meu corpo-mundo é conquista diária,
ponte entre a natureza e o caos:
desejo-essência-sofrimento-luta.
[resistência]
moro em cada corte do caminho:
no meu ventre, nos meus seios,
no meu assoalho pélvico,
nas minhas entranhas, na minha voz.
meu corpo, cartografia de quereres,
é um mapa,
paisagem milimetricamente desenhada,
cicatrizes que dão a exata direção:
rios e montanhas e
mares e oceanos e
planícies verdejantes e
areias quentes e
vales profundos para sempre tatuados por um bisturi,
para estancar minha dor
[não estancou].
meu corpo-cartográfico hoje é pele suada por seus sais,
palmilhado por suas mãos generosas, calmas.
corpo demarcado por seus beijos e
guarnecido por suas palavras macias, amáveis.
[corpo-multidão].
***
Roupa sem corpo
[ou releitura]
hoje,
o melhor corpo para minha roupa
é aquele descoberto
das exigências
que o tempo traz.
***
Roupas velhas
minha dor são flores descoloridas
[do meu jardim]
que duram o tempo necessário
[saturação]
parto e permaneço aconchegada a mim
meu corpo, pedra áspera
à mercê das águas da cachoeira
[espera]
equilíbrio e falta,
estar e não-estar
sou pedaços de roupas velhas
cerzidas pelas agulhas do tempo
vejo todas as veias pulsando
na imensidão do meu corpo:
[pulso-sangue]
[mundo-pulsa]
vivo na emboscada da vida
minhas mãos envelhecem
à medida da minha dor
meu corpo é dor e desejo,
viço e cansaço
[grito]
na feitura do meu poema,
desfaço nós,
construo espaços
e atravesso sombras
[enxergo]
***
Amor
sei que é possível transcender pequenezas
transcendo o azul-griverdoso dos seus olhos baços
e sigo
[lutando]
a vida é mais que existência
a vida, meu amor,
é resistência.
***
Espaços
quando começo a pensar no espaço que ocupo,
penso nas palavras
e folhas em branco
meu espaço então se torna habitado,
porque o azul do infinito sobre ele
o preenche de riscos
que se entrecruzam
e formam palavras
se as palavras fazem sentido?
não sei, arrisco
aprendi a inventar mundos
e a ocupar espaços
com a tinta da imaginação
e o borrão da memória
nada mais.
***
Istmo
ela trazia o azul do mar
na vastidão da alma
[corpo]
e as montanhas,
entre o istmo e o coração
[sentido]
curiosa, escalava
incessantemente a vida
na tentativa de encontrar
o sol.
[liberdade]
Helena Arruda nasceu em Petrópolis, RJ. É mestra e doutora em Literatura Brasileira (UFRJ). Poeta, contista, ensaísta, é autora dos livros “Interditos” – poemas (2014); “Mulheres na ficção brasileira” – ensaios (2016), ambos pela Editora Batel; “Corpos-sentidos” (2020), Editora Patuá; “Há uma flor no abismo” (poemas) e “Mulheres de A à Z” (contos), com lançamentos previstos para 2021. Suas publicações mais recentes constam do livro de ensaios, “Ficção e travessias: uma coletânea sobre a obra de Godofredo de Oliveira Neto” (7Letras, 2019), do livro de poemas antifascistas, “Ato Poético” (Oficina Raquel, 2020) e da antologia “Ruínas” (Patuá, 2020).
Eis a vida, palco de universos e sentidos, em seu transcurso tácito. Vê-la desfiar seus instantes, capturando as substâncias dos entreatos, é algo que também nos cabe. Na adição dos tempos, somos os corpos que recepcionam e guardam os sintomas da existência. Corpos que evocam linguagens, sinalizam caminhos e se deslocam no contorno das intermitências mundanas.
Logo se vê que estar no mundo nos impõe o passo adiante, qual seja o de irmos além da fisicalidade das coisas. No roteiro imaterial da jornada, somos escritura viva dos sentimentos e mistérios guarnecidos sob nossas peles. E a arte pode ser o elo entre as dimensões intimistas e o todo circundante, bem sabemos.
Uma obra pode comunicar mais do que apressadamente supomos. Em sua capacidade de canalizar experiências e transpô-las para os mais distintos suportes visuais, o artista é condutor de rotas ante nossos olhares carregados de anseios. Nesse sentido, talvez esperemos dele que nos estimule o gosto pelos atravessamentos, pelos temas que nos tirem da passividade, propondo-nos o caminhar autônomo e desacomodado sobre os cenários apresentados.
A representação do corpo através da arte cruza os tempos e vem eivada de simbolismos dos mais diversos. E há quem traga em seu ofício um olhar marcado pelos apelos sobretudo poéticos, fazendo com que um conjunto de subjetividades se torne protagonista. Aqui chamo a atenção para o trabalho de Fernanda Bienhachewski, que faz de seu enleio artístico também um acesso para a expressão de narrativas humanas.
Desenho: Fernanda Bienhachewski
Devo ressaltar que há nos desenhos de Fernanda uma construção especial de pontes com o mundo através da exposição do corpo feminino. E este corpo é como um instrumento de diálogos sensíveis entre a natureza, o cosmo e o humano. Nessa confluência de eixos, a mulher é protagonista num cenário que sabe a mistérios, desejos e inquietudes, mas que também leva em conta a profundidade dos sonhos, sejam eles quais forem.
Ligada desde a infância às artes visuais e à literatura, Fernanda Bienhachewski tem seu trabalho também marcado por temas como o cotidiano, relacionamentos e questões existenciais. Estas últimas, diga-se de passagem, conferem à obra da artista certo tom filosófico, momento em que seus desenhos flertam com indagações da ordem do humano, envolvendo processos de consciência e busca pela compreensão do ser/estar nesse nosso vasto mundo que é, por natureza, repleto de dúvidas.
Graduada em Ciências Sociais pela PUC, e também especializada em Gestão Cultural, Fernanda vem atuando como produtora cultural ao passo que trilha a sua carreira nas artes visuais. Concentrando-se especialmente em técnicas a partir do nanquim e da aquarela, a artista vai tecendo múltiplos contextos para as criações. Seu retratar de corpos também revela as projeções de mundos imaginados, ampliando a noção de um limiar tênue entre o vivido e o inventado. E ficamos assim, marcados pela substância intangível das sensações ao mesmo tempo em que aquilo que nominamos como o real bate sorrateiramente à nossa porta.
Desenho: Fernanda Bienhachewski
* Os desenhos de Fernanda Bienhachewski são parte integrante da galeria e dos textos da 139ª Leva
Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.
