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124ª Leva - 02/2018 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Isabela Rossi

 

Foto: Tati Motta

 

UM CANTO

 

dos pássaros
honradas todas as plumas
rimos com dentes de nada
próximos choramos
Grandes telas de cinema
estações de tratamento
As ratas de esgoto também não conhecem aberto
o céu
Toquemos pra elas, Viviane
Com as palavras no azul
o violão cello
em comum nós temos um coração
patas
e pêlos cheirando azedo
ou sangue
quando a chuva infiltra
palcos planos
porões cândidos
Todos
desertos loucos da nossa alma

 

 

 

***

 

 

 

seria pássaro
a máscara caindo em rasa água
uma língua em pleno voo
trocar as penas que sinto de mim
por uma plumagem nunca antes inaugurada
pássaro átimo
desentendida da fome
invenção do étimo a
alinhavar o bico
onde
bocas já não falam mais,
assovios se afinam
busco este alimento, frutas em
olhos de virgem,
as folhas secas
que o jardineiro acomodou antes de fugir

 

 

 

***

 

 

 

COM A MÃO ESQUERDA

 

I

raiva acumulada nos anos
doce revólver mirando ânus
não quero nada disso
goteira de água morna
enxofre do desejo
não parece
mas meu corpo é feito no bronze

 

II

Par de olhos se despindo frente a frente
sombra ante sombra
luz fosca na verdade oculta
porrete na invenção do que se quer pra sempre
límpido cristalino sem violenta irrupção
Hora do espelho
Não me vejo taciturno e
uma chaga dantes tema misericórdia
é agora sangue urdindo
Em dó menor
Morrer todo dia cansa
estilhaçada a
nudez dos anjos
eu quero agora Cantar

 

III

que imagem é aquela desfeita
contratempo da charada
que rosto é esse pincelado
na astuta margem da página
cospem-nos as esfinges em ossatura

do espelho que estilhaça
Em todo poema
colo cacos
A procura do alguém que responda
o antiquado chamado
do Eu

 

IV

válvula
vibra vermelha vulva
essa mulher
verborrágica
vai gozar
mão esquerda em euforia
doce
vesicante prazer
ruindo
não há pesadelo
penetrar fecunda
a Vida

 

 

 

***

 

 

 

AREIA E CASTELO

 

areia e castelo
semente e casca
aço e sertralina
eu estava ficando louca
até no front
da pele com a pele
explodir
o sal
de uma Manhã

 

 

 

***

 

 

 

CANTO DA VIDA COMUM

 

I.

por que me destes Deus este segredo da Pedra?
por que não olhaste para minha cara
dente de leão nos lábios da criança
e legasse a febre ou
sóbrio
o caminho dos leitos
que levam à Lete?

foi-me aventurado granitos
minérios
a levedura do chumbo

mas sou uma mulher
e todos os fuzis
são velas nas minhas mãos

 

II.

dedos da pianista
Lizst era um soldado
que gostava de açúcar
nós estivemos a ponto de partir
mas aquelas notas
melodias do incomum
desarmaram a vaidade

Filarmônica de trapos
preenche nossas horas
lugares onde descansamos
tecidos nos ninguéns

 

III.

nunca coube
nesta solidão
o vazio da estrela torta
recolhidas ao fogo
partilhamos apenas
os cacos
das vitrines opostas

refém dos caramujos
o Eu é insolúvel nos espelhos
muralhas contornantes da vida comum

 

Licenciada em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas e, atualmente, aluna da Escola de Arte Dramática da USP, Isabela Rossi é atriz e autora na Companhia Balé de Pancadaria. Um dia, num suspiro, tomou de assalto os versos do samurai Paulo Leminski, “não discuto / com o destino/o que pintar/eu assino” e desde então tem seguido com a pólvora e poesia que se pode experimentar a Vida.

 

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124ª Leva - 02/2018 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Daguito Rodrigues

 

Foto: Tati Motta

 

Falaria da saudade, se pudesse

 

Menino é menino, menina é menina. Vinicius sempre soube. O timbre da criança confundia um pouco. Fino, agudo. De garota, diziam. Libertador, contestava o pai. Era nos acordes do violão que Vinicius concordava com ele. Quando se derramava pela música ao pé da sucupira branca, na noite ao lado da fogueira. Ninguém negava. Quem poderia? E todo mundo aplaudia, pedia mais. Era uma voz bonita a do garoto, por mais que fosse feminina.

Ubiratan, o homem de dedos grossos e pele seca, do corpo contorcido e recurvado, a paisagem do cerrado, cresceu com as canções que amansavam as noites de um passado duro como aquela terra. Cresceu com a arte. Aprendeu a transformar as cordas em poesia de curioso. E desde que Vinicius nasceu embalou os sonhos do menino com harmonia musical. E tantos outros de tanta outra gente. Um inquieto.

Doze anos e lá estava o pequeno nas festas das fazendas. Microfone na mão e amor no peito. A mãe achava esquisito, gostava mesmo era do dinheiro a mais no fim do mês. No começo, Ubiratan tocava junto, levava o garoto no colo, mas a idade já não permitia a jornada dupla no campo e nas cerimônias. As reuniões até altas horas também ocupavam o tempo do velho pai. Encontros gritados, de braços erguidos e porradas na mesa. Batidas de portas. Vinicius acompanhava quando podia. Ou quando Ubiratan deixava. Era assunto sério.

Menino bonito. De cabelos longos e ondulados. Pele mais clara que o comum. Quase um filho de fazendeiro. Talvez por isso oferecessem tantos palcos a ele. Além da voz, claro. Dos sorrisos. Dos olhos pretos e lacrimosos, como se chorasse. E chorava, dependendo da música que ecoava na boca. Uma menina.

Quando as noites eram princesas, e Ubiratan preparava o fogo, com o violão ainda adormecido, quando o sol riscava o horizonte, Vinicius ouvia do pai as palavras de um mentor. O dedo escuro de unhas apodrecidas apontava para a vegetação rasteira, para as árvores esparsas no campo, e esse mesmo dedo se voltava para o peito do menino, para a testa do garoto, para a Lua no céu. A criança ouvia e entendia. O canto de mulher eram as asas da seriema, o sabor do araçá, o vento na cagaita. Somos. Escutava e memorizava. Um só. Mirava a enorme máquina no descampado e discorria sobre justiça e progresso, com exemplos que envolviam balas de menta e bombons de chocolate. Falava dos fazendeiros e de suas próprias leis. Tocava as folhas grossas com os mesmos dedos que tirava sons das cordas de aço. Segurava um punho de terra na palma das mãos. E discorria mais. Sobre o homem e o corpo. A separação cega do um e do todo.

A noite chegava com as pessoas, que iam se sentando, perguntavam de brigas e discursos, e Ubiratan levava o dedo à boca. Não ali. O palco sob a árvore e a luz da brasa não era o casebre das reuniões. O momento era da poesia, não de lutas. Os problemas e perigos que ficassem para lá, para além do cercado. Ao menos naquelas noites, que tudo parecesse simples e pequeno. Que fosse como deveria ser. Com respeito e união. E como era.

Hoje, se pudesse, Vinicius falaria da saudade. Falaria do tempo e do pai. Voltaria ao cerrado, à casa, à sombra da sucupira branca. Se ela ainda estivesse lá. Recolheria uns galhos, acenderia a chama. E apontaria também para o horizonte, para o peito e para a testa. Apontaria para o céu e teria a certeza de que somos sim um só.

Na tarde em que Ubiratan não voltou do campo, o garoto cortava batatas na cozinha. Sussurrava uma canção e a mãe estendia roupas no varal. Esperou na porta, com o sol já baixo. Não ouviu o som pesado dos pés na terra, que chiavam cada dia de um jeito. Macios no verão, duros no inverno. Os sapatos num ruído seco roçando as gramíneas e as ervas que rodeavam a casa. Eles não vieram.

Foi com a mãe que viu o corpo no casebre. Já sem reunião nem gritos. Só o silêncio. O sangue escuro no piso. Os olhos abertos para o nada. Foi com a mãe que tentou entender. Com o tecido da saia dela no rosto e as mãos apertando as coxas cansadas. Não pôde explicar para o garoto. Apenas lamentar. Os anos ensinaram. As conversas com os outros. As leituras dos textos. Só depois, o garoto de voz fina finalmente conheceu o pai e compreendeu seu fim. Só depois, o timbre agudo cumpriu a vocação para libertar.

Se soubesse antes, jamais teria cruzado os pórticos com partituras debaixo dos braços. Não teria versado canções entre taças de vidro e risadas insossas. Se soubesse antes, teria se agarrado aos braços do pai todo fim de tarde antes das reuniões. Teria implorado como um mimado para que abandonasse os grupos e as discussões. Rasgado pôsteres e papéis. Teria? Vinicius concorda com o pai. Hoje sabe, hoje entende.

E solta a voz em outras terras, distante das plantações de soja e milho. Por mais que se estendam por todo lado, não chegam onde o canto do garoto adulto chega. Tão longe. E com versos e rimas, com trovas e poesia, Vinicius repete as palavras do pai, transformando a luta em notas, desfilando baru, buriti e mutamba, galito, anhuma e irerê, abotoado, piapara e taguara, João, Maria e José. Espalhando o cerrado e seu povo pelo Brasil, como a água dos rios que nascem naquele solo. Terra rica, terra pobre. Povo sofrido, povo feliz. O progresso, a tradição. O dinheiro, a natureza. O masculino, o feminino. A voz de menina do garoto é também a voz grossa do pai sonhador.

