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132ª Leva - 04/2019 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Sérgio Tavares

 

Foto: Luiz Bhering

 

O discurso presidencial

 

Um minuto, anuncia o secretário de Imprensa. O operador de câmera confere o visor e calibra o foco. A meia altura do tripé, o plano americano enquadra o tampo amadeirado do que parece ser uma mesa de uso doméstico. No canto inferior esquerdo do vídeo, tem um exemplar da Constituição de 88. No canto inferior direito, um volume da Bíblia Sagrada. Em escala de profundidade, vê-se o recosto chumbo de uma cadeira office e, mais atrás, a bandeira do Brasil presa, com fita crepe, na parede nua.

O presidente, então, entra em cena. A princípio, apenas o recorte do corpo que dá das coxas até meio do abdome. Trinta segundos, acusa a voz do secretário. O presidente acomoda-se. Usa uma camisa social azul turquesa, sem gravata, sobreposta por um blazer azul marinho. O assistente de som lhe prende o microfone na lapela: Alô, alô, testando… Ato contínuo, a maquiadora polvilha base na cara papuda e acerta, com um pente fino, o pega rapaz do penteado montado a gel.

Ok, todo mundo fora de cena! Silêncio agora, pessoal! No centro do vídeo, o presidente assume uma postura ereta e encara fixamente a câmera. O secretário de Imprensa corre para detrás do tripé e informa: Cinco segundos, iniciando uma contagem regressiva com os dedos, que é sucedida por uma voz feminina em OFF, escutada num pequeno monitor ao lado. “Forma-se, neste momento, a rede nacional de rádio e televisão, para o pronunciamento do presidente da República”.

É a deixa. O secretário de Imprensa sinaliza, mas, ao contrário do ensaiado, o presidente não começa a falar. Ainda com a coluna reta, as mãos pousadas sobre a mesa, faz um movimento sutil, porém firme, com a musculatura do pescoço, como se tentasse se livrar de algo preso na garganta.

O tempo passa, está ao vivo para todo território nacional, e o silêncio começa a provocar tensão. O presidente meneia a cabeça, empina o queixo, demonstra agora sinais de incômodo. Ninguém entende o que está acontecendo. Ele está engasgado?…, sussurra o operador de câmera para o assistente de som, que dá de ombros.

O presidente está mais alterado. Pressiona o pomo-de-adão, repete um esgar, perde a compostura. Debruça-se sobre a mesa e, num movimento forçoso semelhante ao da expectoração, contrai os lábios e, de sua boca, sai uma roliça tripa marrom malcheirosa.

Todos, no ambiente, se espantam. Ressoa um abafado de exclamação. O presidente, com os olhos arregalados, encara aquele montinho pastoso à sua frente, olha de volta para a câmera e retrai os músculos da face como se não soubesse o que fazer. Tenta falar outra vez, e um novo arremesso de bolo fecal bate contra o tampo amadeirado da mesa.

Minutos depois, o vídeo tinha viralizado em todo o mundo. Com igualável rapidez, apoiadores se manifestaram nas redes sociais, em blogs e em vídeos no Youtube, alertando de que se tratava de deepfake, uma montagem grosseira, feita por opositores, com o propósito de atacar a imagem do presidente.

Mas não era o caso. Toda a vez que o presidente tentava se expressar, um rolo de fezes era regurgitado inevitavelmente. Falava sobre o meio ambiente, defecava pela boca. Falava sobre a ditadura, defecava pela boca. Falava sobre a diversidade de gênero, defecava pela boca. Falava sobre cultura, defecava com mais ímpeto pela boca.

Em protocolo de emergência, o presidente foi levado para um centro médico, no entanto, depois de uma bateria de exames, proctologistas e otorrinolaringologistas não puderam determinar qual era a causa do fenômeno. Políticos da base, apavorados, davam como certa a renúncia. O estafe partidário se preocupava em blindar a Comunicação do Planalto do assédio da mídia nacional e internacional, ao mesmo tempo que articulava a posse do vice.

O problema era o fogo amigo de alguns aliados políticos que vazavam notícias, alimentando uma série de especulações que pressionavam o porta-voz do Governo a se pronunciar, muito por conta também de uma ansiedade perigosa que começava a ganhar forma nas ruas.

Dois dias depois, o vídeo tinha alcançado a marca histórica de dois bilhões de visualizações, e parlamentares da oposição começavam a colher votos para dar início a um processo de impeachment. Com o presidente ainda internado, ninguém sabia o que fazer e tudo parecia realmente perdido.

Até que, das profundezas de um porão situado num grotão morno dos Estados Unidos, um guru de extrema-direita faz uma live que muda todo o quadro. Defende que, na história do mundo, nunca existiu um líder com a capacidade de executar um ato que transcendia a fisiologia normal do ser humano. Que era um homem único, um mito. Que, por estar um degrau acima na evolução da espécie, todos deveriam idolatrá-lo e segui-lo. Que em função da impossibilidade dos outros mortais repetirem seu ato, os seguidores deveriam ingerir fezes, de modo a condicionar o corpo a expulsá-la pela boca. Que ele próprio, desde aquela manhã, tinha iniciado uma dieta no qual ingeriria três porções de fezes frescas por dia, de maneira a se tornar, oxalá!, tão evoluído quanto o presidente. Que mostrariam para o mundo que a fome, no Brasil, era uma mentira.

No dia seguinte, milhares de eleitores tomaram as ruas, simultaneamente em vários estados, para celebrar o presidente que defecava pela boca. Vestidos com camisas oficiais da Seleção Brasileira de Futebol, tênis e bermudões, cantavam o novo Governo, a nova Pátria, o direito de ingerir fezes. Alguns, inclusive, seguravam tupperwares com porções de bolos fecais e iam se alimentando durante a manifestação. Pais davam colheradas a seus filhos para, oxalá!, um dia alcançarem o estágio de evolução do presidente.

Com a crise controlada e o vídeo reduzindo, gradativamente, o número de visualizações, o estafe começa a botar a agenda presidencial de volta aos trilhos. Inapto a falar sem expelir um rolo fecal, o presidente tenta se comunicar por meio de libras, porém é incapaz de articular qualquer movimento com os dedos que não seja o indicador e o polegar esticados, simulando uma arminha. Passa, então, a ser acompanhado por assessores que seguram pequenas lousas e uma caneta piloto não da marca Bic. Ali escreve ordens para um grupo formado pelo vice-presidente, o chefe da Casa Civil, o ministro da Economia e um astronauta, que passam a ser a voz ativa no comando do Brasil.

Recolhido em casa, o presidente começa a usar, cada vez mais, o Twitter para se expressar. Ao fim de todo post, cola a hashtag Pátria Amada Brasil e o emoji cocozinho. Também é, através de tweets, que demite dois ministros e o chefe da Receita Federal, ao descobrir que não seguiam a ingestão regular de fezes frescas. Em 5 de setembro, Dia da Amazônia, compartilha um vídeo em que um ruralista, no centro de uma grande área desflorestada, pasto de cabeças de gado, saboreia um bolo fecal a garfadas cheias, afirmando que, a exemplo do esterco que aduba o solo, as fezes aduba (sic) o cérebro. O presidente cola, no rodapé do post, a hashtag Respeito.

Daí se avizinha a data da Assembleia-geral da ONU, na qual é praxe o chefe-maior do Estado brasileiro fazer o discurso de abertura. Com a reprovação da equipe médica circulando pelos bastidores do Planalto, o vice-presidente, durante uma coletiva, deixa escapar que o presidente não irá participar do evento. A declaração, porém, causa revolta no presidente, que ordena que o vice se dirija urgentemente à sua casa, onde ficam cara a cara e, aos berros, dispara jatos de matéria fecal por todo o rosto e terno de seu imediato. Completamente enfurecido e descontrolado, o presidente passa o resto do dia defecando em todo o assoalho da casa.

Não passa por sua cabeça (sic) faltar ao discurso de abertura. O estafe e o grupo, então, reúnem-se, de modo a bolar uma estratégia para o presidente fazer o discurso sem precisar falar. Sugerem um powerpoint; o presidente recusa. Sugerem uma dublagem sincronizada a movimentos labiais; o presidente recusa. Sugerem que fique em posição de sentido e a primeira-dama discurse por ele; o presidente recusa. O presidente quer falar. Em sua cabeça (sic), conclui que tem uma missão a cumprir. Um dia antes da viagem, publica, em sua conta no Twitter, que vai a ONU defender a soberania nacional, hashtag cocozinho. O post tem 200 mil curtidas e 40 mil compartilhamentos.

Nova Iorque, setembro. Diante de um auditório com centenas de ocupantes, entre chefes de estado, de delegações, autoridades diversas, repórteres e convidados, o presidente caminha até a oratória, levando consigo duas folhas de papel A4 escritas à mão, e se posta a centímetros do microfone. Flashes de câmeras estouram em seu rosto. O presidente arruma as folhas sobre uma pequena bancada, confere outra vez o início do discurso, limpa a garganta e, ao projetar a voz, arremessa um bolo de fezes ao pé da tribuna.

Na primeira fileira, lideres de nações europeias reagem com assombro, em seguida, com repulsa. Alguns deles, nauseados, levantam-se e abandonam o recinto. Outros, ao fundo, permanecem em seus lugares, até serem alcançados pelo futum. Mesmo para o padrão do presidente estadunidense é demais, e ele também deixa o salão.

O presidente, no entanto, não se abala e segue defecando pela boca o conteúdo redigido nas folhas de papel. Ao fim, o ar concentrado está tão poluído, que mesmo os operadores de câmera e a equipe de organização se evadiram, ficando apenas a pequena comitiva brasileira que, habituada à intensidade do cheiro, coroa a queda do último rolo fecal com uma salva de palmas e assobios. O presidente é abraçado e cumprimentado pelo sucesso, depois todos vão comer hambúrguer num fast food da esquina.

De volta ao Brasil, o presidente é recebido por uma multidão que se autointitula os toletinhos. Carregam faixas e cartazes, cantam o hino nacional e entoam frases de efeito, ingerem fezes frescas e dão tiros para o alto; no topo de um carro de som, uma dupla faz uma performance-homenagem de brown shower.

Analistas de direita tecem comentários elogiosos sobre a participação do presidente na Assembleia-geral da ONU. Exaltam como foi sensato, incisivo, mantendo a compostura diante da debandada dos chefes de nação, mesmo quando seu modelo moral, o presidente dos Estados Unidos, deixou o recinto, cobrindo o nariz.

Na imprensa internacional, porém, o discurso do presidente repercute entre a revolta e o escárnio. Um articulista do Le Monde define a participação como um acinte, pois (trad. do francês), “sabedor de que defecava pela boca no Brasil, fez questão de que o mundo tivesse ciência de seu hábito grotesco”. O editorial do Deutsche Welle defende que (trad. do alemão) “a próxima Assembleia-geral fosse realizada nos sanitários do prédio”. A capa do The Sun traz a manchete “Brazil is a sh***” (melhor não traduzir).

É o combustível para se iniciar uma guerra virtual, com memes, fake news, comentários, stories, textões e tweets. Mas, com o tempo, os efeitos ganham ressonância na política macroeconômica e acordos bilaterais e multilaterais começam a ser desfeitos. Todos os países europeus param de importar produtos e matérias-primas do Brasil. Multinacionais fecham fábricas em várias cidades, causando demissões em massa. Mesmo os Estados Unidos, um aliado platônico, cortam relações com o governo brasileiro, decretando o isolamento internacional. E assim, apesar da arrogância do presidente em garantir que o país é autossustentável, a economia caminha para a falência.

Dois anos depois, o desemprego atinge 44 milhões de brasileiros, e 88,8% das famílias estão endividadas. A violência social explode contra a inexistente política de segurança e, nos estados mais pobres, a fome mata uma criança a cada cinco minutos. Com a redução do território verde da Amazônia a 12%, epidemias tomam as cidades que, sem estoque de vacinas, empilham cadáveres em covas coletivas. Todos os planos econômicos e reformas se revelam pautas de festim. E até mesmo a Igreja, mentora e patrocinadora do Governo, fecha todas as suas sedes e seu canal de televisão, e se muda para Moçambique, alegando que Deus não é mais brasileiro.

Ainda assim, o presidente lança sua campanha de reeleição. E milhares de toletinhos o acompanham em caravanas messiânicas por todos os cantos do Brasil, reverenciando o mito, o ser incomparável que defeca pela boca, pois, apesar do caos social, dos continuados escândalos de corrupção, da livre prática de nepotismo, da volta da censura, do consolo da informalidade para ter o mínimo para sobreviver, todos podem contar com a ingestão diária de três porções de fezes frescas.

O presidente sequer se vale mais de lousas para se comunicar, arremessando, em ritmo de campanha, matéria fecal a torto e a direito, sem moderação. No corpo a corpo, eleitores disputam o espaço mais próximo do presidente, de modo a capturar um desses rolos ainda no ar e ingeri-lo imediatamente, presumindo que a fonte original possui componentes puros, capazes de agir com mais eficácia na modelagem do intelecto (sic).

