anos. Agora a reforma está sendo feita – sem cobertura! Copa do Mundo, Olimpíadas e as atividades esportivas, e os espaços de leitura são um verdadeiro descaso no Brasil. As drogas, os traficantes e a violência invadem esses espaços vazios, essas lacunas e as vítimas somos todos nós. Eu leio muita coisa que me foi ensinada – também – pelos livros. Ler Gil, Caetano, Milton Nascimento, Gonzaguinha, Joyce, Fátima Guedes, Elomar Figueira de Mello, Dércio Marques, Elizete Cardoso, Dolores Duran, Legião, Titãs, Cartola, Chiquinha, Chico, Cazuza, dentre tantos outros, foram grandes aprendizados, grandes leituras.
DA – Há quem reduza o fazer poético a uma obstinada busca pela matemática dos versos, espécie de sustentáculo do algo puramente formal. Na outra ponta, existem os que defendem a utilização do verso livre de amarras mais tradicionais. Enquanto isso, grupos se formam e os debates se tornam acalorados e conflitivos. Não estaria a vaidade desmedida ocupando o lugar da boa discussão literária?
RITA SANTANA – O universo dos escritores é cercado realmente de muitas vaidades e competições. É um mundo excludente e áspero quando vivido muito intensamente. Os bastidores são cobertos de acusações contra aqueles considerados ruins, incompetentes, não escritores. Não acredito na solidez desses julgamentos, como não acredito no caráter de muitos desses escritores. Deixei de ler alguns deles devido à sua ideologia conservadora, declarada em entrevistas e em prefácios dos seus eleitos. Tudo isso é uma fraude. É uma grande tolice! Há espaço para todas as correntes no mundo e as tribos elegem-nas pela paixão, pela identidade, pelo pertencimento, pelo estilo que cada escritor apresenta. Ainda é preciso dizer: Abaixo os puristas?
Quando me sinto diretamente atingida em suas falácias classificatórias, aproprio-me do seu discurso e o transformo num poema metalinguístico. Transformo em verso suas maledicências estéticas prepotentes e afirmo a minha poesia desprovida dos sentidos esperados por alguns canonizados, consagrados, monstros sagrados da Literatura. Há ideologia em todos os julgamentos, portanto, nada é puro e nenhuma verdade é única, absoluta. O talento ou a competência não são os únicos fatores que determinam a sorte de um escritor. Os mecanismos da crítica e do cânone já foram denunciados, revelados e não é mistério para ninguém a rede de articulações e interesses que envolvem o reconhecimento ou a legitimação de um escritor, como também a sua invisibilidade. Por isso, é primordial para quem escreve não sofrer por ser preterido aqui ou acolá. É uma aprendizagem difícil, mas eu não escrevo para escritores, eu escrevo para me curar de mim mesma e dos meus males, das minhas dores e dos conflitos que me atordoam. Escrever é uma necessidade de aproximação com o Belo (e quantas facetas essa entidade possui) e é uma necessidade física de expressão.
Vivemos um momento tão rico da Literatura, onde muitos escrevem, publicam, divulgam seus textos e há sempre uma tribo que os queira, que os leia, que os legitime. Qual a importância dos rótulos? O movimento é muito rico e como é prazeroso trocar figurinhas com escritores que não ocupam o seu tempo com classificações ordinárias. O problema que atinge os escritores é o mesmo problema social das elites brasileiras, ou seja, não suportam dividir o título de escritor e seus lugares sagrados com pobres mortais desconhecidos, negros, mulheres, oriundos das classes populares, com seus erotismos exacerbados. Entretanto, as políticas afirmativas estão aí, os mecanismos de escrita e divulgação também tomam espaços cada vez maiores e a convivência entre estilos só pode ser festejada. Métrica? Não métrica? Como leitora, aprecio um poema quando ele me atinge pelo que julgo e sinto poético. Os velhos sapos não conseguirão impedir a construção social mais igualitária e menos discriminatória da sociedade brasileira, inclusive na Literatura! Tornam-se, dessa forma, anacrônicos parnasianos que fazem do seu julgamento estético – que é pessoal, subjetivo, ideológico – uma sentença inquestionável!
Percorrendo estantes de uma livraria outro dia, ouvi duas senhoras distintas conversando, e uma delas disse: também… todo mundo agora é escritor! Pois é! Escrever não é mais um ato destinado aos deuses e privilégio de uma elite intelectual e econômica ou de uma etnia! Essa constatação perturba muita gente. E é justamente isso que possibilita podermos entender e conhecer o universo de Maria Carolina de Jesus, afinal, Clarice Lispector não me daria a amarelidão da sua fome, as estratégias da sua sobrevivência, a poesia negra, lírica e política dos seus cadernos. Clarice me deu muitas outras coisas. Como é bom perceber o fôlego religioso e lírico de Lívia Natália ou os arroubos dialógicos e eróticos elaborados por Daniela Galdino. A poesia cotidianamente existencial de Martha Galrão ou ainda as sinestesias telúricas e límpidas de Lita Passos. O leitor está aí para fazer suas escolhas. E ele o faz e surpreende. Aos demônios as penas absolutistas também!
DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?
RITA SANTANA – Na verdade, considero muito esdrúxulo classificarmo-nos de pós-modernos diante de um quadro de intolerância tão grande no mundo e na literatura. Acabo de participar de um encontro numa Universidade da Bahia, onde um grande e reconhecido escritor fez questão de desqualificar a literatura atual e chamar de bocó qualquer literatura que se denominasse negra. Isso ocorre na Bahia, mas no plano nacional acabamos de testemunhar – atônitos – o texto de Ferreira Gullar sobre a inexistência de literatura negra e a resposta fabulosa que Cuti lhe dera. Como admitir o pós-moderno, se o sentimento de pertencimento ainda é ignorado ou desprezado pela sociedade e esse tipo de postura é aplaudida por jovens universitários e seus professores? É bizarro! Posicionamentos étnicos e de gênero continuam sendo desprezados por intolerantes legitimados, canonizados.
O sistema de transporte público coletivo – mesmo em tempos de Copas – persiste em sua condição de inexistência ou de precariedade e sujeira. A estação da Lapa, em Salvador, continua o mesmo horror de insalubridade e abandono. O formato das escolas, presídios, hospitais: tudo permanece. O ponto de ônibus do Aeroporto Internacional de Salvador – que deveria ser Dorival Caymmi, Jorge Amado ou Dois de Julho – tem o mesmo tratamento imundo que qualquer estação rodoviária recebe dos poderes públicos na Bahia. É duro ser cidadão pobre no mundo inteiro, mas na Bahia é duríssimo! Só há tratamento estatal, preocupação com a higiene e o belo nos locais onde circulará a elite.
Penso em Gregório de Matos, que viveu um período de profundas transformações e expressou esses paradoxos em sua obra lírica, satírica e religiosa. Também vivemos em tempos paradoxais, barrocos numa Bahia que já principiava a viver sua globalização desde lá, entretanto, assistimos ao nosso patrimônio desmoronar cotidianamente. Igrejas abandonadas, artistas esquecidos, abandono da memória, sobrados queimados que desaparecem todos os dias. O que pode haver de pós-moderno em tudo isso? A Jornada de Cinema da Bahia – idealizada por Guido Araújo – que deveria ser tombada como patrimônio imaterial da Bahia ou do Brasil – ou qualquer coisa que o valha – vive o seu fim sem que haja interesse dos poderes públicos para a sua permanência.
Como, pois, denominar de pós-moderna uma sociedade em que não há ainda saneamento básico numa cidade como Lauro de Freitas? Vivemos há anos aguardando os serviços de uma verba nacional – que já foi paga – destinada aos esgotos da cidade. Ainda há uma distância tão grande entre o plano teórico, os discursos que conceituam o momento em que vivemos e o cotidiano das gentes. Estava olhando um livro maravilhoso sobre Emanoel Araújo e pensei na completa separação entre a sofisticação espetacular da sua arte – apenas como um exemplo – e o povo. A arquitetura da cidade, com suas engrenagens, confrontada com o total abandono da população pobre e a completa exclusão de acesso aos bens comuns, à Beleza da obra de arte, ao acesso a nomes como Rubem Valentim, Mestre Didi e Emanoel. A Ceilândia confrontada com a arquitetura suntuosa e bela de Brasília. Tantas disparidades. Se há pós-modernidade, eu gostaria de ser apresentada a ela.
DA – O quanto Rita Santana conhece Rita Santana?
RITA SANTANA – Conheço muito e, sinceramente, sempre estou em busca de lapidação. Sou muito honesta, muito bruta, muito antitética, muito delicada. Estou em permanente busca. Rita Santana é apenas um nome público para a atriz e a escritora. A professora é geralmente chamada de Rita Verônica. Em casa – para a minha família e alguns amigos – sou Ritinha e, nessa condição, outras tantas personas surgem. Observo a capacidade que tenho de pensar em novos deslocamentos, de assumir novas identidades. Gosto desse contínuo devir. Estou em processo.
Desbravar visões e depois incorrer na tessitura das palavras. Qual semeadura de ventos, o ofício do poeta retorna da viagem com a colheita marcada por gestos infindos. Se pensamentos incomuns ou um mergulho na escuridão do mundo, saberemos em parte quando os sentimentos tomarem a forma de texto. Aquele que se põe a escrever, com propriedade e certa dose de resignação, deve saber que as incursões lhe reservam a sagração do mistério. Certo de que o caminho traçado não lhe confere status de impunidade, o artesão da palavra saboreia um banquete cujos ingredientes mesclam catarse e desventuras.
Entre nós, mortais que reinvidicamos a patente da racionalidade, habita o ímpeto de revolver o desconhecido, beijar-lhe a face e se enveredar por seus labirintos insones. Nesse trajeto, há quem não se deixe levar por meros devaneios e se dedique a olhar a existência com necessária porção de lucidez. Imbuídos dessa percepção, testemunhamos as escrituras de um autor como Heitor Brasileiro Filho. Sem esquecer os imperativos do lirismo, esse baiano de Jacobina ergue a sua expressão poética como quem vislumbra alguma ordem no caos que nos abraça. Ao poeta interessa moldar a palavra até que ela amplie suas frentes e atinja um patamar no qual o conformismo seja instância esvaziada. Rechaçando a uniformidade das coisas, Heitor escreve como quem não está disposto a pactuar com verdades inventadas nem tampouco limitações de cunho moral. O efeito que extrai disso torna seus versos dotados duma provocação que arregimenta signos e outros tantos sentidos. Dentro de um caminhar de dedicada cumplicidade com as palavras, o que inclui a participação em antologias como “Diálogos: Panorama da Nova Poesia Grapiúna” (Editus – Via Litterarum) e “Bahia de Todas as Letras” (conto – Editus – Via Litterarum), eis que o momento presente celebra a aparição do primeiro livro solo do poeta, “O Chão & A Nuvem” (Editora Mondrongo). Nessa entrevista, Heitor fala sobre o significado do seu mais recente rebento literário, chama atenção para a obra do poeta Sosígenes Costa e pontua reflexões sobre o fazer literário. Depois dessa conversa, não há dúvidas de que estamos diante de um artífice que talha palavras numa busca que sugere uma virtuosa inquietude.
Heitor Brasileiro Filho / Foto: Marcos Penalva
DA – Depois de alguns bons anos de maturação e de estrada, você publica seu primeiro livro solo de poemas, reunindo versos recentes e outros guardados de outrora. Nesse sentido, julga ter achado o momento certo para romper o silêncio das palavras?
