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151ª Leva - 01/2023 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Geraldo Lavigne de Lemos

 

Ilustração: Viola Sellerino

 

 

A descoberta do infinito

 

Ariel e Duda tinham uma grande amizade. Nasceram na mesma data e local. Enquanto Ariel queria agitar, Duda cuidava de tudo. E era isso que fazia a amizade tão forte. Completavam-se nas diferenças. Ariel nunca abandonou Duda no tédio. Duda jamais deixou Ariel entrar em enrascada. Contudo havia algo errado. O mundo parecia estar de cabeça para baixo. Minhocas que eram, viviam na terra. Sabiam que em direção ao centro do planeta tinha pedra e, mais para dentro, tinha muita quentura, tanta que a pedra derretia. Para a direção contrária, o mundo terminava nos limites da superfície, onde a terra se limitava com o ar. Minhocas ocuparam a região subterrânea desde o início dos tempos. Porém nenhum salto de minhoca nos ares foi registrado. E isso intrigava Ariel. Talvez temessem a captura por seres que habitavam aquele espaço, como aves, humanos e toupeiras.

Certo dia, Ariel convenceu Duda a irem aos limites do mundo conhecido. Queria testar a realidade. E queria registrar aquele momento. Por isso Duda iria também. Ariel portava uma câmera fotográfica. Quando chegou à casa de Duda com o plano pronto, a primeira foto foi da sua expressão reticente:

– Tsc tsc tsc, isso não vai dar certo, disse Duda balançando a cabeça de um lado para o outro.

– Claro que vai, Duda, e lembrarão de nós por isso, respondeu Ariel categoricamente.

Os olhares se atravessaram de forma profunda. Ariel já sabia a resposta. Se isso acontecia, Duda tinha topado. Era um desafio singular e Duda sempre acompanhava Ariel em suas ideias.

– Não passaremos por essa vida à toa, afirmou Ariel.

– Mas não faço questão de escolher algo que seja perigoso, retrucou Duda enquanto caminhavam pela rua central do vilarejo.

Caminharam uma hora pelas raízes laterais, depois duas horas pela raiz pivotante, até atingirem a zona principal das raízes do Ipê-amarelo, perto do tronco, e pararam para descansar. Pegaram o lanche na mochila, a água, e confabularam o que poderia existir na atmosfera do planeta terra. Será que de fato conheciam? O que aconteceria naquela jornada? Eram dúvidas que somente seriam respondidas depois que terminassem o dia. Finalizaram a refeição e seguiram viagem. Afastaram-se uma boa distância do tronco do Ipê-amarelo e depois subiram em direção ao fim do solo. Quando atingiram a superfície, conheceram de imediato o infinito. Que visão esplêndida! O tronco do Ipê-amarelo erguia-se imenso, com a copa aberta lá no alto, tão distante, seguida de um interminável azul do céu. Enquanto contemplavam a vista sem precedentes, a brisa acariciou os seus rostos e sentiram algo realmente novo.

– Ariel, nada que eu pudesse imaginar explicaria o que sinto agora, confessou Duda.

A manifestação não demandava resposta. Sorriram e continuaram a sentir a brisa. Era um dia de verão. O tempo estava limpo, a temperatura amena. Poderiam passar dias assim, não fosse o risco desconhecido. De onde estavam, planejaram como seria o salto. Duda permaneceu no mesmo lugar e Ariel foi até a raiz mais próxima, que estava exposta fora da terra. Subir uma raiz não era como andar no subsolo. Precisava de mais equilíbrio para superar os obstáculos sem apoio, vencer a gravidade e não escorregar. Para Ariel não foi tão difícil, mas para Duda seria. Duda suava só de ver Ariel vencer cada etapa.

– Duda, existe muito mais terra do que sempre imaginamos!

A exclamação de Ariel tentava traduzir a sensação de enxergar o gramado que circundava o Ipê-amarelo, as árvores ao fundo e o desconhecido brilho da água reunida no lago próximo. Duda interrompeu seu êxtase:

– Pule logo!

Ariel atendeu à ordem. Retorceu todos os anéis de seu longilíneo corpo e saltou aos flashes de Duda. Enquanto manobrava no ar com a naturalidade inexplicável para qualquer minhoca, um pássaro mergulhou em sua direção. Queria capturar Ariel em pleno voo. Duda assustou-se, gritou, tirou fotos e correu, tudo por instinto e medo. Sentiu então algo empurrar sua cabeça contra a terra e não viu mais nada. Ariel pressentiu a tensão e olhou para trás. O pássaro se aproximava como uma flecha até que bateu uma das asas na raiz de onde Ariel saltou. Lado a lado, Ariel e o pássaro caíram sobre a grama. O pássaro se levantou, encarou Ariel e investiu com toda a velocidade, de bico aberto. Um milésimo de segundo. Nada mais do que isso. Alguém puxou Ariel para dentro do solo e o pássaro encheu o papo de terra.

– Foi por um triz, disse ainda ofegante.

– Quem é você? Perguntou Ariel abrindo os olhos.

– Eu não tinha nome. Moro por aqui desde que nasci. Certa ocasião alguém que passava me chamou de Lee e disse significar habitante do prado. Desde então eu me apresento assim.

– Muito obrigado… mesmo!

Ariel entregou o corpo, mas de imediato se ergueu e indagou:

– Você viu Duda? Estava ali adiante.

– Sim, enfiei na terra quando passei para salvar você, contou Lee sorrindo.

Lee trouxe Duda para perto de Ariel e sentaram para descansar.

– Meu coração ainda está acelerado, disse Ariel.

– Deixe-me ver, atentou Lee ao encostar no seu corpo.

Ao sentir as batidas do coração de Ariel, a expressão de Lee causou estranheza. Duda, para evitar qualquer má notícia, disparou a falar:

– Somos do Buraco de Minhoca, um vilarejo localizado na zona pilífera das raízes laterais desse Ipê-amarelo. Moramos lá, pouco depois da região metropolitana. A capital da população de minhocas do Ipê-amarelo estende-se desde a parte antiga da ocupação, na zona principal das raízes, até a parte nova, na zona lisa, onde ocorre a expansão urbana, interligadas pela raiz pivotante. Você poderia nos visitar um dia, Lee. Agora temos que ir. Temos fotos para revelar e precisamos superar o baita susto de hoje.

– Fiquem um pouco mais, respondeu Lee. Quase ninguém passa por aqui e eu gostei da companhia de vocês.

– Duda tem razão, Lee. Temos que ir. Nós devemos essa salvação a você e será um prazer enorme receber a sua visita em nossa vila. Não deixe de aparecer. Nossa comunidade é isolada e se alegra demais quando chega alguém de fora. E esperamos ter boas fotos para mostrar.

Todos se despediram. Ariel e Duda tomaram o caminho de casa e Lee permaneceu espreitando até não ver mais ninguém.

 

Geraldo Lavigne de Lemos sofre de poesia crônica, costuma alinhavar a alma nas memórias e se imiscuir entre as letras para expressar o que sente. Escreveu cinco livros de poesia, coorganizou uma antologia e tem no prelo uma reunião dos quatro primeiros livros. Agora se arrisca em textos curtos de prosa

 

 

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151ª Leva - 01/2023 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Leandro Damasceno Leal

 

Ilustração: Viola Sellerino

 

Meu filho

 

Angelo Badalamenti morreu. Foi outro dia, foi dia desses. Aqui em casa, ele vive no som que sai das caixas e abafa outro, vindo de uma britadeira tão longe, tão perto. Antes da britadeira, veio o batuque, o da torcida, exaltado a cada transmissão dos jogos do Brasil. Seleção eliminada amanhã faz uma semana, pandeiros e atabaques silenciados, chances de Hexa mais finadas que o compositor, resta ao pedreiro trabalhar hoje sem a ressaca do jogo de ontem, o que não houve, sem a cabeça inchada pela goleada que, muitos garantem, levaríamos da Argentina. Muitos brasileiros comemoram o fato, os fatos, de termos sido poupados da humilhação, de Messi poder enfim levantar a merecida Taça, de simplesmente o Brasil ter se fodido, bem-feito, o time do menino mimado sonegador não me representa.

O rapaz era desses. Metrô lotado, sexta passada, uma hora antes do jogo, camisas e adereços verde-amarelos por toda parte, ele ilhado. Por cima da máscara de novo obrigatória no transporte público, seus olhos se alternavam entre a talvez namorada e os outros passageiros, a uma o carinho, aos outros o desprezo. Cabelo comprido na altura do peito, camisa de flanela da cor do seu voto e camiseta do Ratos de Porão, para não restar dúvidas de que ambos eram vermelhos. As lentes dos meus óculos escuros o impediam de ver que eu o observava e protegiam meus olhos dos seus, mais perigosos do que os raios UVA e UVB.

Eu era só mais um alienado, desprovido de senso crítico, se não pior, quem sabe vindo da frente de algum quartel, saído de lá por poucas horas apenas, só o tempo de ir até algum bar assistir ao jogo e tomar umas brejas com outros golpistas também de folga. Ele era o filho que eu nunca tive, cabelo mais comprido do que o meu na idade dele, mais liso por ter puxado à mãe, a camisa de flanela igual, o voto igual.

Visto pelos olhos do meu filho, passei a também me desprezar, vendido, com a vida ganha, a vida fácil, fácil ignorar a desgraça que abate tantos, o sistema que a tantos crucifica, como diz o Gordo, não se abalar com os mortos, com os miseráveis, famélicos, vestir as cores-símbolo do fascismo tropical, da pátria amada apenas por quem, como eu, não é vítima dela. Isso, tiozão, vai lá ver o seu jogo, vai lá gastar 200 paus, isso por baixo, depois, na saída do bar, passar em frente e ignorar a mãe sentada na calçada, o filho no colo, vai lá, seu arrombado.

Mas eu não sou o que meu filho pensa de mim. Meu filho não existe. O que existe é o som de Angelo Badalamenti e o som da britadeira, cessado há pouco, hora do almoço do pedreiro.

 

Leandro Damasceno Leal é paulista de São Caetano do Sul, onde nasceu em 1977. Desde 1999, trabalha como redator publicitário. Estreou na literatura em 2014 com o romance “Quem Vai Ficar Com Morrissey?” (Edições Ideal). Em 2021, publicou “Olho Roxo” pela Realejo Livros. Em 2022, lançou “Fidel e a peste”, pela mesma Realejo.

 

 

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150ª Leva - 05/2022 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Rodolfo Guimarães Neves

 

Foto: Yuri Bittar

 

O CONCÍLIO

 

Telepaticamente, um filho se dirigiu a um dos pais, ambos diante de um grande visor, pelo qual se observava o esplendoroso planeta Terra em sua contínua rotação. Há milênios os Ankers aboliram a fala.

— Pai, as chances são de 0,3366%.

A Estatística e a Probabilidade dessa civilização eram infinitamente mais avançadas que a dos humanos, aos quais mais pareceriam pura precognição.

— Em quanto tempo? — retrucou o pai.

— Menos de um século, na contagem de tempo deles. Eles estão no ano 2126 D.C.

Uma lágrima rolou do olho esquerdo do Pai, que continuou:

— Sabemos quem viemos resgatar.

O filho fez uma súplica:

— Nossa facção acredita neles, Pai. Dê-nos uma chance. Convoque o concílio.

