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125ª Leva - 03/2018 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Carolina Spyer

 

Ilustração: Sadrie

 

Nota sobre uma curva

 

Meus olhos já tão miúdos quanto os seus
imersos nessa cidade de gestos
tão
inusitados

Eu desenhei olhos de ar no papel
extasiada

O ar nu como eu
tão exposto
tão
alterado

Eles picotaram o ar pelo papel dos olhos
deixaram-me o vácuo
deitado minúsculo sobre meu colo
insistente
tão desfeito quanto eu

 

 

 

***

 

 

 

Terroso o seu corpo

 

insistente matéria atravessada no estômago
prepotente que revolve seu cabelo
branco como que autorizado a triturar
seus fios para impor seus vinte mil hectares
de canaviais ou mais fazendo seguir a gentileza
da proposta para que seja uma entre seus quinhentos
funcionários ou mais a esquecer seu pé de jabuticaba
farto como se não houvesse as vozes incrustadas
as vozes do saco barreiro cantando no barro
tóxico alastrando seu tronco no chão

 

 

 

***

 

 

 

Enquanto falávamos de ritmo

 

Éramos três músicas
à trinta minutos de distância
das mesas eu e você
três constrangidas
por linhas e figuras
ignorando as buzinas as mesas eu e você
éramos três músicas mortas
pouco displicentes
porque fenecidas
éramos três dobradas
no tanto de corpo que se tinha
descartadas sem que notássemos
três coisas
pairando
sobre o chão

 

 

 

***

 

 

 

O banho era diário

 

Minhas pernas se encolhem logo de manhã
eram talvez 7 tons de xixi e variadas combinações de cor coágulo e mais
eu apurei 37 graus morre de frio moradora de rua na zona leste

são quem sabe 2 de minhas saídas
quem sabe todas elas ideais
desde tão cedo acordada Fernanda

levou um tiro no peito enquanto dormia sob uma marquise na zona sul
ninguém cuidou da cor e da temperatura dos dias sob o teto infiltrado
de registros e pedaços de pele

e coágulos em fluxos variados logo antes da manhã começar
na zona norte enquanto moradora de rua de 22 anos é atacada
a golpes de gargalo de garrafa toda cheia de mucosa ureia

e água que não cessam de esguichar
enquanto apoio meus pés na parede do banheiro
enquanto cuido de tentar manter meus pés apoiados

os nervos e músculos intrauterinos comprimidos
chorando pelos rins bato na minha barriga
de fluidos na zona oeste

 

 

 

***

 

 

 

O encontro

 

Nós dois um cardápio tímido e a mesa
dispondo nossos cotovelos as sombras
as perspectivas o ritmo da conversa
a abrangência da nossa visão a estética
do tempo cruzando a mesa parada
toda parada enquanto organiza
discretamente
nossa noite que passa

 

 

 

***

 

 

 

Solos cobertos de giros

 

I

Perde a cabeça no ombro
A mão na testa
O umbigo no dedo
O chão na goela
Faz caminho cruzado
Coloca pé com pé
Mede tamanho de tempo
Lambe intervalo do peito
Tosse em silêncio
Abre de mão dada
Bunda com bunda
Enquanto ficaram os olhos alagados

 

II

Corre dedo na rua pra conhecer o maciço do chão
Atravessa pedra, ponte, peito
Hoje é quinta feira
Percorre túneis sondando seus círculos intermináveis
Olha curto, curso
Hoje é quinta feira
Rastreia linhas topográficas
Toca
Finge rosto desforme curvando pescoço
Se lambe imensa
Lado, lastro
Lapso
Ela nunca pensou em atravessar essa via à noite
Hoje ainda é quinta feira

 

III

Roda céu: então chora (então escapa)
Tanto se pôs à superfície que agora é quase toda língua
Quase toda anel viscoso dela mesma
Rasteja à revelia do corpo
Com seu corpo

 

IV

Sensível às vibrações exteriores
Reajo entre expansões e contrações
Escavo galerias e canais
Me alimento de detritos de diversas origens
Enquanto constantemente excreto terra
Já não tenho pulmão
E me regenero

 

Carolina Spyer nasceu e vive em Belo Horizonte, Brasil. Possui graduação em Direito pela PUCMINAS e mestrado em Filosofia do Direito pela UFMG. É poeta, publicou “vrás” pelo Selo Leme (Editora Impressões de Minas, 2016) e tem poemas publicados em revistas virtuais.

 

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125ª Leva - 03/2018 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Carla Diacov

 

Ilustração: Sadrie

 

Ecos no bueiro

 

você acena com a cabeça e eu penso – essa mulher que acena com a cabeça – e você continua a andar. quando nos tocamos. um, dois beijinhos nas bochechas (somam quatro ou são mesmo os dois mesmos?) e concordamos em estar entre cafezinhos, com uma mesinha a nos separar. você me olha e eu imagino – essa mulher que me olha, acena com a cabeça. ela que está para dizer alguma gravidade – e você não diz, você olha, toma um, dois, três mil cafés sem açúcar. você que sabe minha desajeitada mania de dizer coisas quando estou aflita, digo coisas que meu buffoon interno diria – neste momento praticamos uma nova categoria de meditação em dupla. acenar com a cabeça, olhar, olhar, olhar, queimar a língua e olhar – você pende a cabeça para o outro lado, suspira e faz um sinal positivo quase imperceptível. me sinto bem, porque fui aprovada pelo sinal. ainda que somente eu tenha percebido o sinal. ainda que o sinal não seja, porque posso muito bem ter inventado o sinal. me conheço bem para saber que inventei o sinal, que não havia nada de positivo no leve deslocamento do queixo, coisa que você faz, mania tua. nos levantamos e nos despedimos. um, dois, três mil beijinhos nas bochechas (somam quatro ou são mesmo os três mil mesmos?). nos separamos pela última vez. como testemunhas, meu buffoon quase externo e sua frase, ecos dos beijinhos no bueiro, a calçada em desnível e o organismo excitado de quem toma muito café apenas para não dizer nada junto de uma amiga que, só em mexer o queixo, coloca aspas em tudo do mundo.

 

 

 

***

 

 

 

Que pode a mulher que pode

 

Você pode se esquecer de um dia especial. Você vai se esquecer daquele dia. Aquele dia estará para longe de ti. Um outro dia vai tomar aquele lugar. Mas ainda não chegou o dia que vem. Você vai se esquecer do dia especial quando o dia chegar. O dia que tomará o lugar daquele dia em que te disseram uma besteira cafona sobre bater com uma flor. Mas o dia que vem, como uma flor que é como uma raquete e que é como um sapato que é como um punho fechado que é como uma vassoura que é como um tijolo que é como uma panela quando é como bater com uma flor, ainda não chegou. E você pode esquecer.

Também pode esperar.

 

 

 

***

 

 

 

Uva e Azeitona e Tempo

 

Numa ocasião, meu pai me falou sobre um tipo de uva. Não me lembro do tipo de uva e nem das coisas que eram especiais nesse tipo de uva. Me lembro do meu pai. Me lembro que ele se sentia feliz em me dizer da uva. Me lembro das risadas dele, porque algo que não me lembro da uva, talvez o vinho dela. O tempo do meu pai me dizendo a uva era o meu tempo de amar a voz e os gestos do meu pai. Então havia ali algo mais que dois tempos. Era o Tempo Meu Pai, era o Meu Amor Pai Tempo, era o Nosso Tempo Humor. Talvez até o Saudade Pai Amanhã Não Tem Mais Tempo. Havia também a caminhada pelo mercado municipal de Londrina. Meu pai caminhava num tempo lindo e eu tentava acompanhar. Era preciso mais de duas pernas para caminhar junto de tanto amor. Era rápido e lento e rebobinado, às vezes. Então os pastéis. Comer e ouvir e saber e rebobinar, às vezes.

Numa outra ocasião, meu pai me falou sobre a azeitona preta.

Não me lembro a cor e nem o que da azeitona existia.

 

Carla Diacov, São Bernardo do Campo, 1975. “Amanhã Alguém Morre no Samba” (Douda Correria, 2015/Edições Macondo, 2018), “A metáfora mais Gentil do Mundo Gentil”, (Macondo Edições, Juiz de fora, 2016), “Ninguém Vai Poder Dizer Que Eu Não Disse” (Douda Correria, 2016), “bater bater no yuri” (livro online pela Enfermaria 6, 2017), “A Menstruação de Valter Hugo Mãe” (editado pelo escritor português, no projeto não comercial Casa Mãe, Portugal, 2017), “A Munição Compro Depois” (a sair pela Cozinha Experimental, 2018).

 

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125ª Leva - 03/2018 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

Contações: a voz que canta ou A memória é editada porque nela habita

 Por Marcelo Labes

 

 

Não sou ainda um leitor antigo da poesia de Tiago D. Oliveira, mas já me considero um leitor próximo. Tive a oportunidade de ler seus dois primeiros livros de poemas, Distraído (Pinaúna, 2014) e Debaixo do Vazio (Córrego, 2016), e tive muito prazer em resenhar estas duas obras para a revista Mallarmagens assim que terminei sua leitura. Naquela ocasião, relacionei os dois livros com uma distância obstaculizada que exigia do leitor mais que olhos. Explico: diferente do lirismo luso-baiano que havíamos lido no primeiro livro, o segundo desmontava, passo a passo, a própria poesia de Tiago e nós, leitores, íamos desmontando junto.

Leitor já de um livro inédito, fui há pouco agraciado com a leitura de Contações, recentemente publicado pela Editora Patuá. E se eu ainda não havia me recuperado de minha leitura de Debaixo do Vazio, esta leitura serviu para me mostrar que de Tiago sempre posso esperar mais, muito mais: eis um poeta que lida com a poesia, própria e alheia, com uma seriedade e uma dedicação difíceis de se deixar passar sem perceber.

Tenho comigo que são poucos os temas que os poetas abordam durante a vida. Ou são muitos os temas, mas poucos eixos em torno dos quais estes temas giram. Ou são muitos eixos e temas para uma quantidade limitada de neuroses. Acho que escrever é lidar consigo e com sua história, sobretudo. Ou tentar lidar, posto que a memória é terreno movediço onde nem sempre conseguimos pisar firme. Contações, de Tiago D. Oliveira, porém, é um elevado, um viaduto: o poeta não somente está seguro do que conta como nos convida a transitar com segurança nesse seu mundo feito de ontens.

