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67ª Leva - 05/2012 Dedos de Prosa Outras Levas

Dedos de Prosa II

Desenho: Felipe Stefani

A SOMBRA E EU

Homero Gomes

 

À “quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade, decepado
Entre os dentes segura a primavera.”
(Primavera nos Dentes, de Secos & Molhados)

 

 

— Eu vou fechar a porta, para de escrever. Disse ela.

— Peraí. Respondi sem olhar para seus olhos negros. Alguma coisa fora da sala chamava mais atenção.

— O que é?

— Tem alguém naquela janela, tá vendo? Apontei com o nariz, com medo de ser descoberto.

— Não, é a sombra de alguma coisa que largaram lá. Respondeu ela, sem dar muita atenção a minha preocupação.

— Não, é um rosto que tá olhando pra gente. Há quanto tempo tá lá?

— Para de ser neurótico. E foi tentando me empurrar pra escada.

— Não! Tem alguém ali. Insisti.

— Credo. Disse ela, se afastando de mim.

— Deixa eu me esconder. Estou ficando com medo. Minha nuca arrepiava como se um espírito estivesse atrás de mim.

— Eu é que tô com medo de você, tá loco. Coisa estranha… Você tem cada uma.

— Sobe essa escada e some. Disse eu, indignado. — Você tá me atrapalhando.

— Não! Você precisa descansar.

— Eu vou escrever mais um pouco. Afirmei categórico e calmamente.

— Para com isso, essa caneta já tá fervendo.

— É a intenção, me deixa.

— Vá dormir. Ela pedia já colocando os pés nos primeiros degraus.

— Não, eu preciso fechar essa página pelo menos.

— Vá rápido! Ela parecia uma mãe, às vezes.

— Ele ainda tá lá. Disse, voltando ao assunto que me preocupava.

— Não é ninguém, deixa disso.

— É alguém, sim.

— É nada!

— Mas tá rendendo uma história, né? Eu disse, com um sorrisinho no canto dos lábios.

— Desgraçado. Xingou, balançando a cabeça em sinal de desistência.

— Senhor das ilusões. Corrigi.

— Ilusão é a sua existência, seu alter-ego chinfrim. Essa porra não vai dar em nada! Explodiu, enquanto eu redobrava minha atenção no vulto.

— Vai, sim. Insisti, com um fio de esperança.

— Vai dar em doença crônica.

— Não encha!

— Vamos, seu nariz tá sangrando.

— Então, adeus. E fui definhando até a última despedida.

 

 

(Homero Gomes é escritor. Vive e trabalha em Curitiba. É editor do blogue Jamé Vu e colunista dos portais Página Cultural e Mundo Mundano. Contribuiu com dezenas de publicações nacionais, tais como Cult, Rascunho, Ficções, Germina Literatura, Cronópios e Rapa Dura. ‘A sombra e eu’, até hoje inédito, faz parte do livro de contos Sísifo Desatento (inédito), finalista do prêmio Sesc de Literatura, edição 2007)

 

 

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67ª Leva - 05/2012 Dedos de Prosa Outras Levas

Dedos de Prosa III

Desenho: Felipe Stefani

 

 

DO QUE ESQUEÇO

Priscila Miraz

 

Sempre dos gestos mais pessoais. Dos trejeitos mais repetidos. Esqueço dos meus modos nas situações. Das mãos na cintura quando converso em pé, e de como ergo o rosto pra soltar a fumaça do cigarro. Quando me descrevem, dizem do que mal percebo e do que é o menos passivo em mim. No descuido que o esquecimento permite, a restrita liberdade escapa. E os defeitos e falhas tão mal escondidos, os palavrões, a falta de tato, a evidência do cansaço, o excesso de cuidado, os pequenos melindres, a falta de paciência. Tudo bem figurado na descrição. Encarnado. Quando me chamam a atenção, perco o ritmo, tropeço e fico manca. Demoro a acertar o passo outra vez. A espontaneidade é coisa frágil.

