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137ª Leva - 04/2020 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

 

Ana Paula Lisboa é uma das grandes vozes da atualidade. “Favelada e carioca de nascimento, a mais velha de quatro irmãos, filha de dois pretos”, como se define, seus textos em prosa e em poesia trazem toda a potência, a riqueza e a representatividade da cultura afro-brasileira, chamando atenção, com igual vigor, para a ancestralidade, a produção cultural das mulheres negras e também se manifestando contra ações que silenciem, infrinjam direitos e tirem espaços dos negros dentro e fora do Brasil.

Dividindo a vida entre o Rio de Janeiro e Luanda, dirige a Aláfia e a Casa Rede, espaços de produção de arte e cultura na capital angolana. No Brasil, escreve regularmente para o Segundo Caderno, do jornal O Globo, um desejo que vem de muito jovem, um desejo de ser lida que nasce aos 14 anos, quando escreve seus primeiros contos e poesias. Hoje, seus escritos estão em coletâneas nacionais e internacionais, porém, mais que uma escritora, prefere ser reconhecida como artista textual, utilizando da palavra escrita e da falada em diferentes plataformas, com o intuito de promover a visibilidade na narrativa e na gramática negra no mundo.

Em entrevista exclusiva a Diversos Afins, Ana fala sobre sua vivência com a literatura, suas experiências com a leitura de mulheres negras, aborda o problema da educação e do racismo, além de denunciar o desvirtuamento do que se entende como “literatura negra” e a falta de espaços para a publicação de autores negros no mercado editorial brasileiro. Com respostas francas, marcadas por um misto de indignação, inteligência e personalidade, a autora aponta problemas antigos e da política atual, celebrando nomes como Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e Machado de Assis, sem nunca baixar a guarda no que se refere ao respeito às tradições africanas. “Para mim, é imprescindível que Machado de Assis seja negro, não por uma fantasia de representatividade, mas por uma reparação histórica do apagamento. Não conseguiram apagar suas palavras, porque ele era um gênio, então apagaram seu rosto, porque era inaceitável um gênio negro”, sentencia.

 

Foto: arquivo pessoal

 

DA – Um dos pontos centrais, tanto de seus textos ficcionais quanto de suas crônicas, é chamar atenção para a cultura afro-brasileira, em especial para a literatura produzida por mulheres negras. Queria saber, a princípio, sobre a sua primeira experiência de leitura de um autor negro. Quando ocorreu e o que representou para você?

ANA PAULA LISBOA – Eu sinceramente não me lembro da primeira leitura, o primeiro lugar em que me senti representada pela cultura afro-brasileira foi na música e na dança. Pensando agora, talvez a Elisa Lucinda fosse alguém que eu sentisse algo especial, uma poesia de voz feminina mas que não representava a “mulher universal”, tinha ali questões que eram só dela. Eu me lembro bem quando li “Ponciá Vicêncio”, da Conceição Evaristo, que a sensação era de que tudo que era possível escrever sobre ser uma mulher negra no mundo estava naquele texto. Eu, inclusive, fiquei algumas semanas sem escrever nada porque parecia que não havia mais o que escrever.

 

DA – Dentre outros meios, você escreve regularmente para o Segundo Caderno, do O Globo. Baseado nessa experiência de colunista, como analisa a importância de tratar de temas representativos, sobretudo no que diz respeito às mulheres negras, num jornal de larga circulação nacional? Encontra ainda algum tipo de resistência?

ANA PAULA LISBOA – A resistência que eu encontro é do próprio pensamento e estrutura do Brasil, um país em que, por mais que não tenha passado pela experiência do Apartheid, os lugares para pretos e os lugares para brancos estão muito bem definidos, não numa placa, mas no próprio imaginário das pessoas. Então, ter uma mulher negra jovem escrevendo um jornal de grande circulação é ainda estranho para muitas pessoas. Eu adoro escrever no jornal, era um desejo desde muito jovem. Escrever, pra mim, nunca foi sobre só escrever, mas sobre ser lida, então, quanto mais pessoas lendo, melhor. Os orixás trabalham para que as coisas aconteçam da forma que elas têm que acontecer. É muito bom chegar em pessoas fora da minha bolha, de outros estados, de outros países, ou em salas de aula.

 

DA – Entrando no universo da literatura, o livro “Silêncios prescritos: estudo de romances de autoras negras”, da doutora da USP Fernanda R. Miranda, traz uma informação espantosa de que, em 200 anos de literatura brasileira, apenas oito autoras negras publicaram romances. Você acredita que, neste caso, a mínima quantidade de obras está diretamente associada a um processo sistêmico de silenciar as mulheres negras? E como isso ocorre?

ANA PAULA LISBOA – Está ligado a vários processos, não há um motivo único, porque o racismo é um monstro com muitos tentáculos. A questão principal, nesse caso pra mim, é a publicação, porque tem muita gente escrevendo, mas não tem tanta gente sendo publicada. Todos os anos, os mesmos nomes estão nas estantes. Depois, há também outras coisas: eu estou passando pela experiência de escrever um romance e é uma coisa muito difícil. Escrever uma narrativa longa é muito trabalhoso, requer concentração, tempo, espaço e, às vezes, dinheiro para bancar essa escrita. Quantas pessoas têm isso? No buraco de tempo que a gente consegue entre tantos trabalhos domésticos e na rua, o que dá para fazer muitas vezes são só as narrativas curtas, as poesias. Isso também é um dos motivos porque muitas mulheres e homens negros publicam em coletâneas, como, por exemplo, são os Cadernos Negros, que existem há mais de 40 anos. A outra coisa é que, além de criar espaço nas editoras que já existem, é preciso também que sejam abertas novas editoras, de donas e donos pretos. Esse também é um espaço que podemos e devemos ocupar.

 

DA – Outra questão forte e alarmante está na afirmação de que, no rol de todas as expressões artísticas, a literatura é aquela menos acessível ao artista negro, pois tem o poder de colocá-lo como figura central, de projetar sua voz. Penso que isso gera um deslocamento do campo literário e prova um racismo que transcende a ficção. Sendo assim, você acredita que o preconceito é o mal que explica a escassez da literatura produzida por negros, ou é um pensamento muito limitado, que encobre outros problemas?

ANA PAULA LISBOA – Todas as opressões cabem dentro da literatura, é uma grande luta para saber quem vai narrar o Brasil, qual Brasil é válido de ser contado em palavras escritas. A educação é uma grande questão, porque os negros foram proibidos de ter acesso a escola, era um tal de “vou aprender a ler, pra ensinar meus camaradas”. A entrada na universidade continua a ser uma luta, um espaço que a todo momento tentam retirar. E mesmo dentro, a luta por um conteúdo que nos inclua também permanece. Tudo é um grande plano para nos afastar e não nos deixar emancipar, um plano que todos fazem parte de uma forma ou de outra, ainda que não percebam. Por isso eu acho a ficção tão importante, ela não se desloca do tempo e do espaço que nos prende. É o contar histórias dos griôs, é só inventando mundos outros que vislumbrarmos sair desse em que estamos.

 

Foto: arquivo pessoal

 

DA – Em 2018, o romance “Torto arado”, do baiano Itamar Vieira Junior, ganhou o Prêmio Leya de Literatura, dando voz a duas personagens negras num épico passado num Brasil profundo. Pensando na questão do lugar de fala, de alguma forma um homem dando voz a personagens femininas é um problema? De que forma a ausência de uma autora vocalizando questões ligadas ao universo feminino impede com que se chegue a uma verossimilhança representativa?

ANA PAULA LISBOA – Eu não li o romance do Itamar ainda, mas ouvi coisas muito bonitas sobre ele. Eu acho que ser um escritor é a possibilidade de ser outros, de ter outras vozes, de estar em outros mundos, então não vejo um homem criando as histórias de mulheres como um problema. As coisas são só coisas, nós é que damos funcionalidades a elas. A questão, pra mim, da escassez de personagens negros na própria literatura é porque o homem branco escritor do sudeste, que é o publicado, só fala de si.

 

DA – Neste caso, há também a questão do Machado de Assis branco, mulato ou negro? Qual a relevância dessa discussão para você? 

ANA PAULA LISBOA – Eu sou apaixonada pela literatura de Machado de Assis. Na verdade, voltando à primeira pergunta, eu me lembro da primeira vez em que li “Dom Casmurro”, e ele começava escrevendo algo como pegar o trem para o Engenho Novo. Na época, eu morava no Engenho Novo e, pra quem conhece, sabe que não é um bairro pra se ter muito orgulho. Mas foi naquele dia em que eu me apaixonei pelo Engenho Novo. Para mim, é imprescindível que Machado de Assis seja negro, não por uma fantasia de representatividade, mas por uma reparação histórica do apagamento. Não conseguiram apagar suas palavras, porque ele era um gênio, então apagaram seu rosto, porque era inaceitável um gênio negro.

 

DA – Tratando agora de autoras negras, um caso marcante é o da mineira Carolina Maria de Jesus, cujo livro de estreia, “Quarto de despejo: diário de uma favelada”, é considerado um best-seller e segue encontrando novas gerações de leitores e de admiradores. Contudo, é uma literatura que paradoxalmente não trouxe larga visibilidade para a figura da autora, ou mesmo seu devido reconhecimento. A que se pode imputar tal discrepância dado o caráter livremente autobiográfico do livro?

ANA PAULA LISBOA – São várias as questões, porque Carolina, diferente do Machado, tinha rosto, tinha traços, tinha corpo, um corpo preto retinto. Carolina era uma mulher muito forte, ela se conhecia e conhecia o Brasil, esse Brasil racista. Ela não se deixou ser colocada na caixa da “favelada”, como se essa fosse a única narrativa que ela pudesse escrever. Como não conseguiram apagar seu rosto, tentaram apagar seus escritos, também geniais.

 

DA – Outra autora em foco é a também mineira Conceição Evaristo que, em 2018, esteve no centro de uma campanha nas redes sociais para que fosse a primeira escritora negra a ser eleita para a Academia Brasileira de Letras (cadeira que acabou sendo preenchida pelo cineasta Cacá Diegues). Na ocasião, um dos assuntos mais discutidos foi se o estofo de sua obra lhe garantiria força para disputar a vaga ou se sua escolha se devia a sua representatividade no meio literário. Qual sua percepção sobre essa questão?

ANA PAULA LISBOA – Conceição Evaristo é, pra mim, a maior escritora do Brasil. Conceição não entrou para Academia Brasileira de Letras porque a branquitude não gosta de ser questionada, não suporta ser racializada e não tem nenhuma vontade de reconhecer seus privilégios. Reconhecer privilégios é reconhecer a sua culpa em tudo isso e ninguém quer se sentir culpado. No Brasil, o racista é sempre o outro. Mas Conceição não perde em nada, na verdade quem perde é a Academia Brasileira de Letras. Ela é uma deusa e deusas já nascem imortais.