O Pai olhou para seu filho. Ainda tinha muito que aprender. A compaixão, entretanto, era algo caro demais à sua civilização e devia ser respeitada. Entendia a imaturidade dele e de todos de sua facção.

No coração da gigantesca nave à órbita da Terra, cuja civilização humana sequer suspeitava de sua presença, apesar de todo o seu avanço tecnológico, com seus satélites e estações espaciais, um concílio que decidiria a sorte da Humanidade foi aberto em uma grande assembleia. Ao centro, os pais, à esquerda destes, os filhos da facção humanista e, à direita, os filhos da facção legalista, a grande maioria.

Na abertura dos trabalhos, os pais telepaticamente lembraram a todos os filhos:

— Vocês sabem de nosso propósito neste sistema solar. Não precisamos lembrar que o tempo é escasso e nossa energia, ao momento, também.

A viagem tinha sido muito longa.

Ao centro da assembleia, imagens mentais compartilhadas eram geradas pelo poder das mentes de todos.

O advogado, representante de toda a facção humanista, tomou a frente:

—  Pais e irmãos, a epopeia humana na Terra corre o risco de chegar ao fim em pouco tempo. É algo precioso demais para ser ignorado.

Imagens em sequência de todos os fatos humanos mais notórios foram projetadas ao centro do grande anfiteatro. O líder da facção legalista deu um passo à frente e respondeu:

— Pois a culpa é toda dessa civilização. Eles causaram as mudanças climáticas, ofendendo nossa grande Mãe Natureza, impuseram a si próprios o risco nuclear iminente, perderam gradativamente seus valores e se tornaram vis e malignos. Como disseram nossos pais, aqui presentes, não nos esqueçamos de nosso propósito. Catalogaremos suas conquistas em nossa enciclopédia, assim como fizemos com outros seres.

Os pais assistiam ao debate com olhares serenos e muita atenção.

— Mas eles têm chances de sobreviver e reflorescer! — disse o advogado.

— Ínfimas, nada que possa justificar nosso colossal empreendimento, que tanto demanda tempo e energia.

As imagens ao centro converteram-se em cenas de destruição e guerra.

— Tenham compaixão, meus irmãos legalistas…

— Ora, meus irmãos humanistas, a nossa lei é justamente o Amor. Há diversas espécies mais empáticas que os humanos. Não há como salvar todas do mal que essa espécie que vocês defendem causou.

As imagens ao centro do anfiteatro alternavam-se em representações de cavalos, elefantes, cachorros, pinguins, baleias e outras mais.

O advogado humanista disse:

— Eles são mais inteligentes, têm engenharia, sabem coisas da matemática, colonizaram seu planeta vizinho…

— Não nos faça rir, meu irmão — disse o líder legalista — suas construções, para nós, que estamos a milhões de anos à frente, não se diferenciam muito de uma casa de um pássaro joão-de-barro. A questão aqui é moral, e vocês, humanistas, sabem disso!

Os pais intervieram em uníssono em sua telepatia:

— Lembramos que precisamos de todo o amor possível para vencermos as forças entrópicas do Grande Nada.

O líder legalista lançou um olhar compreensivo aos pais e, logo após, desafiador ao irmão, advogado daquela causa perdida. Este, com lágrimas nos olhos, implorou por compaixão:

— As artes, não nos esqueçamos de sua bela arte.

Cenas de arquiteturas, pinturas, filmes, peças de teatro, esculturas e todas as formas de artes humanas, em sua maior expressão, surgiram no centro da grande assembleia.

— Já está em nossa enciclopédia, irmão, não será esquecida. Além disso, todas as formas de arte humanas estão em declínio há décadas.

— As grandes personalidades dessa civilização e seus grandes mestres benfeitores, seus ensinamentos…

Imagens de Shakespeare, Buda, Gandhi, Jesus, Madre Tereza de Calcutá, Gilberto Gil, Martin Luther King, Mandela, Leonardo da Vinci, Michelangelo e muitos outros grandes nomes da Humanidade foram se desenhando alternadamente.

O líder legalista, com olhar de certa indignação, respondeu em tom grave:

— E o que fizeram com o seu maior mestre? Crucificaram-no!

O advogado humanista retrucou de imediato:

— Eles podem aprender, nós podemos ensiná-los!

Todos os pais, ao centro, voltaram seus olhares reprovadores ao advogado e disseram telepaticamente em tom elevado:

— Não podemos violar a Lei!

O líder legalista engrossou o coro:

— A Lei e nosso empreendimento! Viemos atrás da espécie mais amorosa para salvá-la do perigo iminente. Precisamos de todo o amor no Universo para completarmos nossa missão. Não há necessidade em lembrar que a questão não é inteligência e, sim, empatia.

— Pais, imploramos, eles podem evoluir…

O líder legalista interveio de imediato:

— Assim?

Logo, as imagens ao centro se converteram em perversões, guerras, assassinatos, crimes de todas as espécies, corrupções, vilanias etc.

Os pais, em bloco, abaixaram as cabeças e fecharam os olhos, recusando-se a verem coisas tão baixas, há milhões de anos esquecidas em sua própria civilização.

Em uma última cartada, o advogado converteu as imagens em demonstrações, de afeto, atos de honra, atos heroicos, cenas de nobreza de espírito, cenas de amor familiar, com os dizeres telepáticos:

— Para nós, humanistas, essas pessoas que mostramos agora têm um valor inestimável de amor que supera o conjunto de todas as demais espécies. Deem-lhes uma oportunidade! — disse em retumbante apelo sentido por todos em seus corações.

O líder legalista se voltou aos pais e finalizou seu discurso:

— Estamos aqui pela espécie e não por indivíduos. Lembramos: 0,3366%. Não merecem tamanho risco e consideração. Não podemos encher nossa nave de monstros. Não temos tempo e energia.

O advogado apenas se restou a falar:

— Pais, esperança e compaixão!

Os pais, encerrando o debate em ordem telepática, após breve meditação, obtiveram o consentimento de todos, que restaram em silêncio mental. E deram a ordem final:

— Mapeiem o DNA de todas as espécies amorosas e façam o resgate da espécie mais nobre deste planeta. Não temos muito tempo.

E assim foi feito. Um grande arrebatamento foi efetuado e a nave partiu para outro sistema solar.

Um representante dos pais foi receber, em um imenso salão, os membros da espécie escolhida. Sentiu em seus corações o amor familiar, a caridade, a compaixão, o senso de proteção mútua. Toda aquela boa energia que captou, retribuiu gentilmente.

Com seus passinhos desengonçados, um dos pinguins se desgarrou do grupo e caminhou para mais próximo daquele pai. Nunca tinha sentido tanto amor. Girou a cabecinha para o lado, num misto de curiosidade e alegria, e o olhou com gratidão. O pai retribuiu aquele olhar feliz, que era a própria felicidade da Mãe Natureza, e sorriu.

 

Rodolfo Guimarães Neves. Nascido em 01/11/1979, em Olinda, Pernambuco. Teve poemas e contos selecionados em diversas antologias. Seu conto “O Mal Iluminado” compõe a antologia de contos “23 Formas de Morrer”, da Editora Amélie. É autor da ficção científica “A Dinâmica Orgânica”, da Editora Paradoxo, e roteirista da HQ homônima, nela baseada, juntamente com o quadrinista Pedro Ponzo. É também autor da antologia de contos e poemas intitulada “Eles, Outros Contos e Poemas” e da peça teatral “Ressentimento”, estas últimas da editora IGP. Foi selecionado no concurso de contos “KosmoKontos” da Editora Ventura com seu conto “A Invocação” (2022). Por fim, é autor do frevo de bloco “Cidades Irmãs” e do frevo canção “Aurora das Festa”, cujos arranjos foram elaborados pelo Maestro Parrô Mello e encontram-se devidamente registrados na Biblioteca Nacional. 

 

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150ª Leva - 05/2022 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Adriano Espíndola Santos

 

Foto: Yuri Bittar

 

Homens de bens

 

Naquela tarde, mesmo com o compromisso de buscar o neto na escola, Hélio decidiu sair de casa para encontrar a sua turminha na praça Castelo Branco, porque julgou ser mais importante, caso de providência nacional. Era costume encontrá-la aos sábados, no bar do Jonas Boca de Baleia, só que, desta vez, teriam de bolar um plano. O presidente viria a sua cidade, Fortaleza, no próximo sábado; era imprescindível que o recebessem com honras e pompas, para que se sentisse mais poderoso do que já é – pensava. Falaram sobre as perspectivas da tomada definitiva do poder pelo presidente; que não seria aceitável, de forma alguma, terem novamente o bandido de “nove dedos”. Gozavam e babavam ao falar, tomando, cada qual, a sua cervejinha de lei. Hélio achava que a conversa se estendia e que perderiam o fio da meada: “Caros patriotas, um minutinho de sua atenção… Precisamos mostrar a nossa lealdade ao nosso chefe maior, e, para isso, temos de ser merecedores das insígnias nacionalistas. Explico-me: o tempo está acabando. Chegou a hora de enfrentarmos os comunistas, custe o que custar. Faremos investidas radicais e filmaremos tudo, para entregar-lhe as gravações. O certo é que, estando ele no poder, seremos prontamente o seu braço direito nesta capitalzinha de merda”. Sim, Hélio falava como mandatário do povo, como o verdadeiro dono da província. Os demais, ávidos por sangue, não escondiam o frenesi em começarem os trabalhos. Combinaram de pegar as suas armas: uns com facas, espadas; outros, por disposição dos novos decretos presidenciais, com suas pistolas lustrosas. Esconderam as bandeiras que flanavam nos carros. Seguiram em comboio para os bairros centrais da cidade, onde poderiam encontrar estudantes e outros seres degenerados. Depararam-se com uma vítima: uma senhora de seus quarenta anos, claramente diarista ou doméstica – e a razão da escolha é porque ela levava uma bolsa com o broche de Lula. Esperaram que entrasse numa rua esquisita, transversal à avenida principal. Desceram quatro, com armas em punho. “Encoste na parede, sua vagabunda! Vai votar mesmo em quem? Em quem?! Bora, desembuche! Ah, não quer falar, né?! Pois, para aprender a votar direito, vai aguentar uns corretivos!”. Bateram, bateram, até deixá-la desnorteada, com a roupa em farrapos, com um furo grande na bolsa, onde antes estava o bendito broche. Mais à frente, encontraram quem queriam, um jovem metido a revolucionário. Colocaram-no no carro de Hélio e aí fizeram as maiores atrocidades: cortaram seus cabelos, bateram em sua boca, deixando-o desfigurado; obrigaram o rebelde a dizer que votaria no presidente. Largaram o sequelado numa rua distante, para os lados do bairro Antônio Bezerra. Queriam mais, mas Hélio achava que teriam material mais do que suficiente. Voltaram ao ponto de encontro e lançaram, aos risos, os vídeos para os grupos de WhatsApp. À noite, quando Hélio voltou regozijado para casa, percebeu que havia notícias sobre atentados políticos feitos por idosos, defensores do presidente, em sua cidade. A mulher e o jovem lesados prestaram queixa e falaram ao veículo de comunicação mais conhecido do país. Hélio titubeou, achou que poderia dar bronca, mas um colega, o Sérgio Cabeção, que estava no meio, telefonou para tranquilizá-lo: “Isso não vai dar em nada, patriota. Amanhã já esquecerão… E mais, o recado foi dado; a vagabundagem vai pensar duas vezes em usar um material com a figura do bandido de nove dedos”. Qual não foi a surpresa de Hélio ao ser acordado pela mulher, no dia seguinte: “O que foi isso, Hélio, me explique logo! Vi um vídeo na televisão em que aparecia o seu rosto e dos seus amigos, espancando aquela mulher e o rapaz que apareceram ontem na televisão. Ainda ameaçaram o ministro careca. Vocês piraram ou o quê?!”. O mesmo ministro carequinha determinou a prisão dos suspeitos. Meia hora depois de ter acordado, Hélio era levado à delegacia, onde encontrou os comparsas. A maior tristeza, que declaravam no olhar, é que não veriam mais a carreata do presidente na Capital. Hélio pensou que a esquerda estava por trás de sua prisão; mas não lhe soaram estranhos os atos do dia anterior. Para as câmeras acenou e gritou, isolado: “Lula ladrão, seu lugar é na prisão!”.

