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119ª Leva - 04/2017 Destaques Jogo de Cena

Jogo de Cena

A verve provocativa de The so-called outside means nothing to me

Por Vivian Pizzinga

 

Cena da peça “The so-called outside means nothing to me” / Foto: divulgação

 

 

No palco, quatro jovens mulheres, vestidas com roupas largas, nada sedutoras, dividindo-se em emanações de uma mesma personagem, Minna, jovem isolada por escolha, em um apartamento num dia entediante. Relacionar-se com o mundo exterior – the so-called outside –, com o que há fora do apartamento, com o que há fora de si, implica muito desgaste: ficar o tempo todo balizando o que se diz com o que se pensa, medindo os parâmetros vigentes em uma dada cultura com a vida que caminha fora das capturas ideológicas, quaisquer que sejam; ficar ainda regulando o politicamente correto que, entretanto, é estrangeiro face aos pensamentos espontâneos mais genuínos, verificando a adequação do que se sente àquilo que se pode sentir, do que se pensa àquilo que é considerado pensável, ao que é aprovado socialmente, ao que está na moda, ao que é vanguarda ou, por que não?, ao que é sustentável. Essas constantes verificação e regulação são extremamente cansativas e perturbadoras. A personagem, dividida em quatro, prefere não. Este é o cerne em torno do qual começa a girar o sensacional The so-called outside means nothing to me, que teve apresentações no Cena Brasil Internacional, em junho de 2017, nos palcos do Teatro I do CCBB-RJ.

Há um cerco de emoções, esperas e questionamentos que se erige ao redor das quatro atrizes e delas emana. Trata-se de quatro moças que fogem aos padrões de beleza mais rapidamente identificáveis: usam óculos, têm cabelos emaranhados, nada lisos, não são magras nem fazem um uso sedutor do próprio corpo, não estão maquiadas. O cenário é desprovido de objetos ou quaisquer outros dispositivos que sirvam de atenuantes de tudo o que se passará ali, de tudo o que será dito, de toda a tradução corporal do texto bem urdido. O chão e a parede são pretos, não há matizes. A iluminação dá sinais de que inexistirá como elemento estético, uma vez que tudo começa em clara luz, com as pessoas ainda terminando de encontrar seus lugares na plateia, apesar de o toque da campainha que indica o início próximo do espetáculo já ter soado. É quando entram as quatro mulheres jovens, olhando com desconfiança para os espectadores, semblante de poucos amigos, suspeita sem disfarce algum, ausência deliberada de simpatia.

 

 

Foto: Guto Muniz

 

 

O espetáculo é dirigido por Sebastian Nübling e coreografado por Tabea Martin, e o texto, brilhante, carregado de uma inteligência provocativa, com senso de humor e ironia, é da premiada escritora alemã feminista Sibylle Berg, autora ainda de 13 romances, 21 peças, e possuindo grande projeção na Alemanha exatamente por sua característica provocadora. A nítida e quase palpável provocação de seu texto não traz, no entanto, um incômodo indigesto. É possível rir de si mesmo, quando o si mesmo é retratado da forma como o é em The so-called outside. O humor é, definitivamente, a melhor forma de provocação. E o que é mais interessante no espetáculo é que a dramaturgia e a coreografia acompanham a verve provocativa de Sibylle Berg: elas logram êxito em traduzir para os movimentos e expressões corporais tudo o que está sendo dito ali, através da linguagem verbal.

As atrizes que incorporam (com toda a literalidade do termo incorporar, pleno de corporeidade em seu paroxismo) todos os tensionamentos e solilóquios infinitos da personagem central pertencem ao The Maxim Gorki Theatre, que desembarca pela primeira vez no Rio. Trata-se de um dos mais politizados teatros públicos da Alemanha, tendo sido destruído durante a Segunda Guerra Mundial e reconstruído e reaberto em 1952, e cuja companhia tem um elenco fixo e multiétnico de 17 performers e um grupo paralelo composto exclusivamente por artistas imigrantes. Na apresentação carioca do espetáculo, temos Cynthia Micas, Nora Absdel-Maksoud, Rahel Jankowski e Suna Güler.

Pode-se dizer que o texto é feminista por colocar em xeque uma série de aspectos esperados do que deveria ser viver como mulher, sentir como mulher, fazer coisas de mulher, ter hábitos de mulher, vontades de mulher, pensamentos de mulher. Entretanto, e isso é o mais interessante, para trazer sua crítica contumaz, o texto não precisa do subterfúgio de atacar o homem, como se a questão toda se resumisse a dois polos opostos e necessariamente conflitantes. Não se refere ao homem ou ao gênero masculino como “macho” (ou algum equivalente) usando um mesmo tom de agressividade e ataque que denuncia no homem machista quando este se refere à mulher menosprezando-a exatamente por ser mulher. No feminismo de The so-called outside, a mulher tampouco será poupada. E esse é um dos grandes achados do espetáculo: os questionamentos vão muito além da denúncia que assinala as desigualdades de gênero. Há toda uma análise muito bem-humorada, cheia de boas sacadas, divertidíssima, das contradições e chatices da sociedade capitalista na qual vivemos. E sociedade capitalista são palavras que, unidas, podem soar aqui como militância lugar-comum, repletas de significados prévios e vagos, que guiam para um entendimento perigosamente rápido do que o espetáculo propõe, mas, ao elegê-las, estou apenas sendo fiel àquilo que o texto traz e que inclui também a própria crítica à crítica ao capitalismo e seus excessos sem nenhum recurso a fórmulas óbvias. Não, não há nada de óbvio no espetáculo. Porque as mulheres que estão ali se contorcendo, pulando, aglutinando-se, cuspindo água, jogando-se ao chão, gritando, cantando musiquinhas românticas da Whitney Houston e outras, simulando o grande encontro amoroso e utópico que, elas sabem, nunca vai existir na realidade tal qual na imaginação, essas mulheres estão também rindo de si mesmas e de suas agruras, e sobretudo das estratégias, sempre falhas, sempre inócuas, que são levadas a criar, cotidianamente, para fazer face a essas mesmas agruras.