A epígrafe do itaparicano João Ubaldo Ribeiro dá o caminho: “Já estou, ou já cheguei à altura da vida em que tudo de bom era no meu tempo” acompanhada da do baiano Jorge Amado: “Tudo que é bom, tudo que é ruim, também termina por acabar”. Chamo os aclamados autores para dizer que não há nostalgia em Contações. Há revisita, retorno, recaminho. Nostalgia não.

Tiago retoma, neste livro, personagens da infância baiana que viveram consigo, muito de perto, para investigar em cada uma delas o porquê de permanecerem tão próximas. De elzinho, abreviação carinhosa de cruelzinho, menino sem mãe que se escondia da chuva sob marquises, sabemos através de loló, personagem que é narrada pelo poeta num poema próprio dela. O mesmo acontece com zé fim, que posfacia o poema arlinda de são pedro – uma melancólica narrativa sobre a mulher mais rica e menos amada do país – para depois ser narrado pelo poeta num poema com seu nome.

A riqueza de Contações, eu dizia, não está no que poderia haver de nostálgico. Continuo afirmando que a construção de Tiago é sólida, capaz de nos fazer atravessar certos de seus pântanos – e isso se demonstra na polifonia constante em alguns de seus poemas: não há um poeta, há um homem diluído em sombras, pois o sol da razão talvez desfizesse aquelas memórias pondo-lhes luz em cima. À sombra, portanto, caminhamos. Mas nunca incertos, apesar do que apregoa zé do rio, uma das personagens, ao reclamar que a cabeça / da gente é assim, falha / quando a gente mais  precisa, / diabo de memória.

O lirismo múltiplo e multiplicado da voz de Tiago permite que não haja um, mas vários eus-líricos – já que a memória, esse terreno pantanoso, não pertence a uma, mas a diversas pessoas. Por isso, podemos às vezes nos perguntarmos se quem fala é o poeta ou uma de suas personagens que a memória, turva, na confusão da lembrança, tornou a escrevente destes versos. Como em dia de fevereiro, onde em torno de um corpo que boia nas águas, o poema esclarece, confundindo: “enquanto as autoridades responsáveis / não chegavam para dar um fim ao espetáculo, / ambulantes vendiam bebidas e espetinhos. / crianças corriam, outros dançavam, / o sentido da vida, do que era elástico”.

Bahia, Itaparica, lugares onde nunca estive, mas que conheço através da poesia de Tiago, e que relembro como se tivesse lá vivido; inclusive é minha a pergunta que faz o poema: “toda dor é esquecida, / toda fome é suprimida, / todo morador é turista, / ou seria, / todo turista é morador?”. Não há, aqui, em momento algum, uma territorialidade excludente, mas a partir do que suponho ser viver num dos maiores rincões turísticos do país, me pergunto – ou é a poesia de Tiago que pergunta através de mim – se há quem seja de fato baiano na Bahia, Itaparicano em Itaparica, que não sejam os devoradores de fotos e paisagens.

A resposta à pergunta anterior é sim, há personagens para além das criadas pelos romancistas e poetas românticos; há pessoas para além das personagens de Jorge Amado e Tiago nos faz ter com elas, cara a cara, como num encontro adiado por muito tempo, mas que finalmente alcança o contato quase físico, quase real, deixando de ser memória para habitar a imaginação comum a quem tenha de quem se lembrar: “lizete / enlouqueceu / quando belo fugídio a abandonou no altar, / não antes de matá-lo / com 42 facadas no mesmo lugar”.

Há isso em poesia: quando os comos importam mais do que os quês. Mas se as experimentações com as vozes – que se misturam – nos dão oportunidade de contato com uma escrita inovadora e forte, há que se pensar que quando o poeta volta-se para si e os seus, ele procura nesse não apenas resolver-se, pois que a poesia confessional e memorialística pode ser desinteressante. Não: Tiago vai mais longe e busca de suas ruas, as nossas; de sua infância, a nossa; de suas personagens, as minhas e, certamente, as tuas.

São poemas ou retratos tirados por uma câmera antiga. Antiga? Se contarmos que dos 80 para cá a tecnologia tem nos deixado tontos, penso que sim: somos antigos os da década de 80. Já antigos. E compartilho deste sentimento de que se não resgatarmos o que nossos olhos viram e aquilo pelo que o coração bateu forte (e hoje bate com saudade, ainda mais quando as recordações afloram), seremos nós mesmos esquecidos. E não podemos esquecer nem deixar que esqueçam as pequenezas que nos fizeram gente, substância de nossa poesia.

Tiago, que experimenta com sua poesia desde o primeiro livro, teve Debaixo do Vazio, aquele monolito instigante, uma mostra de um poeta para fora, em contato com o mundo que o rodeia. Contações nos mostra o poeta voltado para dentro: da memória e da poesia – mas fazendo crescer a própria obra, que deixa agora de ter lado de dentro e lado de fora, e passa a ser o grande momento em que o poeta, novamente e ainda mais, se revela.

 

Marcelo Labes nasceu em Blumenau-SC, em 1984. É autor de Falações [EdiFurb, 2008], Porque sim não é resposta [Antítese, Hemisfério Sul, 2015], O filho da empregada [Antítese, Hemisfério Sul, 2016], Trapaça [Oito e Meio, 2016] e Enclave [Patuá, 2018]. Integrou a mostra Poesia Agora (edição carioca), em 2017. Tem poemas publicados em Mallarmagens, Livre Opinião – Ideias em Debate, Ruído Manifesto, Enfermaria 6 e Revista Lavoura. Edita a revista eletrônica ‘O poema do poeta’, onde publica originais manuscritos, esboços e rabiscos de poetas e ficcionistas.

 

 

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125ª Leva - 03/2018 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Leonardo Bachiega

 

Ilustração: Sadrie

 

construção geométrica

 

resistência
garante o povo
o que a imaginação entrega
ao ventre
depois de atirarem
a pedra
não é a dor
que se vê
mas os círculos
se
ampliarem
no meio
do
riacho

 

 

 

***

 

 

a poeira fragmenta a água

 

o primeiro desafio inclinar a cidade
uma chaminé perfura a casa como a consoante
de um coração que sabe os homens bons
são feitos de pólens
e as bordas ficam mais lentas com
as passarelas de mão
algum limbo decifrou o canto do sol
e as tristezas de uma cesta de cordão
que guarda os ossos da fala
dizendo é mais difícil desfiar
as relações dos homens

 

 

 

***

 

 

você ainda não leu os ossos

 

o chão é sério
formigas rasuram de tanto trabalhar
a cortina parece um fole
se o ar tem uma caixa harmônica
e um tórax
se você desalinhar a métrica
você diminuirá a saudade

 

 

 

***

 

 

 

o primeiro poeta disse não

 

não é de causar estranhamento
ou erosão nos olhos
ou febre no caviar das mãos
a oscilação das calçadas
desde sempre
a poesia foi apenas parte
de uma linguagem cotidiana
mas ela sabe de cor tudo
que existe dentro
isso porque ela diz uma coisa
e faz outra

 

 

 

***

 

 

 

auto relevo

 

entortei um dialeto engenhosamente
de muito inventar máquinas de fazer
planícies e calmarias
entulho suplicando entulho
conduz a água
esfarinhei tantos dedos
e os rochedos são as cartas do tempo
injetei desespero na veia
de uma sujeira cavando uma vala
que uma quase infância
descia a uma depressão

 

 

 

***

 

 

 

as lições das margens

 

não é fácil compreender a pedra
só os rios o fazem e quando
nasce de uma cidade
esquecer músicas quase
nas cidades areias
onde amar é uma pesquisa
arqueológica

 

Leonardo Bachiega é poeta, arquiteto e urbanista, pós – graduado em Barcelona. Nasceu em 1980 na cidade de São Paulo – Brasil, onde mora hoje, é autor de “Poema Número Um” (Chiado Ed. 2016), seu livro de estreia, também publicado em Portugal. O seu segundo livro “A cidade desabotoada”, está previsto para 2018. Tem poemas publicados nas revistas InComunidade e Literatura e Fechadura.

 

 

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125ª Leva - 03/2018 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

É relevante considerar que o trabalho de um artista ganha sentido mais vigoroso quando aparece conectado às questões de seu tempo. Na verdade, estamos a falar aqui da percepção que a arte evoca quando, imbuídos da consciência de seu lugar no mundo, aqueles que labutam com a cultura conseguem comunicar o conteúdo de seu ofício de modo a refletir aspectos comuns a toda uma coletividade. De toda sorte, falar ao mundo não pode ser uma mera atitude retórica, um jogo de cena a representar algo apenas em sua superfície e aparência. Requer propriedade para além de um discurso que reflita a vivência de quem o profere.

Mas dizer as coisas todas relatadas acima é apenas um indicativo para chegar a um ponto desejado, ou seja, abrir caminho para apresentar um projeto artístico que se converte em música da melhor qualidade. É dessa forma que a trajetória de uma banda como OQuadro pode ser referenciada. Para quem ainda não conhece, importa mencionar que estamos diante de um grupo com mais de 20 anos de estrada marcados, sobretudo, pelas vias do rap. E não é apenas isso. Esse rap praticado pelo grupo surgiu e se desenvolveu ao longo do tempo dentro de um contínuo processo de diálogo com outros ritmos, principalmente os de influência africana e latina.

A junção de Jef Rodriguez, Ricô, Victor Santana, Freeza, Jahgga, Rans, Dalua e Mangaio foi capaz de produzir um todo orgânico que hoje melhor define os caminhos do grupo. Com dois discos na bagagem, os baianos de OQuadro parecem ter encontrado um equilíbrio que, na verdade, demonstra ser um misto de independência, maturidade e engajamento. Some-se a isso o fato de que suas produções, além de expressarem o resultado de um cuidadoso e coletivo processo de criação, derivam de um amplo diálogo com parceiros valiosos na estrada musical.

Na entrevista que agora segue, Jef Rodriguez, Victor Santana e Ricô falam um pouco sobre os percursos da banda em meio a uma jornada que mescla raízes, pesquisa musical, identidade e visões de mundo. Também por aqui o foco está nos desdobramentos trazidos pelo segundo disco do grupo, Nêgo Roque, lançado em 2017. O álbum, que já foi alvo de uma matéria aqui na revista, representa todo um momento de escolhas, influências e percepções dos músicos em torno daquilo que hoje melhor define sua trajetória. Por essas e outras vias, nada mais apropriado do que conferir atenção às falas de tais artistas.