Consta que Meu Nome é Bagdá é o segundo longa da jovem diretora Caru Alves de Souza (o primeiro, De Menor, foi filmado em 2013). Mesmo assim, este longa de 2020 tem a energia impactante e renovada de uma obra de estreia. Foi apresentado no Festival de Berlim deste ano e ganhou o prêmio de Júri da Mostra Generation, que traz obras que enfocam a juventude. Na Berlinale, o filme foi aclamado pelo público. A diretora é filha da renomada cineasta Tata Amaral, e mãe e filha são sócias da produtora Tangerina.
Meu Nome é Bagdá conta a história de uma moça de 16 anos, de apelido Bagdá (vivida por Grace Orsato), que é skatista e vive na Freguesia do Ó, bairro de São Paulo, com sua mãe (interpretada pela cantora e atriz Karina Buhr) e duas irmãs mais jovens. A formação exclusivamente feminina da família é marcada logo nas primeiras cenas que retratam uma conversa familiar amistosa enquanto a mãe troca de roupa para sair. Apesar da simplicidade da vida doméstica periférica, o clima é de completude, no qual a necessidade econômica não parece intimidar.
Fora desse lar feminino, no entanto, Bagdá se relaciona com jovens rapazes, a maioria ainda adolescente, que também são skatistas. O skate é não apenas a maior diversão desses jovens (além do consumo eventual de maconha), mas também um modo de linguagem que se expressa na fala, na vestimenta e na relação social da “tribo”. Esse modo uniformiza os jovens em termos de visual e gestual, e a princípio também em termos de sexualidade. Na tribo, a solidariedade horizontal se sobrepõe a diferenças de sexo, gênero e cor. Há também a relação territorial com o bairro, que é um dos móveis do filme.
Há apenas um fino fio narrativo, sutil, a ligar cenas que variam nas manobras de skate e na música de rock punk, pop ou rap, ou nas conversas pontuadas pela gíria local, num quase dialeto. Bagdá, cujo nome de batismo é Tatiana, se integra à sua tribo e à solidariedade entre os pares por um apagamento, a princípio voluntário, de seu gênero. Na ausência de grandes conflitos e dramas, a história e a câmera giram em torno da ambivalência de gênero de Bagdá, que assume um modo de viver sua sexualidade emergente pela indecidibilidade.
Grace Orsato na pele de Bagdá / Foto: divulgação
Na verdade, é esta indecidibilidade de gênero que a obra procura sustentar. Numa das primeiras cenas dramáticas, uma “dura” de policiais militares sobre os adolescentes, com a constante achacação e com o exercício de terror, a jovem é questionada sobre sua sexualidade e responde apenas que “é de menor”, título aliás do primeiro longa da diretora. Essa resposta também sugere que a obra adota um enquadramento temático de “filme de passagem”, de “coming at age”, da perda de inocência com a transição da imaturidade para a maturidade.
A cena mais dramática do filme, no entanto, é a reemergência da questão do gênero vinda não como repressão de Estado, mas do próprio interior das relações de grupo, ou ainda da família. Primeiro com o afloramento de certo “ciúme” em relação à sexualidade mais ostensivamente feminina de sua irmã; em seguida, pelo desvelamento do machismo cortando violentamente a solidariedade horizontal tribal entre os jovens. Esse corte propicia o ressurgimento de outra solidariedade, enquanto sororidade entre as “manas”, já não mais simplesmente localizada no território, mas distribuída pela cidade. É essa relação entre territorialidade (do bairro ou da “freguesia”) e desterritorialidade (da sororidade enquanto solidariedade de gênero) que representa outro eixo formal da obra.
A tênue teia narrativa, criada em torno de conflitos específicos, é o fio de eventos que liga o filme à principal rede de imagens na qual se insere. Meu Nome é Bagdá oscila entre o filme de registro, documental, e o filme de ficção e faz parte de uma recente produção cinematográfica brasileira que procura construir uma estética que mal poderíamos chamar de realista; termo talvez melhor seria hiperrealista. O filme estabelece um diálogo com os filmes da cidade mineira de Contagem, como os exemplos de obras como Ela volta na quinta, Temporada ou No coração do mundo, da produtora Filmes de Plástico. Ou com o pungente Arábia, cujo título equívoco ressoa com o nome Bagdá. Podemos dizer que todas essas obras são filmes de registro que apagam a distinção entre filme ficcional e filme documental. Essas obras traçam uma fronteira não entre ficção e não ficção, mas criam outra distinção entre filme e contexto. O filme se transforma numa película digital de imagens que absorve os elementos significantes de seu contexto espaço-temporal (cronotópico). Esse contexto é o da sociedade brasileira periférica (das “quebradas”) dos trabalhadores informais e precários contemporâneos. Trata-se, portanto, de registro e não de representação, de absorção ou de permeabilidade aos signos concretos da vida urbana periférica e não de seu reflexo.
O filme é a forma que emerge a partir da seleção de elementos de um meio de concretude vivencial, como se fosse um filtro desse meio. No entanto, a distinção entre ficção e não ficção não desaparece, mas reentra para o interior do filme e passa a ser um dos elementos da montagem cinematográfica. Isso está claro na escolha de todas essas obras (incluindo as de Contagem) por não atores (ou atores locais) e pela escolha de um território contextual na qual o filme se imbrica enquanto mapa cinematográfico, no caso, da Freguesia do Ó. A narrativa do filme não apenas registra o cotidiano dos skatistas do lugar, mas os liga numa semiose temporal com a reminiscência da cena punk da periferia, eternizada na canção popular de Gilberto Gil.
Foto: divulgação
O jogo entre ficção e não ficção faz parte do roteiro. Esse jogo desmonta alguns dos momentos mais tensos do filme, por exemplo, na cena do ataque homofóbico no campo de futebol. Logo em seguida, esse momento dramático é desconstruído pelos esquetes que “quebram” a tensão do registro supostamente realista, criando um distanciamento quase brechtiano. Já no passeio de ônibus metropolitano até o Centro da capital (sua parte “rica”), é a total indistinção entre a ficção e não ficção que se torna um elemento da montagem cênica. A viagem de ônibus é e não é “real”. Finalmente, nas cenas dos jovens praticando skate nas rampas da Freguesia, ou nas ruas da cidade, ao som de rock, o registro videoclipado indica uma estética audiovisual natural, que, por fazer parte da formação desses mesmos jovens, não é menos “realista” do que as manobras arriscadas sobre suas pranchas de rodas. Todas se incluem no modo de vida que é próprio a esses jovens ou a essa tribo, no qual a estética não é um registro exterior.
O saldo do filme é francamente positivo ou otimista. Num momento tão absolutamente pessimista da vida nacional, no qual a cultura vem sendo sistematicamente atacada, quando não destruída, o filme de Caru Alves de Souza é uma brisa fresca de utopia. A cultura enquanto seiva vital flui através de Meu nome é Bagdá. A conclusão não é que os jovens devem, para alcançar a maioridade, se adaptar às regras do jogo, seja do Estado (ou pior, do Mercado) quanto do sexo (ou do gênero). Nesse aspecto não há diferenças gritantes entre as escolhas dos adultos da história e as dos adolescentes. A obra na verdade relativiza as fronteiras que a sociedade tenta impor, através da lei ou dos códigos de moralidade. Ao desconstruir tais distinções, a obra de Caru mostra que a ação fortificada pelas solidariedades horizontais, de gênero ou de afinidade, é um empoderamento que não está para lá, mas para cá de Bagdá.