 

Foto: arquivo pessoal

 

DA – Você tem contos e poesias publicados em coletâneas nacionais e internacionais. No entanto, numa visão ampla da literatura contemporânea brasileira, ainda há poucos autores negros publicando. Por parte das editoras, em especial os grandes selos, você percebe que ainda há resistência para se publicar autores negros ou preconceito sobre temas ligados ao universo afro-brasileiro?

ANA PAULA LISBOA – Para que existam na literatura publicações de literatura negra, é preciso que haja editores que saibam ler essa literatura, e há muita gente nesse mercado que não sabe ler. Depois é o mercado, que está percebendo lentamente que os negros compram livros, leem livros e que nós não lemos de qualquer coisa. É engraçado porque se um carioca da Zona Sul resolve comprar um livro só porque conhece o autor e a história se passa no Leblon, ninguém acha isso estranho. Mas se eu disser que comprei um livro só porque ele se passa na Complexo da Maré, ou porque ele foi escrito por uma mulher negra, acham que eu estou à procura não de boa literatura, mas de representatividade.

 

DA – Falando em preconceito, temos hoje, no governo federal, um presidente da Fundação Palmares que explicitamente menospreza a história de resistência e luta dos negros no Brasil, reiterando declarações racistas. Você acredita que essa é a pauta de um indivíduo completamente transloucado ou há, por trás disso, toda uma ação institucional para sufocar e anular as políticas públicas e reconhecimento histórico-sociocultural do negro no Brasil?

ANA PAULA LISBOA – Eu acho que nada é por acaso, não acho que buracos se abrem do nada, a gente sempre caminha até o abismo, mesmo que não se dê conta disso. A minha sugestão, inclusive, é a que mudemos o nome da Fundação Palmares enquanto o senhor esteja presidente. A luta ancestral não merece ter seu nome tratado assim.

 

DA – Há uma máxima de que o esporte é um instrumento para socializar e dar oportunidades reais a crianças situadas nas áreas mais pobres do país. Porém, não deveria ser o único a ter essa disponibilidade. Você acredita que a cultura, em especial a literatura, poderia ser também um caminho? E essa ausência não explicaria o baixo número de autores negros em atividade no Brasil?

ANA PAULA LISBOA – Ninguém tem muita paciência com a criança e o jovem negro, há pesquisas que falam que professores são mais agressivos e se recusam, às vezes, a explicar para crianças e jovens negros na escola, que crianças negras passam mais tempo chorando ou sujas nas creches. O adolescente branco, de classe média, geralmente quando começa a dar problema vai para terapia, isso não acontece com jovem negro. Então, é mais fácil botar ele para jogar futebol, gastar energia, colocar para fora aquilo que tá incomodando do que sentar com ele e efetivamente explicar o mundo. Ao mesmo tempo, eu acho que a cultura ou o esporte não tem o dever de salvar ninguém, a criança e o jovem preto não precisam de salvação, precisam de repertório de mundo, terem acesso a estímulos para que possam fazer boas escolhas para a vida. Esse é um direito que está inclusive na Declaração Universal dos Direitos Humanos.

 

DA – O que pensa sobre a expressão “literatura negra”? Há, na confirmação do termo, um fator de representatividade, de força para esses autores? Ou literatura brasileira deve ser vista em sua multiplicidade, incorporando temas e contextos sem que seja distinguida por qualquer partição?

ANA PAULA LISBOA – Eu não sou acadêmica ou crítica literária, eu sou só uma escritora. Hoje eu percebo que o que eu escrevo é literatura negra e não vejo nenhum problema em ser colocada nessa estante.  O que me incomoda é a classificação “escritora negra”, porque geralmente quando me colocam nessa caixa quer dizer que eu só possa escrever, ver, ou falar a partir das questões do racismo. Se eu pensasse ou escrevesse sobre racismo 24 horas por dia, eu já teria morrido de depressão. É óbvio que ser uma mulher negra vai aparecer no que eu escrevo, assim como Clarice Lispector ser ucraniana criada no nordeste aparecia na literatura dela. Ser negra não é a minha limitação, na verdade é o que me amplia.

 

DA – Para os leitores que querem acessar a literatura afro-brasileira, o que você recomenda de contemporâneo? Quais autores ou livros são fundamentais hoje?

ANA PAULA LISBOA – Leiam qualquer coisa da Conceição Evaristo, até receita de bolo. Meu preferido, nesse momento, é “Becos da Memória”. “Um Defeito de Cor”, da Ana Maria Gonçalves, é tipo a bíblia. “Meio Sol Amarelo”, da Chimamanda Ngozi Adichie, é de destruir emocionais. Nesse momento, estou lendo as poesias da Ryane Leão, em “Tudo Nela Brilha e Queima”, e os contos da Cidinha da Silva, em “Um Exu em Nova York”.

 

DA – A literatura, por si só, tem o poder de ser um instrumento de representatividade social, ou depende de uma combinação de fatores?

ANA PAULA LISBOA – Não sei responder.  Eu acho que a literatura como qualquer outra arte está inserida no tempo e no espaço de uma sociedade, então de alguma forma ela sempre vai representar algo. Representação não é um problema do escritor, o problema do escritor, ou a tarefa do escritor, é escrever: é criar histórias, mundos, pessoas e esperar que quem esteja do outro lado entenda a história que a gente queria contar.

 

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É crítico literário e escritor, autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês, o espanhol e o tâmil. Participou da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris. Edita o site de crítica literária A Nova Crítica.

 

 

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137ª Leva - 04/2020 Destaques Olhares

Olhares

Rupturas no silêncio

Por Fabrício Brandão

 

“Sem cara”: Claudio Parreira

 

Quem de nós é capaz de juntar os cacos do tal velho mundo? Essa pergunta ecoa há alguns bons anos em minha cabeça desde que escutei pela primeira vez “Pra começar”, canção composta por Marina Lima e seu emblemático parceiro e irmão, o poeta Antonio Cicero. À época, já sabíamos sobre qual contexto aquela música fincava suas bases de inspiração, principalmente a ideia de se pensar o mundo como algo passível de reinvenção a nosso modo. E a energia ali presente apontava para a cíclica dinâmica de um ir e vir, ou seja, desconstruir para reconstruir, respeitadas as devidas maneiras de compreensão pessoal das coisas, repertórios da individualidade.

Passadas algumas décadas, o hoje cada vez mais nos desafia a prestarmos atenção ao fluxo constante de transformações as quais estamos submetidos até mesmo inconscientemente. A própria ideia de não sermos produto acabado põe em xeque a tentativa de se cristalizar convicções. E estar em processo, num incessante devir, pode não ser questão de escolha, mas sim de como a torrente dos fenômenos que nos cercam demonstra nos afetar. Haveria, então, uma linha tênue entre desejar algo e mudar a rota pessoal pela interferência dos fatores externos a nós?

De toda forma, nosso mundo é um imenso mosaico de sentimentos e ruídos. E há de se desconfiar de quem apregoa linearidade absoluta em seu trajeto pela vida. Perpassada por idas e vindas, nossa existência dentro de uma complexa teia social cada vez mais não nos parece permitir uma passagem despretensiosa ou desavisada pelos fatos.

Dentro da lógica que reinventa as paisagens da nossa tenra humanidade, testemunhamos a expressão artística de um alguém como Claudio Parreira. Ao observarmos as colagens digitais feitas pelo artista, não há como o impacto não ser imediato se considerarmos muito do que foi abordado nos trajetos iniciais deste texto. Ora, vejamos: Parreira faz saltar diante de nossos olhos o rearranjo desse fragmentado mundo em que vivemos. E o faz com a habilidade de nos comunicar que os tais cacos de nossas experiências podem ser ajuntados sob outras formas de ser e sentir.

 

“Casal”: Claudio Parreira

 

Volta e meia, o pensamento de que não há nada de novo debaixo do sol insiste em nos rondar. No entanto, falar disso não simplifica e nem reduz as experiências tidas em matéria de criação. Pelo contrário, virtude maior é ressignificar os sintomas mais pungentes da vida. E é isso que Claudio Parreira faz com seu trabalho quando nos apresenta sua própria maneira de configurar as paisagens humanas e seus enleios.

As colagens de Parreira não são uma mera reconfiguração de formas e contornos. Elas nos mostram o rico vocabulário que advém de outros modos de se pensar a experiência dos mortais no planeta cada vez mais esquálido em que vivemos. É patente a verborragia que se abriga na arte dele, sobretudo por trazer à tona o poderoso efeito discursivo de suas imagens. E assim vamos sendo guiados por um imenso cenário no qual as inquietações afloram. Num mix que agrega provocação, crítica, memória, espanto, ironia e indignação, dentre outros atributos também possíveis, a expressão do artista em questão parece em muitos momentos representar um clamor. Diante de tamanhos ímpetos, caberia indagar ao que ou a quem tal demanda estaria direcionada.

Na confissão do próprio Parreira, quiçá uma revelação ou resposta: “gritos ao silêncio que querem nos impor”. Suas colagens digitais flertam com a ideia de manusear o absurdo e o incomum, ele ainda sustenta. Muitos conhecem o Claudio Parreira autor de contos e romances, contribuições literárias que já assinalaram alguns caminhos de reconhecimento pela palavra. Mas o que se agiganta agora, com a perspectiva visual, é saber que outras narrativas assumem seu protagonismo na trajetória do criador, aquelas engendradas a partir do gesto imagético que ousa desafiar apagamentos. A recusa ao silêncio é, em grande medida, um ato de rebeldia diante do avanço obscurantista que insiste em turvar o pensamento e as ações contemporâneas no quesito sócio-político, para não dizer em outros mais.

Na profusão de cores, caracteres e tipos, Parreira lança mão do diálogo entre o velho e o novo, da harmonização do clássico com o moderno, da coexistência entre seriedade e irreverência. E seu êxito maior é nos ofertar outros modos de abordar as nossas humanidades, deixando entrever a pulsação permanente da lucidez, espírito incomodado e atento, mas que não deixa perdidas pelo caminho fatias necessárias de bom humor, leveza e esperança.

 

“Contabilidade”: Claudio Parreira

 

* As colagens digitais de Claudio Parreira são parte integrante da galeria e dos textos da 137ª Leva

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras.

