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134ª Leva - 01/2020 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

André Luiz Pinto

 

Foto: Hermes Polycarpo

 

Ouvi-los.
Fixa no tempo
a forma
remediando
…………………..o branco.

Guardá-los.
Quantos forem os bocados.
Deixa na planura
um gesto,
mais parece socorro.

Ouvi-los
depois que o repetir
sob o acorde
de aranhas.

Um nexo.
Um corrimão avulso.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Pior, no plano
do cordeiro,
sabendo o homem,
eis o lobo.

O cruel da carne,
acredite,
zero a zero,
imenso o rosto.

Amadurece,
podendo advir
quando um bote
ave de rapina.

E o que retorna
ao sabor das mãos:
livre é o medo
no intercâmbio das coisas.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Mas como fugir dessa linguagem
impoluta, sufocada dia após dia,
intercedendo sobre tais minérios?
E como, arrisco-me por conhecer
nenhuma lei, alivia-se a boca
sob a estase dos ventos? Mais se parecem
do que negam, o verdadeiro valor
da conta, cântico dos quânticos
no descortinado meio-dia; aliás,
Sofia engole a cidade, convenhamos
que Sofia é morta e nos atende por Antônio
Gonçalves Dias, nosso primeiro narciso.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Primeiro arrebenta,
desemparelhado em sua fúria.
Um problema comum
ao ministério de todos, até mesmo
em suas abstrações: um galho que venha romper;
depois, no dia seguinte, análogo
ao anterior, você o encontra, naquela posição
inócua, promíscua, reposto ao ministério
da árvore. Como reagiria a esse beco?
Encerra os olhos, ali, na hora
de encontrá-lo, como um galho que pensou.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Quero da palavra sua ruga,
a mancha da camisa sem sossego,
os tempos louros
que só cheiravam a jasmim.
É sempre o mesmo desespero,
o mesmo pé de valsa
sobre o capim.
Quero a palavra ‘carne’,
verbo que ilumina,
labirinto sem Deus.
Quero a palavra ‘morte’
o terreno da sorte
zero à esquerda
até nos momentos de gol.
Inescapável
como a fome
baixo e vil até no nome
é certo que o Rio não é mais.
A regra
é o que reza pedir.
Quero a palavra ‘cobra’
com suas
dobras e rugas.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Eu sou o chaveiro, mais do que
a chave de Só se passar por mim

O que atrai
a tantos
ou é tão covarde
que morde os donos?

E tem também
o oráculo de Delfos
esculpido
em tuas mãos.

No canto
da página
como água parada

o amor – sob custódia.

 

André Luiz Pinto da Rocha nasceu em 1975, Vila Isabel, Rio. Doutor em Filosofia pela UERJ, leciona na FAETEC e SEEDUC. É autor de: “Flor à margem! (1999), “Um brinco de cetim / Un pediente de satén” (Maneco, 2003), “Primeiro de Abril” (Hedra, 2004), “ISTO” (Espectro Editorial, 2005), “Ao léu” (Bem-te-vi, 2007), “Terno Novo” (7Letras, 2012), “Mas valia” (Megamíni, 2016), “Nós os Dinossauros” (Patuá, 2016), “Migalha” (7Letras, 2019) e, em parceria com Armando Freitas Filho, “Na rua” (Galileu Edições, 2019). Seus poemas foram tema para os documentários “André Luiz Pinto: Prazer, esse sou eu” e “Autobiografias poético-politicas”, em 2019, ambos de Alberto Pucheu.

 

 

 

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134ª Leva - 01/2020 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

De quantas travessias é feito o caminho com as palavras? Certamente de uma infinidade delas. No entanto, há algo na jornada de um escritor que confere um sentido especial às experiências vividas. Esse algo não está na busca meramente exasperada por melhores soluções criativas; tampouco reside no terreno das exposições de uma personalidade que se mostra incensada e cultuada na esfera pública, arena que também alimenta vaidades de ocasião. Estamos a falar aqui do vigor que uma obra ganha quando volta suas atenções para perceber o humano em suas mais diversas acepções.

A noção de que as paragens literárias são instrumento de comunicação e expressão das nossas humanidades é ponto de destaque para uma literatura que fratura apagamentos sociais. E não somente a denúncia de nossas mais comezinhas e seculares mazelas aflora nesse percurso que incomoda, mas também a ideia de que é preciso mostrar universos de existência que trazem suas peculiaridades, seus modos naturais de ser e estar no mundo sem que tal matéria seja reduzida aos cínicos requintes do exotismo.

Refletir sobre certas invisibilidades e inscrevê-las na pele do texto demonstra ser um relevante objetivo para um alguém como o escritor baiano Itamar Vieira Junior. Dono de uma escrita segura e atenta às questões de seu tempo, Itamar vem construindo sua trajetória literária de modo deveras consistente. Desde livros de contos como “Dias” (Caramurê, 2012) e “A Oração do Carrasco” (Mondrongo, 2017), este último finalista do Prêmio Jabuti, já era possível perceber como o autor acenava com um domínio técnico e criativo afinado com a qualidade.

Se Itamar já nos chamava atenção com seus livros anteriores, é com seu último trabalho, o romance “Torto Arado” (Todavia, 2019), que sua obra parece atingir uma espécie de apogeu das percepções. E falar desse ponto alto não significa apenas abordar a ótima repercussão que o livro obteve, incluindo aí uma premiação internacional, mas referendar a continuidade de um processo que é marca registrada do escritor, sua capacidade de olhar para o povo negro e mostrá-lo protagonista diante das reiteradas investidas de invisibilidade patentes em nossa história. A partir da impactante atmosfera de seu recente livro, pudemos conversar com o autor sobre os processos atinentes à escrita de tão significativa obra, além de transitarmos sobre questões fundamentalmente relacionadas à condição humana e algumas de suas implicações no trato social. De todo o dito, Itamar Vieira Junior é um nome de relevância no contexto atual da literatura brasileira, não apenas pela qualidade de seus escritos, mas também pela propriedade do seu pensamento crítico e desperto diante da realidade.

 

Itamar Vieira Junior / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Lendo “Torto Arado”, é impossível não pensar no Brasil profundo que ali está, principalmente se considerarmos tensões que envolvem as populações quilombolas e seu, digamos assim, permanente desterro. De que maneira você mergulhou no cotidiano dessas comunidades e dali retirou subsídios para a feitura do livro?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Sou geógrafo de formação e há quase 14 anos eu trabalho com as populações do campo. Primeiro no estado do Maranhão, onde conheci comunidades quilombolas, indígenas, ribeirinhos, sem-terra, e depois no estado da Bahia. Anos mais tarde fui fazer meu doutoramento em Estudos Étnicos e Africanos, que estava intrinsecamente relacionado com o meu trabalho como servidor público, e pude aprofundar minha pesquisa. A história de “Torto Arado” me acompanha há mais de 20 anos. O título, inclusive, remanesce dessa minha primeira tentativa de escrevê-lo – sem êxito – na adolescência. A história das irmãs, a relação com o pai que fala com os espíritos, todo esse núcleo central da trama permaneceu. Com o passar dos anos a história incorporou questões de ordem sociológica que refletem a minha formação, a minha ancestralidade e o interesse pela história do Brasil. Ao longo de anos – eu que nasci numa grande cidade -, tive o privilégio de conviver com camponeses, escutá-los, aprender sobre a vida no campo e conhecer suas histórias. Era o que eu precisava para retomar esse antigo projeto de escrita.

 

DA – Nessa sua aproximação com as comunidades, certamente foram inúmeras as narrativas escutadas. Ao mesmo tempo em que você teve contato com esse manancial de depoimentos, percebeu também uma necessidade de visibilizar tais grupos no seu mister de escritor? Indo mais além, diria que “Torto Arado” encerra um clamor consciente?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Primeiro acho que é desejo de qualquer escritor contar uma boa história. Embora esteja previsto no meu projeto literário percorrer caminhos diferentes para refletir minimamente a grande diversidade da nossa sociedade, o que me levou a escrever “Torto Arado” foi a vontade de contar uma história que contemplasse o anacronismo dos nossos processos sociais, a herança da escravatura, a luta pela terra como o direito mais elementar da existência porque sem chão não há vida, movimento, não há alimento. O romance trata de um grupo de trabalhadores que, em contato com outros grupos que travam lutas por melhores condições de trabalho e por terra, se identifica como quilombola. Mas poderiam ser indígenas, ribeirinhos, geraizeiro, sem-terra, qualquer agrupamento humano que detivesse este elo de coexistência com a terra que nós, ocidentais e urbanos, parecemos ter perdido.

 

DA – As irmãs Belonísia e Bibiana são algo emblemáticas na medida em que expressam, dentro de duros enfrentamentos sociais, o vigor do universo íntimo que as atravessa. Pelo olhar de cada uma delas, o livro ganha uma pulsação narrativa diferenciada, evocando o duplo interno/externo a partir do modo como ambas pensam e vivem suas trajetórias. Diria que tal escolha narrativa lhe foi mais desafiadora?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Concebi a história inicialmente narrada por uma única irmã, a Belonísia.  A determinada altura da escrita eu percebi que a diferença e a complementaridade de suas vivências só poderiam ser transmitidas ao leitor de forma plena se conhecemos as suas perspectivas individuais. E por que são as mulheres, as narradoras, e não os homens? Pelo simples fato que nesta região, no interior do Nordeste, encontrei mulheres que pela ausência do homem por diversos fatores – morte por baixa expectativa de vida ou violência, emigração para o trabalho ou mesmo o abandono da família -, as mulheres assumem um protagonismo que precisava ser visibilizado. Por isso são elas a narrarem a história. E são três narradoras que contam as suas perspectivas sobre o que aflige a população de Água Negra: seja pelo olhar infantil e sonhador de Bibiana, ou pelos gestos duros de quem não sabe viver além da terra de Belonísia, ou pelo olhar de quem pôde atravessar a história para contar que o passado não nos abandona, por mais que tentemos nos afastar. Na nossa trajetória social quase sempre iremos alcançar as respostas sobre o presente em um passado aparentemente distante, mas que se perpetua em práticas vigentes que refletem uma segregação secular e colonial.

 

DA – A atmosfera de “Torto Arado” também nos lembra a existência daquilo que podemos chamar de invisibilidade em camadas, ou seja, de experiências de apagamento que, num efeito cumulativo, agregam simultaneamente a condição da negritude, da pobreza, do ser mulher, dentre outras. O que dizer desse delicado território de humanidades?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Com a tecnologia que dispomos acho que essa invisibilidade só persiste porque é interessante ao sistema. A literatura reflete também as diferenças deste mesmo sistema: quem tem acesso à educação de qualidade? Quem pode ler bons livros, escrever conforme a norma culta ou experimentar novas formas? E durante as últimas décadas, com honrosas exceções, a literatura não refletiu a nossa diversidade étnica e cultural. Esteve durante muito tempo voltada para os conflitos da classe média branca. Esse é um ponto crucial quando me proponho a escrever: quero que a literatura se volte para as clivagens sociais, os cantos esquecidos do país. Talvez nessas experiências limites de humanos ocultados por um sistema esteja a chave para entender o todo. É o que eu gostaria de capturar com a escrita: o mais profundo dessas existências, que consequentemente será nossa também.