HEITOR BRASILEIRO FILHO – Demorei a publicar o primeiro livro individual. Entretanto, não há espaço para o silêncio nesse processo. Participo de umas duas antologias. Participei usando os veículos de que dispunha desde o jurássico mimeógrafo aos blogs modernosos, jornais tradicionais, suplementos sarados, revistas, cadernos culturais, parcerias musicais, levamos a poesia em parceria com músicos e bandas, como a experiência do projeto Rock & poesia, por exemplo. Fechamos o livro O Chão & A Nuvem, atendendo a uma solicitação da Mondrongo Livros, modesta e ousada Editora do Teatro Popular de Ilhéus, a pedido do poeta e editor Gustavo Felicíssimo. A editoração de livros neste País é uma aventura inconsequente, pra usar uma expressão análoga à Bandeira, por isso fui solidário à Mondrogo, fundada em 2012, em Ilhéus, no interior da Bahia. E estimo que ela a mim. Lá estão poemas recentíssimos, cutucando o cão com vara curta e não menos flecheira. Juntei-os a outros testados pelo leitor mais exigente. Creio que deu bom resultado.
DA – Na apresentação que faz de seu livro, o escritor Gustavo Felicíssimo atribui à sua voz poética algo entre o lírico e o incendiário. Como concebe tais atributos?
HEITOR BRASILEIRO FILHO – Com naturalidade e certa resignação. Como ainda não conquistei a heteronomia (risos) com a qual se refugiou o genial Pessoa, concluo que a verve do poeta manifesta fidelidade ao temperamento do homem. Está em LIRIUM: quem / bem me / quer / não me // despe / ta / la, poema que me é cobrado desde 1983, não poderia deixá-lo fora deste livro. A assertiva é presente também em A Outra face: A poesia não aceita algemas / nem acredita em bombas de efeito moral // (…). Podemos denunciar a intransigência, o horror liricamente, veja em Burka da alma: Os arcanjos e as crianças / pegam em arma / como se tocassem o rosto do criador. O Gustavo estudou alguns dos meus textos e desenvolve trabalho analítico da nossa poesia contemporânea, trabalho de fôlego, ele que pretende publicar. O que me enobrece, vez que me situa entre meus pares e em boa companhia. Sua apresentação no meu livro é pouco econômica, mas não é cabotina, não erra com a afirmativa. O lirismo mais que convence, comove. Quando “a dança das palavras entre as ideias” (vide Pound) rompe o cerco da indiferença, ainda que não demova a apatia coletiva ou vença a insensatez, avança contra toda essa brutalidade. Se a prosa libertária enfeixa bananas de dinamite, senhor dos interstícios é o lirismo. Penetra e vai além das reentrâncias. Implode estruturas de falsa solidez. A poesia nesse estado é glicerina pura.
DA – Em “O Chão & A Nuvem” vemos um olhar que parte dos cenários regionais, íntimos e, portanto, afetivos da memória rumo ao mundo globalizado que nos atropela a todo o tempo com suas complexidades. O que cabe melhor ao poeta: a contemplação ou o enfrentamento?
HEITOR BRASILEIRO FILHO – São dois lados da mesma “moeda”, que não se rendem a escambo. Mais que uma questão de temperamento é um estado de espírito, não há recuo na contemplação. O enfrentamento em mim é um princípio pessoal impulsionado pela necessidade de me expressar para o mundo. Deem-nos infância e memória / e ficaremos para o grande espetáculo da terra (in, O Grande espetáculo da terra). O melhor lugar está dentro de nós. É com isso que iremos ao longe. Parto do princípio de que dignificar o mundo infantil é fazer adultos saudáveis, ou ao menos razoáveis. Sou neto de modestos fazendeiros de gado do semiárido baiano. Filho de um caminhoneiro com uma dona de casa. O natural era que aspirasse ser médico, advogado, engenheiro. Se o Drummond dizia-se fazendeiro do ar, que posso dizer? Fazendeiro do árido (risos). Foi aí que começou todo o enfrentamento. Mas nada sou sem minhas raízes. Daí, a importância do locus, o nosso lugar é nosso ponto de partida. Nessa ordem fui educado. Primeiro a escuta, depois a fala. O problema nosso é quando o silêncio conspira contra a dignidade humana, quando o fenômeno ocorre nas relações sociais e contamina até a famigerada política cultural. O desafio do poeta é o fazer literário. Chegamos ao ponto em que a contemplação já é um enfrentamento. Não o único, felizmente. Mas quando as relações se amesquinham ao ponto, não deixa de ser uma afronta à necessidade de ascensão social a qualquer preço, da avidez de poder e mando, pior, sob o manto sinistro da corrupção. Ao poeta cabe o fazer poético sem melindres e sem peias. Se isso vai mudar o mundo, responda-me quem o lê. A primeira mudança ocorre na gente, é de atitude. A literatura muda apenas a maneira como a gente vê o mundo.
DA – A lucidez é uma espécie de companheira quase inseparável de seus versos. Aceita, sem ressalvas, a condição de poeta inconformado pelo espanto que é existir?
HEITOR BRASILEIRO FILHO – Aceito, com as devidas ressalvas (risos). “Viver é muito perigoso”, diz Guimarães Rosa na voz do jagunço Riobaldo. Mas é preferível que seja gozoso. A materialidade da vida, a existência reduzida a efemérides, o cotidiano torpe e mesquinho zoando nossas perplexidades, enfim, o sublime e o grotesco são matérias-primas e combustível para minha criação poética. Não posso encarar a vida sem essas prerrogativas na formação de meus versos. Não posso reclamar do destino que escolhi, posso sim transformá-lo. Tampouco, posso aceitar o arremedo como opção de vida para meu semelhante. Ninguém é obrigado a aceitar a esculhambação que fazem com nosso país, nem uma ditadura midiática mijando a nódoa em nossa cara. Digo em A República & o Newmonarca: A res é pública \ mas não é pudica \ pasto de sacripanta \ posto que nos fornica.// (…) Pública é a res! / dita um monarca / bobo de outros reis / que regem a fuzarca. De fato, não há poesia sem perplexidade, ou “espanto”. Não tenho vergonha de ser feliz, tenho a mulher que amo, temos o filho que escolhemos. Gosto de dizer que felicidade não é conformismo. Como pode haver conformidade com um mundo em ebulição?
DA – Todo poeta é, em certa medida, um impostor?
HEITOR BRASILEIRO FILHO – Jamais. Ou é poeta ou não é. A poesia não representa, a poesia é. Ao fazer uso da verdadeira linguagem poética, o poeta não “quer dizer”, o poeta diz. O fato de ser uma das características da poesia a multiplicidade de sentidos, essa riqueza expressiva revela sua capacidade de revolver e expor os prismas de uma verdade. A verdade da arte. Poesia é transparência da alma. Entretanto, se a pergunta se refere à limitação do indivíduo em viver de sua arte, digamos que sim. Se é que é possível ser impostor de si. Sabendo que a impostura parte do mercado, a relação com o mercado editorial é esquizofrênica. Onde já se viu emprego de poeta? Não podemos viver sem poesia, mas não podemos viver de poesia. Isto não é uma escrotidão? É. No meu caso o eu-peão é quem sustenta o eu-poeta, quando ambos são indissociáveis, a mesma pessoa. O mais incrível é que por essa condição a poesia ainda é uma arte livre, que não é escrava do mercado, não se curva à sevícia. Veja como a ostentação é a cara da pobreza. Meu sonho agora é ganhar dinheiro escrachando, poeticamente, toda essa escrotidão (risos). Não apenas o lirismo, mas, o humor e a ironia são badogues que valem por uma ogiva nuclear. A gente morre, vira lama, e a poesia fica aí… levitando. Como pode ver no poema “Poesia é ouro sem valia”, com título homônimo de um artigo de Ferreira Gullar, a quem dedico, estabeleço seguinte diálogo:perdoe-me a gula / o Gullar // poesia / não é ouro / é valia // ouro vale / quanto / o pesar // o quanto flutua / a poesia.
Heitor Brasileiro Filho / Foto: Arquivo Pessoal
DA – Sua trajetória aponta para um caminho em torno da obra de Sosígenes Costa, um poeta de cunho notável e que ainda permanece desconhecido por muita gente. O que o fez debruçar-se nessa pesquisa?
HEITOR BRASILEIRO FILHO – O desafio. Minha primeira impressão sobre a arte de Sosígenes foi de estranhamento. Apesar de todo um domínio, de uma técnica, ele recusava a moda. Fui entender melhor. Havia apenas um exemplar de “Obra Poética” (1959) na biblioteca pública. Depois consegui cópia de “Obra poética II” (1978) e “Iararana” (1979). É injustiça um poeta ficar mofando por mais de 30 anos. Embora o material fosse escasso, o escolhi como objeto de estudo para minha monografia de conclusão do curso de especialização na UESC. Só havia dois livros sobre sua poética: “Pavão parlenda paraíso”, de José Paulo Paes e “Sosígenes Costa: O Poeta grego da Bahia, de Gerana Damulakis. Li toda a bibliografia disponível, poemas, uma entrevista, e as crônicas que revisei para o livro de Gilfrancisco Santos, organizado por Hélio Pólvora. Garimpei alfarrábios, juntei textos esparsos tentando montar o quebra-cabeça. Mais escassa ainda é sua biografia, muita lenda, poucos fatos. Os contemporâneos estavam morrendo. Aproximávamos de seu centenário, procurei seus familiares e amigos em Belmonte. Uma epopeia: levei gravador e máquina fotográfica. Preparei minha “Violeta”, uma moto XR2000R que guardo até hoje, embarcamos em Canavieiras para Belmonte. Seguimos pelo Rio Pardo até o Estuário do Jequitinhonha. Em Belmonte, sua sobrinha Ana Rosa me confiou documentos. Colhi depoimento da Professora Mariinha, contemporânea de infância e também no Rio de Janeiro. Segui de moto para Santa Cruz Cabrália pra gravar entrevista com Naçu, o irmão caçula que tinha 79 anos. Não pude retornar por Belmonte para pegar o barco devido às chuvas. Enfrentei tempestade na estrada pra Porto Seguro. Tinha recursos para uns três dias. Fui acolhido na pousadinha Pôr do Sol em Trancoso. Retornei sete dias depois pra Ilhéus, debaixo de chuva impiedosa. Embora levasse material para uma Universidade e a Fundação Cultural na qual trabalhei, viajei às minhas expensas. Sou grato ao apoio da família e amigos, aos quais conquistei amizade e respeito. Retornei pra proferir palestra. Essa viagem me serviu para remontar sua ambiência de origem, sua formação de leitor, seus primeiros escritos, e desmistificar a imagem divulgada do poeta. Já nesse período, quando afirmei que Sosígenes, com dicção própria, espírito combativo exprime solidariedade, preocupação com a pesquisa histórica revelando um rico vocabulário que não dispensa o coloquialismo da gente do povo, fruto da vivência e da pesquisa de termos de origem indígena e africana, as duas raças mais sacrificadas na constituição do povo brasileiro(…), os donos da cultura na Bahia deram de ombros. Recentemente, Herculano Assis, reuniu documentos colhidos em Belmonte e, no Rio, lançou Cobra de Duas Cabeças. A obra só confirma que Sosígenes não era apenas um poeta habilidoso, o sujeito tinha senso crítico, às vezes era ácido, mas bem humorado, antenado com a obra de autores então em evidência e com o desenvolvimento das letras nacionais.
DA – Quais traços julga serem marcantes nos escritos de Sosígenes Costa?