E Vinicius levanta a bandeira. Como cantor e poeta. Ele, filho de Ubiratan, filho do cerrado brasileiro. Somos, canta e universaliza, um só. E é assim que seguiremos em frente.

 

 

 

***

 

 

 

Menino nas caixas

 

 

 

“O amor roeu o menino esquivo,
sempre nos cantos, e que riscava os livros,
mordia o lápis, andava na rua chutando pedras.”
(João Cabral de Melo Neto)

 

Fui o menino dos cantos. Calado, nos bancos das quadras de esporte. Escondido nas quinas das festas. Metido nas frestas dos clubes. Era medo das palavras, dessas faladas. Preferia o silêncio. As páginas dos livros. Ou aquelas em branco das papelarias. Um novo pacote de sulfite. Rasgava com a mesma vontade que as outras crianças rompiam os de bombons de chocolate. Mais que o cheiro do papel moço, eu gostava do vazio.

Fui o menino das viagens à praia, mas sem pés na areia. Escolhia a sombra da sala vazia, ao som das cigarras e dos gritos dos vendedores de sorvete. Distantes. A vida no verão era do lado de fora, mas não a do menino. Com as janelas fechadas e as cortinas cerradas, mordia o lápis e arranhava o papel, sentado no chão frio de uma casa alugada.

O menino não jogava bola como o pai. Não contava piadas como a mãe. Nem era cercado de amigos como a irmã. Fui esse menino esquisito. Um único. Desses que os adultos desconfiam, falam um para o outro. Não era normal, ficar assim de lado, perdido em livros e papéis. Tão longe do comum. Vai ser escritor, brincavam. Vai ser é louco. Queriam mesmo é que o menino fosse mais um.

O castigo era ir à praia. Mas mesmo lá, desenhava na areia, erguia muros e projetava rodovias que carregavam o menino para onde não havia nenhum outro, nenhuma voz. As pessoas assustam.

Mas fui também o menino cercado de amor. Um amor desses protetores, que mimam, impõe regras e conceitos. Só o amadurecimento consegue destruir tudo depois. Tarde demais. Um amor repleto de boas intenções, mas também de medo. Porque os pais, adultos como eram, sabiam que a vida não é amiga do estranho. A vida quer mais do mesmo. Os iguais com quem a gente cruza o tempo todo. O mundo não abre as portas para o diferente. Esse tem sempre que arrombar. Mas que menino tem força para arrebentar um cadeado?

Pois foi esse amor que roeu o menino. Matriculou no judô, no futebol, no vôlei. Jamais num curso de leitura ou escrita, muito menos de desenho. Roeu. E ele, tímido e com medo de se tornar igual a ninguém, fugiu dos papéis rabiscados e dos lápis mordidos. Vestiu a beca e carregou o diploma. Bateu cartão, usou o vale refeição, recebeu o décimo terceiro. Fez e refez o currículo. Entrou em reuniões, participou de happy hours e quando viu já não era mais menino. Sumiu nas mesmas roupas, na mesma rotina, nas mesmas frases de tantos outros. E se tornou igual a todo mundo. Como o mundo todo sempre quis.

Cadê o menino que riscava os livros, mordia o lápis e andava na rua chutando pedras? Cadê? Tiro o paletó, tiro a gravata, tiro a camisa. Arranco tudo e me assusto com o vazio. Bem o vazio, que eu tanto amava, hoje me arrepia. No espelho, não vejo nem homem nem menino. Não me vejo ali.

Cruzo as ruas como o menino virava as páginas dos livros. Histórias ficam para trás. A casa onde o menino morou, a escola, a praia, hoje é tudo apenas imagem no retrovisor. E com as mãos no volante, finjo que estou no controle. Que posso encontrar o menino. Mas, cadê?

Eu sei, não vou mentir, eu sei. Eu sei onde o menino está. Está jogado em caixas no alto do armário. Em papéis amarelados e duros, estampado em frases e rascunhos. Enterrado na dispensa. Escondido e isolado. Calado. Roído pelo amor. O menino são restos perdidos em papelões de leite desnatado.

Não há praia, não há areia. Não há pai nem mãe, apenas mudez. Não há amor, também. Nem luz. Mas não me venham falar de amor. Já li tanto sobre amor. Quem tem coragem de falar o quanto ele corrói meninos e meninas?

Não há resposta. Não há perguntas. Não há menino. Apenas caixas.

Apenas caixas. Ainda que essa verdade chegue a doer, ainda que venha a vontade de gritar, melhor mesmo é lembrar que um dia houve sim um menino. E que ele queria viver e sentir. Chorar e sorrir também. E se deixar levar pelo tempo, para que no tempo certo, um dia pudesse voltar.

 

Daguito Rodrigues é escritor e roteirista. Foi repórter da Folha de S.Paulo, Diretor de Criação na agência Publicis Brasil e dirigiu e escreveu o curta O Santo Salvador e o Demônio, entre outros. Acumula prêmios nos principais festivais de criação do mundo, como Cannes Lions, Prêmio Abril e Clube de Criação. Quer muito que você leia o primeiro romance dele, “Vozes na rua” (Kazuá, 2016).

 

 

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123ª Leva - 01/2018 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Palavras parecem domar o tempo com a astúcia de suas investidas. Talvez por tal razão não sejam menos importantes que a sina dos seus criadores. Elas, as palavras, ousam mais do que representar o mundo de quem as profere, imersas que estão nas profundezas do humano. Revelam-se a complexa ponte entre o íntimo e aquilo que está exposto cotidianamente nas travessias mundanas, bem ali na face desnuda da vida.

Quem engendra o verbo tem a consciência de que sua expressão criadora não se encerra dentro de um único domínio exclusivamente pessoal. Pelo contrário, intenta o encontro com o outro, trajeto comunicativo que, podemos desconfiar, não cessa jamais. Desse modo, levar a cabo uma obra é crer que na outra ponta outros sujeitos poderão consolidar sua permanência, conferindo-lhe uma gama de sentidos multifacetados. Por certo, um escritor fica exultante quando seus leitores mantêm vivo o seu legado dadas as mais distintas possibilidades de vivência, interpretação e apropriação do conteúdo concebido.

Assim como não se passa impunemente pela vida, com a literatura ocorre o mesmo. É salutar pensar um autor como alguém que mergulha nas questões de seu tempo e delas retira elementos construtivos para seu ofício. Quem se depara com a obra de um escritor como Itamar Vieira Junior, percebe um criador de olhares atentos aos fenômenos que constituem e demarcam sua condição de estar no mundo. Mas eis que tal característica tanto se baseia num fluxo de criticidade quanto no de uma vivência que permeia uma perspectiva de fruição estética. Assim, vemos um Itamar a construir sua obra com os requintes da lucidez, mas também sem negligenciar as possibilidades de criação inerentes a um viés de assunção das coisas intangíveis.

Com dois livros de contos na sua trajetória, Dias (Caramurê, 2012) e A Oração do Carrasco (Mondrongo, 2017), além do romance Paraíso (Câmara Brasileira do Livro, 2008), Itamar Vieira Junior pode ser considerado um dos nomes relevantes do atual cenário literário brasileiro. Grande parte disso se justifica em razão de que sua escrita madura e bem construída assinala um valioso lugar de reflexão, sobretudo quando se trata de atentar para o território das alteridades.

Doutor em Estudos Étnicos e Africanos pela Universidade Federal da Bahia, Itamar revela-se um escritor profundamente envolvido com as temáticas que denunciam a invisibilidade do povo negro. Na entrevista que agora segue, o escritor toca em certos lugares de incômodo social, reflete sobre a representação do racismo na literatura, o papel dos novos escritores, além de lançar luz sobre o panorama editorial brasileiro contemporâneo. O resultado do diálogo mostra-nos não somente um intelectual a expor seus consistentes pontos de vista, mas um indivíduo intensamente marcado pela necessidade de mergulhar fundo na dimensão humanista da existência.

 

Itamar Vieira Junior / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Há tantos grilhões na condição humana e certamente aqueles que se referem à opressão do homem pelo homem são dos mais cruéis. Em “A Oração do Carrasco” você traz um deles à tona, qual seja a marca histórica do racismo, fantasma que nos ronda incessantemente. Diante de um contexto de tal natureza, como você concebe a literatura enquanto instrumento de exposição e debate desse tipo de incômoda temática?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – A literatura como expressão artística acomoda, involuntariamente, a narrativa da experiência humana. Atravessando os séculos – de Dom Quixote ao romance contemporâneo – ela sempre trouxe como sua razão de existir o descortinar de nossa condição. Hannah Arendt em sua obra “A condição humana” diz que a política é um dos três pilares da vita activa do homem. Tanto o trabalho quanto a obra – os outros dois pilares – são executados pelo homem em sua solidão, a partir das acepções que Arendt apresenta sobre trabalho e obra. Mas a política só se dá através do homem e entre os homens. Ou seja, somos seres essencialmente políticos e a literatura carrega, invariavelmente, a exposição do que um escritor é e pensa sobre o mundo a sua volta. Sem a política seríamos amebas vagando no mar do nada.