 

 

Foto: Guto Muniz

 

 

Um exemplo disso é o momento da aula de zumba, em que uma das quatro atrizes fica dançando, separada das outras três, como se tivesse chegado ao grau máximo da felicidade, da euforia que serve de panaceia para os males da alma e do coração, mostrando que a melhor forma de lidar com a ansiedade, com as frustrações, é a aula de dança, é a agitação incessante do corpo, continente maior de desvarios emocionais.  Não há maniqueísmo no texto de Sibylle Berg, dado que tanto a pressão para o consumo e para a acumulação típica dos modos de vida capitalista (e que incluem – ou podem incluir – as aulas de zumba, as aulas de yoga, as meditações transcendentais) são alvos do texto ácido da autora, como também o politicamente correto. Novamente, é preciso insistir: não há fórmulas prontas e pré-fabricadas em The so-called outside.

Um dos dilemas trazidos pela personagem é que Minna está apaixonada por uma amiga, Lina, que volta e meia manda um SMS. Toda vez que há um SMS para ser lido, a personagem apaixonada tem que usar uma série de subterfúgios para conter sua euforia e sua expectativa, para não se deixar levar pela ansiedade extrema. Ela quer e não quer ler, ela quer ler mais tarde para mostrar a si mesma o quanto é forte e o quanto não está desesperadamente esperando uma resposta de Lina, mas ela não resiste e, toda vez que o celular apita o SMS, Minna dá o que promete ser uma olhadinha rápida, e as mensagens da amiga sempre falam de alguma relação com outro homem, do que ela sente ao lado desse outro homem. É aí que Minna terá que encontrar maneiras para lidar com isso. Os recursos corporais e dramatúrgicos do espetáculo são a melhor expressão do desatino de Minna. Só mesmo os grunhidos, as caretas, os gritos, os pulos, só mesmo a torção de caras, bocas e corpos em uma verdadeira coreografia da repulsa e do desdém forçados para traduzir o que Minna sente. Para dar conta de expressar o insuportável.

E, no decorrer do espetáculo, a luz vai se apagando, acompanhando uma espécie de anoitecer do dia de Minna, quando há um recrudescimento da angústia que ela, de todas as formas, desesperadamente, tentara tapar. É nesse momento que, após uma correria insana pela vida, retratada em pensamentos obsessivos, por um dia que passeou por questionamentos inúmeros acompanhados de brutalidade e indignação, que ela vai se dando conta de que é jovem e o mundo, para quem é jovem, para ela, começa amanhã. Será?

 

Vivian Pizzinga lançou os livros de contos Dias Roucos e Vontades Absurdas (Oito e meio, 2013) e A primavera entra pelos pés (Oito e meio, 2015), além de ter participado de algumas coletâneas, sendo as mais recentes Cada um por si e Deus contra todos (Tinta Negra, 2016) e Escriptonita (Patuá, 2016). Trabalha também com psicanálise e Saúde do Trabalhador.

 

 

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119ª Leva - 04/2017 Destaques Olhares

Olhares

Espirais do caos: uma vereda em Samuel Luis Borges

Por Fabrício Brandão

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

No cerne do tempo, as formas transitam. Saem do plano mental das ideias para depois ocuparem espaços plenos de significado. Flutuam por entre seres e dimensões possíveis num emaranhado de sensações que, ao fim e ao cabo, são demasiadamente humanas por natureza.

Acima de toda uma composição abstrata da vida que as linhas iniciais desse texto acabaram de mencionar, há o fino trato do entendimento das coisas pelo viés da poesia, essa colossal capacidade que um determinado artista possui de tornar perceptíveis sentimentos emanados de uma fonte intangível.

Faz toda diferença considerar que certas rotas traçadas pela arte aproximam dois polos fundamentais da acepção das coisas: o primeiro deles pensa a materialidade como instância do que nos é imediatamente visível aos olhos; o outro mergulha no âmago das interioridades, indo buscar ali um resultado subjetivamente marcado pelas construções abstratas do ser/estar no mundo.

Nessa confluência de dimensões aparentemente opostas por natureza, mais especificamente na relação entre o concreto e o impalpável, é preciso dar nome aos bois. Estamos falando de Samuel Luis Borges, artista que, na miríade complexa de seus desenhos e aquarelas, engendra um caminho marcado por uma elaboração peculiar das formas.

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

Por que não falarmos em transgressão quando o artista ao qual acabamos de aludir ousa trazer à baila contornos nada usuais para referendar a experiência humana? A resposta é afirmativa na medida em que Samuel mescla sabores e dissabores tão nossos na caracterização dos seres que advêm da sua inquieta verve criativa. Diga-se de passagem, a tais criaturas pensadas pelo artista em questão é dada uma conformação traduzida em caos e mistério.

Eis que chama atenção no fazer artístico de Samuel a caracterização espiralada de uma parte significativa dos seus desenhos. Tais delineações parecem estabelecer pontos de permanência das formas para algo além da esfera física e visível. Desse modo, a intersecção dos corpos revelados remonta a uma ideia de que os laços humanos estão atravessados por uma pungente sensação de amalgamento. Ao que fica a pergunta: novas existências brotariam dali?

Talvez a mecânica que articula os sentimentos humanos possa servir como resposta. No entanto, há, por assim dizer, o nascimento de outras tantas existências a partir desse cruzamento de traços propostos pelo artista. Dessa interligação dos seres, brota um todo orgânico capaz de nos lembrar que a espécie humana, sendo composta em essência dessa pangeia que aproxima tanto êxtases quanto espantos, delimita seu locus num limiar incessante de labirintos e precipícios. Assim, partidas e chegadas, alegria e dor, vida e morte como cenários possíveis.

