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105ª Leva - 08/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Krishnamurti Goes dos Anjos

 

Arte: Juca Oliveira

 

GANGRENA

 

“Eu gosto dos que têm fome
Dos que morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem.”
(Adriana Calcanhoto – Senhas)

 

A dor e a sensação de intumescimento aumentando, uma sede horrível queimando-lhe a garganta. Tateou no chão, perto da cama, o copo plástico e a moringa com água. Bebeu o resto da água que havia e deixou cair pesadamente a cabeça no travesseiro. Depois de serenada a sede, recordou-se do alívio que sentira quando interromperam a música do trio elétrico em frente ao palanque dos homens do governo. “Não sei de onde o Genésio saiu. Eu naquele desespero, sem saber o que fazer, para quem apelar. Contei a ele. Ele me disse: toma um gole. Liga não, corrente. Ó, se tu quiser, tu pode entrar num lance comigo e mais dois bróder. Ó, vai rolar a maior grana, tá ligado? Na quarta de cinza vamo estourar um caixa vinte e quatro horas na Pituba… Mas, ih, cara! É nenhuma para você, deixa, esquece, eu só falei por falar, só porque cê tá nessa de horror aí com o tal do isopor. Você é moral, eu sei. Teu negócio é ficar lá enfurnado com a tua nega no barraco. A Sussuarana toda sabe. Tô ligado, só ali ralando na empreiteira que corta os gatos de luz, né? Toma, bebe um gole dessa onda aí, vai te fazer bem….” O zunido da guitarra do trio, sendo afinada, entrando nos ouvidos como o voo rasante de um mosquito gigantesco. Genésio falante, falando alto e suando, a pele negra brilhante. “Eu sei, mano, que a maré não tá boa pra ninguém, só para eles – fez um gesto para cima com o polegar – sempre os mesmos. E os tiras não tão brincando não. Se você vacila, pegam, apagam e desovam o corpo na primeira pirambeira. Depois abafam e não se fala mais nisso. Tá afim de um baseado? Não? Tá limpo. Comigo eu não vacilo, viu? Tá aqui, vê só o cabinho do três oitão aqui no meu abadá. Polícia se mete comigo, meto bala no meio dos peitos desses putos”.

O barulho de música de carnaval recomeça estrondoso, e uma morena, lá no alto, canta berrando: – E tá um empurra-empurra aqui / mas tá gostoso / Ô, ô, ôooo… – Genésio deixou-lhe a garrafa plástica, cheia da bebida liquorosa à base de álcool. Multidão enlouquecida, dentro do bloco aquelas meninas minas do Itaigara, tudo linda, tudo loura, tudo cabelo liso, solto, escorrido, molhado, tudo mamãe-sacode. No apertume chegou a roçar no braço de uma loirinha do bloco, calçada com tênis importado e tornozelo enfeitado com correntinha de ouro. O empurra-empurra invadindo os domínios do bloco, até que a turba recuou na ação encapelada e firme da corda grossa de amarrar navio, jogando longe os do lado de fora da tribo.

“Não sei onde foi para o pé esquerdo do meu tênis velho, o que já estava com o cadarço partido, e aí senti aquela pontada, a dor fina na planta do pé. Primeiro não liguei muito não, e depois que aquela bebida bateu na cabeça, a minha raiva, o cansaço virou uma alegria besta, deu uma zoeira que esqueci até da fome, do isopor; queria mesmo era sacudir os braços, beber da garrafa plástica, me misturar no meio da multidão, daquela zoada maluca até madrugada alta, pra botar pra fora de mim esse mar de amargura, essa rotina de dificuldades, esse cabresto de miséria o ano inteiro. Como é? Tanta gente rica e eu fodido? Aquela bebida tonteia o cabra até os ossos!”

Uma dor de pontadas elétricas partia daquele rasgo e começava a invadir todo o pé esquerdo, o tornozelo, a batata da perna, subindo com força pelo joelho.

“Maria lá na terra dela vendo se o irmão empresta algum pra a gente ir tocando enquanto eu não arranjo um trampo. Eu não queria, mas ela só ficou falando naquilo… Deixei ela ir porque queria pegar o dinheiro do seguro desemprego, sem que ela soubesse. Me deu na ideia ver se eu não fazia o mesmo que muita gente faz aqui: vender de ambulante no carnaval. Comprei a caixa de isopor, comprei as caixas de copinhos de água mineral. As latinhas de cerveja, já não dava o dinheiro, tive que pegar fiado no depósito do Jorge. O que sobrou foi a conta de comprar as barras de gelo. Eu queria dobrar o dinheiro do seguro, fazer uma baita surpresa pra Maria quando ela voltasse. Por que a Maria ainda não voltou? Eu já tô aqui assim faz quanto tempo? Dois dias… ou três?… Maria na estação da Lapa. Olha daqui, olha dali, todo dia enquanto o ônibus dela não vinha, eu trepado no andaimezinho trocando lâmpada da estação, Maria trabalhando em casa de família, gostei dela logo, jeitosinha mesmo. Maria magrinha, fraquinha, ficou tão minha amiga… Ficamos de lá para cá. Só não deu para parir. Não é mulher parideira não.”

A secura na garganta voltou a incomodar-lhe  a goela seca, a sede, a seca.

“Sempre a seca matando, a eterna história miserável da seca. Só mandacaru para suportar. A minha sede é tanta agora que estou enxergando a cortina da porta do quarto igual a quando o sol abrasa a terra já ressequida, e sobe aquela ondulação de calor de miragem… Que agonia meu Deus. Até quando isso vai durar? Valei-me nossa Senhora… Foi isso… Isso mesmo que mãe disse quando contei que vinha para Salvador tentar vida melhor. Valei-me, Nossa Senhora! José, você num vá, Zé. A capitá num tá prestando mais não, diz que não tem mais emprego, Zé. Fica aqui, Zé. A gente tem pouco, mas tem com que passe. Zé, ô Zé! Cê é que sabe… É, mãe, a senhora acertou mais uma vez… Eu preciso suportar mais um pouco. Se tivesse um talo de bananeira aqui pra botar o leite na ferida… Também, se não tivesse vindo, não tinha encontrado a Maria, a minha Mariazinha… Ai que dor desgraçada, não gosto de médico, e quede dinheiro?  Nada! Sempre tive boa saúde.”

Entretanto, naquela altura, uma aflição começou a morder-lhe o íntimo como uma advertência. Aquelas dores faiscantes que não paravam eram um sinal que o ameaçava. Quis gritar, chamar por alguém, chamar por Maria, mas o grito saiu como um murmúrio arrastado da garganta ressequida. Procurou ver o pé, aquela coisa disforme em que se transformara toda a sua perna, supurando e sangrando. O sangue novo em cima do coagulado, tingindo o lençol, escorregando da cama, pingando no cimentado do chão. Já não conseguia distingui-lo precisamente. Um nevoeiro impedia-lhe a visão e, pela primeira vez, frágil, desprotegido contra o que podia acontecer, teve medo, tremeu de medo.

“Mãe nunca demonstrou ter medo de nada, nem nunca chorou. Ficava triste às vezes, ficava com o olhar distante, perdido na barra da serra, sempre ali na janela, calada, olhando, matutando. Nunca. Desde que nasci sem pai, e que me alembro, sempre ali. Forte. Só quando já tava sentado no ônibus que vinha para cá, quando dei o último adeus pra mãe, foi que vi aquelas duas lágrimas escorrerem por seu rosto comprido, sulcado de rugas. Mãe ficou ali com Guardião ao lado, sentado sobre as patas traseiras, os dois me olhando… me olhando”.

O mal-estar aumentava, febre e suor, mal-estar aumentando e trazendo com ele uma sonolência cheia de delírios.

“O cabo de alta tensão energizado, treze mil volts explodindo o caixa eletrônico, incendiando o dinheiro, ele subindo em poste, descendo de poste em turnos de trabalho de doze horas, descascando fios e calos da mão também, folgando lâmpada em poste sim, racionando, poste não, racionando, todo mundo embolado, fio descascado, gente descascada, descarnada, cobre exposto, demissão, bala de trinta e oito no peito do empreiteiro da companhia de energia elétrica que usava uma bota roubada de eletricista e que parecia protegê-lo do des/emprego de corte de lata de cerveja lascada, derramada no chão impermeável do asfalto da avenida carnavalesca, na blitz da fiscalização da prefeitura, o peso enorme do isopor, a cantora gritando sai de baixo meu irmão que lá vai a zorra! Dois dias na base do acarajé, emendas de licenças para ser ambulante, emendas de fios de agarra, tudo embolado, toda hora dando descarga, faíscas, curtos, choques imensos carbonizando o pé calçado numa bota, uma explosão elétrica! A velha casinha no mesmo lugar ao pé da serra, agora reformada. Em volta, um bosque irrigado, com muitas árvores, tudo verdinho, verdinho. A luz dourada filtrando-se por entre a folhagem das árvores. Um cheiro de terra úmida misturado a exalações de flores silvestres. Porteira nova que ele mandara fazer, as ripas e caibros do telhado novinho que ele mandara substituir, mãezinha pitando o cigarrinho de palha, passando o café cheiroso, fartura na mesa. No pátio a bicharada solta, flores e crianças brincando de roda. Quem seriam aquelas crianças? Seriam seus filhos? Brincavam de roda. Guardião de um lado para outro correndo, latindo, perseguindo galinhas histéricas, sob o olhar omisso de vacas leiteiras, uma arruaça engraçada de se ver. Sua atenção se fixa nas crianças brincando. Sentiu-se participando da antiga ciranda de sua infância, cantando a débil canção infantil: Eu sou pobre, pobre, pobre, de marré-de-si”.