Vamos lembrar que a literatura abriga a diversidade do pensamento humano. Que há obras como “Escola de cadáveres”, de Louis-Ferdinand Céline, ou “O presidente negro”, de Monteiro Lobato, com um teor racista inquestionável. E que muitas outras, da mesma forma, vão se debruçar sobre as nossas mais primevas questões existenciais, dentre elas o preconceito baseado na diferença de origem ou de cor. “Amada”, de Toni Morrison, ou “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves, por exemplo, abordam o racismo pelo viés histórico e social do colonialismo. É incômodo perceber que são obras que tratam o preconceito numa perspectiva histórica e que, ao se confrontar essas narrativas com o mundo contemporâneo, percebe-se que as mudanças são sutis e as formas de discriminação resistem apesar dos avanços.

Há algo incômodo na literatura contemporânea – e digo especialmente sobre a literatura produzida no Brasil. Como é uma atividade de uma classe privilegiada, ou pelo menos os autores que estão em evidência fazem parte dessa classe, os temas são majoritariamente afeitos aos dramas da classe média branca. Proporcionalmente, há um número menor de obras com personagens que representem a imensa diversidade da nossa sociedade. O racismo também existe no próprio fazer literário, não poderia ser diferente. Isso revela que há algo brutal em nossa história se repetindo, quando vemos persistir a discriminação ao senegalês ou haitiano que chega ao Brasil contemporâneo. Ou quando as relações entre patroas e domésticas nos fazem lembrar as relações de subalternidade mais vis do Brasil escravocrata. Ou quando abrimos um livro e não encontramos representações de nossa diversidade. Esse incômodo é que me fez conceber “A oração” como um painel, não de simples histórias distintas, mas capaz de apresentar um encadeamento de narrativas que nos lembrasse de que a história se repete. Não é por acaso que “Alma” abre o livro e é impossível pensar sua história desconexa das histórias de “Foi” e “Dominique” do conto “Meu mar (Fé)”, ou de Doramar. A imigração empreendida pelos ancestrais de Alma se repete da mesma África para o Brasil do nosso tempo. Esses imigrantes estão fadados a uma história de subserviência não muito diferente dos imigrantes do século XVII, XVIII. O papel de submissão dado pelo mundo a Alma se repete com Doramar, uma empregada doméstica que vive nos dias atuais, ou com “Foi”, a imigrante que vive deslocada em um país que não consegue acolher a diferença.

 

DA – No conto “Alma”, apesar das agruras vividas pela protagonista, notamos que paira nela um ímpeto que a encoraja a crer numa perspectiva de que algum dia sua existência cumprirá um sentido, digamos assim, mais pleno de liberdade. Há na narrativa a presença viva dos contrastes entre o pensamento colonizador e o colonizado. Diria que essa construção textual evoca uma necessária provocação, sobretudo para o que ainda testemunhamos em sociedade?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Acho que o sentido a que você se refere é uma premissa humana. Ou talvez seja uma premissa dos seres sencientes, se estendermos o desejo de liberdade aos animais. Há muitos anos trabalho com as histórias de comunidades negras rurais que estão passando por processos de regularização das terras que habitam. Em um desses lugares, encontrei a história de uma mulher escravizada que caminhou de Salvador até o Sertão Baiano – quatrocentos quilômetros de distância. Ela se tornou matriarca e fundadora de um agrupamento humano que resiste por quase duzentos anos. Só se sabe isso sobre ela. Não há registros além da história oral. Uma narrativa fabulosa, a princípio, e a ficção entra para preencher o que não se sabe sobre essa mulher: as motivações de sua peregrinação e o que encontrou pelo caminho. O que faria uma mulher cativa caminhar por um ambiente hostil, desconhecido, com possíveis perigos? A revisão da história social de nosso lugar indica as circunstâncias dessa migração. E a minha experiência humana, aquilo que nos une, incluindo a personagem Alma, permite emular esse sentimento supostamente universal de não estar subjugado e ser livre. É uma narrativa em primeira pessoa que opta pelo fluxo de consciência. Alma é a voz que narra personagens, episódios históricos e ações que marcaram sua trajetória. Essa foi a forma que encontrei de trazer à literatura a contundência da oralidade, do que pode ser narrado por gerações, resistindo e se transformando, quando as circunstâncias sociais e econômicas não permitem que haja registros documentais. A oralidade é uma forma de comunicação que antecede à escrita. Transmutada, é capaz de denunciar os incômodos que a humanidade, em seu processo civilizatório, não conseguiu transpor. Recentemente, fotografias de um mercado de escravos na Líbia se propagaram nas redes sociais. Em pleno século XXI nos deparamos com imagens que poderiam ser quadros de Rugendas representando a aflição de algo que talvez julgássemos ter acabado. Pelo contrário, os fantasmas continuam a nos atormentar. Escrever sobre uma mulher que precisou interromper o ciclo de violência que sofria, devolvendo a violência àqueles que a subjugavam, reflete essa provocação. Desmistifica, inclusive, que essa subserviência foi pacífica. No Arquivo Público do Estado da Bahia há importantes referências sobre crimes cometidos por trabalhadores escravizados.

 

DA – Há toda uma literatura dedicada às questões da negritude e que, no entanto, permanece ainda desconhecida por muita gente. Destacaria aqui, sobretudo, obras que se enquadram na perspectiva pós-colonial, cujos autores nos falam de mundos com suas narrativas e ambientações próprias, com o vigor que demonstra que não podemos olhar a África de modo homogeneizante. Na sua visão, que universos são esses que precisam ser vistos e lidos?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Os universos autóctones e da diáspora. Porque não basta ler a vasta literatura produzida no continente africano, é preciso compreender o seu legado para o mundo, principalmente para o continente americano e, mais recentemente, para a Europa Ocidental. A literatura pode ser um caminho para alcançar a história e o pensamento humanos a partir da perspectiva de nossa diversidade étnica. Tanto a literatura pós-colonial com seus mais diversos temas, desde o nefasto poder do colonialismo que vislumbramos na obra de Chinua Achebe e Chimamanda Adichie Ngozi até o trágico apartheid, tema recorrente nos romances de Coetzee e Nadine Gordimer, quanto a literatura diaspórica que pulsa de norte a sul do continente americano, são narrativas que confrontam o passado com o presente e nos despertam para a crise e o fracasso, em termos, de nossa civilização. Principalmente quando permitimos que as diferenças se tornem os mobilizadores das relações de poder que estabelecemos com nosso entorno. Nesse contexto a ficção pode comunicar a universalidade da experiência humana pela simples possibilidade de nos envolver numa trama de afetos onde somos convidados a todo o momento a ler o mundo a partir da perspectiva das personagens. Sem dúvidas é um interessante exercício de se transferir para o lugar do outro e conhecer suas vivências e experiências.

 

DA – Nesse conjunto de representações de mundos que precisam vir à tona através de uma arte como a literária, surge um componente de alta relevância, que é o das afirmações identitárias. Como tais sujeitos podem vir a se tornar efetivamente seres de ação no quesito que amplia uma via marcantemente humanista?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – A identidade é e sempre será relevante em contextos onde seja preciso realçar a alteridade. Já estive em comunidades negras rurais em que o racismo não era um problema aparente em suas vidas, a não ser quando precisavam resolver algum problema na cidade. Não fazia sentido um debate entre eles sobre a negritude, a não ser quando precisaram se confrontar com o Estado ou com outros grupos. Eu prefiro não tratar a identidade como um constructo fixo e imutável. Gosto mais do conceito de identificação que coaduna com a perspectiva do devir humano. Não somos seres imutáveis. Somos devires porque existe um movimento vital no homem, no mundo e no homem através do mundo. Esse movimento é fonte de transformações constantes. A identificação está baseada na diferença, e afirmar essa diferença como legítima e parte da diversidade humana é o que mobiliza as performances identitárias. Nenhum ser humano é composto de uma única identificação, nós somos muitas identificações sobrepostas, e algumas delas certamente se relacionarão com a de alguém a sua volta. Somos mulheres, homens, homossexuais, negros, índios, ateus, católicos, candomblecistas, e na trilha de nossa existência através do mundo nos reconheceremos. Agora, imagine que na trilha da vida, sem os artifícios que dispomos para o conhecimento, isso possa levar bastante tempo. Às vezes um longo tempo se pensarmos que nossos problemas são urgentes. Imagine também o poder da literatura, da música – e enfatizo o hip hop, o funk, o samba, ritmos que têm um forte apelo popular – da televisão, do cinema, das séries estrangeiras, que chegam com uma velocidade incrível na era da informação. A arte pode ser um valioso instrumento, não o único, mas certamente o que nos envolve com mais afeto e é capaz de comunicar nossa humanidade com grandes chances de êxito. Já que falamos de literatura, imagine o poder de “Stella Manhattan”, de Silviano Santiago, para comunicar a existência queer, ou “A pianista”, de Elfriede Jelinek, sobre a violência que cerca a existência da mulher. Ou o maravilhoso The Underground Railroad, de Colson Whitehead, que acabo de ler, para expor as agruras do racismo no continente americano. São obras ficcionais capazes de gerar empatia por nos permitir interagir no campo da imaginação com essas personagens. Ninguém sai delas indiferente ou ileso.