HEITOR BRASILEIRO FILHO – A busca da originalidade, algo difícil de edificar em qualquer arte. Mas, sobretudo, a quebra nos paradigmas no que concerne o “enquadramento crítico-convencional da nossa Teoria Literária”. O cara era invocado, tinha integridade e não buscava sucesso fácil. Até sua poesia dita clássica, a sonetítisca dos pavões, admirada por dez entre dez acadêmicos dentro e fora dos quadrantes da Bahia, usa uma roupagem parnasiana rigorosamente metrificada, e ainda com floreios barrocos para incutir-nos um conteúdo moderno e com as cores locais, anseio do nosso Romantismo que conhecemos com uma das principais bandeiras do Modernismo, corrente que ele ainda implicava e batia através de sua Coluna de Sósmacos , em 1928, porque ainda não havia digerido completamente seu conteúdo. “Búfalo de Fogo” passou pelas mãos de muita gente boa como um poema meramente simbolista, telúrico, etc. Subestimaram o mestre-escola das roças de Belmonte, recém-chegado a Ilhéus, com apenas 27 anos de idade. Por trás daquela capa simbolista, o que temos lá é um épico denunciando o horror da invasão e da pilhagem. Imagine a cidade de Ilhéus, cidade-mãe da “civilização grapiúna” (vide Adonias Filho), qual “Búfalo de Fogo”, “fosfóreo”, “florescente”, sendo perseguida por centauros (“Centauras”), bichos perversos dados à desordem, invasão de lares, e cuja representação simbólica na mitologia clássica nos remete à barbárie? O Simbolismo, em essência, preconizava “a arte pela arte”, a contemplação e não o conflito. Em “Búfalo de Fogo”, literalmente, o bicho pega! Portanto, um épico a ser estudado com maior acuidade. Veja que Sosígenes abre o poema da seguinte maneira: “Anoiteceu. / Roxa mantilha suspende o céu no seu zimbório / que noite azul, que maravilha / sinto-me, entanto, merencório”. Olha que tristeza retada… Depois faz um passeio pela Bíblia, pela história, pelas mitologias, com vocábulos nossos tão rebuscados que mais parece outra língua, uns duzentos versos depois encerra de forma emblemática: “(..) Protervos ventos em mantilha / como cem feras em regougo, / fazem da noite na Bastilha / revoluções de demagogos. / Ventos, ladrões de uma quadrilha, / depois do crime, vão pra o jogo. / dentro da noite, Ilhéus rebrilha qual Búfalo de Fogo.” De lá pra cá, passaram-se 85 anos. Agora repare na atualidade do tema! A sua poesia Modernista, talvez a mais visitada, novamente foge às regras vigentes. Menotti del Pichia, na Semana de Arte Moderna, em 1922, provocou a plateia: “Morra a Hélide!” Sosígenes seguia próprio caminho, depois criou o mito da falsa Iara (“Iararana”), fruto do estupro contra a Iara pelo centauro Tupã-Cavalo, “Mondrongo vindo das oropa” para invadir e usurpar a cultura nativa. “Iararana” remonta as origens da colonização portuguesa e vai até o processo histórico da formação da nossa cultura do cacau. Inadmissíveis para os primeiros modernistas eram os mitos da nossa civilização de origem indígena junto à mitologia clássica, portanto, de origem europeia. Os “ouropeis”, pra usar uma expressão irônica de Mário de Andrade. Sosígenes inovou no conteúdo ante a orientação modernista-primitivista desta primeira fase, a chamada fase heróica, e o fez ao seu modo. Usou elementos da tradição clássica para fazer uma poesia essencialmente brasileira, contudo, universal. Elementos presentes em outros textos, escritos a partir dos anos 30. Embora acusado de anacrônico, ele fez o diferencial e o complementar. Digo sempre que não é tudo que Sogígenes escreveu que eu gosto incondicionalmente. Mas, justiça seja feita, em toda área que atuou deixou peças de comprovada grandeza.
DA – De que modo a tradição pode dialogar melhor com a modernidade em matéria literária?
HEITOR BRASILEIRO FILHO – Não podemos negar aquilo que desconhecemos. A história tem sua dinâmica e a referência é a tradição. Não significa estacionar o olhar numa zona de conforto. A vanguarda de hoje pode vir a ser a tradição amanhã. Na história dos movimentos literários uma tradição se sobrepõe à outra – não a suplanta – nem sempre por um processo de ruptura, mas de associação e superação. A boa leitura não apenas alarga os horizontes, às vezes deixa marcas indeléveis que vão além do consciente. É preciso saber ouvir a voz que habita nosso espaço interior. A partir de então, saber o que fala, como fala, de onde fala e para quem. Tudo isso, sem se privar da descoberta constante que é o fazer literário.
DA – Uma de suas máximas é afirmar que alguns de seus poemas foram premiados e outros ainda não foram corrompidos. Esse pensamento é uma espécie de antídoto contra a vaidade?
HEITOR BRASILEIRO FILHO – Mera tentativa. O antídoto ainda não foi inventado. Quando brinco com a vaidade humana, revelo meu jeito de ser vaidoso.
DA – Escrever aponta algum caminho de salvação?
HEITOR BRASILEIRO FILHO – Sim. A poesia salvou minha vida.
– DOIS POEMAS DE “O CHÃO & A NUVEM” –
PEDINTE
A loucura bate à porta
do vaso das flores
sirvo-lhe o copo d’água
amanhã virá a consciência
em busca de comida
A REPÚBLICA & O NEWMONARCA
A res é pública:
mas não é pudica
pasto de sacripanta
posto que nos fornica
a res é pública:
como quer a grei
que escreve & publica
& não reconhece a lei
a res é pública:
se não ultrapassa
a verdade e a justiça
à venda e à mordaça
a res é pública:
não é de ninguém
de quem mais se furta
é do que menos a tem
é pública a res:
como será sempre
magarefe o rei
& o gado a gente
é pública a res:
como sempre foi
covarde a sangria
da farra com o boi
a res é pública:
mas livre de arbítrio
ao biltre da política
se eleito o estrupício
é pública a res:
privada só pra súcia
evacuar de vez
seu voto de astúcia
– pública é a res!
dita um monarca
bobo de outros reis
que regem a fuzarca
Encadear fatos, construir cenários que os abracem e mover os personagens dentro das narrativas são apenas uma parte da hercúlea tarefa de se contar uma história. Quando um autor possui estes ingredientes em suas mãos, passa a lidar com o desafio de trazê-los à tona diante da presença dos leitores. Levar isso em frente não significa tecer um pacto com uma proposta de sedução gratuita ou, simplesmente, enveredar-se pelo torpe caminho da superficialidade, como se pode deduzir em muitas leituras diluídas no mundo.
Definitivamente, erguer uma história não é ter em conta apenas um arsenal de usos de linguagem e conduzi-los rumo a um ambiente meramente estético. Atrair um leitor para uma narrativa é, também, fazê-lo crer que tudo esteja sob seu controle até o ponto em que ele perceba ser praticamente impossível domar a eclosão dos acontecimentos. E assim, rompendo convicções e deixando leitores desfilarem livres e nada impunes pelo jardim do imprevisível, é que um criador alcança com sua obra resultados substanciais.
Não está longe de nós quem pratica essa espécie de ritual criativo. O escritor e jornalista fluminense Sérgio Tavares é exemplo vivo disso. Detentor de um estilo que penetra delicadamente no universo intimista de pessoas e lugares, Sérgio não é apenas cicerone de quem lê seus escritos. Na verdade, estamos diante de um autor que, de caso pensado, conspira a favor de nossas percepções, ofertando-nos um complexo fluxo de descobertas e revelações. Conceber uma zona de conforto para o leitor não é algo do qual esse autor seja fiel partidário. Importa, para ele, uma literatura que provoca, tira os móveis de lugar e não se encarrega de determinar qualquer perspectiva de salvação.
Vencedor do Prêmio SESC Nacional de Literatura 2009, com o livro de contos “Cavala” (Editora Record), Sérgio Tavares recentemente lançou seu segundo rebento, “Queda da própria altura” (Editora Confraria do Vento), que também trafega pelas veredas contistas. E para falar um pouco sobre o seu denso percurso pelas palavras e outros temas correlatos, o autor nos concede uma entrevista, pontuando aspectos que fazem de sua literatura uma observação marcante sobre o espantado ato de existir.
Sérgio Tavares/ Foto: Mateus Tavares
DA – Em “Queda da própria altura” há uma sensação abismal a atravessar as narrativas, como se existir fosse um arremesso rumo ao limiar das coisas. O que dizer das palavras que evocam o sabor dos precipícios?
SÉRGIO TAVARES – Creio que são as mais intensas. O Nietzsche tem uma frase que diz que se você olhar para o abismo por muito tempo, o abismo acaba também olhando para você. Esse livro é o abismo que olhou para mim num momento terrível da minha vida, viu um homem desmoronado por perda, impotência e dor, e revidou com o único eixo capaz de articular os fragmentos. Talvez isso explique a opção por contar essa história no formato de contos, lançando mão de induções que encadeiam todas as narrativas para um desfecho único e provocam a sensação de unicidade. Isso foi intencional, porém, enquanto escrevia, eu não sabia o quão distante seria preciso enveredar para encontrar a chave capaz de trazer a voz narrativa de volta para o cenário estabelecido: o limiar abismal. Seja de maneira explícita ou tácita, é ali que estão os personagens, era onde eu estava. Foi ali também que percebi que, diante do abismo, ou você pula ou você decide conversar com ele. Eu e a voz narrativa do livro decidimos conversar.
DA – De fato, fica-se com a sensação de que o ambiente do livro também apontaria para a construção de um possível romance. No entanto, a fragmentação da memória e dos próprios sentimentos, aspectos marcantes de nosso tempo, surge bem delineada na narrativa e encontra abrigo nos contos. Essa reflexão norteou sua escolha narrativa de algum modo?
SÉRGIO TAVARES – A memória era o único caminho para que esse livro existisse. Virar o jogo e exercer uma pressão sobre ela foi, naturalmente, entender que, para me reabilitar, eu precisava escrever sobre o que aconteceu, preencher essa ausência com algo que pudesse eternizar o que as circunstâncias da vida (alguns diriam destino, eu não tenho ideia) não me permitiram. Foi a partir dessa percepção que surgiram as muitas páginas de um cruzamento de testemunho e retratação que, mais tarde, seriam editadas no conto “Sono”, o núcleo de todo o livro. O que há de verdadeiro, do que pode se aproximar de mais real do ocorrido está ali. Contudo eu não podia resumir toda a história a isso, eu era atacado por tantos sentimentos que precisava incidi-los em outras narrativas. Essa opção considero a mais acertada em “Queda…”. Ao contrário de “Cavala”, meu livro anterior, onde o binômio loucura e sexo entretecia os contos, havia sentimentos demais, muitos fragmentos para definir dois ou três caminhos para a trama. O que eu não poderia, e sempre soube disso, era perder a mão desses sentimentos e cair na pieguice ou na comoção exacerbada. Portanto, depois de estar por muito tempo apegado a tudo aquilo, a tratar memória feito uma massa de modelar, eu precisa me desprender e ler o livro como um leitor apático. Isso é literatura, afinal.
DA – Suas observações aproximam-se muito com o pensamento do escritor Manoel Ricardo de Lima. Vislumbrando a literatura como uma armadilha a ser construída, ele sustenta que o seu esforço é para não escrever livros ingênuos, pois vivemos num tempo em que não podemos pactuar com esse tipo de coisa. Seria esse o maior desafio da criação?
SÉRGIO TAVARES – É curioso você citar o Manoel Ricardo de Lima, pois ouvi comentários que traziam a mesma impressão, porém a primeira obra dele que li ocorreu depois de o novo livro já estar encerrado. Considero um tanto desconcertante, para um autor, fazer analogias entre sua escrita e a de outros escritores, mas há sim semelhanças e diferenças, sobretudo no conceito empreendido especificamente em “Queda…”. Por conta de partir de um momento tão íntimo, acredito que a prosa acabou por incorporar naturalmente um verniz poético. Comparando com o meu primeiro livro, eletrificado por cargas fortíssimas de violência e despudor, a tessitura dos novos contos acontece de maneira calculada, silenciosa, introvertida. Essa é uma irmandade que percebo com o trabalho do Manoel, mais especificamente com o livro “As Mãos”, onde a poesia é utilizada como elo para encadear as cenas que transcorrem em tempos mutáveis. Outra semelhança, e essa é a mais viva, é justamente o uso da literatura como armadilha, o que gosto de chamar de a construção do nocaute. É não ser ingênuo (ou relapso) em acreditar que a ideia, o escopo, basta para que a história funcione, para que a estrutura prevista tenha solidez suficiente para sustentar a trama. Penso que é exatamente o contrário, que o leitor deve ser posto no estado de refém, que deve ser enganado até o derradeiro ponto final. Essa intenção é muito clara no conto “Cerimônia”, onde uma mulher se prende em reminiscências enquanto separa a roupa do filho para um importante evento, até encontrar um desfecho arrebatador, que não cabe aqui revelar para não estragar a surpresa. Conquistar o leitor aos poucos e colocá-lo numa zona de conforto, para em seguida atacá-lo com um golpe fulminante, sempre foi o que persegui, na edição do novo livro. O maior desafio da criação é não tratar o leitor com carinho.
