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108ª Leva - 02/2016 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

Todos fantasmas: A instrução da noite, de Maurício de Almeida

 Por Rafael Gallo

 

instrucaodanoite

Chego só agora que a noite é alta, Teresa, e os degraus se acumulam desproporcionais e cheios de saliências, deformando-se em espirais da garagem à porta desta casa na qual a chave

(com seus muitíssimos dentes)

não entra, veja, Teresa, veja. Soco a porta com violência para colocar a casa inteira abaixo, apenas a chave no chão rindo de mim numa mandíbula desmontada […]

Assim começa A instrução da noite, romance de Maurício de Almeida, recém-lançado pela Editora Rocco. Estreia do autor na narrativa longa, o livro é sucessor de Beijando dentes, coletânea de contos que lhe valeu o Prêmio Sesc de Literatura, e que traz algumas pequenas joias da literatura recente como Duelo, Cadência e Às quatro e meia da manhã.

Na obra mais recente, tratada aqui, um protagonista-narrador se vê preso a uma realidade familiar e pessoal com a qual não consegue conviver, e da qual tampouco se sente apto a escapar (“esse incômodo no qual fiz morada”), representada principalmente pelo ambiente doméstico. Não à toa, a história se inicia e se encerra com o personagem diante da porta de casa, incapaz de atravessá-la. O lar dilacerado de uma família moderna adquire atmosfera kafkiana, em uma narrativa que tem notável estilo particular, “com uma escrita severa e sincopada, mas também de alto teor poético”, tal qual aponta o escritor e crítico José Castello, na orelha do livro.

Um dos primeiros méritos a se destacar no livro é o de o autor dar conta do imenso desafio de conduzir, por páginas e páginas, um personagem ao mesmo tempo patético e dramático, sem permitir-se resvalar nos dois perigos sempre muito próximos: o sentimentalismo de seu lado dramático ou o deboche de sua faceta patética. Trata-se de um grande desafio para qualquer escritor e Maurício não falha ao conciliar os dois polos, para que eles inclusive se potencializem mutuamente, e não se neutralizem de forma tediosa, como seria fácil acontecer. É um feito admirável de construção textual.

Essa é uma daquelas obras das quais contar a história diz muito pouco, diante do todo. Mas, para efeito do mapeamento necessário, a sinopse poderia ser resumida no seguinte: o pai, que abandonou a família na infância do protagonista e de sua irmã, Teresa, ressurge sem que ninguém esteja preparado e funciona como estopim da crise pessoal do protagonista, da qual o romance capta um relance (não é difícil presumir que a angústia dele vem de muito antes e se estenderá ad nauseum após o fim do relato). Completam o restrito (melhor seria dizer claustrofóbico) elenco de personagens as ainda moradoras da casa: Alice, a namorada, e a mãe da família.

Todos esses personagens atuam como fantasmas (“nós todos fantasmas que não se resolvem com a morte e tentam aplacar o ressentimento assombrando-nos uns aos outros”), especialmente no sentido de serem ao mesmo tempo presença e ausência. Cada um traz diferentes matizes dessa dualidade e é interessante ver como se configuram suas particularidades. A mãe continuou com os filhos, mora com o protagonista até os dias atuais, mas é absolutamente alheia, impossível de se dar a um contato real, com seu sono e torpor por antidepressivos, seu silêncio e suas miradas ininterruptas à televisão. Alice tem um vasto (e excessivo) universo particular, do qual o protagonista e namorado não participa e pelo qual é intimidado, representado especialmente pelas fotografias que ela tira de si mesma e de outras pessoas. Teresa, a irmã, é a interlocutora imaginária constante, sendo a figura mais “presente” para o protagonista, que, no entanto, está sempre distante dela, no tempo e no espaço. O pai impôs o peso insuportável de sua ausência com o abandono (e a ideia desse abandono é uma grande presença) e, ao regressar, impõe a carga também intolerável de sua proximidade perturbadora. A presença ausente é de todos, pessoas descoladas de seus próprios papéis nos relacionamentos. A incomunicabilidade é uma chave central do livro, e o fato de o protagonista-narrador ter uma verborragia voltada apenas para si mesmo (ou para Teresa, a interlocutora imaginária que ainda não é nada mais que sua esfera solitária), sem verdadeiro contato com os outros, solidifica ainda mais as paredes que cercam os indivíduos da história, fazendo de cada um deles a sua própria casa abandonada.

Em uma das muitas cenas memoráveis do livro, a família se reúne para a primeira refeição com o pai após seu regresso perturbador, e os conflitos calados entre ele e o filho se revelam através de pequenos gestos. O descompasso entre a ação exterior e o universo interno do protagonista, sempre em ebulição, é um dos elementos mais perturbadores do livro. Maurício demonstra, nessas sequências, ser não somente um grande escultor da linguagem, mas também um rico observador e construtor de personagens:

Forjando imponência, observei as mãos dele graves e perdidas sobre a mesa, duas ossudas aranhas armando o bote que realizaram ao bolso da camisa. Os dedos amarelecidos pegaram outro cigarro, mas, dessa vez, ele parecia nervoso

(certamente os sapatos tamborilando o chão)

uma longa tragada irritadiça antes de perguntar novamente com uma voz mais gutural, rouca e seca de nicotina

– tudo bem?

ao tempo em que as pupilas dele se expandiram imensas naqueles olhos pequenos fincados em mim, uma réstia de fumaça lhe contornava o olhar que me diminuía e ao qual me curvei e fugi não sem antes responder num tímido fio de voz

– sim, pai.

 

A casa e a cidade em que moram são também personagens, também fantasmas, cujas caracterizações formam uma sinfonia de significados e expressividade bastante vigorosa. A atual morada da família é uma espécie de corpo desarranjado (“porque conheço a intimidade dos tijolos entremeados por fios tramando em volts os nervos desta casa”; o lar e a escola da infância são buscados, mas estão desfeitos como o passado (“a luminária descabelada sobre a porta em fios ou o zinco do corredor aos pedaços, as coisas transformadas em outras numa impertinência do tempo”); os monumentos urbanos se transfiguram, em impressionantes efeitos de plasticidade e dramaticidade. O melhor exemplo desse recurso é provavelmente a estátua do maestro Carlos Gomes, que ora está “regendo a tarde sob a qual nos sentamos neste bar”, ora “no dolorido silêncio de um câncer pendurado na garganta acenando adeus à orquestra que se afogou sonhando escafandros”, conforme os sentimentos expressionistas do protagonista-narrador. O já mencionado bar, com suas imagens entorpecidas, sua selvageria transcendental, mostra que a escrita de Maurício alcança um nível de elaboração que muitos dos escritores atuais, por vezes cultuados somente por inserir a palavra “bar” ou “boteco” no texto, nem sonham.

Maurício comprova, em A instrução da noite, que falar dele como um dos destaques da nova geração de escritores brasileiros é pouco. É um dos grandes autores em atividade, ponto. A leitura desse romance, tecnicamente primoroso e emocionalmente intenso, deixa o leitor assombrado como poucas obras são capazes.

Rafael Gallo é paulistano, autor do romance Rebentar (Record, 2015) e de Réveillon e outros dias (Record, 2012), livro de contos vencedor do Prêmio Sesc de Literatura e finalista do Prêmio Jabuti. Tem ainda contos publicados em diversas antologias, como o eBook Desassosego (Mombak, 2014) e a Machado de Assis Magazine (FBN, 2013).

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107ª Leva - 01/2016 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Cinquenta anos em um

 Por Marcos Pasche

 Capa - Alexei Bueno

Por mais que se aponte a heterogeneidade para classificar a poesia contemporânea, é possível verificar que os mecanismos de legitimação social da literatura – as grandes editoras, as feiras do ramo, os prêmios mais badalados, os suplementos jornalísticos e as ementas universitárias – tendem a endossar como representantes do presente autores e obras explicitamente herdeiros do Modernismo (o mais festivo e iconoclasta). Por essa perspectiva, não há razão para ver como “de hoje” um poeta que em 1985 publica um volume intitulado Poemas gregos, que em tudo parece demonstrar uma opção pelo passadismo. Esse poeta é Alexei Bueno.

Mas se olhada de perto, e se o olhar despir-se de preconceitos, a obra de Alexei Bueno se revela densamente moderna, porosa e permeável tanto aos fluidos de cima quanto aos detritos do baixo. E é isso o que se verifica em Poesia Completa, lançada pela ocasião do cinquentenário do autor. A publicação reúne os doze livros de versos que Alexei Bueno publicou e manteve em sua bibliografia, aos quais se somam Cinco fugas cromáticas, volume inédito.

Uma quantidade considerável dos títulos poéticos de Alexei dá mostras do quanto sua arte evoca símbolos de requinte: As escadas da torre, Poemas gregos, A decomposição de Johann Sebastian Bach, Lucernário e A juventude dos deuses indicam o teor de solene ancestralidade que lhe perpassa a escrita. Passando ao interior dos livros, poemas como “Helena”, de Lucernário (1993), confirmam o que os nomes sinalizam:

No cômodo onde Menelau vivera
Bateram. Nada. Helena estava morta.
A última aia a entrar fechou a porta,
Levaram linho, unguento, âmbar e cera.

Noventa e sete anos. Suas pernas
Eram dois secos galhos recurvados.
Seus seios até o umbigo desdobrados
Cobriam-lhe três hérnias bem externas.

Na boca sem um dente os lábios frouxos
Murchavam, ralo pelo lhe cobria
O sexo que de perto parecia
Um pergaminho antigo de tons roxos.

Maquiaram-lhe as pálpebras vincadas,
Compuseram seus ossos quebradiços,
Deram-lhe à boca uns rubores postiços,
Envolveram-na em faixas perfumadas.

Então chamas onívoras tragaram
A carne que cindiu tantas vontades.
Quando sua sombra idosa entrou no Hades
As sombras dos heróis todas choraram (p. 279-80).