O presidente não se incomoda com o empurra-empurra, os apertos e os abraços, guiando a multidão numa cauda verde-amarela de inquietos movimentos, que somente se interrompem quando o líder detém os passos para defecar, sobre os microfones e gravadores da imprensa, as mesmas malcheirosas evacuações. Até que, num desses contatos diretos com eleitores de Minas Gerais, uma repórter de uma rádio local atravessa o gravador por entre a barreira de pessoas e pergunta ao presidente o que ele teria a dizer para os brasileiros que não apoiam seu governo, que se recusam a ingerir três porções diárias de fezes. O presidente dá um sorriso debochado e se prepare para expelir um rolo robusto sobre o rosto da repórter, quando abre a boca e sai a sua voz.

O presidente se espanta em ouvir a si próprio, depois de anos. Todos congelam, e um silêncio expansivo vai ganhando forma na multidão à medida que cada pessoa transmite para a mais próxima que o presidente voltou a falar. Há uma perplexidade coletiva, um abalo mental, em seguida a ponta de uma rachadura. Com os dedos melados e os lábios sujos, as pessoas começam a se autoquestionar sobre a ingestão de fezes, construir uma reação de nojo. O presidente observa a mudança das expressões a sua volta. Processa novamente a pergunta, pensa no que falar, pensa na mais absurda e abjeta declaração para expelir um bem roliço e fedorento bolo fecal, mas se distrai, não consegue, e, atormentado, sem encontrar saída senão a mediocridade da própria voz, insinua uma resposta, quando, do nada, surge alguém e lhe acerta uma facada na barriga.

 

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É crítico literário e escritor, autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês, o espanhol e o tâmil. Participou da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris. Edita o site de crítica literária A NOVA CRÍTICA.

 

 

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132ª Leva - 04/2019 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Bruna Mitrano

 

Foto: Luiz Bhering

 

sentei perto dos urubus
o homem que passava disse
eu tenho nojo de você
expliquei a ele que os urubus
procuram na carcaça
as partes moles e quentes
ele deu as costas xingando
e sacudindo as mãos
olhei pros urubus
eles também me olharam
complacentes com aqueles
olhos sem branco
o homem o seu corpo inquieto
era como o animal que
esperneia antes de morrer
sabíamos no entanto que ele
não morreria que ele estava
mais vivo que nós que não
temos mãos nem pedras
nas mãos pra atirar em quem
nos causa repulsa apenas
alguma intuição de encontrar
partes moles e quentes.

 

 

 

***

 

 

 

nasci com dentes podres
coisa de família
minha avó ficou banguela aos 26
os tios todos têm dentadura
criança diziam tão bonita mas assim
não vai arrumar namorado
eu não queria arrumar namorado
arrumei nove ossos quebrados
ossos fracos coisa de família
disseram bruna você parece que pode
partir ao meio a qualquer momento
eu quebrei muitas vezes
mas ninguém quis ver
que não quero namorados
e que meu mau hábito de
não escovar os dentes é por
que nunca paro de comer
porque o que sinto não é fome
é o sentimento da fome que talvez seja
coisa de família nunca entendi
o que é essa coisa de família.

 

 

 

***

 

 

 

vila kennedy, 2 de julho de 2019

 

*pra érica magni

 

na noite passada eu vi
um homem sem cabeça
não um ser mitológico
nem um desses zumbis de seriado
um homem que sangra
decapitado na vila kennedy
um homem de peito aberto
sem metáfora ou outra figura de linguagem
que emprestasse beleza (ainda que dessas
belezas terríveis) à imagem
do homem de coração arrancado
e enfiado na boca – a cabeça um ser
independente de
nervos
músculos
vértebras
apoiada sobre a barriga
como um porco à pururuca de desenho animado
a maçã perfeitamente encaixada
a maçã exageradamente vermelha
colhida no próprio corpo
estirado no asfalto
na noite passada eu vi
e ver pode ser pra sempre
o homem morto
com a cabeça solta
o peito aberto
e o coração entre dentes
as partes todas
remontadas
como numa instalação artística
na noite passada eu vi
e senti (o coração na boca)
uma dificuldade de respirar
que ignorei em respeito à mãe do morto
(ao coração arrancado da mãe do morto)
e a todos que conhecemos o terror
por dentro –
não foi na noite passada
que ela disse: olhando de longe
a favela parece até uma árvore de natal.

 

 

 

***

 

 

*com nick Drake

 

toda noite deus puxa meu cabelo
única parte não imersa
até arrancar a pele do rosto

não tenho mais espelhos

please give me a second face
a voz engasgada de nick

toda noite ouço a louca fugiu
e agarrou desconhecidos dizendo
olha minha garganta está fechada
e meus dentes foram colados

eu que não tenho mais dentes
como a minha avó
chupando ossos de galinha

please play me your second game

toda noite a menina grita o pai
lambeu o lóbulo da minha orelha

e a mãe lembra que é preciso
esquecer que a louca que o pai que
a mãe nunca lembrou
de acordar a menina pra escola

please tell me your second name

toda noite vem o homem
vestido de branco e
conto a ele do pintor
que disse não gosto de aquarela
é impossível domar a água

que foi o pintor com quem vivi
que foi o pintor que me bateu
num hotelzinho na angélica

please give me a second grace

toda noite vem o homem
vestido de branco e
digo a ele
é impossível domar a água

I just sit on the ground in your way

o homem vestido de branco
anota a minha doença num papel.

 

 

 

***

 

 

 

lembra quando eu subi na janela
fiquei de pé e chovia
eu quis que você tivesse medo
e me pegasse por trás como fazem os policiais com os suicidas da golden gate
mas você fez o santo de rabo de olho
a boca caiu o cabelo cobriu a testa
eu não entendo eu quis entender
o pau duro na minha bunda criança o que era aquilo
se era de eu ser diaba ou se eu acidentei
os pelos grossos e o hálito pesado do trabalho sujo
agora é a fila do mercado e o celular despertando
a parte que escapa
à rotina:
café com leite arroz tipo 1 sexo com o vizinho
segredos cimentados nas calçadas dos subúrbios –
o homem ainda estava com o rosto deitado nas minhas pernas
feto de pele velha ossos largos pelos brancos
quando eu disse eu não mais darei nomes aos meus filhos
e eles não mais serão escravos.

 

 

 

***

 

 

 

hoje limpei a casa
tirei traças das paredes e asas
de insetos do chão do quarto

R. não conseguiu dormir aqui
não foi por causa da sujeira
foi por causa do cachorro
e porque não tinha queijo
R. não vive sem queijo – anotar

a dona Neia disse que
pra conseguir dormir
é preciso pensar pra dentro
e pensar nas coisas do dia

como a mulher que vende café na estação
penso na mulher vendendo café
na chuva ela tem uma capa azul

penso nos restaurantes baratos
nos velhos tomando sopa
com a cara perto do prato

e nos homens na calçada
mastigando as sobras com uma lentidão que
nem parece fome parece elegância

penso que os homens mastigando lentamente
as sobras sabem
que amanhã os restaurantes estarão fechados
que a mulher venderá café na estação
e que é impossível viver sem queijo.

 

Bruna Mitrano (1985) nasceu e vive na periferia do Rio de Janeiro. Filha de camelô e neta de lavadeira, é mestre em Literatura pela UERJ, poeta, desenhista e articuladora cultural. Tem textos publicados da Revista Pessoa, na revista Cult, na revista Palavra, no jornal Plástico Bolha, dentre outros. Participou de 17 antologias. Teve textos traduzidos para o inglês e o espanhol.  É autora do livro Não (Ed. Patuá, 2016).

 

 

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132ª Leva - 04/2019 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Não calar a voz diante da vida, seus desígnios, chamados, imperativos e desafios. Não se curvar a toda sorte de vaticínios propalados pelo pensamento autoritário e totalizante. Não deixar de ser parte nos processos que compreendem o entendimento de nossas humanas idades. Tomadas assim, em doses contínuas de arremessos, tais negativas resumem em si o gesto mobilizador de uma existência que não se furta a travar inalienáveis combates com o Tempo. Ah, o Tempo, este senhor de domínios difusos, majestoso disseminador dos mistérios nos trajetos que cada ser experimenta. Se saber e sabor caminham juntos, o ato performativo de viver parece se perder na amplidão do mundo, arranca deste a marca poética do sopro vital.

De todo o acima dito, o agregar de tenacidade, vivacidade, paixão e intensidade serve bem para apresentar uma pessoa como Rita Santana, Mulher, Poeta, Professora, Atriz e Artista. Todos esses atributos, assinalados aqui em iniciais maiúsculas, são mera tentativa de enfatizar atuações de relevância diante da constatação de que os papéis desempenhados pela artista em questão são feitos com a vivência apaixonada da verdade. Mas o exercício da verdade aqui é, dentro dos mergulhos pessoais, a noção de que uma pessoa como Rita pensa para além dos seus domínios, engendrando em seu ofício de escritora a manifestação ativa da preocupação com o coletivo, com o Outro. São percursos reflexivos que denunciam violências e tiranias, mas que também sabem ofertar, sobretudo em versos e opiniões, proposições necessárias de delicadeza e sensibilidade.

Autora de obras impactantes como “Tratado das Veias” (Letras da Bahia, 2006) e “Alforrias” (Editus, 2015), dentre outras, Rita Santana compartilha agora conosco toda a pungência lírica que habita seu mais novo livro de poemas, o emblemático “Cortesanias” (Caramurê, 2019), cujos versos desnudam significativas tensões e encantamentos da condição humana. Na conversa que agora segue, Rita acolhe a Diversos Afins para manifestar não somente confissões em torno do impacto de seu novo rebento, mas principalmente para falar de si, dos processos individuais que desaguam na sua criação de modo determinante. Perseguidora da Beleza, estamos diante de uma artista profundamente marcada pelos desatinos que testemunhamos no presente. São reflexões que fazem com que cada recanto desta entrevista contenha em si demonstrações de lucidez e entrega.

 

Rita Santana / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Seu mais novo livro, “Cortesanias”, mostra uma Rita Santana no apogeu de sua maturidade poética. E dizer isso não significa que todos os aprendizados estejam postos e encerrados em si mesmos, mas refletem uma consciência de mundo bastante expandida. Como você percebe esse momento?

RITA SANTANA – É um momento de muita liberdade, mais ousadia, menos freios.  O Tempo tem sido generoso comigo, pois ando mais feliz, mais disposta aos erros, aos desafios, às alegrias. Busca! Sou uma mulher de buscas! Hoje, quero alegrias, curto alegrias, vivo as alegrias. Menos preocupada com aquela felicidade idealizada de outrora. Vivo uma Solidão prazerosíssima! Quando tenho tempo livre, estou sempre assistindo coisas, lendo, ouvindo música. Sinto falta do Mar. Sinto uma falta tremenda do Mar! Vivo a minha maturidade, ainda povoada de pequenos equívocos, mas com uma consciência maior sobre tudo que me atinge, tudo que atinge o outro. Dou um foda-se muito mais intenso a qualquer um que tente atropelar minhas opções, meu caminho, meu estilo, meu jeito, minha obra, minha vida. O mundo exterior, as opiniões importam cada vez menos. Gosto de mim pra caralho e de tudo que construí, o meu universo. Assim,  chega Cortesanias, em plena maturidade! A proximidade da velhice me permite ser com uma fluidez deliciosa. Ser com mais verdade. Ando mais disposta à vida, enquanto envelheço. Completei 50 anos! Não sei se o livro revela ou não uma maturidade poética, mas revela certamente a minha disposição para ousar, para ser fiel ao meu desejo de expressão. Tudo convergia para uma situação de plenitude e de felicidade.  Arrisquei assumir minhas paixões que fervilhavam naquele momento: a pintura, as artes plásticas, a Música – de maneira sub-reptícia, pois não entendo tecnicamente nada de música, sofro com uma desafinação congênita e constrangedora, mas amo a Música! Não vivo sem Ela. É ela quem busco quando escrevo prosa ou verso. Cortesanias reflete esse momento de assunção dos desejos. Sou uma escritora comprometida com o meu Tempo e tento acompanhar suas demandas, mesmo que de uma forma às vezes anacrônica, com a minha linguagem arcaica, modos arcaicos, estilo distante desse Tempo que eu persigo. Ideologicamente, abordo no livro questões que me afetam profundamente e que sacolejam meu equilíbrio no mundo. Vivemos tempos de desmoronamento absoluto de todas as certezas. O que você chama de expansão talvez seja um momento de muita contemplação que vivi de forma intensa naquele período que antecedeu e encontrou a feitura do livro. Me sentia drogada, como se estivesse alterada o tempo inteiro. Uma sensação sinestésica que me atravessava – e ainda atravessa de outra forma – a minha vida, o meu olhar.  Calhou de receber minha licença-prêmio e ter tempo para viver com mais intensidade aquele momento. Há algo muito especial que influencia o livro: o plantio e a espera da germinação das sementes. Compro sementes e aguardo a surpresa das flores, acompanho o processo e essa atividade me dá um prazer terrível! O livro é fruto dessa paixão pela beleza! Persigo a Beleza! Durmo com as cortinas abertas e observo o movimento dos astros! Fotografo os amanheceres e os versos expressam essas experiências. Sou louca! Eclipses, planetas, o Cosmos, tudo isso me atinge em cheio e o livro é a revelação dessas paixões, obsessões. Talvez daí essa sua afirmação de expansão, pois Cortesanias é fruto desse processo de observação, descoberta, pesquisas. Cortesanias é o meu olhar e a minha oferenda à Beleza.