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

Qualquer tentativa de tornar banal a acepção do caos parece não encontrar abrigo no trabalho de Samuel Luis Borges. Não é um trato meramente desordenado das coisas e sensações quem dá a tônica da construção imagética como se a solução criativa estivesse contemplada pelos artifícios de um rearranjo. Pelo contrário, devolve-se o incômodo, esse espantado gesto do ser, sob a forma de representações pessoais e sensíveis do laborioso ato que é viver. Daí, o artista não fugir do enfrentamento quando o mundo em toda sua complexidade o convoca a se posicionar.

A expressão artística aqui presente contempla também a impressão de que o homem contemporâneo não é detentor de uma identidade estática, tendo em vista que o caldeirão das representações culturais borbulha mudanças estruturais a todo tempo e que atingem o sujeito em sua busca por sentidos. Em face de tal cenário, difícil seria manter viva qualquer alusão a lugares pacificados pelas mãos invisíveis da uniformidade.

No seu modo autodidata de se comunicar com o mundo, Samuel confere à poesia um status de razão central de suas manifestações enquanto artista. E o fazer poético não é apenas o gesto que transborda de seus desenhos e aquarelas, mas também aquele que demanda incursões pela palavra escrita e falada.

Envolto pelas atmosferas urbanas, Samuel Luis Borges existe entre nós. Transita entre os espaços da metrópole que acolhe e repele, navega pelo insondável. É porta-voz da construção e também da desconstrução do tempo. Tenta fazer com que sua arte desacostume o arranjo natural das coisas.

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

*Os desenhos e aquarelas de Samuel Luis Borges fazem parte da galeria e dos textos da 119ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

 

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118ª Leva - 03/2017 Destaques Olhares

Olhares

Em outras veredas

Por Fabrício Brandão

Foto: Kristiane Foltran

Tudo o que classificamos como sendo o real pode ser a fabricação imediata dos instantes. Pode ser o exercício patente de apreensão duma superficialidade das coisas observadas. Também pode significar o óbvio saltando com suas garras ajustadas bem em nossa direção. Diante dessas tentativas de definição, abre-se o fosso da dúvida: será que nos é dada a faculdade de invenção da realidade?

O real nem sempre é algo posto num panteão de conformidades. Por vezes, assinala perspectivas inusitadas, propondo-nos uma mudança no itinerário de nossas convicções. É quando, manipulando uma certa  ordem natural preexistente, reconstruímos os mais diversos cenários de mundo.

Em matéria de fotografia, muitos ímpetos criativos hoje intentam um caminho que, mais do que simplesmente expor a porção real das coisas, deseja ir além, inaugurando outras fronteiras de compreensão. Esse olhar que ultrapassa determinados limites do lado aparente da vida acaba por resultar num permanente estado de revelações. É, pois, a sensação que temos ao contemplarmos as imagens de uma artista como Kristiane Foltran.

Detentora de uma atitude que rompe com uma noção tradicional de concepção da imagem, Kristiane aponta um caminho de transgressão do modus operandi ao qual se debruçou por muito tempo o ofício da fotografia. Adepta da utilização de recursos como a dupla exposição digital, essa fotógrafa curitibana vislumbra apresentar um mundo norteado especialmente pela assunção de outras linguagens.

Foto: Kristiane Foltran

Ao questionar as possibilidades de utilização do suporte fotográfico, Kristiane percebeu que era necessária uma via de transcendência, ou seja, algo que desse vazão a renovadas formas de representação imagética. Essa busca fez com que a artista, lançando mão de novas ferramentas (a exemplo do Site-specific e da Performance), conduzisse uma pesquisa estética através da qual a imagem assumiria uma concepção espacial diferenciada. Desse modo, e diante da fragilidade do suporte fotográfico, a arte transborda o papel e atinge o espaço.

O fato é que a artista visual em comento não apenas propicia um ambiente de ressignificação, sobretudo pelos meios dos quais se utiliza, mas também consegue conferir uma construção poética para seu trabalho. É o que podemos constatar ao observarmos séries como In_Versos, Marés, Fragmentos e Gueixas de Outono, todas elas a nos revelar densos percursos no complexo mar de nossas humanas idades.

Kristiane Foltran traz em sua trajetória uma vasta participação em exposições individuais e coletivas, além de integrar seleções e colocações em editais, concursos e salões de arte. Com os dois pés fincados na pós-modernidade, demonstra que sua arte, assim como o seu tempo, não se assenta em bases estabilizadas e previsíveis.

Tal como foi abordado no início destas breves linhas, a apreensão da realidade é algo movido por difusos caminhos. Certamente, não acharemos respostas para toda sorte de indagações pertinentes a um percurso como este. Importa mesmo considerar que o olhar de um artista pode trazer à tona as virtudes encerradas num gesto singular de percepção. Com o passar do tempo, sentimos mesmo que a arte não admite a visão cordata das coisas.

 

Foto: Kristiane Foltran

 

*As fotos de Kristiane Foltran fazem parte da galeria e dos textos da 118ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

 

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118ª Leva - 03/2017 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Ingrid Morandian

 

Foto: Kristiane Foltran

 

O quarto

 
I

ausento-me do teu silêncio
da folhagem áspera
da angústia
forjar enganos
em contraponto ao vazio
sobrepele
descasca
o fulgor na cama
nos lençóis
um pretérito mais que perfeito
ouço tua boca
no murmúrio daquela noite

 

II

luz decomposta nas lacunas
dedos infligidos
unhas cruas
na boca
me pertenço em palavras
as palavras depõem contra o coração
que cala, assume os verbos inativos
as palmas voltadas para baixo
papéis, tropeços, letras
me desfiz em nada
tudo é único
nos móveis o pó
na amargura o gelo esvazia
em palavras

 

 

 
***

 

 