Entretanto, não deixa de haver na confirmação uma nota dissonante.  Num poeta supostamente passadista, orgulhoso da herança clássica, só é pensável encontrar devoção a essa herança, o que, nos textos, se ratificaria pela total evitação do que pudesse manchar estátuas e templos. Em “Helena”, o discurso é plataforma de uma protagonista mitológica (de uma mitologia protagonista na cultura ocidental), alicerçada em quadras decassilábicas e tomada por carga imagística de alta voltagem. Mas, como se constata em cada uma das suas cinco estrofes, o poema trata do monumento em estado de ruína. Helena, eternizada como a mais bela das mulheres, é apresentada nas duas pontas de seu declínio: uma é a decrepitude do corpo e o fim da vida; a outra, a vida em estado de fim mesmo após a morte, com o choro das sombras dos heróis. Em “Helena”, portanto, o discurso é plataforma de antagonismos: o precioso apuro formal relata o avesso do esplendor, e, por extensão, o poeta, ao revelar uma Helena com destino até então desconhecido, insere na tradição uma sombra corrosiva.

Se em Alexei Bueno há nítida assimilação de matrizes helênicas, há que se perceber em sua poética a forma como se manifesta o homem de uma era desprovida de deuses e amputada de helenismos. Nisso se inscrevem os Poemas gregos, livro em que mimesis e poiesis se dão em proporção equânime. Se nele tudo contribui para que seja percebida convictamente a escrita de um autêntico aedo do período clássico ou helenístico, em nada, porém, deixará de haver indícios de um poeta em particular:

Eu, contrário ao geral dos outros homens,
Muito pouco respeito por vós, deuses,
Tenho, e nem temo que em castigo um raio
………..Divida-me a cabeça (p.180).

 

Aí não reside um protesto unilateral ou mesmo a negação absoluta de concepções culturais consagradas pelos anos. A poesia de Alexei Bueno tem na coexistência de contrários sua carne e seu espírito, dando ao termo “atualidade” um sentido tão amplo quanto intrincado. Se é acertado constatar a inserção que o poeta faz da matéria clássica na poesia atual, não menos correto é apontar a maneira moderna como trabalha elementos ancestrais, inserindo na dicção clássica elementos próprios do homem contemporâneo, “Pois ser um é ser morto” (p. 175), como diz o primeiro dos Poemas gregos. Assim, se a estrutura padronizada foi suporte para a elegia de uma divindade, também o será para a ode “Silvia Saint”, consagrada à tcheca Silvie Tomčalová Stodowa (1976 – ), espécie de Helena pós-moderna, visto ser apresentada em seu site oficial como “the most beautiful pornstar”:

Teu santo nome veste
A quintessência bruta
Da arquetípica puta,
Vênus baixa e celeste.

Áurea cachorra, vaca,
Por que é que os lábios tremem
Vendo em teu rosto o sêmen
Como uma vítrea laca?
(…)

Cadela de ouro, glória
Pueril, sórdida e santa,
Asco que envulta e encanta
Deusa auto-entregue à escória.
(…)

Louro véu do universo,
Sacra estátua e cadela,
Pisa esta alma que vela
Teu sonho áureo e perverso (p. 589-90).

 

Ao se radiografar a poesia brasileira atual, é inevitável – e procedente – o diagnóstico de um quadro multifacetado. O receio da rotulação numa camisa-de-força estilística impulsiona os poetas a procurarem caminhos próprios, o que encontra largo respaldo numa época de apelo individualista, como é a presente. Ao lado dos poetas, tem recebido maior prestígio a crítica que, ao visitar o passado, identifica a idiossincrasia em meio à massa convencional. Por extensão, essa crítica age para demonstrar as estreitezas das tomadas de posição grupais, o que chega aos contemporâneos como alerta e impulso a um destino independente, isento de obrigações coletivas. Assim o coro cede vez ao canto solo, e de diversos cantos solos compõe-se o fragmentado repertório geral. Considerando isso, Alexei Bueno empreende um adventício modo de afirmação da contemporaneidade. Se o panorama se faz diversificado pela assembleia (laica) das individualidades, no autor de Os resistentes encontra-se a unidade constituída e potencializada por uma comunhão conflitante e pelo conflito comungante das partes que desejam ser na companhia de suas antíteses.

As sirenes da cartilha politicamente correta têm latejado incautas, e nesse sentido o poeta revela outro modo de pertencimento oponente ao seu tempo (o tempo do marketing ubíquo e das declarações em tudo calculadas). O pronunciamento aberto e ríspido na direção do que repreende não escolhe perfis, e admoesta o que vê como estúpido e espúrio: “Cansei-me dos pobres/ Como antes dos ricos” (p.551), diz o irônico “Humanitarismo”.

A confluência de itens irreconciliáveis também se processa na estruturação textual. Se Alexei Bueno é frequentemente rotulado como “neoconservador”, é porque nele praticamente só se nota a aparência tradicionalista. No entanto, há em sua escrita um sólido entrecruzamento de formas consagradas pela tradição e pela modernidade. Em sua bibliografia, por entre os livros em que a forma fixa é dominante – As escadas da torre (1984), Poemas gregos (1985), Livros dos haicais (1989), Lucernário (1993), Em sonho (1999), A árvore seca (2006) e As desaparições (2009) – apresentam-se outros integralmente compostos com versilibrismo e polirritmia hegemônicos, caso de A decomposição de Johann Sebastian Bach (1989), A via estreita (1995), A juventude dos deuses (1996), Entusiasmo (1997), Os resistentes (2001) e Cinco fugas cromáticas, trazido ao público com a edição desta Poesia Completa. Nesses volumes, de forte carga simbolista (a estabelecer entre eles evidente conexão), a voz lírica, “Como de uma criança que não se conforma de não ter os mundos” (p. 233), traduz a convulsão de um espírito que, aflito pelos limites da unidade, em tudo se vê e a tudo deseja tocar: “Roçam-se em mim, incontadas, as vidas todas – e as vidas de cada vida –/ Como um turbilhão de pássaros que o vento assopra ao mar queixoso” (p. 391).

A poética de Alexei Bueno opõe-se às diversas maneiras com que a cultura ocidental estabelece segregações acerca do pensar e do ser. Especificamente na era do apogeu tecnológico, a celeridade impõe-se como valor e modelo, e suas ramificações ideológicas alcançam os homens da arte. Potentado último e ubíquo, o mercado dissemina a mensagem da troca imediata e irrefreável, e mesmo na poesia, a barrada no baile das grandes vendas, o tácito decreto se instala e por vezes baralha-se ao lema da originalidade e da renovação. Nesse estado de coisas, não poderia ser outra a (repelente) recepção da poesia que se conecta a um pretérito tão morto quanto ainda enigmático e sabedor de novidades – algumas de caráter duvidoso, a ponto de não despertarem qualquer olhar de surpresa fora dos que as anunciam:

É no passado que caminhamos.
Somos história, somos histórias.
Já faz milênios que aqui passamos
Tais nossas roupas, tais nossas glórias.

Mais que os egípcios, mais que os sumérios,
Num lapso o tempo nos fez distantes.
São língua arcaica vossos ditérios,
Homens modernos. Todo hoje é antes (p. 555).

Mas a poesia é recusa e reação: recupera para a comunidade o que não pode se perder, e pelo já havido reinventa os modos de permanecer e de falar aos homens, convidando-os à evasão e convocando-os à presença. O dizer inaugural se reporta à interpenetração dos tempos, e dá a dimensão ativa do que se mostra estático, pois o isso guarda em si algo de aquilo:

 

Deito-me ao lado da estátua marmórea,
Alva, branca, lavada de alegria,
É a alba, a alvorada, a aurora, o dia,
Que se abre já, desnudo e sem história.

Ela é de hoje, saqueada de memória,
Esta deusa, ela nasce, limpa, fria,
Agora, e, ao lado meu, pura, inicia
O mundo neste alvor, o instante, a glória.

Beijo-a virgem na relva, aqui, a vida,
Só tem hojes, abraço-a, nova, clara,
Secularmente pétrea e ora nascida.

Sorrindo na manhã, gelada, ampara
Meu corpo extático, álgida, estendida
No sempre, no surgir que urge e não para (p. 446).

 

Marcos Pasche é professor adjunto de Literatura Brasileira da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e crítico literário, autor de De pedra e de carne (Confraria do Vento, 2012).

 

 

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107ª Leva - 01/2016 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

O Breve dicionário (poético) do boxe e a alegoria poética de Jorge Elias. Primeiras considerações.

Por Orlando Lopes

 

Capa Breve dicionário (poético) do boxe

 

Preâmbulo: a crítica ainda tem lugar nas lutas contemporâneas?

 

Arriscarei aqui algum juízo a respeito deste Breve dicionário, da poética que ele expressa e da autoria que ele passa a constituir com seu lançamento. Dado que a Poesia – a poesia mais legítima, a poesia autêntica – configura a singularidade de uma teia, de uma constelação de elementos estabelecida por princípios “estéticos”: autorais, composicionais, interpretativos etc., pareceu razoável e necessário o apoio da escrita para pesar, medir, arrazoar sobre o lugar do livro, talvez da obra. E é justa esta razão: como falar (e medir) a escrita, a não ser também pela escrita — esta forma mágica de decantação e progressão do pensamento que o cotidiano nos faz banalizar, mas que é capaz de nos permitir dimensionar ou, ao menos, intuir as potências que a linguagem tem, e que parecem tão distantes do cotidiano das pessoas.

Exercer a crítica não é uma prioridade para mim — que me entendo muito mais como teórico da Literatura que como crítico, historiador, analista etc. Exercer crítica envolve competências, disciplinas e rigores e, sobretudo, uma imperatividade, a disposição para impor um valor. Nesse sentido, direi desde já que não me colocarei a priori como crítico do Dicionário, mas como leitor e, exatamente, como teórico. Claro, não pretendo transformar esta fala num tratado, mas é importante notar que não pretendo afirmar a obra que Jorge Elias termina aqui de parir: pretendo, antes, aprender com ela, como pretenso cientista, como ser humano e como poeta.