 

Adriano Espíndola Santos é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro livro, o romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”, e em 2021 o romance “Em mim, a clausura e o motim”, estes pela Editora Penalux. Colabora mensalmente com as Revistas Mirada, Samizdat e Vício Velho. Tem textos publicados em revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir – sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo de Escritoras e Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.

 

 

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149ª Leva - 04/2022 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Catharina Azevedo

 

Ilustração: Drika Prates

 

O pedido

 

Ela começou a atravessar em um passo pequeno, amedrontado. Os olhos cinzentos e lacrimosos varavam a rua em uma súplica muda, procurando se deter no primeiro transeunte. Era tão velha que parecia parar a qualquer momento para dizer que havia sido testemunha da primeira pedra que colocaram na rua, quando a rua ainda era feita de pedras. Olhá-la era como ver algo capaz de tombar a qualquer momento; não, nem tombar, que haveria no tombo ainda uma violência que não combinaria com ela. Parecia mesmo era prestes a desvanecer, assumir as cores da noite antes de sumir lentamente, imperceptivelmente — ela estaria de mãos dadas com o passante que se deixasse alugar, um tipo mole demais para repeli-la: aqui (a voz trêmula), aqui era a antiga casa de um industrial, uma construção tão linda (os olhos lacrimosos), datava do período do Imperador. Não, acho que era colonial — e em um átimo, seu corpo feito de éter, um vento noturno, nada.

Do outro lado da rua, as meninas faziam ponto. Equilibravam-se em saltos imensos, desfilando os corpos repletos de lantejoulas pretas, rosas, douradas, coladas no busto ou nas saias curtas. Uma delas viu a velha e cutucou a colega com o cotovelo. Apontou para o outro lado com o queixo.

— Ó lá, alguém largou a vovó no Centro.

— Vai ver se perdeu — disse a outra moça. Não insistiu no assunto: um carro preto se aproximava, e por trás do vidro abaixado um homem musculoso fez uma gracinha. Ela se encostou no vidro, o antebraço roçando entre o do homem, as frases retardadas por um chiclete entre os dentes brancos.

A primeira moça continuou olhando. Chamava-se Daiane. Tinha outro nome, mas não importa. Tinha também uma pele branca emborrachada, como de lagartixa. Assim que chegou, disseram que era pele daquelas lá do interior mesmo, as tabaroas. Pois era mesmo do interior e possuía uma história difícil, acreditaria ser sofrida caso não fosse tão atordoada em relação aos seus próprios acontecimentos particulares — uma história dessas que empurra as mulheres pra zona, enfim. Mais do que loiros, os cabelos eram amarelos, tingidos da cor de gema de ovo, e naquele momento Daiane não acreditou que a mulher fosse atravessar a rua.

Porque, por estranho que fosse uma idosa no centro da cidade àquela hora da madrugada, caminhando seu passinho pequeno que ignorava que tudo ao redor estivesse um ermo; mais estranho ainda seria aquela velha prosseguir até o outro lado, visto que do outro lado havia a zona e mais nada. Entretanto ali estava ela, com seu passo de santa. Talvez fosse uma visão de santa.

Daiane se aproximou de outra moça.

— Tem algum velho aí hoje?

A mulher lhe lançou um olhar desconfiado.

— Que foi?

— A senhorinha tá vindo pra cá — Daiane apontou com o queixo outra vez. — Acho que está procurando o marido. Ou o filho.

— E eu com isso? Suma daqui, vá, você está me atrapalhando.

Daiane abriu caminho e voltou ao trabalho. Houve justiça no fato que, uma vez tendo ganhado a calçada, a velha procurasse seu braço para encaixar a própria mão e dizer, numa voz também tímida:

— Mocinha, onde que eu falo com o dono?

Ela deu um sorriso nervoso. Retesou o corpo. Outro carro se aproximava. Tentou afastar o braço com delicadeza, mas o aperto da velha pareceu se tornar, de repente de ferro.

— Preciso falar com o dono.

— Minha senhora, isso aqui é um puteiro.

E a velha respondeu:

— Eu sei.

Muitos pensamentos podiam ter tomado conta de Daiane ao escutar a afirmativa; prevaleceu, entretanto, o medo pelos clientes que perdia a cada segundo que demorava com a velha. Pior ainda se lhe associassem indelevelmente à figura encolhida da mulher — um dos homens nos carros que passavam já havia gritado uma piadinha obscena: é quanto com a vovó? Daiane prosseguia com seu riso nervoso, um riso que mascava o desconforto até que este se encolhesse e se disfarçasse.

Mas não houve jeito de se livrar da velha. Logo as outras moças se aproximaram sorrateiramente.

— A senhora está se sentindo bem?

— Estou, estou sim. Quero falar com o dono.

O “dono” era um homem negro do pescoço de touro que se chamava Cláudio. Se não era bom, também não era de todo ruim. O fato é que nenhuma das moças tinha vontade de chamar por ele — o que seria um sinal de desordem, e não havia, entre elas, nenhuma que quisesse admitir uma desordem. Desconheciam se Cláudio estava de bom humor ou não: a mesma mão capaz de matar um cliente violento, daqueles que obrigam coisas nojentas e substâncias; essa mesma mão poderia lhes marcar a pele caso se sentisse no direito. Especialmente os assuntos relacionados a dinheiro o transformavam em um bruto.

Foi, por fim, Soraia, uma das mais antigas, que resolveu explicar:

— Dona, aqui a gente não tem chefe, chefe é o cafetão.

— Mas é com ele que eu quero falar, mesmo.

E, porque nenhuma delas se moveu um centímetro sequer, a velha ajeitou o casaco de lã e avançou para a construção.

Uma luz vermelha brilhava ali dentro. Dois quartos tinham as portas fechadas; em um se entrevia uma cama de solteiro, encostada na parede, um espelho, uma cadeira e o que pareciam ser revistas pornográficas em uma cômoda. A velha avançou muito cândida pela sala até dar com um homem calvo, de uns cinquenta anos, que ria de um vídeo qualquer no celular.

Ele levou um solavanco. À sua frente, a velha toda tremia. Usava um casaquinho de lã com um único botão grande, fechado sobre o colo.

— Como posso ajudar a senhora? — perguntou, desconcertado, em uma incerteza entre enxotá-la ou apresentar-se mais polido.

— Estou procurando um homem — disse a velha muito claramente.

Atrás, as moças — cinco das quais não tinham medo de aborrecer Cláudio, ou sentiam que dinheiro algum daquela noite pagava serem testemunha dos acontecimentos — suspenderam a respiração.

A velha prosseguiu, como se aquilo se tratasse de uma entrevista de emprego:

— Me chamo Dita. De Benedita, mas todo mundo sempre chamou assim.

— Como que a senhora chegou aqui?

— De condução.

— E tá procurando homem pra que? — perguntou Cláudio, abobadamente.

— Pra fazer amor.

Restou o silêncio. Uma das moças começou então a rir — tentou esconder o riso entre as lantejoulas da roupa, mas este lhe ultrapassou a boca, transformando-se em uma gargalhada que contagiou as outras pouco a pouco. Dita continuava, entretanto, impassível.

— Meu marido morreu faz tempo, estou cansada de ficar sozinha. E, Deus que me perdoe, não era assim tão bom.

— O amor não era bom? — uma das prostitutas perguntou.

— Assim, assim. Mas Deus que dê paz a ele, era um homem justo. Nunca me faltou nada, não.

— Tô vendo que faltou — Soraia respondeu com malícia.

Cláudio fez uma cara feia — estava gostando cada vez menos daquela situação. Bateu as mãos, virando-se ríspido para as moças:

— Bora, circulando. Chega de corpo mole.

A seguir tornou à velha e acrescentou de mau humor:

— Aqui não tem homem nenhum, só mulher.

Esperava com aquilo — não sabia o que esperava. Era inimaginável que a velha fizesse o caminho de volta pelo bairro semi-abandonado àquela hora. Sequer sabiam como ela tinha sido capaz de chegar até ali.

Ficaram assim por um momento, Dita alisando a saia, aprumando o cabelo ralo penteado e perfumado. Estudou as moças uma por uma.

— E mulher? — perguntou, por fim.

Mulheres, haviam; impossível negar. Dita atravessou a todas com o olhar cinzento que lacrimejava. As moças deixaram de enxergar a velha, passaram a ver apenas um corpo nu.

Do centro do grupo, saiu Daiane. Pôs as mãos na cintura.

— A senhora trouxe dinheiro?

Dita agarrou uma bolsinha minúscula.

— Trouxe, tudo aqui.

— Olha que é caro.

Virando-se para Cláudio, acrescentou:

— Acho melhor ela ficar pra dormir, não quero me meter com caso de morte de velha nessa rua.

Tomou Dita pela mão e a levou ao quarto. As moças puderam ouvir a velha falar, antes que a porta se fechasse:

— Deus te abençoe, filha.

Catharina Azevedo é natural de Salvador, Bahia. Em 2020, publicou o conto No Intervalo, presente na antologia “Soteropolitanos” (org. Matheus Peleteiro, edição independente). Seu primeiro livro de poesias, “deixe o bando correr selvagem”, está em pré-venda pela Editora Mormaço.

 

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149ª Leva - 04/2022 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Marciel Cordeiro

 

Ilustração: Drika Prates

 

E essa solidão não vai me deixar em paz

 

Ninguém se importa que você esteja escrevendo seu próximo livro. Para eles o mais importante é eleger o novo presidente, ou ir ao show de um cantor sertanejo que cobra cachês exorbitantes. O importante é escrever aquele texto, aquela fala, aquelas linhas. Dizer que o personagem é um maldito esquizofrênico.

Abro a janela. Puxo a persiana e vejo a montanha que protege a cidade. Já não ouço aquela velha canção do Otis que diz, eu espero que você possa entender isso, meu amor. No fundo agora me sinto mais solitário que o Roberto Baggio depois de errar o pênalti. Mas a vida é uma maldita competição sem regras. Você fica perdido num labirinto sem saída.

Volto para aquele bar às margens da avenida. Tenho aquela velha mania de nunca me sentar de costas para a rua. Bebo porque assim a melancolia tem mais sentido. E a garota que amo, diz que fará de tudo para me esquecer. Mas no fundo sou um egoísta, alguém que decepciona no fim.

