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75ª Leva - 01/2013 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

A fotografia tem o condão de vislumbrar perspectivas que se agigantam cada vez que a subjetividade governa seus signos. O modo como um fotógrafo observa a vida e seus complexos fenômenos é especial quando se pode olhar tudo como se fosse a primeira vez. O real, atravessado pelos recursos advindos da alma humana, não é mais o mesmo. Muda sempre, como se estivéssemos mirando um caudaloso e intrépido rio. Assim, flagrar os instantes que nos agarram incessantemente e despertam nossa atenção passa a ser uma missão deveras intuitiva e sensível, mesmo considerando o necessário domínio técnico.

O que será que norteia o olhar frente ao universo de pontos de vista que está diante de nós? Talvez um alguém como a paulistana Mercedes Lorenzo saiba nos responder com a propriedade de quem percebe caminhos singulares por entre os dias. Dona de uma visão que associa poesia à imagem, Mercedes penetra nas sutilezas e retira delas a matéria que dá sentido ao seu ofício. Mesmo no registro da materialidade das coisas e seres, a fotógrafa consegue um resultado que vai além de uma noção concreta e acabada de tudo. Nela, um vigor abstrato e intimista é capaz de redimensionar o foco da criação, fazendo com que um novo impulso seja conferido à existência.

Formada em Desenho Publicitário e Fotografia pela Escola Panamericana de Artes (EPA – SP), Mercedes direciona suas ações para uma reflexão mais humanista das coisas, fato que a estimula a desenvolver novos trabalhos. Na entrevista que agora segue, a artista fala, dentre outros temas, dos motores de sua criação, da especial relação com a palavra e faz algumas reflexões sobre o papel da arte na contemporaneidade.

 

Mercedes Lorenzo / Foto: Rubens Guilherme Pesenti

 

DA –  Não há como passar por suas fotografias sem observar a forma como os espaços são captados. Disso, deriva uma escrita da luz que permeia o ambiente das intervenções humanas, de como divisamos ser e não-ser. Visivelmente habitados ou não, muitos de seus lugares possuem a marca vigorosa dos vestígios. Como lidar com isso na criação da imagem?

MERCEDES LORENZO – Há uma frase de Anais Nin, em meu blog, que resume fantasticamente esta questão: “não vemos as coisas como são, vemos as coisas como somos”. Isso pra mim implica que a criação fotográfica é uma conversa íntima entre o que é pré-existente no ambiente com o que necessita de via de expressão dentro da mente do fotógrafo. A partir desse diálogo mudo, das concordâncias e dissonâncias entre eles, vai se estabelecendo um ponto fino de equilíbrio e toda essa dinâmica acontece às vezes em questão de segundos. Mas sempre existe essa conversa íntima e ela determina o que será ignorado e o que será ‘focado’, usando metáforas da própria fotografia. É algo no qual não costumo prestar atenção consciente em relação ao processo em si. Por isso, talvez a dificuldade em te responder objetivamente. É intuitivo e orgânico para mim.

 

DA – Falando em caráter orgânico da fotografia, o que mais chama atenção é o menor nível de interferência possível por parte de quem faz os registros. Acredita que a poesia da imagem se inscreve no pacto silencioso entre o fotógrafo e o universo das coisas?

MERCEDES LORENZO – Sim, sua observação é pertinente. De fato, nos trabalhos fotográficos autorais/conceituais eu tento o mínimo de interferência possível, algo como uma busca da “legitimidade” da cena, embora isso seja ilusório: o olhar, o enquadramento, o foco ou qualquer outro elemento de escolha aleatória no ato de captar a imagem já é uma interferência, e ela se prolonga depois no tratamento da imagem em pós-produção. Não sou o tipo de fotógrafa “purista” nesse sentido, estou interessada justamente em transmitir uma linguagem poética. E quando penso em poesia, não penso necessariamente em coisas belas ou benfazejas. Esse pacto entre o meu olhar e o universo das coisas, como você diz, é uma espécie de transgressão ou licença poética. A não-interferência é quase que honrar a veracidade de algo que só eu estou vendo num determinado instante.

DA – Seus caminhos iniciais na arte apontam para um envolvimento com os desenhos. Você traz algum entendimento dessa fase para o olhar de fotógrafa? Diria que houve uma espécie de transição?

MERCEDES LORENZO – Desde pequena eu desenhava. Num determinado momento, na escola, percebi que desenhava um pouco melhor do que os colegas e então pratiquei com mais determinação. A princípio, copiando imagens que gostava e depois criando umas poucas. Mais tarde, nos anos 80, fiz o curso de Desenho Publicitário, especificamente pensando em aplicar aquele “dom” a algo que pudesse também me satisfazer profissionalmente. Trabalhei por alguns anos com desenho-animado comercial até me mudar de São Paulo para Santa Catarina, onde residi por 25 anos.

Nesse intervalo de tempo, tive outras atividades, trabalhei e estudei inúmeras coisas diferentes e me envolvi mais e mais com a linguagem, a palavra. Então, a transição não foi direta, embora eu tenha hoje consciência de que tendo a pensar sempre em termos visuais, quando penso em algo pela primeira vez. Isso é natural em mim, e provavelmente tem tudo a ver com a escolha da fotografia e o fato de me sentir tão à vontade nessa atividade.

Acredito, sim, que a facilidade do “entendimento espacial” das coisas, proporcionado pelo desenho, favoreça de algum modo o exercício da fotografia, bem como a dinâmica do mundo da publicidade seja um treinamento e tanto para determinados desafios da fotografia documental.

 

DA – Há também a Mercedes que se deixa envolver pelos enlaces poéticos, pela feitura de versos que sabem a delicados percursos existenciais. Em que medida a convergência entre palavra e imagem pontua sua trajetória?

MERCEDES LORENZO – O meu envolvimento com a poesia começou mesmo antes da fotografia profissional, e foi em parte incentivado por amigos que leram alguns escritos meus. Acredito que a palavra tomou destaque em minha vida também influenciada pelos meus estudos em Neurolinguística por volta dos anos 90. A poesia, a meu ver, é um imenso exercício de síntese desse mistério que chamamos Vida, com o pior e o melhor que ela possui. Essa síntese se vale da ferramenta “palavra”, assim como a fotografia é também uma outra forma de síntese que se vale da imagem. São signos que na minha vivência pessoal estão intimamente ligados e creio até que se confundem, na medida em que meus escritos carregam em si uma forte dose visual, e as fotos carregam em si uma dose igualmente grande de simbologia poética. De todo modo, não me considero poeta, apenas arrisco expressões escritas aqui e ali como parte da experiência de pensar o mundo.

Mercedes Lorenzo / Foto: Lais Simenikim

 

DA – Na sua opinião, qual o grande desafio da criação fotográfica frente às “facilidades” do mundo digital que nos atravessa? Não nos iludimos com uma revolução muito mais tecnológica do que inventiva?

MERCEDES LORENZO – Como disse anteriormente, não sou “purista” no sentido de evitar a manipulação digital da imagem quando se trata de buscar uma linguagem a ser transmitida e, claro, dependendo do contexto e finalidade do trabalho em questão. Fotojornalismo é diferente de fotografia conceitual. Mas, ao contrário do que muitos acreditam, a manipulação da imagem fotográfica já existia desde os primórdios da fotografia analógica, e muitos dos efeitos digitais hoje propagados têm sua origem justamente nos laboratórios químicos e em grandes nomes como o de Man Ray, para citar um. Isso não invalida de modo algum o trabalho conceitual que é isento de manipulação, acho que há lugar para todos os tipos de expressão individual. A qualidade da ideia final transmitida é o que deveria contar, não propriamente o processo em si, mesmo sendo ele uma parte lúdica e apaixonante do nosso trabalho. Cada fotógrafo tem habilidades específicas e preferências pessoais ao usar suas ferramentas disponíveis para chegar aonde quer. É a sua “paleta de pintor”, que apenas começa na câmera. O grande desafio, a meu ver, reside no mesmo lugar de sempre: a originalidade e consistência do trabalho, seja digital ou analógico.

 

DA – Seus registros para a publicidade possuem uma conotação artística deveras importante. Imagina rupturas ali?

MERCEDES LORENZO – Eu penso que a publicidade é um segmento que acompanha de perto todo tipo de inovação e consegue, talvez mais do que nenhum outro, absorver tendências de novas linguagens. Claro que estou falando da publicidade de alto nível. Então, nesse sentido eu acredito que, mais do que ruptura, é uma evolução constante. Meus registros para publicidade se querem sempre consoantes com essa maneira de assinalar uma valorização da inteligência do cliente e do seu público.

 

DA – Quando a arte não passa impune pelas questões de nosso tempo, seu significado ganha corpo especial. E você traz isso à tona na série Lançar Luz à Indiferença. O que lhe é mais caro nesse percurso?

MERCEDES LORENZO – Fico gratificada por você ter feito menção a esse trabalho, ele me é muito caro em vários sentidos. Acredito que a arte pode refletir as questões de seu tempo de forma implícita ou mais explícita, como uma crítica, que é o caso da série Lançar Luz à Indiferença. Minha experimentação com essa explicitude se deu transitando na linha tênue entre crítica e provocação. Toda a série foi produzida por mim com recursos fotográficos e de edição digital de imagens, de forma a chegar perto de um efeito “publicitário” muito mais do que propriamente “artístico”, pois se valeu dessa linguagem para dar ambiência ao questionamento proposto. A importância deste tipo de trabalho no meu percurso é a de me colocar em contato com todas as realidades sociais que me cercam, mas não apenas isso: pensá-las, propor um pensamento crítico e independente sobre elas, uma aproximação a elas por parte dos que ainda não o fizeram. São muitas ambições, eu sei, mas aprendi com a poesia que nós nunca sabemos exatamente onde uma ideia pode florescer e o quão longe ela pode alcançar.

DA – Chama atenção a forma como você aborda a perspectiva do masculino no ensaio Ecce Homo Nudus. A poesia do corpo revela um olhar especial sobre o homem, desanuviando tensões aborrecidas do gênero e propondo outras leituras. Estamos diante de um resgate necessário?

MERCEDES LORENZO – Sim, sem dúvida, eu acredito que estamos diante de um resgate necessário, em muitos sentidos. Apesar de aclamado na mídia e amplamente exibido na publicidade, o que observo é um recrudescimento em termos de moralismo no que se refere ao corpo na sua expressão natural. Esse recrudescimento se reflete inclusive nos espaços da web com uma censura indiscriminada que coloca a pornografia e o mau gosto no mesmo patamar de um Davi de Michelangelo, por exemplo. Também se reflete na reiteração de dogmas medievais travestidos de condutas contemporâneas. Este ensaio está entre os meus favoritos, não somente pelo resultado estético, mas também pelo que ele simboliza e tenta resgatar. Ele vem acompanhado em meu site de um texto introdutório, onde resumo essa visão que vai além do erótico, do comercializável, do corpo idealizado. O corpo aqui se quer parte indissociável do Ser. É incrível que em pleno século XXI ainda não tenhamos irrestritamente difundida a ideia revolucionária do psicanalista Wilhelm Reich, que nos mostrou que a mente humana está “espalhada” por todo o corpo e não reside apenas no cérebro. Esse conceito é a antítese da dicotomia repressora e moralizante, e mesmo sem essa clareza o ser humano o tem intuído ao longo das eras. Mas aí já vamos descambar em Foucault (risos).  Eu quis que fosse um nu masculino porque também nessa especificidade residem tabus, já que o corpo da mulher é muito mais exposto pela mídia em geral. A inspiração final, o start da coisa, veio quando pude obter num sebo (já que se encontra esgotado) o maravilhoso livro da fotógrafa Vania Toledo: “Homens, um ensaio”. Editado em 1980, ele traz várias personalidades masculinas da época (e ainda atuais) em fotos de nu absolutamente naturais, despojadas, e em situações que evocam particularidades de cada um deles. Fiquei me perguntando por que o livro não foi reeditado, pois existem tão poucos ensaios desse tipo no país. Considero esse trabalho transformador e poético num nível muito sutil, e por isso ele me é caro.

DA – Em termos artísticos, acredita que a contemporaneidade é um convite à transgressão?

MERCEDES LORENZO – Em termos artísticos, só entendo como possível a transgressão (risos). Só consigo conceber a criação como algo que transgride em maior ou menor grau o que é vigente. Isso se aplica, a meu ver, desde o começo dos tempos. Mas contemporaneamente acho que o desafio é maior, na medida em que existem já inúmeros referenciais para a arte de outras épocas. Transgredir sendo criativo, hoje em dia, exige ao menos um superficial conhecimento do que já foi feito, e isso não é pouco. As ferramentas que permitem a auto-expressão criativa podem ter sido ampliadas e/ou facilitadas, mas o conteúdo continua dependendo única e exclusivamente do elemento humano. A multiplicidade de nossos dias talvez dificulte exatamente a observação do cerne daquilo que é vigente, para então poder ser transgredido. Por isso a arte hoje, na minha opinião, tem a importância da síntese. Para chegar a essa síntese é preciso pensar – num momento em que a palavra de ordem é consumir.

Mercedes Lorenzo / Foto: Rubens Guilherme Pesenti

DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?

MERCEDES LORENZO – Vou tentar resumir, porque a pergunta é bastante abrangente. Acredito que muitos comportamentos dessa nossa era chamada pós-moderna são mais reativos do que pró-ativos, eles são consequência de um mundo sem garantias e em pleno processo de transformação de valores. Essa transformação não precisa ser negativa em si mesma, mas requer a todo momento a validação ou não de ideias que eram dadas como certas até o século passado. Nem todos têm a predisposição para esse constante questionamento e alguns se sentem sem chão, sem referências, e as buscam onde for mais conveniente segundo suas afinidades. Nesse sentido, o que eu não endosso de forma nenhuma, são todos os tipos de fundamentalismo: seja religioso, ideológico, político, etc. Também não endosso o automatismo consumista como fórmula de escape para o enfrentamento existencial a que todos estamos sujeitos. É uma vã tentativa anestésica num momento em que a humanidade precisa estar disponível e alerta para todo tipo de ideia que possa promover justiça social e a sustentabilidade do meio ambiente a longo prazo. E isso, na minha opinião, precisa ser feito não só urgentemente, mas com alegria, com vistas à felicidade.

DA – Por tudo o que você já viveu com a fotografia, o exercício do olhar implica mais em estranhamento, contemplação ou espanto frente ao existir?

MERCEDES LORENZO – O exercício do olhar… acho que é uma soma dessas coisas que você disse, e talvez mais algumas. Não poderia me restringir a uma delas, mas isso sou eu. O estranhamento é fundamental, me mobiliza, não me deixa acomodar e provoca a criação de novas sinapses o tempo todo. Sem o estranhamento não haveria o aprendizado. Confesso ter uma verdadeira satisfação diante do estranhamento, pois implica sempre que algo é novo para mim. O espanto é mais emocional, e implica mais na construção íntima daquilo que futuramente vai demandar uma expressão externa. A contemplação, sim, faz parte do exercício do olhar, porém ao contrário: para dentro. É ali que eu tento exercer a contemplação, como quem se pergunta “o que é que tem aí para se expressar?” ou “o que é que já assentou o suficiente aí dentro para ter uma possibilidade de síntese e/ou entendimento?“. Isso tudo se mistura, como você disse, frente ao existir. E acho que a arte não deve nunca dar respostas prontas, mas saber fazer as melhores perguntas, como na Cajuína de Caetano: “existirmos, a que será que se destina?”.

 

* Algumas fotografias de Mercedes Lorenzo fazem parte da nossa 72ª Leva.

 


 

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74ª Leva - 12/2012 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

A inquietude talvez seja uma das ferramentas mais indispensáveis a um criador. Seja por um eixo filosófico ou meramente orgânico, estar vivo já pode ser entendido como uma experiência densamente inquiridora. Esse tipo de reflexão pode conduzir-nos também à instigante ideia de que o produto da arte não é um objeto de um mero e reduzido estado de contemplação das coisas. Achar-se aqui, no meio da “civilização” que construímos até hoje, representa muito mais do que um exercício estético de observação. Por mais acomodados que sejamos, acondicionados em bolhas de isolamento pessoal, o fato é que não passamos impunes pelas urgências do tempo.

No campo da literatura, qual seria, então, a melhor forma de representar a avalanche de sensações que presenciamos através dos dias? Buscar respostas não parece algo razoável. Tudo isso também porque escrever implica penetrar nas camadas mais complexas possíveis, muitas delas envoltas em saberes e sabores que só são viáveis graças a um permanente estado de perplexidade deveras útil aos caminhos da criação. O espanto de se estar vivo e pertencer a uma cadeia de elementos pelas quais não temos domínio absoluto é aspecto que povoa as mais distintas intenções quando o assunto é travar o combate das palavras. E não há como percorrer as paisagens humanas sem retirar das andanças um mínimo que seja de estranhamento. É, por exemplo, um pouco da sensação marcante que nos toma de assalto quando lemos André de Leones. Em sua trajetória, esse jovem escritor goiano penetra de modo denso nas estruturas que permeiam a nossa condição de humanos. De posse disso, faz uso de estratégias narrativas que chamam a atenção pelo modo como seres e lugares convergem para um sentimento de constante perturbação. Assim, perceber-se vivo na ótica do autor é não pactuar com uma acostumada e perniciosa “ordem natural” das coisas.

O caminho de lucidez sobre o qual André edifica sua obra demonstra que após atravessar as vias de Hoje está um dia morto (Romance – Record – 2006), Paz na terra entre os monstros (Contos/Novela – Record – 2008), Como desaparecer completamente (Romance – Rocco – 2010) e, mais recentemente, Dentes Negros (Romance – Rocco – 2011), ele parece estar cada vez mais disposto a pôr em xeque os alicerces em que se funda nossa tenra existência.  Nesta entrevista, o autor pontua aspectos decisivos de sua criação, refletindo um pouco sobre nosso tempo e seus ventos eivados de desassossego.

 

André de Leones / Foto: Renato Parada

 

DA – “Dentes Negros”, seu último livro, é, digamos assim, um romance caótico, no qual a sensação do derradeiro instante paira por sobre a sina dos personagens de modo a representar muito mais do que uma mera ideia de finitude. Em meio à paisagem desoladora da narrativa, vestígios parecem ser precioso legado. O que lhe é mais emblemático nessa percepção?

ANDRÉ DE LEONES – Não vejo ‘Dentes negros’ como um “romance caótico”. Em termos estritamente estruturais, por exemplo, talvez seja o livro sobre cuja organização eu mais trabalhei. Tudo nele aponta para a finitude, de uma forma ou de outra. O fato de a narrativa ser tão curta é um indício dessa intenção. Ela é constituída por capítulos pequenos, objetivos, crus, mas que eu não encaro como “vestígios” ou coisa que o valha. Também não gosto do termo “sina”, pois tem a ver com certo fatalismo. Não sou fatalista. Não acredito em “sina” ou “destino”. Não era o “destino” de Hugo voltar à sua terra natal, assim como não era o “destino” de Alexandre encontrar Ana Maria. Escolhas são feitas cotidianamente, não importa em que circunstâncias. Nesse sentido, ‘Dentes negros’ tem tudo a ver com meus livros anteriores. Crio os personagens e os coloco em determinadas situações. A narrativa avança a partir do que eles escolhem fazer (ou não), desde as coisas mais simples (ficar em casa ou sair) até as mais difíceis (continuar vivendo ou não).

 

DA – O livro tem uma construção narrativa cujo encadeamento das ações chama atenção pela disposição das situações. Nesse sentido, há algo marcantemente cinematográfico na obra. Quais caminhos nortearam essa perspectiva criativa?