Será uma breve nota para o universo de questões que sua poética aponta, mas para o momento acredito que servirá como estímulo e provocação aos futuros leitores. Conheço o Jorge Elias pessoalmente há pouco, mas nem é a fama que o precede, é o seu texto, a sua obra poética, e o seu trabalho, o exercício da Medicina, do qual sou de certo modo beneficiário pessoal, ainda que não (ufa!) direto. E pelo texto, pelo que ele codifica, pelo que ele expressa, acreditei desde a primeira leitura uma “assinatura”, uma autoria, aquilo que foucaltianamente podemos reconhecer como uma “função jurídica”, mas jurídica não no sentido de uma propriedade, uma posse ou mesmo um direito. Jurídica no sentido de uma seriedade, de um comprometimento, de um engajamento que se estende à Literatura, à Poesia, à Escrita.

Lendo seus textos antes de conhecê-lo pessoalmente, essa seriedade autoral me pareceu marcar tudo o que li. Isso não é em si e ainda uma qualidade da composição, do texto “em si” (aliás, o Inferno nunca pareceu estar tão cheio de boas intenções…), mas é um dado a ser considerado pela crítica contemporânea: de que adianta uma “bela letra” se ela não posiciona, se ela não argumenta, se ela não significa? Como no Boxe, o discurso e a realidade são construídos, são esculpidos a golpes e a contragolpes, por meio de hegemonias e de contra-hegemonias que se dão entre as “cordas” desse grande ringue simbólico que são as relações sociais, econômicas e culturais.

Jab, Jab, Direto, Direto, Cruzado, Jab, Clinch, Esquiva, Cruzado, Jab, Jab… Lutar é viver, viver é lutar. Discursar é lutar, lutar é discursar. Discursar é falar, é escrever, é agir. Viver é discursar. A realidade, a nossa realidade, é feita de narrativas, de movimentos, de lances. Lutamos – todos – contra um Inimigo (os Fundamentalistas não estão errados!), mas é difícil saber quem ou onde o Inimigo está: e portanto é difícil medir a força e a mira de nossos próprios movimentos, de nossos próprios lances. O bom boxer deve, antes de tudo, saber contra quem – ou contra o quê – está lutando. Do contrário, não se abolirá o acaso, haverá desgaste, desperdício, e tudo poderá deitar por terra: corremos o risco de ser nocauteados quando menos esperamos.

A poesia de Jorge Elias faz esse exercício, desde antes do Breve dicionário do boxe. Perceber, enquadrar, pinçar; perceber, enquadrar, pinçar… a si mesmo, o outro, a situação. Não racionalmente, não apenas racionalmente, mas buscando aquela polaridade mínima, a imagem, o sentido que faz o texto (no leitor) saltar para o estado de poesia. Esse é o movimento, a passagem crucial a que todo poeta almeja, mas que nem todo poema consegue manifestar: superar os significados e saltar para o sentido por meio do gesto estético, portar o sentido até os demais sujeitos que vivem a mesma história.

 É importante retornar à consideração de que a Poesia não luta apenas no território do poema, da fatura estética. Poesia não é apenas Poesia (ato criativo), ela é também Literatura (um modo de produção) – um laço, uma relação entre as pessoas (autoras, leitoras) no espaço de uma sociedade que se estabelece em torno de um Poema (um objeto de valor, um artefato). Criar nos pede uma luta, circular socialmente nos pede uma luta, significar nos pede uma luta. No mínimo.

A luta da escrita poética é rara entre nós, ainda que se encontrem uns bons tantos de poetas, cada vez mais. Eu sempre insisto com os alunos que venho-tendo a vida-inteira que a escrita não pode (não deve) ser desprezada, tanto porque é uma das formas mais baratas que existem de criação artística e autoterapia garantida, quanto porque ela é o instrumento mais básico de controle social, econômico e cultural que se possa conceber. Falo isso em princípio para tentar dar uma valorizada existencial, afinal a escrita dá essa possibilidade de nos mostrarmos antes de tudo a nós mesmos. Mas a escrita é trabalho, é competência, é responsabilidade. Se a gente não tiver o que dizer, a escrita não vale nada. Se a gente não fizer, não vai ter muita gente que faça (fechado que “todo mundo” está em sua própria carapaça).

O Dicionário de boxe de Jorge Elias traz à baila essa cena: um ringue, um espaço de disputas e seus elementos característicos alegorizados, potencializados pela metáfora. A metáfora decantada, depositada em composições curtas, procurando posições, ângulos, eixos, pesos e contrapesos, equilíbrios. Essa metáfora, ampliada, estende suas figuras para medirmos as nossas próprias lutas. Entremos no livro, calcemos aqueles poemas que melhor se ajustem aos nossos punhos. Usemos os poemas que conseguirmos. (Ouvi soar o gongo.)

Apreciação ao Breve dicionário (poético) do Boxe

Este mais recente livro do poeta Jorge Elias Neto segue confirmando uma obra importante para a vida literária no Espírito Santo (não direi “do Brasil”, que cada canto dele tem seus bons poetas, nós aqui é que temos que resolver melhor os nossos). Desde os Verdes Versos (Flor&Cultura, 2007) até o Breve dicionário (poético) do Boxe (Patuá, 2015), há uma poética se configurando, tomando forma, encontrando seus rumos. Enquadrá-la, encará-la, não é tarefa fácil, nem confortável. Mas, enfim, como se poderia aprender algo útil sobre o Boxe sem ao menos um olho roxo ou uma luxação?

A imagem do Boxe é forte, potente, e se impõe desde a capa elegante de Leonardo Mathias até as ilustrações de Felipe Stefani. Uma vez instalada a imagem do lutador, do ringue, passamos a aguardar o soar do gongo. A dedicatória e a epígrafe, como se fossem um fim de sonho e início de despertar, afloram de uma escuridão, de uma zona de inconsciência. Estamos entre a consciência do Homem e a consciência do Poeta, daquele que termina amanhã e daquele que só termina quando acabar o último Homem. O Boxe e a Poesia não se confundem. O Boxe é físico, intenso, corporal, evidente; a Poesia, enfraquecida, com “falta de musculatura”, talvez só possa dar conta de “florbelas”, de “futuros” que obviamente constituem distâncias, de “leituras escolares” que não precisam comprometer-se com “realidades”, de apagamentos, neutralizações, reduções, perversões etc.

A apresentação de Caê Guimarães, esse outro membro das tribos dos poetas e dos boxers, aponta para esse enquadramento que põe a “nobre arte” do Boxe em seu devido lugar, para nós, poetas e leitores de poesia. O poeta luta pela Poesia, para alcançar Poesia. Nota, edita, corta. Salta, oscila, desarma. Apara, espera, escora: erra e acerta. Chegamos ao livro, chegamos aos poemas, que são verbetes, que são referências ao universo do Boxe: o campo alegórico, a metáfora ampliada. Isto põe e afirma um primeiro traço na obra — ela é conscientemente metalinguística, aponta o reconhecimento de que se pode pensar a Poesia empregando as imagens associadas a uma luta, um esporte, um jogo.

A metalinguagem vem sendo relativizada e criticada na Poesia contemporânea, e é justo alertar aos poetas para que não exagerem no cultivo de seus espelhos e interesses mais imediatos e pessoais; mas é igualmente justo alertar aos críticos que sem a consciência e o exercício da metalinguagem fica mais difícil aos Poetas alcançar uma compreensão da linguagem como um fenômeno pleno. Se não se devem apresentar tantos poemas metalinguísticos em publicações de referência, essa já é uma questão crítica e editorial, não dos Poetas.

Em todo caso, a questão aqui é somente de reconhecer que a metalinguagem se instala desde a base da composição do Breve dicionário do Boxe. Antes de haver “Boxe”, há ali “metalinguagem”, a lente que permitirá a projeção dessa imagem, desse “topos” sobre outros planos, sobre outras situações, sobre outros contextos. E, enfim, há Boxe: uma luta que envolve uma disputa, e uma disputa que envolve um prêmio. Um prêmio que vale a pena, mas que varia na infinitude das projeções metafóricas que consigamos fazer. Quanto mais objetiva a luta, mais claro e óbvio será o prêmio. Quanto mais subjetiva, menos claro – para os demais sujeitos, para as demais pessoas.

Tudo estará certo, e tudo estará tranquilo, se o cálculo corresponder ao prêmio, e se os golpes acertarem o Opositor (seu nome não é “Inimigo”, não no Boxe). Mas não: existem lutas reais, simbólicas e imaginárias, e podemos lutá-las todas simultaneamente sem nem perceber. Aqui, no Dicionário, por exemplo, existe uma luta da Poesia, uma luta da Literatura e uma luta do Poema. Três boxes, três arenas, três disputas. E as três apontam, indiscutivelmente, para o domínio do humano, a dimensão do humano. O Dicionário fala do Boxe para poder falar do Homem. O Boxe é o Homem. Plano, Universo, Continente… Toda a intuição de uma Mitologia, de uma Filosofia se encontra aí, concentrada em figuras, em imagens.

Um homem em particular emerge, a figura de Éder Jofre, o elemento mais humano na condução do livro, quase um personagem, quase um protagonista. Mas, também, pedra-de-toque alegórico. Éder é Brasileiro, pensa como brasileiro, age como brasileiro (embora seja antes latino, argentino). Éder Jofre é mais que Éder Jofre: é o Brasil interpretando o Boxe, dançando o Boxe à sua maneira: de uma aparente simplicidade, cinco movimentos e coisa e tal, uma sucessão de movimentos evolui ponto a ponto, contraponto a contraponto. A questão, implícita, é que o boxe não se faz apenas no ângulo de quem golpeia: é preciso atingir algo que não quer ser atingido, que também quer nos atingir, é preciso gerar impacto, é preciso impor-se, é preciso opor-se. É preciso violência. Latinidad. E pensar em Poesia, em Literatura, em Poema como “espaços de violência” não costuma ser frequente em nossa cultura, em nossa tradição lírica.

Claro, a Literatura tem seus bons e variados exemplos de resistência e de contraposição aos beletrismos. A boa Poesia (certo, certo, definamos “boa Poesia”, mas em outro momento…) não deseja ser ornamento, ela deseja ocupar o pensamento, o sentimento, ganhar esse espaço, vencer essa disputa. Não se trata de oferecer o que o Leitor quer, mas aquilo que ele precisa, aquilo que nós precisamos para não deixarmos de ser humanos. É dessa violência que a boa Poesia trata: aquela que nos dá tapas, dá socos… apenas com imagens, com sequências de palavras, e isso não tem nada a ver com usar palavras agressivas ou cenas escatológicas: o horror pode não ser nada além de um imenso ringue vazio.

