Jade lavava pedrinhas antigas que encontrou numa gaveta da avó. Não pareciam pedras preciosas. Mas Jade as afagava com cuidado, submergidas, como se fosse o próprio corpo da avó. Morrer é se converter em pedra. O corpo duro em cima da mesa do velório lhe deu essa impressão. As articulações da mão estavam endurecidas. Não sei por que Jade tentou dobrar o punho da vó, como fizesse um exercício de fisioterapia que ela mesma tinha feito quando quebrara o braço. Tentava talvez dar ânimo à vó. Mas logo tiraram a menina abobada de perto do corpo. Jade: que aliás fisicamente era muito parecida com a vó, ou com o que ela tinha sido na juventude.
_ A vó gostava muito de você! disse a mãe para Jade, enquanto a menina continuava a alisar as pedrinhas coloridas.
A vó Vera foi a única de toda a família a aceitar a gravidez da filha, mãe solteira, e até se separou do marido que queria botar a filha grávida no olho da rua. Cidade de interior, moralismo e preconceito é coisa farta. Quando Jade nasceu, o pai ainda zombou, dizendo que ela tinha parido uma retardada. Os fofoqueiros da família diziam que devia ser filha de algum primo. No ano seguinte, quando o pai se finou, a mãe de Jade não foi no enterro e ainda postou na Internet: “Não me venham com condolências. Faz muito tempo que não tenho pai.” A vó Vera desaconselhava esses rancores, até podia entender, mas rezava para que os nós do rancor desatassem do peito da filha.
A gaveta que Jade estava arrumando tinha também um cachimbo. Mas ela fingia estar atenta às outras coisas. Com uma bacia de água ao lado, lavava as coisas da vozinha. Só de vez em quando ela lançava um olhar de rabicho para o outro lado da gaveta onde estava o cachimbo da vó. Sabia que se pegasse o cachimbo, a mãe ralharia, pois esta vez ou outra também lançava um olhar pra ver o que Jade estava fazendo, enquanto desocupava o armário.
_ Uma vez quando você tomou acetona, foi vó que levou você pro hospital!
_ E eu fiquei bêbada, mãe?
_ Não, mas teve que fazer lavagem no estômago.
_ Mas se não tivesse feito lavagem, eu ficava bêbada?
_ Não, Jade! Isso foi quando você era criança…
Jade não é mais criança. Mas sabe que é “meio retardada”, como os meninos da rua tantas vezes repetiram. Por isso ela pode cobiçar o cachimbo; e planeja pegá-lo escondido. É só esperar: porque primeiro a mãe conta alguma história da vó, depois algumas lágrimas rolam. E vai ser no próximo rolar de lágrimas que vou apanhar o cachimbo e jogar pra debaixo da cama.
Jade não é mais criança, mas também não pode fumar. Fumar faz mal. Jade é meio retardada, mas não deixou de ver que, no velório da vó, a mãe saiu pra fumar e voltou cheirando a cigarro.
Entre um acontecido e outro desenterrado da memória, a mãe começou a chorar de novo e logo saiu pra se assoar no banheiro. Jade então teve tempo de pegar o cachimbo, botar na boca e dar uma tragada imaginária. Depois o jogou para debaixo da cama.
_ Jade, vamos parar um pouco. Pra almoçar?!
_ Pode ser mãe, tô com fome.
Na verdade, ela tinha na boca um gosto da poeira velha acumulada no fundo da gaveta. Pensou nos restos mortais da vó, que estavam dentro de uma pequena urna na sala. Estava sem fome. Mesmo assim ela e a mãe foram almoçar. Jade comeu com gulodice.
***
Hieróglifos
Mãe, deixa ser meu o quarto da bagunça? Era desejo antigo. Ter um quarto. Quase uma casa. Não era só veleidade de menino. Deixa ser meu o quarto da bagunça! O caçula já tá grande, pode bem dormir sozinho. Mas o quarto de vocês já é uma bagunça! Olha, Mãe! Sonâmbulo descabido. Olha que eu monto cabana de lençol na garagem. Convoco os amigos, chamo os vizinhos. Trincheira de brinquedos e livros. E, quando crescer, faço festa durante a quaresma. E ainda viro boêmio! Não acredita?
Ela deixou. Agarrei tarefa de ajeitar tudo: traz a cama, cola um pôster, muda o espelho. Mãe, vou fazer uma tabela de basquete na parede! Bem em frente à cama… Pode? Pintei de amarelo o quadrado, circulei com preto e, para fixar a cesta, furei os dois exigidos buracos. Mas durou pouco. O queixo duro respondeu de través. Pisou tenso em desalento de é meu, é meu, é meu… Então a Mãe desaprovou, emprestou da bruxa uma vassoura e foi redesenhar o trabalho: tirou a cor de dentro do quadrado, espalhou por toda a parede o novelo amarelo embaraçando. Restos de palha da vassoura grudados na tinta. Colagem rupestre. Parede ficou amarela e branca. Pintura abstrata. Parecia um ninho profanado, com a gema dos ovos escorrendo.
Zanga de leão ferido: fui lá e também registrei minha raiva. Bosta. Buceta. Porra. Um ou outro palavrão genuíno desses escrevi… e até uma suástica desenhei. Mas as asas da suástica pus voltadas ao contrário. Sabe que nem quatro unhas encravadas? Lascou. Prédio do amor e da caça. Eficácia do signo. Primeira e última dádiva. E assim a parede muitos anos se preservou: contornada com gemas da vassoura improvisada em pincel e as minhas palavras raivosas. A parede do quarto voltou a ser, mais do que nunca, a parede do quarto da bagunça.
Com o tempo passou também a painel de recadinhos. Rasuras. Quem vinha em casa se sentia no direito de um cantinho pra rabiscar. Primo pequeno chegava e queria provar a todos que já sabia escrever o nome. Depois a medição dos adolescentes crescendo também era anotada ali. Assim foi: borrão desencantado da vida. Teste do estêncil. Resto de massa corrida. Sujeira de pincel…
Quando, em certa ocasião, veio o padre dizer missa aqui em casa, o canto de ouvir a confissão ficou sendo justamente ao pé da nossa parede rasurada. No quarto da bagunça. Debaixo da suástica de asas invertidas. Antes, porém, em gesto de contrição antecipado, minha mãe foi lá e cobriu de branco os termos mais técnicos. Foi coisa pouca. Não chegou a mudar o sentido da obra.
Outra vez, a parede recebeu também inscrição do tato em vermelho durante o sexo. Dedos desenhando com sangue menstrual da primeira namorada. E a mancha de sangue lá ficou – o vermelho se tornando marrom, quase preto – nem sei até quando.
Hoje, manchas todas devem estar inda lá na parede, debaixo de alguma camada, das tantas que foi preciso dar, em vão, para cobrir a ira, o amor e os carinhos que sujam de vida todo o lugar.
Marcus Groza é poeta e ficcionista. Autor do livro “Sossego Abutre” (Ed. Patuá – 2015), é coeditor da Revista Abate e da Revista Saúva.
Estava há sete semanas naquele quarto de hospital e principiava a chatear-se.
Todos o tratavam muito bem – alguém lhe emprestara mesmo uma telefonia – mas o certo é que começava a sentir-se ligeiramente aborrecido.
Não era que a enfermeira não lhe trouxesse a comida quentinha a horas certas, nem que o dr. Varela lhe faltasse com a sabedoria médica. Não. Toda a gente era realmente muito simpática, mas ele principiava a ficar um bocado… frio.
A partir da terceira semana começara a segredar para si próprio ideias que apanhava ao calhar. E, caso estranho, pensava, pensava muito, pensava como nunca havia pensado: pensamentos gordos, mesmo suculentos, que lhe deixavam na boca um sabor esquisito e galopante, como se fossem comboios molengões andando sobre carris podres. Não estava a gostar nada daquilo.
Além do mais, de noite o quarto enchia-se de vagas correrias, vagas risadas…
Virou-se para o outro lado.
O pára-choques apanhara-o exactamente em cheio no sítio onde as costelas dizem adeus ao estômago. Acordara depois, de súbito, numa cama descompassada com formigas e abelhas a passearem para baixo e para cima a toda a altura do esqueleto, suaves, venenosas. A cabeça muito bem entrapada repousava virtuosamente sobre uma almofada branca. Em volta, tanto quanto se lembrava, uns fantasmas abusadores deambulavam num leva-traz peculiar zurzindo o ar ambiente com uma lengalenga que nem por ser em voz sumida era menos estarrecedora.
Depois foi-se habituando.
O dr. Varela chegava ao crepúsculo, ou ao nascer do sol, com os óculos muito calmos e mudos a apontar na sua direcção: pegava-lhe no pulso, rosnava sabiamente, abanava a cabeça e, antes de sair, escrevia qualquer coisa num papel. Ele por momentos pensava que o dr. Varela tinha um pacto secreto com o seu aborrecimento, mas está-se a ver que era só impressão.
A enfermeira, como é natural, vinha mais vezes. Tinha um nome impronunciável, olhava aos ziguezagues e era magra e penugenta. Cheirava a relógios bem lubrificados e nunca se ria. Também não devia ter de quê, pensava ele, mas tudo aquilo lhe fazia nervos.
A enfermeira era ferozmente cumpridora. Uma boa profissional: puxava-lhe a roupa para o pescoço se o topava destapado, metia-lhe pastilhas entre os beiços, a horas correctas ajudava-o a assoar-se e a fazer mais coisas. Enquanto ele teve os braços em gesso, deu-lhe a papa com um clarão de bondade nos sobrolhos perfeitamente assustador.
O termómetro que sempre transportava no bolsinho da bata constituía uma realidade imprópria.
Saía depois de o olhar com satânico interesse enfermeiral. Antes de fechar a porta a sua mão traçava no ar um círculo cinzento e agressivo
A esposa visitava-o três vezes por semana, mas isso já não o arreliava por aí além. Ficara imunizado por dezassete anos de matrimónio. Já estava mais que familiarizado com o seu narizinho de coruja egoísta e com a sua voz que a passagem do tempo tornara rascalhante. Limitava-se a ficar calado, com os olhos bem fixos no meio do tecto. Às quatro da tarde a esposa abandonava a partida e ia-se com o seu passo de flamingo de noventa e oito quilos. Ele fingia que não era nada com ele.
Foi no dia em que lhe tiraram as últimas ligaduras que ele viu as moscas.
Eram duas, esvoaçando solenemente na meia sombra com um ar tranquilo e respeitável. Tinham o aspecto de moscas de sociedade, talvez já grisalhas dos anos e ele por uns segundos raciocinou que até nem se espantaria se lhes visse bengala e gravata.
Durante vários dias as moscas não lhe largaram o quarto.
Eram moscas filósofas. As suas conversas, num tom muito fino e discreto, eram do mais alto interesse e centravam-se sobre os grandes temas do universo: o Homem, o Tempo, a Infância, todas as coisas – enfim – que horrorizam ou causam prazer, o Mundo, o Amor e a Morte. Um nunca mais acabar de problemas maravilhosos e inextrincáveis.
A ele o que mais o danava era o seu arzinho superior, como fingindo que nem por ele davam: como se ele fosse um retrato decrépito que para ali estivesse. E, no entanto, elas bem sabiam que ele não perdia pitada das conversas, com os punhos o mais possível cerrados.
Começou a detestá-las. Precisamente no dia em que lhe tiraram o gesso da perna direita.
No entanto, por orgulho, nunca tentou imiscuir-se nas suas conversas. Ainda não descera tão baixo.
