Antes de falar, a mulher afastou a escovinha do rosto. Retocava o volume dos cílios com uma máscara preta. Eriçava-os para cima enquanto o olhar verde observava a moça que, há pouco, tinha entrado no banheiro. Ela tentava manter os seios dentro de um decote vermelho que insistia em mostrar demais.
— Você anda com fita na bolsa?
A moça lhe dirigiu os olhos castanhos muito brilhantes e esperançosos. Eram olhos juvenis contornados por uma maquiagem alegre.
A mulher enfiou a escovinha no frasco e o deixou em cima da pia. Vasculhou a bolsa de pedrarias pretas, que combinava com seu vestido também preto, bem fechado na frente e com um longo decote nas costas, até a cintura. Costas nuas.
— Já me vi em cada situação. Tenho linha, agulha, alfinete de segurança…
— Você é bem prevenida.
— Uma vez quase fiquei nua em um casamento, minha filha. Essas roupas são uma armadilha. Toma.
Tirou da bolsa a fita e a entregou à moça. O ar distraído. Sacou novamente a escovinha do vidro e se observou no espelho. A mão em suspenso sem saber se recomeçava a tarefa de avolumar os cílios que já estavam eriçados, negros e curvados para o alto. Daquela vistoria os olhos escorreram para a outra.
— Acho que tem de fazer uma tirinha mais fina. Deixa eu pegar uma tesourinha.
— O decote é muito aberto.
A mulher cortou um pedaço de fita e depois o dividiu ao meio.
— Tenta agora.
A moça agradeceu. Parecia atrapalhada com a operação, tentava a todo custo evitar que os seios ficassem à mostra.
— Coloca a fita mais pra dentro para manter o franzido do tecido. Ninguém nem vai notar.
Continuava olhando através do espelho e se colocou em um ângulo em que não podia mais ver a moça enquanto perguntava.
— Gostando da festa?
— Animada. Tem gente famosa.
— Ah! Sempre tem um ou outro… e muito famosinho arroz de festa. Você vai ver.
— Ai. Grudou tudo. Vou fazer outra. Você não se chateia, não, né?
— Olha… eu… a fita? Nada. Pode usar à vontade.
— Não está gostando da festa?
— Maçante. São todas iguais. Mas tem de vir, né. Quando fico entediada venho retocar a maquiagem. Adoro. Já teve vezes de eu mudar a cor da sombra no meio de uma festa… Ninguém notou. É a vida.
A frase a fez pegar o estojo de sombra. Decidida, enfiou o pincel no dourado.
— E não tem como escapar, né?
Empurrava o seio para dentro do decote enquanto falava. Parecia arrependida das escolhas que tinha feito. Os tamanhos.
— Agora é ir até o fim. Paciência. Estou acostumada a esperar as coisas acabarem. O que não é pra vida toda a gente aguenta. Noblesse oblige.
Murmurou para si mesma o noblesse oblige e descartou o dourado. Limpou o pincel e procurou uma outra cor. Decidiu-se pelo bronze fosco. Começou a retocar os olhos, que até então tinham uma maquiagem mais suave.
— Uma festa de caridade…
A mulher teve de parar a maquiagem para rir.
— Olha meu vestido. Uma festa de caridade. Ele não me avisou de nada.
— Não tem motivo para você se preocupar. Aqui…
— Quem ia imaginar uma festa de…
Voltou-se para a moça. Até então só a tinha visto pelo reflexo do espelho. O cabelo era muito loiro e liso. Alisado. O vestido era mesmo muito justo. O decote deveria ser natural com várias dobras, mas como era um número menor, faltou tecido.
— Deixa eu lhe ajudar.
Cortou novas tiras da fita e começou uma nova operação. Tinha de tocar nos seios. Não havia outro jeito.
— Não tem problema.
— E você nunca veio numa festa…
— De caridade? Nunca nem imaginei…
— Espera. Não se mexe… o bom é que é firme. Vai segurar.
— Me custou muito.
O decote se acomodou nos seios. Não corria mais para os lados.
— Tenho medo de escapar se eu me mexer muito.
— Por enquanto você não vai ter de se mexer. Vai ficar sentada… ereta… vai sorrir suavemente e esperar acabar a festa.
A moça riu.
— Obrigado. Vai ficar o final de semana?
Foi a vez da mulher rir.
— Não. Domingo de manhã tem culto.
A risada da moça congelou num espanto. A mulher se voltou para o espelho. Não se decidia a retornar para a maquiagem.
— O fim de semana inteiro, né?
A moça já não ria. Jogava os restos de fita na lixeira.
— Você é mesmo muito prevenida. Tenho de aprender essas coisas.
A mulher guardou a fita e a tesourinha na bolsa e tirou de lá um estojo pequeno. Dois comprimidos surgiram em sua mão. Um azul e outro branco.
— Toma.
A jovem recebeu os comprimidos em sua mão pela inércia da surpresa.
— O que é isso? Eu não curto…
— Eu vi você mais cedo. Acho que vai precisar. Não é pra você.
— O azul… eu acho que não vai precisar.
— Pelo que eu vi, vai. Amassa e coloca na bebida. Funciona bem.
— Mas não é perigoso?
— Pra você, não.
A moça olhava para os comprimidos sem saber o que fazer. Estava presa em um momento em que a compreensão de algum mistério está prestes a se relevar. Aquele momento em que se tira a venda e a luz da visão primeiro cega antes de deixar aparecer a paisagem. Ela estendia a mão como uma pergunta.
— Com o outro você faz a mesma coisa. Amassa e coloca na bebida. Esse é pro caso de você correr perigo.
Os comprimidos foram postos na minúscula bolsa prateada. A jovem tinha, agora, os olhos mortiços, olhos que enxergavam melhor.
— Obrigado. Não vem para a festa?
— Vou depois.
A moça saiu do banheiro e a mulher retomou a sua maquiagem. Decidiu-se novamente pelo dourado e o passou com generosidade furiosa. Tudo se iluminou em torno de seus olhos muito verdes e muito escuros.
ESCREVENDO UM CONTO
As primeiras frases deste conto surgiram-me durante uma entrevista que dei a Suênio Campos de Lucena, em junho de 2019. A entrevista ainda está inédita. No meio de uma longa resposta sobre meu processo criativo, eu disse:
“Ou mais: que tal pensar outros contos que tenham como ponto de partida objetos ou produtos usados apenas por mulheres? Sutiã, salto alto, cílios postiços, a antiga anágua… já imagino uma mulher no banheiro de uma festa bem chique dizendo à outra: “Eu tenho fita dupla face aqui. Quer?” “Você anda com isso na bolsa?” “Já me vi em cada roubada. Tenho linha e agulha, alfinete de segurança… Já fiquei nua na rua, minha filha. Essas roupas sexies são uma armadilha”… acabo de escrever esse diálogo e já quero saber como foi a história de ter ficado nua. Mas interessante mesmo deve ser a outra que, certamente, tem uma roupa que está mostrando demais e talvez nem tenha se dado conta. Quem são essas mulheres?”.
Esse diálogo ficou guardado no meu computador.
Em setembro de 2020, fiz uma oficina de dramaturgia com Marcos Gomes. Um dos exercícios pedia uma cena entre dois personagens que se referisse a algo fora da cena. Voltei às duas mulheres no banheiro e fiz uma cena curta.
Agora, Fabrício Brandão me pediu mais um conto para a revista. Poderia ser qualquer conto que eu tivesse nas gavetas. Eu lhe pedi uma encomenda: um tema. Já tínhamos feito isso antes: O sabor dos anjos e A frestaforam feitos sob encomenda. Pecados capitais: gula e inveja. Desta vez, Fabrício me pediu com o tema “cidadão de bem” e sobre hipocrisia. Usei as mesmas personagens. Mudei o rumo da conversa entre elas e aí está. Talvez seja um conto ainda em processo. Não sei. Deixemos descansar, desta vez não na gaveta, mas em praça pública.
Marcus Vinícius Rodrigues nasceu em Ilhéus-Ba e mora em Salvador. Publicou, entre outros, os livros O mar que nos abraça (contos, Ed. Caramurê, 2019) Café Molotov (contos, Editora 7Letras, 2018); A eternidade da maçã (contos, Editora 7Letras, 2016) e Cada dia sobre a terra (contos, Ed. Caramurê, 2010). É membro da Academia de Letras da Bahia.
Chico cego viveu meia vida e meia morte, só foi inteiro quando morreu. Por isso mesmo durante toda sua meia vida conheceu a morte.
– Amanhã, morro.
Onofre e Herculano riram:
– Mas, como, Chico Cego?, disseram em uníssono.
– Não acordo mais, ou acordo morto. Acaba minha meia vida, já conheço bem o escuro.
A palavra escuro tinha um significado metafórico para ele, fora da realidade, pelo simples fato de que nascera cego e, sem nunca saber o que era luz, não tinha como comparar. Escuro para ele era um nome que tanto podia ser branco, colorido ou até luminoso. Durante a vida, em sonhos ou em grandes bebedeiras, brilhos espocaram pela sua mente, mas ele não tinha como descrever para si mesmo aquelas coisas na cabeça, por lhe faltarem as comparações, que na mente de uma pessoa não cega são corriqueiras. Seu mundo era tátil e sonoro, luz para ele era algo etéreo descrito por mera formalidade, por meio daqueles dois sentidos. Luz, cores, brilhos eram palavras sem sentido, usadas somente para melhor se comunicar com as pessoas “normais” do mundo.
Onofre e Herculano eram seus parceiros de bar, sempre bebendo e sempre conversando. Eles falavam do mundo da luz, das mulheres bonitas, o que Chico Cego entendia com as mãos. O que era uma mulher bonita?, ele perguntou uma vez. Os amigos se olharam entre risos. Mulher bonita tinha um corpo bem feito, um sorriso com dentinhos alvos, olhar distraído de donzela e rebolava ao andar. Como fazia Chico Cego para entender estas coisas com as mãos? Teria de tocar o traseiro de algumas e ir apalpando enquanto ela andava. Chico Cego então tocou o seu próprio e mexeu.
– Ah! Então isto é uma mulher bonita!
Uma vez perguntou à mãe, quando ainda criança, o que era a morte.
– A morte é a escuridão total.
– Mas, mãe, você me disse que o cego vive na escuridão porque não enxerga. Então eu estou morto.
– Não, meu filho, você tá vivo, é que você é cego.
Chico Cego não entendeu e desde então viveu convencido de que estava morto, ou melhor, meio morto. Hoje, sentiu, lá no fundo, que amanhã seria morto inteiro, deixaria a metade viva de lado. Para ele seria um ato normal, sem muitas consequências. Como foi que sentiu, não sabe explicar. Sentiu. Talvez, depois de beber alguns goles de uma cachaça, da boa, pudesse encontrar as palavras. Chico Cego sempre gostou dos goles, a cachaça fazia aparecer coisas na sua cabeça, seria isto luz? Os amigos descreviam coisas como chispas brancas, algo dourado como o sol, mas sol para ele era somente um calor que queimava a cabeça e ardia as costas. Ele chamava isto de coisas, não conseguia encontrar outras palavras e por isto continuaram coisas. Eram as coisas desconhecidas que apareciam na cabeça, depois dos goles.
– Chico, o que eu quero saber é: como você vai morrer? Você vai se matar, vai se jogar em cima de uma faca ou na frente do trem, ou então vai tomar veneno? Pois é, como? Ninguém morre só porque quer, ainda mais com uma saúde de ferro como a sua.
Herculano perguntou, enquanto coçava o cabelo ralo e mordia um dedo num tique nervoso. Os dois amigos se olharam, Chico Cego sentiu os olhares e sorriu. Como ele podia sentir olhares sendo cego? Dizia ele que isto era a visão do cego.
– Eu não sei como vai morrer o resto que me falta, disse ele, quem sabe um carro passa por cima de mim, ou um avião cai em cima de mim, mas não precisa muito, só falta um pedacinho. Quem sabe encontro a Francisca? A desgraçada me deixou, a mulher mais bonita do mundo. Um dia ela disse que me olhou nos olhos e perdeu a vontade de homem. O que é isso, “olhar nos olhos”? Eu não tenho olho, tenho uma coisa na cara, mas não enxergo, então não tenho olho. Será que ela morreu? Quem perde a vontade morre. Eu não perdi a vontade, mas, mesmo assim, vou morrer. E eu acho que, morto, encontro ela.