 

OQuadro / Foto: divulgação

 

DA – Nêgo Roque é um trabalho que mantém aceso todo um potencial discursivo que já se tornou uma marca forte de OQuadro. Suas letras são janelas de lucidez abertas para o mundo. O olhar que não acomoda coisas é o que faz permanecer vivos os caminhos da banda?

JEF RODRIGUEZ – Sim. Existe um filtro, um processo seletivo na confecção das letras e das músicas que vêm marcando nossa caminhada até então. Não queremos que essa seleção pareça um limite, pelo contrário, é uma escolha. A pretensão é ampliar ainda mais esse raio temático para além das questões sociais. Afinal, existem muitas coisas a serem ditas. Mas existe um fio condutor, um nível de relevância que não queremos perder de vista, tanto na forma quanto no conteúdo.

 

DA – Uma das características principais da banda é o modo como as criações são pensadas e executadas coletivamente. Isso é perceptível, sobretudo no novo álbum. Qual é o maior desafio de se chegar a um resultado orgânico quando há uma pluralidade de mentes convivendo?

VICTOR SANTANA – Na verdade, não tem muito desafio. Podemos até demorar para chegar no resultado que seja bom para todo mundo, que todos concordem, mas é fácil. Uns chegam com um rif, um arranjo de guitarra, baixo, teclado, bateria ou percussão e isso vai se juntando a letras ou à ideia de algum refrão já cantado; outros chegam com um tema ou ideia de letra. Vai se juntando tudo. Todo mundo muito atento à musicalidade tanto moderna quanto do próprio grupo. E chega a um resultado fácil. O maior desafio é compor. O rif pronto, o beat pronto, a letra pronta, é só juntar. Agradar a todos também não é muito difícil. Esse disco novo foi fácil de ser feito. A gente ficou só dez dias juntos, sendo que compomos dezessete músicas nesse período. Nunca tínhamos ficado reunidos antes para poder criar essas músicas. Compomos tudo quase que do zero.

 

DA – O novo disco traz um mergulho numa perspectiva, digamos assim, mais voltada para o experimental. De que modo a escolha dos arranjos refletiu essa aposta criativa? 

RICÔ – Acho que OQuadro sempre foi experimental. Teve um momento em que criamos até um subtítulo pra gente, que era o “clube de música experimental”, pois já flertávamos com muitas outras coisas em termos de sonoridades, referências de artes plásticas, cinema etc. Então, estávamos sempre antenados com muita coisa, com estilos musicais que não fossem apenas o rap, até pra poder fazer um rap diferente. Ao mesmo tempo, tudo fluía muito natural e espontâneo. Às vezes, eu chegava com uma base pronta, daí outro complementava. Nesse último disco, acabei chegando com mais força no sentido de preparar bem as coisas antes, de vir com arranjos mais prontos, mas apontando pra questão da tecnologia que a gente não teve no primeiro. Na verdade, a gente já queria ter, mas, por algum motivo, escolhas e recursos, naquele momento ficamos mais no artesanal. Depois decidimos flertar mesmo com o eletrônico de forma mais sincera do que acreditamos, ter essas texturas, buscar essa coisa dos sintetizadores, das frequências ultra graves, enfim, e usar o rock como atitude mais do que distorção. Tem distorção no disco, mas também há várias frequências que pra gente são rock. E a postura, o nome do disco, são várias coisas que levam pra essa transgressão. Ao mesmo tempo, eu mirei muito, junto com o coletivo, a ideia de tentar um pop com conceito, inteligência. Dá pra fazer coisas sem precisar ser apelativo, fazer a galera, do mesmo jeito, entender e cantar melhor. Tivemos mais cuidado com as frases também no sentido de não ter muitos excessos, mas sim falar o que é preciso ser dito, pois às vezes falamos muito e não dizemos muita coisa, como vemos por aí. A gente tentou ficar focado na escrita e numa linguagem bem simples para que todo mundo pudesse entender o que estávamos falando. O primeiro disco tinha coisas assim, mas era muito mais complexo, mais denso, outras vivências também. Então, os arranjos refletiram justamente essa nova fase de outros contatos, outras experiências com outras músicas e pessoas. Eu, aqui mesmo no Rio, com Marcelo Yuka, vi que outros horizontes se abriram pra mim. Comecei a produzir coisas com ele e isso me deu uma abertura muito maior de música, melodia. O próprio Yuka me orientou muito pra gente, no trabalho com a banda, ir no caminho da melodia, das harmonias, da música, enfim, e não se preocupar se é rap ou se não é, sabe? Acho que vem muito daí.

 

DA – É perceptível nesse segundo disco da banda uma ampliação dos laços que remetem à matriz africana. Num tempo em que a temática identitária do povo negro vem sendo ressignificada e intensamente debatida, o que é relevante destacar?

JEF RODRIGUEZ – Em relação aos ritmos, posso dizer que sempre esteve presente desde o primeiro álbum em 2012. Em Nêgo Roque isso se reacendeu numa perspectiva mais contemporânea pelo acréscimo de elementos eletrônicos, além da conexão com outras células que agora tivemos a oportunidade de expandir. Mas o que gostaríamos de destacar como referência em relação à matriz africana é a questão humana. Existe um genocídio da juventude negra acontecendo nas periferias do Brasil e do mundo. Questões históricas que ainda não foram resolvidas e parecem distantes de uma resolução razoável. Estamos tocando no assunto de maneira direta sem medo de soar clichê.

 

OQuadro em show no Circo Voador, no Rio de Janeiro / Foto: Roncca

 

DA – O rap tem algum compromisso?

VICTOR SANTANA – O rap já teve algum compromisso consigo mesmo. Na verdade, o rap começa ali no Bronx, em Nova Iorque, sendo a voz daquele povo esquecido. Num lugar que era um super gueto, quase uma zona de guerra, com assassinatos e muitos incêndios. Se não me engano, em um ano aconteceram mais de doze mil incêndios no Bronx. Sabe o que é isso? Um bairro inteiro queimando, vários focos e essas pessoas pobres lá se lascando. Então, o rap começa primeiro como uma festa daquelas pessoas e, na sequência, torna-se um jeito de se falar sobre o assunto, já que eles tinham discotecagens e também o microfone na mão. Faziam rimas falando sobre a coisa. Aí começa o rap. Surge um compromisso de resgate das origens com artistas como Afrika Bambaataa, que começa a falar mais sobre África através da Zulu Nation. No Brasil, já se começa ali a falar sobre Zumbi, nosso herói nacional negro. Inicia aí esse caráter político. Um compromisso que fala sobre nós, pretos, o modo como vivemos e tal. Esse compromisso vem com certas regras. Todo mundo quer trabalhar, ganhar dinheiro, viver disso. No Brasil, tem uma máxima de que as coisas que fazem sucesso não dão certo, pois entraram na mídia. Nos Estados Unidos, o pessoal quer fazer sucesso e ganhar dinheiro. O compromisso passa a ser a questão de se ter dinheiro e poder sustentar a família. São vários compromissos e eles são: sobreviver, ganhar dinheiro, fazer a coisa pelo certo e protestar sobre coisas ruins que acontecem ao negro (a politização, o crime policial). O compromisso talvez seja o jornalismo em torno dessas coisas ruins e boas que acontecem no gueto contra o povo negro, chamar atenção sobre estereótipos. É abrir os olhos da população sobre as mazelas que existem. Agora, compromisso em manter-se pobre, em não fazer sucesso, não é compromisso. Os Racionais MC’s, por exemplo, tiveram como pauta nunca aparecer na Rede Globo e até hoje eles não apareceram lá enquanto Racionais MC’s, nunca tiveram música na novela, nem se apresentaram no Caldeirão do Huck e no Faustão. Muita gente entrou nessa coisa de imitar os Racionais, dizendo que quem entra na Globo é vendido, é ruim, mau, playboy etc. Então, confunde-se muito a coisa toda. O Edi Rock, que é um dos integrantes dos Racionais, foi ao Faustão mostrar um trabalho solo certa vez, teve até uma reportagem e tal. Isso não impede deles serem amigos e estarem juntos apresentando o trabalho do grupo. Você vê que Criolo vai à Globo, Gabriel Pensador também (contemporâneo dos Racionais MC’s), e nem por isso tira o mérito do conteúdo de contestação. Enfim, o compromisso é consigo mesmo, fazer seu trabalho, ganhar seu dinheiro e falar sobre as coisas que incomodam. O rap tem algum compromisso, claro, mas é mais uma condição hedonista coletiva, se é que é possível dizer assim (risos), do que um conjunto de regras que te impedem. Não, elas não te impedem, te motivam.

 

DA – Como fazer arte num país que parece cada vez mais desintegrado politicamente?

JEF RODRIGUEZ – Penso que essa desintegração sempre existiu, a novidade em relação a isso é a consciência da mesma. Em momentos de crise econômica, o primeiro corte que o cidadão brasileiro faz é no consumo de cultura. Não fomos educados a entender as manifestações artísticas/culturais como elemento fundamental no processo educativo, no exercício intelectual, na construção de referências para um jovem em formação. A retirada das disciplinas como sociologia e filosofia da grade curricular obrigatória só confirma o tipo de cidadão que se espera formar no modelo educacional vigente. No caso específico do OQuadro, fazer a música que fazemos e como a fazemos já é uma luta política por natureza. Por não ser um rap convencional, por ser do sul da Bahia, por não fazer parte de nenhum grupo de amigos do meio. É um caminho árduo, mas o resultado tem sido sincero.

 

DA – Vocês têm ideia de qual lugar ocupam no cenário contemporâneo da música independente?

RICÔ – Acho que a gente ocupa um espaço interessante na música, e flerta com muita coisa moderna que vemos não só no Brasil, mas no mundo mesmo, sendo modesto. Pelo que já andamos pelo mundo, em alguns festivais, pequenos e grandes, estávamos sempre sendo colocados num lance mais moderno, experimental. E sempre as pessoas descrevem nosso trabalho, pelo menos no olhar de fora, como uma coisa de vanguarda. Uns acham que é um rock de vanguarda; outros acham que é um rap de vanguarda. Isso é bom porque mostra várias facetas nossas. No Brasil, tem muita gente interessante, mas, misturando o som do jeito que fazemos, na base do rap com várias outras coisas, não há muitos artistas. Infelizmente, o reconhecimento ainda não aparece em números, palpável, em termos de público Brasil afora também. Temos a consciência da importância daquilo que estamos fazendo. Não sei se agora, mas, de repente, num futuro próximo seremos mais reconhecidos, enfim. Mas é isso, estamos trabalhando e seguindo esse mesmo objetivo.