DA – Logo em sua estreia em livro, os contos de “Cavala” conferiram a você o Prêmio SESC Nacional de Literatura. Em qual contexto você situa esse momento de reconhecimento?
SÉRGIO TAVARES – No mais dos inesperados. Os contos que compõem “Cavala” são, em suas origens, acidentais. Durante o processo de criação do novo livro (que, até então, era previsto para ser o meu primeiro), escrevi alguns contos cuja natureza era exatamente a antítese de como estava tratando a memória em “Queda…”. Se as motivações ali eram os sentimentos íntimos, as lembranças dolorosas e o vazio, nesses contos guardados não havia tempo para o luto ou para a autocomiseração. “Cavala” é constituído por personagens que, impelidos por desejos irrefreáveis, gozos desmedidos e transtornos mentais, são pressionados até situações-limite, onde a possibilidade de redenção está condicionada ao cometimento de atos hediondos. E isso também se reflete na prosa mais acelerada e fragmentada, sem espaço para poesia ou onirismo. Mas, como disse, eram contos de gaveta e continuei com o projeto inicial. Foi então que, certa manhã, eu li sobre as inscrições do Prêmio SESC; melhor dizendo, sobre o fim das inscrições. Era apenas o tempo de transformar esses contos num volume, revisar e despachar pelos correios. Assim o fiz e a vida seguiu, até o dia em que um telefonema mudou tudo. Eu vivia um outro momento, minha esposa estava grávida novamente, engatinhávamos novos planos e, de repente, o sonho de muito tempo. Lembro claramente que estava na balsa, indo para o trabalho, e não sabia se voltava para casa, mantinha a normalidade ou tentava achar salmão no fundo da Baía de Guanabara.
DA – A condição de premiado impôs a você alguma mudança de paradigma ou ruptura em especial? Viu-se imbuído de uma, digamos assim, maior responsabilidade criativa?
SÉRGIO TAVARES – Certamente houve uma ruptura, mas longe de qualquer aspecto negativo. Não há dúvida de que o Prêmio Sesc me avalizou como escritor, mas a conquista não se resume ao carimbo na capa do livro. Existe toda uma programação robusta (participações em feiras literárias, palestras, debates) que ocorre paralela ao lançamento, contribuindo para o enriquecimento literário do autor, bem como para a divulgação da obra. O acúmulo dessas experiências, diante da condição de ter sido revelado por um prêmio, pesou muito mais nas minhas escolhas do que qualquer tentativa de superar o primeiro livro. Aliás, o que seria uma tremenda estupidez, pois competir comigo mesmo só me valeria a derrota, de todo o modo. Fazer parte desse universo foi determinante para apagar todo o traço de deslumbramento, o que é vital para um autor que planeja continuar publicando. O mercado editorial tem suas regras. É isso. Se você pretende se estabelecer como escritor, escreva. Escreva, revise e reescreva. Não há nada de encantado nesse processo. O carpinteiro não faz a mesa com o manuseio da madeira. Acreditar que o fato de o meu nome estar associado a um dos principais prêmios literários do país abriria todas as portas, nunca foi uma possibilidade. O que foi ótimo, já que a verdade está bem longe disso. Eu não posso me comprometer com o que criei ou com o que estou criando, mas com o que ainda preciso criar. Tem um trecho do conto “Quebranto” em que o narrador diz que quando deixamos de chamar ou de ser chamados, perdemos nossos nomes. É exatamente assim que funciona.
DA – O caminho por seguir, encerrando os desafios que lhe são peculiares, remonta algumas vezes à chamada “angústia da criação”. A questão de se desejar erguer uma obra com status de notoriedade não lhe parece um desvio de nosso tempo?
SÉRGIO TAVARES – De maneira nenhuma. Todo artista que se propõe a publicar e divulgar uma obra está naturalmente em busca de notoriedade, principalmente aqueles que insistem que não, pois a negação em si já é a intenção do holofote. O que não se deve confundir é a chance de notoriedade com a busca vazia pela fama. São motivações diferentes, cuja explicação aqui iria pesar muito no tamanho da resposta. Sugiro a leitura dos ótimos “A Experiência da Fama”, da Maria Cláudia Coelho, e “O Show do Eu”, da Paula Sibilia, para um melhor entendimento. De volta à questão, tem se tornado claro, cada vez mais para mim, que os dois fatores principais para o bem-estar de um livro publicado é a divulgação e a distribuição. Hoje é possível facilmente lançar um livro por conta própria; e talvez esse seja o verdadeiro desvio do nosso tempo. Tomar uma atitude como essa deve estar condicionada à extensão da estrada que esse livro planeja percorrer. É claro que há a internet e as redes sociais, mas o aporte de uma editora bem estruturada e a comercialização nas livrarias de renome ainda têm um peso incomparável. Além disso, essas são engrenagens de uma máquina cuja esteira conduz com mais facilidade aos suplementos literários e às revistas especializadas. Isso não é crítica ou resignação, mas uma percepção particular. Eu sei que existem exceções, que não há nada mais angustiante do que aguardar a resposta de uma editora, que a qualidade pode intervir na verticalização da informação. O meu primeiro livro teve qualidade para conquistar o Prêmio Sesc, porém será que teria qualidade para ser francamente aprovado por uma editora do porte da que o publicou? O marcado literário é tão repleto de incertezas, que o autor deve contar com menos passos falsos possíveis. Entender que é necessário ampliar o campo de projeção de uma obra é, atualmente, uma atitude capital.
DA – O que você considera ser o traço marcante da literatura feita hoje no Brasil? Com toda a complexidade que a questão demanda, estamos ainda muito longe de consolidar uma nova geração de escritores?
SÉRGIO TAVARES – A nova geração está em pleno curso. Temos uma safra de talentosos autores entecendo uma literatura que transcende as fronteiras estabelecidas, que dialoga com o mundo sem se destituir do caráter particular, que se arrisca a incorporar gêneros com habilidade para não repetir o cânone. É um conjunto constituído por inúmeras correntes que, sem precisar aqui citar um ou outro nome, traz um traço cosmopolita bem marcante, com fulgente predileção por narrativas autocentradas, donde se sobressai a condição do “eu” nas relações interpessoais. É um tipo de literatura que já foi chamada de “literatura psicológica”; enredos centrados na (des)construção emocional, onde os embates e os impulsos têm mais impacto que a estrutura e a caracterização dos personagens, ao ponto de influenciar diretamente nas reviravoltas e no desfecho das tramas. Com isso, acredito que se estabelece um cenário forte, capaz de produzir clássicos para novas épocas; é claro, levando-se em conta o momento único em que a literatura brasileira se desvenda diante dos olhos do mundo. Há, no entanto, duas coisas que me incomodam. A primeira é o esforço descomunal de se instituir a supremacia do romance, sufocando as incursões em outros gêneros. Já a segunda é o manejo com que giram o holofote, na tentativa insensata de imputar a grandeza do momento a um grupo de escolhidos. Os nomes que perdurarão somente o filtro do tempo irá dizer. Mas certamente aqueles que caminham agora não são apenas vinte.
Sérgio Tavares/ Foto: Mateus Tavares
DA – Andamos bem em matéria de crítica literária?
SÉRGIO TAVARES – Gosto, de maneira geral, do que é feito por aqui. A crítica brasileira tem um aporte mais incisivo, mais direto, seja para elogiar ou para meter o pau. Não somos afeitos a tergiversações, ao contrário dos norte-americanos que fazem das resenhas um misto de resumão com pontuais impressões. O que falta por aqui, na minha opinião, são mais publicações voltadas exclusivamente para literatura. E não digo apenas um robustecimento dos suplementos literários, mas revistas e outros periódicos especializados. Tirando o Sul (com louvor para o que é feito no Paraná) e São Paulo, percebo que os espaços acanhados acabam sendo relegados aos principais jornais do determinado estado. Aqui no Rio, por exemplo, é uma vergonha, uma falta de interesse medonho. Eu mesmo tenho impressões dos meus livros espalhadas pelo país, com gloriosa exceção para o Rio. É claro que pode valer a máxima de que santo de casa não faz milagre. Mas para ter santo, antes tem de ter altar.
DA – Há sempre um discurso pronto quando se busca a razão para a “tradicional” falta de interesse pela leitura. Será também que não vivemos num país onde potenciais leitores são subestimados?
SÉRGIO TAVARES – Não há dúvida quanto a isso. Tornou-se lamentavelmente cômodo, para aqueles que passam pelos canais institucionais com o dever de mudar essa realidade, aceitar a constatação com a leviandade de uma máxima. “O Brasil é um país onde pouco se lê”, fica dito e pronto! Quase um lema distorcido, um eco que se propagava há séculos. Mas por que é assim? A resposta é bem complexa e encadeada por diversos fatores, mas gosto de um argumento transformado em crônica pelo jornalista Zuenir Ventura, colunista d’O Globo. Nesse texto, Ventura, um professor universitário já com 80 estações, sintetizou, em poucos parágrafos, essa infinita discussão do porquê do exercício da leitura ter se tornado, geração a geração, uma maratona com cada vez menos participantes. Ao contrário dos que culpam a decadência cultural, os novos caminhos tecnológicos e a hegemonia da televisão, o jornalista defende que a culpa não é de quem deveria ler, mas de quem deveria tornar essa atividade atraente.
Por que os europeus e os americanos leem oito vezes mais livros que os brasileiros? Por que cerca de 70 milhões de pessoas no Brasil não leem? Falta de hábito, poder aquisitivo? É claro que ambas as circunstâncias têm influência direta na resposta, sobretudo quando associadas ao fato de termos 21 milhões de analfabetos. Contudo, há um outro fator determinante que, no texto, o jornalista aponta com precisão: parte da culpa, sim, está nas escolas, num comodismo intelectual que refaz um tempo já, há muito, incinerado.
O mote da crônica, explica Ventura, veio do pedido de um amigo, pai de um aluno no segundo ano escolar, que lhe passou a lista de livros na tentativa do empréstimo de alguns títulos. O jornalista conta que ficou abismado ao se deparar com indicações como “Senhora” e “Iracema”, de José de Alencar; “O Cortiço”, de Aluisio de Azevedo; “Memórias de um Sargento de Milícias”, de Manoel de Antonio de Almeida; e “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis. Obras que estão além do tempo daqueles que são obrigados a lê-las, assim como eu mesmo fui e como aquele menino, muitas décadas depois, também seria.
Vejo que a questão é exatamente essa: a obrigação. Como um jovem, justamente no momento em que está iniciando sua formação intelectual, pode desenvolver o gosto pela leitura através da imposição de obras datadas, repletas de um coloquialismo que torna o seu próprio idioma praticamente estrangeiro? Ventura cita, como exemplo, um trecho de José de Alencar: “Iracema saiu do banho; o aljôfar d’água ainda roreja, como à doce mangaba que corou em manhã de chuva”. Sinceramente, eu mesmo não sei o que é um aljôfar. Então como isso pode ser mais atraente para um moleque de 13 anos do que ficar no facebook? Na época em que era obrigado a ler “Brás Cubas”, “Senhora” e “Iracema”, eu queria mais era ler histórias de detetives. Isso prova que o problema não é o apelo da internet, mas a forma errada e atrasada com que as escolas propõem aos alunos a leitura, anulando toda a condição de uma atividade prazerosa.