ANDRÉ DE LEONES – De fato, o romance nasceu de um determinado gênero (ou subgênero) de filmes que me interessam muito. São aqueles passados em mundos desolados por uma qualquer hecatombe, como que depois do fim do mundo, com os sobreviventes tendo de se virar com o que restou da civilização, por entre os escombros. Claro, há livros estupendos que se apropriam desse tipo de coisa, e eles também são muito importantes para mim (cito “A Estrada”, de Cormac McCarthy), mas a minha vontade, ao escrever “Dentes negros”, foi me basear num subgênero cinematográfico do qual ‘Mad Max’, de George Miller, talvez seja o exemplo mais perfeito. Não só pela extrema competência com que foi realizado, pela inteligência visual de seu diretor, mas também pela sua aridez, pelo fato de não fazer concessões na maneira como introduz um mundo ou um pós-mundo em que os estamentos da civilização vieram abaixo. Ao escrever “Dentes negros”, eu me permiti contaminar por esse sentimento de desolação, pela aridez dos cenários e situações, pela sensação de que algo deu muito errado e não há muita coisa que se possa fazer a respeito. Por outro lado, e nisso eu me distingo desse tipo de filme, optei por não embarcar numa narrativa de peripécias. Observe que mesmo a violência, em “Dentes negros”, é anti-climática, não há a construção de um emaranhado de ações que culminem num clímax redentor ou coisa que o valha. Os personagens erram por aí, simplesmente. O retorno de um deles à terra natal é abortado logo de cara, por exemplo. O gesto de outro (ir à procura da prima do morto e lhe entregar uma encomenda) não é heróico, cinematograficamente falando. Eu me fixo nesses gestos menores, que, no fim das contas, são aqueles de que somos capazes, quando somos. Fosse um filme, “Dentes negros” não seria cinema de ação, mas teria a lentidão que percebo, por exemplo, nos filmes de Michelangelo Antonioni (um mestre, aliás, em tomar premissas que renderiam ‘thrillers’ para construir narrativas das mais introspectivas – vide “A Aventura” e “Profissão: Repórter”).

 

DA – O modo como você aborda a questão da alteridade no contexto do livro é um aspecto de interessante reflexão. Tens a sensação de que algo ali é posto à prova?

ANDRÉ DE LEONES – A alteridade sempre foi um tema norteador em tudo o que escrevi. Desde os meus primeiros contos até “Dentes negros”, passando pelo “Dia Morto”, o mais importante sempre foi situar os personagens em determinadas situações; para tanto, é imprescindível um ponto de referência, ou seja, o outro. Nos meus textos, tão ou mais importante do que aquilo que os personagens dizem de si é o que eles dizem uns dos outros e para os outros. O outro, portanto, é uma via para alguma espécie de auto-conhecimento. “Dentes negros” traz, também, um esforço dessa natureza, seja para situar-se num mundo transformado em escombros, seja para seguir adiante, ainda que de forma precária. O outro nos pede que o asseveremos de que ele está ali, continua ali, e em troca faz o mesmo por nós.

 

DA – Observando o que vivemos hoje, sobretudo no que se refere ao terreno das relações, acredita que estamos diante de uma crise de humanidade?

ANDRÉ DE LEONES – A humanidade está onde sempre esteve. Não somos grande coisa, nunca fomos, nunca seremos. Compreendo que muitos precisem acreditar num sentido maior para tudo o que há, até para conseguir suportar uma existência que, na maior parte do tempo, é desoladora. Eu, felizmente, não preciso disso. Nada faz sentido. Escrevo porque é algo que aprecio fazer e porque preciso me ocupar enquanto estiver vivo. Acho que, se as pessoas conseguissem se manter ocupadas assim, sem recorrer a quaisquer transcendências, viveriam melhor, prestariam mais atenção em si, nos outros e no mundo ao redor. Até porque não há mais nada, reitero. Você não passa de uma carcaça arremessada para a morte, isto é, para o vazio. Acostume-se com essa ideia e tente aproveitar a viagem, se possível.

 

DA – Lugares como Silvânia e Goiânia integram de modo recorrente seus escritos. Estas referências refletem em você alguma sensação de pertencimento?

ANDRÉ DE LEONES – Não, pelo contrário. Só me senti em casa em dois lugares até hoje, e um deles foi Jerusalém. Silvânia e Brasília (onde residi por três anos e que adoro) são recorrentes, não Goiânia. Nasci em Goiânia, mas só passei temporadas relativamente curtas e em momentos muito distintos da minha vida na cidade, de tal forma que não a conheço bem. Mas, respondendo à pergunta, Silvânia aparece justamente como terra estrangeira, para não dizer alienígena, em meus escritos. Não há sensação de pertencimento. A angústia surda que move os personagens de “Hoje está um dia morto”, por exemplo, surge justamente de uma extrema sensação de desconforto para com aquele ambiente. Não por acaso, sempre descrevo a cidade como um lugar opressivo, desarvorador. Reitero: Silvânia é onipresente em meus escritos porque fui criado ali e também porque, como escritor, querendo ou não, sempre recorro aos lugares que me marcaram de alguma forma, boa ou ruim. A memória engendra a ficção, no meu caso – o que não significa que os meus livros sejam factualmente autobiográficos, acho bom ressaltar.

 

André de Leones / Foto: Renato Parada

 

DA – Hoje você vive em São Paulo, metrópole que, por mais que pareça colossal e anacrônica, seduz por seus atrativos de toda a ordem. Esse cosmo paulista instaura um novo paradigma em sua escritura?

ANDRÉ DE LEONES – Creio que sim. Os lugares em que estou ou estive são muito importantes para a minha imaginação. Aliás, gostaria de retificar algo: além de Brasília e Jerusalém, também me sinto muito bem em São Paulo. Talvez por se tratar de uma cidade em boa parte constituída por imigrantes como eu e seja, em função disso, muitas cidades numa só (no que isso tem de melhor e pior), ela parece se moldar aos olhos de cada um, de tal maneira que há uma São Paulo, boa ou ruim, ou às vezes boa, às vezes ruim, suportável e/ou insuportável, para cada pessoa que vive nela, dependendo de onde e em que condições se vive. Essa justaposição tresloucada de olhares e vivências constitui, por um lado, a pluralidade tão associada à cidade, mas, por outro, como que isola os que nela habitam em bolhas que mal se comunicam. Somos como sistemas isolados, e é realmente muito fácil (para aludir ao título de meu livro mais paulistano até agora) desaparecer completamente por aqui e deixar de perceber o outro, o diferente, com um mínimo de atenção. Se a pessoa tem interesse e condições de aproveitar o que a cidade oferece, a movimentação cultural, a enorme variedade gastronômica, a colcha de retalhos que a constitui, viver aqui é muito bom. Mas, se a pessoa não tem, pode ser um inferno. O caos urbano e a multiplicidade de personagens que ele engendra são extremamente inspiradores para mim. Não trocaria São Paulo por nenhuma outra cidade brasileira.

 

DA – Seu processo de imersão na criação de um livro compreende algum rigor específico? Entre palavra e imagem, quem normalmente desponta como a centelha inicial?

ANDRÉ DE LEONES – Tenho um processo cheio de manias. A palavra está sempre na origem. O nome de um lugar, de um personagem, uma frase solta, o nome de uma canção. A partir disso, penso numa situação e procuro desenvolvê-la. Se preciso, pesquiso a respeito do lugar onde quero situar a história e outros detalhes que julgar importantes. Ouço música, bastante, porque me ajuda a encontrar o tom, o ritmo que quero imprimir num determinado texto. Pego um caderno e escrevo muito sobre a história que quero contar antes de começar a esboçar a história propriamente dita. As primeiras versões são sempre manuscritas. Depois, digito, imprimo, reviso, volto a digitar, imprimo, reviso, reviso, reescrevo. Escrever, para mim, é reescrever, nunca me canso de dizer isso. E não me canso porque ainda existe a ideia do artista “inspirado” escrevendo um texto assim, de primeira, graças a uma qualquer “febre criativa” ou coisa parecida. Claro, há dias em que o trabalho flui melhor e há dias em que simplesmente não flui. Mas é disso que se trata, sempre: trabalho.

 

DA – Está em curso algum novo projeto literário seu? 

ANDRÉ DE LEONES – Terminei de escrever ‘Terra de casas vazias’, meu novo romance (com lançamento previsto para o primeiro semestre de 2013 pela Rocco), em julho passado. Foram mais de três anos de trabalho e, bem, eu estou cansado. No entanto, a cabeça nunca para de trabalhar e uma ideia me ocorreu há algumas semanas, para um novo romance. Ocorre que eu não quero nem posso me envolver em um novo projeto agora. Assim, o que estou fazendo é “cozinhar” essa ideia, de tal forma que ela não morra, pois me parece interessante, mas tampouco se imponha e me obrigue a colocar todas as minhas outras atividades em segundo plano, que é o que acontece quando inicio, de fato, a escrita de um novo livro. Como de hábito, tenho anotado algumas coisas que me ocorrem relativas a essa ideia em um caderno. Daqui a um ano, mais ou menos, depois que eu já tiver lançado e, por assim dizer, me livrado de ‘Terra de casas vazias’, voltarei a esse caderno e verei se há mesmo alguma coisa ali. Se houver, aí, sim, embarcarei noutra viagem.

 

DA – Jerusalém, pelo fascínio que exerce em você, figura como uma provável influência criativa?

ANDRÉ DE LEONES – Provável, não. A cidade já integra o meu universo criativo, tanto que parte de ‘Terra de casas vazias’ se passa em Israel e, sobretudo, em Jerusalém.

 

DA – Na literatura e, também, fora dela, o que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?

ANDRÉ DE LEONES – Na literatura e fora dela, seja na pós-modernidade, seja quando for, antes ou depois, não endosso ideologismos de qualquer espécie, à direita ou à esquerda. A estupidez é ambidestra.

 

DA – Por tudo o que já viveu até aqui em sua trajetória com as palavras, o que o impele a continuar trilhando o pantanoso ofício de escritor? 

ANDRÉ DE LEONES – O que mais sei fazer? Muito simples: não tenho interesse por fazer mais nada.

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73ª Leva - 11/2012 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

A perspectiva de vislumbrar o mundo suplantando quaisquer questões que reflitam distinções de gênero é um caminho válido para pensar uma obra literária. Mesmo se o tom das premissas apontar para uma escrita que pulsa de uma específica condição do ser, há, sim, significativo espaço para que a voz criativa pautada num determinado ponto de vista faça operar a convergência de sentimentos e outras tantas aferições da existência. Quando nos debruçamos sobre as escrituras de criadores como Marilia Arnaud, logo nos vem à mente a desnecessidade de levantarmos bandeiras de gênero. Muito pelo contrário, o olhar densamente feminino da autora desloca-se para uma noção de harmonização de percepções, tornando leitores cúmplices e atores de suas narrativas como se todos partilhassem o mesmo solo das esperas.

Com uma trajetória marcada pela verve contista, algo que inclui obras como A menina de Cipango (Prêmio José Vieira de Melo – Estado da Paraíba – 1994), Os campos noturnos do coração (Prêmio Novos Autores Paraibanos – 1996) e O livro dos afetos (7Letras), Marilia acaba de edificar seu primeiro romance, Suíte de Silêncios (Editora Rocco), livro que demarca de modo bastante especial um percurso por paisagens intimistas embebidas em lembranças, projeções e mistérios. A narrativa, levada a cabo pela personagem Duína, revela-se arrebatadora e singular porque sabe atravessar com pungência alguns desertos que devassam a alma humana. Dentro da camada sensível da ótica feminina, pulsa intenso o jogo das ausências e hesitações, reforçando a ideia de que existir é saber-se fugidio e finito. No breve diálogo que agora segue, Marilia Arnaud fala desse momento especial em torno do seu primeiro romance, do olhar feminino na literatura e de outras questões integrantes de sua vivência no intricado universo das palavras.

 

Marilia Arnaud por Roberto Athayde

 

DA – “Suíte de Silêncios” é uma verdadeira transversal de tempos, fazendo convergir presente e passado numa narrativa marcantemente intimista. Ali, a alma humana é devastada pela personificação tida em Duína, menina-mulher que suscita esperas e ausências. Na escolha desse caminho repleto do algo intangível instaura-se a via crucis de um criador?

MARILIA ARNAUD – Sem dúvida, a criação é um processo doloroso, na medida em que demanda a total entrega do artista. Sempre me pergunto por que escolhi essa paixão, o que busco nas palavras, na invenção, quando poderia simplesmente viver. Ao mesmo tempo, acho que não escolhi nada, que simplesmente fui tomada pela literatura, assim como fui arrebatada por Duína, por sua história de perdas e desamparo. Escrever é um processo, de certa forma, obsessivo, porque o autor acaba tão impregnado pelo personagem, por sua voz, que tem dificuldades com a realidade.

DA – No livro, chama atenção a densidade que povoa o olhar feminino sobre as coisas e sentimentos. De que forma tal condição se consolidou como uma escolha narrativa?

MARILIA ARNAUD – A literatura, assim como toda criação artística, é o espaço do imprevisível e da imprecisão. É preciso acreditar na voz narrativa e manter-se fiel a ela para trazer à tona o personagem (homem ou mulher) em sua inteireza. Somente uma narrativa densa e coesa, capaz de impactar o leitor, de fazê-lo refletir sobre as coisas do mundo, sobre a condição humana, pode assegurar que um romance não seja lido impunemente. Trabalhei mais de dois anos para isso, para trazer ao mundo a voz de uma mulher marcada por uma infância traumática, para revelar a inadequação e o sentimento de insuficiência de uma irrevelável Duína. Não sei se consegui (os leitores que o digam).

DA – Guardadas as devidas diferenças contextuais, Duína aproxima-se da Macabéa de Clarice Lispector quando a perspectiva é olhar o mundo sob o manto da delicadeza. Ambas têm uma expressão que suplanta qualquer conclusão apressada de ingenuidade. Como é que você percebe tal associação?

MARILIA ARNAUD – Duína e Macabéa são personagens talhadas por faltas. Na infância, faltaram-lhes os pais. Na idade adulta, afetos, alegrias, talentos. O isolamento, a culpa, a saudade, a aparente passividade e o sentimento de fracasso também as aproximam. Em ambas, a vida dói com força, no corpo (Macabéa sofre de tuberculose e de um dente cariado – a dor da polpa exposta é uma das piores – Duína, de um câncer que lhe rói as entranhas) e na alma (inadequação ao mundo e consciência da rasura da própria existência).

DA – Apesar do aparente espaço conquistado pelas mulheres em plena pós-modernidade, conceber a condição de Duína em nosso mundo é, sobremaneira, refletir sobre um contraste entre certa liberdade do corpo, tão apregoada hoje, e as amarras que nos são mais caras, as do pensamento. Acredita que reside aí o principal conflito que atravessa o universo feminino?

MARILIA ARNAUD – Eu diria que houve uma conquista efetiva, mas não, plena. A mulher pós-moderna trabalha (muitas são chefes de família), estuda, exerce seus papéis sociais, traça os próprios caminhos, e especialmente a mulher de classe média investe na carreira e luta bravamente pela independência financeira. Porém, é uma mulher dividida. No plano da subjetividade, ainda há muito a ser conquistado. Ao fazer escolhas que fogem do padrão enraizado, do modelo maternidade/família, ela se enche de culpa e angústia. É compreensível. Durante séculos, viu-se impedida de afirmar a própria existência, de expressar sua identidade através do corpo e da palavra. Nessa busca por um equilíbrio, a mulher segue se construindo, construindo sua identidade.

DA – A seu ver, quando o assunto é o olhar sobre as densidades humanas, qual a diferença marcante entre homens e mulheres? Padecemos muito com os determinismos?

MARILIA ARNAUD – A diferença marcante talvez seja a maneira de um e outro estar no mundo, os papéis sociais que lhes foram atribuídos ao longo da história, o determinismo sexual que durante séculos apontou o homem como um ser de poder e a mulher como um objeto de reprodução. Em sua essência, o homem e a mulher são universos complexos, sobre os quais o ficcionista deve se debruçar com o mesmo olhar de espanto, porque é do espanto que brota a criação literária.

DA – Depois de construir uma trajetória devotada ao conto, você edifica, com vigor e propriedade, seu primeiro romance. Quais percursos foram fundamentais para essa, digamos assim, mudança de rumos?

MARILIA ARNAUD – Entre meu primeiro livro (contos/crônicas – produção independente) e o recente Suíte de silêncios, primeiro romance, caminhei bastante. Nesse meio tempo, mais de vinte anos, participei de algumas coletâneas e publiquei três livros de contos, dois deles (A menina de Cipango e Os campos noturnos do coração), através de concursos públicos. Foi O livro dos afetos, editado pela 7letras, em 2005, que me levou a pensar na possibilidade de escrever um romance. Explico. Luiz Ruffato apresentou minha prosa a Luciana Villas Boas que, à época, era editora na Record, e ela, muito gentilmente, escreveu-me dizendo que, embora tivesse gostado dos meus contos, não pretendia editá-los, tão somente pelo fato de serem contos, gênero pouco comercial, e sugeriu-me que eu escrevesse um romance. Então, a motivação inicial para a construção do Suíte de silêncios foi o conselho da Luciana, que tomei como um desafio. Comecei tateando, às escuras, sem nenhuma certeza de que teria fôlego para ir adiante. Em algum momento, encontrei o tom, e a história começou a fluir. Algumas pessoas têm me perguntado se o romance é de fato o gênero mais braçal, e eu lhes digo que as dificuldades na construção do Suíte de silêncios não me pareceram maiores do que aquelas com que me deparei na elaboração de alguns contos; creio que são de uma outra ordem.

DA – Somos crias de um deus menor, o mercado, quando, presos a ele, submetemo-nos à imposição de modelos. Consegue vislumbrar por qual razão um livro de contos, por exemplo, seja algo pouco comercial? Esse tipo de constatação não lhe soa incômoda?

MARILIA ARNAUD – Não compreendo a lógica comercial das editoras. Há um desprezo declarado pelo conto, como se tratasse de um gênero menor. Antes do Suíte de silêncios, ouvi inúmeras vezes a mesma pergunta, quando finalmente eu escreveria um romance. Leitores, amigos, familiares. Nessa cobrança equivocada, eu enxergava uma dúvida quanto ao meu valor como escritora, como se somente com a publicação de um romance eu pudesse confirmá-lo. Como já falei, encarei a negativa da editora como um desafio, mas eu já vinha percebendo que meus contos estavam cada vez mais longos. A experiência de escrever um romance não me desagradou. Pelo contrário. Tanto, que já tem um outro tomando forma dentro de mim.

Marilia Arnaud por Roberto Athayde

DA – Acredita que estamos vivendo um tempo no qual as escrituras e seus criadores andam um tanto exasperados por reconhecimento ou afirmação? Não seria melhor lermos mais do que escrevermos?

MARILIA ARNAUD – Sem dúvida. Hoje se tem uma superexposição do autor. Se ele não aparece, não circula, não frequenta festas e feiras literárias, não dá palestras, não fala sobre a própria obra, seus livros simplesmente passam despercebidos. O “escritor espetáculo” não tem mais tempo para escrever; ele viaja o tempo inteiro, correndo de lá para cá, num frenesi e, muito provavelmente, numa ansiedade terrível. Peno demais quando sou convidada para algum desses eventos. Sou tímida. Gosto de ficar quieta no meu canto, lendo e escrevendo. Falar em público me constrange. E me pergunto qual o sentido de se falar sobre o que se escreve se o livro existe para ser lido? Não estaria o autor usurpando o espaço do livro?

DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?

MARILIA ARNAUD – A superficialidade das relações, a falta de interesse real pelo outro, isso é o que há de pior. Na literatura, os experimentalismos presunçosos, o barateamento da linguagem, narrativas sem a mínima elaboração, palavras vazias, textos ocos.

DA – Aos poucos, você prepara um novo romance. Depois de percorrer algumas veredas da palavra, tem a sensação de estar mais próxima de uma maturidade criativa?

MARILIA ARNAUD – Não tenho dúvida de que cresci nesses anos todos de escritura. Meu texto tornou-se mais denso, meus personagens, mais complexos, a linguagem, mais elaborada. Já falei, aqui mesmo ou em outra oportunidade, que esse é um processo natural quando se investe na carreira literária, quando o escritor se determina nesse sentido. Desde muito cedo, decidi que queria escrever. E escrever bem. Minha intenção é fazer isso de forma cada vez melhor. Não tome essa afirmação como arrogância. Reconheço minhas limitações. Sou uma eterna aprendiz, na vida e na criação literária. Tenho dó do escritor que se acomoda com a fama, com prêmios, com o reconhecimento dos leitores e da crítica, porque está morto e não sabe.

DA – O que busca a mulher Marilia Arnaud em sua teima com as palavras? 

MARILIA ARNAUD – Também já me fiz essa pergunta. Muitas vezes, para escrever, abro mão de grandes prazeres, como viajar, ir ao cinema ou ao bar/restaurante, estar ao lado de pessoas que amo. De certa forma, deixo de viver experiências reais para me embrenhar no universo da imaginação. Seria essa uma maneira de lidar melhor com esse sentimento, que é um misto de perplexidade e desolação diante do mundo, do absurdo da vida? De me livrar do desamparo existencial de que todos nós somos vítimas? Ou busco a emoção de ser tantos outros, sendo eu mesma? Não sei. Só sei que a palavra é a minha fé, minha verdade, minha beleza. É quando escrevo que me sinto mais próxima de mim mesma.