 
Solarius

 

entre escolhos
o retumbar de cornetas-buzinas
mármores, bronze e concretos
fundidos no nada
escadaria belas artes
a florescer em você
matronas urbanas recolhem o sol
salgado
as vigas, pilares conduzem
a um remanescente dia
na voragem cotidiana
deslumbram-se rostos cinzentos

 

 

 
***

 

 

 
Azuis

 

da outra margem do mundo
apaguei a paisagem de dentro
coube um olhar cinza
o arrastar de coisas intempestivas
a vida finge
absoluta no cálice
um tempero de sangue
nuvem coalhada
esquecimento fora do prazo
e os olhos aguardam azuis
segredo

 

 

 
***

 

 

 
Rescisão

 

Era um livro
Eram páginas movediças
Eram dedos em descaminhos
Eram trechos descosturados
Eram tão jovens
Eram a prova do todo
Eram o início da noite
Eram o fim do dia
Eram o sopro grifado
Eram o resto das cinzas

 

 

 

***

 

 

 
A porta

 
ouvia a batida cadenciada na porta
cansada de recolher cadáveres na geladeira
alfaces escuras
carnes e frangos podres
cheiro de morte malpassada
persistem nas batidas
alguém reclama do outro lado
tapo os ouvidos do corpo
não aguento o espanar de dúvidas
a família junta-se aos cadáveres amontoados nos quartos
a matriarca morreu
quem sentirá falta do café fresco
do arrastar de chinelos
armazenei as mágoas roxas
o prazo foi embora
não permitem o saque dos links de felicidade
deixo que continuem a bater
e mantenho trancada a in-solidão

 

“Como titereiro, no silêncio, brinco com as palavras na composição de textos. Estanco na fronteira do real e da ficção, e esvazio de todo eu através da escrita.” Ingrid Morandian publicou: Água Terra Fogo Ar – Crônicas elementais, Ed. Uapê, 2011 – História intima da leitura, Editora Vagamundo, 2012 – Revista Plural 1900 e Revista Plural La barca, 2016,  Ed. Scenarium Livros Artesanais, Senhoras Obscenas, 2016, Editora Benfazeja, Revista Mallarmargens.

 

 

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118ª Leva - 03/2017 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

A carreira literária de Claudia Nina se ramifica em gênero e categoria. Desde sua estreia com o trabalho acadêmico sobre a ficção de Clarice Lispector, a jornalista e escritora carioca dá forma a uma obra heterogênea, composta por crônicas, contos, ensaios, perfis e romances, destinados tanto ao público adulto quanto ao infantil. “Amor de longe” marca, agora, seu debute na literatura para jovens. A trama é protagonizada por Clarice, uma menina com 13 anos que, por conta do trabalho do pai, tem de abandonar a vida no Rio de Janeiro e se mudar para Porto Alegre. Do não pertencimento à cidade fria, ela vai ter de se adaptar às novas amizades e aprender a lidar com o primeiro amor.

Em sua essência, é um romance de formação; porém, acima de tudo, um livro “pé no chão”. Num tempo em que o leitor infantojuvenil se mostra cada vez interessado num universo habitado por seres fantásticos e sobrenaturais, Claudia Nina trata dos dramas reais: das transformações físicas e emocionais que moldam a adolescência.

Em entrevista exclusiva à Diversos Afins, a autora fala sobre o processo de construção do novo livro, suas referências, a ligação entre a personagem Clarice e a escritora Clarice Lispector, o mercado do livro infantojuvenil, e em como “Amor de longe” se encaixa num projeto mais amplo voltado para os jovens.

Além disso, comenta sobre a cena contemporânea brasileira, os eventos literários, o crescimento das pequenas editoras, e, na condição de crítica literária, dá opiniões firmes e interessantes sobre a ascensão de jovens autores e a participação das mulheres no meio literário. “Penso que os homens poderiam abrir mais a rodinha e tentar conhecer mais de perto os livros das autoras que ainda não são tão conhecidas, mas que estão aí construindo nosso contemporâneo”, defende.

Claudia Nina / Foto: arquivo pessoal

DA – Seu livro mais recente, “Amor de longe”, é um romance adolescente. No mapa da literatura brasileira, autores clássicos já se aventuraram no gênero juvenil, contudo a impressão que fica é que tais livros não recebem o mesmo nível de consideração que os classificados como literatura adulta. Você percebe que há algum tipo de menosprezo, por parte da crítica especializada, para com os livros feitos para adolescentes? Que são vistos, invariavelmente, como um trunfo mercadológico?

CLAUDIA NINA – Temos que entender o que seja hoje “crítica especializada”. Não tenho visto espaço crítico no país, apenas a persistência de alguns leitores mais atentos que se debruçam sobre os títulos, são curiosos, querem conhecer de fato a produção contemporânea. E só. Algumas clareiras nos jornais se abrem, é verdade. Temos o Rascunho. Mas é tudo tão rarefeito no cenário geral… Não vejo onde uma literatura de formação possa se inserir neste contexto “crítico”. E, claro, tudo é colocado na mesma fornada. O que se escreve para o adolescente não é avaliado de maneira alguma. Me diz: qual crítico se propõe a abrir os parcos espaços críticos para falar do juvenil? Não vejo nenhum! “Amor de longe” é um trabalho de intertextualidade com Clarice Lispector, que dialoga abertamente com “Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres”. De certa forma, é um livro de formação. Isso acontece tanto do ponto de vista da formação emocional de uma menina dos 13 aos 14 anos, e todo o processo de transformação aí envolvido, como também de formação da leitura/escrita como aprendizagem. Sem abrir mão da linguagem envolvente, que precisa capturar esse leitor em busca de si mesmo. Repetir fórmulas de sucesso não é um erro. Apenas eu acho que o caminho não precisa excluir a necessidade de uma escuta mais atenta ao literário e às engrenagens da língua. É o que eu proponho. Espero que mais leitores como você, em sua luta tão bonita pelo literário, surjam com interesse e curiosidade por um trabalho como este.