 

DA – É insuficiente considerar o papel da literatura por um viés de mera fruição estética?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Gosto muito do Milan Kundera ensaísta, além de ser um ficcionista excepcional, justamente porque seus ensaios estão despidos de um viés analítico e acadêmico. Precisamos dos artigos e pesquisas acadêmicas para o conhecimento. Mas seu alcance é limitado.  Diferente dos ensaios de Kundera que primam por uma abordagem estética e humanista da literatura. Em “A cortina”, Kundera apresenta a literatura (romance) como a arte do conhecimento que existe e sobrevive por se debruçar sobre a experiência humana. Parte dessa existência e sobrevivência deve-se à fruição, uma característica que diferencia a arte literária de outros gêneros de escrita. A fruição estética abre um leque de possibilidades que permitem interpretações e reinterpretações sobre um mesmo texto. O leitor é peça-chave nessa engrenagem por ser afetado, na experiência pessoal e intransferível da leitura, de maneira distinta. Por ser fruição estética, sem nenhum demérito, é que a literatura tem seu alcance expandido e se torna um instrumento de conhecimento do mundo-tempo que vivemos.

 

DA – Diria que a sua escrita reflete um processo consciente e permanente de engajamento com as questões de seu tempo?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Acho inevitável que quem se debruça sobre qualquer atividade intelectual, sem a arrogância ou o peso que o termo intelectual possa evocar, está refletindo de alguma forma sobre seu tempo. Desde os primórdios tem sido assim. Não escrevemos para nós mesmos e muito menos sem a esperança de que o que escrevemos altere qualquer coisa. Escrevemos porque desejamos comunicar algo. Desejamos provocar emoções. A comunicação parece ser um atributo muito caro à espécie humana, desde a pré-história com a arte rupestre até a era da informação e a revolução digital. O que não cessou durante nossa história foi a nossa urgente necessidade de nos comunicarmos. Tenho uma visão muito dessacralizada do ato de escrever e, mesmo nutrindo um profundo interesse pela literatura e por quem a faz, não creio que seja diferente, na essência, das muitas formas de comunicação que o homem elaborou ao longo de sua história. Sei também que nem todo escritor terá algo relevante para comunicar, mas ainda assim sua obra será acolhida ou não a partir dos valores que os leitores e estudiosos irão lhe atribuir. Acho que quem se debruça sobre a escrita, ou qualquer construção artística que tenha a possibilidade de resistir ao tempo, deseja no fundo comunicar e provocar a reflexão, seja da mais íntima questão humana aos problemas mais complexos de nossa civilização. Uns superficialmente, outros detidos de forma mais profunda sobre essa experiência. Não vejo a minha escrita dissociada da minha própria experiência. Pretendo-a consciente, talvez por isso engajada. Mas há arte inconsciente e que não seja engajada em seus próprios parâmetros? Essa é uma questão, não tenho a resposta. Atribuí a mim, como creio que fizeram os meus pares do passado e do presente, a intenção de dar um testemunho pessoal sobre o meu tempo. Um testemunho pequeno, mínimo, da história em face à nossa grande diversidade enquanto espécie. O que seria minha vida, e a de qualquer escritor, dentro do grande tempo da história humana? Talvez possamos narrar um átimo dessa longa jornada. Fiz essa escolha por circunstâncias que não seria capaz de explicar. Ao mesmo tempo pode parecer uma presunção considerar que somos capazes de aprisionar em uma narrativa uma versão de nosso tempo. Pode parecer soberba assumirmos esse lugar de narrar uma história. É e sempre será uma posição delicada, ainda que estejamos autorizados por nossas convicções a escrever.

 

Itamar Vieira Junior / Foto: arquivo pessoal

 

DA – O grande afluxo de novos escritores parece instaurar um outro momento para a literatura brasileira. Nesse percurso, as plataformas digitais assumem um papel fundamental como viabilizadoras de espaços dotados de considerável autonomia criativa. As produções não cessam e se avolumam num ritmo até certo ponto frenético, algo que pode comprometer a qualidade do que é escrito, pois, em alguns casos, o desejo urgente de ser publicado ignora todo um processo de maturação e profundidade necessários a uma obra. São tempos de pressa estes em que vivemos?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – São tempos urgentes, não só para a escrita. Talvez seja cedo para esboçar uma reflexão sobre o que está ocorrendo. A princípio vejo a democratização do acesso à publicação como um avanço por permitir que obras que não seriam acolhidas pelas grandes editoras cheguem ao público, ainda que essa circulação seja restrita. São livros que, graças às plataformas digitais e às pequenas editoras, têm tornado possível a construção de uma bibliografia que é ainda um pequeno panorama da nossa diversidade enquanto sociedade. Sobre isso não há dúvidas: obras de qualidade têm encontrado espaço no segmento das pequenas editoras. Basta observar as últimas premiações. Em contrapartida, vivemos um tempo de exposição de ideias e imagens de forma instantânea nas redes sociais. Somos a imagem que projetamos para essas janelas de comunicação. Há, sem dúvidas, uma glamorização da atividade do escritor e isso faz com que qualquer um, tendo habilidade ou não, se proponha a exercê-la. Mas isso não chega a preocupar porque se forem muito ruins não resistirão ao crivo das primeiras críticas de leitores e especialistas. O que persiste é que estamos num país com baixos índices de leitura comparado a outras nações em desenvolvimento. Dentre os possíveis leitores há ainda um grande caminho a percorrer. É preciso construir uma política pública que fomente a formação de leitores.

 

DA – Somos um país de leitores subestimados?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Somos um país em que a educação, até o presente momento, não foi encarada como um propulsor de desenvolvimento humano. Fôssemos um país que levasse a sério a educação, teríamos certamente mais leitores. Segundo pesquisa do Instituto Pró-Livro, quase metade da população não tem o hábito de ler. Um terço nunca comprou um livro. Mas quase todos carregam um smartphone, correto? Estão conectados às redes sociais e à internet. E como dispõem do tempo e da tecnologia? Certamente essas “escolhas” explicam em parte nosso retrocesso em questões de direitos humanos e nossos persistentes problemas sociais. Uma população não educada tem menos chance de participar e colaborar ativamente das instâncias de decisões. Tem menos chance de refletir criticamente sobre o mundo e seu tempo. Pode ser facilmente manipulada. Vamos lembrar, para não perdermos o hábito de falar de literatura, de “O conto da aia”, de Margaret Atwood, e “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury. Onde foram parar os livros na República de Gilead? Para onde a supressão da circulação de conhecimento pode levar a humanidade? Além dos nossos problemas estruturais de educação, há um particular desinteresse do poder público em investir em políticas de formação de leitores. Num país com mais de 200 milhões de habitantes, onde quase metade da população não tem o hábito de ler, o que poderíamos ser se compartilhássemos leitura, interesse e conhecimento de forma democrática?

 

DA – O que você não endossa nesse estado de coisas ao qual chamamos de pós-modernidade?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Sou um espectador, com participação mínima na vida ativa de meu país. Pior, sou um espectador desatento, alterno horas de pretensa atenção e horas de devaneios. Não é um lamento, digo isso conformado. Sou um leitor em primeiro lugar. Para cada mil livros que leio deverei contribuir de forma tímida com um que escrevo. E observo nosso tempo com muita confusão e poucas conclusões. Reflito diariamente, mas sem exigir de mim mesmo uma definição sobre as coisas. Sabe como vejo o mundo? Como observo nossa jornada através da história? Como se lesse algo que acabo de escrever e que vou modificando, entendendo de uma nova forma, percebendo as movimentações de palavras e sentidos numa frase, num parágrafo. Mesmo depois de ter revisado doze vezes e receber o livro da editora, se não quiser sofrer, não o lerei para não querer reescrever depois de impresso. É como leio traduções ou um livro qualquer: começo a arrumar as sentenças como se fossem minhas. Quando percebo minhas divagações retorno para meu papel de leitor novamente. Observo essa fluidez e velocidade próprias de nosso tempo com espanto. As transformações são vertiginosas e na vertigem perdemos momentaneamente o autocontrole. É como um livro novo que faz você ler e subverter todas as coisas que aprendeu até aqui sobre escrita e leitura. Mas penso que esse estranhamento deve ter existido durante toda a jornada humana com intensidades diferentes. Quando leio Lima Barreto, penso nas inquietações de seu tempo, que transparecem em sua obra, e o que remanesce até o nosso tempo de tudo que ele possa ter refletido ou não. Estar no presente, engolido pelo caleidoscópio da história e do tempo, não garante o distanciamento necessário à reflexão.

