No carnaval de 2019, o samba-enredo da Estação Primeira de Mangueira contou a história não oficial do Brasil, a partir da versão de quem construiu o país e logo após foi largado à própria sorte. Desde a abolição da escravidão, tanto a história oficial quanto o senso comum contam que as pessoas escravizadas tiveram as mesmas oportunidades na dinâmica da sociedade. Porém, o Brasil foi o último país do Ocidente a por fim à escravidão. A vida brasileira foi marcada por um período cuja dor da experiência dessa violência permeia até hoje as relações sociais, e isso vai formando um imaginário pejorativo sobre os negros, relegando-os à ocupação de subempregos com baixa remuneração e de maior esforço físico, e sua produção artística e intelectual quase sempre é associada à cultura subalternizada.
Como o racismo sufoca o protagonismo negro e funciona como parte do projeto de desqualificação das camadas historicamente subalternizadas como produtores de saber e de cultura, Rio Negro, 50, do escritor e sambista Nei Lopes, reconta a história oficial dando visibilidade aos saberes e às culturas afro-brasileiras. Nesse sentido, vale destacar que o projeto que visa o apagamento das culturas, religiões e saberes do povo negro ainda se encontra em funcionamento, visto que a Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro detém em sua posse cerca de 200 peças, entre imagens religiosas e instrumentos musicais apreendidos na década de 1920 dos candomblés e rodas de capoeiras, em uma época na qual o Código Penal (de 1890) criminalizava os centros de umbanda, os terreiros de candomblé, a capoeira e o samba.
Já no prólogo do livro, vêm à tona duas cenas de racismo. Na primeira, com algumas doses de machismo e homofobia, após a derrota da seleção brasileira de futebol na Copa do Mundo de 1950 para a seleção uruguaia, um grupo de jovens “confunde” um homem que salta do trem da Central do Brasil com Bigode, meio-campista da seleção brasileira, e por motivos puramente associados à cor da pele, começam os xingamentos e os tapas, um verdadeiro linchamento físico e verbal na então capital da república, tudo isso em uma manhã de segunda-feira: “Negro sem-vergonha! Cadê o outro viado, seu filha da puta? Mete-lhe a ripa! Toma, seu puto caga-leite! Para aprender a ser homem”.
Na segunda, Nei Lopes dá algumas pistas e deixa que o leitor tire suas conclusões. O diálogo entre um jovem professor e um embaixador, no qual este desaconselha aquele de trabalhar no Itamarati, sugerindo-lhe o trabalho no cais do porto devido ao seu porte físico musculoso, é confirmado pelo narrador como se fosse outro caso de racismo: “Se tivesse esse físico, esses músculos, eu ia era trabalhar no cais do porto, meu filho. Você nunca vai conseguir entrar para o Itamaraty. E, assim, o professor foi saindo do palácio sem ver nem ouvir nada, nem mesmo o outro linchamento que acontecia na velha Rua Larga de São Joaquim”.
Intelectualidade e cultura
O narrador apresenta uma rica galeria de personagens — ora nominadas, ora anônimas, ora do mundo real que se atravessam, desarquivando a história do Brasil, reafirmando e confirmando os saberes daqueles que a todo o momento têm sua cultura subjugada. O Café e Bar Rio Negro e Bar-Restaurante Abará, ambos na região da Cinelândia, são pontos de encontro da intelectualidade negra, que ali discute as contradições de uma cidade que se pretendia moderna. Mobilidade urbana, moradia, favela e política são temas recorrentes nas mesas dos bares.
Entre intelectuais, músicos e compositores, o encaminhamento narrativo indica que a cena intelectual e cultural da década de 1950 é composta, a rigor, por negros. Paula Assis é um advogado negro que denuncia ao Ministério Público o referido crime da Copa, cujas suspeitas recaíam, por todo o romance, sobre os três jovens negros. Após nove anos do crime, foram identificados os responsáveis, porém eram filhos de pais com cargos importantes na sociedade. Quando o novo promotor assume o caso, dispensa a ajuda de Paula Assis (lembre-se que este é um advogado negro que se empenha para a elucidação do crime) e se posiciona a favor da manutenção do status quo “tudo não teria passado de um caso fortuito, de uma triste obra do acaso”. Outros intelectuais recriados na narrativa são Esdras e Paulo Cordeiro. Este é sociólogo e jornalista com estudos e reportagens sobre tradições populares, principalmente a do povo negro; aquele é ator, dramaturgo e militante pelos direitos dos afro-brasileiros, além de um transgressor destemido, tendo como sua maior ambição formar um grupo de teatro de negros.
Além de dar visibilidade à intelectualidade negra, o autor formula com maestria o encontro de duas potências culturais de resistência do povo negro, o samba e o jazz, evidenciado na chegada do trompetista americano Dizzy Gillespie ao Rio de Janeiro: “Apresentou-se na moderníssima TV tupi, tocou com a magnífica orquestra do maestro cipó, saxofonista dos grandes… E agora, antes de pegar o avião de volta, aproveita para dar uma chegada até a estação de Oswaldo Cruz, à Portela, para conhecer o samba”.
Muito além de visibilizar o protagonismo de personagens negros a partir de uma intelectualidade acadêmica, os temas da negritude também são discutidos por personagens cuja simplicidade de expressão linguística, normalmente, marca o lugar social das camadas subalternizadas: “Esses doutô que me desculpe, mas tem preto que despreza o próprio preto. É só melhorar um tiquinho…Tem mãe é que quer é ver as filha com branco. Tem homem que só quer saber de mulher loura”.
O diálogo entre João (apelidado de Mani no bar Rio Negro) e Tia Caetana revela uma prática social vigente em uma época cujo estímulo à educação eugênica era política de Estado, tanto que os três ministros de Educação da Era Vargas, Francisco Campos, Belisário Pena e Gustavo Capanema, eram adeptos deste ideal de base racista. Nesse sentido, apesar do cruel imaginário formado do negro, João é contundente “De tanto escutar que preto é inferior, feio, sujo, preguiçoso, a pessoa de cabeça fraca acaba acreditando nisso”.
Mani foi separado da mãe quando pequeno e criado em um orfanato no interior de São Paulo, ouvindo das freiras que sua mãe era uma vagabunda e por este motivo teria que viver distante dela. O menino jamais soube que fora criado por pessoas com ideais higienistas. “Tudo isso dentro de uma orientação política que eliminasse qualquer traço que impedisse o Brasil de se parecer uma nação europeia”.
O documentário Menino 23: infâncias Perdidas no Brasil, dirigido pelo cineasta Belisário Franca, resultado da tese de doutorado do historiador Sidney Aguilar, conta a história de 50 meninos negros levados de um orfanato do Rio de Janeiro para trabalhar em situação análoga à escravidão na fazenda Santa Albertina (SP), cuja dona, a família Rocha Miranda, era adepta ao eugenismo. Nele, chama a atenção uma observação feita pela historiadora Ediogenes Santos sobre práticas racistas da época, na qual os operadores dos bondes — chamados de motorneiros, em sua maioria negros — não podiam aparecer nas comemorações e nas fotografias dos passageiros.
É contra os resquícios da escravidão que Rio Negro, 50 reverbera na síncope as vozes dos silenciados, recontando a história oficial através da voz (oprimida) e do violão (que chora), criando dissonância e contraponto ao enredo oficial da história do Brasil.
Vinicius Gaudêncio de Oliveira é carioca formado em Letras/Literatura. Atua como crítico literário nas temáticas sobre produções literárias e culturaiscariocas.
De que geografia e de que mortes, afinal, Priscila Pasko fala?
Por Helena Terra
“Como se mata uma ilha”. O título, se fosse um livro de poemas, já seria impactante e original verso.
Mas não é.
É um livro, não, é mais que um livro, é uma requintada literatura de contos e de alegorias de várias ilhas ou torrões ou grãos de areia humanos ou, ao contrário, da comunhão de toda essa humanidade em um arquipélago de palavras ancoradas na perspectiva, na sensibilidade e no desprendimento da escritora e de cada leitora ou leitor.
Umberto Eco diria se tratar de uma obra aberta pronta para se desdobrar e desdobrar.
Salvador Dalí a pintaria com sua visão de mundo surrealista, exigindo o olhar astuto e atento aos símbolos em crítica e em movimento que permeiam as entrelinhas.
Simone de Beauvoir, acredito, aplaudiria, assinando embaixo de cada texto, de cada potente testemunho e testamento de que o que somos nem sempre é o que nascemos e menos ainda por nossa livre e espontânea vontade.
Por quê?
Porque o “Como se mata uma ilha” fala de nós, as mulheres, dentro dos territórios sociais, culturais, corporais e psicológicos em que vivemos e dentro de nós mesmas. Nós, as mulheres, sendo o útero e o parto que embala a criação – em seu sentido mais óbvio e, também, em seu mais complexo – e nós, as mulheres, sendo forçadas a ser os limites e a sepultura do que inspira e dignifica a existência em seu todo e em nossas particularidades.
O “Como se mata uma ilha” fala sobre quem somos, nos discute e debate. No entanto, não nos julga. E quem não julga, não condena. É preciso coragem para evitar a autoridade das sentenças, para não optar por elas, para não aceitar e perpetuar os estigmas, os rótulos e os preconceitos. É preciso coragem para não condenar com a própria ignorância. E é preciso consciência, acréscimos de consciência, para não se deixar moldar e constituir por meio de opiniões carregadas de experiências, valores e indiferenças alheios.
As personagens, da Priscila Pasko, se parecem e não se parecem umas com as outras, exatamente, como nós, mulheres e homens, também, nos parecemos e não nos parecemos. Em comum, elas têm uma espécie de apego pela verdade e de intimidade com ela, do mesmo modo que a escritora tem com a laboriosa tarefa que é escrever.
Por incrível que pareça, o “Como se mata uma ilha” é o seu livro de estreia. Talvez, todos os livros, os bons livros, sejam mesmo de estreia por não se parecem com nada além de obras de arte.