 

 

***

 

 

IMAGEM

 

A casa. A porta lateral está aberta. O ar é denso do silêncio povoado. O calor e os rumores do meio do ermo. É cortante o ranger dos bambus gigantes. Eles ladeiam a casa. Dentro é escuro, úmido, frio. Cheira a madeira molhada. Sempre. A cozinha é quase toda a casa. A mesa grande. As cadeiras descompostas pelo espaço. Utensílios. Livros abertos e fechados. Os pratos sujos. Panos. Óculos. Frutas. As flores apanhadas. Partes do silêncio. E também o arrastar da escova nos cabelos. Ele está em pé, atrás dela que está sentada muito ereta num banco, e lhe penteia os cabelos. Grave. Ela se move involuntária. O puxar que a escova lhe inflige ao pescoço. Não dizem nada. Bem à frente dela, uma janela pequena aberta de par em par. A mata no horizonte se revira com a ventania. Acompanha o cinza escuro da tempestade que chega. Ela quase não respira. É calmo o olhar que vê a aproximação da tempestade. É ainda curioso e encantado. O mesmo olhar que vê a cena vivida.

(Priscila Miraz de Freitas Grecco natural de Assis, SP, é mestre em História da América pela UNESP – Assis. Teve contos publicados pelo jornal literário de Curitiba, Rascunho, pelas revistas eletrônicas Germina e Caderno Literário. Participou também de duas coletâneas da editora Pragmatha, O imaginário do mar e do navegador, e Cardeno Literário III- Meio Ambiente)


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67ª Leva - 05/2012 Dedos de Prosa Destaques Outras Levas

Dedos de Prosa I

BRUTALMENTE BRUNA

Marcus Vinícius Rodrigues

Desenho: Felipe Stefani

Eu não sabia o que fazer e abri a blusa
mais tarde eu ia dizer foi sem pensar
ele me achou desnorteada, confusa
como acharia qualquer mulher que abre a blusa
e faz tudo que fiz só pra agradar.
Bruna Lombardi

Flash!

Qual a pose que ficou?  Eu de olhos lânguidos pra ele? Eu de taça de champagne na mão? Podia ser whisky? Essa dor de cabeça é whisky, tenho certeza. Mas quando foi que eu desci do champagne protocolar para o porre? Quem mandou beber em público, sua alcoólatra, no meio de um monte de jornalistas? E olha que eles foram convidados. Nós não somos nada sem a imprensa, querida. Até vocês decidirem nos destruir, eu devia ter completado. Amanhã vai sair a pior foto no jornal. Nada da minha arte, só a fofoca. Você está namorando alguém? Eu ainda estou casada, querida. Ele está filmando no Xingu, um filme ma-ra-vi-lho-so, co-produção com a França, querida.

Flash!

Eu não vou te contar, querida, que acordei com seu flash nos meus olhos, quase cega, querida. Você não vai saber que eu não dormi em casa. Tá! Eu ainda não sei bem onde estou e nem quem é esse cara deitado na cama. Você ia gostar de me ver agora, de quatro, debaixo da cama, à caça de uma calcinha. Eu estava com uma, tenho certeza. A manchete podia ser assim: uma noite vadia com Bruna Bianchi. Muito literário pra você, não é? Você ia preferir algo mais direto nas bancas de revista: flagra! Bruna Bianchi pula a cerca. A foto de meu traseiro nu, mal coberto por esta camisa de homem. Não, querida. Esse gostinho eu não lhe dou. Pode falar mal de meus quadros, pode dizer que sou péssima atriz. Você não é crítica de arte mesmo. E novelas? Aquilo não é arte, é corrida de obstáculos. Como você explica sua arte? Você perguntou. Como você explica sua ignorância, meu bem? Eu não virei artista plástica do nada, benzinho. Você não sabe que eu fazia Belas Artes, quando aquele fotógrafo me descobriu?  O dinheiro era tão bom, entrei no mundo da moda. As novelas? Uma coisa leva à outra. Não! Isso não é meu eu interior. Minha arte pretende outra coisa. Nem pense que você vai fotografar minha alma. Contente-se com meu corpo. E não, eu não estou fazendo isso para aparecer. Se eu quisesse aparecer, seria melhor ter um câncer. Tão na moda, hoje em dia. O sucesso seria garantido. Atriz vence luta contra a doença. Eu, belíssima e orgulhosa com minha cabeça raspada, uma Nefertite vitoriosa. Tenho certeza que você ia escrever algo assim: o sofrimento deixou Bruna Bianchi mais próxima de sua personagem. Ela consegue viver a dor da heroína. Que dor? Pura técnica. Cristal chinês. As lágrimas falsas.

Flash!