 

 

 

***

 

 

 

Perdido em São João de Meriti

 

Morei um curto tempo em um quarto de motel, em São João de Meriti.  O motel parecia um prédio velho abandonado. Havia uma luz de néon ofuscada e um estacionamento que funcionava como ponto de usuários de drogas. Ficava próximo aos trilhos da Supervia. Aquele motel atendia as pessoas do submundo. Barato e próximo de uma estação de trem.

Quando passava das dez da noite aquele prédio fervia. Eu saía do meu quarto e ficava dando voltas por ali. Creio, que pensavam que eu poderia ser um cana que trabalhava de segurança nas horas vagas, mas talvez não, eu nunca tive cara de cana. Tinha mais cara de traficante querendo tomar a boca de outro do que qualquer outra coisa.

Certa vez bateu um temporal. Esses temporais de verão que chegam sem avisar. Com direito a raios e trovões. E eu estava debaixo da marquise do motel olhando aquela tempestade. Sou fascinado por tempestade. E de repente veio chegando mendigos, usuários de drogas e travestis. Um aglomerado de pessoas. Ficamos todos ali. Os raios caíam e depois vinha o trovão. Era fantástico. Só que aí chegou a Kombi de abordagem da Assistência Social. Alguns correram, outros fecharam a cara. E eu fiquei na minha. Apareceu uma mulher de óculos com uma prancheta na mão e colhendo os nomes das pessoas. Até que chegou minha vez. Respondi todas as perguntas. Quando a Kombi partiu só havia eu ali debaixo daquela marquise.

Depois um raio atingiu uma torre de telefone. Havia um ponto em comum entre eu e aquelas pessoas. Procurávamos algo. Eu não sabia o que. Muito menos aquela Assistente Social de óculos e com uma prancheta na mão.

 

 

 

***

 

 

 

Sou puro fogo

 

Sou impetuoso. Tenho me controlado. Mas sou filho de Xangô. Tem dias que quero botar fogo no mundo. Então, eu respiro fundo e me controlo, falo comigo, “acalma-se, precisa se livrar desse senso de justiça”. Isso não é bom. A psicóloga diz que preciso descarregar. Desligar o cérebro. Que tenho muita energia acumulada e que isso vai me destruir. Isso me machuca um bocado. Sabe, o filho de Xangô só fica em paz quando a tempestade cai, quando os raios cobrem o céu, quando os trovões estremecem o chão. Temos muitas coisas dos negros africanos que vieram das matas tropicais. Um filho de Xangô não serve para a calmaria. Um pai de santo me disse que devo ter cuidado com os amores, esses amores fugazes e passageiros. Tive várias paixões e não consigo descarregar do que já passou. Parece que estamos amarrados ao outro. O amor parece me socar ferozmente. Fico na lona. Melancólico e deprimido. A melancolia tem gosto de suco gástrico que sai junto ao vômito em dias de ressacas. Tenho me cuidado. Buscado mais espiritualidade, sou muito cético.

E hoje pela manhã comprei uma briga com um velho que estava colocando dois galos para brigar. Tenho pavor aos maus tratos com animais. O velho falou que aquilo era hobby, que era a única coisa que tinha pra fazer. Eu não me importei com a solidão dele. Eu também preciso cuidar de minha solidão. Por fim voltei para casa e liguei o rádio. O locutor entrevistava uma advogada com especialização na área econômica. Falava que algo precisaria ser feito para salvar a economia. Eu fico triste todas as vezes que ouço esse papo furado.

Tenho que fazer um banho de descarrego. Cuidar do santo. Preciso deixar de pulverizar raiva pelos poros. Vou ao banheiro e me masturbo. Isso me deixa leve por alguns minutos.

 

 

 

***

 

 

 

Eu gosto de me sentir forte e importante. Acho que todos nós. Ninguém nasce fadado ao fracasso. No entanto, há um sistema que não conhecemos que tenta nos deixar para baixo. Quando criança você sonha, quer ser algo importante quando estiver adulto. Eu quis ser um monte de coisas, por fim me restaram duas opções. Vagabundo e escritor. Na verdade, acho que sou os dois. Um vagabundo é um intelectual pobre, fica ali garimpando o que todos acham que não presta e o escritor é um vagabundo oportunista. Passa tudo para o papel. Nesses momentos de crise há muita matéria-prima para um escritor. Somos como os banqueiros. Mas os banqueiros querem grana. Lucro. E só. Já um escritor escreve por egoísmo, para dar sentido à vida, ou nem sabe ao certo por que escreve.

Às vezes ficamos improdutivos. Não há nada para escrever. Sentamos frente ao computador e não conseguimos. Tento escrever sobre o amor, esse amor comercial do sistema capitalista, escrever de coisas fúteis que parecem importantes para muitas pessoas. Ou uma crítica pesada à política. Não. Isso não é legal. Uns falam que para escrever precisamos de técnica, outros falam em coisas espirituais. Comigo não funciona. É como sexo. Eu escrevo como se fosse uma boa transa. Uma foda. Eu gosto da palavra foda. É mais subversiva.

Nesses últimos dias tenho ficado inquieto. Ando impaciente pela casa. Falo sozinho e recito uns poemas em voz alta. Canto canções que invento. Eu nunca lembro uma canção por inteiro. Sou péssimo para cantar. Mas é isso. Hoje o dia está lindo. Sol, céu azul e algumas poucas nuvens brancas.

 

Marciel Cordeiro é baiano, reside no Espírito Santo. Graduado em Serviço Social. Publicou alguns contos e poemas em antologias.  É o autor dos livros “Caminho para Texas”, publicado pela editora Cousa, em 2019, e “Essa coisa louca chamada amor”, 2021, também pela editora Cousa.

 

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149ª Leva - 04/2022 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Lorena Grisi

 

Ilustração: Drika Prates

 

Exercícios físicos

 

Faz atividade física? Faço, longe de mim ser sedentária. Não fumo, bebo pouco e carrego comigo este carma de gerações, estes genes, o peso dos dias, esta cabeça que não vem sobre os ombros, vem sobre o pescoço, porque os ombros, é o mundo o que eles suportam e por isso tenho hipercifose. Não sou preguiçosa, ando a pé por essas ruas levando tudo o que é desnecessário em minhas costas, só para ter certeza de que não vou utilizar, mas está tudo ali, são coisas minhas, é tudo o que tenho, pode-se dizer que configura um patrimônio. Juntei cada uma dessas peças como quem guarda pedaços de quebra-cabeças distintos na esperança criativa de montar paisagem própria, forçando encaixes e aceitando que buracos são também composição de destinos. Portando sempre meus objetos, sou meu meio de transporte, meu caminhão de mudança para cada apartamento semimobiliado alugado e, no percurso, perco bibelôs e memórias, o que deixa mais leves as caixas de papelão e é por essa razão, ademais, que eu sempre fui bem magra, embora nunca, nunca mesmo, tivesse sentido medo de que uma ventania me levasse consigo. Tudo ótimo enquanto estiver perdendo bibelôs, o que não dá é para perder as chaves, a cabeça ou o prumo. Eu sou muito ativa, me exercito, escrevo, apago, escrevo, reviso; no ano seguinte, eu abro o mesmo texto e reviso, apago, escrevo, guardo, esqueço. Esse exercício fortalece a mente e os ossos, explico, ele recomenda musculação três vezes por semana, no mínimo. Pergunto se ele já experimentou um teto desabando sobre si e tendo de levantá-lo com as mãos, no sentido oposto à gravidade, e isso na hipótese boa, que é a de ter um teto; ele me diz academia, corrida, pilates, eu digo meu querido, você não faz a menor ideia do que é ser uma mulher.

 

 

***

 

 

Língua morta

 

Fizessem uma perícia a cada vez que morre uma língua, constatariam males que incluem assassínios, genocídios, catástrofes naturais e outros desastres que geram órfãos, herdeiros de um inventário volátil e invisível. Onde o cemitério das línguas não mais ditas ou escritas, usadas, um dia, para dividir a terra em que se plantou o primeiro grão, onde se fincou a primeira bandeira, onde se construiu a primeira cerca em madeira e então se disse é meu? Em que língua uma mulher foi originalmente ofendida e deu seu grito inaugural de horror? Os despojos conhecemos até hoje, os despojos da guerra são do vencedor e a língua mantida viva também, em sua glória. Como se diz meu na primeira língua morta? Como se diz eu? Como se diz não cante essa canção em voz alta, não narre esta fábula? Fato é que hoje e em qualquer raio de futuro, mesmo antes do café da manhã, conviveremos com restos mortais de línguas por todos os cantos da casa e do corpo, no pensamento, no olho do outro, nas plantas no vaso sobre a mesa, perpétuas (ou Gomphrena globosa). Há uma língua que não diz mais e não se entende, mas se sabe, exatamente como a conversão do dinossauro em galinha. A língua de carne, essa também pode morrer, mordida ou queimada, ardendo, dizendo três vezes palavra de maldição, cortada a faca para aprender que alguns vocábulos talvez devessem estar mortos também. Sepulta-se uma língua e ela jaz num túmulo em que se busca desvendar a pequena fotografia preta e branca, sem data ou epitáfio. Uma língua, hoje, é algo que existe primordialmente para dizer fique aqui, em dez minutos poderemos enxergar o satélite, e é a partir dessa fala que todo o mundo se recompõe e gira. Uma língua morta é um fantasma triste que corre de medo de crianças. É uma sobra nas sombras, a cápsula do tempo enterrada, acidente de trabalho de escavação.

 

 

***

 

 

Pretérito imperfeito

 

Acabou-se o que era doce e os nostálgicos garantem que ontem foi melhor que hoje, que os anos 80 não retornam mais, que nos anos 70 não havia Aids e eu concluo que a Guerra do Golfo foi muito pior do que a Guerra do Vietnã, porque a do Vietnã veio antes e tudo o que vem antes é melhor do que o que vem depois. Era doce. Poderiam ter conservado com sal ou com gelo, os nostálgicos, os saudosos, mas isso interferiria na doçura, que não voltaria mais e teríamos um passado salgado, ou aguado, nada condizente com nossa delicada história de afetos e ternura, mesmo que mais de um milhão de pessoas tenham morrido na Guerra do Vietnã. Era tudo muito doce, embora ensinem nas aulas de Ciências que são quatro as possibilidades de sabores – o doce, o salgado, o azedo e o amargo. Era tudo doce, mas acabou-se e agora usamos toda uma gama de açúcares ou de adoçantes artificiais que tornam a vida diária mais palatável e porque o doce, desses quatro, é o único sabor que tem conotação positiva e precisamos dele em nosso cotidiano cada dia mais insípido. Precisamos acreditar na doçura, mas os adoçantes artificiais são cancerígenos e o açúcar refinado dizem que é um perigo também. Os nostálgicos, os saudosos, vazios de um período em que o buraco na camada de ozônio era menor, e de quando não havia alimentos transgênicos, e de quando havia menos arranha-céus fazendo sombra nas areias das praias brasileiras, os nostálgicos se embrenhariam em pequenas fazendas produtoras de mel, caso as abelhas hoje não estivessem enlouquecendo com tanta mudança no ecossistema. Porque as abelhas também estão nostálgicas, saudosas e vazias, deu até no noticiário mês passado. Era doce, todos juram que era doce, mesmo que o Vesúvio tenha destruído Pompéia no primeiro século de nossa era, quando o Vietnã não era uma questão. Era doce, tinha até uma cereja em cima. Não salgaram os corpos de homens enforcados e de bruxas queimadas vivas, de modo que só a doçura se preservou na memória. De modo que neste atual século de nossa era teses estejam sendo escritas sobre afetos, músicas sobre a delicadeza sejam compostas e uma estética da suavidade esteja muito em voga nesse mês de outubro, hoje mesmo, quando não é mais doce como já foi, constatam os nostálgicos, os saudosos, os vazios e os perdidos. Era doce, foi doce. O pretérito imperfeito, dizem os gramáticos, exprime uma ação habitual no passado, enquanto o pretérito perfeito exprime uma ação que não era habitual. Acabou-se o que era doce, ser doce era habitual. Era uma vez. Desde o primeiro século de nossa era e mesmo antes. O anel que tu me deste era de vidro. Era doce, mas agora as abelhas enlouqueceram.