DA – Diante disso, em algum momento do contato com a editora, você pensou em tirar esse rótulo de “juvenil” da obra? A leitura de o “Amor de longe” revela justamente o que disse: um romance de formação, como há muitos na literatura contemporânea, sem que estejam localizados numa categoria. Nesse caso, penso, é papel do leitor conviver com a história e, independente da idade, absorvê-la segundo o tempo concentrado no livro. Seja uma linguagem mais ou menos culta. E, por falar nisso, uma das coisas que me chamaram mais atenção no texto foi a linguagem. É uma narrativa em terceira pessoa, bastante informal, mas que, em nenhum momento, apela para um tom infantilizado. Durante o preparo, houve uma preocupação sua em falar com o adolescente, sem que soasse excessivamente como um texto escrito por um adolescente?

CLAUDIA NINA – Eu busquei uma voz interna para compor a Clarice capaz de dialogar com minha adolescência e ao mesmo tempo com os dias de hoje. Não queria parecer fora do tempo contemporâneo nem do meu próprio tempo. Foi bem difícil encontrar esta conciliação, pois venho de uma época sem celular nem tablets. As conquistas, as conversas e os medos eram confrontados olho no olho, palavra viva. “Amor de longe” não tem rótulo na capa. Tem a catalogação de juvenil imprescindível. É uma história para todas as idades. Para a família. Para qualquer tempo. Eu não conseguiria escrever um texto exclusivamente voltado para o adolescente assim como não conseguiria escrever um exclusivamente voltado para a criança. Não temos que limitar o vocabulário, embora às vezes seja necessário dosar o teor de complexidade da linguagem para não obscurecer nem afastar. Por isso é tão difícil escrever, são várias preocupações e detalhes que se deve ter em mente. Eu queria escrever um texto que pudesse me fazer lembrar da adolescente que eu fui diante das perplexidades que fizeram parte da minha vida em um tempo marcado pelas mudanças geográficas e emocionais. Acho que consegui! Gostei bastante do resultado.

DA – É muito interessante você abordar esse contraste de geração, pois também sou de uma época na qual o que fazia a cabeça dos adolescentes eram coisas como “Confissões de adolescente”, “Armação ilimitada”, entre outros. De uns tempos para cá, tudo se transformou de uma maneira radical. Os jovens preferem a distopia ao invés da utopia; o universo sobrenatural, fantasioso, ao invés dos problemas ordinários. E é exatamente nisso que seu livro toca: nas pequenas descobertas, nas mudanças, na confusão de sentimentos. Como então trabalhar com esses temas tão reais, para um público-leitor que prefere o escapismo das histórias de vampiros, de um mundo pós-apocalíptico?

CLAUDIA NINA – Eu não posso me limitar às limitações do tempo e de um suposto público-leitor como se este fosse uma entidade. Eu simplesmente escrevo. É claro que me preocupo em ter leitores. Mas não posso criar pensando em que tipo de leitor eu terei, pois não se faz boa literatura assim. Do contrário, eu repetiria fórmulas. Nada contra quem repita fórmulas. Mas eu não trabalho assim. Acho que todo bom livro encontra naturalmente seus leitores. Veja um exemplo. Meu primeiro romance, “Esquecer-te de mim”, publicado em 2011 pela Babel. A editora sumiu e fez os livros sumirem. Isso depois de eu ter tido um ótimo lançamento e excelentes resenhas. O tempo passou. E não é que agora recebo várias mensagens de leitores que acharam meu romance na Estante Virtual, compraram e me escreveram lindos recados! Um deles me dizia para eu nunca parar de escrever. Ora, quer alegria maior do que essa? Acho que a roda gira; ah, gira sim! Mas é preciso ter calma, paciência. Os leitores que eu quero não virão até mim como mágica. Eles virão um a um, e se acercarão de mim e da minha escrita. Tenho certeza disso. Já estão vindo. São leituras intensas, de gente que mergulha na palavra. É dessa gente que minha escrita se alimenta.

DA – Falando em leitores, há um outro público bem exigente, para o qual sua escrita se direciona, que é o infantil. São quatro livros, num período de quatro anos. O último, “A Repolheira”, conta, inclusive, com ilustrações da artista espanhola Raquel Díaz Reguera.  De onde nasceu a ideia de escrever para crianças, e como guiar o processo de criação de modo que o texto se harmonize com a imagem, garantindo relevância às palavras?

CLAUDIA NINA – O primeiro infantil surgiu de uma urgência e de um sonho. Eu cursava o Publishing Management na FGV. Precisava de um trabalho final. A única ideia era escrever – e tentar publicar – um livro. Eu já estava no processo de escrita do meu primeiro romance, mas não daria tempo de finalizá-lo. A solução me ocorreu depois de uma noite em que eu sonhei com a história inteira de “A barca dos feiosos”. Eu só fiz sentar e redigir. Foi um livro feito às pressas, por isso penso em editá-lo novamente. Cada infantil tem seu processo, cada história me acontece de uma forma diferente e inusitada. “Nina e a lamparina” surgiu de outra urgência: eu precisava falar de um problema familiar: o medo do escuro da minha filha menor. Foi muito importante ter abordado o tema que, embora pareça lugar comum, pode ser abordado de diversas formas. Tive grandes alegrias com este livro. A maior delas foi quando descobri que uma escola de Goiás trabalhou com a história em uma matéria de empreendedorismo! Eles focaram no conceito de coragem: se a gente acende o archote interior, capaz de iluminar nossos passos na escuridão, a claridade se agiganta e já não estamos mais no breu. Podemos fazer o que quisermos quando vemos nossos pés tocando o chão. Depois veio “A mansão”. Surgiu de uma viagem à Patagônia. Eu fiquei muito impactada com aquelas paisagens e fiquei imaginando o que poderia roubar aquela paz… Criar um conflito dentro de um cenário perfeito foi minha ideia. Fui abençoada por uma Lua gigante, quando descíamos a montanha de neve. Foi uma das cenas mais lindas da minha vida. Quis transformar tudo isso em livro. “A Repolheira” nasceu também de uma imagem. A personagem do título “me procurou”. Não sei explicar estas aproximações criativas. Mas o fato é que a imagem me veio e com ela toda a história. Escrevi em papel, a lápis, pois estava de férias e não tinha levado o computador. Há ainda várias histórias inéditas, uma delas “A coruja e o mondrongo”, de que gosto muito também. No caso de “A Repolheira”, a escolha mais do que feliz da ilustradora foi um achado do Facebook. Eu mandei a história para a Raquel e ela adorou. A editora abraçou a ideia, a história e a ilustradora. Não consigo imaginar “A Repolheira” (que faz uma brincadeira com A Borralheira) de outra forma. Mas acho que em todos os casos eu tive bons ilustradores. Esse casamento é fundamental. Acho que o autor tem um papel importante no sentido de ajudar a sinalizar um traço que combine com a história. Eu gosto de sugerir porque curto muito desenhos. Aliás, comecei desenhando antes de escrever. Mas depois abandonei por falta absoluta de talento. Minha filha hoje desenha maravilhosamente bem. Eu me vinguei nela.

