Entre aquilo que consideramos realidade e o que é produto de nossos arroubos imaginativos, parece haver uma linha tênue e quase invisível. É o momento em que ousamos ir além do que nossas percepções têm como algo fácil a ser apreendido e rumamos para outra dimensão da existência. Nesse cenário, uma conjunção entre o concreto e o abstrato confere sentido às maneiras que temos de encarar a vida e seus mais distintos matizes.
Na forma como promove intervenções no universo pictórico de um mundo dotado de delicadezas é que um artista demarca um caminho singular de possibilidades. Assim parece ser quando deitamos os olhos por sobre o trabalho da fotógrafa Bárbara Bezina, criadora que chama atenção pelo modo como harmoniza distintas porções da matéria humana.
Nascida em Necochea, na Argentina, Bárbara transita entre mundos paralelos com a pungência de sua arte, sobretudo sua maneira de conceber os objetos de suas imagens como sendo frutos de um exercício marcantemente intuitivo. Fazendo uso dos recursos da fotografia digital, a artista manipula os registros tomando por base uma interação entre a materialidade da vida e seu lado alternativamente onírico.
Foto: Bárbara Bezina
E eis que há um predomínio de figuras femininas representadas sob os mais variados prismas na criação de Bárbara. São mulheres que, envoltas numa aura de plasticidade sublime, caracterizam-se por refletirem enlaces poéticos da vida. Desse modo, somos conduzidos por alamedas imagéticas através das quais rostos, gestos e corpos engendram a língua secreta dos sentimentos. As possibilidades são múltiplas diante da perspectiva de se vislumbrar uma concepção da vida como sendo adjetivada pelo viés feminino.
Ao nos depararmos com a variedade de interpretações que as personagens femininas exercem no contexto criativo de Bárbara, abrimos a cabeça para crer que o efeito operado por suas imagens não pode ser percebido de maneira uniformizada pelos nossos sentidos mais básicos. Acrescente-se aqui o fato de que pessoas certamente mergulham de modos bem diferenciados no universo de uma artista que não lhes entrega facilmente os acessos de significação de sua manifestação criadora.
Mesmo que se olhe o mundo como um lugar repleto de seres e objetos de toda a ordem, nunca é demais considerar que a experimentação da arte é também um ato solitário no qual as visões e narrativas pessoais fazem significativa diferença. Não se trata de confinar artista e público a um espaço de restritas experiências; pelo contrário, é a percepção de que nos interstícios e silêncios uma determinada obra lança sobre nós suas epifanias.
Foto: Bárbara Bezina
Mirar as mulheres captadas por Bárbara é compreender que uma noção de espanto ali se produz, ou seja, é perceber que, muito além de uma mera fruição estética, tais imagens convocam as pessoas a sentirem também certo desconforto por estarem diante de uma representação densa da existência, a qual não somente pactua efusões, mas também pesos, desatinos e perdas.
Talvez o fato de optar por uma vida relativamente reclusa faça de Bárbara Bezina uma artista em permanente estado de alerta. A escolha pessoal de viver sozinha e longe do convívio social cotidiano pode, de alguma maneira, influenciar no resultado de suas criações. Tal opção de vida, sobretudo se considerarmos o silêncio como motor fundamental das mais distintas expressões artísticas, talvez seja uma espécie de catalisador das obras. Vivendo atualmente em San Juan, também na Argentina, ela já divulgou suas fotografias em diversas exposições tanto na Europa quanto na América.
Manejando cores e explorando formas e texturas as mais diversas, Bárbara deixa entrever também um caráter místico para suas imagens. É como se tudo fosse revestido por uma energia que nos convoca a compartilhar uma atitude de mistério e contemplação diante do papel exercido pelas personagens concebidas. De tal ordem é o impacto dessas figuras femininas que os olhos parecem transpassar o lado indizível das coisas.
Foto: Bárbara Bezina
* As fotografias de Bárbara Bezina são parte integrante da galeria e dos textos da 122ª Leva
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.
“O ser humano é o único que se falsifica. Um tigre há de ser tigre eternamente. Um leão há de preservar, até morrer, o seu nobilíssimo rugido. E assim o sapo nasce sapo e como tal envelhece e fenece. Nunca vi um marreco que virasse outra coisa. Mas o ser humano pode, sim, desumanizar-se. Ele se falsifica e, ao mesmo tempo, falsifica o mundo.”
(Nelson Rodrigues)
Não sei dizer quando começou a obsessão com as máscaras. Quando percebemos, todos estavam com seus rostos cobertos. Ontem mesmo, sentei no ônibus ao lado de um leopardo. No topo da cabeça, duas pequenas orelhas pontilhadas de manchas pretas sobre um fundo amarelado. Julguei que o objeto fosse de acrílico, mas era plástico. Havia dessas coisas: as classes mais baixas não dispunham de muito dinheiro para investir na confecção e acabavam improvisando. O resultado, às vezes, era desastroso.
Bela máscara, falei na primeira oportunidade, tentando chamar a atenção do leopardo. Quando ele se voltou para mim, pude ver seus olhos amarelados pelo corte no adereço. Talvez eu não tenha mencionado, mas havia máscaras para olhos também. Começou com as lentes de contato coloridas. Adiante, os rumos da criatividade. O leopardo não respondeu ao meu elogio. Ergueu uma das mãos como uma garra e fez um som gutural. Cumprimentei-o com um aceno e seguimos viagem.
Cheguei ao trabalho atrasado para variar. Pablo veio à minha mesa e reclamou dos prazos do projeto em que trabalhávamos. Usava uma máscara de abracadabra. Alternou o assunto e passou a me contar sobre suas aventuras no final de semana. Sentado sobre a bancada, falou como se as palavras tivessem prazo de validade.
ABRACADABRA
ABRACADABR
ABRACADAB
ABRACADA
ABRACAD
ABRACA
ABRC
ABR
AB
A
Alguém se aproximou sorrateiro. Colocou uma das mãos sobre o ombro de Pablo e perguntou sobre o andamento do projeto. Ele disfarçou o embaraço pelos atalhos da bajulação. Espetacular essa gaivota, chefe, disse referindo-se à máscara que nosso gerente usava. É um mandrião, ele corrigiu. Pablo tentou escapar da situação como pôde: ave magnífica, sem dúvida. Acabei por ajudá-lo. Abri uma planilha no computador e mostrei ao chefe que o projeto estava no prazo. Mantenha-o em dia, ele disse. Pigarreou, ajustou o nó da gravata e saiu. Tá sabendo que ele vai ser promovido no final do ano? Pablo perguntou assim que o gerente cruzou a porta da sala. Sei. E que diabos é um mandrião?, emendou. Virei-me para o computador e fiz a pesquisa: Mandrião — Ave da família Stercorariidae, conhecida pelo cleptoparasitismo. Cleptoparasitismo, nova pesquisa: forma de interação em que um organismo rouba recursos de outro organismo, geralmente um alimento que o outro capturou ou deixou armazenado.
Fui atendido por um chacal fêmea quando fui ao banco na hora do almoço. Tirei do bolso o boleto que precisava pagar e avisei que o código numérico não estava funcionando. Estranho, ela disse. Pegou o papel e começou a digitar a sequência no computador. Por que um chacal? O chacal uiva até a morte, ela disse. Olhou para os lados, confirmou que não era observada e segredou: é o que tenho vontade de fazer todos os dias, gritar até a morte. O chacal não é o símbolo de Anúbis? Ela fez que sim com a cabeça e a máscara acompanhou o movimento, as orelhas compridas do animal sacudindo para a frente e para trás. Os cabelos loiros também balançaram, escapando pela parte de trás do adereço. Ela se levantou, pegou um papel da impressora e me orientou a usar o novo código de pagamento.
Combinei um drinque com a mulher-chacal no fim daquele dia. Ela estava sentada em uma mesa próxima ao balcão quando cheguei. Não foi difícil identificá-la, apesar de não estar mais transfigurada no cão egípcio. Usava uma máscara peculiar.
É maia?
Não, é celta. Uma amiga trouxe de fora.
Deve ter custado uma fortuna.
Custou.
Você bebe um chope?
Não. Um Martini. Com duas azeitonas.
Pedi as bebidas ao primeiro garçom que passou. Um chope e um Martini. Com duas azeitonas. O homem-mosca anotou no bloquinho, pediu licença e se retirou para atender outra mesa. O que significa?, perguntei ao examinar a máscara que ela usava. Era toda moldada em couro, com ramificações que se entrelaçavam de uma extremidade a outra, muito parecida com a folha de uma árvore. Os olhos estavam expostos pelas duas aberturas na parte frontal e o corte para o nariz descia em uma abertura até a boca, por onde escapavam lábios pintados de azul. Tive vontade de lambê-los. Não significa nada, ela respondeu. Puxei assunto falando de trabalho, mas ela retesou a conversa. Débito, crédito, transferência eletrônica. O que quer saber? Sorri em resposta, aproveitando para experimentar a bebida que havia acabado de chegar. Ela prosseguiu: se é para falar de trabalho, vamos morrer de tédio. Recuei e disse que entendia. O que faço também não é nada interessante.
A conversa engrenou. Sorrimos de forma espontânea. Sorrimos quando sorrir significava apenas ser cortês e também quando era apenas o pincel da novidade falando por nós. Seu nome era Inês. Nome espanhol. Pura, casta ou cordeiro. Pesquisei o que podia sobre o nome antes do encontro, mas, na hora, não tive coragem de mencionar. Inês não me parecia nada daquilo. Faço aniversário hoje, ela falou. Sério? Não, é brincadeira. Só queria ver sua reação.
Fomos para minha casa depois do bar. Entre lençóis, ela confessou: lembra da história do aniversário? Lembro. Faço 35. Então era verdade? Era, foi um dos motivos de ter aceitado seu convite. Fui até a geladeira e peguei um bolinho recheado que estava guardado há semanas, sobras do aniversário de um sobrinho. Enfiei um palito de fósforo no doce e levei até o quarto. Risquei na lateral da caixa e acendi. Não dá para comer, mas você pode fazer um pedido. Ela fez. Depois apagou a chama com um sopro cuidadoso.
Inês examinava alguns livros em minha estante quando regressei da cozinha. Observei-a de um único ângulo, mas pude vê-la por vários outros. Os cabelos que escapavam da máscara estavam amassados e desordenados pelo tempo na cama. Vi a mulher um pouco acima do peso e as dobrinhas entre a barriga e as costelas. Pude ver os homens que antes ocuparam meu lugar; homens de prazer e dor, homens que sequer foram homens. Havia uma mulher também. Única, mas inesquecível. Vi um aborto, o medo dos filhos na hora errada. Vi seu primeiro emprego, uma loja em um shopping, horas de pé em um salto desconfortável atendendo a desejos e a mau humor. Trocou de trabalho outras nove vezes, o salário pouco, a perspectiva inexistente. A vida no banco não parecia tão ruim daquele ângulo. Vi expectativas estéreis. Casa, marido e filhos afogados em uma banheira rachada. Vi que gostava de artesanato, que decorava seu apartamento com pequenos apetrechos de materiais reciclados. Fazia maratona de comédias românticas no sábado à noite, enredos repetidos que não tinham qualquer relação com sua vida amorosa. Foi à Índia certa vez. Juntou dinheiro e foi. Classe econômica, hotel modesto. Economias que custaram uma fortuna. Conheceu um guru por lá. Deuses de mil braços e conceitos difíceis de explicar. Destruir para construir. Não era tão complicado. Queria ir para o Egito também, mas não deu. Não por enquanto.
Ah, então você também gosta do Egito!, ela comentou ao dedilhar a lombada de um livro sobre Nefertite. Por isso reconheceu a máscara do chacal. Fiz que sim com a cabeça. Ela tirou o livro do lugar e começou a passar as páginas. Ainda estava nua, apenas a máscara celta a ocultar o rosto. Comentei o que havia descoberto naquela tarde, que o chacal sequer existia no Egito. Não pude ver a expressão de curiosidade por trás do adereço, mas sabia que tinha despertado sua atenção. Prossegui: alguém confundiu o chacal com um bicho parecido, tipo um cão selvagem, e a lenda pegou. Imagina só: você é um deus, e os súditos o associam ao animal errado. Ela sorriu. Seus lábios não estavam mais azuis, as cores espalhadas por partes distintas de meu corpo.
Pablo soube de minha paixão por Inês após dois meses de encontros. Sem o menor vestígio de hesitação, me fez a pergunta mais impertinente de seu repertório: e então, como é o rosto dela? Repreendi meu amigo por sua indiscrição, mas ele foi insistente. Tirou o telefone do bolso, pressionou a tela algumas vezes e me pediu segredo. Era a foto de Cláudia, uma estagiária que trabalhava no RH da empresa. Pude reconhecer os olhos castanhos e os cabelos anelados que se escondiam por trás das máscaras que ela costumava usar. A foto trazia o rosto nu de Cláudia, que sorria e fazia uma posição atrevida para a câmera. Sardas avermelhadas polvilhavam as bochechas, a curva do rosto era angular e pequenas depressões se formavam nas extremidades dos lábios. Era uma jovem de beleza excepcional. Não diga nada a ninguém, meu amigo repetiu. Estamos saindo há apenas uma semana. É nosso segredo. Concordei com a cabeça, ainda entorpecido pela imagem que há pouco estava diante de meus olhos. Pablo, com a indolência que lhe era peculiar, voltou a perguntar: e Inês, como é? Fui evasivo mais uma vez. Afirmei que ela era uma mulher distinta, que não havia revelado seu rosto ainda.
A conversa com Pablo inquietou meus pensamentos. Transformou uma leve curiosidade em obsessão. Uma semana apenas, uma semana de envolvimento com a estagiária, e ele já estava com a foto do rosto dela em seu telefone. O desejo pelo rosto de Inês não era novidade, mas eu estava aguardando a ocasião apropriada.
