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140ª Leva - 07/2020 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Sara F. Costa

 

Foto: Cristiano Xavier

 

deixa o sol curar as cicatrizes de inverno
o céu cinzento verte das veias,
abre golpes nos poemas suburbanos.
olhos sem fogo engolidos em noites
que são rastos, que são desordem
que são pictogramas imóveis
na linguagem corporal.
deixa o silêncio relatar as memórias,
os poemas que surgem em sonhos
e que surgem nos bares, oferecem um cigarro
oferecem uma cerveja caseira
num fôlego sem pátria, sem fronteira,
sem bandeiras hasteadas na existência.
sentamo-nos numa ponta da eletricidade
e acabamos a comer shaobing
a ayi tem um rosto claro,
ilumina a escuridão do pensamento
trago os dedos gelados à boca
em breve acordarei em casa.

 

 

 

***
 

 

 

Portugal é um segredo escondido na garganta,
é um licor muito forte entre os músculos e o poema.
livros enevoados desdizem a lógica subterrânea do medo.
um homem que amei encontra-me em espírito ainda viva
como o Genji encontrou a Sra. Rokujo.
voa em direções contrárias à minha personalidade.
o poeta organiza os enigmas em forma de dorso
para manter o segredo
mas a Murasaki escreveu a história da minha vida há um milénio.
a viagem do espírito fez-se num Boeing 777.
acima das nuvens, não vejo horizontes.

 

 

 

***

 

 

 

tenho um animal sentado entre as sílabas,
ruge pela estética
trouxe-o no avião comigo para a China.
caminha pelos anéis da cidade,
fareja o nevoeiro de agosto,
pontua os poemas.
cresce silencioso no ventre cego
até à Cidade Proibida
onde vai dilacerar impérios
e invadir noites inteiras.
trago um animal que lateja pelo esgotamento
abre-se em forma de esfinge,
esconde-se entre as fissuras urbanas do poema.

 

 

 

***
 

 

 

ela deita-se todos os dias contra a própria boca
como um arquipélago imóvel,
o nome ancorado ao desafio,
as pernas abertas em forma de espelho.
todos os clientes são válvulas:
deixam-na abrir-se ou obrigam-na a fechar-se
deixam-lhe no quarto turbulências –
por vezes não sabe se é carne ou se é um contentor.
quartos inteiros de sémen em todos os pesadelos
corpos mergulhados em si mesmos
é um crime definitivo
que não sai com as lavagens,
mesmo que se lave sete vezes por dia.
“vagina de betão”, descreve-se, como ao resto da cidade.
por vezes fala de uma criança que lhe mora na garganta
nascida numa vila em Sichuan,
garante que é ela quem chora convulsivamente antes de dormir.
da janela do motel lê “Crescimento Pacífico”
e é assim que se deixa estar,
crescendo apenas
até desaparecer.

 

 

 

***

 

 

 

entro na biografia das ruas,
desaperto o vocabulário,
falo um mandarim rouco
como a forma do sino na torre.
Gulou dança elétrica nos nervos dos forasteiros,
artistas nas veias da noite
olhos violentos no êxtase vagaroso
das linhas de metro.
um velho come uma chuanr
enquanto outro velho a cospe, audível
cuspo também o peso sinistro
da mulher que vende cigarros,
há uma claridade que se desaperta do seu rosto
é um néon sinográfico,
hutongs gravitam em torno das árvores
que gravitam em torno da confusão dos turistas.
um Bentley bloqueia o estreito caminho
que vai dar à casa onde o poeta se embebeda.
ainda não é meia noite, mas já há música
endireitamos a cobra que nos desce da respiração
e lembramos que ainda é dia no país de onde viemos.

 

 

 

***

 

 

 

fala mais alto acerca das estratégias de sobrevivência
para que a criança te possa ouvir.
fala da forma como os dedos de prata genéticos
podem ajudá-lo em dias confinados
às ambições das outras pessoas.
nós somos tão fortes quanto a repetição
dos dias que aceitamos.
tu estavas a brincar com os teus amigos
e o pequeno Xu bloqueou-te passagem –
ele achava que era uma cortina.
ora, se ele fosse realmente uma cortina,
ficavas assim tão zangado?
anda para a mesa da cozinha
antes de nos começarmos a conhecer
e não tenhas inveja:
somos muito menos estrangeiros do que
o homem à porta com as encomendas.

 

Sara F. Costa nasceu em 1987 na Vila de Cucujães. Licenciou-se em Línguas e Culturais Orientais pela Universidade do Minho e tirou o mestrado em Estudos Interculturais: Português/Chinês pela Universidade do Minho em parceria com a Universidade de Línguas Estrangeiras de Tianjin. O seu último livro “A Transfiguração da Fome” obteve o Prémio Literário Internacional Glória de Sant’Anna para melhor obra de poesia publicada em países de língua portuguesa em 2018. Tem poemas traduzidos e publicados em publicações literárias um pouco por todo o mundo. Faz crítica literária e traduz poesia chinesa para português. Coordena eventos literários no coletivo artístico internacional Spittoon.

                        

 

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140ª Leva - 07/2020 Destaques Olhares

Olhares

A descoberta do mundo segundo Cristiano Xavier

 Por Fabrício Brandão

 

Foto: Cristiano Xavier

 

Em nossas mais remotas e pueris fantasias, a Terra parece ser uma reunião de lugares relativamente infinitos. Sustentamos a vivos olhos que mares, desertos e florestas não encontram limites em ponto algum. Encantados com belas, imponentes e enigmáticas paisagens, nos rendemos à magnitude da natureza, pois somos apenas parte de um colossal cenário de imagens e manifestações que estão acima do nosso controle e compreensão mais imediatos.

Tantos séculos se passaram e continuamos achando que temos o domínio sobre a natureza e os demais seres que nela fazem morada. Nossa tão exortada racionalidade mais parece um permanente estado de soberba quando nos julgamos superiores aos outros reinos que também habitam nosso planeta. Por outro lado, ainda bem que não somos páreo para desafiar muitos fenômenos da natureza. Estes últimos têm o poder de nos mostrar que andamos bem se nos contentarmos em levar a cabo o gesto de não intervenção em mecanismos que jamais poderemos alterar.

Talvez as paisagens e todos os seus seres dispersos pelo globo estejam a pedir de nós mais contemplação e pouca ou nenhuma interferência nos seus destinos. Dito assim, até parece um clamor utópico, mas o fato é que já vilipendiamos por demais esse vasto mundo em que vivemos, quer no aspecto físico, quando fracassamos nas questões ambientais, quer no humano, quando nos comportamos como canibais de nós mesmos.

 

Foto: Cristiano Xavier

 

Quantas vezes precisamos de uma pausa para desacelerar os tropeços de nossa espécie? Penso que todos os dias. E ter a arte como instrumento dessa reflexão é algo revelador e grandioso. É justamente tal sensação que parece permear o trabalho de alguém como o fotógrafo Cristiano Xavier.

As imagens de Cristiano dão conta dum verdadeiro percurso pelo mundo em seus mais distantes rincões. Ao deitar seu olhar para lugares como Madagascar, Namíbia, Irã, Mongólia, Indonésia, Patagônia, entre outros, inclusive conduzindo pessoas através de expedições, o artista nos apresenta uma diversidade de cenários que reforçam uma atenção especial à natureza. Nesse quesito, o fotógrafo tem percorrido o planeta buscando registrar árvores, tendo como foco espécimes raros e isolados. O resultado de tal investida é algo que encanta pelas descobertas inusitadas e também pelo universo de formas e texturas que nos remetem a paisagens exóticas. O próprio fotógrafo confessa que seu objetivo é despertar a atenção das pessoas para a beleza que se abriga nas árvores marcadas pela raridade. Para cobrir esse intento, ele lança mão das técnicas de fotografia noturna e light painting, transitando entre o digital e o analógico.

 

Foto: Cristiano Xavier

 

Mas o mundo em Cristiano Xavier também é aquele que abriga recortes possíveis para o humano. Nesse sentido, o artista retrata pessoas em rituais cotidianos que expressam as particularidades de suas existências. Aonde quer que passe com suas lentes, o fotógrafo se posiciona como alguém que preserva o protagonismo das mais diferentes culturas dispersas pelo mundo. Somem-se a isso ingredientes como a contemplação e o silêncio, os quais tanto marcam as posições de observador e observado.

Com tamanho apuro no olhar e nos recursos técnicos empregados, Cristiano logrou relevantes êxitos em sua trajetória profissional, dentre os quais o primeiro lugar no concurso mundial International Landscape Photographer of the Year 2017 – Abstract Aerial Award e a melhor colocação de um brasileiro no Epson Pano Awards 2017 – Nature/Landscape. Além disso, sua obra está exposta em galerias do Brasil, França e Estados Unidos.

Cristiano Xavier trava o bom combate quando nos conclama a apreciar a beleza que se espraia no mundo. E o faz evidenciando o poder sensível e transformador que emana do silêncio e da contemplação. Estas são duas ferramentas que instrumentalizam a fotografia para que ela adentre um verdadeiro estado de poesia. A predileção por cenários diferentes, inusitados e impactantes é uma acertada provocação para enxergamos além.

 

Foto: Cristiano Xavier

 

* As fotografias de Cristiano Xavier são parte integrante da galeria e dos textos da 140ª Leva

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.

 

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140ª Leva - 07/2020 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Alberto Bresciani

 

Foto: Cristiano Xavier

 

OFICIAL

 

A multidão
de estranhas peles,
gravatas, panos turvos.

O silêncio é o som
possível, o não-grito.
E esses rostos,

parados no tempo,
nunca mencionaram
o descabido

de aparecer só
e coberto
de escamas.

 

 

 

***

 

 

 

MENSAGEM

 

Faria um poema
de amor.

Mas penso em aviões
que decolam,
trens partindo,
em filmes antigos,
gavetas vazias,
a marca do quadro
na parede,
o livro embrulhado
para presente
e coberto de pó.

Este é meu poema
de amor.