O ritmo do boxer não é o do Vale Tudo, nem do UFC. É o ritmo do jazz, do Cronópio, idealista, sensível e até ingênuo – posto que acredita piamente que seu(s) Opositor(es) seguirão fielmente as regras do jogo. Assim como o Boxe parece simples, o dicionário também. Mas o dicionário é apenas o conforto de uma linha mais ou menos reta, a ordem alfabética (que, aliás, não é seguida). Dentro dessas cordas, toda uma luta continua a acontecer, as palavras continuam tensionadas umas contra as outras, gerando imagens, tentando produzir sentidos. Se o dicionário convencional trabalha para ordenar “definições referenciais”, um “dicionário poético” pode operar em outro registro, e no caso deste livro parece haver uma sutil inclinação para o aforismo; um aforismo “fora dos padrões”, um aforismo que não adere por princípio a nenhuma moral já estabelecida, mas pela moral do acontecimento, da situação, da “luta”: essa que se arma no espaço do poema.

Sobre o Livro – o trabalho literário

 

Boa parte dos poemas se operam como haikais: descortinam espaços, definem imagens, configuram situações. Veja-se, por exemplo, a série encontrada entre as páginas 60 e 67 (“Knockdown”, “Knockout duplo”, “Knockout”, “Undefeated”, “Cartel”, “Challenger”, “Bruiser”), na qual as imagens-verbetes fazem a síntese tanto dos elementos do universo boxer quanto de uma perspectiva subjetiva – lírica – que fornece a moldura e o enquadramento, o ângulo e a perspectiva do que me arrisco a definir como “momentos plenos do Boxe” tal como eles se acomodam no Breve dicionário (poético)…

Não necessariamente, as situações manifestam ações. Elas estão lá, mas anguladas, estilizadas. Outro tanto tem contornos narrativos mais definidos. Alguns mais, arriscam-se ao limite do aforisma. No poema do “Prefácio”, como a apresentar as regras aos contendores que chegam, estabelece o poeta que é preciso “entender / o to be” (p. 21), o “(a) ser”, uma das formas ao mesmo tempo mais simples e mais complexas da nossa linhagem idiomática. É preciso entender o “ser” e o “estar”, é preciso entender o “agir” caso o Poeta — e agora o Leitor — queira “exprimir em versos o que / se cultua com punhos” (p. 21). É preciso invocar, evocar, com o auxílio dos oráculos digitais se houver interesse em falar com a urbe, a multidão, a massa humana (e aqui, portanto, não se dirigindo à Pólis, à civis) empregando pequenos artefatos, “poemas / lambe-lambe” que vão entremeando o Dicionário.

Assim o livro vai evoluindo. Os versos, simples jabs, diretos, cruzados, formam móbiles sutis. Assim, por exemplo, o minimal “Boxe” nos impele a considerar que arte é possível com “punhos cerrados” (p. 23), com punhos que tenham pouco ou nada nas mãos. O teto nos impele a considerar que potência, que vigência pode ter essa expressão tão limitada (somente o “punho”, somente a “letra”). Em “Pugilismo” (p. 25), nova constatação: para haver confronto é preciso haver resistência, oponência; para haver sentido, é preciso haver resistência, oponência, aderência, tensão, atrito.

Em outro segmento de poemas, os narrativos, encontramos cifras memoriais e históricas, remetendo ora à história do Boxe, ora à história de seus praticantes. No breve terceto “Luvas” (p. 26) e em “Regras”, que o sucede, temos um vislumbre do processo civilizatório da Inglaterra, berço do moderno Boxe: uma civilização em que a brutalidade não deixa de existir; antes, é estimulada e suavizada, absorvida, integrada na vida social. Se apurarmos os ouvidos, perceberemos em outros lugares sociais os ecos dessa civilidade que vai criando o hábito dos “tapas com luvas de pelica”, a diluição da brutalidade em códigos e etiquetas que por um lado as confina, mas que por outro as mascara nos espaços da vida social.

A alegoria, a metáfora do Boxe vai-se colorindo, encontrando e reencontrando formas e imagens, como a dos galos que se antepõem em “Ringue” (p. 32) e “Sparring (fazer luvas)”, o mítico alter-ego que se oculta em nossas sombras (p. 35) ou o Ouroboros que se oculta no “Corner” (p. 37). Aliás, até os “Rounds” (p. 38) ecoam algo mítico, a épica da batalha e da vitória (e da derrota). Assim o livro prossegue, destacando essa topologia também de forma metonímica, com a “Toalha, / gelo, / vaselina. // Massagem, estímulo, adrenalina” (“Segundos”, p. 53).

Em “Faltas” (p. 58), a metáfora volta a se ampliar como alegoria: o Boxe, entre as lutas, tem regras e limites claros, dentro dos quais “há que se responder / pelas faltas”. Essa constatação estabelece mais uma referência para compreender que lutas, que disputas cabem em seu domínio paralógico, associativo. O Boxe não é uma “luta livre”, ele é circunscrito a um espaço e a um tempo, é mediado por regras, é um “esporte de cavalheiros”, para ser bastante preciso e quase britânico. Só há Boxe quando há cavalheiros, quando há uma Corte e um juízo, quando se aceita que os fatos, os fatos da vida, envolvem as nuances do ganho, do acerto, do prêmio, mas também do erro, da impropriedade, da culpa, do dano, do dolo.

Caminhando para o seu término, o livro registra ainda uma espécie de painel histórico e impressionista, evocando personagens históricos e momentos de uma cronologia pessoalizada e que finalmente projeta os significados do Boxe sobre a ambiência brasileira, nos poemas “Brasil – 1913” (p. 68), “Goes Neto – 1919” (p. 69), “Club Canottiere Esperia” (p. 70), “Ditão – 1924” (p. 71), “Ginásio do Pacaembu – 1940”, “Boxe moderno – década de 50” (p. 74), “Época de ouro – década de 50”, quando reemerge para promover o encerramento com “Éder Jofre” (p. 77), “Servílio de Oliveira” (p. 78), “A obra – Éder Jofre” (p. 79) e “Poema para um pugilista” (82), no qual a alegoria  retorna (“O homem / traz um ringue / dentro de si”) e também o mito trágico que se expressa na obra de Jorge Elias: a do homem, a da humanidade que oscila entre cumprir seus destinos históricos – lutando as lutas verdadeiramente nobres – ou ceder às contingências da vida, aceitar a existência como hábitos e rotinas, no máximo exercícios, muitas vezes plenos e satisfatórios, mas ainda somente e apenas exercícios.

A impressão final que o livro deixa é de que ele dá continuidade ao processo, ao amadurecimento da poética de Jorge Elias. Ainda um exercício, ele aponta questões, revela elementos de estilo, apura uma sensibilidade. Nem todos os poemas alcançam a mesma potência de expressão, algo que talvez leve a alterações e revisões em eventuais futuras edições. Ao fim, e ao cabo, saímos do livro com o semblante entre o sério e o apreensivo, ruminando as imagens do Boxe e deixando-as como moldes, como espelhos singulares em que o leitor pode medir-se e assim, quem sabe, entender-se igualmente como um lutador.

 

Orlando Lopes é poeta, ativista cultural e professor do curso de Letras da Ufes. Publicou Hardcore Blues (1993) e Occidentia (2007). Mantém o blog poético Occidentia.

 

 

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106ª Leva - 09/2015 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Quando Deus não está olhando

 Por Sérgio Tavares

 

bjonaparede

 

 

Penso que é papel do resenhista analisar um livro onde nem mesmo há literatura. Assim, chama atenção o fato de que, dois anos depois de lançado, “O beijo na parede”, do carioca, radicado em Porto Alegre, Jeferson Tenório, já se achar em sua terceira edição. A despeito da influência (negativa ou positiva) que tal informação carrega, a explicação está exatamente onde há literatura. Tenório resgata, em sua estreia no texto longo, um gênero soterrado nos anos 80: o romance social. Em meio à ditadura do eu, dos enredos autocentrados, autoficcionais, sua trama rebate no outro, no expediente dos desvalidos, daqueles que existem abaixo da linha de visão da soberba. Enquanto a grande maioria dos novos autores brasileiros interioriza seus passos, Tenório caminha mundo afora, pelas vielas do desamparo.

O comando da narrativa cabe a João, um menino de 11 anos “meio precoce”, que, embora puxe uma fieira de desgraças e de mortes, aprendeu que “chorar não resolve muita coisa”, pois, “de uma forma ou de outra, temos sempre que carregar alguma dor”. Depois de perder a mãe de maneira fulminante devido a um câncer desconhecido, tem de viver pelos caminhos tortuosos do pai alcoólatra, pela rotina suja dos bares, na qual a negligência e o desafeto impõem a ferocidade do dia que engole o próximo com fome e sem cerimônia.

Do Rio de Janeiro, então muda-se para Porto Alegre, morando de favor na casa de parentes. A rescindência da embriaguez do pai, no entanto, irrompe conflitos e não tarda a serem expulsos, migrando para um quarto alugado, um “muquifo terrível”, em seguida para uma casa velha. Ali é que, depois de voltar da escola, descobre o pai enforcado e que, a partir daquele instante, não teria “mais tempo para ter infância”.

Passa a contar com a própria sorte, driblando os apuros do abandono com pequenos atos de resistência, até parar num abrigo para crianças. Dessa parte em diante, Tenório filia seu personagem-narrador a uma realidade crua e desesperançosa, antes explorada, na literatura brasileira, pelos olhos de Pixote, de José Louzeiro; Querô, de Plínio Marcos; e Pedro Bala, de Jorge Amado, em “Capitães da areia”.