 

DA – A fixação do homem do campo à terra também levanta reflexões para quem lê seu livro. E estamos falando aqui duma noção de pertencimento ao solo ancestral, mesmo que não se tenha, por sucessivas gerações, a posse formal dos territórios em que tais pessoas habitam desde sempre. Na sua opinião, de que modo continuamos nos equivocando quando o assunto é pensar e viabilizar uma reforma agrária no país?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – O atual problema fundiário brasileiro reflete as questões da formação do país: a primeira diz respeito à exploração do solo brasileiro imposta pela colonização em modelo de sesmarias, que legou grandes extensões de terra a particulares que gozavam de status ante à Coroa. A segunda foi quando esse modelo de sesmarias foi substituído pela lei de terras de 1850, que firmou a compra como a única forma de acesso à terra. E quem poderia comprar? Foi assim que se consolidou parte da nossa desigualdade social, que poderia ter sido corrigida pela reforma agrária, que foi, nos últimos governos, incipiente, e agora se encontra definitivamente abandonada como política pública. Esta é a nossa mais elementar questão social, porque um país não pode prescindir de alimentar a sua população de forma extensiva e ambientalmente correta, protegendo a natureza. Não pode querer que sua população renuncie o direito à terra, porque sem a terra não há vida. Ainda não temos asas para vivermos suspensos na atmosfera, e mesmo os que têm, os pássaros, precisam descer para comer o que nasce do chão. Daí a importância dos muitos movimentos que lutam por seus territórios: indígenas, quilombolas, dos atingidos por barragem e ribeirinhos. Para essas populações, a terra não é um bem econômico, mas, sim, a sua história. É a extensão de seu corpo. É a sua morada. E o modelo neoliberal em curso privilegia as grandes corporações que não têm nenhum vínculo com a terra, que a usa como um recurso sem vida, sem passado ou qualquer esperança de futuro. Não há conciliação quando se tem os graves problemas fundiários, que não são somente fundiários, mas fundantes da nossa desigualdade social.

 

Itamar Vieira Junior / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Nos últimos anos, o meio acadêmico tem sido cada vez mais palco de pesquisas, dissertações e teses que buscam discutir e repensar os diversos apagamentos sociais que enfrentamos cotidianamente. Você mesmo é egresso de um doutorado em Estudos Étnicos e Africanos, por exemplo. De que forma tais esforços podem romper o confinamento universitário e ser algo efetivos na sociedade?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – As pesquisas e o pensamento decolonial que encontraram abrigo nos centros universitários têm chegado de muitas formas à sociedade. A literatura é apenas um dos caminhos que tem sido percorrido. De forma pragmática, essa produção acadêmica tem sido atravessada pelo pensamento decolonial: da arquitetura às ciências humanas e sociais, passando pelas artes. Ela tem possibilitado a construção de uma sociedade menos desigual, onde se discute e se pensa formas de reduzir os danos de nossa própria história. Principalmente quando as pesquisas estão voltadas para fora da universidade, quando não se encerra nos gabinetes e salas de aula, e tenta pensar o mundo com os próprios sujeitos da história. É claro que essa evolução não é permanente, nem mesmo constante, um exemplo é o estado de regressão das pautas sociais em que o Brasil e o mundo mergulharam nos últimos anos. Mas a produção universitária continua, mesmo sob ataque, e será um farol para reconstruirmos o que está sendo destruído.

 

DA – Em escala global, acredita que estamos vivendo um processo de desumanização?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Não creio. Se olharmos a trajetória da humanidade, cercada de violência e grandes calamidades, vivemos uma época de ouro. Houve avanços para os direitos humanos no século XX, muitos surgidos a partir de grandes tragédias, como o holocausto nazista. É claro que vivemos em um mundo conservador, pouco afeito às mudanças, então elas quase sempre vêm acompanhadas de reações, como as que vivemos atualmente com a ascensão política da extrema-direita e dos regimes autocráticos em alguns países. Mas a humanidade tem ganhado consciência, humanidade, e nosso século promete mais avanços em relação aos direitos humanos.

 

DA – Sua carreira literária hoje assinala uma visibilidade bastante significativa, com sua obra sendo reconhecida e atingindo repercussão dentro e fora do país. O que mudou, de fato, em sua trajetória em face dessa projeção? O homem Itamar hoje é sujeito de ânimo renovado em face dos aprendizados? 

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Acho que o mais interessante disso tudo foi o contato que pude estabelecer com escritores e leitores, seja no Brasil ou em Portugal. E também o fato do livro ter sido editado por um grande grupo editorial me fez conhecer o trabalho dos editores de carreira, as estratégias de marketing e a profissionalização da escrita. Tenho aprendido muito, mas, de fato, pouca coisa mudou. Porque o que continua a me mover é a paixão pela literatura, e para tanto não precisei estabelecer uma carreira ou obter um prêmio, apenas dei liberdade à minha intuição.

 

DA- Há quem sustente que mergulhar nos caminhos da arte seja também uma alternativa para suportar o peso que a realidade das coisas nos impõe em certa medida. É razoável considerar essa espécie de fuga diante do universo oceânico e desafiador que é o autoconhecimento?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Não considero a arte uma “fuga”, ela é parte da experiência humana. Desde as pinturas rupestres, que datam de 40 mil anos, aos nossos dias, o que existe e persiste é a necessidade do homem criar e comunicar a sua existência. Concordo que dentro do conjunto de expressões humanas, a arte talvez seja a que nos permita “suportar o peso da realidade”, porque está intrinsecamente relacionada à nossa dimensão subjetiva. É nela ou a partir dela que nos autoconhecemos: o medo, os afetos, as grandes questões da vida, ainda que num plano subjetivo. Por ser subjetivo, talvez nos permita emular a nossa própria vida e enfrentar os problemas que estejam por vir. A literatura, em especial, é generosa neste sentido: quando pegamos um livro para ler nós estabelecemos um “contrato” com o autor e as personagens de que, durante um período, no processo silencioso e íntimo da leitura, “viveremos” aquelas vidas. Assim, nos colocamos no lugar do outro num denso movimento de humanização. É o que chamamos de empatia.

 

DA – Afinal, por que escrever?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Esta é uma pergunta interminável, porque não se encerra em nenhuma resposta. Lembro de ainda adolescente ter lido uma entrevista da escritora Rachel de Queiroz e fiquei muito intrigado com a resposta à mesma pergunta, onde ela dizia que escrevia porque não sabia cozinhar. Anos depois vi uma lendária entrevista do jornalista Jaime Lerner à escritora Clarice Lispector que devolvia a pergunta com outra pergunta: “e eu sei?”. Eu imagino que esse imenso desejo humano de se comunicar e legar para as gerações futuras um registro é que nos move a ler e interpretar o mundo através da arte. Penso nos homens e mulheres que nos deixaram registros da arte rupestre, quais eram as suas intenções ao pintar as paredes das cavernas que habitavam? Certamente queriam comunicar algo aos seus pares e legar, quiçá, registros para as gerações que viriam. O que me move a escrever é a vontade pessoal de registrar o meu tempo, de comunicar aos que se interessarem o meu olhar sobre o mundo, que reflete por sua vez os olhares dos que me influenciaram. Ao mesmo tempo, escrever reflete uma fé inabalável na literatura, não de que ela possa mudar ou alterar nada, mas de que possa ser um exílio, confortável ou não, para os que buscam conhecer a si mesmo.

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista amador, mestre em Letras e doutorando.

 

 

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133ª Leva - 05/2019 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

A Literatura segue como verdadeira ponte entre mundos, lugares que deslizam entre o vivido e o imaginado. Nesse ínterim, acepções das nossas humanidades se delineiam de modo a compor um painel difuso sobre as tramas da existência. Olhando assim de tal forma, escrever pode representar substancial exercício de vivências na linha sutil a divisar realidade e ficção. As paragens literárias comportam um contingente imensurável de subjetividades possíveis, de cenários e situações que marcam o indelével e imponderável espírito humano. Há sempre um quê do autor numa determinada obra, ainda que seja apenas algo alimentado pelo campo das referências, pela inalienável observação e assimilação dos fenômenos mundanos que se nos atravessam teimosamente por entre os dias.

Como poderíamos definir, por exemplo, o que seriam os caminhos da autoficção? Quem de fato nos conduz nesta complexa estrada que transborda do texto para a vida? Imprecisões à parte, parece ser melhor pensar que se desdobram eus no corpo vasto de uma certa escritura, relatos de si que reverberam experiências tidas ou imaginadas, as quais muitas vezes nos estimulam pela impressão de realidade que sugerem. Se estamos então mergulhados nas tensões cotidianas, aí é que os textos podem nos revelar mais do que meras predileções estéticas ou estilísticas.

Ficamos, pois, com os vestígios e marcas palpáveis da vida quando nos deparamos com um livro como O Enigma de Daniela. Nele, sua autora, Lelita Oliveira Benoit, mais do que uma obra autoficcional rica em informações e detalhes, constrói uma narrativa que envolve o leitor pela capacidade de mesclar percepções e relatos frutos de uma realidade que emerge brutal. Nesse sentido, o texto procura o leitor, seduzindo-o a ponto de fazê-lo (o leitor) testemunha próxima de tudo aquilo que é pormenorizadamente contado. À personagem-narradora coube a cuidadosa missão de contar a história verídica de Daniela, jovem médica que, ainda estudante, viu seu destino ser marcado por um irresponsável acidente automobilístico que limitou para sempre seus movimentos. A partir daí, desenrolam-se batalhas de superação pessoal da jovem diante de suas restrições físicas e, sobretudo, de sua readequação mental para seguir vivendo, além do enfrentamento judicial das questões que envolveram o acidente, tendo em vista que o motorista causador do atroz infortúnio estava embriagado na ocasião.

Lelita Oliveira Benoit, além de escritora, é psicanalista e Doutora em Filosofia pela USP. Sua tese de doutorado, Sociologia Comteana: Gênese e Devir (1999), publicada em livro pela Discurso Editorial/FAPESP, foi indicada ao Prêmio Jabuti em 2000, sendo que anos depois, em 2007, viria a ser traduzida para o francês e editada pela L’Harmattan. Também é autora de Livro da Madrugada (E de outras enigmáticas horas amorosas), livro de poemas publicado em 2013 pela Iluminuras. Com O Enigma de Daniela (2019), editado também pela mesma editora, a autora estreia na prosa. E foi justamente para falar desse seu novo momento literário que ela concedeu uma entrevista à Diversos Afins, pontuando aspectos fundamentais de seu processo criativo, desafios e perspectivas do mister. O saldo da conversa que agora segue é deveras positivo, não apenas pela expressão da intelectualidade de Lelita, mas principalmente por sua sensibilidade em dividir conosco reflexões profundas sobre a condição humana.

 

Foto: Julieta Benoit

 

DA – “O Enigma de Daniela” é um livro vigoroso na medida em que trata, de forma densa, delicada e informativa, de um tema que ainda nos é muito caro: as limitações do corpo físico diante da tragédia. Que espécie de desafios se configuraram de imediato em sua escolha narrativa?