Helena Terra é escritora, jornalista e coordenadora literária do grupo de leitura “A literatura tem nome de mulher”, que se propõe a ler e a pensar as obras escritas por mulheres, em Porto Alegre, na Livraria Cultura.
Uma pequena-grande amostra da condição humana: o originalíssimo impacto do conto “A História, um pouco de blush nas bochechas e um número tatuado no braço”, de Mário Baggio
Por W. J. Solha
O ancião que acaba de receber o Nobel de Literatura vai dar entrevista na TV, pelo que, antes, é encaminhado à maquiadora do canal. “Ela o cumprimenta, olha-o de maneira profissional e avisa que lhe aplicará um pouquinho de base no rosto e tirará o brilho da cabeça pelada e das mãos, ´porque em televisão uma pele oleosa fica horrível e desvia a atenção do que realmente importa´”.
Ponto pra ela: lembro-me – e o velho escritor também deve se lembrar – de que Nixon começou a perder a eleição pra Kennedy , em 60, pela pele oleosa, o descuido da aparência num debate em que teve de enfrentar o outro . Os que acompanharam a coisa pelo rádio acharam que ele fora o melhor. O outro foi eleito pelos que viram o confronto pela TV.
Bem.
Colocados Nobel e maquiadora em cena, Mário Baggio dá um show no diálogo.
– Sobre que assunto o senhor vai falar no programa?
– Perdão?
Você, como eu, vê surpresa e ironia na resposta à pergunta infame. Mas é apenas um problema de audição do gênio. Ela capricha na dicção:
– Qual será o tema da entrevista?
– Ah, isso. Será sobre um livro que escrevi, eu acho – e sorri, embaraçado.
– O senhor vai vender bastante, esse programa tem muita audiência.
Quando ela quer saber quantas obras ele já publicara, ele, pra simplificar a coisa, diz “muitos”.
– Mais de quatro? Mas então o senhor é profissional. Como se chama?
– Alberto – gagueja – Gerber;
– Gerber, Gerber. Acho que já ouvi falar.
O conto já nasce curta-metragem. Um bom ator maduro e uma grande atriz ainda jovem matariam o público de rir, a princípio, de emoção, em seguida. Principalmente porque tudo é extremamente real, convincente. José Saramago soube que ganhara o Nobel por uma TV de aeroporto. Olhou em volta: ninguém – fora ele – prestara atenção na notícia.
– Agora um pouco de blush – diz a maquiadora -. Pra mim, o blush é a maior invenção da humanidade.
Ela é uma figura antológica.
Mas vamos ao final, que só conto por que é um dos 63 do volume e já está no título. Como já vira até degola de crianças, nos outros, eu esperava, qualquer um esperaria algo na mesma linha – mas Mário Baggio mereceria estar no lugar do Alberto Gerber, por ele.
– Agora vou maquiar um pouquinho as mãos. Pode arregaçar as mangas? Assim não mancho os punhos de sua camisa.
– Ah, sim, claro – o escritor levanta as mangas até os cotovelos. Tem as mãos trêmulas. Bia percebe e o ajuda. Interrompe o gesto, admirada.
– Ah, olha só. O senhor tem uma tatuagem, que moderno! O que é? Simboliza alguma coisa?
– É só um número… – o escritor responde, com um fio de voz.
Baggio resume toda a tensão do Nobel com aquele “tem as mãos trêmulas” ao arregaçar as mangas e, agora, ante a total desinformação da moça a respeito de uma enorme tragédia humana, ainda com sobreviventes: “É só um número… – responde, com um fio de voz.”
Depois do punhal enfiado, o contista revira-o no peito do leitor e do personagem:
– Um número. Que original! Eu também tenho uma tatuagem, pequenininha, no ombro – afasta a alça do sutiã e mostra a ele.
Batido o prego, o reviramento da ponta:
– Se eu fosse o senhor, faria uma igual, no braço esquerdo, pra ficar simétrico.
W. J. Solha nasceu em 1941. Escreveu romances e poemas longos premiados nacionalmente, trabalhou em filmes como O som ao Redor, pintou cento e tantos quadros, montou peças de sua autoria, foi parceiro de grandes compositores, continua na ativa.
Um recorte da construção de Brasília no romance de Lima Trindade
Por Geraldo Lima
Brasília tem servido de cenário ou tema para obras de gêneros literários diversos, mostrando, com isso, sua importância como centro do Poder e, ao mesmo tempo, como cidade que vai, aos poucos, criando sua própria identidade cultural. Quase sempre a vemos retratada já como centro urbano consolidado, em pleno desenvolvimento, exibindo tanto sua beleza arquitetônica, seu inusitado plano urbanístico, quanto os problemas sociais que a cercam ou espalham-se em seu interior. Vê-la retratada ainda durante a sua construção, ora com olhar de encanto, ora com olhar de crítica severa, é coisa rara de se ver. Em As margens do paraíso [romance, Cepe Editora, 2019, 269 páginas], o escritor Lima Trindade, nascido em Brasília e vivendo atualmente em Salvador, cumpre esse papel e nos transporta para o cenário de avenidas empoeiradas, canteiros de obras sob o comando de empreiteiras e empresas públicas, alojamentos precários, escritórios, boates e zonas de baixo meretrício, numa Brasília que marcha para ser inaugurada, impreterivelmente, no dia 21 de abril de 1960.
Antes, porém, de fazer com que a vida de seus protagonistas – três jovens brancos de diferentes camadas sociais – convirja para esse cenário épico da construção da nova capital do país, ele apresenta cada um deles em sua respectiva cidade: Juazeiro, Anápolis e Rio de Janeiro. É nessas localidades, distantes umas das outras, que vemos como se deu a formação intelectual e afetiva desses jovens e de como os ecos da construção de Brasília chegavam até eles.
A estrutura do romance e a vida dos personagens
Como há dois momentos importantes marcando a vida dos protagonistas Leda, Rubem e Zaqueu, Lima Trindade optou, acertadamente, por dividir o livro em duas partes.
Na primeira, a narrativa é feita em 1ª pessoa e cada capítulo recebe o nome do narrador-personagem [Leda, Rubem, Zaqueu], assemelhando-se, nesse aspecto, ao romance Enquanto agonizo, de Faulkner. Desse modo, ficamos sabendo das frustrações, desejos e aspirações de cada protagonista, quase sempre em confronto com o meio em que vive. Leda sofre ao ser explorada na casa do padrinho, em Juazeiro, enquanto sonha com os artistas do rádio e do cinema. Aos poucos, o desejo que sente pelo padrinho vai complicando sua vida, a ponto de levá-la a um desfecho trágico. Rubem, ao mesmo tempo em que se anima com a ascensão no emprego, frustra-se na vida amorosa, e isso será decisivo para que mude radicalmente seu projeto de vida longe dos bares e praias do Rio. Zaqueu, filho de pais ricos, pertencentes à elite anapolina, rebela-se e nega-se a continuar os estudos. O pai, que o leva ao prostíbulo para que se inicie na vida sexual, é o mesmo com o qual tem duros embates. Todos eles, impactados por acontecimentos trágicos, como é o caso de Leda e Zaqueu, ou frustrantes, no caso de Rubem, vão amadurecer e ganhar, praticamente, uma nova personalidade no universo agitado e tenso da capital que se ergue em pleno cerrado.
Na segunda, ainda que haja dois capítulos curtos, que recebem também o nome do narrador-personagem [Mauro] e com narrativa em 1ª pessoa, vai predominar a narrativa em 3ª pessoa no longo capítulo intitulado “Brasília”. No novo cenário de cidade em construção, de busca de novos horizontes, de adaptações ao novo ambiente, o narrador onisciente cumprirá bem a função de nos apresentar os personagens com maior riqueza de detalhes, tanto física quanto psicológica. Assim, ficará bem clara a mudança de caráter de Zaqueu e de estilo de vida de Rubem, e isso terá papel fundamental no desfecho da história. O uso do narrador onisciente permitirá, também, que o autor nos forneça um panorama das atividades desenvolvidas na construção da capital, envolvendo desde as empreiteiras até os prostíbulos na Cidade Livre, os quais, de certo modo, ganham relevo nesta narrativa de Lima Trindade. Aliás, o sexo tem um grande destaque nessa história, chegando a influenciar no seu andamento. Assim, podemos perceber que é nos prostíbulos e boates da Cidade Livre que ocorrerá boa parte dos encontros dos personagens. “Zaqueu estivera em outros bordéis da Cidade Livre antes. Divertira-se, bebera e, afora o prazer que desfrutara nos braços femininos, descobriu ser nesses espaços que as oportunidades de negócios se apresentavam com maior frequência. Não quaisquer negócios. Mas justamente os mais lucrativos. Assim como não se apresentavam em quaisquer bordéis” [página 180].
É interessante observar também que a construção frasal muda de uma parte para outra. Na primeira, ouvimos a voz de cada protagonista narrando, no presente, seu cotidiano e os conflitos nele inseridos, e sempre num ritmo mais acelerado, entrecortado, devido ao uso sistemático de frases curtas. Esse procedimento está bem de acordo com a estratégia narrativa adotada pelo autor para esse momento da história. Já na segunda, sob a ótica do narrador onisciente, com amplitude de olhar, as frases longas imprimem à narrativa, que se dá no passado, um ritmo mais lento e possibilitam um maior detalhamento do espaço, dos estados psicológicos e das características físicas dos vários personagens que aí transitam.