 

 

***

 

 

Carta

 

Se eu te dissesse – Me escreve, assim, a seco, intransitivo, o que você me enviaria? Uma carta de amor, de despedida, um cartão-postal, um e-mail, um bilhete, meu horóscopo, a foto de um recado no espelho, tua biografia? É certo que não diria diretamente que me ama, nem que acordou no meio da madrugada para não mais dormir porque não sabia onde eu estava e se eu voltaria. Me contaria do gato que trouxe para casa, da rua que mudou de sentido e agora deixa os motoristas confusos em frente ao prédio. Me diria que, mais útil que escrever uma carta, coisa que nem se usa mais, é escrever uma tese, um tratado, uma lei, algo que se imponha sobre os homens, palavras contra as quais qualquer insurgência é imputável com isolamento e castigos físicos. Teve aquela vez, na viagem ao Norte, quando eu perdi o catálogo dos lugares turísticos. Me escreve um catálogo. Me escreve um catálogo que fale se os lugares produzem arrepios, se têm cheiro, se o Sol vai queimar minha cabeça, se o caminho pode ser feito a pé, se, para chegar lá, basta fechar os olhos no chuveiro. Me escreve, mas escreve à mão, com essa letra que eu não entendo, mapa para a rua que mudou de sentido e que eu perdi, no meio da viagem.

 

 

***

 

 

A casa

 

A casa, caixa de móveis desembalados e descobertos de lençóis, habitada, durante o dia, por este sofá velho, vazio e emprestado, em que alguém já se sentou para não cair no chão de desespero e dormiu, perdendo a hora. Há grades nas janelas, mas o Sol tem sua incontornável liberdade de atravessá-las e de queimar os rostos nos quais hoje se veem manchas e linhas de quem observou a paisagem atônito. Eram duas as cachorras no pátio, latindo para os outros cães que passavam por trás do muro, e o barulho dizia dessa ordem perdida em que os seres se reconhecem, se cumprimentam e estão atentos aos cheiros. Nesta casa, três famílias, em seu tempo, celebraram aniversários, receberam notícias de mortes e penduraram quadros em diferentes paredes que já foram brancas ou amarelas. Da casa de baixo, sente-se cheiro de carne sendo assada e há uma conversa, entre mãe e filha, sobre objetos perdidos nas escadas. Debaixo dela, a casa térrea, vazia e de porta fechada, hospedagem provisória de ácaros e de pequenas aranhas tranquilas, na privacidade dos cantos e das frestas. A casa, arquivo de espantos em quarto e cozinha, tem uma moradora, à noite, na hora em que se imagina que todos dormem, mas há uma verdade e é esta: há o pesadelo, o suor frio e os banhos. É tarde para se preocupar com visitas, é cedo para consultar a meteorologia. E o universo é dentro da casa e, não, fora, e isso inclui os raios, as tempestades e os objetos não identificados, dos quais fazem parte utensílios domésticos que determinam a completude de um lar: mesmo sem uso, tem-se o que é preciso, além de um fogão, de uma cafeteira e de um acendedor automático. Vê-se, na sala, uma mesa com papéis e livros que indicam as tarefas de quem reside na casa. A mesa é bússola, é rosa dos ventos, por isso está centralizada. Em cima dela, um castiçal com uma vela apagada. Dali, contam-se dez passos para a cama, dez para o aparelho de som, dez para a gaveta de facas. A casa, neste terreno argiloso e infértil. Amanhece. Na rua em frente, os cães encoleirados passeiam na hora esperada.

 

Lorena Grisi nasceu em Salvador. Publicou, em 2021, o livro de poemas “Exercícios físicos” (Editora Paralelo13S). Tem textos publicados nas coletâneas “Hilstianas vol. 1” (Editora Patuá/Instituto Hilda Hilst, 2019), “Antologia Ruínas” (Editora Patuá, 2020), “Terra, fogo, água, ar: coletânea lírica” (Edufba, 2020), “Mulherio das Letras Portugal” (Editora In-Finita, 2020), “Parem as máquinas!” (Selo Off Flip, 2020), “Cartografias vol. 1: contos de autoras brasileiras” (Editora Primata, 2022), no Jornal Relevo (set. 2021), na oitava edição da revista Felisberta, na revista Aboio, na revista Mulheres do Fim do Mundo (abr. 2021), na segunda edição da Revista Torquato (abr.-jun. 2020) e na Revista Contempo (maio 2020).

 

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148ª Leva - 03/2022 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Adriana Vieira Lomar

 

 

 

Os gerânios me entendem

 

Sei que o nome dela por aqui é um tabu, mas assisti à cena, e isso anda me incomodando. Vou omitir seu nome. Ela não virá contra mim, caso algum dia leia esta nota. Se bem que… Não correrei esse risco, guardarei estas linhas no fundo de minha gaveta, como uma joia de família. Gaveta a ser aberta por seus herdeiros – e tal coisa ocorrerá, quando tanto eu quanto ela já estivermos em outra dimensão.

Estou na janela aguando os gerânios. A tarde desmaia de preguiças, enquanto a Lua emerge. Uma inquietude em mim, um mau prenúncio. A rua quieta ao extremo traz o cheiro das trevas, do susto e do imprevisto. Quem dera eu estivesse errada…

Ela está voltando da escola, quando os quatro bem mais velhos a abordam. Medrosa, sento-me no chão frio da sala e, entre as grades, assisto. O som do asfalto, a rua deserta assovia quando as folhas tocam o chão fedido.

Os quatro ecoam juntos o boa-tarde mais sentido que já escutei. Suas vozes não chegam até o segundo andar, onde permaneço escondida. De súbito, ela abre a camisa. Antes, olha para todos os lados. Agacho-me ainda mais. Deito-me no chão, agora mais frio. Entre meus olhos e a cena, há um fiapo de grade – uma grade porosa.

Vejo um par de seios frescos, com bicos rosáceos e espertos. Um beija o esquerdo, outro o direito. Os outros dois permanecem quietos, de braços cruzados, olhando a rua como quem vigia. Passados alguns minutos, talvez dois, eles trocam de lugar.

Os dois tiram a saia de pregas. Ela no meio, entre os dois esmaece. Sua bochecha rosada deita no braço cabeludo de um deles. A essa altura, não sei o que fazer. Prefiro observar os fragmentos dos gerânios que ainda me parecem hidratados.

As doze baladas do sino vibram na pequena cidadela. Canso-me de permanecer deitada e me sento. Os cinco ainda estão na rua ainda deserta. Ouço seus gemidos daqui. Nem os sinos impõem receio. E se eu tiver coragem e simplesmente aparecer ali?

Mas isso não dará certo. Trabalho para o pai dela, o prefeito. O cara é viúvo, um pobre coitado. E aqueles quatro, vi todos nascerem, conheço suas mães. Todas estudaram comigo. Também, pudera, haveriam de estudar em outro lugar? Por aqui só há uma escola, a mesma onde ela estuda, que mantém o mesmo uniforme, apesar de três décadas terem passado, assim, feito mágica.

Vou permanecer aqui boquiaberta, rezar um pouco, pedir para os cinco se mancarem. Meu Jesus Cristo, tende piedade de… Não deu outra, uma pancada de chuva daquelas devastadoras, com direito a raio, trovoada. No ritmo em que meu coração bate, de puro desassossego.

Os quatro correm em direção a suas casas desertas. As mães estão na igreja. Ela, feito uma estátua, permanece ali, com a blusa desabotoada. Tenho que ir a seu encontro, preciso abotoar cada botão. Exercer a maternidade que não quis para mim.

E, com muita dor, feito faca me cortando, eu a vejo saindo do ponto em que estava. Partindo com sua saia de pregas abaixo do joelho. Caminhando como se estivesse embriagada. As meias brancas e bordadas borradas de terra e a sapatilha de boneca gasta.

O emblema da escola São José do Amparo sobrevive. A essa altura, estou na esquina. E, de olhos fechados, lembro o dia em que a gerei. Meu sumiço e o dia em que presenteei o prefeito. O grande vazio. Minha vida sem graça.

Na direção contrária, corro e volto a aguar os gerânios. Ela não me vê. Meus gerânios não falam. E, dessa sacada, posso chorar. Eles me escutam.

 

 

***

 

 

O louva-a-deus

 

Uma folha voadora chega aqui e faz cócegas em meu nariz. Veio só com esse propósito. Logo depois da missão, ela cai esparramada no chão batido de cimento frio. Por quantas ela passou para chegar aqui? Passou por um corpo ainda morno e vigiado por um bando de urubus que trafegam no espaço aéreo azulado. Eles só observam o momento certo de limpar as vísceras do corpo estendido e mortificado.

Ainda estou sem palavras. Nem sei como começar. Minhas pernas tremem, mas tremiam bem mais antes de ela passar por aqui.

Ela deixa um cheiro bom de alecrim, que me remete ao dia de ontem. Nós estávamos bem, comíamos na grande mesa rememorando nossas histórias antigas, mas ainda não comentadas, apesar do tempo tão longo de vida em comum. Tomamos vinho branco, da cor da neve, que vimos pela primeira vez. Degustamos um peixe rosado e carnudo chamado salmão, que bem lembra os sermões escutados durante as aulas de catequese. Debandamos. Nessa época, eu ainda não o conhecia. Em lugares diferentes, permitimo-nos não acreditar mais em dogmas. Criamos os nossos.

O inhame assado com raspas de limão traz a lembrança da terra por adubar e a florada como um unguento nos dias de sofrimento. A sobremesa – cajus derretidos em manteiga de amêndoas – remonta aos gritos de chamar para o almoço o menino peralta, que inventava de subir no ponto mais alto do cajueiro e encher o tacho da mãe com o fruto.

Depois da comilança, resolvemos dormir. O cheiro ainda era bom, apesar da idade avançada, da lembrança de que um dia o torpor da juventude habitava todo o domingo de beijos e toques na pele desnuda. Diminuídos em tamanho, com a tez enrugada e vincada, nós dois gostávamos de dormir feito caramujos.

Não sei quando aconteceu. Há um grande vácuo. Estava adormecendo, quando ele me pediu o travesseiro. Logo depois, mais um pedido inaudito. Disse que não, não poderia jamais cumprir sua ordem. Depois, ele veio com aquela conversa de que eu era mais nova e deveria lhe obedecer. Virei meu corpo para trás. Com raiva, adormeci. Nunca, em seis décadas, dormi sem beijá-lo. Meu braço ficou no vazio.