 

DA – Quando poderemos dizer que um autor obteve sucesso com seu ofício?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Quando um único leitor vier até ele para dizer que um parágrafo do que escreveu lhe provocou alguma reflexão. Isso é o que espera quem publica, quem compartilha pensamentos e escritas com o público. Quando publicamos algo, por qualquer meio, não sabemos em que mãos irá parar. Mas se alguém que lhe desconhece escreve um e-mail ou indica a leitura de seu trabalho é porque algo pode ter ocorrido na experiência entre narrativa e leitor. A vida de uma obra só se ilumina nesse espaço “entre”. Uma obra não tem vida ao ser escrita ou enquanto está na imaginação de um único homem ou mulher. Ela ganha vida a partir do contato. É um espaço mágico onde a paixão pela experiência humana irá ocorrer. Imagino o que diria se encontrasse os escritores que me incendiaram de paixão pela leitura e escrita. O que diria sobre suas obras que não me abandonam mesmo passado tanto tempo. Como elas contribuíram para o que sou. Sei também que virão muitos autores, talvez alguns ainda por nascer, que me trarão essa mesma paixão. Um autor só obtém êxito com seu ofício quando consegue iluminar esse espaço entre a obra e o leitor.

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

 

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123ª Leva - 01/2018 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Natália Agra

 

Desenho: Raquel Piantino

 

ESTRELA-DO-MAR

Para Lis

 

que espetáculo é a palavra crepúsculo!
labirinto-oceano
estrela cadente que valsa céu abaixo
segredos de água-viva
do navio projeto-me em concha, um par de mãos dadas
vieira-vênus:
……………………(explosão da aurora)
que palavra é estrela senão chuva?

 

 

 

***

 

 

 

LOVE SONG

 

quando você me aperta o coração
cortando da gaivota
o silêncio
da solidão, o frio
aprendo aos poucos os acordes de “La Vie en Rose”
te dou metade da palavra amor
e espero do caminho,
……….a outra metade

 

 

 

***

 

 

 

TROCO EM BALAS

Para Angélica Freitas

 

hoje troco quase tudo por açaí
e tranco a chave
hoje troco a vereda pela exaustão do caminho mais longo
troco a corneta pela flauta doce
hoje troco farpas por gentilezas
e deixo anotado na porta da geladeira
hoje troco quase tudo por bala
troco a dieta por milk shake
troco o reiki por haicais

hoje troco passeios em Vênus por meias voltas pela casa
deixo o vento ser uivo em meus cabelos-redemoinho
hoje troco quase tudo por nada
troco nada por açaí e balas
hoje troco arqueiros por flamingos
e ensino o alvo
troco a Via Láctea por farinha láctea
hoje troco quase tudo
e passo o troco em balas

 

 

 

***

 

 

 

TOTALIDADE

 

I

abrir a porta quieta
ouvir o choro violáceo da viúva
o coro do breu
aqui comigo
uma aliança
a infância revestida inflama
cintila o inconcebível fim
posto que o vento perturba
mexiam também as pétalas
separando-se do botão
diminuída em si a ternura
abro a boca que desde a aurora silencia

trago-o de volta
percebo num instante a demora
em um sonho revela-se
a carta da morte
a totalidade do corpo

 

II

a floresta de noite em
compasso
de longe a chuva
quebra gravetos
fora de mim, há
pessoas chorando de medo
a hipnose é um veneno
miosótis
há pessoas morrendo lá fora
muitas

 

III

o sol quebra por trás dos prédios
desmaiando em cinza inglória
a morte silenciosa

 

IV

onde estaremos amanhã?

 

V

deitados
na grama
olhando
a chuva
se aproximar
de repente

 

 

 

***

 

 

 

POEMA DO INFINITO

Para Fabiano

 

tâmaras maduras em teus quadris
corpo em flor de anis
escapa vivo num torso místico:
todo o profano
Aruanda é aqui
nesta cama

o tempo, naquele instante
um tear
vislumbrando no outro a própria estranheza
(carne e cios duros)
castelã com unhas de gatos
costas arranhadas
hímen e rins como animais em asas

falena volteia erguido libertino
não coma a borboleta
(veneno e lua lambem a mesma boca)
sinédoque doce Shiva
num toque de chuva
abraça vísceras sem palavras

por último, lâmina-lança
bruta serpente calada
(Aruanda, nossa eternidade)
éter, clarim
todos os sentidos
chama
e chuva

 

Natália Agra nasceu em Maceió, Alagoas, em 1987. É poeta e jornalista. Acaba de publicar seu livro de estreia: “De repente a chuva” (Corsário-Satã,2017).

 

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123ª Leva - 01/2018 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Paulo Bono

 

Desenho: Raquel Piantino

 

A puta de 50

 

Era uma cidade no meio do mato. Um desses fins de mundo onde você não encontra outdoors, flanelinhas, engarrafamentos, nem o M da McDonald’s. Lugares assim a solidão chega antes da novela das oito. Então perguntei ao vendedor de algodão-doce. Ele me garantiu a localização exata do puteiro.

Eles chamavam o lugar de Castelinho. De um lado, uma borracharia. Do outro, apenas mato e uma cerca torta. Nenhuma lâmpada acesa do lado de fora. Mas era possível escutar alguma música tocando fogo lá dentro. Havia esse tipo com boné sentado numa bicicleta. Apoiava-se entre uma Kombi e o portão de entrada.

– E aí, campeão – eu disse – as meninas estão no serviço?

– Estão. Você é de Salvador?

– Sou. Desculpa qualquer coisa.

– Quer ovo?

– Devagar, que história é essa de ovo?

– 7 reais, a dúzia. Galinha de quintal.

– Parece bom. Mas hoje só quero uma xotinha caipira.

– Mas se quiser ovo, meu nome é Zé da Monark.

– Tudo bem, Zé.

O cheiro de buceta parecia grudado nas paredes do Castelinho. Havia pouquíssima luz, mas achei uma mesa no canto. Do outro lado, um grupo apostava a vida e a morte numa mesa de sinuca. Incrível como esses caras do interior manjam de sinuca. De sinuca e de fazer cálculos rápidos. Havia também um pequeno salão onde dois casais dançavam uma versão brega de One, do U2. Apesar da música, eu escutava o choro de uma criança chegando de algum lugar daquele inferno. Claro, havia também as mulheres. Putas feias e mal vestidas. Sentadas no colo da rapaziada, bebericavam cerveja, riam das desgraças. Já que eu estava por ali, pensei em procurar a dona do Castelinho. Sempre achei que trepar com a dona de um brega era como chegar à fase final e encarar o chefão de um videogame. Então esse sujeito se aproximou. Alto, branco, pele avermelhada, quase careca. Parecia muito puto com a vida que Deus lhe reservou. Não sei dizer se era canhoto, mas não tinha o braço direito.

– O QUE VAI QUERER? – disse.

– Me diz uma coisa. O estabelecimento tem um proprietário ou uma proprietária?

– MINHA MÃE.

– Ah…

– O QUE VAI QUERER?

– Vodka.

– SÓ TEM CACHAÇA.

– Serve.

– MAIS ALGUMA COISA?

– Desculpa perguntar, mas sua mãe parece com você?

– PARECE. MAS O NARIZ É DE MEU PAI.

– Então me vê só a cachaça.

Logo o herdeiro do castelo trouxe meu copinho.

– Cara, acho que tem alguma criança chorando por aí – eu disse.

– É MEU FILHO.

– Então tá em casa…

– MAIS ALGUMA COISA?

– Tudo certo, chefe.

Lá se foi o paizão. Dei o primeiro trago e fiquei ali tentando lembrar como a vida me trouxe até aquela mesa. A minha falta de adequação. A falta de grana. As escolhas erradas. Os anos que passavam. A vida encolhendo e se escondendo no meio do mato. Então dei mais um trago e notei aquela puta sentada no fim do balcão. Ao contrário das outras, estava só. Não bebia, não ria. Só estava ali, no escuro. Esquecida. Essa mania de me identificar com os desprezados me fez levantar e me aproximar do balcão. Morena. Cabelos longos. Um pouco magra além do ponto. Mas a novela já havia acabado faz tempo e eu estava subindo pelas paredes.

– Qual o seu nome?

– Arlene.

– Por que está sozinha, Arlene?

– Não gosto das pessoas.

– Inteligente da sua parte.

– Você também não tem amigos?

– Só um. Zé da Monark.

– 50.

– O quê?

– Chupo, dou o xibiu, faço ver estrela.

– É tudo que preciso, Arlene.

Arlene me puxou pela mão e me levou por um corredor sem fim, onde você só escutava as putas se divertindo e o choro estridente do bruguelo. O quarto era escuro. Só uma cama e uma cortina na janela. Arlene sentou e começou a chupar. Pedi um tempo. Corri pra janela, mas vomitei na cortina. De repente, a criança parou de chorar. Respirei um pouco o ar gelado e aquilo me fez bem. Então bateram na porta. Bateram forte. Abri e era o Canhota. Com um só braço, o escroto fazia um barulho desgraçado.

– Vai me dizer que Arlene é sua irmã? – eu disse.

– TERMINOU?

– Como assim?

– TEM MAIS GENTE QUERENDO O QUARTO.

– Você que manda, canhota.

– ANDA LOGO. E NADA DE BATER NA MOÇA.