 

DA – “Cortesanias” abarca também um sentimento de partilha social, do envolvimento com as questões vividas coletivamente. Isso, por exemplo, aparece com força num poema como “As Comedoras de Batatas”, o qual também exorta uma comunhão do feminino, traço forte de sua caminhada enquanto poeta. Que tipo de reflexões essa atmosfera movimenta em você?

RITA SANTANA – Eu sou uma artista de esquerda e sempre convivi com petistas e comunistas. Tenho um sentimento de que precisamos tornar o Brasil menos excludente, mais justo, melhor.  A tela de Van Gogh toca essa sensibilidade, pois estamos diante da miséria, da pobreza e da exploração, no entanto, há uma mesa em torno da qual se compartilha o alimento, comem batatas. Van Gogh fez-se um deles, viveu como eles para experimentar a alteridade com mais verdade. Isso trouxe para mim, diante da tela, a consciência de que, mesmo na Literatura, travamos embates de gênero, de classe, racismo, intolerância, pensamentos excludentes. Vivenciei um conflito coletivo com mulheres no qual essas questões explodiram de forma danosa para o coletivo ou os coletivos envolvidos, forjaram rupturas irremediáveis dentro de mim, mas, principalmente, possibilitaram um olhar ainda mais arguto para uma multiplicidade de interesses, omissões, posicionamentos e posturas nesse meio literário especificamente – éramos mulheres e escritoras! Daí, convoco as mulheres escritoras que comem batatas comigo, que compartilham o pão – como companheiras, camaradas. Mas também resolvo a querela real, através do recado simbólico que deixo ali, também para mim que sofri reformulações e aprendizagens. Faço uma analogia com o MST, o lado em que estou e o outro lado, o lado de mulheres que são donas de vastas terras improdutivas e não estão dispostas à empatia! Apesar do discurso pomposo de coletividade, de igualdade, permanecem alheias ao outro, às outras e suas idiossincrasias, sua realidade de exclusão, invisibilidade. Na hora H o que preponderará será o pensamento das brancas, classe média, legitimadas como escritoras. O momento é de deslocamento. Saio desse embate mais forte, mais combativa e mais corajosa. Com perdas, muitas perdas.  Às vezes, também sofro de prepotência e julgo o meu discurso perfeito, corretíssimo, sem observar o lugar de fala; sem atentar que há um discurso muito mais pertinente que o meu, o discurso de quem sofre na pele a dor. Estou muito disposta a aprender e essa disposição é indispensável para a transformação que almejamos. Hoje, sofremos a morte de Ágatha Vitória Sales Félix, fuzilada no Rio de Janeiro, hoje foi o seu sepultamento. O poema me conecta com uma coletividade de mulheres negras que perdem seus filhos, filhas; com uma gente que teme o retrocesso político que vivemos com censuras impensadas na arte, na cultura, através de discursos absolutamente deploráveis que foram legitimados pelo povo brasileiro nas urnas. Os coletivos são difíceis! A minha forma de atuar no coletivo é através da minha atitude pedagógica como professora, promovendo sonhos, reflexões e transformações sociais e como escritora denunciando injustiças, criando imagens e delírios, fazendo arte. Sou cada vez mais combativa! Estou entre todos, todas e todes que sonham um mundo melhor. Aprendendo com Malala, Greta. O diálogo com Van Gogh é um sonho porque como artista também sou vulnerável, confusa, desejosa, débil, o oposto do que acredito, contraditória, insana e sonhadora. Uma feminista aprendiz cheia de conflitos com a velha Rita. Mas tenho 50 anos e estou mais disposta aos enfrentamentos comigo mesma e com esse mundo escroto que temos que enfrentar diariamente.  Um mundo velho demais para tantos desejos lindos!

 

DA – Estamos vivendo um processo de desumanização, através do qual também perdemos esperanças, seja aqui ou em outras partes do mundo?

RITA SANTANA – Desumanização plena! As máscaras caíram. Falar em direitos humanos hoje virou uma piada, é preciso ter coragem, inclusive na escola, espaço que sempre foi de respeito aos direitos humanos, à Democracia. É preciso exercer uma verdade muito plena interna para se dispor a Ser e exercer a liberdade de cátedra, expondo e revelando a sua formação humanista, humanitária, respeitosa às leis. O discurso das armas venceu as eleições no Brasil, no Rio de Janeiro. Vivemos um pós-golpe, onde uma mulher foi destituída do poder por crápulas, alguns presos, com discursos absolutamente ridículos, violentos, desumanos. A sociedade se mostra violenta, homofóbica, racista. A elite brasileira se sentiu ameaçada com a nossa ascensão em universidades, em ministérios, em espaços de poder: mulheres, negros, gays, lésbicas, indígenas. As elites não suportaram! Aqui, vivemos ainda uma sociedade colonial, com pensamento escravocrata, excludente. No entanto, tenho esperanças! Sempre terei esperanças! Ainda temos leis que respaldam a sociedade e temos a nossa voz. Há artistas! Ainda temos muitos professores e professoras decentes em nosso País. Retomaremos o nosso País! Retomaremos o caminho da busca por uma justiça social, sim. Sou das Utopias! Cresci ouvindo os tropicalistas e nasci em 1969, um ano de transformações e sonhos. Convivo com muitos alunos e alunas que sonham e que mantêm um olhar crítico e sensível, portanto, há Esperança! Aqui e acolá temos decisões judiciais que retomam a Democracia. O Intercept revelou o que já supúnhamos e transformou o olhar de muita gente sobre  Moro e sua turma. É óbvio que meu coração anda susceptível e a tristeza diante desse quadro político é perturbadora. Óbvio que tudo é desalentador diante do retrocesso que vivemos. Estamos adoecendo! Mas há a Poesia, a Arte e jovens atentos. Há Glenn e suas denúncias! Há reações contundentes contra os fascistas. Somos muitos! O mundo está conosco contra o discurso misógino de Bolsonaro e sua família! Há Resistência! Há a Literatura e ela humaniza.

 

DA – Avançamos um pouco no que se refere à participação dos segmentos minoritários na literatura brasileira?

RITA SANTANA – O Brasil é racista! A Literatura não é uma ilha alheia ao País. Nossas vozes hoje são mais ouvidas, indubitavelmente. Entretanto, é como se estivéssemos em compartimentos específicos, em gavetas que são abertas em horas apropriadas para razões específicas, interesses. Durante os eventos, sinto que nos apartam das escritoras e dos escritores consagrados, como se um abismo nos separasse dessa camada olímpica. Quando há mesas de escritores, geralmente são os mesmos nomes de sempre. Nossas mesas são dedicadas às mulheres, às mulheres negras, às vozes divergentes. Acho ótimo participar e estar entre os meus, entre as minhas, mas constato também que o confronto de vozes e experiências tão absolutamente diversas seria ainda muito mais rico para os eventos, para os possíveis e futuros leitores. Sempre que posso, denuncio e registro esse incômodo. Durante uma edição da Flica, Aidil Araújo Lima esteve numa mesa com Julián Fuks, sou apaixonada pela escrita de ambos e só perdi aquele encontro porque a minha mãe adoeceu. Essa possibilidade de diálogo me interessa muito. Fiz o prefácio do livro de Aidil , “Mulheres Sagradas”, e li “A Resistência” de Fuks. Imagino como deve ter sido lindo o instante em que ambas as delicadezas se tocaram. Não importa a disparidade midiática que corta e separa seus nomes e suas vivências. Espero que esse seja o novo momento: o momento dos encontros improváveis, dentro da velha perspectiva canônica. Assim, os abismos culturais são atenuados. Ou não?! Há um movimento de Leitoras de mulheres, Leitoras de mulheres negras que mobiliza muita gente por todo o país e, principalmente, leitoras qualificadas, envolvidas, politizadas. Além disso, as universidades se abrem – mesmo que com alguma resistência – às vozes que destoam/diferem/ou não são canônicas/ do canônico, para eventos importantes, tradicionais, com reconhecimento histórico; há uma divulgação das nossas poéticas nas graduações e se torna cada vez mais frequente o estudo de nossas obras na academia, o que considero uma das maiores riquezas que o Universo nos proporciona, pois, simbolicamente, é preciosa demais a dedicação em torno de nossa escrita, o registro permanente nas faculdades, ou seja, a inserção de nossos nomes em um dos mecanismos canonizadores mais vigorosos da sociedade. Legitimidade! Apesar dos avanços, percebo que são poucos e poucas os eleitos negros para que se destaquem no mundo literário e as razões me parecem quase sempre extraliterárias! Não sei! As pesquisas revelam e observo uma preponderância branca, classe média, masculina entre os escolhidos. Mulheres e homens do eixo Rio/São Paulo, quase sempre. O resto do Brasil parece resistir em reconhecer os nomes que temos, como se não houvesse talento ou vida literária no Nordeste e no Norte! São minhas impressões, minhas inquietações, observações.  Elegem alguns escritores negros e algumas escritoras negras para que o abismo não se torne um vexame ainda mais explícito. O desconhecimento, a falta de circulação de nossas obras não significa que não tenhamos tesouros preciosos em nosso território. Portanto, vivemos uma segregação! Nossos textos ainda são medidos com referências pautadas nos preconceitos arraigados numa sociedade com padrões eurocêntricos, com referenciais projetados por processos midiáticos, e razões que nem sempre passam apenas por critérios literários. São muitos os dados que movimentam o universo literário, o mercado. É um campo que reflete tantas de nossas exclusões. As minorias sociais ainda precisamos de muita luta, resistência e insistência para que um dia a História seja outra e tenha muitas faces, reflita a nossa diversidade em gênero, etnias, classes, origens… A inserção dessas minorias nas universidades brasileiras certamente será e é um agente de profundas transformações em todos os campos e esse movimento é irreversível e pungente. Há revoluções no cinema negro, no cinema de mulheres negras e tudo isso é fruto de um projeto político de inserção social que tomou conta do País e transtornou a elite brasileira. A revolução está em curso e é poderosa!

 

DA – Você é bastante ativa nas mídias sociais, sobretudo no que se refere a divulgar sua obra e aspectos de seu processo criativo. Vivemos na contemporaneidade uma tendência de que o autor cuide de sua produção e também a faça circular, espécie de curadoria de si mesmo. Como equilibrar as ações num tempo em que a superexposição da vida privada, nalguns casos, parece adquirir mais relevância do que a obra?

RITA SANTANA – As redes sociais são utilizadas por mim primeiramente porque, como professora, preciso me atualizar e fiz alguns cursos pelo estado em que aprendíamos a utilizar algumas ferramentas. Uma necessidade de acompanhar o meu tempo e, desde sempre, divulgo a minha escrita, a escrita de outras escritoras. O próprio blog surge assim, após aprender o básico, criei Barcaças com o  propósito de divulgar meus interesses, de forma tosca, amadora, e acabei gerando uma rede de conhecimentos e trocas que se tornaram importantes para a escritora. O blog está desativado por algumas razões: escassez de tempo para alimentar suas páginas e completa incompetência para resolver problemas técnicos. Nunca paguei a um profissional para alimentar minhas páginas, infelizmente. O Facebook promove uma série de prazeres e satisfaz algumas necessidades. Além das trocas intensas entre escritoras e escritores, leitura de textos e oportunidade de conhecer muita coisa e autores bons que circulam na rede,  muitas vezes facilita contatos profissionais importantes que seriam abortados, caso eu não estivesse lá, exposta. Há o aspecto político, fundamental, da informação que circula por lá. É uma ferramenta de militância política, onde explicito opiniões e posicionamentos, e faço camaradagem virtual com intelectuais de esquerda. Há divergências e convergências importantes para resistir aos tempos atuais. É fortalecedor saber que há muitos de nós no mundo dispostos ao Belo e à Justiça. Há uma teia de notícias que circulam na rede e que têm uma qualidade que não constatamos em velhas estruturas midiáticas. Há embates, perdas. Serve também como uma peneira ideológica que me guia sobre confiança, admiração e respeito. Exercito generosidades e aprendo com as generosidades alheias. Faço alguns filtros para não adoecer com tanta gente violenta e perversa. Não exponho minhas dores ou pelo menos não o faço de forma escancarada. Não sinto necessidade de que a rede se torne um confessionário, tento apenas dividir beleza, quando possível, literatura ou impressões políticas. Não estou no mercado e não sou uma criatura midiática; sempre me assusto quando alguém me diz: estou te seguindo! Sou velha demais para certa semântica. A  entrada no instagram se deu primordialmente por causa de Cortesanias, do seu lançamento. Sempre tenho uma responsabilidade com os meus livros, principalmente no período de lançamento e, como  sou tosca, muito ilhada no meu universo pessoal, torno-me uma senhora que busca se atualizar para acompanhar tantas mudanças e não me sentir – como me sinto – tão incapaz de vivenciar tantas experiências, linguagens e ferramentas que se tornam obsoletas a cada segundo. Faço reflexões sobre a exposição excessiva e ainda não cheguei a um termo, mas sinto necessidade de um certo afastamento, às vezes, sem fazer alarde, sem proclamar a minha ausência futura, enfim! Quando preciso de férias, eu busco férias. Há também o aspecto lúdico! As redes são um jogo interativo, de trocas, perdas, duelos, guerras, máscaras, egos, ilhas paradisíacas onde encontramos conhecimento e beleza, aprendizagem. A sua revista é uma prova disso e há outras tantas possibilidades de experiências profundas assim. Não sou uma celebridade, por isso  me sinto tranquila no que exponho; número de seguidores ínfimos e completamente incompetente e indiferente às disputas. O que realmente me faz feliz é tocar sensibilidades com o que escrevo. É o sentido maior. Resisti ao instagram, mas estou gostando da coisa: moda, arquitetura, designers, notícias de artistas que gosto, imagens. Quando me sentir adoecida com tudo isso, procurarei – e talvez já seja a hora – a cura, o afastamento ou um equilíbrio maior. 