Na crônica, Ventura elenca alguns autores contemporâneos que certamente seriam mais atrativos, tais como Rubem Braga e Fernando Sabino. Eu acrescentaria Luiz Vilela, Clarice Lispector, Murilo Rubião e Luiz Fernando Veríssimo. Acredito que o caminho correto é fazer com que os potenciais leitores assimilem que ler não é um dever de casa, algo necessário para se dar bem num teste.
DA – O olhar para dentro, característica forte em seus escritos, é algo deveras significativo num tempo em que a superficialidade das coisas insiste em fazer sombra, sobretudo ao terreno das relações humanas. Esse caminhar pela via intimista é também uma tentativa de resgate, quiçá um ímpeto de resistência?
SÉRGIO TAVARES – Escrever, por si só, já é um ato de resistência. Não há um significado vital para isso, senão um esforço para aliviar um ímpeto particular. Escrever, de certa forma, é uma vaidade. Por isso, me tornei jornalista, pois buscava uma maneira de orbitar pelo universo da escrita, encontrando quem me pagasse para isso. Ainda que longe de qualquer ostentação, é muito mais certo sobreviver como jornalista do que como escritor nesse país. O curioso é que, à medida que me especializava na profissão, percebi o quanto o jornalismo era (e é) importante nas minhas incursões no campo ficcional. Sobretudo no que tange a construção do personagem. Vejo que o escritor não pode transitar pela superfície das coisas e deixar todo o trabalho para a imaginação do leitor. Por isso, há uma predominância, em meus escritos, pela voz narrativa em primeira pessoa. Os meus personagens são hiperativos, as histórias acontecem sob o ponto de vista deles. E isso só é possível porque, antes de partir para a escrita, eu traço todas as características desse personagem, da maneira mais íntima possível; é algo excessivo, abusivo. Um exemplo é a personagem do conto “Fome”, a segunda narrativa do meu primeiro livro, “Cavala”. Estamos diante de uma professora do ensino primário viciada em sexo, ao ponto de seduzir um mendigo e levá-lo para casa. Quem é essa mulher? Por que ela chegou a esse extremo? Como ela funciona emocionalmente e fisicamente nessa situação? Investiguei todas as respostas, antes dela tomar a decisão. Cumpro o papel de jornalista diante de meus personagens. Agora, isso mudou um pouco, pois estou engatinhando pelas vielas do romance, que são mais íngremes e auspiciosas que as do conto. Portanto, além de construir os personagens, há diversas anotações no caderninho de capa xadrez sobre a estrutura da história. Mas o principal continua sendo o protagonista. E, dessa vez, tento algo que, se não for inalcançável, será uma experiência fascinante: desvendar a origem do mal, entender quais fatores incidem sobre alguém, tornando-o capaz de cometer livremente atos hediondos.
DA – Que espécie de busca norteia as palavras de Sérgio Tavares e o faz seguir adiante?
SÉRGIO TAVARES – Escrevo porque preciso, porque é a única coisa que tenho vontade de fazer, porque é o que cala esses personagens que inelutavelmente insistem para que eu conte suas histórias. Depois de duas antologias, apostei que era o momento de escrever um romance. Bem, o que sei da história é que se passa na transição dos anos 80 para os 90, período de surgimento da epidemia do vírus HIV, e tem com ponto central o desmoronamento de um núcleo familiar, a partir do momento em que a mãe contrai a doença, após uma transfusão de sangue, e morre. Essa ausência provoca o desligamento entre pai e filho, cuja negligência trará consequências aterradoras, sobretudo depois que o pai traz uma nova mulher para morar na casa e torna-se um sujeito submisso, emasculado, incapaz de reagir a contínuas traições. Tem também uma mulher chamada Selma e alguns cachorros mortos. É um livro sobre a origem do mal. O meu projeto mais ambicioso, até então.
As opiniões se dividem quando o assunto é delimitar as implicações da poesia. Se para alguns o gênero representa uma vasta possibilidade de experimentos e usos da linguagem, outros defendem uma perspectiva que opera no sentido duma transformação do olhar. Especificidades à parte, o fato é que, ainda assim, parece haver uma coexistência tácita entre esses dois modos de pensar o fazer poético. Ao passo que descortinamos leituras das mais diversas, percebemos autores a privilegiar, sobretudo, aspectos formais da criação, construindo uma obra que também congrega elementos dotados de subjetividade. Definitivamente, uma via não anula a outra.
Embora o ato de criar possa conferir uma condição especial a quem escreve, alavancando proezas e notoriedades, há quem renegue tal atributo não por um mero capricho, mas sim pela percepção de que estar no mundo e decodificá-lo de algum modo representa algo mais valioso. Nesse trajeto, imbricada está a noção mais pura de um exercício do olhar, e para gente como Eduardo Lacerda isso significa muito. Gaúcho por nascimento e residindo em São Paulo desde a infância, o moço rejeita ser chamado de poeta. Prefere, ao levar adiante sua feição de editor, ser visto como um alguém que faz nascer livros e autores. Em parceria com Aline Rocha, conduz a Editora Patuá, iniciativa que acaba de completar dois anos de existência e cujo lema confere aos livros um status de verdadeiros amuletos.
Mesmo se considerando um não-poeta, Eduardo ousa com palavras e versos. A prova disso é a reunião de poemas presente em sua cria de estreia, “Outro dia de folia” (Editora Patuá), obra que encerra imagens e tantos outros signos bem típicos de um ser/estar no mundo. Ao mesmo tempo em que apresenta deslocamentos em torno de temas caros à existência, o livro também sugere impulsos pela via da transgressão. Lê-lo é sentir-se um pouco menos confortável diante da parca quantidade de certezas que nos habitam. Assim, um ritual de provocações desfila por cada verso, desafiando os leitores a celebrarem epifanias que nem sempre soam como boas novas. Tendo como companhias inseparáveis o espanto e o estranhamento, Eduardo Lacerda compartilha conosco suas impressões sobre a vida e a literatura, perfazendo um diálogo movido por uma paixão notória: os livros.
Eduardo Lacerda / Foto: Stefanni Marion
DA – “Outro dia de folia”, sua obra de estreia, evoca, de modo especial, uma poesia de imagens, reminiscências e louvores dispersos numa travessia pela vida. Na construção desse caminho, o que lhe parece mais emblemático?
EDUARDO LACERDA – Você tem razão em afirmar que é e há uma poesia de imagens no meu livro ‘Outro dia de folia’. Tento construir em meus poemas aproximações com a prosa, criando cenas, espaços, personagens – embora não explícitos – falas sobrepostas, que podem simular outros planos de discurso e diálogos dentro do poema. A imagem é um dos recursos para a montagem desses pequenos contos em forma de poesia. Então, se há algo emblemático, é que o poema precisa acionar – criar uma ação – no momento da leitura. Precisa criar um impacto de uma história. Não busco exatamente, com estes poemas do livro, despertar sentimentos ou mesmo emoções sentimentais, mas inserir o leitor dentro de uma ação.
Em nem todos os poemas consegui isso de forma efetiva, mas acho que com a maior parte isso foi possível, até mesmo pela ligação temática entre eles, que é, principalmente, a imagem do deslocamento e melancolia do eu-lírico em relação a uma necessidade cada vez maior de felicidade, quase como uma obrigação de se comemorar, festejar.
Talvez dois versos possam ser emblemáticos para a definição desse deslocamento, o primeiro é o desfecho do poema “A Última Ceia”: “já não me encaixo / depois que aprendi / a olhar de lado / e sair por baixo”. O personagem do poema, uma criança, é colocado sentado à esquerda dos pais no meio da mesa, essa marcação espacial ‘à esquerda’ (uma referência bíblica alterada, que é a de Jesus sentado à direita de Deus) e ‘no meio’ já revelam um deslocamento, uma não adequação do personagem, que como um ‘prato que se enche’ vai procurar ‘lugar entre as pessoas’. O personagem não encontra esse lugar, ele não aceita esse lugar imposto, ele aprende a olhar de lado. O ‘sair por baixo’, que poderia remeter a uma inferioridade desse ‘pequeno’, como chamo o personagem, na verdade pode significar que é possível uma fuga. Que sair por baixo, quando estamos cercados por todos os lados, pode ser uma fuga.
O outro verso é do poema ‘Outro dia de folia’, que dá título ao livro (embora escrito após o título do livro já estar definido há muitos anos). Nesse poema eu questiono: “quanto há / de / penetra / no dono / de sua / própria / festa?”. É uma provocação. E é um deslocamento, mas é também, talvez, uma forma de transgredir nossas certezas de espaço no mundo.
DA – É interessante você pontuar essa noção de transgressão a serviço da poesia. Nesse sentido, percebe a existência como um misto de espanto e estranhamento?
EDUARDO LACERDA – O poeta Ferreira Gullar afirmou exatamente isso sobre sua poesia: “A minha poesia nasce do espanto, de alguma coisa que me surpreende, alguma coisa que eu não tinha descoberto ainda na vida”. Gosto disso, do espanto, do estranhamento, mas também da descoberta. Descobrir algo, conhecer e, principalmente, reconhecer são passos além do estranhamento. É entrar em contato com aquilo, mesmo sem um entendimento completo. Podemos estranhar algo a vida toda e aquilo não e nunca significar absolutamente nada, não é? Um estranhamento só terá valor se me revelar algo. Então é também uma revelação. Fazer um poema é também encher de significados o que queremos dizer. E será um bom poema aquele que conseguir criar outros espantos e novos significados a partir disso. Um bom poema precisa ter uma eternidade (e não infinidade) de interpretações, eu acho.
Mas acho que existem muitas interpretações para a minha percepção de existência. A minha existência, como pessoa, é uma coisa muito simples. Gosto de livros, amigos e cerveja. E é diferente da minha existência como poeta, da minha existência como editor de livros. Aliás, sempre afirmei que eu não sou um poeta. Eu não romantizo a figura do poeta. Eu não existo como poeta. Publicar foi uma consequência de mais de onze anos escrevendo alguns poemas que acabaram premiados para a publicação em livro. Publicar se tornou uma obrigação, acho.
Mas eu romantizo a minha importância de editor. Eu existo como editor. Talvez isso seja estranho e espantoso. Espero que seja. Mas não estou dando um sentido de uma importância para os outros, não sei se tem essa importância. É importante para mim. O que eu sinto com a edição é exatamente o que deve sentir um escritor. E que o Rilke definiu tão bem: “Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranquila de sua noite: ”Sou mesmo forçado a escrever?”. Eu só morreria se não pudesse mais, de alguma maneira, trabalhar com os livros.
DA – Ao declarar-se um não-poeta, você abre margem para algumas reflexões ligadas ao ofício, sobretudo se formos levar em conta a multiplicidade de escritos que eclodem cotidiana e freneticamente em nosso tempo. Guardadas as devidas proporções daquilo que pode ser considerado como de efetiva qualidade, acredita que a criação literária anda um tanto banalizada?
EDUARDO LACERDA – Entramos em um campo onde tenho feito muitas inimizades. E, sinceramente, não tenho nenhum problema com isso. Tenho defendido, nos últimos anos, a ideia de que existem mais poetas do que leitores. Um paradoxo, no mínimo. Um absurdo, para dizer a verdade. Todo poeta deveria ser um leitor. Eles não são, infelizmente. Claro, não quero generalizar. Alguns ainda são leitores, mas é uma parte muito ínfima. Mas se realmente todo poeta fosse leitor de poesia, poesia venderia muito.
Então, sim, a criação literária está banalizada.
Gostaria de dizer, entretanto, que acredito que todos têm o direito de exercer a criação literária. A banalização da literatura não está no fato da popularização da escrita. Poesia não é para as elites, assim como não é para as massas. Ela é para todos. A poesia deve estar acessível para todas as pessoas. Algumas das manifestações mais interessantes de criação e divulgação literária estão ocorrendo nas periferias de São Paulo, por exemplo.
A banalização, a meu ver, é o descaso dos poetas com outros poetas, com outros livros, com outras linguagens, com tudo que está ao nosso redor.