Um violento calafrio percorreu-lhe o corpo. Minutos depois, com surpresa, conseguiu erguer devagar a cabeça. Alívio de suave vertigem. Sentia-se agora pairando alguns centímetros acima do próprio corpo dormente. Incomoda-lhe menos a perna, a sede quase que cessara, e o peito, como que liberto, abre-se para uma calma inspiração.

Em meio à tontura de ambiência nevoenta, ressoou mais uma vez o coro infantil… E seu rosto assumiu uma expressão de deslumbramento, porque, girando na ciranda, divisou nitidamente o semblante de Maria a sorrir-lhe docemente.

Quando cerrou vagarosamente as pálpebras, tinha nos lábios o esboço de um sorriso de secreta alegria.

 

Krishnamurti Goes dos Anjos é escritor e pesquisador. Autor de “Il Crime dei Caminho Novo” (Romance), “Gato de Telhado”, “Um Novo Século”, “Embriagado Intelecto e outros contos” e “Doze Contos e meio Poema”. Tem participação em várias coletâneas e antologias, algumas resultantes de prêmios literários. Possui textos publicados em revistas literárias na Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. Seu último livro, “O Touro do rebanho”, publicado pela editora portuguesa Chiado, obteve o primeiro lugar no Concurso Internacional de Literatura da União Brasileira de Escritores UBE/RJ em 2014, na categoria Romance.

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105ª Leva - 08/2015 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Dheyne de Souza

 

Arte: Juca Oliveira

 

dos semáforos

 

hoje eu disse que, se sensibilidade fosse pólvora e texto (e não digo qualquer texto, digo daquele que. sabe) fosse fogo, eu explodia. que hoje estou minúsculo e daqui, sabe, as coisas são. obviamente, sim. maiores. eu sei. às vezes fico perdido sem você, ana. sem. caio. hoje eu queria escrever um romance de uma personagem que nasceu esses dias no semáforo. foi quando ela nós ali ante o vermelho que às vezes acho que é o espírito do trânsito tomando aquele fôlego para uma jornada abrupta rumo ao sucesso ao shopping ao dentista ao café ao terapeuta ao sexo a noite amanhã um dia. e ela havia nela um vinco bem no centro da sua testa que era onde o sol se punha naquele fim de tarde. o céu depunha ali nódoas e eu pude, veja, colher muitas cruas nacas de desejos entre, bem entre, assim como se abaixo dos lábios pequenos um pouco à esquerda do caos e eu vi do negro o avesso. que, e também me impressionei, era escuro. mas o que quis dizer dessas montanhas de areias vincadas ali naquele pedaço de face que via do meu vidro fumê a película que a abraçava vinha da sua mão escorrendo como quem não esperasse o verde a ação o futuro em sua parte que é breve. e essa mão de manchas feito a nuvem quando nada no mar. ela puxava assim tão gratuitamente uma mecha do seu cabelo que nem era leve talvez sedoso quando recém-lavado mas ela. ela emaranhada naquele fio suado que me contava do dia da fila do espaço do riso quando criança naquele balanço. eu quase ofereci um cigarro mas eu tive um medo tão grande de romper a sua Verdade. eu tive um medo tão grande de roubar dela e de mim aquela sobra do dia que vinha enquanto uma rima um verso branco mas tão rosa. feito a fresta do sol que dormia na sua testa. feito o vento que arrumava a cama enquanto o seu cotovelo ali despejado na porta do carro, suspeitando do meu olho feito cinema, decerto, tentava me esconder. ou me falar da lama que pousa nos sapatos. ou me contar da trama que sustenta o passo. ou me livrar do assalto que se tem quando. a vida da gente bate no. sinal aberto.

 

 

 

***

 

 

 

às vezes me preocupo tanto com minha memória, sabe, Acaso. é um duto hieroglifado. assim como se as paredes houvessem flâmulas a cada guelra. é uma espécie de nado, Nada, isso de transmutar o tempo, veia memória condão. a cada agora um apocalipse a cada desinência pretérita um epitáfio. e o olho que segue no túnel que era, veja bem, Tudo, era uma era. era uma escada sem step by step. que esse discurso fode-me, se me permite ser um pouco daquilo que vende mais. ouça, Todo, miragem pó e instante é tudo feito de achos. cachos. pedaços. dê-me uma pence de som, Silêncio. dê-me um soneto de escória, Mudez. dê-me uma toalha que não acho a vida líquida porra nenhuma é o meu olho que memora.

 

 

 

***

 

 

 

Um osso do verso

 

O cheiro que acorda a manhã tem raízes ocres.
E se se esquece a palheta?
E se se perde o horário?
E se tragando no tráfego no rádio no atropelamento na lembrança na resposta se se des-cobre o olfato? Digo, praquilo que é da Verdade, o não dito.
Que às vezes aquilo vem feito deus feito orvalho feito o rouco do locutor que erra o erre feito a cor dos pares. A dor dos semblantes. Mas isso tudo é muito pequeno, veja: já não se vê como toca. Como tolhe. Come-se. Sem olhar os dentes. Sem orar os crentes. Sim, senhora. Às vezes, deveras, vê-se sorrateiramente, quando a vida em estado comercial, de esguelha. Vezes se se cura com o sinal, vezes não. Que há o atropelo de som e de líquido e de insípido que é o. Isso. De ver que seja insípido. A sorte é que há sempre outros semáforos, há passos, há laços lassos. Do que se faz alimentar esses ó(s)culos. Pra ver melhor o não.

 

 

 

***

 

 

 

sem título

 

ah a vida e esse cheiro que vela
como um cavalo no escuro no pesadelo da espora
como uma grama que acorda molhada pra ser pisada
como um refém que habita o esconderijo da porta
como uma escolta. paulatina. versando que a vida há

 

Dheyne de Souza é poeta, está em Goiânia-GO, vê o fantasma do verbo bêbado. Tem um canal de leitura de poemas prosas prosemas no YouTube: Pequenos Mundos

 

 

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104ª Leva - 07/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Mário Sérgio Baggio

 

Valéria Simões
Foto: Valéria Simões

 

Noite de cachorro

Como faz todas as manhãs, o cachorro tira o homem de casa e o leva para passear. Andam pelas ruas ainda vazias, moldura adequada para a caminhada silenciosa de um cachorro e um homem. Toda manhã é o mesmo: o homem, animal treinado, ergue uma das pernas para mijar em cada esquina. É um hábito, coisa de homem que sai todas as manhãs com seu cachorro para passear. Um leva o outro, não se sabe quem conduz quem. Homem leva cachorro, cachorro leva homem.

Caminham evitando as poças d’água que a tempestade da noite anterior deixou como lembrança. Becos pichados, ruas cheias de sombras, avenidas sem viv’alma, ladeiras íngremes, praças desertas – o passeio do cachorro com seu homem não conhece limites nem escolhe atalhos. Caminhar é preciso. O chão molhado reflete a silhueta dos dois, fantasmas silenciosos que avançam e se apoderam do espaço estendido à frente.

O cachorro olha o relógio, o homem late. Ambos bocejam. Um pássaro negro voa baixo, pia de forma agourenta. O homem levanta uma das pernas e mija pela última vez. Hora de fazer o caminho de volta.

Acorda com o latido insistente de um cão na vizinhança. Apoia-se nos cotovelos. O suor escorre, abundante, empapa seu pescoço e peito. Sente o líquido que desce até os lábios, desaparecendo queixo abaixo. Engole uma gota: salgada. Respiração arfante, acende a luz e olha o teto. Estica o braço e alcança o caderninho de notas na mesa de cabeceira. Escreve: “Chamar o encanador, telhado ainda com goteiras. Urgente: pegar mais pesado na terapia”.

Devolve o caderninho à mesa e volta a encostar a cabeça no travesseiro. Olha a goteira no teto e suspira, exausto. Noite de cachorro, outra vez!

 

***

 

 

O pior que podia fazer

O pior que pôde fazer o imigrante foi oferecer resistência à autoridade. Claro, era normal que ele estivesse alterado, pois fora denunciado por abuso sexual pela senhora que morava na parte rica da cidade. Ele passava sempre por ali, voltando para sua casa, e naquele dia estava especialmente angustiado por receber mais uma maldita resposta negativa de trabalho. Nunca se metia com ninguém, cônscio de sua condição de estrangeiro, e sabia que estaria sempre melhor quanto mais se mantivesse longe de problemas. Que tinha mulher e filhos e estava buscando trabalho para sustentá-los.

Era isso que ele devia dizer ao policial que o prendera na rua, antes que ele lhe pusesse as algemas. Antes que o levassem para a delegacia para tomar seu depoimento. Antes que lhe dessem uma surra por abusar de senhoras de respeito. Antes que o jogassem numa cela, à espera de julgamento. Antes que, no dia seguinte, a senhora retirasse a queixa contra ele, dizendo com um sorriso amarelo que não tinha certeza de que aquele sujeito a havia molestado. Antes que ninguém lhe pedisse desculpas pelo engano e o pusesse de novo nas ruas.