LELITA OLIVEIRA BENOIT – Agradeço as suas fortes e sensíveis colocações iniciais. Me tocou muito ao sentir na minha pele, na minha alma, a sua leitura do meu romance de estreia. Indo agora em direção à sua pergunta. Diria que não fiz escolhas narrativas. Não tive como ponto de partida uma ou outra escolha ficcional. Diria sim que fui sugada pelo tempo – que era então, o tempo presente da minha vida passada. Foi essa a escolha, pela vida. Fiz da vida, ficção – como é inevitável no espaço da escrita do romance, ou talvez, do romance de qualquer ser humano. E acrescento mais. A escrita desta ordem particular, a do romance, para mim ao menos, acaba sendo máscara do eu – do meu eu. Pois não há outro caminho (methodos, em grego clássico) para ser Outro de si mesmo, no espaço ficcional. Me dupliquei. Me transformei em máscara do meu eu. Na escrita do romance, da poesia, sou (ou somos, não sei bem…) Outro sendo eu mesma. E confesso que tenho grande dificuldade em fazer a interpretação daquilo que lancei ao papel. Para clarificar um pouco a minha enodoada resposta, lembro aqui do segundo prefácio que Rousseau escreveu para o seu romance Julia, ou A nova Heloisa, que tem como subtítulo “Cartas de dois amantes de uma cidadezinha ao pé dos Alpes”.  No prefácio, é transcrita a conversa entre o filósofo-escritor com o seu editor, e este último se refere ao conteúdo do romance, composto por cartas. Pergunta o editor ao “homem de letras”: “Esta correspondência é real ou trata-se de uma ficção?” Lhe responde Rousseau: “Para dizer se um Livro é bom ou mau, que importa saber como foi feito?” Rousseau se refere à zona do fazer que me parece mergulhada na própria escrita literária. É a sua zona mais desordenada, tumultuada, caótica, sei lá… Pois é o espaço da criação artística. Implica a subjetividade do eu que escreve, entrelaçada às suas vivências e escolhas indeslindáveis, quase sempre. Poderia recorrer à psicanálise, a Freud. Mas prefiro outro caminho, mais nas proximidades da literatura ficcional.  Então me permito “roubar” aqui a fala de Mikhail Bakhtin, em O romance como gênero literário. Lá escreve o grande teórico da literatura que prefere escutar a voz do romancista ao invés de recorrer aos linguistas ou filósofos da linguagem. Prefere Bakhtin acolher as vozes de romancistas tais como Rousseau, ou Friedrich Schlegel, ou Dostoiévski e outros mais, pois são eles que “participam da formação viva do romance enquanto gênero literário”. Me coloco sempre ao lado da criação literária, portanto, ao lado da vida, e tendo a concordar com Bakhtin. Que parece ter escutado a minha voz de romancista.

 

DA – Dentro dos percursos autoficcionais, seu romance vai desfiando cenários, situações e personagens que envolvem o leitor numa sensação permanente de realidade. Nesse sentido, quem lê a obra está amparado por cuidadosos requintes descritivos e informativos a respeito de assuntos que transitam, por exemplo, entre os saberes médicos e jurídicos. Como você vislumbra tal perspectiva?

LELITA OLIVEIRA BENOIT –  O meu romance se fez da perspectiva de intenso desejo – e, assim espero, com delicadeza e muita poesia. O desejo de tocar com os meus dedos imaginários a realidade. Desejo amoroso sempre. É o amor que a tudo pode enlaçar, acredito eu. No meu romance, a  realidade emerge do fluxo do meu desejo amoroso, entre as letras e palavras, se desmanchando em fios – “desfiando”, na sua bela imagem – acontecimentos vivenciados, portanto situações verdadeiras, na alternância das histórias lá contadas, sempre com o meu eu-máscara enlaçado a elas. Sempre. O meu desejo amoroso foi recolhendo, aqui e ali,  saberes diversos e múltiplas vozes que foram costuradas –  não encontro palavra melhor… – às minhas diversas leituras  das belíssimas páginas da literatura judaica (Amós Oz, Bashevis Singer, Kafka, I.L. Peretz e outros mais), das narrativas fortes e poéticas da Bíblia Hebraica, da longeva história do povo judeu, e ainda de escritores não judeus, como Jorge Luis Borges que reverenciou esse povo milenar em sua produção literária – que se leia o magnífico “El Aleph”! Então, o meu desejante olhar amoroso – ou, o meu eu-máscara – foi guiando com delicadeza os meus dedos para que tocassem a realidade da sabedoria médica que, além da cura dos nossos corpos biológicos, procura sempre a Justiça como exercício da Ética, tão ausente agora, e talvez desde sempre. Lado a lado ao saber médico,  toquei a realidade de seu outro inseparável comparsa, o saber jurídico. Descobri que este último segue, quase que aos trancos e barrancos, tentando preencher os vazios que permeiam a medida humana do justo e do injusto. Algumas vezes, chega bem perto, em outras, falha completamente. Com os meus dedos de romancista segui tecendo um enredo, às vezes caótico para mim, no qual tanto o saber médico quanto o jurídico se mostravam quase que imobilizados diante da tragédia de um acidente automobilístico criminoso, que é o mote central de O Enigma de Daniela. Enfim, o romance – e não apenas o meu, com certeza! – é minha voz, voz reflexiva e altamente elaborada, incluindo certa desordem da minha escrita, que tem o poder de abrigar outras vozes, vozes íntimas e coletivas,  jurídicas e médicas, de professores e da estudante de medicina, do pai amoroso e da bela filha resgatada da tragédia pelo amor paterno, vozes dos amantes enlaçados pelo mútuo encontro feliz, e tantas outras vozes significativas. E sim, o meu romance toca a realidade presente e com beleza estética, desejar apontar futuros possíveis, e – tenho esperanças! – mais humanizados. Para que um dia, talvez – quem sabe ao certo? – consigamos nos libertar do Holocausto pós-moderno no qual estamos como que paralisados, literalmente sufocados pela injustiça universal – e agora me remetendo às inspiradoras palavras da poeta Maria Lúcia Dal Farra, que escreveu a apresentação de O Enigma de Daniela. Paralisados nós todos, e não apenas as pessoas portadoras de tetraplegia que o meu eu-máscara abrigou, acolheu com amor, no fluxo dessa minha narrativa romanceada de acontecidos reais, verdadeiros.

 

DA – Nunca é demais pensarmos sobre o que realmente desejamos para o Outro, exercício de alteridade no qual a promoção do bem coletivo nalguns momentos parece resvalar na utopia. Acredita que estamos presenciando, em escala global, um acelerado processo de desumanização?

LELITA OLIVEIRA BENOIT – Para responder à sua pergunta, retorno a Mikhail Bakhtin que, nos dias de hoje, muito me tem inspirado com a sua teoria do romance. Escreve Bakhtin que, no gênero romance, a realidade fica de tal forma próxima da ficção que é como se aquela pudesse ser agarrada e tocada pelas mãos do escritor, ou colocada de pernas para o ar, ou exibida em suas vísceras carnais. Essa grande proximidade com o presente produz, no gênero romance, o seu permanente inacabamento que o abre ao futuro, em leituras que seguem o recriando a qualquer momento e sempre. O gênero romance se estabelece como mais próximo do futuro do que do passado, resvalando às vezes na utopia, comenta ainda Bakhtin. O que isto tudo pode nos inspirar? Que o romancista tende a se encostar sim em certa utopia, no nenhum-lugar,  no lugar do supostamente irrealizável, porém desenhado nas páginas de milhares de romances.   Pois, do outro lado da escrita ficcional,  do romance, se encontra o seu Leitor.  Este último vai preenchendo o vazio ou o adensamento excessivo entre as palavras, essa rara espécie de nenhum-lugar, com o cimento da própria experiência existencial. É assim criado um tipo particular de diálogo no âmago da escrita ficcional. Do Escritor do romance e de seu Leitor:  inseparáveis no tempo da leitura ou das reflexões elaboradas após a leitura, e que talvez acompanhem o Leitor por toda a sua existência. Refletindo um pouco mais em torno do elo entre o Escritor e o Leitor.  Ao menos para mim, que me bebo também nas fontes da filosofia, os diálogos de Sócrates, contados por Platão, seriam romances de vidas, pois narram histórias reais. E há muito mais a dizer. O diálogo socrático está ali não como mera possibilidade de ser vivenciada por Outro, um suposto Leitor, mas está lá de corpo presente, cravado em palavras e se entrecruzando na forma dialógica da escrita de Platão. No que também tendo a concordar com Bakhtin, que viu nos diálogos platônico-socráticos os primórdios do romance europeu. E do nosso, por consequência. O rápido processo de desumanização – ao qual você se refere e com o qual tristemente tenho que concordar – poderia talvez ser sustado com o retorno ao romance, à poesia, à totalidade da literatura e, é claro, com o retorno às demais criações culturais: artes plásticas, cinema e qualquer tipo de invenção artística (que se fragmentam em múltiplas formas de aparição, nos dias de hoje). Li há pouco um discurso proferido pelo poeta Federico Garcia Lorca, no dia da inauguração de uma biblioteca pública em sua cidade natal.  Nesse discurso lírico, afirma o poeta que não só de pão vive o ser humano. E se por acaso ele, o poeta, estivesse faminto, pediria metade de um pão e um livro. É esse um provável caminho, quem sabe… Lembro ainda que tive o privilégio de, em pequeníssima parte,  vivenciar algo semelhante, desde 1985, como professora de Filosofia em escolas de ensino superior, direcionadas particularmente a trabalhadores pobres. A fome (ou, nos dias de hoje, a alimentação carente de nutrientes necessários à vida)  se manifesta na fala e na escrita da maioria dos estudantes. Mas é em igual medida que os mesmos estudantes manifestam fome por cultura. Se o pão lhes foi negado – mesmo que no corpo perverso da “comida” atual – a cultura igualmente lhes foi roubada descaradamente. E nos dois sentidos, o fosso é muito profundo entre a fome e o se sentir saciado.

 

Foto : Julieta Benoit

 

DA – Essa ideia de saciedade pelo acesso aos bens culturais deveria ser respeitada como um direito humano inalienável, posto que também estimula a formação do pensamento crítico. Você aposta na libertação do sujeito pela fruição da arte?