Vou dar um exemplo simples: a Editora Patuá, da qual sou coeditor, recebe cerca de 100 originais por mês. Desse total, muitas vezes, nenhum desses autores sequer conhecem um livro da editora. Nunca se interessaram em comprar nenhum livro de nenhum autor, muito menos pedir um e-book de graça (os quais sempre oferecemos). Eu não entendo, então, como alguém pode se interessar por uma editora que não conhece. E talvez isso explique como tantos escritores pelo país são enganados por editoras sem nenhuma qualidade.
A necessidade de publicação se tornou maior que a necessidade de leitura e de diálogo com o outro. Todos só querem falar. E eu acho que é o momento de pararmos para também ouvir o outro.
Então, acho que essa se tornou a banalização da poesia, mas também é a banalização das relações em toda a sociedade. Mas esse é o discurso de um otimista, embora não pareça. O meu otimismo está nas minhas ações, em acreditar nos poetas. Em acreditar ainda na literatura, na poesia.
DA – Talvez uma das causas desse insulamento literário seja a tendência atual de laços de compadrio estabelecidos na internet, principalmente via blogs e sites pessoais. Muitos se visitam e se comentam mantendo uma seara de cordialidade que parece alimentar um círculo vicioso. Daí, essa, digamos assim, frágil aprovação, com seus controvertidos códigos de ética, oferecer um ambiente perigoso para a criação. Vivemos uma era de relativizações?
EDUARDO LACERDA – Sérgio Buarque de Holanda formulou a ideia do homem cordial. Acho que ela explica uma parte do que você chamou de ‘era de relativizações’. Na verdade, essa ‘cordialidade’ não é – sempre – essencialmente ruim. Chico Buarque, filho de Sérgio Buarque, comenta / resume em um vídeo essa teoria: “Mas a ideia é a do homem cordial como o homem que reage conforme seu coração, né? Capaz pro bem e pro mal, capaz de grandes efusões amorosas, capaz de inimizades até violentas. E o brasileiro tem um pouco, acho que ainda tem, de levar tudo pra esse lado, de ser incapaz às vezes de seguir uma hierarquia, de obedecer uma disciplina muito rígida. A vontade que ele tem de travar contatos amistosos, criar intimidade, encurtar distâncias. Isso continua existindo, essa informalidade, avesso as formalidades, não gosta (…) o brasileiro criou essa informalidade natural. Isso continua existindo. Agora, como eu dizia, é pro bem e pro mal, dependendo da circunstância o brasileiro pode dar numa raça generosa, né? Ou num povo até triste e amargurado.
Como já afirmei anteriormente, minha tendência é para o otimismo. Acredito na literatura, acredito nos livros, acredito na poesia. As relativizações, as cordialidades, eu não poderei mudá-las dentro do sistema. O que podemos fazer é trabalhar seriamente e de forma honesta, com comprometimento. Eu busco muito isso de nossos parceiros – autores, por exemplo – comprometimento.
Evitamos, dentro da Patuá, quem queira estabelecer relações apenas cordiais, de amizade. Eu costumo dizer que não publicamos os amigos, embora todos os autores se tornem nossos amigos. A amizade é fundamental. Mas o texto, o texto é, para a publicação, mais importante. Nem sempre acertamos. É impossível, sem conhecer um autor, saber qual o comprometimento dele com o livro, com a literatura, com a editora. Mas acho que formamos, em menos de dois anos, um grupo de autores que ultrapassam a publicação do próprio livro. Isso é fantástico!
DA – A Editora Patuá completa agora dois anos de existência e vem, pelo que se pode observar, construindo um caminho cada vez mais sólido. O surgimento dela trouxe embutido algum desafio em especial? Vocês vislumbraram uma ruptura de padrões editoriais?
EDUARDO LACERDA – Após dois anos de trabalho, com quase 80 autores publicados e mais 100 títulos que queremos lançar apenas este ano, além de um prêmio de R$ 50.000,00 do Proac – Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo – destinado à realização da Coleção Patuscada, que publicará 12 títulos de 12 poetas inéditos, sendo que os livros terão uma tiragem de 1500 exemplares, com 20% destinados à distribuição gratuita nas bibliotecas do estado, acredito que conseguimos romper com alguns padrões, tanto editoriais como de mercado editorial, agora os desafios são outros e muitos.
Mas existem dois desafios especiais nesse momento. O primeiro é editorial, queremos sempre apresentar livros diferentes e únicos. Então estamos sempre pensando em como inovar de alguma forma. Cada livro na Patuá tem um projeto gráfico especial, ilustrações exclusivas, formatos e acabamentos diferenciados (capa-dura em alguns títulos, por exemplo). Então, esse é um desafio prazeroso: como podemos fazer algo ainda melhor e surpreendente? Como fazer isso mantendo também os preços de nossos títulos abaixo dos praticados pelas outras editoras?
O segundo desafio é o da Patuá como empresa. Em dois anos conseguimos vencer uma série de dificuldades, mas a editora ainda não nos dá lucro. É claro que o lucro não é nosso objetivo principal, mas precisamos dele até para continuar o projeto. É bom ter autonomia financeira para investirmos em novos projetos, em coisas mais ambiciosas (editorialmente). Essencialmente esse desafio nem é financeiro, mas será bom ter mais livros sendo vendidos e distribuídos, isso também pode nos fortalecer editorialmente.
DA – Quando se fala em era digital versus a manutenção do livro impresso, muitos assumem um discurso apocalítico quanto a este último. Na sua visão de editor, de que modo podemos fomentar uma coexistência harmoniosa entre os dois suportes?
EDUARDO LACERDA – Há muitas formas de se entender essa questão, infelizmente muita gente ainda não entendeu nada.
O escritor Umberto Eco deu uma definição muito simples e certeira sobre o que é um livro “O livro é como a roda, depois que foi inventado, não há como melhorar”. E é isso. O livro digital é apenas um suporte (na verdade, o livro digital pede um suporte – os leitores eletrônicos -, enquanto o livro impresso é o próprio suporte do texto: são ambos, texto e suporte, uma única coisa).
Assim, o livro digital não veio substituir o livro impresso, que ainda é infinitamente superior, mas pode ser – nem sempre ele é – uma opção a mais para a leitura e acesso ao conhecimento. Não há nada, porém, no livro digital, que o torne mais atraente do que o livro impresso.
Pensando de forma prática, um bom livro também é um produto, mas é um produto na contramão da lógica capitalista. Um bom livro pode durar uma vida inteira – pode durar dezenas de vidas inteiras e passar vários séculos. Um livro não fica obsoleto. Um livro impresso pode ser emprestado e lido por várias pessoas (pode-se argumentar que o livro digital também permite o compartilhamento, mas não é verdade. Um livro digital comprado legalmente não pode ser revendido, emprestado, compartilhado. Podemos fazer isso apenas ‘pirateando’ o livro digital. O que é diferente, porém, em tudo que é independente no digital). Um livro pode ser revendido, pode ganhar valor, com o passar dos anos.
E pensando de forma subjetiva, um livro pode ter marcas das nossas vivências: impressões digitais, manchas, orelhas, riscos, anotações, dedicatórias. Ele pode nos trazer memórias. Ele pode ser autografado.
Fazer um livro impresso é também mais barato, acredite. O que é caro no livro impresso não é a impressão, mas o que há de humano no processo: revisão, edição, ilustrações, projeto gráfico. E isso deverá continuar no livro digital – deveria continuar, pelo menos. Não sei se vai. Sinto, muitas vezes, que poucas pessoas se importam com essas partes de um livro.
Os entusiastas do livro digital, em geral grandes corporações como a Amazon, querem que o livro entre na roda do jogo capitalista. Querem nos obrigar, com vários discursos estúpidos como o preço (que não é menor) ou como a praticidade (que não é maior), a comprarmos, a cada dois anos, um novo leitor eletrônico e a recomprar, centenas de vezes durante nossas vidas, os mesmos títulos que, de forma impressa, teríamos que comprar uma única vez. É isso o que acontece com a música, por exemplo, e que nunca aconteceu com o livro. Os suportes vão mudando e somos obrigados constantemente a renovar nossas coleções.
Existem outros argumentos ainda, mas recomendo para uma compreensão maior sobre o assunto o texto “O futuro do livro impresso e das editoras”, do professor e editor Plínio Martins Filho.
Agora, se entendermos o livro digital como maneira de disseminação independente do conhecimento, como forma de compartilhamento de informações, cultura, textos, literatura, então eu acho que ele vem para somar. A Diversos Afins, e centenas de novas revistas, por exemplo, são digitais. Tenho lido muitos livros digitais, mas a maneira como essas publicações são feitas vêm para renovar a antilógica capitalista do livro que mencionei. E isso é incrível.
Eduardo Lacerda / Foto: arquivo pessoal
DA – Certa feita, o poeta Manoel de Barros afirmou que a gente escreve para se descobrir e, lembrando o dito de alguém, ressaltou que nossas maiores verdades são inventadas. O que acha disso? Escrever seria também um truque para o existir?
EDUARDO LACERDA – Gullar também diz que “a arte existe porque a vida não basta”. Mas discordo, para mim a vida só existe porque a própria vida não basta.
E, como já disse, escrevo muito pouco. Então não posso dizer que isto, que escrever, é o meu truque para existir. Realizar coisas é o meu truque para existir. Mas eu não estou dizendo que são coisas importantes, são importantes para mim. Eu gosto muito de falar com poesia, então isso de realizar coisas, de dizer que eu realizo para existir, posso expressar com esse poema do Leminski: “das coisas / que eu fiz a metro / todos saberão / quantos quilômetros / são / / aquelas / em centímetros / sentimentos mínimos / ímpetos infinitos / não?”. Acho que é isso. Eu tenho ímpetos infinitos, mas são tão importantes. E acredito que se há um truque para existir, ele está nisso. Mas está também, concordo, nas verdades inventadas. Toda realização é também uma verdade inventada. Gosto de pensar, qual Itamar, “Que tal o impossível?”. Mas o impossível pode ser mínimo, pode ser só meu. É isso.
DA – A poesia está a serviço de quê?
EDUARDO LACERDA – Vou citar o Leminski novamente: “A poesia é o inutensílio. A única razão de ser da poesia é que ela faz parte daquelas coisas inúteis da vida que não precisam de justificativa. Porque elas são a própria razão de ser da vida. Querer que a poesia tenha um porquê, querer que a poesia esteja a serviço de alguma coisa é a mesma coisa que querer que o orgasmo tenha um porquê, que a amizade e o afeto tenham um porquê. A poesia faz parte daquelas coisas que não precisam de um porquê”. Mas estou citando para discordar um pouco, só um pouco. A poesia realmente não está a serviço – ela não é máquina – de nada e de ninguém, ela não existe sem os poetas, sem os leitores, e não existe mesmo sem os críticos. E todos estes estão a serviço de algo. Veja, estar a serviço não significa que estamos servis, que estamos escravos, que estamos qualquer coisa que nos desumanize na relação de um trabalho. Mas escrever, mas editar, mas criticar… mas ler, afinal, é um trabalho. É uma forma de transformar a realidade, de transformar as percepções.
Poesia serve para transformar a minha percepção. Ela serve, para mim, para transformar a realidade. Ela é útil.
DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?
EDUARDO LACERDA – Vamos brincar com uma pergunta anterior? A pós-modernidade é uma verdade inventada. É apenas uma necessidade, e até muito carregada de romantismo, de se delinear percepções sobre a realidade histórica que vivemos, mas todas essas tentativas são bem falhas ainda. Essa construção, e essa percepção, da nossa condição atual, não estão bem claras. Não estão para mim. E o que eu não endosso no que chamam de pós-modernidade é o que eu não endossaria nos entendimentos de realidades anteriores: a exploração, a injustiça, a desumanização, a falta de perspectiva para que a nossa vida possa ser mais do que o trabalho e as obrigações. Isso eu não posso endossar.