Onofre e Herculano se lembraram da Francisca. Foram eles que a apresentaram a Chico Cego, era a mulher mais feia da cidade, tinha o rosto torcido, gordíssima, falava pelos cotovelos, condenada a viver sozinha. Chico Cego a conheceu com as mãos, apalpou, correu por todos os cantos e recantos e assim foi definindo seu conceito de mulher bonita. Quando terminou, registrou na mente o que seria a mulher mais bonita do mundo. Os dois amigos também sabiam que Francisca não aguentou a forma de Chico Cego olhar para ela com as mãos, ele a tocava tanto, rebuscava por todos os seus recônditos, não parava, dizia que estava olhando, desfrutando da sua beleza. Assim eu enlouqueço, desabafou ela um dia. No outro, foi embora.
No dia seguinte ao anúncio, Chico Cego morreu. Foi atingido por um raio num dia de sol. Ninguém sabe como. Parece que havia uma nuvem esperando por ele na curva da estrada. Pouco antes de chegar em casa, ela avisou com dois trovões e, logo após, descarregou um tiro certeiro bem na cabeça. Disseram que, antes de morrer, ele gritou: luz!! Os amigos comentaram que neste segundo antes da morte, enquanto o raio penetrava pelo crânio adentro, ele viu. Eles então levantaram os copos de cerveja e fizeram um brinde ao amigo que, finalmente, conheceu a luz.
Enio Jelihovschi nasceu e cresceu em Belo Horizonte. Aprendeu a gostar de livros com o irmão mais velho com o qual dividia o quarto e as querelas. Com ele também aprendeu a escrever e que escrever bem depende de talento e muita labuta. Atualmente é professor da Universidade Estadual de Santa Cruz, onde gosta imensamente do trabalho que faz. Vive em Ilhéus, a qual considera a cidade mais charmosa de todas que conheceu. Publicou o livro de contos “Assassinos de Aluguel” (Editus – Editora da UESC, 2013).
“Acabou-se tudo! Acabou-se tudo!”. Agitou-se o fragor interno, tomando-lhe o mísero instante de lucidez, enquanto sentia tremer o chão, com os passos decididos do verdugo no seu encalço.
Já passara três dias e três noites inteiras correndo e se escondendo, sem pregar o olho, pensando em cruzar a Serra da Barriga e pôr os pés no solo sagrado, para a honra dos seus; que, a essa altura, não lhe socorria o enlevo, mas, sim, a necessidade. Iria, aí, resolver o seu destino junto dos seus.
Estava num descampado de perder de vista. Por sorte, havia alguns pés de planta, não muito frondosos, com galhos que se derramavam sobre rochas. Alojou-se e sorveu um bocado de água barrenta e velha, acumulada na pedra maior, de não se sabe quando. O problema estava propriamente em não se hidratar, pois que o seu corpo clamava e não conseguia discernir mais que isso.
Em geral, as noites pareciam amenas nos recém-findados dias. Justo nessa ocasião, o abafado lembrou-lhe do dia em que fora jogado, qual bicho – e próximo deles, dividindo o mesmo espaço de venda –, nas ruas, saindo do porão mofado para cair na boca das aflições da província; trocando um inferno por outro. Eram cinco, escorados na parede e acorrentados, confusos – sendo, em razão do porte avantajado, em menos de uma manhã, adquiridos por um senhor gordo e sério, de suíças longas, que se encontravam, na altura do pescoço, com o bigode. Diminuto nas palavras, tirano nos mandamentos. Foram testados aí, indo ao matadouro carregando seus próprios corpos.
Dos três irmãos, era o que mais sentia o peso de ser arrancado de sua terra. Todos tinham fé; Kalima, em seu íntimo, não. Às vezes, era censurado por supostamente não estar conectado aos céus. Sofria, também, por não estar impregnado desse dom natural: “Kalima, para de ser um pedaço de pano puído, sem vida; vai acabar nos sugando para a indevoção e para a morte!”.
A libertação era algo impensado. Jazia há pelo menos cinco anos em meio à lama civilizatório-putrefata chamada Brasil, do qual nunca tinha ouvido falar, nem entendia aquela língua embolada, prestes a afogar o falante de torpor; sem uma distinção ou reconhecimento pelo trabalho extenuante, passando, como podia, empapado com precário pão e água, no mais das vezes. O juízo que calhava era que, se não fosse pelos irmãos e a mãe, que trabalhavam ao seu lado, teria matado um branco e se matado em seguida.
Admirava-se de Mazi, um negro alvoroçado, submisso por medo dos graves castigos, que chorava todas as noites sentindo saudades das filhas. O lamuriar era contido, para não perturbar os da Casa Grande. Não queria contato com ninguém, por receio de provocar alvoroço. Nada mais lhe interessava na vida. Se não fosse o medo e a esperança rasa de encontrá-las, teria preparado a maior desgraça para morrer apanhando, refletia Kalima, para fugir do lugar-comum.
Sem conseguir dormir, depois de doze a quatorze horas ininterruptas de trabalho, já não aguentando mais, Kalima perdia o centro e gritava para que parasse; e Mazi, de pronto, respondia: “Você, seu desgraçado, tem sua mãe e seus irmãos; eu não tenho nada. Me deixa chorar em paz!”. Essa foi a última lembrança que sucedeu a Kalima, do negro que morreu, ainda assim, açoitado, por ter chorado e se deitado no chão enquanto deveria estar trabalhando – estava morto em vida, de tão arrebentado; essa outra morte era decência.
***
Mais uma vez, sentia na carne, pelo atrito programado que aderia e rasgava, as tiras de couro embebidas em água e sal grosso. Pregavam nas lacerações – onde se podia meter um dedo, de rasgos e mais rasgos não cicatrizados – cristais de sal, que, na voz do capitão-do-mato: “É pra se benzer e agradecer, seu verme, pra não ficar a porcaria do chorume escorrendo na terra e as varejeiras botando bicho no bicho!”.
Registrado no departamento da coroa como João de Borges – sendo Borges o seu senhor –, originalmente Kalima de batismo, lembrava-se da sorte da mãe, por ter se jogado e se liberado no abismo, depois da caçada feroz, que dizimou seus irmãos. Mãe e irmãos, agora, o seu orgulho, por não haverem se entregado. Não suportavam mais os desmandos e não o diziam, decerto, para não o desencorajar, já que era fraco na fé.
Kalima, embora aturdido de tanta pancada, vislumbrava um plano. Escondera uma pequena faca amolada do carrasco, própria para sangrar. Esperava, ansioso, o novo amanhecer.
Adriano B. Espíndola Santos é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro livro, o romance Flor no caos, pela Desconcertos Editora; e em 2020 o livro de contos, Contículos de dores refratárias, pela Editora Penalux. Colabora mensalmente com a Revista Samizdat. Tem textos publicados em diversas revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir – sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.
1. …Maria, minha mãe, de 57 anos, tem esquizofrenia.
2. …Nada é mais doce que a tortura cotidiana para deformar o espírito de uma pessoa. Mamãe explicava com muita clareza o método de vovó.
3.…Porque o dizer importa! – exclamava Maria a seu marido. Não, ela não dizia a ele sequer uma frase completa. Maria dirigia sua voz ao invisível que habitava as paredes. Contradizendo o valor do inaudito, ela ressignificava o dizer. A ruptura do silêncio era o emergir de uma nova percepção do espaço que a envolvia. Percepção essa manifestada na palavra. Cada elemento desse objeto sonoro, apenas exercia a função narcisista de realçar a subjetividade de Maria. …quanto mais falava, mais percebia a si mesma.
4.…– A esquizofrenia de Maria obedece à 2ª lei da Termodinâmica. É irreversível. A desordem tende a aumentar até um estado futuro em que você não mais a reconheça. Antes desse dia chegar, é melhor não estar com ela. – sentenciou o médico.
5.… Em 1992, mamãe saiu de casa. Desde então, vivo em 1992.
6.…Existem três verdades sobre Anderson: ………a) Ele, enquanto nome e sujeito, não passa de uma crença reforçada pelo tempo. ………b) Houve cinco Andersons em três décadas e meia. O atual é a soma dos anteriores. ………c) O atual existe em conflito com os anteriores.
7.…Quanto a Anderson não sei o que afirmar, porque:
……..a) O original durou do nascimento até o dia em que uma tempestade se manifestou em sua cabeça. ……..b) O segundo apareceu em 1992, levando à morte o primeiro*. ……..c) Já o outro veio a surgir na virada do século 20, durante o curso de Letras. ……..d) E o quarto sorriu em 2012, assim que suas mãos envolveram a pequena Ana Clara. ……..e) Mal conheceu a traição, o quinto emergiu.
…. Daí a impossibilidade.
Estou certo disso: o segundo é uma constante que molda todos os posteriores.
8.…Um parasita controla o cérebro de minha mãe. No exato instante em que o ingeriu, perdeu o domínio das emoções. Agora não sei dizer se ainda há algo nela que possa ser Maria.
9.…Em 26 anos, ela desapareceu.
10.…Mas antes de esvanecer, Maria foi:
………………a) A mão que rascunhou minhas fantasias. ………………b) Os cabelos encaracolados que enovelavam-se em meus dedos. ………………c) O riso ante o grito e a angústia.
11.…Em 26 anos, percebo agora que eu também esvaneci; mas para quem?
12.…Deus ama os seres mutilados.
13.…A ordem era que, com oito semanas, o prepúcio que envolve a glande fosse cortado. Mas, somente com oito anos, tive esse privilégio.
14.…Quando a pele foi arrancada, Deus tirou de mim o prazer. Em seu lugar, a graça de uma vida clemente.
15.…A Bíblia tornou-se minha penitência. E após um tempo que não sei determinar, me converti.
16.…Na conversão perdi o meu nome. Perder o nome é o mesmo que cindir o ser.
17.…Eu sou um homem mutilado.
18.…As mutilações foram três sequencialmente: ………………a) Maria. ………………b) O prepúcio. ………………c) A traição.
19.…Deus me ama.
20.… A loucura constitui-se em um crime contra seu possuidor. Há quem o converta em poesia. Não o louco. Com que paga seu crime? Barganhando o corpo. É uma oferta generosa: perder um pouco de si para ganhar alivio à dor.
21.…O louco, meu amigo, é um penitente.
22.… A oferta teve um lucro: Kelly.
23.…A avó não permitiu que Maria cuidasse da própria filha. Kelly foi tomada. O louco não é apto para cuidar de uma criança. Que pena! Ninguém permitiu que criasse os filhos. Nem Deus, nem o marido, depois nem o primogênito. Acusada, foi banida.
24.…Internada em um hospício, fugiu.
25.…Em um instante de frenesi, quando o delírio toma as feições do espírito e o poeta manifesta-se cantando o porvir, Maria gritava nos corredores do hospital.
26.…Sem filhos, assim ela passou o resto da vida.
27.…Maria morreu em uma cama de hospital sem estar cercada pelos próprios filhos.
28.…Morta, Maria foi sepultada.
29.…Kelly esteve presente, apenas.
30.…Sem Maria tudo é permitido.
31.…Sem ela, Anderson é responsável por qualquer dor que a escolha lhe trouxer. Não pode mais culpá-la.
32.…É tarde
* N.A.: O primeiro não é o mesmo que o original, cujo sentido etimológico é creatio ex nihilo.
Anderson Fonseca é autor dos livros “Sr. Bergier e outras histórias (2016)” e “O que eu disse ao general (2014)”. Atualmente, cursa Mestrado em Filosofia na Universidade Federal de São João Del Rei.
Primeiro ia tirar os sapatos. Perderia o medo dos pés sujos e entraria mata adentro, se despojando das roupas até estar nu. Enfrentado o terror da escuridão, o frio, os mosquitos, cobras e o que mais habitara sua insegurança infantil. Seguraria na Jurema, na fé antiga, e ia aprender a se perder de vez.
Viria tarde pra casa, cansado e com fome. Ansioso pelo banho e fazendo as contas pra fechar o mês e poder ir tomar umas caipirinhas na praia, dormir até tarde e lembrar qual a valia daquilo tudo. Entraria no apartamento com um sorriso, contaria uma história e colocaria as mãos nas costas dela, sentindo o cheiro do sono vindouro.
Acenderia a luz da sala. Sentaria na poltrona carrancudo. Três da manhã e ele não atendeu o celular uma única vez. Já teriam conversado longamente sobre ele. Assumiria a responsabilidade dessa vez. Não queria gritos. Queria encarar o idiota olho no olho e saber se estava bem e se tinha comido. Colocaria a sobra de almoço no prato e dentro do microondas.
Compraria seus próprios remédios. Sangue derramando no chão seria muito assustador pra ela. A cena teria de ser de sono. As despedidas e pedidos de desculpas teriam de estar escritos. Toda a operação iria se realizar de forma simples. O momento de ir tão longe quanto necessário pra escapar de si. Imaginaria o reencontro com ele e ia ter certeza que iam faltar dados e o livro do mestre, mas sempre valia mais ter um bom cenário. Teria vários planejados.
Sairia na rua sem avisar. Desligaria o celular. Andaria por horas sem rumo.