Meus braços estão vagos e desocupados. Os urubus agora o rondam de fato. Minhas pernas estão fracas. Meu silêncio ainda está ocupado pela raiva.

O boom da bala que me fez acordar. Algumas horas atrás. Sem vizinhos, nesse bosque, ele me deixa assim, solitária.

 

 

***

 

 

O desconhecido

 

Estou no túnel. Agonia. Na urgência em chegar à casa de saúde. Estou a cem por hora. Talvez seja multada. Minhas extremidades suam, o vômito ameaça chegar, o coração acelera e me vem o medo da morte. O túnel é longo, extenso como o corredor da sala grande. Da sala grande. Da sala grande da fazenda. Lá, eu estou atravessando a escuridão. O maço é vermelho, os cigarros são recomendados para tirar a ansiedade. Eu os pego com minhas mãos miúdas. Devolvo a meu cowboy e ganho o posto de menina corajosa.

Meu cowboy me espera no quarto de hospital, mas não sei se consigo atravessar o túnel para me despedir. Não posso parar o carro. Os faróis ferem meus olhos. Minha retina ameaça fechar. A velha imagem do corredor longo me vem à tona. Os sofás na penumbra presenciam meus passinhos curtos e medrosos até o birô. As corujas me assistem. Consigo pegar o maço inteiro, mesmo sentindo um frio na barriga. Retorno com o maço e o entrego. A mesa está lotada. Ouço aplausos. Conseguirei chegar até o hospital? As pernas tremem, meu coração pula em disparada, partes de mim adormecem feito câimbra.

Quero abraçar meu velho cowboy. Em mim, berra a urgência em encontrá-lo antes que ele parta para sempre. Mesmo sentindo a morte chegar, o túnel ainda escuro, preciso vencer a escuridão. Morrer é uma certeza de todos. Volto a me ver naquele velho corredor da cozinha para a sala grande, vejo-me pequenina tomando banho no breu. Escuto minha voz de criança dizer que tinha medo, ouço sua voz de tenor dizer que, depois do coração aos saltos, a brisa leve e cheirosa virá. Como uma montanha-russa – horrível a primeira vez, depois vira adrenalina. “Será que consigo, meu cowboy?” “Treine primeiro. Pega meu maço lá no escritório. Terás que atravessar a longa sala, sem sinal algum de claridade. Nem candeeiro vale.” “Não consigo.” “Tenta, minha amada, tenta.”

Seu timbre me guia até a casa de saúde. Aturdida, caminho até a recepção. Estou ali para me despedir do cowboy. Respiro fundo e me apresento.

“Quarto 201, senhora.”

Entro no quarto, espero encontrar um homem velho partindo. Lá, encontro o cowboy me pedindo para assistir ao campeonato mundial. Pelé está em plena forma. Ele não lembra que eu ainda tinha dois anos quando Pelé jogou pela última vez. “Sou eu, meu cowboy, não está me reconhecendo?” “Como não iria reconhecer-te? Estou sim. Preciso te contar um enorme segredo, não contes a ninguém. Eu sei que tu és igual a mim, e não contarás.” Aproximo meu ouvido e ouço o cochicho mais ardido e sofrido de se ouvir. Com lágrimas em meus olhos vividos, só digo sim com a cabeça. Jamais conseguiria deixar de perdoá-lo. E ali, naquele quarto frio e sem graça de hospital, ele partiu, imaginando Pelé.

Seu semblante era de paz. Aliviado, morreu sem culpa. Depois do enterro, voltei a atravessar túneis. Sinais verdes e sinais vermelhos. Por um tempo, continuei sentindo falta de ar, achei que iria morrer. Meus pés suavam, minhas mãos tremiam. Mantive-me na esfera do medo, medo de não conseguir voltar para casa com vida. Mas aquela voz de tenor me acompanhou e continua me acompanhando. E, assim, os tijolos criados pelo medo continuam desabando. Com a luz acesa, tomo banho e deixo a água lamber meu corpo fatigado. Na mistura de lágrimas com água, permanece o segredo dito: “Você tem uma irmã e precisa dividir a casa, a terra ou o que mais deixei.”

 

Adriana Vieira Lomar é Integrante dos Quinze e  do “Caneta, Lente & Pincel. Pós graduada em Arte, Pensamento e Literatura Contemporânea e Roteiro para TV, cinema e Novas Mídias pela PUC-RIO, autora de “Carpintaria de sonhos” e do romance “Aldeia dos mortos”, esse pela editora Patuá.

 

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148ª Leva - 03/2022 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Rodrigo Melo

 

Foto: Gilucci Augusto

 

A NOITE QUE ENGOLE TUDO

 

Desligo os faróis antes de alcançar o alto do morro e deixo o carro deslizar suavemente, como se planasse sobre uma nuvem, até parar embaixo de uma árvore. É tarde, não há ninguém, nem mesmo os nóias. Apenas nas luzes da cidade, lá embaixo, há algum sopro de vida. Salto do carro e acendo um cigarro. Uma vez Kersey me disse que a gente nunca deve ter pena de vagabundo. Vagabundo tem mesmo que se fuder, do contrário fodem com a gente. Eu nunca discuto com Kersey. Ele está nisso há muito mais tempo que eu.

Jogo o cigarro no chão e caminho até a casa com o portão verde. Bato três vezes. Alguns segundos se passam e escuto o barulho de uma porta sendo aberta e, em seguida, passos arrastados, os chinelos ralhando sobre o cimento do passeio que leva até o portão.

– Quem é? – ele pergunta.

– Te dou uma chance pra descobrir.

Depois de três segundos, ele destrava o ferrolho e o portão fica entreaberto. Está com os olhos inchados e o rosto suado, a cara de quem não dormiu.

– Ainda não tenho a grana.

– Não tem nada?

– Alguma coisa. Não é muito.

– Eu quero.

Ele me encara. Está desconfiado.

– Espere aqui.

Encosta o portão, se vira e caminha até a entrada da casa.

Cruzo a porta e vejo uma mulher deitada no sofá, de frente para uma mesinha onde há um prato com algumas gramas de pó. É loira, magra e, quando seu olhar de vampiro pousa sobre mim, imediatamente se encolhe, espremendo-se contra o sofá, uma almofada suja servindo de escudo. Faço sinal para que continue em silêncio, mostro a arma em minha mão. Pergunto onde ele está e ela aponta para o quarto.  Sento-me em uma cadeira e espero.

Dois minutos depois, ele passa sem me notar. Está com o dinheiro na mão. Tem um 38 nas costas, preso à cintura. Ele nota a mulher espremida no sofá e, ao reparar nela, me vê.

– Pra quê o 38? – pergunto.

Seu rosto está congelado. As narinas dilatam-se por conta da respiração.

– O dinheiro tá aqui. Quase dois mil. Consigo o resto em uns dois dias.

– Não vim atrás do dinheiro. Quero minha parte da encomenda.

– Que encomenda?

– Você sabe.

– Não sei, não. Seja lá quem falou isso de encomenda, é mentira.

Fico de pé e caminho até ele. Pego o dinheiro de sua mão, coloco no bolso e então aponto a arma pra mulher no sofá. Ela grita e se protege atrás da almofada.

– Já disse, cara – ele responde -, não sei nada sobre o que tá falando. Muito menos ela!

– Tem certeza?

– Claro!

– Não está mentindo?

– Eu não minto pra você.

Deixo de apontar a arma para a mulher e a direciono para a cabeça dele. Seu rosto se contorce, os olhos piscam naquele segundo em que calcula se daria tempo de pegar o 38. Atiro no instante em que ele, com os olhos esbugalhados, faz o movimento. A mulher dá outro grito e se agarra à almofada, enquanto ele cai morto no chão.

– Fica de pé – digo pra ela.

– Não me mate, por favor!

Ela se levanta lentamente, o corpo inteiro treme. Usa uma bermuda jeans gasta e uma camiseta com a foto de uma garota, o nome Raquele escrito em cima.

– Sabe onde está?

– Sei… Na caixa d’água. Foi lá que ele subiu.

Há um limo grosso sobre a Eternit. Ando com cuidado. Tenho medo de escorregar ou de quebrar uma das telhas e cair. Seria estranho morrer assim. Tento imaginar o que escreveriam no jornal: POLICIAL CAI DO TELHADO APÓS TIROTEIO COM TRAFICANTE. Abro o saco plástico azul escondido na caixa d’água e, dentro dele, vejo dois pacotes enrolados com fita adesiva. Enfio o canivete em um deles e coloco o pó na gengiva. Em dois segundos, está dormente. Fecho o saco e volto a andar sobre a Eternit, cada passo como um salto rumo ao abismo.

A mulher teve tempo de fugir, mas continua ali, sentada no sofá, olhando para o corpo do bandido no chão. Ao seu lado, sem que consiga enxergar, Kersey se senta, cruza as pernas e olha pra mim. Eu sei o que quer. Nunca deixe testemunhas, ele me disse uma vez. Nem perca tempo com eles. Aponto a minha arma para ela.

– Você disse que não ia me matar! – a mulher grita, os olhos miúdos, cheios de lágrimas. – Eu falei o que você queria! Por favor, não me mate!!

– Quem é a menina?

Ela me encara, sem entender.

– Raquele – digo, apontando a arma para sua camiseta.

Ela suspira, estica a camiseta e olha para a imagem.

– Minha irmã. Desapareceu há dois anos. Tava brincando na rua e sumiu.

– Encontraram?

– Não. Minha mãe sonhou que ela já estava morta.

Abaixo a arma e saio da casa carregando os dois pacotes, enquanto ela me observa. Vou até o carro, sento no banco do motorista e acendo um cigarro, olhando para a cidade lá embaixo, para o pouco de vida que ainda resta.

– Uma vagabunda viciada é só uma vagabunda viciada – Kersey diz, sentado no banco do carona. – Volte e acabe com ela. É assim que a gente faz.

Olho pra ele. Paul Kersey. O mesmo bigode de sempre, o mesmo gorro sobre a cabeça, o olhar de quem já testemunhou coisas demais. Um grande homem, uma constante inspiração. Agora, no entanto, estou cansado.

– Vamos deixar essa merda pra lá, Kersey. A mãe dela já chorou demais.

Ele dá de ombros e, de um segundo para o outro, desaparece em meio à noite que engole tudo. Eu ligo o carro, acendo os faróis e começo a descer a ladeira.

 

Rodrigo Melo tem publicados dois livros de histórias curtas, “O Sangue Que Corre Nas Veias” e “Jogando Dardos Sem Mirar O Alvo”, ambos pela editora Mondrongo, e participou das coletâneas de contos “82, Uma Copa/15 Histórias” (Editora Casarão do Verbo), organizado por Mayrant Gallo, e “Outro Livro na Estante” (Editora Mondrongo), organizado por Herculano Neto. Escreveu, ainda, o livro de poesia “Enquanto O Mundo Dorme”, e o romance “Riviera”. Mora em ilhéus, no sul da Bahia.