Pesquisa histórica e imaginação
As margens do paraíso é fruto de apurada pesquisa histórica realizada por Lima em cada localidade em que ocorrem os fatos narrados. Durante sua leitura, deparamo-nos com personagens reais envolvidos na construção de Brasília, como é o caso do político Israel Pinheiro e do escritor e também engenheiro Samuel Rawet, e com fatos do conhecimento de todos hoje em dia, como o massacre no alojamento da Pacheco Fernandes. No livro, já com a interferência da imaginação do autor, assistimos a esse triste episódio acontecer em outro lugar: “Meia hora depois, dois caminhões repletos de soldados da GEB ultrapassaram a fronteira dos portões da Estevão Muniz e estacionaram na parte dianteira do alojamento de solteiros, onde havia a maior concentração de operários da empreiteira” [página 258]. Em Juazeiro, Anápolis e Rio de Janeiro, percebe-se o cuidado do autor em apresentar ambientes e situações culturais pertinentes ao momento histórico em que os personagens vivem. Vemos já a presença de mulheres com discurso e postura feminista, jovens articulando ações de esquerda no ambiente estudantil, uma juventude influenciada pelas novidades no campo da música e da moda etc.
Assim, a trama deste primeiro romance de Lima Trindade envolve um elemento ficcional, em que a imaginação do autor molda e move as ações dos personagens, até se cruzarem no cenário da construção de Brasília, e um elemento histórico, que serve tanto como cenário, ou pano de fundo, quanto como elemento fundamental no desenvolvimento da história e do seu desfecho.
Lima Trindade, nesta sua obra, além de nos apresentar de modo intenso a trajetória de três jovens brasileiros na década de 1950, nos transporta a um momento singular da história do nosso país, em que se sonhou verdadeiramente grande. Porém, ele não se furta ao dever de apontar os sérios problemas que essa empreitada, levada a cabo por Juscelino Kubitschek, produziu, como, por exemplo, a exploração da mão de obra dos candangos pelas empreiteiras. Em As margens do paraíso, como o título mesmo sugere, de modo irônico, já anunciam-se os graves problemas sociais que ainda hoje cercam o Plano Piloto e dão conta do fracasso do sonho de JK, Oscar Niemeyer e Lúcio Costa.
PROFUNDANÇAS: TRAJETÓRIA DE UMA GUERRILHA LITERÁRIA
Por Daniela Galdino
Nos últimos anos tenho me dedicado ao duplo desafio: denunciar a invisibilidade histórica de nós, mulheres, no campo literário; maquinar formas de romper com essa genealogia de apagamentos. Muito embora a energia que me move seja íntima, nasça de vivências pessoais, sei que não estou só.
Uma rápida andada pelas veredas virtuais já é suficiente para percebemos a profusão de coletivos de leitoras, selos editoriais, canais no YouTube e outras plataformas dedicadas à divulgação da literatura de autoria de mulheres. Já é possível falar de uma ampla rede dissidente que, ao existir, tem desafiado a continuidade dos apagamentos. São experiências diversas, vozes dissidentes, lugares díspares a partir dos quais as tramas dessa rede vão se construindo, e mesmo nas diferenças os desejos transgressores nos trazem aos pontos de confluências. Ou seja, aqui o pessoal é político.
Para ficarmos na Bahia – lugar a partir do qual desobedeço – destaco que esses elos transgressores envolvem os clubes denominados Leia Mulheres (já ativos em vários territórios de identidade), o coletivo Lendo Mulheres Negras (atuante em Salvador), as plataformas virtuais Escritoras Negras da Bahia e Escritoras da Bahia, a coleção Das Pretas (pensada por mulheres pretas para publicação de outras pretas escritoras via Editora Segundo Selo), a Irmandade da Palavra (que tem mobilizado mulheres no recôncavo), o Slam das Minas (em que os corpos dissidentes performam os versos cortantes), as edições do Festival Sonora Ilhéus/Serra Grande, que têm aliado a poesia e a música de mulheres. Trago apenas alguns exemplos não institucionais para demonstrar que também seguimos atentas e dispostas a transpor as barreiras da interdição literária.
Nessa energia de partir das perguntas ainda não respondidas (quantas e quais mulheres você leu na escola ou por conta própria?), nasceu na Bahia, em 2014, o projeto Profundanças (numa parceria com a Voo Audiovisual). Ao rebentar-se, Profundanças veio rasgando várias negativas que ainda hoje impedem que os nossos escritos rompam as gavetas e alcancem os amplos circuitos de leitorxs. Nascido e criado como projeto independente dedicado à visibilidade de escritoras, Profundanças parte do reconhecimento de que, associada aos apagamentos e silenciamentos, há uma concentração editorial inviabilizando mulheres escritoras (sobretudo aquelas em atuação fora dos grandes eixos de produção cultural). Daí ser algo inegociável que o projeto vá ao encontro de mulheres que sonham e lutam nos lugares mais diferentes desse universo chamado nordeste (do sertão à favela, da roça ao litoral deslocado), pois entendemos a necessidade de criarmos outros espaços, já que as dinâmicas editoriais voltadas para o mercado são excludentes.
Em cinco anos de projeto, Profundanças editou três antologias literárias e fotográficas que seguem disponíveis para download gratuito. O conjunto desses e-books expressa as conexões que rasuram as distâncias, fazendo com que as águas turvas do Capibaribe alcancem o mar de Itacaré ou que a poeira do Pajeú pinte de ocre as tardes potiguares ou ainda que as marés da Baía de Todos os Santos sejam música nos amanheceres cinzas em Garanhuns. Tudo em Profundanças é diálogo, encontro de dicções e experiências autorais diferentes, somos afluência.
Em Profundanças a palavra escritoras é acionada para alcançarmos territórios diversos e amplos. Em cinco anos de projeto, foram mapeadas e publicadas 51 autoras nas tentativas de rompimento com a noção hegemônica de mulheres brancas, urbanas/metropolitanas, heterossexuais escrevendo. Sim, precisamos enfatizar outras identidades e seus processos autorais. Num país genocida, racista, feminicida, misógino e lgbtóbico é um ato político de grande impacto veicular imagens e narrativas de mulheres negras, trans, lésbicas, sertanejas, não negras que re-existem a partir das artes. E nessa trajetória de uma guerrilha literária, cada antologia parte da pergunta: quais palavras e imagens podem nos representar em tempos violentos e odiosos? Os poemas, contos, crônicas e ensaios fotográficos de Profundanças são contragolpes à orquestração do medo. Ao dizer isso, inevitavelmente lembro do educador Paulo Freire criticando esse modelo de sociedade que convive melhor com a morte do que com a vida. Queremo-nos vivas e criando – eis o mote de Profundanças.
Outra marca de Profundanças é a horizontalidade. Embora o foco do projeto seja o mapeamento e a publicação de escritoras inéditas ou com apenas um livro autoral publicado, a cada edição participam duas ou três escritoras com maior inserção no campo editorial. Dessa forma, vamos desestabilizando as hierarquias que geralmente definem as dinâmicas de publicação e difusão literária. Interessa-nos muito mais a escuta atenta e o tear de palavras/imagens em lugar das disputas literárias nutridas por posturas de egolombras que exercem seus domínios nas curadorias de eventos, nas editoras, nos circuitos de difusão literária.
Contornando as disputas egolombristas, combatendo a invisibilidade de escritoras, rasurando os grandes eixos de produção literária, criando e ampliando um espaço dissidente de publicação, investindo no virtual como campo produtivo, fortalecendo as redes que divulgam literatura escrita por mulheres, Profundanças vem aprendendo outros modos de atuação. E, nesse corrupio coletivo, de certa forma vamos conhecendo outros modos de ler, à medida em que os nossos livros vão ocupando espaço de destaque nas experiências coletivas de acesso. Já temos notícias das antologias de Profundanças sendo lidas, inclusive, em espaços que não dispõem de redes de internet, pois há xs seres amavelmente transgressorxs que baixam o livro, salvam em alguma mídia e exibem nos computadores de escolas rurais – só para citar um exemplo.
Sabemos que o acesso à internet não é universalizado no Brasil, pois incontáveis famílias estão privadas da convivência cotidiana com o virtual. Apesar de… seguimos nas aprendências de lançar ao mundo antologias virtuais e comemoramos a cada transgressão sabida, a cada experiência coletiva de leitura vivenciada mesmo nas condições distantes do ideal. O desejo de dizer, nesses momentos, se alia aos desejos de ler… e é assim que se rompem as distâncias entre quem escreve e quem acessa a literatura nascida das nossas entranhas. Queremos alcançar as escritoras, fotógrafes e leitorxs que re-existem a partir dos lugares que nem conseguimos imaginar…
O nosso método dissidente é descobrir esses seres nas relações cotidianas, conhecer pelas bases, nas dinâmicas até mesmo invisíveis do ato de escrever/criar. Por isso, na nossa guerrilha não há edital, não há chamada pública para envio de textos. Na nossa dinâmica há o mundo e a ele nos lançamos para compor o mapeamento transgressor de Profundanças. Agimos em silêncio, temos o segredo como princípio de organização, e seguimos nessa gira até alcançarmos o momento de tornar público que, sim, está rebentando mais uma antologia construída da maneira mais desobediente que se possa pensar. Assim tem sido nestes cinco anos…
Profundanças é uma grande encruza! E aqui estamos, embebides de poeira e águas para saudar os 13 anos da Revista Diversos Afins. Laroyê!
* Para baixar gratuitamente as três edições de Profundanças, basta clicar nos links abaixo:
Daniela Galdino é Poeta, Performer, Produtora Cultural. Idealizadora do projeto Profundanças. Doutora em Estudos Étnicos e Africanos (UFBA). Docente da UNEB. Contato: galdinodanielapoeta@gmail.com
Publicado pela Patuá em 2018, Por assim dizer recusa neons e maneirismos. O livro vai na contramão de boa parte do exibido nas páginas das redes sociais e nos estandes das livrarias em que as capas das publicações precisam desesperadamente chamar a atenção de um público não mais tão interessado em atributos como discrição e elegância. Basta ver a predominância de best-sellers nas vitrines, suas capas carregadas de cores berrantes, seus títulos ofensivos (tanto pela gratuidade do uso de palavras de baixo calão quanto pela “originalidade” de sua poesia). Perto deles, Por assim dizer soa prosaico demais, dito quase como um sussurro para não incomodar a sensibilidade de seus possíveis leitores. No entanto, observemos que a utilização da locução por assim dizer enquanto nome da obra também guarda uma valiosa declaração de intenções, uma não aceitação de um único modo de se ver e se falar sobre as coisas do mundo, uma necessidade de relativização (e reflexão) que julgo extremamente bem-vinda para nosso cenário cultural contemporâneo.