***
Coleiras
Fazia sol na praça. Poucas nuvens no céu, crianças correndo e gritando. Pipoca, algodão doce e aquela quentura gostosa, abrandada pelas folhas das amendoeiras que moravam ali.
Isolda detestava e amava tudo aquilo. Desprezava os guris e suas brincadeiras idiotas, mas amava o efeito que causava neles. Os olhos assustados, o modo como abriam espaço, a sensação de poder mudar o aspecto da praça inteira com sua simples presença. Dela e de Tião.
Dalila era uma linda! Alegre, brincalhona e boba. Só causava medo pelo tamanho. Era uma Fila brasileira imensa… a alegria da fazenda São Ciro. Depois do assalto, veio o medo, veio Conde, o Mastim Napolitano. Grande, severo e bem treinado. Não fez questão de ser mimado ou brincar. Seu trabalho era outro. Dalila tentou mas não conseguiu nada além da cruza. Conde era mesmo europeu.
A ninhada era apenas de três filhotes: duas fêmeas cinzentas (Loli e Poly) e um macho de pêlo negro e cara enrugada. Isolda tinha acabado de debutar seus quinze anos e vovô achou que era melhor dar um cachorro, que era de graça, do que um celular.
Isolda olhou para os cães com um desdém completo. Eram fofos, mas preferia tê-los como brinquedos da fazenda do que se encarregar dos cuidados, xixis e cocôs. Sua mãe ia encher pra que fosse ela, e não Neide, que fosse responsável pelo bicho. Ponderava a desculpa ideal pra se manter nas graças de vóvis e conseguir ao menos metade das parcelas do iPhone, que dinda cobriria o resto. Foi quando percebeu que Tião rosnava para as irmãs. Pegou ele no colo e foi amor derramando no chão.
Isolda treinou Tião com afinco naqueles três anos. Na disciplina cruel que só uma adolescente é capaz. Carinhos imensos e punições geladas. Era como se Tião tivesse de agradar duas donas diferentes, mas que cheiravam do mesmo jeito. Tião se tornou assustador, feroz e tenso. O corpanzil parecia ainda maior com a pelagem e os dentes brancos que brotavam da boca negra eram saídos de um conto de lobisomem.
Nem a mãe, nem o pai e nem Neide eram capazes de cuidar de Tião, mas era Isolda chegar e Tião se derretia em pulos e rosnados. Isolda permitia exatamente vinte segundos de afagos. No olhar, num simples olhar, Tião ficava teso. Estático e firme, sentado nas patas traseiras, olhando em súplica. Babando e esperando.
Tião ouvia os passos dela pela sala. Já havia compreendido todo o ritual. Podia sentir o cheiro dela mesmo do quintal. Ela tomaria banho e sairia com a coleira na mão. Era uma peça de couro firme, grossa e com três fechos de metal prateado e polido. Ligado a ela, uma corrente fina mas muito sólida. Não importava o quanto fosse difícil, tinha de se conter e esperar que ela prendesse a coleira no seu pescoço. Toda aquela ânsia de latir, morder e correr precisava ficar presa até a praça.
Isolda segura Tião com pulso firme. Sabe que ele jamais se afastaria dela pra morder ninguém. Mas eles não sabem, e é uma delícia. Tião rosna e ruge. Suas ameaças estrondam pela praça e todos os olhos estão em Isolda. Vestido florido, cabelo de presilha e óculos de menina estudiosa. Um contraste adorável. Tão adorável quanto a ausência da calcinha.
Isolda tinha mesmo algum poder.
Wilfredo Lessa Jr. é professor de inglês que nunca morou fora, músico que não toca instrumento e intelectual que não se formou. Diz ele. Membro inativo do P3 (projeto 3), Infected Minds e Irmandade Arcana. Também se finge de escritor para poder falar de livro com gente que é.
Papear com ele com a cabeça em seu ombro no quarto escuro. Jogar pega-varetas com ele, botão, dominó no chão do quarto, enquanto minha mãe chorava pelo draminha da tela ou sei lá por quê. Chovesse lá fora à noite e eu tinindo de febre e ele me empurrando limão quente com mel e alho. Nada disso eu vi. Devia ser um tigre e não se assustaria com qualquer gripe. Veio um tio de longe uma vez, irmão dele, ver minha mãe e me ver; trazer um dinheiro pra folgar as despesas. Não sei, não sei, era o que ele falava. A testa apoiada nas mãos juntas, como se rezasse. Não posso falar pela cabeça dele – ele dizia –; o que posso é vir aqui às vezes, trazer uma ajuda e passar o olho no menino.
Aquela droga de sábado de competições no colégio. Todo ano a legião de barrigudos atrás da bola, saltando, correndo pra vomitar no banheiro da quadra. Menos o meu. Nada disso eu vi. Até os 10 anos eu sofria a semana inteira antes do Sábado do Papai. Minha mãe corria dias antes até a diretoria; não sei pra quê. Uma professora tentou aliviar as coisas pra mim. O pai dele nunca participa porque trabalha viajando, viaja muito, crianças. Uma mentira que salvasse meu couro pra sempre.
Mas o que importava mesmo era na classe, ali na conversinha paralela. Quando no recreio o assunto era o sábado de competições, eu ia olhar as plantas, ou me encostava nas rodas de figurinhas. Eu morria uma vez por dia, cada dia da Semana do Papai, até que o sábado passasse e os meninos com pai e sem pai voltassem a ser uma coisa só.
Dividendo, divisor, quociente e resto. Minha mãe não entendia bulhufas de contas. Ele devia manjar disso e até me daria uma força na interpretação de textos. Mas nada disso eu vi.
Eu e seu pai lá na roça, quando a gente era pequeno, a gente armava arapuca e alçapão pra pegar passarinho. Aquele meu tio irmão dele chegou uma vez já contando isso com uma gaiola na mão. O azulão morreu em dois dias. Acho que minha mãe o envenenou.
Abrir no chão da sala na sexta à noite os pacotinhos de chumbada e anzol, colocar linha nas varas, cortar isca pra sábado bem cedo a gente ir pescar na Lagoa dos Patos, bem ali no bairro. Passar de volta antes do meio-dia com a cordinha de traíra e acará. Eu e ele desfilando na frente dos prédios. Mas nada disso eu vi.
A gente bem que podia se rivalizar entre Zorro e Lone Ranger, ou entre Silver e Escoteiro, mas eu almoçava com o prato no colo vendo Zorro e de noite – antes de descer as pálpebras – não dava pra recontar o episódio no vazio, pra ninguém.
Lá em meus 4, 5 anos, minha mãe tinha que responder nervosa e sem graça a tudo que eu quisesse saber dele. Agora tá perto de ele voltar, mãe? Quando não aguentou mais, ela escondeu um porta-retrato em que ele me segurava no colo ainda de fraldas. E assim ela me explicou tudo sem abrir a boca. O resto foi silêncio e choro.
Dênisson Padilha Filho (1971) é escritor e roteirista de audiovisual. É Mestre em Cultura e Sociedade pela UFBA. Recentemente lançou “Um Chevette girando no meio da tarde” (Mondrongo, 2019, contos). É autor de “Eram olhos enfeitados de Sol” (Penalux, 2017, novela), “Trilogia do asfalto” (Editora P55, 2016, contos), “O herói está de folga” (Kalango, 2014, contos), “Menelau e os homens” (Casarão do Verbo, 2012, contos e novelas), “Carmina e os vaqueiros do pequi” (2003, romance) e “Aboios celestes” (1999, contos). Participou de algumas antologias e tem textos publicados em diversas revistas literárias. Foi vencedor do Prêmio Internacional Cataratas de Contos- 2015.
No meio do país ainda se acredita em Deus e no casamento, as pessoas vão à praça, fazem festas na calçada da igreja, sorriem e comem carne em churrascos civilizados lá no meio, longe de tudo, perto do mato e da água, onde poderiam ser mais selvagens, acreditam no progresso e confundem progresso com:
Deus
emprego
casamento
previdência
e morte
A gente não cresceu ainda, então é mais fácil fingir de doida e escapar da catequese para ir nadar, correr léguas da catequese e zunir da missa, cruzar a rodovia na garupa de uma moto e queimar a batata da perna, beijar atrás de um caminhão pisando em galho seco, fazer gangue para roubar bombom, se depilar na casa de uma tia
estranha
voar para muito longe dali
e nunca mais voltar
***
Fuga número 2
Se tudo começa quando a gente fala, então as palavras eram:
mapa
mala
festa de adeus
(último) contra-cheque
salto
medo
vontade
Socar tudo em duas portas de armário, vender a mãe e a sogra num mesmo pacote, telefonar para aquela prima distante, cavar uma carona no sete de setembro e varar as montanhas para pegar essa garoa que molha a alma e às vezes demora a secar.
mas seca
e a gente aprende que é bom
carregar capa de chuva
***
Fuga número 3
Ali está um bueiro (a palavra é alcantarilla, em espanhol) feito para quem não teme passeios pelo subsolo dos diabos brancos, como o da carta do tarô.
– desça, diz o lobo
no eco de um bom mistério
Metros abaixo, a vista embaralhada de desejo e perdição, exploro corredores compridos, sem bússola nem lanterninha. Viro menina-morfina sob um feitiço amoroso que abraça e paralisa.
– dance, ri o lobo
ao som dos seus maiores medos
Nas galerias que servem como salões de baile, sou vestido, maquiagem, laço grande no cabelo. Quase não sei por qual buraco entrei e tenho um arranhão vermelho no pescoço quando a festa termina.
– fuja, rosna o lobo.
com uma boca enorme que me morde forte
mas assopra sempre que o primeiro raio de luz
atravessa nosso quarto
Maria Lutterbach (1982) é mineira e vive no Rio de Janeiro, onde escreve e realiza projetos audiovisuais. Foi cronista do jornal “O Tempo”, de Belo Horizonte, e colunista convidada no blog da saudosa Cosac Naify. Seu romance de estreia, “Baixo Araguaia”, será lançado em breve pela editora Quelônio (SP).
Estava morta a minha irmã, ali entre jasmins e rosas, minha mãe à cabeceira chorava. Era uma noite inquieta, essa do velório em vigília e prantos por Estelinha, de quando em quando se rezavam benditos. O enterro iria seguir no outro dia, no meio da manhã de sol.
Estela estava morta, aos treze anos. E eu sentia dentro de mim esta morte. Era um pouco também eu morto, sem tempo de me redimir e poder amar minha irmã, como — só agora! — eu sabia ser capaz. Ela não morresse, eu iria brincar com ela, nunca mais uma zombaria, nem desprezo, nunquíssimo a chamaria de “sua doida”.
Pois agora eu começava a compreender sua linguagem; logo agora, desde que ela se fora para o hospital, eu comecei a entender seus diálogos compridos com as pedras, com os tocos de pau, com as folhagens ao vento. O silêncio de sua ausência no quintal se mostrou dentro de mim em tons de uma saudade estranha. Mas, ainda ali, eu não suspeitava do que me vinha na alma.
Tudo fora a ordem do tempo. Ela nascera primeiro, três anos antes de mim. Agora a diferença encurtava, mas justo quando eu me afogava nesse deserto de lágrimas. Pela primeira vez, eu dialogava com a minha irmã:
— Estela, acorde, vamos conversar com as pedras — sussurrei no seu ouvido, ninguém me escutasse.
A madrinha veio me consolar, eu tivesse paciência, fora a vontade de Deus, o melhor para ela, tão doentinha, coitada. Tive raiva de madrinha, no meu mais íntimo sofrimento. Continuei a conversa, até que me puxaram pelo braço, pois minha mãe redobrava-se no pranto.
— Estela, acredite em mim agora. Vamos correr picula.
O corpo dela suava, dormindo sem ressonar. Um pano envolvia seus cabelos castanhos e descia para sustentar seu queixo — talvez para conter o sorriso? Minha mãe enxugava o suor da morta com o mesmo lenço em que depositava as próprias lágrimas. O tempo voltasse, meu Deus! Eu só implorava um único milagre. As imagens desfilavam na minha memória, eu a escutava como se fosse agora:
— Vamos brincar, Dindinho.
— Não me chame de Dindinho! Meu nome é Pedro — respondia áspero, sem sequer olhar, e ia saindo.
Eu pensava odiar o fato de ter uma irmã assim. Ela insistia, amorosa, que me dava um constrangimento.
— Não, ninguém sabe, mas é Dindinho, seu nome bonito, eu chamo — dizia, como se eu continuasse presente.
Eu fugia de ter essa irmã. Os meninos me abusavam. Várias vezes briguei por me chamarem de Dindinho, o irmão da doida. Dindinho, eu mesmo não! Minha mãe já ia pegando o costume de me chamar assim, nas vontades de sempre agradar a filha. No contra, eu me rebelei, fugi de casa um dia inteiro. Minha Mãe me deu uma surra, depois, mas nunca mais me chamou daquele nome.