Os quadros? Eu só pinto o que vejo. Por isso os cães de bocas ávidas, de olhos arregalados, brilhantes como o sol; os homens abobalhados, os mesmos olhos acesos. E os quadros só com olhos, dezenas de olhos, objetivas de câmeras, binóculos, isso não lhe lembra nada? Você ainda não se identificou, meu amor? Não entendeu nada, hein? Bote lá na sua manchete: Atriz impressiona em sua primeira exposição. Não foi isso que a TV mandou dizer? Enquanto eu estiver no ar, tenho imunidade diplomática. A TV não vai deixar nada me acontecer. Todos nós sabemos quanto vale o meu rosto. E a novela está nos seus momentos decisivos, audiência absoluta. Eu tão comportada. Já faz um tempo que não dou escândalo. Estou limpa, querida. Sem calcinha, na casa de um estranho, é verdade, mas você não tem provas. Vai sair uma foto dele me abraçando? O nome, a profissão. Modelo? Olhando daqui, pode ser. Tem estampa. Minha avó diria que ele tem apresentação, moço bonito. E tem tamanho, Vó. É magro. Deve ser mesmo modelo. Amanhã vai estar famoso. Eu sei, Vó, eu deveria me preservar mais. Vou tentar da próxima vez. Agora só me preocupa a calcinha que não acho. Isso eu aprendi, Vovó. Uma mulher não deve deixar vestígios. São nossas intimidades, minha neta. Mas como, Vozinha? Eu sou uma fábrica de pistas. Meu cabelo cai por onde passo. E essa tintura é única. Outro dia achei um fio na calcinha. Imagina quantos homens que apenas me cumprimentaram foram flagrados com cabelos meus na cueca. Esses fios são assim. Entram em tudo. Também sempre se solta um vidrilho do vestido. O batom, então? E os cheiros. Não dá pra recolher tudo isso. Pelo menos a calcinha! Eu sei,Vovó, eu sei. E se ele pegou de souvenir? Afinal, é uma calcinha de Bruna Bianchi. Um troféu! Ele tem de mostrar pros amigos. Não, não parece que seja isso. Eu devo ter perdido. A cueca dele está aqui, o nome da grife no cós. Ei, dela eu lembro saindo da calça, toda branquinha, embaixo da camisa transparente, a barriga absurdamente malhada, a virilha quase à mostra. Imprensa amada, Vovó querida, Bruna Bianchi é uma vadia. Está explicada a perdição em que me meti. Aquela saliência que começa na cintura e vai até lá embaixo, os pêlos começando discretamente, foi por ali, foi por ali … Veio tudo como um flash. Eu gostaria de me justificar, sabe? Foi uma tentação audiovisual, como nos melhores métodos de aprender línguas. Tinha aquele corpo atrás da transparência e uma voz dizendo algo como puxa, é como se você colocasse um espelho na frente das pessoas que lhe rodeiam, os fãs, os jornalistas. Este é o mundo que você vê. Viu, Ricardo, eu lhe traí com alguém que entende minha arte, ao contrário de você. Tá, isso que ele disse tava no release que mandei pra imprensa, mas eu estava bêbada. E você? Você não pareceu capaz de tirar uma folga deste filme idiota para ser o par de sua esposa. Já está há três meses neste fim de mundo. Ciúmes das índias, eu?. Elas não me preocupam com seus peitos caídos, suas barrigas inchadas. Acho que nem se interessam por um branquelo como você. O que me preocupa são essas atrizinhas de quinta, fazendo papel de índias, os seios duros de silicone, lhe chamando para um mergulho no rio. Não me volte com doenças, Ricardo. Se voltar, que seja malária. Vou me deliciar com as febres de fim de tarde. Ah! Meu amor, o que você me faz fazer? Lembra quando nos conhecemos, eu já estava muito bêbada. Você disse alguma coisa que não entendi, mas terminou me chamando de docinho. Eu não sabia o que responder, nem sabia a pergunta, mas aquele docinho sussurrado no ouvido .. eu não sabia o que fazer e abri a blusa. Você deve ter me achado uma louca. Depois eu ia dizer: foi sem pensar. Ia dizer que foi você quem me tirou a razão. Não foi nada disso. Eu apenas não sabia o que fazer. E uma mulher, assim perdida, assim sozinha numa noite mais triste que as outras, essa mulher, só porque não entendeu uma pergunta, é capaz de abrir a blusa, mostrar-se desafiadora. Foi só isso, Ricardo. Toda minha vida em suas mãos só porque você disse docinho no final de uma pergunta. Não sei se você queria ir ao banheiro ou se queria me pedir um beijo. Eu apenas abri a blusa e você ficou maravilhado com minha ousadia. Um botão pode decidir nossas vidas.