Diante da orfandade, João vai recompondo sua família com despojos sociais; criaturas solitárias, marginalizadas, cuja vida “é feita para passar sem perceber que já se está vivendo”. Vai morar num cortiço, onde é “adotado” pela prostituta Estela. Lá começa a interagir com o travesti Verônica, a senil dona Dinorah e seu Ramiro, com o qual mais se apega. Do tempo em que seus pais ainda eram vivos, protege o fantasma do amor da mãe e um exemplar de ‘Dom Quixote’, que servia de calço para uma mesa. Nessa saga em busca “do responsável pela fraqueza dos homens”, na qual a percepção por vezes ingênua de mundo ainda conserva um risco de esperança, o velho Ramiro faz o papel de um tipo amargurado de Sancho Pança. ”Deus não gosta dos fracos, João”, sentencia.

De fato, Tenório deixa muito implícito sob essa camada epidérmica, mais dura e fria tal o concreto da parede que beija o narrador, pois “não tem ninguém para amar”. Por detrás desta voz convincentemente infantil, há ferrões pontiagudos que vão cutucando o leitor para questões como o racismo nos estados do Sul, a crença em pequenas epifanias e o descaso do sistema público para com os menores abandonados. “O beijo na parede” concentra uma existência incapaz de produzir heróis, pois também não consegue criar vilões. Quando Deus não está olhando (e me permito também utilizar de metáfora), todos são seres invisíveis.

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

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105ª Leva - 08/2015 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Comentários sobre Corpo Sepulcro ou O extenuante júbilo da morte

Por Maurício de Almeida

 

 

1. O corpo sepulcro

 

Autor dos romances Retorno ao pó, No vale de ossos secos, Amor em tempos de solidão e Terapia das almas suicidas, Mike Sullivan lançou recentemente mais um trabalho, que nasceu reconhecido: o romance Corpo Sepulcro recebeu menção honrosa no Concurso Nacional de Literatura Prêmio Cidade de Belo Horizonte, em 2013.

Corpo Sepulcro é um livro trágico. Resumidamente, o narrador sofre de uma doença degenerativa que o paralisa por completo, fazendo-o perder não apenas a independência funcional, mas progressivamente todos os sentidos. Ao receber o diagnóstico, o narrador se questiona:

Como seria ver meu corpo morrer pouco a pouco, transformando-se num sepulcro a envolver minha mente ainda viva?

Da resposta provém o romance: absolutamente incapacitado e deixado à morte, ao narrador resta apenas o olfato e a capacidade cognitiva que o permite realizar um exame de consciência, rememorando as culpas que guiaram implacavelmente a vida e que, afinal, resultaram na situação absurda em que morrerá.

Nessa revisão, recupera-se a trajetória de um tradutor que se vê obrigado a retornar ao Brasil para amparar a mãe no momento em que o pai fica inválido por conta de um AVC. Esse retorno ao país é também um retorno ao passado – e a todas as culpas que o pautam e das quais quis fugir em um intercâmbio para a Inglaterra. Embora tente reiniciar a vida, ao assumir a tradução de Orlando (Virginia Woolf) e se embrenhar em um relacionamento casual com a editora Jasmine, compreende-se que a culpa do personagem é inescapável e se tona força motriz de uma vertiginosa derrocada.

Narrado em primeira pessoa, há dois elementos que conduzem a trama por serem obsessões do personagem: o olfato, único sentido que lhe resta no momento em que narra e, portanto, por meio do qual ele conduz suas recordações, e a morte, constante dramática que guiou a vida ao estabelecer com ele um jogo – a morte o persegue na medida em que ele persegue a morte.

 

2. O cheiro ou He was born a scentless apprentice

 

Já nos primeiros capítulos do livro somos informados sobre o evento fundador do personagem, seu drama de origem: a morte de Dominique, a irmã gêmea. Constante e veladamente reiterada pelos pais, a culpa do narrador decorre de sua participação na morte. Contrariando a mãe, foi por insistência do personagem que o pai retornou com os filhos ao lago no qual haviam passado o dia. Uma fatalidade faz submergir a irmã, que nunca mais foi encontrada.

Esse fato leva uma família aparentemente comum à ruína. E sob o signo dessa morte vive o narrador de Corpo Sepulcro. O mérito de Mike Sullivan é demonstrar como o personagem reencontra o evento da morte da irmã em todas as tragédias que o cercam e, por isso, se responsabiliza por elas. Não por acaso, a culpa já insuportável transforma-se em autoflagelo, como se a expurgação fosse impossível e a única solução é tornar-se vítima constante de uma morte perpétua.

Interessante notar o funcionamento dessa engrenagem: devido ao seu estado debilitado e tendo à disposição apenas o olfato, é por meio do cheiro que o personagem conecta todas as tragédias à tragédia fundadora. No entanto, ele não possui registro algum desse acontecimento originário que, justamente por isso, aceita todo e qualquer odor que o personagem entende por trágico.

Assim, as iniciativas desesperadas e inúteis de expurgar a culpa são direcionadas por esse entendimento: mijo, merda, suor, porra, corrimentos e inúmeros odores hediondos o rementem ao sexo furtivo e marginal. E, afinal, rementem a ele mesmo:

Dei-me conta então de que a origem da podridão se dava em mim, incrustada nessa personalidade de estrutura arenosa. Aceitei essa condição. Entreguei-me aos perfumes mais ordinários, e passei a extrair prazer daquilo que era considerado repugnante pela maioria maciça dos humanos. Eu queria ser apenas um libertino, um depravado, um imoral.

Eis o movimento circular que inicia o giro: a culpa que leva ao sexo que retorna à culpa – e a espiral que se realiza tem como ponto central (e inatingível) a morte.

 

3. A morte ou Wine is fine but whiskey’s quicker, suicide is slow with liquor

 

Ao longo de toda história que antecede a invalidez, o narrador consome quantidades excessivas de álcool. Tal qual o sexo, o álcool corresponde a uma suspensão da consciência que de certa forma o aproxima da morte, possibilitando, na verdade, que ele morra indefinidas vezes, e criando também uma punição constante às tragédias pelas quais se responsabiliza.

Dessa forma, justifica-se o jogo que ele estabelece com a morte: ela o persegue na medida em que ele a persegue, pois, devido à culpa que assume pela morte da irmã, ele pauta a vida por todas as mortes que o rodeiam, uma vez que é responsável por todas. E elas são muitas: o intercâmbio à Inglaterra para fugir da irmã, o retorno ao Rio de Janeiro para acompanhar a agonia do pai, a esbórnia deflagrada pelo acidente do cão. E é, afinal, em sua derradeira tentativa de reverter o desgoverno da vida que o narrador encontra a morte derradeira: a esposa.

 

4. A curva extrema do caminho extremo ou Die, die my darling

 

Por vezes, o narrador soa como se rodeasse o problema, mas temesse eviscerá-lo. Nomeá-lo é um primeiro passo: a morte da irmã, a responsabilização e fúria passiva-agressiva da mãe, a doença do pai, o ressentimento de Jasmine, o escapismo pelo álcool e o sexo como entorpecimento. Que esses fatos são mobilizados pela culpa que sente e da qual não consegue abrir mão, ele assume com todas as letras. Entretanto, existem situações e reações do personagem que soam amenizadas em seu relato, como se declinasse uma análise mais profunda para somente descrever os acontecimentos.

É verdade que, feito um autômato, o personagem apenas reage obsessivamente e a repetição do ciclo álcool-sexo-culpa-álcool leva à insensibilidade. É verdade também que a história narrada são reminiscências que, por sua natureza, permitem distanciamento. Mas julgo haver um elemento que justifique esse comportamento quase desinteressado e passivo: a impossibilidade.

Considero Corpo Sepulcro um livro sobre a impossibilidade. Lidando constantemente com a morte, a maior das impossibilidades, e encenando-a de diversas formas sem conseguir de fato realizá-la ou ao menos expurgar a culpa, o personagem relata desvarios, pois sabe que eles foram vãos. Corrobora com essa leitura um símbolo persistente na maior parte da história: a tradução inconclusa de Orlando. Antes de ser solapado pela doença, o personagem faz a seguinte confissão à editora:

É que me vi impossibilitado, de maneira muito misteriosa, de traduzi-lo.

Ademais, não se pode esquecer que a narração acontece quando o personagem se descobre finalmente realizando a curva extrema do caminho extremo, o que a ele significa alívio, mesmo que a situação seja absurda e angustiante. No limite, portanto, ele discorre sobre situações impossíveis e passadas que, se possuem desdobramentos, no momento em que são narradas significam muito mais despedida, uma vez que será permitido a ele esquecer. E, como não poderia deixar de ser, não haveria outro desfecho ao livro senão o personagem ser velado pela própria morte.

 

Maurício de Almeida é autor de ‘Beijando dentes’ (Ed. Record), livro de contos vencedor do Prêmio Sesc de literatura 2007.

 

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105ª Leva - 08/2015 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

A linguagem e o limite

Por Gustavo Rios

 

 

Talvez uma das formas mais comuns de literatura seja aquela que está vinculada a um território. E aqui uso a palavra não como representação de lugar, mas sim de um nicho. Fundamentalmente, uma escolha.

Grosso modo, temos autores “regionais” na forma e na construção de seu eu-personagem – a imagem que o mesmo escolhe de si para o mundo; o chapéu na foto, a biografia na orelha do livro. Outros preferem a urbanidade em suas infinitas formas. E se inventam. Muitas vezes indo além do tripé “asfalto, quebrada, concreto”.

Usando o raciocínio simplório acima, quando o autor faz sua escolha traz consigo a linguagem, matéria e antimatéria de seu trabalho. Isso é terrivelmente óbvio, sei. O “urbano” vai buscando o entendimento através das gírias, do fraseado louco e comum das ruas, enquanto o “regional” se vincula ao que de mais rincão existe. Tal situação os obriga a uma busca incessante. Talvez na tentativa de manterem proximidade com seu universo, seu quinhão. Ainda que as novas possibilidades artísticas os afastem de suas raízes, é preciso encostar o ouvido ao chão. Sentir a trepidação, escutar; manter a essência – seja ela inventada ou não, pois quem cria a paisagem é o autor, não o contrário.

Existe, porém, outra espécie de escritor. Um tipo que vai além. Geralmente tal artista em algum momento arrancou de si a aldeia. Aquela, universal por natureza. E nesse movimento certamente revelador, se fez completo, um autor sem amarras. Arrancando de si também a linguagem que o vinculava ao seu possível território. Convertendo-a, de limitadora em ilimitada.