Voltei pra Arlene. Mandei ficar de quatro, botei a camisinha e enfiei. Quer dizer, acho que enfiei. Ou meti no meio das pernas, não sei, talvez minha ferramenta não fosse compatível, só sei que eu não sentia as paredes. Veio a suadeira. E o suor ardia nos olhos. Foi uma luta, uma caçada, a batalha do século, vi estrelas e cometas, mas consegui terminar. Então Arlene se levantou, acendeu a luz, se vestiu e ajeitou o cabelo. Foi quando peguei um lance estranho. Parecia que Arlene não tinha um olho. Ou era um olho de vidro. Ou era uma mancha branca. Deixei soltar um “puta que pariu!”.

– Algum problema? – disse.

– Ham?

– É meu olho?

– Que olho?

– Se incomodou com meu olho?

– O que tem seu olho?

– VOCÊ JÁ SE OLHOU NO ESPELHO?

– Não tem nada demais no seu olho.

– VOCÊ TAMBÉM É FEIO!

– Arlene…

– VOCÊ É MAIS FEIO QUE DOR NO RIM!

– Calma, Arlene. Vai acordar a criança.

– VOCÊ É FEIO COMO A DOR DA MORTE!

– A gente não precisa disso, Arlene. Vamos ficar numa boa. Olha, vou te dar 100. Você é linda, Arlene. Você é linda.

Arlene sorriu na mesma hora que escutamos o bracinho pesado do Canhota. Então fizemos as pazes. Depois tomei mais um trago e deixei o Castelinho. No caminho de volta, enquanto respirava aquele ar gelado, comecei a imaginar. Eu podia abandonar tudo, morar naquela cidade perdida, casar com Arlene, montar uma mercearia bacana. Esquecer a cidade que me esquecia. Uma vida sem fila pra entrar em elevadores. Pensamentos que se perderam com os latidos de uma suruba de vira-latas. Eu precisava descansar. O ônibus saía às seis. Acertei relógio pra 5h45. A rodoviária ficava bem ali ao lado da pousada de portão amarelo.

 

Paulo Bono nasceu e cresceu nas ruas da Lapinha, em Salvador. É flamenguista, publicitário, escritor e roteirista. Publicou Espalitando (Cousa, 2013, Contos e crônicas), participou da coletânea Casa de Orates (Mondrongo, 2016, Contos) e escreveu O Garoto (Saturno Filmes, 2014, 14 min.).

 

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123ª Leva - 01/2018 Destaques Gramofone

Gramofone

Por Daniela Galdino

 

Rafique Nasser – Arado

 

 

Ventos de dentro, quando nascem e tomam corpo de gente, ignoram contenções. Precisam soprar e dançar nos quintais dos dias, das noites e das madrugadas. Precisam varrer emudecimentos, rodopiar nos terreiros de que somos feitas/os, acordar o chão e lançar nuvens de poeira ocre-vermelho-cobre no mundo.  Esses ventos são abalos necessários que incham de vida a arte e de arte a vida; só têm significância se sentidos por outres também atravessades por dentro (esse espaço ainda nem tanto conhecido) – cada qual ao seu modo de intensidade(s).

Ventos profundos e dançadores têm espalhado para outras paragens o universo sonoro de Rafique Nasser. Nascido e vivido em Valença (território cultural do Baixo Sul Baiano), com seus 19 anos, esse jovem negro do quintal de si dialoga bela e intensamente com o vasto acervo do cancioneiro nordestino setentista: Fagner,  Ednardo, Orquestra Armorial, Ave Sangria, Lula Côrtes e Zé Ramalho manifestados nos poderes do invisível em Paebirú (e tantas outras possibilidades musicais daquela década vibrante). Também Rafique Nasser acolhe em si outras cantorias no que há de mais esperançoso, logo afrontoso: quem sabe um Dércio Marques na sua potência sonhática, por exemplo. Esses sobrevoos de Rafique reverberam aqui e acolá no EP Arado (2017).

Num ano bastante ebulido no cenário musical baiano, Arado, primeiro registro sonoro de Rafique Nasser, ficou entre os dez finalistas na votação de melhor disco de 2017, organizada pelo site El Cabong. Muito bem produzido no interior da Bahia, o EP reúne compositores e músicos de Valença, Ilhéus, Itabuna, Ipiaú, o que me faz pensar num elemento a mais dessa profundeza, desse lado de dentro que é tão saltante em Arado. Não por estar nas indicações do El Cabong esse EP captou a minha atenção. Conheci Arado a partir da indicação virtual feita por um amigo. E confesso: dei o play em casa mesmo, nos trânsitos de afazeres de casulo. Logo na abertura, suspendi as movimentações domésticas e fui colecionando pequenos assustamentos provocados por deliciosas descobertas. Foi primeiramente na interioridade do casulo que fiz o mergulho (novamente o lado de dentro).

 

Rafique Nasser / Foto: arquivo pessoal

 

Fiquei e fico sem poder baixar a guarda da esperança quando me re-inaugurei (e continuo reinaugurando-me a cada nova sessão sonora) ao ouvir o EP de um jovem que, com menos de vinte anos de permanência neste mundo, salta para trás e nos traz um caçuá transbordante em diálogos musicais. Rafique Nasser chega e não vem só. Uma falange de cantadores (os de ontem, os de hoje, todos permanecentes) toma assento e lança focos de incêndio nas nossas profundidades – que resguardam os sonhos, amores, as esperanças políticas. Já na primeira música, manifestado em psicodelias cortantes, Rafique brada e canta com a rouquidão macia de quem muito tem a dizer ao mundo: “Depois da bomba atômica vem/ um cogumelo para nos alimentar” (Rafique Nasser, Na Valença)

“O rasgo na terra é preciso” (Rafique Nasser/Ayam Ubráis, Arado). Diria que certeiro, necessário. Daí brotam os sentidos do novo, dos poderosos frutos teimosamente gestados em tempos tão ameaçadores quanto estes que nos cortam a experiência de existir. E assim é Arado: “esse canto torto”, que fere a inércia e alimenta movimentos de re-existências. Sensivelmente gestado pelas vias da marginalidade e camaradagem artística, esse EP pode ser acessado nas principais plataformas virtuais e vem como intenso chamamento para que a gente, do lado de cá, avie, tome rumo e corra trecho negando a imobilidade que parece ter se transformado no mote do agora que nos é imposto. São cinco canções, cinco chamamentos, cinco desafios/ventos de dentro, cinco intensidades imãtizando as nossas veredas do sensível.

Penso Arado como inauguração do jovem músico Rafique Nasser e também (re)inauguração nossa. Ver Rafique Nascer em poetência sonora é enxergar em nós ovo das esperanças cortantes, é “Deixar que Deus se vingue por nós/ já que o nosso algoz/ está sentado no trono do poder” (Rafique Nasser, Nessa terra). E assim, Rafique, nascido, vai conosco (re-inaugurades) cosendo e colhendo ameaças ao desencanto, dançando em pontas de facas e lançando ao mundo canções cortantes que mantêm “teso o arco da promessa”, como bem diz outro baiano, Caetano Veloso. Com olhar poético e voz dissidente, Rafique Nascer, acompanhado por tantes, é também o que eu chamo de “interrogação vagando com pressa”. Daí a experiência imprescindível de ouvi-lo em Arado.

 

 

Daniela Galdino (BA) é Poeta, Performer e Produtora Cultural. Docente da UNEB. Como Poeta, publicou Espaço Visceral (Editora Segundo Selo, 2018), Inúmera/Innumerous (Mondrongo, 2017), Inúmera (Mondrongo, 2013), Vinte poemas CaleiDORcópicos (Via Litterarum, 2005). Organizou Profundanças 2: antologia literária e fotográfica (Voo Audiovisual, 2017) e Profundanças: antologia literária e fotográfica (Voo Audiovisual, 2014).

 

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123ª Leva - 01/2018 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Fábio Pessanha

 

Desenho: Raquel Piantino

 

 

Caía.
Transpunha a solidez
dos fatos para a solidão
dos fetos.

Bati em retirada
ao ter cobertos os cílios
pela força dos ventos. Nunca cheguei
ao destino. Meus olhos extraviavam

o peso…….largo…….da..expectativa.

 

 

 

***

 

 

meus ombros emigram de mim para os pássaros
Manoel de Barros – Poesias (1947)

 

 

meus ombros transitam. partem
de mim à procura de pássaros, cujo voo
leva o vento nas costas e o dorso
se erguia forte frente ao contraponto
da velocidade. na trajetória das asas,
perdia-se o rumo das coisas e só restava
o que pendia do espaço entre o pescoço
e o resto do corpo.

os ombros estão presos
ao futuro dos pássaros,
são indícios
para o mergulho dos homens
na envergadura dos braços.

 

 

 

***

 

 

 

o que de mim se vê perde-se
nos estilhaços do meu nome

uma teoria acústica se erige
pela subjetividade sonora

da palavra que nunca serei
mas os retalhos recobram

a difração do eu atado
à imagem muscular

nascida do encontro entre a voz
e o estrondo mudo dos tecidos

 

 

 

***

 

 

 

e se de repente
se repetisse
o gesto não
como uma agonia
acostumada,
mas somente aquela
pontada
aguda que segue o ritmo
inalcançável das flores?

o tempo indigno
das mãos deita sobre
a face desconhecida
do espelho. a imagem
ali nascida observa
tudo que se reflete

e vê
na repetição ardida
dos olhos
o ineditismo perdido
das rugas.

quisera eu ter mais tempo
para me jogar naquela piscina
azulejada que forma uma linha
côncava perpendicular
ao espelho imperfeito da água
e assim surpreender
.meus mergulhos.