 

 

 

***

 

 

 

OBLÍVIO

 

Um espinho na palma da mão,
a herança ou a graça.
Um nome, história
escrita em rocha, em pluma,
no canto dos olhos.

Uma planta, um tempo,
uma gema que amamos,
queremos,
e sem garantias,
sem garras e armas,
aprendemos,
grão por grão,
a esquecer.

 

 

 

***

 

 

 

DUO

 

Cordões, cadarços,
todos esses nós
atando angústias.

Mormaço, enjoo
dos dedos à cabeça.
E então você diz

– Vem,
desliza
pelos meus cabelos.

E um arco cresce
entre som e ar,
desfaz nódulos, dá fome.

Os pés
descalços.

 

 

 

***

 

 

 

MAPA

 

Tentei ser mau,
cortar as asas dos pássaros,

atravessar a nado
o lago no inverno.

Comprei facas e explosivos,
fechei os olhos

ao velho e seu cão,
mortos de fome na praça.

Quase anjo torto.
E era só amor.

Até além do ridículo.
Eu sei.

Só para você anotei,
no bloco da cozinha,

o lugar exato
onde está

emparedado
o meu corpo.

 

 

 

***

 

 

 

BISCOITOS

 

Imerso no terno
de corte exato,
em seu carro moderno,
cuja marca não sabe,
Franz aguça o olhar.

Como jovens animais,
fareja o ar
à procura
de respostas.

Havia um cheiro de biscoitos
em latas antigas.
Era uma forma
de completude
e revelação.

Mas Franz sente espinhos
nas vértebras.

Aviso
de que os tempos
dos milagres
acabaram.

 

Alberto Bresciani nasceu no Rio de Janeiro. Vive em Brasília. Autor de “Incompleto movimento” (José Olympio Editora, 2011), “Sem passagem para Barcelona” (José Olympio Editora, 2015, finalista do prêmio APCA de Literatura – Poesia de 2015), “Fundamentos de ventilação e apneia” (Editora Patuá, 2019) e “Hidroavião” (Editora Patuá, 2020). Integra, entre outras, as antologias “Outras ruminações” (Dobra editorial, 2014), “Pessoa – Littérature brésilienne contemporaine” (Revista Pessoa, édition spéciale – Salon du Livre de Paris, 2015),  “Escriptonita” (Editora Patuá, 2016), “Hiperconexões: sangue e titânio” (Editora Patuá, 2017) e “Ruínas” (Editora Patuá, 2020). Tem poemas publicados em portais, blogs e sítios da internet e em revistas e jornais impressos.

 

 

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140ª Leva - 07/2020 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Clarissa Macedo

 

Neste ano em que a pandemia instaurou uma nova operacionalização da existência, a leitura e a escrita tornaram-se ferramentas de possível manutenção da sanidade. Publicado em março, o livro As solas dos pés de meu avô, de Tiago D. Oliveira, vem construindo um percurso de alegria para um escritor cujo zelo com a palavra é notório. Para mapear alguns trajetos, entre o Tejo, o Tororó, o Paraguaçu e outras paisagens, sondei linhas de acesso ao livro mencionado, além de projetos em movimento e futuros, a conquista do Selo João Ubaldo Ribeiro e a sensação que o isolamento social impôs à face literária do autor.

Celebradas pela posição de finalista do Oceanos, um dos marcadores do campo literário atual, As solas… possibilitam uma pausa para a territorialização dos fios invisíveis cibernéticos e um chamado à memória-ancestralidade na figura de um avô desencarnado que enseja uma profunda contemplação do mundo. A memória, essa construção imprecisa de sensações e acontecimentos, exige um afastamento da imposição do agora para a passagem de um outro instante, um instante passado. Em As solas…, além do que pude desvelar no prefácio do volume, interessa-me, neste momento, a cisão que a obra provoca ao abordar um lócus que transcende as cibermalhas, pois a elas resiste: o espaço fora dos centros. Nesse aspecto, são dois os móbiles de insurgência que me intrigam, modulados, por sua vez, através da fratura do tempo e da abertura ao exterior da tela, desencadeando uma narrativa poética que ilustra uma saga a partir dos pés, da ancestralidade e do amor.

Guy Debord afirma que a espetacularização comporta uma mediação de imagens e aparências. As redes sociais, o apego à digitalização de tudo e a própria internet contêm o fetichismo do espetacularizado que reveste, no contemporâneo, todas as zonas do humano. A urdidura do digital, como interfere na condição humana e quais as formas de vivenciar o toque na tela que nos toca são questões que se impõem. A literatura é um terreno aberto para isso, um domínio de resistência onde o digital é sangrado e desvelado. Por isso, ler Tiago D. Oliveira, hoje, em que a pandemia permanece muito por conta de notícias inverídicas a respeito do vírus que a move, parece-me necessário. Desde Distraído, passando por Contações, até o livro mais recente, a qualidade estética, as referências textuais (Tiago é um leitor voraz) e a reterritorialização conformam uma obra cuja matriz é a da beleza.

Abaixo, segue a conversa que tive com o autor. Desde já, agradeço a Tiago D. Oliveira, por ter cedido um pouco de seu tempo para nós, e ao editorial da Diversos Afins pelo crédito do espaço. Abraços e boa leitura.

 

Tiago D, Oliveira / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Em As solas dos pés de meu avô, difícil não notar a figura de um patriarca a marcar o percurso narrativo-poético. Há um movimento catártico e/ou de expurgação (independentemente se factual ou mais propriamente ficcional)?

TIAGO D. OLIVEIRA – O primeiro pensamento sobre a escrita desses poemas foi na direção de um resgate. Ele nasceu de uma necessidade, a de tentar entender o muito além dos deslocamentos dos corpos, o que fica quando não há mais a chance de um abraço. Eu, que já havia me distanciado geograficamente, pois vivia em Portugal na época, agora via a distância girar em seu próprio eixo como faz tão naturalmente a natureza. A distância não seria só material e seguiria o rio de nossas existências para outro lugar. Coloquei para fora o primeiro e segundo poema da sequência que se tornaria um livro bem depois. Inicialmente não havia uma vontade de livro. O que existia era a necessidade de colocar na mesa as minhas armas para gerir o desconhecido que me limitava, já que não podia largar o emprego em Lisboa nem tinha condições financeiras para voltar ao Brasil e beijar a testa de meu avô. Escreveria. Os poemas foram nascendo deste momento, mas só escrevi o terceiro quando já estava no Brasil, alguns poucos anos depois. Os versos foram ganhando especulações, leituras, rememorações, recriações, tatuagem que se desenhava em minha carne ao passo em que as geografias do afeto afloravam em mim paulatinamente. O sentimento de saudade em Portugal é uma experiência muito especial e única, aqui no Brasil ele se tornou mais pesado quando caminhei na terra com os pés descalços. Refletir sobre o método catártico que Freud aponta e no fim concluir que estes versos são uma voz que procura o equilíbrio saudável a partir da linguagem, uma voz que busca substituir o sentimento da impossibilidade do ato por um movimento realizado pela linguagem, pela escrita em si, foi o que entendi nesse caminho. Aqui o patriarca exerce a continuação de sua caminhada impondo à morte a vitalidade da escrita a partir de quem ficou. E já não há ficção nem realidade, tudo é transpassado continuamente pelos revérberos e arrepios que acontecem após cada leitura destes versos, destes caminhos, em cada leitor.

 

DA – Como você estava em Portugal, mais precisamente em Lisboa, a distância do Brasil, e, logo, de seu avô, funcionou como parte do processo de construção do livro. Além disso, como foi experienciar a terra de Fernando Pessoa também na condição de escritor – e brasileiro? A cisão, ao menos em parte, com a pátria, sob o signo do estrangeiro, o corte tátil com a geografia da Bahia: tudo isso impactou sua literatura de algum modo?

TIAGO D. OLIVEIRA – Andar pelas ruas de Lisboa produz um sentimento familiar, é a mesma sensação da folha em branco diante de mim. A cidade oferece uma intimidade maior com os versos que lia na UNL ou no meu quarto. A sensação que tinha era a de viver constantemente no trânsito das leituras, só que tocando, caminhando sobre as palavras, os versos. Um amigo de infância, que também morava em Lisboa na época, teve a sorte de morar ao lado de uma das casas em que viveu Fernando Pessoa e nunca percebeu aquela sorte, o que mudou quando fui visitá-lo pela primeira vez e depois disso aquela imagem não saiu mais de minha cabeça. Outros episódios como esse foram somados durante os anos, mas o que ainda é forte no emaranhado das imagens de minhas lembranças é o desenho afetivo que a cidade constrói em nós. As ruas, a arquitetura, o movimento da carris durante o dia, o tejo, tudo figura como a construção de uma literatura em face de sua realização a qualquer momento. E assim aconteceu um convite para participar de uma antologia de poemas, depois de contos e lá estava eu usando a cidade para recriar a própria cidade, pois era esse o sentimento quando escrevia sobre minhas impressões ao mergulhar cada vez mais na cultura do lugar, era um brasileiro vivendo em outra cultura e reproduzindo aquelas influências a partir de uma escrita em constante transformação. Penso que a minha poesia começou a entender que a transformação é a melhor linguagem exatamente nesse momento. O corte com a minha Bahia começava a se desfazer ali, diante da saudade a escrita, já envolvida pela cultura lusitana, pelos poetas todos, acontecia como instrumento funcional para re/criar, re/viver. Comecei a pensar e sentir novamente a minha terra, agora de uma maneira muito mais profunda e real, depois que percebi que por mais que viajasse, a natureza de meu olhar, mesmo estrangeiro, carregaria sempre o Brasil, a Bahia em mim. O impacto sempre foi o de elevação, sempre olhei e senti assim, para frente.

 

DA – Muito produtiva a relação reterritorializada com os espaços Portugal-Brasil e que, aliás, é bastante cortejada pela crítica lusófona. Interessante mencionar, nesse aspecto, o prêmio Oceanos, de literaturas de língua portuguesa, em que você é finalista este ano com As solas dos pés de meu avô. Como tem sido essa experiência?