Na tarde seguinte, tarde de visita conjugal, as moscas falaram do Ser e das metafísicas, Falaram também das estrelas e seus prestígios, dos barcos à deriva nos mares antigos, dos astrónomos e dos reis dos países afastados. Ele sofria tanto que foi com renovado alívio que viu a cara-metade abandonar a cena da sua tortura.
Com pasmo e raiva estendeu o braço e abriu a telefonia. Adormeceu ao som dum fadinho picado em surdina.
E sonhou sonhos esquisitos de defuntos e bosques imensos, de catedrais e aranhas.
Acordou ao crepúsculo. Em cima da mesa estava uma bandeja com vitualhas. Nada se ouvia. Nem… o voar de uma mosca.
As moscas tinham partido. Durante o seu sono pela tarde fora, tinham decerto voado através da janela entreaberta buscando diverso poiso, concerteza sempre debatendo entre si as coisas belas e incríveis. E ele sentiu de súbito vontade de partir tudo, pois já lhes havia jurado p’la pele: quando estivesse de posse de todos os seus meios físicos, ele lhes diria. Haveria de as ensinar com decisão: ficariam, até, sem vontade de tasquinhar o mais apetitoso bocadinho de excremento!
Mas o certo era que haviam partido. Inexoravelmente. E nada, pensou, poderia fazer!
O crepúsculo, cinematográfico e devorador, entrava aos gargarejos para dentro do quarto. Do outro lado da porta uns passos conhecidos crepitaram com energia.
O dr. Varela entrou, com os óculos muito serenos.
Com uma branda emoção a palpitar progressivamente na garganta ele deu por si a notar, cheio de deliciosas comichões, que a cara do dr.Varela era mesmo, mesmo parecida com a da mosca mais faladora.
História natural
Arte: Nicolau Saião
Quando a tia pobre e amada lhe morreu espapaçada, como um figo podre, debaixo dum camião de transportes, Hipólito disse com as lágrimas a escorrer pelas bochechas: “É chato e dramático. É triste! Mas, se pensarmos bem… é natural. Sim, é natural!”.
Olhei-o sem muito espanto. É que eu já conhecia, desde os bancos da escola, o espírito eminentemente positivista do meu amigo, a sua visão racional. Hipólito era um verdadeiro realista e eu peço licença para dizer que filosofava como poucos. Como muito poucos.
A firma de que era sócio, num dia enevoado de Maio faliu com todos os matadores. Tal acontecimento causou nos meios apropriados um pânico considerável. Hipólito, contudo, limitou-se a franzir o cenho ao de leve: “É trágico. É mesmo perturbador! – disse – Mas, se pensarmos bem… é natural. Sim, é natural!”.
Estávamos, nessa altura, no seu gabinete de administrador. Hipólito, pensador de fino quilate, cérebro privilegiado, dava-me a honra de muito me considerar, embora eu fosse um simples empregadote sem mais valia. Foi então, recordo-me, que ouvimos um súbito alarido. Eu precipitei-me para o corredor. Hipólito seguiu-me calmamente. Fora o comendador Branco Madeira, presidente da Assembleia Geral da empresa. Caíra pela janela. Se calhar de propósito. Do décimo segundo andar.
Olhei lá para o solo, com os olhos arregalados. O comendador jazia como jazem os que se piram pelo décimo segundo piso: parecia uma mosca esfrangalhada e nojenta. Já o rodeavam muitas pessoas.
Por detrás de mim, Hipólito resmungou mansamente: “Que coisa! É extremamente constrangedor. Mas… é natural. Penso que é natural!”. Limpou uma lágrima furtiva, rápida, com a ponta do dedo mindinho. Ofereceu-me um cigarro, que aceitei ainda com as mãos a tremer.
Passados quatro dias, o seu filho mais novo ao praticar alpinismo numa montanha dos arredores caiu para dentro dum rio que lhe ficava na base e engoliu cerca de oitenta litros de água. Calculei eu. Finou-se, evidentemente. Senti muito a morte do moço.
Hipólito, de negro vestido, atrás do caixão inclinou-se levemente e rosnou para a minha orelha. Baixinho, mas eu ouvi bem o que sensatamente me disse. Inclinei a cabeça e continuámos a participar sem mais alardes naquele acto tristíssimo e trágico mas, como o meu amigo referira, perfeitamente compreensível. Hipólito era assim. Lógico, um matemático ou um astrónomo em potencia. Eu apreciava-o muito.
Em Agosto fomos passar as férias, juntos, para uma praia elegante. A mulher de Hipólito e o filho que lhe restava foram juntar-se a nós três dias mais tarde. Ao quarto dia, depois de ter levado a banca do casino à glória, a excelsa senhora defuncionou-se sem o querer, abatida a tiro por um croupier de maus bofes e nervoso.
Quando lhe levaram a notícia, Hipólito ergueu-se de repelão da cadeira de verga onde repousava. Tremia ligeiramente. Respirava um pouco apressadamente.
Pouco a pouco foi-se acalmando. Um véu de tristeza – eu acho que era um véu – nublava-lhe viuvamente o olhar cinzento. “Ora que maçada! É um problema chatíssimo! No entanto, no entanto… pensando bem, foi natural! – disse com inteligência.
Olhei-o com admiração. O espírito e a calma filosófica de Hipólito cada vez me atraíam mais inapelavelmente.
Ao voltarmos para casa, num carro funerário, o filho de Hipólito teve um percalço: chorava desabaladamente, contorcia-se, gemia duma forma que metia pena. Ao estorcer-se num gesto mais largo, sem que o pudéssemos deter saiu pela porta de vidraça descida (fazia cá um calor!). Dei um grito! Que querem, não me contive. O carro funerário parou, toda a gente desceu.
Hipólito, por uns momentos breves, contemplou longamente o que restava do filho como se acreditasse poucochinho. Eu mordia os dedos e as unhas.
Um largo suspiro se escapou do peito largo, profundo, de Hipólito enquanto ele com bondade me ajudava a afastar dos despojos. “Já é azar! É um azar tremendo! Mas, vendo bem as coisas, sopesando o caso… não deixou de ser natural!”.
Olhei-o mais uma vez com admiração fraterna.
Passou-se uma semana. Durante esse tempo não vi o meu velho companheiro de infância. Aliás, desempregado, passei o tempo a ler. Filosofia. De vez em quando tomava um cálice de conhaque. A bebida, segundo ouvi dizer, dos fortes e dos sabedores.
Ao oitavo dia, biblicamente, vi Hipólito. Tinha ido visitar-me. Demos um longo, cordialíssimo aperto de mão. Hipólito vinha anunciar-me que eu fora colocado por sua intercessão num emprego de futuro. “Com calma, Jagodes, tudo se consegue. Tudo se compõe naturalmente!”. Acenei que sim, emocionado. Entretanto, dirigimo-nos ao elevador.
Hipólito foi o primeiro a entrar. Azar dele. O primeiro e o último, aliás. Eu não entrei, pude aperceber-me que o elevador não estava lá! Só o buraco, negro e misterioso, esperava com maldade. Hipólito despenhou-se, soltando um grito em estilo “terror inglês”. Um grito meio grasnado.
Com o coração a bater um pouco desci as escadas, devagarinho e com cautela. Muitas escadas. Abri a porta do elevador, na cave e contemplei o Hipólito.
Hipólito gemia suavemente. Quando deu por mim, quando os sentidos algo abalados lho permitiram, começou a gemer mais alto. Quase a gritar!
“Socorro, Jagodes! Vai chamar um médico depressa… senão morro. Sinto-me já a morrer. Chama-me um médico, um sacerdote… Jagodes!”.
Perdera a calma. Até suava. Tinha um bocado de espuma no queixo.
Dei uma gargalhadinha. Desatei mesmo a rir em pequenos solavancos. Filosoficamente.
Que querem? Estava a achar tudo naturalíssimo.
História do cretino
Arte: Nicolau Saião
Na pequena povoação que interessa ao nosso conto havia apenas um cretino. O resto da população era constituída por pessoas extremamente inteligentes, posto que de diversas profissões e cometimentos.
O cretino da vilória perdida entre vales e montes – como sói dizer-se – à qual mal chegara a luz civilizadora da televisão, chamava-se Leopoldo e era um cretino integral. Creio que me faço entender. E era igualmente, como se compreende, muito solicitado para tudo o que fosse festarola, comilonice de arromba, beberete de alto lá com o estrilo, funeral aperaltado, discursata bamba e descante com jantarada. É que, principalmente nos meios de mais nobre elevação cultural e estomacal, um cretino é material de primeira necessidade e nunca por nunca ser deverá faltar em salão que se preze ou távola que se respeite.
De modo que o nosso cretino – que no seu princípio de vida passara os dias em frente do pequeno espelho da sua defunta madrasta a contemplar a face esguia e as noites a olhar para a lua à espera que de lá caísse um nacozinho de queijo ou um pedaço de chouriço-de-sangue – dum momento para o outro e sem se dar por achado pelas iguarias, começou a enformar, a engordar, a ganhar formas roliças que era um render graças ao Senhor. Muitas mudanças se lhe fizeram na vida. Durante o dia, nas horas de folga – que o nosso cretino, para não perder a forma, treinava-se lendo alguns jornais, revistas e olhando para um certo aparelho com figurinhas a mexer – contava os dedos das mãos e dos pés e, se acaso se enganava no número, dando-lhe por hipótese dezanove ou vinte e um, tecia considerações filosóficas à volta de tal matéria, sendo que muitas delas ultrapassavam de longe, isso vos garanto eu, muita coisata que por aí se vai forjando.
E neste comer e descansar e sorrir cretinamente, como convinha, se foi achando o nosso herói bem nédio e lustroso, e satisfeito, mas com as faculdades a desmembrarem-se ligeiramente: nos discursos de gente graúda á da terra, o Leopoldo já tomava a atitude mais fácil, era pela lei do menor esforço: punha-se junto ao ombro direito do orador, cravava os olhos no vazio, afivelava uma expressão inolvidável e assim se ficava, quedo e palonço, sem dar vivas, sem amostrar a dentuça e o contentamento. Mais parecia uma santola francesa do que um verdadeiro cretino. Como se o houvessem grudado ao solo da pequena povoação. Nas festas de aniversário, após a primeira rodada, o cretino olhava em torno aspirando o ar ambiente com o seu nariz de xadrezista derrotado, embicava com o primeiro sofá ou cadeira que apanhasse disponível, cerrava os lúzios piscos e era um vê-se-te-avias de roncanço e de dormir a todo o pano. Desatava a rir – com motivo – das tiradas do lavrador Parreca, rico qual pirata e nas visitas obrigatórias que acaso fazia às viúvas, punha-se a praguejar baixinho, numa voz muito doce e amiga. Enfim, uma vergonha. Certa vez, num préstito fúnebre dos mais importantes do sítio – pois quem ia a enterrar era o célebre pároco da aldeia – tomou-lhe da mão empedernida e, sacudindo-a com garbo, desejou-lhe boa viagem. O imediato desmaio da governanta daquele santo homem foi, por assim dizer, a primeira pedra no vasto edifício da análise em que a melhor gente da povoação se lançou. Foi numa noite de trovões, em que o camarada Éolo soprava que não era brinquedo e cacarejava a chuva no lamaçal que eram as ruas, como uma cantadeira acatarroada.