 

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137ª Leva - 04/2020 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Elizabeth Hazin

 

“A insustentável leveza da rosa”: Claudio Parreira

 

MORTE

 

Morte não é quando se morre apenas
quando os dias já não tornam
e a música cessa:

morte é sempre
ou de repente
é vez por outra

morre-se para tantas coisas
não só para a vida que escorre em fios
(por vezes entrelaçáveis)

também morre a palavra
se não diz o novo
se ao atingir a forma cristalizada
não a dissolve.

 

 

 

***

 

 

 

ENIGMA

 

O poema não chega à mão
quando se quer
movido pela fria
aragem do pensamento

mistura de nuvem e armadilha
tampouco nos salta do coração:
as palavras têm seu preço
e muitas vezes só nos resta
o sonho da noite anterior
fragmentado e mudo.

 

 

 

***

 

 

 

NOTURNO

 

Noites, a difícil travessia:
são manhãs escuras
compridas de silenciosas
e vazias. Vazias de tudo.
Sobretudo de sonhos
única possível alegria
em tempos de miséria.

De tanto não dormir
começo a discernir no escuro
o cinza das horas
matizes do tempo
e cavalgo a noite de pouca lua
adivinhando a cada instante
a manhã salvadora.

Acompanho no céu o percurso de Júpiter
ou dos resquícios da lua minguando sempre
e sei:
a de hoje não é a de ontem
e a de amanhã será menos
(uma ambulância rasga o espaço da rua).

Como não durmo, descubro:
as noites não são iguais
cada uma tem seu nome
e o traz no dorso
impresso
( por que não o leio?)
Do lado avesso do sono
resta-me apenas meu verso.

 

 

 

***

 

 

 

SILÊNCIO

 

Fio de silêncio o meu amor
(só o silêncio é permitido)
e aturdida escuto o eco
do silêncio mesmo – ó castigo –
reabrindo sempre a ferida
– a mesma – em que ponho o meu dedo
ó sangue esse rio corrente
em que – de medo – afogo o medo
de excluir para sempre o silêncio
com que fio o amor e desfio
as cordas que batem no peito
essa canção afogada no rio.

 

 

 

***

 

 

 

EU E BORGES

 

A cada noite
repito o gesto
de abrir os olhos
………………no sono
e – pelo avesso –
olhar e ver
– por dentro da noite –
do outro lado
o descomeço.

 

 

 

***

 

 

 

URGÊNCIA

 

sempre escrevendo
alguma coisa mentalmente
sem coragem de mergulhar a cara no papel
e me perder no emaranhado de linhas
sempre
essa vaga necessidade de escrever
(de dizer algo
terrivelmente essencial à minha vida)
jamais concretizada

preciso anotar
todas as minhas lembranças
todos os meus sonhos
todos os livros que li
todas as brincadeiras da infância
todas as receitas de minha avó
todas as luas que vi
antes que tempo e pó
tornem ilegível a página.

 

Elizabeth Hazin (Recife-PE, 1951). Publicou Poesias (1974), Verso e reverso (1980), Casa de vidro (1982), Arco-íris (1983), Espelho meu (1985), Martu (1987), O arqueiro e a lua (1994). Em 2006, a Vieira & Lent reeditou uma segunda edição — revista e ampliada — de Martu, livro vencedor do Prêmio Rio de Literatura (1986) e foi publicado Lêgo & Davinovich (7Letras) escrito a quatro mãos com Davino Sena. Em 2010, a Vieira & Lent republicou Arco-íris e em 2014 publicou Mágica de Carrosel (infantil). Atualmente é professora Associada Plena junto ao Programa de Pós-Graduação da UnB, líder do grupo de pesquisa Estudos Osmanianos.

 

 

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137ª Leva - 04/2020 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Jonatan Magella

 

“Amor seguro”: Claudio Parreira

 

Luz e cheiro

 

O amor deles fedia. Fedia porque depois de nascer, crescer e reproduzir-se (tinham uma filha), o amor morreu. Mas não houve coragem para o sepultamento e o amor deles tornou-se um cadáver jogado em cima do sofá.

Nascera aquele amor num ponto de ônibus, em um desses insuportáveis fins de tarde de primavera no subúrbio carioca, quando voam os mosquitinhos ao redor das luzes.

Ele viu Lucília toda atrapalhada, entre pernas de trabalhadores exaustos que esperavam a condução da volta pra casa. Eram jovens e não havia nem sinal do que se tornariam com o tempo. Lucília abanava-se e às vezes batia em si mesma, por causa dos insetos sobre a cabeça.

– Você deve ser uma pessoa muito iluminada.

– Por quê? – Lucília deu um tapa rente ao próprio rosto.

– Porque esses mosquitos ficam quietinhos no inverno. Mas no calor voam, se guiando pela lua. O problema é que quando encontram outra fonte de luz, se confundem.

– Tipo uma lâmpada?

– Ou um rosto luminoso.

A partir desse dia, Lucília cingiu aquele homem – que entrou no mesmo ônibus que ela dizendo, sim, esta é a minha condução, mas depois pegou mais dois para chegar ao seu verdadeiro itinerário, não sem antes conseguir um beijo e o número de telefone.

O amor cresceu rápido. Não à toa. Eles o alimentaram à base de pipoca e cinema, de chocolate e bolo, de pizza e cerveja. Mas o erro do amor foi ter se considerado autossuficiente. Se amigos convidavam um ou outro para sair, em vez de ir e apresentar o namorado novo, eles diziam em uníssono, não, melhor ficar. E assim foram ficando. Cada vez mais solitários. O amor deles se trancou no quarto e ficou antissocial. O amor ficou mimado, o amor ficou narcísico, o amor perdeu a noção de mundo. O amor deitou na cama e ficou olhando o teto. (O amor ficou um chato!).

Foi assim que o amor deles cresceu mais do que deveria (relacionamentos acabam por amor de menos, também por amor demais). E ficou gordo. A ponto de Lucília, vinte e poucos anos, não aguentar mais carregá-lo em si, de modo que seu marido (casaram-se no civil, depois de algum tempo) teve que conduzir sozinho aquele sentimento morbidamente obeso.

Nessa disparidade de esforços, o tempo passou. Ele começou a se olhar no espelho e sentir-se velho, sozinho, a despeito de ter trinta e cinco anos. O mesmo não ocorria com Lucília. Ela – que até gostava da solidão – ainda sentia-se jovem, uma jovem mãe (o rebento veio logo após o casamento), e essa diferença geracional os distanciou. O que um queria, o outro não estava a fim. Sempre.

Foi a essa altura que o amor morreu e ficou jogado em cima do sofá. Mas o casal não reconheceu o corpo. Não assinou atestado de óbito. Não fez um enterro digno. Ambos empurraram a situação com a barriga (talvez por isso, perto dos quarenta, tenham começado a fazer crossfit – mas cada um numa academia). Enquanto isso, a filha (já uma adolescente) chorava pelos cantos num luto que não acabava nunca. O mau cheiro do cadáver dentro de casa a fazia lacrimejar.

Foi num dia de tristeza extrema da filha (a menina cortara os pulsos com lâmina de barbear), que o homem decidiu ir embora. Não tinha uma amante. Só estava exausto. Lucília também estava, mas feito um mosquito de luz depois do voo, perdeu asas.

– Vamos pensar uma última vez – ela propôs.

Era inverno e ambos se convenceram a recolherem-se em suas solidões e olharem-se sem automatismos. Foram dias de silêncio naquela casa-área-de-desova.

Dias depois, eles se reencontraram e, olhando-se nos olhos, souberam que finalmente era hora da cerimônia fúnebre.

Primeiro ele se abriu. Até as entranhas. Depois foi a vez de Lucília se abrir. Eram as palavras voando depois de semanas em hibernação.

E foi assim, abertos, que tiraram aquele corpo podre de dentro de si; era o amor em putrefação. Havia uma porção de ossos entulhados. (Com o tempo e a serenidade, poderiam remontar o esqueleto do que fora aquele sentimento, e deixá-lo à exposição numa das salas da memória).

Quando saíram do quarto, a filha finalmente conseguiu respirar. O cheiro funesto tinha desaparecido e a adolescente se alegrou genuinamente ao ver a rara alegria nos olhos de seu pai e sua mãe. Abraçou-os, como um padre a benzê-los:

– Eu abençoo essa separação, desde que nunca se separem de mim.

Os dois passaram as últimas semanas de inverno quietos. Cada um em sua nova casa, trabalhando, vendo televisão, olhando a rua sem coragem de ir lá fora. Mas no primeiro fim de semana quente da primavera, como se a separação tivesse acendido uma luz, ambos saíram dispostos a encontrar nova companhia (a filha incentivou a aventura). Meio desorientados, avançaram sobre a noite feito mosquitos avançando nas lâmpadas. Ele encontrou uma jovem num bar. Lucília encontrou um colega de trabalho. Voaram ao redor de suas novas lâmpadas, com a leveza de quem encontra a lua, até se cansarem e caírem nas camas exaustos, sentindo ao redor a lascívia da perda de asas depois do voo e a vontade de estar no casulo de um toque novo.

Foi assim que fertilizaram a terra onde nascem os afetos novos: com prazer. E só prazer.

De amor, por enquanto, nem o cheiro.

 

 

 

***

 

 

 

Substituição

 

Há meia hora atrás eu era criança, um menino pensando em como melhorar o time da Internazionale para vencer o Milan do meu vizinho, após quatro meses de derrotas humilhantes, no Play Station da lan house do Nino. E agora, deitada no braço do sofá com a saia erguida, a amiga da minha prima me pergunta, você tem camisinha?

Notei que ficou maior a sombra do meu corpo que pedalava com pressa – mais pressa que o Kaká quando puxava um contra-ataque no vídeo-game. Na verdade, até minha bicicleta pareceu uma CG 125 cilindradas; e eu, um homem feito e habilitado a pilotar rumo à farmácia, onde estacionei e perguntei, moça, tem preservativo?

A balconista estranhou. Não que alguém aos catorze anos não possa fazer sexo, mas ir à farmácia comprar camisinha, ainda mais sem constrangimento algum, lhe pareceu demais; meio a contragosto, ela apontou a prateleira, aquela ali, ó. As camisinhas pareciam guloseimas – descobri posteriormente que algumas são. Voltei com três. Era para o que dava meu dinheiro, que iria para a lan house do Nino, mas foi para o sexo.

No caminho, porém, entrei em colapso, como se meus pensamentos não coubessem na cabeça que os pensava. Me perdi pelas ruas que conhecia e, parado numa encruzilhada, sem saber pra onde ir, eu disse a mim mesmo, pensa, pensa cara, a garota tá à sua espera. Na dúvida optei pela esquerda – ainda opto hoje em dia. Então eu reencontrei a amiga da minha prima, e ela ainda estava de saia erguida sobre o braço do sofá.