E agora, aqui estou eu neste chão de um apartamento estranho. Veja, vozinha, amigos jornalistas, registrem este momento. Podem fotografar. Eu não estou lá na melhor forma. Este camisão não me valoriza, estou com a maquiagem borrada, mas gostaria de aproveitar a oportunidade para falar de meu próximo projeto de teatro, um recital: Brutalmente Bruna. Eu completamente sem glamour, assim como estou agora. Sempre funciona. Se a ex-modelo se enfeia para o papel, já sobe de patamar, vira atriz. É o pedágio. Vou virar atriz, querida, e você vai ter de deixar suas ironias de lado nessa sua colunazinha de fofocas. Agora só vou aceitar críticas da Bárbara Heliodora, fofa. E eu também vou fazer o cenário e a luz. Veja essa fresta de sol sobre meus seios. Se eu me inclino pra frente, a luz ilumina meu rosto. Já dá uma chamadinha na TV, não é Ricardo. Sei, Vó. Pernas fechadas. Tenho de lembrar sempre de fechar as pernas na televisão. Mas eu vou usar calças. Uma mulher sempre está de pernas fechadas, minha neta, esteja usando o que for. Mesmo sem calcinhas, bêbada, usando só uma camisa de homem? Eu devia levantar e ir ao banheiro recompor este rosto. O que fazer sem maquiagem  na bolsa? Só um batom. Água e sabão. E se o batom é rosa, pode ser o blush  e a sombra. Uma mulher nunca deve estar inteiramente de cara limpa, principalmente nos momentos mais dramáticos. Esse prédio deve ter porteiro que certamente me conhece. Os porteiros conhecem todo mundo que é famoso. As revistas  têm sempre de passar por eles. E quando você está na novela … Tenho de descer com toda a pose, roubar estes óculos do rapaz, esse dinheiro para o táxi. Melhor deixar um bilhete dizendo que peguei emprestado e vou devolver. Não. Nada de vestígios, não é Vó? Ele que pense o que quiser. Depois mando um pacote anônimo devolvendo tudo. Desfaz-se a impressão e ele vai ter certeza de que não é pra me procurar. Vou levar este casaco pra disfarçar o brilho do vestido. Estou uma gatuna. Se eu fosse uma princesa europeia, ia ter um batalhão de assessores pra esconder meus deslizes. Um telefonema e o serviço secreto invadiria o apartamento, depois de minha discreta saída, e sumiria com todos os vestígios. Se o rapaz não colaborasse, jamais trabalharia neste país. Um caso de segurança nacional. Mas eu só tenho minha Vozinha pra zelar por mim e um marido ausente. Ricardo não está nem aí. Ele ia adorar me pegar no pulo. É muito difícil para uma mulher não ser uma princesa. A calcinha? Vejamos uma resposta. Voz natural, enfado: Nossa, ela marcava muito através do vestido. Tirei e joguei no banheiro da galeria. Lembra que Carmem Miranda fez isso uma vez? Eu não podia imaginar que existissem pessoas tão doentes como esse rapaz. Roubar a calcinha de uma atriz como eu. Certamente um fã, mas um fã muito doente. E eles leiloam de tudo nessa internet. Como as pessoas são solitárias hoje em dia. Esse rapaz certamente só quer chamar atenção. Dada minha última entrevista, passo os olhos no apartamento. Simpático até. Desço pela escada os dezoito andares. Elevadores são perigosíssimos. Muita intimidade. É quase promíscuo. Lá pelo nono ouço uma ópera. Alguém ouve ópera de manhã cedo. Ainda bem que não moro aqui. Ópera? Eu quero a Gal aos berros, você me entende. A Gal rasgando a garganta. Saio sem olhar o porteiro na cara e caminho para uma rua transversal. Bairro agradável, nem estou longe do meu. Desvio do jornaleiro que abre sua banca, a rua deserta. Meus saltos são o único barulho nas pedras portuguesas. Não é tão fácil como estar numa passarela, mas coloco um pé em frente ao outro, ombros para trás, mãos nos bolsos do paletó, fixo o olhar num fotógrafo imaginário no horizonte e vou.