 

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148ª Leva - 03/2022 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Wellington Amâncio da Silva

 

Foto: Gilucci Augusto

 

O homem invisível

 

Mas Onã, que sabia que essa posteridade não seria dele, maculava-se por terra cada vez que se unia à mulher do seu irmão, para não dar a ele posteridade. — Gênesis 38:9

O beijo de um tempo frio em minha testa/ Alguma luz na água/ O reflexo do meu rosto/ A poesia é meu único amor sincero/ A poesia é meu último amor sincero... — João Maceno

 

Estive envolvido profundamente com a literatura. Li muitas obras importantes e também escrevi umas coisas, por influência dessas obras, como quase todo mundo. O que fiz com tudo isso eu ainda não sei. Confesso que não me importo muito pelos resultados, porque os processos, os métodos, me envolvem sem que deles possa sair; estes me levam para longe, e qualquer trabalho finalizado se perde no horizonte distante. Sobre o ofício? Ah, dia após dia, sentava-me para escrever, até anoitecer; não saía de casa sequer para comprar um pão. Com esse exercício medonho aprendi a fazer umas coisas. Todavia, logo que me aperfeiçoei um tanto me deparei com aqueles velhos problemas inerentes à ficção. Minha terrível agrura: as personagens se misturavam muito às minhas histórias pessoais e com boa parte do meu caráter — o que é péssimo… porque verdadeiramente, no final das contas, eu não sabia em quem bater primeiro, se neles ou em mim mesmo. Com o tempo, me especializei nesta arte de me perder no universo das personagens, de modo que eu não pude nunca mais desvencilhar uns dos outros, isto é, eu deles. Como escritor eu trabalhava demais, digo, no sentido de não parar nem para comer um brioche de geladeira! Neste universo, a minha imersão era tamanha, eu trabalhava tanto! que estive sempre indiferente às demandas fisiológicas do meu corpo e à família — era o espírito da literatura que regia minha existência para não sei onde, noite e dia —, todavia, depois me apareceram sérios problemas… Não posso me culpar, eu já me perdoei, hoje eu pago por isso e assumo minhas culpas, estou quite com meus personagens e comigo mesmo. Porque para alguns escritores, sua relação com a literatura se configurava tal a uma condição de “aprofundamento singular” — este termo é de Ludwig Vaander-Stelmmer — porque a literatura, devo dizer, é o grande culto! Em outras palavras, eu nunca me preocupei com o tempo do meu corpo, enquanto estive convicto da importância do tempo do espírito. A realidade exterior apenas tem sentido quando incorporada sem pretensões, quando a deixamos perambular pelo labirinto da memória, para em seguida reescrevê-la, não em busca dos “fatos”, mas em busca do “como se” — esta é a nossa salvação… Eles disseram, depois do ciclo de palestras: “Vai com calma, João!”. Eu retruquei (muito embora não estivesse de todo convicto): “Eu sei o que faço, meus colegas… eu sei o que faço…”. Escrevi uns versos e quase os publiquei em livros, a experiência de escrevê-los ficou para sempre, mas a obra se perdeu. Eu vivo tentando… Vivi um tempo de livro quase concluídos, em eternas revisões — é isto o escritor, não se engane! No final das contas eu carregava sempre alguma dúvida se os publicaria ou não, visto que daí em diante eu poderia ser elogiado ou difamado; não me animava a possibilidade de tornar-me reconhecido enquanto houvesse o precedente da difamação, que é aquele estigma que mesmo após a morte perduraria (meus filhos teriam vergonha de mim). Eu escrevia, mas carregava as minhas dúvidas — e por causa destas eu não parava de escrever. Porém, dúvida boa é aquela que possui uma cratera tão grande em seu arcabouço, que pensamento incomodado infla, e se torna maior que a cratera. Hoje, gostaria demasiadamente de precisar alguns pormenores sobre a minha vida — se é que interessa.

Nasci na cidade de Penedo, nas Alagoas, em 12 de janeiro de 1962, sob o nome de Roberto Rabocha dos Santos, e não de João Maceno, meu pseudônimo.  Aos 22 anos resolvi enfrentar o destino em São Paulo, e por lá, em alguns aspectos, me dei bem. Aos 32 anos tornei-me profissional da comunicação, redator de uma revista considerada e arrisquei-me pela literário da mesma revista. Neste ambiente de papel e de letras encontrei a mulher que me tolerava e que enxergava alguma beleza em mim — não vi nenhum feito em seu caráter. Casamos em 1996, e em 14 anos de casados e tivemos duas filhas — Clarisse, 05 anos; Alice, 11 anos. Vivemos como num sonho bom, porém, de súbito, aos 48 anos eu estava sozinho num quarto meio mofado de casa alugada a pouco dinheiro; sim, eu fiquei sozinho, porque sem a esposa as filhas escolheram, obviamente, morar com a mãe ou com a avó… (não quero tratar de detalhes do fim do meu casamento, mas adianto que há uma temática trágica, sobretudo “patética” envolvida, e da minha parte…). Ora, sinceramente não tenho ódio ou mágoas contra ninguém. O ódio sem destinatário é arte. Mas, deixa eu te dizer uma coisa: por outro lado, nós amamos e sabemos que amamos, examinamos nossos pensamentos e atos sobre a pessoa amada e cremos que amamos, todavia ela pensa que ainda é pouco, ou desconfia que é bobagem ou enganação. O que nós sentimos é tudo o que temos para aquela pessoa, e ela acha pouco ou inútil…

Após o divórcio, desvencilhei-me da maioria dos compromissos domésticos, ainda bem. Resolvi me debruçar, com o devido empenho sobre o que me restou de fato, aos meus textos. Certo dia, ao acordar disposto, explorei o velho armário cheio de papéis, de algumas traças e ácaros; tentei dar ordem ao que reencontrei. Seis sacolas de supermercado contendo manuscritos velhos, seis possíveis livros que eu abandonara. Muitos papéis, e ao folheá-los, de imediato retomei ao fio da meada daqueles anos passados; eram quase livros, ali, e somente eu estava ciente de que sabia o que escrevera, porque quando se diz a verdade ninguém acredita. Mas, não eram ainda livros, antes de reuni-los, sob a ordem de temas correspondentes. Havia certa desconexão (mesmo as melhoras frases, as que soavam bem, ainda não continham uma verdade). Grandes obstáculos enfrentados, num trabalho interminável, tentei encontrar ou inventar liames. Para alguns textos escrevi coisas que depois chamei de “emendas” e lutei em vão contra outros tantos. Às vezes temos frases aparentemente perfeitas, mas que não passam, no final, de um engodo. Os manuscritos “não aproveitáveis”, aqueles que por si só não forneciam saídas, eu os comi, os umedeci com água ou refrigerante, pus pimenta calabresa e os comi; o texto impossível não me dava outra saída senão trazê-lo para dentro de mim por simbiose, incorporá-lo pelo estômago, já que não sedia ao intelecto.

No final de 2013, eu os tinha organizado todos e atribuído títulos chamativos, tais como, “Diurnos”, “O Caso 64”, “As Aspirações de um Equilibrista”, “Âmago Translucido”, “A Paixão Segundo Margarete”, “Manto Frondoso” e “Piramundo”.  Editar tudo me custou muito caro. Trabalhar pelas madrugadas me adoeceu. Emagreci em demasia, houve queda de cabelo e tornei ainda mais impotente. Cara caveirosa e olhos fundos, os lábios descorados, sem brilho. As calças caiam um tanto, as camisas folgaram-se. Neste período, eu pensava ter desenvolvido diabetes.  A sorte é que depois de um tempo de folga e de paz — digo, não pensar em nada, não fazer nada — melhorei sobremaneira. A saúde se restabeleceu e se estabilizou. Eu estava grato pela saúde aparente. Pensei em me casar novamente, mas desde sempre fora casado com a literatura; na verdade, fiquei sozinho, ainda bem; eu não queria dar trabalheira a mais ninguém. Eu quis resolver de uma vez por todas, aquela tendência incômoda à vida a dois. Me lembrei de Kant, solteirão, quem sabe apaixonado pela Filosofia. Me lembrei do padre Simão, solteiro, quem sabe apaixonado pela fé. E eu, talvez pudesse estar solteiro, quem sabe, para escrever, porque escrever toma tempo e é a boa solidão.

Em grande medida, meu casamento acabou porque vivia para o trabalho e para a escrita autoral, e foi por causa destes dois universos que me lasquei. O primeiro, abandonei, já que perdera algo mais importante: a presença da minha esposa e filho. Acabei aposentado por invalidez. E o segundo? Não tive forças para abandoná-lo, devido “ao tamanho absurdo e a densidade insustentável da sua inerência dentro em mim” — tal frase parece clichê, mas na verdade eu nunca quis deixar a literatura; a violência sem destinatário é arte… Literatura, deste ofício não se despede; vive-o até o fim, e quem sabe, depois (mas não sou religioso, não penso o “depois” para além de um gracejo). Diante deste quadro, resolvi radicalizar alguns aspectos da minha vida; havia algo dentro de mim que me “roubava” certa parcela da minha concentração. Disse a minha mãe que iria morar sozinho e que cuidasse das meninas com o auxílio da maior parte do meu dinheiro (o que não era suficiente); as meninas gostam mais dela do que de mim e da mãe — digo isto sem mágoas pela opção delas; também não acho oportuna tal opção. Por conseguinte, comprei uma bela chácara em Araçoiaba da Serra (por sinal, mal-assombrada, mas eu ignorava visitantes de toda sorte). Por lá me aperfeiçoei ao meu gosto. Escrevi novos sonetos, escrevi odes, sáficos, gaitas galegas, e outras dezenas de decassílabo; escrevi alexandrinos e bárbaros, enquanto os pardais tentavam chamar minha atenção à janela; reinventei a métrica e a diluí em anarquias criativas que me faziam gargalhar pelas altas madrugadas, sem que as corujas noturnas, pousadas num galho à janela, me compreendessem. Mas percebi, com o tempo, haver em meu corpo uma demanda, que mesmo sendo menos indômita que a fome e a sede, e estando ao largo, ainda me incomodava; era uma ansiedade genital, a maldita libido: ora, eu a sentira muito sutilmente e difusa, muito de longe, muito de leve, porque estava enceguecido pelos versos; mesmo pela manhã, ao acordar eu notava sua presença e a sentia tal a um leve incômodo, que mobilizava dentro de mim certos pensamentos luxuriosos (e eu nem escrevia sobre o tema…). Antes, aquela coisa volátil, sem nome e sem nexo, reverbera vapor dentro, no calor cego da virilha, sem diretamente percebê-la, até que uma noite, devo dizer, depois de algumas perscrutações, me incomodou, porque eu me alegrei com a lembrança voluptuosa de antiga amiga da universidade. Imaginei-nos em mil e uma manobras sensuais, e por causa de pensamentos persistentes enfrentei duas semanas sem escrever um verso, até me libertar razoavelmente. Desde muito cedo, entre outras pulsões medianas, a sexualidade me era enfadonha; casei-me porque me vi obrigado, coitada…; eu muito jovem quis experimentar, me apaixonei e amei, todavia, acabou…. Para o sexo, nunca uma mulher me atraiu, nem homem, nem quaisquer outras das variantes… sempre tive medo desse calor exótico e testicular, desse exercício medonho sobre superfícies macias, colchões sofredores. A libido sem destinatário é arte, eu sei, mas eu não tenho este dom, nunca quis arriscar de fato, na cama fui um fingidor. Para mim, o sexo era a prática dos bichos que espumam pela boca, dos cães e das aves, em oposição à escrita, algo muito lento e calmo e que se faz sobre superfícies duras, escrivaninhas felizes. Quando casado, me cansava muito deste exercício — seus jogos, as caras e bocas, as mãos bobas, os sons monossilábicos incompreensíveis, os lábios derreados, as convulsões momentâneas, a dedicação ao gosto do outro, às frustrações das precocidades, minhas insuficiências, e a traição que ignorava, porque, como disse, o sexo e suas variantes me eram enfadonhas — na verdade, eu gostava quando minha esposa voltava feliz, porque ela sinalizava discretamente que somente neste aspecto eu não me tornara um suficiente. Sei que mesmo a pequena relação se constitui numa dívida de monta, e as asas daquele que voava sozinho se desfaz pelo caminho do matrimônio — me perdoem por usar esta metáfora tão felpuda. Ah, só mais uma coisa: a cama é tudo! Não é à toa que falam tanto da cama quando se fala de relacionamento. Na cama ocorre o “efeito da presença”, eu já disse uma vez, de quando dormindo ou acordado a gente sente a presença forte do outro, a gente acorda para olhar o outro dormindo, ouvir sua voz e sua respiração, olhar seu rosto sempre inédito, dormindo… isto é o amor. Porém, quando o outro desaparece na cama, se torna parte da cama, tal a uma almofada grande com pés e mãos, e nos sentimos como quem dorme só, acabou o amor.