 

 

 

 

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72ª Leva - 10/2012 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

 

GRACO BRAZ PEIXOTO & A PERENIDADE DA CANÇÃO POPULAR

Por Floriano Martins

 

O compositor e intérprete Graco Braz Peixoto (Fortaleza, 1955) tem um currículo no mínimo curioso. Possui mais de oitenta gravações de suas músicas por cantores e autores de expressão no cenário da MPB, além de gravações nos EUA e Europa por artistas brasileiros. No entanto, somente em 2000 gravou seu primeiro e único disco, Kizumba-Mass, uma produção dele próprio para o selo Atração Fonográfica. Entre os parceiros mais conhecidos e/ou cantores gravados estão: Belchior, Fagner, Ednardo, Fausto Nilo, Zeca Baleiro, Chico César, Joanna, Oswaldinho do Acordeon, Nubia Lafayette, Altemar Dutra, Cláudia Barroso, Maria Alcina e Anastácia. Um destaque acima de qualquer suspeita é a canção “Noturno” (escrita em parceria com seu irmão, Caio Sílvio), cuja gravação original, pelo Fagner, foi tema central – inclusive lhe dando título – da telenovela Coração Alado, de Janet Clair, para a TV Globo em 1980. Outro bom destaque é a parceria com Daniel Taubkin que rendeu boa parte do disco A Picture of Your Life, do próprio Daniel Taubkin, produzido por Roy Cicala para o selo Blue Jackel, Estados Unidos, 2002. O diálogo a seguir é uma palhinha da serenidade e visão de mundo desse artista apaixonado pela música e a vida.

 

 

Graco Braz Peixoto / Foto: arquivo pessoal

 

 

FLORIANO MARTINS – Há um aspecto que sempre soa curioso em relação à opção estética de um criador, o que o levou a dar mais atenção a uma zona de criação. Em teu caso, a canção popular. Qual é o mapa da mina?

GRACO BRAZ PEIXOTO – Bom, talvez devesse falar antes do território para depois chegar à mina. Antes da ilha-canção, a música como oceano. Alguém já disse que todas as artes aspiram à condição da música, a música que o filósofo Plotino considerava como um caminho para se chegar a Deus, a música que prescindiria da matéria e se tornaria contemplação da harmonia divina, como queria Santo Agostinho. A música, deste ângulo, seria a via de acesso ao Absoluto. Todos nós sentimos isso em relação à música de Bach, de tantos gênios da história. É sempre mais legal falar do aspecto sensorial do que falar da música como técnica. No princípio, existe o mito da canção de Ur, na antiga Caldeia, a canção como sensação do objeto primevo, aquela que o bebê balbucia ainda no berço. Este é um mito romântico, mas no campo das artes eu acho que a metafísica é sempre mais importante, toda arte se move no campo do sensível e para além dele. E nesse aspecto, me parece que a música leva vantagem em relação às outras artes. Quero dizer que é muito mais fácil um garoto se apaixonar primeiro pela música, principalmente se levarmos em conta sua relação com a indústria do entretenimento.

Certamente a ideia de escolha deve ter surgido quando a aventura já estava em pleno curso. Deve ser algo inconsciente, voltando ao caráter atávico da coisa. Falar da música é falar da infância, no caso a nossa infância em Fortaleza, a minha e do Caio, meu irmão, pois ambos nos apaixonamos nas mesmas circunstâncias. Muito cedo ouvimos Chopin quase que simultaneamente aos Beatles e Roberto Carlos. Minhas irmãs estudaram piano clássico e depois veio o Aulo, o mais novo, que já começou compondo canções surpreendentes. Eu falo dos elos porque a música, e mais fortemente a canção tem essa capacidade de oferecer fruição individual e coletiva, da participação do corpo, de quem embarca por um breve momento nessa cápsula sensorial feita de versos, melodia, ritmo e harmonia. A música, e, dentro dela, a canção, nos dá a oportunidade de pertencer a um pequeno casulo de identidade e de uma realidade sobre a qual endossamos o discurso do autor, nos emocionamos. É algo muito real, é pura experiência ou retorno à experiência vivida. Marca uma vida, a vida de todos. O corpo também canta e dela fica impregnado. Enquanto cantamos ou tocamos, estamos em nós mesmos e ao mesmo tempo muito longe, pois enquanto isso acontece nos abstraímos para outra realidade. A canção, para mim, talvez não viesse sem o Caio, pois ele foi o primeiro a compor, a me despertar a vontade de fazer o mesmo. Fazia músicas lindas e eu tentava também conseguir aquilo. Com a cabeça nas meninas e todos os hormônios viajando em Beatles e tantas vozes do rádio, ninguém poderia resistir. Eis a canção, a guitarra e a estrada. Aliás, “Eis a canção”, não por acaso é o título que o compositor Mário Montaut deu à nossa primeira parceria. E, veja que sincronia: por falar em Beatles, na alteração da dinâmica interna da canção ela foi depois rebatizada como “Para sempre campos de algodão”. Não é bonito? Tem também este outro aspecto belíssimo: dependendo da interpretação e da execução, a canção se transforma. Não seria exagero dizer que ela pode operar uma transfiguração do momento. Nesse caso a voz, sua cor, sua malha, suas particularidades têm um papel também decisivo. Uma bela canção é um gesto prolongado, uma declaração da vida ao mundo.

FM – O que chamamos de canção popular já perdeu os vestígios de sua origem. O mercado transformou em canção popular um produto imposto ao consumidor. Isto faz, dentre outros prejuízos, com que ela expresse o roteiro de uma campanha publicitária, e não que surja como referente de uma indigestão social. No entanto, essas preciosas são assinadas por alguém. O que significa hoje ser um compositor de canções populares?

GBP – Mais uma questão difícil, muito aberta. A canção é soberana. Sempre haverá a questão do talento, ou seja, a questão primordial. Não é a alteração das regras do jogo imposto pela indústria que vai enfraquecer o gênero, destruir talentos. Nesse momento, com certeza temos um cenário ruim, um desestímulo aos grandes autores e cantores em favor de uma porcaria assombrosa. A indústria vende o que a sociedade cria. Seu pecado mesmo é a reiteração, a multiplicação do que gera um mal estar vergonhoso. Esse lamaçal acompanha toda a atomização que vêm sofrendo as artes num ambiente onde não há horizonte, apenas o foco do momento, o imediatismo. Não há mais a obra, apenas o “single”, o funk escabroso. Do trovador da vila medieval, quando a canção foi tomando sua forma, ao trovador dos links houve uma dispersão do cenário interno, da identidade. Hoje há um discurso para cada gavetinha do mercado, este senhor sem face, o que parece inviabilizar aquela idéia antiga da MPB como depositária de um discurso da sociedade brasileira. A sociedade está mais complexa, o acesso mais fácil e a elaboração em geral é muito rasteira. Hoje, a relação com a música – não só a canção – perdeu profundidade. O enfraquecimento da indústria e a vulgarização da gravação de discos geraram um nível de produção cuja absorção é impossível. Ironicamente, downloads são feitos numa escala de fruição impossível. Está tudo muito confuso. O discurso publicitário está muito evidente. Por natureza ele é uma redução e isso rima com a pobreza cultural do Brasil, por exemplo. Mas estamos enganados se pensamos ser esse um fenômeno brasileiro. Parece que o Ocidente se transformou num grande pagode com futebol. Talvez seja cedo para procurarmos uma palavra final. É hora de dar à palavra “underground”, por incrível e contraditório que pareça, o seu verdadeiro significado. E devemos reconhecer que há espaço para tanto. É um espaço que parece aos poucos voltar a vibrar. Aliás, é preciso também reconhecer que lá atrás o surgimento do cinema e da indústria fonográfica desempenhou um papel importantíssimo para o florescimento da canção, aquelas canções e rocks e bandas que fizeram a trilha sonora de nossas vidas. Mas apesar deste cenário, se formos catar as pedrinhas veremos que o pop e sua imensa constelação de subgêneros ainda possuem uma força e presença impressionantes. A canção ainda é o próprio mapa da mina, ou seja, ela é o território, a identidade e o discurso do habitante, mesmo com a vulgarização que presenciamos. Resumindo, da invenção do fonógrafo ao download, a indústria possibilitou uma produção imensa, a criação de várias linguagens musicais. É sempre difícil unir o micro e o macro. Seria impossível imaginar Elvis Presley em outro momento, o grito primal de John Lennon não teria tido o mesmo alcance. O rock já tem sua literatura, a MPB tem sua história e as pedras continuam rolando. Ser compositor, hoje, pode ser também abdicar de uma idéia romântica de estrelato e riqueza e reafirmar sua paixão da infância. Os dilemas da música não estão separados das questões do empobrecimento cultural. Às vezes, também penso que já tivemos a neurose e que hoje vivemos a necrose. Mas posições assim, tão preto no branco, nunca se sustentam.

FM – A máxima publicitária “Deus criou o mundo” fascina a todos os artistas, seres em geral dotados de uma carência afetiva cujo diapasão espiritual não carece de mistério. Não há enigma, mas sim pobreza de espírito. Recordo este documentário sobre o Michael Jackson, que logo no início cita um desejo seu de se tornar o artista mais popular do mundo. O mundo – mundo é linguagem – é uma entidade muito curiosa. Certos substantivos abstratos se tornaram violentamente concretos, como o medo. Em muitos casos a realidade se esfumou, tornando-se uma abstração sem recurso. Não fazemos uma ideia concreta – exceto a ideia aproximada de todas as épocas – do que seja o mundo, de conformidade com nosso desejo. Na primeira metade do século XX o desejo definia o homem. O desejo era evocado em seu sentido de liberdade. Tornou-se depois um argumento de exploração sexual e consumo. O erotismo forçado das campanhas publicitárias foi desaguar na prostituição infantil. Evidente que Deus não criou esse mundo. Dividimos seu legado em três artérias: a ciência, a arte e a religião. Inventamos um deus para cada uma das veias. Como circulas por entre os bastidores dessa opereta?

GBP – Sinto um enlace de questões. É muito difícil chegar a juízos pela subjetividade das pessoas. No caso dos artistas, pior ainda. Olhando bem de perto, é raro encontrarmos um que não tenha suas fragilidades. Paul Gauguin, inseguro por não ter domínio sobre anatomia, desenho, se encontrou no primitivismo da Martinica e acabou sendo um precursor do fauvismo, ele que havia deixado de lado toda a turma do impressionismo. Foi pioneiro e entrou para a história ao lado de caras como Henri Matisse e Maurice Vlaminck. Michael Jackson é criatura da engrenagem, da indústria, mas por ser um grande artista conseguiu inventar a si mesmo, mesmo com toda fragilidade, esta tão gritante. Não me interesso muito por suas fraquezas egóicas, não era isso que ele levava para o palco. O mesmo poderia dizer da fragilidade e insegurança de Marilyn Monroe. Nesse caso, eu vejo muito mistério em cada diapasão. Não é fácil negar o intérprete, dançarino e show-man que foi o Jackson, por exemplo. Ele vem de uma linhagem, uma geração que começa com B. B. King, passa por James Brown e explode para o mundo com a cristalização da Black Music que foi criada pela Motown Records. Isso é uma invenção americana assimilada por grande parte do planeta. Penso que a valorização da liberdade e da expressão self-made man, signos da cultura capitalista americana, deram vazão à criação de um mundo onde a linguagem que o conduz é o erotismo e a valorização da liberdade e do desejo. É a sociedade do espetáculo, do pensador Guy Debord, em que temos que estar atentos para esta passividade e aceitação de toda representação. Talvez no seu oposto, o mundo árabe, onde o culto é proibido, onde não há esse apego excessivo a mensagens publicitárias, gurus de todo tipo, celebridades, atores e políticos não tenha essa inversão de valores causada pelo consumismo. Mas eu tenho esse defeito, o de pender para o que é demasiado humano, para o lado do anjo caído. Não seria capaz de ver essas manifestações apenas como símbolo de degradação. Acho que ciência é conhecimento e domínio desse conhecimento; arte, vejo como criação, invenção, a glória do engenho e da subjetividade que aumentam o repertório da existência. A arte põe no mundo algo que antes não existia. A arte cria mundos, a ciência os descobre. A arte põe os véus, a ciência os decifra. A religião é a terceira margem do rio. A fé talvez seja o fenômeno mais poderoso do ser humano. Quem tem fé não queima o pé. Já passei por fases de ateísmo. Hoje tendo a ver o mistério como manifestação do divino.

FM – O enlace foi proposital. Na medida em que desatavas o nó, fui recordando umas frases do Keith Richards que disponho aqui como uma sugestão para a seqüência de nossa conversa: “O talento é não interferir demais”, “Canções se escrevem sozinhas, você só as transporta”, “Nunca tive dificuldades para compor”. O processo de criação é sempre uma curiosidade referente à obra de cada criador, para mim uma intrigante curiosidade, porque o alimento essencial do espírito é a obra em si, e não seus bastidores. Então, mais do que indagar como crias, sugiro aqui abordar o que pensas desse talento evocado pelo Richards.

GBP – Bom, essas citações são um barato. Realmente, quando ouvimos canções incríveis, mesmo no caso de canções de amor tão radicalmente diferentes em suas estruturas e concepções, como por exemplo, Stand By Me (Bem King/Jerry Leiber/Mike Stoller) e Luíza (Tom Jobim), temos a impressão de que elas existem desde sempre, de tão perfeitas que soam. Existe o mito do autor como um sensitivo que capta as coisas no ar, como se estivessem feitas. É puro romantismo. Quando ele diz “não interferir”, na verdade se refere à observação e controle do que está sendo feito, de forma que a canção ao final soe “redonda”, ou seja, sem arestas, sem elementos gratuitos. Canções não se escrevem sozinhas. Obviamente, não há termos de comparação entre as duas, mas é claro que a primeira tem uma forma muito simplificada em relação à jobiniana Luíza. Aqui, caberia então chamar atenção do meu inconsciente, que acabou de escrever “jobiniana”. O que significa que o criador desenvolveu sua escritura, fundou sua obra com uma linguagem própria, com base em concepções, repertório próprio e talento tais que ela fez surgir uma nova área no universo das canções. Neste caso, o processo de criação no mundo pop usa menor número de recursos. Não ter dificuldades para compor é compor por prazer. O processo da criação é sempre fascinante, por isso há tanto estudo, hoje, na academia, sobre a gênese da criação. O apego às anotações sobre o processo de criação da obra. No meu caso, antes eu demorava pouco tempo para compor uma canção; hoje, minha observação leva um tempo maior, pois geralmente há o anteprojeto da coisa. Às vezes, a composição torna-se uma quase obsessão, os acordes podem ter diferentes desenhos, as palavras também têm sons, vogais que podem soar com pesos diferentes etc. Fazer tudo soar espontaneamente é sempre um desafio. O João Gilberto seria o melhor exemplo de obsessão com estes itens. Fazer a coisa sair da pulsão normal e ser lapidada na execução é algo sem fim. E há também a letra, a poesia que o canto enuncia, da maior importância. No final, como você já disse, o que conta é a obra em si. Destaco aqui minhas canções com Caio Sílvio, com o Floriano Martins, Aulo Sílvio, com Belchior, com o poeta Ricardo Alcântara e os compositores Mário Montaut e Cássio Gava, com estes últimos parcerias que apenas iniciamos. É um processo de afinidade bonito. No meu caso, minhas parcerias com o Caio Silvio, por exemplo, me são muito importantes. Neste caso, minha participação é sempre como letrista, o Caio é um compositor de inúmeros recursos. Já quando componho para os seus versos, por exemplo, tento me embalar na linguagem do poeta Floriano Martins, o que é um outro prazer, pois conhecemos profundamente nossas predileções e eu gosto muito quando recebo uma letra em espanhol.

FM – Em meio a este ambiente das parcerias, eu queria destacar uma delas, no caso da cumplicidade com o Daniel Taubkin, para o disco A Picture Of Your Life, quanto ao aspecto de que as letras foram resultado de mergulho em outro idioma. Escrever em uma língua que não é a sua ajuda a iluminar os argumentos da escrita?

GBP – Escrever em outra língua é transportar-se, antes, para outra cultura. É um atrevimento. Nesse caso, o trabalho resultou de termos uma formação musical muito parecida. Obviamente não foi nada fácil, tivemos sempre a leitura crítica do produtor do disco, o Roy Cicala, americano que produziu discos de grandes celebridades e hoje mora no Brasil. Tanto o inglês como o espanhol têm uma belíssima sonoridade. Conhecer expressões e a tradição daquele cancioneiro ajuda a entrar na levada que tem cada canção, mas é sempre aquela coisa da página em branco. As resenhas sobre o disco, lançado nos EUA, Europa e Japão nos deixaram muito satisfeitos.

Graco Braz Peixoto / Foto: Floriano Martins

FMEm uma conferência que deu em Viena, em 1999, o compositor Nick Cave faz uma bela analogia entre música e silêncio: “Se o mundo fosse ficando silencioso repentinamente Deus seria desconstruído e morreria”. Esta conferência é valiosa, porque ele trata muito sabiamente acerca da canção de amor, do ato criativo visto a partir da tristeza (“a canção de amor é uma música triste, é o próprio som da tristeza”) e da teoria do duende defendida por García Lorca e uma densa tradição na canção de língua inglesa – Bob Dylan, Leonard Cohen, Tom Waits, Neil Young, Van Morrison – que lhe é devedora.

GBP – Que maravilha esta citação do Nick Cave. Acho que também somos herdeiros da tradição inglesa, assim como os EUA, estes de forma mais acentuada. A canção de amor, sendo de alta voltagem é imbatível. É um desses artefatos que me fazem crer na perenidade do gênero. Todos esses caras são fantásticos. Devemos a eles grandes momentos. A canção de amor é um ajuste de contas momentâneo. Como canção, ela acontece na redundância, na chegada ao clímax do refrão, que ganha força na sua reiteração. Não que a canção tenha uma forma definida e imutável. O mistério de canções assim é que depois de feitas parecem tão simples. De fato, há como que uma repetição do esquema, uma quase pobreza harmônica na utilização de poucos acordes, coisa que foi superada entre nós pelo refinamento vindo da bossa nova. Mas quando se vai fazer, meu velho, adeus facilidade. Fosse tão fácil assim, não teríamos todos nós compositores um leque considerável de começos de canções, pedaços delas e outros projetos que ainda não foram concluídos.

Essa metáfora de Nick Cave deve se referir a uma concepção mais oriental da paz e do mistério da existência. É algo muito comum entre músicos que tentam uma iniciação ao zen budismo. Sobre a teoria do duende, do poeta espanhol Garcia Lorca, é uma bela metáfora para falar da arte espanhola, especialmente a música e a dança flamencas como uma fonte de prazer visceral características da cultura espanhola. O duende, para nós, seria como “estar com a macaca” ou “estar possuído”. É, no fundo, uma afirmação do caráter distintivo que tem a interpretação, essa idéia que no linguajar moderno se fala “performance”. Temos poucos cantores entre nós que cantam com esse duende. Aliás, a bossa nova é uma domesticação, um refinamento desse bicho. A dança, o cantar dramático e a poesia espanhola têm na canção de amor uma das grandes manifestações de sua arte.

FM – De onde remontam as tuas afinidades musicais? Que música ouvias na infância e que percebes tenha sido de boa influência em tuas escolhas musicais?

GBP – Como um fenômeno familiar, nossas afinidades – minha, do Caio e do Aulo são as mesmas, com poucas preferências mais distintas. Donde se vê a importância do meio. Não temos nada a ver com samba, chorinho etc. Nossa área é mais da música brasileira a partir dos anos 1960, com uma pegada forte nos ’70, base de nossa formação. No meu caso, com a vinda para São Paulo passei a me interessar muito por uma área de canções sofisticadas feitas por compositores que vinham de um ambiente jazzístico. Tudo isso foi gradativamente soldado à minha formação de música brasileira. É o ciclo comum a todos; a diferença são as preferências. Pode parecer estranho ou esnobe, mas não é. Minha geração não foi afeita à sensibilidade telúrica do canto sertanejo, àquelas visões e formas – bonitas e preciosas – comuns a um universo onde a tradição da poesia moura que há no Nordeste de certa forma ainda se impõe. É neste ponto que podemos acrescentar, porque propomos naturalmente um sincretismo. Não fazemos a repetição, mas criamos um corpo de canções onde esta leitura não se apresenta em primeiro plano. Em situação alguma abrimos mão de nossas referências, da modernidade. Canções de nossas autorias que tiveram sucesso nos deram uma resposta muito feliz acerca dessas músicas. Como, por exemplo, Noturno, conhecida como “Coração Alado”, tema da novela homônima.