LELITA OLIVEIRA BENOIT – Gostaria de dar um toque psicanalítico a minha resposta. Breve retorno a Sigmund Freud, nas questões da arte e dos artistas. Relembro de um curto texto no qual o psicanalista-fundador discorre sobre o “princípio de prazer” e o “princípio de realidade”. Segundo Freud,  esses dois princípios parecem guiar, dar direções ou doar significados à vida psíquica de cada ser humano. O princípio de prazer é quase onipresente em nossas primeiras escolhas, ainda no berço, na primeira infância. Sua tarefa mais importante seria, a todo custo, evitar o desprazer. Mas aos poucos, o princípio de realidade coloca interdições ao primeiro, vai se impondo e ganha cada vez maior espaço no psiquismo humano, determinando nossas decisões relacionadas ao mundo exterior, à sociedade em que vivemos. Às vezes, chega quase a sufocar por completo o princípio de prazer. Trocando em miúdos, seria algo bem semelhante ao princípio de adaptação à realidade.
E me desculpe se faço um resumo tão tosco de reflexões tão poderosas! Mas prossigo, apesar da precariedade. O artista é aquele que, por um talento inexplicável, consegue aproximar, entrelaçar os dois princípios de funcionamento do psiquismo quando produz uma obra de arte. A um só tempo, a obra artística dá prazer ao próprio criador e ao seu fruidor. Enfim, a obra passa a compor a realidade e surge nela como objeto artístico. Observação muito importante: o artista se recusa à aceitação do princípio de realidade e, de certa forma, faz a sua negação, mesmo que parcial. O fruidor da arte é aquele que compactua – talvez, secretamente ou inconscientemente – com a insubmissão do artista ao mundo em que vivemos, embora não consiga realizar o ato de rebeldia, a obra de arte. No nosso tempo presente, vigora a sensação de que prevalece apenas o sufocante e puro princípio de realidade. É muito triste que assim seja. A arte e o seu criador, o artista, são censurados,  banidos ou ignorados o tempo todo e por diversos meios.  Não há horizonte visível, ao menos para mim, de libertação dos seres humanos pela fruição da arte. E me pergunto muitas vezes que significado pode ter um direito, mesmo que inalienável, se não se pode o exercer, ainda que parcialmente? Me permita repetir o que já disse antes: o fosso é muito profundo entre a fome e o se sentir saciado, tanto pelo pão quanto pela cultura. Diria que é o fosso da terrível desigualdade, em todas as suas formas de aparição, na realidade contemporânea. E contudo, quando se sente fome, acredito que ainda vale parafrasear o poeta Garcia Lorca – e há ainda quem o faça sim! e aos gritos! – que meio pedaço de pão aplacaria a necessidade básica de todo ser humano, caso chegasse acompanhado de um bom romance.

 

DA – Por falar em psicanálise, há um exercício de escutas que norteia a relação entre a personagem-narradora e  Daniela, servindo de base para a exposição dos relatos e situações. Em que medida a sua porção de psicanalista auxiliou nessa construção?

LELITA OLIVEIRA BENOIT – Você tocou num assunto muito importante para o processo de elaboração do meu romance. Antes de tudo, devo confessar que o meu ser psicanalista só se mostrou por inteiro após finalizar as escutas de Daniela.  Me explico. Foi a moça que me revelou o que eu não sabia ainda, ou não era bastante claro para mim. Daniela me disse que eu tinha sido a sua psicanalista durante um longo tempo, um ano ou mais. Se bem que,  acrescento eu, não nos moldes tradicionais. Era eu que me deslocava até o apartamento de Daniela. Não havia, como o habitual, o consultório da psicanalista.  Não recebi  pagamento em dinheiro por tais escutas.  Porém outros detalhes ocorriam. Dois significativos exemplos: o tempo sempre fechado da escuta e Daniela me revelando segredos. Sim, segredos os quais, após o romance já composto, ela resistiu bastante quanto à publicação de alguns trechos, pois seriam seus “segredos”. Hoje, quando  junto as pontas do já acontecido,  se revela para mim um exercício de inspiração psicanalítica intensa no decorrer da escuta não apenas de Daniela, mas igualmente, do pai da moça, o médico Alberto, da advogada Cleide e das demais pessoas, de cujas falas me ocupei para a construção – um tanto caótica, confesso –  do enredo do meu romance. Veja só que precisei de mais de quatro anos até colocar um ponto final em tudo. E enquanto isso não acontecia, não era muito claro para mim o significado e os limites da minha experiência de escutas de inspiradas na psicanálise. E vou além. Penso que  as pessoas – que pelo ato mágico da escrita ficcional, tornaram-se personagens do meu romance – todas elas são singularidades humanas, são únicas e insubstituíveis, e se faltasse uma apenas, o enredo não seria o mesmo, se enfraqueceria muito, ou talvez nem sequer existiria. Pois nunca se tratou de um enredo construído conscientemente, foi muito mais uma escrita beirando a desordem, durante aquele tempo em que fui sugada pela vida.  Talvez por isso, no romance finalizado, conservei por inteiro as vozes que escutei. Mesmo que eu tenha enlaçado  as falas das pessoas-personagens naquilo que é só meu, a minha rede de pescadora das vozes de Outros e que resultou no meu eu-literário.  Aquela que sou sustentou aquela que inventou a fantasia de Outros e a minha, a um só tempo. Isto tudo acontece sempre na escrita de qualquer romance? É a minha pergunta ainda sem resposta. E nem pretendo encontrar uma que seja acabada e, portanto, sem vida, fria e morta.

 

DA – É interessante perceber que o processo autoral no seu romance acaba resultando numa convergência de vozes. É a sensação ali de não se ter uma autoria fixa, centrada num sujeito apenas, mas na intersecção de subjetividades. Desde sempre você apostou conscientemente nisso?

LELITA OLIVEIRA BENOIT – “Convergência de vozes” e  “intersecção de subjetividades”: bonito! Gostei das expressões, ou melhor, da sua interpretação. Essa pergunta me conduz a  Roland Barthes (brilhante escritor, quase “démodé”, infelizmente…). Me recordo de Barthes discorrendo sobre a “morte do Autor” e dando a própria interpretação da literatura e do romance, em particular.  “A escritura é a destruição de toda voz, de toda a origem… a começar pela do corpo que escreve”.  Destruição das origens, a do corpo que escreve e de sua voz. Com qual finalidade Barthes decreta a morte do Autor? Para realçar, penso eu, a própria escrita ficcional e dar espaço para que falem as múltiplas vozes ali acolhidas. E igualmente, para destacar a importância singular do Leitor.  Sem leitores não há romance que se sustente no presente, ou que perdure por muito tempo. Você me perguntou se foi escolha consciente o ato de descentralizar ou dissolver a minha autoria na “intersecção de subjetividades”. Respondo que sim, foi consciente, e ao mesmo tempo, que não foi consciente. Explico o sim: é porque pertenço a uma geração que tendia ao coletivo,  ao partilhado. O romance é lugar ideal para manifestar as vozes que me habitam. E Barthes, de certo modo, falava e escrevia para esse meu outro tempo, talvez por isso esteja um pouco fora de moda. Agora, o não. E é bem difícil de explicar que não foi inteiramente um ato consciente, que eu me inclinava, de certo modo, à minha anulação. Dei voz a  tantos, partilhei com muitos a minha voz de escritora.  Olhe, tenho que detalhar alguns dos meus procedimentos literários.   O gravador de voz  foi o instrumento mais importante para realizar as escutas. Escutava ao mesmo tempo que gravava e depois, eu mesma elaborava as falas, cuidadosa em conservar o melhor: o ouro, ou o mais precioso delas. Ressalto, ainda uma vez mais, que há outras vozes – além das pessoas reais, transformadas em personagens da minha ficção – vozes que recolhi da história escrita do povo judeu, do melhor da literatura judaica, das preciosas citações da Bíblia Hebraica. E é certo que, poucas vezes, me deixei falar, a minha voz é silenciosa, quase ausente. E quando aconteceu de eu falar… Bem, você já sabe, é o meu eu-literário que se apresenta, um “eu” que é ficção do que eu sou. No meu romance, outra vez trocando em miúdos, me apresento como uma quase mentira de mim mesma, fantasia do meu eu.

 

DA – É impossível não notar como a ideia da fé atravessa todo o seu livro. Nesse contexto, as citações de passagens da Bíblia Hebraica estão sempre a introduzir cada capítulo e acabam dialogando, de algum modo, com a atmosfera que emana das narrativas. Diga-se de passagem, a saga do povo judeu, em especial, é algo emblemática no transcurso da história, sobretudo pelos desafios enfrentados. O caminho da espiritualidade é uma via de esperança?

LELITA OLIVEIRA BENOIT – As suas perguntas me jogam sempre para o lado de escritores que me apaixonam! Como a atual. E agradeço por me dar a oportunidade de dizer algo, ainda que bem sucinto, em torno do escritor judeu israelense Amós Oz. A Bíblia Hebraica entrou no meu romance por intermédio dos seus ensaios de Os judeus e as Palavras. Oz, em um deles, se autodenomina “escritor secular” e demonstra ver na Bíblia Hebraica o lugar da pura literatura, e da mais alta qualidade, encontrando nela poesia e encantamento. De passagem, recordo que Amós Oz possuía uma grande e fértil erudição, que se manifestou em diversas direções, como no romance Judas e na autobiografia De Amor e Trevas. E há mais, muito mais que não caberá nesta simples resposta. Oz escreveu, neste ensaio que citei,  que o povo judeu tem uma relação muito particular com as palavras. Durante séculos e séculos, não tiveram outra terra ou país a não ser o das palavras, a começar pela Bíblia Hebraica, ou a Torá, para ser mais precisa. E quando alguém folheia, de modo despreocupado, o meu romance O Enigma de Daniela, encontrando lá, em suas páginas, citações bíblicas, norteadoras de cada um dos seus capítulos, poderá talvez pensar: “Caramba, este deve ser um romance religioso”. Mas não é de modo algum. É, isto sim, um livro que muito  gostaria de cativar os seus leitores com palavras e apenas palavras, através de existências humanas significativas, vivas, como quando ocorre, em suas páginas, o enfrentamento de quase intransponíveis desafios diante de um acidente criminoso e que abruptamente atingiu a jovem mulher judia Daniela, de apenas 23 anos, roubando-lhe os movimentos mais importantes do seu corpo. Para completar, lembro aqui de um tema presente no meu romance, o da complicadíssima relação entre religião e tradição judaicas. Dou um exemplo que me chega das minhas relações pessoais, portanto, de fora do romance.   Tenho uma grande amiga cujo pai era  judeu alemão e que imigrou para o Brasil nos anos da 2ª Guerra Mundial. Este senhor era ateu e marxista, no entanto, colaborou financeiramente para a construção da Sinagoga do Rio de Janeiro. Me parece que muitas vezes é bem complicada para os judeus e judias resolverem a equação religião versus tradição. Enfim,  se tenho alguma fé, é nas palavras escritas, no seu poder de encantamento, que pode mover o íntimo das pessoas para algum lugar melhor, dentro ou fora delas. Mas há também, nos dias atuais – e aliás, sempre existiram –  palavras que ferem e, às vezes, são letais. Difícil de responder… Me afasto sempre de caminhos pré-fabricados. E de um poema me lembro agora, do espanhol Antonio Machado, que assim escreveu: “Caminante no hay caminho, sino estellas en la mar”.  A ver

 

Foto: Julieta Benoit

 

 DA – Que espécie de polêmica a capa do seu romance gerou?