 

 

 

***

 

 

 

toco o muro. nele,
digitais encrespadas

pela sílica,
pelo cimento,
pelo tempo

que comeu a superfície chapiscada
em lances rápidos de movimentos
ensolarados.

cai a chuva.

tudo que é vivo se molha.

achei pensamentos
suspensos pelo carro
que passava em alta
velocidade e lançava
contra o muro minhas
mãos encorpadas d’água.

a chuva molhava
a rua e o movimento
rápido dos pés,
dos pneus.

não sei o que fazer
quando retirarem minhas mãos
do muro. ficamos ligados
como meninos achados na chuva.
era uma simbiose,
quem sabe.

 

 

 

***

 

 

 

POESIA
tinha uma janela escancarada no meio das costas por ela se previa a quadrangular visão do que se infiltrava radiante POESIA ERA OS BRAÇOS SE ENVERGANDO ANTE A BRUTALIDADE SURDA DOS VENTOS havia um fenômeno aquoso transbordando os olhos tudo era fluido e delirante nada se via pela secura das pálpebras POESIA ERA O ABRIGO DO ESCURO ENTORNANDO nas calçadas por onde andava colecionava a desorientação dos passos sempre encontrava chinelos trocados sempre eram mais calçados entulhados até o ponto de imprimir ansiedade nos adereços do chão POESIA ERA O QUE SE PERDIA tinha um POEMA escancarado no vão das costas tinha
POESIA

 

Fábio Pessanha é poeta, doutorando em Teoria Literária e mestre em Poética, ambos pela UFRJ. Publicou ensaios em periódicos sobre sua pesquisa atual, a respeito do sentido poético das palavras, partindo das obras de Manoel de Barros e Paulo Leminski. É autor do livro “A hermenêutica do mar” – Um estudo sobre a poética de Virgílio de Lemos e coorganizador do livro “Poética e Diálogo: Caminhos de Pensamento”, além de participar como ensaísta em outros livros.

 

 

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123ª Leva - 01/2018 Destaques Olhares

Olhares

Sutilezas da irreverência

Por Fabrício Brandão

 

Desenho: Raquel Piantino

 

A vida dilui-se em formas. Seus contornos nos falam de mundos próximos ou quiçá distantes. Universos que abrigam seres e suas narrativas, sinas a revelarem sintomas do ato de existir. Se existir é domar o sopro vital, talvez sejamos tidos como criaturas a repetir a mecânica das coisas. Se existir for algo além, estaremos, pois, diluídos na paisagem dos instantes.

Atravessar o tempo é uma das inúmeras possibilidades de se olhar a tudo como se fosse a primeira vez. Aí reside a permanente chance da surpresa, do encontro não marcado. O maior desafio humano parece ser o de não se repetir diante da colossal jornada da existência. Quando perdemos de vista a curiosidade da descoberta, algo em nós talvez nos coloque mais próximos do fim. E o término das expectativas e buscas pode representar a própria finitude do indivíduo.

 

Desenho: Raquel Piantino

 

Mas o que fazer diante de um mundo multifacetado? O que aproveitar do banquete imagético que ele nos fornece? Talvez uma pessoa como a artista plástica Raquel Piantino tenha algo a nos dizer a respeito. Sua arte está muito próxima de um mergulho ampliado das percepções da vida. As figuras humanas por ela apresentadas em seus desenhos são parte integrante dessa tentativa incessante que empreendemos de domar os ímpetos do viver.

Ao nos debruçarmos sobre os desenhos de Raquel, podemos notar a urgência que habita a linguagem das formas. Mesmo nos contornos mais silentes, algo quer falar, invocar ao mundo a veemência de um verbo plantado desde sempre na tessitura humana. Assim, corpos e ambientes se integram e harmonizam, convocando os apreciadores da arte a uma detida incursão pelos gestos simples e ao mesmo tempo relevantes em nossa tão controvertida matéria cotidiana.

 

Desenho: Raquel Piantino

 

Para abordar as nuances complexas da realidade que nos acomete, Raquel passeia pelas rotinas dos homens como a demonstrar que ali também está o espírito irreverente das coisas. O real emerge com uma ajustada dose de humor e criticidade, fazendo-nos crer que a experiência dos dias sobre o nosso planeta equilibra efusões e precipícios. Com tamanha empresa nas mãos, a artista desvia-se de um mero jogo de oposições das forças contrastantes e não adota engenhos maniqueístas. Afinal, a nossa natureza de seres imperfeitos é um organismo através do qual as dualidades se mostram amalgamadas.

Diante do incorrigível espírito humano, é inútil o encargo de separarmos o bem do mal. Acertadamente, este não é o interesse de Raquel Piantino. No entanto, engana-se também quem possa considerar que a artista, ao navegar pelas águas de alguma fantasia ou abstração, estaria promovendo um mergulho frouxo pelas alamedas da arte. Pelo contrário, seus recortes plenos de serenidade e contemplação trazem à tona, sobretudo, um inquietante ato de provocar nossos lugares de acomodação.

 

Desenho: Raquel Piantino

 

Raquel nasceu, vive e trabalha em Brasília. Com uma formação marcantemente influenciada pelo cinema de animação, além de vertentes como quadrinhos e design, a artista já trabalhou em curtas-metragens, projetos experimentais e também comerciais. Também desenvolve animações ópticas com brinquedos mecânicos e, como ela mesma confessa, sua busca está voltada para a simplicidade do traço e o potencial simbolismo encerrado nas imagens.

Quando a arte não se furta à perspectiva de perceber a dinâmica das coisas, abre-se um valioso precedente, qual seja o de enxergar nos fenômenos mundanos uma fonte possível e inesgotável de apreensão dos sentidos. Os desenhos de Raquel Piantino são como lembretes de que estamos vivos. Mais que isso, vivos e passíveis de uma transformação que nem sempre envia seus presságios.

 

Desenho: Raquel Piantino

 

* Os desenhos de Raquel Piantino são parte integrante da galeria e dos textos da 123ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

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122ª Leva - 07/2017 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra

Contos que traduzem a conflitante realidade do povo negro brasileiro

Por Geraldo Lima

 

 

Cristiane Sobral [poeta, escritora, atriz, diretora e professora de teatro, nascida no Rio de Janeiro e radicada em Brasília] é uma das vozes mais contundentes da literatura negra brasileira. E, ao falar de literatura negra, falo do texto literário (poesia ou prosa) que, segundo Zilá Bernd, no seu livro Introdução à literatura negra (Editora Brasiliense, 1988, pág. 95), “configura-se como uma forma privilegiada de autoconhecimento e de reconstrução de uma imagem positiva do negro”. É, também, literatura que tem o compromisso de denunciar a discriminação racial e o quadro de exclusão em que vive a maior parte da população negra no Brasil. É, em suma, uma literatura que se propõe como militante, engajada, com todos os riscos que isso acarreta. E é assim nos dezoito contos que compõem o livro O tapete voador (Editora Malê, 2016), de Cristiane Sobral.

Nesse seu livro, Cristiane Sobral nos dá mostra de como esse tipo de narrativa se propõe como objeto estético e, ao mesmo tempo, como instrumento de conscientização do indivíduo negro sobre a importância de assumir a sua verdadeira identidade racial e cultural. O confronto, aí, é contra a ideologia do embranquecimento. A estratégia, nesse caso, é tomar uma situação cotidiana que exponha o problema da discriminação racial ou do conflito identitário do negro brasileiro, de modo objetivo, quase didático, de maneira que o leitor saia da leitura do texto com sua consciência mudada, ou, na linha do que alguns dos contos de O tapete voador sugerem, renasça com nova identidade cultural ou resista sem abrir mão das suas convicções raciais.

De imediato, ficamos tentados a ver nesse tipo de procedimento literário um defeito ou uma pobreza estética, ao qual faltaria sutileza na construção da narrativa e na representação psicológica das personagens. Sobre isso, nos alerta Zilá Bernd (ibid., pág. 98): “Assim, em literatura negra, a questão de avaliação do nível estético atingido não deve se pôr como elemento exclusivo de análise, ou como preocupação única da crítica. Jack Corzani, autor da importante obra La Littérature des Antilles-Guyane Françaises (1978), (…) recoloca o problema de privilegiar o estético no estudo de obras que se querem essencialmente funcionais, concluindo que esse critério corresponderia a condenar a pesquisa, a priori, à esterilidade”. Assim, devemos ver, em primeiro plano, o caráter de funcionalidade desse tipo de procedimento narrativo para explicitar, no caso, os problemas raciais e sociais que afetam o negro brasileiro.