Ficou logo decidido que o cretino teria de se morigerar. Sob pena de ser votado ao ostracismo e posto à margem da sociedade em exercício no povoado, Leopoldo teria de não desmerecer das suas antigas e apreciadas qualidades. É que esperto sim, mas devagar. E quando se passam certas marcas a cretinice começa esquisitamente a parecer-se com uma coisa que não é bem inteligência, não sendo burrice; que é uma espécie de meio caminho entre a definitiva bacoquice chapada e a esperteza chatarrona e incómoda. Enfim, qualquer coisa muito penosa de ver e de sentir. E de cheirar.
O Leopoldo foi de pronto chamado à pedra. Que tomasse juízo, que ali só amigos tinha; gente que lhe queria bem; e que não seria naquela aproximação da meia-idade que se proporia mudar de profissão; que tomasse tento e juízo.
E mais que leva e mais que deixa, e que frito e cozido, e alhos e malhos.
O cretino, emocionado, choramingava. Daí a bocadinho, lagriminhas e lagrimetas de comoção solidária, ais e suspiros – era o que mais saía dos sítios próprios da anatomia de toda aquela boa gente. E todos diziam com unção: cá temos de novo o nosso cretino! Que voltou ao bom caminho!
Ora naquele povoado, perdido como já se disse entre pinheiros e vacas, vivia uma senhora muito bondosa, inteligente e riquíssima, que morava na sua mansão solarenga acompanhada duma sobrinha e duma criada, ambas tão elegantes e insinuantes que era duma pessoa ficar de pronto catrapim, zás, trás. Vira nascer o cretino e lembrava-se ainda das suas faces rosadas e inocente infante, e recordava ainda as suas brincadeiras infantis, parvas mas engraçadas. Tinha-lhe mesmo dado, um dia, brinquedos que o cretino – por ser cretino – logo estrapaçalhou com um riso eficiente; e da vez que o derradeiro primo do Leopoldo batera a bota, deixando-o definitivamente só neste vale de lágrimas, emprestara-lhe um lenço de cambraia fina para ele ocultar as lágrimas e as ranhelas.
E decidiu a senhora, no que foi logo aplaudida, abrir os cordões à bolsa e organizar uma festa de graças e alegria, na qual compareceriam todas as pessoas gradas do sítio.
Se bem se pensou melhor se fez. Tratou-se de tudo – serviço, baixelas e comezaina – e o cretino até ajudou nos preparos e na confecção do banquete, e na escolha das entradas e na adequação dos vinhos, saborosas e capitosos como nunca se vira e provara.
Alta tarde, degustada a sopinha e os seguimentos e antes de se entrar nos pitéus de resistência, com toda a augusta confraria à mesa – excepto a criada, que era de servir e a sobrinha da anfitriã, que estava no leito com indisposições – ergueu-se a senhora para proferir algumas palavras. Mas ainda não pronunciara três frases – malhas que o império tece! – e começou de pôr-se branca, e tremebunda, e daí a um pouco, rígida qual patanisca de bacalhau, despencava-se da cadeira e partia prestes, notou-se, para o Além. E um por um, todos os convivas lhe seguiram o exemplo – tirante o cretino, que com a emoção nada comera nem bebera ainda.
Que havia sucedido? Nunca se soube e o cretino – por cretino ser – nunca o conseguiu dizer.
Com os convivas estirados no chão encerado da grande sala, partiu Leopoldo pelas escadas acima, rumo ao quarto da senhora sobrinha. A criadita, pelada de espanto e estupefacção, supõe-se, abalara aos trancos e baldrancos porta fora para os lados da cozinha e ficou fora de cena. Mistérios.
E estando o cretino no quarto da jovem sobrinha, calcula-se que tais cretinices lhe disse, tão engraçadas e sonsas, que daí a breves instantes já ela ria e dengava como se todo o belo mundo com ela estivesse.
Depreende-se que o cretino, cretino consciente e probo continuou. Pois se assim não fôra não teria depois casado com a linda jovem. Teria preferido a criada, que sabia lavar umas camisas, cuecas e calças, preparar iguarias de se lamberem os dedos e dar bom rumo a outras coisas interessantes.
Assim, hoje o cretino vive de mesa e pucarinho com a prendada jovenzinha, e é ele, pois então, quem toma conta das fraldas e outros aprestos das sucessivas crianças que apareceram ano após ano. Tendo somente como vantagem a administração dos bens da defunta.
Moral da história: Quem não quer ser inteligente não lhe veste a pele. A não ser por cretinice…
Nicolau Saião (Portugal, 1946). Poeta, artista plástico e ensaísta. Autor de livros comoPassagem de nível(1992),Flauta de Pan(1998) eOs olhares perdidos(2000).Tem sido um frequente colaborador, no Brasil, da Agulha Revista de Cultura.
Entrei novamente na casa e investigo o silêncio que retorna após trancar a porta. Derrotado, mais uma vez o vazio preenche cada mobília da sala intocada. Desde que você foi embora, a poltrona permanece mutilada em seu lugar e os corredores já não ecoam mais seus passos descalços. Foi inútil tentar recuperar a petúnia; há dias suas mãos não dosavam a água e a entrada da luz que evitariam uma outra presença sua a se despedir da casa. A sua música, que antes me aborrecia e lhe concentrava sentada na poltrona incompleta, agora eu a suportava como um cubo mágico que desisti de decifrar, mas que insistia em combinar cores e tonalidades avessas. Os copos sem batom, os cinzeiros limpos e os filmes de cinema perdidos no jornal sem as sublinhas de esferográfica, eram assinaturas de giz no asfalto apagadas pela chuva. Sabia que estava próximo à cozinha quando o cheiro de canela misturava-se ao odor de almíscar, mas que agora atravesso despercebido até abrir e fechar a geladeira sem decidir por nada. Nenhuma presilha restava nas gavetas como uma peça arqueológica, e nenhum papel sobre a mesa continha os desenhos rupestres de suas letras escorregando uma anotação pelo telefone. Foi uma explosão que acendeu, um trovão que uivou; agora são sombras que avançam, mudez que cala. Sobrou apenas comigo a antiga fotografia guardada que escondia, entre os cabelos desalinhados entrelaçando dois rostos a sorrir numa praça desfocada, o movimento que se distende antes e depois daquele instante, a lembrança amarelecida de unhas peroladas, sorvete de creme e toalhas molhadas.
***
O Testamento de Ícaro
De volta à mesma esquina por onde Ícaro passou, estava novamente defronte à loja de 1,99 e perdido. As muralhas envidraçadas dos prédios domesticavam sua visão nas ruas estreitas da cidade, que perfurava cartazes e olhares desviantes. Às vezes, estes olhares irrompiam em desejo e violência, depois se esqueciam. Os carros seguiam a correnteza arterial dos viadutos e avenidas, sem encontrar um escoadouro que levasse a uma saída do labirinto. Ícaro olhou para o prédio mais alto. A maior lembrança de sua infância, quando subiu pela primeira vez sozinho a copa de uma oliveira em Creta, foi a alegria ainda maior na face de seu pai. Mais uma vez, queria mostrar a Dédalo que saberia decifrar aquele labirinto. De nada adiantavam os mapas que abstraíam os quiosques de garapa e os bueiros entupidos, em quadrados indiferenciados sem indicar qualquer escapatória. Queria ter a visão de Urano, que do alto tudo enxergava, com prazer quase científico, sua colônia de formigas amontoadas que se espremiam entre as casas de cobertura de telhas escamadas. Ícaro subiu o elevador do prédio mais alto, e do último andar olhou ao redor o continente de titãs de concreto. Mas ainda faltava muito para arranhar o céu; era preciso dar um salto decisivo para o alto. Apenas se afastando do turbilhão urbano teria a percepção daquela imensa mancha viva de cimento, metal e plástico, cujo vai-e-vem se harmonizava numa homeostase compreensível. Precisaria içar sua jangada para atravessar oceanos; levantar o braço para apanhar estrelas; subir degraus para escalar montanhas; lançar o olhar em direção aos limites do infinito. Implante-me asas, meu pai! Veja-me voar na morada dos deuses! Dê-me a oportunidade de vislumbrar daqui de cima, o quão pequeno é seu labirinto! Nada mais precioso que a vertigem! Venha, vento, levar-me acima das nuvens! Não se preocupe, pai, voo alto para não ouvir mais as vozes emaranhadas. O mundo se silencia e enfim ouço dizer-me sua extensão. Mais alto, vento! Que a iminente queda ainda conserve a imagem derradeira de que um dia fui livre!
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O Jardim do Éden
Entre o Tigre e o Eufrates, encontrava-se um anjo morto com napalm. As asas mutiladas e a espada flamejante ao chão já não mais guardavam os resquícios de um antigo jardim cujos portais foram arrombados com tiros de morteiro. Dos destroços da cúpula de uma mesquita, o crescente refletia as labaredas que calcinavam os querubins abatidos por uma bateria antiaérea. No jardim, apenas a extensão do deserto que enfim invadiu as velhas cercanias, oásis que subitamente foi envolvido pelo deserto à marcha das cargas deflagradas. Uma árvore seca restava no meio daquele jardim esquecido, exalando a gás mostarda e rodeada de ossos espalhados ao chão como folhas secas. A tempestade de areia e pólvora devastou a paisagem onde já não mais importavam os nomes que batizaram plantas e animais; tudo era um amontoado de cinzas revolvidas com petróleo. Pois se a vida ainda estava lá, empreendeu-se com a razão e o conhecimento os meios de se apoderar dela; “haja luz”, disseram no princípio os criadores que manejavam o bastão, o arco, a espada e o fogo. Assim, da escuridão abriam caminhos passando por cima de si próprios até alcançar o fruto que faltava. Os anjos já não tinham mais como defender aquele jardim; os deuses mortais já sabiam voar, mergulhar, entrincheirar. Disputavam o que achavam o que era a vida em mútuas decapitações. Estava para começar o inverno mais quente do ano.
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Encontro
De manhã ele acordou e silenciou o despertador, que deixou o dia murmurar. Ela se levantou e foi escovar os dentes, enquanto tentava juntar as peças de um sonho. Ele tomou o café sem açúcar e amargou as notícias de ontem. Ela olhou um vaso de flores e compadeceu-se diante de pétalas murchas. Ele deu partida e misturou-se resignado à massa de carros congestionados. Ela emudeceu as buzinas ouvindo sua música na bicicleta. Ele queria dois processos protocolados até o meio-dia e uma sequência de três ace na quadra de tênis à noite. Ela queria a notícia do pai de Gisela e um bom capuccino à tarde. Ele entrou no escritório, ligou o computador e coçou a testa. Ela chegou no consultório, vestiu o avental e estalou os dedos. Ele tamborilava teclas e ela organizava espátulas. Ele sacramentava resmas de papéis e ela vasculhava bocas. Parágrafo único do incisivo inferior lateral; bruxismo em desacordo com disposição legal; inventários ortodônticos.
Pausa para o almoço. Só um processo protocolado e Gisela ainda não chegou. Saem do escritório e do consultório, encontram-se na fila do restaurante por quilo. Ele deixa a pasta cair; ela apanha a pasta do chão e devolve a ele. Ele agradece e volta a decidir sobre o grão-de-bico. Ela verifica as unhas e pensa em adotar uma criança. Sentam em mesas separadas. Chove hoje à noite e chegarão tarde em casa.
André Mellagi, nascido em São Paulo, é formado em Psicologia, mestre e doutor em Psicologia Social pelo Instituto de Psicologia da USP. Participou de coletâneas de contos, tais como a primeira edição da revista Pulp Fiction do site Homo Literatus, além de publicar em blogs de literatura. Teve coletânea de contos que recebeu Menção Honrosa em 2014 no Programa Nascente da USP, e foi obra pré-selecionada ao Prêmio SESC de Literatura de 2016, a ser publicada pela editora Patuá em 2017.