LELITA OLIVEIRA BENOIT – Ótima pergunta, que me possibilita dizer algo a esse respeito. Mas, antes de tudo, gostaria de agradecer ao excelente e prestigiado fotógrafo Ângelo Pastorello, que assina a foto de capa do meu romance. E também ao artista Eder Cardoso que compôs a capa a partir da foto de Pastorello, e ainda é o criador do bonito projeto gráfico do meu livro. Indo agora direto à polêmica, que dividiu opiniões. Alguns, que criticaram insistentemente a foto, disseram que se trata de um resultado fotográfico resvalando a publicidade, talvez um kitsch fotográfico. Outros, que a aprovaram – aliás, a maioria – viram nela algo próximo a conceitos da “pop art”. É engraçado, pensei, que uma opinião não anula a outra, mas se complementam. Preferi  então beber na fonte e fui conversar com o fotógrafo Ângelo Pastorello.  Diálogo bastante interessante e  bem surpreendente, pois  me remeteu às minhas escolhas – ou não-escolhas, para ser mais precisa – na escrita de O Enigma de Daniela. Veja, de forma bem sucinta, o que Pastorello me revelou. Que nunca teve como ponto de partida um conceito, em particular. A sua única escolha foi a de fazer um portrait, ou seja, um retrato espontâneo, sem truques, em interação viva e livre entre o fotógrafo e a pessoa fotografada, no caso, Daniela.  Para fazer o retrato, apenas escolheu, isto sim,  o tipo de luz, uma luz mais volumosa, luz de cinema,  para acentuar as expressões faciais e corporais da moça. De resto, completou, tudo aconteceu de maneira empírica e espontânea, entre o fotógrafo e Daniela.  Enfim, Pastorello ressaltou bastante que não foi guiado por um ou outro conceito, e é bastante subjetivo falar de conceitos em fotografia. Se dissesse, por exemplo, que a intenção era a de passar a seriedade ou o humor da moça, isto não seria completamente verdadeiro.  Pois sempre é o ponto de vista do fotógrafo que prevalece, um olhar apoiado por um aparato técnico-fotográfico. Enfim, nada tem a ver com conceitos pré-estabelecidos, específicos e, durante a sessão de fotos – que se prolongou por um dia inteiro –, nas palavras de Pastorello, “deu-se a liberdade de improvisar”. E concluiu me explicando, uma vez mais, que a imagem carrega muito da subjetividade do próprio fotógrafo, mas acima de tudo, a de quem olha a foto.  Na verdade, é ainda mais importante, pois a pessoa olha e sente a imagem de acordo com o seu Universo próprio e único.

 

DA – Você me confidenciou que estava trabalhando num novo livro. O que pode nos dizer a respeito desse futuro projeto?

LELITA OLIVEIRA BENOIT – Sim, revelei um segredo para você. Mas posso adiantar algo sobre esse novo projeto, já em curso. Será (ou já está sendo) um romance de vidas, como foi O Enigma de Daniela. São muitas vidas femininas que estou agora abrindo a minha escuta às suas vozes internas: seus gritos de aflição, de dolorida existência e também, aos seus desejos mais intensos. Os meus dedos de romancista tocam a vida real de mulheres, envoltas em grandes dificuldades e lutando contra elas, o tempo todo. São dificuldades, diria eu, diferentes daquelas enfrentadas pela família judia Bortman e, em particular, pela mulher Daniela. São dificuldades vivenciadas por muitas mulheres que se remetem à pobreza material,  à falta de moradia digna, de uma formação escolar humana.  Sendo de natureza material e espiritual, as muralhas erguidas por tantas dificuldades seguem tentando impedir ou talvez, espedaçar o futuro dessas mulheres entristecidas, mas resistentes. Os seus sonhos femininos persistem com tenacidade, com admirável beleza, apesar de tudo e contra tudo, insistem em existir.  Sobreviventes no caos do dia a dia, universo que as sufoca. Ao sofrimento feminino estou abrindo a minha escuta neste novo romance de vidas. Nele, insisto, é acima de tudo a voz feminina que fala. Já tenho um título, talvez provisório: O deserto e o canteiro belo. Invenção de uma jovem mulher, desprovida de tudo, mas ainda assim, dotada de imensa criatividade. Aliás, como o atual romance, O Enigma de Daniela, cujo título foi escolhido pelo médico neurocirurgião Alberto Bortman, pai de Daniela.  Pois, a criação de um romance de vidas envolve sempre a escritora, o meu eu-literário, e as vozes que nele acolho – como que encantada! Sim, encantada, surpreendida e, sobretudo, emudecida. Sempre tentando transformar tragédias em literatura, em romances, em poemas. Mesmo que apenas seja beleza literária, e no papel lançada.

 

DA- Afinal, por que escrever?

LELITA OLIVEIRA BENOIT – Sem escrever, nada sou. É tão natural como respirar, sabia?  Sem escrever, não há como eu sobreviver. Questão de vida ou morte, ao menos para mim. Escrevo como respiro: se me faltar a possibilidade de escrever, é o mesmo que me sentir sufocada ou sem ar respirável. Ao final do processo de escrever poemas ou romances, ou até mesmo, artigos ou livros de filosofia ou psicanálise, sinto –  é sensação, sim! – que vozes múltiplas falam através das minhas palavras. De certo modo, já me habitavam desde não sei quando.   Sou apenas a voz de Outro.  Procuro ser a transcrição poética das vozes que sendo de Outro, coincidem, de algum modo, com o meu eu-literário, o eu que escreve – e respira! Reforço: até mesmo na escrita teórica, de natureza filosófica ou psicanalítica. Como disse no começo desta conversa inspiradora – à qual só tenho que agradecer a oportunidade – sinto intransponível dificuldade de interpretar a minha escrita. Respiro: eis tudo… Quando faço tentativas de buscar sentidos na minha escrita, o ar me falta, fico ofegante, gaguejo, ou sei lá o quê… O que pode ter acontecido, no decorrer desta entrevista.

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista e mestre em Letras.

 

 

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133ª Leva - 05/2019 Destaques Jogo de Cena

Jogo de Cena

Nastácia: notas sobre a emblemática personagem de Dostoiévski

Por Vivian Pizzinga

 

Foto: Guto Muniz

 

Nos palcos do Teatro III do CCBB está em cartaz um espetáculo de fôlego e de suma importância. No ano em que dados mostram um aumento nas taxas de morte por feminicídio no Brasil, Miwa Yanagizawa dirige Nastácia, peça teatral e instalação artística que traz dramaturgia de Pedro Brício. A peça é baseada na personagem Nastácia Filíppovna, cujas violências sofridas e silenciamento imposto por uma sociedade amplamente sexista são abordadas por Dostoiévski em ‘O idiota’.

No palco, a idealizadora do projeto, Flávia Pyramo, interpreta uma Nastácia acima de tudo sarcástica, segura de si, convicta de seus próximos passos, corajosa para mudar o destino que a vida dedicou a si e a se reinventar, dentro do que era possível na cultura da época. Ao lado do sarcasmo, da segurança, da disposição para a ruptura, encontramos a tristeza, a mágoa, o ressentimento. A dor. Ao seu lado, Julio Adrião interpreta Totski, o tutor proxeneta de Nastácia, e Odilon Esteves encarna Gánia, o pretendente da protagonista em um casamento-negociata que está planejado para ser firmado na festa do aniversário de Nastácia e que estabelece em 75 mil rublos seu valor. Apesar de um tema pesado, a peça intercala os momentos mais densos com outros mais leves, engraçados até, conduzidos em geral por Gánia, que vai mostrando aos poucos certa gaiatice no decorrer do espetáculo.

Para começar, os espectadores entram na sala já imersos em um clima que se inicia nos corredores, com uma iluminação vermelha que parece preparar a atmosfera densa em que acontecerá a peça. Mais tarde poderemos entender um pouco mais a respeito do motivo da cor vermelha no corredor, pois voltaremos a ele, o que não comentarei com mais detalhes aqui para evitar spoiler. Essa é a parte instalação da peça, uma surpresa concebida de forma original e que espera a todos. De qualquer modo, o clima criado no corredor com uma solução simples que transforma a iluminação original em uma luminosidade rubra faz bastante diferença na promoção de um clima psicológico naqueles que vão assistir à peça, lembrando-nos as razões pelas quais ouvimos que o teatro é um mundo mágico. A direção artística de Ronaldo Fraga e a iluminação de Chico Pelúcio e Rodrigo Marçal são responsáveis pela composição desse clima.

 

Foto: Guto Muniz

 

O cenário é deslumbrante. As cadeiras estão dispostas em três lados do retângulo do teatro, e nelas nos distribuímos, como se fôssemos convidados de Nastácia. Ela conversa conosco, dirige-se a nós, nomeia alguns dos espectadores e a participação do público, aqui e ali, também tornam o espetáculo mais leve, pois essas se tornam passagens engraçadas. No alto, uma miríade de molduras de quadros e retratos, em sua maioria vazios, mas alguns deles com cenas e personagens em posições de morte. No centro da cena, as mesas com os quitutes da festa – os acepipes – cadeiras e alguns objetos curiosos. Nastácia está se preparando para a festa que, logo mais, irá acontecer.

É possível dizer que o sumário da trama acontece quando a personagem é trazida em um carrinho puxado por um dos outros personagens, que a exibe e a descreve como se de fato estivesse tratando de um objeto a ser comprado. Agora com um belo vestido roxo, com uma grande etiqueta à mostra, fica mais evidente que Nastácia está ali para ser vendida, trocada, negociada. A mulher não passa de uma mercadoria. A etiqueta simboliza seu preço.

E é em torno desse aspecto e das demais violências que Nastácia sofreu ao longo da vida que os diálogos e jogos da festa irão girar. Gánia diz querer se casar com Nastácia e parece servil em relação, mas confessa seu interesse financeiro na jogada. Totski, que a tornou sua concubina durante toda a vida, desde a infância, pede desculpas sem, no entanto, reconhecer verdadeiramente sua culpa, cindindo-se entre razão e volúpia, em que a segunda domina todo o resto com facilidade. Tenta convencê-la de que não podia controlar seus impulsos voluptuosos, não parecendo ter real arrependimento ou vergonha face ao cativeiro em que isolou Nastácia. Por outro lado, segue tratando-a como um objeto cuja posse é sua e de mais ninguém. Nastácia serve aos seus prazeres ou aos seus caprichos, a depender do momento. Pode, inclusive, dela se desfazer quando julgar que não lhe serve mais.

 

Foto: Guto Muniz

 

Uma das escolhas interessantes da equipe são as referências constantes ao Rio de Janeiro ou ao ano de 2019. As semelhanças mostram o quanto de 1869 para cá – ano em que a obra foi finalizada – a violência contra a mulher não mudou tanto. Há um momento em que Nastácia aponta paras as molduras de retratos que, em conjunto e do alto, emolduram o cenário da peça, e vai enumerando nomes de uma série de mulheres afetadas por atos de violência. Cita, ao lado de outros diversos nomes, Maria da Penha, que deu nome à lei que busca punir os diversos tipos de violência perpetrados contra mulheres. Não poderemos nos esquecer de que são muitas as histórias de mulheres que passam por situações de violência física e sexual, algumas dessas levando-as à morte. O tom do espetáculo, embora não seja o de militância, parece voltado a isso, a esse lembrete, à recusa de que nos esqueçamos desses nomes e dos atos violentos que os atingiram. À recusa de que nos esqueçamos da vereadora Marielle Franco, executada em março de 2018, mulher preta, lésbica, mãe e favelada, como ela própria se denominava.