Por que ela existia? Eu não me dirigia a Estela. Mudava de rumo, baixava os olhos para não dar com ela. Eu a considerava um estrago na minha vida. Quis muito que morresse.
Ela me surpreendia, às vezes, antes que me mostrasse irritado, como quase sempre acontecia:
— Quando você morrer, Dindinho, de que cor você quer suas asas no céu?
Uma coisa tão sem sentido, que eu sequer respondia. Apenas fazia uma careta de enfado, balançava a cabeça negativamente. Ela me cercava os olhos, inventava brincadeiras cada vez mais estranhas, para conquistar minha atenção. Isso tudo mais me afastava. Os meninos, meus amigos, considerassem que eu não tinha irmã, pois mencioná-la era já motivo de desavenças. Fiquei de mal com alguns dos melhores, tempos e tempos, por essas causas.
Diante de minha repulsa, Estela intentava uns modos de me sensibilizar, sem o menor sucesso. Um dia, posto que eu a estivesse atentando muito, ela imaginou uma proposta das mais descabidas. No começo da noite, ela, depois de tanto silêncio, me propôs com a maior certeza do mundo:
— Eu lhe dou uma coisa para sempre, aquela estrela grande será só sua a vida toda e depois, Dindinho.
— Ora, quem pode ter uma estrela, “sua doida”? — desdenhei.
— Pois pode, porque é minha e eu lhe dou só pra você, Dindinho. Mas só se você sorrir para mim, todo dia, uma vez… Só uma… Você quer?
Nunca soube sorrir para você, Estela, me perdoe. Quando eu tomava posse de mim mesmo em mais profundo, quando um sorriso germinava no fundo de minha alma — e seria seu! —, você já não estava aqui. Até hoje só me vêm as lágrimas que nunca tive antes, quando você vivia em seu mundo de imagens, que só percebi depois. Eu era mesmo um Pedro, o coração tinindo na dureza, você foi me amaciando. Você, aos quase quatro anos, me carregou no colo. Eu era seu neném, como a nossa mãe me contou, depois de tudo, tardiamente. Estela… Tudo podia ser tão diferente!
A noite ia avançando, em horas que eu não conhecia, os meus olhos já desistentes. Eu me debruçava sobre a morta, o sono me empurrava para ela, nos movimentos bruscos dos cochilos. Minha mãe me mandou dormir, e eu, depois de insistir negativo, enfim saí cabisbaixo da sala, a solidão me completava. Não me dirigi ao meu quarto, mas ao que ficava ao lado. E examinei os ângulos daquele lugar, tudo tão limpo e arrumado numa ordem que eu não conhecia. Ali, enxerguei os contornos deste vazio que até hoje carrego. Fiz meia-volta e caminhei para o meu leito, mas não consegui me acomodar. O sono me apertava os olhos, uma agonia no peito teimava-me pela vigília. Quis retornar à sala, mas nossa mãe me suplicou que não, com um olhar terno, tão raro aquele olhar… Eu voltei, mas não para o meu quarto. E me deitei na cama de Estela, deixando na alfazema do travesseiro o sal dos meus olhos.
Eu me vi vivendo o melhor que nossa realidade. Estela me sorria, corria de mim, eu não tinha pressa de apanhá-la, era talvez picula. O nosso quintal se alargava, o caminho de plantas, paus e pedras ia-se margeando em nuvens sem um fim que se avistasse. Eu tinha o saber de tudo, mas não me importava, o sorriso de Estela me preenchia e me fazia leve, que então voávamos. Eu queria alcançar minha irmã, mas não podia lhe pedir que parasse. Estela tinha um voo firme e certo, e eu, me parece que só voava no seu vácuo. Mas eu a queria, buscava-a para um abraço que faltava em mim, um toque que me transmitisse os seus modos de sorrir. Eu queria conversar com as nuvens, e as pedras lá embaixo já me sorriam, as folhas acenavam para mim. Estela ia-se distanciando, eu me surpreendi no cansaço desse voo, as nuvens perdendo sua leveza. Estela! Estelinha, me dê a mão! Me leve com você! Mas o seu sorriso já me abandonava. Ela se foi fazendo em cor de nuvem, aos poucos me vi sem olhos para tê-la. E era tarde, muito tarde: tive um sobressalto, e tudo que agora eu via eram as telhas vãs do nosso quarto.
A manhã se ia acesa como as velas, numa rapidez que doía em nós. Vi que minha mãe não dormira, velara nessa noite toda uma vida ao lado da filha. Era um olhar cansado, dela para mim, com um desencanto mudo, enxergando o nosso vazio. Acerquei-me dela, os seus braços me tatearam. E logo me acariciava os cabelos com a mão direita, com a outra acariciava os cabelos de Estela. Inesquecível aquele gesto de nossa mãe, em toda a nossa vida, por seu corpo passando a nossa última sintonia.
As pessoas iam chegando, a hora do enterro se aproximava. Madrinha apagou os quatro tocos de vela acesos ao redor de Estela. Começaram a distribuir os ramos de flores para o acompanhamento. Eu reparava nos meninos e nas meninas que se acotovelavam para ver a morta. Alguns que sempre zombavam dela. Uns me pareciam tristes, outros apenas viviam uma aventura. Eu me sentia completamente afastado de todos.
Iam fechar o caixão. Minha mãe despejou mais lágrimas e inquiria Deus pela morte da filha. E até madrinha, pela vez primeira, soltou as rédeas do seu pranto. Eu me guardei no silêncio, peguei um ramo de rosas que estava próximo ao rosto de Estela. Não me pareceu que eu pudesse beijar o seu rosto agora, já que nunca o fizera em vida. Então beijei as flores e pus de volta no caixão.
Era hora, o enterro ia seguir. Quando me mandaram olhar minha irmã pela última vez, não chorei, pois me pareceu que ela sorria um sorriso longe só para eu sentir. Então percebi que ela agora se tornava como nuvens. Eu quis seguir com ela, mas não me deixaram. E me levaram Estela de mim.
O cortejo dobrou a primeira curva de nossa rua. Os meus olhos continuaram buscando, até hoje parados naquela curva sem nome. Madrinha varreu a casa, dos fundos para a porta da frente, juntando as folhas e restos de flores e tocos de velas. Deixou o montinho no pé de jambo que Estela chamava de “meu segundo amor”. Era onde minha irmã costumava ficar à sombra, enfeitando-se com as flores rubras de jambo. Ali eu derramei as minhas derradeiras lágrimas.
Minha irmã, ainda hoje eu contemplo a tua estrela e tenho uma vontade enorme de que fosse minha. Eu vejo tua imagem se projetando de lá, num sorriso longe que não me deixa desamparado. Era essa luz que você me oferecia, por apenas um sorriso, que já era seu sem que eu soubesse. Quantas estrelas no céu — e eu não possuo uma sequer!
O tempo me deu estes cabelos brancos, mas a minha memória guarda os sinais do semblante de Estela, com suas alegrias sem nenhum motivo. Em nosso quintal, as pedras, os tocos de pau, as folhagens ao vento puxam conversa comigo, mas eu continuo mudo. No entanto, agora sinto: eu sou Dindinho.
*Conto integrante do livro “O desterro dos mortos” (Caramurê, 2018)
Aleilton Fonseca é ilheense de adoção, nasceu em 1959, em Firmino Alves-Bahia, viveu e cresceu em Ilhéus, dos 4 aos 19 anos, e reside em Salvador. Escreve poesia, conto, romance e ensaios. É doutor em Letras pela USP e professor de Literatura da UEFS. Estreou em 1981, com o livro de poemas Movimento de Sondagem. Tem textos traduzidos para francês, espanhol, inglês, italiano, neerlandês e alemão. Publicou diversos livros, como: As formas do barro e Um rio nos olhos (poesia), O desterro dos mortos, O canto de Alvorada e As marcas da cidade (contos), Nhô Guimarães e O pêndulo de Euclides (romances) e O arlequim da Pauliceia (ensaio). Pertence à Academia de Letras da Bahia e à Academia de Letras de Ilhéus.
O amor deles fedia. Fedia porque depois de nascer, crescer e reproduzir-se (tinham uma filha), o amor morreu. Mas não houve coragem para o sepultamento e o amor deles tornou-se um cadáver jogado em cima do sofá.
Nascera aquele amor num ponto de ônibus, em um desses insuportáveis fins de tarde de primavera no subúrbio carioca, quando voam os mosquitinhos ao redor das luzes.
Ele viu Lucília toda atrapalhada, entre pernas de trabalhadores exaustos que esperavam a condução da volta pra casa. Eram jovens e não havia nem sinal do que se tornariam com o tempo. Lucília abanava-se e às vezes batia em si mesma, por causa dos insetos sobre a cabeça.
– Você deve ser uma pessoa muito iluminada.
– Por quê? – Lucília deu um tapa rente ao próprio rosto.
– Porque esses mosquitos ficam quietinhos no inverno. Mas no calor voam, se guiando pela lua. O problema é que quando encontram outra fonte de luz, se confundem.
– Tipo uma lâmpada?
– Ou um rosto luminoso.
A partir desse dia, Lucília cingiu aquele homem – que entrou no mesmo ônibus que ela dizendo, sim, esta é a minha condução, mas depois pegou mais dois para chegar ao seu verdadeiro itinerário, não sem antes conseguir um beijo e o número de telefone.
O amor cresceu rápido. Não à toa. Eles o alimentaram à base de pipoca e cinema, de chocolate e bolo, de pizza e cerveja. Mas o erro do amor foi ter se considerado autossuficiente. Se amigos convidavam um ou outro para sair, em vez de ir e apresentar o namorado novo, eles diziam em uníssono, não, melhor ficar. E assim foram ficando. Cada vez mais solitários. O amor deles se trancou no quarto e ficou antissocial. O amor ficou mimado, o amor ficou narcísico, o amor perdeu a noção de mundo. O amor deitou na cama e ficou olhando o teto. (O amor ficou um chato!).
Foi assim que o amor deles cresceu mais do que deveria (relacionamentos acabam por amor de menos, também por amor demais). E ficou gordo. A ponto de Lucília, vinte e poucos anos, não aguentar mais carregá-lo em si, de modo que seu marido (casaram-se no civil, depois de algum tempo) teve que conduzir sozinho aquele sentimento morbidamente obeso.
Nessa disparidade de esforços, o tempo passou. Ele começou a se olhar no espelho e sentir-se velho, sozinho, a despeito de ter trinta e cinco anos. O mesmo não ocorria com Lucília. Ela – que até gostava da solidão – ainda sentia-se jovem, uma jovem mãe (o rebento veio logo após o casamento), e essa diferença geracional os distanciou. O que um queria, o outro não estava a fim. Sempre.
Foi a essa altura que o amor morreu e ficou jogado em cima do sofá. Mas o casal não reconheceu o corpo. Não assinou atestado de óbito. Não fez um enterro digno. Ambos empurraram a situação com a barriga (talvez por isso, perto dos quarenta, tenham começado a fazer crossfit – mas cada um numa academia). Enquanto isso, a filha (já uma adolescente) chorava pelos cantos num luto que não acabava nunca. O mau cheiro do cadáver dentro de casa a fazia lacrimejar.
Foi num dia de tristeza extrema da filha (a menina cortara os pulsos com lâmina de barbear), que o homem decidiu ir embora. Não tinha uma amante. Só estava exausto. Lucília também estava, mas feito um mosquito de luz depois do voo, perdeu asas.
– Vamos pensar uma última vez – ela propôs.
Era inverno e ambos se convenceram a recolherem-se em suas solidões e olharem-se sem automatismos. Foram dias de silêncio naquela casa-área-de-desova.
Dias depois, eles se reencontraram e, olhando-se nos olhos, souberam que finalmente era hora da cerimônia fúnebre.
Primeiro ele se abriu. Até as entranhas. Depois foi a vez de Lucília se abrir. Eram as palavras voando depois de semanas em hibernação.
E foi assim, abertos, que tiraram aquele corpo podre de dentro de si; era o amor em putrefação. Havia uma porção de ossos entulhados. (Com o tempo e a serenidade, poderiam remontar o esqueleto do que fora aquele sentimento, e deixá-lo à exposição numa das salas da memória).
Quando saíram do quarto, a filha finalmente conseguiu respirar. O cheiro funesto tinha desaparecido e a adolescente se alegrou genuinamente ao ver a rara alegria nos olhos de seu pai e sua mãe. Abraçou-os, como um padre a benzê-los:
– Eu abençoo essa separação, desde que nunca se separem de mim.