Guilherme Preger é natural do Rio de Janeiro, engenheiro e escritor. Autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Oito e Meio/2014). É organizador do Clube da Leitura, principal coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro e foi organizador de suas quatro coletâneas de contos. Atualmente é doutorando de Teoria Literária pela UERJ com a tese Fábulas da Ciência. É colaborador do site de produção poética Caneta Lente e Pincel. Escreveu sobre cinema para o site Ambrosia.
O solo que pisamos abriga um verdadeiro inventário de memórias. E cada território contém em si as marcações do humano nas suas mais variadas intervenções. Cada povo impregnou seu lugar com o resultado de suas ações, com o dinamismo de vivências segundo gestos e costumes que lhes são peculiares. Tudo está atravessado pela fonte que emana da história, esta senhora que é modulada pelos mais difusos papeis dos seres viventes, sejam eles racionais ou não.
E eis que pensar a história é, sobremaneira, também perceber os ecos da ancestralidade. No sereno exercício de tentarmos mentalizar quem primeiro andou por nossa terra mãe, talvez vislumbremos muito mais do que formas imaginadas ou habituais e possamos sentir o quanto trajetórias e existências traçaram o espírito fundante dos lugares sobre os quais hoje nos apossamos ou simplesmente transitamos. Diante das profundezas dessa reflexão, será que conseguimos visualizar quem realmente nos antecedeu?
O esforço adequado que devemos aqui fazer não é o de uma mera sucessão genealógica dos nossos antecessores diretos, tendo em vista a constatação de que muito provavelmente isso nos afasta de compreender o quão distantes estamos de reconhecer quem primeiro esteve nesse locus chamado Brasil. Para bons entendedores, não fica difícil desconfiar prontamente que tratamos aqui de refletir a respeito dos povos originários. Sendo assim, o passo seguinte contrasta com qualquer ideia romantizada do tema, impele-nos a nos questionarmos sobre qual é o nosso papel em meio a um secular processo de apagamento de tais figuras humanas.
Quiçá a arte possa, de alguma maneira, não nos fazer perder de vista o elo que nos leva a um passado que condena resultados desprezíveis do processo civilizatório imposto por aqueles que sempre edificaram, a duras penas, a sua exterminadora hegemonia. No bojo da causa genocida, o homem, ao dizimar um expressivo contingente de vidas humanas, é, em grande instância, predador de si próprio. Sim, mas e o que o front artístico é capaz de fazer por causas tão devastadoras quanto esta?
Foto: Ricardo Stuckert
A pergunta grita. A resposta, eis que ela pode vir também pelas lentes de alguém como Ricardo Stuckert, fotógrafo que dedica uma porção especial de seu ofício a registrar a viva expressão de povos indígenas brasileiros. Dentro dessa temática, Ricardo abraça a ideia de que tais grupos humanos não são um agrupamento homogêneo de seres humanos tradicionalmente colocados no fosso comum e preguiçoso dos estigmas. Pelo contrário, quer demonstrar imageticamente como existem vários mundos dentro das mais diferentes culturas indígenas.
Engana-se quem possa achar que o artista percorre tais delicados caminhos de nossas humanidades sem que sua vivência esteja profundamente associada a assuntos que nos são deveras caros. Em sua trajetória, ele acumula saberes e sabores no campo social, político e cultural do país, tendo sido fotógrafo oficial da Presidência da República entre os anos de 2003 e 2011, durante os governos do ex-presidente Lula, cuja experiência lhe proporcionou a cobertura de importantes acontecimentos da vida pública do Brasil. Some-se a isso também o fato de que ele assina a direção de fotografia de um dos mais emblemáticos filmes de nossa cinematografia, o premiado documentário “Democracia em Vertigem”, da diretora Petra Costa, aclamado internacionalmente e indicado ao Oscar 2020.
Feito esse pequeno parêntese, o que importa é tentarmos observar modestamente como Ricardo constrói seus olhares em torno de diferentes povos indígenas que habitam nossa continental nação. Desde seu primeiro contato com os índios Yanomami, em 1997, quando trabalhava na revista Veja, muitos outros percursos mais viriam a ser feitos nesse universo de matizes étnicas e culturais. De lá para cá, seu olhar testemunhou parte da rotina dos indígenas em diversos estados brasileiros, tais como Acre, Amazonas, Bahia, Mato Grosso, Goiás, Amapá e Alagoas.
Foto: Ricardo Stuckert
O resultado dessa abrangente incursão pela diversidade indígena brasileira assume contornos poéticos, pois é capaz de promover olhares sensíveis e atentos às expressões observadas, vê-las desfilar suas espontâneas aparições. Mais do que rotinas e todo um conjunto de manifestações características de tais povos, Ricardo Stuckert traz até nós a vivacidade dos personagens retratados em seu enleio. Assim, gestos, rostos, atos e ritos abarcam um painel de sensações que nos mostram a principal riqueza que atravessa tais pessoas, sua genuína dignidade. E o artista obtém verdade em seu trabalho quando suas lentes se apartam de qualquer tratamento exótico na relação com esse Outro que se afigura belo, vivo e necessário.
A curiosidade de quem se depara com tais registros também pode estar direcionada à noção de imaginar como é mergulhar nessas culturas seculares e sorver delas o valor dos instantes. Atentar para os seus silêncios e sons, para as suas práticas, ideais coletivos, gestos naturais e narrativas. Ao mesmo tempo, quando pensamos no atual contexto político brasileiro, em que experimentamos um crescente atentado à existência plena dos povos originários, notamos o quão importante é considerarmos que pelas trincheiras da Arte também é possível se falar em resistência, deixando claros os imprescindíveis ímpetos de sobrevivência de toda uma coletividade de sujeitos. E negar o direito à plenitude da existência dos indígenas é, em larga instância, endossar a barbárie.
De fato, sobra experiência para Ricardo com toda a caminhada profissional, sobretudo por sua passagem em grandes veículos jornalísticos. Afinal, são 33 anos dedicados ao labor com as imagens, sendo testemunha de momentos contundentes da história nacional brasileira. Entretanto, arrisco em dizer que depois do seu vigoroso mergulho nas múltiplas faces das gentes indígenas, tanto o fotógrafo como o homem, ainda que abrigados na mesma pessoa, não são mais os mesmos de outrora.
Foto: Ricardo Stuckert
* As fotografias de Ricardo Stuckert são parte integrante da galeria e dos textos da 138ª Leva
Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras.