Há um outro momento interessante, digníssimo de ser mencionado e que não configura spoiler: é quando Nastácia irá se casar e precisa da ajuda de algumas pessoas para vestir o tradicional vestido de noiva. Ela chama três homens da plateia para que a ajudem. Esse simples gesto, que parece desprovido de qualquer significação, é, entretanto, genial. Estamos acostumados a situar as pessoas em determinados locais e funções conforme o gênero (e também a raça, embora essa dimensão não tenha sido trabalhada na peça). O que normalmente acontece em uma situação como essa é a de mulheres ajudarem a noiva a se vestir. São elas que vão ajeitar o véu, colocar o vestido, aprumar a barra da saia, rodear a noiva, talvez auxiliá-la na maquiagem, no penteado. Mas a Nastácia de Flavia Pyramo recorre aos homens da plateia. Eles é que irão fazer tudo isso, por mais atrapalhados que pareçam, à primeira vista. Sim, serão atrapalhados, tanto quanto uma mulher que nunca tenha ajudado uma outra a se vestir de noiva poderia sê-lo. Não está dado que eu, por exemplo, no lugar de um daqueles homens, me sairia melhor (e certamente não me sairia!). Sendo algo inaugural para uma mulher e para um homem, todos poderiam estar claramente pouco familiarizados com os gestos a serem escolhidos para que o vestido entre na noiva. E se esses homens sempre fizerem isso e tornarem tais gestos seu ofício frequente, eles estarão em casa quando chamados ao palco para ajudar uma noiva a se preparar para seu casamento. O interessante dessa cena aparentemente sem importância no conjunto da peça é que se Nastácia tivesse chamado mulheres para ajudá-la, nem eu nem as outras mulheres da plateia estranharíamos. Ou, pelo menos, não a maioria de nós. A cena me salta aos olhos e me leva a trazer ao texto como comentário importante porque eu também estranho, eu também me surpreendo, e me surpreendo positivamente. Nastácia, ao chamar os ajudantes de palco, não especifica para o  que é, diz apenas que precisa de homens para ajudá-la, e de fato eu esperava que fosse algum trabalho pesado, como talvez arrastar algum dos objetos para ampliar o espaço para a próxima cena, por exemplo. Em verdade, é uma dupla surpresa: primeiro, com a cena, instigante em toda a sua sutileza, e, em segundo lugar, comigo mesma, por estar surpresa com a escolha, por ter esperado mulheres para aquela função, por ter achado que, quando ela pediu a ajuda de homens, seria para outra coisa, e não para algo delicado como a preparação de uma noiva.

 

Foto: Guto Muniz

 

Mesmo que o resto da peça não tivesse trazido nada de interessante, essa cena já teria valido todo o espetáculo. São camadas e mais camadas arraigadas de patriarcalismo e sexismo (além, claro, do racismo) sedimentados em todos nós, mesmo que sejamos feministas, anti-sexistas ou adeptos de qualquer política social e de luta. Mesmo que sejamos progressistas e lutemos por isso, ainda caímos em nossas próprias normativas culturais, em nossas armadilhas sociais. E às vezes sequer nos damos conta disso. Para as mulheres, é mais fácil perceber as violências mais ou menos sutis promovidas pela cultura patriarcal e sexista, os destinos impostos de antemão, a falta de flexibilidade de papéis que afeta uma mulher. Para os homens, isso não é sempre percebido, ou não o é em sua profundidade, e eles muitas vezes silenciam as mulheres, por não viverem na pele o que o patriarcalismo e a violência do sexismo causam. Nem todos o fazem por mal. Assim como para pessoas negras é mais fácil perceber o racismo estrutural, institucional e cotidiano de nossa cultura, enquanto que para mulheres e homens brancos, por mais antirracistas que supostamente sejam ou acreditam que sejam, tampouco é tão imediata a percepção de gestos, falas e atitudes racistas. O silenciamento também acontece aí. E com frequência. Muitos não fazem por mal, mas já passou da hora de aprendermos a escutar o outro melhor.

No entanto, como diz bell hooks, a escritora negra norte-americana, é preciso “erguer a voz”. Ela se refere às mulheres negras vítimas de violência racial. Mas podemos estender o seu exemplo a outros grupos, certamente. Mulheres brancas, pessoas negras, grupos LGBTQi, refugiados, pessoas com diagnósticos de transtornos mentais graves, quaisquer pessoas em situação de vulnerabilidade social precisam erguer a voz. E todos nós precisamos ampliar a escuta. Neste sentido, Nastácia é uma ótima opção de espetáculo teatral para assistir no Rio. Além de excelente dramaturgia, de qualidade na produção, de ótimas interpretações e momentos engraçados e de reflexão, o espetáculo é mais um produto cultural que nos permite erguer a voz. E quanto mais se ergue a voz, mais se pode mudar alguma coisa, mais a violência pode ser vista e ouvida e, por conseguinte, dirimida.

O único porém que eu colocaria é que a peça poderia ser um pouco mais curta. Uma vez que já possui a densidade característica de um texto russo, ainda que salpicado de leveza e humor, mereceria alguma edição em algumas partes (talvez o começo, principalmente, e alguns momentos das cenas que se encaminham para o final, excessivas), para que não se torne cansativa ao fim e ao cabo.

 

Vivian Pizzinga lançou os livros de contos Dias Roucos e Vontades Absurdas (Oito e meio, 2013) e A primavera entra pelos pés (Oito e meio, 2015), além de ter participado de algumas coletâneas, sendo as mais recentes, Cada um por si e Deus contra todos (Tinta Negra, 2016) e Escriptonita (Patuá, 2016). Trabalha também com psicanálise e Saúde do Trabalhador.

 

 

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133ª Leva - 05/2019 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Clarissa Macedo

 

Pintura: Canato

 

Desconhecida

 

As utopias acabaram
em nome da televisão,
um erro feito
pelo preço do petróleo

Eu te amo, tu me amas
e o verbo já não pode mar

Em nome de Cristo
muitas guerras foram dadas
em nome da dívida
uma tristeza no tronco do país.

Todos os mestres morreram
e na tua carne se desenha
traços que inauguram um título
baralho aberto no avesso da palavra,
asa feita de corpo e de coragem

O mundo agora
cruza um lago sem memória
e em alguns anos
estaremos mais pobres
mais burros
mais tristes
na alma e no prato (    )

Cresce um rasgo
em massa e sem história
na palavra-passe chamada pátria –
essa nódoa, essa traça
esse vazio imenso do nome
no mito de um tempo chamado aflição.

 

 

 

***

 

 

 

Faísca 

 

Ontem havia esperança
toda a esperança do mundo.
Hoje sou um estilhaço
um catálogo de dúvidas
e desejo.

Os pássaros não voam mais
e o dia que nasce
é o luto ordinário, grave,
posto sobre a mesa.

A boca diz o que o coração fala
e a dor é antiga:
chega, se instala
abre ocos na aorta, devagar,
para o aprendizado –
………………………………………do enigma

……………………………………….. da sutura
……………………………………………………..da ferida
……………………………………………………………………..da beleza.

Os fracassos… saúdam uns aos outros;
o que fica é o peso
a humilhação calcada nos olhos.

Digam que perdi:
que faltei às classes de empreendedorismo
e visitei às de angústia e miséria;
que não vou ao shopping
que rasguei os papéis e os comi.

Digam que perdi tudo:
a fé, o sonho, o dinheiro que não sobra

mas amo como se fosse eu o país
essa cavidade aberta
exposta, sangrando até a morte.

 

 

 

***

 

 

 

Versículo

 

1º Evangelho do Capital, 1, 1º. não derramarás coca-cola
em vão: / tomarás todo o néctar da garrafa não-reciclável;
/ não catarás os meninos e suas tampilhas, / ao risco de
ser apedrejado / ante a primeira vitrine; / patrocínio do
produto cuja etiqueta cobre o líquido do tiro perfurado.

 

 

 

***

 

 

 

Carnê

 

logo cedo a caminho do trabalho
olho a lista de coisas pregada na geladeira de 10 prestações
……………………………………………………………………………..[que não foram pagas
a mesma que congela ovos e óvulos da casa
a mesma que assiste na tv a cidadã que reza,
corta e mata em nome da moral etc. e tal
e que aparece no outdoor da cidade – esse espelho de
………………………………………………………………………….[simulacros;
geladeira que congela, escorre,
que não refresca a água da casa onde vive quem uiva sem
[presas a lista de coisas e a violência no coração seco do mundo

 

 

 

***

 

 

 

Arado

 

Nesta contrição feita de nuvem
o seixo que a conforma
é um sortilégio de canções
um sem fim que aflora
e deita à fera
um fio de água
que dos olhos brota

; assim entra no limbo
deixando fora as contas,
o salário baixo, a feira pobre
e até mesmo a nação
– esta que dói
por sangrar o cofre
deixando a nu os que plantam
e não colhem.

 

 

 

***

 

 

 

Rito

 

Sou uma tripa de pedras
que se escoam na ciclovia
das aves a morder o tempo
e seu desvão de tic-tacs

uma esfinge que choraminga
sem oráculo e sem os cactos
que não dormem;

tudo o que vive
é esta parede sem reboco
que observa, vigilante,
a goteira da sala
e se confunde com meu choro
a tomar as unhas, os canos
o cimento da massa;

quatro cantos
e os signos do calvário.

 

 

 

***

 

 

 

Certidão

 

Se pudesse
arrancaria meus nomes
um a um
para desbaratar
a lápide que me cobriu
na vida.

 

Clarissa Macedo (Salvador – BA), licenciada em Letras Vernáculas, mestra em Literatura e doutora em Literatura e Cultura, é escritora, revisora, professora e pesquisadora. É autora da plaquete O trem vermelho que partiu das cinzas (Pedra Palavra – 2014) e do livro Na pata do cavalo há sete abismos (7Letras – Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia – 2014, em segunda edição pela Penalux, 2017 – 3ª reimpressão, 2019), ambos de poesia. Entende a literatura como ferramenta para um mundo melhor.

 

 

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133ª Leva - 05/2019 Destaques Olhares

Olhares

A reinvenção do humano em Canato

Por Fabrício Brandão

 

Pintura: Canato

 

Revisito os arquivos do tempo e chego até o ano de 2008. Na ocasião, pude me deparar, pela primeira vez, com as pinturas de Cláudio Canato, artista plástico paulista. Mas esse seria apenas um mero relato de uma descoberta não fosse o impacto que as obras do artista causaram em mim àquela época. Chamava atenção naquele momento o modo como o artista reproduzia as formas humanas, deixando entrever a naturalidade de gestos e expressões das figuras retratadas.