TIAGO D. OLIVEIRA – Bacana você tocar nesse ponto, pois há aqui um lugar imenso de afeto, de reencontro. Ao passo que caminho pelas solas de meu avô nesse livro, conecto-me também com Portugal e percebo a cada dia que somos, nesta minha perspectiva, uma só experiência, a poesia. Estou vivendo um momento muito especial com o reconhecimento do meu trabalho, que geralmente é muito solitário e sem pretensão alguma. Há anos longe de Portugal, mas toda vez que escuto aquele sotaque, sinto como se tivesse retornado ontem para o Brasil, que o tempo não passou. A possibilidade do prêmio me fez acessar novamente um velho sentimento de pertencimento, um chamado híbrido diante do Tejo ou do Dique do Tororó, sua soma. O conforto é que somos todos filhos de uma mesma língua, mesmo com inúmeros mecanismos internos de reconfigurações constantes, somos todos saídos de uma mesma boca. Mas o coração anda apertado com essa reconexão com um tempo muito feliz de além mar. Um lugar re/encontrado. A parte funcional de todo esse movimento chegado com a indicação de finalista para o Prêmio Oceanos 2020 é que a alegria é imensa, servir de exemplo para outros meninos de periferia, como eu fui, é uma chance de fazer algo bom, motivador. Mas o que fica depois do vento ainda é a página em branco e eu confesso sem medo que essa é a imutável realidade de quem escreve, é o chão de todo autor, é a certeira paz que me recebe de volta. Que bom! Mesmo sabendo da natureza passageira dos prêmios, confesso que é bom sentir as mensagens das pessoas, o carinho, o brilho nos olhos. Penso que As solas dos pés de meu avô ainda vão me levar para lugares diversos.

 

DA – O “velho sentimento de pertencimento, um chamado híbrido diante do Tejo ou do Dique do Tororó, sua soma” remete à fragmentação tão incensada do indivíduo contemporâneo. Isso interfere noutros trabalhos, a exemplo de projetos anteriores ou mesmo inéditos? Ou o “chão de todo autor”, a página em branco, resvala em mistérios diferentes a cada livro? Consegue identificar tais aspectos na própria obra?

TIAGO D. OLIVEIRA – Essa fragmentação é realmente um traço contemporâneo que compõe o olhar de quem escreve. As nossas horas são invadidas por diversos tempos e espaços e muitas vezes já nem notamos, acostumados com o ritmo normal da vida imediata. Mas há a palavra escrita, a literatura. Assim são os dias, entre a memória e o tato. Penso que quanto mais o tempo passa, mais aumenta essa nossa busca por um pertencimento que se faz na fragmentação. E agora digo pensando também nas vidas criadas no papel. O meu trabalho está mergulhado nessas águas, a do Tejo e a do Dique. Estou inteiramente atravessado por essa chance do sentir, do criar, do referenciar, assim aconteceu com um livro que escrevi, Contações, que bebe de um lugar que não existe mais, de criaturas reimaginadas e grafadas como partes de um mural construído para essa ideia de pertencimento. Personagens inventados, rememorados, todos abraçados por essa fragmentação, cada um representa um lugar perdido de geografias e eras distintas. Quando escrevo, junto todas as naturezas sob a minha, paulatinamente a preencher a folha em branco com palavras. O chão que piso é feito de possibilidades, a cada livro que realizo pertenço um pouco mais a essa multiplicidade e ao mesmo tempo, sendo todos eles, fragmento-me um pouco mais. Talvez seja essa a ideia de modernidade que merecemos, a que não conseguiremos tão cedo nos livrar. Quando escrevi As solas dos pés de meu avô, novamente não consegui fugir dessa fragmentação que me faz. Lá estão o sertão profundo, a urbe e um outro país distante. Lá estão o avô, o pai e o neto. Três tempos e espaços distintos que são acessados pelo corpo da fragmentação intuído pelo sangue do autor, que escreve justamente por conseguir pertencer, mesmo sem nunca ter vivido. Estou a escrever um novo livro sobre Saveiros, o que me corre pelas mãos são as águas novamente, não as do Tejo nem as do Dique, mas as do Paraguaçu. Novamente escrevo com o sentimento de pertencimento, mesmo sem nunca ter vivido, o que me faz alcançar essa atmosfera de um recôncavo histórico que abastecia a capital é a fragmentação que me acolhe enquanto pesquisa, enquanto ato de talhar o verso. Os mistérios costurados na derme da escrita de cada livro são consequências de um caminho em que pertencer e não pertencer são faces de uma mesma moeda. O jogo da escrita possibilita também essa imagem. Agora olho para a janela e o silêncio da noite me faz ouvir o barulho do relógio, lembro de Pessoa diante do mundo e a heteronímia de sua criação. Lembro também de Drummond, em a Máquina do mundo, quando o poeta nega aquela imagem e vai embora. Sigo em posse dessa herança e gozo agora do silêncio que antecede o sono. Fim. Amanhã já não sei, pode ser tudo diferente.

 

Tiago D. Oliveira / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Acima, você traça um pequeno tratado sobre os desdobramentos do ato de escrever, além de citar um livro inédito, Saveiros. Muitos autores, em meio à pandemia em curso, têm alegado que a escrita funciona como salvação. Como tem sido para você? Muitos projetos novos? Saveiros nasceu com a quarentena?

TIAGO D. OLIVEIRA – Com a pandemia vieram muitas mudanças rapidamente, tivemos que aceitar e transformar o que nos foi imposto com tanta força. A única realidade que não sofreu foi a leitura, a escrita. Aliás, finalmente havia tempo para a leitura, para a organização de algum projeto de escrita. E assim, mesmo continuando a dar aulas via internet, de alguma forma ficamos mais disponíveis para o sol se pondo, para o barulho do vento entrando em casa. Há tempos venho acumulando leituras sobre os saveiros para um futuro, o que nunca acontecia por causa da implacável falta de tempo, e nesses meses consegui ler muito do que desejava, dissertações, artigos, livros, reportagens, o que alimentou mais ainda a minha vontade de conviver com todo aquele universo. Então eu tinha tempo e uma vontade de escrever que só crescia. Iniciei os versos mesmo sem ter colocado nada no papel. Os poemas começaram a ser escritos em mim enquanto a liberdade reinventava um livro como rio para que aqueles saveiros, que criava como versos em minha cabeça, pudessem navegar novamente. Escrevo com os dias atravessando as palavras, tudo o que sei é medido por versos que repito biblicamente e tento aceitar o que não posso mudar e tomar o que me cabe. Os saveiros são mais uma ferramenta de resistência ao duro tempo que vivemos, assim como os acordes do violão, as contas amarradas na ponta do lápis, as lives ou as receitas de pão. A quarentena trouxe-me uma chance de desacelerar, mas também me possibilitou a construção de um projeto que vai muito mais além da minha condição de isolamento.

 

DA – Você ganhou este ano o Selo João Ubaldo Ribeiro. Pode comentar um pouco sobre?

TIAGO D. OLIVEIRA – Recebi uma ligação da rádio educadora me pedindo para falar sobre o selo João Ubaldo, que meu inédito, Soprando o vento, tinha sido contemplado neste ano de 2020. Fiquei muito feliz e acabou passando um pequeno filme em minha cabeça. Quando comecei a escrever poesia tinha a idade perfeita para sonhar, sem o coração calejado por alguns movimentos naturais da vida. Acho que aquele menino de Sete de Abril vibrou dentro de mim com a notícia. Ganhar um prêmio em minha cidade sempre foi uma imagem distante, mas algo brilhava ainda em mim e depois que a ficha caiu entendi que sou a melhor propaganda de que é possível nascer na periferia, sonhar com um mundo distante e um dia realizar. Esse prêmio do Selo João Ubaldo Ribeiro representa para mim uma semente plantada em tantos corações, tantos meninos e meninas de periferia que vão  perceber  que com leitura, estudo, fé, tudo acontece. Sigo acreditando na poesia e nas pessoas.

 

DA – Gostaria de deixar alguma mensagem para as suas leitoras e leitores?

TIAGO D. OLIVEIRA – Queria deixar aqui a alegria que sinto quando abro um livro.  A paz que me toma quando termino de escrever algum projeto, quando os poemas estão dialogando. Queria deixar aqui a minha fé em um mundo feito por pessoas que acreditam nos livros, que se encantam com as pequenas alegrias. Queria dizer que a escrita se tornou uma maneira de entendimento e localização do mundo, cada livro escrito é um universo que re/descubro e aceito caminhar. Queria agradecer por uma troca tão agradável que foi essa entrevista. Estar aqui é acreditar na palavra, é seguir. Leiam. Leiam. A leitura é a grande riqueza nos dias.

 

Clarissa Macedo (Salvador – BA), mestra, doutora em Literatura e Cultura, é escritora, revisora e pesquisadora. Publicou a plaquete O trem vermelho que partiu das cinzas (Pedra Palavra, 2014) e os livros Na pata do cavalo há sete abismos (Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia, 2014; traduzido ao espanhol) e O nome do mapa e outros mitos de um tempo chamado aflição (Ofícios Terrestres, 2019).

 

 

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140ª Leva - 07/2020 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Marcus Vinícius Rodrigues

 

Foto: Cristiano Xavier

 

UMA CONVERSA DE BANHEIRO

 

— Eu tenho fita dupla face aqui. Quer?

Antes de falar, a mulher afastou a escovinha do rosto. Retocava o volume dos cílios com uma máscara preta. Eriçava-os para cima enquanto o olhar verde observava a moça que, há pouco, tinha entrado no banheiro. Ela tentava manter os seios dentro de um decote vermelho que insistia em mostrar demais.

— Você anda com fita na bolsa?

A moça lhe dirigiu os olhos castanhos muito brilhantes e esperançosos. Eram olhos juvenis contornados por uma maquiagem alegre.

A mulher enfiou a escovinha no frasco e o deixou em cima da pia. Vasculhou a bolsa de pedrarias pretas, que combinava com seu vestido também preto, bem fechado na frente e com um longo decote nas costas, até a cintura. Costas nuas.