Claudia Nina / Foto: arquivo pessoal

DA – Fico imaginando que suas filhas, que estão na mesma faixa etária que a de Clarice, a protagonista de “Amor de longe”, também foram fortes influências para o livro. Anteriormente, você mencionou um exercício de intertextualidade, porém, como visto na dedicatória, a realidade é também uma grande fonte de inspiração. A propósito, seu romance anterior “Paisagem de porcelana”, também toma emprestado muito de sua vivência na Holanda, para dar escopo ao seu enredo. Até que ponto, então, seu processo de escrita depende da observação do real, de escavar o terreno das memórias para que possa erguer os pilares da ficção? E, voltando à dedicatória, pode falar um pouco sobre esses amigos que a receberam em Porto Alegre e, como declara, fizeram sua adolescência um tempo mágico?

CLAUDIA NINA – Sempre me lembro de uma frase da Clarice Lispector que dizia que, mesmo se ela falasse sobre a produção de café, ou qualquer outro assunto distante do eu, ainda assim, ao final, ela perceberia que se delatou. Acho que nunca me afasto o suficiente de mim em nada do que escrevo… Porém, acredito que um dos elementos mais importantes da ficção seja o tempo. Sem o filtro do tempo escreveríamos imersos em uma emoção excessiva, daríamos voltas ao redor de nós como um escorpião encalacrado mordendo o próprio rabo. Precisamos da distância espacial e temporal a fim de que o vivido seja filtrado pela percepção de que nem tudo pode ou deve ser escrito. Em “Paisagem de porcelana”, recupero parte de uma experiência que vivi na Holanda, em fins dos anos 1990. Precisei de longos 16 anos até fazer a roda girar a ponto de surtar: torci o giro da ficção para fazer com que a personagem experimentasse situações muito mais complexas e agudas do que as que eu vivi. O tempo também foi igualmente importante para que a emoção não atrapalhasse. A personagem precisaria olhar os estragos de olhos lúcidos e sem autopiedade. Em “Amor de longe”, que de alguma forma dialoga com “Paisagem…”, pois também trabalha a questão da paisagem e da transformação da personagem no espírito dos cenários, eu igualmente me afastei do vivido (foram 30 anos) a fim de que pudesse resgatar a vivência de forma criativa: a ficção precisa ter as rédeas do texto e não o contrário; a vida não pode comandar; é preciso desobedecer ao vivido. Novamente: nem tudo se pode ou deve contar… Quanto às minhas filhas, elas não participaram tanto da escrita deste livro porque hoje elas estão com 11 e 12 anos. Eu demorei dois anos e meio para escrever, elas ainda eram pequenas. Acredito que o tempo de Clarice delas esteja começando a partir de agora.

 

DA – Outra relação muito forte entre “Paisagem de porcelana” e “Amor de longe” é a soberania do olhar feminino; um aspecto, por sinal, muito sensível em sua literatura. Recentemente, entrou em pauta uma discussão sobre a representação da mulher na literatura contemporânea; a maneira pela qual é retratada nos textos, a capacidade de uma autora tornar essa voz mais crível, pertinente. O quanto concorda com essas colocações? E até que ponto a condição de gênero e o fator moral têm relevância em sua escrita?

CLAUDIA NINA – O gênero faz toda a diferença e tem toda a relevância, pois a dor de Helena (protagonista de “Paisagem de porcelana”) é uma dor declinada no feminino. Não que não seja universal a ideia da subjugação, não é isso. Mas, da forma como eu retrato, ou seja, uma vítima massacrada por um amor, acredito que seja uma capacidade muito própria da mulher o de se deixar esfarelar. E isso não pode ser nenhum demérito da obra. Agora, é preciso que se ressalte outro aspecto que não tem a ver com o que estou falando: a linguagem. Eu não escrevo “como mulher”. Isso não. Aliás, a ideia de aproximar o delicado do feminino é pobre demais; aliás, a ideia de que um texto com o título “Paisagem de porcelana” seja obrigatoriamente delicado é também um embuste. Meu texto é muitas vezes cruel. Vivian Wyler dizia que eu escrevo com “raiva”. Se um homem cismar de me etiquetar como “feminino-delicado” antes de me ler – como se isso fosse um erro – eu perco leitores. Penso que os homens poderiam abrir mais a rodinha e tentar conhecer mais de perto os livros das autoras que ainda não são tão conhecidas, mas que estão aí construindo nosso contemporâneo.