Flash!

(Marcus Vinícius Rodrigues nasceu em Ilhéus-BA. Publicou os livros “Pequeno inventário das ausências” (poesia), Prêmio Brasken/Fundação Casa de Jorge Amado – 2001, “3 vestidos e meu corpo nu” (contos) – Editora P55, 2009, “Eros Resoluto” (contos) – Editora P55 e, mais recentemente, “Cada dia sobre a terra” (contos) – EPP Publicações e Publicidade, 2010. Participou das antologias “Concerto lírico a quinze vozes: uma coletânea de novos poetas da Bahia” (Ed. Aboio Livre, 2004), “Os outros poemas de que falei” (Prêmio Banco Capital, 2004) e “Tanta poesia” (Prêmio Banco Capital, 2005), dentre outras)

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66ª Leva - 04/2012 Dedos de Prosa

Dedos de prosa II

COSTUME

Gerusa Leal

 

Foto: Kenia Vartan

 

Escorada na porta, olho para a cozinha: tamboretes, mesa e armário de louça enegrecidos pelo tempo, panelas, conchas e peneiras cansados pelo uso suspensos no ar por ganchos fixos no teto, a noite já bem instalada.

Em que momento havia começado a me acostumar?

O menino brinca e sorri, neto em casa de avó. Aparece de vez em quando. Não pede comida, não quebra nada, não fala, não geme nem suspira. Minha filha adorava brincar com ele, que sorria e brincava com ela de igual para igual.

Acho que por isso tudo, e porque não pede doce nem missa, também fui me acostumando.

Depois de circular para lá e para cá o dia inteiro cuidando da casa, nem pra comer se senta, Da Paz enxuga e guarda a louça do jantar e eu me sento no tamborete ao lado do fogão escutando as dez badaladas no relógio do corredor. Ela tropeça no cachorro deitado ao lado do menino, atento à brincadeira, xinga alguma coisa, pergunta se ainda preciso dela, dá boa noite e some no corredor.

Às vezes chegava a pensar, nesse trajeto sem pouso, que nada me faria mais sair da cama; que nada me restava a não ser esperar pelo nada ao final desse sertão de solo rachado, riachos secos e arbustos retorcidos. Mas havia, sim, havia algo. Ouço a risada infantil e sinto no ar o cheiro do sabonete do banho recém tomado e saboreio esse perfume como se fosse alegria.

O rosto pousado na mão, o cotovelo apoiado na perna, olho o menino girando o pião, que avança pelo piso sem se abalar pelas falhas e tábuas soltas. Mas ele está ainda muito lá adiante. Concentro-me no percurso do pião.

Em qual tábua solta é que foi mesmo que eu parei de girar?

Estamos fazendo companhia um ao outro desde o entardecer. Minha filha chega na porta, estira os olhos até o cachorro deitado ao lado do menino e pensa:

– Já devem ser dez horas.

Depois de conferir se a janela está fechada, some no corredor.

Hoje somos só nós duas e minha neta, Gabriela. Não faz muito, éramos quatro, mas fomos nos dispersando até só restarmos nós. Primeiro foi o menino, depois meu marido, pai de Sandra. Da Paz ainda ficou mais um tempo, mas depois também se foi.

O pião bambeia e para a meus pés: não ouso tocá-lo, chuto de volta para o menino, que me sorri e volta a brincar. Continua a sorrir e a brincar até que, de repente, se vai. Eu sei que ele foi ao quarto de Gabriela. Fecho o casaco sobre o peito, esfrego as mãos para aquecê-las.

Não falamos muito uma com a outra. Já faz tempo que se acabou qualquer assunto que importe. Acabou-se com o silêncio que reina na casa. Sei que ela conversaria se eu quisesse, mas não tenho vontade. As palavras não se formam, e quando alguma passa pelo pensamento, não tem força pra mover a língua. É assim. Por isso não falamos muito.

O cachorro abaixa as orelhas, pousa o focinho sobre as patas e começa a cochilar.

Cai uma gota da torneira, fazendo um som surdo na cuba da pia. Outra começa a se formar, fico esperando que engorde e caia também. Mas ela fica lá, pendurada. Não cresce. Não despenca. O vento sopra nuvens que passam transparentes pelo alto da mangueira, e a gota pendurada finalmente cai.