 

DA – As plataformas digitais modificaram profundamente o comportamento da indústria fonográfica. Para os artistas independentes, isso representou a necessidade de uma consolidação de espaços próprios, dando-lhes certa autonomia na produção e divulgação de conteúdos. Como prosseguir nesses verdadeiros lugares de resistência?

VICTOR SANTANA – As gravadoras perderam o poder, inclusive sobre os artistas. O trabalho para o artista fica mais pessoal mesmo. Na verdade, tem que procurar divulgar seu trabalho usando as plataformas digitais, que são uma facilidade para uns e extremamente difíceis para outros. Acho que você tem que ter assunto para ser atual ou uma relevância artística muito peculiar, algo que chame atenção de todo mundo. Na época das gravadoras, eles meio que empurravam isso, pagavam o tal do jabá, botavam para tocar nas rádios, no Faustão etc. Ainda tem isso dos produtores que pegam a grana e pagam rádios para fazerem divulgação, mas, em termos de plataforma digital, ou você tem um conteúdo muito foda ou tem que estar ligado nas tendências e tal. Tem uma coisa que acontece, uma pauta justa, muito séria, que é a dos músicos LGBT, e esses músicos, hoje em dia, estão em ascensão, não necessariamente pela qualidade extrema do seu som, mas pela pauta, pelo assunto. Então, às vezes, o cara não é um bom músico, cantor ou rapper, mas a pauta está em voga. Tem a coisa do feminismo mesmo, que é necessária, mas tá acontecendo uma, não sei se posso dizer, supervalorização, algo que está além da qualidade artística. Os youtubers, por exemplo, têm textos engraçados, pessoas que falam coisas legais, de acordo com certa juventude, e aí já funcionam, ganham dinheiro logo no próprio Youtube. Um super vídeo de um rapper da moda já faz dinheiro logo no Youtube antes mesmo do artista sair pra fazer show. Então, as pessoas estão se preocupando com esses conteúdos e, de repente, esquecendo o conteúdo real de sua arte. Para quem está preocupado só com a arte é difícil se adequar a umas coisas assim, apenas pela “modinha”. É uma faca de dois gumes. Por um lado, é independência; por outro, é estar atento às novas plataformas. Não dá para ter certeza sobre nada. Você pode fazer um clipe bobo e virar uma coisa assistida por quinhentos milhões de pessoas. Ao mesmo tempo, outras pessoas nem atingem essa visualização, sendo que fazem um trabalho com a qualidade bem boa.

 

OQuadro em show na Concha Acústica de Salvador / Foto: André Fofano

 

DA – Desde o primeiro disco, vocês sempre se aproximaram de parceiros importantes, principalmente no processo de produção. Que tipo de buscas marcam esses diálogos com outros artistas?

VICTOR SANTANA – No primeiro disco, a gente procurou Buguinha Dub porque era um cara mais acessível e que tinha trabalhado com bandas que eram referência pra gente, como Nação Zumbi, Mundo Livre S/A. Tinha a proposta do dub, que é um estilo de som jamaicano, psicodélico e tal, que nem ficou tão presente assim no disco como eu, por exemplo, imaginava, mas ficou o peso do dub com os baixos e bateria pra frente, fortes. Gravamos ele num estúdio que era bom e que atendia a nossas necessidades através do projeto da Vivo. Por acaso, foi o estúdio de Guilherme Arantes e a gente não contava com esse artista lá, mas aí ele apareceu e participou do disco. Ainda nesse álbum, tivemos Lurdez da Luz, que é uma rapper de São Paulo, e que trouxe ideias para fazer um refrão ou parte de música. No primeiro disco, não houve uma busca, as coisas foram acontecendo naturalmente. A mix foi de Buguinha Dub e a master de Gustavo Lenza, que foi quem trabalhou com Chico Science e Nação Zumbi, no Afrociberdelia, um disco de bastante referência pra gente. Para o Nêgo Roque chamamos Basa para produzir porque ele é o produtor de um grande disco de rap do Brasil, que é o Babylon By Gus, de Black Alien. Já tínhamos trabalhado juntos com esse produtor num evento em Itacaré, o Conexão Vivo. A gente pensa qual artista pode contribuir com o trabalho. Nunca é pelo nome, mas pelo que pode ser aproveitado. É dizer “nessa música caberia uma rima de Snoopy Dogg” sem que se tivesse acesso a Snoopy Dogg naquele momento. Foi o que aconteceu, por exemplo, com Indee Styla, que se tornou nossa amiga, com os caras do Attoxxá, que também estiveram junto conosco. A gente pensou em nomes pra atingir certas necessidades nossas. Poderia ter sido Pablo Vittar para um agudo, Baco e Vandall numa música y, porque o beat é um trap que combina com esses dois caras. Poderia ter sido Pitty em Nêgo Roque para fazer o refrão, ou seja, uma mulher que dá uma outra tônica, BNegão, ou Yuka falando alguma coisa. E a gente sempre pensando na música e não no artista. Com quem temos acesso, obviamente entra com mais facilidade. Pensamos em muita gente pra produzir até chegar em Rafa Dias, que era quem estava mais próximo da gente e entendia nosso conceito muito mais facilmente.

 

DA – De que modo uma banda que se originou em Ilhéus, no interior da Bahia, hoje, tendo alcançado alguma projeção, olha para suas raízes?

JEF RODRIGUEZ – Ilhéus é e sempre será o berço d’OQuadro, temos um cordão umbilical com vínculo eterno. Mas não me identifico com a cidade enquanto instituição, ela não foi feita para pessoas como nós. Vivemos aí tempos de um amor não correspondido. Testemunhamos desde sempre gestões que se apropriam de uma cidade que é projetada pela cultura, mas não devolvem a esse setor o mínimo de investimento que possa fomentar o nascimento de novos Jorges. Quem faz arte em Ilhéus, faz por amor, sem contar com incentivos ou iniciativas que projetem trabalhos autorais com o mínimo de dignidade. Pelo contrário, desenvolvem em nós um complexo de vira-lata, onde sentimos a obrigação de ser menor diante de qualquer manifestação artística que venha da capital ou de outro estado, o que é um exercício prático de autoestima baixa, de autodestruição. Nesse sentido, prefiro olhar para Ilhéus pelos vínculos com nossa família e amigos que nos incentivam sempre.

 

DA – Hoje, com mais de 20 anos de estrada, é possível dizer que a banda atingiu uma maturidade musical desejada?

RICÔ – Acho que a gente atingiu uma maturidade enquanto também pessoas, seres humanos, e nas questões das vivências, tanto pessoais quanto profissionais, pois a gente fica em lugares diferentes, vivendo coisas diferentes, e quando junta isso tudo, vem essa maturidade também da relação com outras pessoas, outros músicos e artistas. Isso influi totalmente na produção do som, do disco. Então, Nêgo Roque mesmo teve muita coisa das vivências que eu tive aqui no Rio com outros artistas, outras experiências de som, de imagem, de tudo, assim como a galera também teve. Quando nos juntamos, estávamos cheios de referências. Nesse disco, conseguimos expressar melhor o que queríamos, coisas tecnológicas. Então, tivemos todo o acesso possível pra construir isso. Não tivemos tanta limitação pra conseguir as coisas, pois contamos com pessoas trabalhando conosco para que conseguíssemos tirar o som da melhor maneira. Construímos coisas do jeito que a gente pensava, com bem mais facilidade, experimentalismo, direcionamento. Então, esse é um disco com certeza bem maduro. Claro que a arte sempre te dá a possibilidade de fazer mais, depois você reflete sobre o que poderia ter feito, mas têm sempre ene possibilidades, pois a gente não termina um disco, a gente desiste dele, senão a coisa vai se transformando e não tem fim. Partindo desse princípio, foi uma desistência madura (risos).

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

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125ª Leva - 03/2018 Destaques Olhares

Olhares

Delicados percursos de uma paisagem humana

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Sadrie

 

Cada vez que um artista descortina um véu de coisas ante nossos olhos, é como se outros tantos mundos surgissem com toda sua intraduzível aparência. Mas de onde partem essas novas esferas da existência em meio a uma carga pungente de invenção? A busca pela palavra certa e que melhor define as sensações pode apontar para alguma espécie de reinvenção, ainda mais se considerarmos que a novidade, debaixo do sol que nos guarnece e acalenta, pode não passar de uma quimera.

Eis que duas porções que mais parecem antagônicas teimam em habitar o mesmo espaço abstrato. De um lado, a visão onírica da vida a pulsar desejos e projeções íntimos; do outro, a concretude abraçada ao olhar que considera a porção racional uma ferramenta de constante inquietação. Parece ser possível ter em conta a coexistência de tais dualidades quando observamos detidamente o trabalho artístico de um alguém como Sadrie. Pelo modo como a artista apreende as epifanias mundanas, vemos brotar certo equilíbrio entre o intangível e o corpóreo.

Nas ilustrações de Sadrie, delineiam-se contornos de uma complexa paisagem humana, toda ela entrevendo rituais do corpo e da mente. A essa altura, convém ressaltar o modo como os desdobramentos do feminino assumem uma condição de destaque. A partir desse enquadramento, a artista direciona nossos olhares para o modo como a representação da mulher serve de guia para se perceber a pulsação de um mundo feito tanto de traços sublimes quanto de revelações incômodas. Seja sob a forma da contemplação do belo ou na disposição de um viés crítico, as nuances femininas prenunciam aqui um universo no qual podemos também vislumbrar uma noção de unidade a achar abrigo ideal no reino da poesia.  Assim sendo, à figura da mulher, guardiã das dimensões que nos são mostradas nesse tipo de arte, é confiada a missão de unificar todo e qualquer sentimento, independente de quaisquer denominações que insistam em classificar pessoas.

 

Ilustração: Sadrie

 

Sadrie é, na verdade, a persona artística de Sarah Adriaenssens, uma brasileira que atualmente mora em Antuérpia, na Bélgica. Segundo ela nos confessa, um dos intuitos maiores de sua arte é poder contar histórias através das imagens criadas. Além de se dedicar a ilustrações, a artista também trabalha com quadrinhos e animações. Sua arte também está associada a uma busca pelas raízes que remontam a um resgate pessoal da identidade brasileira. Algumas de suas influências derivam de nomes do quilate de Carybé, Lygia Clark, Louise Bourgeois e Ana Mendieta.