Tentei ser romântico, passar o dorso da mão no rosto dela, coisas que eu tinha visto na Malhação. Mas logo a mão se perdeu em outras tramas. Se foi rápido ou devagar eu não sei. Quando temos prazer não nos preocupamos com o tempo. Sobretudo esse prazer primicial: a sensação da primeira penetração da vida é algo tão drástico quanto nascer, quando você sai de um corpo familiar; a diferença é que, sobre o braço do sofá, eu entrava num corpo estranho. Depois que saí pela última vez, nos abraçamos e ela disse, amanhã a gente faz mais, pode ser?

Sem saber que esse amanhã nunca chegaria, guardei as outras duas camisinhas como Maldini guardava a zaga do Milan, o time do meu vizinho. Vizinho que, quando me viu na rua andando a esmo – eu ainda revivia as lembranças recentes – me propôs: vamos jogar?

Respondi que estava sem dinheiro. Eu pago, ele disse, e já fez um gol rápido com Seedorf, porque eu ainda pensava no corpo da amiga da minha prima. Empatei com a classe de Figo; Pirlo fez de falta pra ele e logo em seguida meu Recoba provocou um alvoroço em sua zaga e colocou 2 x 2 no placar. Meu vizinho assustou-se: hoje você tá inspirado, não sei o porquê, mas calma que ainda tá no primeiro tempo. Só eu sabia por quê. Inexplicavelmente, consegui segurar o resultado. Eu mal pude acreditar que o jogo já estava no final (quando temos prazer não nos preocupamos com o tempo). Mas eu ousei, queria o improvável! Substituí Figo, o mais velho do time, e coloquei o jovem Adriano, o mais novo; tão novo que parecia uma criança perto dos outros. E foi Adriano que, após um chutão despretensioso, ficou sozinho contra o goleiro adversário. Meu vizinho e eu nos levantamos. De pé na frente da televisão 29 polegadas, parecíamos dois fiéis reverenciando um altar. Seu semblante era de desespero, porque eu finalmente poderia vencê-lo após quatro meses. Ainda há pouco eu era um adulto, pensando em como dar prazer a uma garota, e agora a vida se resumia a fazer valer a substituição do mais velho pelo mais novo, e, com os pensamentos novamente confortáveis dentro da cabeça, vencer aquele clássico italiano do Play Station, na lan house do Nino.

 

Jonatan Magella nasceu em 1990 e vive em Nova Iguaçu/RJ. Publicou Vidas irrisórias (contos, 2018) e Desculpe o transtorno (dramaturgia, 2019). Tem dezenas de contos em revistas e coletâneas nacionais. Organiza o evento literário Aleatórios.

 

 

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136ª Leva - 03/2020 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Dheyne de Souza

 

Imagem: Roberto Pitella

 

Memória

 

memória, essa lâmina que não vem só com corte mas o cheiro dos móveis o vapor do olhar a temperatura do dolo
as horas em torno

memória, esse som
que escava
regurgita
apodrece
o urro mais largo
o vazio da prece

memória, essa língua dentada
esse punho tombado
essa voz sem assento

memória
esse eco sozinho
esse tempo sombrio

a saudade de cada

memória,
esse espólio de guerra

 

 

 

***
 

 

nãos tempos

 

não temos tempo de perder o trem
olhar no olho
parar ouvir
não temos, tempo, veja bem as horas
veja bem a
veja

não temos saldo paz joelho asilo
temos fome miséria temos filhos
não temos tempo de pedir à mãe ao pai à amada
pátria, não temos tempo de dizer
não

não temos tempo de tratar a morte o açoite a voz
não temos tempo de temer
sequer

 

 

 

***

 

 

 

ontologia

 

o que é isso que a vida
tem feito conosco

passam-se os anos
fincam-se as farpas

o que é isso que o tempo
crava na pele
enrugando a coragem
constipando a voz

o que é isso que a gente
tem permitido
jazigos de sonho
esses nossos co
pos

o que é isso amigo
você está longe
aonde foi que embarcamos
ou

o que é isso que há
feito fumos lúcidos
tragamos
o que mais podemos

o que é
escute
não olhe no espelho

em que ponto da rua
nos

 

 

 

***

 

 

 

amor dest’era

 

o nosso amor tem o som de um animal sofrendo

o nosso amor, eu não sei, anda puxando uma perna
ou talvez tenha deficiência de sol

o nosso amor, parece, dorme no enorme vão de ar que atravessa nossas espinhas
à noite

o nosso amor tem visto demais e escutado palavras extremas

o nosso amor perece
não sei
perdendo
até aqui

o nosso amor tem uma bala
no ventre

 

 

 

***

 

 

 

à meia voz envio
um sorriso
um alento
uma mão
uma linha
quem sabe para guardar, quem sabe para sempre, quem sabe em algum lugar virtual onde a memória suspende onde compartilhamos a vida quem sabe pra gente com certeza pra poucos que sentem mas os bem poucos e seu poder imensurável que se querem sabem de tudo e usam sem rastro a vida moldando a memória soterrando o bagaço ameaçando a mão esfumando o alento apreendendo sorrisos
essa meia voz não
é o nosso presente
não cala

 

 

 

***

 

 

 

ah a vida e esse cheiro que vela
como um cavalo no escuro no pesadelo da espora
como uma grama que acorda molhada pra ser pisada
como um refém que habita o esconderijo da porta
como uma escolta. paulatina. versando que a vida há

 

Dheyne de Souza é goiana, está morando em São Paulo e sustém um blog. Tem um canal de leitura de poemas, em parceria com Helô Sanvoy. Os poemas desta seleção estão no recém-lançado “lâminas”, pela Martelo Casa Editorial.

 

 

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136ª Leva - 03/2020 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Viviane de Santana Paulo

 

Imagem: Roberto Pitella

 

Chamam-no de coronavírus

E eis que o mundo parou em março de 2020! E precisamos manter distância uns dos outros e permanecer isolados dentro de nossas casas como em prisões domiciliares. As ruas estão sem os automóveis, as calçadas sem os transeuntes, o comércio sem os compradores, os escritórios sem os executivos, os restaurantes sem os fregueses, as escolas sem os alunos. A imobilidade e o silêncio despencaram em pingos grossos e rápidos sobre as cidades e o vento morno sopra tranquilo.

Estou sentada a uma minúscula mesa, na pequena sacada do quarto de uma pensão simples, em uma capital qualquer dos cento e noventa e três países deste planeta. De pijama, tomo um café e escrevo no computador. Os voos foram cancelados, não sei quando conseguirei marcar um de volta para o Brasil. Vim a trabalho. Alguns países evacuaram seus cidadãos. Mas existem pessoas, como eu, que tiveram azar e permaneceram encalhadas em alguma cidade, sem a possibilidade de regresso. Ou porque as cidades estão fechadas, isoladas, e elas não conseguem chegar até o aeroporto. Ou porque os voos foram cancelados. Ficar presa em um quarto de pensão, em frente a uma larga avenida, com o verde fresco das árvores farfalhando, não é desesperador. Mas a morte que ronda à minha volta. A sorrateira e silenciosa morte que arranca de nós nossos entes amados.

Nenhum veículo transita na avenida. Ambulâncias são vistas solitárias nas ruas. Choveu anteriormente. Neste instante o sol brilha morno às dez e quinze da manhã, a luz atinge os vínculos e as superfícies, e as sombras são mais escuras quando a claridade é mais intensa. O céu está limpo sobre a cidade sórdida, a cidade que não trabalha. Da sacada, se eu olhar para leste a rua é chata, sem comércio. Para oeste, as lojas e os escritórios estão fechados. Alguns metros adiante o Mercado ergue sua cúpula sobre as barracas vazias que possuiriam mercadorias à venda, as carnes, os legumes, os peixes, as especiarias nacionais e internacionais. Caminhando para o ocidente encontrariam-se muitas pessoas nos restaurantes, bares e teatro.

O mundo parou e, você sabe, Noa, não foi porque a Humanidade finalmente reconheceu aquilo que fazia de mais errado e imobilizou-se para recomeçar, corrigindo as desnecessárias injustiças e construindo união! Inclusive, especialistas alegam que devemos aproveitar esta interrupção involuntária e abrupta e tentar realmente diminuir as injustiças, buscar a cumplicidade e a irmandade. Alegam que o capitalismo infrene adoece as sociedades, cada vez mais. Prejudica a Natureza. Que deveríamos criar uma nova forma de crescimento e redistribuição de riquezas e de garantias de recursos básicos para todos. Que necessitamos desenvolver uma economia renovável e humana, para não disseminar injustiças sociais.

Mas sabemos, não foi por causa da conscientização dos povos que o mundo parou! As nações conheciam os seus erros e continuaram desenvolvendo ávidas produtos de consumo descartáveis e inúteis, e incentivavam o irrefreável crescimento econômico à custa de determinada camada da sociedade e de certos países.

E, além disso, querido, a vida moderna com os amplos meios de comunicação, também incentivava as amizades como a nossa: somente pelo whatsapp e facebook. Sem tempo para o encontro pessoal e para a conversa profunda sobre a vida, as conquistas, as decepções, os planos e os desejos. Você é um dos meus inúmeros amigos superficiais que orbitam na minha vida como satélites que enviam constantes mensagens supérfluas: vídeos, dizeres, piadas, fake news.

Nós nos conhecemos em uma festa. Lembra? Conversamos, dançamos juntos, comemos. Combinamos sair para jantar e fomos ao cinema e saímos de novo para jantar e, naquela noite, acabamos na minha cama. Lembra? Eu poderia ter te amado quando minha boca sugou a carne de teus lábios, minhas pernas cruzaram o teu quadril, quando nossos corpos se encaixaram. Você a chave eu a fechadura. Lembra? Fomos a troca de carinhos e segredos, instinto e espírito. Naquele momento, permiti que você entrasse na minha vida como se você pudesse ser a outra metade de mim, me refazendo, me protegendo. Querido, eu quase te amei, mas você não viu nenhuma vantagem no doar-se.

Desde então, nos comunicamos pelo whatsapp. E você já deve ter se dado conta que nos encontramos apenas raras vezes, casualmente, em algum evento ou em bares frequentados por amigos em comum. Trocamos sorrisos e frases sucintas sobre temas irrelevantes. Claro, somos adultos! Estou com trinta e quatro anos e continuo trabalhando para uma indústria farmacêutica, como representante de medicamentos para hospitais, e viajo muito – quer dizer, viajava. E você, com trinta e oito, deve ainda estar trabalhando na área de informática. E sem poder viajar. Era comum as pessoas viajarem a trabalho dentro e fora do país, viajavam por tudo quanto é canto o tempo todo! Não é?!