Em Fernanflor (Iluminuras, 2015, 112 páginas), de Sidney Rocha, tive tal impressão logo no começo. As palavras existem, não fogem de nossa compreensão. Os elementos narrativos não são disparates. Nem viagens sem volta no doce mundo das abstrações. Todavia, Rocha demonstra saber utilizar a linguagem a seu favor. Ampliando-a até outro patamar. Indo além.

Para ele, o território, o lugar, ou qualquer conceito semelhante é a própria linguagem.

Não existem ali as dificuldades comuns aos pretensiosos. Dos que se excedem no uso de palavras complicadas. Nem tampouco o fluxo de consciência, tipo de arte que, nas mãos dos tolos, se torna artifício. Apesar da velocidade com que o ganhador do Jabuti de 2012 desenvolve seu romance, fica bem evidente o cuidado com a construção, com a estrutura e com a intenção, principalmente. A velocidade aqui é fruto de seu intento. A rapidez é resultado de trabalho, um artesanato, lido, relido, analisado não de forma obtusa e engessada, mas com a paixão dos que sabem aonde querem estar – não por acaso, o livro levou cerca de oito anos para terminar, além de ter sido submetido a uma leitura pública há cerca de quatro anos em várias capitais do Brasil.

Apesar de não ser hermético, Fernanflor também não pode ser lido de forma desleixada. O fato de Sidney ser um autor que subverte a noção/ideia de território nos obriga a reinventar nossa leitura. A literatura flui e nos escapa, se a gente vacilar.

Cada página nos força a construção de possibilidades. E nunca estamos satisfeitos, pois a todo instante vemos algo distinto. Jeroni, o protagonista, poderia ser resumido a um dândi. Talvez possua as mesmas posturas e angústias comuns aos outros da história da literatura. Porém, cada novo instante é de fato novo, exige mais do leitor.

Sidney consegue uma literatura de deslocamentos. E, antes que tal afirmativa se transforme somente numa frase de efeito, é possível tentar justificá-la com uma ideia simples: a cada página conquistada entendemos que nada é linear nem previsível. Em nenhum aspecto.

Do enredo à linguagem, as coisas se renovam. O novo não surge somente nas ações do personagem – aonde ele vai, o que fará em seguida, qual seu destino, sua tragédia e seu triunfo. O novo surge também na linguagem. Na escrita. Em diálogos que aparecem do nada, surpreendem, dilatam a literatura “deslocada” de Rocha.

Uma epifania não é fato isolado. Ela se desdobra. Atinge não somente o instante na história, mas também a linguagem que lhe dá guarida. É um conjunto de sensações. Pluralidade, literal e literária:

“Retirada a laje, a areia volta ao bojo das pás. Milhões de pétalas são lançadas para cima e, outra vez, se pode ver o vidro limpo. Os cordames grossos, de algodão puro, se enfiam na terra e içam o diamante. Sentimos o cheiro das rosas, mas é a respiração da terra ruminando o odor da terra molhada. Por um segundo crê que o diamante levita, depois as mãos o carregam até o suntuoso catafalco.

“Na câmera ardente, não há mais espaços para mais rosas nem palmas.”

E presenciamos cisnes que “desnadam”. E um Jeroni que vê “(…) lágrimas subirem das faces das mulheres e serem sugadas de volta ao fundo dos olhos”.

Outro ponto a ser destacado é o uso de elementos pictóricos. Sendo Jeroni pintor, tal recurso é fundamental. Justificável em maior ou menor escala. Contudo, aqui mais uma vez insisto nas teses do deslocamento e da pluralidade, para dizer que em cada trecho onde Sidney resolveu usá-los, o risco (ou seria traço, ou pincelada?) valeu.

Ou seja, supondo que o autor não seja artista plástico, ou que ele tenha algum grau de intimidade com a pintura, os trechos onde isso foi necessário não serviram somente de arcabouço para o protagonista. Nem descrições frias resultantes de pesquisas. A pintura que Lourenço Mutarelli cita na orelha do livro tem a ver com a linguagem – e opiniões como as dele, escritor e um dos melhores quadrinistas do país, tem peso e medida, assim como as do português Gonçalo M. Tavares, dono de um texto fundamental sobre Fernanflor. Provando mais uma vez que ela é o alicerce. A mesma linguagem inovadora que nos conduz desde a primeira página. Com cores, vibrantes ou não – o vermelho e o cinza são escolhas firmes do autor, mesmo quando desbotam: o desbotamento também sendo escolha, recurso. Com os retratos e com a vida que deixam Jeroni Fernanflor sempre à beira de um precipício. Usando seus sapatos lustrados, suas roupas bem cortadas.

Somos seduzidos pelo artista. Pelo dândi que desde novo olhava o mundo como um quadro vigoroso, mas nunca estático. Pelo artista que se mostra nos silêncios que o Mutarelli diz, mas que se esconde nas “(…) frases claras, mas nunca evidentes.”, opinião do escritor português Gonçalo M. Tavares em seu texto.

Fernanflor é o começo. A primeira parte de uma trilogia arquitetada por um grande autor. Um inventor de possibilidades: e que os outros dois livros nunca encerrem a aventura, ainda que tenham um fim.

 

Gustavo Rios é autor do livro de contos “Allen mora no térreo” (Mariposa Cartonera, 2015), entre outros.

 

 

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104ª Leva - 07/2015 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

A mitologia do homem comum

Por Sérgio Tavares

 

Capa

“O dia em que comemos Maria Dulce” é, em grande parte, a saga de um herói inacabado. Jailson, um Ulisses nordestino, subalimentado, rústico, cuja viagem à procura da Ítaca de si deslinda as feridas sociais, o mapa da fome, as paragens castigadas daqueles desenganados de nascença. Na coletânea de contos do paraibano Antônio Mariano, pululam “Jailsons”, personagens que carregam o mesmo nome e singularidades, levando o leitor a crer numa ação romanesca. Ou seria apenas uma série de aparições aleatórias? Não fica claro. A narrativa decorre desse jogo movediço.

Sobre os motores temáticos, no entanto, não recaem dúvidas. Ora com uma crueza vibrante, ora com uma melancolia judiada, Mariano problematiza conceitos arcaicos, mas ainda latentes nos desvãos do Brasil, a exemplo do patriarcalismo, da submissão feminina, da impossibilidade de fuga, do asselvajamento das relações familiares e os conflitos gerados por essa colmeia de sentimentos peçonhentos.

Logo no conto de abertura, “A construção do silêncio”, pai e filho convivem separados por uma barreira de afonia, que os impedem de compartilhar suas angústias, de solucionar erros pretéritos, de, diante de uma terceira geração, rejeitar essa herança de estranhamento.

A figura paterna, na configuração de uma entidade implacável e intransitiva, é reprisada em outras narrativas, até ser exorcizada em “Chocolate quente”, quando o esboroamento físico do genitor possibilita o roubo da autoridade pelo filho. “Amo papai, imensamente. Principalmente quando é fraco, depende de mim e posso desprezá-lo”, regozija-se o protagonista.

É recorrente a incidência de uma maldade natural, intratável, sem explicação. “Papai, você matou mãinha, matou mãinha, matou mãinha!”, desespera-se o menino diante de um homem brutalizado que recorre à morte para a resolução de seus problemas. A condição humana não é apenas pobre, pois traz entranhada na alma a miséria, mas retroalimenta esse legado de parcos valores morais, ou de valor algum.

Nascendo e morrendo nesse cenário árido, rachado sob os pés descalços dos que não alcançam o que está à altura das mãos, reinam os “Jailsons”, um “sertanejo de uma cidadezinha pacata”, um demitido que não se condói à dor de parto da esposa, um “servidor público municipal”, um sujeito marcado para morrer. Múltiplos atores de um mesmo fado: ser coadjuvante da própria existência, apagar-se, nunca triunfar. Como sumarizado no conto “Estas imagens”: Teu nome é Jailson, deve ter sido a única frase que pronunciaram para me prender de vez a esse destino”.

As desventuras do personagem são também diesel para funcionar a máquina de vocábulos regionais, envernizados por um lirismo abrasador. Mariano, poeta de mão-cheia, faz de sua tessitura um fluxo sinuoso que vai atritando as palavras e obtendo desse movimento uma espécie de cadência própria da língua falada de um povo que tem de lidar com as agruras da vida e consegue extrair, da resistência, música.

“Mais longe, um galo sola o seu canto simples, zurra um jumento, escarra um ancião. A fruta de fogo despertando a cidade com seu grito de luz e calor. Surpresa alguma. A aurora cai, de vez e já apodrecida, no colo magro da manhã que nasce”. Com um canto bem afinado, “O dia em que comemos Maria Dulce” retrata a mitologia do homem comum.

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

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104ª Leva - 07/2015 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

Em busca da busca do tempo perdido

Por Maurício de Almeida

 

Capa Rebentar

 

  1. Rebentar: um romance

Rebentar é o novo livro do escritor Rafael Gallo. Sucessor do premiado Réveillon e outros dias (vencedor do Prêmio Sesc de Literatura na categoria contos 2011/2012 e finalista do Prêmio Jabuti 2013), Rebentar é o primeiro romance do autor, no qual destrincha uma situação delicada: após trinta anos de buscas, Ângela desiste de procurar Felipe, seu filho desaparecido aos cinco anos de idade.

Ao longo de quase quatrocentas páginas divididas em nove capítulos, o livro acompanha e analisa o processo de tomada de decisão de Ângela, perscrutando os altos e baixos, e, principalmente, as dificuldades e resistências que a personagem enfrenta para levar a cabo sua decisão. Decisão que é muito mais uma renúncia que uma desistência. Corroborando com esse parecer, destaco uma constatação-síntese da personagem principal, que surge em uma conversa com sua amiga e terapeuta e torna-se mote de seu processo:

“Eu não estou me dobrando a essa luta, feito alguém que gostaria de poder vencê-la mas não se sente capaz. Eu era assim antes, agora estou justamente me dando o direito de escolher outra coisa para minha vida. Quero deixar para trás essa batalha feita de desistências. Você conhece minha história, ninguém vai poder nunca dizer que eu simplesmente desisti” (pg. 77).