De todo modo, tomei uma decisão definitiva, porque a literatura era a minha vida. Era o ofício! Sim! Até o final da minha vida, como dizia o pessoal do Romantismo europeu. E, um tipo de prescrição para a existência — e eu achava melhor considerar coisas do tipo do que a vida doméstica. Na verdade, a literatura é um modo de existir, é um horizonte, um portal em aberto, um plano existencial cujo alcance é infinito e maior do que a mente. “A literatura é mais extensa do que a natureza” — uma vez nos disse Eleanor Mannoir. A literatura é um plano extensivo, enorme, onde o mundo recosta a cabeça em busca de algum alívio. E é aí, neste orbe imenso, que eu queria viver e morrer. Deste modo, decidi conversar sobre o assunto com o meu médico; já a minha psiquiatra concordou de imediato. Como é de imaginar, o assunto demandou muitas outras reuniões (e a psiquiatra fartava a sua curiosidade…), porque aí, no âmbito de uma longa confrontação, que se enredou entre eu e o médico, havia um aspecto ético que ele denegou por um tempo; somente a muito custo consegui convencê-lo. Ora, é bom saber que em todo tempo da minha existência eu me reconhecia não sendo heterossexual ou homossexual, ou qualquer outra condição sexual. Na verdade, relativamente ao sexo, como prática eu não tinha gênero, eu nunca tomei gosto pelo ato em si, embora de quando em quando meu corpo “se aquecesse”…, e, íntegro desta minha apatia por mim conhecida e compreendida, ainda que no meio desse “fogo”, perseverei; tempos depois, consegui do médico o que queria — a castração, que é parecida à vasectomia, porém, com extração testicular; eu não queria ficar simplesmente infértil, eu queria ser como um Castrato italiano ou um Eunuco judeu e me libertar da libido, ter paz de espírito, enfim. Tal escolha seria para mim um gesto de violência? O que é a violência? A violência sem destinatário é arte. Aliás, meu pai falava que a natureza nos acha uns idiotas: para manter o ciclo da espécie, pela fecundação, ela nos obriga a copular a preço de esmola, o gozo. Mas eu não quero falar sobre isto.

Ora, pesquisando, eu não encontrei nada sobre castração humana nos dias atuais; num dicionário comum, está escrito que “A ‘castração’ no Brasil é um dos procedimentos mais realizados em pequenos animais. Evita diversos problemas de saúde, melhora o comportamento, e é das medidas mais importantes para controle populacional de cães e gatos. O procedimento não costuma ser complicado, porém exige certos cuidados antes e após a cirurgia”. Apresentei este pequeno texto ao meu médico e ele riu; disse que precisava pesquisar… confessou que nunca realizara tal cirurgia. Duas semanas depois, estava eu em seu consultório; me despi ali mesmo e vesti uma camisola hospitalar aberta nas costas. Numa sala pequena e branca, cerâmica até o final da parede, deitaram-me numa maca estreita. Uma enfermeira aplicou Clonazepan na entrada de um cateter na venosa do braço, porque eu estava um pouco hipertenso e nervoso. Um homem grande me pediu para sentar, ordenando que não me mexesse e aplicou a anestesia raquidiana em algum lugar da minha coluna serviçal. Logo eu estava paralisado da cintura para baixo. O doutor Aristóteles, meu médico, estirou uma pequena cortina, lado a lado à minha cintura e eu não vi mais meus pés, até ele erguer as minhas pernas sobre dois pedestais. Os três começaram a conversar sobre coisas banais, ou seja, era o sinal, a cirurgia havia iniciado. Em vinte minutos ele me mostrou meus testículos na palma da sua mão, e eu não pude segurar as lágrimas, num choro copioso, porque me senti como se houvesse perdido o elemento ancestral da minha existência e que me fez ver ali os rostos saudosos do meu pai e do meu avô. O médico disse que eu deveria parar de chorar, porque aquelas convulsões em meu ventre poderiam desencadear uma hemorragia no local da cirurgia, durante o processo. Ele me costurou por baixo, enquanto eu enxugava minhas lágrimas; realizou seu último ponto e me disse: “Missão cumprida, meu caro… De hoje em diante você será para sempre um homem indiferente ao sexo”. A enfermeira me olhava triste. Por questões éticas talvez o médico mantivesse segredo quanto ao meu caso, por isso ela me olhava triste. Se manteve segredo eu ainda não saberia entender aquela expressão de tristeza nos olhos impecáveis da enfermeira. Nos dias seguintes acordei taciturno demais, de modo que levantava tarde da cama e não conseguia realizar a menor tarefa em meu cotidiano. Meu consolo foi ouvir Pink Floyd e os álbuns Zeit e Alpha Centauri do Tangerine Dream, o dia inteiro, semanas a fio, até sarar. Nos quinze dias seguintes à cirurgia, eu não pude beber vinho e isto me foi aterrador, torturante, porque a embriaguez em momentos decisivos sempre me foi uma grande salvação, quase uma salvação escatológica. Eu sentia uma tristeza persistente e difusa, que estava não somente dentro de mim, mas em tudo ao meu redor, como quando se perde um ente querido; a minha tristeza estava nas paredes, nos móveis, na voz dos transeuntes, na réstia empoeirada que riscava o chão, no chilrear dos pardais, no cinzeiro de latão, nas cuecas sujas dentro do cesto de plástico, na reprodução de um nu artístico de Toulouse-Lautrec em minha parede, na forma quadrada da janela, sobretudo no encarnado soturno do arrebol de fim de tarde. Eu pensei que ia morrer de tristeza. Não havia ombro amigo nem outro consolo, porque ninguém sabia do meu caso, e o médico não me ligou nem para desejar boa sorte. Somente Deus sabia da minha situação, mas Ele talvez não gostasse da minha literatura.

Nos meses seguintes me sucedeu uma calmaria. Meu lar tornou-se mais claro, no espelho meus olhos tornaram-se mais inocentes, meu rosto rejuvenesceu-se uns dez anos, e minhas mãos tornaram-se mais dignas. Minha concentração nas coisas era precisa, meus pensamentos tornaram-se irrepreensíveis, minha autoestima subiu, as ideias fluíam em enxurradas (e eu anotava tudo!); eu conseguia articular pensamentos e conceitos complexos com grande coerência, e mesmo um ser de luz, um homem vestido de branco, rosto luminoso, olhos esfogueados, de uns dois metros e meio de altura, conversou comigo a noite inteira, em minha sala, sentado em meu sofá, e até tomou um chá de boldo comigo — disse-me coisas inefáveis que deveras não é lícito narrar agora. Meu corpo tornou-se como corpo de menino; meus ombros se encolheram, minhas pernas afinaram-se, meus pelos caíram, minha testa ampliou-se para cima e para os lados, minhas rugas desapareceram, meu maxilar tornou-se harmonioso e gracioso, meus incisivos retraíram-se dentro da minha boca, e brotou uma flor em meu peito, deixei de ser carnívoro. Meu pênis tornou-se ainda mais “sanfonado”, de modo que encolheu até quase desaparecer abaixo do umbigo, sobretudo nos dias frios (e como não me restaram testículos, minha virilha era tal a virilha lisa, sem protuberâncias, de um inocente boneco de brinquedo, ou de um andrógino). Passei a realizar enemas em mim mesmo, com o intuito de me libertar um pouco mais dos processos mais baixos do metabolismo animal inerentes a este corpo. São arte os empenhos sem destinatário.

Foram três meses de inoperância total, após a castração; emergi lentamente na escrita e nas leituras, isto de um modo quase sobrenatural, elevando estas duas ao patamar da mais leve e pacifica religião — confesso que eu estava eufórico, excitado de espírito; nunca uma libertação física me trouxe tamanha graça espiritual. Vivi uma mística nova, para além de qualquer recalque freudiano. A um só tempo estava liberto do pudor religioso e do cio dionisíaco. Me arrebatei às nuvens do vernáculo, e era tudo que eu queria, e lá encontrei o divino, o numinoso, o plenamente suficiente, e escrevi bastante. Descobri que a maior emancipação de um homem é perder os instintos. Hoje o alvor dos versos de camões está plenamente apreendido em meu ser. Posso dizer que vivo um nível outro de existência. Estou absolutamente convencido que as pulsões do animal no corpo do humano (sexo, pavor da morte, medo do imprevisível, agressividade, excreção) são um terrível estorvo diante do alto nível de humanidade que se descortina no tempo presente, e do qual sou o primeiro e único representante. Eu sou o übermensch de Nietzsche. Amigo, é preciso elevar nossa humanidade até patamares nunca antes imaginados — e tal libertação somente se fará pela libertação das pulsões, e o sexo é a pior delas! Todas as guerras e todos os males têm sua raiz na transa, têm seu aspecto corrupto também nas pulsões diversas! É preciso elevar o logos aos planos antes inimagináveis! Libertemo-nos a nós mesmos da velha sentença aristotélica do “humano como animal”! O “bicho” no corpo é uma cifra diminuta no calcanhar da existência, e o humano é todo o cosmo! Podemos ser como os santos anjos. Um dia nos aproximaremos daquilo que os antigos orientais denominavam de deuses (e os ocidentais de Sofia)! A busca sem destinatário é arte. E, que todo homem se castre por amor a si e ao devir, e escreva belos poemas, no intuito de libertar a Natureza dos nossos equívocos milenares.

Wellington Amâncio da Silva nasceu em 1979, em Delmiro Gouveia, Alagoas. É professor graduado em Pedagogia e Filosofia, e tem mestrado em Ecologia Humana. Editor das Edições Parresia. É membro da equipe editorial da Revista Utsanga — Rivista di critica e linguaggi di ricerca. Em literatura, publicou-se: Apoteose de Dermeval Carmo-Santo (2019), O Reneval (2018), O Quasi-Haikai (2017), Epifania Amarela (2016), Distímicos e Extrusivos (2016), Diálogos com Sebastos (2015), Primeiros poemas soturnos (2009) e Elegia da Imperfeição (2001).