Teria sido muito melhor se o imigrante conservasse sua calma e serenidade no momento em que fora detido. E não insultasse todo mundo, inclusive o delegado. E não enfrentasse a força da autoridade. E não tentasse fugir de modo intempestivo. E não caísse de bruços depois de receber um tiro pelas costas. Foi de advertência, disse o policial.

***

 

 

Liturgia

Primeiro a mão vai até o cálice grande e dourado, cheio de hóstias, recolhe uma delas e vai em linha reta até a língua estirada à sua frente. A mão deixa cair a hóstia, corpo de Cristo, a língua a recebe e se recolhe dentro da boca. O dono da língua, um senhor de olhos pequenos perdidos entre tantas rugas, fecha os lábios e os olhos e assume sua culpa católica e sua condição de pecador arrependido, mas apenas por alguns segundos, uns mínimos instantes, o suficiente para que transpareça verdade em sua intenção. Depois, sem nada dizer, com a hóstia derretendo no céu da boca, ele se levanta e volta, de cabeça baixa, para o lugar de onde tinha saído. Agora a mão está imóvel, esperando o próximo pecador.

Ela vem, não tão devagar, para não atrasar o andamento do ritual, nem tão apressada, para não perturbar a devoção do momento. Vem no ritmo certo, as passadas na cadência exata para que, aqueles que desejarem, apreciem o balançar de seus quadris, a pulsação de suas coxas, primeiro uma, depois outra, e os tornozelos finos e fortes na sustentação de toda aquela estrutura óssea que se move. A mão está parada, à espera, já com a hóstia entre os dedos. O dono da mão pigarreia e deixa escapar certo incômodo enquanto espera que ela se aproxime. Ela se abaixa na frente dele e quase roça os joelhos na barra de suas vestes sagradas, mostrando Que descuidada que sou! uma nesga de coxa. A mão treme, corpo de Cristo, ao esticar-se em linha reta conduzindo a hóstia na direção daquela língua esticada na medida certa – não tão fora da boca para não indicar lubricidade, nem tão dentro que o dono da mão precise roçar os dedos em seus lábios e dentes. Ela não fecha os olhos para o dono da mão, antes olha para ele no momento de receber sua porção de farinha e água. Ela recolhe a língua, abaixa a cabeça – culpada, católica culpada assumida! – e inicia o caminho de volta, no mesmo ritmo da vinda, na mesma cadência, sem olhar para trás.

Agora a mão já não consegue manter a mesma firmeza de antes. O que se vê é uma mão insegura, medrosa, cujo dono padece e sofre para fazer seu trabalho. Após a mão vêm o cotovelo, o ombro, o pescoço e o rosto, todos partes de um único ser que nesse exato momento chora. O coroinha não entende o que se passa, e o sacristão levanta as mãos para o alto, Mas o que é que está acontecendo com o padre Fernando?

Mário Sérgio Baggio é jornalista, morador da cidade de São Paulo, atua como Redator freelancer produzindo conteúdo para websites, blogs e redes sociais. Mantém o blog Homem de Palavra, em que publica seus textos de ficção.

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104ª Leva - 07/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Roberto Dutra Jr

 

Valéria Simões
Foto: Valéria Simões

 

REI MIDAS [micronólogo]

 

Midas entra. Cambaleia e atira-se de joelhos, voltado para o público.

– Hoje cravei em meu peito uma cruz de metal. Faz frio na ferida e o metal oxida com o contato do sangue. Das muitas coisas que me lembro da vida, agora todas passando, eis aqui, fincada no mais fundo de mim, essa cruz de metal que cala meu peito. Essa cruz de metal cortando ao meio o fluxo vital de afeto e esperança para todo o resto do meu corpo. A cruz me impede de morrer, a cruz me impede de viver.

Eu vi o inferno. Não busque o inferno no subsolo. Não perturbe com sua bizarra curiosidade as marmotas, os vermes e os soturnos habitantes das sombras. Essa busca infrutífera de alquimistas e de líderes religiosos de sexualidade duvidável e vã. Essa busca tem sido vã pelo curso dos últimos séculos e levado tolos e sábios para arder em fogueiras martirizantes. O martírio de saber pode muito bem ser o martírio de ter que esconder, mentir, ignorar. Infernos inúteis!

Hoje cravei uma cruz no inferno! Aqui, bem no meio. Na base da carne nascem rosas rubras. Os espinhos das rosas do inferno não surgem dos caules, nascem de meus dedos, transformando minhas mãos em instrumentos de dor e solidão. Tudo que eu toco se transforma em sofrimento.

Um dia eu ainda me coço.

Fim.

***

 

 

 

O REMETENTE

Havia um homem que escrevia cartas sem nunca tê-las respondidas.

Em um passeio pelo cemitério, viu seu nome escrito e todas as cartas que remetera.

***

 

 

 

TENTÁCULOS

para Victor Giudice, que ainda observa do outro lado da porta

Nada impede uma manhã preguiçosa nessa cidade. Chegando serena com chuva tranquila. Daquelas que precipitam depois da temperatura gentilmente baixar grau a grau. Os primeiros pingos, pingo, pingos, pingo, ping, ping, pin… Até pensou que ouvisse as primeiras notas do piano de Tom naquela música. Mas, é outubro, e ao contrário das Águas De Março, o céu cinzento e a constância da chuva ensaiam outras promessas nos corações de todos.

Em algum conjunto de apartamentos, em algum subúrbio próximo, ele passa um café no coador de pano. Em algum conjunto de apartamentos em algum subúrbio próximo, alguém mais faz exatamente a mesma coisa que ele, na mesma sequência. Um conjunto habitacional suburbano é um conjunto de outros mesmos.

Ele ainda dorme, mas não sabe. Sempre repete isso mentalmente naquela mesma hora pela manhã. Pensa sonhar com o cheiro do café tomando a cozinha e invadindo o quarto. Ele senta-se sozinho à mesa e serve sua primeira dose. Ela gosta pingado, e o leite fumega sobre o forno, já fervido. Na mesa uma broa de milho fatiada e queijo branco. Toalha de algodão com motivos florais, daquelas que em qualquer armarinho se encontra. O tempo nublado deixa a cozinha escura demais àquela hora da manhã. O sol parecia atrasado.

— Até o sol pode chegar atrasado quando quer – balbuciou.

Ocorreu-lhe que ela já devia estar no banheiro, apesar do silêncio. Incrível o silêncio de uma manhã chuvosa, pensou. Não fosse pelo ruído da chuva, ele nem diria que realmente está no bairro. A cozinha parecia isolada do resto do mundo, já que as demais cozinhas do prédio existiam longínquas pelo silêncio. Todos poderiam ter desaparecido ou estar mortos. Calafrio. Foi até o basculante da cozinha e gritou:

— Olaaaá!

Nem um ruído. O silêncio induzia o pé ante pé para andar. Voltou-se para o armário sob a pia. Precisava de uma jarra para colocar o leite na mesa. Seria um toque especial. Começou a remexer o armário. Súbito uma rajada de vento bate a porta da cozinha. Ele, que estava inclinado para dentro do armário, move-se para fora, e a coluna fica retesada. Pura reação instintual, mas que sempre provoca uma gélida injeção de adrenalina. Voltou-se para o fogão, colocou o leite na jarra e aguardou sentado na mesa. Ouvia o registro do chuveiro ser aberto e a água descer intensa. Parece que hoje ela decidiu começar o dia com um banho, pra variar.

— Que mudança! — falou alto, tentando entabular uma conversa matinal.

— Me admira justo você começar um dia frio como hoje com um banho. Já preparei tudo aqui e estou apenas lhe aguardando. Ainda tinha queijo na geladeira e esquentei o bolo que sua irmã fez ontem. Tudo quentinho.

Ouviu um ruído de escorregão molhado, a luz piscou. Sem sobressalto, gritou:

— Opa! Tudo bem aí, moça?

Sem resposta. Silêncio quer dizer tudo bem e pronto.

— Liga não, outro dia eu também quase levei um tombo debaixo desse chuveiro. Preciso fazer uma faxina e tirar o limo desse banheiro. Vou comprar um alambrado de madeira pra colocar no chão assim que puder. Melhor que esses tapetes antiderrapantes que estragam logo. Olha, se você demorar muito eu vou comer o bolo sozinho. O café que acabei de passar ficou até fraco, do jeito que você prefere. Ah! eu não entendi porra nenhuma daquele filme que assistimos ontem.

Ela demorou. Foi o suficiente pra depois do copo de café o braço sustentar a cabeça sonolenta num cochilo. Acordou e a ouviu fechar a água no banheiro. O leite estava menos que morno agora. Ele voltou-se para acender o fogão. Uma batida estranha na porta, ainda fechada. Parecia que ela jogava o ombro na porta, em vez de bater com a mão. De novo, e de novo, e de novo mais forte.

Deixou o bule de leite e atravessou a cozinha. Abriu a porta e o vácuo do espaço tomou conta da cozinha. Do outro lado da soleira as estrelas e o vazio infinito, deste lado a labareda no fogão se mexia com um vento sobrenatural. De relance ele ainda segurou a maçaneta do lado oposto pensando em novamente fechar a porta. Sua mão congelou na maçaneta e apesar da dor, não sentia mais seus dedos. Com seu último esforço, revirando os olhos de terror, gritou a plenos pulmões, o que ele ouviu apenas na sua mente:

— R’lyeh!