FM – Tens uma leitura muito elegante acerca da barbárie que estamos criando em cativeiro privado. Nós que nascemos nos anos ’50 no Brasil fomos atropelados por certa virulência já ajustada em linha nos ’80 e piorada gradativamente. Eu gostaria de te ouvir falando de algumas dessas canções, seu alcance, essa resposta feliz que mencionas.

GBP – Talvez tenhamos sido salvos pela arte, se é que fomos salvos. A barbárie talvez seja a mesma de sempre. Talvez nossa singularidade – que perante o mundo escapa ao trágico como uma manifestação de alegre potência – possa ser expressa numa questão: como um país de baixa cultura como o Brasil pôde transformar um artefato de alta sofisticação como a bossa nova em produto de massa? Hoje, sua influência internacional é indiscutível. Para nossa surpresa, o Paul McCartney declarou que pretende vir ao Brasil e gravar com músicos da bossa nova. É um argumento a que recorro para tentar responder a pergunta, apesar de minha formação pop. Poderia pinçar algumas canções que surgiram como bandeiras, quando geralmente elas aparecem como um delicioso cobertor com o qual nos embalamos. Cito Like a Rolling Stone, do bardo Dylan, uma canção de 1965, com mais de seis minutos de versos demolidores, que demonstrou sua incrível força marcando nossa geração e o mundo de forma inquestionável, com reverberações até nossos dias.

FM – A cronologia é o ambiente natural da história e a exploração conveniente do mercado. Entre o novo demais para morrer e velho demais para viver, a retórica oscila sem desconectar o cinismo automático. São reais as conexões que já mencionaste com a pobreza espiritual brasileira e o desgaste de certa mecânica cultural do Ocidente. Qual o relato possível de sobrevivência a tudo isto?

GBP – Alguém já falou que a retórica é a mais perigosa de todas as armas. Este assunto – a decadência – me parece sempre uma questão da ética. O cinismo a que você se refere antes é a regra, não somente no Brasil. Não sou economista, mas toda essa crise na Europa e na comunidade do Euro, por exemplo, me parece antes um problema da ética. Como diz o Belchior, numa de nossas parcerias, “O dinheiro é um deus cruel”, e a política seu servo fiel. Precisaríamos de homens, no lugar dos políticos. Acho que esse é um movimento circular. A rigor não há novidade, nos iludimos com as surpresas e as possibilidades que chegam com as tecnologias, mas a tortura e o massacre de crianças, como vemos hoje na Síria sempre podem estar no horizonte.

FM – Chegamos ao Kizumba-Mass como quem abre a página de um manifesto. Em um ambiente de novas mídias, como tornar esse disco acessível atualmente?

GBP – Tenho mais de 80 gravações, mas o Kizumba-Mass é meu primeiro e único disco, exceto por algumas participações coletivas as quais não curto. Gravei 21 músicas, das quais 15 foram para o CD, cuja ideia foi criar um móbile cujas peças seriam distintas entre si. O disco saiu pela gravadora Atração e tem as participações do Ednardo, Daniel Taubkin e Anastácia. A exposição do trabalho gratuitamente na internet é bacana e muito importante, mas é preciso resolver o problema da remuneração do compositor, que já era difícil pelos meios antigos.

 

 

 

(Floriano Martins (Brasil, 1957) é poeta, editor e ensaísta. Dirige a Agulha Revista de Cultura. Entre os livros mais recentes, se encontram Autobiografia de um truque” (2010) e Susana Wald – La vastedad simbólica” (2012))

 

 

 

 

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71ª Leva - 09/2012 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Antes de um tudo, o vazio e suas improváveis imagens. Antes de tudo, o silêncio, a ausência do verbo a rasgar instantes. Depois de tudo, a palavra a atravessar espaços e habitar a matéria do nosso concreto de cada dia. Como conceber a existência sem a poesia que antecede e esgota o sopro? Onde o intervalo mínimo entre projeção e realização?

Com tais percursos que remexem as entranhas da vida, a criação revela-se a musa das musas, representante imprecisa de nossa sina pelas tresloucadas paragens terrenas. Os poetas são seus mais legítimos porta-vozes, transformando desvãos da alma em versos pungentes, catando o despercebido e ofertando-nos tudo em doses nada terapêuticas. É atraente pensar que criadores vagam conosco no meio da multidão e, mais adiante, sugerem veredas. Nesse ofício, encontramos gente como o escritor paulista José Geraldo Neres, homem cuja sina celebra permanentemente a liquidez do verbo. Dono de um estilo que contempla um intangível olhar sobre os lampejos humanos, o autor abraça o silêncio como causa, mas não consente que nele se façam vãs inscrições. Para ele, importa a revelação escondida nas sucessivas camadas onde habitam as palavras. Se o resultado disso é mirar o abismo, a queda é perspectiva real.

Autor de obras poéticas como “Pássaros de papel” (Dulcinéia Catadora, 2007) e  “Outros silêncios” (Escrituras Editora, 2009), José Geraldo Neres alimenta agora sua travessia com a instigante reunião de contos presente em “Olhos de Barro” (Editora Patuá). Trata-se de um livro no qual as imagens inauguram as densas vias de uma prosa poética que sabe a queda e fronteiras. Seu trânsito no terreno cultural é múltiplo, compreendendo também as feições de roteirista, dramaturgo, produtor e gestor. Como curador do Projeto Quinta Poética, em São Paulo, articula encontros valiosos entre autores, artistas e produtores dos mais variados campos, num claro propósito de harmonizar linguagens múltiplas. Falando um pouco sobre suas andanças literárias e outros temas correlatos, Neres revela-nos agora alguns aspectos que movem a sua obstinada travessia pelas palavras.

José Geraldo Neres / Foto: arquivo pessoal

DA – O silêncio é um tema que está entranhado, de modo especial, em parte significativa de sua obra. Seria ele um exercício recorrente de escutas e, portanto, a gênese desafiadora da criação?

JOSÉ GERALDO NERES – A procura deste “silêncio” acaba por facilitar o deslocamento de tempo necessário para esta criação. Não existe limite ou obstáculo relacionado a ele. Passado (infância/natureza), presente, futuro, e, como costumo tratar, a travessia.

O “silêncio” é um paradoxo, pois tenho por hábito mergulhar ao máximo no universo musical/sonoro, quando estado de criação, e pesquisa/leitura, grande facilitador/aliado na revelação do ritmo interno do texto. A melodia das palavras líquidas é parte de minha busca, sim. Escuta, pesquisa e criação, principalmente tratando-se de um cenário cosmopolita em que estou radicado.

DA – Sua expressão poética possui a fluidez decisiva sobre as marcas da existência, como se as palavras percorressem espaços sensíveis de nossa materialidade buscando aplacar estranhamentos da condição humana. Seria um flerte fundamental com a perspectiva da transcendência?

JOSÉ GERALDO NERES – Como observador do cotidiano, tento retirar dele sinais que possibilitem o mergulho nas marcas que carregamos nos ossos. Tenho uma imagem inaugural e, a partir dela, busco expandir seu universo de alternativas ficcionais: a de um menino a perambular e brincar na beira de abismo, sem ter qualquer preocupação com a queda ou se retornará deste mergulho, transformado ou não. Gosto de tratar a criação literária desta maneira: experimentar ao máximo os riscos e não perder a infância ou essa imagem inaugural. Apanhar os desperdícios e o delírio do verbo tão presente em Manoel de Barros. Acompanhar o afinador de silêncios na obra de Mia Couto. Passar através dos ponteiros do relógio, lá onde o silêncio põe um capuz branco (Murilo Mendes), ou o conjunto de acontecimentos e processos que nos rodeia nos engendra e nos devora. Cúmplice e confidente (Octavio Paz). Desafiar os limites do corpo e da palavra. Cito alguns autores que provocam estados criativos, mas o mergulho é sempre renovado e um novo autor acompanha a queda.

DA – A síntese é um traço vigoroso em seus percursos poéticos, divisando imagens reais e quiçá oníricas. Harmonizar em versos um sentimento do mundo é pensar no inatingível?

JOSÉ GERALDO NERES – O exercício da síntese começou com leituras e estudos de autores haicaístas: Bashô, Buson, Issa e aqueles por eles influenciados. Cito um livro revelador de Mestre Bashô: Trilha Estreita ao Confim. Entretanto, o tempo e outros autores me mostraram que a síntese de um texto pode passar por trilhas e encruzilhadas diferentes. Desde então, procuro lapidar o texto, mas com o cuidado de não retirar a essência ou alma dele.

Com relação ao “inatingível”, não consigo pensar desta forma durante o processo de criação. Tenho na imagem poética uma grande aliada para desenterrar palavras/versos na ressignificacão do momento/mundo representado em um texto. É a procura da palavra debaixo da palavra. E continuo a tentar descobrir esta palavra latente (Vicente Huidobro) e o delírio do verbo (Manoel de Barros). Procura e exercício interminável. É um gozo divino, no sentido de êxtase, quando um leitor completa e dá sua interpretação a esse texto. Essa leitura reforça meu desejo de continuar por essas trilhas e encruzilhadas.

DA – “Olhos de Barro”, seu mais recente livro, dedica-se a uma prosa que se manifesta intensamente poética. O título, por sinal, é bastante sugestivo, apontando para um criador que, ao mesmo tempo, é criatura a mirar os trajetos da existência. Quais signos você elenca como sendo os mais emblemáticos nessa sua nova incursão pelas palavras?

JOSÉ GERALDO NERES – Sim, criador e criações. Tudo começou com uma provocação imagética: uma grande boca a perambular uma casa vazia, sem portas ou janelas, e, mesmo assim, ela não conseguia sair desta casa. A boca, corpo não tinha, e sua voz preenchia todo este ambiente. Essa imagem inaugural persistiu no grupo de textos produzidos e insistiu a provocar outras inquietações. Utilizei a estrutura da casa para os primeiros passos (a casa tinha quatro cômodos. Então, os signos elementais serviram de bússola, depois o embate do criador e criações: a casa como limite e parte deste corpo, corpo construído por palavras. Depois, o tempo: passado, presente, futuro e a travessia). A queda, os limites do corpo, as fronteiras que cercam os pensamentos e criações são partes dos signos utilizados. Os outros estão naquele que completa o livro: o leitor. Antes deste círculo se completar, é claro que fui procurar beber em outros autores que dialogam com este tema: queda e fronteiras.

DA – Essa sua menção a queda e fronteiras pode ser compreendida também como uma projeção da finitude, talvez um dos maiores temores humanos?

JOSÉ GERALDO NERES – Gosto deste temor, principalmente inserido no campo da criação, mas, particularmente, não acredito nesta projeção, e sim em transformação e travessia. Quando da realização e escolhas de leituras para “Olhos de Barro”, uma obra me chamou muita atenção: “Gringo Velho”, do mexicano Carlos Fuentes. Encantou-me a trajetória do personagem que, antes de “cumprir sua sentença, encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra” (diálogo dos personagens Chicó e João Grilo no Auto da Compadecida, obra imortal de Ariano Suassuna), atravessa a fronteira dos Estados Unidos da América para participar da revolução mexicana. Ele sabe o que o tempo planeja para ele, e, assim, abandona tudo para poder vivenciar este seu desejo heróico. É certo que o livro é muito mais que esta simplificação que acabo de fazer, mas é essa travessia que me impregnou durante a leitura da obra.

DA- Nesta travessia pela palavra, escrever seria também uma via de redenção?

JOSÉ GERALDO NERES – A literatura sempre me salva. Não sei dizer ou mencionar quantas vezes aconteceu isso, mas terminar um texto é um prazer que não há como definir. Poderia citar vários exemplos, e mesmo assim não atingiria a proporção correta. Terminar um texto nos dois sentidos: leitura e escrituração. Quando recebo a indicação de leitura de alguém, faço uma excursão pelos sebos (virtuais e tradicionais) até encontrar o livro. Gosto do desafio, da procura.

A literatura já me levou para inúmeros lugares que jamais pensei conhecer, e, a cada retorno, sou “o outro” que habita a mesma casa. Sei que tenho muito por caminhar, aprender e descobrir. Cada novo projeto/livro me dá essa possibilidade.

José Geraldo Neres / Foto: arquivo pessoal

DA – Em meio à sua trajetória incansável de articulador cultural, habita o  projeto Quinta Poética, do qual você é curador, e que agora está completando 50 edições. O que tem sido decisivo para a consolidação desta iniciativa?

JOSÉ GERALDO NERES – Nasci, literariamente falando, em Diadema, final dos anos 90 (pertence à região do grande ABCD daqui do estado de São Paulo), onde tive o privilégio de conhecer uma oficina de criação literária (ministrada pela poeta Beth Brait Alvim). Nesse período, aconteceu minha primeira revelação: descobri que tinha apenas o desejo poético, mas poesia mesmo, não. Descobri que não era poeta, mas também descobri o desejo e determinação de procurar pela poesia e seus realizadores. Esteticamente e poeticamente, tudo começou em Diadema. O fazer era agregado à vivência, convivência, coletividade, intercâmbio e experimentação. Neste clima, criou-se o grupo Palavreiros, e nós nos apresentávamos em leituras pela cidade, outras cidades, e espaços sócioculturais (aqui é só um brevíssimo resumo: há muito por falar). Desde então, peguei gosto por produção cultural e não parei mais.

O Quinta Poética chega a 50 edições na Casa das Rosas (anteriormente, o projeto habitou outros lugares), e é idealizado e promovido pela Escrituras Editora e a Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, onde se apresentou um mosaico com mais de quinhentos produtores culturais de todas as regiões brasileiras e exterior do país. Existe uma permanente mescla/diálogo com as demais linguagens artísticas. Por ser um projeto que existe e se mantém numa periodicidade ininterrupta, aliado à cumplicidade e qualidade destes produtores culturais, creio que sejam esses alguns dos ingredientes desta consolidação (a programação deste ano está pronta desde o mês de maio, e, atualmente, recebo indicações e sugestões de participantes para o ano de 2013).

É uma grande surpresa o desdobramento de cada edição: os participantes realizam além do costumeiro intercâmbio de saberes/contatos. Criam novas parcerias e andanças. Isso estimula e muito, além de aumentar a responsabilidade de estar na curadoria deste projeto (aqui quero deixar meu agradecimento aos curadores anteriores. Como certamente vou esquecer os nomes de todos, cito-os na figura emblemática do poeta Celso de Alencar).

DA – É possível dizer que os escritores contemporâneos, em prosa ou verso, detêm um estilo peculiar capaz de solidificar algum movimento? 

JOSÉ GERALDO NERES – Não acredito nessa possibilidade, pois não sabemos quem são nossos poetas ou escritores (isso em âmbito nacional ou estadual). Conhecemos certo número de autores, porém não todos. No Brasil, não há um mecanismo ou mapeamento dos produtores culturais, como, por exemplo, o Sistema de Información Cultural, CONACULTA, México. Acho que ganharíamos mais se nossa literatura fosse sistematicamente divulgada (obra e autor) internamente e, é claro, no exterior. Hoje, sinto uma movimentação, mas é um tanto tímida e, quando sabemos de uma obra traduzida para outro idioma, não há surpresa nos livros ou autores escolhidos ou selecionados. O assunto requer um debate amplo, e essas poucas linhas não seriam suficientes para discorrer ou apontar soluções. No entanto, quero deixar claro que conheço escritores e poetas sérios e competentes, mas lamento não ter este painel de nossa literatura nacional.

DA – Quais critérios norteiam a participação dos autores no Quinta Poética?

JOSÉ GERALDO NERES – Basicamente, qualidade, apresentação pública, disponibilidade para troca de saberes, e diálogo entre diferentes linguagens artísticas. O maior exemplo deste intercâmbio de saberes, estética e linguagens artísticas foi a 43ª edição, em Novembro de 2011, Especial diálogos – Diversidade cultural. Há um extenso acervo disponível para visitação e pesquisa na internet, relacionado a outras edições.

DA – O estado de coisas a que chamamos pós-modernidade talvez tenha trazido a frágil sensação de que é possível subverter tudo em matéria de gênero literário. O que você pensa sobre isso?

JOSÉ GERALDO NERES – Encontro essa desconstrução em autores do passado. Cito seis que tenho por hábito reler: Lautréamont, Gérard de Nerval, Charles Baudelaire, Octavio Paz, Jorge de Lima e Campos de Carvalho (se procurar um pouco mais no abismo de leituras, vou encontrar outros exemplos). Nessas leituras, fico a questionar os limites e fronteiras do gênero literário. Longe de mim afirmar que esses autores inauguram essa ruptura, pois a história literária é longa e bebemos na tradição para conhecê-la e poder subvertê-la. Não acredito em criação no vazio.

DA –  O que você não endossa na dita pós-modernidade?

JOSÉ GERALDO NERES – Apenas para reflexão: qual a preocupação com o tempo? Ele é o tempo e, assim, sempre será. Penso na capacidade criativa do ser humano, e tudo aquilo ou movimento que o influi e provoca para uma nova criação. Acredito no movimento cíclico. A escrituração começa nos primeiros registros na pintura ou gravura rupestre. Fica uma provocação: como inventar a roda sem beber na tradição?

DA – Para o homem das palavras José Geraldo Neres, escrever seria uma necessidade de expressão íntima ou a busca por uma interlocução com o mundo?

JOSÉ GERALDO NERES – Sim, escrever é tentar dialogar ou compreender os símbolos do cotidiano, sentir a pulsação, o ritmo, todos os sentimentos (positivos e negativos), e procurar uma solução estética que possa abrigar todos esses desejos. Os menores detalhes do mundo, aquilo que passa despercebido pela maioria, mas que está lá, aguardando uma significação (aqui, uma livre interpretação de Manoel de Barros: apanhar desperdícios). Nesta macrocomunicação, também me encontro. E citando-me no poema manifesto O eco das árvores, que encerra o livro “Outros silêncios”: Sou a roupa de arbustos onde um poeta tenta se equilibrar. / A vida despe o relógio, os ponteiros dissolvem o poeta em sua figura negra e única. / Sombra na busca do poema. // Dança de símbolos na eterna busca do homem que um dia poderei ser. // Corpo dividido, dispersando-se na medida que leio o que escrevo. / Eu não existo aqui mesmo. O poema mal sabe de mim.

 

 

 

O livro pode ser adquirido no site da Editora Patuá

 

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70ª Leva - 08/2012 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Hilton Valeriano

 

Desde as xilogravuras medievais até as famosas iluminuras, o desenho sempre esteve presente na história da arte. O leitor poderia ser levado a pensar o ofício do desenho como uma forma periférica de uma suposta manifestação artística secundária, visto a predominância da pintura, mas nomes como Albrecht Dürer, Gustave Doré, M. C. Escher e Oswaldo Goeldi evidenciam o equívoco dessa perspectiva.

Rui Cavaleiro Azevedo, artista português de Lisboa, em nossa Sabatina, expressa suas opiniões sobre a arte e o ofício do desenho, sua importância estética, suas relações com a literatura, seus projetos futuros. O leitor é convidado a mergulhar no universo expressionista e humanista desse artista, a discorrer sobre a vivência estética de seu olhar, de suas cenas, sejam elas urbanas, naturais ou literárias.

Rui Cavaleiro / Foto: Elsa Vecino

DA – De que forma se deu sua experiência inicial com a arte do desenho?

RUI CAVALEIRO – Durante os meus estudos, em menino e adolescente, eu era incluído entre aqueles que “não têm jeito para o desenho”. Efetivamente, considero que não fui dotado com qualquer prenda divina, nem para desenhar nem para nada mais, e acho que desenho pior que a média das pessoas. Em menino e jovem, os meus desenhos decorativos e geométricos eram invariavelmente sujos, torcidos e distorcidos. Quando o trabalho parecia finalizado e a régua deslizava pelo papel e deixava atrás dela o rastro de tinta da china borrando o desenho, eu tinha a consciência da minha nulidade no mundo da Arte. Por dificuldade visual, ainda hoje não vejo a perspectiva.

Contudo, passava as tardes em casa desenhando personagens e paisagens inabituais, com lápis de cor e manchas de aquarela, copiando livros de comics.

Tenho na memória, mas talvez seja um sonho, que um dia um professor me disse que se eu quisesse candidatar-me a Belas Artes, ele me ajudaria a preparar o exame. Devo ter sonhado. Além disso, por esse tempo já tinha feito exame para entrar em agronomia.

DA – Como você vê o papel do desenho e sua relevância histórica no campo da arte?