Os dois passaram as últimas semanas de inverno quietos. Cada um em sua nova casa, trabalhando, vendo televisão, olhando a rua sem coragem de ir lá fora. Mas no primeiro fim de semana quente da primavera, como se a separação tivesse acendido uma luz, ambos saíram dispostos a encontrar nova companhia (a filha incentivou a aventura). Meio desorientados, avançaram sobre a noite feito mosquitos avançando nas lâmpadas. Ele encontrou uma jovem num bar. Lucília encontrou um colega de trabalho. Voaram ao redor de suas novas lâmpadas, com a leveza de quem encontra a lua, até se cansarem e caírem nas camas exaustos, sentindo ao redor a lascívia da perda de asas depois do voo e a vontade de estar no casulo de um toque novo.
Foi assim que fertilizaram a terra onde nascem os afetos novos: com prazer. E só prazer.
De amor, por enquanto, nem o cheiro.
***
Substituição
Há meia hora atrás eu era criança, um menino pensando em como melhorar o time da Internazionale para vencer o Milan do meu vizinho, após quatro meses de derrotas humilhantes, no Play Station da lan house do Nino. E agora, deitada no braço do sofá com a saia erguida, a amiga da minha prima me pergunta, você tem camisinha?
Notei que ficou maior a sombra do meu corpo que pedalava com pressa – mais pressa que o Kaká quando puxava um contra-ataque no vídeo-game. Na verdade, até minha bicicleta pareceu uma CG 125 cilindradas; e eu, um homem feito e habilitado a pilotar rumo à farmácia, onde estacionei e perguntei, moça, tem preservativo?
A balconista estranhou. Não que alguém aos catorze anos não possa fazer sexo, mas ir à farmácia comprar camisinha, ainda mais sem constrangimento algum, lhe pareceu demais; meio a contragosto, ela apontou a prateleira, aquela ali, ó. As camisinhas pareciam guloseimas – descobri posteriormente que algumas são. Voltei com três. Era para o que dava meu dinheiro, que iria para a lan house do Nino, mas foi para o sexo.
No caminho, porém, entrei em colapso, como se meus pensamentos não coubessem na cabeça que os pensava. Me perdi pelas ruas que conhecia e, parado numa encruzilhada, sem saber pra onde ir, eu disse a mim mesmo, pensa, pensa cara, a garota tá à sua espera. Na dúvida optei pela esquerda – ainda opto hoje em dia. Então eu reencontrei a amiga da minha prima, e ela ainda estava de saia erguida sobre o braço do sofá.
Tentei ser romântico, passar o dorso da mão no rosto dela, coisas que eu tinha visto na Malhação. Mas logo a mão se perdeu em outras tramas. Se foi rápido ou devagar eu não sei. Quando temos prazer não nos preocupamos com o tempo. Sobretudo esse prazer primicial: a sensação da primeira penetração da vida é algo tão drástico quanto nascer, quando você sai de um corpo familiar; a diferença é que, sobre o braço do sofá, eu entrava num corpo estranho. Depois que saí pela última vez, nos abraçamos e ela disse, amanhã a gente faz mais, pode ser?
Sem saber que esse amanhã nunca chegaria, guardei as outras duas camisinhas como Maldini guardava a zaga do Milan, o time do meu vizinho. Vizinho que, quando me viu na rua andando a esmo – eu ainda revivia as lembranças recentes – me propôs: vamos jogar?
Respondi que estava sem dinheiro. Eu pago, ele disse, e já fez um gol rápido com Seedorf, porque eu ainda pensava no corpo da amiga da minha prima. Empatei com a classe de Figo; Pirlo fez de falta pra ele e logo em seguida meu Recoba provocou um alvoroço em sua zaga e colocou 2 x 2 no placar. Meu vizinho assustou-se: hoje você tá inspirado, não sei o porquê, mas calma que ainda tá no primeiro tempo. Só eu sabia por quê. Inexplicavelmente, consegui segurar o resultado. Eu mal pude acreditar que o jogo já estava no final (quando temos prazer não nos preocupamos com o tempo). Mas eu ousei, queria o improvável! Substituí Figo, o mais velho do time, e coloquei o jovem Adriano, o mais novo; tão novo que parecia uma criança perto dos outros. E foi Adriano que, após um chutão despretensioso, ficou sozinho contra o goleiro adversário. Meu vizinho e eu nos levantamos. De pé na frente da televisão 29 polegadas, parecíamos dois fiéis reverenciando um altar. Seu semblante era de desespero, porque eu finalmente poderia vencê-lo após quatro meses. Ainda há pouco eu era um adulto, pensando em como dar prazer a uma garota, e agora a vida se resumia a fazer valer a substituição do mais velho pelo mais novo, e, com os pensamentos novamente confortáveis dentro da cabeça, vencer aquele clássico italiano do Play Station, na lan house do Nino.
Jonatan Magella nasceu em 1990 e vive em Nova Iguaçu/RJ. Publicou Vidas irrisórias (contos, 2018) e Desculpe o transtorno (dramaturgia, 2019). Tem dezenas de contos em revistas e coletâneas nacionais. Organiza o evento literário Aleatórios.
Tudo devia começar com um grito, como aquela pintura que parecia tintas derretidas que vi no museu enquanto varria do lado de fora, na calçada do elegante e nobre bairro da Vitória, em Salvador. Um grito de desespero que chegava a segurar a cabeça e expressava horror e medo. Mas começava assim: um rapaz cujo único trabalho foi sentir prazer antes que eu nascesse, jamais soube quem eu era. Muito menos eu lhe pus os olhos. Talvez ele, caso houvesse interesse em me conhecer, acalentasse minha alma daquelas situações rasteiras de dissabores raciais, por exemplo. Não sei qual foi a pior situação, se a minha ou a de Amanda. Com minha irmã, além da cor da pele, minha mãe não tinha certeza, entre três rapazes, qual deles era o pai dela. Portanto, quando a médica disse “dispneia”, pensávamos se tratar de algo letal como câncer. Tudo de ruim acontecia com pobre e preto desvalido. Nessa época, eu contava com doze anos, Amanda com oito. Minha mãe nunca conheceu as Letras, talvez por isso o serviço do rapaz foi mais fácil para que culminasse na minha existência. Nasci quando minha mãe completava quinze anos. Nasci um negro de periferia. Aos poucos quase me tornava ressentido e rancoroso pelo que faziam comigo e com os outros negros, pobres diabos no mundo. Não foi difícil deduzir que se tratava de racismo aqueles tratamentos díspares, ainda que me faltassem leitura e Educação. Nunca esqueci uma professora que tive quando estudei na escola da prefeitura quando tinha nove anos. Gostava de ouvir e ler histórias de pessoas que provocavam diferenças na vida e se tornavam essenciais à sociedade. Ela nos mostrou uma coleção de fotos de pessoas importantes que venceram com coragem as adversidades. Entre as fotos havia de uma pequenina menina negra chamada Ruby Bridges. A professora disse que nos espelhássemos naqueles exemplos. Toda vez que me sentia ultrajado com troças de racistas pensava em Ruby, aquilo me fortalecia. Mas não era fácil, o racista corrompia a alma alheia sem se inibir. Parecia um vestígio característico do ser humano. Quase ficava com vergonha de minha pele, não havia ninguém que me acalentasse.
Havia passado trinta e três dias. Contava desde que aquele jornalista apareceu em minha casa dentro da televisão. Avisava da quarentena e anunciava a primeira morte. Trinta e três era um número cabalístico. Quer dizer, sempre ouvia dizer essas coisas, na verdade não sabia do que se tratava. Sabia que Jesus havia morrido com trinta e três anos, mais nada. Despois de quarenta anos de idade, vinte varrendo as ruas de Salvador, me sentia finalmente essencial à humanidade. Nos meus primeiros vinte anos de existência, sonhei um dia em ser médico. Quando vi uma delas salvar minha irmã da tuberculose. Era uma boa médica, cuidadosa, zelosa e carinhosa. Além disso, foi ela quem alertou o outro problema que Amanda carregava desde que nasceu.
‒ Parece que ela tem dispneia.
Uma vez, na idade adulta, ainda jovem, quando corria para jogar futebol. Já praticava meu ofício com destreza e afinco, varria as ruas de minha cidade com orgulho de ter nascido na Bahia, mesmo com todas as diferenças que eram acentuadas com discrição e silêncio. Tinha quase certeza que as pessoas na grande maioria disfarçavam o que sentiam verdadeiramente umas pelas outras. Não que eu fosse desconfiado, talvez nem eu nem ninguém tivesse razão para andar cismado, mas algo dentro de mim dizia que somente a própria pessoa conhece a ela própria. Participava de uma partida num campo de várzea, jogávamos todos sem que distinguíssemos o nível econômico das pessoas. Simplesmente formalizávamos a liberdade e empreendíamos a democracia que se traduziam na prática do esporte, pelo menos. Evidentemente não havia como distinguir naquele momento as diferenças acentuadas entre seus praticantes, cada equipe e cada jogador preocupavam-se em vencer. Além de tudo, exercitávamos a coletividade. Enquanto jogávamos, ouvi de um rapaz, acho na mesma idade que a minha, praticamente bradar a pulmões um desaforo gratuito e preconceituoso, sem nenhuma razão para humilhações, a não ser que um drible que lhe ofereci entre as pernas fosse considerado insulto. Fiz o que o momento da partida oferecia e que valia e valorizava o jogo, não foi menosprezo, sobretudo era uma brincadeira entre as pessoas. Mas ele criou sanha e como um rapaz mimado despejou cólera desnecessária. Soube depois que estudava outras Línguas e foi destaque num colégio tradicional de classe bem afortunada. Segundo esse cidadão estudado e bem nutrido e que fazia um juízo final somente dele, agregado a um desprezo gratuito e arrogante que o consumia depois que a bola saiu do seu controle, disse-me entre dezenas de injúrias, que o meu cérebro não captava mensagens e nunca seria capaz de reproduzir uma história. Não se sabe se tudo isso por ignorância, distúrbio psíquico ou mal banal. Acho que era ódio por ódio mesmo. Era o que bastava para me entristecer aquele arroto de poder. Pois agora, anos depois, ao contrariar toda uma gama de descontentes‒ inclusive o rapaz de notória altivez que envelhecia comigo e protagonizava um teatro de rancor, jamais me cumprimentou por uma tolice, atualmente tossia desesperado com falta de ar ‒ eles, soberbos, não tinham como alimentar ambição de ganhar mais do que possuía e era suficiente, pois o vírus não deixava. Pois agora, ao dar vazão ao meu pensamento e mesmo com os contrastes de desigualdade social expostos, fui designado pelo Universo a narrar com imaginação sagaz de um gari convicto o que ocorria na quarentena. Posso adiantar que se tratavam de histórias coletivas da humanidade e que ficaria no imaginário de quem sobrevivesse.
Não era dispneia. Na verdade era um problema maior, diagnosticado por outro médico dono da casa que minha mãe trabalhava como diarista.
‒ Catalepsia patológica.
Não tenho certeza se receitou algo, mas Amanda ficava como estátua de cera toda vez que algo sério e triste acontecia entre nós. E algo sério e triste não era raridade em nosso casebre.
Com dificuldade aprendi as Letras, tomava gosto pela leitura. Gostava de ouvir e pesquisar nomes que surgiam novos para mim. Desde que aprendi a ler, eu mesmo procurava minhas histórias preferidas. Aos poucos assinei meu nome em Letras cursivas, mas vacilantes e tremidas: José de Arimatéia de Jesus. Com o tempo melhorei o traço de minha letra, ficou legível na medida do possível e das minhas condições. Certamente melhor do que antes. Não sei porque Jesus foi parar em meu nome, mas sempre achei bom ter essa referência. Por outro lado, a professora me disse que José de Arimatéia foi um grande homem rico e poderoso e que muito conversava com Jesus. Mas não sei se minha mãe sabia disso. Tenho certeza que ela não fez nenhum estudo onomástico ‒ esse foi o nome que ouvi de uma pesquisadora do IBGE enquanto indagada pelos moradores do lugar que morava sobre a razão daquele censo, só havia pobre por ali, não sei por que ela usou esse termo se ninguém na comunidade ia saber do que se tratava, mas eu pesquisei ‒. Amanda, que tinha mais tempo e era muito curiosa, aprendeu a ler mais rápido do que eu, era quem inicialmente lia a bíblia para nossa genitora quando ela disse que havia se entregado ao Senhor e deixado o cachimbo das drogas. Mas não demorou muito e morreu. Deixou um vão oco onde nos espremíamos e dividíamos o espaço de acordo com as atividades domésticas. Mais tarde, eu e Amanda construímos, de fato, uma casa.