Quando certa manhã, Ingrid acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseada em uma criatura que não mais enxergava.
Posso trocar Gregor Sansa por Ingrid, certo, Kafka? Posso trocar “inseto monstruoso”, que é um tanto dramático, por “criatura que não mais enxergava”? É isso a literatura, não? Vestir a pele do personagem, se colocar no lugar dele. Ou é Gregor Sansa que veste a minha pele nesse caso? Não sei. Enfim, eu nem precisava pedir autorização, é mais por uma questão de respeito, de consideração. Uma vez no mundo, a história não é mais do autor e cada um faz o que bem entender dela, não é? A premissa também vale para você, Camus.
Hoje, meus olhos morreram. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do meu corpo: “Seus olhos faleceram. Enterro amanhã. Sentidos pêsames”.
Desculpe lhe dizer, Kafka, mas Camus é mais musical que você. Tem mais ritmo. Flui melhor. Eu sei disso pela velocidade com que meus dedos percorrem os relevos, pelos lugares onde preciso parar ou não.
Vocês conseguem ouvir esse som? Sim? Não? O cânone é tão vaidoso. Sou capaz de apostar que ainda que não estejam ouvindo, não irão admitir. Por via das dúvidas, esclareço. Esse tilintar é meu bastão de Hoover sibilando pelos corredores da escola. É como as anteninhas de um inseto, Kafka, apesar de não haver nada de monstruoso nisso. Uma antena adivinhando o que vem pela frente, escaneando o mundo aos meus pés, detectando vibrações em alturas que vocês nem seriam capazes de imaginar.
Mas preciso admitir: no princípio era mesmo o verbo. Diante do breu perene, na condição de estrangeira em minha própria terra, me refugiei em vocês. Depois, quando conheci Tarso, as coisas tornaram-se um tanto menos soturnas. Não que algo em nosso entorno tenha mudado, mas é que já faz uma imensa diferença essa sensação de irmandade, uma cumplicidade tácita que se estabelece simplesmente pelo fato de saber que o outro está precisamente na mesma condição e enfrenta os mesmos problemas, especialmente quando se tem treze anos.
E agora, vocês ouvem? Preciso lhes dizer que essa polifonia às vezes atrapalha. Há momentos em que o silêncio é sine qua non. Estou tentando encontrar Tarso, uma tarefa árdua numa escola com mais de mil indivíduos existindo em toda a sua plenitude e com a máxima intensidade possível. Me desloco incrivelmente rápido, como se acima da minha cabeça houvesse um fio desencapado captando os pensamentos dele. Se vocês colaborarem, posso me concentrar especificamente nas batidas do coração. Vocês não sabem, mas cada coração bombeia sangue de uma maneira singular. Alguma coisa nesse abrir e fechar de válvulas, na forma como o músculo se contrai e relaxa. É como uma assinatura, por isso posso encontrá-lo em meio a uma legião de estímulos, mas é preciso um esforço tremendo. Às vezes parece apenas uma rádio fora de sintonia; estática; chiado; mas então me esforço, bloqueio todo o restante e consigo captá-lo novamente.
Eu e Tarso temos uma ideia recorrente. É bastante ousada e poderia colapsar toda a indústria do entretenimento. Imaginem um espetáculo musical completamente desprovido de qualquer artifício visual. Na entrada, cada um dos espectadores receberia uma máscara, dessas usadas para dormir. No princípio seria estranho. Sem dúvida, desconfortável. Mas tudo que importaria seriam os aspectos sonoros. Um despertar do ouvido, por assim dizer. Um golpe preciso contra a ditadura da estética visual. A indústria pop se debateria como um inseto que, com as patas para cima, não consegue se desvirar. Milhares de “artistas” cujo apelo se dá em grande parte por sua aparência, ruiriam. Estruturas imensas de telões e aparatos de luz e pirotecnia se tornariam sucata. As trocas de figurino perderiam completamente a razão de existir. Os gritos tresloucados de fãs diante de belezas arrebatadoras e efêmeras dariam lugar a um silencioso contemplar de uma paisagem sonora que vai se constituindo dentro de nós, camada por camada. Se houvesse relutantes, aos poucos, seríamos cada vez mais radicais, tirando-lhes a opção da escolha. Uma vez acomodados, apagaríamos todas as luzes. E mais tarde, talvez nem houvesse mais luzes a serem apagadas. Com o tempo, isso se tonaria maior. Cinemas cairiam em desuso, assim como a televisão. O rádio reviveria seu apogeu. Celulares voltariam a diminuir em suas dimensões, visto que não precisaríamos mais de telas enormes e brilhantes. A especialidade de oftalmologia desapareceria dos cursos de medicina. Fabricantes de óculos ou lentes de contato precisariam rever seu nicho de atuação. Utópico, eu sei. Ou melhor, distópico, não?
K. Dick, Huxley, Orwell, vocês estão por aí? Ouçam essa, vocês vão gostar.
Aos poucos, no início por imposição, mas depois pelo simples curso natural das coisas, confiando que Wallace e Darwin estavam certos, pouco a pouco nosso aparelho visual, cada vez menos utilizado, diminuiria de tamanho. Gradualmente, nas raras vezes em que fizéssemos uso dele, nossa visão se tornaria cada vez mais turva e nublada. Aos poucos, os fotorreceptores de nossas retinas se tornariam menos eficientes, levando informações cada vez mais precárias aos nervos ópticos. As células responsáveis por detectar intensidade luminosa morreriam sucessivamente. O córtex visual do cérebro começaria a falhar, minando nossa capacidade de perceber de maneira eficiente profundidade e distância. Bateríamos em objetos que julgássemos estarem mais longe; nossas mãos passariam ao largo de coisas que desejássemos segurar; daríamos passos em falso e dirigir se tornaria impraticável. Esclera, coroide e retina, paulatinamente, se aglutinariam, tornando-se uma coisa só para depois converter-se em um apêndice sem uso e, finalmente, deixar de existir.
Mas esperem, silêncio, por favor. Perdi Tarso outra vez. É engraçado, mas há todo um universo magneto-fantasmagórico que nos afeta mais do que vocês podem supor. São tantas ondas de tantas naturezas nos atravessando que às vezes somos bússolas desmagnetizadas momentaneamente, sem rumo, sem referência de onde está nosso norte verdadeiro. Mensagens, tevê, rádio, wi-fi, ligações, infravermelho, bluetooth, eletricidade, medo, ansiedade, ódio. Não se enganem, está tudo por aí, no ar. Dá pra sentir. Dá pra medir. Mas já devo estar mais perto de Tarso, consigo sentir seu perfume.
Seguindo em nosso pequeno projeto de seleção natural e evolução da espécie, a diminuição do aparelho visual abriria espaço para que outros o ocupassem. Nosso sistema olfativo, por exemplo, se tornaria maior e, assim, muito mais eficaz. Com mais área de contato, os axônios das células olfativas poderiam captar mais partículas. E com células receptoras mais poderosas, uma quantidade maior de sinais elétricos seria enviada aos glomérulos, estimulando com maior intensidade nossos bulbos olfatórios, local em que os impulsos nervosos atingem o córtex cerebral e onde a excitação nervosa é, finalmente, transformada nisso a que chamamos de cheiro. Talvez, para os padrões contemporâneos de beleza, não fossemos considerados os mais belos seres humanos. É provável que tivéssemos orelhas e narizes bem maiores do que os que costumamos ter hoje. Entretanto, lembrem-se, que diferença faria já que não enxergaríamos mais? E aqui começa a beleza dessa hipótese: o valor das coisas por suas funções e capacidades e não por sua aparência. Nossa audição, prosseguindo, seria espetacular. Orelhas maiores implicariam em mais ondas sonoras fazendo os tímpanos vibrarem e impactando o ouvido interno, onde estas ondas transformam-se em impulsos nervosos que são transmitidos ao cérebro pelo nervo auditivo. Não quero me alongar nos pormenores técnicos, mas vocês são capazes de vislumbrar as possibilidades? Não seriam essas capacidades invejáveis a um escritor, visto que o que fazem é justamente transmutar estímulos em histórias?
Essa escola é minha Galápagos. Esse ônibus escolar que tomo todos os dias é meu HMS Beagle. Eu deslizo por esses corredores, saguões e reentrâncias captando ecos de um passado remoto. Sinto cheiros, amores e dessabores. Lapido minha capacidade de inferência deduzindo o presente através do que veio antes dele. Entre tartarugas gigantes, tentilhões e adolescentes, eu decifro a vida e as espécies. Sou uma mutante, o próprio vislumbre do futuro, uma antecipação do que vocês podem vir a ser.
E agora já ouço com distinção o átrio direito de Tarso em plena atividade. Agora o esquerdo. Sinto seu perfume almiscarado. Vocês sabiam que antes do almíscar sintético, descoberto em 1888, a essência de almíscar era obtida através de uma glândula existente no cervo-almiscarado, que era morto para que dele pudesse ser extraída a matéria prima para o perfume? Ou ainda, vocês sabiam que a palavra almíscar vem do persa mushk, que significa testículo? Claro que vocês sabem, são escritores, entendedores de toda a etimologia que nos precede como linguagem. Enfim, esqueçam minhas digressões. O fato é que por alguma razão Tarso gosta de usar um perfume almiscarado que eu sou capaz de reconhecer de longe. E conforme avanço, a soma desses fragmentos vai constituindo um Tarso que só eu conheço. O timbre da voz, os odores, o farfalhar único que o ventrículo esquerdo faz ao atritar com a aorta descendente. E na iminência desse encontro, eu já antecipo o toque, quando eu tomo minhas mãos nas dele. Gosto de passar os dedos delicadamente, subindo pelos braços antes de chegar aos ombros e depois ao rosto. No caminho, as pequenas cicatrizes são histórias em braile de uma infância destemida e célere. A queda de cima da árvore no quintal nos fundos da casa, uma bombinha apressada que estourara antes da hora, uma queda de bicicleta na rampa construída coletivamente com os outros meninos do bairro. Nessas horas meus dedos são como a agulha de um disco rígido procurando por informação, impulsos elétricos esperando para serem convertidos em crônicas registradas naquele corpo tênue de treze anos.
Finalmente o encontro. Está na sala de música. Reconheço o ciciar dos dedos ásperos contra as cordas graves do baixo. Ninguém toca como ele. Nesse momento, ou muito antes, minhas polifonias já estão em pleno diálogo com as de Tarso. Meu cânone literário em calorosos debates com seu panteão de grandes jazzistas. Aliterações, digressões e figuras de linguagem em abraços lânguidos com formas sincopadas, polirritmias e improvisações. Somos Miles Hemingway, Franz Coltrane e Charlie Cortázar. Somos Truman Gillespie, Nina Lispector e Dizzy Rubião. Todo nosso amor é uma blue note, dissonante. E em meio a tudo e a todos, eu apenas paro e o sinto. Sei que ele sabe. Num êxtase contemplativo, que está muito além do que apenas ouvir, sinto ele tocar por toda a duração do intervalo de tempo de sua aula. Me aproprio da música que ele faz, seja com o baixo ou com a sua existência, reverberando em lugares que eu quase duvido existirem dentro de mim. Vibramos na mesma altura. E por hora, isso me basta.