RUI CAVALEIRO – O desenho foi uma das primeiras formas de expressão dos homens. Nas paredes das cavernas, na areia, na argila. Seria para representar a realidade do modo que o desenhista a via, para esconjurar medos e fobias, para contar os acontecimentos ocorridos.  Antes da fotografia, o desenho era, para os biólogos, o modo de registrar objetos e seres dignos de nota. Para os arquitetos e cenógrafos, é o modo de organizar o espaço e a realidade de determinada maneira. Para outros, será um modo de tomar notas ou ainda de distrair a mente, como, por exemplo, desenhar flores durante as reuniões profissionais.

Almada Negreiros, um grande artista português que já não se encontra entre os vivos, disse que o desenho é o nosso entendimento a captar o instante.

Agora, uma confidência. Tentei várias vezes fazer pintura. Segui cursos em Academias em Bruxelas, experimentei várias técnicas, fiz quadros abstratos, realistas, tentei reproduzir os meus pequenos desenhos em grandes telas brancas e virgens. O resultado foi sempre desastroso. Eram quadros simplesmente horríveis. O fato de não dispor da liberdade para apagar, alterar, desenhar por cima, rasgar, faz com que a pintura não seja um modo de expressão adequado para mim.

DA – Mesmo nas cenas naturais ou urbanas, seu traço expressa um olhar que busca a paisagem como dimensão cultural, ou seja, uma vivência humana da perspectiva criadora do artista. Comente esse aspecto de seus desenhos.

RUI CAVALEIRO – Os meus desenhos estão ancorados à realidade. Pode ser uma paisagem, uma pessoa a dormir na praia, uma cena de uma velha fotografia, um cão a brincar. São imagens de outras imagens. É fácil verificar que muitos dos meus desenhos são cópias, reproduções, plágio (!) de outras obras. Parasito, assim, o trabalho de outros criadores.  Contudo, gosto de ser um intérprete da cena, mais do que um observador. Que emoções estão a experimentar os personagens, mesmo sendo eles animais? Esse é um ponto interessante para mim. Se tudo está ligado no universo, se podemos sentir em São Paulo os efeitos de um bater de asas de borboleta, em Lisboa, então, os elementos desenhados numa folha de papel também devem estar relacionados entre eles, com o passado, com o futuro, com o que está fora da folha de papel mas nela está sugerido.

DA – A arte do desenho e a literatura possuem uma longa história. Você tem expressado sua arte também com figuras de escritores e personagens literários, mantendo a relação desenho e literatura.

RUI CAVALEIRO – Esses desenhos são uma simples porta para entrar no Universo do escritor: podem ser uma ilustração da sua obra, como aqueles romances ilustrados do Júlio Verne ou do Alexandre Dumas, que enchiam a adolescência. Eu via o desenho e ia à procura do texto relativo a ele. Ou pode ser a resposta à pergunta: que pensava o criador quando escrevia aquelas ideias, que emoções experimentava ele? A literatura e a poesia são, assim, uma fonte inesgotável para os meus desenhos. Como diria o Mestre Almada Negreiros, limito-me à captação de instantes já passados.

DA – Muitos de seus desenhos expressam no plano figurativo a dimensão estética de poemas de diversos autores. Como é criar um desenho a partir de um poema?

RUI CAVALEIRO – É como entrar no poema e passar para o outro lado. Uma vez mais, é captar, numa folha de papel parecida com outra em que o poeta escreveu o poema, o instante em que o poeta o escreveu. Mas não esqueçamos que, como diz Pessoa, o poeta é um fingidor. Então, o desenho tem que ir além do poema, além do poeta. O desenho pode responder às perguntas: que acontecimento fez com que o poeta escrevesse isto?,  Estaria a chover no dia em que ele escreveu o poema? Estaria ele a falar a sério ou, mais uma vez, a fingir?.

DA – Qual foi a inspiração para a série de desenhos intitulada maternidade? O que você busca como artista ao expressar o nu feminino em seu momento progenitor?

RUI CAVALEIRO – Para o desenhista, o corpo humano é o princípio de tudo, a principal matéria-prima. Na pré-história, desenhavam mulheres grávidas seguramente para compreender o mistério da fertilidade, para agradecer aos deuses o fato da mulher ter engravidado, para assegurar que o nascimento fosse feliz.  É maravilhoso para um desenhista ter como modelo uma mulher grávida, observar as mudanças diárias, do corpo, da pele, imaginar as mudanças do pequeno ser que ela transporta dentro. Sente-se bem? Estará a dormir? O desenhista tem, assim, dois modelos num só e, ainda como brinde, a estória da criação do bebê pelo progenitor, ausente/presente na folha de papel. 

 

Desenho: Rui Cavaleiro

 

DA – Comente sobre a cena artística e os espaços para divulgação de arte em Lisboa.

RUI CAVALEIRO – Confesso que não estou muito metido nos circuitos artísticos lisboetas. Sei que a crise econômica, social, de valores que a Europa está vivendo deixa marcas na produção e comércio da arte em Portugal. O boom criativo e a especulação no mercado da arte terminaram.

Em Bruxelas era diferente. Tenho saudades das pequenas galerias, livrarias de ilustração e banda desenhada, onde ouvia jovens artistas discutirem projetos e outros a explicar os guiões das suas próximas obras. Em Lisboa, nunca consegui apanhar esse ambiente. Porventura, uma dificuldade minha.

Creio que as atuais condições sociais na Velha Europa são o adubo para novas expressões artísticas. As novas tecnologias digitais são um ótimo e eficaz instrumento, mas os grafitis nas paredes das cidades também.

DA – Acredita que, no sentido da originalidade, a ideia de aura do objeto artístico passou a ser uma utopia em nossos tempos? 

RUI CAVALEIRO – A originalidade da obra de arte continuará a ser uma exigência imposta aos artistas e o seu exercício de busca permanente. A tecnologia trouxe uma nova dinâmica para a criação artística. Depois, há um aspecto fundamental: as novas tecnologias e a agenda digital permitem ao artista contemporâneo uma experiência global de diálogo e interação com o público. Os jovens artistas aprofundam a relação entre Arte e Tecnologia, de modo a refletir e a fazer-nos refletir sobre as transformações desencadeadas na sociedade e as possibilidades de socialização dos processos artísticos. Isto é magnífico.

Todos os componentes clássicos da Arte continuam presentes, sejam eles estéticos, sociológicos, morais, religiosos, mercantis, pedagógicos. E as funções mágicas e rituais da Arte continuarão igualmente a poder ser cumpridas.

DA – Há muitos espaços de convergência a serem preenchidos através do papel da crítica de arte?

RUI CAVALEIRO – Veremos o que vai acontecer nos próximos tempos. A realidade mostra que grande parte da imprensa de arte que nos últimos anos constituía uma referência na literatura, pintura, fotografia etc., está a perder público, importância e influência. Isto é fruto de vários fatores, nomeadamente da crise nas vendas da imprensa escrita. Não podemos esquecer que os grandes grupos de mídia são propriedade de grandes grupos econômicos transnacionais, todos eles com uma estratégia global. Onde enquadrar aí os críticos independentes que examinam, comparam, enquadram, opinam e doutrinam? É complicado.

Têm que ser encontrados outros espaços, talvez cyber, com os quais as pessoas se identifiquem e colaborem interativamente, gerando ideias e movimentos novos.

Os críticos, como os filósofos, são fundamentais para indicar os vários caminhos que podemos escolher e percorrer…

DA – Vislumbra algum projeto artístico futuro?

RUI CAVALEIRO – Não tenho projetos concretos. Tenho, já prontos ou em esboço, três pequenos livros de ilustração que, porventura, um dia editarei se encontrar editor. Um deles tem o título de “O cabeleireiro de macacos”. Tenho sempre a vontade de ilustrar estórias de outros autores de quem eu me considere cúmplice. Veremos.

Rui Cavaleiro / Foto: Elsa Vecino

 

(Hilton Valeriano é professor de filosofia. Edita o blog Poesia Diversa)

 

 

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69ª Leva - 07/2012 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Estar no mundo é não passar impune pelas vias feitas de matéria e alma. É dizer mais: não fugir ao embate proporcionado por tudo aquilo que está encerrado nos mais distintos cenários. O olhar, esse intricado instrumento de inserção, é algo muito além de uma mera janela para a dimensionalidade do múltiplo que nos acomete. Ele parece ganhar mais sentido quando mexe nas densas tramas de que somos feitos, provocando-nos e direcionando nossas atenções para uma necessidade de rompermos com o óbvio e suas traiçoeiras armadilhas. E não há como se falar em provocação sem pensar em transgressão. Qualquer ruptura que se pretenda levar a cabo, traz em si mesma a perspectiva de uma coerência de propósitos, para que não reine sorrateira a sombra do discurso vazio.

No caminho das palavras, utilizar a transgressão como recurso criativo representa verdadeiro desafio a um autor, pois tal empreitada requer doses bem ministradas de lucidez e renovação do olhar. Tais atributos parecem se encaixar com precisão no modo de escrever da poetisa baiana Daniela Galdino. Dona de uma linguagem que sabe a instigantes percursos existenciais, Daniela sabe manusear palavras como quem lapida a pedra fundamental das nossas imperfeições. Com “Inúmera” (Editora Mondrongo), seu mais novo livro de poemas, a autora demarca, de modo especial, um lugar no mundo, fazendo convergirem sensações que dialogam com terrenos complexos da natureza humana. A obra pontua travessias feitas de delicadezas, intensidades e provocações, utilizando-se também de um apelo erótico muito bem posicionado frente às nossas dualidades e contradições. Ali, a multiplicação do “eu” é artifício valioso nas mãos da poetisa, fazendo com que, sob a forma de versos, contemplemos a possibilidade de sermos simultaneamente um e todos.  Com algumas participações em eventos literários, antologias e organizações de obras, Daniela também publicou “Vinte poemas CaleiDORcópicos” (Via Litterarum). Graduada em Letras (UESC), a autora é Mestre em Literatura e Diversidade Cultural (UEFS), Doutoranda em Estudos Étnicos e Africanos (UFBA) e professora de Literatura da Universidade Estadual da Bahia. No breve diálogo com a Diversos Afins, é possível constatar que estamos diante de uma criadora inquieta, cujo compromisso maior é nitidamente o de tecer vias que confiram significados consistentes ao que chamamos vida. Não há regras fixas para isso e Daniela aposta firmemente que, se hoje estamos aqui, é porque nos foi dada a capacidade de também desconfiarmos de tudo.

Daniela Galdino/ foto: Felipe Thomaz

DA – “Inúmera”, seu mais recente livro, devota atenções especiais a um lirismo feminino vigoroso, capaz de observar o mundo, este grande útero que guarda nossos acessos, com olhos de lucidez, provocação e algum mistério. Na gestação de tais versos, o que lhe parece mais inquietante?

DANIELA GALDINO – Inquietante, para mim, é viver. Dos trânsitos e transes cotidianos, capto a matéria de poesia, o combustível para “assustar palavras” e gerar imagens. Eu fico digerindo a vida, aquela por mim experimentada e também a supostamente experienciada por outras/os. A arte tem dessas coisas, não é mesmo? A possibilidade dos desdobramentos. “Inúmera” é uma galeria de pulsações. Eu já disse, numa brincadeira: as percepções ficaram doendo, pesando, cutucando, provocando a minha alma… Enquanto eu não devolvi essa provocação em forma de imagens poéticas, não tive sossego (risos).  Aí eu me lembro de Hilda Hilst: “Estou mais do que viva: embriagada.”

 

DA – Nos seus percursos criativos, a ideia da ordenação do caos interior lhe soa como algo atraente?

DANIELA GALDINO – Ao pensar numa resposta, recordo de outra poeta, Cecília Meireles: “a vida só é possível reinventada”. A ideia de “ordenação do caos” é muito sedutora, torna-se uma grande pretensão, um desafio delicioso. O que há de atraente nisso – a meu ver – é que não consigo atingir o grau máximo de ordenação do caos interior. Ou seja, a tarefa parece mesmo o trabalho de Sísifo, condenado a empurrar uma pedra até o cume de uma montanha, sendo que essa pedra rola novamente, provocando a repetição do ato. No entanto, segundo a leitura de Albert Camus, na cena intervalar Sísifo acentua a consciência e se revolta. Então, para mim, ordenar o caos anterior é uma tarefa que não cessa, que desafia o cotidiano. Não é o caos que gera a luz da estrela bailarina nietzschieana?

 

DA – Acredita na literatura como sendo um instrumento de transformação humana?

DANIELA GALDINO – A Literatura é a minha transformação. Lendo ou escrevendo literatura, eu experimento um desdobrar constante, “transito por rotas imprecisas”. Sempre brinco dizendo que acredito na Arte como forma de transgressão, e que se não for para transgredir de alguma maneira, melhor escrever manual de instrução, bula de remédio. Eu não acredito que o possível e a realidade sejam isso que o mundo nos oferece todos os dias via bombardeio de desejos pré-fabricados para consumo em larga escala. E por mover essa “descrença” acredito na força da expressão artística e na força da palavra literária, em especial. A Literatura é o descortinar de nós mesmos, a possibilidade de reescrever o possível. Ela é também a trapaça da linguagem e com a linguagem, como observou Barthes. Sendo assim, movendo sensibilidades, alterando olhares, desestabilizando mundos interiores, a Literatura transforma sim: a linguagem, em primeiro lugar. E como nós somos linguagem, somos alterados, transformados produzindo e lendo Literatura.

DA – Abraçar-se à transgressão seria, na verdade, negar os atalhos propostos pela dita pós-modernidade?

DANIELA GALDINO – Acredito numa poética do pós-modernismo nos termos colocados pela Linda Hutcheon. Aqui não quero fazer discussões acadêmicas ou enveredar por abordagens teóricas, mas do que Hutcheon apresenta, capto justamente os aspectos transgressores dessa poética pós-moderna, esse modo de constituir-se, de ser sendo: ser um/a forasteiro/a de dentro (ou adotar um “posicionamento duplo paradoxal”), investir no potencial da ironia para implodir a dita “arte séria”. Em termos artísticos, valorizo bastante o caráter ex-cêntrico, que significa estar na fronteira ou na margem e, ao mesmo tempo, provocar implosões nos modelos. Os discursos podem ser objeto de reapropriação constante – seja o religioso, o político, o literário… – e nesse jogo o que me interessa, nos exercícios de reapropriações e implosões, é revelar uma perspectiva diferente, brotar o inusitado no peito do leitor.

DA – Em “Inúmera”, a convergência masculino/feminino ganha um contorno bastante especial, como se ali tivéssemos a perspectiva de um novo gênero, sem amarras usuais. Como você percebe tal questão?

DANIELA GALDINO – Amarra é um termo que eu quis apagar em “Inúmera”. Essa convergência é perceptível mesmo, flutua na poética, sobretudo na segunda parte do livro, intitulada “É passeio abissal”. Ali estão os poemas deliberadamente eróticos, ali está o corpo despojado de rótulos – sobretudo livre do carimbo do pecado. O prazer é linguagem também, o corpo aparece numa outra cartografia (são “mapas distorcidos por cartógrafos loucos”, como no poema “Saudade amanhecida”) e, nesse novo estado, a fusão acontece. O inusitado brota já no poema “Obra de fricção”: “gosto de homens que tem buceta imaginária” / daquelas bem colocadas na coxa esquerda”. Eu desejei investir nisso, pois entendo poesia como recriação do real. E entendo a realidade comportando o invisível, o recriado (ou melhor, o recriando-se). Daí, o que você chama de fusão, ainda que tensa, é uma fusão. É tensa porque mobiliza forças que eram entendidas como díspares, o desafio fica sendo a constituição, a partir das imagens poéticas, de uma possibilidadecorporal, prazerosa, gozosa sem o punhal da violência simbólica; e muito próxima do refazer-se. Em “Inúmera” o corpo não é objeto.

DA – Acredita que a condição de ser mulher poeta tem algo a ver com uma certa busca por uma virilidade esquecida nalgum ponto da jornada?

DANIELA GALDINO – O que é ser viril? A quem pertence a virilidade? O dicionário diz que viril é aspecto próprio do universo masculino, uma condição do varão. O dicionário, enquanto espécie de lei, para mim, é insuficiente. Não foi Drummond quem disse: “as leis não bastam/ os lírios não nascem das leis/ meu nome é tumulto e inscreve-se na pedra”? Pois sim… Eu não busco a virilidade perdida – aquela do dicionário! Certa feita, um poeta (e interlocutor constante) me perguntou: “Daniela, você faz parte do grupo de autoras que escreve com a vagina?” Conheço bem esse poeta, ele queria me provocar, obviamente, e usou uma metáfora que, ao seu ver, era até mesmo pejorativa. O caso é que eu adotei essa metáfora, e a adoção foi ao meu modo: da vagina sai gente, quando não sai gente, sai sangue. Gente é vida brotando, sangue percorrendo os atalhos do corpo também é vida jorrando. Então, eu entendo que escrever com a vagina é imprimir vida às imagens poéticas. Gestar, colocar movimento, som, cor, cheiro, movimentar sensações. Isso é escrita viril? Não sei. Viril de vigor descamba no que acabei de dizer: vida. Mas eu confesso: não estou à procura de uma  “virilidade perdida nalgum ponto da jornada”.

Daniela Galdino/ foto: Milena Palladino

DA – Podemos suportar a civilização sem poesia?

DANIELA GALDINO – Repare bem.  Eu acho que o mundo, como nos é apresentado, e como foi construído (ou destruído) até então, é insuportável sem poesia. Essa é a minha posição, a forma como me lanço e reconstruo a realidade. No entanto, bem sabemos que essa postura não é nada consensual. Costumo repetir: “você já soube de algum caso de uma pessoa que enfartou porque passou 1 ano sem ler um livro de poesia? Alguém que definhou por falta de leitura poética?” Eu nunca soube de uma história assim, mas sei que o senso de “cidadania” e de “humanidade” fica diminuto quando muitas pessoas são impedidas de exercer o seu “poder de consumo”. Quem nunca se sentiu com um sinal de menos por não ter condições de adquirir as novidades mercadológicas para uma vida mais feliz, prática e confortável? Eu estou enveredando pela ironia…

A poesia não tem verdade(s) para professar, não é a chave para a resolução das nossas angústias, poesia não é autoajuda. Por isso mesmo, ela é necessária: dialoga com a nossa sensibilidade, desafia as formas usuais de entendimento do mundo, provoca a nossa humanidade. Compreendendo a poesia dessa maneira, eu repito: o mundo torna-se insuportável sem ela. Por isso leio poesia, por isso escrevo poesia. “Por uma vida menos ordinária pintamos o chão”, bradam os rapazes da Nação Zumbi – e eu faço coro com os descontentes.

DA – Somos facilmente seduzidos pelos apelos do consumo. No entanto, parece ser tarefa homérica atrair pessoas em torno da leitura. Na sua visão de educadora, o que podemos fazer? Acredita num caminho de formação de leitores?

DANIELA GALDINO – Acredito, sim. É o que move a minha ação como educadora, formadora de docentes. No entanto, há que se ampliar essa noção de leitura. Sou bem freiriana nesse sentido. Paulo Freire investiu na leitura de mundo como algo que precede a leitura da palavra, sendo componente fundamental na formação dos sujeitos. E a leitura de mundo comporta o para além da palavra. Se a gente ponderar isso com mais atenção, vai surgir um caminho para a formação de leitores de Literatura, por exemplo. A palavra literária é grávida de mundo, bem sabemos. E a leitura sensível é condição necessária para o trânsito pela linguagem literária.

Eu não tenho receitas para socializar, mas posso dizer que tenho encontrado pessoas por aí afora, nos mais diversos espaços sociais, atuando com vigor nessa área de formação de leitores – inclusive tendo as linguagens artísticas como grande aliada.

Agora eu lembrei de uma experiência de ciranda de leitura literária que ocorreu num acampamento (movimentos de luta pela reforma agrária) no sul da Bahia. A coisa foi simples e impactante: uma educadora (em formação) levou algumas obras literárias para socializar com a comunidade, no entanto, como muitos sujeitos não eram alfabetizados, essa jovem iniciou sessões de leitura coletiva, o que acentuou o senso comunitário. E as pessoas se emocionavam, se encantavam com as narrativas. Ao final da experiência, ao receber um prêmio concedido pela UESC (Universidade Estadual de Santa Cruz), essa jovem socializou o seu desvelamento: a sua família vive sob o barracão de lona, não havia energia elétrica, usava-se o candeeiro. Ela acordava de madrugada para ler esses livros. Depois, lia para os outros. Só depois disso ela afirmou entender que a estante de livros que existia na comunidade não era para enfeitar o barracão de lona preta. Havia vida ali.