Assim, não tive dificuldade em perceber que meu sonho de menino, em me tornar médico, dificilmente se realizaria. Provavelmente não deixariam sem que eu apresentasse uma chancela, como se certas profissões eram guardadas para quem apresentasse aval, de quem ninguém sabia. Pois, a dificuldade era infinitamente maior do que para um branco bem nascido, que estudou, teve vantagens e oportunidades singulares que eu jamais teria, muito menos imaginasse que existisse. Um branco assim vestia jaleco, era esse o referendo para ser médico no Brasil. Às vezes me entristecia, e ao mesmo tempo me indignava com o rumo das coisas. Pior era quando caía em mim e entendia que aquilo era a regra do mundo e jamais mudaria. Certo dia, em casa de manhã cedinho, antes de o dia clarear, ouvi uma reportagem no rádio. A mulher que falava era de uma dessas entidades que defendem os negros, ela dizia que o racismo estrutural era o pior de todos porque nos transformava em dados de estatísticas como animais. Aquilo não saiu de minha cabeça. Não sei as outras pessoas, conhecia pouca coisa e bem menos as outras pessoas. Havia mundos que não sabia que existiam, mas sentia necessidade em me tornar útil de alguma forma. A ideia que tinha quando comecei a varrer as ruas era que dificilmente seria notado, as pessoas só olhavam médicos, professores, jornalistas, enfim. Um gari negro que varria ruas era invisível e facilmente substituível. Tentei desesperadamente estudar e aprender, mas tudo era difícil. Não tinha livros, não havia ninguém que soubesse mais do que eu para calçar minha necessidade de aprendizagem. Começava a era de computador, eu não sabia ao menos como ligar aquela máquina. Por fim, o sentimento de impotência acentuava minha alma a cada dia pela manhã, enquanto eu varria e nem um bom dia recebia.
Uma vez, enquanto varria próximo ao Campus Universitário da Bahia, ouvi dois rapazes que conversavam. Pela aparência jovial e os trajes à vontade intuí que eram estudantes de algum curso na Universidade. Um deles inclusive me presentou com um livro sobre mitologia grega. Fiquei apaixonado por Afrodite. Tempos depois, disse ao rapaz o amor que nutria pela Deusa. Imaginava, sendo gari, como conversar com meus colegas sobre Afrodite, Zeus, Atena e Hermes. Enquanto lia sobre os deuses, pensava sobre as relações que podiam existir entre eles e entre tudo na vida. Até que ao chegar em Hermes, algo me chamava atenção. Uma vez, enquanto nos reuníamos para saber a rota que seguíamos a cada dia para varrição, deu-se um estalo em minha mente, ruminava as coisas que lia. Naquele dia entendi como tudo o que lia se processava, era o cérebro que buscava acarear informações. E então, comparei Hermes com Exu. E conversei brevemente com o rapaz sobre a minha comparação. Ele tirou os óculos para me enxergar melhor, ao que parece, riu e disse que estava surpreso, jamais achava que aquela leitura ia me interessar.
‒ Continue a ler, talvez haja alguma diferença em você que você propriamente ainda não sabe.
Esse que me deu regalo reclamava incomodado como a família o tratava. Segundo ele, a cobrança e a preocupação eram muito rigorosas. Parei de varrer um instante e pensei naquela frase. Como minha mãe teria me ajudado se por acaso cobrasse meus estudos. Mas não havia jeito, talvez o conhecimento fosse para poucos e nunca chegou até a mim. Ao mesmo tempo, pensava sobre esse parecer, se isso for procedente, se for real, a humanidade e a civilização seriam o maior e único exemplo de vileza e abjeção. E, é claro, não seria também um absurdo, pois só o referendo do racismo já atestava a imundície de certos humanos. Não valia a pena existir. No entanto, vou me valer de que apesar de todos os meus esforços para ser notado como gente, talvez as coisas sejam irreais e haja outros mundos paralelos ao nosso. E cada vez mais eu era invisível, ainda assim, me sentia bem limpando os arredores. Varria as ruas para não deixar o coronavírus se espalhar. Aquele ofício, simples, de fácil manuseio e que denotava asco nas pessoas era o que me tornava essencial à sociedade. A limpeza fazia parte do mundo civilizado, mas parecia ser tão trivial que as pessoas que como eu cuidavam da higiene recebiam de volta o nariz tampado e o fastio e repulsa de quem passa sobre o lixo varrido.
Agora as ruas estavam vazias, pareciam mais limpas. O vírus limpava o mundo, isso era curioso. Enquanto as pessoas ficavam em casa, para não se contaminar, não havia fardo de sujeira que o próprio ser humano reunia pelos cantos, ou até mesmo abertamente em qualquer parte da praça, próximos onde se sentavam para comer, conversar, ler, namorar ou para ficarem quietos. Fazia de tudo para não tocar na máscara que protegia do covid 19, mas desde criança tinha rinite e o incomodo era incessante, não havia jeito, puxava para cima e para baixo a máscara negra que a prefeitura distribuía. Trinta e três dias de quarentena. A ausência das pessoas nas ruas é o que me tornava tão importante. Era tão curioso pensar assim como que o vírus limpava o mundo. E gostava sempre de pensar nas coisas, pois ao pensar profundamente, diriam aqueles rapazes do Campus Universitário, chegava-se à conclusão de que aquela era a prova de que a humanidade não tinha educação. Qualquer tipo de educação. Estava evidente que as pessoas não cuidavam de nada que não pertencesse a elas próprias. Quando lia a bíblia para minha mãe junto com Amanda, se não me engano, havia um questionamento sobre se algo pertencia ao ser humano, a não ser o que se produzia com o pensamento. As ruas precisavam de pessoas como eu. Mas tudo isso que foi constatado por somente quem limpa o que está sujo. Era uma constatação sem importância que emergia de filosofia barata e sem sustentação social e política. Isso devia ser constatado pelo poder. Pelos poderosos. Mas ouvia dizer que o governante do Brasil não se importava com os vulneráveis. Diziam pelas ruas, ou quando trabalhadores se reuniam para discutir data-base, que houve governante melhor, mas que foi preso acusado de corrupção. Mas quem não subornava no Brasil? Era uma interrogação insinuante e que ecoava como coro de torcida organizada. Parecia que todos que apareciam de outros cantos do mundo e aportavam no Brasil carregavam essa interrogação no semblante. Não lhes tirava a razão, pois, a injustiça, o aliciamento, a deturpação, a desvirtuação, a adulteração et cétera e et cétera… Contaminavam como vírus por aqui, e nesses atributos as máscaras já estavam assentadas, irremovíveis e firmes em cada rosto que lidava, ostentava e recorria a essas divindades diariamente. Portanto, quem não subornava no Brasil? Havia algum tempo, antes desses trinta e três dias, esse cantinho aqui vivia cheio de copos descartáveis, guardanapos, talheres plásticos, preservativos sexuais usados, absorventes sujos de sangue. Às vezes, tudo junto fazia uma bolo de lama e bactérias. Eu era quem varria aquele canto, muitas vezes as pessoas passavam e cuspiam de lado. Eu continuava a varrer. E mesmo assim não éramos valorizados como essenciais. Invisíveis asquerosos do lixo. Meu colega Joílson era um rastafári que dançava com sua vassoura enquanto varria. Ele imitava James Brown. Nunca pisou na escola, mas fazia de conta que era mestre em inglês. Então, ele cantava e dançava ao meu lado Sex Machine, depois varria satisfeito e, como se imitasse minhas idiossincrasias, puxava para cima e para baixo a máscara negra que a prefeitura distribuía. Em seguida dizia.
‒ O show não pode parar.
Alguns poucos o cumprimentavam de dentro dos ônibus, pobres como nós. Os outros, dentro dos carrões, apressados, estressados, buzinavam para que saíssemos da frente. Esses pareciam que tinham raiva de gente pobre. Filisteus. Muitos desses não suportavam ser solidários, sentiam-se mal na fragilidade que o momento impunha a todos. Todos na televisão e os governantes do momento de cada lugar no Brasil diziam que não podíamos ficar juntos; segundo eles, o vírus atacava e acabava com as células que existiam em nós. Como se não bastassem os massacres da sociedade sobre nossas cabeças. Toda noite eu ficava na dúvida. Na Europa, as pessoas não saíam de casa, se protegiam para não se contaminar. Ouvi o repórter da noite dizer que o governo de lá tomou providências. O governante maior daqui, não. E cada vez mais, mais dúvidas se acentuavam nos meus pensamentos com relação a esse povo do governo. Mas, como um alento de todas as coisas da vida, enquanto varria novamente lá perto do Campus Universitário, ouvi dessa vez dois senhores que conversavam, um dizia ao outro.
‒ Sempre é bom ter dúvidas.
Enquanto varria, em um dos dias da semana de pandemia, próximo a um hospital, nas imediações do Porto da Barra, as pessoas choravam. Parei e observei penalizado aquela gente. Enquanto estava parado e observava, vi um homem na sacada de um dos quartos do hospital, no sexto andar do prédio, dependurou-se e gritou com os poucos pulmões que lhe restavam:
‒ A humanidade não deu certo.
Aquela frase me envolvia, sentia que havia sido capturado por aquela simples sentença como mágica lexical.
Em seguida, não se soube como, ateou fogo no quarto do hospital e pulou da sacada. Quebrou as duas pernas e algumas costelas. Morreu dias depois de insuficiência cardíaca. No entanto, os médicos ainda não sabiam se ele estava ou não contaminado com o Covid 19.
Sentia falta do movimento das ruas, mesmo menosprezado. Curioso, quando passei à condição de essencial à sociedade, promovido pelos órgãos do governo, para deixar limpo e dificultar a circulação do vírus letal ninguém circulava mais. Não havia ninguém para atestar a importância de um varredor de ruas. Isso só confirmava nossa invisibilidade. Todos os dias, quando era escalado na rota do Centro da cidade, na Avenida Sete, no Largo Dois de Julho ou nas imediações do Pelourinho e Barroquinha, sabia que em qualquer lugar daquele que varresse seria servido um lanche para mim e Joílson. Na Praça Castro Alves, por exemplo, havia Zezinho, povo como nós dois, sofredor da vida, vendia pipoca doce e salgada e cantava músicas românticas. De preferência, Julio Iglesias num portunhol inepto e confuso. Quando chegávamos era uma festa de pipocas e cantorias produzida por ele e Joílson. Os dois faziam troça da estátua de Castro Alves, diziam que o poeta estava com a mão estendida pedindo esmolas para publicar poemas. E, ainda em troça, perguntavam entre si como um poeta fazia para comer se poesia não dava dinheiro. Zezinho deixava que comêssemos pipoca à vontade. Não sabia imaginar como Zezinho se virava com aquela quarentena. Provavelmente passava o dia numa fila de agência lotérica, ou da Caixa Econômica, e tentava resgatar o que o governo oferecia. Era a humilhação em forma de auxílio emergencial. Ouvi dizer que as pessoas deviam baixar aplicativos de internet. Imaginava então quem nunca se encontrou em frente a um computador como fazia para finalmente acessar o dinheiro e em seguida gastá-lo com as necessidades primordiais. Enquanto varria a Praça Castro Alves, dia desses, ouvia reportagens no rádio portátil que sempre carregava no bolso do macacão de uniforme e um desses estudiosos acadêmicos importantes dizia que havia milhões de pessoas no Brasil que não sabiam o que era internet. O sofrimento era iminente e diário. Sempre quando parava para pensar, as dificuldades do dia a dia passeavam em minha mente e também o que fazer para vencê-las. Ah, antes que me esqueça, é bom fazer todos os registros; no mesmo dia que ouvi, lá em frente ao Campus Universitário, um dos senhores falar sobre a dúvida, também escutei a resposta do outro.
‒ É importante sempre pensar.
Achava que o vírus veio para eliminar quem não prestava. Tinha uma imaginação fértil e mágica quanto a isso, achava que a natureza observava de tempos remotos o comportamento das pessoas com as pessoas. Quem não era fraterno, a flecha da natureza, como a de Eros, só que ao contrário, sem paixão, sem amor, sem erotismo, contaminava sem dó, como uma punição. Mas não era nada disso, quer dizer, continuava a achar que a natureza estava metida nessa mixórdia, mas eliminava qualquer um, em qualquer lugar, em qualquer condição. Tempos depois, durante a quarentena, quando varria a Praça Castro Alves vazia e me sentia essencial à vida, senti falta de Zezinho. E Joílson me contou que soube que o pipoqueiro havia sido contaminado, morreu e deixou dois filhos e mulher.