André Timm é gaúcho, de Porto Alegre, radicado em Santa Catarina. “Insônia” (Design Editora, 2011), seu livro de estreia, foi Menção Honrosa no Prêmio SESC de Literatura. “Modos inacabados de morrer”, seu primeiro romance, foi o vencedor da Maratona Literária da editora Oito e Meio na categoria prosa. Mantém o site 2 mil toques, projeto autoral em que convida escritores a compartilharem suas rotinas e processos ligados à produção literária.
Tinha tão pouca energia que pensei até em apanhar o autocarro para percorrer a ridícula distância de seiscentos metros entre o posto de saúde e a farmácia. A farmácia ocupa boa parte de um quarteirão e vende tudo e mais alguma coisa que ocupe o espectro de produtos e serviços entre os cosméticos, a morfina, e a impressão de fotografias. Enquanto esperava na fila, ela deu-me uma pancadinha no ombro. Por aqui? Estás bem? Explico-lhe que hoje sou uma personagem num filme de Woody Allen, nada está bem e tudo me aflige: uma gripe, um abcesso num dente, uma alergia em redor da boca que me anestesia o queixo. Paramos de falar porque me chamam para ir levantar a receita. Ela desaparece entre as sucessivas estantes de produtos enquanto eu espero e respiro de alívio. Penso de imediato em adoptar o meu subterfúgio típico, desaparecer sem me fazer notar. Entendo ser esta uma das manifestações mais naturais da minha misantropia, com a vantagem de ser ambígua o suficiente para não permitir que o visado alguma vez se sinta inteiramente ofendido. Mas assim que me aproximo da promessa de luz das escadas rolantes, ela emerge sinistramente do quarteirão dos comprimidos de alergias. O que é que se está a passar ao certo contigo, é o que ela quer saber. Exactamente como num filme de Woody Allen, isso eu só vou saber quando a acção chegar ao fim. Tenho dificuldade em explicar isto a pessoas pragmáticas como ela, mas o inteiro significado de certas coisas que tenho vivido tende a levar um longo tempo até acertar contas comigo e o facto de que ultimamente não tenho escrito nada só adensa essa falta de percepção. Claro que o que ela quer saber é o que eu tenho escrito ultimamente e onde tenho publicado e eu vai para um ano e meio que nada, nem uma linha, bem, há os poemas, mas eu nunca consegui arrumar isso muito bem na categoria de escrever, e, de resto, ninguém quer ouvir falar desses textos e é muito raro eu discuti-los com alguém. Enquanto trocamos inanidades eu noto que ela perdeu peso, noto que quando a conheci há dois anos num curso organizado noutro país, quando passámos duas semanas sentadas na mesma sala de aulas e a correr de teatro em teatro e de bar em bar e eu a vi brincar no mar como uma criança, ela não era bem esta pessoa aqui à minha frente. Ela deve estar agora na segunda metade dos vinte, vinte cinco ou vinte seis anos, e temos em comum o termos, entretanto mudado de óculos, noto que na Grécia ela falava inglês com sotaque americano e que aqui fala inglês com sotaque britânico, com um resíduo levíssimo de um sotaque que ninguém poderia associar ao italiano original, enquanto eu, um pouco numa corruptela de algo que Eça escreveu, faço sempre questão de que o meu sotaque se note, mesmo que as inflexões da prosódia do inglês britânico me sejam agora mais do que exaustivamente familiares. Mas o meu objectivo não é confundir-me com a paisagem ou erodir a minha própria estranheza ou tentar camuflar o facto do meu estatuto estrangeiro. Daqui a dez minutos, quando eu e ela nos sentarmos no café, o sotaque dela vai vir ao de cima uma vez e apenas uma vez, ao tentar pronunciar a complicada palavra xenophobia, um desafio prosódico à altura desta mulher despachada e inteligente por quem, não sentindo verdadeiramente simpatia, não consigo deixar de sentir empatia, e não é só por causa do que escreveu Sebald em Emigrantes, que os emigrantes naturalmente se aproximam uns dos outros. Isto para dizer que sigo alimentando as minhas próprias contradições, que depois de começarmos a conversar na farmácia eu não consegui não a convidar para beber um café, apesar da febre e do cansaço. Ela aceita imediatamente a minha proposta com entusiasmo, enquanto penso que é errado estar aqui a ter uma conversa, num dia em que não fui trabalhar por me sentir doente e esta jovem mulher que me é familiar sem nunca deixar de me ser estranha me explica que desde a última vez que falámos se casou, mas que o marido, entretanto voltou para Itália, para entregar a tese de doutoramento e, porque, claro, não conseguia arranjar trabalho aqui. Este café em St. Michael Street há-de ser o mesmo há quarenta anos. Recordo-me de que, ao contrário da amizade que quase de imediato me ligou a algumas pessoas naquele curso, nunca me consegui sentir verdadeiramente próxima dela, e penso que provavelmente nunca nos tornaremos amigas em parte por causa da catástrofe da minha personalidade, em parte porque há nela uma imaturidade profundamente simpática que adensa a minha impaciência, que me deixa ver um pouco do meu próprio desdém, e ao mesmo tempo, da minha resistência, na atenção com que discutimos a actual conjuntura política, a incerteza do futuro, até mesmo o reconhecimento de que há semanas que não me era tão fácil ter uma conversa inteligente com alguém, sem, no entanto, ser capaz de me iludir a mim própria e vir agora aqui apontar cobardemente, diariozinho, que nada disto é da ordem da amizade fraternal, perto do perfeito arquétipo platónico da coisa real, onde está bem vivo o tipo de diálogo pelo qual até a mais estúpida conjuntura política que tem animado este país no último ano se podia corrigir.
Tatiana Faia. Portugal (1986). Vive e trabalha em Oxford. É doutorada em Literatura Grega Antiga com uma tese sobre a Ilíada de Homero (Back Across the Barrier of the Teeth. Studies on Homeric Characters: The Iliad). É autora de dois livros de poemas: Lugano (2011) e teatro de rua (2013). Os seus contos, ensaios, poemas e traduções podem ser lidos, entre outros lugares, em A Sul de Nenhum Norte, Ítaca, Caderno: Enfermaria 6, Modo de Usar & Co., Colóquio/Letras e Relâmpago.
Cláudio chega arrastando os olhos pelo chão. Sequer quando abre a porta do restaurante eles se opõem à gravidade. Carrega sobre as pálpebras anos de frustração. Na língua, as palavras deitadas pela covardia conferem um sabor sórdido às possibilidades não cultivadas. Por que demorei tanto? Ele precisa de uma resposta para alvejar a boca. Porém, as respostas claras não existem na natureza, são construídas por mentes que necessitam de algo estável. O acre da boca se intensifica quando pensa que a estabilidade da ponte entre Clarice e ele era apenas aparente. Por não atravessá-la com frequência, só via a regularidade do pavimento; não percebia a estrutura se corroendo sob os gestos e sorrisos complacentes.
Os primeiros tempos de casamento não deixaram a expectativa acima dos fatos. Mas não demorou muito, as cores começaram a desbotar e, quando ele tentou colorir o relacionamento, faltaram-lhe os dotes de artista. Fez um borrão que foi se extenuando até restar uma camada praticamente imperceptível que, de certo modo, sustentou o laço fraterno entre eles. Era avesso a traições, respeitava Clarice. E estava seguro da reciprocidade desse sentimento. Só não foi capaz de sentir que para o amor sobreviver é preciso uma dose mínima de desrespeito.
Quinta-feira, como se cumprisse uma obrigação herdada, ele estava sobre a esposa. Copiaria os mesmos movimentos das semanas anteriores se não sentisse o peito umedecer e ouvisse a voz entrecortada, o que estamos fazendo, Cláudio? Ele também começou a chorar. Os dois rostos se colaram e misturaram-se as lágrimas de anos. Na manhã seguinte, ele não acordou em sua cama. Antes de sair, insistiu para que se encontrassem dali a uma semana, onde tudo começou. Com um gesto emprestado, Clarice moveu lentamente a cabeça para cima e para baixo.
Cláudio sabe onde a esposa está sentada. No entanto não é por isso que não ergue os olhos; é porque sente medo de vê-la segura, asco de encontrá-la sustentada por si. Em verdade, sente-se como o suicida minutos antes de apertar o gatilho. A iminência da perda, mesmo daquilo que ele acredita abdicar, faz transbordar no peito uma sensação escura, espalhando o instinto de conservação por todo o organismo: as mãos estão molhadas, a boca seca, as orelhas quentes e os calafrios sobem e descem pela coluna.
Quando, enfim, levanta a cabeça, as narinas se expandem. Com o vestido florido, Clarice parece costurada ao ambiente, criação de um artífice desatento que colocara naquele salão sombrio uma escultura delicada. Os olhos dela escondem-se e mostram-se conforme o vento tira para dançar a mecha de cabelos cor de mel. A pele branca, que não se curvou ao tempo, exala maciez e um sabor de futuro chega aos lábios do homem. Clarice não parece a mulher que na semana anterior repugnara-o na cama, mas a menina que estivera sentada ali dezessete anos antes.
Talvez por isso as pernas de Cláudio não se entendam entre si. Há somente cinco mesas ocupadas, contudo é como se o restaurante estivesse cheio de olhos voltados para ele. O homem não está preparado para conversar com uma menina, muito menos com a sua menina.
A cada passo, Cláudio tenta pinçar os fatos que poderiam salvar o relacionamento; refaz o percurso até chegar à tarde de primavera em que vira Clarice pela primeira vez, naquela mesma mesa. Mas não consegue preencher os pensamentos e o vazio é invadido por um homem que acaricia as mãos da sua esposa. Um homem que olha nos olhos dela e para quem Clarice consegue sorrir com algo mais do que a boca. Cláudio agita as mãos como a criança que se recusa a compartilhar o brinquedo que desaprendera a usar. Clarice é minha. Só minha, ouviu bem?
A ideia da esposa com outro o carrega para o banheiro. O que devo dizer? O discurso ensaiado não parece verossímil. Molha a testa como se pudesse inchar os pensamentos com persuasão, entretanto, diferentemente dos seus anseios, a água traz a imagem de um velho nu, deitado em posição fetal no centro da cama redonda. Só há a cama branca no quarto enorme. Ele invoca o nome de Clarice, atravessa as madrugadas por gritá-la até as costelas engolirem o abdômen, mas só ouve o eco da própria voz. Entra no banheiro um senhor que cumprimenta Cláudio com um movimento de cabeça. Ele retribui o sinal. O velho começa a gesticular, emitir grunhidos e apontar para a saída. Cláudio se desespera, foge do mudo e encosta sem ar na porta. Porém, não pode escapar da certeza de que nada do que falar para Clarice mudará o que está decidido. Uma decisão que vem sendo enrijecida ao longo dos últimos anos e que palavra alguma terá o poder de perfurar. É tarde demais: a aproximação da verdade traz o negrume aos seus olhos.
Como se chegasse ao matadouro, Cláudio se aproxima da mesa. Adormecida dentro de si, Clarice continua girando o canudo enfiado no suco de morango não sorvido, mesmo enquanto ele se senta. Um silêncio rígido perdura por longos segundos até que ele pede uma cerveja ao garçom, que prontamente o atende. A cerveja desce agarrada à garganta como se não quisesse fazer parte daquele corpo vencido. Os olhos de Cláudio percorrem o restaurante: o que vê não se assemelha ao conteúdo entalhado na memória. Tudo agora é áspero demais, esnobe demais. Ele, então, fixa a vista em Clarice como se desejasse prender aquele instante na superfície dos olhos, ciente que nunca mais ele seria seu. Procura em si palavras não nascidas, revira o vocabulário, mas nada de substancial desce à língua.