Por trás dos percursos de uma obra, abrigam-se motivações das mais diversas. Definitivamente, entendê-las não é a via mais importante a se seguir. Sentir parece ser o termo mais apropriado. Daí, a necessidade de converter os mecanismos da percepção em ferramentas possíveis a um mergulho para dentro de nós mesmos. Afinal, tudo principia nas paisagens que, embora episodicamente relutemos em reconhecer, são cada vez mais redescobertas daquilo que tornamos a visitar, quiçá uma fonte inalienável da existência, alimentada pelas travessias reais ou vividas em sonho. Onde a distinção entre criador e criatura? Quão tênue pode ser a linha que perpassa projeções e concretudes? Mais ainda, como negar a noção de unidade que assoma nossas trajetórias?
Estas e outras tantas indagações estão postas no caminho que compartilhamos com nossos iguais. E ao alçar voo por sobre as humanas idades, somos companheiros de sopro vital de um alguém como o escritor Vicente Franz Cecim. Nascido nas paragens amazônicas, mais precisamente em Belém, no Pará, Vicente tem na mítica e emblemática Andara a pedra fundamental de seu caminhar com as palavras. Com a habilidade de quem faz do olhar sensível sobre o existir um precioso aliado, o autor constrói uma obra cujo apelo filosófico é virtude das mais caras. Do mesmo modo em que o ambiente tido em Andara sugere vias especialmente oníricas, pautadas numa aproximação com a literatura fantástica, também estamos diante da manifestação cotidiana, e nada banal, do real entre nós, algo profundamente transmutado em poesia.
E foi com esta habilidade de nos apresentar trajetos movidos por uma perspectiva de amplitude do ser que Vicente ergueu sua obra. Ao pensarmos no conjunto de suas escrituras, deparamo-nos com o que o autor denomina de livros visíveis e invisíveis. Seu trilhar abarca, dentre outros, feitos como Viagem a Andara oO livro invisível, K O escuro da semente (Ver o Verso, Portugal, 2005), Ó Serdespanto (Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 2006) e oÓ: Desnutrir a pedra (Tessitura, Minas Gerais, 2008), além dos e-books Desnutrir a pedra (Tertúlia de eBooks, 2012) e Asa de murmúrios (Tertúlia de eBooks, 2012). Como cineasta, é criador dos filmes KinemAndara. No diálogo que agora segue, Vicente Franz Cecim fala um pouco sobre as perspectivas criadas a partir de Andara e de como a simbologia dessa Floresta Sagrada de Palavras está inserida em nós mais do que pensamos. A entrevista, feita por e-mail, possibilitou também o explicitar de todo um singular modo de expressão do escritor no que se refere à grafia, algo que potencializa saberes e sabores inerentes a sua jornada.
Vicente Franz Cecim / Foto: Bruno Cecim
DA – Andara, ambiente metafórico da vida e que perpassa sua obra, é desejo de reinvenção de nossas existências?
VICENTE FRANZ CECIM – Sim. É a nossa Existência que através de Mim inventa Andara, para ser inventada por Andara. Isso é recíproco. Mas já perdi de vista, agora – Andara começou a se manifestar em 1979 e estamos em 2013 – qual das duas Faces é a do Espelho e qual a que está diante dEle. Ah, não percebo Andara como uma metáfora: percebo/isto é: recebo Andara como o Real. É a nossa existência que entendo como a metáfora de uma realidade que deseja o Real, ou Mais Real, que Andara busca e busca e busca.
DA – E o que dizer das linhas que derivam destes signos andarianos? Serão elas uma ode à redenção do humano?
VICENTE FRANZ CECIM – Ah, a Redenção do Humano. Isso é uma pergunta que abala todas as certezas, primeiro, para só depois pretender alguma resposta. A Redenção do Humano? De alguma forma, sim, Andara busca isso. Mas, às vezes, com muitas dúvidas que se ampliam em mais dúvidas sobre como, e por quais vias? É um labirinto de dúvidas que eu preciso percorrer, por onde passam, se entretecendo, a literatura e o humano. Antes de mais nada, Andara busca a redenção de si mesma – como uma Outra realidade: feita do tecido verbal e do tecido existencial dos seres e coisas que faz emergir através das Palavras. Quando parece, aqui e ali, tocar em algo, digamos, como que uma Graça, possivelmente redentor – então, dá um segundo passo: a partir desse ponto consistente quando achado, tenta avançar para fora das palavras e passar a caminhar já através do próprio humano. Não sei o que é mais difícil, se esse passo verbal ou o segundo, que vem depois dele, já em pleno humano. Porque, vê só: assim como Andara é verbal e não-verbal, existe e não existe – pois é um livro nãoescrito de onde brotam os livros escritos de Andara – também o homem e o mundo são existentes e nãoexistentes. E é justamente por isso – porque Andara e a Vida, a Literatura e o Homem são coisas tecidas de ser e nãoser – que, quem sabe, esteja de alguma forma autorizada a buscar redenções. Mas é possível se redimir de um sonho? E eu posso me redimir do próprio Sonho que, humano, sou?
DA –Diria que a memória presente em sua obra corre paralela ao que se vive em nosso mundo supostamente real?
VICENTE FRANZ CECIM – Não, não se trata de um mundo supostamente real – mas de um mundo real como um sonho. Nesse sentido, Andara quis existir para nos lembrar disso, para evocar, permanentemente, essa Memória, este Saber: Mundo – tão real quanto um sonho, logo tão liberto de si mesmo como uma irRealidade da qual não se pode escapar.
Vicente Franz Cecim / Foto: Bruno Cecim
DA – Desde que tudo começou em A asa e a serpente, passando por K O escuro da semente e chegando a oÓ: Desnutrir a pedra, a busca pelo entendimento do Uno, tão apregoada no filósofo Plotino, atravessa intensamente seus caminhos de criador?
VICENTE FRANZ CECIM – Sobre isso só posso falar com as palavras que já disse outras vezes e que em cada Mil e Um Homens todos fingirão não entender, refugiados na Noite Espessa em que, no Medo ou Astúcia da espécie, se ocultam, o que no fundo todos já sabem. Sigamos sem muitas esperanças, então, a resposta: – O homem é coisa que vive para dentro e para fora de Si. Para fora, ele é o Ente: o Espanto domado pela Civilização. Para dentro, ele É o Ser: o Puro Espanto de Ser, intocável. A Viagem a Andara caminha assim: desperta para essa vida em Ente e combatendo a Civilização como alienação de sermos, e se sonhando em miragens de sermos que nos libertem para Sermos plenamente, o que já somos, mas estamos encarcerados, vivendo como os Humilhados & Ofendidos de Dostoievski, mas em escala cósmica. E quer levar para além desse homem submetido – que se deixa submeter ou é submetido à força e por promessas políticas ilusórias das Forças Sociais Malignas, malinas como dizem as Crianças. Em Andara se dá a Alquimia Verbal da transformação do Humano em Umanoh, lançando para trás da palavra esse H inútil, vazio, aspirado para liberar o Um, o Uno: a abertura para o Ser. Mas aqueles que impelidos pelas Astúcias das Forças Sociais Malinas a viverem somente para fora a vida como Ente continuarão avançando na única direção que conhecem e lhes é consentida no Ocidente, onde se lê da esquerda para a direta: do calcanhar para a ponta dos dedos – e reencontrarão o H no fim da palavra. Que pena. Isso me entristece. Porque caminhar através da irRealidade, despertante, de Andara me mostrou que a direção oposta nos torna levar ao nosso Centro Real. E esse centro se atinge indo na direção inversa: da ponta dos dedos para o calcanhar, em demanda de um Real Total que nos transfigure. Pois o homem é, essencialmente, coisa que caminha Por Dentro. Se quiserem: Da direita para a esquerda. Liberando o Um de Tudo em si. – A Descoberta Fulgurante de Andara em sua Via Imaginal é a Irrealidade da Vida como manifestação da Pura Irrealidade em Si – ou semSi – do que os homens intuem, advinham ou criam ou recebem como o que chamam > Deus. Mas isso não é coisa para temer: gerou em Mim a Imensa Alegria. Porque significa, se entendido em um Clarão: libertação, significando: – Liberdade.
DA – A perspectiva de escrever invisivelmente nas páginas do livro da vida, abraçada a essa libertação a que você se refere, é uma total vontade de transcendência?
VICENTE FRANZ CECIM – Algo, ou eu mesmo, devo ter me feito essa pergunta no instante Clarão em que nasci – saltei aqui para fora, ou Dentro, como mais um ser de espanto. E a pergunta deve ter vindo me acompanhando até o dia em que, já aos 33 anos, escrevi a primeira página de A asa e a serpente, o primeiro livro de Viagem a Andara oO livro invisível. Até agora, + quase 34 anos depois, nada mudou. A primeira página com a resposta foi esta:
Tu escreves um livro com tinta invisível. Por que fazes isso?
Nós somos homens invisíveis Depois de nascidos, visíveis. Entre o início visível e o invisível final, nós somos os homens
visíveis. Aproveitemos para ver-nos
E então ir escrevendo outros livros, nestes jardins, todas essas asas, para que um livro vá se fazendo. Mas não em si. Dele não se verá nem sombra das palavras no papel. Viagem a Andara. O não-livro. Não existe, não existe Literatura fantasma. Não foi escrito. Enquanto texto, tudo o que teremos dele é um título
Mas, Fabrício, há uma outra pergunta implicada nessa, e que não me fizeste – mas como eu a fiz a Mim, então te passo a página seguinte da abertura de A asa e a serpente, após a pergunta sobre por que escrever um livro invisível:
E a pergunta seguinte é: E o que são livros, os livros que se escreve Livros de Andara. Livros-miragens. Pois uma vez escrita, da vida só resta a alucinação literária
Situação dos livros de Andara: condenados à vi¬sibilidade para que Viagem a Andara, o livro invisível possa existir como pura ilusão.
Andara, a viagem ela mesma, nunca será escrita diretamente.
E ela está começando assim
DA – Chama atenção a presença de uma grafia toda própria quando menciona seus escritos, percursos em Andara. Nesse sentido, vislumbras uma espécie de ressignificação consciente da palavra?
VICENTE FRANZ CECIM – Bem, isso é mais simples do que parece. Quero dizer: é Simples como as coisas simples. Mas passa por estágios. O primeiro, essencial, é: um criador de literatura, de qualquer arte, ou é idêntico a sua impressão digital, único, ou é apenas um artesão. Esse é o estágio do Ser. O segundo é o estágio da Linguagem: a Vida toda é uma Linguagem que nos fala e se fala em nós próprios – todo esse Cosmos visível, um Livro – mas cada coisa, de cada espécie, fala a sua linguagem – mas aqui se dá algo curioso: para falar a partir de si próprio, e falar para todos, é preciso que cada um, dentro de sua espécie, fale uma linguagem tão sua quanto sua própria existência não pode ser a de outro. Aquele que fala a linguagem de todos certamente não fala para todos porque não fala solitariamente. Um terceiro estágio é um exemplo disso: a própria linguagem de Andara: senti que para falar como só a mim seja dado falar – e poder falar para todos – os tempos padronizados do verbo não eram suficientes: passado, presente, futuro – e precisei de um tempo-sem-tempo, que chamei de Tempo da Hipótese – esse é o tempo do Verbo em Andara, o tempo do fosse, seja, estaria – o tempo do talvez, do quem sabe, que acabou se tornando o tempo do Fosse Uma Vez. E de onde veio essa minha necessidade? Da descoberta, evidente, de que o tempo mais profundamente falso na literatura é o tempo do É – na Literatura nada é – por isso mesmo a Literatura pode ser tudo: ela é o menos real para ser o mais real. Entre o percebível Real e o concebível Imaginário, aí se manifesta a Literatura em sua Verdade. Além disso, devo acrescentar que, nesse Tempo da Hipótese, Andara foi me revelando a diferença entre palavras que se referem a coisas passageiras e palavras que dizem de coisas Permanentes: são as coisas como Entes, entidades, diferentes das coisas como coisas. Basta dar aqui um exemplo para ser entendido, acho. Quando em Andara escrevo: a noite, falo do fenômeno que é a noite. Quando em Andara escrevo: a Noite – surge o Ente que é a Noite origem e significado de todas as noites. Assim também: o homem/o Homem, uma árvore/aquela Árvore, a voz/a Voz – podendo às vezes se dar transmutações instantâneas, de uma mesma coisa, quando percebo numa cintilação, nela, sua dimensão de entidade, como em: o vento: o Vento. Mas os livros visíveis de Andara, os que escrevo e vão brotando de Viagem a Andara oO livro invisível, que não escrevo, é que dizem em si mesmo tudo o que eu apenas esbocei dizer.