Em uma explosão de movimento do outro lado da porta saltam tentáculos que prendem-se fortemente ao seu corpo. Segurou-se à passagem com o desespero dos condenados enquanto os tentáculos esmagavam seu peito e apertavam cada uma das pernas. Um último tentáculo enroscou-se no seu rosto. Sua última resistência, os ossos dos braços partiram-se como varas e sumiu no vácuo.

A porta se fecha. A investida termina, quase tão súbita como começou. De novo a chuva tranquila bate no basculante da cozinha de algum conjunto de apartamentos em algum subúrbio próximo. Silêncio completo novamente.

Ela abre a porta, enrolada na toalha e arrepiada de frio.

— Mas que droga! Putaquiopariu! O chuveiro queimou, quase entrei em choque com a água gelada! Isso sempre acontece na minha vez, já não aguento mais! Onde você está? Esqueceu o leite no fogo?

Demorou alguns minutos e então, sentiu algo estranho no ar. Olhou em volta da silenciosa cozinha. Arrepiou-se de novo quando uma rajada de vento bateu a porta atrás dela, e sem mover um músculo assistiu o leite ferver e inundar o fogão com uma espuma branca e com cheiro enjoado.

 

 

 

 

***

 

 

 

IDEA FIXA

Entra o fetichista:

– Mãos ao salto!

***

 

 

 

DOMINGO

Bom dia.

Abri os olhos, ela estava lá. Café passado na hora, cigarros, janela. Posso dizer que o começo do domingo é sempre uma rotina. Pego minha câmera e aponto em todas as direções: das copas das árvores ao meu dedão do pé. Devagar o mundo desperta. Vejo nascer o sol e ela levantar-se, preguiçosa. Vai sozinha à cozinha e serve-se de meu café mentolado.

– Você é esquisito. Sempre levanta primeiro? E como conseguiu todas aquelas flores no meio da noite?

Não respondo, claro. Sei que um sorrisinho cínico nessas ocasiões é fulminante. Ela coloca a xícara na frente do rosto e diz entre os dentes:

– Você vai ficar sem roupas a manhã toda?

Continuo calado e com o risinho cínico. Apago o cigarro e tiro sua foto, vestido branco – praticamente um pijama – ela gargalha:       – Não! Estou com olheiras!

Não largo a câmera e começo a segui-la pelo apartamento e aos berros recito Vinícius:

– Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Não demorou muito a perseguição e ela começou a olhar para as lentes. Agora era ela quem observava. Eriçava os cabelos acima da cabeça e logo era ela quem me encurralava. De repente, o fotógrafo era quem obedecia, sem saída. Jogou os braços para cima, fez caretas, abaixou-se e levantou-se, cobriu o rosto e descobriu o rosto. Então ela para e, olhando na lente como se nada mais restasse a fazer naquela entrega, levantou a saia.

– Teus pelos leves são relva boa…

– Fresca e macia.

– Meu Deus, eu quero a mulher que passa! – disse a todo pulmão.

E fotografei a manhã toda, aquele segundo sol a nascer na minha sala.

Roberto Dutra Jr é um neurótico social como todo brasileiro de cidade grande. Adora literatura, mas as palavras não fazem mais sentido. Cultiva um seríssimo flerte com a música. Adora gatos e poemas, que movem-se na penumbra e nunca revelam-se inteiramente. Tem um livro de poemas publicado e mergulhado no esquecimento, assim como seus artigos críticos. Foi editor de revista acadêmica, contribuiu para jornais e revistas literárias no Rio de Janeiro, entre eles o Panorama da palavra.  Atualmente divide-se entre sua coluna semanal no blog zonadapalavra, eventualmente resenhando para a revista Mallarmargens, e integra o quadro funcional da Editora Ibis Libris.

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104ª Leva - 07/2015 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Vivian Pizzinga

 

Valéria Simões
Foto: Valéria Simões

 

Teoria e prática

 

  1. Tese

 

Ele queria que eu fosse outra. Ele queria a outra de mim. Que eu fosse diferente daquilo que pediu de mim, daquilo que viu em mim, daquilo que julgou gostar em mim. Ele queria que eu fosse diferente do começo, que o começo fosse descartado, ele insinuava que o meu começo não valia mais. Ele dizia que, nesse começo sem valor, havia julgado que gostava daquilo que me definia como eu mesma, havia julgado que sabia exatamente o que é que ele gostava quando sentia gostar de mim. Ele queria que fizéssemos um inventário de nós mesmos, que no autoanalisássemos de forma pura e simples e convertêssemos as dobras, os espinhos, os calos e as inflamações em suavidade morna. Ele queria que eu não fosse o que eu sabia ser, o que eu queria ser, e que o erro havia sido meu, não dele, ao julgar que o que eu sabia ser era outra coisa. Ele me pedia uma impossibilidade e era incapaz de entender que o impossível se constrói aos poucos como possível, muito aos poucos, medidas de longo prazo. Ele não me ouvia, e o diálogo ia ficando cada vez mais confuso, a conversa rodava em círculos, o quê? Como? Explica melhor, eu pedia, evitando olhar para o desespero. Você errou, ele me disse, seriamente, fitando meus olhos empapados de lágrima, aqueles olhos que eu evitava piscar para não enlamear um diálogo tão enxuto.

 

  1. Antítese

 

Ela queria que eu a quisesse a mesma, que eu não esperasse nada, que eu me contentasse com a tranquilidade de dias eternos, que me fixasse em um começo imutável, ela queria que fôssemos felizes para sempre e queria, com isso, uma aliança, um noivado, um compromisso e a longevidade da felicidade que não derrapa. Ela queria uma estrada sem declives, sem aclives, sem curvas fechadas e com acostamento. Não era capaz de entender o que eu dizia, mesmo que eu me tornasse didático e me desdobrasse em exemplos. Ela queria que eu fosse o mesmo, ela exigia que eu não mudasse, pois, mudando, mudaria as esperas, as reivindicações, as palpitações. Ela queria que eu quisesse o mesmo que quis no primeiro dia, e o que quis no primeiro dia era o que ela era no primeiro dia e o que eu era no primeiro dia. Contudo, eu já não era mais o que eu havia sido no primeiro dia, eu era outro. E o primeiro dia, era isso o que eu tentava esclarecer a ela, é sempre diferente de todos os outros. Eu me queria outro, e a queria outra, e tencionava um desvio na estrada, um atalho ou uma volta maior, só saberíamos depois, mas era preciso uma guinada, eu tentava elucidar esse problema e a encarava em seus olhos marejados, sem poder evitar dizer que eu precisava, eu nos queria antônimos.

 

  1. Síntese

 

Nós nos queríamos diferentes do que éramos. Do que havíamos sido e do que almejávamos ser. Ele me queria outra e eu o queria o mesmo. Ele não podia ser o mesmo, eu não podia ser outra. Ele arfava ao me explicar, eu chorava ao ouvi-lo. Ele então tirou minha blusa e me deitou na cama, devagar, alisando meus cabelos. Passei minha mão pelo seu ombro, desci pelo seu braço, acariciei sua barriga. Nos olhamos atentamente, como se descobrindo uma paisagem que havia sido ocultada por um nevoeiro antigo. Ele elogiou a maciez do meu cabelo e espalhou sua mão pelo resto do meu corpo, tirou minha saia. Eu elogiei a firmeza de seu tronco, de seus braços e desabotoei sua calça jeans. Te quero diferente, escutei-o sussurrar em meu ouvido, e dali sua língua enrodilhou o meu pescoço em um colar delgado de saliva úmida. Expirei com força, tentando interromper uma vaga qualquer que se agigantava dentro de mim e que meu corpo não seria capaz de dar conta. Te quero igual a todas as vezes em que te vi, respondi imediatamente, sentindo seu corpo nu avançar sobre o meu. E quando ele disse que não haveria como ficarmos juntos enquanto esperássemos coisas tão díspares um do outro, senti-o inteiro, em certa aspereza edulcorada e de um jeito que eu antes não conhecia, e ele respondeu com um gemido, um longo gemido, o ar quente expelido das narinas, demonstrando que nada precisava ser modificado.

Vivian Pizzinga é psicanalista e escritora. Lançou dois livros de contos (A primavera entra pelos pés, 2015; Dias roucos e vontades absurdas, 2013), ambos pela Editora Oito e Meio. Participou de antologias de contos (Clube da Leitura vols. I, II, III, Para Copacabana, Com Amor) e publicou textos ficcionais e de prosa poética no Jornal Plástico Bolha, na Revista Pesquisa FAPESP, na Revista Café Espacial, entre outros. Escreve críticas teatrais e outras resenhas para o site Ambrosia e contos para o Jornal Algo a Dizer. No momento, prepara-se para o doutorado em Saúde Coletiva e finaliza um romance.