Sadrie evidencia a presença marcante das cores como se estas provocassem um efeito de ressignificar objetos, corpos e lugares. Diante da constatação de que o mundo oferta narrativas nem sempre tão carregadas de leveza, a artista parece subverter tamanha sensação que algum desalento pode nos causar quando engendra temas pueris em alguns de seus trabalhos. Em lugar de considerar como fuga, podemos conferir a tal atitude uma tentativa de mostrar que a serenidade é uma válida maneira de se conceber as coisas que nos cercam. De resto, agigantam-se visões em torno da vida, esta mesma que pode ser tomada em plenitude por marcar em nós a valiosa imprevisibilidade das pequenas coisas e gestos.

 

Ilustração: Sadrie

 

* As ilustrações de Sadrie são parte integrante da galeria e dos textos da 125ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

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124ª Leva - 02/2018 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guillherme Preger

 

Visages, Villages. França. 2017.  

 

 

É fácil dizer que Visages, Villages (2017) celebra a arte do encontro. No entanto, o encontro nunca é uma tarefa fácil.

O filme de Agnes Varda e JR começa com uma série de desencontros banais entre os dois e termina com o dramático desencontro entre os diretores e o cineasta Jean-Luc Godard. Entre esses desencontros, ocorre o encontro dos diretores, como a dizer que os encontros são mais improváveis do que os desencontros.

Todo encontro é uma reunião entre afinidades e contrastes. Este se dá entre uma senhora de 88 anos e um jovem de 33 anos. Ambos são artistas da imagem. E a imagem que o espectador vê é justamente a imagem do encontro que coalesce formada pela liga dos afetos comuns, mas também por tensões de diferenças e disparidades. O jogo de cena é o mover dessas polarizações entre aproximações e distanciamentos.

 

Cena de “Visages, Villages” / Foto: divulgação

 

A começar, como diz o título, por um encontro de rostos e cidades, em que fotografar as faces de seus habitantes é uma oportunidade para falar e filmar as cidades ou os lugares. À primeira vista, Agnes Varda é a cineasta e documentarista das pequenas vilas francesas e de suas praias, como atesta sua já longa obra, enquanto JR é o fotógrafo e grafiteiro dos rostos de pessoas comuns expostos na grandeza monumental de suas colagens nos muros das cidades que visita.

Mas, no filme, JR é o motorista do caminhão que funciona como uma câmera rodoviária, enquanto Agnes Varda está na mesma viagem pela memória e pelas recordações afetivas, isto é, pelos seus traços e suas fixações. Trata-se, portanto, também de retratar as cidades e de viajar pelos rostos.

 

Agnes Varda e JR / Foto: divulgação

 

Mas há também outros opostos que se encontram nesse curso de imagens: o contraste entre permanência e impermanência. A leveza nomádica do registro de JR se dá pelo caráter efêmero e perecível de suas fotografias, coladas analogicamente nos muros caiados e abandonados das vilas e das cidades, enquanto Varda procura no registro fotográfico a resistência da memória, como o rosto translúcido de Cleo, cuja beleza deve superar a passagem do tempo. A todo o momento, a diretora de Cleo das 5 às 7 recupera uma imagem do passado que abre uma trincheira contra a liquidez dos tempos modernos.

Há, pelo menos, duas políticas de imagens que se confrontam nesse encontro cinematográfico. A herança esquerdista da diretora se revela na elegia sobre a dignidade do trabalho numa época em que o trabalho material e corporal supostamente regride frente à hegemonia digital e financeira do capital. E essa elegia adquire um viés feminista, seja na resistência da senhora que é a última moradora de uma vila de operários abandonada ou no testemunho oral e fotográfico das mulheres dos trabalhadores de carga. Essa relação entre feminismo e trabalho é uma das contribuições políticas mais relevantes da obra de Agnes Varda, ela própria mulher e operária da imagem.  A uma das mulheres que diz estar sempre atrás de seu marido, Agnes observa que ela não está atrás e sim ao lado. É nesse trabalho de deslocamento que sua arte propõe uma interrupção da incessante desmobilização forçada pelos ritmos acelerados da economia financeira.

 

Cena de “Visages, Villages” / Foto: divulgação

 

A política de JR, no entanto, é menos definida. Seu modelo de trabalho é o do empreendedor que convoca os funcionários de sua própria empresa a realizar a montagem de suas colagens, a qual ele supervisiona. O trabalho poético de JR é influenciado pelo surrealismo, pelo situacionismo e pela arte urbana do grafite. JR pertence a um grupo de artistas que deseja romper as barreiras e limites artificiais entre arte e vida. Em sua própria existência, ou em seu trabalho, ninguém realmente consegue traçar uma fronteira onde está a vida e onde está a arte. A obra de arte é uma forma de vida. Por isso seu evidente desapego pela permanência das imagens. A mensagem de JR é a de não resistir à fatalidade da entropia, mas aliar-se a ela. Por isso, o enorme labor em colar a imagem na ruína abandonada na praia é perdido em apenas uma manhã da maré marítima sem ser lamentado. Há antes de se perceber a beleza inerente de sua efemeridade, que é a da própria vida.

 

Agnes Varda e JR / Foto: divulgação

 

Num diálogo decisivo, JR pergunta a Varda sobre se ela, com seus 88 anos, tem medo da morte. É como se o filme transmitisse um recado freudiano: ao final, serão a entropia e a pulsão de morte as grandes vencedoras. A vida é apenas um desvio, um alongamento nomádico, um retardamento a essa fatalidade. Mas como Freud mesmo comparou a pulsão psíquica à montagem cinematográfica, temos em Visages, Villages um encontro de afinidades entre a montagem cinematográfica (afinal realizada apenas por Agnes) e a colagem gráfica, realizada por JR e sua equipe. Colagem e montagem são formas do heterogêneo e dos contrastes. E desses contrastes, o encontro não pode suprimir ou dissimular os atritos, ou mesmo os confrontos.

Ao final, o filme é aceitação do que não pode ser resolvido por nenhum acordo, por nenhuma empatia dos afetos, ou mesmo pela amizade. O encontro, para ser justo, precisa respeitar aquilo que resiste a se conciliar em seu âmbito. A marca da memória é justamente a desses heterogêneos que se recusam a se dissolver. A arte é, com certeza, uma forma de vida, mas que não pode se confundir com a trivialidade da entropia. O modo de existência da arte é a sua resistência contra a banalidade e contra o “mais provável”. Os encontros que realmente permanecem são os cruzamentos desses desvios raros e imprevistos que chamamos de acontecimentos.

 


 

 

Guilherme Preger (1966) é escritor e engenheiro, natural do Rio de Janeiro. É autor de Capoeiragem (7Letras, 2003) e Extrema lírica (Oito e Meio, 2014). É um dos organizadores do Clube da Leitura. Participou como autor e editor das quatro coletâneas do coletivo. É mestre em Literatura Brasileira e doutorando em Teoria Literária pela UERJ, com pesquisa sobre as relações entre ciência e literatura.

 

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124ª Leva - 02/2018 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Flavio Caamaña

 

Foto: Tati Motta

 

DIFERIR NA DURAÇÃO

 

o mar um dia me descobriu mas eu nunca descobri o mar
estávamos apartados por gírias por orçamentos
estávamos desunidos e desgrudados
éramos divididos por muros e fileiras
de campos minados e arames farpados
éramos dois desossados
esparadrapo sobre esparadrapo
eu e o mar

não havia sequelas visíveis não havia sístoles
não havia o amor amortecendo quedas
não havia sinais de trajetos ou de dejetos
no percurso de um alvo à salvo
dos atiradores de palavras
condicionados e incontinentes
treinados para enganar
treinados para fechar a geral

pode ser que um dia alguém conte essa história
e o mar desabe sobre as minhas costas
o mar sancionado e em estado de ressalva
o mar abraçado de burocracias
abocanhado até a ponta do último cais

e o mar nunca se descobre de igual pra igual
algo sempre se perde na hora da desova
algo de sobrenatural e aquela coisa e tal
eu e o mar aferidos na pressão
máquina contra carne
vontade sem vontade
verdade sem verdade
eu e o mar

 

 

 

***

 

 

SERVIL

 

se eu estou no fogo
e sou esta lenha

perdido no mato
um cachorro à solta

minha bagunça não cabe
nos bagulhos do doido

minha vida renega
o poema que afago

 

 

 

***

 

 

 

CURTO PRAZO

 

não é pela força que se mede um salto
cumpre-se a missão do corpo no espaço
desforram no ar as hélices parasitas
cumpre-se o que é dado e desmentido

não é pelo salto que se mede a força
o que perfura a sangue e violência
o que se desdobra de lúcida veemência
e um apurado silêncio de permuta

de tudo é a surpresa que se infiltra
de tudo a boca compra o alto risco
e a validade perde a justa forma
e a forma encontra um voo frágil

não é pelo voo que se traça um salto
e o leopardo morde-se na fissura
a mais primitiva forma de violência
os olhos não capturam na aterrisagem

 

 

 

***

 

 

 

PARTILHA

 

talvez ele seja abençoado por conhecer
a índole de seus carrascos/ talvez apenas
por falar uma língua e entender que quando
coçam os sacos não autorizam um perdão

que eu não consigo esquecer que ainda existe
o amor/ enxame de bolinações cravadas
que eu não consigo esquecer a luz acendendo
talvez ele seja abençoado por conhecer seus

carrascos/ trapos luxuosos beiços molhados
mendicantes de um beijo fuçando a garra
melindrosa de deus/ um feiticeiro e vidente

apunhalado pela lábia sapiente de odara ilê
pela caçada penitente/ um reles na trapaça
sua vida é um lamber de fogo esmaecendo

 

 

 

***

 

 

 

ORIDES

 

elevar o cavalo
a uma estatura
de ave

o tijolo
e o seu peso:
libélula

pelas rugas
fundas da face
florir a seda

os dedos
rígidos e murchos
despetalar

a beleza
atravessada:
espinho na cereja

 

 

 

***

 

 

 

DO QUE NÃO DISSE

 

 

arrependo-me das palavras que não disse
das latas que não senti o cheiro
da bebida diluindo-se nas poças de lama
aquecida pelo sol de sertões apodrecidos
na carcaça de secas esfomeando a rolinha
isso é alento isso é conversa
embrenhando-me no fumo amargo
de um amor letárgico
graveto no meio da sinuosa estrada
onde pneus sapeiam

goza se o veneno que vem do poema desvia-se da boca
e as palavras não sinalizam um retorno
nem despojo sei que cada frase não dita surrupia o ovo
de uma coisa que poderia ser grandiosa
e se recolheu num betume se esfarelou na estranheza
de antiquário e santo homem
de palavras eternas e perebas faltando
com a educação com o zelo cutâneo
pregado na apostasia

 

Flavio Caamaña é um trabalhador braçal e poeta nascido em Tamboril, desertão do Ceará. Atualmente residindo em Fortaleza, obteve primeiro lugar no XVI Prêmio Estadual Ideal Clube De Literatura, participou da coletânea “Golpe” e revistas eletrônicas. É autor de “Aquedutos” (Patuá, 2016).