Foi, então, que promovemos na Leva 21 uma pequena exposição com alguns trabalhos de Canato. Era possível perceber ali que havia toda uma peculiar forma de se lidar com as construções figurativas do humano. E como o próprio artista sustenta, ele desenvolveu uma maneira própria de pensar a representação humana em suas pinturas, engendrando um modo de conceber pessoas como resultado direto de sua imaginação, ou seja, sem o uso de modelos como ponto de partida para a criação. O especial nessa atmosfera criativa é pensar que a obra de arte eclode a partir do âmago de quem a cria, dinamismo de epifanias interiores.

Canato não nega o mundo. Ainda que seus corpos e rostos sejam marcados pelo traço inaugural da descoberta, há uma comunhão com signos universais de nossa existência. Por não negligenciar aquilo que também somos enquanto espécie, o artista em questão ressignifica as experiências humanas a seu modo.

 

Pintura: Canato

 

A anatomia do corpo tem seu idioma específico no conjunto da obra desse paulistano. São contornos e formas que exalam tensões da natureza humana, revelando também contrastes entre a celebração do gozo das vivências e os embates questionadores da nossa jornada. Mas eis que o corpo, em sutis jogos de luz e sombra, é pensado pelo artista como algo sacralizado não por constituir matéria de perfeição idealizada dos homens, mas como o próprio retrato da dualidade e das oposições entre o físico e a aspiração espiritual. A despeito disso, estão os murais pintados por ele, bem como as obras que compõem tetos de algumas capelas em São Paulo.

Há uma diversidade de possibilidades nas frentes que o artista atua. São exemplo disso não apenas os murais e capelas já mencionados, mas também retratos, desenhos, séries e um olhar voltado para a literatura infantil, na qual Canato ilustra e redige textos de alguns livros. No que tange aos murais, há um em específico que vem se destacando como um dos trabalhos mais significativos do artista na atualidade. Trata-se de “El Quijote”, que foi pintado no Colégio Miguel de Cervantes, em São Paulo. A importância dessa obra certamente está no modo como, num ambiente escolar, a arte se insere de maneira natural na construção do saber, instigando a curiosidade dos alunos não apenas em torno do processo criativo, mas da temática abordada.

Mesmo tendo sido influenciado por componentes estéticos advindos, por exemplo, de movimentos como o Renascimento e o Barroco, Canato não abre mão de pavimentar seu próprio caminho no quesito criação. Para tanto, promove seus mergulhos pessoais nos temas pensados, retirando deles construções que advogam pelo exercício de sua individualidade artística. É de se considerar que rupturas com o passado não são obsessões do artista, tampouco constituem alguma espécie de peso. Com leveza e percebendo seus chamamentos interiores, Canato ressignifica o humano com aquilo que tem de melhor, sua assinatura.

 

Pintura: Canato

 

* As pinturas de Canato são parte integrante da galeria e dos textos da 133ª Leva

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista e mestre em Letras.

 

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133ª Leva - 05/2019 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Parasita. Coreia do Sul. 2019.

 

 

Parasita (Gisaengchung ), de Bong Joon-ho, é o filme ganhador da Palma de Ouro de Cannes de 2019. Original da Coreia do Sul, ele repete o sucesso de crítica do cinema oriental que em 2018 fez de Assunto de Família, filme japonês, o vencedor do mesmo festival de cinema (resenha aqui).

Há muito em comum entre o filme de Kore-eda e de Joon-ho. Ambos retratam a vida de famílias japonesa e coreana, respectivamente, pertencentes ao estrato mais pobre da população em seu cotidiano de pequenos golpes por sobrevivência. No entanto, no primeiro filme temos uma família fictícia, enquanto no filme coreano é uma verdadeira família. Em comum, há também o apuro da produção estética. Parasita se utiliza de todos os recursos técnicos da edição contemporânea, incluindo a trilha-sonora pop, numa linguagem cosmopolita e globalizada.

E ambos os filmes também encenam a luta de classes no seio desta globalização estética: a vida das famílias que precisam se virar para poder sobreviver são exemplos do precariado global que sustenta com trabalhos completamente informais, e não raro clandestinos ou ilícitos, o cosmopolitismo estilizado de consumo nas sociedades ricas.

Parasita logo nas cenas iniciais apresenta sua metáfora principal. A família que vive no térreo de uma construção abaixo do nível do asfalto se mostra desesperada pela perda do sinal da rede sem fio que usufrui clandestinamente de algum vizinho, pois este resolveu colocar senha de acesso. Assim, o termo parasita assinala essa figura informática que intercepta uma comunicação que não lhe pertence.

 

Foto : The Jokers – Les Bookmakers

 

A família nuclear formada por pai, mãe e dois filhos jovens embala caixas de pizza para um delivery da vizinhança. A perda de acesso à rede é um desastre para a família que depende da internet para poder realizar seus negócios de sobrevivência. O filme se passa na Coreia do Sul que é um dos países com maior densidade de acesso digital. Justamente na Coreia, não acessar a rede é estar fora da cadeia de valor altamente informatizada que fez de um dos países do Terceiro Mundo, com renda menor do que o Brasil nos anos oitenta, grande referência na produção tecnológica avançada.

Mas um lance casual muda a sorte da família. O filho adolescente Ki-Woo é convidado por um amigo refinado a substituí-lo como professor nas aulas de inglês para uma família da classe rica de Seul. Ki-Woo começa então a dar aulas para a filha do casal endinheirado que mora com seus dois filhos menores numa mansão construída por um famoso arquiteto coreano. É então que o jovem vê a oportunidade, através da astúcia e do logro, de inserir toda a sua família para trabalhar na casa. Mas para isso é preciso não apenas enganar a família rica, mas também afastar dois serviçais de confiança, o motorista e a governanta, esta última trabalha na mansão desde o antigo dono. Os dois serão despedidos pelo conluio da família que se insere no cotidiano da mansão.

Assim, a primeira metade do filme se passa como uma comédia de costumes. A malícia da família pobre ludibria a ingenuidade da família rica para usufruir dos confortos dos privilegiados e de seus signos de ostentação. A família pobre então parasita a riqueza da outra família a partir de verdadeiros “golpes de mestre”. O problema é que a perfídia para afastar os também pobres serviçais de seu caminho retorna amargamente para estragar sua gozosa parasitagem. Eles descobrem através da volta da governanta demitida e ultrajada que a casa possuía outro habitante escondido num bunker subterrâneo da casa, construído pelo antigo arquiteto como refúgio de um possível ataque nuclear da vizinha Coreia do Norte. Trata-se do marido da governanta, há anos escondido no bunker, fugindo supostamente da cobrança de dívidas. Como mostra o filme Pietá do também sul-coreano Kim-Ki duk (2012), a cobrança violenta de dívidas é um dos maiores problemas sociais da Coreia do Sul.

 

Foto: Koch Films

 

A partir dessa reviravolta, a comédia se transforma em humor negro e macabro. A divisão de classes entre família rica e pobre é transposta para a guerra cruel entre as famílias pobres que toma lugar na mansão durante a ausência da família rica, em viagem de feriado, como um tipo de ocupação política de seu espaço. O enredo escalona vários níveis de parasitagens: o casal formado pela antiga governanta e seu marido também parasitava a família rica, assim como o bunker no porão parasitava a mansão. E alegoricamente a nunca terminada guerra com a Coreia do Norte parasita o imaginário do sucesso econômico da Coreia do Sul.

Ou ainda, de forma mais sugestiva: o sucesso econômico da Coreia do Sul é parasitado por sua condição de país periférico, cuja função é gerar mais-valia para as economias centrais. Os novos ricos da economia coreana são parasitados pela crescente desigualdade social que alinha as economias globais. E aqui se abre então um paradoxo que o filme de Joon-ho articula: não são os ricos que efetivamente parasitam a produção de riqueza dos mais pobres? Quem parasita quem é uma questão de perspectiva.

Parasita então revira através de uma espécie de geo-estética a lógica hierárquica do cosmopolitismo liberal da linguagem cinematográfica globalizada. Para usar um termo do ensaísta Silviano Santiago, há um “cosmopolitismo dos pobres” neste filme sul-coreano. Se por um lado, a Coreia do Sul, com seu novo cinema de sucesso e a linguagem comercial do K-Pop, consolida um eixo hegemônico internacional de consumo estético e figura um novo imaginário cultural para a região extremo-oriental, no filme de Bong Joon-ho a luta de classes é interiorizada como guerra bruta do precariado. Pois, mais do que qualquer outro, o trabalhador precário é o símbolo corporal da nova economia neoliberal. Ele marca a fronteira pela qual essa economia se expande e se globaliza. O filme figura a má consciência, ou mesmo o inconsciente recalcado dessa expansão.

 

Foto: The Jokers – Les Bookmakers

 

O cosmopolitismo dos pobres sul-coreanos devora por dentro a perfeição técnica da cinematografia do país emergente com cenas de brutalidade próximas ao pastelão. De fato, a cultura de exportação se tornou um elemento poderoso no PIB oriental que abala a hegemonia estética ocidental. A família rica, no entanto, dá mostras do desejo de imitar e simular os padrões ocidentais. São os pobres que vivem do trabalho cada vez mais informatizado e informalizado que realmente se tornam internacionais. Que sabem inglês melhor do que os ricos, que usam a internet para aprender sobre arte-terapia. A pobreza se globaliza, enquanto a riqueza se torna ridiculamente provinciana. A riqueza parasita o conhecimento de vida dos mais pobres que experimentam o real para além do fetiche das imagens publicitárias. E o real retorna no filme como um elemento intimamente corporal: o odor.

O odor é aqui um sinal do real que insidiosamente penetra as barreiras porosas entre as classes. Num certo sentido, é o odor que traça a distinção entre elas. Entre uma classe “pura” e “higiênica” que se relaciona sexualmente apenas no conforto do lar e uma classe “impura” e “suja” que transa com qualquer um e ainda fede. Iguais em suas próprias ilusões de posição, parasitas de um sistema globalizado que se expande numa lógica algorítmica e automática, a fantasia das classes reduz as pessoas a seus corpos-objetos. E a distinção de classe se marca nesses corpos impuros e vulneráveis. Fora do corpo e de suas emanações, a vida é não mais do que a projeção fantasiosa ou fantasmática do sucesso profissional, da riqueza fácil e da ostentação, fantasias parasitadas pelos sonhos utópicos de reconciliação.

 

 

Guilherme Preger é natural do Rio de Janeiro, engenheiro e escritor. Autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Oito e Meio/2014). É organizador do Clube da Leitura, principal coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro e foi organizador de suas quatro coletâneas de contos. Atualmente é doutorando de Teoria Literária pela UERJ com a tese Fábulas da Ciência. É colaborador do site de produção poética Caneta Lente e Pincel (canetalentepincel.art.blog). Escreveu sobre cinema para o site Ambrosia.com.br.

 

 

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133ª Leva - 05/2019 Destaques

Janela Poética II

Pedro Vale

 

Pintura: Canato

 

É preciso viver sem paixões.
Permanecer morto ou vivo até o fim.
Mergulhar no absoluto anonimato,
Aclamar o tumulto escuro e bruto.
Encenar o drama clemente e lento.
Sentir um amor ideal por anjos nebulosos.

Descobrir um novo fundo de poesia e aguardar
uma voz que nos ordene docilmente:
– Não te movas, nem te inquietes,
nem traias o que
ainda não
és.