DA – Esse é um assunto muito inquietante, portanto quero refleti-lo na história da personagem Helena. Como apontou, ela é refém de um amor que a condiciona a uma série de abusos psicológicos e físicos, contra os quais parece não ter força para lutar. Há poucos dias, tivemos um caso de repercussão nacional, que foi o assédio sexual cometido por um ator de novela contra uma figurinista. Isso expõe o machismo ainda reinante na sociedade brasileira, que certamente influencia no espaço dado às mulheres, repercutindo no mercado literário. Como analisa essa questão? Há machismo na literatura? E você, na sua carreira de jornalista e escritora, passou por algum momento de assédio?

CLAUDIA NINA – Ouso dizer que há machismo sim, embora os homens não aceitem este assunto. Não me diga que os homens leem com o mesmo entusiasmo os livros de mulheres e os livros de seus amigos homens porque isso não é verdade. Muitos – não estou generalizando – sequer abrem um livro de mulher, caso o título soe, digamos, “feminino” demais. Parece um absurdo dizer isso… Mas é absurdo mesmo. Eu sempre digo uma coisa: quando um homem escreve delicada e poeticamente, mesmo em prosa, como é o caso de um João Anzanello Carrascoza, por exemplo, isso é lindo e maravilhoso. O autor é celebrado – eu acendo uma vela para Carrascoza, pois ele é um dos meus favoritos, justamente por ele ter a coragem de escrever do jeito que sente. Porém, quando uma mulher escreve no mesmo diapasão, ela corre o risco de ser rotulada como lacrimejante ou mulherzinha demais… Isso é fato! Quem disser que não é verdade é porque tem culpa. A outra parte da sua pergunta é quanto o assédio. Quase todas as mulheres do mundo já sofreram algum tipo de assédio em suas carreiras. Eu já sofri na minha vida como jornalista. Mas encarei de frente, dizendo um redondo e sonoro “não”. Mesmo colocando o emprego em risco, o que, lamentavelmente, sempre ocorre quando não se aceita o jogo do dominador. O problema é quando o “não” bate e volta. E quando a vítima precisa desesperadamente do emprego e teme perdê-lo. Uma situação tão triste. Precisamos nos fortalecer de fato. Gosto muito do feminismo. Estou nesta luta e quero cada vez mais fazer parte dela.

DA – Mas acho que vale uma observação – ou, melhor, uma reflexão. Hoje, as principais agências literárias do Brasil são comandadas por mulheres. A maioria dos selos literários tem mulheres no cargo de editor principal. Muito se culpa do leitor, o último a ter contato com a obra e, por conseguinte, com a autora. Não seria, então, uma questão de analisar também o mercado por dentro? O quanto as editoras e as agências estão fazendo para projetar as mulheres na literatura? 

CLAUDIA NINA – Mas o machismo não é uma prerrogativa dos homens. Muitas mulheres também são machistas. Acredito que os espaços precisam ser ventilados como um todo. Vejamos os prêmios literários, as festas, os eventos… Será que existe paridade entre o número de homens e de mulheres? Não creio. Por que motivo isso ocorre é um mistério. Não entendo. E não acho que as editoras de um modo geral estejam trabalhando para que as mulheres na literatura tenham mais projeção. Acho que ainda não tomaram frente do assunto.

DA – Aproveitando que mencionou os eventos literários, há cerca de um mês você integrou a delegação de autores brasileiros que participaram do Printemps Littéraire Brésilien, festival literário que, em sua quarta edição, passou pela França, Bélgica, Espanha e Portugal. Da impressão das mesas, qual o interesse do estrangeiro pela nossa literatura? E como acontecimentos dessa natureza podem trazer benefícios para o mercado literário brasileiro de maneira geral?

CLAUDIA NINA – É um trabalho lento, de ativismo, como gosta de dizer o professor Leonardo Tonus, idealizador e organizador do Printemps. Há que se ter paciência e persistência. Nada se faz do dia para noite. Eu vejo alguns autores subirem do dia para a noite, mas logo depois, ao longo dos anos, desaparecerem. Geralmente por não conseguirem continuar escrevendo tão bem como prometiam. Prefiro uma caminhada que se faz lenta, mas progressivamente. Os eventos ajudam a espalhar nossa colheita que é a nossa voz, a nossa palavra. E, no confronto com o outro, de diferentes dicções, nossa escrita cresce, transforma-se. Tenho gostado cada vez mais desta movimentação. Ano passado, estive na Feira Internacional da Guatemala. Foi surpreendente. Um resumo de “A Repolheira” foi lido em espanhol, enquanto eu mesma fiz a leitura, em português, de Paisagem de porcelana. Tivemos uma audiência pequena, porém atenta, que, tenho certeza, saiu de alguma forma tocada por nós, pelo diferente que apresentamos, pois o conhecimento de literatura brasileira contemporânea deles é mínimo. Mas este mínimo é uma semente de conhecimento que precisa ser espalhada.

DA – A ascensão repentina de jovens autores é algo que também me incomoda. Muito menos pela literatura que estes privilegiados podem oferecer, mas por um time de outros autores bem melhores que acaba à sombra desse “sucesso”, justamente por não ter o holofote sobre suas cabeças. Numa resposta lá atrás, você mencionou a falta de espaço para a literatura nos veículos de comunicação, absolvendo o trabalho feito pelo Rascunho. Você escreve para o Rascunho e também assina uma coluna na revista Seleções sobre livros. O que tem visto na literatura feita hoje que lhe agrada e o que lhe desagrada?