— Já me vi em cada situação. Tenho linha, agulha, alfinete de segurança…

— Você é bem prevenida.

— Uma vez quase fiquei nua em um casamento, minha filha. Essas roupas são uma armadilha. Toma.

Tirou da bolsa a fita e a entregou à moça. O ar distraído. Sacou novamente a escovinha do vidro e se observou no espelho. A mão em suspenso sem saber se recomeçava a tarefa de avolumar os cílios que já estavam eriçados, negros e curvados para o alto. Daquela vistoria os olhos escorreram para a outra.

— Acho que tem de fazer uma tirinha mais fina. Deixa eu pegar uma tesourinha.

— O decote é muito aberto.

A mulher cortou um pedaço de fita e depois o dividiu ao meio.

— Tenta agora.

A moça agradeceu. Parecia atrapalhada com a operação, tentava a todo custo evitar que os seios ficassem à mostra.

— Coloca a fita mais pra dentro para manter o franzido do tecido. Ninguém nem vai notar.

Continuava olhando através do espelho e se colocou em um ângulo em que não podia mais ver a moça enquanto perguntava.

— Gostando da festa?

— Animada. Tem gente famosa.

— Ah! Sempre tem um ou outro… e muito famosinho arroz de festa. Você vai ver.

— Ai. Grudou tudo. Vou fazer outra. Você não se chateia, não, né?

— Olha… eu… a fita? Nada. Pode usar à vontade.

— Não está gostando da festa?

— Maçante. São todas iguais. Mas tem de vir, né. Quando fico entediada venho retocar a maquiagem. Adoro. Já teve vezes de eu mudar a cor da sombra no meio de uma festa… Ninguém notou. É a vida.

A frase a fez pegar o estojo de sombra. Decidida, enfiou o pincel no dourado.

— E não tem como escapar, né?

Empurrava o seio para dentro do decote enquanto falava. Parecia arrependida das escolhas que tinha feito. Os tamanhos.

— Agora é ir até o fim. Paciência. Estou acostumada a esperar as coisas acabarem. O que não é pra vida toda a gente aguenta. Noblesse oblige.

Murmurou para si mesma o noblesse oblige e descartou o dourado. Limpou o pincel e procurou uma outra cor. Decidiu-se pelo bronze fosco. Começou a retocar os olhos, que até então tinham uma maquiagem mais suave.

— Uma festa de caridade…

A mulher teve de parar a maquiagem para rir.

— Olha meu vestido. Uma festa de caridade. Ele não me avisou de nada.

— Não tem motivo para você se preocupar.  Aqui…

— Quem ia imaginar uma festa de…

Voltou-se para a moça. Até então só a tinha visto pelo reflexo do espelho. O cabelo era muito loiro e liso. Alisado. O vestido era mesmo muito justo. O decote deveria ser natural com várias dobras, mas como era um número menor, faltou tecido.

— Deixa eu lhe ajudar.

Cortou novas tiras da fita e começou uma nova operação. Tinha de tocar nos seios. Não havia outro jeito.

— Não tem problema.

— E você nunca veio numa festa…

— De caridade?  Nunca nem imaginei…

— Espera. Não se mexe… o bom é que é firme. Vai segurar.

— Me custou muito.

O decote se acomodou nos seios. Não corria mais para os lados.

— Tenho medo de escapar se eu me mexer muito.

— Por enquanto você não vai ter de se mexer. Vai ficar sentada… ereta… vai sorrir suavemente e esperar acabar a festa.

A moça riu.

— Obrigado. Vai ficar o final de semana?

Foi a vez da mulher rir.

— Não. Domingo de manhã tem culto.

A risada da moça congelou num espanto. A mulher se voltou para o espelho. Não se decidia a retornar para a maquiagem.

— O fim de semana inteiro, né?

A moça já não ria. Jogava os restos de fita na lixeira.

— Você é mesmo muito prevenida. Tenho de aprender essas coisas.

A mulher guardou a fita e a tesourinha na bolsa e tirou de lá um estojo pequeno. Dois comprimidos surgiram em sua mão. Um azul e outro branco.

— Toma.

A jovem recebeu os comprimidos em sua mão pela inércia da surpresa.

— O que é isso? Eu não curto…

— Eu vi você mais cedo. Acho que vai precisar. Não é pra você.

— O azul… eu acho que não vai precisar.

— Pelo que eu vi, vai. Amassa e coloca na bebida. Funciona bem.

— Mas não é perigoso?

— Pra você, não.

A moça olhava para os comprimidos sem saber o que fazer. Estava presa em um momento em que a compreensão de algum mistério está prestes a se relevar. Aquele momento em que se tira a venda e a luz da visão primeiro cega antes de deixar aparecer a paisagem. Ela estendia a mão como uma pergunta.

— Com o outro você faz a mesma coisa. Amassa e coloca na bebida. Esse é pro caso de você correr perigo.

Os comprimidos foram postos na minúscula bolsa prateada. A jovem tinha, agora, os olhos mortiços, olhos que enxergavam melhor.

— Obrigado. Não vem para a festa?

— Vou depois.

A moça saiu do banheiro e a mulher retomou a sua maquiagem. Decidiu-se novamente pelo dourado e o passou com generosidade furiosa. Tudo se iluminou em torno de seus olhos muito verdes e muito escuros.

 

 

ESCREVENDO UM CONTO

 

As primeiras frases deste conto surgiram-me durante uma entrevista que dei a Suênio Campos de Lucena, em junho de 2019. A entrevista ainda está inédita. No meio de uma longa resposta sobre meu processo criativo, eu disse:

“Ou mais: que tal pensar outros contos que tenham como ponto de partida objetos ou produtos usados apenas por mulheres? Sutiã, salto alto, cílios postiços, a antiga anágua… já imagino uma mulher no banheiro de uma festa bem chique dizendo à outra: “Eu tenho fita dupla face aqui. Quer?” “Você anda com isso na bolsa?” “Já me vi em cada roubada. Tenho linha e agulha, alfinete de segurança… Já fiquei nua na rua, minha filha. Essas roupas sexies são uma armadilha”…  acabo de escrever esse diálogo e já quero saber como foi a história de ter ficado nua. Mas interessante mesmo deve ser a outra que, certamente, tem uma roupa que está mostrando demais e talvez nem tenha se dado conta. Quem são essas mulheres?”.

Esse diálogo ficou guardado no meu computador.

Em setembro de 2020, fiz uma oficina de dramaturgia com Marcos Gomes. Um dos exercícios pedia uma cena entre dois personagens que se referisse a algo fora da cena. Voltei às duas mulheres no banheiro e fiz uma cena curta.

Agora, Fabrício Brandão me pediu mais um conto para a revista. Poderia ser qualquer conto que eu tivesse nas gavetas. Eu lhe pedi uma encomenda: um tema. Já tínhamos feito isso antes: O sabor dos anjos  e A fresta foram feitos sob encomenda. Pecados capitais: gula e inveja. Desta vez, Fabrício me pediu com o tema “cidadão de bem” e sobre hipocrisia. Usei as mesmas personagens. Mudei o rumo da conversa entre elas e aí está. Talvez seja um conto ainda em processo. Não sei. Deixemos descansar, desta vez não na gaveta, mas em praça pública.

 

Marcus Vinícius Rodrigues nasceu em Ilhéus-Ba e mora em Salvador. Publicou, entre outros, os livros O mar que nos abraça (contos, Ed. Caramurê, 2019) Café Molotov (contos, Editora 7Letras, 2018); A eternidade da maçã (contos, Editora 7Letras, 2016) e Cada dia sobre a terra (contos, Ed. Caramurê, 2010). É membro da Academia de Letras da Bahia.

 

 

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140ª Leva - 07/2020 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

High Life. França/Alemanha/Reino Unido/Polônia. 2018.

 

 

High Life é uma produção internacional de 2018, de idioma inglês, da consagrada diretora francesa Claire Denis, que infelizmente não passou nos cinemas públicos brasileiros, mas que pode ser visualizada pela plataforma You Tube, mediante pagamento. Sendo a primeira obra de ficção científica da autora, é um filme que se adequa a esse período de confinamento pandêmico por causa de seu enredo claustrofóbico sobre a vida artificial. É certamente a produção mais cara da diretora.

Denis é conhecida pelos seus filmes que abordam a sexualidade e o corpo. Seu filme mais importante, Beau Travail (1999), que se passa na África (Denis viveu em vários países africanos quando jovem, acompanhando o trabalho de seu pai), é sobre um affair homoafetivo não declarado entre dois militares, um comandante e um subordinado da Legião Estrangeira Francesa na Argélia. A relação se dá numa mistura de jogo de poder e desejo reprimido, e supõe a troca de papéis, ao estilo “Senhor e Escravo”. Muitas vezes, os filmes da autora abordam as questões do sexo e do desejo na fronteira das transgressões, dos tabus e dos jogos de poder (que frequentemente são também jogos eróticos).

Em High Life, uma missão espacial se dirige para fora do sistema solar e objetiva se aproximar de um buraco negro para estudá-lo. Descobrimos que toda sua tripulação é composta de criminosos que foram condenados na Terra, mas a quem foi dado o direito de substituir suas penas pela participação na missão espacial, “para servir à Ciência”. Aos poucos, todos descobrem que a missão não visa retorno possível à Terra. Em flashback, um cientista denuncia que a expedição é desumana por não supor o retorno dos tripulantes, o que é o mesmo que condená-los a uma espécie de prisão perpétua ou mesmo à pena capital. É ambíguo no filme se os participantes realmente desconhecem seu destino.