Inês não pôde se encontrar comigo naquela noite. Sozinho em casa, elaborava hipóteses quanto ao formato de seu rosto. Tentei dormir, mas estava agitado. Fui até o computador e digitei um endereço. Era um site pornográfico. No menu de opções, selecionei a categoria mais requisitada pelos usuários. Um filme apareceu no monitor. A atriz, apenas de máscara, provocava o homem. Serpenteava em sua frente, enrodilhando-se em seu corpo, tocando-o onde ele precisava ser tocado, ora gentil, ora com firmeza. Copularam, treparam, satisfizeram-se. Em poucos minutos, o ápice: a atriz remove a máscara e a ejaculação é despejada em seu rosto. Maskless facial cumshot. O gozo, o pensamento em Inês.
O assunto das máscaras foi revisitado em sonho. Inês relutava ante meu pedido. Exigiu explicações ao ceder. Queria saber a razão pela qual eu estava sempre com o mesmo adereço. Não tem mistério, respondi. É só porque todos usam. Ninguém estranha que você esteja sempre com a mesma?, ela emendou. Só no começo. Depois deixa de ser relevante. Satisfeita com minha explicação, Inês levou as mãos à cabeça e revelou a face. Havia um rosto de serpente sobre o adereço. Eu podia ver as presas e a língua bifurcada. O susto me fez recuar. Inês ergueu novamente as mãos e retirou a pele escamosa, uma segunda máscara. No lugar de seu rosto, um rubi de cor púrpura, a face sólida como a pedra de sangue. Ela seguiu, desgrudando camadas e mais camadas de seu rosto. Assustado, acordei.
Sou direto em nosso encontro seguinte. Digo a Inês que desejo ver sua face. Ela é reticente na resposta e se esquiva. Digo que sei o quanto de intimidade aquilo exige de um casal. Pego em suas mãos para convencê-la de que já alcançamos aquele estágio, mas ela profetiza que não deveríamos nos apressar. Acontecerá quando houver de acontecer. Minha consciência discorda, mas aceito o argumento. Daria o tempo que Inês julgasse necessário, mesmo que a recusa gotejasse dúvidas em minha consciência.
Inês adormeceu em minha cama certa noite após esgotarmos nossas energias. Cedi à tentação diante da máscara a evocar o rosto de Circe em uma das pinturas de Waterhouse. Virou-se para o lado durante um pesadelo e balbuciou palavras incompreensíveis. A máscara prendeu no travesseiro e saiu do lugar, revelando parte de seu queixo. Levei uma das mãos até seu rosto. Com um dos dedos puxei o adereço com delicadeza, mas Inês despertou. Levantou-se da cama, preocupada em cobrir o rosto e destruiu qualquer reconciliação com olhos de fúria.
Levou algum tempo, mas consegui convencê-la a perdoar meu gesto impensado. Um caminho de desculpas e agrados até reconstruir o que possuíamos. Um pedido especial feito a um artesão a convenceu em definitivo. Presenteei-a com uma pequena estátua do reencontro de Ulisses e Penélope. Aos pés de Ulisses, a inscrição: Inês. Abaixo de Penélope, meu nome. Ela colocou o objeto sobre a estante e, emocionada, atirou-se em meus braços. Tomou então a decisão que eu tanto ansiava: pôs a mão sobre a nuca e removeu a máscara. Vi seu rosto alvo, um equilíbrio entre a simetria e um leve desalinho. Os cabelos loiros caíram em suaves cachos sobre a testa e pelos ombros. A mulher diante de mim revelava uma beleza que minha expectativa não tinha sido capaz de elaborar. Chegou então minha vez. Tomando a iniciativa, Inês colocou a mão por trás de meu pescoço e retirou a máscara. Surpreendeu-se ao ver os olhos castanhos, a boca fina e a pele marcada pela barba por fazer — a face idêntica à máscara que há anos eu usava.
Anderson Henrique nasceu no Rio de Janeiro e é formado em Letras. Possui textos publicados em coletâneas e premiados em concursos literários. Seu livro de estreia, “Anelisa sangrava flores”, foi publicado em 2014 pela editora Penalux. “Chame como quiser” é seu segundo livro.
A boa literatura também se faz com o não dito. O que o autor guarda entre as dobras da tessitura narrativa, o algo inexplícito que se torna uma voz secreta modulando além dos limites da história, na apreensão do leitor. São as lacunas acortinadas em mistério, as sombras do enredo que concentram, nos silêncios, seu maior impacto.
Ninguém detém a noite explora os cantos de obscuridade que tem lugar na natureza humana. Em seu segundo livro de contos, o escritor pernambucano Nivaldo Tenório compõe uma galeria de personagens mobilizados por desejos e terrores interiorizados e, portanto, muitas vezes inauditos. Ainda que situado no espaço das cidades pequenas, dos povoados distantes, o palco das verdadeiras ações está dentro desses indivíduos incapazes de se desatarem de conflitos e de atos cruéis para significar suas próprias existências. Um ambiente de reconhecimento onde é sempre escuridão adentro, ou uma escuridão que vive dentro de outra escuridão.
Diante dessas tétricas experiências da vida, a força simbólica reside na morte e em suas representações. O autor promove as relações entre animais noturnos e objetos umbrosos sob o signo da finitude, transformando o universo abstrato, de crises e surtos mentais, numa atmosfera de devaneio através da qual se desvela o passado de perdas e de impura formação. A prosa de ficção vagueia pelas rachaduras da realidade, com naturalidade e consciência imaginativa, revelando um autor pronto, habilidoso e maduro, detentor de todas as chaves que permite a imersão do leitor e nunca os deixa sair, mesmo ao alcançar, transformado, o ponto final.
Em entrevista exclusiva, Nivaldo Tenório mergulha em seu recente trabalho e examina sua atração pela subjetividade temática, apontando os caminhos que percorre da ideia de ignição até a conclusão de um conto. Além disso, explica a sua preferência pelas narrativas breves, a estreia tardia na escrita, suas influências e angústias criativas. Natural de um estado-celeiro de grandes escritores, o autor analisa a presença do regionalismo no cenário atual da literatura brasileira, a nova cena de autores nordestinos, a proliferação das editoras pequenas e seus efeitos, e a importância dos prêmios literários e da crítica especializada. Um olhar apurado e franco sobre o meio literário, que reflete as intermitências do próprio ofício da escrita. “Escrever talvez seja o modo mais cruel de perder tempo”, observa.
Nivaldo Tenório / Foto: arquivo pessoal
DA – Ainda que tenham uma construção geográfica bem concreta, os contos de “Ninguém detém a noite” são frequentados por personagens que lidam majoritariamente com questões relacionadas ao plano subjetivo, no qual se impõem signos e metáforas como representações da finitude. Essa é uma característica muito marcante do seu trabalho, que vem de sua coletânea de estreia, “Dias de febre na cabeça”. O que lhe motiva nessa exploração interna? Acredita que transitar pelo secreto de seus personagens é uma forma de consistir verdade ao seu fazer literário?
NIVALDO TENÓRIO – Grato pela análise, Sérgio. Acho que foi O’Connor quem disse que a ficção trata de tudo o que é humano e nós somos feitos de pó, e se alguém despreza o fato de ser pó, é melhor não tentar escrever ficção. Ela tem razão. Somos pó e parece que não há nada o que possamos fazer a respeito. Herdei isso de meu pai; um melancólico desconsolo com a nossa finitude. Lembro-me que era comum, nos momentos mais felizes ele de repente nos chamar a atenção para o fato de existir a morte, que estamos sujeitos a este fato inelutável: um dia simplesmente deixaremos de existir. Isto roubava-lhe metade da alegria. Falo no passado, mas ele continua vivo, embora com a idade sobreveio o avanço inescrupuloso de uma doença demencial que, pelo menos, deixou-lhe o saldo de não pensar mais na morte. Então herdei dele esse desconsolo e com o tempo, acho, se transformou em obsessão e tema de meus contos, pois o que vejo é a dimensão trágica do mundo muito além do alcance de nossas ações. Nossas escolhas não são sempre deliberadas, pensadas e, mesmo que fossem, são elas que definem fatalmente nossas vidas ou é a força das circunstâncias? Duvido do livre arbítrio. E é essa dimensão humana, marcada sobretudo pelo efêmero, que é o objeto de minha literatura. Alguém poderia dizer que disso já tratou exaustivamente Faulkner, Philip Roth – dois autores que continuo lendo depois de muitos anos – eu poderia citar outros, são muitos, mas o fato é que é isso o que sempre me fascinou na boa literatura – não posso esquecer de Machado – a capacidade de sondar o humano. E tudo isso, claro, não é nada se não se consegue progresso na forma, e transitar pelo secreto, como você tão bem colocou, foi o modo que encontrei de transformar minha obsessão – que divido com tantos outros – em literatura. Gosto do texto que sugere mais do que diz, por isso exploro as camadas do conto buscando o sentido secreto por trás das ações de personagens, e não estou interessado nos grandes feitos, mas nas coisas mais comezinhas, é ali que encontramos o humano.
DA – Essa humanidade cotidiana tem um apelo muito forte no histórico da literatura pernambucana, seu estado de origem. Só para citar dois grandes autores, João Cabral de Melo Neto e Osman Lins alimentavam seus fazeres literários com uma matéria oriunda de um plano subjetivo, mas que ao mesmo tempo refletia características particulares do lugar em que nasceram e estavam inseridos. Outro aspecto era trazer para a ficção momentos de suas vivências. Partindo da menção ao seu pai, o quanto o fato de ser pernambucano, de ser nordestino, influencia na escolha de seus temas? A sua literatura é também alimentada por experiências pessoais?
NIVALDO TENÓRIO – Quando eu era só um garoto e morava numa periferia pobre de minha cidade não havia muita coisa bonita do que se orgulhar, a família sofria os reveses da pobreza, mas meu pai conservava certo orgulho tão anacrônico quanto suas lembranças da fazenda onde nasceu, e de seu velho pai, um modesto e próspero plantador de café que também ostentava fama de valentia. Vovô e a fazenda desapareceram, a herança dividida entre tantos irmãos não deu pra nada. Então, papai, que não conheceu a pobreza quando era menino, fazia das tripas coração para que não sofrêssemos tanto com a nossa. Por exemplo, não queria que os filhos trabalhassem, nós devíamos nos dedicar aos estudos enquanto ele se matava como pequeno negociante do ramo de confecções. A primeira vez que trabalhei de verdade – se é que podemos chamar de trabalho – foi quando me alistei para o serviço militar. Mas a pobreza estava ali, nem eu nem meu irmão desfrutávamos de coisas que meninos da nossa idade e de famílias mais remediadas podiam dispor. Por volta dos 13 anos me interessei por livros. Sentia-me seduzido pelo objeto, sonhava poder comprar os livros da Bibliex – biblioteca do Exército – que eram anunciados na TV preto e branco. Eu não sabia o que aqueles livros continham. Eram livros, isso parecia bastar. Veja, Sérgio – agora você vai entender por que precisei recorrer a esses dados biográficos – eu acho que vivi numa bolha, construída com o esforço de papai e mamãe, fui um menino quieto, solitário, mal saía de casa e, quando descobri o prazer da leitura, os livros eram os únicos endereços possíveis. Lembro-me de passar um período das férias escolares inteiro lendo Anna Karenina. As coisas lá fora eram o resultado do esforço de meu pai, e não era muito, apenas o suficiente para sobreviver. Um sobrevivente não se sente especial, mas ler Tolstói me fazia sentir especial. O livro de Tolstói eu consegui na Biblioteca Pública Municipal, a bibliotecária me deixava levar emprestado os livros, e assim li Victor Hugo, Dumas, Rabelais, Balzac, e não foi nada programado, os livros mais bonitos eram os clássicos universais, eram os que mais me atraíam. Também tinha Machado de Assis, Lima Barreto, Monteiro Lobato e outros, mas naquela época só me interessava pelos autores estrangeiros. Talvez eu buscasse neles geografias diferentes da minha. Aqueles livros com histórias que se passavam tão longe, no tempo e no espaço, me garantiam uma distância maior da pobreza e daquele lugar que as circunstâncias me fizeram meu. E agora que falo isso, penso no que diz o José Luís Passos na apresentação do livro, de que os contos ambientados em cidades pequenas aspiram a uma maior largueza espiritual através da viagem ou alusão à cultura estrangeira. Então, respondendo à pergunta, acho que quanto ao tema – deste livro pelo menos – ser filho de meu pai e herdar algumas de suas idiossincrasias foi mais forte que ser pernambucano ou nordestino e quanto à experiência pessoal, acho que algumas estão nos contos sim, mas transformadas de tal jeito, que ninguém que tenha partilhado comigo tais experiências será capaz de reconhecê-las.
DA – É curioso você citar esse seu interesse inicial apenas por autores estrangeiros, pois me coloca diante de uma característica marcante da sua prosa; ou talvez a falta dessa característica marcante. Embora seja um autor nordestino, seus contos, ao contrário de uma lista imensa de novos e velhos autores, não trazem uma linguagem regional ou são ambientados num cenário expressivamente nordestino ou historicamente nordestino. Desde que começou a escrever, você se preocupou em não se enquadrar no que foi rotulado de “literatura regionalista”? Ou você acredita que é um processo natural da nova literatura brasileira ter um aspecto mais globalizado, independente da região onde é feita?