Todos os poemas agora
são habitados por você
e também as montanhas,
os rios, as árvores desfolhadas
deste inverno rigoroso
e também o sol,
o fogo que arde na floresta,
as notícias tristes.
Você vem disfarçado,
então de repente você é
um livro, um animal que escapa,
um filme antigo, uma música.
Você está na palavra aparição,
na palavra afeto, na palavra gesto.
Você é este terror, esta avalanche,
esta luz, esta onipresença selvagem.
***
MAR ABERTO
Naquele dia
em que você me puxou
pelo braço
com força
para cima
eu já não respirava.
***
VISÃO
Te encontrar numa praia
de areia muito branca e mar muito azul.
Pegar os teus dois olhinhos marrons
e colocá-los num vidrinho em cima
das pedras brancas da encosta.
Ficar ali a ver o mar
e a olhar os teus dois olhinhos
e a lembrar que nem tudo
o que está posto no mundo
é para se pegar com as mãos.
***
AUTORRETRATO
Imaginas que, também aqui, no frio absurdo do museu, acompanhada do barulho excessivo das marteladas do andar debaixo, da minha total descrença no mundo, do meu coração cansado, até aqui, ou melhor, também aqui, estou a ver o autorretrato de Lucian Freud e, por qualquer semelhança boba (rugas fundas, olhar parado, cara perplexa), estou a pensar em ti. Teriam então que acabar todas as pinturas de homens tristes para acabar também isto: a lembrança de ti em lugares estapafúrdios.
***
ZEN
Para Tito Leite
A vida ligeira das moscas
ensina tanto quanto
a cerimônia do chá.
No Tibete ou aqui na cidade
de São Paulo
o mesmo calor infernal
a mesma desilusão
o mesmo trabalho pesado
(nesta tarde, desisti da poesia).
É sempre isso:
a vida, esta artimanha
eu, a mosca morta.
***
MINIMALISMO:
o cheiro da toalha que seca ao sol
o cheiro do sol
o sol.
***
VISTA (II)
É preciso ver um ponto à frente
seguir
seguir
seguir
como um camelo
esperançoso
no deserto.
Michaela v. Schmaedel (1976) é jornalista de cultura, nasceu e mora em São Paulo. Nos últimos anos, tem se dedicado à poesia, além de escrever resenhas sobre literatura para jornais e revistas. Cursou o Clipe (Curso Livre de Preparação do Escritor), na Casa das Rosas, e oficinas de poesia com Angélica Freitas, Tarso de Melo, Ismar Tirelli Neto, entre outros poetas brasileiros. “Coração Cansado”, lançado pela editora Penalux em junho de 2020, é seu primeiro livro de poemas.
Papear com ele com a cabeça em seu ombro no quarto escuro. Jogar pega-varetas com ele, botão, dominó no chão do quarto, enquanto minha mãe chorava pelo draminha da tela ou sei lá por quê. Chovesse lá fora à noite e eu tinindo de febre e ele me empurrando limão quente com mel e alho. Nada disso eu vi. Devia ser um tigre e não se assustaria com qualquer gripe. Veio um tio de longe uma vez, irmão dele, ver minha mãe e me ver; trazer um dinheiro pra folgar as despesas. Não sei, não sei, era o que ele falava. A testa apoiada nas mãos juntas, como se rezasse. Não posso falar pela cabeça dele – ele dizia –; o que posso é vir aqui às vezes, trazer uma ajuda e passar o olho no menino.
Aquela droga de sábado de competições no colégio. Todo ano a legião de barrigudos atrás da bola, saltando, correndo pra vomitar no banheiro da quadra. Menos o meu. Nada disso eu vi. Até os 10 anos eu sofria a semana inteira antes do Sábado do Papai. Minha mãe corria dias antes até a diretoria; não sei pra quê. Uma professora tentou aliviar as coisas pra mim. O pai dele nunca participa porque trabalha viajando, viaja muito, crianças. Uma mentira que salvasse meu couro pra sempre.
Mas o que importava mesmo era na classe, ali na conversinha paralela. Quando no recreio o assunto era o sábado de competições, eu ia olhar as plantas, ou me encostava nas rodas de figurinhas. Eu morria uma vez por dia, cada dia da Semana do Papai, até que o sábado passasse e os meninos com pai e sem pai voltassem a ser uma coisa só.
Dividendo, divisor, quociente e resto. Minha mãe não entendia bulhufas de contas. Ele devia manjar disso e até me daria uma força na interpretação de textos. Mas nada disso eu vi.
Eu e seu pai lá na roça, quando a gente era pequeno, a gente armava arapuca e alçapão pra pegar passarinho. Aquele meu tio irmão dele chegou uma vez já contando isso com uma gaiola na mão. O azulão morreu em dois dias. Acho que minha mãe o envenenou.
Abrir no chão da sala na sexta à noite os pacotinhos de chumbada e anzol, colocar linha nas varas, cortar isca pra sábado bem cedo a gente ir pescar na Lagoa dos Patos, bem ali no bairro. Passar de volta antes do meio-dia com a cordinha de traíra e acará. Eu e ele desfilando na frente dos prédios. Mas nada disso eu vi.
A gente bem que podia se rivalizar entre Zorro e Lone Ranger, ou entre Silver e Escoteiro, mas eu almoçava com o prato no colo vendo Zorro e de noite – antes de descer as pálpebras – não dava pra recontar o episódio no vazio, pra ninguém.
Lá em meus 4, 5 anos, minha mãe tinha que responder nervosa e sem graça a tudo que eu quisesse saber dele. Agora tá perto de ele voltar, mãe? Quando não aguentou mais, ela escondeu um porta-retrato em que ele me segurava no colo ainda de fraldas. E assim ela me explicou tudo sem abrir a boca. O resto foi silêncio e choro.
Dênisson Padilha Filho (1971) é escritor e roteirista de audiovisual. É Mestre em Cultura e Sociedade pela UFBA. Recentemente lançou “Um Chevette girando no meio da tarde” (Mondrongo, 2019, contos). É autor de “Eram olhos enfeitados de Sol” (Penalux, 2017, novela), “Trilogia do asfalto” (Editora P55, 2016, contos), “O herói está de folga” (Kalango, 2014, contos), “Menelau e os homens” (Casarão do Verbo, 2012, contos e novelas), “Carmina e os vaqueiros do pequi” (2003, romance) e “Aboios celestes” (1999, contos). Participou de algumas antologias e tem textos publicados em diversas revistas literárias. Foi vencedor do Prêmio Internacional Cataratas de Contos- 2015.