São 16 contos a compor a primeira parte e a reverberar numa segunda. São 16 contos que tratam da condição humana num cenário muito, muito, muito próximo ao que vivemos, presenteando-nos cada um deles com uma centelha de emoção que jamais esbarra em pieguismo, retórica maniqueísta nem pirotecnias linguísticas.
Os temas são variados e estão divididos em “Dos amores”, “Das dores”, “Das viagens”, “Das memórias” e “Das paragens”, desdobrando-se em muitos outros subtemas e situações de conflitos em que os protagonistas lidam com diferenças sociais, violência, desamor, sonhos, esperanças e perdas, as personagens agindo e reagindo como seres autônomos, vivos, senhores e senhoras do próprio destino, muitas vezes nos surpreendendo por suas escolhas e pontos de vista únicos.
Yara Camillo nos faz adentrar a mente de um criminoso quando ele aplica um golpe por telefone num velhinho, permite que acompanhemos os impasses de uma mãe excessivamente protetora em admitir a escolha amorosa do filho, que compartilhemos as alegrias etílicas de uma sem-teto que não sabia rezar, o choro de uma cafetina pela morte de uma das suas protegidas, o pavor que um notório malandro tem de noites de temporal e escuridão, a estranha e compulsiva relação entre uma fã e uma escritora novata e, até mesmo, lança um petardo contra a indústria farmacêutica em sua ânsia monetária.
Esses são alguns exemplos que demonstram vividamente seu interesse em entender de maneira mais profunda a sociedade em que vivemos, mas que seriam vazios se ela não potencializasse a linguagem a seu favor, se não fizesse da técnica uma aliada.
Yara Camillo é adepta da economia verbal. Ela sugere muito mais do que afirma, mostra muito mais do que conta, diz muito ao dizer pouco. Segue o caminho dos mestres, sobretudo Tchekov, Cervantes e o uruguaio Juan José Morosoli, na delicadeza com que constrói suas cenas e explora a tensão de experiências aparentemente banais, assenhorando-se de um tempo com um compasso menos apressado, muito menos leviano. É o que constatamos na abertura de “Duas vias”:
“Ele abria a porta do carro para que ela entrasse.
− A velhice dando passagem à juventude?
− Não: a sabedoria dando vez à pretensão.”
Já neste começo entrevemos o jogo de poder entre o casal, a provocação inteligente, a sedução, o humor, os embates que terão no futuro.
“Com fatos banais e incidentes corriqueiros é possível entrever toda a transformação de uma vida passada a limpo”, diz Arlete Cavalieri ao comentar a síntese poética da narrativa de Tchekov, acrescentando ser essa vida “fragmentária, sem relações imediatas de causa e efeito, sem respostas definitivas aos conflitos e predisposta ao inesperado e ao inexplicável”, juízo esse que se adequa perfeitamente a Por assim dizer, um livro que se presta a mais de uma leitura e não se rende à pressa dos relógios nem à brutalidade das cifras dos mercados. Sua arte está inserida num tempo outro: o tempo da delicadeza.
O cenário cultural brasileiro é mesmo cheio de surpresas. Em que pese nosso antológico marasmo, nossa visão curta e imediatista voltada para os imperativos do bolso e do estômago, essa carga tremenda de depressão de valores, de crises éticas, de estagnação de iniciativas que somem à nossa Cultura, e a paralisação criativa em que vamos afundando, aqui e ali surgem centelhas de genuíno talento, inventividade e perseverança. No Litoral Norte do Rio Grande do Sul (cerca de 100 km de Porto Alegre), há uma pequena cidade chamada Osório, onde vive o poeta e professor de português, literatura e texto técnico da rede pública de ensino chamado Anderson Alves Costa ou, como é mais conhecido, Delalves Costa. Muito bem, o senhor Costa tem já 7 livros de poesia publicados (ele tem 37 anos), e estará em breve lançando o oitavo, que se chama Extemporâneo. Uma coletânea de 50 poemas, alguns deles já publicados em livros anteriores.
E republicar alguns poemas tem mesmo o seu valor, expliquemos por que. Novamente, em que pese essa nossa amalucada sede de ineditismo, vamos deixando de esculpir a linguagem, aprimorar a expressão da técnica literária (isto é imprescindível para todos, sobretudo para os iniciantes), para, finalmente, refinar as criações. O poeta, como declarou em entrevista, é adepto do exercício da reescrita, o qual, em geral, é o mais exaustivo processo, momento em que intensamente se trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua! Antes de irmos mais adiante na apreciação crítica da obra, vejamos o que ele reponde quando perguntado, na mesma entrevista, quanto a temas e estilo: “As nuances do mundo me fascinam, para cada época um olhar sob a ótica das vivências e experiências de leitura. Escrevo poesia puramente descritiva, hermética (grifo nosso) e/ou memorialista, ou experimento a mistura dessas. Verso sobre o cotidiano, e tudo que o cerca e o que nele habita. Contudo, algumas temáticas aparecem com mais frequência, como já apontaram os críticos e leitores mais atentos. A reflexão sobre existência/condição humana e seus disfarces, a natureza e suas nuances, o universo urbano e suas transformações, a infância/tempo/velhice, o descaso social e o erotismo são os temas mais relevantes, isso quando comecei a me dedicar à produção literária mais intensamente. Não cultivo hábitos, minha poesia vem da vida. Simples assim!”
Volvendo ao livro. Como se sabe, o adjetivo “extemporâneo” significa o que ocorre fora do período ideal; que se manifesta numa época inapropriada ou que acontece inoportunamente; fora do momento oportuno; impróprio para o tempo ou circunstância em que ocorre. E aí temos uma das preocupações centrais da obra desse autor. O tempo, esse senhor dos destinos, é objeto de vários poemas. Interessante notar que esse tema aparece hoje em inúmeros poetas. Há, em nosso tempo do “aqui e agora” e paralela a essa carreira desabalada em que vivemos, uma preocupação terrível com o escoar do tempo em nossas vidas. É que nos damos conta – porque estamos presos a essa variável existencial – que afinal não tiramos tudo ou mesmo nada, como queiram, do desfrute da existência que o próprio tempo de EXISTIR nos proporcionaria. Mais uma de nossas frustrações elementares. E ninguém pense que estamos a nos referir às fases naturais da vida. Infância, idade adulta, maturidade, velhice e etc… Vamos queimando etapas e já nem sabemos viver cada uma delas. Esse nosso sombrio tempo. Veja-se o poema:
Tempos de solidão
A enviar distâncias, / O descartável e-mail / Que afasta as vozes / Que isola os afagos / E amarra os relógios / Sequestram o tempo / E as vigas de metal. / O castelo é de areia / Já não tarda, o mar / À deriva, o alicerce / À deriva pessoas partem / Seguem e chegam / Como postam cópias / Sem tato sem fogo. / Solitárias, obstinadas / Passam pelos dias, / Vagam pelas noites, / Passam pelas ruas, / Vagam pelos fatos / E negam a si mesmas. / Fronteiras já não há… / O que há são curvas / E distâncias: solidão / Sem direita, esquerda / Sobre a linha tênue / Solidão enunciativa / Num virtual percurso / Entre o lá e o só! / Descartável, est(a)rte / De viver morrendo / Qual metal sem flor… / E poema sem dor… / E carnaval sem cor… / A enviar distâncias / A projeção, o eco / Da sombra curva / Sem rua, sem teto / Nem caverna pelas paredes!
O poema abaixo dá a exata medida de como o poeta pensa o Extemporâneo:
Palarvas – o Extemporâneo
I
Pra libertar, esterco. Lavras / e larvas no inconcluso / caos! Se não devora / germina-se no recluso / extemporâneo afora, / das g(est(ações às palarvas
II
pretenso por versos brancos / a tensionar decolonial / de Abaporu a Boitatá / gesta-se arte, ou será / terra esquartejada tal/ Bruzundanga aos trancos…
III
Fecundamo-nos outonais / agora e subversivos / ou é caos, pleno luto / pela página! Inculto, ocultam-nos outrora / para dializar os carnavais.
IV
Homemporâneo de lavras / em palarvas extrai arte / e a reparte! Destarte / ora canibal ora mito, / ver-se não circunscrito / a estercar-se de palavras.
Os poemas desse livro realmente versam sobre a vida, o amor, o tempo, as ausências, um nítido engajamento social e a própria poesia. Abordam o homem em suas questões existenciais em busca da compreensão metafísica desses temas. Há na obra textos não somente verdadeiramente bem trabalhados, como de uma profundidade existencial digna de nota. São exemplos: “Maria e José e a Família”, “Quixote – leitor de amanhãs”, “Epifania – a flor politizada”, “Vividez – iguais perante a lei”, “O Trágico de Os – o rio pelas veias”, “Ao rio, gozo de Oceano”, “O Homem sono em claro”, “O Efêmero coadjuvante”, “Antropofagia”, “Linguardente”, “Na praça, cão e ninguém” e “Inconcluso – o Homendereço”.
Uma das vertentes que o poeta envereda é também das mais curiosas e criativas. Referimo-nos à reelaboração ou redimensionamento ou, ainda, uma atualização de questões formuladas por outros poetas que, sem dúvida, contribuíram para sua formação literária. Por vezes, ele apropria-se somente do mote de um poema. Identificamos dois momentos nos quais aparecem referências, embora que indiretas, a Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade. Não há como deixar de recordar de Bandeira ante a leitura de “Vou-me embora pro Asteroide 329”. No poema de Bandeira – “Vou-me embora pra Pasárgada” -, há aquele desejo de evasão ante as impossibilidades de uma vida prestes a findar-se pela doença que o atormentava e pelas restrições de uma vida acanhada e sem perspectivas de felicidade. De toda uma vida que podia ter sido e não foi. Já em “Vou-me embora pro Asteroide 329”, o desejo de evasão está, a nosso ver, diretamente ligado ao fazer literário do próprio autor em um meio extremamente desfavorável. Fica a pergunta a propósito do livro: Quem ou o quê é extemporâneo? O poeta ou o mundo que insiste em não enxergar verdades?