 

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124ª Leva - 02/2018 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Elis Matos

 

Qual sentindo poético terá a vida para alguém cujo existir exige re-existir, a todo o momento? Resistir ao ódio, ao preconceito, às múltiplas violências, e, por uma espécie de catarse, encher o mundo com beleza, movimento e poesia. Com quais cores tinge-se a face dessa artista, que joga com a sua não-existência, com o seu não-lugar no universo das representações binárias?  De quantas performances se constitui o cotidiano dessa poeta multifacetada? Entender o artista como este ‘ser no mundo’, que reflete, dialoga e problematiza a realidade, nos possibilita definir o fazer artístico, enquanto ferramenta social. No caso da poesia, por mais intuitivo que seja o ato de escrever, nesta atividade estão imbricadas todas as questões que permeiam a existência concreta daquele que escreve.

Atraídos por seus escritos, começamos a entrevistar JeisiEkê de Lundu. Mas, para nossa surpresa, nos deparamos com um delírio de artista. Uma angústia criativa capaz de animar mil corpos e deslumbrar todos os olhares de quem topar pela frente. É multi, tem mil facetas, não há como colocá-la no singular. JeisiEkê de Lundu é plural. Artista visual, performer, poeta, costureira, artesã e criatura de si mesma, a monxtra não-binária nascida na fronteira de Minas\Bahia, vive em Salvador, onde realiza performances nas ruas, em festivais de música eletrônica e na Terça Mais Estranha do Mundo, em que atua como Dramaqueen, e em saraus poéticos. Estuda Artes na UFBA, já produziu desde saraus a exposições, viradas culturais e shows espetáculos. Atualmente, flerta com o cinema e com o design de joias. Com poemas publicados na coletânea online Profundanças 2, JeisiEkê de Lundu fala de suas existências, enquanto artista transexual fora da representação binária homem/mulher, por meio do seus escritos e acaba por realizar uma militância poética cujos efeitos já se notam.

 

JeisiEkê de Lundu /Foto: Levi Mendes

 

DA – No processo criativo da escrita, é profunda a relação entre a geografia interior e o local onde nascemos. Em seu poema intitulado Enquanto meus pés balançam, publicado na coletânea Profundanças 2, você faz uma analogia entre seu local de nascimento “fronteira entre Bahia e Mina Gerais” e o seu “não-lugar” entre as categorias de gênero configuradas unicamente a partir do binarismo homem/mulher. Discorra a respeito do modo como ocorrem as relações entre as suas vivências e o processo criativo em sua poesia.

JeisiEkê de Lundu – Para pensar no que você chama de geografia interior busco o deslocamento. Nasci em uma família cristã tradicional, fui educada dentro desses preceitos, esse corpo que desde a primeira infância já percebe que não faz parte daquele território. Dentro de si cresce uma imensa vontade de buscar novas experiências para desvendar o seu interior, essa viagem emancipatória, não só de lugar – tornando o não-lugar um habitat – mas também de identidade, vagar por territórios outros me permitiu entender a transitoriedade, que é como enxergo tanto minha criação, quanto minha identidade de gênero. E a escrita encontra o lugar de cartografia, como alfinetes em um mapa na parede, marcando tanto o tempo-espaço, quanto o corpo e a experiência. Hoje, sou artista visual, trabalho com a imagem, com a forma, as linhas e a cor, e é interessante que até pouco tempo atrás eu tinha a escrita como uma ferramenta de registro do tempo e das minhas relações. Colocava esses escritos na gaveta, guardava esses restos de papel, meados de letras e encontros de palavras para futuras meditações. No rio dos encontros fui despertada.

 

DA – Profundanças 2, obra colaborativa lançada em plataforma online pela Voo Audiovisual, em 2017, é descrita por sua organizadora, a professora mestra e performer Daniela Galdino, como “resultado de uma desobediência à dinâmica do mercado literário marcada pela hierarquia”. Nesse sentido, qual a sua opinião acerca do significado desta coletânea para o contexto do sul baiano? E, em maior escala, no contexto brasileiro atual? Fazer parte do conjunto de dezesseis escritoras inéditas (em sua maioria) e dezenove fotógrafes, oriundas de diversas cidades baianas e de outros estados brasileiros, que compõe esta coletânea, gerou frutos em seu fazer criativo e na sua visão de si, enquanto escritora?

JeisiEkê de Lundu – É sempre dito pela mídia que nós – pessoas que vivem nesse ‘continente’ que chamamos Brasil – lemos muito pouco. Mas o que nunca é colocado em reflexão é o acesso à produção literária. Onde ela se concentra? Quem são os protagonistas da produção e difusão? Quem tem lugar de destaque nas feiras literárias? É uma resposta difícil? Eu diria que não, já que ela é a mesma se realocarmos a pergunta para outros campos da arte e da própria construção da sociedade. Uma pesquisa coordenada pela professora Regina Dalcastagnè, da Universidade de Brasília (UnB), revela esses dados: os autores, na maioria, são brancos (93,9%), homens (72,7%), moram no Rio de Janeiro e em São Paulo (47,3% e 21,2%). O que vivemos na arte de escrever está ligado a quem pode falar – escrever nesse caso – contar sua história e se fazer visível nessa mata fechada e espinhosa que é a literatura. Eu passava por um período bem difícil, quando recebi uma mensagem de Daniela Galdino me convidando para fazer parte da antologia.  De início, me questionei se eu escrevia. Rabisco frases há muito tempo, mas contava minhas histórias para eu mesma, sempre enxerguei como diário, cartografias que guardava em uma gaveta. Selecionei alguns textos que estavam mais próximos e enviei. Não sei bem ao certo o que passou na cabeça daquela criatura, me selecionou e hoje estou publicada junto com Lanmi Carolina, minha irmã travesti que fez fotografias incríveis para a mesma coletânea. Perceber que o que eu escrevia podia dialogar com outras pessoas, que aquelas palavras poderiam servir de flecha, chamar para reflexão foi um dos primeiros impactos que tive com a antologia. Encontrar escritoras, perceber pessoas próximas abrindo suas gavetas e revelando seus escritos em recitais ou nas redes sociais, mostra que já existe fruto desse trabalho nessas ações. Hoje escrevo mais do que antes, entendo melhor o que é essa visceralidade, que vem e só nos deixa quieta quando o papel está borrado de tinta. Escrevo pra respirar, para que as palavras não me sufoquem, para que um suspiro novo venha. Não sou a primeira pessoa trans a publicar, tiveram várias outras, não é algo novo, mas ainda existe pouca visibilidade. Profundanças 2 causou muita coisa dentro de mim e sei que o mesmo aconteceu com as várias escritoras e fotografes, que publicaram junto comigo. Reunir escritoras, em sua maioria nordestinas, que não têm a escrita como profissão, mas que têm potência e existência como discurso é uma desobediência, como fala a própria organizadora. Profundanças é um ato de guerrilha e na mão da cada combatente tem uma vara de cansanção esperando o momento certo para o ataque.

 

DA – No poema Enquanto meus pés balançam, ao declarar seu não-lugar no mundo das representações, como nos versos “nem menino nem menina”/ sempre do lado de fora, sempre à margem”, você demarca, ao mesmo tempo, seu lugar de luta. Os lugares da invisibilidade, da não representação,  o “não lugar”, expostos no poema, denotam total consonância entre uma poesia quase autobiográfica e sua postura combativa. Conte-nos como ocorreu o processo criativo desta poesia, em especial, na qual a pulsação dos desejos conduz a fluidez dos corpos para longe de qualquer categorização estanque do gênero.

JeisiEkê de Lundu – Enquanto meus pés balançam começou a ser desenhada na rua, depois de uma ofensa, fui atacada e estava voltando para casa com a mente cheia de questionamentos, do tipo: ‘quem eu sou no mundo e de como isso interfere em como as pessoas em volta me leem’, e de ‘como minha postura pode interferir nas minhas relações’. Naquele momento, foi como um manifesto pra mim mesma, foi escrita no início de 2016, estava voltando de um tour pelo nordeste, onde me aproximei de pessoas com posicionamentos políticos, que me trouxeram várias reflexões importantes. Essa viagem também me trouxe à tona questões geopolíticas, entender esse trânsito que fiz da fronteira de Bahia-Minas para a capital baiana. Tudo isso influenciou, criei um vídeo-art para trabalhar a poesia em outra linguagem. Agora, eu acredito que o poema fala por si. É de longe uma das coisas mais potentes que já criei, no nível que dá conta de si, é a poesia por ela mesma. Ela conta de mim, sem que eu me apresente. Ou ela me apresenta, sem que eu conte de mim. Diferente dos outros escritos é a poesia que recitei logo, em poucos dias soltei-a na rua. Foi como uma resposta ao ataque, e um grito (sabe?) que não era pedido de socorro, Isso é um grito de alerta, não de socorro. É anúncio de guerra, como um: tenha cuidado!  O que vem depois de mim pode te confundir ainda mais. Por mais que a categorização dos corpos seja rápida, a fuga e a desobediência às normativas são ainda mais velozes. Os corpos estão nascendo cada vez mais desprogramados – e aqui eu não tô falando de biologia – longe de mim. Estamos reprogramando as culturas, culturas que oprimem e dilaceram desejos são, sim, alvo dessa reprogramação. Que é o sentido no qual termino o poema: criando leitos para que outres deságuem.– abriram espaço para que eu pudesse escrever e caminhar sem medo, é essa também uma das minhas funções no campo do desejo, ser rio para que outres naveguem e naveguem com segurança. Eu tenho certeza que não escrevo sozinha, que escrevo com muitas e para muitas, que as palavras que marcam esse papel não são só minhas.