Lima Trindade é rock, quadrinhos e literatura. Nascido em Brasília, viveu intensamente os anos oitenta no olho do furacão. Entre o Distrito Federal, o Rio de Janeiro e Salvador, onde mora hoje, construiu uma bagagem sólida de referências, numa triangulação de afetos que transcende a ascendência carioca-baiana. Autor dos livros Supermercado da Solidão (LGE, 2005), Corações Blues e Serpentinas (Artepaubrasil, 2007), Todo Sol mais o espírito Santo (Ateliê Editorial, 2005), Aceitaria Tudo (Mariposa Cartonera, 2015) e O retrato: um pouco de Henry James não faz mal a ninguém (P55, 2014), lançou no ano passado As margens do paraíso (Editora Cepe), romance que apresenta ao leitor um Brasil que se alimentava de sonhos, talvez ingênuos, de grandeza. Nesta entrevista, conversamos sobre influências, paixões, mercado literário e a primeira incursão de Lima Trindade no universo dos quadrinhos, na lendária revista NTC, com um conto e um roteiro inéditos, que devem ser lançados em 2021.
Foto: Marcelo Frazão
DA – Quando o Lima Trindade que sonhava em ser desenhista descobriu a literatura como modo de expressão?
LIMA TRINDADE – A expressão literária chegou tarde. Talvez o grande estímulo tenha ocorrido quando assisti ao filme “Sociedade dos poetas mortos” aos 23 anos de idade. Eu me identifiquei muito com a personagem do Ethan Hawke, um cara extremamente tímido e que se sentia deslocado em ambientes formais. Todo aquele lance do “Carpe Diem”, a mistura de Horácio com os transcendentalistas americanos e a busca por uma existência autêntica fizeram minha cabeça. De vez em quando, rabiscava umas frases sem sentido nos intervalos das aulas da faculdade. Era uma coisa quase mediúnica. Eu não censurava nada. Apenas, deixava fluir. Não havia burilamento. Escrevia nas margens do papel timbrado, nas últimas folhas dos cadernos, no lado interno das capas. Escrevia e dava por acabado, sequer voltava a ler. Havia uma amiga na sala de aula, a Rosana Garutti, que adorava pegar meus cadernos e ler esses fragmentos. Dizia que achava bonito, que eu deveria escrever poemas ou letras de música. Aconteceu, então, de eu me deparar com o livro “Walt Whitman, a formação do poeta”, do Stefan Zweig. Eu fiquei fascinado com a descrição da maneira como o grande bardo norte-americano construiu e moldou sua vida por uma perspectiva puramente artística, tendo influenciado até o Wilde. Passei a estudar e exercitar versificação, trabalhando para dominar a forma e me sentir seguro para compor um poema inteiro. No começo dos anos 90, conheci os poetas Andrei Morais e Sandro Ornelas. Juntos, lançamos um folhetim poético chamado Huguy Rupi. O Andrei se desligou do projeto quando ainda imprimíamos os primeiros exemplares, rodados na gráfica do Correio Braziliense. Eu e Sandro percorríamos os bares da Asa Sul e Norte para vender e pagar o Huguy Rupi. Era uma grande aventura. Conhecemos os mais diversos poetas nessas andanças: do marginal beatnik ao parnasiano erudito. Infelizmente, a publicação só duraria dois números. Sandro, que tinha ido a Brasília para estudar, concluiu seu curso na universidade e retornou para sua casa em Salvador. Eu não quis tocar o jornal sozinho. Por volta de 1996, reuni uma quantidade significativa de poemas meus com o objetivo de montar um livro. Durante a preparação do original, reavaliei o material cuidadosamente, percebendo, com tristeza, que ele carecia de um acento particular, que sua publicação nada acrescentaria à história da literatura. Faltava-me originalidade. Eu me expressava literariamente, mas não com a potência que eu gostaria. Desse modo, desisti de escrever versos. Havia um amigo no trabalho que insistia muito para que eu escrevesse uma história de amor vivida por ele. Eu nunca experimentara a prosa de ficção, mas resolvi atender o seu pedido. Contudo, em vez de narrar a história que ele tanto desejava, enveredei por outro caminho e escrevi o conto “A meia-sola do sapato”, inspirado num episódio real de sua infância. Esse trabalho, que era meu primeiro no gênero, me valeu uma menção honrosa no Concurso de Contos Paulo Leminski em Porto Alegre. Deu-me também disposição para experimentar novas possibilidades de narrativas e pontos de vistas.
DA – Há um momento no qual essa vocação tenha ficado perfeitamente nítida para você? Uma espécie de marco, de ponto de virada.
LIMA TRINDADE – Sim. No dia do lançamento do “Todo Sol mais o Espírito Santo”, no Rio de Janeiro. Como todo ansioso, cheguei ao evento, que aconteceria no Centro Cultural dos Correios, algumas horas antes do previsto. Estava tudo muito bonito e organizado. Eu não tinha muito o que fazer. A não ser, esperar. Desse modo, resolvi dar uma volta. Chegando na Rio Branco, encontrei a Leonardo Da Vinci, que eu sempre ouvira os amigos falarem ser uma livraria fantástica e dona de um acervo de muita qualidade. Fiquei todo animado com a possibilidade de encontrar alguns títulos e autores que não achava em Salvador. Logo na entrada, tomei um susto. Vi o meu livro exposto em destaque. Ao lado, escritores como Truman Capote, Clarice Lispector, Reinaldo Arenas, Gabriel García-Márquez, Caio Fernando Abreu etc. Foi uma emoção sem igual. Ali, eu tive a consciência de estar verdadeiramente inserido no jogo. Até então, nos lançamentos em São Paulo e Brasília, eu me sentia como se estivesse anestesiado, como se nada daquilo fosse real.
DA – Como foi a adaptação do brasiliense, que orbitava o boom do rock BR, ao universo dominado pela cultura do axé?
LIMA TRINDADE – Não houve conflito. Sou filho de baiana e carioca. Meu pai e minha mãe se separaram relativamente cedo. Quando eu tinha quatro anos de idade, meu pai foi trabalhar em Manaus, por conta das oportunidades surgidas com a zona franca. Alguns anos depois, retornou, mas os dois não se entenderam e ele partiu novamente. Nós, meu pai e eu, só fomos desenvolver maior proximidade no começo de minha adolescência. O resultado disso é que passei boa parte da minha infância sendo criado por uma mãe, avó e tia baianas. Não sei distinguir o que é brasiliense e o que é baiano em mim. Sem falar que, em matéria de cultura, nunca fui purista. Eu mergulhei no rock de minha geração, mas, ao mesmo tempo, gostava de ouvir Caymmi e Noel Rosa. Ou Villa-Lobos. O que apreciava no rock dos anos 80 era justamente sua rebeldia, sua não aceitação das regras, sua inteligência. Vim para Salvador em 2002. Eu tinha muito preconceito em relação ao axé, botava É o Tcham e Olodum no mesmo saco, entende? Ficava irritado pelo fato de as rádios de Brasília não tocarem mais músicas de rock e cederem quase todo o espaço para o “axé”. Eu sabia que se tratava de grana, que o rock tinha sido uma moda do mesmo jeito que o axé era naquele momento, mas não me conformava. Somente morando na Bahia é que fui compreender o quanto a classificação “axé” era limitada, preguiçosa e excludente. Não dá para dizer que Gerônimo, Lazzo Matumbi, Ilê Ayê, Netinho, Chiclete com Banana e Harmonia do Samba são parte de um mesmo movimento, têm as mesmas identificações estéticas e interesses artísticos. É algo absurdo. Por outro lado, eu já conhecia e admirava a produção roqueira baiana quando ainda estava em Brasília. Foi uma alegria grande conhecer pessoalmente os músicos da Brincando de Deus e da Dead Billies, por exemplo. Salvador é uma cidade muito diversa, rica de possibilidades e encantamentos. Os amigos que fiz aqui estão longe dos estereótipos de baianidade propagados pela mídia. Viver em Salvador não foi uma decisão motivada por falta de perspectivas. Foi uma eleição, uma escolha.