Dessa brevíssima sinopse e citação, seleciono duas ideias fundamentais ao livro: o tempo e a renúncia.

 

  1. Heráclito overdrive

“Ela sabia, desde o começo, que em algum momento teria de dar um adeus definitivo ao controle daquele espaço pertencente a Felipe […] Agora percebe que uma despedida sempre atravessa, indivisível, o passado, o presente e o futuro daquilo que se vai, iniciando-se antes mesmo da ausência e encerrando-se muito depois de se já ter perdido aquilo a que se diz adeus, o adeus que já não pode mais alcançar o que se foi” (pg. 252).

Para Heráclito, tudo é movimento. Partindo desse pressuposto, Simplício cunhou a máxima que é repetida incessantemente com o intuito de nos lembrar que, afinal e independente de qualquer esforço contrário, o tempo passa e é impossível revivê-lo tal como acontecido: não se pode percorrer duas vezes o mesmo rio. Essa máxima servirá de parâmetro a certa leitura que faço de Rebentar. No entanto, me apropriarei dela para um exercício hipotético a fim de explorar uma questão cara ao romance: o tempo.

A hipótese: uma pessoa mergulha no rio do tempo. E, nesse mergulho, em vez de percorrê-lo ou mesmo se deixar levar pela correnteza, agarra-se a um tronco estanque no meio do rio e, por motivos diversos, não o solta.

A razão pela qual não é possível percorrer duas vezes o mesmo rio Simplício mesmo explica: por causa da impetuosidade e da velocidade da mutação. À luz desse movimento perpétuo de tudo, a hipótese de resistência ao fluxo coloca outras questões: Que troncos são esses? Por que se ancorar nesse ponto e resistir ao fluir do rio-tempo? Quais são as implicações dessa resistência? Qual é o custo de abrir mão desse ponto de resistência? E, questão fundamental ao livro, como superar aquele ponto seguro e fluir?

O sumiço do filho é o tronco no qual Ângela se ancora. Obsessiva e exclusivamente dedicada à busca do filho, ela agarra-se ao tronco daquele momento e é toda investimento na conclusão do impasse, que, ao menos para Ângela, exige uma (tentativa de) suspensão do tempo: não à toa o quarto de Felipe é mantido tal qual ele o deixou, assim como a casa da família é restaurada a fim de que permaneça igual, pois isso significa não só uma forma de reconhecimento para o caso do retorno do menino, mas também uma prova de que eles jamais se esqueceram dele. No limite, trata-se também de uma tentativa de Ângela em reter o tempo naquele instante a fim de revertê-lo e impedir que a catástrofe ocorrida aconteça de fato.

Entretanto, ao perceber que três décadas se passaram, Ângela compreende que o estrago está feito e que resistir não é mais plausível, posto que mesmo aquele ponto de resistência expirou: encontrar o filho não é mais encontrar o menino de cinco anos, o garoto que reconhecerá a casa e dormirá o sono infantil em um quarto ornado de brinquedos, mas um homem de trinta e cinco anos para quem a casa ou o quarto ou mesmo os pais certamente não significarão nada.

Apesar da lógica imposta por essa descrição crua do tempo – afinal, é óbvio que, se se passaram trinta anos, o garoto de cinco terá trinta e cinco anos – para Ângela essa conclusão só é possível quando ela compreende (e, acima de tudo, sente) que, apesar de seus todos os seus esforços, o reencontro com o filho perdido é impossível justamente pelo fato de ser impossível conter o rio do tempo. Não por acaso, o livro é um debruçar-se sobre a questão fundamental: como superar esse ponto seguro (mas inviável) e fluir?

A implicação de resistir ao tempo é bagunçá-lo. Ângela percebe essa implicação ao concluir que manter um filho ausente é viver o passado e, portanto, negar o presente, impossibilitando o futuro. Assim, é possível depreender que o maior desafio de Ângela para superar o ponto em que esteve presa é rearranjar o tempo, compreendê-lo em sua dinâmica ininterrupta e deixar ao passado o que é do passado para correr ao gosto do presente – e o futuro a Deus pertence.

Mas o drama dela é complexo, pois reordenar o tempo é abandonar o passado e assumir a impossibilidade real de retorno do filho. Há muito mais contundência no fato do que na ideia – e esta é a força de Rebentar: captar e transmitir as implicações da escolha de Ângela e não reduzi-la simplesmente a uma eloquência vazia sobre o tempo. É sensível durante a leitura o empenho da personagem, suas perplexidades frente às resoluções que assume, suas fraquezas nos momentos mais difíceis.

 

  1. A busca da busca do tempo perdido ou insepulto corpo inexistente

Entretanto, apenas entender a dinâmica do tempo para reorganizá-lo não é suficiente à decisão de Ângela, pois ela precisa agir. Como executar sua resolução?

Após tantos anos de busca e contrariando todas as expectativas, Ângela opta pela renúncia: enterrar simbolicamente o corpo inexistente (e, portanto, insepulto) de seu filho é o único meio de libertar-se daquilo que a prende ao passado. Não sem enfrentar a pergunta: qual é o custo de abrir mão desse ponto de resistência? Pergunta, aliás, que pressupõe inúmeras resistências.

É possível dizer que tanto as resistências internas e externas que ela encontra ancoram-se na mesma prerrogativa: independente das circunstâncias, a maternidade implica em não desistir do filho.

Na medida em que decide suspender a busca por Felipe por aceitar a inexorabilidade do tempo, e isso acontece justamente quando se depara com um retrato de Felipe envelhecido digitalmente, Ângela se impõe questões inevitáveis: aquele homem atenderia por Felipe? Compartilharia do amor a ele dedicado apesar dos trinta anos de espaço entre eles? A consequência dessas questões estremece a certeza da prerrogativa com uma dúvida ao mesmo tempo cruel e libertadora: aquele homem seria seu filho?

A resposta de Ângela é não. Pois não só ela aceita o tempo, como também compreende sua ação: ainda que compartilhem o mesmo código genético, aquele homem não seria o filho dela. Isto significa encarar a constatação mais cruel e incontornável, mas única forma de subverter a prerrogativa e encontrar uma verdade subjacente: ela e o filho são pessoas distintas. E isso só é possível ao aceitar a inexistência daquele filho que ela conheceu, isto é, compreendê-lo morto. Essa constatação é tão fundamental ao processo da personagem que é a primeira e única vez que que ela assume a voz narrativa para explicitá-la – e não por acaso no momento em que ela se despede de Felipe:

“E eu guardei todas as suas coisas por tantos anos, enxergando nelas o espelhamento da minha esperança de que a vida pudesse se reordenar entre nós, mas… No fim, elas restaram sem nenhum sentido por não terem você. Elas existem apenas para serem suas. As suas coisas não são as minhas, filho; essa é a verdade que custei a entender. Protegi seu pequeno mundo como se fosse meu, mas isso só fez com que eu ficasse presa dentro dele. Eu cerquei ainda mais as paredes do labirinto onde me enclausurei.” (pg. 331)

Por razões diversas – algumas genuínas e outras escusas – Ângela tem de lidar também com as resistências impostas por aqueles que a cercam. Muito embora partam do mesmo princípio, essas resistências consideram a passagem do tempo um evento que não se sobrepõem à prerrogativa da maternidade. O fato de ter trinta anos ou não atender pelo nome Felipe não faz de Felipe menos filho de Ângela.

Talvez seja mais simples a quem está de fora pressupor a preponderância de tal prerrogativa, porque a esperança implicada na espera não afeta os terceiros da mesma forma que afeta Ângela. Aliás, para ela é uma questão de vida: enterrar Felipe (mesmo que simbolicamente) é a única forma de poder continuar viva, soltar-se daquele tronco fincado no meio do tempo é a única maneira de livrar-se do passado e viver o presente.

“Quando alguém que a gente ama morre, dói demais olha adiante sabendo que não existirá mais nenhum dia em que essa pessoa vai estar conosco no futuro: sua voz pela casa, seus gestos e toques, suas vivências. Eu nunca tive isso com você, ao olhar adiante; sua perda sempre se deu no sentido oposto: era quando eu olhava para trás, para o passado, que eu via os dias se somando sem você”. (pg. 332)

Dessa forma, a transfiguração de Ângela passa necessariamente pela reformulação da prerrogativa: ao aceitar/providenciar a morte do filho, ela pode recuperar o papel que possuía antes de ser mãe. Portanto, muito antes de uma desistência, ela realiza uma renúncia, que só é possível porque, ao assumir a ausência/morte do filho, ela pode abrir mão do papel de mãe. Assim, como a qualquer ser humano, cabe a ela viver o presente, aceitando que o passado já não existe mais. Ater-se a qualquer um dos tempos ignorando os demais não é viver, mas resistir – e em vão.

Por isso, Rebentar pode ser lido como um grande processo de luto. Na ausência do corpo, Ângela e o marido Otávio elencam e assumem mudanças que de alguma forma simbolizam o enterro do passado a fim de livrar caminho ao futuro. E o livro é o detalhamento desse processo, seus percalços e contratempos, que, afinal, nove capítulos depois, se realiza no ciclo mesmo da vida: um novo nascimento.

  1. Pais & filhos

Por si só, o mote do enredo é forte. Portanto, não é difícil arriscar que, para mantê-lo firme, o autor teria de desembolsar outros eventos tão ou mais catastróficos. (Estratégia, aliás, comum em certa literatura, que lança mão do armagedom a fim de fazer a narrativa andar.) Todavia, o autor é preciso na trama. O enredo desvia de pirotecnias narrativas para se dedicar tão somente ao tema eleito, aprofundando-o a partir dos personagens – sobretudo Ângela – e buscando suas múltiplas possibilidades de acordo com a história que conta.