 

DA – São tempos de problemas políticos e sociais graves no Brasil. As minorias que, no decorrer da história, foram subalternizadas convivem com um perigo constante. Neste contexto, como você compreende o papel da arte, enquanto ferramenta de crítica social? No que toca a violência contra transexuais, a sua poesia pode ser entendida como um espelho de denúncia, por exemplo? Em quais outros campos da crítica social sua escritura perpassa?

JeisiEkê de Lundu – É bem verdade que os problemas sociais que dizem respeito à população dissidente vivem momentos de ebulição, tanto no que tange às lutas, visibilidade e conquistas, quanto a resistência. Nós não morremos agora mais do que antes, mas também o número de pessoas trans que são cruelmente assassinadas ou se suicidam ainda é alarmante, e ainda falamos muito pouco sobre isso. A arte sempre teve em suas características a crítica como um ponto muito forte. Em tempos turbulentos, isso se torna quase que uma obrigação, quase que um dever do artista analisar o tempo em que vive e falar sobre ele, usando códigos e linguagens. Por outro lado, a arte também se apropria de pautas emergentes para criar poéticas e fomentar a criação, o que eu não vejo como um problema por si só, desde que o sujeito, que se apropria, saiba realmente o que está acontecendo. Um exemplo disso são espetáculos de teatro retratando a vida e a luta de pessoas trans, protagonizados por artistas cisgêneros que não têm elementos em suas vivências para tratar de um assunto tão vasto e potente. Ignoradas a existência e arte de pessoas trans, que são varridos dos espaços de criação, divulgação e fomento de seu fazer artístico. E aqui cito o MONART, Movimento Nacional de Artistas Trans, que recentemente lançou um manifesto sobre esse assunto, acredito que é de suma importância ler e acompanhar essa pauta.

Eu entendo que, enquanto biografia, o meu trabalho, se denuncia ou critica, é porque vai de encontro a uma norma, ao binarismo, ao mundo encaixotado em identidades fixas e castradoras. Acredito que, quando lançada, a palavra pode atingir não sei ao certo qual a estaca que segura essa estrutura toda, mas sei que existe potência nesse lançamento. Se atingirá um alvo, ou não, o importante é que houve o deslocamento e o percurso em que isso acontece. Seria prepotência uma artista traçar a rota de sua arte e ter plena certeza do que/onde ela vai atingir. A arte é muito mais ampla e viva. Nós estamos morrendo. Se levarmos em conta as estatísticas, meu corpo tem menos de 10 anos de vida, posso ser atacada a qualquer momento, ainda mais com a força da onda do conservadorismo querendo nos arrastar e nos lançar contra as pedras. Criar, ver meu trabalho publicado em uma antologia tão forte, que reúne artistas com uma representatividade tão ampla, como a Profundanças 2, já é, por si só, uma crítica. No entanto, minha principal crítica é continuar viva, é subir no palco, empunhar o pincel ou caneta, minha crítica é rasgar o véu da arte elitista e privilegiada e dizer que nós, apesar das pedradas, continuamos vivas!

 

DA – Além de poeta, você é também artista visual e performer.  O que nos faz pensar uma existência multifacetada de Jeisiekê de Lundu, enquanto artista. Quais as relações estabelecidas entre estes vários lugares de atuação artística, aos quais você disponibiliza seu tempo e dá vazão a sua criatividade? As questões de gênero são postas em discussão em suas performances. Com relação às artes visuais, existe alguma conexão entre a poesia e sua produção neste campo?

JeisiEkê de Lundu – Tenho me considerado uma artista visual, não que eu atue somente nessa área. Viajo no audiovisual com certa frequência, mas a arte visual me dá possibilidades para flertar com temas que acredito terem maior importância para a criação que desenvolvo. Dentro dessa caixa de multifaces da linguagem, consigo transitar pelo tridimensional, trazendo estruturas e subvertendo no corpo, nesse sentido, entendo o corpo como suporte – tanto de ação quanto de discurso. E, para isso, eu recorro à performance art, uma linguagem que bebe muito de outras linguagens da arte, se apropria de ferramentas e subverte conceitos, ressignificando os sentidos, para, nesse lugar, conseguir falar sobre o que é minha existência, sobre minha visão de resistência, de coletividade, de construção social, de normativas sociais.

Dizer o que se pensa em arte é um trabalho muito doloroso. Falar sobre assuntos emergentes é mais complicado ainda. Quando você constrói uma célula artística falando sobre “o vento que passou e arrancou a flor do jardim”, pode até ser que nenhum questionamento ocorra, ou que venham aplausos, contratos ou coisas do tipo. Mas, quando se tem trabalhos que questionam atitudes e performam lugares, que a estrutura não quer que seja visível, o questionamento nem sempre é feito baseado na obra em si, mas no sujeito que cria. Ou seja, no sujeito que se apropria da linguagem para questionar. Eu trago isso, nesse momento, porque meu lugar enquanto artista é questionado, minha arte é poucas vezes vista como ela é de fato. Meu corpo é questionado, minha validade enquanto artista é questionada pelo simples fato de não corresponder a uma expectativa hegemônica. E isso não acontece somente comigo, várias artistas do meu círculo mais próximo sofrem com atitudes parecidas. Corpos que deveriam – segundo a lógica higienista – nem existir, quanto mais se afirmar enquanto artista. Isso acontece com várias amigas da Casa Monxtra – coletivo de arte dragg formado por artistas negras, não binárias, mulheres, periféricas – do qual faço parte aqui em Salvador. Vários ataques e questionamentos acontecem não pela qualidade ou pela estética abordadas no trabalho, mas sim por quem protagoniza o trabalho e usa o discurso para enfiar o dedo nas feridas da sociedade. Agora sim, respondendo à pergunta, eu não consigo deslocar a escrita da visualidade porque de certa forma uma linguagem nutre a outra, a escrita compõe a imagem e o contrário também acontece. Boa parte dos textos publicados em Profundanças 2  fizeram parte de uma performance que fiz com Lanmi Carolina, em 2016, denominada “Rapina – ou a metamorfose do ser”. Os escritos eram parte da bagagem que carregamos na criação e na execução da obra. A escrita em algumas obras é como o registro fotográfico, só que em grafia, não em luz.

 

JeisiEkê de Lundu / Foto: Lanmitripoli com retouch de Juan Pablo Gutierez

 

DA – Haja vista a quantidade de colaboradores, podemos dizer que a obra Profundanças 2 se desdobrou em um coletivo, que tem desenvolvido o evento chamado Roda de Conversas em Profundanças. Tendo circulado por cidades da Bahia e Pernambuco, a roda intenciona conversar com o público, entre outros temas, a respeito das formas de ativismo literário, circulação alternativa, sentidos da criação artística em tempos de golpe(s). Como foi e está sendo participar destas rodas de conversa? Há algo de provocador nas plateias que têm frequentado? Como ocorrem essas trocas?

JeisiEkê de Lundu – Na época da publicação, eu não achava que tinha feito pacto de sangue com Daniela Galdino (risos). Mas se configurou em coisa parecida, viu? (mais risos). Brincadeiras à parte ou não, eu participei de uma roda de conversa e estou indo pra segunda agora. A primeira foi no campus do IFBA, em Ilhéus, o público de secundaristas, funcionários e professores do campus, dentro de uma semana de atividades bem intensa. Eu cheguei um dia antes e tive o prazer enorme de conhecer Aildil Araújo Lima (escritora cachoeirana), ganhei dela o livro Mulheres Sagradas, passamos boa parte da noite e da manhã sentadas na varanda conversando, fumando e bebendo café. Já havia começado a roda de conversa ali e não tinha me dado conta. Conversávamos sobre a “escrevinhência”, sobre a palavra – como encontramos com ela. Foi um momento único, marcou muito minha trajetória. De manhã encontramos Daniela e seguimos para o IFBA. Eu estava super nervosa, falar sobre minha escrita (coisa há pouco revelada), mesmo tendo experiência com palco, ali na frente de vários adolescentes me gerou um frio na barriga de primeira vez assim. Foi interessante, a dinâmica da roda aconteceu e li um texto sobre uma agressão, não é bem uma narrativa, eu criei alguma coisa, unindo experiências negativas com agressões e como isso se fixou em meu inconsciente. Como a sensação de ser agredida sempre volta e como ações do cotidiano podem se tornar disparadores para essas lembranças ruins. Eu estava lendo de cabeça baixa, quando terminei, várias pessoas estavam chorando, em prantos mesmo, nunca havia lido um texto meu em público pra tanta gente, e, quando termino, tem lágrimas – aquilo foi desconcertante. Eu não sabia se tentava sair dali, ou se chorava junto, mas eu não queria chorar, minha mente começou a pensar mil coisas. No fim da roda, fui almoçar no restaurante do campus e me sentei com alguns adolescentes, que fizeram parte da plateia. Ouvi histórias muito parecidas com as que eu vivi, foi reconfortante ouvir deles uma resposta e saber que as palavras, de certa forma, tocaram.

 

DA – A internet se constituiu numa importante plataforma de divulgação artística deste século. Esta entrevista, por exemplo, será divulgada no universo do www, seus poemas também foram publicados na  coletânea Profundanças 2,  que tem disponibilização online. Qual sua relação artística com as redes? Tem pensado em algum projeto artístico voltado para internet ou já utiliza as redes como maneira de divulgar sua produção artística?  

JeisiEkê de Lundu – Minha vida na arte começou e a internet já não era mais “mato”. Eu não conheci o tempo em que a divulgação e a promoção da arte estavam fora do campo virtual. De certa forma, o virtual interfere no modo como fazemos arte, de como formatamos nosso trabalho para caber nesse suporte. Existe certa preocupação, eu diria, mais com o mundo virtual do que com o dito real, se é que ele existe! Não sei, talvez esse mundo dos bits e do www seja o real. Em Profundanças, isso se tornou uma coisa interessante, o lance do livro digital, publicado em uma plataforma, o que gera uma certa democratização da linguagem, aí volta para o que eu já havia dito antes, sobre  “quem pode ler?”, “quem pode escrever?”, sobre o quão inacessível é publicar escritos no mercado editorial no Brasil e na mão de quem isso está. A internet possibilita trazer para a luz pessoas anônimas, escondidas pelo véu da invisibilidade, guardadas na “escrotidão” das máquinas. O simples ato de postar um texto em uma plataforma pode transformar toda uma cadeia, alterar várias rotas. Atualmente, eu trabalho muito com visualidades, usando meu corpo como plataforma para a criação artística, e a internet é sim a maneira mais fácil de divulgar esse trabalho e ter um retorno e um contato maior com o público.