DA – Um aspecto marcante de sua personalidade é a aproximação com o universo dos quadrinhos e do rock. Essas referências influenciam a sua produção literária?
LIMA TRINDADE – Totalmente. Os dois gêneros decodificaram o mundo para mim e nutriram minha capacidade criativa. Por causa deles, atravessei oceanos, vivi momentos únicos na história da humanidade e me senti menos solitário. Minha sensibilidade se cunhou muito a partir das histórias que li e músicas que ouvi. Pela escrita, eu “desenho”. Assim como trabalho os sons numa frase de um conto, estabeleço certos climas para cenas e, digamos, me deixo dominar por uma estilística roqueira, uma trilha sonora interna que dá ritmo e cadência ao texto e me embala.
DA – No caso específico dos quadrinhos, tem acompanhado a produção contemporânea brasileira e baiana?
LIMA TRINDADE – Eu tento. Porém, meu método de leitura é caótico, não obedece a nenhuma cronologia. Não me preocupo em estar atualizado com os lançamentos. Meu único compromisso é com a qualidade. Quando recebo dicas de um trabalho legal, seja pela mídia especializada ou por amigos, corro atrás. Tem gente que se satisfaz com quadrinhos bem desenhados e roteiros inconsistentes. Ou o contrário, grandes textos e traços ruins. Para mim, a coisa só funciona se os dois aspectos forem bons. No Brasil, sou fã da Laerte, do Allan Alex, André Dahmer, Davi Calil, Lourenço Mutarelli e Rafael Corrêa. O Marcelo D’Salete é obrigatório. Gosto muito do Wagner William também. Já entre os baianos, o Marcelo Lima, com os roteiros, mais o Dan Borges e a Lila Cruz, com a arte, são três nomes expressivos. Há ainda iniciativas de coletâneas muito legais feito a Máquina Zero, da Quadro a Quadro, que é uma editora baiana, e a Bang Bang, da Devir, de Sampa.
Foto: Marcelo Frazão
DA – Há alguma incursão nesse universo na gaveta ou na cabeça, em roteiros para HQ, por exemplo?
LIMA TRINDADE – Recebi um convite do Allan Alex para participar de um projeto superbonito, a revista NCT, uma singela homenagem a um gênero que abrigou diversos artistas nacionais de grande talento: os quadrinhos de terror. Quem tem mais de quarenta anos talvez se lembre das revistas Spektro, Pesadelo e Calafrio, que eram vendidas em bancas, e de nomes como Flavio Colin, Julio Shimamoto, Watson Portela, Rubens Cordeiro e Mozart Couto. Para a NCT, escrevi um conto exclusivo e preparei um roteiro de 6 páginas, que está nas mãos do Dan Borges. Se tudo der certo, em 2021 a revista estará em circulação.
DA – Vivemos hoje o que alguns classificam como um pandemônio, mescla da situação política, que nos lançou em um cenário de violência e insegurança institucional, e dos efeitos devastadores da pandemia do Covid-19. Nesse contexto, sendo um escritor brasileiro, brasiliense-baiano, como avalia as perspectivas do mercado literário, no que tange à criação, produção editorial e circulação de livros?
LIMA TRINDADE – O interesse por literatura e arte, seja ela qual for, nunca deixará de existir. É vital no ser humano. Não se trata em absoluto do impacto reflexivo que ela nos proporciona, o que não seria pouco, pois isso as ciências exatas também fazem, mas sua importância se dá numa espécie de refinamento de nossas emoções, na possibilidade de oferecer uma troca de experiências e nos conectarmos com nós mesmos e com os outros num nível mais profundo. Recordemos que a humanidade já passou por desafios ainda maiores que essa pandemia. E, fosse na quebra da bolsa dos EUA em 1929, num Japão destruído do pós-guerra ou a vida num regime ditatorial no Brasil em que, para piorar, havia um índice de inflação altíssimo, as pessoas não deixaram de adquirir e ler livros, ouvir músicas, participar de exposições ou espetáculos de dança. Penso que nessas situações limites a necessidade de aproximação com o universo artístico se torna ainda mais forte. No âmbito da criação, há quem acredite, inclusive, serem esses momentos mais férteis. Quanto ao mercado editorial em si, a produção e circulação de bens adaptar-se-ão às novas realidades, sejam elas quais forem. Pode ser que a mudança do suporte físico para o virtual, no caso da literatura, avance mais. Pode ser que o crescimento se dê mais apenas na forma de aquisição, os leitores comprando livros de papel pela internet. Ou, ainda, pode ser que as consequências não sejam tão amplas e tudo volte a ser exatamente como era antes.
DA – Seu livro mais recente, “As margens do paraíso”, debruça-se sobre um país literalmente em construção. Logicamente, há vários caminhos narrativos para contar a história de Brasília. O que o fez escolher um formato não exatamente linear?
LIMA TRINDADE – A história de Brasília se confunde com a história do Brasil e se confunde também com as histórias de todas as pessoas que viveram o período. No entanto, o livro foi escrito hoje e meu objetivo ao realizá-lo não foi o de suprir lacunas históricas ou fazer sociologia. O romance traz uma realidade completa que se fecha nela mesma e se presta a múltiplas leituras e interpretações. Quando lemos o Quixote ou Hamlet pouco importa o período “real” em que a personagem vive, mas, sim, a vivência de uma gama de emoções colocadas em cena por meio de uma linguagem igualmente viva. A linearidade ou a não-linearidade tem de atender à capacidade do autor expressar melhor os problemas, questões e temas escolhidos para trabalhar. No caso do As margens do paraíso, esse “em construção” já dá uma tônica da complexidade do caminho. A linearidade isolaria e simplificaria as vidas de Leda, Rubem e Zaqueu, personagens também “em construção”, coisa que eu não desejava. Eu não quis facilitar nada para quem lê. Acredito na inteligência de meus leitores e leitoras.