Duas personagens se destacam. A primeira é a “doutora” Dibbs (vivida por Juliette Binoche, frequente colaboradora da diretora). Ela é a médica da missão e é também responsável pela “pesquisa” científica a respeito da fertilidade humana nas condições de radiação do espaço sideral. Não se sabe se esta é uma pesquisa “inventada” pela médica ou já decidida pelos cientistas projetistas. Tampouco se sabe se seu posto de médica e pesquisadora foi definido antecipadamente. Aos poucos, saberemos que Dibbs é uma criminosa condenada tal como os demais membros da tripulação. Ela certamente mantém uma ascendência de poder sobre todos que muitas vezes se submetem aos seus experimentos genéticos (fornecem fluidos sexuais). No entanto, nas condições irremediavelmente longínquas da nave, o poder ditatorial e severo que Dibbs exerce sobre os demais poderia ser alvo facilmente de uma rebelião. Mas os outros passageiros parecem passivos demais para lhe questionar o poder. Parte dessa inércia vem do fato de que Dibbs tem acesso a drogas narcóticas que tornam a longa viagem mais suportável.

 

Juliette Binoche / Foto: divulgação

 

A segunda personagem protagonista é Monte (vivido pelo ator americano Robert Pattinson). Ele é o único passageiro que permanece fora da esfera de comando de Dibbs, nem participa de suas pesquisas e nem cede às suas demandas sexuais. Ele é um “celibatário” por sua própria decisão, o que lhe garante uma fortificada “pureza” e uma aura de integridade. Desde a primeira cena, sabemos que Monte será o único sobrevivente da missão, junto com uma criança, menina, recém-nascida. Ele mantém um jardim com estufa num dos compartimentos da nave espacial. A narrativa do filme é construída de forma totalmente não linear e varia com cenas da nave em momentos diferentes e cenas antes da partida, ou ainda com outras da própria juventude de Monte. Não sabemos de onde vem aquele insólito recém-nascido que está com ele nas primeiras cenas.

O antagonismo entre Monte e Dibbs estrutura um dos eixos do enredo. De um lado, a pureza de Monte permite que ele mantenha uma aura de sapiência diante da tripulação. Dibbs, por seu lado, é uma personagem ambígua. De um lado, seu poder vem de seu saber científico e instrumental. De outro, seus longos cabelos e seus pelos abundantes são índices ostensivos de sua feminilidade e de sua sexualidade. Uma das participantes femininas a chama de “bruxa”. A personagem de Binoche assedia sexualmente os homens, mas não consegue os favores de Monte. Há um compartimento da nave que é um cubículo onde ela pode se masturbar sobre um dispositivo fálico de cavalgadura. Assim, ela articula o poder da racionalidade científica e instrumental e o poder arquetípico da sexualidade feminina.

O outro eixo narrativo é o da própria missão, a utopia-distopia da viagem sideral. Claire Denis explicitamente organiza uma montagem cinematográfica em que vários filmes são referências: 2001, uma Odisseia no Espaço; Solaris; Alien, o Oitavo Passageiro; Perdido em Marte. Este último é referenciado pelo jardim interno mantido por Monte. De fato, um dos alvos temáticos de Denis é o projeto de colonização do espaço, em particular o projeto de Elon Musk (Tesla) de enviar uma nave tripulada à Marte sem retorno. As pesquisas de Dibbs sobre a viabilidade da fertilidade humana no espaço sideral estão inscritas nessa experiência de sobrevivência utópica da espécie quando as condições do planeta Terra estiverem irremediavelmente inóspitas (e também lembram a pesquisa do cientista androide de Alien com o material genético alienígena). High Life vai mais longe, para além do Sistema Solar. Porém, submete esse projeto de “escapar” do planeta e do Sistema a uma reversão irônica. A nave é caracterizada como um container grosseiro, como uma caixa de transporte e uma nave-prisão.

 

Robert Pattinson / Foto: divulgação

 

Numa de suas entrevistas sobre o filme, Claire Denis diz que nas condições absolutamente sem esperança das personagens, “o sexo é a única liberdade”. O sexo, o corpo e a carne estão presentes em todos os seus filmes. O que se observa neste último filme é um embate entre o sonho distópico da tecnociência e a espessura dos corpos carregados de sexualidade e desejo. Denis exibe em seus filmes um verdadeiro fascínio com o corpo, seja disforme ou mutilado. Denis é uma feminista diferente, fascinada com a masculinidade. A discussão de gênero está presente em sua obra não à maneira da performatividade discutida pela Teoria Queer, mas como um encrave sexual que acomete a carne, independentemente de seu código genético. Em seu filme clássico White Material (2009), o frágil corpo branco da personagem de Isabelle Huppert recebe uma caracterização de virilidade. O embaralhamento de gênero em seus filmes vem totalmente desprovido de classificações. É algo a ser vivido carnalmente pelas personagens.

Esse embaralhamento sexual também acontece em High Life. Mesmo com sua sexualidade arquetípica, é a personagem de Dibbs que está com o poder fálico da violência da posse. É assim que sua experiência científica terá êxito através de dois estupros em corpos de mulher e de homem. Já a personagem de Monte será retratada desde o início num claro viés maternal e virginal, com uma propensão ao cuidado e à proteção.

Para Denis, os corpos são andróginos. E o sexo é um assunto sobre o encontro desejoso (quase sempre violento) dos corpos. Quaisquer corpos. Mesmo (ou principalmente) com o seu próprio: sexo é também masturbação com o corpo do outro (podendo este ser o “outro de si”). Na relação contraditória entre esperança e desesperança, a ficção científica de High Life é um experimento cinematográfico e também um experimento mental. A viagem de escape para fora do Sistema Solar se dirige a um buraco negro. É o buraco negro que sintetiza as contradições entre mito e ciência, masculino e feminino, ideologia e utopia. E entre o monstruoso e o sublime da arte. O buraco negro é a alegoria da “fenda” do sexo, de sua passagem e de seu encerramento. Da posse que é também uma entrega: possessão.

 

 

 

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor, doutor em Teoria Literária pela UERJ (2020). É autor de Capoeiragem (7Letras, 2013) e Extrema Lírica (Oito e Meio, 2014). É organizador do  Clube da Leitura, coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro, atuante desde 2007 e foi editor das quatro coletâneas do Coletivo. É autor do blog Fabulação Especulativa e seus trabalhos acadêmicos podem ser visitados aqui.

 

 

 

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139ª Leva - 06/2020 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Escrever pode ser algo parecido com uma tentativa de agarrar o mundo com as mãos. Ou com a cabeça. A mente que fervilha ideias em busca da criação atravessa, em grande instância, os lampejos da natureza humana, esse grande caldeirão de imagens, atos e investidas. Achar-se pronto para demarcar uma obra que se queira definitiva talvez não passe de uma quimera, flerte com o inatingível. Para alguns, a angústia da criação é motor de soluções; para outros, é penoso caminho que jamais se resolve.

Comunicar bem através de uma obra literária é, sem dúvida, um dos requisitos que conferem sentido ao trabalho do autor. Assim, leva-se em consideração que não estamos sós a engendrar os escritos, pois estes um dia tendem a encontrar amparo nas recepções mais diversas possíveis. Nesse sentido, a ideia de escrever para ninguém mais parece uma falácia ou tentativa de distração do debate. Divisões à parte, é preferível ficar com quem advoga pela melhor forma de se contar uma boa história.

No eixo que transita entre obra e leitor, há muita gente interessada em apurar seu trabalho com as palavras, fazendo com que o texto, em suas múltiplas estratégias narrativas, alcance pessoas. Tal processo jamais pode ser confundido como um esforço do autor para agradar quem quer que seja. Pelo contrário, traduz a busca de quem escreve por modos de instigar a atenção do leitor, ofertando-lhe possibilidades para o mergulho pessoal.

Rodrigo Melo é um desses escritores que sempre está à cata de algo consistente para dizer e nos apresentar. E sua obra está na ordem do dia quando o propósito é sondar o traçado cotidiano das nossas vidas em suspensão. O autor é hábil nos arremates, engendra meticulosamente a arquitetura de seus personagens e os faz produtos do meio em que vivem ou vice-versa. Seu estilo de narrar abarca diálogos certeiros, ágeis e que recorrentemente mostram-se provocantes.

O momento atual desse escritor baiano nos leva ao seu romance “Riviera” (Ed. Mondrongo, 2020), livro que apresenta uma ótica muito peculiar quando o tema é o amor. Longe dos ardis tradicionais do assunto, Rodrigo movimenta seus personagens dentro de um contexto que sabe a idealizações, devaneios e a crueza dos dias mundanos. Tudo isso somado a sacadas inteligentes e a recursos narrativos dotados de simplicidade no manejo da linguagem.

Trazendo em sua bagagem obras como “O Sangue que corre nas veias” (Ed. Mondrongo, contos, 2013), “Jogando dardos sem mirar o alvo” (Ed. Mondrongo, contos, 2016), dentre outros livros e participações em antologias, Rodrigo Melo concede uma nova entrevista para a Diversos Afins. Desta feita, além de mencionar os trajetos que o levaram ao seu novo livro, o autor dividiu conosco suas impressões sobre o fazer literário, refletindo especialmente acerca da contemporaneidade, esse estado de coisas que tanto nos tem tirado do sério.

 

Foto: arquivo pessoal

 

DA – “Riviera” é um livro que transita pelas paisagens urbanas tendo como mote os atravessamentos da paixão. Nesse sentido, Michel Rodrigues, o protagonista, é aquele que busca por alguém na sua construção própria sobre o amor. Com tanta dispersão e desencontros a que estamos submetidos na contemporaneidade, o que resta para a literatura quando o desafio é falar desse desejo pelo outro?

RODRIGO MELO – Acho que o amor sempre foi uma fonte generosa para a literatura, e continuará a ser, mesmo nesses tempos tão puxados, porque ele simplesmente precisa existir. Amar é se movimentar. Em Riviera, ele também está lá: um tanto inocente, mas também derramado, exagerado e sofrido como nas velhas canções. Porque a história pedia que fosse assim. Quando o protagonista abandona toda a sua antiga vida e parte, feito num jogo de azar, para o Rio de Janeiro em busca de sua amada, ele está apenas fazendo a roda girar. Há quem acorde todos os dias por causa de dinheiro, outros por poder. Michel Rodrigues sentia amor ou qualquer coisa parecida com isso. E foi esse sentimento, universal e atemporal, que o fez deixar tudo para trás.