 

DA – É bastante estreita a relação entre referências e reverências, seja em qual campo de trabalho estivermos falando. Sem reverências, quase impossível ter referências. E o contrário também poder ser verdadeiro. No fazer artístico, esta conexão aparece de maneira ainda mais intuitiva e forte. Comente sobre as reverências que norteiam o seu conjunto de referências, na constituição de seu leque de memórias enquanto poeta e performer.

JeisiEkê de Lundu – Não se escreve sozinha, por mais que o ritual de escrita seja solitário. No próprio ato de empunhar a caneta e rabiscar o papel, várias mãos fazem essa ação em conjunto, seja de forma consciente ou não. Eu estou falando sobre aquelas que não podem escrever ou sobre aquelas que escreveram antes de mim, e aqui trago minha referência, Simone Portugal, escritora baiana, que publicou, artesanalmente, seu primeiro livro, Filosofia do esgoto, e vende de forma autônoma e independente – traz em suas linhas a revolta e o escárnio como poética. Eu reverencio também Suzernagle Bento, poeta sertaneja, residente em Salvador, que carrega a seca e as memórias do sertão para enaltecer as bravas mulheres do semi-árido brasileiro. Enalteço e trago pra esse panteão de mulheres Michelli Mattiuzzi, performer e escritora negra, que trava uma imensa guerra para ser artista, nessa parte colonizada do planeta, jogando contra a branquitude e denunciando o racismo. Enalteço Annie Ganzala – grafiteira e aquarelista – que carrega a poética sapatão em seus murais e aquarelas. Enalteço Negrindia – Gabi – poeta, sapatão, mãe, cartoneira, distribuidora de zines e cadernos artesanais, que luta bravamente para construir novas distopias. Hija del Perra, Gisberta Kali, Vanusa Alves, Tieta do Agresta, Lanmi Carolina, Aranda Sousa, Frutífera Ilha. É bem mais que um leque, é uma arvore que dá frutos muito grandes, nessa revolta que é fazer poesia, façamos poesia, os fascistas odeiam poesia.

 

DA – Ao escrever, brincamos com as linhas do tempo. Passado e futuro podem se entrelaçar numa dança jamais imaginada. Como sua poesia lida com o tempo? Como a mente criativa de JeisieKê de Lundu trabalha os acontecimentos do passado? Sublimando-os? E como são as projeções de futuro? Há alguma bandeira de re-existência hasteada com desejos de mudanças?  

JeisiEkê de Lundu – Às vezes, o sentimento de revolta é tão grande que não sentimos o tempo, a escrita às vezes fica estagnada, parada, feito água barrenta, o sentimento de paralisia causa pessimismo. Você não consegue enxergar quais ações podem mover e causar transformações. As utopias desaparecem da mente, o que sente é que tudo se petrificou e só existe o regresso como caminho. Eu tenho certo receio com a linearidade do tempo. Às vezes, minha mente da um bug e começo a pensar que vivemos em círculos, que o tempo é um círculo e não uma linha – como ditam por aí. Quando escrevo, estou sempre pensando sobre isso, de como podemos projetar passado no futuro e presente no passado, de como essas noções de tempo estão imbricadas e são complementares e divergentes. Seria determinista entender o passado como ponto fundante para o futuro, seria aceitar a linha do tempo simplesmente, acreditar em predestinação, talvez, que tudo está escrito ou pronto pra ser vivido, sem a necessidade da mudança. Aqui, eu quero retornar ao pessimismo, pensar a mudança nos tempos que estamos vivendo, pode ser revolução, mas em meu caso é um tanto pessimista. Hastear bandeiras e lutar tem se tornado cada dia mais impossível. As forças estão cada vez mais miúdas, eu tenho sido pessimista. Meu desejo tem sido acordar e continuar viva, como aquela frase pichada em muro: “A gente combinou de não morrer’”. Aí mora a mudança, talvez quando os corpos dissidentes tiverem o direito de viver, simplesmente, continuar existindo, aí sim, possivelmente, alguma mudança pode ocorrer; antes disso, não acredito em nada.

 

DA – Falando em futuro, terminamos esta entrevista com votos de ainda mais progressos em sua multifacetada carreira e perguntando a cerca dos planos subsequentes. Há algo em mente que possa ser contado à Diversos Afins? Quais seus planos mais imediatos? E, a longo prazo, quais suas metas artísticas?

JeisiEkê de Lundu – Sempre digo que sou uma artista multilinguagem, atuo na performance, no vídeo, na tela, na escultura, na costura e a música sempre foi um desejo e uma vontade. Agora, estou trabalhando num projeto muito lindo, não cantando, que ainda não desenvolvi isso, mas na direção de visualidade da banda Saramandaia, um grupo de artistas residentes em Salvador, falando sobre dissidências, política, arte, inclusão e temas emergentes.  Tem sido um trabalho muito forte e lindo. Para além disso, a Casa Monxtra com A terca mais estranha do mundo, no bar Âncora do marujo, todas as terças-feiras, e estou rabiscando e enchendo uma gaveta para editar um livro(digital) que espero lançar esse ano ainda – uma mistura de contos, poemas e textos sobre dissidência, corpo ciborg e existências à margem. Várias ideias na mente e a tentativa que ela mesma não se sabote, porque a própria estrutura já faz esse trabalho bem feito. Mas vamos seguindo o baile e fazendo o que tem que ser feito. Ai, estou super empolgada com tudo isso que Profundanças me proporcionou! Foi lindo demais! Aproveito para agradecer a Daniela pelo convite sempre, a todas as pessoas que compõem esse projeto mais que maravilhoso, a todas que leram e compartilharam a ideia, e por mais agregadoras e engrandecedoras como esta. Gratidão sempre.

 

Elis Matos é “cria” da Universidade Estadual de Santa Cruz, licenciada em Filosofia e bacharela em Comunicação Social, especialista em Gestão Cultural e mestranda em Linguagens e Representações. Trabalhou enquanto Coordenadora de oficinas, workshop e mesa do Festival de Cinema Baiano, nas suas IV, V e VI edições. Pesquisadora, cronista e palestrante feminista, lançou a tag #ondeofeminismomechamaeuvou e vai!  Aprendeu a sonhar uma vida justa até as últimas consequências…

 

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124ª Leva - 02/2018 Destaques Olhares

Olhares

A sinfonia discreta da existência

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Tati Motta

 

O que são os dias senão uma soma incontável de detalhes? Somos a sucessão de uma vida constituída por recantos, sejam eles físicos ou algum produto direto de nossas construções afetivas. O mundo parece não nos revelar tão diretamente seus avisos e alertas. Carecemos de uma perspectiva que nos dê a noção dos átimos, daquilo que se abriga em recônditos diluídos nos instantes embaraçados do cotidiano.

Mas perceber aquilo que não está tão aparente requer um exercício constante de desaceleração. Alijados da pressa, aquela cruel companhia que teima em assolar nossos tempos, muito provavelmente conseguiremos compreender que a aparição de um lado sublime da vida requer alguma opção de serenidade diante do olhar que podemos lançar sobre as coisas. E é, de fato, um movimento poético o de reter da existência elementos que nos passam despercebidos curiosamente por representarem a porção humana que nos convoca para dentro de nós mesmos.

Não há dúvida de que um ritual de contemplações e minúcias faz parte do trabalho de gente como a fotógrafa mineira Tati Motta. Mais do que direcionar suas lentes para uma riqueza íntima de gestos e para a apreensão de semblantes e objetos, Tati traz à tona uma expressão da arte que dialoga com camadas muito peculiares do ser/estar num mundo que nos golpeia incessantemente com os ardis da uniformização dos sentidos. Eis um ponto fundamental: o fazer artístico utilizado como ferramenta de ressignificação e pluralidade.

 

Foto: Tati Motta

 

Quando pensamos em negar a uniformização das coisas, devemos entender que cada pessoa ou objeto retratado tem um potencial de nos revelar particularidades que só são vistas graças ao ponto de vista de quem se permite alguma paciente imersão. Com certa frequência, o ato de enxergar no turbilhão alguns requintes de leveza é atribuído aos poetas. E é com tal postura, diga-se de passagem, uma de suas feições, tendo em vista também se dedicar nalguma medida à escrita de poemas, que Tati Motta penetra com delicadeza nos detalhes que envolvem pessoas, lugares e objetos.

No que se refere a captar nossas humanas idades, Tati flagra pessoas em seu natural bailado habitual, redimensionando suas manifestações para um renovado sentido: o de mostrar quão rica é a profusão de gestos que se camuflam na paisagem rotineira dos dias. O resultado expõe o quanto determinados corpos carregam em si uma amplitude de linguagens, todas elas sinalizando alguma rota de afirmação, entrega, efusão ou até mesmo silêncio.

Certa cartografia dos lugares urbanos também atrai os mergulhos da fotógrafa. É com eles que ela repensa os vestígios deixados pelas investidas audaciosas do progresso material civilizatório. Também não menos importantes são os olhares dedicados às manifestações que irrompem do ato de quietude e paciência emanado pela observação dos eventos da natureza.

 

Foto: Tati Motta

 

Formada em Comunicação pela PUC de Minas Gerais, pós-graduada em Artes Plásticas e Contemporaneidade pela UEMG, e especializada em Fotografia pela Escola da Imagem, Tati Motta confessa que sua inquietude foi quem lhe permitiu experimentar e desbravar as mais variadas formas de arte. Tem na fotografia conceitual uma grande impulsionadora de seu trabalho. Esta última, como a própria artista sustenta, é a principal responsável pela construção de imagens, expressão de ideias, manifestação do seu imaginário e dos seus devaneios.

A vida sabe como nos ofertar seus instantes ruidosos. Com eles, podemos simplesmente perdermo-nos na paisagem, sufocados pela padronização das rotinas, ou optarmos por apreendermos algum caminho que nos revele uma conexão de singularidade com nossas existências. Nas entrelinhas do mundo, algum novo sentido pode estar à nossa espreita.

 

Foto: Tati Motta

 

* As fotografias de Tati Motta são parte integrante da galeria e dos textos da 124ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.