Nessa trajetória recente de divulgação de “Inúmera” também vivi duas experiências muito marcantes. A primeira aconteceu em Salvador, no CEPAIA/UNEB, no dia do lançamento do livro. Foi um dia tenso, greve da polícia… Cheguei ao local do evento um tanto apreensiva e entrei no primeiro lugar disponível para ajeitar o figurino da performance (trabalho com essa linguagem). Num banheiro minúsculo encontrei Sanda, auxiliar de serviços gerais. Em meio àquela agonia toda, Sandra ia me dizendo: “nossa, eu gostei do teu livro. Nele a mulher pode tudo”. Imediatamente, perguntei: “mas como você sabe disso, se ainda nem lançamos o livro?”. Ela havia lido, de uma só vez, todos os poemas, aproveitando o descuido de alguém que esqueceu um exemplar sobre a mesa. Eu presenteei Sandra com “Inúmera”. E noutro dia, num samba, nos reencontramos e ela me disse: “olha, eu conheci homem com 16 anos, mas só fui gozar aos 25. No seu livro aprendi que gozar faz parte da descoberta da mulher. E muitas mulheres não têm a liberdade de gozar”.

A outra experiência foi em Olinda, no pós-carnaval. Num domingo cultural eu encontrei dona Conceição, professora aposentada, com formação em magistério. Ela deve ter, aproximadamente, 70 anos. Dona Conceição leu todo o livro, teceu comentários e me conduziu até a cozinha da pousada onde estávamos, fazendo questão de socializar os poemas com as cozinheiras. Aquilo me deu uma emoção retada, pois ver aquelas mulheres manuseando o livro, lendo os poemas com os seus trajes de trabalho, suas toucas e luvas, foi inusitado para mim.

Acho que histórias assim comprovam que a leitura da palavra – e da palavra literária em especial – não é um elemento de distinção, um privilégio de escolhidos. Ela é um direito social – e como tal deve ser trabalhada. Ler com olhos não convencionais, ler com o espírito, ler com sensibilidade independe de condição social.


DA – “Eu sou muitas pessoas destroçadas”, arremata em versos Manoel de Barros. Tal sensação também parece impregnar a poetisa Daniela. A ideia da fragmentação das personas a serviço do discurso poético alimenta o jogo dos estranhamentos?

DANIELA GALDINO – “Eu sou muitas pessoas destroçadas”. Eu sou leitora de Manoel de Barros. “Eu sou maior por dentro”, como está no poema Conselho Infantil… Mas eu penso nesse “eu” como uma conjugação de vários modos de ser. Isso escapa a qualquer forma de identificação da poeta Daniela Galdino – “Inúmera” não é um diário. Os vários modos de ser comportam as experiências alheias, sobretudo as femininas. É esse o mote do livro: “sou intrusa, sou inúbil, sou inúmera” – um exercício de multiplicidades conjugadas. A experimentação dos desdobramentos a que me referi anteriormente. Talvez aí resida a ciranda que o livro tem gerado. Frequentemente, recebo fotografias de leitoras/es de Inúmera.  São imagens de pessoas diversas (idosas, jovens, homens, mulheres, gays…) nas mais inesperadas situações, manipulando o livro em cenários próximos (Brasil) e distantes (terras estrangeiras). O que me surpreende e encanta, nessas imagens, é que as pessoas perdem o pudor: se deixam fotografar em locais públicos, diante de monumentos, locais turísticos, na intimidade da cama (com o/a parceira/o).  Já houve até uma sequência de fotos com nu artístico – e o mais belo de tudo: são pessoas que até então nunca haviam experimentado a nudez dessa maneira. Não preciso dizer que isso me encanta bastante. Essas imagens, antes de tudo, revelam essa conjugação dos diversos modos de ser sendo.  Elas são belas porque surpreendem, são fortes porque impulsionam que outras/os entrem na ciranda. Nos estranhamentos a gente se reconhece.

DA – Entre palavras e percursos humanos trilhados, no que acredita a operária das ruínas Daniela Galdino?

DANIELA GALDINO – Sou entusiasta das artes, amante do invisível, concubina do inusitado. Também flerto com as realidades minúsculas e, ao mesmo tempo, sou uma megalomaníaca convicta. No que acredito? Acredito que tenho que manter a minha desconfiança perante as certezas perenes… Quem sabe daí sai o alimento para recriar mundos – aos menos os meus mundos interiores…

Eu respondo novamente com Hilda Hilst:

“Bebendo, Vida, invento casa, comida /E um Mais que se agiganta, um Mais / Conquistando um fulcro potente na garganta / Um látego, uma chama, um canto. Amo-me. / Embriagada. Interdita. Ama-me. Sou menos / Quando não sou líquida”.

 

 

Daniela Galdino/ foto: Milena Palladino

 

 

– TRÊS POEMAS DE “INÚMERA” –

 

OBRA DE FRICÇÃO

 

Gosto de homens
que têm buceta imaginária
daquelas bem colocadas
na coxa esquerda.

Gosto de homens
aventureiros da carne e do osso
daqueles que vibram
com o encontro das nossas bucetas.

Esses homens incomuns sabem,
no relincho do segundo,
no piscar do silêncio,
que eu explodo blasfêmias
com a voracidade vulcânica.

Esses raros homens sentem,
no calor da obra friccional,
que na dessemelhança
da minha realidade
nada é mera coincidência:
primeiro, o diálogo de bucetas.
Depois, a penetração por trás.

 

 

ARDIL

 

recolher
a matéria
que é de
silêncios:

eu não
quero
levantar
a palavra
em vão

porque…

quando
eu falar
irão
despregar

todas
as estrelas
do meu
céu da boca.

 

 

PROCISSÃO LUNAR II

 

Veste o teu hábito de penumbra
afasta aromas de naftalina
orna a fronte com um véu opaco
flutua como uma noiva que não foi.

Abre a gaveta da memória
traze aquela laço delicado
vede a seda já sem brilho:
com ele secarás a lágrima da santa.

Levanta dos precipícios de silêncio
toma o fôlego aos ventos esparsos
ergue o andor pesado das esquecidas
nele estarão teus sonhos mofados

Vede o tempo que escorre
ouça: estás em atraso.
sinta a lacuna, crede: a vida
é uma procissão que não sairá.

 

 

“Inúmera” está disponível para compra no site da Editora Mondrongo


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68ª Leva - 06/2012 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Navegar é preciso, viver não é preciso, apregoavam sabiamente os versos de Fernando Pessoa. E pedindo a devida licença ao poeta lusitano, eis que nos é possível manipular a frase para indicar algo que parece ser imperativo em nossa contemporânea idade: realizar é preciso. No entanto, é mister de qualquer autor que se preze a perspectiva da ação acompanhada por critérios que signifiquem um compromisso consistente com a qualidade. Indo mais além, é possível um subverter do arremate “viver não é preciso”, transformando-o numa apreensão ampla do existir, fazendo com que cada palavra expelida em texto seja a necessária afirmação do sopro vital. Qual motivo perene de se estar no mundo, o exercício da criação mostra-se assim, envolto na percepção de que o todo circundante, com toda a sua sorte de abstrações possíveis, é instrumento inalienável nas mãos de um escritor.

Fazendo uso apurado de recursos que derivam de um olhar sensível da existência, o poeta José Inácio Vieira de Melo  reúne muitos dos atributos relatados até aqui. Alagoano de nascimento, o autor elegeu a Bahia como morada e muito de sua obra está impregnado daquilo que podemos chamar de memória dos lugares. Em sua expressão poética, José Inácio deixa coabitarem pacificamente paisagens físicas e humanas, fazendo com que a reafirmação da vida pontue de modo bastante especial a trajetória de seus versos. Vestido com a armadura de suas letras, eis que o poeta busca, na simplicidade bucólica de suas imagens, um caminho sublime para a criação. O autor de livros como Decifração de Abismos, A Terceira Romaria, A Infância do Centauro e Roseiral agora está prestes a nos abrir as cancelas poéticas de Pedra Só, seu mais recente fruto literário, e que será lançado em setembro próximo pela Escrituras Editora. E foi para falar um pouco sobre sua nova criação e outros tantos assuntos intimamente ligados ao ofício das palavras que o poeta gentilmente acolheu a Diversos Afins para uma valiosa conversa. Adentrando a soleira dos seus domínios feitos de versos, o cavaleiro de fogo José Inácio Vieira de Melo, como também é conhecido, desfila suas ideias tendo nos olhos o brilho necessário do encantamento pela vida.

 

José Inácio Vieira de Melo por Ricardo Prado

 

DA – O traço essencial de sua poesia é marcado por um universo feito de imagens, atravessando paisagens humanas e estabelecendo uma íntima relação com um sertão de memórias. O que dizer dessa gênese de palavras?

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – O que dizer? As palavras me escolheram ou eu as escolhi? A paisagem poética da minha poesia tanto é uma paisagem que observo como também é a paisagem na qual estou inserido. O meu Sertão é o Tao do Ser de um ser tão perplexo e deslumbrado com a existência. Sinto que a minha criação está intrinsecamente ligada às minhas origens geográficas e humanas, embora saiba que esses fatores não são determinantes. A minha poesia é feita fundamentalmente a partir do que vivi e do que vivo. Vivencio a poesia de cada momento. Como diz a minha poeta de cabeceira, Cecília Meireles: “Eu canto porque o instante existe”.

 

DA – A porção existencialista de seus versos ganha uma dimensão toda especial num livro como Roseiral, obra que exala o vigor de mistérios humanos. Em que medida as palavras denunciam o espanto de se estar vivo?

JIVM – As palavras, dentro da poesia que faço, não buscam outra coisa que não seja dar expressão ao meu sentimento. E o meu sentimento de perplexidade é enorme, é absurdo e não suporta amarras. No livro Roseiral fui tomado por uma revolta que desconhecia. Agi com uma carnalidade instintiva, portanto os impulsos da minha escrita sobrepuseram, muitas vezes, qualquer tentativa de contenção de linguagem e ou de um formalismo comportado. Então, as palavras buscam denunciar, em sua potencialidade, todo espanto do meu ser diante da imensidão do Cosmo. É como está lá no Roseiral, no poema “Rosa viva”: “Minhas palavras ardem a forjar/ estas flores que canto por prazer/ e que dão febre e fazem delirar”.

 

DA – A capacidade de transcendência é o grande trunfo de um poeta?

JIVM – Há muitos poetas que nem sequer acreditam em transcendência, como é o caso do meu amigo Luis Antonio Cajazeira Ramos. Para o grande poeta, autor do magnífico livro Mais que sempre, essa conversa de transcendência é papo furado. Agora, é impossível de se imaginar o poeta Jorge de Lima sem os delírios de fé, sem o fervor da transcendência poética e sem as epifanias. Pois bem, sou da estirpe de Jorge de Lima. A transcendência é a minha glória. Por conta do sentimento do sagrado e do sublime é que me afino tanto com poetas como Gerardo Mello Mourão, Santo Souza e Francisco Carvalho, assim como com outros bem mais jovens, como a Mariana Ianelli e o Alexandre Bonafim.

 

DA – Mesmo aguçadas doses de lucidez e racionalidade poderiam não ser suficientes para afastar os efeitos, se é que seja possível considerar assim, místicos das palavras. Você crê numa perspectiva de transformação humana através da literatura?

JIVM – A palavra tem efeito místico para quem é místico, para quem tem espiritualidade. Como Novalis, acredito que “a poesia é a religião original da humanidade”. Todos nós estamos em constante processo de transformação, portanto tudo contribui para a nova conformação do ser em processo. A literatura amplia os horizontes, traz novas possibilidades, é uma fonte de conhecimento. E o conhecimento é caminho de transformação.

 

DA – Que aspectos você considera como sendo os mais importantes na construção de um debate sobre a poesia contemporânea?

JIVM – A poesia contemporânea é a que está sendo feita a todo instante, portanto é algo que está em constante processo de transformação e não adquire uma conformação com limites bem delineados, visto que a cada dia surgem novos poetas. Se a intenção do debate é fazer uma análise crítica atribuindo valoração, há de se fazer um recorte, pegando a produção de um determinado período, na qual já seja possível identificar alguns aspectos estéticos consolidados. A partir da constatação, levantar questões, fazer comparações e aproximações com o que veio antes, com o que já está estabelecido, ou seja, com os cânones. Confesso que estou muito mais propenso a criar circunstâncias para a divulgação da produção dos poetas que estão surgindo, através da publicação de livros e da participação dos poetas em projetos que promovam a leitura dessa produção. O tempo é o grande definidor daquilo que terá uma permanência maior.

 

DA – Atualmente, a múltipla apropriação do verso livre parece causar uma falsa sensação de que fazer poesia é algo fácil. Nesse sentido, a criação poética não anda um tanto banalizada?

JIVM – Não me alio aos puristas. Quanto mais pessoas existirem praticando seus versos, melhor. Não estou defendendo quantidade, prezo pela qualidade. Mas fico muito contente quando vejo alguém alçar voo no seu delírio e escrever um poema, por mais ingênuo que seja. Na verdade, o que me desagrada mesmo são os pretensiosos – aqueles que se arvoram de grandes poetas e que passam a ditar seus conceitos minúsculos e a determinar o que é bom e o que é ruim, a partir de seu gosto pessoal.

O verso livre é o mais acessível, pois qualquer um pode escrever uma estrofe composta de linhas irregulares e dizer que é um poema. Que maravilha! Sabemos, porém, que fazer poesia com versos livres é bastante complicado, pois requer muita habilidade por parte do poeta, visto que cada verso tem sua medida e que, ainda assim, é preciso construir um ritmo que reja a peça como um todo. De vez em quando, leio alguns poetas que se vangloriam de só fazer e apreciar poesia medida e rimada. E ainda têm a petulância de afirmar que se não tiver esses atributos técnicos, não é poesia. Uma afirmação dessa natureza, para mim demonstra uma grande limitação.

Que bom que as pessoas estejam cada vez mais escrevendo versos, publicando-os em seus blogs ou em coletâneas. Agora, se o sujeito, realmente, está interessado em seguir pelo pedregoso caminho da arte, e, como diria Jorge de Lima, for um assinalado, ou ainda no dizer de Ruy Espinheira Filho, for um fatalizado, perceberá que a coisa não é fácil não! E investirá a maior parte de sua vida em leituras e no exercício constante da escrita. Ou então, os que buscam facilidades, logo desistirão ou continuarão, por algum tempo, escrevendo algo que não repercutirá.

Quem leva a poesia a sério, está sempre a ler poesia, está sempre a buscar seu caminho, na tentativa de encontrar e de aperfeiçoar sua dicção poética, seu ritmo, seu verso. Sabe que é um compromisso para toda a existência. E também tem consciência de que pouco, ou nada, terá de recompensa. Quem faz poesia pensando em ter um grande reconhecimento está fadado a sofrer decepções por toda a vida.

 

DA – Talvez seja muito cedo ainda para se falar na consolidação de uma nova geração de poetas, mas, na sua opinião, o que será fundamentalmente necessário para que isso ocorra?

JIVM – Realmente, é muito cedo. O que será fundamentalmente necessário? Que os poetas continuem fazendo poemas, publicando seus livros e que o tempo passe… Com o passar da peneira do tempo, inevitavelmente, essa nova geração que você menciona se configurará.

 

DA – Você tem um engajamento muito intenso no que se refere à articulação de eventos, nos quais estão envolvidos, sobretudo, novos autores. Como é que se dá essa aproximação com tais escritores e quais são as características que, a seu ver, pontuam com mais ênfase as letras destes criadores?

JIVM – É que vejo muita gente reclamando, lamuriando-se, choramingando. No entanto, são poucas as pessoas que têm a coragem de fazer alguma coisa. E aqueles tantos que choramingam e reclamam são os primeiros a encontrar defeito nas atividades que são realizadas. Eu sempre me coloquei no lugar de fazer as coisas. De buscar alternativas. Os projetos que realizo não contemplam, sobretudo, jovens. Dão oportunidades a poetas de todas as faixas e vertentes. Desde 2001 que venho coordenando eventos e, na medida do possível, tento contemplar a diversidade da poesia baiana. É claro que sempre há os insatisfeitos, que são aqueles que acham que deveriam ser sempre convocados, por se atribuir um valor que efetivamente não têm. Outros nunca serão sequer mencionados, porque não vou me envolver com delinquentes nem muito menos com canalhas, elementos que com certeza vivem apenas em função da destruição. Esses, para mim, não existem. E pronto! E ponto! Que façam seus eventos, que arrebanhem multidões para a sua pretensa alta poesia. Eu não dou a mínima. Há meia dúzia de desesperados que vivem tentando achincalhar as coisas que faço. Berram, ciscam, bufam, gemem, ganem e eu continuo na minha caminhada. O engraçado é que toda vez que esses pobres diabos tentam me prejudicar, imediatamente acontece algo muito bom para mim. É sintomático. De modo que me dão sorte. São um amuleto.

Mas voltando a responder a sua pergunta, os projetos que coordeno, na sua maioria são voltados para a poesia brasileira contemporânea, com destaque para a poesia baiana. E repito, não são voltados principalmente para novos autores, mas para os poetas em geral. Já coordenei projetos em Salvador, Maracás, Planaltino e Jequié. Levei poetas baianos da geração sessenta, como Florisvaldo Mattos, Myriam Fraga, Antonio Brasileiro, Maria da Conceição Paranhos, Ildásio Tavares, Ruy Espinheira Filho, e da geração oitenta, como Roberval Pereyr, Luis Antonio Cajazeira Ramos, Aleilton Fonseca, Douglas de Almeida e Walter Cesar. E vários poetas de outros estados, apenas para citar alguns: Mariana Ianelli (SP), Salgado Maranhão (MA), Marize Castro (RN), Alexandre Bonafim (MG), Astrid Cabral (AM), Antonio-Mariano Lima (PB), Neide Archanjo (SP), Raimundo Gadelha (PB), Helena Ortiz (RS), Wilmar Silva (MG), Igor Fagundes (RJ), etc… Como vê, são muitos e, dos que citei, apenas três podem ser considerados jovens poetas, a Mariana Ianelli, o Igor Fagundes e o Alexandre Bonafim, mas cada qual tem ao menos quatro livros publicados. Citei esses nomes apenas para comprovar que também destaquei os poetas já reconhecidos e com uma obra já sedimentada. Com isso não quero passar a imagem de que não valorizo a produção dos jovens. Sempre busquei dar o mesmo espaço para todos. Claro que alguns se destacam mais. Isso vai da força da poesia de cada um e da sua desenvoltura com o público. Mas se abri espaço para autores que já têm um certo reconhecimento e que já obtiveram importantes premiações, tentei e tento mostrar ainda mais os poetas mais jovens. A diferença é que em relação aos mais jovens, além de projetos, organizei coletâneas envolvendo-os. Em 2004 organizei uma coletânea com 15 poetas da minha geração, que hoje já não são mais tão jovens, refiro-me ao Concerto lírico a quinze vozes. E hoje, parece-me que a maioria já está bem situada na literatura baiana, alguns até com certa repercussão em nível nacional. Creio que, de modo geral, acertei nas minhas escolhas. Mais recentemente, em 2011, organizei a coletânea Sangue Novo, que reúne 21 jovens poetas – esses sim, bem jovens – todos nascidos a partir de 1980. Nesses trabalhos busquei apenas promover o encontro de vozes que andavam muito dispersas, na tentativa de promover um diálogo da poesia que anda sendo feita na Bahia. Repare, não me refiro a um diálogo sobre a poesia, mas da poesia propriamente dita. Alguns poetas, já conhecia pessoalmente, outros mandaram seus primeiros livros para mim. Boa parte, encontrei em blogs e nas redes sociais. A meu ver, o que mais aproxima esses jovens poetas, em geral, é um acentuado lirismo e o diálogo com outras linguagens artísticas, sobretudo com a música pop e com o cinema. Na maioria, são estudantes ou professores de Letras ou de outros cursos das ciências humanas. Poucos cultivam o verso medido, embora alguns tenham pleno domínio das técnicas de metrificação. Enfim, são poetas de uma época de fragmentação de identidade, em que se fala de uma aldeia global, onde os encontros são virtuais e os grandes acontecimentos mundiais são assistidos em tempo real. Sem dúvida, esses adventos tecnológicos interferem na criação de qualquer artista, não apenas desses novos autores.

 

DA – O que definitivamente você não endossa na dita pós-modernidade?