 

 

 

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103ª Leva - 06/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Márcia Denser

 

Caroline Pires
Ilustração: Caroline Pires

 

MEMORIAL DE ÁLVARO GARDEL

Em memória de meu pai por quem não pude chorar

Foi enterrado a 28 de maio com aquele casaco que eu lhe dera em 87, que um dos amantes havia me dado ou roubado ou não sei, era um casaco sal e pimenta vagamente inglês, imagine, ele, logo o velho, logo Álvaro que só se vestia no Minelli desde que eu tinha seis anos e minha irmã quatro, mas de todo modo foi enterrado com um casaco de bom corte, sal e pimenta, meio inglês, que roubei ou ganhei ou não sei que amante remoto eu poderia ter arranjado nos confins do naufrágio de 87 (aqui refiro-me ao meu drama pessoal que agora não vem ao caso) porque o dele (o do velho, o de Álvaro) o arrastou muito antes, vinte anos antes, mais ou menos no início de 70 quando eu o enterrei, nós (eu e minha irmã) o enterramos pela primeira vez, o velho louco, desabiondo y suicida, que aprendera filosofia, dados,  timba e a poesia cruel de não pensar mais em si (como naquele tango de Mariano Mores). Por isso aceitou e usou o tal casaco dois números maior, dado ou roubado de alguém que já não precisaria de nenhum (um amante talvez morto ou preso ou exilado) sequer de mim que também já começava a naufragar naquele ano de 87 e meu pai – que só se vestia no Minelli desde 1947 – o aceitou com irônica resignação, o velho pilantra antecipadamente morto, como se soubesse ou adivinhasse ou antecipasse que o enterrariam nele pois que doravante repousa precariamente em paz (mas num excelente casaco de tweed inglês sal e pimenta) no columbário número 80 do cemitério de Vila Mariana, ala B.

(Em 26.06)

Há um mês mandei inscrever a lápide com um nome e duas datas, premeditando futuramente o painel de azulejos ou ladrilhos, sem contar a inscrição que desta vez sim, mas não foi assim, posto ter sido informada que em três anos o município recolheria suas cinzas à gaveta de modo que seria bobagem gastar dinheiro por tão pouco, o administrador enxugava a testa coberto de razões e fuligem, os grossos óculos de míope, donde a não menos premeditada quanto tola inscrição In Memorian de Álvaro Gardel, pai eternamente amado, suas filhas Júlia e Amanda – 29.05.24 – 27.05.97  igualmente caput – três nomes e duas datas – sequer esta derradeira vaidade lhe foi concedida, velho (ou  negada à mim?) mas tolamente eu insisto: então não restará nada e terá sido só, terá sido tudo: desejo e pó?

Porque eu não sabia ser tão tarde, tão inútil.

Veja bem, não estou tentando penitenciar-me até porque para mim não há perdão nem castigo nem penitência nem remorso (não há pecado para minha estúpida inocência) apenas a obstinada pergunta sem resposta sobre o desígnio da vida de um homem resumido a duas datas e um nome, enterrado com um casaco de outrem (ele que só…) pai eternamente amado, desejo e pó, e então o silêncio das palavras não ditas, dos gestos desfeitos, enfrentar este vazio sem perguntas nem respostas que é meu pai definitivamente morto na antevéspera de completar 73 anos.

(Em 26.05)

“Sua chegada é repentina, inflama-se, extingue-se, é jogado fora”
(I Ching – hexagrama 30 – Li – A Chama, nove na quarta posição)

Desta vez meu pai está morrendo.

Eu deveria ou poderia ou não me restaria outra alternativa além de pegar um ônibus para ir vê-lo pela última vez no hospital quando sua segunda mulher ligou-me: seu pai está morrendo (morrendo entre estranhos, como tem vivido os últimos quinze anos, se fazendo de  cego, surdo e burro).  O hospital fica no quilômetro 27 da estrada de Itapecerica da Serra, com nome de santa que duvido existir alguma chamada Mônica, todavia ocorre que há oito anos – desde que vendi o apartamento, o automóvel, os telefones, os móveis de família, liquidei minha vida (ou o que materialmente restava dela) – e os móveis eram tudo o que restava – desde então experimento, digamos, o lado coletivo e anônimo da vida, o que significa andar de ônibus, metrô e assemelhados, sem contar o cotidiano mais pedestre, indo e vindo de lugares onde ninguém me espera, não sou benvinda (não sou mais), pois há muito não conto, não vivo, não valho o suficiente a ponto de alguém se dispor a perder tempo, gastar gasolina, em atenção ou amor ou amizade ou compaixão ou piedade comigo – eu, sombra de mim.

De forma que na condição de filha, a mais velha, a primogênita, teria que pegar um ônibus para Itapecerica da Serra, a norma exigia, os bons costumes, e ir ver o pai ainda uma vez, possivelmente a derradeira.

Mas seria bobagem.

Porque eu sei (eu e minha irmã sabemos) que é bobagem, que este cara está morrendo há 28 anos, que começou a morrer  quando eu o internei pela primeira vez no sanatório para a cura de desintoxicação – ele, o alcoólatra,  o desgarrado, o infeliz, o despojado dos bens desse mundo, até mesmo do amor e  orgulho, o vaidoso  dipsomaníaco.

Foi em 71.

Recordo-o vagando no escuro corredor do escritório onde eu trabalhava (meu primeiro emprego com carteira assinada e direito ao INPS). Vinha vacilante, macerado em álcool, subira sozinho os nove andares (enquanto os irmãos esperavam-no lá embaixo  sentados no taxi com taxímetro ligado, que aliás ele pagaria) para pegar a guia de internação e eu lhe entreguei rapidamente o envelope, temendo ser vista ou que o vissem ou que nos vissem, mas ele desapareceu, um meio sorriso torto, sugado pelo elevador, reconduzido de volta à rua onde o aguardavam no taxi para levá-lo e interná-lo e trancá-lo e jogar a chave fora.

Porque eu apenas era jovem (ah, a juventude, essa falha impossível de se evitar em dado período da vida) naturalmente cruel e impiedosa como todos os jovens que acreditam com absoluta certeza na vitória e na esperança, no poder e na glória eternos e para muito breve.

Então eu não tinha tempo para você, velho, para parar e olhar pra você, voltar-me e te ver despojado dos bens desse mundo – alcoólatra que naufragara, silencioso e hostil, inconquistável rendido indiferente, sem implorar (porque se ignorava despojado da  sua fortuna pessoal, aquele capital inalienável de sanidade e lucidez ) – eu é que estava suja aqui dentro, porque a tua derrota, a tua rendição doía em mim, velho,  então melhor te excluir do pensamento e do coração, fingir que você não existia, porque eu não ia me voltar para te olhar  (estacar a meio caminho da vitória iminente) parar e olhar para você só para me sentir um lixo,  por isso te internava e internava obsessivamente em sanatórios onde  te deixava, te  trancava e jogava a chave fora.

Mas não vou pegar ônibus nenhum.

Aos 43 anos não se pega ônibus nenhum — além de velha, derrotada – e de certa forma sim, derrotada, mas precisamente por isso não vou pegar ônibus nenhum para te ver morrer, meu chapa, não definitivamente.

Porque nós merecíamos mais do que isto, alguém assim que nos acompanhasse, amigo e silencioso, nos pagasse um café à beira da estrada, a meio caminho do hospital da tal santa que não existe, oferecesse um saquinho de balas, nos estendesse o lenço voltando o rosto para não nos ver chorar e – sobretudo – porque era preciso que você me visse derradeiramente acompanhada, não mais a filha da sua orfandade, e então partisse consolado pelo fato de não me deixar tão só e  já tão distante da breve vitória, sabendo-me amparada por alguém a conduzir-me sem contudo me carregar – qual troféu, qual fardo, tanto faz, depende do ponto de vista – posto que a mim já basta minha dor.

Solicito apenas tempo, lugar e o direito de chorar derradeiramente por meu pai cuja alma se apagou há 28 anos e hoje definitivamente de corpo e alma, duas vezes morto e acabou-se.

Terá sua morte sobrevida? Terá a alma sua palma? Sim ou não? Terá o espírito gás suficiente ou se extinguirá num sopro, rendido ao demônio do abismo? – como se nunca tivesse existido, porra.

Decidi-me por não (aos 43 anos não se pega ônibus nenhum e muito menos nas ditas circunstâncias, etc.) ir, velho, acho que em nome duma derradeira dignidade, ao menos hoje, ao menos desta vez, a última, porque será para sempre.

Aliás, ambos merecemos esta última dignidade – o transitus da vida à morte – de não estarmos sós, os passes de ônibus amassados entre os dedos, como se fosse tudo o que daqui levaríamos, a passagem para o outro lado – o óbolo de Caronte?

Porque não se joga fora o coração metendo-o num ônibus para dizer adeus apenas com um passe amarrotado no bolso, o símbolo desta sub-vida, desta sub-paisagem  de postes e fios,  deste sub-horizonte de cães onde transito (que é uma das tantas formas de estar morta) daí  não haver muita diferença entre você e eu, meu chapa, porque também fui despojada, também me fodi – nem que estivesse na sua cola, velho – puxei você, puxou ao pai, eis o óbolo (o passe de retorno ao mundo dos mortos vivos).

Nada, sequer o bolo de mel, a coroa de flores, unicamente a moeda de Caronte a ser paga ao barqueiro pra te atravessar para o outro lado, entrando assim na morte com as mãos vazias.

Ficarei te devendo também isto.

E devo-te ainda mais porque devo à mim, não sem razão de tal forma sou cobrada, conquanto toda humilhação seja uma penitência, todo fracasso, uma misteriosa vitória, todo acaso, um encontro marcado, toda morte, um suicídio, mas não vejo consolo algum nesta sórdida teleologia, pois  existe algo em mim que não se compraz com palavras, não trafica com sonhos, não negocia e também não adiantaria, porque tem um limite até onde se pode enganar-se a si mesma (sem contar o descarado plágio avant la lettre borgiano).