 

 

DA – E a porção atriz de Rita Santana? Algum retorno pensado ou em curso?

RITA SANTANA – A atriz é cada vez mais um retrato na parede. Hoje, estou cheia de vontade mesmo é de me aposentar e ter mais tempo vago para mim e meus projetos, prazeres. Estou afastada do universo do teatro e isso é muito sério, quase irrevogável. Às vezes, penso que, após a aposentadoria, farei oficinas de voz, dança, dramaturgia e assim me aproximarei da atriz. Mas não sei. Quero Tempo para o sossego, a paz. Pretendo evitar o trânsito, pois ele é infernal e me adoece. Quero ler os livros que me esperam, retomar velhos projetos de escrita e criar novos. Quero ver o mar mais vezes, ir muito à praia. Tudo, hoje, requer muita coragem. Até ir à praia requer coragem. Cheguei aos 50 anos e sou muito fiel ao que eu sinto. Não sei o que sentirei nesse processo de construção de novas identidades, novos desejos, novos lugares, deslocamentos.  Recentemente, vivi uma tragédia familiar e isso também macula os projetos futuros, macula um pouco o brilho dos desejos. As perdas profanam os desejos, os sonhos. A vida é muito séria, assustadora. Quero ir mais ao cinema, frequentar exposições. Tudo isso é tão caro e me dá tanto prazer, que talvez a atriz deva ir mais ao teatro, simplesmente. Ler mais dramaturgia, escrever talvez, peças de teatro. O estado sombrio do país também causa um pânico interior, um medo, um estado de insegurança. Todo o cotidiano está muito feroz, selvagem. Os projetos pessoais perdem a importância diante do risco que corre toda uma coletividade. Sem exageros! O país me afeta! O país me afeta muito. Sou essencialmente política. Enfim, há uma melancolia pairando no ar.

 

DA – A Literatura tem algum compromisso?

RITA SANTANA – O professor Antônio Cândido escreveu “Direito à Literatura”, onde ele explora o caráter imprescindível da Literatura para o ser humano. Ele diz: incompressível! Outro dia, li que um país inseriu o livro entre os direitos básicos do cidadão, como mais um dos itens de uma lista que envolve alimento, moradia, água, educação. E é isso! A Literatura é essencial para o processo de humanização, de sensibilização. A Arte é libertadora! Quem faz Literatura deve ter um compromisso com a sua Arte, com a sua expressão, a expressão dos seus sentimentos, das suas inquietações, do que deseja revelar ao mundo ou decifrar com o mundo, compartilhar. A partir desse compromisso com sua própria verdade interna, outros compromissos se firmam com as pessoas, com a sociedade, com a transformação do outro. Se o artista tem compromisso social, responsabilidades políticas com a sociedade, ele vive esse compromisso sempre, portanto, sua literatura terá esse teor de engajamento, sendo ou não panfletário. Caso não tenha um compromisso político ou social, a sua obra cumprirá o seu papel de reflexão e transformação, provavelmente, porque o tecido da obra é sempre o humano, a humanidade. Como somos seres políticos, aprecio obras críticas, perturbadoras, que me inquietam. A Beleza é transformadora! A Arte provoca – mesmo sem que haja uma militância política da sua autora, do seu autor – transformações: ela modela a alma, lapida a nossa rudeza, nosso lado animalesco, nossa selvageria aniquiladora. Em Cortesanias, dedico muitas páginas à contemplação da Arte, mas sinto a necessidade de olhar para o mundo de hoje, suas conturbações sociais, as injustiças, movimentos migratórios, a onda obscurantista que vivemos hoje. Não poderia deixar de olhar para o Brasil sombrio dos tempos atuais. Censura, perseguições, exílios, prisões políticas e arbitrárias, cortes, perseguição às pesquisas, tudo é muito terrível para que eu permaneça contemplando apenas – e isso já é grandioso! – a beleza das telas, da música. As grandes autoras que li e os grandes autores são artistas que me provocaram emancipações, portanto, o compromisso social, político, crítico é necessário para mexer com as estruturas dos homens, das mulheres, dos jovens. Às vezes, não há esse engajamento, mas a beleza provoca uma sensibilização, um olhar mais delicado para o mundo, e isso também é libertador.

 

DA – Que tipo de relação você estabelece com o silêncio?

RITA SANTANA – Outro dia, ouvi um cara dizendo que o silêncio não existe! É física acústica! (risos) Eu tenho uma relação muito íntima com o silêncio, mas sempre um silêncio que tem som. Antigamente eu tinha um sonho – um sonho primordial – que se repetia: umas esferas que levitavam, gigantes, e o ruído eu sempre associei ao barulho do útero. Nunca mais tive esse sonho, mas ele me acompanha na memória. Moro sozinha! Passo muito tempo só e isso me liga à possibilidade de ficar muito livre comigo mesma, num solilóquio profundo e divertido. Sim, eu me divirto muito comigo e com minhas loucuras! Ouço muito música clássica, e fico muito tempo envolta no silêncio da música, no silêncio da Casa, em meu silêncio interior. Sofro com o barulho dos ventiladores em todas as salas em que leciono; acho perturbador; acho que parte do cansaço e stress do cotidiano vem daí; os alunos ficam excitados demais, enfim. Professores gritam na hora do intervalo, enquanto conversam, e isso me perturba profundamente. Nós, professoras, falamos muito alto! Então, estar em silêncio, em Casa, é como estar num santuário, num monastério ou recolhida num terreiro de Candomblé, que também deve ser assim, imagino, com muitos momentos de silêncio, silêncio interior.  Os livros são fonte de silêncio! Ler é mergulhar em silêncios; escrever é imergir em silêncio! O meu silêncio conversa muito com o silêncio das minhas plantas, com o silêncio das minhas paredes, o silêncio dos meus botões. Isso, esse contato com os silêncios, aprofunda a consciência e a crítica, a exigência sobre mim mesma. Mas isso não me torna uma pessoa melhor! Aliás, isso aprofunda a crítica sobre mim mesma e minhas ações! Hoje, por exemplo, descobri que não sou uma heroína! Não sou uma mulher de atitudes diante das injustiças que tanto proclamo detestar! Vivo o tempo inteiro num jogo de acusações, investigações e perdões comigo mesma! Não tenho paciência com quem perturba a minha Paz e o meu Silêncio! Busco equilíbrio! Há pessoas muito perversas, barulhentas e desequilibradas que podem desestruturar toda a construção perene em que vivo para não enlouquecer. É possível enlouquecer, diante desse ruído político, diante da masculinidade tóxica agressiva que nos cerca, diante da falta de caráter das pessoas. A busca pelo silêncio é também uma forma de permanecer com uma sanidade mínima para se manter viva, em convívio social. A loucura anda à espreita! Eu rezo! Rezar é também se conectar com o Silêncio! Dormir e sonhar me ajudam muito a resolver os eloquentes dramas da existência! Apesar de tudo ser tão dramático, eu rio muito e sou muito leve – acho! (gargalhadas)

 

DA – Enquanto mulher e escritora, que tipo de reflexões a passagem do tempo apresenta para você?

RITA SANTANA – Cheguei aos 50 anos! Como escritora, permaneço em processo de aprendizagem e leitura, carecendo de organização para ter tempo de escrita, mas sem exasperações. Respeito muito o meu Tempo. A leitora anda mais sequiosa de Tempo: quero ler os livros que me aguardam, minhas preciosidades, meus tesouros. Sinto algumas inquietações em relação a minha escrita, mas essa situação agônica sempre me acompanhou e talvez esteja sempre comigo. Inquietação que me faz crescer, promove deslocamentos. Peso muito a minha realidade, minhas circunstâncias quando pondero acerca da minha escrita no mundo. Trabalho 40  horas como professora, assim sobrevivo e não gosto de sacrifícios ainda maiores, não gosto de sofreguidão e esgotamentos, além dos que já tenho. Gosto de respirar, ter tempo para o nada, descansar. Espero que a aposentadoria seja produtiva para a escrita, para a leitura. Espero também fazer bastante sexo durante a aposentadoria e, quem sabe amar com mais leveza; encontrar parceiros mais leves e resolvidos, enfim, mais maduros. Exercitar orgasmos. Quem sabe encontrar parceiros mais amorosos… e continuar, principalmente isso, no meu caminho muito particular de paz, de serenidade, de equilíbrio. Nada nem ninguém poderá desequilibrar essa minha busca, minha conquista! Sou muito feliz sozinha! A mulher de 50 me encontra mais disposta a dar um foda-se para os impertinentes, os tóxicos! Não temo as perdas porque já vivi grandes perdas e estou preparada para continuar vivenciando essas situações, onde a minha sobrevivência deve falar mais alto; a minha dignidade e a minha paz interior. A minha verdade sobrepõe-se a qualquer tirania! A escritora pretende retomar velhos projetos, mas se sabe cada vez mais fiel a si mesma, quase indiferente ao anonimato, ao silenciamento. Fico feliz em ter pesquisadoras lendo e aprofundando a minha obra; fico feliz com as mesas especiais em que dialogo com meus pares, minhas companheiras de escrita. Estou muito mais tranquila como Mulher e como Escritora. Sou uma pessoa muito mais livre, mais corajosa para ser, para assumir minhas vontades. Observo, experimento, vivencio e – após pesar – decido por aquilo que não me fira, não me atinja. Sou nobre demais, deusa demais para aceitar situações indignas, ultrajantes, mesquinhas. Sou inteireza e só posso viver inteirezas, em todos os planos. Gosto muito da construção que fiz de mim mesma; gosto muito de conviver com uma Rita que eu admiro muito. Estou em processo, em crescimento. Pela escritora e pela mulher, pretendo viajar, conhecer lugares e situações, namorar homens que me façam rir bastante, adoro rir bastante. Ver exposições, ouvir orquestras, ver o Grupo Corpo mais vezes, o Balé do TCA, ver o Balé Folclórico da Bahia, ir às feiras literárias como escritora e como leitora, turista. Quero reler e ler livros fascinantes, participar de festivais gastronômicos, visitar museus. Pretendo ter disciplina para aprender idiomas, coisa que nunca tive. Pretendo continuar conhecendo poetas latino-americanos, países da nossa América, enfim! Conhecer pessoas da minha tribo, que amem esse universo que eu amo. Estou muito disposta à Vida! Cinema! Ir mais ao Cinema! Dançar! Quero dançar mais! Quero continuar aprendendo, conhecendo! Triste demais com o derramamento do óleo nos mares do Nordeste! Quero passar muitas tardes e manhãs vendo o mar e andando nas praias. A escrita vem desse movimento! Quero ter disciplina para caminhar. A Mulher e a Escritora estão de mãos dadas.

 

DA – Qual o sentido da vida para você?