DA – Como se deu a opção por três pontos de vista, em processos individuais, na composição de seu romance?
LIMA TRINDADE – Ao escolher a margem como perspectiva, eu decidi não colocar as personagens à margem, entende? E não dava para problematizar o centro acreditando em limites únicos, restringindo o seu ser e estar no mundo numa única voz. Seria contraditório. Essa era uma história que, a meu ver, um único narrador a empobreceria. As sutilezas das diferenças e aproximações dos três narradores se perderiam, a visão do todo ficaria embaçada e não duvidaríamos se o que a personagem diz é uma manipulação ou se o fato narrado acontece “verdadeiramente”.
DA – “As margens do paraíso” é um dos poucos romances contemporâneos que abordam a construção da capital federal do ponto de vista dos candangos e dos primeiros habitantes de uma cidade planejada. O que, a seu ver, provoca o desinteresse temático por esses personagens tão característicos quanto interessantes e históricos?
LIMA TRINDADE – Não sei. É algo que nunca me ocorreu. Talvez não haja desinteresse. Talvez a razão resida no fato de a cidade ser extremamente jovem e seu passado recente pareça um presente sem enigma algum a ser decifrado por quem a vive hoje. Jorge Amado retratou uma Bahia em processo de transformação, a passagem do estágio agrário para a industrialização, que poucos se detiveram com idêntica acuidade. Ou será que uma parcela grande de escritores enfrentou o tema, porém sem despertar a mesma atenção do público e alcançar os mesmos resultados literários que Jorge? É possível que haja uma literatura submersa dos candangos e primeiros habitantes da capital federal e nós não saibamos.
Kátia Borges é autora dos livros “De volta à caixa de abelhas” (As letras da Bahia, 2002), “Uma balada para Janis” (P55, 2009), “Ticket Zen” (Escrituras, 2010), “Escorpião Amarelo” (P55, 2012), “São Selvagem” (P55, 2014) e “O exercício da distração” (Penalux, 2017). Tem poemas incluídos nas coletâneas “Roteiro da Poesia Brasileira, anos 2000” (Global, 2009), “Traversée d’Océans – Voix poétiques de Bretagne et de Bahia” (Éditions Lanore, 2012), “Autores Baianos, um Panorama” (P55, 2013) e na “Mini-Anthology of Brazilian Poetry” (Placitas: Malpais Rewiew, 2013).
O mundo é o resto
do quase nada que sobrou
quando o universo aconteceu
no buraco negro que explodiu
no vazio da inexistência
***
!?…
Moro dentro da minha cabeça
nunca tirei férias do coração
Ficar pensando é meu desemprego
Permanente
***
FAUNA DOS VERSOS
O lado bicho do poeta
guarda instintos animais
misturados
no seu espírito de gente
Nas invenções
é macaco esperto
ferramenteiro improvisador
No salto
se faz felino adestrado
no tino da distância precisa
O impulso persistente
quando ousa
vem dos cães que vigiam montanhas
Na potência preferiu ser cavalo
não touro
O bicho poeta se veste de camaleão
Ramayana Vargens é Jornalista, professor de literatura, contista, poeta, autor e diretor teatral. Carioca, naturalizado baiano. Membro da Academia de Letras de Ilhéus.
Uma leitura de Cinevertigem, livro instigante de Ricardo Soares
Por Geraldo Lima
Cinevertigem, de Ricardo Soares, é um livro inovador, provocador, escorregadio. Publicado pela Editora Record, em 2005, é obra que cruza a fronteira dos gêneros literários e busca, com certeza, ampliar os horizontes da criação literária. Durante a sua leitura, o leitor provavelmente indagará: isso é prosa ou poesia? É um romance ou um longo poema?
Num primeiro momento, o leitor, certamente, será tentado a ler essa obra como um longo poema, já que o ritmo, as aliterações, as rimas internas e as imagens atestam isso: “veloz dentro dessa noite oriunda quem, quem, quem me acende a boca do fogão que está entupida, quem que me frita um ovo do avesso, quem me paga comida, compra ração para o cão, entende que os livros estão espalhados pelo chão porque assim eles são…” A repetição do pronome “quem” enfatiza e reverbera o desejo do eu lírico [ou seria do narrador?], assinalando mais ainda o caráter poético do texto. Assim se inicia o texto: “quem, quem, quem, quem, quem é que me cobre de beijos? Quem, quem me lambe a ponta do nariz…?” Essa repetição, que se pode dizer também icônica, já que indica um sentido de urgência, de obsessiva solicitação, aparece ora no início da estrofe [ou parágrafo?], ora no meio, mas sempre introduzindo um novo núcleo de ideias, de pedidos, de coisas desejadas, um novo rol de objetos, lugares, pessoas, profissões etc.
Cabe salientar aqui, e creio que sem perigo de dar spoiler, que estas são, também, as palavras que encerram o texto, expondo sua estrutura circular, ou inscrevendo-o no rol das obras que começam pelo final. O autor, num gesto tipicamente machadiano, marcado pela ironia, parece brincar com o leitor, querendo surpreendê-lo numa falta. Senão, vejamos: “para os que começam lendo um livro pelo fim devo dizer que morri no meio da história; sou um defunto que jaz e pergunta: quem, quem…?” Há que se observar, também, que “veloz dentro dessa noite oriunda” é uma referência clara ao livro de poemas de Ferreira Gullar, Dentro da noite veloz, publicado pela Editora Civilização Brasileira, em 1975. Aliás, a referência a outras obras literárias, a personagens de ficção [“quem, quem, quem me dá essa vida de Macunaíma, brincando com o pau dentro do jirau…”], a nomes de autores ou figuras de destaque no mundo intelectual [“quem, quem, quem me dá a vida do cabeludo pajé Darcy, boca seca de tanto falar”] será, ao longo do texto, um procedimento bastante usado por Ricardo Soares, mas evitando, sempre, o tom de exaltação ou de discurso elevado.