 

DA – O Rio de Janeiro é essa cidade evocada em canções, misto de “maravilhosa” com o tal “purgatório da beleza e do caos”. E você tem uma trajetória pessoal de vivência na metrópole confusa e difusa. Em que medida foi importante ter a cidade como pano de fundo para o livro?

RODRIGO MELO – Mais que importante, foi necessário. Não conseguiria escrever sobre algo que não conheço e que, consequentemente, não me alcança. Foi Kurt Vonnegut quem disse que é preciso falar do próprio umbigo, porque ninguém mais o fará, e ele tinha razão. Fazer literatura talvez seja, por vezes, simplesmente mostrar o nosso prisma dos acontecimentos e das coisas. Claro, tem que se buscar o lirismo, a propriedade, mas falando sobre o mundo ao nosso redor. Eu morava no Rio quando nasceu a ideia de escrever essa história, e desde o início ela tinha a energia da cidade, de tudo o que eu pensava, sentia e fazia diariamente. Fui corretor em uma imobiliária na Zona Sul e também trabalhei em uma empresa de caminhões munck, lá em Ramos, como o personagem, e, embora uma boa parte do que está no livro tenha sido inventada, foram essas experiências reais que deram a base para que eu pudesse escrever todo o resto. A cidade como fundo e, ao mesmo tempo, como mais um personagem.

 

DA – De certa forma, a luta pela sobrevivência também é um tema presente no seu romance. E Michel Rodrigues personifica isso na odisseia que empreende pela cidade, quando precisa ter condições financeiras de continuar sua jornada pessoal. Entre o sonho e a realidade, paga-se um preço para poder suportar humilhações e outros fardos. Como pensar essa questão dos cenários de exploração em que a própria condição humana é precarizada?

RODRIGO MELO – Faz um bom tempo que o homem circula por aí, centenas, milhares de anos, a subjugar o próprio homem. Quem tem grana e poder segue aumentando essa grana e esse poder, e quem não tem segue enxergando pouquíssimas chances de sair de sua situação. Há diferenças mais que gritantes entre determinadas vidas e dessas diferenças é que brotam as explorações. Uns dizem que sempre foi assim, outros dizem que todos passam pelas mesmas atribulações. A verdade, no entanto, é que entre uma quadra e outra há alguém morrendo de fome e alguém ostentando um carro de meio milhão. Lembro de ler Germinal, de Zola, e ficar impactado com a forma de trabalho que aquelas pessoas eram obrigadas a encarar. Aquilo não era viver, apenas sobreviver. A literatura tem essa força, ela nos puxa sem cerimônia e nos faz pensar nas coisas que passam despercebidas porque, de uma forma ou de outra, não fazem parte do nosso dia a dia. Os vendedores de balas no sinal, as prostitutas nas esquinas, os guardadores de carro, os moleques que fazem avião, sempre foram esses os personagens do meu Germinal. Assim como Michel Rodrigues, que vive entre o feijão e o sonho, a necessidade de comer e de continuar a sonhar. Como muitos, ele descobre da pior forma que às vezes é melhor depender do acaso do que da justiça ou da benevolência dos homens.

 

DA – O mundo é um lugar cada vez mais distópico?

RODRIGO MELO – Parece que sim. Não que caminhemos para a distopia, porque já estamos nela há bastante tempo. Entre o céu e o inferno, entre a evolução e a perpetuação dos defeitos, seguimos alimentando os defeitos. É mais fácil e cômodo, pelo menos para quem não passa apertos. Os escolhidos para cuidar dos outros, os eleitos, acabam por cuidar de si mesmos e daqueles que lhes compram a alma, e dessa forma vivemos em uma espécie de looping em que os mais favorecidos ampliam seus domínios e os menos favorecidos são apartados do rebanho e vistos como não merecedores. A banalização das diferenças. A aceitação de que tudo sempre caminhou dessa mesma maneira. Porque toda luta, em essência, é em causa própria, mas poucos têm armas para lutar. Bendito seja o dia em que se descortine a verdade de que todos que nascem têm direito a tudo o que o planeta dá. Bendito seja o dia em que os eleitos, quem quer que sejam, passem a ser mais cobrados do que idolatrados. Mas hoje, analisando o que acontece com o mundo, e sobretudo com o nosso país, a constatação é de que as coisas evoluem muito mais rápido que as pessoas. Os carros têm computadores de bordo, os elevadores são mais rápidos, os celulares servem para tudo, mas ainda se vende um copo de água, ainda se morre de doença ou de fome, os corredores dos hospitais lotados, os desabamentos nos morros. A distopia, antes de ser algo para o qual precisamos nos preparar, é, por fim, a injusta realidade ao nosso redor. E um coro de gente a afirmar que a vida é mesmo assim.

 

DA – Você é daqueles que depositam fé na humanidade?

RODRIGO MELO – Deposito muita fé, porque estou no meio dessa humanidade. Talvez seja uma obrigação acreditar nela. Há muito perigo, mas ao mesmo tempo também há muito encanto nas pessoas, sobretudo quando se mostram verdadeiramente, e é bem possível que venha daí a nossa salvação. O pão que se faz pela vigésima vez é melhor do que aquele feito na primeira vez, pois o destino de tudo é melhorar. Vive-se, sonha-se, sofre-se, aprende-se – se tivermos sorte. Não é raro escutar alguém dizer que hoje há mais violência, mais injustiças, mais diferenças e separações. Por meu lado, penso que há menos, mas tudo tem ficado, aos poucos, mais à vista, mais à tona, e isso nos traz essa sensação de que o mundo nunca foi tão ruim. Ele sempre foi muito parecido com o que é hoje, posto que o ser humano mudou muito pouco, mas consigo mesmo enxergar uma caminhada rumo a uma evolução, ao bem comum, a uma chamada de consciência maior. Ainda há casos de pedofilia? Sim, centenas. Ainda se mata em nome de Deus? Sim. Mas a transparência é maior, as cobranças são maiores, sobre quase tudo pode se colocar um foco de luz. É o que vejo. Ou, pelo menos, imagino ver.

 

Foto: arquivo pessoal

 

DA – A Literatura é motor de transformação de alguma coisa?

RODRIGO MELO – Tudo o que o mundo é tem ligação direta com a literatura, sobretudo se levarmos em conta que ela existe desde as primeiras narrativas, mesmo orais, e influenciou decisões e caminhos. Literatura, afinal, é contar histórias, passar mensagens, e essas coisas não estão apenas nos livros.   Um quadro tem a sua parte de literatura, assim como uma música ou uma peça de teatro. Por esse prisma, ela pode ser considerada uma geradora de muitas outras expressões artísticas e o seu poder de transformação passa a ser ainda maior.

 

DA – Antes de ganhar as ruas, os impressos e as redes sociais, estas últimas lugares de aplausos fáceis, os textos literários não mereceriam certa maturação e tratamento?

RODRIGO MELO – Há uma grande diferença entre textos publicados em livros daqueles compartilhados em redes sociais. O texto publicado em livro deve sempre passar pelos processos de revisão e maturação. É preciso, como se diz, dar um tratamento para que, enfim publicado, represente a sua melhor versão. Os textos compartilhados em redes sociais, por sua vez, variam de acordo com quem os compartilha. Autores com mais experiência certamente terão um cuidado maior com seus escritos. Mas há ali gente de todo jeito, movida por todo tipo de combustível, em diferentes estágios. Tem a turma do aplauso fácil, tem aqueles que, pelo pouco tempo no ofício da escrita, querem simplesmente uma resposta, e tem aqueles outros que só têm o espaço das redes sociais para se externar. E muitas vezes não é só a questão da pressa que os faz compartilhar seu material em grande quantidade, sem precaução: é a limitação das técnicas, ou das manhas, que vêm com a prática. Fazendo uma analogia, é como pegar uma porção desses novos cantores de arrocha ou de novas bandas de death metal, há centenas deles e delas por aí. Muitos produzirão e jogarão seus trabalhos no mercado sem cuidado algum. Mas, no meio de todas as tentativas, alguns vão perseverar, aprimorar suas técnicas e ser muito bons naquilo a que se propuseram fazer. O talento não vinga sem coragem, disciplina, que se torna algo automático com o tempo, e dedicação. E, claro, às vezes também com um pouco de cara de pau.

 

DA – O que podem os escritores nesses tempos de pós-verdade, fake news e guerras de narrativas?

RODRIGO MELO – Alguém disse, e agora realmente não lembro quem, que a literatura não tem dado conta da realidade. Nós ainda falamos de amores frustrados, enquanto Flor de Lis, com a ajuda de alguns filhos, mata o marido e depois vai até o enterro, encharcada de lágrimas; ainda tentamos desvendar os pecados, enquanto João de Deus estupra fiéis em seu doce charlatanismo, e padres, em um acobertamento que viola tudo o que a sua pretensa crença defende, seguem a se satisfazer e a fazer vítimas sem nunca serem responsabilizados pelo rastro de terror que deixam atrás de si; ainda escrevemos sobre a liberdade, quando grande parte do país, informada ou não, idolatra políticos e os defende como se fossem advogados de defesa, como se realmente tivessem certeza de tudo o que se passa na alma de quem leva os dias a se propagandear. Vivemos em uma espécie de anestesia coletiva, sem entender muito bem o que está acontecendo, seguindo no piloto automático, tentando nos legitimar socialmente e nos dando conta da realidade anos depois, quando nada mais pode ser feito e, o pior, quando não se pode mais voltar atrás. A literatura, bem como outras expressões artísticas, precisa estar acima disso, olhar a tudo com os olhos do distanciamento para, assim, absorver e analisar com limpidez e propriedade. E então dar conta do seu tempo. Antes de entretenimento e cultura, os livros são ainda o registro de uma época.

 

DA – Afinal, por que escrever?