– As paredes não eram assim tão escuras…
– Acho que não.
Trocam ainda umas frases sem tonalidade. Cláudio se dá conta do que Clarice sabia antes de se sentar ali: as palavras são desnecessárias nos velórios. Ainda mais nos velórios tardios.
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Condenado à liberdade
“Terei que correr o sagrado risco do acaso. E substituirei o destino pela probabilidade.”
(Clarice Lispector, A paixão segundo GH)
Estou aqui há oito dias e alguns meses. Quantos meses? Não sei ao certo. Até a semana passada o calendário não passava de mais uma invenção vencida. O que sei é que estou nesta cela há tempo insuficiente. Está me ouvindo, Pagu? Parece mais peluda hoje, as patas maiores. Patas peludas e firmes, feitas para caminhar pelo teto, de onde você me vê como sou e não como parecia ser. Antes de me atirarem neste cubículo eu estava pronto, homem modelar. Sabia o que tinha que fazer. E fazia. E refazia. Usava o livre-arbítrio para alcançar a verdade que esperavam de um homem alto, 38 anos, cabelos grisalhos, chefe de família, empresário. Eu era. Até me enfiarem aqui. Só que eles se enganaram, Pagu. Todos eles. Ao me isolarem na solitária, não me privaram da liberdade. Privaram-me do que acreditam ser a liberdade, no que igualmente eu acreditava. Mas foi só aqui que conheci a verdadeira face da liberdade meses atrás: a chuva lavava os telhados; embora a cela estivesse tomada pelo hálito da penumbra, da minha cama vi a gota reluzindo no teto: as lágrimas começaram a desabrochar da alta fenda e despedaçaram-se no chão. Comecei também a chorar. Não somente porque fora educado a repetir, desta vez era diferente. O pranto, sem o soluço da dor, acordou o sorriso que há tempos não visitava meu rosto. A goteira ficou espessa, eu precisava entrar naquela torrente. Arranquei o macacão encardido, as meias, a cueca e corri para misturar minhas lágrimas com as do teto. E da água, antes translúcida, brotou uma espécie de corrente, mas cujo desenho, já não mais aquoso, foi aos poucos tomando a forma de… uma mulher! E como era maravilhosa. Linda o suficiente para um encantamento que me afogou numa emoção sem precedentes. Uma mulher de olhos ruivos. Quem é você? Sem dizer uma palavra, ela puxou minha pele, que facilmente se descolou da carne, feito estas paredes que você conhece tão bem. Depois, os músculos e os órgãos dissolveram-se com seu sopro: em instantes, eu era duas retinas suspensas e um coração pululando. Você não viu isso, não é mesmo? Acho que sequer era nascida. Pela primeira vez na vida eu era imperfeito. Incompleto. A partir deste banho, virei o avesso de Deus, um ser ébrio e imberbe, sem natureza (nem divina, nem humana), que não passa de criação! Lá fora, eu fora criado, avental e touca, servindo diariamente pedaços da minha vida ao destino. Ele comia, se lambuzava e, quando se dava por satisfeito, atirava os restos dentro de moldes construídos pelos Guardiões da Esperança. Só que aqui, Pagu, neste retângulo de seis metros quadrados, aprendi, como você, a arrancar do meu peito o fio sobre o qual eu passeio sem sair de mim. Mas terei que sair daqui a pouco. É o que diz na carta que o carcereiro me entregou semana passada. Envelope ocre, papel timbrado com as iniciais do doutor que conhece as vísceras da lei: “Ilmo. senhor Pedro, o pedido de soltura foi deferido; o senhor sairá em oito dias”. Eu contratei esse advogado? Para quê? Sua eficiência arremessou meu avesso à boca do desespero: à medida que os novos dias engoliam os velhos, o temor escorria do peito aos membros: as pernas estrangeiras do corpo, os braços rigidamente esticados ao longo do tronco. A lembrança de antes da solitária deixava meu futuro anestesiado. Não, não posso mais voltar a ser como aqueles senhores que caminham ao lado da vida; não suporto mais vestir a máscara que cada situação suplica; não quero mais enfiar meus sentimentos num saco sujo. Jamais imaginei que poderia arrancar as boias que me prendiam à minha superfície. Aliás, nunca cogitei a existência dessas boias. Foi somente aqui que me tornei um abismo negro, úmido e cálido por onde caio sem eriçar os pelos e, em cada centímetro, encontro os andaimes frouxos, as entranhas e as arestas que não quero mais aparar. Antes de os homens fardados me buscarem em casa naquela manhã ensolarada, eu percorria, de cabeça erguida, um caminho marcado com tinta indelével; por isso não enxergava o traçado. Aqui aprendi a dançar sobre a minha história que escrevo a lápis em páginas sem pautas, dançarino surdo carregado pelo ritmo da respiração. Aqui consegui ouvir a vida gritando em meus pulsos, consegui apanhar a eternidade em cada átimo e soltá-la para que tudo não passe de possibilidades. É, Pagu, o mundo é pequeno demais; eu só caibo nesta cela. Porém, desde que recebi aquele papel pálido, o cheiro inebriante que irrompia dos meus poros não frequenta mais minhas narinas. Naquele momento comecei a registrar os dias na pele com a ponta do canivete. Não me olhe assim. Coagido pela lei, tive que aguardar a oitava manhã e ela nasceu chorando como se compartilhasse com o meu espírito o estado agônico de quem está prestes a ser aprisionado. Ouço os passos do carcereiro marcados pelo balançar das chaves, ele está vindo abrir a cela, provavelmente com os dentes à mostra. O que farei? Permanecerei abraçado às grades implorando que me deixe aqui? Gritarei, Excelentíssimo senhor Juiz, eu me declaro culpado, sou uma ameaça à sociedade? Subornarei o diretor da cadeia? Não, nada disso funcionará. Irei, mas nem vou me despedir de você, porque darei um jeito de voltar ainda hoje. Ainda hoje.
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Sentido
Se eu fosse uma árvore entre as árvores, gato entre os animais, a vida teria um sentido.
(Albert Camus, O Mito de Sísifo)
Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada.
(Clarice Lispector, Água viva)
Então vai buscar um sentido pra tua vida. Vai e me deixa com meus livros incompletos e meu mundo sem parapeitos. Com meus pedaços de presente que são, ao menos, mais intensos que o teu futuro cintilante. Não tenho a pretensão de unidade, querida. Há tempos a ilusão não me lança os olhos. Eu te admiro muito, fica sabendo. Iludir-se é uma dádiva. É preciso muita coragem pra desviar assim dos fatos. Mas agarrar-se à maior lasca de madeira quando se sabe que o resgate não chegará a tempo, não faz de ti um ser sagaz. Sabes por quê? Porque tu jamais te perguntas sobre a necessidade do resgate. E eu, Samanta, não preciso ser salvo. Prefiro nadar até perder as forças.
Não quero escrever “pai” com letra maiúscula somente pra me sentir protegido. Não quero levantar a cabeça pra desviar a vista das vicissitudes da terra. Contemplar as próprias vísceras é demais pro teu estômago frágil, não é? Porém o remédio que tomas pra esvanecer a vida apenas disfarça a doença que se alastra sob a tua pele. Nunca percebeste que no dia seguinte à festa, se aceita melhor em frente ao espelho aquele que não carregou a cara de tinta? Não há como esconder o tempo, amor. Mas tu insistes em pedir silêncio às engrenagens da vida. Insistes em colocar um pedaço de felicidade na ponta da vara amarrada às costas. Onde tu queres chegar, Frederico, tu esbravejas com a boca branca. Eu te devolvo uma pergunta que fica flutuando, sem força pra atingir teus tímpanos: existe esse “onde”?
Não há nada mais difícil que convencer alguém sobre o óbvio. A imagem é tão grande à frente dos olhos que fica indiscernível; é como o peixe que jamais se dá conta de que cumpre sua sina no oceano. O que te separa de uma prostituta? As duas se entregam em troca de conforto e segurança. A diferença é que travestiram tua atividade de decência. Tu és necessária à ordem. És necessária pra manutenção do que deve ser mantido. Mas há tantas janelas, Samanta! Por que abrir apenas uma e se conformar com a penumbra? Pra que construir apartamentos quando se pode comprar um balão por bem menos?
Vou te confessar uma coisa: não é saudável engolir as lágrimas pra transmitir serenidade. Não é saudável dormir às onze horas e acordar às sete ainda com a rodela de pepino sobre os olhos. Não é saudável usar roupa social no verão. O que há de natural em rir de uma piada de mau gosto só porque o chefe a contara?
Com o mundo sobre as costas, tu te conformas com o alívio de tirar o sapato ao fim do dia. Não te passa pela cabeça que possa ter algo de sensato em eu não querer usar sapatos apertados? Que eu prefira dançar a correr? Pois, sim, prefiro dançar descalço em círculos até as pernas pedirem pausa. Dançar por dançar, tu perguntarias. E eu, sem vontade na voz, responderia: vai procurar o teu sentido.
Matheus Arcaro é professor de Filosofia, artista plástico e, principalmente, escritor. Tem dois livros publicados: um de contos, “Violeta velha e outras flores” (Patuá, 2014), e o romance “O lado imóvel do tempo” (Patuá, 2016). Tem textos publicados nos sites Mallarmargens e Germina, além de ser colunista dos portais Língua de Trapo, Educa Dois e LiteraturaBr.
acordei vestida no meu próprio corpo. faz tempo não acontecia havia outra habitando a minha pele. despertei com os primeiros feixes de luz ela não estava lá. braços e pernas estirados um tecido elástico sem fecho ecler. reconhecia os movimentos a alegria de ser a proprietária de algo sem valor. um fruto e sua casca. ela viria ainda chegaria com a noite impregnada daquilo que em mim não era meu. roubaria minha pele seus trapos. eu tentaria não partir.
6 de maio
Cena 15. No banheiro. Impressões.
ninguém melhor do que um assassino para exibir um estilo floreado. gosto dessa tradução. aquilo me fascinava. you can always count on a murderer for a fancy prose style. é possível citar outras soluções: pode-se sempre esperar, num criminoso, uma prosa de estilo extravagante. ou ainda: sempre se pode contar com um homicida para uma prosa de estilo rebuscado. sutilezas na variação. qual seria a diferença entre assassino e homicida? ela também apreciava. para a vida do crime só lhe faltava uma pistola. não existe homicídio sem cadáver ela dizia. e não sei atirar. é claro que ninguém percebia. as trepadeiras se alastravam pela sacada tudo parecia muito natural. no início de abril eu adoeci. inflamação na garganta. a febre me deixou de cama por vários dias. ela passou a cozinhar cuidar da casa. não podia controlar sua presença. certa manhã depois da faxina deixou aberto o registro da banheira. a água escorreu por horas formou uma poça enorme no chão. a lua violenta entrava pela janela estraçalhava o vidro. pisei ali sem querer. distraída.
9 de março
Cena 5. Às 08:30.
coloquei o despertador pras 6:00 e acordei às 8:30. acontece de vez em quando. também pudera. chovia canivetes. são 8:30 de uma sexta-feira. abri os olhos. a gata estava na cama. chamava-se lolita. foi aí que ela disparou: vovô era americano. não sei o que ele foi fazer na itália durante a guerra. dirigia uma ambulância. era estrangeiro. apaixonou-se por uma enfermeira da cruz vermelha. não sei o que ele foi fazer na itália. entregou seu sangue a pele e os cabelos o coração e os rins. foi durante a guerra. sorte ter se apaixonado. talvez não. uma história triste. durante a guerra. o amor não dá conta. chovia canivetes. ela morreu de parto estava com medo. não sei o que ele foi fazer na itália. ninguém sabia. ali entre bombas obuses granadas. ela morreu de parto na suíça. estava com medo. a chuva não cessava.