Mas aí, na ficha catalográfica, diz que se trata de um romance. Entendemos que o romance é um gênero híbrido, que acomoda em sua estrutura outros gêneros, como bem nos mostrou Bakhtin, mas seria esse o caso deste livro do jornalista, diretor de TV e escritor Ricardo Soares? Se formos enumerar nele a presença de elementos próprios de um texto narrativo ou ficcional, talvez nos frustremos. O narrador, no caso, se confunde com o eu lírico da poesia. Há mais uma voz que explicita seus desejos, sua subjetividade, do que um ser fictício que conta uma história. É mais uma voz que clama, como numa oração, ou num cântico pagão, do que uma voz que narra. Não se trata nem mesmo de um poema narrativo, de caráter épico, já que não há a figura de um herói realizando grandes feitos, tampouco o tom elevado do discurso que caracteriza essa forma literária. [Da página 70 à 73 há de fato um poema, com versos, estrofes, rimas e composto num ritmo próprio da poesia feita pelos cordelistas; mas a inserção desse poema, claramente narrativo, no corpo do romance, – aqui admitindo-se que se trata de fato de um romance – encontra-se, ainda, dentro do caráter híbrido desse gênero narrativo.] Os personagens, ou pessoas referenciadas, melhor dizendo, não chegam a mover-se, dando início a uma ação concreta, progressiva. Vez ou outra surgem fragmentos de histórias que poderiam se desenvolver, mas logo se esgotam e somos introduzidos em outro núcleo de coisas evocadas pela voz masculina ou consciência desejosa de experimentar novas vivências. Os espaços são variados, já que há um vagar constante da alma ansiosa desse ser que se agita no texto. Desse modo, a narrativa em si, ou o escoar poético da voz que fala no texto, resulta num amplo passeio por vários lugares da nossa geografia, por vários aspectos da nossa cultura e da de outros povos, nessa tentativa angustiada de alcançar, realizar ou incorporar aquilo que se reitera com a pergunta: “quem, quem, quem, quem, quem é que me…?”
Para ampliar ainda mais o seu aspecto de obra fora do convencional, há a sua aproximação dos recursos da montagem cinematográfica. Cada bloco que se inicia, quase sempre com a pergunta obsessiva “quem, quem…”, parece expor um fotograma que registra uma unidade de desejo ou súplica que vai se desdobrando e agregando outros elementos ao núcleo temático, justapondo sensações ou ambientes, para ser, logo em seguida, substituída por outra, criando sempre uma atmosfera de vertigem. Mas, ainda que aparente ter uma estrutura fragmentária, há um sentido de encadeamento, de ligação, de amarra entre os parágrafos, ou as estrofes, ou as cenas, como queira. Como se dá isso? Às vezes a unidade seguinte ganha corpo a partir da retomada de uma palavra da unidade anterior, sugerindo a técnica de “palavra puxa palavra”. Um exemplo: “… este velho na ativa dava inveja a outros tropeiros…” Inicia-se, então, a unidade seguinte retomando a palavra “tropeiros” no singular: “quem, quem, quem me dá essa vida de tropeiro absoluto…” O vasto painel de realidades díspares que o autor vai agregando ao texto, ora com visão crítica sobre questões sociais e políticas, ora movido pela ironia e pelo espírito de carnavalização, cria a imagem de um mundo caótico, de cinema glauberiano, em que a câmera gira nervosa, registrando tanto o delírio poético do cineasta quanto o seu olhar que desvenda criticamente a nossa sociedade.
Em suma, o Cinevertigem de Ricardo Soares é esse passear delirante, aflitivo, obsessivo, desejoso por vários meandros do fazer humano, da experiência de vida do outro, enfim, da cultura, numa sequência que se processa entre o ritmo e a imagética da poesia e o possível novelo da narrativa ficcional que vai se desenrolando num único fôlego, até desembocar num final que é puro cinema, ou referência/reverência ao cinema.
Geraldo Lima é escritor, dramaturgo e roteirista. É autor de “Uma mulher à beira do caminho” [contos, Editora Patuá, 2017], “Trinta gatos e um cão envenenado” [peça de teatro, encenada em 2016 em Brasília] e “O colar de Coralina” [roteiro de um longa de ficção dirigido pelo cineasta Reginaldo Gontijo]. E-mail: gerallimma@gmail.com
Os discos de heavy metal,
O último discurso do condenado,
O recado na agenda do ministro,
O bem, o mal, a torpeza
E a bunda em rede nacional.
Somos abonados pelo futuro.
E não há tropeço.
Há caminho. ………………Apenas um.
E seguimos por ele, em fila indiana,
Adiando o regresso.
***
BAQUE
Aposentei o velho discurso.
De longe,
Acompanho o curso da história.
Há tantas célebres frases
E nenhum acelerador de partículas.
Há tantas formas de amoldar
E nenhuma de embrutecer.
Penso nos debates, nas contendas,
Nos homens minúsculos,
No mormaço dos becos;
Penso na sorte dos imaculados
E no monge, na montanha,
A descobrir novos silêncios.
De longe, muito longe,
Acompanho o cerco da morte.
***
REALEZA
A corte do passado
Passou dessa ……….Pra uma pior:
O príncipe pop
Virou ator pornô;
A rainha do rebolado
Mendiga likes e views;
O imperador ……….Do reality show
Foi achado morto.
A corte do passado ─
Quem diria? ─
Passou dessa ……….Pra uma pior:
Subiu às nuvens
Em arquivos virtuais.
***
ESCONDERIJO
Só acredito no que não sinto,
No mistério, na pergunta eterna.
Inferno? Deus? Extraterrestres?
Creio no enigma que os cerca;
Creio nos poemas não escritos,
Na poesia que emana do engano.
Não espero respostas definitivas,
Nem que um sábio dê o Veredito.
A face oculta das coisas táteis:
Eis aquilo no que (só eu) acredito.
***
MAKE DEATH GREAT AGAIN
Não estamos na Idade das Trevas,
Mas não estamos ……………..No Século das Luzes:
Estamos na época
Dos homens fartos ……………..De coisa alguma,
Das cruzes que viram espetáculo;
Dos celulares incríveis,
Dos dedos sujos apontados pro errado;
Dos argonautas virtuais
Presos em suas bolhas, ……………..Barcos naufragados;
Das dietas malucas,
Dos corpos de fast food,
Dos que não comem carne …………….E dos que não plantam …………….Uma só semente.
Não estamos na idade das trevas
Mas já não temos ……………..Tanto tempo assim.
***
ENCHENTE
Inquilinos tiram móveis
E rezam pro Santo de devoção.
Além das histórias,
Dos homens cobertos de lama
E da bondade dos abutres,
Há uma falsa esperança:
As águas do Jacuípe
Encontrarão novo caminho.
***
DAS MEMÓRIAS
Vejo tudo com bastante nitidez,
Mas não posso revogar o tempo:
Minha mãe mexendo o café,
Seu rosto sumindo entre nuvens;
Meu pai estacionando o Chevette,
Toda tristeza embaixo do bigode;
E eu, desperto, nutrindo planos
Que não realizo antes de morrer.
Vejo tudo num fio de memória
Tão nítido quanto não deveria ser.
Ricardo Thadeu (1989), nascido em Riachão do Jacuípe-Ba, é mestre em Estudos Literários (UEFS), professor e escritor. Publicou diversos livros, sendo “Você não deve pensar nessas coisas” (Penalux, 2020, poesia) o mais recente. É integrante de mais de uma dúzia de antologias, dentre elas: “Tudo no mínimo: antologia do miniconto na Bahia” (Mondrongo, 2018, miniconto).