NIVALDO TENÓRIO – Não há dúvida de que um dos melhores – senão o melhor – capítulo da produção da literatura brasileira se deu a partir de 1930 com o Regionalismo de Gilberto Freyre – certamente um de nossos gênios – e falar de Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz e outros dessa geração é falar do cânone da Literatura Brasileira do Século XX. Guimarães Rosa também é regionalista como Faulkner, é o escritor regionalista do Sul dos EUA. Mas, quando hoje se taxa um escritor de regionalista, parece que por trás há uma clara intenção de segregação. E eu não sei se você já notou, Sérgio, mas a mim parece que esse rótulo só serve para o escritor nascido no Nordeste, talvez a culpa seja das novelas das oito da Rede Globo, e todos os coronéis, mocinhos e mocinhas que carregavam no sotaque baiano. Não sei. Conheço escritores no meu estado que não gostam de ser chamados de regionalistas só porque suas histórias são ambientadas no Nordeste. Ronaldo Correia de Brito não gosta, Raimundo Carrero tampouco, e eles têm toda razão. Quanto a mim, posso garantir, não houve intenção nenhuma de querer evitar o rótulo, nunca me vi pensando na questão, os contos eram escritos e só me dava conta da ambientação deles não evocar o Nordeste quando alguém me chamava a atenção para o fato. Confesso que acho algo desnecessário, principalmente num conto, o autor se preocupar em dizer que sua personagem parou pra descansar no trecho tal da Conde da Boa Vista, no Recife, ou que seu carro foi guinchado da BR Luís Gonzaga, em São Caetano, até Caruaru. Ao mesmo tempo, acho que não é isso de descrever o ambiente ou não que vai determinar se o conto presta. Apenas não acho necessário. Nunca estive interessado no homem ou mulher de Recife ou de São Paulo ou da pequena cidade onde moro, minha Garanhuns de clima ameno, localizada mil metros acima do mar e seus 130 mil habitantes, que há anos nem sobe nem desce no censo, pois lá impera a imobilidade. Estou interessado sim nos homens e mulheres e no que eles possuem de humano, não importa se transitam na Avenida Santo Antônio ou Quinta Avenida. Outro dia li a entrevista de um escritor brasileiro, desses que andam na moda. Ele dizia que não acredita nessa coisa de “ser brasileiro”. Não sei o que pensaria José de Alencar se um vidente lhe dissesse que mais de cem anos depois dele um escritor importante e brasileiro faria tal declaração. Alencar e seu projeto de construção da identidade cultural do Brasil, ele e seu romance ambicioso em conter toda geografia. A mesma reação teria o Mário de Andrade, que, ao modo dos artistas de sua geração e seu caráter anárquico, também ambicionou dar continuidade – de um modo diferente, claro, crítico e coisa e tal – ao tal projeto de construção da identidade cultural. Macunaíma é sem dúvida o romance tese dessa empreitada. Mas o fato é que o tal escritor da entrevista talvez não esteja enganado. Quase cem anos depois dos gritos e berros que ecoaram no teatro municipal de São Paulo, ainda estamos em formação e a única conclusão que chegamos é que não somos negros nem brancos nem índios. Mas teve um tempo, Sérgio, que eu achava estranho o fato de gostar tanto dos romances americanos da década de 20, por exemplo, ambientados na França e que falam de homens e mulheres – de quem uma escritora se referiu como geração perdida – vivendo o entre guerras e a frustração de ser humano e o quanto isso representa de impotência e fragilidade. Cheguei a escrever para um amigo, lamentando essa falha no meu caráter. Por que eu me sinto mais identificado com Fitzgerald do que Graciliano, e por que “Kind of blue” me encanta mais do que Samarica Parteira? Não estou dizendo que nossos escritores e músicos sejam melhores ou piores. Estou dizendo que um livro ou disco, escrito ou gravado quase cem anos atrás e milhares de quilômetros longe de meu país me encanta e me causa felicidade. De algum modo e apesar de todo estranhamento, eu, nascido em Pernambuco, Nordeste do Brasil, me encontro ali. Vislumbro meu reflexo. E como minha literatura primeiramente nasceu do reflexo de meu gosto de leitor, isso talvez responda tua pergunta.
DA – Aproveitando que falou de rótulos e da criação de estereótipos, queria me aprofundar nesse assunto e perguntar sobre a relação dos autores que não estão nas chamadas rotas Sul-Sudeste do mercado literário. Durante muito tempo (e ouso dizer que a imagem permanece fora do Brasil) os livros dessa região eram consumidos em função de seus aspectos exóticos, sertanistas. Hoje, a impressão que tenho é que melhorou, baseado no reconhecimento de autores citados, como Ronaldo Correia de Brito, Raimundo Carreiro e José Luiz Passos, além da grande Maria Valéria Rezende e de novos autores, a exemplo de Débora Ferraz e Franklin Carvalho. No entanto, você, que vive a realidade dessa região, como enxerga o interesse das editores e dos leitores (e, por que não, também dos críticos) para com os autores fora desses centros? Você acredita que há, ou já sofreu, algum tipo de discriminação pelo fato de não fazer parte de um círculo específico, de não socializar com o editor X ou com o autor Y?
NIVALDO TENÓRIO – Acho que o problema da dificuldade de ser lido ou editado não está no fato de viver, de fazer literatura no Nordeste. Acredito que problemas similares encontram escritores espalhados no Brasil, mesmo no Sul e no Sudeste. A questão é de outra ordem e tem a ver com leitores. Poetas e contistas – com raras exceções – não estão exatamente na ordem do dia. Fazer o tipo de literatura que eu faço significa escrever quase exclusivamente para outros escritores. Às vezes, tenho a impressão de que estamos presos numa espécie de autofagia. Nos eventos de literatura escritores falam para escritores, enquanto o resto do mundo está lendo o último livro do Dan Brown, do Paulo Coelho ou do Stephen King etc. Uma amiga minha, também escritora e que mora em Portugal, me diz que lá é a mesma coisa. Acho que vivemos a crise do leitor. Thomas Mann, num ensaio sobre Tchekhov faz a sua mea culpa e reconhece que não levava a sério a forma breve do conto, estava interessado nas grandes catedrais dos romances de fôlego. Não é o caso do leitor de hoje, este só está interessado no livro da moda, em bruxos e vampiros, e necessita, mais do que ninguém, de muita autoajuda para suportar a existência. É o que aquece o mercado. Outro dia vi, no Globo News Literatura, a Luciana Villas-Boas, a antiga editora da Record, hoje agente literária, que costumava aconselhar escritores a não escrever conto ou poesia porque não vende, falar de uma dessas novas autoras, surgidas na internet e que escreve excelentes livros, inspirada no “Cinquenta tons de cinza”. A Luciana garantia que não se tratava de mero pastiche da E.L. James, como se isso fosse uma garantia do talento literário da moça. Essa autora, de quem nos fala a Luciana, provavelmente não vai ser resenhada por você, Sérgio, mas, num tempo incrivelmente curto, já vendeu mais de 100 mil exemplares. Não quero parecer pessimista ou despeitado, mas é a realidade. Também sei que você não estava se referindo a esse tipo de livro, quando me fez a pergunta, mas é preciso entender que primeiro o problema é de leitores. Não há leitores interessados em literatura, falo de alguém que vai a uma livraria para comprar a nova tradução do Gombrowicz porque está a fim de ler um bom livro, um livro instigante. E não vale se for da área, nada de jornalista cultural, crítico ou escritor, falo de um cara comum, que dirige um táxi ou é médico ou estudante de engenharia. Então, Sérgio, não é morar longe do centro – embora isso atrapalhe um pouco, sem dúvida – o maior problema. Já foi por isso que Osman Lins pediu demissão, juntou os trapos e trocou Vitória de Santo Antão por São Paulo, mas isso foi na década de 60, quando não existia internet.
DA – A sua resposta é muito pertinente e me conduz a duas reflexões. A primeira é relacionada ao que chamou de crise de leitor, diante da qual estou completamente de acordo. O caso é que, na contramão dessa situação preocupante, temos um cenário literário onde nunca se publicou tanto quanto hoje. Isso tem a ver, óbvio, com o surgimento de inúmeras editoras pequenas e com a possibilidade cada vez mais acessível da autopublicação. Qual, na sua opinião, será o efeito dessa equação que não fecha e que se torna gradualmente mais complexa? Acredita que a facilidade com que se publica neutralizou um filtro editorial e, atualmente, a quantidade alimenta um catálogo contumaz de livros não lidos?
NIVALDO TENÓRIO – Você tem toda razão quando usa o termo contramão. De fato é muito fácil publicar um livro hoje, as editoras pequenas surgem como resistência, mas também como negócio, uma vez que na maioria delas é o autor o responsável em pagar a gráfica. Além do livro, temos a internet, mas apesar dela e sua facilidade e sedução, a publicação em papel continua o sonho de consumo e o fetiche da maioria de quem escreve um livro e deseja vê-lo publicado. É uma equação mesmo, e para mim esquizofrênica, uma vez que me confirma a suspeita de que no Brasil – não sei lá fora – existem mesmo mais escritores do que leitores. E a maior parcela dela é de um tipo estranho de escritor, a parcela de escritores que não compram livros, logo não leem. Conheço alguns do tipo, quase sempre se consideram injustiçados e quando a gente pergunta o que estão lendo respondem que não leem porque temem a famigerada influência. Algo em que notamos um grande zelo pela própria escrita. Fico imaginando como seria aquecido nosso mercado livreiro se todos os escritores comprassem livros. E não sei, Sérgio, confesso que não consigo explicar esse fenômeno de tanta gente escrevendo e publicando, sempre achei que o escritor surgia por causa de amor e obsessão pelos livros – acho que foi meu caso – ou como resultado de uma grande experiência, do tipo que é preciso registrar no papel para alertar a todos de um grande mal ou de uma grande injustiça, o genocídio de um povo, por exemplo ou por algo – e vou citar Augusto dos Anjos – como uma vontade absurda de ser Cristo para sacrificar-se pela humanidade, mas acho que é sentimentalismo da minha parte. Tantos escritores talvez seja só uma forma – para muitos deles, pelo menos – de querer aparecer na foto. O homem nunca gostou tanto da própria imagem como nos nossos dias. Mas nem tudo é ruim; contrariando o tal filtro editorial, fico muito feliz quando é incluído, entre os finalistas de grandes prêmios, autores autopublicados ou de pequenos selos editoriais. Já faz muito tempo que lamentamos não existir mais crítica literária nos jornais, lamentamos a morte de cadernos de literatura etc, isso talvez seja o que mais atrapalha, mas apesar de toda dificuldade – em razão dessa quantidade absurda de livros publicados todos os dias – é possível sim reconhecer um bom livro. Talvez o reconhecimento não venha na hora, talvez demore ou só ocorra postumamente, mas vem. E quanto à enorme quantidade de lixo publicado, a boa notícia é que o papel é biodegradável.
Nivaldo Tenório / Foto: arquivo pessoal
DA – Sinceramente, considero o reconhecimento póstumo a circunstância mais desleal que possa ocorrer com um escritor. Mas voltando a segunda reflexão, seus dois livros foram publicados por uma editora pequena. Foi uma decisão deliberada ou chegou a mandar o original para uma editora grande e não houve o interesse? Você mencionou o lado comercial das editoras pequenas e, na minha opinião, a qualidade gráfica da maioria desses selos pequenos nada deixa a desejar quando comparada a de uma grande editora. Os problemas são justamente a divulgação e a distribuição. A partir de sua experiência, quais são os prós e os contras que um autor lançado por uma editora pequena acaba por se deparar?
NIVALDO TENÓRIO – Eu nunca mandei meus livros para editoras grandes. De antemão, já intuía o resultado, na melhor das hipóteses uma carta educada dizendo que a editora não trabalha com meu perfil de escrita. O dinheiro movimenta o mundo. Quando mencionei o lado comercial das editoras pequenas quis dizer que elas utilizam estratégias de sobrevivência e, entre essas estratégias, a parceria com o autor é uma alternativa viável se se deseja algum lucro, no final. Imagino que uma editora pequena que publica 500 exemplares de um autor ainda desconhecido, embora bom contista, poeta ou mesmo romancista, corre sério risco de não conseguir só com a venda dos livros tirar os gastos da gráfica. As distribuidoras ficam com a porção maior do bolo e algumas livrarias cobram caro, algumas chegam a exigir 50 por cento. Também concordo com você, é excelente a qualidade gráfica de algumas editoras pequenas. Imagino que fazer o livro bonito acaba sendo uma estratégia comercial já que o público dessa editora, embora pequeno, é exigente. Tem bom gosto. Divulgação e distribuição são problemas sérios enfrentados até por médias editoras. Não é em toda livraria que você encontra um livro da Iluminuras ou Editora 34, só pra citar duas que gosto. E se publicaram autor brasileiro, contemporâneo, pior. Para o autor que se autopublica é um problema irreversível, apenas minimizado pelos selos pequenos. Acho que as livrarias também não ajudam e talvez a culpa não seja delas, afinal há tantas publicações de vampiros, bruxos e pastiches de 50 tons de cinza no mercado que as prateleiras simplesmente não cabem. Por isso, algumas ainda concordam em disponibilizar o livro no catálogo virtual. O Brasil é enorme e tal, mas o problema, insisto, é mesmo a falta de leitor. Outro dia ouvi que um autor – não me lembro quem – que ganhou o prêmio São Paulo verificou, um ano depois do anúncio do prêmio, ter vendido 100 livros. Parece mentira, mas não entendo porque alguém mentiria sobre isso. O livro fôra publicado por um grande selo, parece que também ganhara o prêmio Sesc e, com toda mídia e prestígio do prêmio, aumentou suas vendas em apenas 100 livros. Gosto da editora pequena. Algumas alcançaram respeito e isso, no fundo, é o que importa. Fazem um livro bonito e, sem muita pretensão, encontram o leitor especial, interessado em boa literatura. Se o mercado não é milionário, a culpa não é dela. Faz seu papel e o autor encontra seu lugar. Pequenas tiragens e distribuição – mesmo longe do ideal – possibilitam que o livro circule, concorra a prêmios e seja resenhado.