Vou-me embora pro Asteroide 329
I
Velam a morte sem corpo / ao falar a língua dos contrastes, / a língua dos estupef(atos). / Divago explícito e tolo / entre tortos poliglotas, / sem a estes pertencer; / de minuto em minuto / acendo os lampiões / pra iluminar Josés e Marias / e seus íntimos países.
II
Mas em tempos de fogos / de ruas e fogo, de mãos / e brasas, sobrará país? / Embora lhes faltem pão, / assistem ao circo / nos bares e lares / os vio(lados opostos).
III
Embora eu sofra de mudança, / eu clamo por metáforas! / Prefiro isso a feias verdades: / ócio a divagar. Portanto, / vou pro Asteroide 329, lá / eu falo a língua dos lampiões, / liberto silêncio das ruas.
Sob outra visada podemos ler dois poemas. “JOSSEU – o herói estrangeiro” e “Enigma, o Claro”, que nos remetem respectivamente ao poema “E agora José” e ao livro “Claro enigma”, ambos de Carlos Drummond de Andrade. Quanto a este último, é preciso que acrescentemos um detalhe: enquanto Drummond demonstra naqueles poemas de Claro Enigma um foco mais centrado nos sentimentos e nas transformações sociais da primeira metade do século XX, Delalves Costa parece abandonar o desejo de encontrar respostas e soluções para os problemas sociais e passa a buscar as perguntas que precisam ser feitas, e com o bom auxilio da Literatura que permite que o universo filosófico e metafísico mergulhe no íntimo do ser humano.
Enigma, o Claro
É caminho incerto: longe/perto, / visceral aventura; é procura / que se faz realidade, elasticidade / que se reinventa. É tormenta / pelas veias: relâmpago instigante / às escuras, luz nas procuras / a revelar o mistério. É revertério / o verso reverso e universo / quando às escuras sob procuras / o claro enigma, paradigma: / o novo de novo que deixa de ser / para ser outra coisa. É coisa / outra que estimula, que anula / o óbvio de será, de seria / pelo curso, percurso que se leva / que se faz treva e se trava / aos olhos, à mente; e de repente / do nada o mundo obscuro / se torna pleonástico. O elástico / de ponta a ponta se estica / e edifica a vasta aventura e apura / que a pura verdade habita / não erudita, bendita pela criança / sem os relevos do mundo.
Alguns leitores devem ter observado a utilização de palavras, formada por neologismos, aglutinações de outras palavras e/ou sentidos conferidos pela homofonia e por sons que assumem sentidos próprios. Claro que são artifícios de construção que o autor emprega. Realmente, uma poética incomum. Estamos diante de construções formais (em boa parte dos poemas) bastante peculiares e que têm gerado uma caracterização de sua poética como “hermética”. Ora, sabemos que o conceito de hermetismo, em literatura, é análogo ao utilizado em filosofia, no que toca a algo cujo sentido é muitas vezes fechado, secreto, impenetrável, oculto e até mesmo indecifrável para o leitor/receptor que não dispõe de ferramentas necessárias para uma apreensão mínima. Essa espécie de incompreensão que ronda um texto considerado hermético, no mais das vezes, está ligada a uma intencionalidade que apela ao leitor um duplo movimento de decifração e recifração. Acreditamos serem pertinentes tais observações, porque desfazem preconceitos e julgamentos equivocados. Preconceitos que partem, inclusive, de uma certa parcela da crítica literária “pré-histórica” que ainda, e anacronicamente, não relativiza os parâmetros de análises fundadas exclusivamente sobre bases de cunho efetivamente mimético. Não é demais referir que a base da linguagem poética é a metáfora que, na sua forma radical, é uma afirmação de identidade: “isto é aquilo”. Em toda a nossa experiência comum, a metáfora é não-literal: ninguém, a não ser um retardado mental, pode tomar a metáfora literalmente.
Já não se busca a mimese em primeiro grau. Aliás, já há muito tempo o poema fala por si. Desde William Blake, demiurgo de todo um universo imagético pessoal, tem se buscado (e conseguido), a renovação da linguagem poética. É inclusive vasta a galeria dos ditos “herméticos” que construíram obra de elevada condensação poética. Ocorre-nos, de memória, Nerval, Mallarmé, Rimbaud, Valéry, Rilke, Salvatore Quasimodo, João Cabral e Murilo Mendes, dentre outros. O próprio Rimbaud, em suas “Cartas do vidente”, já não propunha ao poeta a tarefa de descobrir territórios desconhecidos, que ele desbravaria na frente e de onde traria notícias, muitas vezes informes, ao leitor? Muito bem, o senhor Delalves Costa pratica uma poesia de intensa elaboração formal, com maestria técnica e o uso de uma metalinguagem cortante. Sim pode parecer opaco, de uma opaca tessitura atravessada por sombras e silêncios. Mas é precisamente daí que advém o equilíbrio entre silêncio e palavra, entre o individual e o coletivo, entre a tradição e a renovação. É preciso que se entenda que nos é proposto um hábil jogo dialógico no qual o poeta cria entre o mundo real e o universo do imaginário, a partir de uma consciência linguística que dinamiza o estático e humaniza o desumanizado ao tensionar a linguagem ao extremo, desafiando o dizível. Pensemos nisto antes de afirmar: Ah, o sujeito é um hermético!
E, finalmente, há também em “Extemporâneo”, uma busca de caminhos, de soluções, de saídas para uma nova vida, enfim, porque ninguém mais hoje, em sã consciência, pode admitir que a humanidade siga trilhando esse caminho de insensatez. Os três últimos poemas do livro são testemunhos vívidos dessa busca. Transcrevemos o poema “A Reinvenção”:
É preciso rasgar o modelo hipócrita / deste sistema talhado maquiavélico. / Deste sistema retalhado de costuras / de consequências ardilosas… Aliás,
é preciso rasgar o que não edifica, / amputar punho tirano. Rasgar-se. / É preciso morder pelo alicerce / a morta política dos canetaços. / É precisa rein(ventar fórmulas) / sim, para desentortar bengalas / é preciso, sim, reformas / e significados concretos / sim, remontar conceitos / e desobstruir mundos coagulados.
Sim. É preciso repensar sobras / o vigente modelo remendado. / Vamos atear fogo no resultado / renascer das cinzas não basta, / é preciso remodelar as chamas.
Krishnamurti Góes dos Anjos é escritor, pesquisador e crítico literário. Autor de Il Crime dei Caminho Novo – Romance Histórico, Gato de Telhado – Contos, Um Novo Século – Contos, Embriagado Intelecto e outros contos e Doze Contos & meio Poema. Tem participação em 27 Coletâneas e antologias, algumas resultantes de Prêmios Literários. Possui textos publicados em revistas no Brasil, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. Seu último livro, publicado pela editora portuguesa Chiado, – O Touro do rebanho – Romance histórico, obteve o primeiro lugar no Concurso Internacional – Prêmio José de Alencar, da União Brasileira de Escritores UBE/RJ em 2014, na categoria Romance.
É um caso raro de acontecer. Eu considero ser um privilégio meu estar aqui a apresentar uma pessoa que durante cinquenta anos escreveu para si mesmo, para a gaveta, e eventualmente, de vez em quando, para aqueles que, como o que está lá ao fundo [o editor], o quiseram publicar, não é verdade? É uma vida dedicada a uma fé. O autor acredita na poesia, acredita na palavra. Eu me sinto de facto comovida de poder estar aqui com ele hoje e gostaria de vos explicar com palavras muito simples, e não vou ser longa, o que é a poesia lírica. A poesia lírica é aquela poesia que mais de perto nos fala ao coração. Aquela que nós gostamos de recitar, aquela de que nos lembramos quando estamos a conversar com os amigos: olha, os sonetos de Camões; olha um poema da Natércia Freire… É aquele que se nos entranha por dentro.
A poesia lírica é uma espécie de conversa de uma pessoa com o mundo, é uma conversa quase secreta. Disse um teórico canadiano da literatura, Northrop Frye, que a poesia lírica é feita do eu para o eu, mas ela é feita também para ser dita ao outro, porque é evidente que ela é uma forma de comunicação. Disse o teórico Northrop Frye que, quando lemos a poesia lírica é como se fosse um ato de indiscrição, é como se a gente “tresouvisse” a privacidade absoluta do outro e é como se esse outro generosamente nos deixasse entrar naquilo que nós costumamos chamar, e bem, de “alma”; entramos na alma do outro pela poesia lírica.
Uma coisa que a poesia lírica tem de muito bonito e que nos faz gostar dela, é o aspeto ritualizado: ela tem um ritual, um jeito de dizer as palavras, um jeito de organizar as ideias que faz com que tudo fique musical e não é à toa que ela é chamada de “lírica”. É porque no início ela era acompanhada pela lira, acompanhava-se ao som da lira. Aquilo fazia uma junção da palavra com a pura melopeia que acompanhava essa palavra. O nosso amigo António Vera nos seus cinquenta anos de escrita secreta acompanhado pela esposa, com certeza que era a sua musa, já se sabe. Não é verdade, ou talvez até tocasse mesmo lira. Às vezes, no convívio de um casal, fazem-se muitas coisas ao longo da vida.