No Largo do Mocambinho, na entrada do Dois de Julho, sempre havia muito trabalho, a varrição era gigante. As flores vendidas nas barracas deixavam muitas pétalas espalhadas no chão. Como em qualquer lugar da cidade, ali estava ermo naquela quarentena. A algaravia que emergia no Largo todos os dias era contagiante. Normalmente o clima era de pessoas que contagiavam pessoas com alegria, bom humor e satisfação. Havia contágio de tristeza, mau humor e aborrecimento também. Pessoas especialmente para cuidar desses desconsolos, muitas vezes proposital. Mas não era o caso de alguns do Largo do Mocambinho, na entrada do Dois de Julho. Havia a senhora Lurdes, que vendia flores na barraca da esquina, ao lado do restaurante chinês. E Maria Inês que fazia jogos de loteria ilegal, do lado oposto ao restaurante de Kim Xing Ming. Kim assim que nos via, eu e Joílson, acenava desesperadamente. Fazia-nos entrar e ir ao fundo do restaurante, lá por dentro a bagaceira de tripas, pelos, órgãos era insuportável. Nunca conseguimos identificar que animais eram aqueles. Diziam que chineses comiam cachorros, mas não sei se aquilo eram restos caninos. Kim pedia quase sempre implorando para que limpássemos aquilo. Muitas vezes ele misturava as Línguas, falava mandarim, depois um português embolado, o fato era que quase nunca entendíamos. Kim fazia isso sempre no momento de acertar algum conosco e, então, aceitávamos o que ele dava sem entender muita coisa. Era um trabalho de Hércules, mas tirávamos tudo. Descobrimos depois que Kim só pedia para fazer aquela limpeza em seu restaurante quando a dupla de garis era eu e Joílson. Além do mais éramos funcionários da prefeitura e varríamos as ruas. Era um daqueles subornos que geralmente brasileiro dizia ser jeitinho. Era ilegal fazer limpezas particulares, não era nosso ofício. Mas a vida era tão difícil e tínhamos tão pouco que sucumbíamos e nos deixávamos ser aliciados também. Soube que um dia Kim Xing Ming pediu a outros dois que foram escalados para aquela rota em nossa ausência, não lembrava o motivo, achava que eu e Joílson folgávamos e os rapazes não se recusaram a fazer. Eram Joselito e Raimundo. Disseram que o que ele pedia era um serviço extra, o que não deixava de ser, e queriam administrar a negociata com lucros maiores. Eu e Joílson não fazíamos isso. Das duas, uma. Ou as duas de vez. Ou a corrupção no Brasil nascia nos níveis mais baixos e grotescos que se há, em progressão aritmética e infinita, ou ela chegava em via inversa, ou expressa, vinda de todos os níveis possíveis, aceitáveis, existentes e inexistentes até o mais baixo e grotesco. E como trânsito de avenida, ia e vinha ininterruptamente.
Mas quem não subornava no Brasil? Ecoava insinuante insistente e sempre em qualquer imaginário do mundo.
Joselito pegou covid 19, foi internado, depois de vinte e cinco dias teve alta curado. Raimundo também foi diagnosticado positivo, mas era assintomático. Foi orientado para ficar em casa durante quinze dias. Kim Xing Ming fechou o restaurante quando a quarentena engrenou. Ouvíamos histórias de que Xing Ming estava com febre alta e tossia muito. Não funcionou através de delivery, como a maioria dos restaurantes do Centro da cidade faziam. Aliás, as coisas não ficaram boas para Kim Xing Ming, os moradores do Dois de Julho e comerciantes acusavam-no de participar de uma teoria da conspiração. Segundo as pessoas em geral incentivadas pela fake news de um ministro do governo. Aliás, governo esse que parecia fazer de tudo para que todos se contaminassem. As pessoas começavam a acreditar que o chinês disseminava o vírus entre os mais pobres do centro da cidade numa comparação em menor nível e proporcional aos esdrúxulos comentários divulgados na mídia, feitas pelo então ministro do governo. Começava a circular que o mundo ia sucumbir em razão do vírus que havia sido criado e dispersado pelos chineses. Curioso era que, de fato, a população mais pobre se contaminava com maior facilidade. E morria rápido. Maria Inês, que vivia de conversa com Joílson e ensaiava romance com o parceiro gari, dormiu durante dias na porta de um hospital esperando notícias da mãe hipertensa e diabética que contraiu o Covid 19. Inês era uma das que acusavam Kim. Segundo ela, a mãe voltou sentindo-se mal depois que almoçou no restaurante do oriental. Infelizmente não sabia precisar se a mãe de Inês conseguiu escapar do corona. Não havia mais ninguém no Largo do Mocambinho e as notícias não chegavam.
Mas a senhora Lurdes era o que de melhor havia no Largo do Mocambinho. Antes de passar no chinês Xing Ming, antes de fazer a fé nos jogos ilegais da loteria de Inês, antes de discutir futebol com o fanático torcedor tricolor que parecia dono de uma loja de miudezas na esquina, enfim, parávamos na barraca de flores da senhora Lurdes. Não havia jeito, assim que dobrávamos aquele pedaço na Carlos Gomes era a primeira imagem que tínhamos; a senhora Lurdes sentada em sua barraca de flores, com dois netos em cada lado, geralmente cada um com a boca cheia de doces e ela observava quem entrava e quem saía no Largo Dois de Julho. Havia sempre uma merenda que ela guardava e nos oferecia assim que aparecêssemos. De praxe; café com leite e pão, às vezes uma fatia de queijo. Ou bolo de chocolate. Ou tapioca com manteiga. Uma ou duas bananas, às vezes. Deixávamos tudo limpo e bem sequinho ao redor de todas as barracas de flores, no entanto dispensávamos atenção especial à da senhora Lurdes. Era uma senhora com muito bom humor e senso de parceria. Aliás, era uma sinergia fácil de achar e de conquistar entre a camada mais fraca socialmente na economia. Quando o pobre via-se em apuros, era com rapidez acolhido por outro, e por outro, e por outro. Nova progressão aritmética, dessa vez para o bem. Tinha a prova disso quando levantei minha casa e de Amanda junto com os vizinhos, se não tivéssemos contado com eles dificilmente cavaríamos fundo para a fundação e levantaríamos os blocos. Não que não tivéssemos forças, mas o trabalho era descomunal para um homem e uma mulher que não nutria muita saúde, não esqueçamos da catalepsia que tomava minha irmã desde criança. Senhora Lurdes fazia a festa do seu modo, não era como Zezinho, por exemplo, que vivia em cantorias com Joílson, em outro exemplo de colaboração mútua. Deus o tenha Zezinho. Mas a senhora deitava falação. A senhora Lurdes conhecia todos e sabia de tudo referente a cada um que ela comentava. Assim soubemos da marmelada e falcatrua dos outros dois garis juntos com Xing Ming. Soubemos que a mulher do homem que discutia futebol comigo saía às escondidas toda quarta-feira à tarde, como senhora Lurdes soube disso é um mistério, mas procedia a verdade. O homem descobriu onde enfiava-se a companheira ‒ acompanhada de outro ‒ e o sentimento de traição cobriu-lhe de violência. Naqueles tempos, muito se via na mídia reportagens de misoginia, muito mais do que de racismo estrutural. Os taxistas ficavam parados no ponto, um deles conversava sempre comigo em tom professoral, emitia sugestões filosóficas sobre a humanidade e comparava com uns filósofos que eu não sabia pronunciar os nomes, segundo ele, tudo procedia conforme o pensamento de Nietzsche. Fiquei na dúvida como pronunciar cinco consoantes de uma vez, ainda que uma fosse muda. Mesmo assim nada sabia sobre Nietzsche. Ele dizia saber tudo. O rapaz que conversava comigo sobre mitologia grega no Campus Universitário, que me presentou com o livro, um dia, antes da quarentena, me disse que a atitude de quem diz saber tudo é porque não sabe nada. O taxista, depois de algum tempo, quando ele deixou que eu emitisse um parecer qualquer, não lembro sobre o que, espantou-se quando confrontei aquela situação que conversávamos com deuses gregos da mitologia. E desde então, quando me via com a vassoura na mão me aproximar da barraca de flores da senhora Lurdes, o tal corria e falava algo com relação a qualquer coisa e esperava para ouvir o que eu tinha a dizer, em seguida perguntava se havia algum Deus grego que se comportasse daquela forma. Soube através da senhora Lurdes que ele havia morrido do covid 19 e contaminado toda a família. Foi também através de senhora Lurdes que Joílson soube do interesse de Inês por ele. Lamentavelmente soube há poucos dias, agora Inês passava dia e noite na porta do hospital e requeria notícias da mãe. A velha havia sido transferida duas vezes de leito e de hospital, finalmente encontraram um respirador numa UTI de periferia. Além de tomar conta da vida alheia, senhora Lurdes colecionou ao longo dos anos sabedoria popular. Ela pensava sobre as coisas assim como eu. E nos dávamos muito bem quando parávamos para conversar. Foi ela quem definiu com curiosidade, talvez até sabedoria, o que essa quarentena, o vírus e toda a humanidade significavam naquele momento terrível.
‒ Pode escrever, isso tudo vai desandar somente para três caminhos: solução, prazo de validade e lição de vida.
Senhora Lurdes me disse essas coisas quando tínhamos dez ou doze dias de quarentena. As ruas já estavam vazias e, por acaso, encontrei ela que separava as flores que não havia apodrecido das outras. Não estava vendendo nada, primeiro que não podia, segundo que não havia quem as comprasse. Flores alijadas. Curioso que ela me disse sobre aqueles três caminhos com um leve sorriso no rosto. Dias depois que percebi que aquele sorriso era de abdicação. Em primeira mão, achei que senhora Lurdes ainda não havia dado em si do prejuízo que ela teria. Ela e todos comerciantes ambulantes. Mas ela sabia de tudo, sim. Dias depois, com a quarentena em andamento e muito depois do nosso último encontro quando ela separava as flores boas das podres, encontrei a senhora novamente. Ela estava sentada em frente à barraca de flores e bebia café. Desculpou-se conosco por não haver merenda. Usava uma máscara florida que protegia o queixo e a papada. A boca e o nariz estavam desprotegidos em desânimo. E já não era a mesma senhora que conheci durante esses vinte anos que varria as ruas de Salvador. Abatida, havia emagrecido, carregava um semblante padecido, tinha olheiras marrons ao redor dos olhos, principalmente na parte inferior, e tossia com frequência. Disse que não teve febre, mas os dois netos tiveram. Foi ela quem nos deu a notícia da mãe de Inês. A velha tinha sido enterrada coletivamente numa vala do cemitério de Brotas. E finalmente falou com desânimo para mim e Joílson.
‒ Perdi todas as minhas flores, acho que estou doente. Aliás, onde moro a maioria das pessoas estão tossindo, mesmo assim não se entregam e saem às ruas para buscar o que comer, um vende café, outro cata latas, eu vendia flores, não tenho mais o que vender, Inês perdeu a mãe e os jogos ilegais não correm mais durante a quarentena… Isso veio acabar com a vida do pobre. Essa é a solução que eles querem, o prazo de validade está acabando e a lição de vida… Rum! É que ninguém quer aprender lição de vida nenhuma.
Desde que me falou, no início da quarentena, sobre esses três caminhos da humanidade, que pensava sobre isso. Inicialmente concordava com ela. Tínhamos que tirar algo do que acontecia. A humanidade devia voltar, ou começar, a confiar nela própria. Uns nos outros. Acontece que parecia que havia uma distância, um poço tão fundo quanto o oitavo anel do inferno, para duas coisas que deviam ser a mesma coisa. Ou no pior dos casos, coisas afins e próximas. Mas afinidades e proximidades não procediam. Muitas vezes esse abismo aparecia entre humanidade e ser humano.
‒ A humanidade não deu certo.
A frase do homem que pulou da sacada do hospital tomava efeito em meu pensamento.