DA – Essa história do autor premiado é verídica, eu o conheço pessoalmente. Mas o final da sua resposta me instigou uma provocação: diante do que chamamos de crise de leitor, você acredita que o autor que lança uma edição de 500 exemplares, por uma editora pequena, tem muito mais uma preocupação em colocar um crachá de escritor e entrar para um clube do que ser realmente lido? Neste caso, o livro não seria mais um dispositivo para uma satisfação pessoal do que um meio pelo qual ele possa alcançar o objetivo final de toda obra literária, a atenção do leitor?
NIVALDO TENÓRIO – Falei em 500 exemplares porque é o número que muitas editoras que trabalham com gráfica offset sugerem, 300 ou 500 exemplares. Quanto mais diminui o número de exemplares, mais caro o livro fica. Meu “Dias de febre na cabeça”, edição do autor, a primeira edição, foram 500 exemplares. Na época eu sugeri 300, mas a diferença que a gráfica fazia no preço era ridícula. Então fiz os 500 mesmo sabendo que se livrar deles seria tão difícil quanto se livrar de um corpo. Sim, tem a história do crachá de escritor, concordo com você, mas no meu caso foi só essa lógica de gráfica offset. Algumas editoras estão trabalhando com tiragens bem pequenas, 70, 100 exemplares. Acho o ideal, se houver procura do livro é só imprimir mais exemplares.
DA – Você há pouco citou rapidamente os prêmios literários. Com o mercado editorial cada vez mais fechado, acredito que é senso comum de que vencer um prêmio literário é a maneira mais meteórica de se projetar um escritor. Quando se é uma estreia, pode ser até perigoso, pois o autor carrega consigo a responsabilidade de entregar um segundo livro, pelo menos, à altura do anterior. O que pensa sobre os prêmios literários? E, ultimamente, os prêmios no Brasil têm agraciado muitos autores nordestinos. O prêmio Sesc, por exemplo, teve suas últimas edições dominadas por novos autores do Nordeste, tanto na categoria Romance quando na categoria Conto. Como explicar isso? Você consegue identificar uma geração de jovens autores ganhando corpo na região?
NIVALDO TENÓRIO – Devo dizer que pra mim não é surpreendente que prêmios literários agraciem autores do Nordeste. Acho que o Nordeste tem uma sólida tradição de excelentes escritores. Por acaso me lembro do polêmico Bruno Tolentino, ele que era do Rio, poeta erudito que não gostava do Modernismo nem da Cultura Popular, disse uma vez: tirem a Literatura do Nordeste do Brasil, restaria o quê? Sem bairrismo, de fato o Nordeste é rico em escritores, Pernambuco então nem se fala. Manuel Bandeira, Osman Lins, João Cabral de Melo Neto – um dos poucos autores brasileiros que já foi citado para ganhar o Nobel – e Gilberto Freyre, reconhecido no mundo como um gênio. Uma boa representação da literatura contemporânea também é de Pernambuco. Apenas citando os escritores que residem aqui penso em Raimundo Carrero e Fernando Monteiro, só pra mencionar dois. E se falamos em escritores que adotaram Pernambuco, temos o grande Ariano Suassuna da Paraíba (hoje um clássico da Literatura Brasileira), Ronaldo Correia de Brito e Sidney Rocha, do Ceará, autores com uma sólida literatura, todos premiados. Autores que nunca deixaram o Recife. Já faz alguns anos o estado criou um prêmio que só premia autores que residem em Pernambuco, o Prêmio Pernambuco – que recentemente alguém teve a infeliz ideia de mudar o nome para Hermilo Borba Filho, também ele um intelectual de destaque e excelente dramaturgo pernambucano. O prêmio tem revelado autores até então inéditos e de notável qualidade literária, espalhados na região metropolitana e interior do estado. De fato, o prêmio tem poder de revelar o autor, embora isto não queira dizer que todo autor premiado é um grande autor. São muitas circunstâncias e pesa o fator sorte. Mas ajuda, principalmente quando democrático e livre de preconceitos. Por isso, gosto quando encontro, entre os finalistas de grandes prêmios, livros de autores autopublicados ou de pequenos selos editoriais, isso denota honestidade. Acho que a gente vai precisar de mais tempo e o olhar a uma certa distância para perceber se aqui, na região, houve de fato uma nova geração de escritores fazendo literatura de verdade. Nesse momento, pelo menos, só posso dizer que há muita gente escrevendo e o que se vê publicado aqui não é de jeito nenhum inferior ao que se vê publicado no Sul-Sudeste.
DA – Falando em distância, durante seu ofício criativo há uma preocupação com o leitor, quem a sua história poderá atingir e o que pode despertar nela? Certa vez, fiz uma pergunta parecida para um autor, que respondeu não pensar no leitor, pois escrevia para ele mesmo. Achei a resposta arrogante e narcisista. O que pensa sobre isso? O leitor não deveria fazer parte, em algum momento, do processo de construção de um livro?
NIVALDO TENÓRIO – O leitor é fundamental. Preocupa-me muito o leitor. Morro de medo do leitor pouco generoso, o leitor que lê em metrôs, olhando para o relógio, hiperativo, que manipula o celular, que consulta as redes sociais enquanto lê. Tenho medo que minha literatura, para este leitor, assuma algum tipo de hermetismo do qual não me sinto culpado. O conto é irmão da poesia, requer mais de uma leitura. Ninguém lê um poema uma só vez. Quantas vezes eu já não li “Opiário”?, Decerto muitas. Sem o leitor minha literatura fica incompleta. Você poderia dizer, com toda razão, que sem o leitor nenhuma literatura acontece. De fato. O próprio processo de escrita se completa com o leitor. Por isso, necessito de um leitor que me dê a mão, necessito de sua paciência e disposição para amarrar as pontas, quando se fizer necessário, de um leitor que saiba ler os silêncios, que se interesse pela outra história que todo conto conta e sinta prazer em despender toda energia que a leitura lhe exige. O leitor que idealizo é um leitor especial e por ele sinto enorme apreço. A gente se esforça para escrever um livro melhor que outro. Acho que este livro que acabei de escrever é mais maduro que o anterior, mas só quem pode de fato julgar isto é o leitor. Por outro lado, não perco o sono por causa do leitor de gosto médio, o leitor dos livros da moda, o leitor apenas interessado em puro entretenimento. É claro que todos os dias eu o espero de braços abertos, mas não vou perder o dia se ele me ignorar.
DA – Seguindo nessa linha do leitor, ultimamente surgiu um movimento do leitor sensível, que tem feito inclusive universidades retirarem de seus catálogos obras com conteúdo considerado controverso. Seus contos, por outro lado, trazem para seus enredos temas pesados, envolvendo fortemente a miséria humana. Como enxerga essa pressão que existe hoje para limar da literatura temas polêmicos que possam ferir certos grupos? Isso lhe faz repensar a ideia de um conto?
NIVALDO TENÓRIO – O primeiro réu desse caso, se não me engano, foi Monteiro Lobato. Queriam censurar e cortar trechos de sua obra por causa do tratamento que Tia Nastácia – por ser negra – recebia. E aí me lembro do Oscar Wilde: um livro não é moral ou imoral, é bem ou mal escrito; eis tudo. Ele tem razão. No caso do Lobato, principalmente, tem a questão do contexto histórico. Eu não acredito numa obra literária que se constitua num panfleto mesmo que as razões sejam as melhores, imagine quando as razões são as de promover discriminação racial ou de qualquer natureza. A obra de Monteiro Lobato não me parece um panfleto, aquilo que Narizinho diz sobre a negritude de Tia Nastácia é corroborado pelo espírito de época. E quem fala é a personagem. Não existe boa arte pautada em normas de conduta, etiquetas e outras frescuras. É só olhar para o passado, o que é que hoje todos acham do processo por imoralidade que sofreu Madame Bovary? Veja, durante essas discussões eu esperei que alguém se manifestasse sobre a Bíblia, pois é difícil encontrar um livro tão politicamente incorreto. Ali há desde discriminação contra a mulher a genocídios determinados pelo próprio Deus. No Decálogo, exatamente no décimo mandamento, Ele determina que o homem não deve cobiçar o servo de seu próximo, e aí não precisa recorrer a exegese para intuir que para Deus a escravidão era perfeitamente aceitável. Natural. E diferentemente de Monteiro Lobato, um homem do final do século XIX início do XX, Deus não é um reles mortal, sujeito ao condicionamento cultural. Então é uma grande besteira esse negócio, começa-se mal porque começa-se descriminando umas obras e deixando outras de lado em nome da mais pura e genuína hipocrisia. Mas acho que quem deve se encarregar de julgar é o leitor. O leitor faz a leitura que quiser. Estabelecer uma censura em nome do politicamente correto é no mínimo ridículo. Não me interessa se Celine era antissemita e simpatizante do nazismo, a mim só interessa o assombro que me causou Viagem ao fim da noite, além do mais ali não há nada que promova as ideias infelizes do autor. A propósito disso, reconheço um bom autor pela sua capacidade de fazer a clara distinção entre suas ideias, ideologias e a literatura. Conheço escritores que também são meus amigos e são, na vida privada, pessoas de forte ardor religioso, e não são poucos, pessoas capazes de uma fé que eu não consigo entender que raios de improbidade intelectual os fazem acreditar nos disparates e contos de fadas de suas religiões, pessoas com uma visão que eu só consigo atribuir ao intelecto mais simplório, mas que no caso deles não é, pois não são ignorantes, alguns têm mais cultura e leram mais do que eu. Então, são questões que eu nem procuro inquirir – tenho mais com que me ocupar – no fundo o que me interessa é que em seus livros não há nada disso e até os invejo por conseguirem tal distanciamento. Mas acho que acabei fugindo um pouco da pergunta. E não, essa pressão e sensibilidade de tais grupos jamais me fariam repensar a ideia de um conto.
DA – Por outro lado, você consegue identificar determinados escritores que se colocam por detrás de uma causa, da bandeira de uma minoria, de uma ideologia, e se utilizam desse expediente para chamar atenção para seus escritos? Percebe que a mídia especializada foca, em muitos casos, na condição social desse tipo de escritor e se esquece de avaliar o valor literário, se o livro é, no mínimo, bom?
NIVALDO TENÓRIO – Num mundo que não lê, talvez não seja tão ruim chamar a atenção para um livro em razão de seu apelo social. Sem dúvida, há tais escritores e acho até que são muitos, e suas bandeiras chamam sim a atenção da mídia e de leitores que se veem ali representados. Imagino que deve existir escritores bons e ruins fazendo isso. A mim só interessa a literatura. Literatura pela literatura. Se alguém consegue fazer os dois, se consegue que o carro-chefe seja a força do texto e não o apelo social, tem a minha atenção. E não é de se admirar que a mídia se interesse e promova livros medianos, como você coloca, mas que levantam bandeiras de grande apelo social. A mídia está interessada em notícia. Por literatura se interessa um número bem menor de pessoas e isso não vende jornais, não dá ibope.
Nivaldo Tenório / Foto: arquivo pessoal
DA – Mas ainda, por mais estranho que pareça, são justamente os cadernos e os suplementes literários que permanecem valorizados pelos autores, quando buscam uma resenha ou a divulgação de seus livros. No Brasil, ainda resiste uma cultura de associar projeção aos grandes jornais impressos, de não dar o valor devido ao espaço virtual, à atenção dada aos livros nos sites, blogues e afins. Como analisa essa transição? Os espaços virtuais reservados à literatura são uma maneira de compensar a falta de espaço na mídia impressa ou estamos diante de uma nova geração de críticos, que lidam com a literatura segundo a realidade de seu tempo?
NIVALDO TENÓRIO – Acho que são os dois, Sérgio. Sem dúvida, há uma nova geração de críticos mais antenados com as novas tecnologias e a literatura perdeu espaço na mídia impressa. Talvez o crescimento de uma esteja atrelado ao desaparecimento da outra. Aqui em Pernambuco, noto uma resistência. Há bons jornalistas interessados em escrever sobre literatura. Temos um suplemento cultural, o Pernambuco, que é um dos melhores cadernos de literatura publicados no Brasil. Quanto à preferência dos autores em verem suas obras divulgadas por cadernos e grandes jornais, deve ser um reflexo do próprio desejo de se ver publicado em papel. O cara publicou um livro nas redes sociais e tem milhares de seguidores, mas só se sente publicado de verdade quando seu livro está à venda nas livrarias. É o fetiche, é a tradição. Mesmo os escritores comerciais se sentem assim. Parece que o papel tem o poder de tornar oficial. É verdade que quando sai em jornal uma resenha aquilo só é lido por meia dúzia de pessoas. Todos só tomam conhecimento quando o link da matéria é divulgado nas redes sociais. Acho que essa crítica em blogues e sites vai crescer e vai ganhar mais prestígio à medida que as publicações em jornais ficarem mais raras e, se não desaparecerem dos grandes jornais, existirão apenas em jornais como Rascunho ou publicações artesanais para um número pequeno de assinantes. As facilidades que a internet oferece impediriam que hoje o Osman Lins desistisse de tudo, no Recife e Vitória de Santo Antão, e fizesse a mesma viagem que os sertanejos faziam para São Paulo.
DA – E no seu caso? Incomoda-lhe ou, de alguma forma, desanima adentrar uma dessas mega livrarias e não encontrar os seus livros? Qual a extensão que você almeja para sua carreira, para sua escrita?