Sandra passa por mim puxando a gola do robe sobre o pescoço, bebe um copo de água recostada no balcão, os olhos perdidos na noite que entra pela janela. Costumava sonhar muito com minha filha no início, sempre criança, brincando com o menino. Não lembro quando parei de sonhar. Acho que foi quando nasceu minha neta, Gabriela.

Sandra também não sonhou mais. Acorda todas as noites na mesma hora, e vem à cozinha beber água.

Ouço o riso de Gabriela, de lá do berço no quartinho pintado de azul, ao lado do quarto da mãe. Sandra também escuta, seu rosto se anima, e a passos largos some outra vez no corredor.

(Gerusa Leal é escritora entre o conto e o poema. Psicóloga de formação, leitora crônica. Pernambucana, recifense, reside em Olinda. Tem escritos publicados em várias coletâneas e antologias impressas e virtuais. Alguns contos e poemas premiados isoladamente e seu primeiro livro-solo, “Versilêncios”, é Prêmio Edmir Domingues de Poesia 2007 da Academia Pernambucana de Letras)

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66ª Leva - 04/2012 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

doce lâmina

Jorge Mendes

 

Foto: Kenia Vartan
a palavra é o modo mais puro e sensível de morrer e fazer morrer
felix guattar

ocorre o corte. quer dizer, toda palavra primeiro sangra por dentro. depois é o vermelho escorrendo da página em branco. o texto.

– conheço os destilados e as frases do último bar aberto, já posso esquecer.

desnecessário, porém, ressaltar as palavras desespero e cariótica. basta a extensão fria do fio afiado da língua rabiscando a carne (a pele apenas envelhece ao sol. inútil pergaminho. contra-capa), o brilho úmido da ponta do punhal propondo o único ponto final possível ao corpo, porosa esquizoesferografia do desejo.

decerto não se trata de leitura dinâmica com molho rosé para corações voadores & outras miopias dissertativas dos poetinhas com flores no cu. antes é a inapelável solidão dos olhos enclausurados no signo rígido do silêncio. o coração sem explicação nenhuma sussurrando a última estrofe da noite lívida na hora da autópsia semiótica.

como uma vírgula bêbada, quem sabe, haja um olhar mais plano sobre a superfície (isso durante a queda), uma possível desmaterialização gestual no espelho do banheiro. então é a frase noutra forma, concretamente pingando, evaporando e sendo absorvida pelas paredes, criando pedras, descendo pelo ralo, não importa.

ademais, foda-se o foco narrativo. fica o torpor. a pulsação do talho. queima, é vero. arde. mancha o azulejo e o papel. causa pavor aos críticos ligados a higienização e catalogação da frase incendiada.

escorre, todavia.

inútil acrescentar lágrimas monossilábicas e/ou fluidos genitais ao parágrafo. isto é, o amor e outros dejetos não têm nada a ver com a obscura e amarga sentença – escrita com esperma, nuvens e saliva – do estúpido e sempre patético coração. ou seja, a vida – essa puta de refrão fácil e rimas sórdidas, verbo biológico – não ruboriza: aborta azuis. cala infinitos. fecha fluxos. esvai-se, e pronto.

provavelmente algumas imagens maquínicas cruzaram o espaço. rizomas. um sorriso de mulher saindo do mar (como uma interrogação líquida), algumas frases metonímicas talvez ainda dancem em volta da mesa. nenhum futuro-devir, é certo.

de qualquer maneira, não será lírico e nem em forma de meia-lua o traço no pulso. será sim negro e patético e sem retorno o baque. no fim da página, o vácuo.

restará a ruptura. o corpo inerte. o riso de escárnio na metáfora grotesca estendida na sombra. depois é a eternidade (um gosto de alfarrábios no céu da boca), uma sentença azul queimando dentro da cabeça. a bibliografia do medo. a música parada e a inevitável palavra esquecimento sumindo na neblina.

linguagem, é o nome da coisa.

vire a página, irmão.

(Jorge Mendes é formado em história, “quase” pós-graduado em teoria da comunicação pela eca-usp (abandonou o mestrado pra viajar por aí), avesso a qualquer tipo de glamour, leitor voraz de brautigan, amante do vinho e da cachaça, pede pouco e recebe na cara e nunca tem ninguém por perto quando bate a vontade de cortar os pulsos)