O nosso amigo António Vera tem no meu entender uma grande noção daquilo que faz a substância da poesia ocidental e da lírica ocidental. Essa noção é, em primeiro lugar, a da musicalidade. Ele tem música nos poemas, ele trabalha muito bem nas retomadas dos mesmos sons dentro do mesmo verso ou entre versos. Ele trabalha muito bem no ritmo, como é que ele quer que o leitor leia, com que pausas, com que forças, com que subtilezas de voz. Ele precisa disso, ele sabe fazer isso e, sabendo disso e precisando disso, ele se enquadra de pleno direito na tradição da poesia em que nós vivemos. Aliás, ele se enquadra também porque revisita formas da poesia. Ele faz, por exemplo, uma linda cantiga de amor, neste livro, como faz também sonetos, que são formas particularmente difíceis. O Couto Viana** e o Nogueira*** dirão: “mas o soneto é uma forma exigente”, o soneto pede uma disciplina mental muito grande para você construir uma ideia e chegar àquilo que se chama “chave de ouro” e, portanto, não é qualquer um que faz um soneto. António Vera tem preciosos sonetos e, daqui a pouco, lerei um deles.
Queria falar ainda um bocadinho, que eu não quero tomar muito tempo. Nós temos que pedir ao Papai Noel para trazer ao Fernando**** umas cadeiras de presente para o Natal para os próximos lançamentos, para podermos explicar melhor as obras literárias. Temos que explicar depressa [pois] com o pessoal de pé, não dá. Mas eu queria dizer uma coisa para vocês que é o seguinte: eu, no começo, disse que o lírico é aquele que se encanta perante a variedade do mundo. O mundo é variado, o mundo é diferente, o mundo é bonito, o mundo nunca é igual. O mundo é sempre uma provocação e o lírico sabe disso, e ele dialoga com o mundo e dialoga através de determinados temas que são também revisitados em toda a tradição cultural europeia e talvez mesmo universal, e que são os temas revisitados também pelo António Vera. Por exemplo, um tema fundamental é o tema do tempo. O tempo passa. Ele tem imensas poesias sobre o tempo que passa. E aquele tempo que passa e que ele retrata nos poemas é um tempo que simultaneamente dá a vida, porque evidentemente nós vivemos no tempo, mas traz a morte também. Porque o tempo é aquilo que nós vamos caminhando através de, não é verdade? E vamos chegar ao outro lado. Então nesse tipo de temática vocês encontrarão laivos de melancolia muito bonita, uma melancolia por vezes muito discreta, muito subtil; ele é muito discreto, ele não é um homem do dizer com muitas palavras, ele não é um homem de muitos adjetivos, ele é um homem do pudor do sentimento.
Um outo tema que ele tem, é o tema da morte e outro tema é o tema da natureza. São todos três temas privilegiados na nossa tradição. Quando ele trabalha esses temas, obcessivamente ele fala uma vez naquilo, depois ele torna a falar, depois no poema seguinte toca noutro assunto, depois retorna ao primeiro, vai revisitando a mesma preocupação, que é uma preocupação humana. O que é que ele está fazendo? Ele está fazendo aquilo que todo o poeta faz e que se não se faz isso não se é poeta. Ele está a estabelecer um lugar da sua reflexão sobre as coisas, ele pensa sobre as coisas, ele vai refletindo e quando nós refletimos sobre as coisas, é evidente que nós não pensamos nelas uma vez só. Para a nossa medida precisamos voltar ao mesmo lugar, tornar a pensar, ver como é que é, contar de novo. E quando ele estabelece esse espaço de reflexão e o revisita, ele então inocula na sua poesia aquilo que eu gostaria de chamar, António Vera, de dimensão filosófica. É a dimensão do pensamento que se constrói sistematicamente, retornando aos mesmos temas e tentando ver até que ponto aqueles temas pesam ou não pesam dentro do imaginário do ser e dos seus livros. Eu vou dar para vocês alguns exemplos, vou ler para vocês alguns poemas do António Vera:
4
da talha benta da senhorinha morta, vazio o bojo de pedra, polido. o rosto deitado da senhorinha morta, cobre-o um lenço de linho.
quem foi o rosto copiado em cera e lírio da senhorinha morta?
responde (o que responde?) o bojo polido, o bojo da talha benta da senhorinha morta, com uma lágrima de vidro: conta de um terço rezado à senhorinha morta, em tempo ido.
17
crepita um vento fraco na crista lúcida da onda. colada à sombra do barco desliza na água minha sombra. planície, verde várzea, móvel e falso espelho de deus, retém a quilha, gela a água! que vento, quilha, mar e sombra sou eu.
38
verde o reflexo na folha iluminada. sobre ele adeja a minha nostalgia.
agora lembro aquele antigo dia feito de som e água.
e um quase nada daquela cor aflora aqui a relembrar a minha vida que se esbate no ar como o vapor da madrugada.
68
a solidão alonga pelo rio, direita à barra, seu ventre de metal. presa a estibordo, a dor, que vai partir, tenta ficar soldada àquele pontal. manhã nascente, é noite noutro rio.
passos nus, vacilantes, de um arrais, timbram o silêncio de um som mole e cavo, e um grito de sereia põe um travo de acre certeza num manar de ais. os sinais amarelos das vigias abriram rumo sobre o rio plano, enquanto em nós se abre um oceano, em que naufragam terras e alegrias.
Ele tem espírito de humor também. De vez em quando os poemas dele são poemas de espírito de humor:
75
à mulher que mais amei levou-me o vento um recado: — perdoaste? — perdoei! ó vento, muito obrigado!
E agora é a revisitação, noutro poema, da poesia medieval da cantiga de amigo:
94
ai flores, ai flores do rosmaninho, se sabeis novas de outro olor amigo, trazei-mo de volta, de sândalo ou trigo, trazei-mo de volta, que de respirar vivo, que de amigos vivo, que de respirar vivo.
trazei-mo de volta, fazei-mo vizinho, trazei-me um amigo, que não um cativo, livre como o vento, vivaz como um vinho, que de amigos vivo, que de respirar vivo.
ai flores, ai flores do rosmaninho, partiram as barcas, eu fiquei sozinho, salsugens, madeiras de pinho e de azinho zarparam pelos ares, foram-se os amigos, fiquei no azul, suspenso, sozinho… trazei-mos de volta, que de amigos vivo, que de respirar vivo.
* Texto que serviu de apresentação da obra quando do seu lançamento em Lisboa a 17 de dezembro de 1998, na Livraria Colibri da Universidade Nova de Lisboa.
** Referência a António Manuel Couto Viana (1923-2010), notável poeta português, dramaturgo, ensaísta, ator e encenador.
*** Referência irónica a um dos apelidos de Fernando Pessoa: Fernando António Nogueira Pessoa.
**** Referência a Fernando Mão de Ferro, primeiro editor deste livro.
ONZE POEMAS DE ANTÓNIO VERA
[sem título]
da talha benta da senhorinha morta,
vazio o bojo de pedra, polido.
o rosto deitado da senhorinha morta,
cobre-o um lenço de linho.
quem foi o rosto copiado em cera e lírio
da senhorinha morta?
responde (o que responde?) o bojo polido,
o bojo da talha benta da senhorinha morta,
com uma lágrima de vidro:
conta de um terço rezado à senhorinha morta,
em tempo ido.
in cursivo menor, 2000, pág. 20.
[sem título]
a morte é um planeta inabitado,
donde partiram quantos ali foram
ou voluntariamente ou enganados,
buscando alojamento, paz, alfombra,
descanso para a alma, ou magoados
por não haver onde esconder a sombra.
tal planeta lá para oeste fica,
bem para trás do sol posto, onde se expande
o raio verde, com o fim do dia,
sarcástica mansão dos desenganos
dum mundo atafulhado só de vida,
mas que à vida responde só com vida
e aos desenganos só com desenganos;
onde o tempo-matéria se desfaz
com presteza contrária à da luz
e os calendários giram só pra trás
in palavras com rosto, 2000, pág. 75.
roleta
uma fonte, dois cântaros:
em um deles, veneno;
de um só tu beberás.
a tua sede aperta.
alguém te diz “és livre”;
alguém te diz “és cego”.
a tua sede é muda.
acerta ou desacerta,
mas beberás com pressa.
e, certo, serás livre,
nesse momento eterno,
que tu decidirás.
in as pestanas de Afrodite, 2001, pág. 29.
torre do bugio, pau de água
à beira de um tejo azul,
grosso pau de água soluça
verdes folhas enlaçadas
em forma de coração.
chora a tepidez dos trópicos,
chora por chica da silva
que lhe afagava o formato
de pau-brasil em ereção,
e os quindins de sinhá-moça,
ao passar por ele as mãos,
duas mil léguas pra lá
dum meridiano a oeste
deste que o ata por cá.
ai! porque as mãos de sinhá,
palmas de leite de coco,
levam-no ao bugio mirar
como se ele fosse um sinal:
a torre sendo um pau de água,
prantado à barra do tejo,
pelas águas enlaçado…
e as dobras das ondas fossem
as lamas das mãos de iá-iá.
in escrito na margem, 2003, pág. 43.
Esta apagada e vil tristeza
(agosto, 2003)
entre a piedade e o desalento
revejo monte e vale:
queimado quase tudo
sujos rios
pobres
desempregados
traficantes
bêbados de poder
e de arrogância
ou de mau vinho.
e indigno-me sozinho
comigo e o nosso mal:
terem-nos roubado
o gesto e a sanha
o número e a vontade
as luzes do saber
sequer a manha
de dar sentido e nome
a Portugal.
in sons que falam, 2004, pág. 100.
Flor de sangue
caem sonhos no poço onde cai sangue
arterial, contigo misturado,
como um pastor no meio do seu gado
segue o expirar da tarde estreme e langue.
e no poço flutua a flor do mangue
que no líquido vive – é o seu fado –
e no líquido morre: lado a lado,
vida e morte excessivas, força exangue.
é nesse espaço rubro, em quatro quartos,
que a terna flor, vivendo as estações,
dá sustento a nós dois, tornados plasma,
a circular no corpo, em sonhos fartos
de posse, de avidez de sensações,
ébrios da fina dor que entusiasma.
in de amor e desengano, 2005, pág. 108.
O Lacrimensor
chora-me ainda hoje
a minha morte breve
para eu saber
se ainda me memoras
medir-te as lágrimas
no rosto
bebê-las a correrem
plo teu corpo
tocar a minha vida e morte
em trasladado gozo
e evaporada a alma
dessas lágrimas
tomá-la dos teus olhos
tão bem vivos
in estrofes elementares, 2007, pág. 102.