Antes de o mundo parar, ninguém possuía tempo, não é verdade? Havia uma força maior que nos obrigava a usar o nosso tempo livre para fazer compras, ir a bares e restaurantes cheios de gente e postar as fotos no facebook, Instagram, twitter.

Agora o mundo parou e somos obrigados a refugiarmos no interior de nossas casas. Como se aceitássemos o convite da Pampinéia, em Decamerão. Estamos confrontados com esta realidade que nos proporciona tempo e silêncio, mas não somos capazes de desenvolver uma narração honesta e substancial para os nossos dias e para o nosso futuro. Creio que precisamos de um novo vocabulário que inclua todas as boas características humanas.

Agora a ordem é isolar-se, como se tivesse existido a proximidade entre nós. Como se tivesse existido o diálogo. Como se cada um não lutasse por si. Como se, de novo, o nacionalismo e o egoísmo e a ganância não estivessem se expandindo rápido.

Está proibido o amontoado nas praças, nos shoppings, nos restaurantes, nos cinemas, nas festas, nos concertos e shows, nos estádios de futebol…

Vivíamos amontoados, mas não vivíamos realmente uns com os outros. Vivíamos sufocados nos congestionamentos, nas filas, submetidos aos ruídos, ocupados com inúmeras futilidades.

Antes de o mundo cessar era difícil respeitarmos a Natureza, conhecermos nossos verdadeiros amigos, nos dedicarmos aos nossos parentes.  A lei era trabalhar e consumir. Vivíamos incorporados na massa, conduzidos pela massa, auto-protegidos e aliviados na massa. Cegamente obedientes e multiplicáveis na massa.

Porém, você me dirá: “Márcia, somos seres sociais e necessitamos dos outros, da multidão, do ruído, da confusão”. E eu te respondo: Mas de que maneira? De que maneira eu preciso de você? Penso que poderíamos realmente dialogar e nos conhecermos a ponto de nos importarmos um com o outro.

Agora estamos solitários, cada um consigo mesmo, e não existe nada mais solitário do que estarmos sem o outro de nós, sem o outro semelhante, sem o confronto com o diferente.

Os animais aproveitam a falta de humanos espalhados e invadem as cidades. Leio nos jornais, na internet, sobre casos de raposas passeando nas praças, no final da tarde. Cabras, que se limitavam nas montanhas, excursionam pelas calçadas e ruas desabitadas e experimentam a culinária das plantas nos jardins das casas. Golfinhos curiosos fazem turismo nos canais de Veneza. Gansos e flamingos banham-se nos lagos urbanos. Leio sobre o ar purificado do planeta. A alta emissão de gás carbônico sufocava a Terra. A camada de ozônio igualava-se a um casaco velho, rasgado e cheio de buracos. Já não servia para nos proteger dos raios ultravioletas.

Recebi vários vídeos mostrando os vizinhos cantando nas sacadas dos prédios. Você também deve ter recebido! Alguns são cantos improvisados, outros verdadeiros concertos acompanhados de instrumentos.

Vocé me dirá: “Márcia, isso é um gesto de solidariedade indispensável neste tempo. Revela que somos unidos também em momentos difíceis e procuramos consolar uns aos outros!”. Eu te pergunto, por que não podemos ser sempre assim solidários? Há muitos vizinhos que nem sequer se cumprimentam! Não é verdade que todos nós possuímos nossas dificuldades e precisamos, em algum momento, de gestos de solidariedade e consolo e não recebemos? Em vez disso somos demitidos, humilhados, recebemos salários insuficientes, estacionamos na vaga de idosos ou pegamos a vaga de alguém, furamos a fila, cobramos mais caro…

Não me entenda mal, Noa, apenas desejo que os gestos sejam sinceros e frequentes, mesmo depois de não existir mais razão para o mundo parar!

Faz dez dias que o mundo parou e a primeira medida tomada pelos países ricos foi adotar a pronta retórica bélica e fechar as fronteiras: estamos em guerra contra um inimigo invisível, disseram os políticos.

O trabalho em conjunto é difícil. Unir-se diante de uma ameaça comum e apátrida, diante de um inimigo microscópico que não faz distinção de nacionalidade, fronteira, cor ou classe, parece ser difícil. Surge a desconfiança do outro, o outro passa a ser o disseminador de um vírus mortal. Eu te pergunto, não é estranho que, quando se trata de acordos econômicos, o mundo se torna internacional. Por outro lado, quando se trata de acordos humanitários, as fronteiras se fecham e logo adotamos o vocabulário bélico?

As máscaras caíram e as máscaras que nos protegem estão escassas. Tão escassas que logo se tornaram uma razão para a pirataria e a corrida vertiginosa pela aquisição do precioso artigo. Um país acusa o outro de pagar mais pelas máscaras e respiradores cujo contrato de compra já tinha sido fechado. Outros roubam no trajeto de transporte. A Guerra das Máscaras provocou tensões até mesmo entre países aliados tradicionais. Quem oferece uma soma maior, ganha!

Entramos na era das máscaras. Agora somos obrigados a usar máscaras nos supermercados, consultórios médicos, dentistas… mas estas máscaras são diferentes daquelas que jamais deixamos de usar. Nunca deixamos de ser um animal racional cheio de máscaras apropriadas para distintas situações. Até mesmo máscara para proteger ou ludibriar a nós mesmos possuímos. Somos seres de máscaras diversas na nossa fisionomia, no nosso espírito. A maioria serve como revestimento da nossa fragilidade, uma espécie de pele grossa que nos protege dos outros e os outros de nós. As nossas máscaras, que alternadamente usamos, são diferentes destas. Elas não são visíveis, embora algumas pessoas as enxerguem, em alguns casos. As nossas imanentes máscaras invisíveis conduzem-nos a crer que não as usamos.

Penso que não precisamos de máscaras, que a nossa inteligência pode ir além, que podemos nos desfazer dos instintos primitivos e evoluir em conjunto.

O inimigo possui a chave e entra sem dificuldade para furtar informação e refazer-se, reproduzir-se e destruir a célula. E o corpo torna-se um universo em desequilíbrio. O inimigo nos lembra que somos nada mais do que corpo e alma, limitados e perecíveis. E não somos peça substituível dentro de um sistema de produção, embora há quem tente nos fazer ser. Somos seres humanos em tudo o que fazemos e podemos — diz Confúcio — não se deve tratar o ser humano como se fosse ferramentas.

As indústrias farmacêuticas ainda não criaram um remédio contra esse mal. Ela própria é hipócrita e cínica em algumas circunstâncias. Sei bem do que falo, trabalho para uma! Transformamos as doenças em algo lucrativo. Na lei do mercado capitalista tudo pode ser convertido em compra-venda-lucro. Sem as indústrias farmacêuticas, no entanto, não teríamos os medicamentos. Ela e os investimentos em pesquisas científicas são fundamentais. Somente a ganância e a desvalorização da vida humana acima do alto lucro são imorais e antiéticos. Se os medicamentos são feitos para salvar vidas, pessoas não deveriam morrer por não possuir meios financeiros para a aquisição de medicamentos.

Como a Humanidade aprende com as catástrofes? Eu diria que depende das sociedades. Algumas procuram mudanças propícias. As sociedades instáveis sucumbem à má organização, à arraigada corrupção e à falta de recursos. A Humanidade não é homogênea, ela é composta de diversas sociedades heterogêneas em concorrência umas com as outras. Até que ponto esta concorrência é primordial? Você já pensou nisso? É realmente imprescindível o crescimento econômico irresponsável? Ou haveria um outro tipo de crescimento, um crescimento horizontal, regularizado? Um crescimento baseado no respeito, na solidariedade, na proteção, não seria a chave para o futuro promissor?

Sei que não é possível responder estas questões aqui, Noa, sem tocar no nome de Adam Smith, na falsa verdade de que o mercado é livre e deve ser livre e regulariza-se por si só. Sem mencionar a economia peculiar dos povos denominados primitivos. Sem mencionar a destruição destas economias em nome do “mercado livre”, que de livre só possui a obediência na vontade e no poder dos mais ricos. Sem mencionar a colonização e a escravidão e o imperialismo. Sem mencionar Karl Marx e as ditaduras de esquerda e de direita. Sem mencionar Keyne, Hayek, Ricardo e Friedmann, Polanye e Piketty.

Não tem espaço aqui para toda a evolução e as falhas do capitalismo, a sacada é pequena.

Ouvi na rádio, agora há pouco, que as pombas estão passando fome nas praças e nas ruas desertas. Não há mais restos de alimentos caídos no chão. A voz fazia um apelo para não deixarmos as aves definharem assim cruelmente. Coloquei alguns pedacinhos de pão no chão da sacada.

E as pessoas que estão morrendo de fome nas favelas, definhando de fome nos países pobres? Passando fome porque o mundo parou em razão de um vírus que circula propagando nossa mais expansiva fragilidade. Chamam-no de coronavirus, e é originário provavelmente de um mercado de animais selvagens, em Wuhan, na China. Existem animais que não devem ser devorados pelos seres humanos. As pessoas estão confinadas em suas casas para se protegerem, para combater a disseminação do vírus. Mas há aqueles que não possuem casa, que precisam sair de suas pobres moradias para trabalhar, senão morrem de fome.

Há os mais frágeis que os frágeis nesta Humanidade frágil!

Sentada à mesa na sacada, não canto. Passarinhos cantam. Estou aqui só, neste minúsculo espaço, captando o mundo através da internet. Penso na minha família, nos meus amigos, nos meus amores, e escrevo para você que muitas vezes não me responde, muitas vezes não lê o que escrevo, para te dizer que: precisamos tomar conta também de quem toma conta de nós. Talvez um dia você entenda isso!

Longe do meu país, distante de minha família, possuo a internet como um transporte no tempo e espaço. Com a internet alcanço as pessoas próximas de mim, aquelas que me fazem falta. Com a internet leio sobre os acontecimentos no mundo e as estratégias para a desinformação, me informo e combato as desinformações que determinados grupos procuram tenazmente inserir em nossa mente para dominar nossas células e a partir daí propagar-se doentiamente.

Chamam-no de coronavirus, porém, tantos outros vírus convivem conosco e nos matam, sem que indetifiquemos a verdadeira causa. O vírus do preconceito, do racismo, da ganância, da avareza, do ódio, da desonestidade, da inveja. Matam sem que notemos. Humanos morrem como formigas sob a pesada sola da sandália deste gigante obeso e horrendo. Esses gorgones – meio humano, meio monstro – sempre dispostos a liquidar os mais frágeis sem a mais ínfima compaixão.