JIVM – Não endosso essa nomenclatura “pós-modernidade”. Agrada-me o termo “contemporaneidade”. Mas, no fim das contas, não muda nada. No mais, quem sou para endossar ou não alguma coisa nesses tempos pós-modernos? Vivo muito à margem de tudo, embora esteja quase sempre conectado. As minhas atividades, boa parte delas, acontecem em casa mesmo, digitando nas teclas de um PC ou de um notebook. Quando não estou em casa, vou para a minha roça, a Pedra Só, um lugar onde não tem sequer energia elétrica nem água encanada, onde fico completamente isolado de toda essa parafernália tecnológica. E como é bom, depois de um dia no campo, lidando com gado, andando a cavalo, poder chegar em casa, deitar numa rede e ler um bom livro, tendo a certeza de que nenhum telefone vai tocar nem ninguém vai aparecer para atrapalhar. Nada de televisão, nada de rádio, apenas o canto dos pássaros. Sem contar que a brisa do Sertão traz um sentimento tão profundo e mágico que a gente fica sem saber o que diabo é pós-modernidade. E quando chega a noite, ah meu irmão, aparece uma roça de estrelas no céu que não há conceito que possa abranger a sua imensidão… E se é noite de lua cheia, a epifania é certa. Pois bem, a pós-modernidade tende a desmistificar todo esse meu discurso arcaico por um processo de desconstrução e bla bla blá. A única coisa que pretendo sempre endossar é o rumo dos meus passos e os matizes de minha poesia. O que sei eu da pós-modernidade?

 

DA – Pedra Só, seu mais recente livro, está prestes a ser lançado. Quais percursos demarcam de modo especial esse seu novo rebento literário?

JIVM – O Pedra Só é o meu livro mais autobiográfico. Revestido de tons épicos, flertando com a linguagem bíblica, traz um longo poema dividido em 27 partes, que está no capítulo de abertura e que nomeia o livro. Como já ficou claro na resposta anterior, Pedra Só é o nome de uma fazenda, onde tenho o privilégio de passar uma parte de meu tempo. É a partir desse lugar, a Fazenda Pedra Só, no Sertão da Bahia, que invento um entrelugar, de mesmo nome, para dar evasão aos meus delírios poéticos. Então, frequento os lugares mais recônditos e inóspitos da minha memória, buscando o barro fundamental – a poesia primeva – para fazer a ligação do meu ser com a arte e criar meus poemas. Quem leu meus livros sabe que a temática campesina sempre esteve presente na minha produção. A crítica também tem dado muita ênfase neste aspecto. No livro anterior, Roseiral, é que dei uma acentuada no erotismo e nos matizes surreais. Pois bem, agora faço um movimento de retorno às origens sertânicas com uma intensidade que até então não havia experimentado, é assim no “Pedra Só” e também no segundo capítulo, intitulado “Aboio Livre”. O terceiro capítulo é o “Toada do Tempo”, em que uso com mais frequência o verso medido e que situa o poeta dentro do tempo, medindo sua finitude e, paradoxalmente, percebendo-se atemporal. A quarta seção, chamada “Partituras”, é onde aparecem as cantigas e os cânticos de louvor. E, por derradeiro, o capítulo “Parábolas”, em que acentuo o surrealismo, tentando criar uma esfera fantástica, impregnada de misticismo, que encerra o livro. Esses são, em linhas gerais, os caminhos da Pedra Só.

 

DA – Para além do poeta, o que busca o homem José Inácio Vieira de Melo em sua teima com as palavras?

JIVM – Não há, em mim, uma separação entre o homem e o poeta. Não estou poeta. Eu sou poeta 25 horas por dia. O bom da jornada é caminhar… Não sei se para o bem ou se para o mal, não sou um ser pragmático. E sinto que as finalidades limitam muito as experiências. A minha teima com as palavras é, em todas instâncias, por necessidade de expressão. Se não estiver em contato com os signos, reordenando-os para encontrar novos significados, para despertar emoções, a existência fica sem sentido. Então o que busco são os caminhos… E eles sempre surgem. E a minha teima é caminhar – um passo depois do outro, sempre, sempre –, contemplando a paisagem, inventando paisagens, sendo a paisagem.

 

José Inácio Vieira de Melo por Ricardo Prado

 

 

– TRÊS POEMAS DE “PEDRA SÓ” –

 

Escrituras

 

Eu chego no silêncio que acende
as quatro ferraduras do tempo
e encontro a inesgotável jazida,
catedral do rubi que me habita.

Na madrugada, sonho com os rumos,
gesto que inventa o cristal das palavras,
surpreendendo as pedras com a chuva
a derramar a escritura sagrada.

Agora, apenas ando com os pássaros
a escutar as belezas desta terra
e sustento as parábolas salvíficas
com esta medula que me carrega.

Escuta, dos confins do longo dia,
a noite a chegar – cortina de versos
que revelam as estrelas de abril
aos meus olhos pasmos de tanto ver.

 

A pupila de Narciso

 

Vestido com a graça da Lua,
um cisne no lago do espaço.

Padece o poeta aos pedaços
no espelho límpido das águas.

Narciso que cintila perdido,
buscando no rosto uma casta.

Até que na espuma dos tempos
salva a legião de afogados.

 

Aurora

 

A liberdade do crepúsculo tremula.
Escuto o alarido dos pássaros do Sertão.

Debruço-me no ninho do Cosmo.
Minhas mãos trabalham no vazio.

Minhas mãos trabalham na imensidão.
Longa batalha em busca da beleza.

Da boca dos pássaros, os violões do Sol.
Rezo benditos e grito os nomes da Terra.

Contemplo a mansidão do silêncio que voa.
As minhas sandálias são feitas de aurora.

De meus dedos esplendem labirintos.
Meu caminho é o strip-tease da solidão.

 

 

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67ª Leva - 05/2012 Destaques Outras Levas Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

W. J. Solha - arquivo pessoal

Saber adentrar com maestria as searas do tempo pode significar um atributo deveras valioso a um autor. Na dinâmica das experiências vividas, a capacidade de reter instantes significativos em matéria de criação e depois lhes emprestar sentido, seja em palavras ou imagens, é tarefa especial. É então que o binômio saber e sabor, com a sua magnitude peculiar, perfaz a incerta estrada da criação para depois consolidar uma obra que se pretende autêntica e consistente. Ao pensar numa característica como esta, logo entendemos porque a trajetória de um alguém como W. J. Solha traduz perfeitamente tudo o que foi dito anteriormente. Esse paulista, radicado na Paraíba há alguns bons anos, lapida, a cada passo dado, uma condição diferenciada frente ao universo da arte. Verdadeiro multimídia, Solha assumiu papéis diversos no palco da vida, notadamente dentro das feições de escritor, artista plástico e ator de teatro e cinema. Em cada um deles, soube extrair do tempo os instrumentos necessários ao seu caminho.

No campo da escrita, o traço de W. J. Solha é inconfundível, sendo que a referência a aspectos importantes do percurso vivo de nossas humanas idades pode ser imediatamente reconhecida por quem se permite percorrer os olhos sobre suas letras. O autor de livros emblemáticos como Israel Rêmora (Romance), A Canga (Romance), História Universal da Angústia (Contos) e Relato de Prócula (Romance), dentre outros, agora nos oferta Marco do Mundo, obra que integra uma trilogia poética iniciada a partir de Trigal com Corvos. Assim como seu antecessor, Marco do Mundo se utiliza da perspectiva do poema longo, concatenando de modo preciso e envolvente uma estrutura de versos dotados de complexidade. A ideia do poeta face à angústia da criação é, sem dúvida alguma, o grande trunfo do livro. Some-se a esse aspecto o vigoroso painel de acontecimentos ligados à história da humanidade e que ajudam, sobremaneira, a erigir uma babel de alicerces poéticos bastante sólidos.  Na conversa que agora segue, Solha fala sobre seu novo rebento literário, a opção por uma certa independência editorial, o porquê de ter deixado a pintura, além de alguns outros assuntos que permeiam suas andanças pelo terreno cultural.

 

DA – Logo em seu princípio,  “Marco do Mundo” prepara o leitor para uma verdadeira incursão na complexa tarefa do fazer poético. A sensação ali é de que o escritor, antes de parir seus versos, se depara com um fosso abismal de proporções gigantescas, qual seja o mistério da criação em carne viva. Quem escreve é, de fato, um atormentado?

W. J. SOLHA – Criar, para mim, é um tormento. Renoir dizia que somente pintaria enquanto isso lhe trouxesse alegria. Feliz dele. Sofri tanto com os pincéis, que acabei por abandoná-los. Deixei de fazer teatro pelo mesmo motivo. E sofri como o diabo para interpretar meus papéis em O Som ao Redor – de Kléber Mendonça Filho – que está fazendo bela carreira no exterior, desde a estreia no começo de fevereiro, no festival de Roterdã, e sofri do mesmo modo no Era uma Vez Verônica, de Marcelo Gomes, ambos rodados no Recife. Não sei se dói mais assumir outra alma,  como ator, ou criar uma nova, escrevendo. Porque é aquilo que diz Fernando Pessoa: Sê todo em cada coisa. Põe quanto és No mínimo que fazes. A diferença é que a literatura, a poesia, exige isolamento. Com a vantagem de que você é responsável apenas por você mesmo, quanto ao resultado que irá alcançar. No cinema, não: tem-se que pensar coletivamente. Atrás da câmera que faz um close seu, há quarenta pessoas trabalhando. No filme de Marcelo ainda havia um agravante: o apartamento de meu personagem ficava na Conselheiro Aguiar, a segunda  rua  depois da avenida Boa Viagem, com um trânsito enorme. E cada vez que eu e Hermila Guedes tínhamos uma cena em casa, o Detran parava o tráfego lá fora, pense no que significa isso. E o ator não só se arrisca, como arrisca a obra de alguém que é maior que ele, naquele momento: o diretor. Mas você percebeu bem: quando resolvi escrever o Marco do Mundo senti o salto que teria de dar. Tenho um quadro meu, antigo, em que se vê uma paisagem enorme, com um despenhadeiro altíssimo, e, lá em cima, inebriado pela beleza do que vê, um menino dá um salto, completamente nu, no imenso vazio.

DA – Aos poucos, “Marco do Mundo” vai edificando cada andar de uma tresloucada Babel, aglutinado uma profusão de seres das mais distintas eras. Como tecer a trama dos versos face a tais provocantes humanas idades?

W.J. SOLHA – Eu ainda não tinha a ideia de fazer um poema longo tipo marco, na linha de cordelistas como Ataíde e o Leandro Gomes de Barros, quando vi, mentalmente, a cena em que um contêiner se aproxima de uma torre em construção, trazido por um guindaste, e dele sai para ela, a fim de lhe ser um dos andares, uma noturna e esfuziantemente iluminada Quinta Avenida, de Nova Iorque, com todo seu trânsito e arranha-céus, ao som do clarinete da Rhapsody in Blue, do Gershwin. A essa imagem espontânea seguiram-se outras, como a de outro contêiner chegando, este trazendo uma manada de baios “sob uma nuvem que a bombardeia de raios”, outro vindo com o Arthur Bispo do Rosário e suas centenas de obras de arte, ele no Manto da Apresentação que criou para seu encontro com Deus, “que lá vem, Deus, apesar dos ateus, com tutti quanti angeli et archangeli”. Aí foi inevitável fazer vir com Arthur o Poeta do Absurdo, Zé Limeira, e me atrever a uns versos na linha dele. Na verdade, só a fascinação que tenho pela poesia do Limeira (ou dos que a criaram com seu nome) poderia me deflagrar a grande libertação poética que é o Marco do Mundo, como ele acabou se tornando uma espécie de repto aceito para superar os cordelistas, embora sem me servir do cordel, na loucura criativa que foram suas próprias babéis, publicadas em 1915 e 16 – o Marco do Meio do Mundo e Como Derribei o Marco do Meio do Mundo. Evidentemente, isso acarretou uma desenfreada farra de rimas de todos os tipos imagináveis, dentro de um ritmo alucinatório, com a intenção de induzir o leitor a acompanhar tudo como num filme – sem interrupções.

W. J. Solha - arquivo pessoal

DA – Dentro do percurso escolhido por você, é interessante pensar na noção de poema saga, fundada desde “Trigal com Corvos”. De que modo esse raciocínio consolida o propósito da trilogia?

W. J. SOLHA – A ideia é que em Trigal com Corvos centrei o mundo em mim. O poema longo foi gerado por  minha angústia ante a obra a ser feita e que não me saía, de modo algum, satisfatória. O Marco do Mundo é uma visão da História que ocorre mesmo com a minha ausência. E agora estou trabalhando no Homem, daí o Ecce Homo, que é um título provisório. No entanto, assim como o Marco do Mundo não começou com a ideia que dominou depois, nele, não fiz o Trigal já pensando em três poemas longos formando um complexo poético. Como também não fiz as partes que compõem minha História Universal da Angústia (Bertrand Brasil, 2005) pensando numa coletânea. Tinha feito meus romanceamentos do Édipo e do Hamlet, um conto longo sobre o Rei Saul, outro sobre o menino Parsifal, e percebi, de repente, que estava trabalhando apenas com grandes angustiados. Daí a lembrança da História Universal da Infâmia do Borges e o título que enfeixou tudo.

DA – Algo serviu de modelo para “Marco do Mundo”?

W. J. SOLHA – Sempre tive fascínio pelo making of de um grande filme, pela análise como a que Ernest Jones faz do Hamlet, ou da criação de O Corvo, feita pelo próprio Poe, ou das traduções deste poema, feita por Ivo Barroso.  Daí que resolvi que faria parte do Marco do Mundo a própria criação do Marco – fictícia, é claro – com o Poeta aparecendo como seu próprio personagem, que não sou eu, declarando sua poética e a luta para superar os cordelistas autores de marcos anteriores, luta que faz parte, aliás, das características dos marcos.

Muitos disseram que o Marco do Mundo é inanalisável – Ivo Barroso,  Ruy Espinheira, Nilto Maciel – pelo que adianto a informação de que fiz o poema longo motivado pelo surrealismo que sempre existiu, independentemente de Breton-Dali, como no caso de nossos cordelistas Ataíde e Leandro Gomes de Barros com seus marcos, de Bosch e Brueghel com seus quadros no  século XV, de Apuleio com seu Asno de Ouro no século II, e todas as religiões e/ou mitologias, em que Mercúrio voa, Moisés abre o Mar Vermelho, Jesus anda sobre as águas e multiplica pães e peixes, ressuscita os mortos, enquanto em nossas matas pululam sacis, curupiras e mulas sem cabeça. Jung dizia que as artes, religiões e sonhos provêm da mesma região de nossas mentes. Acredito nisso.

DA – Seus dois últimos livros são fruto de uma postura editorial independente, através da qual você mesmo driblou possíveis amarras e bancou a publicação de ambos. Foi melhor assim?

W. J. SOLHA – O que você acha? Estou pagando para escrever. Desde meu romance Relato de Prócula – que só saiu pela editora A Girafa quando me comprometi a comprar, dela, 500 exemplares, isso vem acontecendo. Ganhara a bolsa da Funarte com ele, para produzi-lo, ganhei, depois, um dos prêmios da UBE-Rio, mas nada disso adiantou. O fato é que W. J. Solha somente é ator de cinema, somente foi artista plástico, somente foi dramaturgo, somente é poeta… Porque existe um prosaico Waldemar José Solha, que trabalhou no Banco do Brasil por 28 anos para – como um mecenas – sustentá-lo.

DA – Dada a confissão que você fez agora, o que mais o impele a prosseguir?

W. J. SOLHA – A certeza de que o mecenas – o bancário aposentado Waldemar José Solha – sabe o que está fazendo, ou a Paraíba não teria, até hoje, seu primeiro longa-metragem, nem a UFPB teria um painel de 7,20 m de largura, composto de 36 telas – homenageando Shakespeare, nem o teatro de João Pessoa teria tido, entre os anos 86 e 90, nenhum espetáculo com texto e direção de W. J. Solha. O que pode não ser grande coisa, mas era o que havia para ocupar um vazio enorme enquanto não chegava Luiz Carlos Vasconcelos pra escrever e dirigir “O Vau de Sarapalha”, que repercutiu Brasil afora e nas estranjas.

DA – O cinema tem feito parte especial de sua vida há muito tempo. Muito do que você escreve tem, por sinal, um forte apelo imagético. Que balanço você faz dessa sua íntima relação com a sétima arte?

W. J. SOLHA – Hemingway dizia que frequentava os museus para aprender a escrever. Realmente, como me dediquei à pintura desde menino, a imagem tem sempre uma forte presença em tudo o que escrevo. Muitos, muitos de meus versos provêm de fotos de quadros ou simplesmente de fotos, pois tenho muitos livros sobre Arte e Fotografia. Mas a dinâmica de meus poemas e romances derivam do cinema, sim. Eisenstein dá o texto de Leonardo com o projeto de um quadro sobre o dilúvio (que faz parte do Marco do Mundo) como nada mais nada menos do que um roteiro cinematográfico. Claro, pois a pintura, ao contrário do que se supõe, não é estática. Se você não dá ao espectador o chamado “caminho do ôlho”, ele vai se perder na “leitura”. A vivência do cinema dá ao poeta e ao romancista uma aprendizagem nova: a de panorâmicas, zooms, cortes, closes, slow-motions. Usei a câmera lenta até no teatro. Em minha peça A Bátalha de OL contra o Gígante FERR, ante o problema de uma cena de duelo com espadas enormes, medievais, portanto perigosas, fiz a coisa toda como uma vagarosa dança que culmina com a morte de FERR. As cenas do Marco do Mundo – há uma fuzilaria dela, no poema – são todas como que de cinema. Deu-me muito trabalho, por sinal, o trecho em que chega à torre a cena de E o Vento Levou, em que Scarlet O’Hara vai à estação de estrada de ferro de Atlanta, atrás de socorro médico para a cunhada, e dá com aquela multidão de agonizantes e feridos da Guerra da Secessão.

DA – Há alguma razão em especial para você ter deixado de se dedicar à pintura?

W. J. SOLHA – Há duas: desde adolescente, vejo a rejeição que se faz ao figurativismo, que sempre me foi muito caro. Em 89,  pintei meu painel A Ceia, no Sindicato dos Bancários, de cuja diretoria eu fazia parte, com Marx ,o lugar de Cristo, dizendo Um de vós me trairá, provocando aquela comoção leonardesca nos “discípulos” Mao, Allende, Che, Stálin, Trótski, Lênin, Fidel, Ho Chi Minh e Gorbatchev. Pois bem: lembro-me disso porque alguém, ao me ver pintando a tela de 3 metros e 60 de largo, mostrou-me uma reportagem da Folha de São Paulo dando conta de que uma exposição das obras de Lucian Freud – figurativista – estava com uma fila de virar quarteirão, em torno do Moma de Nova Iorque. Foi o último espasmo de “minha época”, que se esvaía entre meus dedos. Claro, fui a uma mostra de esculturas de Rodin no Recife, mas aquilo já encarado como coisa do passado, como uma  sinfonia de Brahms. A outra razão foi essa angústia de que falamos no começo da entrevista. Passei seis meses trabalhando numa tela de dois metros e tanto de altura, em que atualizava o Jardim das Delícias, de Bosch. Passei nove meses fazendo um painel de sete metros e vinte de largura, que está na reitoria da UFPB, homenageando Shakespeare, mas… a insatisfação sempre enorme, sufocante. Van Eyck escrevia sempre, abaixo da assinatura, nas telas dele: “Faço o que posso”. Eu também fazia. Mas não era o suficiente. Aí, em 2004, fiz uma exposição com cerca de duzentos quadros e, sozinho no salão imenso, entre aquele mundo de esforço inútil, tomei a decisão: “Não pinto mais”.

DA – Voltando a “Marco do Mundo”, é possível perceber que o poeta, diante de um mundo eivado de informações, busca lapidar ao máximo o que pode lhe servir de instrumento criativo. Chama atenção nesse momento uma certa obsessão pela perfeição, pelo algo supremo. Para um escritor, de modo geral, tentar erguer uma obra monumental não constitui tarefa árdua demais e quiçá algo desnecessária?

W. J. SOLHA – Árdua, sim. Desnecessária, de modo algum. Pelo contrário, somos carentes de obras monumentais. Em todos os campos. E de perfeição em pequenas coisas, também. Foi o que Ariano Suassuna fez com o grandioso romance A Pedra do Reino e com a comédia nordestina Auto da Compadecida. A Itália se orgulha da Sistina, da Divina Comédia, como do Ladrões de Bicicletas e Amarcord. A busca da perfeição me incomoda, sim, mas porque é preciso ser gênio para consegui-la: trabalho, só, não resolve. E, evidentemente, de gênio não tenho nada. Por isso deixei de fazer teatro e de pintar. Continuo com a literatura porque é onde me sinto  menos limitado. Havia jurado, também, não mais me meter em cinema. Houve insistência para que fizesse os testes para os filmes do Kleber e do Marcelo, já tive o alívio de ver que O Som ao Redor está se dando muito bem no exterior, apesar de minha presença. Sofro o suspense de como vai se sair o Era uma vez Verônica… e trabalho na terceira parte da trilogia de poemas longos. Como estou mandando de graça o Marco do Mundo a quem se interessar por ele, pelo menos ninguém poderá reclamar que perdeu dinheiro com o que escrevi.