Esconjurando o inverno
desde a raiz da minha vida
uma seiva de fé e de certeza
me sobe ao coração
e a tenho presa
no estame desta flor
que a ti entrego
põem-na entre os teus seios …………esses meus amores …………como os teus olhos …………boca …………quanto és
porque dessa união
nos nascerá um filho
primaveril e doce
a esconjurar invernos
in amor sempre e a seguir, 2009, pág. 31.
Português meu amor e língua minha
minha língua-mãe
confusa e linda
relampejas de luz
e crias trevas
onde flutua a tua omnisciência
que é dos nossos sonhos
o mar onde nos levas
a descobrir o mundo
o mundo avassalado
por capitães do lucro
e da ganância
esfarrapada e bela
velha e jovem
que outros irmãos te vistam
e alimentem
onde eu falhei vestir-te
de rainha
e te peço perdão
por esta minha torpe
insanável e tola
inconfidência
in folha a folha os dias, 2010, pág. 73.
Os pólos sensíveis
coração foi-me guitarra
quando coração havia
e o céu enchia e vazava
de meu amor e alegria
por isso eu pra ele olhava
e a melodia nascia
e havia uma pedra rara
que dentro de mim caía
e com ela me arrastava
a dias sem sol de luto
onde ninguém habitava
senão a mágoa sem fruto
mas sempre havia a guitarra
pra quem a tocava havia
dois mundos que se fechavam
mas que alternados se abriam
agora sonho o meu nada
cordas guitarra partidas
in o frio das metáforas, 2011, pág. 84.
Veleiro
qual a vela
salgada de um veleiro
enfuno e vou direto aos horizontes
sem escolher nenhum
eles que me escolham
extinto o raio verde da memória
a estrela da manhã
e a sua história
tanto que o vento sopra
sopra hinos
todos sacros de adeus
não voltarei
voltar é renegar o tempo ido
e isso eu não farei
in apostila (2015, edição póstuma), pág. 55.
BIOGRAFIA BREVE DO POETA ANTÓNIO VERA
Antonio Vera / Foto: divulgação
[José] António Vera [de Azevedo] nasceu em Lisboa, na freguesia das Mercês, a 22 de junho de 1923, e faleceu na mesma cidade a 26 de dezembro de 2012.
Trabalhou desde muito novo: foi empregado no comércio, agente de seguros, funcionário da Contabilidade Pública. De 1958 a 1987 trabalhou nos Serviços da Emigração como representante do governo português para os assuntos da emigração nos países de acolhimento e, já no final da sua carreira, como técnico superior, veio a aposentar-se da ex-Secretaria de Estado da Emigração e das Comunidades Portuguesas. Ao serviço da Emigração fez inúmeras viagens, tanto por Portugal como pelo estrangeiro, entre os quais se contam a maioria dos países americanos, vários da Europa, assim como no Irã, tendo-lhe sido necessário dominar fluentemente o Francês, o Inglês, o Castelhano e o Italiano. Completou diversos cursos, entre os quais o Curso Complementar dos Liceus (secção de Letras), o Curso Complementar de Comércio, o Curso do British Council, o da Alliance Française e o Instituto de Estudos Sociais, tendo‑lhe sido conferido o diploma de Política Social pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa. Também frequentou a Faculdade de Letras de Lisboa, onde não concluiu estudos devido ao facto de não lhe ser permitido faltar ao trabalho para frequentar as aulas e por não existir ensino noturno. Entre 1947 e 1951 colaborou em várias publicações literárias, nomeadamente na Távola Redonda, fundada por António Manuel Couto Viana e David Mourão-Ferreira, nas revistas Seara Nova e Atlântico, e fez parte dos amigos da Árvore. Exemplos de alguns textos publicados nas revistas citadas acima: Seara Nova: 13/9/47; 1/11/47; 24/2/49; Távola Redonda: 5.º e 7.º fascículos; Atlântico: n.º 5; e revista de Outono de 1951. Foi citado como um dos seus amigos no número da revista Árvore – Primavera e Verão de 1952.
Inscreveu-se como sócio na Sociedade Portuguesa de Autores sob o n.º 4824. Conviva e amigo dos poetas Daniel Filipe e Raul de Carvalho, confraternizou também com José Osório de Oliveira e José Terra. Mas, por dever de ofício e contínuas viagens, não lhe foi possível manter contactos estreitos com estes amigos e outros cultivadores das letras portuguesas. De 1972 a 1974 foi o principal compilador e redator de uma revista informativa editada pelo então Secretariado Nacional da Emigração, o Correio do Secretariado, e de uma revista para jovens filhos de emigrantes, o Boletim da Amizade. Em fins de novembro de 1975, numa viagem de serviço no navio Eugénio C, que fez escala por Génova, e em consequência de uma atribulada mudança de camarote, perdeu uma volumosa coletânea de poesias que tencionava publicar no ano seguinte. Ao empenho extremadamente dedicado de sua filha, Maria José de Azevedo, se deve a publicação da sua obra poética, a qual compreende onze volumes: dez publicados em vida e um volume póstumo. António Vera é também contista e publicou um grande número de artigos ao longo de toda a sua vida.
Da bibliografia ativa do autor contam-se os seguintes volumes: cursivo menor (1998); palavas com rosto (2000); as pestanas de Afrodite (2001); escrito na margem (2003); sons que falam (2004); de amor e desengano (2005); estrofes elementares (2007); amor sempre e a seguir (2009); folha a folha os dias (2010); o frio das metáforas (2011); apostila (2015, edição póstuma). Está em perspetiva a publicação da obra do autor nos países de língua portuguesa.
Maria Lúcia Torres Lepecki nasceu em Araxá, Minas Gerais, em 1940. Licenciou-se e doutorou-se em Filologia Românica pela Universidade de Minas Gerais. Foi docente na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa desde 1970 (Professora catedrática em 1981). Membro do CLEPUL (Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias), membro da Associação Portuguesa de Escritores (1975-1977), vice-presidente da Associação Internacional de Lusitanistas (1984-1986), conferencista e professora visitante em várias universidades (Salamanca, Oxford, Budapeste, Varsóvia, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Brown). Investigadora, crítica literária, ensaísta e infatigável divulgadora das literaturas e culturas de expressão portuguesa.
A Literatura que não economiza no humor e na fantasia
Por Geraldo Lima
Claudio Parreira é desses escritores que enxergam a realidade pela ótica da zombaria, do humor, do escracho. Sua crítica aos poderosos ou ao comportamento humano passa sempre pelo rebaixamento ou pela ação de despir qualquer gesto grandioso da sua aura de importância. Na sua narrativa não cabem a sisudez, a dramaticidade ou o discurso grandiloquente. Não que ela seja marcada pela frivolidade, muito pelo contrário: esse seu caráter de desconstrução do que se determina como sério aponta exatamente para a descrença do autor na ideia de redenção do ser humano por intermédio de um discurso edificante. Claudio Parreira é, nesse sentido, um pessimista. Daí o modo zombeteiro com que trata literariamente as aflições humanas. É esse modo de narrar irreverente que o leitor encontra em A Lua é um grande queijo suspenso no céu, romance que o autor publicou, em 2017, pela Editora Penalux.
Para os que leram Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, fica mais fácil entrar no clima fantástico e irreverente desse romance de Parreira. Não que isso se imponha como exigência para se entender a história contada por ele, mas, com certeza, os que leram a referida obra de Machado vão sacar de imediato que o romance A Lua é um grande queijo suspenso no céu dialoga diretamente com ela. Não só dialoga, como traz, para dentro da sua narrativa, a figura do Bruxo do Cosme Velho.
“Sem considerar o absurdo de estar conversando com alguém, digamos, tecnicamente morto, mandei uma pergunta:
– O que é que você, senhor…
– Assis. M. Assis ao seu dispor – ele respondeu, o cigarro lançando uma fumaça preguiçosa para o alto” [pág. 35].
À semelhança do livro de Machado de Assis, o romance de Parreira traz também um defunto-autor [que faz constante uso da metalinguagem e da intertextualidade]. Só que, neste caso, um defunto-autor que está escrevendo um diário, cujos eventos dão-se entre os muros de um cemitério. O livro abre, na verdade, com um prólogo narrado em terceira pessoa. Nesse prólogo, sabemos que um corpo está sendo levado para o IML, numa ambulância, acompanhado por um médico e um enfermeiro. Junto ao corpo encontra-se um caderno. E é através da leitura, feita pelo médico, do que está escrito nesse caderno que somos conduzidos à história que se passa no interior de um cemitério. Essa história, para espanto do leitor, ainda está sendo escrita pelo protagonista, que, inicialmente, denomina-se Pafúncio [a questão do duplo é uma das tensões presentes na narrativa]: “– Admiro a sua determinação. Não é nada fácil viver uma aventura e escrevê-la ao mesmo tempo” (pág. 109). Essa trama pode parecer absurda e inverossímil num primeiro momento, mas, durante o desenrolar da narrativa, somos constantemente alertados de que, ali, no reino dos mortos [e no reino da fantasia, também!], tudo é possível. O engraçado é que, assim como a protagonista da peça Valsa nº 6, de Nelson Rodrigues, o tal Pafúncio não se reconhece como morto. E vai levar um bom tempo até reconhecer a sua nova condição, apesar de todas as evidências de que já não se encontra no mundo dos vivos.