Vicente Franz Cecim / Fotoaquarela: Bruno Cecim
DA – Em sua trajetória, há também a presença de uma íntima relação com o cinema, sobretudo nos filmes produzidos ao longo dos anos. Que reflexão você faz desses percursos com a imagem? A vontade de produzir permanece viva?
VICENTE FRANZ CECIM – Uma vez conversei com o cineasta Carlos Diegues aqui na Amazônia, conversa longa, de amigos. E apontei uma árvore e disse a ele: – O que eu queria mesmo era trazer aquela árvore exatamente como ela é, viva, para dentro dos meus livros. E ele me respondeu: – Pois eu queria era poder trazer a árvore que tu inventas com palavras para dentro dos meus filmes. A resposta essencial a tua pergunta sobre por que faço, também, os filmes KinemAndara, Fabrício, está toda nesse diálogo. Tentemos entender isso que nos dissemos: são duas impotências: na Literatura, posso criar a árvore que eu quiser – e em Andara as árvores falam, caminham, contam histórias para os homens, sobem até as estrelas – mas não posso ter a árvore viva, no Cinema, posso ter a árvore como ela se mostra viva, mas ela, para se manter a árvore viva que percebemos, mesmo só como imagem, não contará histórias, caminhará, subirá até as estrelas. Por muitos motivos, mas esse é o principal – escrevo e filmo.
DA – Houve um período em que você encontrou ambiente mais favorável para publicação em Portugal, tanto que alguns de seus livros foram editados por lá. Naqueles tempos, você enfrentou, de fato, dificuldades para publicar no Brasil? Como estão as coisas agora? Um novo livro já estaria em curso aqui?
VICENTE FRANZ CECIM – Melhor, agora, assumir o tom de uma crônica, áspera e um tanto melancólica, para descrever esses já quase 34 anos de resistências, desistências e persistência de Andara, desde deu seu primeiro passo em 1979. Os principais livros visíveis de Andara saíram primeiro no Brasil, pela Iluminuras – Viagem a Andara, em 1988, reunindo os 7 primeiros livros, que recebeu o Grande Prêmio da Crítica da Apca – Associação Paulista de Críticos de Arte, antes dado apenas a Cora Coralina, Mário Quintana, Hilda Hilst e, depois de mim, a Manoel de Barros, porque só é atribuído se houver unanimidade dos críticos votantes – e Silencioso como o Paraíso, em 1994, reunindo os 4 seguintes, que Leo Gilson Ribeiro considerou ‘um dos mais perfeitos livros publicados no Brasil nos últimos dez anos’ e muitos outros elogiaram tanto quanto o primeiro volume. Devo revelar isso para que fique muito claro: o impasse do chamado mercado editorial brasileiro não é criado por questões de qualidade literária – é expressamente comercial. Então, após esses dois volumes, foi o exílio nacional de Andara. Não gosto de procurar editoras com meus originais e desisti de vez ao ouvir do meu próprio editor, um amigo e leitor lúcido, Samuel Leon, que ‘os leitores brasileiros ainda não estão preparados para Andara’, quando apresentei à editora Ó Serdespanto, em 1988, reunindo mais quatro novos livros de Viagem a Andara oO livro invisível. Só em 2000 o livro saiu em Portugal, pela Íman, e mais de dez críticos portugueses, consultados pelo jornal Público, o apontaram como o segundo melhor lançamento do ano – o que devo, pelo mesmo motivo acima – questões de qualidade literária – também revelar aqui. Mas nem isso foi suficiente para abalar a indiferença do exílio editorial brasileiro. Um novo inédito de Andara saiu em Portugal em 2005, pela Ver o Verso: K O escuro da semente. Mais de dez anos após a última publicação de um livro meu no Brasil. Com dois volumes publicados no Brasil e dois em Portugal, comecei a me sentir um escritor tão brasileiro quanto Guimarães Rosa e tão português quanto Fernando Pessoa. Seria cômico, se não fosse doloroso – mas nem uma coisa nem outra, porque sempre me senti um escritor da Amazônia, da Floresta Sagrada – meu essencial país. Então, num espasmo que simulou uma redenção, enfim Ó Serdespanto saiu aqui pela Bertrand Brasil, em 2006. Mas O escuro da semente – e embora a editora tenha assinado comigo nessa época dois contratos de edição, dele e de uma reedição de Silencioso como o Paraíso – jamais foi editado – nem foi feita a reedição – e ninguém conhece O escuro no Brasil até hoje. Guardo os contratos não cumpridos como fantasmas num sótão, assombrações do Mercado Editorial. Enfim, continuei gerando novos livros de Andara. Para o que? Para nada? – Ficar jogando pedras no escuro? Enfim, o último deles saiu aqui pela Tessituras, de Minas Gerais, em 2008: oÓ: Desnutrir a pedra. Quanto ao exílio de Andara – continua. E há cinco anos não é impresso nenhum dos novos livros visíveis.
DA – E a alternativa dos e-books, o que acha do livro virtual?
VICENTE FRANZ CECIM – O livro virtual – que em breve deverá ser também devorado pelo sempre faminto Mercado Editorial – é uma radicalização do Exílio de Andara, que agora estou assumindo: editei em e-book, com algumas mutações, Desnutrir a pedra e o mais novo visível de Andara: Asa de murmúrios, pela Tertúlia de E-books – mas atenção: é uma editora de Portugal. Quem sabe, se não há um Lugar físico para os livros visíveis de Andara, não seja mesmo o livro virtual o nãoLugar de Viagem a Andara oO livro invisível?
DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?
VICENTE FRANZ CECIM – Essas divisões do chamado tempo histórico, ah – não me interessam – apenas como curiosos arquivamentos, são um Museu de Miragens dos passos passados da Humanidade que quer nos induzir ao sentimento, coletivo, de que estamos em evolução e que tudo vai bem – sua função, implícita e consoladora, é prometer que os chamados tempos melhores virão, sempre estarão vindo. E que tudo, no fundo, apesar das aparências, está bem. Elias Canetti escreveu um livro impressionante, Massa e Poder, onde você pode ver como em todos as épocas os homens avançaram brutalmente e seus passos têm sido à deriva e cruéis – como quem avança através das Trevas. Eu vivo no Tempo da Natureza. Porque viagem do homem no Cosmos é uma só, Una, sem divisões em pré e pós. Através da História o homem avança e recua por labirintos de caminhos que em Andara chamo de: o Vários. Mas é no Um que passa, em nós e na Vida, o Caminho – assim, com maiúscula – em sua dimensão de Entidade, diferente desses caminhos nas névoas que também os seres neblina de Andara percorrem em Sua busca. Eu reduzi tudo a uma palavra-imagem: oO – e eu pequeno – eu – e o Eu grande – o semNome. Eu vivo é no O Um Vários.
DA – Em que medida o caminhar em Andara transformou o homem Vicente Franz Cecim?
VICENTE FRANZ CECIM – Na medida em que eu quase nem sou mais Vicente Franz Cecim. Andara tem uma meta: – Atravessar o que nos nega, chegar ao Sim. Atravessando Andara, fui aos poucos me tornando Sonhos de Escritura de mim mesmo. E, a cada novo passo na Viagem a Andara oO livro invisível, vou penetrando mais e mais, no Menos, gosto cada vez mais das páginas em branco, sem nem Sombras de palavras no papel, região dos Silêncios. É a busca – do que me busca? oO. Enfim, sou mais um serneblina de Andara: nascido, como todos, um ser de espanto, meu sonho é ser o próprio Serdespanto. Quando me vejo de costas num espelho, sinto melancolia. Nostalgia da promessa de Asas não cumprida nas omoplatas humanas. aVe
***
Vozes de Andara I – Muro branco das idades
***
K O escuro da semente / Um fragmento
……(…)
……E seria nessa noite e sob aquele céu de asas negras brancas
que ele, Oniro, fosse se levantando da terra onde caído,
……e então diria:
……– Vê, Orino, ……isso: Isso, que eu agora entendi: essas asas, negras, brancas, ……seus Círculos brancos negros ……não existem. Eles são só uma invenção desse Vicente que nos
escreve, ……só que elas ele escrevendo com asas de palavras, ……e nós ainda inventando com palavras de carne, ……ah as pesadas as humanas, e nelas uns ossos vazios por onde
ele sopra os seus sonhos ……– Não existem, mas existem. Como te dizer isso? ……Escuta. ……E vem comigo
……– É que esse Vicente, ……vindo de um vale onde nasceu, é lá embaixo da vida, ……o que ele quer o que mais quer é ascender, alado, e, leve,
abandonar o Vários por maior Amizade ao Um. ……Pois já não houve um outro, um tal K que ……Diz-se ……antes dele já ascendeu deixando aqui embaixo o Alfabeto
Humano? ……Ou essa é só mais uma das suas histórias ……Esses livros que ele escreve ……Então, todos os seus livros sendo atravessados por asas, ……para ele um lugar não lugar Andara e todos os lugares sendo
para ele uma grande Asa, com a qual ele sonhando isso do Visível ao
Invisível, ……ele faz essa viagem, e já bem longa. ……Isso de andar sem ir ficando indo fosse ……Pois em Andara, tudo está no Vale, embaixo, ……e quer ir para a Montanha, lá no alto. ……Tudo
……– Vê, Orino, ……sendo fantasmas de Andara, ……nessa Neblina ……nós também podendo viajar por Andara inteira, indo através
dos livros que esse Vicente escreve, ……como estamos indo agora através das páginas deste livro que
ele escreve,
……e estão, vem comigo, façamos isso
……– Mas tu, não, dizendo Oniro ao omem de areia. Não vá se
desfazer nos grãos das palavras desse Vicente o que ainda resta do
teu Grão de Ser
……Vem, ……e vê Orino. ……Como parecem se elevar tão altos os seus livros ……À Sombra deles, ah suas sombras assim tão longas e íntimas
das sombras longe lá do horizonte ……as nossas sombrazinhas de Neblina humana
……A asa e a serpente. ……Lês, o título? ……Dos livros assim visíveis de Andara ……este é o primeiro. E vês o que eu te disse? A serpente: o Vale,
a asa: a Montanha. E tudo terminando por uma chuva de asas e
serpentes sobre a terra, ……sobre os homens ……Vem, vê. Entremos também neste ……É Os animais da terra. Aqui, repara, ……aparentemente tudo se dá só no Vale, mas não é o que
acontece, porque o sonho da Montanha vês ele ……nos vôos de Caminá? A mulher alada ……Este outro é Os jardins e a noite. O Vale está nos olhos que
antes um homem tinha para não ver nada, nada sob o sol, e a
Montanha nasce da Noite em que uma ave, a imensa, ……o Curau, ……desce do céu e tira os olhos desse homem ……e ele então começa a ver, é bem longe, e também dentro de si,
a vida ……Este é Terra da sombra e do não. ……Entremos ……Nele, uma criança atravessa o Vale: a vida, levada por dois
outros fantasmas como nós, um querendo ser leve, o outro, pesando
sobre a terra, ……e no final surgem umas borboletas, vês: elas, lá? Umas
cintilações no ar, que voando diante da criança a levam até a
Montanha, que é um montinho de nada de terra onde um morto
dorme e não dorme pois não sabemos se ele ainda está lá ou já se
ergueu de si ……Este é Diante de ti só verás o Atlântico. ……Nele, o Vale será submerso