RITA SANTANA – Não sei! Não tenho uma religião, mas acredito na fé, acredito em deuses e deusas. Acredito que a Ciência se cruza e dialoga com os mistérios espirituais, cada vez mais. Acredito nos mistérios. Há metafísica bastante em não pensar em nada! “O Guardador de Rebanhos” toca ou desperta a minha necessidade de ver, tocar, observar, contemplar o mundo. Aprendi muito cedo a perceber a divindade que há nas árvores, nas flores. Os poetas e as Poetas são faróis que nos guiam no caminho. Os grandes artistas são guias! “O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!” Busco um sentido para a minha vida! Já que estamos aqui e expostos ao mundo, precisamos construir sentidos; eu preciso construir sentidos. Fico tentando me modelar, me aprimorar. Vivemos num período de recrudescimento das liberdades, um tempo perigoso, tempo de homens partidos! Sinto a responsabilidade que tenho com o agora. Sinto que posso interferir. Isso é construção de sentido: ter responsabilidade com seus alunos, seus amores, com os meninos da Síria, com todo o processo migratório que está matando a nossa gente da África. Também vivemos – paradoxalmente – um período de pensamentos e ações coletivas em torno de um bem comum: a proteção ao meio ambiente, a busca por medidas que reduzam o aquecimento global, um presidente ameaçado por retaliações internacionais devido ao seu discurso e suas ações retrógradas em relação às liberdades e ao meio ambiente, aos nossos povos originais, à Amazônia. Temos Malala, Greta e o Nobel da Paz  – Abiy Ahmed – que luta por diálogos em territórios inimigos na África, pois tenta solucionar conflitos na Etiópia, o próprio Papa se posiciona como um dos nossos, em muitos momentos. Vivemos um período bonito de assunção da diversidade dos gêneros,  onde o feminino, tão fortemente atacado, é assumido por corpos e vozes que o desejam, o sentem e o assumem. “E quem irá dizer que não existe razão nas coisas feitas pelo coração?!” O sentido da vida é ser melhor! Amar mais e expandir os horizontes, pois a vida pede amplidões. As certezas já não são. Estar sintonizada com a dignidade humana e com valores nobres, humanistas. Estar sempre ao lado de uma evolução do pensamento, do sentimento. O que não descarta o ser absolutamente humana e explosiva, arrogante, e ter sentimentos vis. Estou em processo! Aprender sobre Solidariedade. Assisti o “Coringa”! Completamente apaixonada pela interpretação de Joaquim Phoenix. A Arte é esse lugar da reflexão, da emancipação! É parte desse capital simbólico que temos e precisamos para refletir e aprender. O “Coringa” nos põe diante de uma sociedade midiática que expõe o sem voz, o sem poder e a audiência aplaude a ridicularização de si mesmo, do pobre, do desprovido de voz e de lugar. O “Coringa” expõe o quão a nossa sociedade é perversa, abusiva, violenta e indiferente às dores alheias. Estarei sempre, como educadora e como artista, atenta para minhas atitudes e para o outro, que também sou eu.  Tenho refletido muito sobre alteridades. A nossa televisão é tão podre quanto aquela exposta na tela. A exposição de homens e mulheres e crianças e jovens negros pela TV brasileira é acintosa; é como se vivêssemos num país sem lei, vivêssemos na barbárie. Tenho responsabilidade com tudo isso. Somos grosseiros demais! Professores arrastam cadeiras como os alunos e não se sentem deseducados por isso. Arrastamos um ignóbil à presidência e um homem tentou matá-lo. Não é fácil ter saúde mental num mundo tão dantesco.  Os Coringas existem. O presidente acaba de vetar psicólogos nas escolas públicas, o que permitiria assistência a inúmeros jovens deprimidos que estão cometendo mutilações, cortes, suicídios.  O presidente diz que não assinará o diploma do nosso prêmio Camões – Chico Buarque – e isso é aviltante num país de homens e mulheres que primam pelo respeito, pelos acordos, pela palavra, afinal, viver em sociedade requer atitudes assim. Num país que possui Chico Buarque não se pode admitir ações tão indignas dos nossos representantes. Viver pra mim é continuar a busca interior para ser melhor, ser menos arrogante, menos distante das pessoas, menos ególatra, menos radical talvez! Ao mesmo tempo em que me sei humana e odeio me atropelar, por isso, assumo rudezas, desinteligências, deselegâncias às vezes. Busco errar menos! Sou muito intuitiva, muito observadora por causa da professora, da atriz, da escritora. Mas isso me leva a certezas absurdas que preciso evitar. Sentido: ser feliz com minhas conquistas, meu universo. Contribuir com a construção de uma sociedade melhor. Continuar na luta! Eu me sinto muito rica, muito privilegiada no lugar onde estou. Não busco grana! Ao contrário! Quando a grana significa sacrifício do meu tempo, sacrifício da minha paz, abdico facilmente! Odeio burocracias burras! Não preciso de muito para viver e acho isso sábio. Música, livros, silêncio. Não perturbar os vizinhos, tentar ouvir música e cantar mais baixo por respeito às paredes alheias.  O sentido final é cuidar das pessoas, da vida em sociedade, dos direitos humanos e da Democracia. Nesse difícil diálogo com o mundo, ouvir música boa, ler livros, escrever, cuidar de plantas, organizar a casa e o universo pessoal, evitar o contato ou a permanência do contato com pessoas abusivas, tóxicas. Ler mulheres, ler mulheres negras, ler feministas, ler bons autores. Buscar equilíbrio. Ler colabora com o encontro de sentido, a vida fica mais plena. Ser uma artista é a busca de sentido da vida. É o desejo de transcendência, de deixar marcas da sua Existência.  Mas, principalmente, é buscar sentidos para a vida que é tão sumariamente cotidianizada, vulgarizada em regras, rituais, exigências que não acreditamos. Daí, questionar através da Arte. Ser artista é ser uma espécie  que desvia, que contraria e tem afinidade com os estranhos aos olhos da normalidade porque também se sabe e se reconhece estranho. Por isso, ficamos tão felizes quando estamos entre os nossos, os da nossa tribo. A busca por uma vida mais ética! Talvez resida aí todo o sentido. Mirar-se sempre ao espelho para perceber os desvios e buscar novamente o caminho da dignidade. Conversar com você e ler a sua revista, construída com Leila Andrade, é construir sentido para a Existência. O sentido da vida seria então encontrar sentidos. Sair do cinema e trazer o “Coringa” pra casa para dialogar com você porque você é responsável por tantos coringas sociais. Sair do cinema e saber-se Coringa. Quem busca sentido para a vida nunca está em paz, pois é responsável pelo mundo e isso é terrível e imprescindível.

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista e mestre em Letras.

 

 

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132ª Leva - 04/2019 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

PROFUNDANÇAS: TRAJETÓRIA DE UMA GUERRILHA LITERÁRIA

Por Daniela Galdino

 

 

Nos últimos anos tenho me dedicado ao duplo desafio: denunciar a invisibilidade histórica de nós, mulheres, no campo literário; maquinar formas de romper com essa genealogia de apagamentos. Muito embora a energia que me move seja íntima, nasça de vivências pessoais, sei que não estou só.

Uma rápida andada pelas veredas virtuais já é suficiente para percebemos a profusão de coletivos de leitoras, selos editoriais, canais no YouTube e outras plataformas dedicadas à divulgação da literatura de autoria de mulheres. Já é possível falar de uma ampla rede dissidente que, ao existir, tem desafiado a continuidade dos apagamentos. São experiências diversas, vozes dissidentes, lugares díspares a partir dos quais as tramas dessa rede vão se construindo, e mesmo nas diferenças os desejos transgressores nos trazem aos pontos de confluências. Ou seja, aqui o pessoal é político.

Para ficarmos na Bahia – lugar a partir do qual desobedeço – destaco que esses elos transgressores envolvem os clubes denominados Leia Mulheres (já ativos em vários territórios de identidade), o coletivo Lendo Mulheres Negras (atuante em Salvador), as plataformas virtuais Escritoras Negras da Bahia e Escritoras da Bahia, a coleção Das Pretas (pensada por mulheres pretas para publicação de outras pretas escritoras via Editora Segundo Selo), a Irmandade da Palavra (que tem mobilizado mulheres no recôncavo), o Slam das Minas (em que os corpos dissidentes performam os versos cortantes), as edições do Festival Sonora Ilhéus/Serra Grande, que têm aliado a poesia e a música de mulheres. Trago apenas alguns exemplos não institucionais para demonstrar que também seguimos atentas e dispostas a transpor as barreiras da interdição literária.

Nessa energia de partir das perguntas ainda não respondidas (quantas e quais mulheres você leu na escola ou por conta própria?), nasceu na Bahia, em 2014, o projeto Profundanças (numa parceria com a Voo Audiovisual). Ao rebentar-se, Profundanças veio rasgando várias negativas que ainda hoje impedem que os nossos escritos rompam as gavetas e alcancem os amplos circuitos de leitorxs. Nascido e criado como projeto independente dedicado à visibilidade de escritoras, Profundanças parte do reconhecimento de que, associada aos apagamentos e silenciamentos, há uma concentração editorial inviabilizando mulheres escritoras (sobretudo aquelas em atuação fora dos grandes eixos de produção cultural). Daí ser algo inegociável que o projeto vá ao encontro de mulheres que sonham e lutam nos lugares mais diferentes desse universo chamado nordeste (do sertão à favela, da roça ao litoral deslocado), pois entendemos a necessidade de criarmos outros espaços, já que as dinâmicas editoriais voltadas para o mercado são excludentes.

Em cinco anos de projeto, Profundanças editou três antologias literárias e fotográficas que seguem disponíveis para download gratuito. O conjunto desses e-books expressa as conexões que rasuram as distâncias, fazendo com que as águas turvas do Capibaribe alcancem o mar de Itacaré ou que a poeira do Pajeú pinte de ocre as tardes potiguares ou ainda que as marés da Baía de Todos os Santos sejam música nos amanheceres cinzas em Garanhuns. Tudo em Profundanças é diálogo, encontro de dicções e experiências autorais diferentes, somos afluência.

 

 

Em Profundanças a palavra escritoras é acionada para alcançarmos territórios diversos e amplos. Em cinco anos de projeto, foram mapeadas e publicadas 51 autoras nas tentativas de rompimento com a noção hegemônica de mulheres brancas, urbanas/metropolitanas, heterossexuais escrevendo. Sim, precisamos enfatizar outras identidades e seus processos autorais. Num país genocida, racista, feminicida, misógino e lgbtóbico é um ato político de grande impacto veicular imagens e narrativas de mulheres negras, trans, lésbicas, sertanejas, não negras que re-existem a partir das artes. E nessa trajetória de uma guerrilha literária, cada antologia parte da pergunta: quais palavras e imagens podem nos representar em tempos violentos e odiosos? Os poemas, contos, crônicas e ensaios fotográficos de Profundanças são contragolpes à orquestração do medo. Ao dizer isso, inevitavelmente lembro do educador Paulo Freire criticando esse modelo de sociedade que convive melhor com a morte do que com a vida. Queremo-nos vivas e criando – eis o mote de Profundanças.

Outra marca de Profundanças é a horizontalidade. Embora o foco do projeto seja o mapeamento e a publicação de escritoras inéditas ou com apenas um livro autoral publicado, a cada edição participam duas ou três escritoras com maior inserção no campo editorial. Dessa forma, vamos desestabilizando as hierarquias que geralmente definem as dinâmicas de publicação e difusão literária. Interessa-nos muito mais a escuta atenta e o tear de palavras/imagens em lugar das disputas literárias nutridas por posturas de egolombras que exercem seus domínios nas curadorias de eventos, nas editoras, nos circuitos de difusão literária.

Contornando as disputas egolombristas, combatendo a invisibilidade de escritoras, rasurando os grandes eixos de produção literária, criando e ampliando um espaço dissidente de publicação, investindo no virtual como campo produtivo, fortalecendo as redes que divulgam literatura escrita por mulheres, Profundanças vem aprendendo outros modos de atuação. E, nesse corrupio coletivo, de certa forma vamos conhecendo outros modos de ler, à medida em que os nossos livros vão ocupando espaço de destaque nas experiências coletivas de acesso. Já temos notícias das antologias de Profundanças sendo lidas, inclusive, em espaços que não dispõem de redes de internet, pois há xs seres amavelmente transgressorxs que baixam o livro, salvam em alguma mídia e exibem nos computadores de escolas rurais – só para citar um exemplo.

 

 

Sabemos que o acesso à internet não é universalizado no Brasil, pois incontáveis famílias estão privadas da convivência cotidiana com o virtual. Apesar de… seguimos nas aprendências de lançar ao mundo antologias virtuais e comemoramos a cada transgressão sabida, a cada experiência coletiva de leitura vivenciada mesmo nas condições distantes do ideal. O desejo de dizer, nesses momentos, se alia aos desejos de ler… e é assim que se rompem as distâncias entre quem escreve e quem acessa a literatura nascida das nossas entranhas. Queremos alcançar as escritoras, fotógrafes e leitorxs que re-existem a partir dos lugares que nem conseguimos imaginar…

O nosso método dissidente é descobrir esses seres nas relações cotidianas, conhecer pelas bases, nas dinâmicas até mesmo invisíveis do ato de escrever/criar. Por isso, na nossa guerrilha não há edital, não há chamada pública para envio de textos. Na nossa dinâmica há o mundo e a ele nos lançamos para compor o mapeamento transgressor de Profundanças. Agimos em silêncio, temos o segredo como princípio de organização, e seguimos nessa gira até alcançarmos o momento de tornar público que, sim, está rebentando mais uma antologia construída da maneira mais desobediente que se possa pensar. Assim tem sido nestes cinco anos…

Profundanças é uma grande encruza! E aqui estamos, embebides de poeira e águas para saudar os 13 anos da Revista Diversos Afins. Laroyê!

 

* Para baixar gratuitamente as três edições de Profundanças, basta clicar nos links abaixo:

 

Profundanças 1

Profundanças 2

Profundanças 3

 

Daniela Galdino é Poeta, Performer, Produtora Cultural. Idealizadora do projeto Profundanças. Doutora em Estudos Étnicos e Africanos (UFBA). Docente da UNEB. Contato: galdinodanielapoeta@gmail.com

 

 

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131ª Leva - 03/2019 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Raquel  Almeida

 

Desenho: Felipe Stefani

 

Agoniza

 

Corta essa sua carne dura e sangre
Se for o único jeito de descobrir suas estradas
Ferida aberta
Corta
Corta essa
Falsa promessa
Essa falsa fortaleza
Corta essas certezas
Deixa jorrar esse sangue
Nesse peito aberto
Enfia no oco seu ego
Faze o presente ser eterno
Cava suas memórias
E reviva.