Se Brás Cubas, no além-túmulo, decide escrever suas memórias com “a pena da galhofa e a tinta da melancolia”, o personagem de Parreira não fará muito diferente: com a caneta da galhofa e da fantasia, ele, instigado por outro personagem, o misterioso Bernabé, dá início às suas idas e vindas em busca da panaceia, neste caso, pela cura do grande mal que aflige a humanidade: a Miséria. A partir daí, o que se vê é o nonsense, o fantástico, a irreverência, num universo em que se misturam vivos e mortos. Esse jogo entre vida e morte, entre o anseio pelo conhecimento e a dúvida de que se vale a pena mesmo buscá-lo, cria uma certa tensão entre o protagonista e aquele que o instigou a procurar a panaceia. Mas nada aí se propõe a criar discussões muito engajadas ou climas dramáticos. Quando a narrativa se encaminha nessa direção, o defunto-autor trata logo de desconstruí-la, apelando, até mesmo, para o juízo crítico do autor de Memórias póstumas de Brás Cubas:
“Poucos fatos, é verdade, mas ainda assim. Esta seria, portanto, a minha salvação (e a de Bernabé também) e, paradoxalmente, a minha maldição. Ó!
– Larga mão de ser dramático!
O forte cheiro de cigarro não deixou dúvidas: era o tal M. Assis de novo…” (pág. 107).
No esforço de afastar o discurso de qualquer tom solene, o autor procura manter a linguagem num nível menos elevado, apelando, às vezes, para a linguagem chula, coloquial. “Em busca da fórmula de porra nenhuma, de uma panaceia tão concreta quanto um unicórnio” (pág. 53). “Estava sobre uma laje de mármore fria pacarái” (pág. 99). Assim, qualquer palavra mais sofisticada ou expressão mais poética da linguagem que apareçam, como que por descuido do narrador, eis que são logo sacaneadas, rebaixadas, usando-se, para isso, divertidas notas de rodapé. “– Bobagem – pensei enquanto o vento chicoteava meu rosto e cabelos com a fúria das suas carícias.”²9 E a nota de rodapé: “29. Deusolivre! Que expressão…” (pág. 81).
O tom da narrativa de Claudio Parreira é esse. E nessa narrativa marcada pelo gracejo impera a constante desconstrução do sentido elevado da linguagem. Cabe então ao leitor desconstruir-se também e entregar-se ao clima de gozação que a permeia. Muitas vezes, somos alertados pelos autores sobre os riscos ou consequências da leitura da sua obra [o que só nos instiga mais ainda a lê-la]. Assim o faz Lautréamont [ou o eu lírico/narrador dos seus Cantos de Maldoror] logo no Canto Primeiro: “Não convém que qualquer um leia as páginas a seguir; só alguns conseguirão saborear este fruto amargo sem maiores riscos. (…) Ouve bem o que te digo: dirige teus passos para trás e não para frente, assim como os olhos de um filho que se afasta respeitosamente da contemplação augusta do rosto materno” (pág. 31). Ou o próprio Brás Cubas, em tom bem debochado: “A obra em si mesma é tudo; se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus” (pág. 12). Parreira, ou seu defunto-autor, só vai se dirigir ao leitor, nesses termos, lá para a página 41, quando percebe que a sua narrativa circular, ou seu eterno retorno ao ponto de partida, pode enfastiar o leitor mais impaciente: “Mas aqui, cá entre nós, já percebi uma coisa: esta narrativa vai e volta, se enrola sobre si mesma, não fode nem sai de cima. Acho que é bom dar logo um norte a esse negócio, senão vocês aí podem ficar entediados e fechar o livro, o que não é bom pra mim e muito menos para a editora. Sigamos então!” (pág. 41).
Então, caro leitor, mergulhe sem medo nas páginas fúnebres e delirantes dessa obra de Claudio Parreira e se divirta um bocado.
O mundo é uma roda e nós no meio ou como se deu minha Trans forma são
Por Mayana Rocha Soares
Platão tinha mesmo razão em temer a presença de poetas em seu projeto de pólis. É gente perigosa, que faz movimentos curandeiros com palavras. É brincando de transmutar que o poeta Alex Simões ginga formas, palavras e sentidos, em seu recente livro de poesia Trans Formas São, lançado em 2018, pela editora soteropolitana Organismo. Esses giros de poesia não foram por mim lidos na racionalidade pretendida de uma crítica literária, mas atingiu o corpo. Taí o seu perigo! Atingindo o corpo, ela (a poesia e seu efeito alucinógeno) tem o poder de agir como feitiço e reorganizar sentidos, desejos, gestos de afeto. Alex nos deu um roteiro de transmutação. E mudar é perigoso para os desejos da nação. Há sumários por todos os lados como bússolas para gente poder se perder à vontade. Há o sagrado “no meio do caminho, entrelugares”, entrecaminhos, encruzilhadas tecnológicas, cantos, sons, Exu, ebó, padê. Sem eixos centrais de sustentação. “Mas há um centro?” Só o habitar do fora.
Alex Simões é poeta, professor e performer baiano. Além de muitas outras publicações em livros e coletâneas, realiza no próprio corpo a experiência literária, através da performance. O livro é composto de 37 poemas. Por meio destes, Alex Simões expõe o mundo através dos olhos apaixonados de quem não apenas observa a vida passando, mas a vive. Por quem atravessa a vida transformando e sendo transformado por ela. Trans Formas São é um livro de performances artísticas das palavras, das formas e sentidos todos, reorganizados a partir do que sentimos, de como amamos e de como seguem nossos desejos e afetos.
O poeta admite fingir, mas não só como o Pessoa, o português. Melhor. Não finge só a dor. Ele diz: é que “me faltam boas ideias e tendo a apelar para grafismos”, há que “fingir que já li muitos calhamaços, roubar, plagiar, sempre negar”. É que “a vida sem sentido dá avisos / há vida pulsando / o tempo urge e às vezes dói lembrar”. Eu também roubo suas palavras agora, mas não sou poeta. Me permito transbordar nessa lama de palavras. Mergulho nela e me transformo também. Aquela mulher que abriu a primeira página do livro não é a mesma quando encerrou a leitura. Alex é modesto. “embora não despreze o métier, e seja mau poeta, é de outra subárea: dos que temos alguma vocação, não pra poesia, mas pra gambiarra”. Acha que é um poeta ruim. Se ser ruim é cumprir essa difícil tarefa de trans forma são, sem controle de como isso é possível, sem reconhecer seu alcance, então, fique satisfeito: você é muito ruim nisso! A gambiarra é que salva! “Toda/o poeta é experimental / obcecado por buceta” [de minha parte, também gosto] / transgênero por vocação / híbrido por definição / fundado na incerteza”. A gambiarra é essa arma que faz da literatura ser aquele menor, conforme Deleuze e Guattari nos ensinaram.
As certezas todas foram embora. Em Trans Formas São nos instalamos no oblíquo, na experiência do quase. “é quase um manifesto / por um quase negro / que é quase um homem / quase filho caboclo eké orixá santo sem base”. “O mundo é uma roda e nós no meio” e a “minha vida é um baile entre seus braços”. Transmutei seus versos para senti-los, novamente, dentro de mim de outros modos, em outras velocidades. Eu também não sei ao certo “que porra é mesmo o contemporâneo”. Mas sei que a poesia underground não tem limites temporais, porque vive nos subterrâneos. Depois discutimos “se houve mesmo uma autoria ou criação coletiva”.
Walter Benjamin, sabiamente, uma vez disse assim: “Nunca há um documento da cultura que não seja, ao mesmo tempo, um documento da barbárie”. Ainda bem que não estamos tratando de um documento, mas dá sua potência significativa, da poesia em seu estado de resiliência. Em sua formulação viva e pulsante nos corpos. “então pergunto: memória e corpo / há distintos um do outro?”. Recortes palavreiros de uma nação colonial em ruínas. Alex dispara um ciclo de notícias: das desalianças internacionais à barbárie da civilização. Em terras brasilis, “Aqui tudo parece que era ainda construção, e já é ruína”, como cantou Caê. Alex nos joga na parede e nos constrange a pegar visão: “em suspenso ninguém vive nem se acerta sem medida”. Vê isso? É o sangue das ossadas da barbárie ainda fresco batendo nas paredes da memória. Afrodiasporicidade. Ancestralidade. Abre o olho, é preciso ver: “escravizados desembarcaram de navios negreiros / morrendo por maus tratos e/ou de orgulho, talvez numa recusa por servir, morrendo como parte de um processo histórico e de resistência em luta”. Marielle, quem matou? David? Luana? Dandara? “escondemos de nós mesmos trezentos anos de escravidão”. Mas de lá dos escombros nos assombram com seu sangue, sua ossada e sua vingança, “enquanto segue o porto maravilha / com o futuro museu do amanhã / o que fazer dos crimes insepultos?” É verdade, “a gente tem de dar uma de louco porque senão ninguém presta a atenção”. É Grada Kilomba que diz “corpos brancos são sempre corpos que pertencem a algum lugar”, posto que nossos corpos negros foram desterrados e mal enterrados pela colonialidade. Acredito que Trans Formas São territorializa, em alguma medida, esse nosso cuíerlombo, para usar uma expressão de Tatiana Nascimento, de gente preta, insubmissa, dissidente e selvagem.
Trans Formas São também são formas trans, trocadilho barato, mas tem seu efeito. Entre cores e amores, essa poesia carrega uma inquietação, um não sei bem o que de agonia. É por isso que “meu coração não tem memória / nem sabe decorar / então decola”. Corpos trans que nos transmutam, pois se “a moda agora é ser sóbria, nós não podemos ser”. É porque “é uma questão política: o contraste é estratégia de quem milita a alegria”.
Trans Formas São é também leveza e beleza, “com os dois pauzinhos, que às vezes se esfregam aligeirados e outras que se atravessam como pontes”, criando conexões, rasuras e misturas no “perder-se entre outros corpos”. Sem esquecer de “respeitar o tempo”, lograr o tempo e aquela “puta censurada suposta martelada”.
Bom, nem todos os poemas couberam nessa leitura, mas como abarcar toda essa imensidão? “e para amarrar essa corda / andorinhas passarão” – Mas #elenão!
Mayana Rocha Soaresé feminista interseccional, decolonial e sapatão. Doutoranda no programa de pós-graduação Literatura e Cultura (PPGLITCULT/UFBA). Mestra em Estudo de Linguagens. Graduada em Letras e Ciências Sociais.