Por enquanto, devo a Deus e todo mundo pois que outra forma de explicar o fato de reiteradamente me voltarem as costas deixando-me há anos e à margem com dois passes de ônibus de ida e volta para o Limbo – do nada ao nada? E agora me abaixa Horácio (ou será Hovídio?) para lembrar que o homem é a soma das suas condições climáticas, é a soma do que se tem, uma problema de propriedades impuras que se desenrola fastidiosamente até o nada inexorável: desejo e pó.

Sem lastro, sem guia e a lembrança da breve, artificiosa vitória (esta, a misteriosa vitória? eu passo) que era falsa e eu não sabia, que não podia perdurar o meteoro cuja órbita já é queda, se inflama e extingue-se, a menos que não tivesse de ser assim, a menos que sob os escombros ainda seja a carne, sempre a velha carne, a voz do sangue que a tudo reivindica, inclusive o direito à dor (a esta dor, a minha, a da filha, o ônus da primogenitura) pessoal, intransferível e única dor, a de chorar o pai (o único) enquanto agoniza (apenas uma vez ) e desta vez (de uma vez por todas) para sempre.

Post-Scripitum: O presente relato foi escrito a 26 de junho, um mês após o enterro, e 26 de maio do mesmo ano, na madrugada anterior à morte (que intuí inevitável embora sem dados da realidade para comprová-lo) aproximadamente durante os momentos de agonia. De modo que esta oração fúnebre escreveu-se furiosamente, desenredando-se em sentido inverso, ou seja, para trás, para baixo e de costas (a despeito de mim)  –  direto ao centro dilacerado e oculto da dor.

 

 

A escritora paulistana Márcia Denser publicou, entre outros, Tango fantasma (1977), O animal dos motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), A ponte das estrelas (Best-Seller, 1990), Caim (Record, 2006), Toda prosa II – obra escolhida (Record, 2008). É traduzida em nove países e em dez línguas. Dois de seus contos – “O vampiro da Alameda Casabranca” e “Hell’s Angel“ – foram incluídos nos Cem melhores contos brasileiros do século, organizado por Ítalo Moriconi, sendo que “Hell’s Angel“ está também entre os Cem melhores contos eróticos universais. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, é pesquisadora de literatura e jornalista. Foi curadora de literatura da Biblioteca Sérgio Milliet em São Paulo.

 

 

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103ª Leva - 06/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Fernando Rocha

 

Caroline Pires
Ilustração: Caroline Pires

 

EX-FETO

Aquecido e alimentado, dentro do útero materno, sem mais nem menos, agora, eu não sou mais um feto, mas também não evoluí para o estado de corpo independente, espaço de uma geografia ilusória.

O planeta parece um útero que não pari. Sua gestação infinita não carece de óvulo nem de espermatozoides, num coito com o invisível seus fetos surgem e caminham rumo ao mesmo nada. Há aqueles que constroem a ilusão de que já estão prontos, seguem ritos sem sentido, ritmo da valsa de destruição, regida pelas próprias vítimas.

Contudo, há os como eu, os que com um olhar opaco, miram tudo, mas o gesto dos olhos não traz a sensação de pertencimento, pelo contrário, apenas cria uma distância que não pode ser percorrida, apenas sentida e de tão sentida parece nem existir: condenação ao vazio.

Lambo as paredes da placenta, queria ter dentes para machucar quem me prende neste lugar onde a lógica, na maioria das vezes é sinônimo de crueldade e na minoria é o algoz do bem estar.

Romper o cordão umbilical numa greve de fome irreversível! Morrer talvez me dê chance de existir de alguma maneira.

***

RETRATO DE UM CEGO

 

Um fotógrafo ajeitando um cego para um retrato, o olhar vazio do modelo, lábios cerrados como uma escultura do silêncio. O que passa em sua cabeça? Num pequeno banco sem encosto, ele parece não se incomodar, ali estará preso pela eternidade do instante, dentro de um retrato que nunca poderá comtemplar.

Sentir o flash nos olhos quase mortos, opacos e sábios como uma reencarnação de Tirésias. Civilizações em frente a sua lente, com qual foco poderá acolher todas as vibrações fantasmagóricas que acompanham aquele ser?

Aqui do outro lado seguem as nossas impressões excluídas do momento, mera contemplação que sente auxiliada pelo intelecto, privada pelo instinto não nomeado.

 

Fernando Rocha é paulistano, nascido em 1981, graduado em Letras, em 2013 publicou o livro de narrativas curtas Sujeite sem verbo (Confraria do vento), em 2014 publicou a novela Os laços da fita (Penalux). Colabora com as páginas Letras et cetera, Letras inacabadas e Meleca-Chiclete.

 

 

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103ª Leva - 06/2015 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Geraldo Lima

 

Ilustração: Caroline Pires

 

MULHER NA CADEIRA DE VIME

 

O cenário, uma sala com decoração minimalista. Só a reprodução de Mulher sentada apoiada sobre os cotovelos, de Pablo Picasso, fixada na parede frontal, atrai de chofre os olhos do visitante.

Depois disso, percebe-se o tom suave do azul brisa do mar das paredes. Tudo isso, obviamente, se os olhos não captarem com mais interesse a silhueta feminina exposta no lado esquerdo do cômodo. Não se trata de uma reprodução, e isso logo se vê. Tampouco está decomposta como numa pintura cubista.  Embora ele não a veja ainda por completo, o ser no seu todo, seus olhos já transbordam.

Ela está sentada numa cadeira de vime natural, o corpo todo resumido nesse espaço de fibras e reentrâncias.  Os olhos, cerrados, parecem entregues aos caprichos da memória e seus labirintos. Ela não o viu entrar, ou finge não tê-lo visto. Finge, é o que se pode deduzir, pois a porta foi aberta sem nenhuma delicadeza. As dobradiças, carentes de lubrificante, rangeram alto. Ela, no entanto, permanece assim: a cabeça levemente jogada para trás, como quem tira um cochilo.

Ele para diante dela, esperando que abra os olhos e o veja.  Espera inútil, alguém precisa lhe dizer. A mulher, movendo-se um pouco na cadeira (deixa, talvez, os pés escorrerem e tocarem a frieza do porcelanato), poderá até descerrar os olhos opacos e tentar focá-los na direção dessa voz que agora a cumprimenta. Tenta, sem desespero, buscar essa figura que ela imagina como sendo um homem alto e forte. Um homem que ela decompõe e vai remontando a seu bel-prazer.

 

 

 

***

 

 

 

DOIS

 

Aí ela inventava umas coisas, meio que no desespero. Quanto tempo isso dura?, devia se perguntar, enquanto tinha aqueles insights, aquelas malícias próprias de uma mulher tentando fincar as raízes do amor na areia movediça de encontros furtivos. Ele chegava, ela abria a porta, e lá estava a surpresa, a isca, a invenção do dia, o jeito de cativá-lo para que aquilo durasse pelo menos um dia a mais, aquele resto de tarde, quem sabe? Colocava uma música lenta, romântica de partir o coração em pedacinhos, colava o corpo ao dele, dança comigo?, e então dançavam, quase sem sair do lugar, apenas sentindo, sentindo, sentindo. Ela queria que aquilo durasse uma eternidade, mesmo sabendo que iria acabar, acabar ainda reverberando, trincando por dentro, chamuscando a carne, assombrando a memória. Talvez por isso tivesse aqueles achados só para não afundar definitivamente no desespero, na sensação de finitude, no magma que sufoca até a morte. Você me carrega no colo até o quarto?, ela lhe pediu da última vez em que se encontraram.

 

 

 

 ***

 

 

ELA

 

É como se não tivesse ficado tanto tempo longe de casa. Como se não tivesse, num rompante do mais louco romantismo, abandonado tudo em nome do amor mais extremo. Olhando-a assim, tão desenvolta na casa que ela renegou um dia, podemos nos espantar com a sua certeza de que ainda cabe ali, de que não há outra em seu lugar, de que ele não trocou a fechadura exatamente para que ela entrasse sem precisar tocar a campainha. E aí está ela, desfazendo a mala, indagando sobre o comportamento das crianças (nem percebe que cresceram, que praticamente não a reconhecem), e reclama do guarda-roupa bagunçado, reafirmando, talvez, a necessidade de sua presença ali. Ele, até agora, observa tudo pasmo, com um engasgo, uma vontade de dizer algo, uns desaforos, uns desafogos, indagar, se impor, mas sente-se atravessado por sentimentos contraditórios: enquanto busca em si o ódio, a faca que trincha, um fiapo de alegria deixa-o mole, aliviado, quase a ponto de chorar. Intenta reagir contra essa fraqueza, porém já é tarde, ela domina o ambiente, preenche o vazio de antes, dando a nítida impressão de que tudo está começando agora, sem pus algum na ferida que lateja ainda exposta.

 

Geraldo Lima é escritor, dramaturgo e roteirista. Autor de Baque (contos), Tesselário (minicontos) e UM (romance).