Aquele trigésimo terceiro dia de quarentena caiu num domingo cinzento de maio. Mesmo que surgissem outros sóis, aquela tristeza cinza não abandonaria o dia. Um vento frio soprava na rua vazia. Mesmo o calor do girassol que havia na minha porta não denotava ternura naqueles tempos. Aquela flor foi presente da senhora Lurdes. Ela dizia que o meu jeito pensativo e sereno lhe passava tranquilidade. Joílson, como sabemos, era falante como ela, eu só ouvia e ria. Mesmo o serviço de varrer as ruas não me deixava estressado e impaciente. Se não me resignasse quando aprendi as Letras e escrevi meu nome, mesmo que trêmulo e inseguro, talvez não desse certo para a vida. Mas parecia que a minha existência teve uma finalidade. A comunidade que morava era de uma pobreza extensa, às vezes o esgoto alagava as ruas e a água podre entrava nas casas. Muitos políticos andavam por ali, prometiam valas e higiene sanitária, mas nunca foi feito nada para benefício das pessoas naquele lugar esquecido. Algumas vezes, quando tinha o prazer de estar presente quando os políticos apareciam, tinha a impressão ao olhar as emoções no rosto daqueles homens que não existia emoção. Tudo era ensaiado. Nada nem ninguém interessava ou provocava misericórdia ou compaixão naqueles homens. Só o voto de cabresto. Como a fome parecia ter um contrato de coexistência com a comunidade, sempre e somente em épocas de eleição eram servidos feijoadas, churrascos, galinhadas e cervejas a rodo para as pessoas que estavam famintas ali há tempos. Depois as obras de contenção de encostas, onde aqueles que comiam as feijoadas, os churrascos, as galinhadas e bebiam cervejas, também morriam soterrados, e os políticos que ofereciam aqueles banquetes lamentavam todas as mortes sem emoção. As creches não apareciam e as crianças ficavam nas ruas, os empregos e os projetos sociais jamais ninguém viu. Todos ali viviam como podiam, as casas em sua maioria eram de barro batido, ou, as melhores, de bloco cozido com uma laje que não se sabia se havia fundação para suportar o peso. Morava com Amanda e nós dois conseguimos construir uma casa que nos protegia. Durante a construção tivemos ajuda dos vizinhos, todos juntos, cavamos a fundação e suspendemos as paredes com bloco e batemos a laje. Conseguimos doações de piso, além do que achávamos no lixo e ainda estava em condições de ser usado. Só não rebocamos, faltava dinheiro, mas conversávamos sobre isso e combinávamos de quando o vírus se for, se se for, íamos terminá-la. Alguns ficavam dentro de casa durante a pandemia, a maioria ficava nas portas, ou na rua de barro. Achavam-se imunes, ou não acreditavam que havia o vírus letal. Quando acreditavam e tinham medo, não podiam ficar em casa porque se não, não comiam. Então saíam para trabalhar, muitas vezes sem nenhuma proteção. As casas eram minúsculas e geralmente havia no mínimo quatro pessoas em cada casa. Não sabia como os homens do poder podiam dormir com aquelas pessoas sem condições mínimas de, ao menos, sobreviver naturalmente onde se encontravam e procuravam para se proteger de um vírus fatal que assolava o mundo. Os homens do poder não se interessavam pelas pessoas, o líder maior no meu país aparecia nos telejornais para pedir que as pessoas não se afastassem umas das outras, que as coisas não parassem de funcionar e agradecia a Deus por tudo. Sem falar as casas construídas nos barrancos, era época de chuva e a cada tromba d’água o temor que tudo ruísse era gigante. Já dissemos sobre a não contenção de encostas A prefeitura instalou uma sirene que soava e avisava do perigo de desabamento para que as pessoas deixassem suas casas e não corressem risco de morte. Mas quase ninguém saía, preferiam morrer soterradas com elas. Também não tinham para onde ir, além do mais perdiam tudo que conseguiam com esforço. Ou no desabamento, ou, quando não desabava e soterrava tudo junto, pessoas, móveis, papéis et cétera… A água da chuva invadia as casas e acabava com o que tinha lá dentro. Eu era um dos poucos que trabalhava e tinha o dinheiro certo ao final do mês. Foi assim que comecei a pensar sobre a minha condição. E uma alegria individual que quase não existia na comunidade tomava conta de mim discretamente. Uma alegria que durava pouco quando olhava ao redor de minha gente. Passei a uma condição de essencial à sociedade e à vida e entendi que a minha presença estava comprometida no lugar que morava. Fui o primeiro a dividir os mantimentos que a prefeitura distribuía entre os garis. Na verdade, já recebíamos uma cesta básica sobre o salário; com a pandemia e quarentena aqueles mantimentos dobravam. Era o mínimo que se fazia por nós. E não faziam mais nada do que isso. Amanda trabalhava na casa do médico que nossa mãe trabalhou antes de morrer com uma doença adquirida na época que usava cachimbos com drogas. Minha irmã entendeu melhor o que houve com ela, mas só chorava e não conseguia me explicar direito. O médico, desde que nossa mãe se foi, não deixava que faltasse nada para ela e, consequentemente, para mim também. Não havia naquele homem aquele abismo existencial que separava as pessoas da humanidade. Então muita coisa sobrava. Sentíamos obrigação de dividir com vizinhos. A fome em comunidades como aquela que morávamos jamais deixou de ser parceira.
Naquele dia, o trigésimo terceiro, algumas coisas chamavam atenção da comunidade. Primeiro era a rebeldia dos jovens. Estava em casa com Amanda, conversávamos sobre nossos trabalhos. No meio da tarde, ouvíamos passos de gente reunida. Olhávamos discretamente pela janela, como diziam que pobre fazia, olhava pelas frestas e víamos um grupo de jovens que dançava sem parar. Dois deles conversavam embaixo da minha janela.
‒ Não aguentava mais, brigava comigo mesmo em casa… Sem falar que meu pai xingava todo mundo, xingava o presidente, xingava o patrão dele, aí começava a me xingar porque sou gay e acabava dando tapas em minha mãe… Dizia que a culpa era toda dela pelas misérias do mundo e por eu ser gay… Meu pai é um homem horrível.
‒ E ainda dizem para ter esperanças que dias melhores virão.
‒ Acho que o mundo vai acabar.
Em seguida, quase ao mesmo tempo da reunião dos jovens no meio da tarde, o que me fazia pensar era quando passavam hordas de evangélicos sem máscaras de proteção ao vírus covid. Gritavam pelo Senhor e suplicavam misericórdia. A maioria dos religiosos diziam que o Senhor os livraria do vírus. Só no lugar que morava soube do desaparecimento de dezenas deles tossindo e com falta de ar. Comparava com os jovens, alguns de máscaras, outros sem usá-las, que dançavam sem parar. Chegavam notícias que havia doze ou treze deles contaminados na comunidade. E a dúvida acentuava. Lembrava do senhor lá no Campus Universitário que dizia ser bom ter dúvidas, ao que o outro respondia que também era bom que pensássemos. E não conseguia responder a mim mesmo um questionamento que se seguiu enquanto olhava aquelas duas condutas.
‒ Qual das duas vertentes era incapaz de sentir prazer em viver?
No entanto, talvez fossem comportamentos que pedissem ajuda com gritos silenciosos de desespero como aquele expressionista começava a história. Cada um em seu extremo.
A fome era a porta de entrada de todos infortúnios de quem era pobre em qualquer país do mundo. No Brasil e na comunidade que morava não era diferente, aliás, o incômodo no estômago levava as pessoas a se comportarem de outras maneiras que não eram consideradas habitualmente costumeiras. Mas é claro, além da fenda social, a fome enlouquecia. O vírus tinha um crescimento exponencial, principalmente nas comunidades como a que morava com Amanda, eram sentimentos de limitação, impotência e medo. Somada a essas agruras, ou como consequência, aparecia serelepe, imponente e de certo modo fascinante, a violência. No fim da tarde do trigésimo terceiro dia, ecoavam no ar saraivada de tiros.
Havia desde cedo um movimento diferente na comunidade. Aquilo não era boa coisa. Alguns homens de semblantes não muito bons iam e vinham acompanhados de alguns outros que moravam por lá. Isso desde a madrugada do sábado. Depois uma quietude tomou conta do lugar. Um silêncio torturante ganhou os ares daquele domingo, no trigésimo terceiro dia de quarentena. Depois que os jovens desceram a rua e, em seguida, os religiosos evangélicos se acomodavam no templo que eles construíram e de lá suplicavam louvores. Um clima de testemunha silenciosa se apoderava na comunidade. Aquele suspense sinistro foi quebrado no começo da noite pela algaravia dos tiros. Houve uma correria e depois a rua ficou erma. Enquanto olhava pela fresta da janela e ouvia os cânticos religiosos, pensava na humanidade e seus crimes. Aquelas pessoas, muitas gritavam por Jesus em desespero, para mim uma atitude inexplicável e intolerante. Ainda que o corona vírus andasse à espreita, tínhamos que nos cuidar, manter distanciamento social e a quarentena dentro de casa. O resto realmente era com Deus. Mas tinha dúvidas se aquela gritaria faria Deus, ou o Senhor Jesus, ouvir e descer para acudir a todos nós. Talvez, antes de toda súplica misericordiosa, devêssemos assumir os pecados. Ou os erros propriamente ditos e afiançados. Para aqueles evangélicos, e todos os outros, não havia sido ninguém que rompia o silencio do lugar com tiros, mas o diabo.
As notícias não tardavam e minutos depois soubemos a razão dos tiros e sua consequência. É bom que se diga algo sobre essas coisas: somente em comunidades pobres que os policiais decidiam valer a autoridade. Isso acontecia em todos os cantos do Brasil, quiçá do mundo. E sempre descambava para aquela discussão do racismo estrutural. Mas era racismo, sim. Não sei se estrutural. Provavelmente, não. Racismo, ponto final. O pior é que não havia respostas para tanta brutalidade e força exagerada num lugar em que as pessoas lutavam dia após dia para sobreviver. Nem sequer viver, mas sobreviver. Num lugar onde as pessoas não tinham oportunidade, talvez quando tivessem não sabiam como agarrar. Faltava-lhes estudo. Faltava-lhes conhecimento. Faltava-lhes incentivo para sair da escuridão. Nenhum político, daqueles que distribuíam comida e cerveja, em sua pré-eleição, gostava de ver sua gente discutir cultura com sabedoria. Queria que vivessem como gado. Queriam que a gente pobre se contaminasse com o covid 19 e morresse para diminuir o peso da Previdência. Quanto mais mortos, melhor. E ainda assim a gente resignava-se, como eu, por exemplo, que lia por conta própria. E emitia comentários, conselhos e sugestões a outros. Como aquele taxista que corria ao me ver abraçado a minha vassoura e aprender mais sobre mitologia grega. Cada pessoa em lugares como esse devia pensar o que fazer em cada passo que desse em sua caminhada. Em cada respiração. Eu e Amanda somos exemplos vivos desse aperto. Temos que provar todos os dias e horas que éramos pessoas capazes. Daí, minha satisfação em ser transformado em essencial para a sociedade por um vírus, na ironia da vida. Parecia que cada negro que nascia nas comunidades, tinha que pagar o preço do erro, primeiramente por ser negro, aquilo parecia realmente um erro, nascer negro. Em seguida, pelas faltas e crimes que nasciam naturalmente na alma de quem as provocava. Era negro, branco, mestiço. Rico ou pobre. Assim como preto e pobre emergia e vivia do crime, no pensamento de quem tinha poder e girava o dinheiro na própria gangorra financeira. Rico e branco também espalhavam drogas, sonegavam imposto, lavavam dinheiro, surrupiavam dinheiro público, espancavam mulheres, desrespeitavam funcionários públicos de cargo inferior, criavam milícias et cétera… E parecia que nada disso era marginal às regras. Não aparecia, não havia força descomunal de polícia que contrariasse, que combatesse esses crimes, com a mesma veemência da periferia, nos lugares deles. Mas lá, no lugar dos fracos, lá onde não havia o que comer, lá onde não havia moradia decente com banho quente nas noites de chuva e frio, mas muito medo de tudo desabar barranco abaixo depois de soar a sirene da aflição, lá onde as máscaras de proteção ao corona vírus eram somente um pedaço de pano, às vezes engordurado, para cobrir a metade do rosto, lá matava-se quem não tinha nada a ver, que por um capricho do destino tinha um vizinho suspeito. E para contabilizar na estrutura, somente quem tinha a pele preta cometia atrocidades. Começava a entender a fala da mulher que defendia movimento negro e que se pronunciava na reportagem do rádio de manhã cedinho antes do dia clarear. Aquele era o horário para indignar-se da dor e da injustiça, quando acordava para ir à luta com o dia sem apresentar aurora definida.
Os policiais invadiram a comunidade em perseguição a traficantes de facção, segundo disseram. Falavam que eram recebidos a tiros pelos meliantes. Revidavam, e assim foi baleado com fatalidade o menino Carlos Augusto de quatorze anos. Carlos, negro, estudante do nono ano do Ensino Fundamental, sonhava em ser jogador de futebol. Estava dentro de casa sentado no sofá e assistia a um jogo antigo da seleção brasileira, a final da copa do mundo de 2002 contra a Alemanha. O Brasil ganhava de dois a zero e relembrava a euforia orgulhosa de ser brasileiro e pentacampeão naquele domingo cinzento do trigésimo terceiro dia de quarentena sobre o coronavírus. Carlos Augusto não foi vítima do covid 19.
‒ A humanidade não deu certo.
Emiti sem querer aquela frase que me capturou a alma.
Carlos Vilarinho, nascido em setembro de 1963. Conhecido como Pensador das Ruas como atestam seus textos e personagens que surgem e passeiam livremente pelo Centro de Salvador. Autor de: “Labirinto-Homem” (Romance, Editora Kalango, 2013); “Baculejo e outras histórias” (Contos, Editora Via Litterarum, 2017) e “Barroquinha” (Romance, Editora Via Litterarum, 2019).