 

 

 

***

 

 

 

O poema aquece
as montanhas
quase sem voz
e relativiza a fúria
Inocente e letal
Do vento

 

 

 

***

 

 

 

Talvez um dia recordes
num qualquer espelho torto
quão simples fora a tua salva
e te lembres daquela vez
em que ceáramos apenas meia
laranja e nada de pão naquela casa cega
com o telhado a verter lágrimas
de fel.

 

 

 

***

 

 

 

Porto

 

A poesia vai
Pela rua,
Nua.
Esconde-se
Nas manhãs mais
Frias.
E é à noite que lhe foge
A voz.
Lenta
E lenta,
Lentamente,
Até
Desembainhar
Na
F
O
Z

 

 

 

***

 

 

 

Cisma
em mim um
conceito,
quase uma
ordem estabelecida.

– o desejo.

Quanto
menos o
pratico,

Mais
se manifesta e me
surpreende por
excitante e novo.

Glicínias.

 

 

 

***

 

 

 

Por vezes
Acontece entrarmos
Num maravilhoso jardim árabe
E sentarmo-nos logo ali
No primeiro banco de pedra lisa
Imaginando o azul do mar.

 

 

 

***

 

 

 

Hoje acordei com uma andorinha no estômago.
A noite era de tempo limpo e sono.
Sabia a quebra milenar, cabelo solto.
Nenhuma angústia, lei, mato ou víscera defronte.
O prédio seguia o seu curso normal de vida, espécie de abrigo impune.
Gineceu.
Observava sem capacidade estrelada o céu, quando a miúda astronomia me
Espantou a inocência.
A circular impressão se revelara.
Tal como no meu estômago, assim uma via-andorinha, se alongava, qual
fita emprestada, distraidamente, no ar.

 

Pedro Vale vive no Funchal desde 2002 onde é professor de primeiro ciclo desde 2002. Cursou Ciências da Cultura e frequenta o mestrado em Gestão Cultural na Universidade da Madeira. O seu primeiro livro – “Azul Instantâneo” – foi lançado em dezembro de 2017 e o autor trabalha há largos meses na sua segunda edição.

 

 

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132ª Leva - 04/2019 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Alberto Bresciani

 

Foto: Luiz Bhering

 

ECLOSÃO

 

Perdíamos o ar, para ganhar mais, logo depois,
e saíamos rápido, procurando lugares claros,
onde a cidade oferecesse melhores condições
atmosféricas, para esquecimento e respiração
E seguíamos pensando em uma hora,
duas, quase afogados, sem perceber riscos,
bichos fugidos, animais selvagens, as palavras
presas na garganta, os corpos iscas dos corpos,
como se o melhor dos segredos estivesse
por ser revelado, uma espécie de início,
cio, jogo, a escolha do dia para nascer, lá,
afinal, a eclosão, o resto das nossas vidas.

 

 

 

***

 

 

 

SILÊNCIO

 

Às vezes é melhor não dizer nada, ou quase
O que se diz ganha corpo, membros,
senta-se à mesa e se esgarça
toda a chance de esquecer
E esse corpo assume espaços, crava o ferrão
em um único lugar na respiração, na linfa,
corpo estranho que nenhum glóbulo branco desfaz
E talvez seja esta a forma de desistir ao contrário,
para sobreviver à dor generalizada,
sem anestesia, antidepressivos, alucinógenos
É este silêncio liso, longo e coagulado
de bicho-preguiça, imóvel, crédulo, na árvore,
enquanto espera
E não sabe, não vai saber
do sobrevoo da harpia.

 

 

 

 

***

 

 

 

CARDUME

 

É preciso calar,
porque em silêncio respiramos melhor,
o diafragma está livre e ondula,
brânquias secas por fora,
mas que engoliram o mar

A respiração assim não amarra veias,
não arruína enredos,
não condena desfechos,
garante mais uma cena,
outras centenas delas,
e, dependendo do ritmo,
abafa o terror da trincheira

A mudez deixa todos os golpes
abaixo das bordas do cardume,
da pontaria dos bicos,
mandíbulas, dos dentes

Não ditos, o baque, a ruptura, o tapa
são nossos, só nossos, não ferem
– armadas se esquecem na rocha.

 

 

 

***

 

 

 

PEGAR OU LARGAR

 

Nas avenidas de Amsterdã,
naquelas manhãs de setembro,

aprendemos que as lágrimas
têm sempre a mesma substância

O tempo não as torna mais doces,
o tempo não as estanca

Vimos o castigo por entre
árvores de falsa inocência

Não é nenhum segredo
Isso lateja em cada palavra

Sim, o nunca estava ali, conosco
Ainda está

As tardes terminavam
e nenhum farol nos distinguia

Melhor secar as lágrimas
Talvez o esquecimento

venha à cama,
outro dia chegue,

devolva um pouco de tempo,
bom nome às coisas

Os dados estão lançados,
as apostas, abertas

Basta girar
a roleta.

 

 

 

***

 

 

 

HABITAT II

 

I

Insistem os medos por dentro da pele,
escondendo os órgãos, o sangue, em todos
E nem sabemos o que nos falta,
do que fomos apartados algum dia,
porque nunca estivemos presentes sequer em nós
E então escavamos o que já está muito seco,
em busca de água, como toupeiras, javalis
Ou mergulhamos, invisíveis baleias azuis,
para gritar até que o silêncio enfim respire

II

Procuramos sempre a ilusão
no que é o inverso de tudo, com ansiedade,
o ar preso, a resposta esperada
em bolhas de vidro que repetem
a neve, cenas impossíveis
de um idílio sem calor, líquidos, pulso
E se pensarmos bem, sim, jamais tivemos
um lugar só nosso, onde morar,
defesas psicológicas, miméticas, abrigo

III

Amanhã, talvez, nem nos lembremos de quem somos
ou quem são os outros, porque não conseguimos
nos entender ou ao nosso século,
a nenhum deles, o que dizem e o que dizemos
E somos só isto mesmo: animais solitários,
tentando a sorte, insistindo no tempo
Até que alguma palavra caia, por azar,
castigo ou revelação,
e, enfim, possamos
aceitar.

 

 

 

***

 

 

 

CORVOS

 

Não via os corvos,
mas eram corvos,
prendendo o tempo
E eu criava pombos

Quando você saiu,
as sombras
tinham penas negras
e ficaram pela casa,
pela garganta,
as suas penas

Ontem entendi
e acendi a luz.

 

Alberto Bresciani nasceu no Rio de Janeiro. Vive em Brasília. É autor de “Incompleto movimento” (José Olympio Editora, 2011), de “Sem passagem para Barcelona” (José Olympio Editora, 2015, finalista do prêmio APCA de Literatura – Poesia de 2015) e de “Fundamentos de ventilação e apneia” (Editora Patuá, 2019). Integra, entre outras, as antologias Outras ruminações (Dobra editorial, 2014) e Escriptonita (Editora Patuá, 2016). Tem poemas publicados em portais, blogs e sítios da internet e em revistas e jornais impressos.

 

 

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132ª Leva - 04/2019 Destaques Olhares

Olhares

A permanência da poesia

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Luiz Bhering

 

Quem somos nós em meio a tudo? Quantas vidas cabem no registro da paisagem, no olhar preciso e poético do mais atento observador? São perguntas que surgem quando pensamos no ofício do fotógrafo, este sujeito que, nalguns momentos, mais parece habitar uma dimensão da existência paralela ao que vivemos. Desse tipo de artista é esperado que capte o instante e suas frestas, sensações que por vezes deixamos passar em meio ao imediatismo dos dias.

Entre minúcias, recantos e gestos humanos, paira contínuo o desfilar da vida, palco que sabe a descobertas, embates, contemplações e denúncias. Ao mesmo tempo em que nos deparamos com o Belo, também somos confrontados com as mazelas que engendramos em nós e na relação com o Outro. Assim, a existência vai se configurando entre os limites do materializado e do intangível. No entanto, os olhos sempre podem mais, posto que transcendem a fisicalidade das coisas e apontam para direções outras, percepções ligadas aos sentimentos que carregamos dentro e fora de nós.

No transitar de experiências que permeiam o traçado cotidiano, estamos diante do trabalho de um artista como Luiz Bhering, alguém que traz em seu engenho variados modos de acepção da realidade. Suas imagens demarcam um amplo território de possibilidades cujo potencial narrativo encerra a trajetória de pessoas e lugares. Mas abordar gente em seu enleio diário requer muito mais do que apenas registrar gestos rotineiros, ou seja, exige do fotógrafo que este permaneça o tempo todo atento ao que pode suplantar o gesto banal da vida. Tal resultado de rasurar as margens do óbvio faz da arte de Luiz Bhering algo que provoca nossas percepções mais sublimes, pois eleva a dureza dos dias ao patamar de delicadeza e sensibilidade, atributos por demais caros diante do turbilhão coletivo de vivências que nem sempre se conciliam.

 

Foto: Luiz Bhering

 

Luiz observa os homens e seus incessantes rituais, vê-los interagir com seus iguais nos mais difusos espaços de convivência, retira dos gestos daqueles seres o substrato simbólico de muitas imagens. Desse modo, eis que o fotógrafo testemunha o quanto a intervenção humana foi capaz de marcar decisivamente a paisagem urbana, com a explosão de grafismos, arquiteturas, cores, todos eles assemelhados a uma coletânea de vestígios que sugere a genuína expressão duma vontade de permanência. Do mesmo modo, nos é dado também pensar que os homens inscrevem seus papéis no mundo pelo legado do silêncio e da ausência. Tal sentimento as imagens de Luiz não se furtam a representar, tendo em vista que lugares hoje esvaziados de ocupação foram, outrora, palco de substantivas ações dos homens. Diante da emergência do presente, podemos vislumbrar que esses ambientes ocultam em si narrativas de eras pretéritas, enredos agora clandestinos.

Natural do Rio de Janeiro, Luiz Bhering confessa que toda a sua vida está devotada ao envolvimento com a fotografia, reconhecendo nela não somente seu ofício e sustento, mas a fonte fundamental de sua expressão, espécie de idioma próprio. Segundo o artista, ela é seu passaporte para a vida, pois permite que até mesmo um simples transitar pela rua signifique uma experiência repleta de descobertas. Formado em Fotografia pela City Polytechnic School of Arts and Designer de Londres, Luiz traz em seu vasto currículo vivências artísticas e exposições dentro e fora do Brasil.

A partir do olhar que não negligencia possibilidades de descoberta, por mais singelas e inusitadas que estas possam lhe parecer, Luiz engendra seus caminhos de artista. É, como podemos pensar, um estado permanente de atenção, mas sem a ideia de que tal disposição represente o peso de se viver sôfrega e insistentemente alerta. E quando um artista revela interesse em estar desnudo e atento à simplicidade da existência, posto não temer o que surge sem aviso, é ele mesmo um alguém em estado permanente de poesia.

 

Foto: Luiz Bhering

 

* As fotografias de Luiz Bhering são parte integrante da galeria e dos textos da 132ª Leva

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista e mestre em Letras.