RODRIGO MELO – Acho que pelo mesmo motivo que um cineasta começa a fazer os seus filmes ou um rapper a compor as suas músicas: dar seu testemunho, tentar pegar o mundo todo num ouvido só. Toda pessoa tem um recado a dar, uma análise particular da vida e das coisas, um grito, uma bronca, um louvor, e a arte é um caminho para despejar isso. O motivo de ser a literatura, especificamente, é que sempre gostei de boas histórias. Meu pai é um grande narrador e lembro de que quando viajávamos juntos, eu passava todo o tempo escutando ele falar. Isso certamente contou. Como nunca tive um leque tão grande de boas histórias, comecei a inventar algumas.

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.

 

 

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139ª Leva - 06/2020 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Alexandre Pilati

 

Desenho: Fernanda Bienhachewski

 

[O amor]

 

Eu te dei o nome do fogo
E todas as ruas se tornaram
Urgência por aquilo que inventas.
Desde então, os anjos sobre a cidade
Desatinaram enlouqueceram rebentaram.
E todo instante em meu corpo
É um cristal em febre
Que tece a marcha doce
Da luz azul que se chama amanhã
E se apossa das palavras que inexistem.
E meus olhos são essa corrente
De flores estendida entre a lua
E o pequeno coração dos pássaros.

 

 

 

***

 

 

 

[Bate outra vez]

 

ei pombos de aço
de pedra que habitam
elétricos dentro do meu peito

aquietem-se acalmem-se
esta gaiola de carne e pejo
prende-os e todavia os ama

juntos vamos ao fim do caminho:
é certo é justo eu quero e eu preciso –
sem estes arrulhos sou uma coisa sem revolta

mas não vistam tantas patas de cavalo
não cisquem não sapateiem tanto
assim as cãs do meu coração

prestem atenção neste corpo
de pinho que vem agora ao meu socorro
sintam este abraço de calma

em que me segura o violão
com que disfarço o desespero
em que me abrigo do tempo

 

 

 

***

 

 

 

[Caracol]

 

livros que li

esta casca
de peles e palavras

esta casa
de danças e dilema
que me fiz

patuá de afetos
que me protege
por dentro de mim

 

 

 

***

 

 

 

[Crescente]

 

Venha como a tatuagem
Que se faz às costas do medo
Venha como o risco da fantasia
Que nos acode na noite
Venha como o sorrir sutil
Que é estigma do segredo

Venha, deflua, passe
O mês é longo, a arte é breve
Mas, ante tudo, venha e grave
Desfaça o desespero
E nunca vá embora
De dentro do céu
Esteja nos lugares-espaço
Nos mais distantes ângulos
E no aqui afim aos cantos também

Como o amor
que nunca muda
Que nos fica escondido
Ainda que eterno
Nas carnes do miocárdio
Seja aí em cima
O pólen que as mães agitam

Abra-nos as mãos
Talhe o não e o talvez
Venha, seja em nós:
Que queremos tão pouco
Que estamos mais humanos agora
Com seu pequenino reino de luz

 

 

 

***

 

 

 

[Réquiem pequeno]

 

à janela
impassível arrepio
olho o jardim feito o vidro
os olhos
bem abertos
à bela imagem do desamparo
a flor
pétala dormente
aponta os pés para o zênite
só eu
sou capaz
de guardar essa flor aqui dentro
jardim outro
não há onde caiba
a eternidade que se eletriza no perecer
 

 

 

***

 

 

 

[Noctâmbulo]

 

a palma da mão é silenciosa e longínqua.
a paisagem dorme em nossos olhos independentemente.
não está parada a forma rígida que ampara o amargo olhar.
a paisagem é um ângulo de guinada apenas calor.

as árvores estão em fogo e não dormem jamais.
e não morrem jamais as árvores em fogo.
a palma da mão tem a agonia da ação, da febre.
o fogo enlouquece e solta sua vida.

as árvores são rochas, estátuas, de sono.
as árvores dormem dentro da paisagem e não sofrem.
a palma da mão não salvará as árvores e sofre.
as árvores queimam sonâmbulas na paisagem de fogo.

ardem, aceitam, não fogem, dormem
as árvores: sonham rigorosas com a liberdade
que sabem parir de dentro das cinzas.

a palma da mão, em sua ânsia,
é pura plástica; inútil geometria da vigília
– coisa que se queima distante do fogo.

 

Alexandre Pilati nasceu em Brasília – DF em 1976. É poeta e professor de Literatura Brasileira na Universidade de Brasília UnB. Publicou quatro livros de poemas: “sqs 120m2 com dce” (NTC, 2004); “prafóra” (7Letras, 2007); e “outros nem tanto assim” (7Letras, 2015) e “Autofonia” (Penalux, 2018).

 

 

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139ª Leva - 06/2020 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Adriano B. Espíndola Santos

 

Desenho: Fernanda Bienhachewski

 

KALIMA

 

“Acabou-se tudo! Acabou-se tudo!”. Agitou-se o fragor interno, tomando-lhe o mísero instante de lucidez, enquanto sentia tremer o chão, com os passos decididos do verdugo no seu encalço.

Já passara três dias e três noites inteiras correndo e se escondendo, sem pregar o olho, pensando em cruzar a Serra da Barriga e pôr os pés no solo sagrado, para a honra dos seus; que, a essa altura, não lhe socorria o enlevo, mas, sim, a necessidade. Iria, aí, resolver o seu destino junto dos seus.

Estava num descampado de perder de vista. Por sorte, havia alguns pés de planta, não muito frondosos, com galhos que se derramavam sobre rochas. Alojou-se e sorveu um bocado de água barrenta e velha, acumulada na pedra maior, de não se sabe quando. O problema estava propriamente em não se hidratar, pois que o seu corpo clamava e não conseguia discernir mais que isso.

Em geral, as noites pareciam amenas nos recém-findados dias. Justo nessa ocasião, o abafado lembrou-lhe do dia em que fora jogado, qual bicho – e próximo deles, dividindo o mesmo espaço de venda –, nas ruas, saindo do porão mofado para cair na boca das aflições da província; trocando um inferno por outro. Eram cinco, escorados na parede e acorrentados, confusos – sendo, em razão do porte avantajado, em menos de uma manhã, adquiridos por um senhor gordo e sério, de suíças longas, que se encontravam, na altura do pescoço, com o bigode. Diminuto nas palavras, tirano nos mandamentos. Foram testados aí, indo ao matadouro carregando seus próprios corpos.

Dos três irmãos, era o que mais sentia o peso de ser arrancado de sua terra. Todos tinham fé; Kalima, em seu íntimo, não. Às vezes, era censurado por supostamente não estar conectado aos céus. Sofria, também, por não estar impregnado desse dom natural: “Kalima, para de ser um pedaço de pano puído, sem vida; vai acabar nos sugando para a indevoção e para a morte!”.

A libertação era algo impensado. Jazia há pelo menos cinco anos em meio à lama civilizatório-putrefata chamada Brasil, do qual nunca tinha ouvido falar, nem entendia aquela língua embolada, prestes a afogar o falante de torpor; sem uma distinção ou reconhecimento pelo trabalho extenuante, passando, como podia, empapado com precário pão e água, no mais das vezes. O juízo que calhava era que, se não fosse pelos irmãos e a mãe, que trabalhavam ao seu lado, teria matado um branco e se matado em seguida.

Admirava-se de Mazi, um negro alvoroçado, submisso por medo dos graves castigos, que chorava todas as noites sentindo saudades das filhas. O lamuriar era contido, para não perturbar os da Casa Grande. Não queria contato com ninguém, por receio de provocar alvoroço. Nada mais lhe interessava na vida. Se não fosse o medo e a esperança rasa de encontrá-las, teria preparado a maior desgraça para morrer apanhando, refletia Kalima, para fugir do lugar-comum.

Sem conseguir dormir, depois de doze a quatorze horas ininterruptas de trabalho, já não aguentando mais, Kalima perdia o centro e gritava para que parasse; e Mazi, de pronto, respondia: “Você, seu desgraçado, tem sua mãe e seus irmãos; eu não tenho nada. Me deixa chorar em paz!”. Essa foi a última lembrança que sucedeu a Kalima, do negro que morreu, ainda assim, açoitado, por ter chorado e se deitado no chão enquanto deveria estar trabalhando – estava morto em vida, de tão arrebentado; essa outra morte era decência.

 

***

 

Mais uma vez, sentia na carne, pelo atrito programado que aderia e rasgava, as tiras de couro embebidas em água e sal grosso. Pregavam nas lacerações – onde se podia meter um dedo, de rasgos e mais rasgos não cicatrizados – cristais de sal, que, na voz do capitão-do-mato: “É pra se benzer e agradecer, seu verme, pra não ficar a porcaria do chorume escorrendo na terra e as varejeiras botando bicho no bicho!”.

Registrado no departamento da coroa como João de Borges – sendo Borges o seu senhor –, originalmente Kalima de batismo, lembrava-se da sorte da mãe, por ter se jogado e se liberado no abismo, depois da caçada feroz, que dizimou seus irmãos. Mãe e irmãos, agora, o seu orgulho, por não haverem se entregado. Não suportavam mais os desmandos e não o diziam, decerto, para não o desencorajar, já que era fraco na fé.

Kalima, embora aturdido de tanta pancada, vislumbrava um plano. Escondera uma pequena faca amolada do carrasco, própria para sangrar. Esperava, ansioso, o novo amanhecer.

 

Adriano B. Espíndola Santos é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro livro, o romance Flor no caos, pela Desconcertos Editora; e em 2020 o livro de contos, Contículos de dores refratárias, pela Editora Penalux. Colabora mensalmente com a Revista Samizdat. Tem textos publicados em diversas revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir – sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.