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102ª Leva - 05/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Priscila Lira

Ana Pérola
Foto: Ana Pérola

 

O barulho do mormaço

Tu não sabe o que é conviver com o Diabo a vida inteira, conviver com o Diabo a vida inteira é duvidar de Deus a cada segundo.  O Diabo, quando te odeia, te prende e algema tudo ao teu redor: tua mãe, que ama o Diabo, e teus irmãos. É assim que ele consegue te fazer ficar. Lama, lama e lama tinha gosto a minha vida. Nasci na lama, feito um porco. Burra que era a minha mãe (de ter uma ninhada, de ter olhos de bicho que não enxerga xyz, que não sabe o que é o Diabo, que não sabe nem o que é a loucura de viver na lama com uma ninhada e o Diabo), burra que era eu, menos que a minha mãe, burros e esfomeados que eram meus irmãos, burro que era o Diabo, burro e cruel, burro e tarado, burro e nojento. Porca que eu sou, porque convivi na lama com o Diabo a vida inteira.

Quando era criança e, na catequese, me ensinaram o que era o Diabo, logo vi que ele estava na minha casa, escondendo comida, me comendo, quebrando garrafa, quebrando a burra da minha mãe, esbugalhando de medo os olhos esfomeados dos meus irmãos. Quando o Diabo vive contigo, ele nunca mais sai de ti.

Eu corria para a esquina e tentava fugir do Diabo. Subia na mangueira e gritava o nome do meu pai, mas só ouvia o barulho do sol quebrando as folhas. Porque meu pai morava com Deus, ele nunca me responderia, a gente trocou ele pelo Diabo. Eu gritava o nome do meu pai, gritava que ele tinha me abandonado e me deixado na lama, no inferno, ele não respondia, estava feliz, no céu, com Deus, sem fome, dormindo nas nuvens e decepcionado com a gente, que dormia com o Diabo.

Meu pai não respondia, mas meu estômago Gritava, meus irmãos choravam na minha lembrança e eu, pequena e burra, presa na lama, lesma inútil, voltava para o inferno. Se tu pensa que o Diabo sempre maltrata, tu é mais burro que eu. O Diabo engana, te abraça, te dá pão e café com leite, corre contigo no quintal, depois te come, te bate, te joga no chão e quebra garrafa. O Diabo toma banho, passa perfume, vai na igreja, reza o pai nosso, aperta a mão dos irmãos, conta histórias inventadas da vida, diz que ama, diz que cuida, depois te fode, te todos os lados, de todos os jeitos, de todas as formas. Fode, fode, fode. É nojento o Diabo, feito de barro por dentro e por fora, com cheiro de fossa e pele de pedra. Eu via o desgraçado passar perfume, mas aquilo, no meu nariz, era essência de esgoto, cheiro de raiva guardada, que rasgava meu olfato feito gilete, chegava na goela e dava ânsia. Barro e enxofre formavam aquele monstro com a Bíblia debaixo do braço apertando a mão da vizinha burra, que me olhava de cara feia e dizia pros filhos não andarem comigo, que eu era indecente.

Indecente eu era na minha rua, na minha escola, a indecente, burra, estranha, muda, feia, suja preta fedida, mas não era surda. O Diabo me chafurdou na lama, eu era toda lama, assim ele fez da minha vida um inferno, até longe do inferno, porque suja de lama que não tinha água que limpasse, o Diabo fez de mim o Diabo.  Ninguém tinha medo de mim Diabo, tinha ódio, nojo, eu não era bem-vinda no céu da vida dos outros, nem por meu pai, Deus o tenha.

Por isso fugia e me escondia, até a fome bater, no escuro empoeirado da sala de livros da escola, porque lá ninguém sentia meu cheiro, nem via minha cara diaba, lá eu não ouvia me gritarem de muda. Foi lá que tive a ideia de matar o Diabo. Mal eu sabia que uma vez na tua vida, nunca mais ele sai.

Mas o Diabo tinha a herança do céu, do tempo que Deus o criou do barro. O Diabo gostava de doce, de suspiro. Todo dia comprava suspiro na padaria. E ficava feliz, sorridente, comendo suspiro. Dava café com leite e pão pra mim e meus irmãos, corria com a gente no quintal, mas aquilo era a porta do inferno, a gente sabia e aproveitava, não havia como correr da porta do inferno, só nos restava aproveitar o prelúdio da desgraça. A gente não tinha raiva do anúncio que o suspiro trazia da padaria nas mãos do Diabo, porque sabíamos que o suspiro era o que restava do paraíso naquele enxofre de homem.

Uma vez o Diabo me obrigou a fazer uma receita de suspiros, porque a padaria não abriu. Eu coloquei purgante no suspiro para me vingar, e depois o Diabo se vingou de mim, em mim, na minha mãe e nos meus irmãos. Nesse dia eu corri do inferno e no dia seguinte, na sala de livros, decidi matar o Diabo. Não seria uma morte cruel, como as que eu fantasiava para ele todos os dias, porque eu não queria ver ele morrer, eu queria o Diabo morto!

Eu, a indecente, suja, nojenta, rasgada, roxa, muda, lesma inútil, não queria voltar para casa depois do terror da noite inferno passada. Não queria ver a cara de paraíso dos outros. Queria morrer, mas se morresse, iria para o inferno eterno e nunca mais veria meu pai. Por isso resolvi matar o Diabo, assim teria tempo de pagar meus pecados e finalmente dormir nas nuvens.

Escureceu, ninguém deu por minha falta, voltei para casa e o Diabo dormia virado de costas para a burra da minha mãe. Matando o Diabo, eu fugia, e ela podia ser burra e feliz com a ninhada de infelizes longe daquele inferno, enquanto eu pagaria os pecados e depois encontraria meu pai. Uma faca de cozinha no peito, ele arregalou os olhos e me agarrou o braço. Foi virando água e me largando len… ta… men …t… … … e. Roubei o saco de pão na cozinha (mais um pecado para pagar nessa vida desgraçada), corri e subi na mangueira da esquina, a esperar que o inferno final se armasse lá em casa com gritos e polícia. Silêncio.

O que eu não sabia é que a vida é um formigueiro de infernos e que o Diabo me perseguiria, agarrado no meu braço com os olhos assustados, para sempre. Fugi, mas a fome, a rua, a chuva, o sol, o frio, me transformaram no Diabo e eu não conseguia terminar de pagar meus pecados. Jamais chegaria no céu, meu pai se esqueceria de mim ou rezaria para que a Diaba que ele um dia chamou de filha, nunca mais aparecesse na sua frente. O mundo me fodia, fodia, fodia, de todos os jeitos, todos os lados, todas as formas, cuspia em mim, na porca, nojenta, fedida, burra, Diaba. Numa noite, sem dormir, com medo do Monstro que matei, percebi que inferno maior que esse não havia, que o inferno estava na minha cabeça e de lá não sairia sozinho.

Por isso deixei que um homem sorridente me fodesse pela última vez, por um saco de suspiros. O que eu farei depois? O que devia ter feito desde o ínicio, mas burra que sou, não percebia: Abrir a minha cabeça com a faca ainda suja de sangue do Diabo, tirar aquele ninho de enxofre lá de dentro e encher o vazio com suspiros. Os suspiros, resto de céu que sempre esteve na minha vida, me levarão até meu pai, com quem dormirei nas nuvens, a esperar o dia em que minha burra mãe e a ninhada façam o mesmo.

O formigueiro continuará aqui embaixo, misturado aos sangues da faca.

***

 

Petit Mort

As flores amarelas de medo daquele velhinho pornográfico estão por toda parte. Hoje, domingo ensolarado, uma delas acordou tremelicando sobre o meu peito. Desonrarei os compromissos, quebrarei amizades novas, pouparei o exercício de simpatia alheio, não sairei de casa. Além do mais, posso aproveitar o calor e lavar minhas calcinhas.

É crua a vida. Alça de tripa e metal. / Nela despenco: pedra mórula ferida. / É crua e dura a vida. Como um naco de víbora“. Será que a Hilda lavava suas calcinhas? Será que as estendia no varal da Casa do Sol? Ou, como eu, não gostava de expor assim o seu sexo e as secava atrás da geladeira?

Por todo lugar brotam as flores amarelas, hoje o mundo tremelica de medo, os ditadores, o povo, os democráticos, os ex-militantes, as mães de estudantes, o moço revistado com maconha no bolso, as mulheres com o rosto escaldado condenadas à feiura eterna, eu. Morreremos todos, medrosos. Mas preciso lavar as calcinhas.

Sonhei que havia um espelho na cozinha, eu parava em frente a ele e me observava, tirava a camisa e o reflexo me dava um tesão imenso. Deslizava a mão sobre os seios e descia até a barriga, os olhos fixos no meu outro. Acordei. Uma pena, a excitação do sonho perdeu-se junto com ele.

Fumarei um cigarro, colocarei uma música e vamos às calcinhas. Também não gosto de lavá-las na área de serviço do prédio, uso a pia da cozinha mesmo, podia ser a do banheiro, mas a janela que fica contra a torneira é muito agradável. Gosto de pensar que as tantas janelas vizinhas estão logo ali, de frente para esse quadrado, a me olhar, de costas, esfregando minhas calcinhas. E saber que, apesar disso, ninguém está vendo.

Eu cheiro cada fundo antes de lavar, para ter certeza que meus fluidos continuam transparentes e inodoros, ou com o odor de sempre. Imagine um voyeur assistindo isso tudo e ficando louco. Essa branca de bolinhas pretas eu usei no dia em que esqueci de descer no ponto de ônibus do trabalho, a rosa, não lembro, a cuequinha preta foi naquele dia que encontrei o pessoal, ela fica bem com a minha saia longa, aperta a barriga e meu corpo parece mais bonito.