NIVALDO TENÓRIO – Tudo o que almejo para minha carreira de escritor começa e termina no texto, quanto ao resto não é de meu controle. O meu livro não se encontra em mega livrarias – pelo menos o livro físico – não por ser de péssima qualidade. É exatamente o contrário. Quando entrei pela primeira vez na Livraria Cultura, da Avenida Paulista, não pude acreditar no que via. Mais da metade da livraria era dedicada aos livros da moda. É fácil reconhecer pelo colorido das capas. Não bastou que alguém tivesse escrito um livro tão ruim como “Crepúsculo”, era preciso que aparecesse um monte de imitadores com novos Crepúsculos que ganhariam as prateleiras de tais livrarias. Então, eu não tenho culpa se impera um gosto ruim ou mediano, se todo mundo parece tão carente de autoajuda e entretenimento que só aspira a mais bruxos e lobisomens em aventuras sensacionais. Mas eu estaria mentido se não dissesse que todo escritor deseja sim encontrar seu livro nas vitrines de livrarias. Alguns, quando encontram, chegam até a fotografar e exibir no Facebook, coitados, como um acontecimento realmente fabuloso. E talvez seja mesmo. Então, Sérgio, não me preocupo com isso. Interessa-me fazer um livro melhor do que o último. Este livro, acredito, é melhor do que o anterior, pois minha maior motivação é escrever cada vez melhor, embora isso, claro, quem julga é o leitor, seja lá onde ele estiver.
DA – Talvez seja uma heresia perguntar isso para um contista por excelência, mas você já pensou em escrever um romance? Caso não, o que o afasta do gênero? Caso sim, esse seria um próximo livro? Aliás, já tem um novo projeto literário?
NIVALDO TENÓRIO – Nunca tentei escrever um romance – apesar de ser um leitor de romances – mas já pensei sim, embora nunca tenha levado a termo, sequer começado. Encontro no conto o gênero necessário para minha criação. Há as pressões do mercado (que, é claro, eu não levo a sério) e dos amigos (que não sabem apreciar o conto), pois é comum coisas do tipo: e quando vai sair o romance?, como se todo esforço para escrever o conto fosse balela, um talento desperdiçado. Não por tais razões, o mercado que se dane e os amigos que aprendam a ler. Mas vou escrever. Não digo que já tenho um projeto, é só uma ideia que vem me assombrando ultimamente, de transformar um dos contos – porque me sugere uma narrativa de fôlego maior, o caso da tartaruga – em romance. Vou escrever, mas não tenho pressa. Sempre admirei os escritores obcecados por sua obra, que nos dão a ideia de que viveram apenas para escrever, como os russos e Balzac, por exemplo, mas tenho uma natureza infelizmente indolente, depois de um livro preciso de um tempo, mais do que razoável, para de novo me sentar e escrever. Tenho fôlego de contista, nunca estive interessado em quantidade.
DA – Diante de todas as frustrações e contratempos que trouxemos à tona, por que então continuar a escrever? Vale a pena ser escritor no Brasil?
NIVALDO TENÓRIO – Publiquei a primeira vez com mais de 30 anos. Escrever sempre foi mais importante do que publicar. A gente não escreve porque isso vai mudar nossa vida. Não vamos ficar ricos e nunca acreditei no exercício da escrita como terapia. Escrever, então, nunca representou obter algum tipo de vantagem. Acho que todo escritor tem dificuldade de responder esta pergunta. Hoje, mais do que nunca, quando para tudo que se faz, logo se espera obter resultados, lucros, vantagens. É isso ou você está perdendo tempo, dizem os pragmáticos. Escrever talvez seja o modo mais cruel de perder tempo. Não há garantias. Se escrevo e, se continuo escrevendo, faço porque sentiria muito se algo acontecesse que me impedisse de escrever. Não acho que seja mais fácil ser escritor em outro país. Quando a gente pensa no século XX, uma parcela significativa da grande literatura que aparece foi escrita na América Latina do Terceiro Mundo, com problemas de ditaduras e analfabetismo. Faulkner, Carson McCullers e Flannery O’ Connor escreveram no Sul dos EUA de pobreza, Ku Klux Klan e fanatismo religioso. Então, não é num país com problemas sociais resolvidos e índice zero de analfabetismo o lugar ideal para escrever e ser lido. Não há lugar ideal para escrever. Ouvi de uma editora francesa que, em Paris, o escritor ou escritora lança seu livro nas livrarias pequenas, lugares aconchegantes, cheias de histórias, com fotos de Hemingway penduradas nas paredes. Os lançamentos contam sempre com um público de 30 pessoas, no máximo, entre as quais se contam esposa, filhos, pais, parentes e amigos do escritor. O problema é maior, vai além das fronteiras, e tem a ver com a perda de certa noção da subjetividade. Mas uma coisa eu posso garantir, em todo tempo e em todos os lugares houve e há dificuldades, nenhuma delas, entretanto, é páreo para o desejo de escrever.
Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.
Há um horizonte humano de
esquecimento
onde palavras
não proferidas
guardam o silêncio
de ruínas e lamentos.
Um testemunho de dor
sob o céu da Somália.
Entre a esperança e o tormento,
ruínas e lamentos,
a história aguarda
seu julgamento.
Seu inaudito
veredicto
sob um horizonte humano de
esquecimento.
***
PRIMORDIAL
Como as oscilações da chuva
nas alamedas
Eu poderia lhe dizer
sobre o tempo,
sua inconstância,
de palavras ditas
e perdidas
sob o vento frio
de setembro
Mas tínhamos a certeza
dos pormenores da vida
das oscilações da chuva
das alamedas
onde
caminhávamos
lentos passos intercalados
como legítimos filhos
do século passado.
***
NOTURNO
As razões de quem ama
não são argumentos.
Estratagemas para sentimentos
no amor não se pode tê-los.
As evidências de quem ama
são fatos secundários
como as alamedas
no mês de maio.
Os amantes sabem
do improviso
– flor casual do destino.
É possível que o amor seja
mesmo sem a convicção dos teoremas.
Leve – como no sono se propaga
o sonho em Marta.
***
ALGO
Eu cumpro protocolos
sobre o túmulo das roseiras!
Eu cultivo solos
sem eira nem beira!
Meus sonhos?
Restolhos
de um vilarejo
abandonado
onde olho a vida
e digo algo.
***
LAMENTO
Onde posso estar
que não seja
em mim
mesmo?
Parada
tumulto
Avenidas
que se cruzam
Vazio crepuscular
de um vulto
Onde posso estar
que não seja
mendicante argila
sob o firmamento
Jó
pó e lamento?
***
PRIMORDIAL II
Eu poderia dizer
das circunstâncias adversas
da escassa colheita
do riso sem primavera.
Eu poderia dizer
da dor e da espera
do tempo sem fim
da noite deserta.
Mas seja em Atenas
ou Alexandria
O amor seria
E eu poderia lhe dizer
dos revezes da vida
das coisas que ficam
e das coisas que passam.
Como do tempo sem fim
da noite deserta
Nasce o dia
o riso
e a primavera.
Hilton Valeriano é poeta, professor, formado em Filosofia e História. Autor do livro de aforismos “Margens”, publicado pela editora Mondrongo em 2017.
Últimos dias em Havana (Ultimos dias en la Habana). Cuba. 2016.
Últimos dias em Havana é um drama cubano de 2016 dirigido pelo que é hoje considerado o mais importante diretor de Cuba, Fernando Pérez. O filme conta a história de Miguel (vivido por Patricio Wood) e Diego (Jorge Martinez), dois amigos de infância. Diego é um homossexual que sofre de aids e está fisicamente preso a uma cama. Miguel é aparentemente um homem assexuado que é obcecado por seu desejo de deixar a ilha e emigrar para os Estados Unidos. Ele espera conseguir o visto da embaixada americana para o qual vem se candidatando há algum tempo.
Sabemos que um evento de violência ocorreu na escola de juventude dos amigos, no qual Jorge foi vítima de discriminação e Miguel o teria protegido. Esse episódio selou a amizade entre os dois ao mesmo tempo que destinou Diego a uma vida de clandestina sexualidade. A história do filme se passa num momento em que Diego, deitado inválido sobre uma cama, tem a ajuda de Miguel para quase tudo, desde comida, remédio e banho. Diego confia em Miguel mais do que em sua família. A casa onde o casal de amigos mora pertence a Diego e a família deste teme que ela seja destinada em testamento a Miguel, uma possibilidade no direito da ilha socialista.
Últimos dias em Havana lembra imediatamente Morango e Chocolate (Fresa y Chocolate, 1994), de Tomás Gutierrez Alea, sobre história de Senel Paz, o maior sucesso de público da história do cinema cubano. A referência é explícita: também aquele é um filme sobre a amizade entre dois homens, um deles homossexual. Justamente, as personagens gays de ambos os filmes têm o mesmo nome, Diego (e são interpretadas por atores de nome Jorge, Perrugoia e Martinez, respectivamente). No entanto, as personagens não homossexuais são bem diferentes, quase opostas. No filme de Alea, David é um jovem comprometido com a revolução que tem enorme preconceito contra os gays. No filme de Pérez, Miguel é um homem que sonha com a vida americana e considera a revolução socialista uma verdadeira catástrofe pessoal.
Cena do filme Últimos dias em Havana / Foto: divulgação
Em sua passagem pelo Brasil, Fernando Pérez admitiu a referência ao filme de Gutierrez Alea, porém disse que seu filme é um tributo a esse, considerado o maior diretor cubano, de quem foi assistente. Atualmente, Fernando ocupa a posição de destaque de seu mestre. No entanto, para o diretor ambos os filmes são muito diferentes, apesar do núcleo de história comum. Na verdade, não é uma questão tanto de referência quanto de diálogo. E num certo sentido, o filme de Pérez guarda um tom crítico em relação a Morango e Chocolate.
Toda obra de cinema, ou mesmo artística, de Cuba está marcada pelo estigma do documento. Se a presença e a persistência da revolução cubana permanecem incompreensíveis para muita gente, é através da arte que se procura explicar o mistério da longevidade da revolução, para o bem ou para o mal. Assim, há pessoas que se basearam no filme de Gutierrez Alea para criticar ou mesmo denunciar a suposta perseguição homofóbica na ilha caribenha. Morango e Chocolate não seria então uma obra de ficção, mas sim um testemunho do caráter homofóbico dos revolucionários, “representados” pela personagem de David.
Não adiantaria argumentar, no entanto, que o filme seja um drama ficcional ou que Gutierrez Alea foi um diretor que sempre apoiou a revolução, ou que o filme tenha sido financiado com dinheiro estatal cubano e que tenha passado, sem censura, nos principais cinemas da ilha, ou mesmo que a sorveteria Coppelia tenha se tornado um ponto turístico e que lá nunca falte justamente o sorvete de “fresa”. Tudo isso deveria matizar uma apressada leitura “realista” ou “documental” da obra. Morango e Chocolate é o que se chama, em teoria literária, de um filme “polifônico”, um filme de vozes e perspectivas. A crítica ao ranço preconceituoso, machista e homofóbico eventual de um guerrilheiro cubano é elemento narrativo do filme, mas também é ato de autorreflexão estética da própria revolução, que repensa seu significado através de uma obra de arte.
Foto: divulgação
Últimos dias em Havana retoma um diálogo que torna ainda mais complexa a questão da sexualidade na ilha caribenha. O Diego do filme de Fernando Pérez já não representa mais a antítese da revolução. Num certo sentido, ele está em paz com sua condição de cubano e com o regime socialista. Há, portanto, neste filme uma troca de papéis com sinais trocados: é Miguel, amigo e interlocutor de Diego, que não confia no regime. Mas Diego, por sua vez, não é exatamente uma pessoa conformada com a situação do regime burocrático que reprime ou cerceia sua sexualidade. Sua prisão são sua cama e sua doença, e sua luta é por manter vivas a libido e a delícia de viver, mesmo em seus “últimos dias”.
O que o filme põe em confronto não é mais o destino coletivo de uma nação socialista contra o livre exercício individual da sexualidade. De certo, a sexualidade de Diego precisou ser vivida de forma clandestina, mas ele sabe que tudo em Cuba se consegue sob a “vista grossa” do poder oficial. Tudo é vivido nas brechas entre as aparências oficiais do regime político e a realidade cotidiana das ruas. Assim, o que a narrativa do filme confronta não é mais o Estado contra o indivíduo, mas a aparência oficializada do governo pós-revolucionário e a urgência política da vida e dos afetos cuja existência se dá coletivamente. Agora é Miguel que, ao se individualizar em sua amargura e desejo de fuga, vive uma vida paralisada, cuja única esperança é receber uma aceitação da embaixada americana, enquanto Diego e outras personagens vivem mais plenamente seus desejos e suas sexualidades. Últimos Dias em Havana inverte assim a perspectiva de Morango e Chocolate: não é mais a revolta do indivíduo que assinala a verdade opressiva do regime coletivo. É a intensidade da vida coletiva que se “vira” em condições desfavoráveis e traz a verdade sobre a impotência existencial do indivíduo representado por Miguel. Embora não suporte o sistema político de Cuba, Miguel o representa muito mais do que Diego e seus amigos e familiares. Diego incorpora o afeto existencial e libidinal que é ausente do discurso oficial da burocracia no poder, no entanto, é a rigidez desse sistema que torna viável esta mesma corrente afetiva subterrânea, ao permitir que prossiga como se não existisse.
O filme de Fernando Pérez trabalha de maneira a tornar complexa a relação entre a aparência formal do regime político e a aparência estética cinematográfica. Se, no início, o filme parece aderir a uma estética folhetinesca de oposições fortemente marcadas entre os caracteres antagônicos de Diego e Miguel – o primeiro exuberante, porém imóvel, e o segundo afetivamente paralisado, porém circulante – esse antagonismo se torna menos trivial aos poucos, pois a amizade entre os dois está incluída nesta “política da vida” da qual Diego é portador. A entrada em cena de novas personagens como P3 (ou P4, vivido por Cristian Jesús Pérez) e Yusisleydis (Gabriela Ramos), a sobrinha de Diego, amplia o caleidoscópio atual da vida na ilha caribenha, trazendo à tela a vivacidade da geração contemporânea de jovens cubanos. Ambos, aliás, justamente não alimentam o sonho de emigrar e vivem no interior de um experimento social de sobrevivência à margem dos legados possíveis ou das promessas utópicas da revolução.