 

 

 

***

 

 

 

Da terra que renasço

 

Solo que me fez
Me refaça!
Como a mãe preta que amacia a argila
Remolde!
Na moldagem
Revista meu coração com paredes de aço
Pra que nenhum abraço me cegue
Os retoques
Que sejam nas águas sagradas
Me banha, me rega,
Me rege
Terra firme que me regenera
Transforma minha fúria em fuligem
Enterra por aí minhas sentenças
Solo
Não me isola na mais árdua trilha
E blinda, blinda todinha a minha vida.

 

 

 

***

 

 

 

Tendo

 

O gosto do grito entalado amarga
Estraga as noites sufocadas em insônias
Estala vontades
Desejos que não desejo
E o peito aperta
Se aperta é dor
Dói!
Não ter dito que sou franca
Que tendo a beirar abismos
E a afagar leões
Tendo a mordiscar pimentas malaguetas
A pisar em pregos que beiram solidões
Já que o peito acelera
Aponta pra mim essa seta pontiaguda
De medo.

 

 

 

***

 

 

 

Sou

 

Tenho certeza de uma coisa
Sou vento e vento é livre
Sou água e água corre
Sou terra e terra é fértil
Sou intensamente regida
Pela vida
Meu amor me agride
Preenche e sufoca
Sou amor sou amar
D’mar
Sou fúria e calmaria
Sou ninho
E nos meus caminhos
Me perco.

 

 

 

***

 

 

 

É só
Toda loucura gerada
Todo pensamento de saltar
Toda invisibilidade
É só
Sorrateira
Vem e derruba
Pesa a cabeça e não existe fuga
Corre pelas estradas
Mas tudo isso no silêncio da sua alma
Porque no topo é um vulcão potente a explodir
Não chega a desejar a morte, mas a monotonia pra si já é morrer
Chega e vai só
Só é o seu caminho
E fica dali e acolá tentando se encaixar e sente que não faz diferença
Seu riso, seu choro…
Não acostumou a ser só
Por isso ainda solfeja suas angústias nos ouvidos do mundo
Só na imersão da confusão bagunçada e silenciosa
Só, e sem paradeiro
Abraça o mundo.

 

 

 

***

 

 

 

Estou jorrando sangue
arrastada pelas ruas
Exposta em praça pública
Massacrada por um rolo que comprime, oprime
Arranca a última gota de sangue-suor dito igual perante deus
Estou jorrando sangue
na porta da minha casa
Desguarnecida
com uma bala cravada na nuca
Desfalecida
levando porrada, largada no asfalto
Jorro sangue num mundo que diz que preciso sorrir
sendo torturada coletivamente
Jorro sangue a cada onze segundos
Me afogo nesse rio de traumas
Me sufoco em meio a papéis que não dão suporte em nada
Leis do cão que não funcionam para minha pele
Para o meu cep
Jorro sangue quando me fazem acreditar
Que viver ensanguentada é natural de gente minha
E mesmo cerrando os punhos
criando escapes
acredito que minha voz ainda não ecoa
Estou no meu rio de sangue
planejando revides sem sucessos
Todo meu sangue vira comércio
e as feridas continuam expostas
Estou aqui, jorrando esse sangue
dito igual perante deus
Entoando um BASTA
me agrupando com vozes que se assemelham a minha
Empurrando os dias
e abrigando o desespero que bate à minha porta
Estou jorrando sangue
lutando para que um dia venha estancar.

 

 

Raquel Almeida é poeta, escritora, arte – educadora e produtora cultural, estudou musica na Faculdade Carlos Gomes(Grupo Educacional UNIESP). Co-fundadora do Coletivo literário Elo da Corrente, grupo que atua no bairro de Pirituba, desde 2007, no movimento de literatura periférica/negra, realizando um sarau semanal e mantendo uma biblioteca comunitária nessa comunidade. Co-fundadora do Coletivo Cultural “Esperança Garcia”, o grupo promove discussões que refletem o papel da mulher negra e periférica na literatura e outras vertentes artísticas. Escreveu “Sagrado Sopro” (Poesias), 2014 ;  Elo da Corrente Edições  e “Duas Gerações Sobrevivendo no Gueto” (contos, poesias e crônicas), 2008, co-autora Soninha MAZO – Elo da Corrente Edições.

 

 

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131ª Leva - 03/2019 Destaques Olhares

Olhares

O corpo, o cosmo e o caos

 Por Fabrício Brandão

 

Desenho: Felipe Stefani

 

São linhas que transpassam a existência. Contornos que anunciam o alvorecer de gestos e movimentos como se tudo coubesse num universo de beleza e mistério. É preferível assumir que a vida é ela mesma a assunção de mistérios, desses que se embotam na trama dos destinos. Imaginemos, pois, tudo como consequência de um permanente entrelaçar de ações na medida em que o que somos espelha os reflexos das investidas de outrem, nossos semelhantes e suas difusas trajetórias e repertórios. Assim, reconhecemos nossa humanidade a pulsar imperiosa no turbilhão de corpos e mentes que nos atravessam a visão dos dias que carregamos conosco. Sim, somos um amalgamado e complexo organismo que é fruto das trocas e intervenções do Outro em nossa caminhada.

Ah, o corpo, esse receptáculo de intenções! O corpo enquanto a expressão mais pura da nossa sina terrestre. O corpo como essa estrutura física a compor o bailado dos dias, posto que tentamos nos equilibrar diante das demandas racionais e afetivas tão nossas. Pensando a arte de Felipe Stefani, os trajetos corporais são os mais autênticos representantes das nossas condições de ser e estar num mundo em que habitamos de forma errante. Ao mesmo tempo em que nos incita ao mergulho denso, Felipe relembra certo caos que nos acomete em matéria de experiência humana. Vale considerar que a cartografia caótica sugerida pelo artista em questão não é um banal engenho de desordens, mas, antes de tudo, a síntese orquestrada de nossos espantos e estranhamentos. Na confusão entre desejos e equívocos de nossa natureza, as imagens se expandem compondo um complexo painel de desassossegos.

 

Desenho: Felipe Stefani

 

Felipe Stefani deixa entrever um sentimento de cosmovisão em muitos de seus desenhos, algo abrigado na noção de que múltiplos saberes e cenários da existência humana aparecem profundamente associados entre si. Tal percepção é, ao mesmo tempo, a constatação de que os homens e suas investidas encontram terreno favorável para a expansão no solo comum e enigmático das expectativas. Desse modo, o artista observa as partes que, ao fim e ao cabo, integram um todo em incessante construção, organicamente engendrado pelo flerte com a dúvida.

O corpo em Felipe Stefani também é casa que acolhe delicadezas. É nesse momento que a bagagem de poeta empresta seus atributos ao artista, movendo seu traçado sob a imagética de um lirismo que se pretende intenso. Dentro desse caminhar, seus desenhos harmonizam desejos, crenças e epifanias humanas com uma indelével  marca emotiva, fazendo-nos refletir sobre temas como a solidão, os afetos e o amor.

 

Desenho: Felipe Stefani

 

Paulista que vive em bandas cariocas, Felipe também se dedica aos versos e à fotografia. Seus primeiros contatos com o desenho derivam da infância, principalmente por intermédio da mãe, a também artista plástica Sandra Lagua. Confessa que suas principais influências vêm de gêneros da cultura de massa, tais como o cinema e o rock. Desde 2002, vem atuando como ilustrador, com trabalhos voltados para o cinema e literatura. Como poeta, possui dois livros publicados: O Corpo Possível (Dulcineia Catadora, 2008) e Verso Para Outro Sentido (Escrituras, 2010).

Essencialmente, a arte de Felipe Stefani é um convite ao sublime. E tomemos aqui tal atributo não com um sentido de exaltação estética de perfeição. Mais vale considerar o potencial de representação humana de sua obra como sendo aquele que expõe a carne viva de nossos atos, anseios e projeções, misto de coisas que refletem um estado permanente de poesia, essa dimensão de abismos íntimos e compartilháveis.

 

Desenho: Felipe Stefani

 

* Os desenhos de Felipe Stefani são parte integrante da galeria e dos textos da 131ª Leva

 

Fabrício Brandão confessa que, definitivamente, não consegue sobreviver sem arte. Por isso, atira-se a livros, discos e filmes com o sabor perene da primeira vez. Por isso, edita a Revista Diversos Afins, é baterista amador e Mestre em Letras: Linguagens e Representações (UESC), aliando Literatura, Comunicação e Cultura.

 

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131ª Leva - 03/2019 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Mirar a vida, observar seus fenômenos mais detidamente. Deparar-se com os territórios do humano sem deixar de levar em conta o olhar reflexivo e transformador, esse algo capaz de movimentar rotas sem se perder no campo limitador das retóricas. Frases, quando ditas ao léu, não demarcam a substância das ideias, posto que sequer ensaiam mudanças ou vislumbram auroras. No meio disso tudo, um poeta rasura os postulados disfarçados de razão, engendra nos seus versos a tradução de um estado de espírito que transcende a materialidade das coisas. Tudo isso sem se embriagar pela fácil sedução das travessias meramente contemplativas ou daquelas que se limitam a ver tudo como um jogo puramente estético.

Não existe poesia fora do humano: eis a impressão que arrisco em colocar quando o artífice das palavras é um alguém como Alberto Bresciani. É ele um autor não somente envolvido com a construção textual dos seus versos, mas especialmente com o impacto que tais escritos terão em quem os lê. Não se trata aqui de uma preocupação com a adesão de simpatias, e sim de um diálogo vivo sobre o qual estão apoiadas bases de nossas tenras e complexas existências. Acima de tudo, Alberto nos incita ao enfrentamento de questões cruciais à nossa percepção enquanto humanos, erigindo um universo poético que se fundamenta em doses de emoção, lucidez e estranhamento.

Autor de livros como Incompleto movimento (2011) e Sem passagem para Barcelona (2015), ambos editados pela José Olympio Editora, o carioca Alberto Bresciani vive hoje em Brasília. E o momento atual desse escritor aponta para os desdobramentos em torno de sua mais recente obra: Fundamentos de ventilação e apneia, lançada este ano pela Editora Patuá. O livro apresenta um sofisticado emprego da linguagem, denotando profunda sensibilidade e entrega a temas que correm imbricados a tudo o que vivemos. As incursões do poeta por elementos que constituem certa dinâmica do mundo animal correm paralelas ao que somos enquanto espécie dita racional. Dentro do delicado mecanismo que descreve os fenômenos de outros tantos seres vivos, Alberto nos conclama a mergulhar intensamente em nossos próprios percalços como se necessitássemos de um resgate.

Para falar um pouco sobre seu novo momento com as palavras, o poeta, de modo extremamente gentil e atencioso, concede a entrevista que agora segue. Na conversa, abordou-se de um tudo: os impactos do novo livro, reflexões sobre o papel da arte, o fazer literário e seus desafios, entre outros temas. De todo o dito, nada é mais valioso do que perceber, pulsando com vivacidade, o aflorar de uma sensível consciência de mundo, notadamente preocupada com uma ampla noção de humanidade.

 

Alberto Bresciani / Foto: arquivo pessoal

 

DA – “Fundamentos de ventilação e apneia” faz uso de mecanismos pertencentes ao mundo animal, uma sensível construção poética cuja linguagem corre paralela às questões humanas. Diante do que somos hoje enquanto espécie, seu livro pode ser tomado também como um grito de alerta?

ALBERTO BRESCIANI – Observar animais e estudá-los, na medida do possível, sempre foram atividades interessantes para mim. Observá-los com prazer e, ainda, com assombro. Tive animais de estimação de todos os tipos e, quando criança, gostava de os tornar personagens de histórias que inventava. Em regra, é difícil resistir à tendência de antropomorfizar o comportamento dos animais. Fazemos isso quase involuntariamente. Embora diferentes enquanto espécies, partilhamos, todos os seres vivos, um mesmo mundo e, em situações várias, a luta pela sobrevivência na natureza se iguala ao esforço que, entre homens, fazemos para enfrentar os dias. Há momentos em que os animais parecem saídos de um Éden criacionista. Também temos nossos espaços de paz. No entanto, a violência está à solta. O ritmo é assustador. E isto remete à violência presente nos enredos naturais. Perceber e sentir as injustiças da contemporaneidade, as ameaças de retrocessos civilizatórios, a devastação que causamos no meio ambiente e traduzi-los, como conceito, pelo instante, por exemplo, em que o predador impiedosamente abate sua presa apavorada, foi um dos recursos metafóricos que utilizei. A poesia é, a todo tempo, um sinal de alerta. Alerta que vai desde as situações mais íntimas que afligem o poeta até as questões maiores que sacodem o planeta. Os poemas de Fundamentos de ventilação e apneia surgem nesse contexto.