“Tinta, lavo-te os antebraços. Vida. Lavo-me”

Essa é a melhor parte, o momento em que eu coloco as mãos dentro do vestido, seguro em cada ponta do meu quadril e deslizo a calcinha que uso. Sinto-a passando pelas coxas, até ficar cambaleante e eu apará-la no pé. Ah, um voyeur assistindo isso tudo. Assistem, todas essas janelas me veem tirando a calcinha e ficam boquiabertas, fazendo promessas para que eu também lave o vestido.

“No estreito-pouco / Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida”  

Calcinhas escondidas, uma por uma, no varal elétrico. Meio domingo para ainda existir. Podia continuar a brincadeira do sonho, não mais com o espelho, com a janela do quarto. Todos esses quadrados, preparem-se, o vestido cairá! A cama de frente para o sol, as pernas abertas para todas essas pessoas, o meu corpo despido para mim. Todos esses sinais, esse par de seios que contrasta tanto com os meus braços bronzeados, o pequeno relevo que se forma nas costelas, o umbigo, o quadril estreito, as coxas com uma leve penugem que reflete a luz, as canelas ásperas, quando tomar banho vou depilar, tudo isso é meu. No sonho, eu tinha razão. Vocês, medrosos, olhem para mim, esqueçam o câncer de próstata e as doenças venéreas, esqueçam as crianças mortas da Síria, esqueçam Fukushima, eu estou aqui, de pernas abertas, o vestido caiu, paguem suas promessas.

A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos”. A Hilda ia gostar de me assistir.

Meu dedo andando em círculos percorrendo os pelos, desce, desce, molha-se. Desculpem-me, não há narrativa aqui, apenas hidromúrias rebeldes, solitárias, quebrando o protocolo. O meu corpo convulsiona na cama, os dedos encharcam, “a vida é líquida“. Fecharei as cortinas, uma salva de palmas antes e voltem aos seus afazeres dominicais ensolarados. Preciso chorar o medo do mundo.

Priscila Lira (Pitinga/AM, 1991) é uma poeta e contista amazonense radicada em Curitiba, onde faz mestrado em literatura (UFPR). Tem um e-book publicado, Manual de Feitiçaria, disponível no Scrib e no Camaleo, e um livro de contos no prelo: O Barulho do Mormaço.

 

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102ª Leva - 05/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

João Bosco

 

Foto: Ana Pérola

 

O Baptizado

 

O dia está abrasador e eu não aguento tanta presença entre garrafas de água. A ressaca dói-me como uma primeira vez, apesar de já não ser novidade. É o baptizado do último primo que não sei se o será e eu sinto-me como se caminhasse por entre um sonho onde mal dou por quem passo. Cada parente pesa-me como um membro edemaciado, pendurado pelos nervos directamente no meu cérebro, hoje de gelatina. Tenho que sair deste lugar tão familiar na pedra e no sangue, com agulhas quando me olham e eu sem conseguir compor-me no fato descosido que hoje sou. Tenho que sair daqui e encontrar-me comigo em algum lado onde hajam só olhos para dentro, até me passar esta náusea nada metafísica e reaprender a caminhar de outra forma e não desta em câmara lenta, pensando cada passo para parecer natural e dando cabo de todo o teatro de improviso.

Tenho que me manter eu. Tenho que me manter o eu a que estes estão habituados. Não posso deixar que estes saltos de consciência se manifestem no que sou para o mundo. É festa, a gente está para festejar e não para serem contagiados pelo meu funeral de neurónios. Funeral, baptizado… e eu a ter que aguentar isto tudo, só por causa da religião destes, depois de uma noite herege deste. Se soubessem que as religiões surgem de esquizofrénicos que foram levados demasiado a sério por multidões…

Não sei o que o futuro me reserva, mas talvez um barco, não dos que descobriram a Índia cheia de indianos, mas dos que levam a glande ao colo do útero de uma sueca qualquer, já riscada no mapa por um filho de chileno. Os do novo mundo antecipam-se, mas de vinho… E a irmã ao lado adormecida por um fingimento também ruivo, acordada por uns dedos que desaparecem no vácuo de tanta espera líquida. Só me espalharei numa delas, mesmo dentro de ambas até elas todas ruivas no fim. Não haverá beijos porque o vinho chileno não quer e nada mais será que uma memória de um futuro no passado recordado onde fiquei e estou. Nunca saberei a marca do vinho chileno, mas também depois do orgasmo já não vale a pena.

Pode ser que a distância que me está reservada a percorrer no espaço, chamar-lhe tempo se for mais fácil assim, seja só a que vai desta casa do povo, desta aldeia pequena, até ao lameiro do meu avô onde se ouve o sino da igreja, mas não se vê sinal de telhados laranja ou casas brancas com os palheiros castanhos a assinar a ruralidade que persiste. Pode ser que o tempo todo que tenho ainda que soprar, como vidro quente, no caminho, ou debaixo das macieiras, ou o tempo todo que esse tempo todo será, até o prolongar.

Toda a gente me conhece no baixo da casa do povo menos eu. Os braços são-me mais estranhos que aquele sapato de salto alto pendurado no pé de pernas depiladas para a festa. Mal consigo abrir a décima garrafa de água. A sede que tenho nem parece ser minha, por mais que eu beba, não se vai embora. Devo estar a beber com o corpo errado. Os meus tios insistem em cerveja e eu a fingir-me de doente ou santo. Seria o melhor remédio, mas a noite será de festa outra vez e queria guardar-me para depois do casamento. Ninguém me conhece de verdade, no baixo da casa do povo.

Feliz Natal.

Direi na manhã que me espera, na ilha em marte, longe de ontem, longe de hoje, daqui a umas horas se o tempo me levar sem o peso do corpo. Feliz Natal e um ano novo que não se vê a chegar nunca, passa e fico igual, só o número muda, só a ideia a esperança ridícula que seja melhor que o último, só porque é novo… pois ontem estava melhor: bêbedo, pouco eu, mais nos outros, sem uma caneta espetada no cérebro para escrever o que se passou, para o amanhã ser a continuação falsa do que acaba sempre…

Não sei onde estive ontem à noite. Acordei em mim e só, nada a reclamar. Foi festa na terra e acabou mais tarde que o seu fim, para isso servem os amigos e os bêbados. Sei que houve, quando a cor do céu se torna púrpura, uma grade de cervejas quentes no meio do jardim de paralelos com a música a desafiar os guardas que nem se interessavam de males menores. Sei que falei pela primeira vez, sem ter sido eu a falar, com alguém que conhecia há muitos anos. Dizem-me que às vezes tímido, digo que às vezes com pouca vontade para o que não vale a pena e pouco dura. A mim nem me quero conhecer apesar de andar sempre a queixar-me. Sei que houve abraços sem dúvidas, num estado duvidoso, por razões sem existência, apenas porque havia aquele momento e uma força maior que o nosso pé atrás a empurrar-nos na direcção do que sentíamos, fosse quase nada, fosse uma euforia irracional só por se estar ali no centro do jardim de paralelos, com uma garrafa de cerveja quente, a ouvir música sem se dar por ela depois do dia da tão esperada festa. Sei que esticamos a noite até se romper com o dia e que tentamos desacelerar o tempo com golos apressados, só não sei onde estive ontem à noite. Hoje, que deve ser onde… que deve ser quando estou, não sei quem foi aquele gajo, mas invejo-o, porque hoje ainda há luz e ando a água.

Ainda longe dos paralelos da cerveja quente, estive com os dedos dentro de um candeeiro no passeio, encostado a uma loira acesa, sem qualquer pudor, ou sem consciência para isso, só a vontade. Encostei-me contra a porta descascada da casa antiga, hoje velha, dos senhores ricos em decadência bebendo loiras, confundindo a sólida com a líquida, fazendo com que a sólida líquida e a líquida em pouco tempo a jorrar do sólido. Tudo acabou antes do fim porque no meio da rua da terra pequena não é lugar para se dar liberdade à vontade, mais vale esperar uns dias até a casa estar vazia e uma desculpa estar cheia e infalível, uma cama para desfazer e a ansiedade de ter tudo planeado e previsto quando nada sai como previsto por causa da ansiedade. Trapalhada de lençóis e pregas de pele que se colam ao corpo como sanguessugas de orgasmos, chupando, chupando e o sangue a vir de longe de nós, de um lugar onde não sabíamos existir.

Treme-me o cérebro e sinto-o nos movimentos descoordenados dos braços a levar-me água aos lábios secos, de escamas a saltar no sal dos peixes afogados. A vida passa como uma sucessão lenta de imagens, como se o condutor do tempo estivesse a aprender a conduzir entre travagens bruscas e um acelerador de ejaculações precoces. Devo parecer uma marioneta e este lugar cheio de gente que julga conhecer-me a tomar conhecimento da minha condição, tropeçando nos fios que me controlam, provocando-me espasmos inesperados. Não tarda passa-me do corpo ao que sou realmente e salto anos em segundos sem sair do mesmo espaço, louco por dentro, que são os mais comuns e menos reconhecidos.

Savonlinna, 2010

 

João Bosco da Silva nasceu em Bragança (1985). Estudou no Porto. Vive e trabalha em Turku, na Finlândia.  Publicou os livros Os Poemas de Ninguém (2009), Disse-me António Montes (2010), Bater Palmas E Sete Palmos De Terra Nos Olhos (2011), Saber Esperar Pelo Vazio (2012),  Destilações(2014) e Trepanação de Jerónimo Bosch (2015).