Foto: divulgação
A presença deles interrompe repentinamente a normalidade esquemática da relação entre Miguel e Diego, assim como interrompe a história do filme numa bifurcação do correr da narrativa cinematográfica. É com a entrada desses jovens que o filme ultrapassa o binômio quase-dialético da fórmula “morango e chocolate” para desviar a outros rumos estéticos. Formalmente, há dois elementos marcantes na construção cinemática. O primeiro está no uso da música diegética, interna ao enredo. Toda a trilha sonora do filme é ouvida no interior da própria história numa junção engenhosa entre narrativa ficcional e documento contextual. Assim, a belíssima canção cantarolada por Yusisleydis tem o aspecto simultaneamente de um momento lírico de fantasia, sendo no entanto extremamente realista, evitando o que seria um artificioso comentário sentimental do diretor e expressando inesperada erupção do real na trama. O mesmo para a canção Chupa Piruli que acontece num mercado de produtos de consumo de Havana. A cena joga com a ambiguidade de sua localização e parece ocorrer em uma espécie de Miami insólita localizada dentro da capital cubana. Essa canção não “comenta” de fora o enredo, mas emergindo por diegese da própria narrativa funciona como um comentário irônico que o filme faz das próprias expectativas do público.
E há, a partir de certo momento, o recurso brechtiano de distanciamento e estranheza provocado pela fala de Yusisleydis, que passa subitamente de personagem secundária à narradora da história. O filme então assume um aspecto fabuloso, porém ao mesmo tempo mais fortemente verdadeiro. Não é simplesmente o caso de dar “voz” ao povo cubano, pois Yusisleydis não “representa” os jovens da ilha. Ela só representa a ela própria. Sua fala tem o mesmo efeito da música diegética: emana do interior do dispositivo cinematográfico ficcional interpelando diretamente o espectador. O que importa é menos o que ela tem a dizer e mais o gesto de sua enunciação, a tomada da palavra. O que é exemplar não é sua mensagem, mas sim o gesto revolucionário de assumir a palavra sem intermediários.
Últimos dias em Havana parece um filme em paz com o regime socialista, porém não se pode acusá-lo de ser uma propaganda do Estado cubano, nem tampouco é uma obra dissidente. O filme não transmite a ideia de que a revolução está em seus últimos dias, mas também não está em seus momentos gloriosos. Se o filme indica que há algo novo nascendo é porque a revolução também sofre metamorfoses insuspeitas, entre a verdade da fábula e a gélida ilusão da realidade.
Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor. É autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Ed. Oito e Meio/2014), e um dos organizadores do coletivo literário Clube da Leitura no Rio de Janeiro, tendo participado como autor e editor das três coletâneas lançadas pelo grupo. Atualmente, é doutorando em Teoria Literária da UERJ, onde realiza pesquisa sobre a aproximação entre Literatura e Ciência. Escreve sobre cinema desde 1995, quando recebeu um prêmio de crítica literária do Grupo Estação e do Jornal do Brasil num ensaio sobre o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.
nascer em são paulo
sempre é prematuro,
começo da ponta
de um peso, buraco
que não é túnel,
que chuva não
inunda, que cheiro
de café não
preenche, edifício,
fístula, santo:
quanto maior a pedra,
maior o câmbio, traste,
a vida em ricochete,
uma cadeira vazia na sala,
uma corda que pende
(e a cortina
do quarto
está sempre
fechada)
***
não foi em troia
nem na rússia:
quando sucumbi
de grandioso só
havia mesmo
solidão & silêncio.
restava tão pouco de mim
que nem era possível
sair à rua.
três toneladas o cigarro
entre os dedos,
e nenhum choro ou grito
na despedida.
desisti de tudo, salvo
da saudade:
quando sucumbi
soletrei infância
em maiúscula.
***
todo dia acorda todo dia toma banho
todo dia escova os dentes todo dia a comida
e o barulho todo dia o despertador tiro certeiro
certeiro o tiro todo dia existir ser gente
existir todo dia deixa para amanhã todo dia
ler todo dia os índices mas não os capítulos todo
dia toma omeprazol em jejum toma fluoxetina dá azia
todo dia toma ácido valpróico pra ficar boazinha
todo dia toma risperidona que é antipsicótico
remédio de louco mesmo você toma
remédio de louco mesmo o psiquiatra disse
todo dia 2 mg antes de dormir todo dia
toma o remedinho que é pra você ficar boazinha filha
não achar que o quadro da sala tá te perseguindo
na rua todo dia não achar que você vai morrer
todo dia conseguir sair da cama todo dia
o dia começa com tiro certeiro todo dia
o despertador toca com urgência todo dia
todo dia hoje parece demasia todo dia a mesma coisa
nenhuma o despertador tiro de trinta e oito todo dia
todo
***
eis a vida: produzir,
primeiro apenas fluidos, dos olhos,
sistema excretor,
para depois mais,
produzir objetos, relatórios,
projetos, máquinas,
massa, fumaça,
nota fiscal paulista,
e inequivocamente produzir
também paixões, declarações de amor,
laços, lágrimas, silêncios,
e se nada mais der certo,
produzir poemas,
esse vício, essa mácula,
esse consolo torto
ao qual me rendo
enquanto em algum ponto
entre o quarto e o sofá
você exerce seu pleno direito
justo, inteiro e irritante
de não mais se lembrar de mim.
Lilian Sais é doutora em Letras e pesquisadora e tradutora da área de grego antigo. Paulistana de nascença e fumante assídua por opção, é também leitora voraz da literatura brasileira contemporânea e coeditora da revista Libertinagem. Tem poemas publicados em Mallarmargens, Revista Gueto, Saúva e Zona da palavra. Gosta de samba, cerveja e poesia e é defensora da boemia, de piadas ruins e das conversas descompromissadas de mesa de bar. Os amigos dizem que é uma peste, mas que cozinha bem. Ela nega.
Sempre a procurei pelos livros, mas foi na biblioteca que a encontrei ao ver seus olhos estendidos sobre as mesmas órbitas de Der Zur Macht* que me revelaram milagres e epifanias de um crânio e um amor sem salvação. O ritmo de todas as caveiras prenunciava nosso diálogo com cadáveres no perímetro de sua boca sedenta e inflamada. Eu estava prestes a me desfazer como gelo afogado em whisky não bebido por seu batom, mas procurei pelo sol, procurei por um bar e, na medida que nossos passos se perdiam em busca de refúgio pelas calçadas, cresciam nossos delírios. A vi trazer o mundo na orelha como um brinco que se poderia perder em qualquer criado-mudo incapaz de nos denunciar. Eu sabia de seu desejo de violar todas as superfícies e todos os homens da superfície, também sabia que meu destino não seria diferente dos demais. Um doce mormaço nos fez levitar até os tentáculos de um polvo metálico para beijarmos o púbis das cervejas em copos de pecado. Nos excessos do dia, abriria a cortina da noite. Tremores de uma alucinação feroz em giros excêntricos pelos porões e sótãos de minha cabeça arrastaram seus joelhos para onde seus pés, por prudência, não deveriam ir alimentar o resto da vida com uma hora de loucura.
Hotel de carícias. Hora premeditada em que eu podia abrir as janelas de seu vestido e os olhos para a cumplicidade da lua e aproveitar o medo das nuvens de te ver transfigurar-se na penumbra onde seu rosto poderia praticar um crime delicado. Abri a porta de seu tornozelo que é a entrada de seu desejo. Sua penugem tão próxima das asas, dos dedos, do pênis, o sorriso de sua suave anatomia, os pequenos pêlos da perna que refletiam as luzes dos candeeiros e se deixavam colorir de cobre como seus cabelos se deixavam tingir com meu sangue. Não, nunca mais sairei do uivo de seu cão ou das páginas de seu caderno de adultério. As datas incandescentes contornam fragilmente as folhas de seu calendário bordado a fogo a incinerarem nossos dias. Beijos azulados deslocam seu ponto de fuga para além dos limites habituais e retalham a silenciosa atmosfera donde o suor é amigo e consorte dos amantes de março protegidos em alcovas das estrelas despregadas e das águas que encerram o Verão. Demência apaixonada onde encerramo-nos em quartos, onde a despi de todos os corpos que cobriram seu corpo. Jogos de dados lançados em lençóis pálidos, teu sexo refletido no espelho e chamando por mim. Naufraguei no cio das coxas como dois rios que dividiam o mar tingido por menstruações que afogaram tantos semens na travessia do canal da mancha em colchas que escondem segredos e ocultam digitais. O crime é mais importante que o castigo e as paredes possibilitam inserções mágicas e fórmulas algébricas que nunca se repetem. Arranquei da sua face todas as máscaras de rostos amados. Eu soube decifrar seus jogos noturnos. Pouco a pouco os trapézios de néon avançavam através das sobrancelhas cerradas da meia-noite nos meandros de armas e rosas. O vinho nos bebe e macula a cama. Os olhos de dois morcegos famintos abandonaram sorrateiramente as feridas nos travesseiros abertas por nossos poemas. Cortina de cabelos transforma qualquer imagem em miragem. Uma roleta giratória de revólver em permanentes disparos sobre a rosa carnívora. O perfume na garganta de espuma e fúria das invasões bárbaras. Nossas bocas só depois da madrugada fazem passar os pássaros em revoada sob a pele, porque o amor é só uma palavra, porque o céu foi nossa última chance essa noite.
O lápis do sol desenhava o contorno de seu corpo e tingia as marcas em meu pescoço. Seus caninos sorriam para mim.
* Vontade de Poder
***
DO AMOR DE DEPOIS
Ele imagem vertiginosa e alta de um certo pensamento de alegria e impudor. Ela boca cheirando a álcool a equilibrar a lucidez de um cigarro. Eles numa atmosfera de embriaguez a viajarem entre o essencial e o acessório a lançarem dados e calcularem probabilidades impossíveis de encantos mútuos. Ele a compor um sarau de ensaios sofísticos. Ela a utilizar toda alvenaria da sedução. Eles a testarem o dom de reinventar o tempo e o espaço a partir de experiências. Ele a descobri-la ao acaso em caravelas naufragadas em mesas e toalhas. Ela a pensar que numa era o encontraria voluntariamente nos cafés e quartos. Eles a conversarem sobre poetas malditos, livros lidos, desafetos amados e moinhos de vento. Ele a esconder seus segredos e sussurrar suas senhas. Ela a contar tudo a cada minuto sua íntima história de desejo. Eles a excitarem a fúria das paixões num esforço de fé no tempo que endurece as coisas até chegar o momento em que se pode quebrá-las entre os dedos. Ele a sensação do porvir como um sonho irreal. Ela uma mulher com quem beber e esquecer entre silêncios e risos. Eles a se amarem com todas as forças de um tempo ancestral pendurados em fios imaginários na superfície da paisagem. Ele a conjecturar o roteiro de uma viagem sem volta. Ela mãos fecundas a gerar ironia e loucura. Eles a lutarem contra bocas famintas que estilhaçam vértebras e cospem ossos no asfalto. Ele caminha ao cambaio das ruas de verão. Ela a rasgar sua face mais contratual. Eles a beberem todos os delírios e devaneios mais profundamente que qualquer demônio. Ele corpo puxado pelo avesso. Ela corpo devassado. Eles a trocarem imagens do mundo através das bocas mudas. Ele linha do equador entre os braços. Ela mapa-múndi dentre as pernas. Eles a admirarem a miragem dos eternos corpos despidos. Ele a lê nua e decifra seus enigmas. Ela a sentir em seu dorso os dedos que tocam os acordes da melodia em sol maior. Eles a esconderem o prazer de se digladiarem numa arena que revela uma verdade em que não se reconhecem. Ele alma de anjo decaído. Ela carne de vinho e saliva de cerveja e sêmen dos suicidas. Eles a criarem uma primavera de pernas entrelaçadas e se perfumarem com todas as fragrâncias que envolvem suas peles num raio de quilômetros. Ele a colher laranjas em seu ventre e morder o pêssego do peito perdido. Ela a arder sobre um lençol mordido por flores molhadas de sigilo e sal. Eles a trocarem carinhos e confidências como cúmplices de crimes perfeitos. Ele com a certeza científica de que as pérolas se formam por meio de agressões externas para serem saqueadas do sofrimento das ostras. Ela a sentir seu mundo guiado pelos cinco sentidos que criam ciclos de culpa e prazer nos temores da vida de refugiada. Eles a roubarem de seus outonos e entranhas os frutos que incendeiam o paraíso ao imaginarem que inventaram um deus. Ele a adentrar seu labirinto e arranhas suas paredes com inscrições e datas. Ela o livro que ele nunca escreveu. Eles a dobrarem esquinas opostas e trilharem seus caminhos nos quais fantasmas os aguardam inteiros. Ele a beijar seus olhos de ressaca do amor de depois. Ela?
Vinícius Canhoto é escritor, professor, doutorando em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo. Autor de “Livro do Esquecimento”.