 

 

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139ª Leva - 06/2020 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

“eu me declaro marido e mulher”: a festa poética de Francisco Mallmann

 Por Vivian Pizzinga

 

 

Se eu quisesse tratar de modo lúdico minha relação com o texto poético de ‘haverá festa com o que restar’ e, por hipótese, resolvesse que uma das regras desse jogo seria a de escolher um dos versos de Francisco Mallmann que sintetizasse seu livro de capa vermelha – belíssimo, belíssima – talvez eu escolhesse este:

“eu me declaro marido e mulher, eu me declaro o que eu quiser”

Voltando passos e pandemias atrás, descobri a poesia de Francisco Mallmann em 2019, em um evento, no Rio, que a Livraria da Travessa de Botafogo, através da batuta do escritor e livreiro Leonardo Marona, promove. O “Poetas de 2 mundos”, que acontece pelo menos desde 2016 e vinha se tornado mensal antes da pandemia, reúne poetas das mais diversas regiões do país (ou seja, não apenas cariocas, nem mesmo sudestinos), no fundo da livraria, sempre às sextas à noite. Tive a sorte de ir a alguns desses encontros, onde sempre se esbarra com alguém conhecido que não se vê há tempos ou se conhece alguém com quem se interagia pelas redes sociais. O evento oferece a oportunidade de conhecermos autores e autoras e, claro, socializar. Aglomerar, essa saudade.

Foi numa dessas noites que descobri o poeta, autor curitibano nos honrando com sua visita a esta cidade que tem pouco de maravilhosa se olhada por inteiro, para além da orla e da maquiagem. Ele trouxe seu livro, ‘haverá festa com o que restar’, publicado pela Editora Urutau, em 2018, obra que foi 3º lugar na categoria Poesia do Prêmio da Biblioteca Nacional e finalista do Prêmio Rio de Literatura e do Prêmio Mix Literário. Quanto a mim, encolhida em algum daqueles degraus do fundo da livraria, onde livros e mais livros de literatura infanto-juvenil coloriam a cena, fiquei muito impressionada com alguns dos poemas que leu, e agora, depois de um ano, quando o mundo é inteiramente outro e inteiramente o mesmo, debruço-me novamente sobre a obra.

É bom que se diga: Francisco Mallmann não está parado. O poeta é “artista e pesquisador transdisciplinar” e atua, segundo informações próprias, “na interseção entre poesia, dramaturgia, artes visuais, performance e crítica de arte”, tendo estudado jornalismo e artes cênicas, além de ser mestre em filosofia pela PUC-PR.  Publicou também ‘língua pele áspera (7Letras, megamini, 2019) e AMÉRICA (Urutau, 2020). Entre outras atividades e como se não fosse pouco, Mallmann é coordenador do departamento de exposições temporárias e itinerantes do Museu do Holocausto de Curitiba.

A referência à cidade aparece em alguns dos poemas do livro: “o amor é história para se viver com pele/vá tirando os casacos”. Só quem esteve em Curitiba em janeiro e sentiu frio, usou casaco e viu muitas outras pessoas, provavelmente curitibanas, também usando, poderá compreender na pele esses versos do poema cujo nome é Curitiba.

Assim, uma leitura inicial da obra de Mallmann já evidencia que o poeta é, acima de tudo, e sem perder o lirismo, irreverente e dono de um humor característico. O que encontramos nas páginas de ‘haverá festa com o que restar’ é ousadia e muita poesia: se é que se pode dizer isso, eu insistiria que Mallmann é muito poeta. É demasiadamente poeta.

A forma como trata as questões de amor, mas também as questões políticas, ligadas à LGBTQfobia principalmente, são sempre perpassadas por essa irreverência, quando não pelo espanto, e muitas vezes por certa falta de paciência, bastante bem-vinda aliás. Senão, vejamos. Na terceira parte do livro, ‘trinta bichas vivas’, que contém apenas esse poema, o poeta nos traz uma espécie de lista variada de bichas em cenas e situações as mais diversas, algumas corriqueiras, outras inimagináveis, e cheias de precisão: “uma bicha periférica três horas de deslocamento até o centro/uma bicha prefeita fazendo coisas de prefeita sendo prefeita/uma bicha preta um turbante cores coloridas brinco grande/uma bicha religiosa ave maria meu deus minha nossa senhora/uma bicha roubando chocolates nas lojas americanas/uma bicha ruim bem maldosa bem metida bem nervosa/uma bicha pai sendo chamada de pai casada com outro pai/uma bicha eu”. Esse poema, que é uma homenagem à poeta Angélica Freitas, após nos conduzir por essa variedade de cenas, termina de modo brilhante: “dessas bichas nenhuma delas pedindo sua permissão/dessas bichas nenhuma delas pedindo sua autorização/dessas bichas nenhuma delas pedindo sua aprovação/dessas bichas nenhuma delas quer saber sua opinião”. O recado foi dado.

E Mallmann vai cultivando o exercício de nos surpreender e nos empurrar para a lembrança ou a pergunta ou a imagens muito vívidas. Eis o responsável pela minha captura: “a bicha morre, outra vez, ao som de alguma música brega, ela chora antes de ir, ela se arrepende por muita coisa, ela não se arrepende da própria vida, ela chora pelo modo como a vida foi inscrita no espaço que lhe coube (…)”. Esse, que é um dos 31 poemas da primeira parte do livro, foi um dos textos lidos naquela noite fria de junho.

A julgar pelo breve trecho acima reproduzido, se pode dizer que o livro também trata da violência. Ao fazer referência à LGBTQfobia usando o recurso da imagem e da cena, ao falar de morte, de armas e de sangue, ao falar de uma “bicha que morre” e que não há “nenhum motivo para parar o trânsito, solicitar luto, cogitar políticas, reformar sistemas, mudar mentalidades, alterar culturas”, mas também ao se referir a “trinta bichas vivas”, é de uma violência insidiosa que o poeta fala. Uma violência que é muitas vezes brutal e escancarada, outras vezes se dá de forma um pouco camuflada. E Mallmann trata dessa violência multifacetada por caminhos impregnados de um lirismo impactante, desses que capturam o olho que lê, e que fazem com que esse olhar não possa se dirigir a outro campo que não o da página, o dos versos recém-lidos. Ler um desses poemas significa estatelar-se no verso e dali não sair: “a bicha morre e alguém diz que pena elas são tão divertidas”. E finaliza: “a bicha morre e só dá pena medo e nojo, a bicha se morresse de amor ninguém saberia”. Quando, mais à frente, o poeta refere-se a trinta bichas vivas, não é à toa que não fala meramente de trinta bichas, mas trinta bichas vivas: é de vida e de morte que se está tratando, é de uma violência que não tem sido digna de luto.

Sobre a estrutura do livro, trata-se de uma publicação concisa (101 páginas), com oito partes, em que cinco delas só têm um poema cada. A primeira parte do livro, ‘a história de amor’, tem uma quantidade maior de poemas curtinhos, e a segunda, ‘se trocássemos nossas feridas’, conta com dez poemas mais longos. Vamos a um deles.

O poema começa dizendo “eu devo ser um ser do meu tempo/acho que sim/eu provavelmente já compartilhei/mentiras na timeline já chorei na timeline/eu faço meu próprio pão/uma receita que aprendi na televisão/eu digo tudo vai mal e curto/a fotografia do perfil/de alguém que quero beijar” e continua iniciando todas as estrofes com o verso “eu devo ser um ser do meu tempo” (com exceção das que estão entre parênteses). Acompanhar esse passeio poético sobre as imagens e o que está envolvido no fato de ser um ser de seu tempo (reflexão que sobrevoa gestos e hábitos) pode nos levar a algumas indagações: desses gestos, desses feitos, desses lances, o que faço e o que já fiz?, e em que medida então sou um ser do meu tempo por tê-los feito? Ser-um-ser de seu tempo evoca quais imagens, corresponde a que palavras? Mais à frente, encontramos: “eu devo ser um ser do meu tempo pois/eu leio as previsões das eleições as previsões/do futuro as previsões de 2020”. A pandemia que ora nos ocupa torna esse verso curioso, e também o fato de, já em 2020, após as eleições, vivermos agora aquilo que foi previsto (ou não).

Os nomes das partes nas quais o livro se divide parecem versos por si sós. A quarta parte chama-se “o que faremos com ele” e é seguida pela quinta, ‘cartografia do desaparecimento’, composta de 9 poemas. Há ainda a sexta parte, “sem chaves de casa”, a sétima, “dramaturgia do mundo” e a oitava, “depois do fim”, nome adequado a tempos de pandemia (impossível não fazer referências constantes à crise humanitária que vivemos – eu, Mallmann, você, todo mundo – é tudo o que restou e não sei se dá em festa).

O livro de Francisco Mallmann é, enfim, inesgotável. E, entre o lirismo, a crítica inteligente e a saudade sem solução, encontramos algumas joias, como: “o combinado era mil dias sem reclamação e o plano consistia em anotar os sinônimos do amor”. Quais seriam esses sinônimos? Encontramos também: “eu gostaria de dizer que todas as coisas que me doem já tiveram ou vão ter o desenho do teu rosto”. E imagens incríveis, que atravessam os poemas, como esta: “desculpe por calçar os sapatos quando havia correntes de água invadindo o quarto”. Sim, esse parece um pedido de desculpas necessário para um gesto leviano (ou desesperado) e ler esse verso me captura novamente em uma pausa em que só vejo pés, tênis, cadarços e água corrente, e nenhuma pegada.

Por fim, nunca é demais lembrar (à guisa de me desculpar) o quão difícil é escrever sobre uma obra (literária, poética) quando ela tem muitas qualidades: não só não estamos à altura, como não é fácil a tarefa de selecionar o que gostaríamos de enfatizar. Fica faltando coisa à beça, mas a recomendação ‘leiam Francisco Mallmann’ não poderia faltar. E lanço mão da poética do autor para a minha própria conclusão, escolhendo outra parte do poema que emprestou um de seus versos à abertura da resenha. O verso diz:

“queria ter acordado e escrito um bilhetinho dizendo: já não estou aqui, não me procure, fui ruminar o rancor no exterior”.

 

Vivian Pizzinga é psicóloga e escreve. Na escrita, lançou Dias Roucos e Vontades Absurdas (contos, 2013), A primavera entra pelos pés (contos, 2015) e um romance epistolar com Igor Dias, Extravios (2018), todas pela Editora Oito e meio. Na psicologia, atua na clínica psicanalítica e com saúde do trabalhador, e tem mestrado e doutorado em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social (IMS/UERJ).