 

DA – Caberia, então, dizer que a arte, sobretudo pelos caminhos da palavra, seria capaz de operar em nós alguma possibilidade de transformação ou reinvenção?

ALBERTO BRESCIANI – Sim. Não tenho dúvidas. A arte estimula a reflexão sobre o mundo em que vivemos, dialoga com a filosofia. E se habilita a fazê-lo, em sua essência, para além dos círculos das regras, da ética e da moral, dos paradigmas vigentes em um dado momento da história e dos preconceitos. Era o que dizia Adorno. O artista está – e deve estar – livre para se expressar, para entender o que acontece e pregar suas denúncias, noites e luzes em cada porta. No caminho das palavras, como diz, encontramos, individualmente, quando lemos ou ouvimos, possibilidades de habitar outros eus e corpos, de outras vidas e experiências. Podemos perceber os erros de circunstâncias históricas e de falsas verdades impostas pelos interesses de plantão. Podemos também alcançar nossas verdades. Há livros que nunca acabam, personagens que nunca nos deixam, frases tatuadas na lembrança, poemas que nos alimentam e advertem. Do ponto de vista do artista, a descoberta de sua vocação pode construir uma vida nova, uma vida plena, reconstruir o que parecia ruína. É importante, no entanto, ressaltar que, antes de tudo, é necessário que se tenha acesso à arte. E isto só é possível com a educação. Com alimentos na mesa e cidadania. Não somos um povo ilustrado. Poucas mudanças favorecem imensa parte da população, que se mantém dentro de uma bolha isolante da cultura – e de tanto mais – desde o período colonial. Alguns projetos pioneiros, sabemos, têm grande sucesso, levando livros, música e dança a comunidades carentes. Que se multipliquem, prosperem. Seremos assim, um dia, quem sabe, uma sociedade melhor e mais feliz.

 

DA – Esse tema do acesso à arte é deveras interessante quando pensamos que, na contemporaneidade, a contribuição de autores e artistas contra-hegemônicos vem ganhando cada vez mais relevância. Muitos desses criadores, periféricos ao mainstream, encampam, através de suas obras, uma defesa afirmativa de suas identidades, de suas visões de mundo. Como você vislumbra a força que emana de tais subjetividades?

ALBERTO BRESCIANI – Com interesse, reconhecimento e muita simpatia. Somos diferentes em múltiplos sentidos. Infelizmente, a intolerância e o desrespeito sempre desaguaram na edificação de nichos e no aprisionamento, nesses nichos, de diferentes grupos, recusados pela compreensão dominante. São porções de matizes variados, separadas por hemisférios, circunstâncias históricas e sociais, gêneros, etnias, crenças. Todas têm legitimidade e direito à sobrevivência e ao acatamento pelas demais. Há também aquelas violências que a sociedade, como um todo, prefere ocultar. A literatura é o espaço da denúncia. Autores que não se moldam àquela compreensão dominante ou ao protótipo consagrado traduzem, com a força de sua escrita, experiências de vida muitas vezes desconhecidas ou nunca pensadas com atenção. Por alienação, pelo impacto da grande mídia ou por lacunas de vivências, verdades são esquecidas. Ao pronunciá-las, esses autores permitem a tomada ou a renovação de consciência, com a possibilidade, após alguma decantação, de construção de novas regras de convívio, de alargamento da razão. Se há liberdade de expressão, é de valor extremo toda contribuição que permita a evolução do que se compreende como “o humano”. Mesmo que a prática da literatura, dentro do mainstream, não seja, necessariamente, condenação eterna ao último círculo da desqualificação, romper seus limites, como efeito da forma ou da temática, por si, já é coisa boa.

 

DA – Voltando ao seu novo livro, é possível perceber nele a ideia de que sua poética está mergulhada nos imperativos colocados pelo presente em que nossas humanidades estão mergulhadas. Enquanto escritor, em que medida você assume a condição de dar um testemunho de seu tempo?

ALBERTO BRESCIANI – A literatura fotografa o momento histórico em que acontece. Aliás, é uma fonte de pesquisa histórica fabulosa. É impossível não reagir ao que o mundo nos oferece ou empurra garganta abaixo. Vivemos em um país de diferenças sociais inimagináveis. Isto me incomoda a vida inteira. Sou juiz do trabalho já há muito tempo. Não direi que, entre erros e acertos, o trabalhador sempre está com a razão. Mas também não posso ignorar a enormidade de horrores que a experiência me apresenta. São humilhações impostas a quem não vende a quantidade de produtos desejada pelo empregador, com castigos que ultrapassam o absurdo, acidentes do trabalho em volume trágico, com perdas de vidas e mutilações, crianças trabalhando e longe dos estudos, pessoas escravizadas, a miséria que nos assola desde tempos coloniais. Além da bagagem profissional, um caminhar pelas ruas das grandes cidades, conhecer zonas de extrema pobreza de nosso país-continente trazem marcas desoladoras. Ao lado disso, o noticiário nos abarrota de visões catastróficas da fome, dos abusos, da falta de compaixão no mundo inteiro. Somos testemunhas de uma época terrível. Algumas dessas situações transparecem em Fundamentos de ventilação e apneia e tendem a estar ainda mais presentes em meus próximos livros.

 

DA – Qual o seu maior incômodo diante do cenário de retrocesso que experimentamos hoje no nosso país, sobretudo nos matizes culturais?

ALBERTO BRESCIANI – Sinto espanto, sobressalto. O pasmo segue em uma escadaria de Escher, pelo que está mais próximo e pelo que acontece em tantas partes do Globo. Circum-navegação do espanto e pela conivência. Uma amiga de muita inteligência diz que a humanidade e o país já passaram por provações tão diversificadas e, ao final, tudo foi superado. É preciso, nem que seja no fundo da alma, manter alguma esperança de ressurreição dos valores.

 

DA – Atualmente, é possível perceber que o mercado editorial vem se reconfigurando no que se refere às possibilidades de participação. No cerne desse processo, está a atuação das editoras independentes, as quais inauguraram modelos alternativos de negócio, oportunizando espaços para novos e anônimos escritores. Na sua avaliação, acredita que esse novo panorama veio para permanecer e transformar efetivamente as práticas de publicação e circulação das obras?

ALBERTO BRESCIANI – Percebo essa democratização da possibilidade de publicação com muita alegria. A realidade da internet, com seus portais e blogues, e das redes sociais, com a comunicação em tempo real, já fez muita diferença. Não consigo enxergar mérito nenhum em um sistema no qual somente grandes editoras podem consagrar vozes ou em que apenas determinados autores são os escolhidos. Todos que escrevem merecem espaço e algum crédito. Quem decidirá se terão direito à leitura e à permanência serão os leitores. E, aqui, vale lembrar que há públicos diferentes, que elegem seus estilos e gêneros. Pensando em poesia, há quem prefira textos fáceis, doces. Há quem prefira os que desafiam um pouco mais. As pequenas editoras têm permitido o acesso de autores e leitores à boa literatura, que, de outro modo, estaria condenada à gaveta eterna. Editoras como a Patuá – e não posso deixar de me referir ao  Eduardo Lacerda, com seu heroísmo todo -, como a Penalux, de Tonho França e Wilson Gorj, tantas outras, são vias maravilhosas para a publicação de novos escritores de qualquer idade. Os livros têm qualidade editorial e circulam o suficiente para concorrerem aos maiores prêmios literários do país. Sei de jovens escritores acantonando editores e se esfalfando para merecer atenção das grandes editoras, e não vejo sentido. É muito bom ser publicado. É muito bom ser publicado por uma grande editora. No entanto, uma editora menor, com toda certeza, será mais atenciosa para com o autor e lhe poderá trazer muita sorte. Penso que, no momento, é um modelo que veio para ficar. Digo “no momento”, porque o mundo se tornou uma metamorfose permanente, com tecnologias que nos atropelam quando menos se espera.

 

Alberto Bresciani / Foto: arquivo pessoal

 

DA – O curioso, dentro dessas tecnologias que nos atropelam, é perceber que alguns papéis se modificam nesse contexto de aparições digitais. Com certa frequência, autores deixam de ter a sua importância atrelada à obra e passam a ser incensados como celebridades apenas pelo que representam em matéria de performance pública. À reboque disso tudo, também há o fenômeno da superexposição da intimidade, no qual aspectos da vida privada dos escritores assumem um lugar de destaque, sobretudo em mídias sociais.  De que modo esse estado de coisas pode comprometer as práticas literárias?

ALBERTO BRESCIANI – A chegada da internet e das redes sociais trouxe uma quantidade muito grande de questionamentos e alterações sensíveis no comportamento das pessoas. Há muitos estudiosos, como Castells, que se dedicam ao tema. Não sou especialista e respondo como expectador interessado.  A performance como meio de promoção pessoal não é um fenômeno contemporâneo às redes sociais e peculiar aos escritores. Existia antes. Existia e existe em outras áreas de atuação. Convenhamos que já não há tanto espaço para o escritor recolhido, misterioso, recluso. Ou há, mas o alcance de sua literatura será, muito provavelmente, restrito. As editoras não têm tempo ou energia para a divulgação de todos os autores que publicam. Vale para as grandes editoras também. É necessário que o autor se ocupe com a sua própria divulgação, com a divulgação de seu trabalho. Isto, porque, exatamente pela quantidade de autores no mercado, outro feito do presente é colocar maior foco no leitor e no que lê do que nos autores propriamente ditos. As redes sociais facilitam aquele trabalho. Também é preciso considerar que o conceito ou o valor da privacidade não tem o mesmo feitio para as gerações mais jovens. Assim, há quem transforme sua vida em um livro aberto, um relato ou uma autoficção online. E com sucesso. Conquistam milhares de seguidores e vendem milhares de livros. Há quem adoeça nesse processo e adquira obsessão pelo monitoramento de seus perfis nas redes sociais e deixe de produzir ou, então, rebaixe a qualidade de sua produção ao que é mais palatável para as redes. A performance – e é preciso ter talento para isso –, como eu dizia, por si, não é necessariamente má, quando busca a divulgação de obra de qualidade. Causará algum prejuízo quando representar o exemplo de trabalho sem qualidade literária. Como o exemplo arrasta, notaremos – e notamos – outros escritores, com grande potencial artístico, tentados a reproduzir o comportamento e aquele formato menor em sua produção. De qualquer modo, a literatura ainda é maior e mais do que tudo isso. Ainda.

 

DA – Há quem sustente que a crítica literária perdeu sua força no Brasil, a ponto de praticamente não mais existir. Concorda com essa percepção?

ALBERTO BRESCIANI – Pelo viés tradicional e canônico, concordo. Com a quase extinção dos cadernos especializados e com as dificuldades por que passam jornais impressos, os espaços até então reservados aos críticos desse molde diminuíram. A crítica, com características mais convencionais, migrou, de certo modo e em parte, para a academia, com menor alcance em termos de público e sob formato mais técnico e, assim, hermético. A própria natureza e as exigências do trabalho acadêmico, ao lado do extenso número de livros hoje publicados, também impedem a velocidade, a atualidade e, em consequência, o debate mais vivo. É evidente que os trabalhos assim produzidos têm qualidade e importância. Em contrapartida, um novo modelo de crítica surge com a atuação contemporânea de jornalistas, de escritores, pela via da resenha, de matérias e da concessão de visibilidade às obras que esses formadores de opinião – e também o mercado – decidem que merecem destaque. Ressalvados poucos jornais literários e revistas impressas que ainda resistem bravamente, a avaliação, que se poderia talvez dizer mais suave, é publicada em periódicos virtuais, o que, apesar de  limitar seu alcance a usuários habituados a endereços eletrônicos e às redes sociais, repele filtros que a grande mídia costuma impor. Torna-se mais democrática.

 

DA – Somos apenas um corpo com finitude decretada? 

ALBERTO BRESCIANI – Pergunta delicada. A sobrevivência (e a morte em paralelo) é um dos temas centrais de Fundamentos de ventilação e apneia. A compreensão da morte tem movimentado mentes privilegiadas. De Platão a Todd May, passando por Schopenhauer, Montaigne, Sartre e tantos outros. Vejo a morte como parte da vida. Mas não, não somos apenas um corpo com a finitude decretada. Todos os seres vivos morrem. Não há dúvidas. Nisso, irmanamo-nos. Os outros animais, no entanto, enxergam a morte somente quando ela os ameaça, como o meu porco-espinho, acantonado pelas feras. Os humanos, diferentemente, são capazes de pensar a respeito, mesmo que saudáveis e protegidos. A morte dá sentido à vida, nubla o tédio da eternidade física ainda impossível, faz com que desafiemos o destino, como antílopes que atravessam rios repletos de crocodilos, buscando o futuro, um novo presente, logo ali na outra margem. A morte amplifica o valor do presente. Assim como killifishes, nunca teremos a certeza de uma nova chuva que nos permita (sobre)viver. Somos, assim, corpos destinados às experiências e repletos de possibilidades enquanto conservarmos a consciência. Se a perdermos, o fim antecederá o perecimento do corpo. De maneira sincrética, acredito em Deus. Do mesmo modo, sinto que a morte do corpo não representa absoluta finitude.

 

DA – O quanto Alberto Bresciani conhece Alberto Bresciani?

ALBERTO BRESCIANI – Eu pediria alguns anos para responder melhor. Sei ou tento saber do que se passou comigo, do que testemunho agora. Para o futuro, insistir é o que posso. Sou, normalmente, silencioso, melhor com a escrita do que com a voz. Verbalizar é sempre um risco de exageros. O silêncio me obriga à minha companhia com intensidade, a conviver com toda a perplexidade do que não consigo compreender, com o maravilhamento das coisas belas que alcanço, com todas as boas e más memórias, erros e acertos. Tenho o vício da busca de informação, com o desassossego que vem no estojo. Sou um “olhador”, um contemplativo. Posso me esquecer do mundo e da vida diante de uma planta que desafia o cimento da calçada. Gosto da eloquência silenciosa dos livros. Gosto das palavras e dos livros, do poder da música, de ficar em casa, de chocolate, terra, vegetais e animais, de abusar do conforto e do abrigo da minha família.

 

DA – Afinal, por que escrever?

ALBERTO BRESCIANI – Catarse, coragem ou covardia, justificativa? Copio René Char, é como se houvesse um atraso em relação à vida, que compele à superação. Porque é preciso dizer mais do que a voz permite.

 

Fabrício Brandão confessa que, definitivamente, não consegue sobreviver sem arte. Por isso, atira-se a livros, discos e filmes com o sabor perene da primeira vez. Por isso, edita a Revista Diversos Afins, é baterista amador e Mestre em Letras: Linguagens e Representações (UESC), aliando Literatura, Comunicação e Cultura.

 

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131ª Leva - 03/2019 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Wilton Cardoso

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Wilton Cardoso é poeta e ensaísta. Mantém o blog O engenheiro onírico, onde disponibiliza toda sua obra para download. É autor de nAve aleatória (poesia), publicado pela Editora Kelps. Nasceu em 1971, mora em Goiânia e é funcionário público estadual. Formou-se em Jornalismo e é pós-graduado em Estudos Literários pela UFG. 
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131ª Leva - 03/2019 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Dor e Glória. Espanha. 2019.

 

 

Dor e Glória, do espanhol Pedro Almodóvar, é o mais recente filme de um diretor consagrado. Há nisso uma ironia, pois o diretor começou sua já extensa carreira cinematográfica como um enfant terrible do cinema espanhol. O filme estreou no último Festival de Cannes, depois de três anos sem o diretor estrear produções (o anterior é Julieta, de 2016). Lá ele recebeu a atenção devida a um dos maiores artistas visuais contemporâneos e o mais renomado artista espanhol. Dor e Glória está certamente à altura de sua grandeza, aquela que não precisa provar mais nada ao público, e por isso pode se lançar a um olhar sóbrio e introspectivo sobre sua própria trajetória.

Retrospectivamente, sua obra é contemporânea da redemocratização espanhola após o regime franquista. Seu primeiro filme, Pepa, Luci, Bom y otras chicas de montón, é de 1980, e apresenta uma liberdade formal que parece a própria expressão da liberdade política democrática que se tornava imperiosa. Uma liberdade que transborda para o comportamento sexual. Almodóvar tornou-se um dos maiores porta-vozes da liberdade sexual homoafetiva e dos direitos das mulheres, protagonistas frequentes de sua obra.

Dolor y gloria (DG) é a história de um aclamado diretor de cinema, Salvador Mallo, vivido por Antonio Banderas, o ator masculino mais presente na filmografia do espanhol. O protagonista encontra-se num momento de ocaso, sofrendo paralisia criativa devido a dores por todo corpo, sobretudo na coluna vertebral. As comemorações de seu primeiro filme, de título Sabor, realizado no início dos anos 80, o levam a procurar o ator protagonista Alberto (Asier Etxeandia), com quem se desentendeu na época. Essa procura se dá num afã de reconciliação, não só com o ator, mas também com sua primeira obra. O ator, que também está num período de ostracismo, apresenta ao diretor a droga heroína. A briga em torno do consumo de drogas havia sido o pretexto do desentendimento passado entre os dois. A droga ajuda Salvador a suportar suas dores físicas, ao mesmo tempo em que intensifica suas memórias. Mas o filme dá a entender que é o não reconhecimento do talento de Alberto a real razão do afastamento entre ambos.

 

Antonio Banderas na pele de Salvador Mallo / Foto: divulgação

 

A reaproximação entre Salvador e Alberto é o mote para passar sua história a limpo. Ela ocorre entremeada com as memórias de Salvador de sua infância, da vivência com sua mãe e seu pai, no interior ensolarado da Espanha. Essa rememoração do personagem é trabalhada na tela através da técnica do flashback. As memórias lhe vêm com as imagens de sua mãe jovem, vivida por Penélope Cruz, e com ela mais idosa, próxima à sua morte, vivida por Julieta Serrano. Entendemos então que o impasse criativo do diretor tem relação com a depressão nunca superada pela morte recente de sua mãe e pela sensação de não ter lhe correspondido às expectativas.

Salvador é confessadamente um alterego de Almodóvar, vivido pelo seu “ator-fetiche”. Não é, no entanto, o primeiro filme de memórias do diretor. Há mesmo uma trilogia da memória em sua filmografia, composta pelos filmes Tudo sobre minha mãe, Carne trêmula e Má educação. Nestes três filmes, a memória pessoal é construída ficcionalmente. A ficção é a forma mesmo na qual a memória pode se expressar. São filmes que não destoam de toda sua produção anterior. DG, no entanto, é um filme mais claramente pessoal, muito próximo ao relato autobiográfico. Mas em Almodóvar, toda ficção é sempre equívoca. O cinema não é o campo do realismo mimético. Sempre se admirou a intensidade cromática dos filmes do diretor associada à intensidade passional de seus personagens, sempre à beira de um ataque de nervos, da histeria e do excesso. DG abre com densas abstrações cromáticas, como se fossemos jogados num quadro de Jackson Pollock animado. A textura da tinta na tela e as composições de suas formas indicam o campo movediço onde se constrói a memória e se configura a própria realidade.

DG não é uma autobiografia, mas uma autoficção. A obra de Almodóvar está mais próxima a Oito e Meio de Fellini do que de Fanny e Alexander, de Ingmar Bergman. O filme é exemplar, aliás, da diferença entre os dois modos de relato. O cinema autobiográfico procura traduzir em imagens as cenas de uma vida. A autoficção é, por outro lado, um jogo entre representação da memória e fantasia da ficção. Entre as duas, há o enquadramento da câmera. Na autoficção, a autorreferência da forma traz o enquadramento para o interior da imagem, de modo que o espectador (o receptor) perde a referência de qual plano efetivamente ele se encontra.

É um jogo com a memória e não sua representação. Por isso, embora seu primeiro filme lhe parecesse canhestro nos anos 80, e a atuação de Alberto lhe parecesse fraca, quando rememorados do presente, tudo muda de sentido, a própria consistência das memórias é transformada. A glória posterior redime a dor passada, mas por outro lado, é a dor do presente que torna glorioso o passado. Um dos maiores interesses deste filme é justamente uma releitura dos anos 80, década considerada “perdida” e conservadora, mas que no filme é resgatada como uma época de alegria, excesso existencial e experimentação artística. Ou em outros termos, o cinema de Almodóvar é um contraponto barroco ao puritanismo político de uma época marcada pela AIDS, o yuppismo e a regressão neoliberal.

 

Nora Navas e Antonio Banderas em Dor e Glória / Foto: divulgação

 

Em termos políticos, há outro elemento importante nesta última obra de um diretor engajado tanto nas lutas clássicas da esquerda como naquelas da identidade, sobretudo na questão da sexualidade e do gênero. Como disse um crítico, é bom ver um filme de Almodóvar em que não haja uma mulher que tenha sido violentada. De fato, em filmes como Ata-me, Fale com Ela, ou a Pele em que habito, figuram mulheres sequestradas ou imobilizadas por homens. Ninguém duvida do protagonismo feminino na obra de Almodóvar e como seu cinema trabalha a ideia da emancipação feminina através da emergência de sua fala. Fala que emerge a partir de corpo, ou da “carne trêmula”. Em particular, em Habla con ella, a ausência da fala na mulher em coma significa mais fortemente o seu cárcere corporal e é através da conversa furtiva que ela encontra a sua redenção, pois, por mais desesperançada, a fala sempre retorna em diálogo, ao contrário da unilateralidade da violência sexual.

Mas Dor e Glória é um filme protagonizado por homens, apesar da sombra recorrente da mãe. Na cena em que o garoto Salvador jovem reconhece a sua sexualidade pela visão do corpo de um homem nu, a iminente chegada da mãe é o elemento repressivo que faz irromper o desejo. Mais tarde, há uma longa e íntima cena de beijo entre  Salvador e seu antigo amante, Marcelo. É tanto um beijo que supera a separação e o tempo, quanto é também signo da provável despedida e da perda. Porém, é um testemunho que o desejo permanece vivo.

A homoafetividade masculina está de retorno neste filme com a força de seu A Lei do Desejo (1986), um dos seus melhores e mais conhecidos filmes, e também com Antonio Banderas. Seu sucesso sugeriu o nome à própria produtora do diretor (junto com seu irmão Agustin). Isso nos faz lembrar que Almodóvar não é um cineasta nem da sexualidade nem do gênero, mas sim do desejo. Nos seus filmes, a fronteira correta não está entre a ficção e a realidade, mas no terreno ambíguo entre desejar e ser desejado. Geralmente, enfatizamos o primeiro dos termos e deixamos ao narcisismo individual o segundo.

Os anos 80, vistos à distância, parecem anos narcísicos, sem dúvida. Mas o que Pedro Almodóvar nos ensina é que não há realmente uma oposição entre os termos. Barroco, seu cinema é uma “coincidência dos opostos” (coincidentia oppositorum).  Só desejamos para que, como seres desejantes, possamos ser desejados. Talvez esta seja a verdadeira lei de seu cinema: figurar o desejo, que não está na mulher, nem no homem, nem nas personagens de sexualidade híbrida, tão comuns em seus filmes. O desejo não está em um polo ou outro. Só existe desejo entre o sujeito e o objeto do desejo, entre esse que deseja e aquele desejado. O desejo é coincidência das partes, o cancelamento das oposições. É o desejo que se estende como película no cinema e não a tela que o figura. Afinal, só vamos ao cinema para aprender a desejar, já obedecendo desde sempre à sua Lei.

 

 

Guilherme Preger (1966) é escritor e engenheiro, natural do Rio de Janeiro. É autor de Capoeiragem (7Letras, 2003) e Extrema lírica (Oito e Meio, 2014). É um dos organizadores do Clube da Leitura. Participou como autor e editor das quatro coletâneas do coletivo. É mestre em Literatura Brasileira e doutorando em Teoria Literária pela UERJ, com pesquisa sobre as relações entre ciência e literatura.

 

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131ª Leva - 03/2019 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Héber Sales

 

Desenho: Felipe Stefani

 

Sonhos

 

Meu pai faleceu há quase três anos, mas só recentemente desapareceu de vez deste mundo. Não lembro até quando, não faz muito tempo, ele ainda conversava comigo enquanto eu dormia – o sonho é lugar onde as pessoas realmente vivem.

Essa noite estive preso em um pesadelo, tentando me salvar de algo medonho, por não ter uma forma – faltava-lhe o nome. Só me senti um pouco mais tranquilo depois que Maya pariu corajosamente dois belos filhotes. O último deles me deixou intrigado, com o pêlo todo branco e uma única marca em forma de lágrima no canto do olho esquerdo. Uma palavra me distraía, não soava bem naquele verso, e isso ainda me aflige um pouco. As traças estavam terminando os poemas que o meu pai escrevia e nunca foram publicados. Ele não apareceu para comentar nada. Achei estranho. Tem sido assim nos últimos dias, parece ter experimentado a sua última morte.

 

 

 

***

 

 

 

A Vigília

 

O sol já estava se pondo. Iuri atravessou o jardim, caminhando lentamente em direção à rua. Seu cão pastor acompanhava-o quieto.

Talvez o companheiro tivesse adoecido, talvez ambos estivessem tristes somente. Esse dia parecia com o fim do mundo – não por uma catástrofe, mas como uma vela que se extinguisse aos poucos: logo não haveria mais sombras, tudo se apagaria.

Adiante deles, entre os telhados, viam crescer a mata que separava a vila das extensas plantações do vale lá embaixo. Em sua orla, os eucaliptos mostravam-se ainda mais altivos contra o céu derrotado.

Os dois continuavam andando para dentro da noite. Não lhes interessava mais o dia. Uma velha lâmpada incandescente havia se acendido no limite da brenha escura. Embora frágil e vacilante, estava pronta para a longa vigília.

 

 

Héber Sales nasceu em Pernambuco e reside em São Paulo, onde atua como professor e publicitário. Seus poemas, ensaios, prosas  e entrevistas têm sido publicados em periódicos como Germina, Cronópios, Mallamargens, Digestivo Cultural e aqui, no Diversos Afins. Alguns textos seus também podem ser encontrados no blog coisas para fazer com palavras.