Izabela Leal é poeta, ensaísta e professora de literatura portuguesa. Nasceu no Rio de Janeiro. Tem poemas publicados em diversas revistas literárias e em antologias editadas no Brasil, México e Espanha. Participa do núcleo editorial da revista literária “Polichinello”. Recebeu o Prêmio Rio de Literatura pelo livro “A intrusa” (2016). Produziu, em parceria com Galvanda Galvão, as videoartes “Nam Sibyllam” (2016), “Transluciferação” (2016) e “Entre o anjo e o polichinelo” (2017). Atualmente reside em Belém.
Era uma vez ela —, uma amiga no facebook. Ela era amiga de uma amiga minha e me pediu amizade. Cliquei. Registrou-se com o nome de Megami de Aiedi Timaeus. Não sei se esse foi o seu nome verdadeiro, desconfio que não, por ser muito estranho e porque muitas pessoas se registram com nome fantasia mesclado ao verdadeiro. Fomos amigas durante uns quatro anos. Ela postava fotos da família, dos amigos, das viagens, esboços do que pensava sobre determinado acontecimento, vídeos engraçados, dizeres sobre sabedoria de vida. Soube que foi ao show do Caetano e lá encontrou o ex-namorado (foto dela sorrindo ao lado de um rapaz sorrindo), começou a trabalhar em uma instituição cultural, depois de dois anos mudou de emprego, era secretária executiva em um banco, fez uma viagem a Roma e subiu a escadaria na Praça da Espanha (no anexo, mais 31 fotos que eu não abri), desmanchou o namoro com o namorado porque conheceu alguém mais interessante no jantar da empresa (soube através de um comentário maldoso de uma amiga dela), casou-se com ele (fotos dela vestida de branco, segurando um buquê de orquídeas, o marido ao lado, homem bem apessoado, moreno, estatura mediana, de óculos e mais 95 fotos que eu não abri, e um vídeo no qual assisti os primeiros momentos em que ela entrava na igreja e dava o braço para o noivo), e passou a lua de mel em Buenos Aires (ela tomando café no Tortoni, em frente à fachada colorida de uma casa no La Boca, passeando na orla do Puerto Madero, comendo churrasco, tomando vinho e mais 46 fotos que eu não abri). Outros detalhes de sua vida eu soube, acompanhei algumas fotos: por do sol na praia de Santos, gato em cima do sofá, receitas de tortas de palmito, pudim de milho, tapioca, almoços ou jantares com a família, com amigos, caminhada na praia do Balneário de Camboriú, nova sandália de salto, dicas de restaurantes, de como se alimentar bem, receitas para dietas, vídeos de cachorros, de gatos, de papagaios, de tucanos, de bebês fazendo graça, de cidades estrangeiras, de lição de vida… e alguns comentários no facebook.
De repente, no meio de várias postagens que eu recebo, vejo com espanto uma foto dela in memoriam. Não sei como ela morreu, não sei por qual destas fatalidades repentinas ela foi acometida, se foi de câncer, acidente, aneurisma… Tinha trinta e quatro anos. Na foto ela possuía um sorriso sereno e o reflexo do sol banhava sua face, ao lado o cacho de uma orquídea rosa vergava-se do vaso suspenso na parede de cor ocra. Imaginei ser a varanda de uma casa no campo. Ela não era bela nem feia, possuía um rosto comum, ovalado, os cabelos escuros meio ondulados, compridos até os ombros, a pele clara, as bochechas um pouco salientes, os olhos pequenos e escuros, os lábios finos. E cliquei. Nunca nos encontramos, nunca troquei mensagens com ela no inbox. Cliquei em uma foto ou outra, em um vídeo ou outro, em um comentário ou outro. Na imagem in memoriam a família e amigos expressavam condolências. Postei as minhas e antes que surgissem fotos dela, recapitulando a sua vida, eu a excluí do meu grupo. Afinal não era meu parente ou uma amiga íntima!
Por que acompanhei a sua vida? O que estes detalhes da vida de um desconhecido têm a ver com a minha? Para que serve esta enxurrada de detalhes da vida alheia?
Sempre procuramos saber da vida alheia, por mais que nos convençamos que não nos interessa. Não é bem assim, fora da nossa vida tudo faz parte da vida alheia, os filmes que assistimos, os livros que lemos, as pessoas que encontramos. Além da nossa vida, vivemos a vida alheia inconscientemente, apreendemos a realidade do outro de forma indireta e a integramos em nossa vida, em nossas opiniões, em nossas preferências, em nossa visão de mundo. Precisamos do outro, embora sejamos egoístas e egocêntricos. Mas sem o outro não temos como ser egoístas. Sem o outro estaríamos pensando no outro o tempo todo. Com o outro pensamos no que somos, nos definimos através do outro. No entanto, meu contato com ela não foi do tipo que proporcionasse esta característica. Hoje em dia não buscamos esta característica, temos preguiça de nos conhecermos e conhecer o outro e nos falta tempo. A amizade virtual permanece na superfície e no nunca conhecer o outro como ele é na vida real. Ela foi um punhado de imagens, frases sucintas e opiniões, vídeos, digitalizados e esporádicos, efêmeros como em um livro de enredo fragmentado, temas mesclados e incompletos —, um livro mal lido e emprestado que você esquece de não ter recebido de volta.
E sigo minha vida clicando.
Viviane de Santana Paulo (São Paulo), poeta, tradutora e ensaísta, é autora dos livros, Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Participa das antologias Roteiro de Poesia Brasileira – Poetas da década de 2000 (Global Editora, São Paulo, 2009) e da Antología de poesía brasileña (Huerga Y Fierro, Madri, 2007). Publica poemas em diversos jornais e revistas. Vive em Berlim.
6h07 e o calor da manhã sorri irônico da tarde que virá tostada numa frigideira de asfalto.
Essa completa ausência de brisa fotografa o que poderia ser um álbum familiar da década de 30, pai sentado, mãe empertigada com a mão sobre o ombro do patriarca, três filhos em pé ao redor aguardando nervosos o estrondo e o cheiro de pólvora da câmera primitiva que lascará uma parte de suas almas infantis, exatamente como confidenciou o tio Sérgio entre sussurros no almoço passado, quando soube do retrato parental.
ental.
6h22, daqui três minutos o Sr. Maurício do pet-shop destrancará a porta da frente e sairá para comprar o pão matinal.
Não, ele não se atrasa, é neurótico como eu, o hábito funciona, é a batida sintomática de uma estaca, a parte final do longa metragem em que o casal acaba junto, mas se separam assim que termina os 96 minutos de filme, tenho certeza.
6h26, é provável que o Sr. Maurício do pet-shop tenha tido um enfarte enquanto descia as escadas, talvez esteja agora mesmo agonizando numa tentativa ridícula de chamar a esposa que só acorda às 10h04 por conta dos 6 mg de rivotril.
Posso ver daqui aquela mão estufada, dedos cilíndricos usando os últimos minutos de uma medíocre existência para abrir a maçaneta do portão da garagem e o suor faz deslizar, deslizar, e os nervos frágeis não permitem que a mão feche, segure, mantenha.
Quem sabe não está arrependido, “por que não cortei a gordura da picanha?” “por que a cerveja todo dia e não só nos finais de semana?” “arroz na banha de porco”.
Foi tarde, é sempre tarde para soltar a mordaça do cotidiano, gritar o próprio nome não escolhido nunca.
6h40 e é o tédio.
Não, Baudelaire e seus párias não sabem o que é o tédio, só conheceram a melancolia. O tédio foi anunciado no XIX, mas demorou 153 anos para ser parido.
A maioria é preguiçosa e só.
Nem melancólica, nem entediada.
Tédio? É preguiça fermentada, envelhecida em barril de carvalho, ausência de ausências, o verdadeiro contentamento imóvel, homens
6h45, olha lá, é o Sr. Maurício do pet-shop, atrasado para o pão matinal. Hoje o dia começou incomum, fora de esquadro.
Esse tom sépia da tua pele não engana, são os ventrículos pedindo ajuda, a icterícia do fígado estampada no andar desritmado.
feito pedras por debaixo de lagos pausados.
7h00, não foi hoje, mas tudo bem.
Eu aguardo.
Caio Russo é escritor, melômano, estranho como as imagens num desenho de Alfred Kubin. Autor dos livros “Delicado desespero de beija-flor em voo” (Chiado, 2015), “Vaga queda” (Benfazeja, 2016).
A primeira vez na cozinha comendo biscoito enquanto a minha mãe preparava o jantar não havia nada de diferente de outras cozinhas ou de outras mães que preparam o jantar enquanto o filho come biscoitos, sentado à mesa, na cozinha. A cozinha tinha armários, potes de conserva, fogão, geladeira, mesa e quatro cadeiras. Não tinha nada de diferente de uma cozinha em que se senta para lanchar, conversar, almoçar, cear e jantar como todas as demais cozinhas em todo o mundo.
A minha mãe não parecia diferente de qualquer outra mãe que prepara o jantar para a família: o avental, o cabelo com uma rede, os sapatos de solado rasteiro, os olhos atentos às instruções dos manuais de receita, o fogão aceso com as panelas brilhantes, a pia com louça para ser lavada, o santinho no caramanchão da parede sobre a porta, o rádio tagarelando incompreensivelmente e eu sentado, comendo biscoito na lata de alumínio amassada, herdada de minha avó como todas as outras latas herdadas de antepassados por todas as mães de todas as casas de minha rua.
As pastilhas das paredes brilhantes como pequenos sóis despontavam por toda a cozinha, encimadas por uma listra azul que percorria todo o perímetro; o pequeno pinguim com fraque e o paliteiro e a cesta de frutas, o pequeno capacho para limpar os pés para quando se entra pela área de serviço, com os sapatos enlameados ou com detritos grudados em suas solas. Como toda outra casa deve ter igualzinha, sem tirar nem por, só que esta mais especial, por se tratar de minha mãe na cozinha, enquanto prepara o jantar para a família como todas as outras mães preparavam, a essa mesma hora, o jantar.
Para os maridos famintos vindos do trabalho, de pasta na mão, com o semblante grave e o jornal enrolado embaixo do braço, como o meu pai chegava e acredito que todos os pais chegavam com a mesma gravidade em seus lares, sentavam-se nas poltronas, ligavam a tevê, despindo o terno, a gravata, os sapatos, apoiando os pés na mesinha de centro, beijando os filhos, conversando amenidades como fazia o meu pai com a minha mãe e comigo, e todos os pais e mães comportavam-se da mesma maneira, porque era o rito, nada poderia ser alterado e se fosse alterado seria afetado o equilíbrio de toda aquela paisagem – a que meus olhos estavam acostumados – e tudo ruiria, o que seria uma temeridade, uma infelicidade e ninguém quer ser infeliz.