Meu colega de trabalho está na UTI, ele tem 39 anos e é pai de três filhos. O mais novo tem dois anos. Torço por ele! Estou preocupada com a minha família e amigos e triste com todas estas mortes.

Ah, tá bom! Você dirá que é natural pessoas morrerem de doenças. “É bom, Márcia, porque o planeta está superpulacionado”. Não é? Não podemos tirar a vida do outro, mas a doença pode fazer isso por nós, para que haja equilíbrio no planeta. Você acredita nisso realmente?

Trabalho para uma indústria farmacêutica, vendo medicamentos que salvam vidas, que liquidam doenças. Medicamentos criados pela inteligência humana. Você certamente considera natural que a inteligência humana crie medicamentos potentes! É natural que lutemos pela sobrevivência e que busquemos formas dignas de vivência e convivência. Por que então crer que seria natural permitirmos pessoas morrerem para um suposto equilíbrio da Natureza? Desta mesma Natureza que destruímos?

Alguém bate à minha porta. Deve ser o pessoal de limpeza. Deixo a sacada e sigo a abrir a porta. O jovem de pele escura e olhos negros brilhantes deseja limpar o quarto. Conversamos mantendo distância de no mínimo um metro e meio. Vejo sua boca se mover por trás da máscara azulada e suas mãos enluvadas segura um pano. Bom dia, senhora! A senhora quer que eu limpe o quarto?

Sim, por favor! Permito que entre e me refugio de novo na sacada.

Ele faz parte daqueles que não podem se dar ao luxo de ficar em casa. Ele é obrigado a se expor ao risco. Sua vida vale menos neste mundo antropofágico.

Há muita incivilização neste civilizado mundo aporofóbico!

Depois que a limpeza do quarto terminou, tomei banho, me vesti e almocei na sacada.

 

As horas se esvaíram, a claridade do dia está minguando, e me sinto asfixiada. Não é de hoje que esta Humanidade me asfixia! Pretendo me mascarar e fugir para o ar livre, passear no quarteirão sorrateiramente. Mas não encontro a chave, a bendita chave!

 

Viviane de Santana Paulo é poeta, tradutora e ensaísta, autora dos livros, Viver em outra língua (romance, Solid Earth, Berlim 2017), Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Publica poemas em revistas e jornais, entre eles, Suplemento Literário de Minas Gerais, Inimigo Rumor, Jornal Rascunho, Poesia Sempre e Coyote; assim como nas revistas Argos e Alforja (México). Atualmente, vive em Berlim.

 

 

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136ª Leva - 03/2020 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

É impossível não carregar os sintomas do mundo. A frase, dita assim num arremedo inicial das ideias, não é algo leviana na medida em que todos nós, de algum modo, estamos amalgamados ao que se chama de vida real. E pronunciar a palavra mundo, como um complexo e vasto território de apreensões da experiência humana, pode aclarar a compreensão dos fenômenos que dizem respeito ao coletivo. Nesse sentido, enxergar-se como sujeito é jamais negar a afetação dos temas engendrados no tecido social, na contraposição de ideias e sentimentos com os demais semelhantes, no conflito que emana das relações entre as mais distintas correntes do pensar.

Não basta a mera constatação de que somos seres políticos por natureza, pois é necessário dar o passo adiante. Reconhecer-se político é mover as forças que vão do pensamento à ação, catalisar revoluções internas e pessoais no sentido de que estas estejam a serviço de uma manifestação de implicações práticas no conjunto da sociedade. No mister da Literatura, por exemplo, a palavra é epifania, gozo, partilha e comunhão de ideais que segue ao encontro de um Leitor, por vezes desconhecido, quiçá ensimesmado nas suas convicções íntimas, mas que pode ser convidado a reagir diante daquilo que lhe é apresentado. Obviamente, no jogo das naturais tensões entre emissão e recepção, há que se considerar a aparição plausível de uma plataforma crítica que pode apresentar consequências imprevistas originalmente. E a virtude de todo esse processo de enfrentamento pode também estar na faísca da provocação e da dúvida.

Falar de uma consciência aguçada de mundo é falar de uma escritora como Clarissa Macedo, poeta investida no percurso lúcido da vida. Na confluência de sensações, a autora é porta-voz de um olhar que se nega a fazer concessões diante do avanço atual e permanente da barbárie que intenta nos devassar. Seu livro mais recente, o instigante “O nome do mapa e outros mitos de um tempo chamado aflição” (Ed. Ofícios Terrestres, 2019), é tributário de um painel de sentimentos que se afiguram revestidos de uma expressão política e filosófica capaz de posicionar os versos na condição de pujante interpelação do mundo.

Clarissa, que também é revisora, pesquisadora e doutora em Literatura e Cultura, faz de sua poesia um instrumento de ação, demandando de seus leitores uma atitude jamais passiva quando o tema é pensar as questões que afetam sobejamente nossas humanidades. E não há, no ofício da poeta, verso algum que corra solto, dizendo algo por dizer, sem a correspondência com uma habilidade de manejar tanto os domínios formais da palavra quanto as ideias e sensações em curso. Dito isso, não é demais considerar que a autora é uma das importantes vozes da literatura brasileira contemporânea, qualificação que também pode ser aferida pela leitura das suas outras obras: a plaquete “O trem vermelho que partiu das cinzas” (Ed. Pedra Palavra, 2014) e o livro “Na pata do cavalo há sete abismos” (Ed. 7Letras, 2014), que obteve o Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia, tendo, em 2019, sua 3ª reimpressão pela Penalux, além de ser traduzido ao espanhol por Verónica Aranda (editorial Polibea, Madrid, 2017).

Atenta às indagações que lhe foram ofertadas, Clarissa Macedo concedeu gentilmente uma entrevista para a Diversos Afins. No transcurso da conversa, a obra da poeta esteve em evidência, demarcando de modo especial a visão de mundo dotada de uma dicção intelectual que harmoniza inteligência e sensibilidade, ferramentas indispensáveis inclusive na reflexão sobre alguns dilemas da contemporaneidade.

 

Clarissa Macedo / Foto: Ana Reis

 

DA – Não é possível falar do seu novo livro sem primeiro ressaltar essa verdadeira cartografia dos afetos que foi construída ao longo de sua trajetória, sobretudo em cima dos laços estabelecidos através da grande rede. Some-se a isso o fato de você também dedicar a obra a expoentes da resistência feminina e negra, tais como Carolina Maria de Jesus e Elza Soares. O que dizer desse conjunto inicial de sentimentos?

CLARISSA MACEDO – Michel Maffesoli fala que é preciso voltarmos ao coração. Ideia esta, acredito, alojada sob uma episteme que demanda à humanidade reinventar-se, através do amor, para existir. Eu compartilho desta noção. A literatura é meu modo de estar e me reconhecer no mundo; sempre foi assim e o é cada vez mais. Nesta existência por meio do literário tenho colhido mais alegrias do que qualquer outra coisa. Nesse sentido, minha palavra, que em “O nome do mapa…” é empregada, sobretudo, como artefato bélico contra os desmandos destes tempos, abre-se à celebração do amor. Todas as pessoas que ali estão mencionadas contribuíram de distintas maneiras para a feitura do volume e, assim, para minha existência. Não podia deixar de levá-las comigo, de agradecer pelas contribuições afetuosas. Esse conjunto de poemas foi tecido a partir do gesto da inquietação que anseia por uma mudança efetiva, que caminha pela sobriedade e que acredita na capacidade da consciência como forma de revolução. Por isso Carolina, símbolo de resistência e amor à escrita; Elza, maga da música de todos os tempos; e Irina Henríquez, poeta e cineasta da Colômbia, país irmão com o qual temos muito que aprender – vozes negras e indígenas que precisam ser lidas, ouvidas, respeitadas. Então, apesar dos tempos de angústia que o livro aborda, o chão dele é arado pelo movimento do afeto. É necessário guerrear com flores nas mãos.

 

DA – É emblemática sua última frase sobre guerrear com flores nas mãos, ainda mais no estado de coisas atual em que vivemos. Diante de um país e mundo cada vez mais distópicos, o que representa a sua assunção de praticar uma literatura marginal?

CLARISSA MACEDO – A literatura é, por si só, marginal. Por isso cumprir este caminho como tenho feito – estudando, pensando e optando por uma carreira profissional (a de revisora) que está ligada à palavra – requer coragem. Escrever é contornar o mundo com uma faca que grafa sentidos e dissidências; às vezes dói, quase sempre sangra, pois na Terra o capitalismo domina todas as esferas: social, econômica, afetiva, política. Coisa mais esquisita é a expressão “capital humano”, que me recorda Antonio Candido quando este diz que “O capitalismo é o senhor do tempo. Mas tempo não é dinheiro. Dizer que tempo é dinheiro é uma brutalidade. Tempo é o tecido de nossas vidas”. Acessar a literatura é manejar a descoberta, a separação entre Tânatos e Cronos, é celebrar a vida em sua dimensão mais profunda, a dimensão humana, rejeitando o projeto perverso de capitalizar a humanidade. “O nome do mapa…” é, nesses termos, o resultado de minha obsessão em cartografar a palavra poética como resistência à necropolítica – algo totalmente descentrado. Mas quem se importa? Como este livro escrito por uma mulher baiana com cheiro de fábrica pode incomodar o deus mercado? Eu poderia falar sobre o meio editorial e tantas outras coisas, mas só digo que se meu livro puder oferecer a alguém uma alternativa ao “capital humano”, algum tipo de devassamento de fronteiras, tudo valerá a pena.

 

DA – Fazendo alusão ao sentimento que atravessa um poema como “Desconhecida”, a constatação do tempo com status de aflição é verdadeiro desabafo. Acredita na ruptura de nossa inércia estrutural a ponto de podermos mudar as coisas?

CLARISSA MACEDO – No poema, “as utopias acabaram em nome da televisão”, entrecruzadas pelo desencantamento, anunciado por Weber como resultado do avanço do capital para todas as relações – e destaco a esfera religiosa institucionalizada, que seria responsável, a princípio, pela perpetuação da espiritualidade. No sistema regido pelo financeiro, o sagrado, o sonho, o rito, a poesia, em seu sentido mais pleno, não têm lugar. Esvaziar estas categorias é roubar do ser humano a sua identidade, deixando-o à mercê do consumo da matéria como forma de preenchimento, forma esta incompleta e desabitada e, por isso mesmo, mantenedora do sistema, pois se nunca encontra verdade e razão, nunca se satisfaz, comprando e comprando para aliviar uma dor que nem sabe que sente. Ruir com toda essa arquitetura bem projetada é um desafio sem precedentes, sobretudo quando vemos partidos de extrema-direita, defensores do ultracapital, ressurgirem, ganhando espaço no mundo. Por outro lado, isto é reflexo de um maquinário que se sabe prestes a ruir, já que o planeta não poderá seguir caso a exploração continue do modo como está. Para que possamos sobreviver, precisaremos nos reinventar, e para isto a humanidade é qualificada. É frustrante que não mudemos pelas razões certas, por uma ética ecológica e do amor. Mas, talvez, a sobrevivência nos ensine, além de sua própria função básica, a sermos mais solidárixs.