Essa urgência
acomodou-se ao redor das unhas
nas costuras de todas as roupas
paira como poeira levantada
Goles de ansiedade pela manhã
excretadas pela urina à noite
o motor é a esperança de que nada permaneça
mas os pés cimentados
Cinco litros bombeados
oxigenando cada partícula cismada
Universo derramando-se sobre a cabeça
escorrendo pelos braços
pingando dos dedos
***
Insones
É tarde
Enterraremos um ao outro
à sombra do esquecimento
Teu universo aflige
atordoa as certezas
Quisera a sinceridade ampla
É tarde
o tempo haverá de fechar as noites
Desejo que parta imediatamente
furte a ousadia
Aceito o desamor
à luz do passo do teu compasso
***
Pele
Atrai o que há por baixo da pele
Entre ossos e músculos
raivas incontidas
prazeres descabidos
Atrai o passado
martelado na cabeça
imoralidade dos erros
ideias frouxas
O que desejo está onde reside
a tua vontade
por dentre entranhas
Anseio pelo que vai atrás dos olhos
***
Trem em curso
O trem leva ainda que eu resista
Quando desce o morro desvairado
por pouco não me cospe janela afora
Cabelo ventado vedando a boca
fiarada adentrando as narinas, pintando o rosto de caracóis
por vezes, súbita felicidade
mas vertigem
Será implacável o tempo
há tantos cursos entrelaçados, vias cruzadas
se você fechar os olhos escutará a onomatopeia do riscar nos trilhos
A viagem, curta
morro a cada estação, deixando os meus pedaços
e colhendo cactos
certeza de que o florescer não dependerá de nós
Quanto à história, esta sim, cobre-se de nossa pele e suor
Impõe-nos um mundo e nos exige a coragem para movê-lo
O trem nos corta ao meio
***
Cavalo tonto
Esse desejo soa como cavalo em disparada
Trota tonto
Nada dito dará cabo ao frenesi
O coração à altura da cabeça
flor roxa tatuada no peito
e no sexo
O que fazer com a tua humanidade?
Não o selei, nem alisei teu pelo grosso
Arrebata meu sossego
atordoado, entorpecido
Arrebata-me
Helena de Andrade, fotógrafa amadora, montadora de vídeos, poeta, feminista. Trabalha no terceiro setor e é formada em Ciências Sociais, com Mestrado em Sociologia da Educação.
Desobediência. Palavra que carrega em si um peso imediato. A uns, espanta e até mesmo repele; a outros, é frente de acolhida. Em tempos de cinismo, hipocrisia, reavivamento ultraconservador e de uma teatralizada desonestidade intelectual a nos rondar, ser desobediente pode se revelar uma valiosa e efetiva maneira de se estar no mundo.
É conveniente frisar que desobedecer não é uma atitude gratuita de simplesmente nadar contra a corrente de um ordenamento jurídico, político, social ou econômico com um banal artifício retórico. Significa entender-se como sujeito permanente de transformações, o qual luta acima de tudo para tornar presente a sua vez e voz num panorama necessário de existência pela preservação daquilo que lhe é demasiadamente humano e caro, a identidade própria.
Diante de um cenário de adversidades, o qual não é apenas secularmente constituinte de um país como o Brasil, há vozes que precisam se fazer presentes e, desse modo, marcar suas preciosas posições de existência. Aliando-se a este tipo de entendimento, uma poeta como Daniela Galdino faz do seu caminhar um permanente movimento de afirmação nos mais plurais níveis. E presenciamos esse vigor expressivo não apenas nos seus escritos, mas sobretudo nas frentes em que atua.
Dona de uma voz transgressora que demarca e expande a sua consciência do que representa ser mulher num mundo como o nosso, Daniela também se espraia pelos territórios da performance, do ensino e do ativismo cultural. Este último vem muito envolto numa noção sócio-política de engajamento frente a questões ligadas à visibilidade das mulheres, bem como aspectos importantes associados às temáticas de gênero.
A autora do emblemático livro de poemas Inúmera (Ed. Mondrongo), através do qual deixa transbordar toda a sua íntima, plural e peculiar visão de mundo, agora dedica o continuar de seus passos para a difusão do coletivo de poetas e fotógrafas Profundanças 2. Celebrando sua segunda investida editorial, esta obra privilegia as expressões de mulheres que se insurgem contra o manto da invisibilidade, o qual, dentro de uma nociva construção social, tentam lhes imputar cotidianamente.
O momento presente, pontuado nesta entrevista, pede que falemos sobre os desdobramentos de Profundanças 2, sua pungência diante dos duros cenários que pululam na atualidade. Urge também falarmos sobre Missivas, performance que Daniela Galdino tem realizado e que alerta para silenciamentos em torno da mulher. Por tudo isso, o agora se volta para ouvir uma artivista que cada vez mais abre seus caminhos para o diálogo com outras vozes. É preciso tirar os móveis do lugar, desarranjar viciadas estruturas, abrir caminho para o outro, sua verdade e inteireza.
Daniela Galdino / Foto: Ana Lee
DA – Na apresentação de Profundanças 2, você emprega o termo re-existência como um símbolo que situa as expressões das mulheres dentro de um contexto de afirmação identitária. Qual o sentido maior de fazer com que tais vozes não se calem?
DANIELA GALDINO – O sentido da desobediência, sobretudo. Em tempos tão ameaçadores à nossa sensibilidade, escrever literatura, atuar na coletividade em busca de leitoras/es, devolver os insultos cotidianos com poesia (por exemplo) é desobedecer à ditadura do pavor e do desencanto. Então, resta-nos dizer e nos associar a outres que também têm muito a dizer. É por isso que na apresentação da antologia Profundanças 2 também afirmo que “agora estamos irmanades pelo grito” e que “odiadores não representam a totalidade do mundo”. Entendo a re-existência como um intenso desafio de reelaboração de si e dos lugares que ocupamos ou pelos quais transitamos. Não podemos sucumbir à desesperança. Isso seria um total desrespeito àquelas que nos antecederam e, com luta/sonho/sensibilidade, abriram veredas para que atravessássemos. Não penso que a literatura deva se dar ao luxo de ignorar esses desafios. A palavra literária é grávida de vida, de cotidiano, de embates, de delírios, de transgressões.
DA – Da primeira edição até aqui, o que mudou fundamentalmente? O momento atual, o qual nos toma de assalto com toda sua nebulosidade, configurou uma nova tomada de consciência?
DANIELA GALDINO – A primeira edição de Profundanças é de 2014. De lá pra cá, o país foi assolado por um golpe já denunciado pela imprensa, inclusive internacional. Em linhas gerais, essa foi a principal mudança para pior. No entanto, isso não significa que as outras formas de violência, as opressões (raciais e de gênero, por exemplo) sejam recentes. Não mesmo. A consciência crítica que nos leva a combater tais opressões também não é recente. Na literatura, a genealogia dessa consciência crítica é extensa, nos leva para o século XIX, se pensarmos em escritoras/es negras/os aqui no Brasil. O problema é que os espaços de consagração ou divulgação literária (como a universidade, as academias de letras, a escola, festas/festivais literários e mesmo o mercado editorial) historicamente têm tornado invisíveis as produções literárias que revelam discursividades dissidentes. Recente é o acordar (ainda lento, por sinal) de produtores de eventos, escolas, editoras para as “outras” vozes – negras, feministas, lgbti, etc. – e suas criações literárias. Alguns espaços sequer as reconhecem, como é o caso de boa parte das academias de letras, ainda insistindo naquele discurso desgastado: literatura é literatura e se basta, não deve ser “contaminada” por outras questões. Entendo que o estético e o político não devam ser apartados. E assim tenho sobrevivido como artista que dialoga com outres fazedores de artes. Estão nos bombardeando a todo instante. À literatura cabe a “tranquilidade” de se colocar à parte disso? A minha resposta é um estrondoso não. E, em verdade, a literatura não está isolada no mundo, há intensas formas de ativismo literário, de artevismo (como se diz).
DA – Com estas vozes dissidentes a que você se referiu, uma nova perspectiva de linguagem surge, algo evidenciada sobretudo pela forma de grafar certas palavras. E, sabemos, isso potencializa uma importante vertente discursiva. Acredita que tais mudanças no trato linguístico precisam também ser incorporadas nas práticas formais?
DANIELA GALDINO – Sim. Bem sabemos que a língua é reelaborada no social, que está em constante transformação. Em Profundanças 2, por exemplo, temos a presença de duas artistas trans não binárias, sendo uma delas da fotografia. Daí, generalizar pelo masculino se torna incômodo, não só para essas artistas, como para nós que construímos o projeto na coletividade. No âmbito do projeto passamos a grafar o termo “Fotógrafes”, como uma provocação para que outros gêneros sejam representados para além do binarismo masculino-feminino. Entendemos que não se trata só de uma troca de palavras, mas de um amplo sentido relacionado às formas de igualdade de gênero, o que, desejamos, devem ser incorporadas nas práticas cotidianas.
Daniela Galdino em Missivas / Foto: Ana Lee
DA –Quando você observa o resultado de um projeto como o Profundanças, consegue vislumbrar a presença efetiva de alguma transformação no campo das representações sociais?
DANIELA GALDINO – Profundanças é um projeto que está em curso, estamos no segundo livro num período de pouco mais de dois anos. Então, transformações serão percebidas no processo. Como é um projeto que combate a invisibilidade de escritoras no cenário da literatura, já se torna provocativo, ainda mais por ter a visualidade como algo importante. As duas antologias publicadas trazem, além dos poemas/contos/crônicas, ensaios fotográficos. Isso não é aleatório. Desejamos difundir imagens dessas escritoras em seus lugares de origem e/ou atuação, evitando qualquer forma de objetificação. Importante, também, por se tratar de um projeto que traz, em sua maioria, escritoras inéditas, muitas delas negras. Então, essa visualidade, esse contato de leitoras/es com imagens dessas escritoras, é uma forma de oposição à invisibilidade a que me referi há pouco. Além disso, Profundanças provoca deslocamentos, encontros. Cito como exemplo a poetisa Dayane Rocha que, apesar de ser pernambucana, não conhecia a cidade do Recife. Foi a partir de uma atividade do projeto (uma roda de conversa realizada no Espaço Pasárgada, em agosto/2017) que Dayane esteve pela primeira vez na capital do seu estado. Eu estava com ela e presenciei uma cena profundamente tocante. Chegamos ao Recife numa quinta-feira à noite, a cidade naquele intenso movimento de rua (trânsito frenético, pessoas saindo do trabalho, ônibus lotados). Nos dirigimos ao prédio onde ficamos hospedadas e, da janela de um vigésimo andar, vi Dayane chorando muito e observando os prédios imensos que restringem a visão da paisagem. Ela me disse: “quero voltar pra Brejinho”. Na manhã seguinte, eu me acordei com um poema que ela escreveu bem ao modo da tradição do Pajeú, o seu sertão (e ainda nos deixou um poderoso mote: “Recife, tu és mais dura/ que coração sem poeta”):
Buzinas, carros, barulho
O teu céu reflete prédios
Tua gente vira entulho
Por conta dos intermédios.
Tua paz é estressada
Até mesmo a passarada
Canta uma nota incompleta
Cantando na partitura…
Recife, tu és mais dura
Que coração sem poeta.
Trago esse exemplo para dizer que os encontros têm acontecido. Encontro com outras, com nós mesmas, com as estranhezas cotidianas… e isso tem nos transformado a todo instante. Dia desses, numa conversa in box, Renailda Cazumbá (escritora baiana que está em Profundanças) me disse: “você é uma refazedora de novos lares! Lares poéticos”. Somos colegas de trabalho na universidade e, aos poucos, comecei a desconfiar que Renailda escreve. Perguntei pela primeira vez, em 2013, ela disse que não. Na segunda vez, não perguntei. Já enviei o convite para ela participar de Profundanças, em 2014. Inicialmente ela não aceitou, depois foi convencida. Dito e certo: ela me enviou arquivo com poemas datados (alguns do final da década de 80). A partir disso, Renailda tem sempre relatado como foi difícil atribuir a si o nome de poeta; como tem disso uma revolução interior: se ver ao lado de outras mulheres que escrevem. Estou falando de uma mulher negra nascida no recôncavo baiano e vivida no sertão. Uma mulher que me diz: até a minha casa deixou de ser a mesma depois disso (a sua primeira experiência de publicação literária).
Já podemos falar de abalos na representação de si. E isso também envolve leitoras, leitores que temos encontrado pelo caminho. Pessoas diferentes nos mais diversos espaços (ruas, escolas, universidades, coletivos culturais, redes sociais, eventos etc) que têm nos feito relatos sobre a importância de se reconhecer na escrita e na imagem das escritoras que estão nos dois livros. Acho que a primeira poderosa transformação a que posso me referir é essa.
DA – Você crê que a literatura voltada para o ambiente virtual encerra uma substancial dinâmica de construção das identidades?
DANIELA GALDINO – Eu entendo que a literatura divulgada em ambientes virtuais nos insere em outras dinâmicas de diálogos com leitoras/es. Para você ter uma ideia, o primeiro volume de Profundanças já foi lido em escolas públicas, tivemos notícia de que circulou em turmas de um programa de formação de educadoras/es no sertão baiano. Ao mesmo tempo, numa pesquisa na internet, descobri que uma docente da UENF e IFF, a Analice Oliveira Martins, iriá apresentar uma comunicação acadêmica em Portugal (o Seminário Mundial de Estudos da Língua Portuguesa, outubro/2017). Nesse trabalho a profa. discute antologias literárias brasileiras e ensino, dentre as obras analisadas está Profundanças 1. Imagina a minha surpresa! Outro exemplo da repercussão: em novembro deste ano a mestranda Elis Matos (UESC) estará numa congresso na Argentina, apresentando um trabalho que aborda o feminismo não binário a partir do poema “Enquanto meus pés balançam”, de JeisiEkê de Lundu, que foi publicado em Profundanças 2.
No nosso caso, publicar um livro virtual resolve uma questão: a falta de recursos financeiros. Tem mais: Profundanças é um projeto independente, já nasceu na contramão e até o momento não vislumbrei captação de recursos via edital, por exemplo. Pode ser que no futuro façamos a opção pelo livro impresso. Por enquanto, a virtualidade tem nos levado ao encontro de leitoras/es distantes e desconhecidos. Eu, por exemplo, não conheço a Profa. Analice Martins, só depois de encontrar o resumo do seu trabalho na internet, fiz contato por e-mail.