W. J. Solha - arquivo pessoal

DA- A certa altura de “Marco do Mundo”, o poeta manipula o tempo, atravessa-lhe as entranhas para ver fluir o incorrigível espírito humano. Você acredita que o imediatismo é nosso equívoco maior?

W. J. SOLHA – Tenho a maior admiração pelos repentistas paraibanos. Oliveira de Panelas é assombroso, nisso. Em cima do ponteio da viola faz um discurso rimado em que menciona as flores do vestido de uma senhora presente, os olhos verdes de fulana de tal, também ali, ousando servir-se até do martelo agalopado, que são estrofes em dez versos com dez sílabas cada, todos acentuados na terceira, sexta e décima sílabas, com rimas obrigatórias do primeiro com o quarto e quinto versos, do segundo com o terceiro, do sexto com o sétimo, e do oitavo com o nono. Pense na cabeça desse cara enquanto ao mesmo tempo procura graça e beleza na composição. E isso tudo é … efêmero. Quem viu, viu, quem não viu… – rime você. Os autores de novelas de TV também têm de ser imediatistas, pois a crítica que recebem vem do IBOPE. Já os impressionistas foram, todos, mestres do vapt-vupt, mas Cèzanne dizia querer a arte dos museus. E a conseguiu, o que é juntar a fome com a vontade de comer. O perigoso é o imediatismo que vive embarcando em “ondas”. Portinari sai do Brasil acadêmico, volta da França cubista. O Cícero Dias, daqui do Recife,  chagallizando. O que acredito é naquilo que você SENTE que tem de fazer. Meus dois últimos romances – Relato de Prócula e Arkáditch – foram os primeiros,  suponho,  a abordar a classe média urbana, nordestina, contemporânea. E o que me levou a participar dos dois longas pernambucanos – O Som ao Redor e Era uma vez Verônica, de Kleber Mendonça e Marcelo Gomes – foi justamente o fato de que foram os dois primeiros filmes a tomar o mesmo tema: classe média urbana nordestina, contemporânea. Há, em todas  as gerações, tônicas dominantes. Como os ciclos do cacau e da cana de açúcar. A arte tem de se sintonizar ao seu espaço e ao seu tempo, para deixar, deles e neles, a sua marca d´água. Ou não terá feito nada.

DA – Com que olhos você acompanha a produção literária na contemporaneidade? Costuma manter um diálogo aproximado com novos autores?

W. J. SOLHA – Vivo alguma dificuldade para encontrar tempo suficiente para acompanhar o que se faz no Brasil e no mundo. Escrevo praticamente o dia todo, com a urgência a que a idade me obriga, pois não tenho a menor ideia de quanto tempo, ainda, disponho, com tanto que ainda tenho para  dizer. Além do mais, escreve-se muito na Paraíba. Leio muita coisa inédita. Há pouco escrevi textos para orelhas e quartas capas de três autores premiados em concurso do Estado. Há um excelente romance de Tarcísio Pereira, O Autor da Novela, que obteve Bolsa de Incentivo à Literatura da Funarte há dois anos, ainda sem editor. Também li os originais de um bom livro de Marilia Arnaud, contista que se aventurou com sucesso no romance. Tirei um atraso, recentemente, comprando um lote de obras do Affonso Romano de Sant´Anna, a quem admiro muito. Fiz a quarta capa, também, há pouco tempo, de um belo romance do Carlos Trigueiro – Libido aos Pedaços – que saiu pela Record. Fiz uma resenha alentada do último romance do Esdras do Nascimento, A Rainha do Calçadão. Li os originais de um romance de primeira, do Hugo Almeida, mineiro lá de São Paulo, com título ainda provisório. Acabo de ler o maravilhoso O Corvo e suas traduções, do Ivo Barroso.  Fiz uma entusiástica resenha da recente coletânea de poemas de Ruy Espinheira Filho, que saiu pela Global, etc, etc. Além do mais, meu modo de escrever exige muita pesquisa, e é no que dedico mais tempo, além da escrita propriamente dita.

DA – O mundo está mesmo dividido entre os que leem e os que não leem? Não acha que, nesse aspecto, subestimamos em demasia potencialidades humanas de apreensão da realidade?

W. J. SOLHA – Nunca dividi o mundo assim. Vivi oito anos no alto sertão paraibano, quatro dos quais como chefe da Carteira de Crédito Agrícola, quando tive a oportunidade de conhecer de perto matutos altamente “intiligentes”. Fiz, inclusive, uma comédia – Curicaca – a partir de vinte livros de José Cavalcanti, em que o grande personagem era, sempre, o cabra tremendamente esperto, como o João Grilo do Auto da Compadecida. Por outro lado, conheci muita gente culta, lá e em toda parte, que não criava absolutamente nada e era um eterno enrolado. Eu mesmo adoro deixar de lado minha face “intelectual”, de “escritor”, pra representar, quando me entrego completamente ao instinto. Jamais fiz escola de arte dramática e não lamento isso. Melhor ainda é que nunca fiz papel de nenhum “intelectual”, de “escritor”. Meu trabalho mais marcante no cinema, até agora, tinha sido o de um velho camponês embrutecido pela miséria – em A Canga, um curta de Marcus Vilar, baseado num trecho de minha novela homônima. Agora, aí está O Som ao Redor, o primeiro longa do pernambucano Kleber Mendonça Filho, bombando em Roterdã, Nova Iorque, São Francisco, já com presença em mais vinte e tantos festivais internacionais, incluindo o de Washington, Londres e Jerusalém, em que faço um velho ricaço afoito, em cujo apartamento não se vê nenhum livro. Acho ótimo sair de mim. Deixar, pelo menos temporariamente, de ser o que sou. Qual foi o livro que o Lula já leu, mesmo?

DA – Afinal, por que escrever?

W. J. SOLHA – Veja bem: trabalhei a maior parte de meu primeiro poema longo – Trigal com Corvos, lançado em 2004 – quando ainda era obrigado a meus expedientes no Banco do Brasil. Incluídas aí, também, várias retomadas, desistências ou trabalhos em outras áreas, o livro me tomou doze anos. Para o Marco do Mundo -aposentado – precisei de apenas quase quatro, incluídas aventuras no cinema e retoques finais em meus romances Relato de Prócula e Arkáditch. O que acontece, então, na fatura de um Trigal, na de um  Marco? Você produz uma leitura que consome por volta de uma hora de um bom leitor. Uma leitura que custou a seu autor anos de esforço, uma concentração enorme de  camadas e camadas e camadas de escrita. O resultado é que nunca me sinto à vontade quando alguém diz que quer me conhecer pessoalmente, porque nessa hora em que a pessoa estará comigo não terá absolutamente nada do que ela encontrou nesta ou naquela obra. Sou um sujeito sem carisma, sem nada de especial. E isso, evidentemente, vale também para a relação que tenho com meu livro pronto: reduzi a montanha de pedra bruta que foi esse eu-no-tempo, a um quilate ou dez de diamante ou de ouro. A enorme quantidade gestou uma minúscula qualidade que passa não só a me dar sentido à existência, como a me fornecer… respostas com a profundidade máxima, com a beleza máxima que me foi possível alcançar, a respeito de mim mesmo,  pois, como dizia o oráculo de Delfos, Conhece-te a ti mesmo, e conhecerás os deuses e o universo.

 

* Quem se interessar pela leitura de Marco do Mundo, poderá receber gratuitamente, pelo correio, um exemplar do livro.  Basta entrar em contato com o autor, fornecendo nome e endereço, através do e-mail wjsolha@superig.com.br

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66ª Leva - 04/2012 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Márcio Vasconcelos

Há um marco especial fundado nas possibilidades de quem se dedica à fotografia documental: harmonizar, a um só tempo, as ações humanas aos cenários de suas epifanias particulares. No entanto, isso não é o bastante quando quem registra sabe, como ninguém, encontrar o ponto ideal no qual os objetos retratados adquirem novos sentidos. É então que o fotógrafo, utilizando-se da capacidade de perceber as nada óbvias perspectivas encerradas no mundo que o cerca, ousa transpor a tênue cortina que envolve os dias.

No caso do maranhense Márcio Vasconcelos, tudo o que foi dito acima se coaduna bem, principalmente por estarmos diante de uma trajetória que devota olhares diferenciados aos homens e seus lugares. Adepto inconteste da via documental, Márcio conduz com maestria suas sensíveis visões em torno das porções humanas. Aliada a tal característica, resiste incólume a observação atenta ao que podemos chamar de memória dos lugares. Dessa junção entre tais elementos, surge um estilo de captação da realidade algo singular, pautado, sobretudo, numa precisa e delicada percepção das paisagens visitadas. Dono de um trabalho independente, o fotógrafo acumula valiosas incursões pelas searas da cultura popular nordestina, em especial as manifestações oriundas dos afrodescendentes do Maranhão. Merece destaque seu ensaio “Na Trilha do Cangaço – O Sertão que Lampião Pisou”, conjunto de registros que percorrem os rastros memoriais deixados pela emblemática figura do rei do cangaço. E para falar um pouco sobre tais caminhos trilhados por sua precisa retina e outros temas ligados à fotografia, Márcio Vasconcelos acolheu a Diversos Afins numa iluminada conversa.

 

Foto: Márcio Vasconcelos

 

DA – Seu trabalho é marcado intensamente pelos caminhos da fotografia documental. Mais do que retratar lugares, pessoas e situações, acredita que esse tipo de registro promove, de certo modo, uma intervenção na realidade?

MÁRCIO VASCONCELOS – De 2008 para cá, tenho me dedicado intensamente a um trabalho mais autoral. É muito bom ter uma ideia, pesquisar, conversar com pessoas ligadas ao tema e cair em campo para produzir, sentir-se o autor ou co-autor do começo ao fim. Quando estou no processo de imersão, não tenho a preocupação de saber se este projeto vai mudar uma situação ou uma realidade, apenas quero fazer da maneira mais profunda e sincera, ser honesto comigo e com os personagens daquela história. Quero fazer a minha versão daquilo que vi e senti. Agora, é muito gratificante quando vejo que, depois de pronto, o resultado mexe e emociona as pessoas que o experimentam.

 

DA – Num viés antropológico, o fotógrafo documental adentra o universo do outro, estabelecendo com ele uma espécie de pacto. Como é que você percebe a questão do distanciamento, sobretudo do ponto de vista da preservação das diferenças culturais, entre quem registra e aquele que é objeto das lentes?

MÁRCIO VASCONCELOS – Com relação ao processo documental , quando estamos invadindo espaços e momentos de muita particularidade, creio que o respeito, a discrição e a ética são os elementos de maior importância. Na maioria das vezes, somos intrusos e, assim sendo, precisamos demonstrar as reais intenções de nossa aproximação, o objetivo do projeto e a relevância daquele assunto para nós e para a sociedade. O trabalho só deve ter continuidade quando percebemos que estamos sendo aceitos e que a permissão nos foi dada. Neste momento forma-se realmente um pacto, no qual a confiança, como fio condutor, jamais poderá ser quebrada. Temos que estar muito atentos ao espaço físico e espiritual que conquistamos e de forma alguma ultrapassá-lo. A confiança mútua é a joia maior que podemos adquirir.

“Esse branco pode voltar aqui quantas vezes quiser para fazer o seu trabalho, pois confiamos nele”. Estas são palavras de uma mãe africana do Benin, depois de receber umas fotos de seus filhos, enviadas por mim desde o Brasil, em mãos de um antropólogo beninense amigo. Palavras como desta mãe é que gratificam nossos trabalhos.

 

DA – Muito do seu olhar está direcionado de modo especial à cultura popular brasileira. Que país você vislumbra quando está imerso em tais registros?

MÁRCIO VASCONCELOS – A cultura popular brasileira não teria a força que tem se não fosse a forte influência das nações africanas. Percebe-se que todas as danças brasileiras, que adotam os mais variados tipos de tambores como marcação rítmica, foram trazidas ou derivadas de manifestações do continente africano. Uma das minhas maiores alegrias como fotógrafo foi ter a oportunidade de viajar ao Benin, na África Ocidental, quando da realização do projeto “Zeladores de Voduns do Benin ao Maranhão”. Desenvolvendo o projeto ali, no meio das danças, dos sons, da energia daquele povo, tinha a verdadeira sensação que estava num dos quilombos do Maranhão. Foi muito mágico e inesquecível.

 

DA“Na Trilha do Cangaço” é, sem dúvida alguma, um de seus trabalhos mais marcantes, sobretudo pelo aspecto da pesquisa histórica. De que modo você estruturou seu roteiro de andanças em torno do tema?

MÁRCIO VASCONCELOS – A proposta do Projeto era resgatar e refazer os caminhos percorridos por Lampião e Maria Bonita, Corisco e Dadá, e seus bandos, através da elaboração de uma trilha que ligasse locais que foram simbólicos na história do cangaço pelos sertões nordestinos. Desta forma, a trilha deveria começar no Sítio Passagem das Pedras, em Serra Talhada, local do nascimento de Virgulino Ferreira da Silva, e terminar na Grota de Angico, na beira do Rio São Francisco, em Sergipe, onde Lampião foi morto pela volante do Tenente João Bezerra.

Além do aspecto físico desse sertão revisitado, o Projeto procurou também identificar, localizar e fotografar personagens que fazem parte dessa história, ou descendentes destes, e que ainda se encontram vivos para contar “causos” e atestar a veracidade do mito Lampião e Maria Bonita.

Passei por momentos de extrema emoção, principalmente quando deparava com lugares simbólicos ou personagens que foram testemunhas e que ainda se encontram lúcidos apesar da idade avançada.

Mantive horas de prosa com Manuel Dantas Loiola, vulgo Candeeiro, de 97 anos, e que se encontrava na Grota do Angico no momento da emboscada que matou Lampião, Maria Bonita e outros nove companheiros. Candeeiro conseguiu fugir, mesmo baleado no braço, e é o último cangaceiro ainda vivo deste grupo. Mora no povoado Guanumbi em Buique, Pernambuco.

Na cidade de Olho d’Água do Casado, Alagoas, cheguei de surpresa na casa de Elias Matos Alencar e este se encontrava no terraço, numa cadeira de balanço, como que a me esperar. Elias, hoje com 98 anos, pertencia à volante chefiada pelo tenente João Bezerra e narrou com muita precisão toda a cena de ataque que vitimou Lampião e seu grupo.

Em Serra Talhada, Pernambuco, passei dois dias arranchado no sítio Passagem das Pedras e, em noite de lua cheia, dormi numa rede contemplando a casinha simples de taipa de dona Jacosa, avó materna de Lampião, que ali nasceu e brincou na infância.

Para finalizar a trilha, escolhi o local que considero mais simbólico em toda a história do cangaço, a Grota do Angico, às margens do Rio São Francisco, no lado de Sergipe. Acompanhado de Hugo, meu guia, segui no final da tarde por setecentos metros, na mesma trilha percorrida pela volante do tenente João Bezerra, até chegar ao local da chacina. Acendi onze velas pelas almas dos cangaceiros ali sacrificados, fiquei em silêncio por vários minutos até a chegada da luz ideal para efetuar o último disparo, dessa vez não de morte, mas pela celebração à vida.

 

Foto: Márcio Vasconcelos

 

DA – Sua experiência nesse percurso pelo sertão nordestino evoca uma sensação de que a oralidade foi transposta para as imagens. O que mais lhe chamou atenção nesse processo?

MÁRCIO VASCONCELOS – O mais impressionante em todo este processo que vivenciei naquela região do sertão nordestino foi perceber que tudo ali ainda é muito vivo na memória do povo. Eu chegava sempre nos lugares sem a preocupação de ter marcado antecipadamente os encontros, as entrevistas, as fotografias, e tudo acontecia exatamente ao contrário. Parecia que eles estavam a me esperar, as informações iam fluindo com muita facilidade e eu acabava encontrando os personagens sentados em cadeiras de macarrão plástico na porta de suas casas, por exemplo, como se o encontro tivesse sido marcado.

Um episódio muito marcante foi encontrar um senhor indo para a roça de bicicleta, já no cair da tarde, no povoado Malhada da Caiçara, na Bahia. Achei aquela figura muito interessante e fiz sinal para que parasse. Começamos a conversar sobre o ofício que faria àquela hora do dia e, depois de certo tempo, solicitei gentilmente a permissão para fazer uma foto dele, no que fui prontamente atendido. Depois de um papo gostoso, nos despedimos e ele, sem que eu perguntasse algo sobre o cangaço, começou a falar que era primo de Maria Bonita e que seu pai fora namorado dela. Como a noite já vinha chegando, esta seria a melhor revelação pra fechar aquele dia. Tinha ganhado um verdadeiro presente daquele senhor, chamado Seu Borges. Ele seguiu pra roça e eu voltei para a minha trilha.

 

DA – Arriscaria dizer que seu ofício é um manifesto à preservação da memória?

MÁRCIO VASCONCELOS – Trabalho com afinco e seriedade. Isso, no futuro, só a memória dirá.

 

DA – Suas origens remontam ao Maranhão, estado que agrega um rico cenário de apreensões do imaginário popular. Veio daí a motivação maior para trilhar o caminho documental?  

MÁRCIO VASCONCELOS – Além da minha origem nordestina e da riqueza cultural do Maranhão, senti que já estava com um trabalho maduro para seguir um caminho mais independente, mais autoral. Quero, cada vez mais, ser o idealizador de um tema, me aprofundar nas pesquisas, fazer uma leitura própria e transformar isto em imagens.

 

DA – Suas incursões pelo Brasil permitem-no constatar que, no tocante à preservação de nossa memória histórica, ainda estamos longe do ideal?

MÁRCIO VASCONCELOS – O Brasil é de uma riqueza cultural enorme, e, realmente, muito pouco para a preservação da memória de parte desse acervo tem sido feito. Somente no Maranhão, por exemplo, poderíamos trabalhar anos seguidos e não conseguiríamos registrar metade desse tesouro.

 

DA – Afora os evidentes aspectos tecnológicos, o que você considera como sendo a principal mudança trazida pela fotografia digital?

MÁRCIO VASCONCELOS – No começo, senti uma grande resistência para fazer a troca do analógico para o digital, pois a diferença de qualidade era gritante. Hoje, vejo que o processo de pensar o ato fotográfico continua o mesmo, apenas a captura é que mudou. Em alguns trabalhos documentais, como em comunidades quilombolas, por exemplo, o processo digital ajuda muito, pois podemos mostrar as fotos imediatamente aos personagens e isto contribui para a troca de confiança.

 

DA – Está em curso algum novo projeto documental seu?

MÁRCIO VASCONCELOS – A minha cabeça está sempre a fervilhar e a vontade de produzir é incontrolável. Atualmente, estou desenvolvendo três projetos ao mesmo tempo:

“Terecô – a magia dos tambores da Mata Codoense”, aprovado no edital da Secretaria de Cultura do Maranhão, resultará numa exposição sobre uma vertente do Tambor de Mina, em uma região específica do Maranhão.

“A Estética do Terreiro – materialidade e agencialidade nos terreiros de Pajés do Maranhão”, este projeto em parceria com a antropóloga Ana Stela Cunha, tem patrocínio do Banco do Nordeste e será apresentado num livreto e numa exposição no Brasil e nas cidades portuguesas Lisboa e Guimarães.

“Incorporados”, projeto que mostra o processo de montagem de travestis, drags e transformistas. Este trabalho, mesmo antes de concluído, já ganhou uma Menção Honrosa no Concurso Iberoamericano de Fotografias, promovido pela Embaixada da Espanha na Bolívia, e fará parte da exposição a ser montada no Centro Cultural da Espanha, em La Paz, no mês de abril.

Outro projeto que se encontra em processo de sondagem e pesquisa é sobre Monges e Mosteiros do Brasil.

 

DA- Afinal, por que fotografar?

MÁRCIO VASCONCELOS – A fotografia passou a ser a extensão do meu corpo, da minha mente, da minha alma. Fotografo a todo instante, até enquanto durmo. Às vezes, até uso uma câmera para fotografar.