E é de modo consciente e corajoso que Cristiane se equilibra entre estes dois polos (o estético e o ideológico) na construção dos dezoito contos que compõem esse seu livro. A sua habilidade na construção da narrativa que privilegia o elemento estético e a fabulação fica visível no conto Bife com batatas fritas. Nesse conto, a questão estética e a temática social são bem articuladas, de modo que o leitor não tem como não se comover com o quadro de miséria e orfandade de uma criança de periferia. Esse é, aliás, um dos melhores contos do volume e poderia figurar em qualquer antologia dos melhores contos brasileiros. No conto O limpador de janelas, o que chama a atenção é o modo como a narrativa se constrói a partir de frases muito curtas, fragmentadas, o que torna o ritmo acelerado e surpreendente, dando conta das várias peripécias amorosas do protagonista.  Ao final, o personagem Samuel, um quase pícaro, um “pegador” nato, verá que a sua condição de negro em terras tupiniquins vai sempre lhe reservar surpresas desagradáveis. Por falar em final, é de se observar que há, propositalmente, um elevado tom de idealização em alguns casos, beirando o inverossímil, como o que acontece no conto Metamorfose, em que tudo acaba exageradamente bem.

Ainda que predomine o realismo, algumas histórias flertam com o fantástico, como nos contos O galo preto e A samambaia.  O tom de sarcasmo, de deboche e de ironia molda algumas dessas narrativas, tornando ainda mais agudo e crítico o olhar da autora sobre os episódios de discriminação racial e de negação da própria negritude, como é o caso dos contos Lélio e Afrodisíaco (neste, ironiza-se o propalado vigor sexual dos negros). Ora narradas em terceira pessoa, ora em primeira – nesse caso, majoritariamente narradas por mulheres –, as histórias compõem um painel de situações variadas em que o indivíduo negro se vê frente a frente com a questão do preconceito racial, da miséria ou da crise de identidade. A subjetividade feminina é também ponto de destaque nessas histórias de enfrentamento e reconstrução da imagem, como nos contos Vox mulher, em que a protagonista expressa, numa linguagem marcadamente poética e intensa, seus desejos e seu orgulho de ser mulher negra, e Pixaim, no qual uma mulher rememora, de modo comovente, sua infância passada no Rio de Janeiro e marcada pelo sofrimento de se ver obrigada a mudar sua imagem, com o alisamento desastroso do cabelo, e reafirma, já residindo em Brasília, seu orgulho e sua alegria de se ver no espelho como ela realmente é: uma mulher negra e madura. “A gente só pode ser aquilo que é”, afirma ao final, num claro recado aos que procuram negar a sua origem.

Nem sempre os personagens são pessoas que negam a sua negritude. Algumas, pelo contrário, assumem a sua ancestralidade e suas características negras e as defendem com convicção. Tomemos, como exemplo, o conto O tapete voador, que abre o volume, e o conto Renascença, que o fecha. No primeiro conto, narrado em terceira pessoa, a personagem Bárbara, de origem humilde e orgulhosa da sua cor, é funcionária de uma grande empresa e tem o reconhecimento pelo seu trabalho. No momento, ela pretende se aperfeiçoar mais ainda e pede o apoio da empresa para fazer uma pós-graduação. Mas qual não será o seu espanto e a sua decepção ao ser levada à presença do presidente, que deve autorizar esse apoio, e encontrar lá, no posto mais alto, um homem negro? A decepção ficará por conta do que ele, partindo da sua estratégia de ascensão profissional e social, vai lhe aconselhar a fazer em relação à sua aparência. No segundo conto, também narrado em terceira pessoa, encontramos a personagem Teresa prestes a romper com a sua orientação religiosa. Negra, charmosa e orgulhosa da sua cor, sente-se preterida pelos homens negros da igreja evangélica que ela frequenta. “Teresa gostava muito da sua igreja, mas seu corpo negro também sentia naquele ambiente o peso do preconceito, da discriminação. Isso gerava muitos questionamentos. Por que não despertava o interesse dos rapazes da congregação? (…) O fato é que, naquela comunidade, os homens negros normalmente costumavam casar com mulheres brancas…” O fato de ser independente e ter um estilo próprio (“não alisava os cabelos”), chocava os outros fiéis, e sempre era aconselhada a mudar a sua aparência. Assim como Bárbara, só lhe resta resistir e ir em busca de um convívio em que seja valorizada sem precisar negar a sua identidade racial.

Num país em que a representatividade da população negra é baixíssima nos meios literários, nos quais circulam com maior desenvoltura as obras dos autores brancos e das autoras brancas, é de se celebrar o trabalho de escritores e escritoras como Cristiane Sobral, que dão voz e vez em suas narrativas e poemas à nossa gente tão excluída.

 

Geraldo Lima é natural de Planaltina-GO e reside em Brasília, DF. É escritor, dramaturgo e roteirista. Tem algumas obras publicadas, entre elas, “Baque” (conto, LGE Editora), “UM” (romance, LGE Editora), “Tesselário” (minicontos, Selo 3×4, Editora Multifoco), “Trinta gatos e um cão envenenado” (teatro, Ponteio Edições) e “Uma mulher à beira do caminho” (Editora Patuá). Participou de algumas antologias literárias e tem textos publicados em jornais, suplementos literários, revistas impressas e revistas eletrônicas, sites e blogs. É autor do roteiro do longa de ficção “O colar de Coralina” – direção de Reginaldo Gontijo – e da peça de teatro “Trinta gatos e um cão envenenado”, encenada em 2016 em Brasília. E-mail: gera.lima@brturbo.com.br

 

 

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122ª Leva - 07/2017 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Teresa Coelho

 

Foto: Bárbara Bezina

 

estarei distante nos próximos 100 dias

 

[sem magia]
crio rituais para ser sozinha
como se a solidão
quisesse jantar
todas as noites
mas nunca chegasse a tempo
ela encontra meu corpo
recolhido
e
deita
em silêncio
como se cavasse uma cova
para uma multidão

desconhecida.

 

 

 

***

 

 

 

Construção

 

Este é o corpo
que funciona com
cordas suturadas
por andaimes
imaginários

o aço o sonho
o esquecimento
o sol o quadrado
o dia o estômago
o sexo o suor
as flores do outro
lado da rua
dançam todos
pendurados
sem grandes
promessas

—- Ouve o teu corpo
nascendo dos arcos inflamados
do fim de todo caminho
—- Ouve o teu corpo
nascer

Somente o que é possível
ser criado no vazio

– recitar poetas vivos
– boicotar o sex shop
– pular de viadutos esquecidos
– expectativas alcançadas.

 

 

 

***

 

 

 

a apoteose dos anos é o silêncio.

 

a última partida

quando soltei
a tua mão
descobri que nunca
gostei de futebol

perguntar sobre o jogo
era uma forma de
te amar
longe de mim
– hoje vago
como se estivesse
numa arquibancada
vazia –

[aquela escada
já desmoronou
pensei que tuas costas
fossem minha babel]

o último letreiro da partida:
“a felicidade é uma arma quente”

quando subi no ônibus
vi as janelas todas
decidindo
a loucura
o desastre
o grande desencanto final

rezei com todos os idiomas
do desespero
“protège moi
protège moi”

despi a cidade
com a violência
de uma criança

destroçada.

 

 

 

***

 

 

 

Isabel é codinome para partir

 

08h ela me acordou
08h30 eu assoprava o café
o café
doce demais
fraco demais
ausente
08h35 ela ajeitava a toalha da mesa
repetidamente
08h46 eu respirava mais baixo
09h ficaríamos em silêncio
perpetuamente

09h43 ela me comeu

11h57 eu ouvi o portão
gritar
entendi todas as cores
do mundo
todo o cheiro
desapareceria
todo o céu
seria uma parede rachando
uma rua em desencontro
um vulto do futuro

11h59 ela havia partido
definitivamente.

 

 

 

***

 

 

 

o outro lado do mundo alguém acerta sem saber

 

o amor devia ser assim feito preparar cuscuz
a gente mede a quantidade
com a xícara preferida
tem gente que nem precisa mais
mede pelo olho
pela boca
pelo cheiro
vai molhando aos poucos
e aperta
aperta
fica com a mão toda cheia de pequenos
cuscuz
porque antes a gente não podia
tocar
primeiro a gente molha
e desmancha as partes brutas

daí precisa esperar

porque o amarelo não vai brilhar
só vai absorver aquela água
não me pergunte como

a gente prepara a cuscuzeira
deixa uma outra água separada
porque o tempo vai fazer a gente
esperar
que essa outra água se transforme
mude de corpo
e encontre o cuscuz
para aquecê-lo

porque o amor deveria ser
o cuscuz na cuscuzeira
porque a gente sabe que não pode sufocar

o jeito que ele cai
nessa cuscuzeira
é determinante

não pode apertar desta vez
presta atenção
às vezes ele fica seco
às vezes ele fica molhado
às vezes ele vai embora
pelo ralo
porque

veja só

é muito complexo
encontrar alguém que acerte
pode ser a senhora da barraquinha de café
pode ser uma estrangeira
pode ser a sua vizinha

mas é muito difícil.

 

Teresa Coelho é recifense criada em Bonito (PE). Acredita no vulto dos desconhecidos, gosta de beber cerveja sozinha e lê poemas para as paredes. É graduada em Letras – Português/ Licenciatura pela UFPE. Publicou poemas na mallarmargens revista de poesia & arte contemporânea (RJ), no livro A TORRE: antologia de poesia confessional, cartas e diários íntimos (Castanha Mecânica, 2017), nas revistas Malembe (PB) Garupa e nos zines NAUvoadora (PE) Lambadaria (PE).