E em todas as casas todos tinham um modo de chamar pela felicidade e em nossa casa tínhamos o nosso que não deveria ser especial porque todas as outras residências deveriam ter método semelhante, e ser feliz é muito melhor do que ser triste. E ser triste é algo que todos queriam esquecer, porque não prestava para coisa alguma. Aliás, os meus pais acham que existe muita coisa triste, enumerá-las é um meio de se tornar triste também e as condenam ao silêncio como todas as outras famílias que não pronunciavam palavra sobre a tristeza. A minha mãe era bonita como qualquer outra mãe bonita e me amava como deve amar uma mãe. Ela me dizia que nem sempre as mães amam e me mostrava no jornal a notícia de uma mãe que havia matado o próprio filho. Era uma exceção, pois toda mãe amava ao seu filho e o filho amava a sua mãe como em toda a família, especialmente aquelas de propaganda de televisão.
Toda a família quer ser como a família da televisão. É assim que deve ser toda a família e ninguém duvidava de que aquele modelo era verdadeiro, porque se não fosse não estaria na televisão e aquela família não seria uma família, a mãe não seria a mãe e o pai tampouco ele seria. Eu comia biscoito sentado à mesa, esforçando-me em ser um garoto como o daquela família que era igual a todas as outras da minha rua, que era uma rua igual a todas as outras do mundo.
2.
A minha casa era igual a todas as outras e os meus colegas todos eram muito parecidos. As casas todas tinham dois andares, três quartos, sala, cozinha, banheiro, churrasqueira e piscina. Todas as casas tinham o mesmo gabarito. Os meus amigos todos se pareciam tão profundamente que passariam por irmãos, e se errassem de casa, uma noite, os pais não ficariam preocupados ou perplexos.
Os pais vestiam-se iguais para ir ao trabalho, tomavam o mesmo ônibus e voltavam no mesmo transporte, sempre a mesma hora, sem atraso, sem imprevistos, sem sobressaltos, seja em que parte da cidade trabalhassem. Talvez nem trabalhassem, talvez o ônibus ficasse dando voltas no quarteirão enquanto estávamos na escola. Talvez nossas mães soubessem de tudo isso e nos escondessem para a nossa felicidade. Porque não há nada mais importante do que a felicidade. Todas as portas tinham pregada a tabuleta com os dizeres que não há nada mais importante que a felicidade. Em todos os canteiros havia homenzinhos verdes sorridentes, cães felizes, gatos simpáticos, varredores satisfeitos, lixeiros contentes.
Não havia discórdia alguma ou maledicência. Todos pactuavam com o lema não há nada melhor que a felicidade. A minha família era partidária extremista da palavra de ordem. Bastava acordar um dia com uma leve indisposição orgânica para ela ser considerada uma ofensa ao manual de viver bem daquele lugar. Um leve mau humor situava o indivíduo à margem dos eventos, quando não era encaminhado a uma junta, que decidiria como restaurar a boa vontade, o arejamento e a abertura de espírito necessária à convivência democrática FELIZ. Às vezes tudo isso soava monótono e a única fuga era a prática hedonista dos esportes: o único momento em que o silêncio era respeitado não pelo que significava de reflexão, interiorização ou balanço interior, nada disso.
O silêncio, ali, era um apetrecho da atividade narcísica: quando os olhos percorriam regozijados os músculos torneados, as curvas boleadas como o aço e não valia por si mesmo, por seu valor intrínseco. Eu passava a maior parte do tempo na academia para ficar em silêncio e eliminar barriga. Eu comia muitos biscoitos. Tudo isso seria normal se a minha vida não fosse afetada de modo irreversível naquele dia de muitos outros dias em que se pratica as mesmas coisas de todas as vezes, sem alteração alguma do cotidiano e que me tornaria marcado para sempre dali em diante em minha comunidade em que nada fugia ao comum.
Eu voltava da academia e me sentava à mesa da cozinha em minha casa para comer biscoitos. A trivialidade do gesto já me escapava por repeti-lo inúmeras vezes, que despido de importância, se me substituíssem o biscoito ou se acrescentassem escorpiões à lata ou que me sugestionassem comer anchovas tudo daria na mesma coisa. E talvez fosse melhor que uma das coisas descritas ocupasse o lugar do que me aconteceu, porque o extraordinário não era bem-vindo e se o extraordinário viesse seguido de incerteza, bem menos. E se fosse seguido de infelicidade, era o caos.
O caos, meu pai dizia, é um menino segurando um balão de ar vermelho em uma chuva de cometas. O caos, dizia a minha mãe, era um exército tomar a sua cozinha e acampar sob a mesa. O caos, descobriria, era o mundo escorrer entre os meus dedos e eu não saber montá-lo. Mas quem acreditaria que o mundo se desfaria?
3.
Cheguei em casa e meu pai não estava sentado na poltrona para assistir ao noticiário. Estava no banho. Minha mãe, estática na pia da cozinha, limpava peixe. Quando fui abraçá-la esbarrei em seu avental que se desfez em milhões de pequenas peças espalhadas por todo o chão. Caía em cascata. Minha mãe parecia não ter notado o avental desfeito. Milhões de pequenas peças escorriam da cintura e do enlace da vestimenta. Uma delas saltou para pia, intrometendo-se na carne limpa do peixe. Minha mãe suspendeu a tarefa para retirá-la com cuidado – como a uma impureza. Quando me desculpei, ela, com o olhar bondoso, parecia dizer não foi nada.
Meu pai saiu do banho, enrolado em uma tolha. Ao olhar para os seus pés, percebi: estava quadriculado. Sentia fortes dores na sola e passou a massageá-la. Ao realizar o gesto, desprendia-se uma parte ou outra que formavam os dedos. Não dói? , perguntei. Deveria ser um mal passageiro, um problema de pele como as micoses e com tratamento, logo estaria resolvido. À hora do jantar, sentados à mesa, percebíamos uma tensão em nossa conversa. Minha mãe tranquilizou-me, prometendo buscar um médico. Meu pai renovou a promessa e reforçou que aquilo, naquela época do ano, era comum. Não era. Nenhum dos vizinhos tinha pés quadriculados ou roupas que se desfaziam em cascatas de pequenas peças.
O meu pai, para ir ao trabalho, passou a vestir um longo sobretudo que lhe cobria os pés, para não ser importunado pelos colegas dentro do transporte para a firma. Minha mãe tomava um excessivo cuidado para não ter os vestidos desfeitos por um movimento brusco ou por um acidente de percurso. Eu procurava uma explicação para tal acontecimento e não a encontrava. A cozinha, como todas as outras, lentamente se modificava. E não era mais como tantas outras da vizinhança. A minha mãe não era mais igual à mãe dos meus amigos, apesar de bonita e simpática.
O meu pai não era como todos os outros pais. Ele chegava em casa e fechava as cortinas para não ser visto. Chamava de lepra aquela anomalia. Triste, retirava-se mais cedo para o quarto e lá fazia também as refeições. Minha mãe tinha pernas de que se podia orgulhar, no entanto, com a metamorfose, passou a usar saias compridas ou calças jeans. O cabelo não precisava mais ser penteado, os sapatos trocados ou qualquer outra coisa alterada. Os meus pais passaram a me evitar. E logo toda a rua passou a ser como os meus pais e os filhos permaneciam como eram – pareciam divertidos.
À noite, espiei o namoro de meus pais, pela fechadura. Viam-se multiplicadas milhões de peças quadriculadas: encaixavam-se e se desencaixavam ao sabor das emoções experienciadas por ambos. A predominância por peças vermelhas, azuis e amarelas e as inúmeras paisagens formadas por seus esforços amorosos enchiam o quarto de uma poesia única. A minha mãe, na manhã seguinte, irreconhecível, porque parecia desfigurada por um programa de computador para ocultar testemunhas de crimes brutais, dirigiu-se a mim, perguntando o que queria para o café da manhã e instantaneamente transformava-se em um microondas. Segundos depois, avisava que os ovos estavam prontos. Meu pai descia para trabalhar e poderia ser confundido com um quadro cubista. Ele e todos os outros pais que tiveram suas formas alteradas no decorrer da semana do surto. Os médicos não tinham resposta para a epidemia, nem ideia de quanto tempo duraria.
4.
A casa não suportava mais o meu peso. Desfazia-se, quando me apoiava contra os móveis. Eu não dormia mais em minha cama. Acordei várias vezes no piso da sala com fortes dores nas costas por ter caído indefinidamente pelos andares da casa. Minha mãe me servia comida de plástico, montada por aquelas milhões de pecinhas.
Ela e meu pai não encontravam problemas em mastigá-las ou eliminá-las. Eu não suportava mantê-las durante muito tempo na boca e corria para vomitá-las. Todos os meus colegas das casas seguintes pediam pizza e coca-cola para quase todas as refeições. O dinheiro escasseava, porque ninguém mais trabalhava. E os poucos que ainda aventuravam-se, tinham o soldo pago em dinheiro de banco imobiliário, portanto sem nenhum valor. Os meus pais cada vez me reconheciam menos.
Eu não tinha o cheiro, o aspecto ou o rosto deles. Portanto, em suas cabeças, não deveria ser seu filho. Folheava álbuns de fotografia para lembrá-los de quem eu era. Todas as fotografias quadriculadas e ali, entre eles, aquele estranho. A minha mãe, com a voz modificada, sugeriu que me adotassem. O meu pai parecia não achar um negócio direito. O melhor era chamar a polícia e me encaminhar ao juizado de menores. Em cada uma das casas, parado à porta, estava um ônibus das autoridades, confiscando crianças normais de pais quadriculados. Vigiados por policiais, que se desfaziam e se refaziam instantaneamente, como se as milhões de pequenas peças fossem organismos vivos e independentes.
A expressão idiotizada não dizia nada a respeito dos sentimentos das autoridades ou dos pais, apenas o gesto de minha mãe encostar a cabeça no que parecia o ombro de meu pai demonstrava a sua consternação. De nenhuma outra maneira ela poderia ser percebida. Quando me despedi dos dois, alisei o rosto de minha mãe que se desfez em minhas mãos como areia, e as suas feições, se assim posso chamá-las, condoídas pela separação, pareciam revelar a verdade a meu respeito.
Entretanto, o cérebro parecia recusar-se a lhe dar crédito sobre o parentesco entre nós, e a natureza, contradita em minhas linhas, provava ser impossível. Aquilo que lhe pareciam os olhos, em misto de dor e de ansiedade, fez que o restante de voz humana escapada de sua garganta, soasse como a palavra filho. Depois se tornou um incompreensível glamerô – para nós que éramos retirados das casas, e levados para campos de concentração em que médicos estudariam a nossa faculdade estacionária.
Os pais de outros colegas olhavam estupidificados do portão para os ônibus lotados e suas mentes de plásticos não alcançavam o motivo de tantos de nós termos invadidos os seus lares e as suas vidas. Por que éramos tão diferentes? Não saberíamos nunca a resposta. Os médicos não trabalhavam mais em cura alguma. Não havia enfermidade. Ou a enfermidade éramos nós com nossas aparências monstruosas: redondas e angulares. A contradição vivida por nós era que a liberdade era fácil; arrebentar-se-ia com facilidade as paredes e se escaparia daquele lugar. Mas para onde se iria? Eu tinha saudades de minha mãe e de meu pai, lembrava de suas feições de areia ou de peças plásticas articuláveis e remontava com pedaços da parede de minha cela os retratos de ambos. Descasquei com tanta severidade a parede que abri espaço para o meu corpo atravessá-la sem dificuldade. Não tinha vontade ou coragem de ir embora. Os planos de fuga eram diversos. Construíam-se aviões, submarinos e outros transportes para se dar o fora e se voltar para aquela rua. Restava a dúvida de que seríamos ou não aceitos e a imobilidade decorrente da dúvida.