 

Clarissa Macedo / Foto: Ana Reis

 

DA – Em seu livro “O Amanhã não está à venda”, o escritor e líder indígena Ailton Krenak nos lança uma importante provocação, fazendo-nos questionar a nós mesmos se somos realmente uma humanidade diante dos maus tratos impostos à natureza e da ampliação atroz das desigualdades sociais. Acredita que estamos experimentando um largo processo de desumanização em escala global?

CLARISSA MACEDO – Desde sempre nos desumanizamos (ou nos humanizamos?) através da barbárie. Entretanto, com a noção de propriedade, que se estende à mulher, ao outro e à natureza como objetos manejáveis e subservientes, que perdem o status de ser, o processo de desumanizar-se foi intensificado. E são estas noções/práticas que fundamentam o imperialismo e o capital. Portanto, o que vivemos hoje é um processo há muito iniciado, mas potencializado agora porque quanto mais se aprimoram a tecnologia e as ciências mais estas escapam de uma bioética para serem empregadas em nome da dominação. Os povos indígenas vivenciam isso desde que suas terras foram invadidas por navegadores. Hodiernamente, tudo isso espanta porque, após duas severas Guerras Mundiais e tantas outras de independência, além da criação dos Direitos Humanos, dentre outras questões, supôs-se que havíamos aprendido algo; enquanto não descobrirmos a verdadeira matriz do hibridismo cultural, vendido como cosmopolita, mas que, ao fim e ao cabo, serve para a manutenção da colonização (mental, e por isso simbólica e factual ao mesmo tempo), e nos centrarmos numa visão de mundo ecocrítica, geopoética, inclusiva, caminharemos rumo à devastação, ao desumanizado porque extinto.

 

DA – Estarmos imersos hoje num contexto de pandemia expôs mais ainda nosso fracasso civilizatório?

CLARISSA MACEDO – O que direi agora soará como contrassenso se comparado às respostas anteriores: não posso admitir que fracassamos, ao menos não totalmente. A pandemia tem exposto, sim, especialmente no caso “Brazil”, uma feição genocida que parecia irremeável pós-Constituição Cidadã de 1988 e tantos outros avanços globais significativos. Mas cá estamos, sob um governo preocupado com a abertura de shoppings centers (templo-ícone do capital) em detrimento da preservação da vida. Mesmo assim, creio ser possível sacarmos uma lição valiosa disso tudo – e para tanto temos a arte, que, além de grande manifesto sobre esta era (seja no viés político mais imediato, seja na pungência que debilita o humano, seja, ainda, como reino-refúgio), propicia a criação de dimensões imaginárias que podem instituir uma nova cidadania. Permita-me trazer à baila um pequeno poema de “O nome do mapa…”:

Prece

Na vida,
aprendi os salmos perdidos;

são eles que me pegam
quando o continente
cobre os meus olhos
de deserto.

E a literatura é, também, isso, uma acolhida quando o inóspito parece ser o único plano sondável.

 

DA – Em que nível você carrega em si o atributo do otimismo?

CLARISSA MACEDO – Deleuze alerta que migramos da sociedade disciplinar para uma de controle. E, apesar de a engrenagem do capital ser uma obra-prima do ponto de vista propagandista e como sistema de dominação, o pan-óptico não transita imune. Há, nesse aspecto, uma reação, um retorno ao sagrado, ao simbólico, a um estado de poesia, ou seja, uma rejeição ao numerário como forma predominante da existência, delineando a urgência de um reencantamento. Concepções como o veganismo e a crescente de religiões, em linhas gerais, de matriz panteísta demonstram uma demanda pelo telúrico, o seio original de tudo o que pulsa no planeta. Reencantar-se entrecruza, desse modo, a natureza, a arte e a reapropriação do tempo, não mais a serviço do acúmulo monetário e exploração. A vida, em sua definição concreta e inteira, passa a ser prioridade. O reencantamento é esperança: “Às vezes, / fabricamos finais do mundo / sonhando com o próximo passo.”.

 

Clarissa Macedo / Foto: Ingridy Lima

 

DA – Qual a diferença da Clarissa de “Na pata do cavalo há sete abismos” para a Clarissa de “O nome do mapa e outros mitos de um tempo chamado aflição”? 

CLARISSA MACEDO – Toda a diferença (risos) – embora eu mantenha certa identidade de escrita. “Na pata do cavalo…” me parece um livro político; não apenas na acepção de que toda literatura é, em si, um ato político-revolucionário, mas pela abordagem de temas como a dureza vivida na minha infância – e na de tantas pessoas -, o preconceito e o abandono das instituições. E nisto ambas produções comungam. Contudo, estas discussões no livro anterior estão sob a pele de uma metáfora mais incisiva e sob o signo da palavra em uma cariz mais velada. Hoje, sou capaz de reconhecer estes traços, incompreensíveis à época de feitura – uma composição na qual eclodiram várias centelhas que há muito se resguardavam em meu peito. Agora sou outra poeta. Em “O nome do mapa…” optei (inconscientemente, talvez, do ponto de vista estético) por um discurso mais direto, mas não menos imagético, e por um debate imediatamente político. Desde o golpe de 2016, coroado pelo machismo consentido nas instalações governamentais, passando pela ocupação da extrema-direita e desembocando numa ferida quase que total das estruturas democráticas nacionais, tenho sido atravessada pela indignação. E este foi o motor da poética dos mapas. Mesmo nos poemas mais líricos e amenos, por assim dizer, é o traje da tentativa de escape e sobrevivência que me veste. A condição da classe economicamente desfavorecida no Brasil, minha origem, está devassada no livro. Vou costurando os impostos abusivos, a fome, as injustiças, a derrocada da democracia… até chegar ao ímpeto de recontar a história brasileira – é necessário voltar ao início para entender os entre-meios. Admiro autorias que se diferenciam em cada obra mas mantêm uma unidade poético-vocal. Isto é algo que almejo obstinadamente ao construir um trabalho. O próximo livro de poemas que estou tecendo apresenta uma voz completamente distinta da presente nos anteriores.

 

DA – Seria insuportável conceber a realidade sem a Arte? 

CLARISSA MACEDO – Primeiro, é necessário pensar no que “aparta” a realidade da ficção. Muitxs autorxs versaram sobre o tema. Umberto Eco, dentre outros, questiona o que diferencia o universo ficcional (artístico) da verdade histórica. Isto me conduz a refletir sobre o conceito de verdade. Nietzsche me toma pela mão em sua “Segunda consideração intempestiva” para questionar a história e sua definição ao longo do tempo. São diversos pontos de diálogo e indagação. Marcia Tiburi, no prefácio de “O nome do mapa…”, escreveu: “Eu vou me permitir dar livremente esse nome simples e conhecido ao sentimento que emana dos poemas de Clarissa: Luz. Alguma coisa em nós pede essa luz, a luz da poesia como um voo de vagalume no meio do breu.” (Grifos meus). Para mim, não só a poesia, mas toda a arte constitui algo que redimensiona e potencializa o que chamamos de realidade – este fio tênue entre a dita razão e a dita loucura -, guiando-nos com um facho em meio à desesperança. A física quântica indica que o tempo e o espaço como timidamente conhecemos são mais expansivos e enigmáticos. O ponto, para não me alongar, é: estamos longe de saber o que são, ao certo, realidade e ficção. O que sei, contudo, é que a arte, enquanto aparato estético-narrativo…, por fomentar um suprafactual e por dar significado à vida e à história de maneira ampla e surpreendente, torna a existência mais sensível e instigante. Seria insuportável um tipo de realidade sem arte porque esta confunde-se com a própria vida.

 

DA – Afinal, por que escrever?

CLARISSA MACEDO – Afinal, por que viver?

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras.

 

 

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136ª Leva - 03/2020 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Jorge Elias Neto

 

Imagem : Roberto Pitella

 

FOLHAS SECAS DE OUTONO

 

Paixão, esta folha de outono,
luz incerta de raio obliquo,
que desperta viva no entorno
do fogo, o tremor de um aflito.

Sou um ser do outono, de um crepúsculo,
que faz brilhar o olhar dos loucos,
e faz o horizonte fecundo
ao germe melancólico

dos suicidas, dos sem afeto.
E a carne, arfando, sem um rumo,
em busca de um pouso, de um teto,

tem no rubro da tarde o lúmen,
a medida de tudo, o concreto
do frio, da origem do Mundo.

 

 

 

***

 

 

 

SONETO SEM TETO

 

O tédio faz brotar o Eu perverso,
nos cantos esquecidos dos escombros,
e da sombra, o rugido do universo
surge na boca imensa do ser manso.

Pois se o calor emana da tristeza,
e a paixão é pólvora do selvagem,
o sopro faz tremer a chama acesa,
e a urgência é a medida da voragem.

E nada sobra que se preze e guarde
àquele ser que se debate firme
contra uma vida que esmaga e late.

Resta o engate ao cerne da maldade,
sem esperança, se atirar ao crime,
e ser centelha no porvir da tarde.

 

 

 

***

 

 

 

TERCEIRA MARGEM

 

 Para Flávio Viegas Amoreira


A terceira margem, fundo do rio,
aguarda, sob as águas, cada corpo
que pesa e se desprende em voo tardio
tal sonho derramado por um sopro

que faz pesar as pernas, os embustes,
esfacelar espelhos, cortar pulsos,
rogar com desespero por abutres
de voo carniceiro sobre os justos.

E se de tanto nada faz-se o vulto
que tomba do lajedo, da encosta,
se faz estranho o peso, absurdo

o baque sobre as águas maculadas,
é que há um segredo em cada bruto,
levado para o fundo da jornada.

 

 

 

***

 

 

 

O CORADOURO ETERNO

 

O mais é esta pressa interrompida
pelo abraço apertado da tormenta,
na engrenagem que faz fluir a vida,
que traga corpo e tempo na sarjeta.

Mas a luz, que rompe as nuvens convictas,
jaz corando a réstia do que foi presa
de si para si, predador e vítima
do extinto céu, e se tornou soberba.