Por ser um projeto que envolve imagens (ensaios fotográficos), sei que Profundanças demandaria custos relativamente altos. Isso talvez limitasse a quantidade de exemplares a serem impressos e, consequentemente, reduziria o público que teria acesso. O livro virtual tem nos dado uma maior liberdade nesse diálogo palavra-imagem e a grande aventura é saber que a circulação é ainda mais imprevista. Talvez tudo isso influencie a construção de identidades.
DA – Sua performance Missivas traz à tona importantes reflexões sobre a invisibilidade da mulher em nosso tempo. Desde o início do espetáculo, já somos tomados de assalto pela metaforização de um peso através da melancia que você carrega e vai passando, ao longo do caminho, por mãos masculinas. O que dizer desses sinais de alerta?
DANIELA GALDINO – São incontáveis os sinais de que o patriarcado e seus tentáculos imputam a nós, mulheres: a inferioridade, invisibilidade, o aniquilamento. As violências se manifestam de várias formas e, o pior, vão se cristalizando como normalidade. A violência não tem existência por si só. É uma fabricação social e, como tal, necessita de sujeitos que movam essa roda. Por outro lado, se a violência é criada em sociedade, é nesse mesmo espaço que ela deve ser desconstruída, desfeita. Como proceder? Denunciando, (des)educando, descolonizando mentes e saberes, refazendo práticas cotidianas. O meu espaço de atuação tem sido a arte: a poesia e a performance. Como performer, tenho como prioridade sair do palco tradicional e ocupar as ruas e outros lugares aparentemente inadequados para a atuação artística. Prefiro me inserir no cotidiano das ruas, dos pontos de ônibus, dos mercados, das feiras – com seu ritmo, com seus sons, gritos e silêncios. Tem sido uma experiência fortíssima, pois a rua me traz o imprevisto, a possibilidade de interagir diretamente com desconhecides. E o contato – seja pelo choque ou acolhimento – faz de cada apresentação uma estreia. Tenho buscado esse diálogo, primeiramente, com as mulheres com as quais me encontro; mas é imprescindível deslocar, provocar e dialogar com os homens também. Só acredito em arte que potencialize as transformações (de si, de nós, do mundo).
DA – Como você percebe a reação do público masculino diante de uma performance que o põe no cerne de uma discussão?
DANIELA GALDINO – Missivas se divide em dois espaços: a rua, com um cortejo; e um ambiente que minimamente garanta condições adequadas para a trilha sonora e interpretação dos poemas. Nesses espaços as reações dos homens têm variado entre o espanto, o incômodo e até mesmo o desprezo. Explico essa última reação: na rua a performance implica em entregar uma pesada melancia para os homens, enquanto entrego cartas poéticas para mulheres e também digo frases secretas no ouvido delas. Ao mesmo tempo em que interajo com cartas e sussurros às mulheres, os homens seguram a melancia. Muitos já recusaram, teve até um, em Garanhuns (PE), que me hostilizou. Outros ignoram completamente a minha presença, desviam o caminho. A maior parte dos homens têm se incomodado, mesmo “aceitando” segurar a melancia. O desconcerto é visível, eles não sabem o que fazer com esse peso. Há, também, a reação na segunda parte da performance, quando interpreto os poemas e outras formas de interação com o público se desenvolvem. Geralmente fazemos uma roda de conversa após a performance e não houve uma só vez, desde a estreia (em março de 2016), em que não houvesse depoimentos de homens que assumem estar perturbados. Sinceramente, sinto prazer ao perceber essa perturbação que nada mais é do que o contato com as nossas palavras de mulheres dissidentes, com a ação performática e o convite para participar, acolher em si os desajustes. Importante dizer também que Missivas tem trilha sonora ao vivo e a proposta é convidar um músico a cada apresentação/temporada, que traz o seu repertório para dialogar com a proposta. Tenho feito questão de convidar homens para fazer a trilha porque dessa forma eu também os provoco, enquanto artistas, a ler/ouvir e se contaminar com o que nós, mulheres, escrevemos. Até então os parceiros musicais têm revelado incômodos e verbalizado isso nas rodas de conversa. Eles entram na performance e também percebem que, naquele instante, não são protagonistas; talvez aprendam a ouvir, não silenciar… Enfim, lógico que as transformações não são imediatas, mas só em gerar esse incômodo, já é maravilhoso pra mim enquanto artista dissidente.
DA – E o que dizer da interação das mulheres em meio às provocações sugeridas por Missivas?
DANIELA GALDINO – Tem sido uma experiência incrível do cortejo à roda de conversa que acontece pós-performance. Estou circulando com Missivas desde março de 2016 e em todas as apresentações aprendi algo forte. As mulheres têm me ensinado muito. A forma de interação é diferente. Não digo que elas sintam mais do que os homens – isso nunca poderemos medir, o território do sensível -, mas a resposta tem feito do ato performático um intenso espaço energético. Tenho várias histórias para contar sobre Missivas, comecei a elaborar o diário da performance, sempre escrevendo dias depois de cada apresentação. Na verdade, relatos curtos que me façam lembrar do que aconteceu. E esses relatos trazem as mulheres na linha de frente. São várias histórias. Cito três.
Em 2016, numa das apresentações, uma jovem teve um ataque de choro e aquilo me chamou muito a atenção. Após a roda de conversa eu notei que ela estava abraçada com dois colegas gays e que os três choravam muito. Fui lá e ouvi isso: algo na performance disparou a memória dolorosa do estupro que a jovem havia sofrido há dois anos. Fiquei paralisada, a performance não fala de estupro, mas a força de tudo o que a moça tinha presenciado e vivenciado em Missivas ativou essa dor. Chorei junto com ela e os amigos dela. Algo que não foi publicizado, ficou entre nós. Difícil esquecer o que aquela moça me disse: “quando eu fui estuprada, era inverno, eu estava de calça, botas, casaco… e ainda assim o cara me violentou… ou seja, nenhuma mulher pede pra ser estuprada, nada justifica o estupro, nem mesmo se a vítima estiver com roupas curtas. Violência é violência”.
Recentemente, em Itabuna, eu estava fazendo o cortejo de Missivas para que um professor da UFSB (o Rafael Guimarães) fizesse o registro audiovisual que vai gerar uma vídeo-performance com fragmentos do trabalho de várias artistes. No cortejo, logo de longe avistei uma mulher que me chamou a atenção, me dirigi a ela e disse a frase secreta. Ela ficou paralisada, olhando profundamente nos meus olhos. Percebi que era uma mulher com transtornos mentais, retribuí a profundidade do olhar. Segui o caminho porque nessa parte da performance priorizo a comunicação com o olhar, sem mais palavras. Só que a mulher me seguiu, me perguntou: “o que é isso que você está fazendo? Por que você me disse aquilo?”. E eu não respondia com palavras, apenas com o olhar. Mas ela não se deu por vencida, me seguiu de novo, segurava a barra da minha saia e repetia a pergunta. Ela parou na minha frente, olhou de forma profunda e falou: “Não fique assim, você está tão bonita”. Depois, segurou no meu braço (sem impor força) e de forma acolhedora me disse: “Você tá bem? Tá precisando de alguma coisa?” Aquilo me emocionou, eu chorei retribuindo o olhar profundo daquela mulher e segui o meu caminho.
O terceiro exemplo foi em Ilhéus. Também no cortejo, me deparei com essa cena numa praça: uma idosa vendendo churrasquinho. A praça fica perto de um ponto de ônibus. No momento, havia incontáveis pessoas, pois o horário era de final de expediente. Apesar do intenso movimentar, ninguém me atraiu mais do que aquela mulher de marcas profundas na face.
Performance, pra mim, é um mergulho no imprevisto. A minha guia são as energias do momento. Eu também tenho amor pela rua – esse espaço-turbilhão onde o instante se consagra no diálogo com desconhecides. Pois sim. A energia me levou até aquela senhora trabalhadora. Cheguei perto dela e disse a frase secreta. Os olhos dela ficaram inundados; os meus, cheio de marés. Por alguns segundos nos olhamos fixamente. O instante se consagrou. Segui o meu rumo, mas me virei para trás e, novamente, conversei com o olhar inundado daquela mulher. Fiquei forte. Prossegui.
A fotógrafa Izabella Valverde (a qual não conheço) consagrou o instante pela segunda vez. E a cada momento em que olharmos para essa imagem, reviveremos o instante e acolheremos em nós as lutas, as inundações e a singeleza dessa senhora. A rua me ensina a cada ato performático. Sou grata a todas as mulheres que tenho encontrado pelas veredas…
Daniela Galdino em Missivas / Foto: Izabella Valverde
DA – Em que medida a convergência entre poesia e performance amplia as possibilidades de libertação pela arte?
DANIELA GALDINO – Nessa convergência só vejo desmedida. Sou uma artista em constante reelaboração, o que significa dizer que não meço as formas de ampliação do processo libertador. Quando as fronteiras entre linguagens artísticas e entre artista e público são rasuradas, o inesperado se apresenta. Gosto disso. Demorei para desenvolver essa consciência, sabe? Primeiro me assumi poeta. Há sete anos tirei a performer que estava no armário. Já havia feito teatro universitário nos anos 90, foi uma experiência incrível. No entanto, o mergulho na criação poética foi me trazendo uns estremecimentos que inicialmente eu não soube processar. Acolher e reler em mim esses impactos redefiniu caminhos. O entrelugar, a atuação híbrida que atrai a poesia para a performance e vice-versa têm me ensinado bastante. O caminho está se construindo nos caminhares, nos encontros, desencontros (comigo mesma e com o público). Esse processo já é libertador.
DA – Quem é Daniela Galdino?
DANIELA GALDINO – Uma mulher desobediente, sonhadora, fazedora de incêndios íntimos. Sou uma incansável artista que não vê separação entre o estético e o político. Aprendente e desaprendente. Sou uma “rameira das palavras”, “uma interrogação vagando com pressa”. Sou esta que vive atenta ao mundo invisível e seus poderes; atenta às outras mulheres – seus desejos, delírios. Um poema que representa esse estado é “Arada” (publicado em Profundanças 2 e inserido no meu próximo livro, Espaço Visceral). Eis:
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.
Mirar os espaços em redor. Creditar a eles uma amplitude que atravessa as dimensões concretas da existência. Vislumbrar experiências de vida em esferas até mesmo inimagináveis. Sentir a pulsação dos dias em meio a doses cortantes de realidade e fantasia. Acreditar que o corpo é também um receptáculo de outros tantos estágios da consciência. Assim, trajamos as vestes de nossas humanidades. Assim, também navegamos, talvez um tanto à deriva, em meio às procelas de um mar que sabe a todo tempo nos acostumar a seus mistérios.
Viver é não negar o ato contínuo dos equívocos. É descortinar o véu que divisa a euforia e o sonho da dor ou hecatombes íntimas. Quando olhamos o que nos parece visível ao primeiro ato, sentimos que a matéria um dia pode se dissolver sem prévio aviso. As coisas, por mais palpáveis que sejam, desmancham-se ante nossos olhos nalgum instante futuro. É quando talvez tenhamos como companheira de jornada finita a memória e seus falhos recortes.
Mas se permitir experimentar a efusão dos instantes também pode representar uma rica constatação de que a vida não nos reserva apenas o lado aparente de seres, coisas e lugares. Há um universo de sensações e construções particulares que são percebidos no decorrer duma caminhada que contempla as possibilidades de abstração. Certamente, é ofício dos mais complexos ousar interpretar aquilo que transcende a concretude do mundo.
Todos os mergulhos relatados nas linhas iniciais deste texto talvez sirvam como um átimo de compreensão a respeito do trabalho de uma artista plástica como a portuguesa Cláudia R. Sampaio. São dela arremates de reflexão que viabilizam um espaço de coexistência para os matizes da alegria, dor, inocência e esperança. Suas pinturas, mesmo quando nos permitem vivenciar sinais de elevada densidade em torno do humano, apontam para marcantes sinais de leveza.
Pintura: Cláudia R. Sampaio
Do contraponto entre cenas cruas da vida e seus correspondentes mais antagônicos, Cláudia retira o resultado efetivo de suas apostas narrativas. Desse modo, fala-se de um mundo que nos atravessa cotidianamente, mas também de outros mais que perpassam um lapso onírico da existência. Ademais, esse paralelismo de sensações faz multiplicar uma variedade de sentimentos que, ao fim e ao cabo, são a mais pura representação das nossas inquietudes inalienáveis. No contraste entre as pulsões internas e externas, a artista reverbera uma voz que a tudo vê e sente.
Na espiral do tempo que não retrocede, as pinturas de Cláudia também se ocupam de pensar a vida como um constante painel de expressões poéticas. Há um clamor que vem da necessidade de conferir vez e voz ao canto íntimo de suas personagens, atitude que abre perspectivas em torno do desejo, da serenidade, do caos mundano e do espanto e estranhamento frente ao todo circundante.
Nascida em Lisboa, nos idos de 1981, Cláudia R. Sampaio também se dedica ao ofício de poeta, tendo publicado os livros Os dias da corja (Ed. Do Lado Esquerdo, 2014), A primeira urina da manhã (Ed. Douda Correria, 2015), Ver no escuro (Ed. Tinta-da-China, 2016) e 1025 mg (Ed. Douda Correria, 2017). Sua dedicação à pintura remonta à infância. Tem na figura do pintor Jean-Michel Basquiat uma de suas grandes inspirações no labor artístico.
Diante da presença vigorosa das cores e do contraste entre sentimentos díspares da condição humana, Cláudia lança mão da sua feição de poeta para também impulsionar a criação de suas pinturas. Sua arte mescla tanto uma observação que emana do contato com o externo, como também dos mergulhos interiores caracterizados sobremaneira por uma marca pontuada pelo lado sublime da vida. De modo especial, as incursões apontam para o âmago das coisas, esse ato contínuo e transformador de olhar tudo por dentro.
Pintura: Cláudia R. Sampaio
* As pinturas de Cláudia R. Sampaio são parte integrante da galeria e dos textos da 121ª Leva
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.