E Rebentar flui. O estilo lírico e sempre elegante do autor (vide os contos do citado Réveillon e outros dias) possibilita um duplo movimento ao texto: explorar as profundezas dos sentimentos de Ângela e explicitar as tensões nos diálogos quase coloquiais que pontuam sua relação com os demais personagens. O interessante desse movimento é demonstrar as diversas camadas do processo da protagonista, que transpassam desde a contemplação mais silenciosa e angustiante do mar em um cais de porto até o diálogo mais terno com a afilhada Isabela.

Por fim, interessante notar como o autor revista alguns temas e estratégias de Réveillon e outros dias, livro de contos antecessor de Rebentar. Se no primeiro já havia a tendência de construir narrativas muito mais a partir dos personagens e seus dramas particulares do que submetê-los a uma trama mirabolante, essa tendência realizou-se plenamente em Rebentar.

As relações parentais é outro tema comum aos livros. Por exemplo, o conto Réveillon, um dos mais significativos do livro, explora a relação entre o filho surdo e prestes a partir numa viagem e seu velho pai recém viúvo – e essa situação é porta de entrada aos próprios personagens, pois a vontade de vida do jovem resulta na sensação de finitude que o velho experimenta – eis o conflito. Entretanto, como vemos claramente em Rebentar, essas relações marcadas por impossibilidades, ao contrário de impedimentos, convocam os personagens a providenciar soluções – e nos impele a revisarmos nossas próprias desistências.

Maurício de Almeida é autor de ‘Beijando dentes’ (Ed. Record), livro de contos vencedor do Prêmio Sesc de literatura 2007.

 

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103ª Leva - 06/2015 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

Confabulário canino

Por Sérgio Tavares

 

 

 

Há uma corrente que defende que uma antologia de contos, mesmo de maneira involuntária, persegue uma unidade temática. Se isso for verdade, “O livro dos cachorros”, de Luís Roberto Amabile, deixa rastros bem delineados na sua forma de investigação.

Seccionado em três departamentos: “Orelha em pé”, “Cio” e “Dentes à mostra”, a obra é composta por narrativas mobilizadas pela literatura, pelo sexo e pela violência, respectivamente. Dentro dessas divisões, no entanto, os formatos são os mais variados. Fazendo uma alusão ao título, há animais de diferentes portes e aspectos. Contos maiores, contos menores, minicontos, frases.

Amabile também condiciona a estrutura a um exercício multifário. Alguns textos se resumem a um recorte de diálogos, do mesmo modo que, outros, a fluxos interruptos. Uma história se apresenta em modelo clássico para, em seguida, fracionar-se em duas colunas com mais de um relato. Há digressões, elipses. Vozes em primeira pessoa que passam para a terceira, depois voltam para a primeira. Um tipo de confabulário dissonante que encontra, justamente na irregularidade, a força sobre os assuntos a que se propõe literaturar.

Em “Sobre o não-dito”, que abre o livro, uma discussão a respeito do fazer ficcional vai se infiltrando paulatinamente no plano entendido como realidade, até arrevesar a história na própria história. A origem da autoficção é o que motiva “O frio”, texto seguinte, ao passo que “Espelho” é um jogo caricatural, uma ideia de paródia para um conto célebre do célebre escritor K., acerca de um homem e um inseto, ou uma amálgama disso.

Amabile joga a todo instante com a literatura e, automaticamente, joga com o leitor, que se vê numa zona de estranheza, levado a achar cômico algo que não deveria ser, mas sem entender o porquê da autocensura. “O herói peludinho” ilustra bem esse sentimento. Um adolescente feioso, gamado pela atriz Kim Basinger, começa a direcionar seus suores púberes a uma menina de sete anos. Não há gratuidade, mas a intenção já carrega o choque possível.

A narrativa também deixa mais latente a obsessão do autor: a cultura dos anos 80. Embora os eixos temáticos sejam bem definidos, paira sobre esses uma atmosfera oitentista, substanciada por referências a filmes, músicas e programas de tevê. Em alguns casos, estas ocorrem de maneira bem sutil (Piuí Abacaxi…), mas estão lá, para os olhos treinados, pulverizadas por todo o livro.

O excelente “Buraco”, no qual dois relatos vão se confrontando até um final surpreendente, inaugura a busca por inspirações mais umbrosas, da seara da perda, da detenção da infância, do desejo e da repulsa pelo outro. Um cenário mais nitidamente urbano também se mostra; um tipo de selva de pedra onde personagens animalizados perseguem outros a fim de saciar vontades e apagar solidões.

“Umidade”, um encontro entre balzaquianas à procura de sexo casual e um vendedor de guarda-chuvas, dá partida a um elenco de taras, compulsões e fetiches, cujo senso de utilidade é melhor descrito nas últimas linhas do conto “Fumaça”: “E gozavam. Depois fumavam (…) E conversavam. Quando a fumaça se dissipava, voltavam para seus lares e por algum tempo a vida parecia mais suportável”.

O vazio anímico também dá o tom da parte final, imantada por cenas de violência. “O que acontece no tempo de um tiro?”, reverbera a voz do conto “Gatilho”. Uma combinação de mínimos mecanismos para gerar uma tragédia, mas um intervalo. Todos os personagens estão ali, esperando para matar ou para serem mortos. Uma multiplicidade de mortes, como as descritas no conto “Como estou dirigindo?”, em que um taxista vai narrando causos de crimes durante uma corrida em que leva dois namorados, até mesmo aquela que pode servir para a literatura.

Com uma linguagem ágil, coloquial e bem polida, Amabile trafega por vários estilos, apostando na inventividade em detrimento da forma. “O livro dos cachorros” pode não ter raça específica, mas não deixa dúvida sobre o pedigree de contista do autor.

 

Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites literários nacionais e internacionais. “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura.

 

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103ª Leva - 06/2015 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

O acossar do abismo

Por Fabrício Brandão

 

capa-livro

O indivíduo traça a rota fugaz de suas projeções. Alimenta a carne com pulsões de toda ordem. Intenta um gozo que sabe a um átimo entre o vivido e o inventado. Eleva o objeto de seu desejo a um patamar no qual raras são as certezas. Em última instância, esse mesmo indivíduo é a corporificação de toda a sorte de abstrações dispostas pelos caminhos da criação. Um pouco disso tudo é o ser Java Jota, protagonista do romance homônimo de Thiago Mourão, lançado recentemente pela Editora Patuá.

Ao iniciar as pungentes linhas de seu mais novo livro, Thiago conduz o leitor num verdadeiro jogo de espelhos, através do qual tudo o que se vê reflete um misto de sensações que estabelecem um curioso nivelamento entre quem narra e quem vivencia os acontecimentos. Seriam, então, criador e criatura a mesma pessoa? Mais ainda, ao leitor é dado algum status de protagonismo? São questões que surgem à medida que uma espécie de triângulo de cumplicidades sugere uma harmonização de papéis se pensarmos nesses três eixos de atuação.

Mas eis que um embate serpenteia pelos caminhos do livro. É Java Jota que, encarnando a sina de autor, revela-se um personagem em busca da consolidação de sua obra. Nesse ínterim, o protagonista almeja cruzar os desertos da criação, tendo por musa inspiradora a figura feminina de Rosa.

Em meio aos trajetos insones de sua faceta de escritor, Java questiona suas potencialidades e, como qualquer mortal que pretende êxito em sua razão de existir, põe em xeque suas investidas. Nesse momento, as aproximações com a realidade agigantam-se, sobretudo quando percebemos a tarefa hercúlea que um escritor carrega em si. Com tudo isso, Thiago Mourão não expõe gratuitamente a condição de quem escreve. Pelo contrário, supera expectativas e molda a difusa colcha de retalhos que pode representar a mente de um criador.

Uma sucessão de imagens permeia as andanças de Java Jota. Todas elas bem encadeadas e servindo ao propósito de vislumbrar algum sentido possível para o caos que lhe faz companhia permanente. Como num frame, a paixão por Rosa é um se deixar entregar diante de uma memória hedonista. Tal como a incerteza de fundar uma obra literária com sucesso, o personagem de Java confessa-nos uma musa fugidia, por vezes delirante e imaterial. O melhor de tudo isso é que não se pode afirmar o laço carnal num perfeito estado de consumação. Assim, quiçá Rosa seja apenas um desvario de quem está acostumado a inventar mundos. E tal dúvida é trunfo nas mãos hábeis de Thiago.

Com toda a gama de observações do narrador, o livro opera num fluxo bastante ágil e que torna o desejo pela leitura algo ininterrupto. Java é um ser que intercruza camadas de vivência diante de um universo repleto de cenários. Se para o mundo o escritor pode passar despercebidamente, para Java o contrário seria impraticável. É impossível escapar de um mundo que lhe impõe imagens, sons, cores, sabores, encontros e desencontros. Definitivamente, seria inevitável deixar de pisar em cacos de vidro. Onde a famigerada inspiração? Pergunta que se dilui nas tentativas do personagem ante o vazio do papel.

Na procura por respostas, o protagonista do livro vai engendrando vias tanto concretas quanto abstratas, amalgamando tudo ao seu redemoinho cotidiano. Numa das passagens da obra, momento em que o personagem encontra-se com o Mestre Haxi, fica evidenciado que a realidade por si só não representa a única saída. É necessário imergir em outras dimensões da consciência para se ter alternativas criativas. A alegoria xamânica escolhida por Thiago chama a atenção por vislumbrar na figura do mestre um elemento de ponderações tanto filosóficas quanto estéticas, muito bem regado a doses de humor e crítica.

Dentro da saga de Java, somos todos cúmplices do modus operandi palpável da condição de autor. É a literatura abordando a literatura numa constatação sobre a qual o ato de escrever é pedra no meio do caminho, sensação permanente de Sísifo. Assim, são empurrados ladeira acima tanto prazeres quanto dores, faces inalienáveis de uma mesma moeda. O resultado do esforço fica para quando essa mesma pedra rolar do cume abaixo.

Não é à toa que Thiago recorre à poesia para iniciar e fechar sua obra. Esse ato de aliar-se a outro gênero nada tem a ver com um simples desejo de citação para impactar quem lê, mas, sobretudo com uma forma de evocar a importância de uma libertação, qual seja a de considerar que quem escreve, mesmo não se desgarrando de seu inferno pessoal, pode reduzir o peso de suas bagagens durante a extenuante travessia.

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.