E o curtume divino ressentido
do rebanho que se danou no Mundo
conta as perdas das reses que, perdidas,

romperam cercas, bem a esmo, imundas
de desespero retinto, suicidas,
buscando espaço nos varais da culpa.

 

 

 

***

 

 

 

SONETO EM CRISE

 

O perdido traz a marca na testa,
esboço do nome, falso retrato,
um corno – caligrafia da besta -,
revolta e um perfil de semblante amargo.

A fala que se esforça em verso, ofensa,
um desmentir inútil do absurdo
que transpassa o ser fútil e enlaça
a criatura com seu silvo agudo,

é um fruir da morte, certeza amarga,
disfarçada em hóstia, na boca posta
do infiel na catedral, mãe das gárgulas,

pois ser temente a Deus é fuga justa
ao que nega à morte sua carne e alma
e segue, hipocondríaco, em meio à turba.

 

 

 

***

 

 

 

SOBRE CASAS E PAIXÕES

 

Para Oscar Gama Filho

 

As casas têm segredos, todas têm,
e não é por medo que silenciam.
Suspenso, nas ranhuras, o desdém
das paredes frente à paralisia

de atores ausentes, sempre despidos,
carentes de desejos, de paixões.
E as casas, sempre lá, ao pé do ouvido,
propondo encontros, vultos, revoluções.

Cada verdade tola, cada cheiro, desperdício,
faz ponderar a casa: uma mudança…
Mas só engodo surge, de novo o vício

do estalo das palavras, vis lembranças,
que nos cantos da casa, feito lixo
do não mais viril, mas da vingança.

 

Jorge Elias Neto (1964) é médico , pesquisador e poeta. Capixaba, reside em Vitória – ES. São de sua autoria: Verdes versos (Flor&cultura editores – 2007); Rascunhos do Absurdo (Flor&cultura editores – 2010); Os ossos da baleia (PRÊMIO SECULT – 2013); Breve dicionário poético do boxe (Patuá-2014); Glacial (Patuá-2015); Cabotagem (Mondrongo-2016); Breviário dos olhos (Edição do autor – 2017); O ornitorrinco do pau oco (Cousa-2018) e Sonetos em crise (Mondrongo-2020).

 

 

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Gramofone

Por Wilfredo Lessa Jr.

 

ADRIANA CALCANHOTTO – SÓ

 

 

A ano era 1992, eu voltava de Itabuna de carro para Ilhéus. A recém-lançada Morena FM tinha se tornado minha predileta por trazer uma “nova música brasileira”, ou seja, me apresentava  novas vozes em faixas não necessariamente de trabalho, com cuidado e boas sacadas. Os primeiros acordes de “Esquadros”, do disco “Senhas”, invadiram o carro e numa era pré-smartphone você tinha de ouvir a música e pedir a Deus que o locutor dissesse o nome do autor/faixa ao fim do bloco, e não no início (doces angústias). Adriana Calcanhotto se tornou uma das musas dos meus 90 e de quatro discos que nunca deixei (Senhas, A fábrica do poema, Marítimo e Partimpim). Esse ano me vi reencontrando naqueles discos um alento, doses de nostalgia contra a ansiedade.

Adriana lançou recentemente o disco “Só”, e aborda a solidão, a política e agruras desses dias. Um trabalho minimalista e marcado pela voz, ora suplicante, ora contemplativa que flutua e traz à tona muito daquilo que me fez manter “Esquadros” em todas as minhas playlists.

Faixa a faixa:

Abrimos com “Ninguém na Rua” – tambores fazendo ponto, leves, eletrônicos e aludindo ao mesmo tempo ao funk e à marcha, ruas desertas, saudades e a dor da distância de quem se quer.

“Era só” – balada agridoce, piano bar, luz incidental e doses fortes de dor on the rocks. “Gostar de gostar de gostar de você” é o tipo de indulgência que só é possível pra quem tem cotovelo dolorido.

“Eu vi você sambar” – como que para desfazer a fossa da faixa anterior, essa tem aquele típico samba/pop que faz as perninhas mexerem por baixo da mesa, clima solar, e uma história de paixão fulminante e esperançosa. Devia vir com a caipirinha pra mesa na mesa.

“O que temos” – faixa que traz o papo sobre o agora pra frente “… o que temos são janelas/panelas…”, beat seco, piano, guitarras e sample de panelas sendo batidas. “Janela indiscreta” de Hitchcock encontra “Pelas tabelas” de Chico Buarque. Necessário.

 

Adriana Calcanhotto / Foto: reprodução instagram

 

“Sol Quadrado” – partido alto, também muito próxima de Chico, principalmente na construção, faixa sem nome aos bois que refere até o gado. Quem planta, colhe.

“Tive notícias” – mais uma balada, voz e violão numa intimidade de pé de ouvido. O tema da distância (“… coração de quarentena.”) traz o amor partido e que escondemos até de nós mesmos.

“Lembrando da Estrada” – foxtrot de bongô e guitarras no molho que nos joga na saudade das estradas, da mobilidade e também na viagem interna advinda da reclusão, as estradas que elevam pra dentro e nos forçam a abandonar as bagagens que já não cabem nas nossas vidas.

“Banda Lê Lê” – funkinho divertido, que seria uma dessas “bônus” nos antigos cds. Deu vontade de ouvir um disco inteiro dela com base eletrônica (funk, trap e house).

“Corre o Munda” – muito legal que num disco tão intrinsecamente atual, AC escolha uma homenagem a Coimbra, essa Europa possível vista como fuga para tantos de nós.  Presos em nossos apartamentos, batendo panelas e cheios de medo e saudades.

Este é um belo trabalho, com as sacadas inteligentes e sentimentos que vão se tornando mais visíveis a cada audição. Senti falta de arranjos e de riscos, coisa que ela sempre teve. É uma dose homeopática de uma grande artista. Te faz bem, mas também te faz perguntar: “Só?”

 

 

Wilfredo Lessa Jr. é professor de inglês que nunca morou fora, músico que não toca instrumento e intelectual que não se formou. Diz ele. Membro inativo do P3 (projeto 3), Infected Minds e Irmandade Arcana. Também se finge de escritor para poder falar de livro com gente que é.

 

 

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Olhares

A imagem em Roberto Pitella: princípio e prolongamento

Por Fabrício Brandão

 

Imagem : Roberto Pitella

 

Ah, a fotografia, esta senhora que congela o instante! Campo de domínio do olhar que atenta também para a memória. Flagrante registro das horas, fatos, arroubos, furos, ímpetos de toda ordem. E não é suficiente apenas o controle total sobre os dispositivos, assim como não basta o mero manejo técnico das ferramentas que tanto causam deslumbramento na contemporaneidade. Em tempos de pressa, quiçá o desafio do fotógrafo seja o de escapar das armadilhas postas pelas facilidades modernosas.

Ainda que muitos hoje tenham acesso às tão propaladas “maravilhas tecnológicas”, captando toda a sorte de imagens cotidianas, não é possível substituir o olhar acurado, sensível e, por vezes, poético que se instaura como atributo de um fotógrafo de ofício. Não que outros não possam nos entregar resultados de tal natureza, mas o fato é que alguém já acostumado ao campo de percepções da seara artística tende a nos apresentar algo muito mais sólido e diferenciado, sabendo, inclusive, nos ofertar os interstícios da vida.

Mas percebam, leitoras e leitores, que os olhares deste texto estão voltados para refletir um pouco sobre a arte de um alguém como Roberto Pitella, artífice da imagem que detém uma noção muito definida do que é seu trabalho. Antes de qualquer análise, vale ressaltar a voz do artista a nos dizer:

“venho da fotografia. trabalho a fotografia num campo expandido. gosto de me pensar artista que trabalha visualmente palavras. textos.

trabalho pensando em narrativas. breves. crônicas. contos.

penso que somos camadas. rasgadas. a vida nos rasga e precisamos rasgar a vida pra respirar. amar.

assim procuro montar minhas imagens. não penso em fotografia. penso em imagens.

monto imagens. como se monta um texto. com palavras. que montam ideias. emoções.

gosto do conceito de campo expandido. a imagem expandida. a literatura expandida. o corpo expandido. a vida e morte expandidas.”

 

Imagem: Roberto Pitella

 

Não é apenas a expressão textual de Roberto aqui transcrita que denota uma grafia diferente do usual, mas é a sua grafia imagética que pontua e afirma o seu lugar de artista. No território que anuncia a expansão da fotografia para um algo além do que se postula habitual, não é mais possível apenas se falar em fotografia, ultrapassadas as fronteiras da imagem.

Atentos ao trabalho do artista em questão, logo nos vemos testemunhas dos seus propósitos de expansão. Desse modo, as imagens de Roberto desconhecem limites narrativos, sugerindo interseccionalidades difusas no continuum texto-imagem-tempo-espaço. Os recursos técnicos que manipulam a imagem resultam numa sobreposição narrativa a nos instigar outros horizontes interpretativos. A enunciação discursiva do fotógrafo é aqui uma vivência dos fenômenos cotidianos sob a lógica de uma poética cuja visualidade do verbo é transformada pelo desejo do prolongamento, extensão da própria existência do sujeito.

Haveria, pois, transgressão no gesto criativo de Roberto? Na medida em que rupturas do convencional são promovidas, a resposta é afirmativa. Rasurar os limites da imagem acaba sendo deslizamento necessário para uma forma de comunicar através da arte visual. No trajeto expansionista proposto pelo artista, a única certeza é de que a linguagem resta borrada por sucessivas camadas de possibilidades. São diálogos construídos entre diferentes modalidades de pulsações da matéria utilizada como artefato, de todo um conjunto de interferências ao dispor do criador.

 

Imagem: Roberto Pitella

 

Roberto Pitella é professor na Belas Artes do Paraná, desempenhando também as facetas de editor e curador da Quaseditora e na residência atelier Burrinho Nicolau. Em seu currículo, além de exposições no Brasil e no exterior, atuou na curadoria da Focus Collection Brazil e do circuito de galerias da Bienal de Curitiba 2015, dentre outros feitos.

No transcurso imagético de Roberto, afigura-se a profusão de cores e formas, o enleio cotidiano das trajetórias dispersas e dos gestos naturais dos personagens registrados. O captar da rotina encontra abrigo no dito e no não-dito, na solidão das paisagens mundanas, no silêncio incrustado na arquitetura urbana, na cartografia do esquecimento. Imagem aqui é como um sertão-mar, infinitude ensaiada, entre-lugar de sensações que principiam no projeto mental do artista para depois serem devir aos olhos alheios.

 

* As fotografias de Roberto Pitella são parte integrante da galeria e dos textos da 136ª Leva

 

 Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras