o pensamento não completa o voo no corte das asas
no calar do nome a palavra vagueia esparsa
esmaece névoa-memória
sem nome tudo se esvai
no traço perdido
do não dito
esquecer é silenciar o ser
***
na janela o espelho
no espelho o tempo
preso no silêncio da imagem
vítrea imagem
que no átimo do olhar
não nos reconhece
***
de súbito
lhe corto o curso à foice
meço a inteireza de seu propósito
lhe enterro estacas
para cegar vindoura estação
jogo-lhe a inerme isca da palavra
inútil intento domar o tempo
ele sempre volta ao cume
conjuga-se à revelia
de minha desmedida vontade
com olhos de escárnio
mira-me
de dentro da areia
como irrefutável sentença
***
em campo aberto de afetos
ferir-Se
no deslimite
sob
êxodo
transpor fronteiras
===
pisar no auto-exílio
***
paredes opulentas de vazio
sobre portas e janelas – o mofo das ausências
no rodapé – a poeira dos afetos
no limo dos azulejos – o pretérito das cotidianas tarefas
no-mínimo-círculo-de-calor-da-ultima-lâmpada-acesa
insetos dançam e fenecem em queda espiral
um feixe de malograda luz
tenta atravessar o vidro rachado
com intento de irromper o vão da sala
já é tarde para o sol
tudo se cala ao abandono
lá fora a história seca na casca da cigarra
vai chover
***
Há um movimento frio e feroz movendo-se na história da humanidade. O humano apartado do céu e da terra, portanto, apartado de si mesmo. O humano rendido e preso em sua dissonante esfera – num viver distanciado das significâncias da vida.
Wanda Monteiro, advogada, escritora, uma amazônida nascida à margem esquerda do rio Amazonas no Pará, tem seus textos publicados em várias revistas literárias, virtuais e impressas, tais como: Acrobata, Diversos Afins, Gueto, Ruído Manifesto, Mallarmargens, Zona da Palavra, Intacta Retina, Relevo, In Comunidades, LiteraturaBr e outras. Obras publicadas: O Beijo da Chuva, Ed. Amazônia, 2008; ANVERSO, Ed Amazônia, 2011; Duas Mulheres Entardecendo, Ed. Tempo, 2015; Aquatempo, Ed. Literacidade, 2016.
Ana Mendes nasceu em São Paulo do Potengi, interior do Rio Grande do Norte, em 1994. Graduanda em Filosofia, pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, escreve desde os 12 anos e declama desde 2014. Teve poemas publicados na coletânea Profundanças 2, publicou nas antologias CidaDelas (2017, Sebo Vermelho) e Blackout (no prelo), participou do grupo de declamadores Dirocha, assina a fan page Erro Errante, no Facebook, e o blog Pensamentos avulsos. Utiliza-se ainda de zines, como forma de publicar seus escritos, tendo publicado: Birgona, diário de um Cego; Prazer Pega Mate e Come e Terno. Seu feito mais recente foi ganhar o Concurso Othoniel Menezes, com a antologia poética intitulada Bélica. Os traços desencontrada(mente) brilhantes que marcam a identidade poética da potiguar falam muito sobre seus embates com o mundo, ao passo que geram o encontro perfeito da inspiração com a palavra. De olhar emblemático e postura crítica, Ana Mendes denuncia em seus escritos vários dos problemas sociais brasileiros e mundiais. Para além das lutas identitárias, percebe-se certa agudez nos versos que instigam reflexões variadas aos leitores. Mulher lésbica, poeta, declamadora e educadora, é no encontro com o papel que o brilho de Ana se faz forte. Quando Ana declama, aí sim, é Açofrio entrando pelos olhos e ouvidos e significando ainda mais do que se pode denotar, no aqui e agora da arte!
Ana Mendes / Foto: Talne Freitas
DA – Captar os múltiplos sentidos que a palavra assume, tanto no momento da feitura, quanto na emissão e recepção da poesia, cremos ser uma das sensações mais intensas vivenciados pelos poetas. Quando a poesia é impressa em livros, esta troca se dá com um intervalo de tempo mais espaçoso do que quando a obra é declamada! Você participa junto com outros sete poetas do Coletivo itinerante Di Rocha, cujo lema principal é: “Poesia pede rua!”. Conte-nos um pouco sobre a experiência de declamar seus poemas para o público, no aqui e agora da arte.
ANA MENDES – Grata pelo convite, esta é uma linda oportunidade de me aproximar das pessoas que possam vir a ler meus poemas. Anterior ao Di Rocha, eu já me experimentava declamar na cidade de Natal, mais ou menos desde o final de 2014 para cá, pois o Di Rocha é de 2016 e encerrou as atividades no mesmo ano. Então, antes disso, eu já declamava em saraus improvisados ou organizados, festas (tipo “invadir a programação” e irromper nas brechas, entre uma atração e outra, com um poema), eventos culturais de modo geral. Declamar foi um desses acontecimentos ébrios e espontâneos, fui percebendo sua potencialidade através das reações das pessoas, a princípio, e pelas sensações que performar me suscitavam; não necessariamente nesta ordem, mas achei curioso dizer assim… Como todo acontecimento, não sabia ao certo tudo o que o impulsiona, mas sempre tentei refletir o que eu queria com isso, além de gostar da adrenalina (risos), isto é, o que fazer disso, a ponto, inclusive, de precisar dar uma pausa para pensar sobre. Apesar de comunicativa e fazer um curso (Filosofia), que dá uma boa base argumentativa, eu me percebi silente em alguns espaços de debate (ou do cotidiano mesmo) por ene motivos. Assim, compreendi a voz-palco como a guisa de me projetar no mundo, ou, pelo menos, na cidade de Natal, já que sou uma interiorana estudando na capital, acredito que foi também a forma que encontrei de conhecer a cidade e me fazer conhecer. Sobre a experiência em si, para mim, é ato puro, pois tenho impressão que minha mente/pensamento, por alguns minutos, está em suspensão. Acredito que declamar, no hoje, é um manifesto de liberdade, seja qual for a forma/estilo ou conteúdo do poema.
DA – Em seus poemas há algumas menções a palavra erros, como no zine independente Bigorna – diário de um cego, onde, ao final, você assina: “diagramação e todos os erros sobrepostos: Ana Mendes”, além disso, você é autora da página erro errante, criada em 2017, na rede social Facebook, que funciona como uma vitrine com parte de seus escritos. Qual a acepção do ritmo errante em seus textos? Há alguma relação existencial? A seu ver, em qual medida o erro é importante à existência humana e qual sentido eles tomam em seus poemas?
ANA MENDES – Birgorna foi minha primeira zine, a versão que te passei foi a primeirinha. A frase no final era uma ironia aos possíveis erros gramaticais e de estrutura, que eu poderia ter deixado passar. Não apenas ironia, porém assumindo os “erros” que são próprios de escritos de diário, uma vez que fiz uso de “automatismo”, isto é, deixar me levar pelo subconsciente. Em outra versão, tem a revisão de Ayrton Alves (risos). Bom, creio que Bigorna é um marco. Porque eu tive muita resistência de criar um material físico, pois era um tipo de “exposição”, que foge do meu controle, ao contrário do blog, da página no Facebook. Mas é marco não apenas por isso, porque também é uma transição na minha forma de escrever, aqui assumo a prosa e certo surrealismo. Apropriei-me de erro e errância, refletindo sobre como me sentia na época e ampliei isso para uma perspectiva mais “universalista” sobre a vida. Então, sim, possuía uma veia existencialista nesse movimento. Apropriei-me das palavras também, como que relembrando a mim do engodo da perfeição, dessa busca obsessiva que, por vezes, caio. Quando criei a página era a fim de dar mais visibilidade aos textos, de perder o medo de me expor, pois até então utilizava apenas no blog e num grupo de Facebook. Mas, com o passar do tempo, fui percebendo que erro errante se tratava de um projeto, de me tornar mais íntima de mim mesma e da minha escrita, a tentativa de romper com minha própria maneira de escrever, fazendo uso do automatismo e depois “lapidando”, retirando vírgulas, maiúsculas, quebrando a sequência das orações, por exemplo, e, contraditoriamente, empreender a busca por uma identidade. Sobre a importância do erro: acredito que quando não o confundimos com a perspectiva cristã de pecado, é uma delícia, pois é abertura aos múltiplos significados na literatura e, também, se atentarmos mais aos processos do que à finalidade (o certo), iremos perceber o quão plural foi o aprendizado sobre algo (na educação). Então, meu exercício é me voltar mais ao movimento de cada “estilo” de escrever (quando observo meus poemas antigos) do que uma execução fidedigna do que projetei – isso quando o escrito tem uma intencionalidade “traçada”. Não sei se expliquei direito (risos). Hoje, acredito que estou muito mais analítica do que errante, mas gosto de relembrar os processos pelos quais passei…
DA – Falando em processos, conte-nos: como ocorrem seus processos criativos? Muito da abordagem estética dos poemas decorre das influências e vivências dos seus criadores. No poema “Escrever poemas é…”, você deixa escapar algumas dicas de como sua criatividade passeia por um eterno pique esconde/ de enxergar o olho ocultar o choro. Seu locus social enquanto mulher lésbica influencia em sua poesia? De que maneira isso reverbera?
ANA MENDES – Acho que não sei responder a estas perguntas, acredita? Mas posso tentar pensar aqui e agora alguns elementos: sobre processos criativos, quando os mencionei, é como um olhar em retrospectiva, de ter me percebido mudando. Mas há algumas intenções que sempre me permearam, como, por exemplo, intentar poemas concretos e poemas cada vez mais concisos e precisos, ainda que sempre me parta de um “descontrole”, quando bate a vontade de escrever, isto é, não tenho muito controle no exato momento que tenho vontade de escrever. Às vezes, parto de palavras específicas, que vejo se repetirem nas minhas leituras. Talvez muito do meu processo criativo se dê por repetição, ou seja, aquilo que sempre me visita, em sons/gestos, ideias, imagens. Fico intrigada quando estou “perseguindo” a mesma coisa, por certo tempo. Ultimamente, tem sido elementos bélicos. Sobre ser mulher lésbica, creio que sim, reverbera, só não sei descrever como na poesia ou em processos criativos isso se dê. Mas faço questão de declamar um poema que tenha algum conteúdo explícito sobre minha sexualidade, o amor por uma mulher, entre outros. Inclusive, a primeira coisa que tentei escrever (acho que aos doze anos) foi uma música que eu falava que gostava de uma “pessoa”. No começo, eu ocultava os pronomes femininos para que ninguém soubesse. Mas acredito que parte de não saber responder tua pergunta também seja porque estou refletindo muito sobre meu gênero, e isso perpassar, experimentar a minha feminilidade e masculinidade, ou algo entre os dois. O que ainda posso comentar sobre ser lésbica e a poesia é que fico puta em ver que quando nós temos espaço na literatura, ou quando somos reconhecidas em certos espaços, é sempre através da poesia erótica, que, para mim, só escancara o quanto há de fetichismo e hipersexualização.
Ana Mendes / Foto: arquivo pessoal
DA – Na sua fala “quando somos reconhecidas em certos espaços, é sempre através da poesia erótica, que para mim só escancara o quanto há de fetichismo e hipersexualização” há uma clara denúncia à construção estereotipada da mulher lésbica dentro do campo editorial. Estereotipação essa que condiciona a escritora a uma temática específica: a erótica. Qual o mecanismo utilizado por você para se desvincular dessa armadilha? Além disso, há entre os seus escritos textos que problematizem estas questões? Se não, quais os perigos em se abordar estas questões de identidade do mercado literário?
ANA MENDES – Sendo curta e grossa: eu não escrevo mais poemas eróticos, e, se escrevo, não publico online e tento experimentar passear por estilos de escrita de tempos em tempos. De imediato, não foi uma escolha consciente, mas, quando li sua pergunta sobre quais mecanismos utilizo, me veio essa resposta súbita. Sobre a segunda pergunta, acredito que, quando voltei a escrever em 2014, eu problematizava muito sobre a questão da gramática, não apenas como crítica, mas foi também a guisa de expurgar a ideia de não ser “boa”, por não dominar tudo da gramática e da história da literatura. Sobre os perigos, eu não saberei responder a essa questão porque, sinceramente, não penso a respeito do “mercado literário” convencional como um risco ou obstáculo para mim. Por que eu estou no mundo, sabe? A melhor publicidade é estar na rua, trocando com as pessoas, e outra, estou atenta às micro editoras e pessoas que desenvolvem seus trabalhos alternativos e afetivos em suas produções, como a Muganga Edições (RN), Sol Negro (RN) Padê Editorial (DF). Numa perspectiva mais crua, empoderamento e questões identitárias ganham cada vez mais força, portanto, vendem. Então, acho que o mercado deva se adaptar (suponho que já esteja, pois capitalismo é isso (risos)). No mais, boto fé em micropolíticas; por isso, minha atenção voltada para essas editoras.
DA – No que toca as temáticas, quando analisamos a história da escrita das mulheres, notamos que existe uma grande luta no sentido de colocar a voz da mulher enquanto uma voz humana, capaz de falar sobre mais variados temas. Isso porque, durante muito tempo, os temas ditos universais eram reservados aos homens, enquanto às mulheres foi oferecido o recorte “literatura feminina”. Nesse sentido, também caminhou o espaço reservado às escritoras lésbicas. Como você enxerga o comportamento do mercado literário com relação a sua literatura? Qual importância tem a coletânea Profundanças 2, que utiliza selo online, como forma de driblar a dinâmica desse mercado?
ANA MENDES – Huumm… fiquei surpresa e grata com o convite da Daniela Galdino. Um convite como este, que integra uma diversidade de mulheres e de conteúdos – pelo modo que foi e é manejado (muito dialogado e articulado para dar visibilidade a singularidade da todes) – amadureceu minha visão sobre produção e divulgação da literatura, como também me pôs a refletir sobre o meu ser escritora e o que eu queria disso, ou seja, amadureceu minha confiança, pois alguém (que admiro o trabalho) gosta e confiou naquilo que produzo. Assim, creio que a importância e o diferencial do projeto é o diálogo que a coletânea Profundanças 2 estabelece entre ela e o social, a fim de resolver o problema que é a invisibilidade do nosso trabalho literário e intelectual. Sobre o mercado em relação à minha literatura, irei me ater a minha cidade e como tenho visto a dinâmica por aqui, pois minha vivência sobre publicações que envolvam outrem é muito restrita, já que produzo independentemente meu material (zines). No geral, vejo que há poucas editoras interessadas numa troca sincera para além do lucro. Será que beiro a ingenuidade descrevendo assim? (risos). Percebo como há um movimento de usura, de apropriação de algumas lutas para obter vantagem (financeira) apenas para si, uma vez que o “apoio” às pautas é apenas pontual e não sistemático.
DA – A autopublicação pode guardar duas faces distintas, por um lado o autor tem a liberdade criativa garantida, por outro, a responsabilidade sobre o processo de distribuição aumenta significativamente. Você disse que produz independentemente o seu material (zines). Explique sobre esta forma de auto publicar. O que é uma zine? Qual a dinâmica da produção e da divulgação? Aproveite e fale um pouco sobre as temáticas abordadas por você nestes materiais.
ANA MENDES – Ah! Zine, a palavra é um diminutivo de fanzine, que consistia numa revista improvisada (não profissional) e de baixo custo de produção, feita por fãs, sobre bandas ou outro conteúdo, que surgiu nos EUA no século 19. Foi largamente utilizada com diversas intenções, tanto no movimento punk, literário e de artes gráficas, como é o caso dos quadrinhos. No Brasil, é conhecida como qualquer produção independente e muito usada pelo movimento literário. Sobre a dinâmica de produção e divulgação, sigo intuitiva e orgânica. Produzo conforme vai me batendo a vontade de ir a algum evento cultural da cidade; no geral, sigo escrevendo e “guardando” material e, quando vejo ali um padrão de narrativa, passo a organizar para impressão. Assim, por ser uma produção/escrita espontânea, não há uma temática escolhida de antemão. Mas sobre os temas nos zines já publicados: Bigorna, diário de um cego é um relato em prosa, em micro textos, de sonhos; Prazer, Pega Mata e Come são pequenos poemas eróticos; Terno, concisos poemas sobrepostos como cílios, escritos movidos pelo tom terno de conteúdos diversos.
DA – Nas imagens contidas na obra Profundanças 2, você tem um olhar bem emblemático, forte, além disso algumas delas estão em preto e branco. Fale um pouco sobre o processo criativo dessas fotografias. Você pôde dar sugestões ou aprovar as imagens? Outra coisa, o quanto de Ana Mendes há naqueles frames? Conte um pouco de sua trajetória enquanto intelectual e escritora fazendo uma correlação com as imagens da coletânea.
ANA MENDES – Ah! Adorei a ideia de uma antologia literária e fotográfica, as fotos deram corpo e cor à diversidade literária ali. Inclusive, nunca tinha feito um ensaio antes. Sobre o processo criativo das fotografias, foi algo bem dialogado entre nós, eu e Josi Oliveira, a fotógrafa. Ela captou bem as características recorrentes nas minhas fotografias pessoais postadas no Instagram, como também daquilo que, por vezes, se faz intenção nelas, que é propriamente esse jogo de luz (claro e escuro). Também tentamos aproveitar o espaço que tínhamos disponível, utilizando como cenário alguns bairros que gosto muito na cidade de Natal, a Ribeira Cidade Alta e Alecrim, por exemplo. Sobre o que há de Ana naquelas fotos, hoje, talvez uma objetividade mais concreta a respeito desse jogo de luz: comecei a fotografar e filmar, neste ano, com uma câmera mesmo (antes só por celular). Minha trajetória intelectual… Bom, acredito que comecei a pensar mais sistemática/filosoficamente sobre o entremeio da filosofia e poesia, porém “performando” não apenas com a declamação, mas utilizando de recursos audiovisuais, nos quais não sou a protagonista, a princípio.
DA – O seu poema sem título publicado em Profundanças 2 é uma criação muito forte, com imagens e mensagens bem diretas: “Sempre que resisto/ Sou arrastada, esfolada, pisoteada. (…) Quem eu sou?/ Sou o sonho da Humanidade/ Que vocês esquecem e perseguem”. Acreditamos ser uma poesia de protesto. Fale um pouco sobre as denúncias pretendidas por este poema. Em qual lugar de sua identidade ele toca?
ANA MENDES – Este é o poema que acho muito “completo” e o que uso de front em todo espaço novo, portanto, é um poema para ser declamado. Foi escrito em 2016, após o rompimento da barragem da Samarco (empresa da Vale) de Mariana, num período no qual estava acontecendo muita coisa e eu estava muito atenta. Ah! Enquanto recorte, este poema é medo e violência, por esta mulher, LGBTGI+, baixa renda e também fala sobre muitos dos meus, em outros recortes de situação de vulnerabilidade social.
DA – O poema é uma catarse que denuncia a situação de medo e vulnerabilidade vivenciada pela comunidade LGBTGI+, no Brasil e no mundo. Mas um trecho chama a atenção pela sua menção à parte oriental do globo: “Afogam-me na lama/ Me bombardeiam no oriente / Às vezes, caminho com um fuzil / Que me pesa mais que meu corpo/ E a fome, minha companhia inseparável”. Se possível, fale-nos um pouco mais sobre o processo criativo e a rede de significados presentes em seu poema.
ANA MENDES – Confesso que receio dissecar demais o poema, mas tendo em vista seu conteúdo, acho necessário discutir sim. Bom, como foi escrito em 2016 não recordo muito bem, mas lembro de ter escrito de uma vez só e precisei fazer pouquíssimos arranjos, de tão súbito. Deu-se a partir de diversas imagens, que ora oscilam sobre o oriente, ora quanto às periferias do Brasil. Intentei uma diversidade.
DA – Por fim, estamos em um período de transição presidencial bastante delicada, favorecida por uma onda conservadora bastante forte. Como você analisa a atual conjuntura? Quais seus sentimentos e prognósticos para os próximos anos, no Brasil? Qual papel assume a arte nos processos de resistência? Quais reflexões imediatas que movimentos de repressão provocam em você, enquanto escritora?
ANA MENDES – Uau… Muitas questões. Então, há um tempo venho no autocuidado de me preservar e fortalecer, filtrando pessoas, ambientes e discursos. Apesar de uma sensação de maior sobriedade, de perceber todos esses movimentos individuais e políticos, não me sinto hábil para fazer uma explanação sobre a conjuntura de modo geral, porém, me vem uma palavra: estreitamento, de direitos e oportunidades, portanto, de realizar sonhos, sim, sonhos, projeções de nós mesmos em outro espaço-tempo, em plenitude e com dignidade. Em 2019, me formo, sem perspectiva de atuar como professora de Filosofia (algo que descobrir que gosto e quero, de fato). Porém, em 2018, quando precisei repor a grana da bolsa do PIBID (Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência) do qual participava (foi então que trabalhei num sebo, desde abril), então eu percebi o quão é improviso e também possível delinear estratégias a longo prazo (dentro de um ano?!). Precisamos nos lembrar da experiência de ver pessoas fora da bolha da universidade, tanto em coletivos como também individualmente (minha mãe), que se fazem de improviso-estratégias, desde sempre, não se encerrando numa perspectiva de medo. Assim, atentar o olho para o que acontece em minha cidade e atuar cotidianamente-vivendo, habitando a cidade, em toda sua confusa interação. Desde eventos culturais às economias criativas, intercâmbio de conhecimentos e autocuidados em práticas. Como exemplo, pretendo dividir, junto ao Ateliê Sunsarara, uma oficina/minicurso de argumentação lógica, o ateliê da artista visual (grafiteira) Solar Shana Precária, que visa criar um espaço, no qual se reúnam mulheres, para trocar conhecimentos e artes, regularmente, em 2019. Então, acredito que a arte, pelo menos em minha vida, enquanto catarse me provoca uma “força-cuidado” criativa de me projetar no mundo, é minha espinha dorsal. Desse modo, enquanto escritora/performer/educadora, estou atenta aos improvisos-estratégias que possam me desviar. Desejando que as repressões não alcancem meu íntimo e oferecendo, no diálogo com o outro, a mesma brecha.
Elis Matos é “cria” da Universidade Estadual de Santa Cruz, licenciada em Filosofia e bacharela em Comunicação Social, especialista em Gestão Cultural e mestranda em Linguagens e Representações. Trabalhou enquanto Coordenadora de oficinas, workshop e mesa do Festival de Cinema Baiano, nas suas IV, V e VI edições. Pesquisadora, cronista e palestrante feminista, lançou a tag #ondeofeminismomechamaeuvou e vai! Aprendeu a sonhar uma vida justa até as últimas consequências…
Uma noite de 12 anos (La noche de 12 años). Uruguai/Espanha/França/Argentina. 2018.
Uma noite de 12 anos, do uruguaio Alvaro Brechner, relata a história de três militantes do grupo guerrilheiro Tupamaros, que foram feitos “reféns” do governo militar uruguaio durante 12 anos da ditadura naquele país. Os guerrilheiros são Mauricio Rosencof, Eleuterio Huidobro e José Mujica, que vem a ser el Pepe Mujica. Trata-se da recriação ficcional do relato autobiográfico dos dois primeiros guerrilheiros em seu período de confinamento.
É a história de um sequestro de Estado, assumido na própria designação dos prisioneiros como “reféns”. Eles ficaram presos, isolados em solitárias durante 12 anos, sem direito a julgamento, ou sem conhecer as acusações. O filme abre com um trecho extraído de A Colônia penal, de Franz Kafka, quando o prisioneiro pergunta qual a sua sentença, e seus algozes lhe respondem que ele saberá em sua própria carne.
O filme apresenta justamente a história de como os corpos dos prisioneiros suportaram a desumanização de 12 anos de confinamento. É um filme sobre a resistência da carne e dos corpos. E também da fala e da linguagem, em ambientes quando a comunicação ou era proibida ou impossível.
Cena de “Uma noite de 12 anos” / Foto: divulgação
A película de Alvaro Brechner é o que chamaríamos de “tour de force”: como fazer um filme do confinamento, do absoluto isolamento social, da incomunicação, da inação dos personagens silenciados. Nesse esforço estético reside sua principal força cinematográfica, vinda da contenção, da sobriedade e da justeza emocional.
Essa força estética nasce do desdobramento de um paradoxo: os reféns foram presos para que fossem silenciados, invisibilizados e esquecidos. A câmara cinematográfica de Brechner traz a luz ao presente desse período de sombras, de escuridão e terror. Tal luz nos deixa ver, através da ficção, o que foi negado aos olhos do público e do povo, uruguaios e internacionais.
Essa é a questão que se sobressai nas raras oportunidades em que os presos tiveram de falar com “o mundo exterior”, como com seus parentes, depois de intervalos longos. Nessas ocasiões eles não podiam demonstrar seu sofrimento, sua degradação e a opressão absoluta sobre seus corpos.
Assim, na entrevista com a Cruz Vermelha, quase dez anos após a prisão, os presos não têm o direito de testemunhar sua verdadeira situação. Tratava-se apenas de uma encenação, onde a organização humanitária apenas corroborava a violência do regime.
Por isso, a exibição cinematográfica desse pesadelo histórico 30 anos após sua ocorrência tem uma potência estética e política. Pela linguagem da ficção audiovisual o espectador é levado a experimentar a tortura existencial do confinamento absoluto. E a violência do regime se torna existencialmente demonstrada.
Nesse aspecto, a força política da película não necessita de discursos. Basta que a câmera encaminhe a sensibilidade do espectador para esse mundo sombrio e desumano dos “porões da ditadura”.
Antonio de La Torre em “Uma noite de 12 anos” / Foto: divulgação
Nenhum filme histórico e autobiográfico é um registro mais ou menos fiel do “que se passou”. Não é um encontro com o passado. O espectador, na sala de cinema, tem um encontro presencial com as imagens do filme. Os eventos se passaram como passa qualquer evento, mas a história ficcional se desenvolve no aqui e agora do cinéfilo. O filme é um acontecimento e como tal ele é a figura de um instante. Cada um lida com sua surpresa, estranheza e absurdo a seu modo e recompondo um mundo.
No filme de Brechner, para poder sobreviver, os prisioneiros, que se encontram isolados, desenvolvem uma linguagem sonora através de batidas na parede para poderem se comunicar. É uma linguagem inventada e através dela eles são capazes de criar um mundo, pois não há mundo sem linguagem e não há existência sem mundo. Assim, o filme pode ser interpretado como a invenção de uma linguagem para que tempos ilhados se comuniquem através dos muros espessos do esquecimento e do silêncio.
Talvez o momento mais pungente de Uma noite de doze anos seja a cena do banho de sol dos prisioneiros depois de anos sem ter acesso ao ar livre, na qual se ouve a voz da intérprete Silvia Perez, cantando a canção The Sound of Silence, de Simon & Garfunkel. Em outro filme seria essa uma cena melodramática. A música nos alerta que vivemos uma ficção. Mas neste filme ela se torna a demonstração de como o silêncio tem uma potência. A história deve ser vivida ficcionalmente para que não se repita como farsa.
Guilherme Preger (1966) é escritor e engenheiro, natural do Rio de Janeiro. É autor de Capoeiragem (7Letras, 2003) e Extrema lírica (Oito e Meio, 2014). É um dos organizadores do Clube da Leitura. Participou como autor e editor das quatro coletâneas do coletivo. É mestre em Literatura Brasileira e doutorando em Teoria Literária pela UERJ, com pesquisa sobre as relações entre ciência e literatura.
A velha mais velha do asilo. Mesmo banco de todas as tardes. Fundo sombrio da varanda, últimas luzes cinzentas do crepúsculo. Fala pouco, quase nada. Quando se dirigem a ela, responde cumprimentos, agradece gentilezas e diz amém (se for necessário). Falar cansa. Resta ficar pensando, o tempo todo.
Puro engano, a ideia de que o tempo é livre e democrático. Parece que todos têm direito ao mesmo tempo, que cada um usa como quiser. Não é bem assim. É muito além das medidas conhecidas. Tempo não é coisa única que se divide, igualmente, entre as pessoas. O tempo corre em velocidade íntima e penetra nos espaços vazios de cada vida. Minutos, segundos, horas ou anos podem ter durações diferentes para cada indivíduo – e demorar o tanto que a subjetividade exige no momento.
Três anos no asilo. Professora aposentada. Viúva de oficial do exército – metódico e previsível. Vida programada. Casamento de 52 anos. Relação amiga, respeitosa e equilibrada com o militar da artilharia. Muito tempo. Não teve filhos. Nenhuma grande paixão. Prazeres mínimos – nunca teve oportunidade para transgredir. Não havia grandes traumas ou tragédias para lamentar, mas também nada espetacular guardado na memória. Vida neutra, regular, correta, bem traçada (como os cálculos de balística do coronel). Vida repetitiva (como a cadência do batalhão no desfile da independência, que o marido comandava com tanto orgulho). Estudo e trabalho: únicas razões que preencheram a vida da mulher. Poucas emoções fortes para recordar. As melhores lembranças vinham das aulas de física, trabalho de décadas, no colégio e na faculdade. Considerava um privilégio a missão de ensinar o funcionamento do mundo.
O tempo mora na alma. O tempo moral, temporal, é tempestade, besta, vendaval. O tempo não é infalível. Errado pensar que o tempo é exato e não falha. Falha e falta, porque nasce e morre dentro da gente. Enquanto escorre, tem o tamanho que quiser. É música silenciosa que embala o curso do universo. Compasso e ritmo definem sua existência. O tempo é invenção desvairada de cada pessoa, na dança consigo mesma. Não é coisa geral. Tempo universal (organizado em fatias) é como cena parada de um filme – cinema que vira fotografia.
Poucos parentes, a maioria já morreu. Sobrinhos e fiéis agregados apareciam vez ou outra – no aniversário, páscoa, véspera de natal e coisas assim. Sempre apressados, constrangidos, tentando demonstrar que tinham algo mais importante para fazer. A única visita que lhe fazia bem era Ester, ex-aluna que reencontrara, por acaso, no asilo. Duas vezes por mês, Ester passava lá para ver o avô e dedicava um bom tempo para conversar com a antiga professora. Ester – a única que não inventava motivos para dizer que estava na hora de ir embora. Só saía quando a velha dizia que precisava descansar.
Há séculos, o terrível vício das horas aflige a humanidade. Desde que foi criada a civilização do relógio (para facilitar a divisão social dos talentos e reprimir excessos de velocidade de imaginação), a desconstrução do tempo é considerada insulto científico ou distúrbio pessoal. Difícil fazer entender aos viciados em calendários e agendas que é impossível regular os momentos e a cadência da vida. Tão esdrúxulo como tentar disciplinar o vento. Ou pensar a sucessão das eras como uma sequência contínua em direção a um futuro fixo (como se só existisse o presente, cuja função seria apagar o passado).
Lembrou orgulhosa dos exemplos poéticos que construía para explicar fenômenos misteriosos com as forças da natureza.
A velha professora detestava os livros que ganhava. Histórias tolas, manuais de autoajuda, meditação, pensamento positivo ou mensagens religiosas de preparação para a morte. Preferia ficção científica, aventuras que desafiavam a inteligência e propunham novos pensamentos. Gostava mais dos clássicos. A imaginação dos autores da atualidade ficava cada vez mais tecnológica do que científica. O desastre estava aí: pouca ciência para muita tecnologia. Ultimamente, mantinha no colo o pequeno volume que Ester trouxe de presente. Os Crononautas (tradução horrível), que narra viagens no tempo de um grupo de cientistas, que descobre equações mentais que permitem deslocamentos no espaço com a força do pensamento.
Não se deve acreditar que o tempo só caminha para frente. Nada mais falso. O tempo é etéreo e volátil. Pode andar para frente, para trás, para cima, para baixo e para qualquer lado. O tempo é invisível. Lugar móvel, abstrato, onde fica guardado tudo que existe, existiu ou existirá. Voa, na velocidade total de todas as galáxias, sendo capaz de atingir qualquer distância cabível no universo. Às vezes, fica entupido num canto sem saída. Como dentro da garganta daquele velho com cara de monstro.
O avô de Ester não gostava da velha. A neta parecia mais interessada na professora maluca do que nos problemas de saúde que ele relatava com profundo sentimento de carência e abandono. Maldizia a tarde que Ester reconheceu a professora, solitária, no canto da varanda. Foi ele que começou a espalhar que a velha era um perigo.
– Minha neta contou que ela é um gênio. Sabe tudo sobre energia nuclear. Foi até convidada para trabalhar na Nasa, mas o marido não concordou. Cuidado com ela! É meio desequilibrada. Tenho certeza que está aprontando alguma coisa. Olha a cara dela: parece que vive com raiva da humanidade. Gente assim é capaz de tudo. Já imaginou se ela resolve fabricar uma bomba? Provocar uma explosão, causar um curto, um incêndio…
O mundo perde vida com a ideologia do tempo aprisionado. Inteligências criativas são bloqueadas e se atrofiam. Tempo expresso em números; tempo vigiado em tabelas e prazos; tempo apertado em competições de sobrevivência. Na vida corrida, condicionada a datas e compromissos marcados, sentimentos fraternos e respeito solidário são rebarbas de excessos. Tempo engarrafado, paralisante, epidemia de angústia, destruição da harmonia natural e ilusão de um futuro salvador. Droga pesada.
Tempo é liberdade! Abaixo opressores e compressores do tempo! Tempo livre. Solto e vago! O tempo é leito de luz e usina de memória – confinado, compromete competências do espírito e altera a hierarquia dos desejos. Cada espécie é especialista em saber viver – entender o tempo que tem. Vida e morte, no mesmo trampolim. O mesmo ponto pode ser princípio ou fim. Depende da convenção. O amarelo é a menor distância entre o verde e o azul. Quantos tons existem entre os dois? Cor é luz diluída no calor do tempo. Enquanto existir fusos horários, cronômetros e formas de medir o tempo, as pessoas não serão livres para perceber as verdadeiras variações das cores e as pulsações mutantes das estrelas. O tempo limitado no ciclo das horas aprisiona a humanidade na periferia da terra. Por isso, ficamos isolados de outras civilizações extraterrestres. É preciso libertar o tempo.
O velho implicante foi quem ficou mais alegre, quando o diretor do asilo avisou que a professora não podia mais ficar interna na casa. Cleptomania. Encontraram diversos relógios, desaparecidos dentro do asilo, escondidos no quarto da velha. Só não entenderam por que tinham sido destruídos com tanta violência.
Ramayana Vargens é escritor, jornalista, professor de literatura, diretor teatral e membro da Academia de Letras de Ilhéus.
Café da esquina
Pouca temperatura
agora muita temperatura
quem chega e quem está indo
quem desmonta e se monta
mantém a compostura
finge não ser
a podridão do século
festival de cremes hidratantes
clareamento dos dentes
um amontoado de desamores bem resolvidos
próxima esquina
tira esse outono de mim
tira minha roupa
tira minhas escamas
me pesca sem isca
próxima esquina me fazem de isca
todo mundo morde
todo mundo morde e morre
a isca continua viva
próxima esquina: não vira.
Encosta e finge que
por enquanto
***
Contos de fadas parte dois
Nada foi real,
mas doeu como se fosse.
E aí o silêncio.
Eu não quero silenciar
Mas o primeiro grito
Sempre sai de mim
Na torre da gente
Na serpente que diz
Que o fruto do conhecimento
É atrevimento sem volta.
***
Um disparate:
atirar-me contra o vidro. atirar-me no teu colo. atirar-me meio tiro e meio pétala. atirar-me numa curva, numa selva de seca e terra. atirar-me contra o amor romântico amando e me atirando. Atirar-me repetidas vezes em diferentes cores e coisas. atirar-me em teu sexo, no seu intelecto e não sair de mim. atirar-me numa tela de tinta e lubrificação do que se vê mas não se toca. atirar-me agora fora do meu juízo. atirar-me para fora do golpe como se fosse possível, como se o estilingue pudesse me arremessar e me colocar fora para que eu possa olhar tudo por dentro.
atirar-me em outros corpos e copos
atirar-me em outras camas e lamas
atirar-me dentro de um filme ao vivo
atirar-me ao vidro
e como estilhaços
ir pra todo canto.
***
Degraus:
é que eu me sentia cair degrau por degrau
sentia a nutrição de força por força
sentia desejo de corpo por corpo
é que eu não sabia sentir e ter que sair de mim
era tudo aqui dentro.
Adicionar legenda
e secreto.
Tão secreto que qualquer um poderia entender
era notável, pegajoso, sujo.
Essa coisa de me sentir caindo
foi me dando altura
noção de espaço
noção desesperadora dos espaços que eu posso
noção de dor. Noção de dor é umas das piores noções que se pode ter.
Sei que dói
e caio pra me valer da dor
pra manter distância dos que não caem nunca.
***
Balança devagar
Me assaltaram a alma
Numa esquina entre o que eu acho
e entre o que eu penso.
Coloco na balança tudo
olhares, cartas, enigmas, chuva, cabelo bagunçado
sorrisos, bom dias, cuspe, beijo, penetração, fracasso
desejo
coloco na balança tudo
espera:
balança tudo.
Balança o mundo
e a gente não supera
coloco na balança a falência do estado
a falência do meu estado
o socorro cochichado
um pé estalado
corrida
medo coragem vontade
colidimos no tempo,
quando olhei pra tudo
já era 64 de novo
a balança quebrou
dividimos os ombros pra pesar
dividimos os ombros em pesar.
Meu coração agora tem pressa.
Sem metáforas
é
pressa
de balançar pra demolir.
***
Nós somos os potes de ouro
Seremos nossos próprios potes de ouro no fim do arco-íris,
ou no fim de um disco,
nas últimas sílabas das palavras que quase foram ditas.
Seremos o rebuliço causador,
os primeiros desejos ainda que antigos, esses dias simbolizam o nosso número da sorte ainda que golpeados, ainda que exaustos, ainda estamos excitados pela vida, inundados, molhados, aquecidos, um dentro do outro, nós dentro de todos, beijos, lascívia e umas esquinas.
Fumamos um cigarro depois do estrago.
Isabella Ingra ( Brasília, 1993) escreve poesias desde que leu seu primeiro poema (quadrilha, Drummond) na escola. É professora de literatura, atriz, contadora de histórias e poeta. Publicou dois livros infantis e agora se prepara para publicar seu primeiro livro de prosa e poesia. Suas maiores inspirações nasceram da poesia marginal e da escritora lendária Clarice Lispector. Acredita que poesia é pura bruxaria e não há inquisição que a pare!
Num recanto qualquer do mundo, a vida acontece e se expande em seus microuniversos. São possibilidades de existência que emanam das faces múltiplas do cotidiano. Enquanto estas linhas são escritas, o aqui e o agora são delineados pelo olhar de alguém e revestidos com a propriedade de observação diferenciada que cada artista carrega consigo. Diante da oportunidade de se mirar potenciais cenários, o ofício de fotógrafo engendra muito mais do que percepções flagrantes. Ousa além: oferta-nos revelações.
Mas por qual razão nos embalamos às multidões do dia a dia e deixamos de ver muita coisa? Há um sentimento perene de dissipação quando vemos as imagens de nossa real existência no mundo se confundirem com pontos perdidos e quiçá genéricos de observação. É como olhar para tudo e nada ao mesmo tempo. Na tentativa talvez de absorvermos freneticamente o rumo acelerado das coisas que nos são apresentadas, a sensação de se esvair numa torrente informe parece não passar.
A arte é capaz de fazer frente à ideia de que somos uma turba desorientada e, portanto, avessa aos pormenores mundanos. E falar aqui de detalhes significa remontar à perspectiva de se poder olhar e sentir a dinâmica da vida sem perder experiências relevantes de serem vivenciadas. Mesmo que não haja interferências por parte do artista que está a mirar os cenários, ainda assim ele se fez personagem do que acaba de testemunhar e reproduzir em sua obra.
No trabalho de um fotógrafo como Adelmo Santos, temos a percepção de que as revelações dispostas nos ambientes retratados emergem em meio ao caos urbano que, teimosamente, tenta desviar nossa atenção. Apartado da noção de um mero flagrante, o empenho artístico de Adelmo é no sentido de atenuar o efeito de dispersão do olhar que nos alça a obviedades. É marcante em muitas das imagens do artista o captar de um sentimento poético que se esconde por trás da rotina de homens e lugares. Mergulha-se, por escolha, no âmago das coisas.
Foto: Adelmo Santos
O fato é que Adelmo privilegia registros de dimensões da vida que passam despercebidas por muita gente. Evidencia delicadamente o canto quase que inaudível do povo de algum lugar, a rica simplicidade das pessoas, seus gestos e ritos. Nas suas fotografias, vemos uma clara tentativa de enaltecer o protagonismo às avessas que gente ocultada pela rotina exerce em seus espaços de sobrevivência. Na contramão dum complexo processo de invisibilidade, há vez e voz para os representados diante de imagens que potencializam uma possibilidade renovada de afirmação social e cultural. Nesse ínterim, todo um painel de feições populares deixa impregnadas as suas peculiares marcas.
Outro traço marcante do trabalho desse fotógrafo baiano está no modo como a dinâmica urbana é pensada e reproduzida. Fazendo transitar o seu olhar por lugares de passagem e pelas mais distintas vias de acesso, Adelmo testemunha e nos apresenta indícios humanos de transformação dos espaços. Alveja a configuração arquitetônica das cidades e nos põe a refletir sobre as variadas formas de intervenção espacial propostas pelos sujeitos que se movem e se deslocam através dos mais difusos ambientes.
Quando se utiliza da técnica de superexposição de imagens, Adelmo traz à tona uma curiosa coexistência entre mundos. Nesse aspecto, é como se uma interação entre o vivido e o imaginado pude se estabelecer de tal maneira que um efeito de realidade se fizesse determinante.
Impera na arte de Adelmo Santos a procura um tanto visceral pela construção de seus temas. No início do texto, falou-se em revelações, palavra que pode até mesmo abrigar uma infinidade de alternativas. Mas importa destacar que dar vazão a faces e cenários marcados por certa clandestinidade é também rasurar a imagem limitada que se tem sobre pessoas e seus entornos. Por entre vestígios do labor humano captados em luz e sombra, resistem vigorosos modos de existir.
Foto: Adelmo Santos
* As fotografias de Adelmo Santos são parte integrante da galeria e dos textos da 128ª Leva
Fabrício Brandão confessa que, definitivamente, não consegue sobreviver sem arte. Por isso, atira-se a livros, discos e filmes com o sabor perene da primeira vez. Por isso, edita a Revista Diversos Afins, é baterista amador e, atualmente, mestrando em Letras pela UESC, aliando Literatura, Comunicação e Cultura.
Na mesma proporção que uma boa escrita carece de técnica e imaginação, é preciso que o escritor tenha sensibilidade para capturar e decifrar o espírito do seu tempo. Em seu mais recente livro de contos, a mineira Eltânia André processa os códigos que representam, cada vez mais, a sociedade contemporânea, em especial a brasileira. “Duelos” trazem narrativas que se constroem a partir de disparos de violência, crimes de ódio, agruras urbanas, desmazelos e injustiças sociais. São retratos muitos claros e contundentes do nosso cotidiano, que revelam o quanto perdemos o senso de absurdo e a capacidade de reação, por exemplo, diante de mortes de crianças pelas chamadas balas perdidas. “Há mais homicídios no Brasil do que nos anos do conflito no Vietnã e atualmente na guerra da Síria, mas, em nosso país, esse passivo recai, em sua imensa maioria, sobre as populações desassistidas da periferia”, lamenta a autora.
Em entrevista exclusiva à Diversos Afins, Eltânia conta sobre o processo de composição de seu livro, ao mesmo tempo que reflete sobre o Brasil de hoje, repartido por conturbações sociais e político-partidárias, e sobre o real poder da literatura em se oferecer como um instrumento de recondução coletiva. “Melhor seria se os livros fossem objetos íntimos habitando o imaginário do nosso povo, mas tantos ainda precisam do básico e do urgente: saúde, alimentação, escola, dignidade”, alerta.
Morando em Portugal há cerca de dois anos, a escritora ainda traça um paralelo entre a produção literária feita no Brasil e na Europa, constituindo um painel de pequenos detalhes que espelham a realidade atual do mercado do livro no Brasil e a sua própria relação com a escrita e a publicação. “Seria bom se meus livros tivessem distribuição e fossem mais lidos, mas não houve nenhuma abertura. Não gosto do silêncio que se instala sobre os pedidos que lotam as caixas das (chamadas grandes) editoras, acho cruel e desrespeitoso a indiferença ou as cartinhas com negativas automáticas e burocráticas”, declara a autora.
Eltânia André / Foto: arquivo pessoal
DA – Seus livros anteriores são marcados pela exploração do território da memória, no esteio de uma escrita com tendência poética. “Duelos”, por outro lado, trata de uma realidade atual, regida por temas agudos e contundentes que ilustram o caos da sociedade brasileira. O que motivou tal mudança?
ELTÂNIA ANDRÉ – Aconteceu naturalmente. Quando percebi, a violência estava posta em vários contos. O que fiz foi ceder à temática e seguir produzindo com o título, “Duelos”, eleito. A severidade da vida e a realidade que nos circundam me guiaram na busca de personagens e histórias, porém tentei através da linguagem levar um pouco de ternura, não sabendo se havia possibilidade do paradoxo ou se seria possível suavizar a brutalidade. Mesmo assim arrisquei. Quanto à memória de longo prazo, ela também está presente em vários contos, com sutileza, talvez. Os contos estão circundados pelo horror ancestral, mas também pelo crescimento da violência urbana, circunstâncias que recheiam gráficos: há mais homicídios no Brasil do que nos anos do conflito no Vietnã e atualmente na guerra da Síria, mas, em nosso país, esse passivo recai, em sua imensa maioria, sobre as populações desassistidas da periferia, sobretudo jovens negros.
DA – “Uma das mil e uma noites”, conto que abre a coletânea, acompanha uma cena chocante em que um jovem gay é espancado por conta de sua orientação sexual. Até que ponto, você acredita, a literatura é capaz de transcender seu valor artístico e servir como instrumento de alerta social?
ELTÂNIA ANDRÉ – O narrador desse conto é surpreendido pelo desejo de salvar a personagem, mas ele não tem o antídoto para salvar o homem do veneno da estupidez. Assim, instala-se no texto a angústia que paralisa a história e que faz a narração se dilatar em múltiplas vias, exigindo do leitor a saída brusca do cenário de horror e deixando, imediatamente, o convite para a pausa reflexiva. É a angústia da autora também, pois tenho em mim tantas dúvidas e, por outro lado, tanta fé na arte. Mas, sim, a literatura é um dos instrumentos de alerta social, mas suspeito que não seja apenas isso. Há uma potência, que eu particularmente sinto, de que a literatura me permite estar em contato com o silêncio para ouvir outras vozes, sem reservas, sem receios – personagens e mundos múltiplos. Paro para ouvi-los, contemplo-os e, em alguns casos, torno-me íntima deles, outras vezes me torno outra(s) e assim fico mais próxima de mim. A literatura produz empatia, produz proximidade, arrisco a dizer que possa produzir novos sentidos; somos atravessados pelas palavras e num determinado momento essa força produz mudanças. Tudo isso pode mobilizar individualmente ou coletivamente o universo social, mesmo que nos pareça imperceptível. Melhor seria se os livros fossem objetos íntimos habitando o imaginário do nosso povo, mas tantos ainda precisam do básico e do urgente: saúde, alimentação, escola, dignidade.
DA – Numa outra chave narrativa, alguns contos tratam de mecanismos de violência, que não se fortificam na brutalidade, mas que não deixam de ser violência, a exemplo do descaso público com a saúde, a educação, a aposentadoria pública. De maneira geral, são temas poucos explorados pela literatura brasileira. Você acredita que falta, aos escritores contemporâneos brasileiros, um olhar mais penetrante para esses problemas cotidianos, que parecem menores, mas não são?
ELTÂNIA ANDRÉ – Talvez esses temas estejam diluídos na literatura contemporânea, implícito na realidade das personagens, porque não é possível testemunharmos nosso tempo sem observarmos esses fenômenos que trituram nossas vísceras.
DA – A violência contra a mulher é outro tema recorrente. Mulheres abusadas, oprimidas, inferiorizadas. Traçando um paralelo com a literatura, e levando em conta o último prêmio São Paulo de Literatura, que elegeu três escritoras campeãs, como analisa a participação das mulheres no mercado literário? Percebe que ainda há restrições por parte das editoras, dos leitores, comparado aos espaços permitidos aos homens?
ELTÂNIA ANDRÉ – Comemorei o resultado do Prêmio São Paulo, três mulheres vencedoras, mas gostaria que um dia fatos como esse não necessitassem de comemorações ou fossem alvo de uma visão pitoresca, entre críticas e deboches, porque se pensarmos na quantidade de vezes que somente homens venceram prêmios, isso ocorreu sem nenhum destaque ou suspeita. Gostaria que um dia nós tivéssemos naturalmente esse espaço; a escrita como processo, como exercício e resultado de esforço combinado com talento. Há tanto tempo as mulheres escrevem, o que deveria importar? A força da escrita, não a hierarquização ou os rótulos. Seria mesmo bom se assim fosse! O mercado literário nunca foi imparcial, não só com relação às mulheres, nem mesmo justo com as escolhas das obras, pois nem sempre a qualidade é o farol. Claro, percebo que há restrições e há tratamentos desiguais. Mas não vamos nos calar. O Mulherio das Letras, que surgiu sob a batuta da escritora Maria Valéria Rezende, tem mais de 6.600 mulheres. Um número expressivo, não acha?
DA – O conto “Matança de passarinhos”, que integra seu novo livro, originalmente faz parte da coletânea “Perdidas – Histórias para crianças que não têm vez”, que reuniu textos de autores em protesto aos casos repetidos de crianças mortas por balas perdidas em comunidades carentes do Rio de Janeiro, no ano passado. Como foi o processo de composição desse conto, e de qual maneira ele serviu de norte para a ideia central de “Duelos”?
ELTÂNIA ANDRÉ – Na verdade, eu já estava quase terminando o “Duelos”, quando Alexandre Staut me convidou para participar da antologia “Perdidas – Histórias para crianças que não têm vez”. Mas é sempre difícil enfrentar essa guerra em que as nossas crianças são alvo, ao invés de receberem proteção e direitos, como os que estão inseridos no ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). A realidade é rude, meu amigo: Maria Eduarda tinha 13 anos, cursava o sétimo ano do Ensino Fundamental e estava participando de uma aula de Educação Física, numa Escola da Zona Norte do Rio de Janeiro, no momento em que foi beber água e recebeu em seu corpo os disparos de fuzis. Muitas outras crianças e adolescentes foram vítimas de histórias trágicas. “Matança de passarinhos” foi escrito com muita tristeza, e confesso que gostaria que fosse totalmente ficcional e distante da realidade, mas é uma fotografia do Brasil, infelizmente.
DA – Há uma frase muito emblemática no conto “Poesia que ninguém lê”, que diz: “Os versos inacabados estarão sobre as contas a pagar na segunda gaveta do criado”. É uma imagem muito representativa da relação entre vida comum e a literatura; do quanto escrever, no Brasil, pode ser comparado a uma obsessão diante da ausência de qualquer recompensa associada, sobretudo a financeira. Por que, então, seguir escrevendo? E, principalmente contos, que é um gênero mal visto pelo mercado?
ELTÂNIA ANDRÉ – Também insisto em me questionar. Não é mesmo fácil enfrentar as contas na gaveta e o poema que insiste em sobrepor-se à matemática e às obrigações diárias. A maioria de nós precisa se dedicar a outro trabalho para sustentar também a própria produção literária. Mas o que mais me incomoda é ter que ser a caixeira-viajante, mascate da minha obra, isso é bastante desconfortável. Escrevi o artigo “Por que escrevemos”, que foi publicado em dezembro de 2017, na revista Caliban, de Lisboa, para tentar encontrar algumas pistas para essa interrogação que me assalta frequentemente. Não encontrei uma resposta justa, mas não consigo parar de escrever (algumas vezes penso que deveria). Encontrei esse modo de comunicação comigo mesma e com o mundo que teima em não cessar. Quanto ao gênero do conto, eu não me importo com o tratamento do mercado, tenho muitos contos ainda para produzir, e quer saber: dane-se a ditadura do mercado, o conto é soberbo e valente.
Eltânia André / Foto: arquivo pessoal
DA – Seus livros foram publicados por editoras de médio e de pequeno porte. Isso se deve a uma escolha sua, pensando em ter mais gerência sobre a preparação de suas obras, ou chegou a tentar contato com editoras de maior circulação e não obteve êxito? Qual sua relação com o mercado do livro?
ELTÂNIA ANDRÉ – Ainda não tentei encaminhar meus livros para editoras de maior circulação, desacredito que serei avaliada. Seria bom se meus livros tivessem distribuição e fossem mais lidos, mas não houve nenhuma abertura. Sou orgulhosa, não gosto do silêncio que se instala sobre os pedidos que lotam as caixas das editoras, acho cruel e desrespeitosa a indiferença ou as cartinhas com negativas automáticas e burocráticas (não creio que leiam os textos sem que haja indicações). Admiro o trabalho das pequenas editoras, como a Patuá, que publicou meu romance “Para Fugir dos Vivos” e “Duelos”. Reconheço que vem apresentando ao mercado livros excelentes, com primoroso trabalho estético e, além disso, há a abertura do diálogo com os editores. Afinal, justiça seja feita, são esses laboriosos pequenos editores que nos dão vez e voz num cenário tão viciado, e já algum tempo temos visto autores dessas casas serem contemplados com prêmios nacionais.
DA – Você é natural de Minas Gerais, mas já morou em São Paulo e agora está radicada em Portugal. O quanto a existência por essas cidades trouxe de enriquecedor para a captura de temas e o desenvolvimento de sua escrita?
ELTÂNIA ANDRÉ – Nasci e vivi durante 24 anos em Cataguases, e foi convivendo com meu irmão (que se encantou com a poesia, publicou um livro artesanal e, meses depois, morreu precocemente, aos 19 anos, vítima de um acidente) que o desejo insólito de ser futuramente uma escritora foi despertado e ficou hibernado por anos. Em 1990, decido viver em Belo Horizonte e lá permaneço por uns 15 anos. De 2004 até 2009, permaneço em Barbacena, para estudar Psicologia. Em 2007, começo a escrever e publico, apressadamente e de forma independente, meu primeiro livro de contos, ”Meu nome agora é Jaque”. Depois de minha formatura e de meu casamento, parto para São Paulo e lá fico por muitos anos. A escrita passa a fazer parte de minha rotina e finalizo os livros “Manhãs Adiadas”, contos, selecionado pelo PROAC e publicado pela Editora Dobra, em 2012; “Para fugir dos Vivos”, romance, publicado pela editora Patuá, em 2015; e “Diolindas”, romance escrito em parceria com Ronaldo Cagiano, que saiu pela Editora Penalux, em 2016. Em janeiro de 2017, saio do Brasil, passo a viver em Lisboa e continuo a escrever e revisar “Duelos”, que, em agosto deste ano, é lançado pela Patuá. Sair do território natal foi o primeiro e fundamental passo para minha formação e experiência existencial, pois o deslocamento nunca é apenas geográfico. É um trânsito filosófico, é tornar-se outro, é a metáfora da errância no sentido de desviar-se do caminho original, espalhar-se em outras direções e, ao mesmo tempo, carregar em si e na memória o que fomos na representação do passado com todas as suas complexidades. Só consegui começar a escrever depois de muitos rompimentos: com o mercado, com Deus; com valores que introjetei da cultura e do senso comum. A literatura exigiu um enfrentamento comigo mesma. O deslocamento físico acaba refletindo no subjetivo e tudo isso implica na linguagem, na vida.
DA – Falando em Portugal, do tempo em que você reside na terra-mãe, qual a sua impressão sobre a relação dos portugueses com a literatura? Especificamente, no que diz respeito ao interesse pela leitura e por eventos associados ao contexto literário, levando em conta também a maneira que enxergam a literatura brasileira?
ELTÂNIA ANDRÉ – Como disse acima, cheguei a Portugal em janeiro de 2017. Desde o início, comecei a ler autores portugueses; muitos dos quais não temos acesso no Brasil. Durante um período li com intensidade escritoras portuguesas de uma prosa visceral, entre as quais Maria Velho da Costa, Hélia Correia, Agustina Bessa-Luis, Gisela Ramos Rosa, Maria João Cantinho, Teolinda Gersão, Lídia Jorge, Maria Teresa Horta, Maria Gabriela Llansol, Inês Lourenço, Maria do Rosário Pedreira, Sophia de M. B. Adrensen, Maria Judite de Carvalho e Ana Margarida de Carvalho. A literatura portuguesa é riquíssima, e ainda há um fértil terreno ficcional e poético a se explorar. Percebo que a Clarice Lispector foi eleita como um cânone da literatura brasileira. Encontramos nas livrarias de Portugal os nossos clássicos e alguns contemporâneos, mas poderia haver um interesse maior já que falamos a mesma língua. Percebo que o acesso à literatura brasileira, em Portugal, ainda é pontual. A música brasileira, sim, é muito apreciada pelos portugueses e tem histórica difusão.
DA – Seu marido, o escritor Ronaldo Cagiano, acaba de lançar seu segundo livro por uma editora portuguesa. Como funciona essa relação de autores brasileiros com selos de livros em Portugal? É mais fácil, para um escritor brasileiro, lançar um livro em Portugal que no Brasil?
ELTÂNIA ANDRÉ – Mais fácil no Brasil. Não acredito que haja uma boa abertura para os autores brasileiros, as editoras portuguesas não estão de braços abertos para a literatura do Brasil, há resistência ou desinteresse, que não é de hoje, uma espécie de mecanismo de defesa contra a bibliografia brasileira, que é enorme. Há algumas pequenas editoras que têm publicado brasileiros, sobretudo na poesia, mas são poucas. Caso o livro tenha tido uma boa repercussão no mercado nacional, a possibilidade é maior. Em editoras de médio e de grande porte é conveniente que o autor tenha contrato com algum agente literário, pois na Europa são esses profissionais que induzem os editores a publicá-los, diferente do Brasil, onde ainda funciona o contato autor-editor. A figura do agente literário no Brasil é quase dispensável para os autores novatos ou ainda não reconhecidos pelo mercado; funciona bem para os já estabelecidos. Por outro lado, a publicação de portugueses no Brasil tem sido facilitada, porque há incentivos, como a DJLAB (Direção Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas), que apoiam e incentivam a publicação no Brasil de obras de autores portugueses e de países africanos da mesma língua. Há também o nosso franco interesse pela literatura portuguesa.
DA – Na condição de autora, e também de leitora, o que mais lhe impactou na maneira de tratar o escritor e o livro no continente europeu?
ELTÂNIA ANDRÉ – Ainda me sinto prematura para responder esta questão. Mas notei pequenos detalhes, por exemplo, quando ocorrem os lançamentos, os livros são analisados e apresentados para o público e para o autor. É um momento de muito respeito e de celebração da literatura. Não é apenas um encontro para autógrafos. Essa é uma prática tradicional, em que um livro não é apenas um acontecimento social, mas uma oportunidade de se conhecer autor e obra e, para tanto, antecede-se uma mesa, com algum convidado apresentando a obra do autor em lançamento. Nas Feiras do Livro, os autores põem-se disponíveis e próximos dos leitores, é fácil o acesso. Outra observação importante é que frequento muito as bibliotecas, estão espalhadas pelas freguesias, e é muito bom vê-las sempre cheias, principalmente de estudantes.
DA – De volta aos debates que estimulam seus contos, recentemente tivemos uma eleição para presidente do Brasil, na qual muitos artistas abriram seus votos via rede social. Você acha que é dever do escritor se manifestar publicamente, defendendo uma bandeira ideológica, ou a política pertence mais ao cidadão que ao artista?
ELTÂNIA ANDRÉ – A arte acaba exigindo um embate com o mundo e sabemos que a política interfere diretamente na vida das pessoas. Na verdade, a literatura também é um ato político. Não estou falando de política partidária. Quanto aos autores, admiro os que estão ao lado dos direitos humanos, da igualdade social, da diversidade, admiro os que lutam, os que se expõem. E estranho os que se isentam ou aqueles que escolhem ficar ao lado contrário, como o do fascismo. Cidadão e artista, em sua essência, são os mesmos, não há como separar um do outro. Respeito, entretanto, o modo que cada um encontra para se manifestar.
DA – Dos dramas tratados em seu livro, como o poder da leitura pode incidir de maneira a pôr um fim?
ELTÂNIA ANDRÉ – Não há como pôr um fim, esse ideal seria uma utopia. Há retrocessos que avacalham com a civilização e a humanidade – já era tempo de igualdade e paz, mas a irracionalidade do homem não deixa. No Brasil, o desafio é enorme e há um longo caminho pela frente. Muitos dos dramas podem ser tratados com adequadas políticas públicas, como por exemplo a violência urbana. E o acesso ao conhecimento e aos livros são ferramentas poderosas. Mas diante do golpe de 2016 e o resultado da eleição deste ano, como ser otimista?
DA – Qual o maior duelo em ser um escritor no Brasil? É possível sair vencedor, de alguma forma?
ELTÂNIA ANDRÉ – Os meus são vários, e todos passam pela angústia. Primeiro e constante é luta solitária com o que borbulha desordenadamente dentro e o que respinga na folha branca, depois burilar, lapidar – sempre fica um resto que não sabemos bem se terá fim, mas tudo bem, ele é ameaçador, mas produtivo. Desse duelo pessoal, passamos a ansiedade pós-criativa: encontrar editora, prazos que se prorrogam, lançamento, expectativas quanto à receptividade e um montão de eteceteras. Não há vencedores muito antes de Auschwitz.
Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.
Eles eram como nuvens
de sangue
dentro do sonho
Havia uma tela no início
e ele estava perto de desertar
do sonho para o infinito efêmero
das imagens fixas
que escondiam algo
ele havia sonhado
que era uma bala perdida
e acertaria seu próprio coração
dez anos depois
como num conto
argentino
ou tcheco
havia um padrão
dentro do sonho
criado pela impossibilidade
de ver a si mesmo
ele era
como um pássaro
transparente
voando
na direção
de um céu
de carne
com ossos
no lugar
de estrelas
a bala havia
perfurado
seu tórax
ele ouviu
o enfermeiro
cantar
essa ária
para o médico
de plantão
na medida
em que a morte
se aproximava
ele ia se esquecendo
do seu próprio nome
e desertando de dentro
do sonho
o fundo branco
das paredes
mudava
para prateado
de acordo
com a intensidade
do som
de um oceano
cada vez mais perto
perfurando seu pulmão
ele ouviu sua voz
misturada
com a voz de
seu avô
dizer a fumaça
oceânica
haviam
duas águas-vivas
grudadas nos seus braços
e uma arraia
no teto
flutuando
por cima
de seu corpo
dela
saiam
orquídeas
vermelhas
que ficavam
paradas no ar
estas flores
são o tempo
ele se ouviu dizer
e depois
acordou novamente
dentro da água.
***
PARA MARIELLE FRANCO E ANDERSON PEDRO GOMES
O sangue
não pode voltar no tempo
como o orvalho
seca e avança
até o Sol
O grito
não pode parar a rajada
de uma metralhadora
como a água
dentro da onda
avança
e retorna sempre
***
ANTÍFONA *
ANTÍFONA
Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
E aí, branquitudes, purezas, certezas
De luares, de neves, de neblinas!…
De clareiras, nuvens, névoas
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas…
E aí, branquíssimas peles lapidadas
Incensos dos turíbulos das aras…
nuvens brancas atravessando avenidas cercadas
Formas do Amor, constelarmente puras,
Modos de se matar, celestiais estáticos
De Virgens e de Santas vaporosas…
Em estados líquidos, enevoados
Brilhos errantes, mádidas frescuras
Fosforescências efêmeras
E dolências de lírios e de rosas…
e melancólicas orquídeas vaporosas
Indefiníveis músicas supremas,
Inefáveis mixtapes esquecidas
Harmonias da Cor e do Perfume…
perfeitas mas sem cheiros e sem lume
Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,
vindo em ondas de sangue que o Sol queima
Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume…
Velórios da luz no vidro que o projétil quebra
Visões, salmos e cânticos serenos,
Delírios, funks, risos, celas
Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes…
Ecos de toques de celulares nas biqueiras
Dormências de volúpicos venenos
Sonabulismos do beck com doce batendo na viela
Sutis e suaves, mórbidos, radiantes..
vagos e violentos, santos rostos faíscantes
Infinitos espíritos dispersos,
Duplos vetorizados, capturados logo adiante
Inefáveis, edênicos, aéreos,
encurralados ao revés por ancestrais , mortos, indigentes
Fecundai o Mistério destes versos
florescendo em galáxias distantes
Com a chama ideal de todos os mistérios.
na parte azul do sangue, nenhuma verdade
Do Sonho as mais azuis diafaneidades
alucinações em vermelho, nos olhos que se fecham
Que fuljam, que na Estrofe se levantem
que se dissolvam no refrão gritando não
E as emoções, sodas as castidades
com o sentimento sonoro, vertendo em espuma a interdição
Da alma do Verso, pelos versos cantem.
nas ruas as almas dos internos, crianças-onças-pardas
Que o pólen de ouro dos mais finos astros
germinando o sonho do mais fino grão do ser
Fecunde e inflame a rime clara e ardente…
sejam flores, os que desabrochando debaixo do chão e
Que brilhe a correção dos alabastros
como baleias nadando no mar de esgoto , em sua amplidão
Sonoramente, luminosamente.
entoando para a luz , a ultima canção evocando
Forças originais, essência, graça
forças de dentro que jamais avançam em vão
De carnes de mulher, delicadezas…
através da pele mestiça e negra , docemente
Todo esse eflúvio que por ondas passe
dos rios soterrados, subindo em ondas quentes
Do Éter nas róseas e áureas correntezas…
sobem, crescem, todos sentem
Cristais diluídos de clarões alacres,
tudo se refletindo em tudo, sem alarde
Desejos, vibrações, ânsias, alentos,
Eros regendo o ritmo das carnes
Fulvas vitórias, triunfamentos acres,
E aí, Branquitudes, a hora é agora!
Os mais estranhos estremecimentos…
a mais feroz doçura
Flores negras do tédio e flores vagas
desce até a piscina a matéria escura
De amores vãos, tantálicos, doentios…
de tristezas cósmicas, sem vagueza
Fundas vermelhidões de velhas chagas
fendas, falésias, fios, chamas, feras são
Em sangue, abertas, escorrendo em rios…..
sangram , fluem, pela água , antes represada
Tudo! vivo e nervoso e quente e forte,
cristalina fome de ser que vem do fundo, como a morte
Nos turbilhões quiméricos do Sonho,
vórtices, espirais de outra realidade
Passe, cantando, ante o perfil medonho
engolem vossos corpos, como o sono
E o tropel cabalístico da Morte…
chega para reger a manhã da insurreição
***
SIDERAÇÕES
GRAVITAÇÕES
Para as Estrelas de cristais gelados
Para os oceanos que vagam na matéria escura
As ânsias e os desejos vão subindo,
os sentimentos vastos são atraídos
Galgando azuis e siderais noivados
como no casamento do Sol e da Lua
De nuvens brancas a amplidão vestindo…
a anterioridade de contrários se fundindo
Num cortejo de cânticos alados
num ritmo , pulsação e vibração contínuos
Os arcanjos, as cítaras ferindo,
crianças na ocupação cantam esse hino
Passam, das vestes nos troféus prateados,
dançando com seus corpos negros azuis e cabelos prateados
* Poemas do livro inédito ESCUDOS BROQUEIS onde dialogo linha a linha com o livro de Cruz e Souza, criando através desse diálogo um novo poema formado pela união de dois poemas. É minha homenagem ao legado do poeta negro Cruz e Souza, que considero meu Mestre maior.
Marcelo Ariel é poeta e performer, autor dos livros “Tratado dos Anjos Afogados” (LetraSelvagem, esgotado), “Retornaremos das Cinzas para sonhar com o silêncio” (Editora Patuá, esgotado), “Jaha Ñande Ñañombovy’a”(Editora Penalux), entre outros. Em breve será lançado “Ou o Silêncio contínuo” – Poesia reunida 2007-2017 que está no prelo pela Kotter/Patuá.
Bruno Ribeiro não é um autor dado a temas fáceis e convencionais. “Febre de enxofre”, sua primeira incursão no romance, é protagonizado por Yuri Quirino, um poeta desiludido com a literatura e com o amor, que recebe uma proposta bizarra de escrever a biografia de um tal Manuel di Paula, um sujeito soturno, que o arrasta para uma jornada de assombros pelas vielas de Buenos Aires. O enredo é livremente inspirado no clássico “Fausto”, do alemão Wolfgang von Goethe, sobre um homem que negocia a alma com o diabo em troca de um tipo de eternidade, mas também pode ser lido como uma investigação sobre vampirismo. Em suma, um terror vestido por um escopo mais complexo.
“Glitter”, que acaba de ser lançado, também margeia a fronteira da literatura de gênero. É um romance pop, de certo modo; ou melhor, uma antiutopia pop. Vinte modelos com sérios desvios são contratadas pelo estilista e escritor Guilherme de Boaventura para atuarem no experimento La Poésie Vivant. Uma espécie de reality show, no qual as participantes ficarão confinadas dentro de um shopping center durante um ano, encerrando o exílio com um desfile em que irão se suicidar diante de um público selecionado. É um livro crítico, provocativo, que expõe as dissimulações e os delírios que (des)governam a sociedade contemporânea.
Com o mesmo tom afiado e repleto de personalidade, o autor mineiro radicado na Paraíba responde a esta entrevista exclusiva para a Diversos Afins. Ribeiro mira seu olhar sobre sua produção e o mercado do livro, observa a geração de novos escritores em que está inserido, fala sobre prêmios literários, oficinas de criação, editoras independentes e o tempo em que morou na Argentina, por conta de um período acadêmico. Uma posição que não se exime de tomar partido, sem artificialismo ou disfarce, e até certo ponto provocativa. “Assim como uma modelo com a bunda grande demais pode perder um trabalho, um escritor que passou do ponto ou não respeita as regras do bom mocismo literário pode perder sua chance de publicar numa editora “importante” ou até de participar de um evento badalado”, dispara.
Bruno Ribeiro / Foto: arquivo pessoal
DA – Seu primeiro romance, “Febre de enxofre”, pode ser lido como uma revisão portenha do “Fausto”, de Goethe, no qual o diabo figura entre os personagens centrais. “Glitter”, que acaba de sair, trata de um experimento no qual vinte modelos problemáticas são confinadas num shopping, focalizando em seus desmoronamentos psicológicos que resultam em atos de violência repletos de grafismo e baldes de sangue. De maneira involuntária ou não, seus livros têm a intenção de se estabelecerem como literatura de gênero?
BRUNO RIBEIRO – A pergunta é muito pertinente, porque adoro me debruçar nos procedimentos da literatura de gênero e creio que eles atuem como um espelho distorcido no meu trabalho. Faço uma literatura de gênero que nega seus próprios mecanismos, uma espécie de anti-gênero. “Febre de Enxofre” pode ser lido como um romance de terror, mas tenho consciência de que transgrido algumas regras deste tipo de livro, assim como injeto diversas referências pouco comuns ao estilo. Já “Glitter”, tem uma chave policial em certos momentos, mas também nunca se entrega totalmente ao que podemos chamar de romance policial. E isso também ocorre em outros textos, como nos contos de “Arranhando Paredes” e nos meus inéditos. Eu abraço o gênero em toda sua complexidade no cinema, pois os projetos em que trabalhei como roteirista foram todos de policial, thriller ou terror. Na literatura, utilizo-os como uma sombra que a qualquer momento pode sumir e aparecer no texto, por isso talvez seja difícil me estabelecer como autor de gênero, pois estou sempre por perto, entretanto me esquivando da responsabilidade de ser, de fato, um autor de literatura de gênero. Neste sentido me inspiro na forma como a literatura latino-americana, especificamente a argentina, lida com essa questão; cito aqui Ricardo Piglia e Borges, que conseguiam brincar e subverter com os procedimentos do policial como ninguém.
DA – O escritor norte-americano Chuck Palahniuk, autor de “Clube da luta”, trafega entre vários planos temáticos – o terror, a distopia, o consumismo, a pornografia, a fábula – para acertar sempre num alvo: a sociedade de seu país. Com uma forte carga crítica, que causa do choque ao riso nervoso, qual é o verdadeiro alvo de “Glitter”?
BRUNO RIBEIRO – A escritora francesa Christine Angot disse que “escrever é sempre violar uma intimidade”. Acredito nessa frase e quando não estou violando a minha, busco violar a de outros ou até a de certas estruturas e campos, como foi o caso de “Glitter”. A indústria da moda é duramente criticada e “violada” no meu romance, mas ela é uma cortina de fumaça. O principal alvo de “Glitter” – pois existem vários – e no qual busco as entranhas é a religião e o capitalismo. Giorgio Agamben disse que “o capitalismo é uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua”. Este conceito serviu bastante de inspiração para a construção do livro: uma religião sem fome, pura voragem, glamour e sangue. Pensar que o shopping é um sinônimo de igreja do capital, aonde a sociedade vai diariamente pagar seus dízimos e se ajoelhar perante as infindáveis lojas de departamento é assustador. Outra coisa terrível é pensar que tudo pode e é devorado pelo capitalismo, coisa que acontece numa chave distópica em “Glitter”. Pense que alucinado é ver diversas obras de arte, desde o mictório de Duchamp até os grafites, estampados em museus e sendo vendidos a preços absurdos para ricões que desejam lavar dinheiro e afagar seus egos. Impossível? Com o capitalismo isso acontece: tudo é absorvido, até aquilo que nasceu para bater de frente com ele. Em “Glitter”, a própria morte se torna tendência; a tortura de modelos, no futuro remoto que criei, vira purpurina, publicidade, padronização coletiva, novas formas de se vender roupa e encantar os olhos alheios. Por isso que a moda e todos seus melindres, profundezas e superficialidades, belezas e feiuras, sublime e profano, clássico e vanguarda, – toda a dicotomia que a envolve – representa a sociedade e a forma como o capitalismo a atinge: um treco que se molda a qualquer coisa para lucrar, da sarjeta ao luxo, da vida à morte.
DA – Você consegue traçar um paralelo entre a experiência de confinamento das modelos e o processo de escrita? Ou, porventura, com o mercado literário?
BRUNO RIBEIRO – Sem dúvida. Por isso o livro brinca ao colocar as modelos para escreverem poemas e especificamente isso fica mais claro no trecho em que elas estão numa livraria do shopping buscando inspiração. Todos os meus textos ficcionais lidam com o processo criativo. Tento fugir ao máximo dos clichês ao falar deste tema, que é extremamente batido, mas tanto o poeta seduzido por um demônio em “Febre de Enxofre” como as vinte modelos seduzidas pelo estilista ermitão em “Glitter” estão sendo puxadas para um inferno vasto e que pode ser lido como o demônio da criação e as diversas dificuldades que nos rodeiam enquanto artistas; no caso do meu poeta: as dificuldades para sobreviver e escrever uma biografia; no caso das minhas modelos: as dificuldades para sobreviverem e escreverem um poema. Esses personagens precisam lidar com seus problemas e principalmente em manter a sanidade na hora da criação. Ambos romances, “Febre de Enxofre” e “Glitter”, mantêm um diálogo forte com a literatura do século XIX; os românticos, os duplos, a decadência, a perda da beleza e da pureza, frustrações, o lirismo carregado na linguagem, a dor do poeta ou do criador em lidar com sua obra, vida, entorno; minha mente ao criar tramas e personagens vai de Mary Shelley e sua criatura arrebatadoramente poética e monstruosa, vindoura da mente do doutor Victor Frankenstein, à Charlotte Brontë, Goethe, Baudelaire, Rimbaud, Stevenson, Edith Wharton, Oscar Wilde, Poe, Bram Stoker, Huysmans, e por aí vai. Todos esses autores, à sua maneira e de diversas formas, lidaram com o mesmo que lido em meu projeto literário. Quanto ao mercado é possível, sim, fazer comparações entre o literário e o fashionista. O jovem escritor sofre tanto quanto o jovem modelo, a diferença é que o meio literário esconde sua escrotidão por meio da intelectualidade e das etiquetas, o mundo fashion não esconde tanto, o abuso é mais explícito e visceral. No livro, pergunto se “a morte não é a melhor metáfora da eternidade?”, e a frase se encaixa em moda e literatura. Autor morto não vende mais livros? Modelo ou estilista morto não vende mais roupa? Quando Alexander McQueen se matou, suas roupas e looks esgotaram ao redor do mundo. E isso tudo é reflexo da alucinação midiática que vivemos, o que me faz pensar que toda distopia, por mais bizarra que seja, acaba se tornando palpável. Basta ver o que vivemos ultimamente no Brasil: nada é tão absurdo que não possa se tornar realidade.
DA – Há poucos meses, o meio literário foi sacudido pela aparição de um prêmio internacional para livros inéditos, cujo vencedor levaria a bagatela de 200 mil euros. Passado o furor inicial, descobriu-se que era uma grande fraude, criada para sustentar uma performance artística realizada durante a última Festa Literária de Paraty – Flip. Ao investigar com agudeza os interstícios do universo da moda, você também intenciona expor um mecanismo de artificialidades que movimenta o mercado literário?
BRUNO RIBEIRO – A literatura ainda é muito conservadora e isso me inquieta bastante, pois como disse César Aira, ela é a “rainha das artes”, tudo cabe dentro dela, e mesmo assim nossa amada ainda é a mais tímida nas transgressões de forma e conteúdo. Sobre o prêmio internacional que você fala, o Babel Book Award, eu o achei bem instigante. Tenho algumas críticas? Obviamente, mas pelo menos estremeceu um meio que é movido por faíscas fracas demais, sabe? É tudo muito morno no meio literário. E quando algo pega “fogo”, sempre é de forma burlesca, tosca, sem noção, realizada por meninos birrentos e ególatras. Por isso sou fã do Kenneth Goldsmith, poeta americano que criou a Escrita Não-Criativa e causa arrepio nos arcaicos da literatura. E no Brasil, claro, sou fã do Ricardo Lísias, que escreveu a orelha de “Glitter” e é um dos escritores contemporâneos brasileiros que mais admiro, exatamente porque seu projeto literário sai da zona de conforto e não fica só na repetição. O artificial em “Glitter” pode ser comparado com o mercado literário no sentido da plasticidade deste meio: as falsidades, risadinhas, panelinhas… E assim como uma modelo com a bunda grande demais pode perder um trabalho, um escritor que passou do ponto ou não respeita as regras do bom mocismo literário pode perder sua chance de publicar numa editora “importante” ou até de participar de um evento badalado.
DA – Um dos aspectos curiosos de seu livro é que muitas de suas modelos não têm nomes comuns, sendo denominadas por atos de linguagem que misturam características físicas, adjetivos, estados emocionais e designações parentais, a exemplo de Netinha Abusada. Lembrou-me, de imediato, o romance “O Todo-ouvidos”, do búlgaro Elias Canetti, que é, de fato, um estudo de caracteres, previsto como uma forma de protesto contra a importância que o personagem assumiu, ao longo do tempo na literatura, tornando-se maior que a própria narrativa em que está inserido. No caso de “Glitter”, qual foi sua motivação ao criar esses nomes bizarros?
BRUNO RIBEIRO – Gosto muito de fábulas e a ideia partiu muito dessa referência. Fora isso, eu queria criar arquétipos da moda, por isso pensei em nomes que pudessem representar não só uma modelo, mas um nicho. A “punk” que poderia ser colocada no nicho de uma Kate Moss da vida, a “netinha” mimada, a noiva que foge do casamento e tenta a sorte no mundo da moda, a princesinha do Projac, representando as modelos que trabalham na TV, a negra que é taxada de louca, a miss universo, a polêmica, a maconheira, a suicida, a fofinha, a que morou fora, a da cidade pequena, e enfim, cada nome parte deste pressuposto de causar um estranhamento e tentar resumir um perfil estereotipado de top model.
DA – Ao longo do livro, além de sobreviver ao confinamento, as modelos têm de protagonizar um grande desfile final e escrever um poema. Obviamente que está aí inserido uma ironia crítica, mas a quem ela se dirige? Ao mercado que despreza a poesia? Às editoras pequenas que revelam poetas a cada semana? Ao gênero em si?
BRUNO RIBEIRO – A frase que conduz meus trabalhos literários vem do Charles Baudelaire: “seja poeta, mesmo na prosa”. No meu mestrado de Escrita Criativa, meu tutor foi um poeta, o Guillermo Saavedra, e quando ele terminou de ler “Febre de Enxofre”, disse enfaticamente que eu era um poeta escondido no corpo de romancista. Eu amo poesia e ela me influencia muito. Matar poetas e torturá-los em meus livros é uma forma de botar para fora minha frustração por não ser um poeta. Quanto à crítica, ela vem do mesmo lugar que partiu a do “Febre de Enxofre”: o excesso de poetas e a falsa glamourização em cima deles, o mercado que não sabe onde colocá-los, os bons poetas que morrem sem ser publicados, a estranheza deste gênero que parece não se encaixar em nenhum lugar. A poesia é a liberdade total, sem ressalvas, é o mais perto que temos dos procedimentos das vanguardas na literatura, e por isso sempre a levo comigo, pois a poesia é o não-lugar, e essa posição de incômodo em que ela reside, de não fazer parte nem do mercado nem daquilo que está fora dele, me interessa muito enquanto escritor. A poesia é repleta de técnicas e regras e, paradoxalmente, também é indomável e libertária, e é essa pegada dicotômica que busco na minha literatura.
DA – “Glitter” foi finalista do Prêmio Kindle de Literatura. Anteriormente, você tinha sido revelado entre os vencedores do Prêmio Brasil em Prosa, promovido numa parceria entre o jornal O Globo e a Amazon. O que significa isso, afinal? Qual o resultado prático para a carreira de um jovem autor ganhar um prêmio? Olhando para trás, você percebe que lhe ajudou de alguma forma ou é, no fim das contas, apenas uma informação boa para constar na biografia?
BRUNO RIBEIRO – Ajuda a ganhar alguns leitores e espaços, mas acredito que pesa mais na biografia do que numa alavanca rumo ao sucesso. Assim, consegui entrada em alguns eventos, como a Flinksampa e FLIP, mas não é algo que tento levar tanto em consideração quando estou escrevendo. É bom? Sim. É essencial para mim? Não. A escritura sempre vence, pois já nasceu derrotada e não tem mais nada a perder: seja com troféu ou com sarjeta.
DA – Falando em biografia, apesar do holofote dos prêmios, seus dois livros (e, aqui, falo sem qualquer ideia de desmerecimento) foram publicados por editoras com circulação mais restrita. Você chegou a tentar um contato com os grandes grupos editorias; utilizar da repercussão dos prêmios para chamar atenção para seus livros? Ou foi mesmo uma opção, pois enxerga a literatura brasileira sendo produzida dentro de uma nova configuração? Qual é a sua relação com as editoras?
BRUNO RIBEIRO – Vivemos no tempo do autor, onde somos zagueiro, meio de campo, atacante e goleiro ao mesmo tempo. Neste novo tempo, a editora surge mais como uma parceira a meu ver do que alguém extremamente decisivo na minha vida literária. Atualmente ando tentando uma aproximação com editoras maiores, mas porque o livro que pretendo apresentar para elas seria interessante que tivesse uma maior distribuição. Cada livro tem sua demanda e é assim que penso quando vou tentar publicá-los. Sobre a minha relação com os editores e editoras, afirmo que sempre foi ótima; sou amigo do pessoal da Penalux, Pátua, Moinhos, Escaleiras, Cousa, Bartlebee, Mondrongo, e acho muito gratificante que assim seja. Juntos somos mais.
DA – Você também tem publicado o livro de contos “Arranhando paredes”, que foi traduzido para o espanhol e lançado pelo selo argentino Outsider. Essa aproximação vem de um período em que você estudou literatura em Buenos Aires. Dessa experiência, você consegue opinar se os caminhos para um autor iniciante são menos pedregosos na Argentina que no Brasil? O que tem de diferente na maneira de se compreender a nova literatura entre esses dois países?
BRUNO RIBEIRO – É pedregoso também. Escritor se fode em todo canto. As diferenças começam com a forma que o mercado lida com a literatura, vejo que lá a coisa funciona de uma maneira mais justa, principalmente a aproximação das editoras com livrarias, que me parece menos predatória. Outra coisa que muda é o grande número de editoras independentes de qualidade, fenômeno que estamos começando a ver brotar no Brasil. Outro ponto é que na Argentina há mais leitores e formas de se destacar no meio literário. No Brasil ainda estamos muito ligados a isso de ganhar prêmios, por exemplo, como forma de chancelar sua obra. Não vi isso por lá. É importante faturar um prêmiozinho? É, mas pelo tempo em que vivi lá, notei que não é isso que fará você alcançar um status mais interessante no meio literário ou sequer receber alguns aplausos. Existem outros processos e maneiras para ser lido e conseguir se destacar, e essa pluralidade de caminhos é uma das coisas mais interessantes na vida literária argentina. Mas tirando esses pontos, muitos autores argentinos que conheci reclamavam tanto quanto nós aqui do Brasil. A dor é a mesma, mas talvez a deles seja mais doce. Culpa do tango e de Borges.
Bruno Ribeiro / Foto: arquivo pessoal
DA – Assim como no cinema, a literatura argentina é melhor que a brasileira?
BRUNO RIBEIRO – É um pouco complexo dizer que uma literatura é melhor do que a outra. O Brasil vive um momento de eclosão, anda se publicando muito e tem gente boa pra caramba à solta, assim como o mercado argentino também está pipocando. Tem coisas boas e ruins em ambos cenários. O cinema argentino mesmo chegou aonde chegou por causa de anos e mais anos de investimentos, coisa que só começamos a ter recentemente, e os louros disso já estão surgindo: muitos filmes brasileiros começaram a aparecer nos principais festivais de cinema do mundo e estão se multiplicando por aí: não só em quantidade, mas em qualidade. Com a literatura a coisa não muda muito de figura, o mercado argentino – apesar dos pesares – investiu mais no decorrer do tempo, distribuiu melhor também, tanto que isso de autor argentino sair vendendo livro pelo inbox de Facebook é algo raríssimo; em Buenos Aires mesmo, onde vivi, estudei e convivi com escritores por quatro anos, acho que dá pra contar no dedo de uma mão as vezes que vi isso acontecer; geralmente o autor lança seu livro e o divulga nas redes, mas falando para o pessoal ir comprar nas livrarias. Ou seja, a distribuição e o número de tiragem são melhores do que no Brasil, onde colocar um livro pra vender na livraria é praticamente pedir para falir. Fora ver livros de editoras pequenas sendo vendidos em livrarias grandes, é preciso ressaltar também a tremenda força das livrarias pequenas e independentes; lá tem muitas e elas conseguem sobreviver e aquecer o mercado. Fora aquilo que todos já sabem: na Argentina tem mais leitores. Então, a questão de melhor ou pior acaba se tornando pequena quando comparamos com esses termos que são tão importantes quando tratamos de distribuição e produção de literatura e arte.
DA – Ainda no universo do conto, além do seu livro, você é muito ativo na participação e na organização de antologias de narrativas breves. Percebendo a dificuldade do mercado literário de lançar novos autores, você considera que participar de antologias, de coletivos literários, é uma forma eficaz de apresentar os primeiros textos? É possível ter uma carreira independente e ter relevância dentro do meio literário?
BRUNO RIBEIRO – Eu organizo antologias por acreditar de verdade no projeto e principalmente nos autores que convido. “Cem anos de amor, loucura & morte”, “Língua Rara”, “Estamos aqui”, “Um Jardim de Promessas”, todas foram antologias que organizei mais pela paixão do que pelo retorno. Publicar em antologias é uma boa maneira de começar a publicar, de apresentar um primeiro texto, mas convenhamos que pouquíssimas pessoas leem antologias. Pra vender é extremamente difícil e quando você vende raramente alguém lê. Mas estamos aí, na luta e organizando antologias, fazer o quê? O meio literário ainda tem suas resistências com os escritores independentes. Muitos insistem em dizer que não, mas é visível essa resistência e preconceito. Seja como for, sou mais integrado do que apocalíptico, pois vejo que a abertura para os independentes, seja em prêmio, festas, publicações, espaços ou eventos, está aumentando e isso é ótimo. Pode melhorar? Pode, mas pelo menos o barco está andando e aos poucos vamos quebrando a roda.
DA – Você também é muito ativo nas novas plataformas de publicação e nas redes sociais. Para um autor que não conta com o aparato de divulgação que envolve os livros lançados pelos grandes grupos editoriais, tais ferramentas são fundamentais para apresentar, anunciar e badalar um livro e a própria carreira. No entanto, a larga exposição acabou constituindo um espaço também favorável a vaidades, rixas, cabotinices e quebra-paus. Há um limite para o bom-senso nas redes? Ou é cada um por si mesmo?
BRUNO RIBEIRO – É preciso ter bom senso na vida como um todo, não só na internet. Infelizmente, muitos autores pensam que estão em seus banheiros e saem vomitando merda pra caramba por aí. Mas essas presepadas fazem parte do processo, pois as redes sociais democratizam de forma grandiloquente seus espaços, então temos acesso a coisas incríveis e, logo em seguida, a coisas escrotas. São as dores e amores da democracia e eu prefiro isso a uma rede que censure discursos e diga o que pode ou não pode. A internet ajuda bastante na divulgação dos meus textos, sem dúvidas. Se não fossem as redes sociais, uma boa porcentagem da literatura contemporânea brasileira estaria sem meios de se divulgar. A web veio para ficar e é uma ferramenta extremamente válida e útil para romper com a diáspora existente no mundo literário.
DA – Já que estamos na seara da crítica, recentemente a Folha de São Paulo publicou um artigo em defesa da crítica negativa, na qual a autora do texto reclamava o direito de tratar o livro (e consequentemente o autor) “a chibatadas”. Seus livros, pelo que eu me recordo, foram bem recebidos pela crítica, sendo um deles, inclusive, selecionado por um renomado crítico como um dos melhores lançamentos do ano. Mas se fosse de outra forma: como reagiria se algum de seus romances fosse defenestrado? E como funciona sua relação com a crítica literária: acha importante, não lhe interessa ou entende como um tipo de conceito de avaliação ultrapassado?
BRUNO RIBEIRO – A crítica é essencial. O sentido de uma obra passa pela mão do leitor e os grandes livros são aqueles com uma ambiguidade potente o bastante para conseguir se reinventar durante os séculos. Vide Madame Bovary ou Dom Casmurro: um leitor acha isso, outro acha aquilo, e essa pluralidade de leituras é o que enriquece um livro. A importância do crítico passa neste ponto: é um escritor – pois vejo o crítico como um escritor – que disseca uma obra e a amplia, nunca fecha. Críticos que fecham livros dentro de conceitos restritos e predeterminados me incomodam. Ou seja, acho válido um livro ser duramente criticado, mas que isso seja explicado tecnicamente e que o crítico não isole o livro e suas possibilidades, que deixe algo em aberto, que jogue as vísceras do livro no palco, mas que não o resuma a adjetivos banais e reducionistas. Fora os críticos que fecham ao invés de abrir as obras, outra coisa que me incomoda é a agenda de muitos deles. O meu incômodo surge ao ver certos críticos descendo o pau em livros de editoras pequenas e exaltando os de editora grande e, só vez ou outra, descendo o pau em um livro das grandes. É sério que editora pequena só publica porcaria? Não tem unzinho que preste? Aparentemente é muito fácil jorrar verdades absolutas sobre um meio literário que você só conhece um pedaço. De metonímias e bocas grandes o mundo tá cheio, mas se debruçar de fato sobre um universo para assim, e só assim, dar uma opinião relevante sobre um mundo tão complexo e vasto como o literário nacional é mais difícil e poucos o fazem. Nesses casos, o que vejo é a boa e velha torre de marfim reinando, pois impor uma agenda claramente conservadora e que só elogia um lado… Não vale é de nada para mim. Um crítico literário deve ter uma agenda ampla, sem conservadorismos e preconceitos, e caso não seja assim, acredito que deva ser honesto sobre suas intenções pelo menos, porque senão passa uma imagem errada e totalmente ultrajante a meu ver. Se o crítico tem uma responsabilidade, essa é a de ser transparente.
DA – Além de autor de ficção, você também ministra cursos e oficinas literárias. Muito se discute sobre a capacidade desses laboratórios de escrita de formarem um escritor em contrapartida ao que é considerado, por alguns, como uma aptidão, uma qualidade inata. Da sua experiência, o que de fato uma oficina pode oferecer para quem pretende ingressar na literatura? Um escritor, afinal, pode ser “ensinado” a escrever bem?
BRUNO RIBEIRO – Inicialmente, a experiência me inquietou. Hoje, sinto-me realizado nesta posição de professor de escrita criativa. Acompanhar e ler textos de diversos gêneros e estilos é um verdadeiro aprendizado. Aprendi a ler de tudo, pois um professor de escrita criativa precisa estar aberto para todos os tipos de literatura, afinal, só assim é possível avaliar tecnicamente uma obra que fuja do seu agrado. Não é fácil, mas aprendi. Uma oficina pode entregar técnicas, procedimentos literários e principalmente leituras. Uma indicação de livro pode mudar a vida de um aluno. Outra coisa importante é aprender a ler, esmiuçar de verdade um texto, a linguagem, trama, personagens. Ler o amigo de oficina é mais importante do que escrever, pois ao julgar o texto alheio você indiretamente está aprendendo a avaliar o seu texto também. Aprender a escrever é algo estranho e que sempre me soa pesado, apesar de achar que uma pessoa pode aprender a escrever bem, obviamente. A diretora do meu mestrado de escrita criativa, a poeta argentina Maria Negroni, no primeiro dia de aula disse que o objetivo da pós-graduação não era de formar escritores e sim de criar espaços para encorajar as dúvidas e perguntas, pois a verdadeira escritura sempre é uma arte subjetiva, acima inclusive da matéria que esteja sendo estudada. Assino embaixo disso aí. Ricardo Piglia disse que “a literatura é a experiência mais intensa que existe”. Até hoje, essa frase é o meu lema neste ofício tão árduo. E tento passá-la para os meus alunos, pois, sem processo, confronto, intensidade e pulsão, não há escritura. Seja sacra ou profana, sem gana, não rende. Resumindo: é possível sair mais “enriquecido” literariamente de uma oficina, curso ou pós-graduação de escrita criativa, mas se a pessoa vai se tornar ou não um escritor, isso é algo que só as suas obras poderão dizer.
DA – Nesse mesmo campo, a sua convivência com jovens que pretendem se tornar escritores lhe mostra que há neles a formação de leitor. Os jovens estão preocupados em ler bem, investigar com afinco o que está acontecendo na literatura contemporânea brasileira, ou sofrem do mesmo mal que acomete os leitores em geral?
BRUNO RIBEIRO – Uma professora de Campina Grande, Anna Giovanna, passou o meu romance “Febre de Enxofre” para os seus alunos lerem. O resultado foi sensacional: os alunos se vestiram como os personagens do livro, criaram cartazes e banner, e eles fizeram uma sabatina incrível comigo. Muitos ali leram muito bem o meu livro e tascaram perguntas instigantes e profundas. Eram alunos do segundo ano e, veja bem, essa é uma época da vida onde dizem que a garotada quer saber de tudo, menos ler. Claro que não vou pegar este recorte da minha vida para falar que os jovens amam ler, mas o utilizo para falar que quando um professor luta para colocar na mão dos seus alunos obras mais desafiantes, instigantes, e, melhor ainda, botam o autor dessa obra na sala de aula, a coisa muda um pouco. Porque muitos alunos ainda veem escritores como seres arcaicos, corcundas, velhos chatos, mortos. Logo, apresentar um escritor local para eles e o livro dessa pessoa, mostrar que é possível fazer uma literatura distinta daquilo que eles precisam ler para passar do ENEM, pode sim mudar suas vidas. Enquanto professor, eu sempre apresento trechos de livros de escritores independentes. Quando leio o começo do romance “Palavras que devoram lágrimas”, do Roberto Menezes, a galera vibra, adora, assim como quando leio o começo visceral e lírico de “Nossa Teresa: vida e morte de uma santa suicida”, da Micheliny Verunschk. O mesmo ocorre quando leio trechos de “Modos inacabados de morrer”, do André Timm. “É sério que pode fazer isso na literatura?”, muitos alunos perguntam. São obras que dificilmente cairiam na mão da galera, então é bacana falar que esses livros estão sendo lançados atualmente e por autores vivos. Quando ministro oficinas em colégios, um ou outro tem interesse em se aprofundar no que apresento, e é nisso que creio: nos pequenos atos e revoluções. Não penso em mudar o todo, mas se conseguir impactar uma pessoa ali, pra mim já tá valendo. Formação de leitores é isso: um trabalho de formiguinha, que deve ser feito com paciência e paixão, sem esperar grandes e imediatos retornos.
DA – Hoje há um consenso desanimador de que quem realmente lê os livros dos autores nacionais são os próprios autores nacionais. Isso, ao meu ver, configura-se em razão de algumas circunstâncias: a falta de distribuição, as baixas tiragens, a crise do mercado editorial e o baixo consumo dos leitores. Publicar um livro diante de todos esses obstáculos, portanto, não seria mais um capricho? Literatura, no Brasil, é mais paixão e resistência que a construção de uma carreira?
BRUNO RIBEIRO – Já parei pra pensar sobre isso: por que eu publico um livro? É difícil pensar em que estado eu estou na minha “carreira”. Tanto que nem uso o termo carreira literária, e sim vida literária. Nem é para pagar de diferentão, mas é por pensar de verdade que a literatura atravessa mais a minha vida do que uma carreira. Fora o blá blá blá de só recebermos 10% do livro e tudo isso, o que mais ferra nossa vida é a distribuição. O pessoal do cinema sofre o mesmo. Se houvesse uma distribuição melhor, a coisa mudava. Basta ver o caso do Giovanni Martins e o seu “O sol na cabeça”. Um livro de literatura e não um best-seller exportado ou um livro de youtuber vendendo pra caramba? Como pode isso? Distribuição, boa tiragem e investimento. Sem dinheiro, é complicado de chegar, por isso mesmo que a internet e os diversos meios alternativos de publicação, divulgação e distribuição são tão importantes. Bater de frente com o mercado é dar soco em ponta de faca, a verdade é que precisamos estar em outros lugares e driblar as imposições do capitalismo. Por isso participo de todos os eventos que me chamam, vou para as escolas, feiras, puteiros, igrejas, até pra livraria eu vou se me chamar, porque é importante ocupar os espaços e jorrar sua palavra – literatura – no ouvido alheio. No final das contas, o que me importa é tentar estar nesses lugares sem fazer tantas concessões também, sabe? Sigo o lema do Zagallo: “vocês vão ter que me engolir”. Minha literatura é isso e fim de papo. E é uma luta tremenda seguir essa linha intransigente, vez ou outra até penso se publicar é tudo isso mesmo, até porque vou continuar escrevendo, publicando ou não, mas aí penso um bocado e decido entrar no jogo, afinal de contas, apesar das desgraças, pelo menos eu me divirto um pouco e consigo um ou outro leitor.
DA – Voltando ao seu primeiro romance, “Febre de enxofre”, temos um vínculo entre dois personagens que se conforma uma relação de vampirismo. Logo no início de “Anos de formação”, Emilio Renzi, alter ego do escritor argentino Ricardo Piglia, tenta definir o que é a escrita para si; “seria uma mania, um hábito, um vício”, ele se pergunta, sem chegar a uma conclusão. O que é essa necessidade de escrever? Tornar-se escritor é, de fato, um pacto vampiresco? Algo que se aloja dentro de si e cresce na dependência?
BRUNO RIBEIRO – Amo essa ideia do pacto vampiresco, provavelmente por me sentir como um escritor do século XIX vivendo no XXI: a criação pra mim bebe bastante do romantismo, decadentismo e simbolismo. A diferença é que eu sugo essa inspiração e injeto uma boa carga de humor e deboche nela, pois a transgressão pra mim só funciona se houver riso e certa desconstrução, ou seja: um não se levar tão a sério. Quanto a isso, admiro e me inspiro muito no Michel Houellebecq; ele também bebe de influências românticas e decadentistas do século XIX, mas consegue reinventar os lugares comuns e seriedades dos autores deste período com sua linguagem e olhar repletos de contemporaneidade e humor ácido. No excelente texto “Permanecer Vivo: um método”, ele diz que “um poeta morto não escreve. Daí a importância de permanecer vivo”. Acho que essa frase consegue condensar tudo o que penso enquanto projeto literário: há humor, poesia, absurdo, cinismo, profundeza. O humor – aquele debochado que critica e fala verdades afiadas – é uma ferramenta essencial nos meus livros, assim como a própria descrença nos procedimentos que utilizo. E por isso que nego o gênero e tudo que devoro para escrever um livro também… Às vezes nego até a linguagem. A dependência à escrita, aquele velho jargão compatível comigo e vários comparsas: “escrevo para sobreviver”, por exemplo, é muito tosco. Não há como falar uma frase dessas sem colocar uma gargalhada em seguida; é meio sofrível ver gente levando a sério a desgraça que é escrever. O vício pra mim, o pacto vampiresco e infindável do escritor que aloja e não sai mais, é como um bobo da corte flutuando em abismos de mentirinha, mas que se o cara pular no negrume se tornam reais e ele afunda; é o sorriso e o susto, o grotesco inserido numa grande gargalhada, e é neste campo tão conflitante que estou na literatura, mergulhado em um pacto que causa dependência e risos nervosos.
DA – Seria possível recriar o mesmo experimento de “Glitter”, porém com escritores? Qual seria a dinâmica e quem você acha que deveria participar?
BRUNO RIBEIRO – Seria possível, claro! O Manuel da Costa Pinto faria as vezes do estilista ermitão de “Glitter” e selecionaria vinte e um escritores para participar do “A Literatura Viva”: uma espécie de grande sarau que seria finalizado com o fuzilamento dos escritores. O assassino que estaria responsável pela chacina lírica seria o franco-atirador Marcelino Freire; segue a lista dos vinte e um: eu, Roberto Menezes, você (Sérgio Tavares), Aline Bei, Bernardo Carvalho, Tiago Germano, Cláudia Lemes, Débora Gil Pantaleão, Adriane Garcia, Cristina Judar, Noemi Jaffe, Mike Sullivan, Ricardo Lísias, Adriana Brunstein, Tadeu Sarmento, Eduardo Sabino, Irka Barrios, Micheliny Verunschk, Ana Paula Maia, Mariana Basílio e André Timm. Mas, assim como todos os conflitos que ocorrem dentro da nossa bolha literária, a plateia descobriria rapidamente que as balas eram de mentira e que os vinte e um escritores só estavam simulando suas mortes: era uma performance para divulgar uma antologia de contos e poemas sobre o tema: A MORTE DO AUTOR. Todos aplaudiriam e se abraçariam no final do ato; tiraríamos muitas fotos para o Facebook e, enquanto um escritor bravo dava um soco murcho no peito de um escritor chorão, iríamos pra casa rastejando e carregando nossas vitórias e louros nas costas cansadas de tanto escrever e tirar fotos.
Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.
é porque o mar se desfaz no nosso ventre
como um deserto intemporal
espalhado pelas vísceras
de cada sílaba.
não me acuses de melancolia,
quando na representação da realidade
as vozes dos peregrinos
são arrepios escritos entre a pálpebras,
a melodia infinita que se esvai em sangue
quando ligamos o spotify.
hoje à tarde vou ser poeta outra vez
e amanhã vou ser mar,
depois deserto de vertigens.
dá-me uma metáfora que me salve a vida.
***
Na capital
de avental, à espera de limpar a casa
ou este labirinto inteiro a que chamo casa.
a limpeza deverá ser profunda,
mas como conseguirei vir à superfície,
debater-me contra todo este tédio de musgo.
sinto-me a afogar em cada lembrança de ti,
sei que vou ver-te mas espero até lá
já ter tudo limpo.
a capital é lírica
como o voo longínquo entre nós
como a tensão de bruma
ou o desencanto inevitável
entre nós.
deixei-te umas quantas mensagens sem sentido
quando estava sob o efeito das benzodiazepinas.
quero esconder uma paixão atrás de outra paixão,
atrás de outra paixão para que ninguém me veja.
mas a evidência da minha insignificância
mistura-se com o pó da casa:
discreto mas tóxico.
***
Lugares
este é um lugar de acidentes,
objetos arrefecidos no esquecimento.
esta é uma voz de vidro
que corta a paisagem.
queria ser a resposta às tuas perguntas
mas o açúcar das horas drenou a linguagem.
o lugar deste texto é entre a insónia e Cesariny.
***
São os teus gritos leves e radioativos,
são as tuas têmporas de aço
e os testículos idiomáticos dos teus poemas.
deixa-me sobreviver naturalmente
à vida furada que trazes às costas
podemos fazer planos
à volta da luz do medo
mas a vida é curta e a escrita é extensa
este é um nome que espreita
de todos os poros do meu corpo
o teu nome e o de outros animais
o ritmo desconcertante da espera,
as chamadas que rejeitaste,
os dedos transfigurados
pela radioatividade.
***
Doutora Fedúncia
vou escrever este poema com o que restar da culpa,
das várias culpas que vamos deixando amadurecer
junto à carne até que brotem raízes de luz
na escuridão que todos temos atrás dos olhos.
este é um poema responsável
sabe estar,
sabe mais do que
a imaturidade dos títulos porque a doutora sabe que
os nomes de código que a mulher da limpeza nos oferece
num ato de generosidade
são as alcunhas miseráveis
que melhor nos definem,
somos nomes de código que nunca saberemos
em bocas de consistência aleatória.
aquilo que nos chamam,
aquilo que os outros secretamente nos chamam
isso é que devia figurar na lápide.
***
Se precisares de mim,
sabes que estou disponível entre a faca e o coração,
o verão é incerto mas a minha mão
tem sempre o suor dos pulmões
sabes que a vida é simples
mas os movimentos da terra são longos.
hoje despeço-me de ti
vamos fumar a noite uma última vez
esconder-nos nas trevas que nos afastam,
nos símbolos que não nos pertencem,
nas religiões que nos separam,
a uma distância continental.
se precisares de mim
estarei no fogo e no sangue,
estou nas entrelinhas das coisas
que nunca deixaremos de partilhar.
***
Transfiguração da fome
escrevo ritualisticamente sobre as omoplatas da folha,
e há estrelas de solidão entre as palavras.
ao pernoitarmos na montanha do século
fomos adiando a terra
entre os aromas frágeis dos gestos.
há carne noturna nas nossas vozes,
impérios de tortura
e amigos tenebrosos.
perguntas-me se confio no furor do tempo,
quando sabes que a nossa glória
não passa da transfiguração da fome.
há um caos que irrompe da espera
e uma espera luminosa
nos espelhos provadores.
a tua ausência infindável
escorre desta folha.
Sara F. Costa (1987) nasceu em Oliveira de Azeméis. É licenciada em Estudos Orientais e Mestre em Estudos Interculturais: Português/Chinês pela Universidade do Minho em parceria com a Universidade de Línguas Estrangeiras de Tianjin, China. Tem recebido vários Prémios Literários nacionais na área da poesia. De momento reside em Pequim. Tem publicadas as obras poéticas: “A Melancolia das Mãos e Outros Rasgos” (Pé de Página editores, 2003); “Uma Devastação Inteligente” (Atelier Editorial, 2008); “O Sono Extenso” (Âncora Editora, 2012); “O Movimento Impróprio do Mund” (Âncora Editora, 2016) e “A Transfiguração da Fome” (Editora Labirinto, 2018).