CLAUDIA NINA – Muita coisa me agrada. Tenho curtido demais os autores contemporâneos, e é uma alegria quando encontro um autor, ainda desconhecido, mas bom. O que ocorre muitas vezes é a edição precária. Explico: na pressa em ser publicado (o que é perfeitamente compreensível), muitos autores publicam de qualquer jeito um texto que poderia ser editado. A figura do editor de verdade está em extinção. Há poucos que realmente trabalham o texto. A maioria apenas publica. O autor acha que está ótimo, já está pronto, que não tem para onde crescer. E sai se repetindo, dando voltas ao redor de suas limitações. Tenho procurado escrever livremente meus textos críticos, quase como se fossem crônicas literárias para expressar minhas impressões de leitura. Tanto no Rascunho como na Seleções, tenho espaço para isso, o que tem sido estimulante. Agora você me fala sobre aqueles que estão sob os holofotes. Bom para eles. Ou não. Espero que saibam continuar trabalhando para que permaneçam sendo cultuados. O que nem sempre ocorre. O que eu penso é que a gente deve seguir sempre. Escrever e escrever, pensar, participar. O que for nosso, será nosso. Eu tenho muito isso em mente. O espaço do outro – merecendo ele ou não, segundo meus critérios – é do outro. O que é meu ainda não tem nome, mas é o que desejo: o que é para mim, o meu espaço conquistado e merecido.

Claudia Nina / Foto: arquivo pessoal

DA – Você tocou na questão das publicações de baixa qualidade, que vai ao encontro de um assunto que gosto de trazer à baila em minhas conversas com autores. Também escrevo sobre livros e acompanho bem de perto o cenário da literatura contemporânea brasileira. O que vejo é uma avalanche de novos livros, muitas estreias, mas uma grande soma de textos que poderiam ser mais lapidados; ou, melhor ainda, que sequer fossem publicados, sendo o papel do editor aconselhar o jovem autor a ter paciência, trabalhar melhor a obra, amadurecer. Isso me remete a uma questão pontual: o aumento das editoras. Muito se fala do quanto é importante para a democratização da literatura, no entanto pode ser também uma forma de jogar no mercado justamente livros sem o devido cuidado de edição, não acha? Qual sua opinião sobre isso?

CLAUDIA NINA – Tenho uma opinião simples quanto a isso. Penso que muitos escritores ávidos em se tornarem escritores se esquecem de que precisam ler. Formar uma bagagem de leitura (o que não tem a ver com a idade, pois muitos jovens são mais leitores do que escritores mais velhos) é fundamental antes de começar. Parece óbvio, e é. Muitos se lançam nas oficinas de escrita (não sou contra nada), mas se esquecem do trabalho individual de carpintaria literária que passa, muito antes, pela leitura. E não só dos clássicos. Acho importante que se conheça o que nossos pares estão fazendo na contemporaneidade – que caminhos percorrem, quais são suas escolhas linguísticas, os temas, as recusas. Do contrário, continuarão achando que inventaram a roda e que escrevem muito bem, quando não é verdade.

DA – Você consegue traçar um paralelo entre esse desmerecimento da leitura e a chegada das plataformas virtuais; a possibilidade de qualquer um escrever o que bem entender, sem qualquer critério, e se autopublicar? Ou é um processo mais complexo, que passa invariavelmente pela educação? Fazendo uma ponte com o público do seu novo livro, sou (e acredito que você também) de uma época em que os escritores eram figuras quase sagradas, mestres das letras, seres inalcançáveis, já velhos ou falecidos. Hoje temos autores tão ou mais jovens que os próprios leitores. Não seria um momento de se (re)pensar o que realmente é literatura?

CLAUDIA NINA – Não sou nostálgica. E gosto muito do contemporâneo. Acho que não precisamos repensar o que seja literatura. Literatura é o que fica, o que permanece. Tudo aquilo que não sobrevive a si mesmo não é literário; é apenas um risco. Um riscado no céu. Passa e depois ninguém ouve falar. Quanto aos novos espaços – não tão novos assim – que sejam bem-vindos. Que mais pessoas escrevam, leiam e falem de literatura. Outro dia, um blogueiro me procurou. Ele faz um trabalho bem bonito, mas estava todo cheio de receio por não ser jornalista. Mas aquele rapaz bem jovem ainda se interessou pelo meu livro, quis saber sobre ele, escreveu sobre ele e multiplicou a minha palavra. Quantas pessoas ele conseguiu alcançar, quantos futuros leitores que começam lendo os blogs e depois vão partir para leituras maiores? Não tenho nenhum preconceito, pelo contrário. O que eu sempre digo: não temos outra alternativa a não ser termos esperança. E mais: adoro a ideia de o escritor não ser mais sagrado. Sagrada é a vida sobre a qual falamos, escrevemos e pensamos.

 

DA – A Claudia Nina, na idade da personagem Clarice, consegue olhar para a Claudia Nina de hoje e se convencer de que valeu a pena se dedicar à escrita?

CLAUDIA NINA – Linda pergunta. Acho que a Clarice gostaria de me conhecer, pois compartilhamos os mesmos sonhos de amor às paisagens e à palavra. Nós nos intertocamos, assim como Macabéa e Rodrigo SM em “A hora da estrela”. Somos muitas vezes uma só, multiplicadas em nossos espelhos, fechadas em nossos quartos ou dedilhando nossos textos. A Claudia Nina de hoje ainda é a Clarice na medida em que o tempo é uma invenção dos relógios. Ao escrever Amor de longe, percebi que as paixões que me moviam aos 14 anos são as mesmas que me movem hoje: tenho sede de mundo, de literatura, de conhecer pessoas e cenários. E também uma certa inocência em acreditar que a vida é linda e que tudo vai sempre dar certo. Um dia. E um dia não é nunca.

 

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

 

 

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118ª Leva - 03/2017 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

André Timm

 

Foto: Kristiane Foltran

 

Seleção Natural

Quando certa manhã, Ingrid acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseada em uma criatura que não mais enxergava.

Posso trocar Gregor Sansa por Ingrid, certo, Kafka? Posso trocar “inseto monstruoso”, que é um tanto dramático, por “criatura que não mais enxergava”? É isso a literatura, não? Vestir a pele do personagem, se colocar no lugar dele. Ou é Gregor Sansa que veste a minha pele nesse caso? Não sei. Enfim, eu nem precisava pedir autorização, é mais por uma questão de respeito, de consideração. Uma vez no mundo, a história não é mais do autor e cada um faz o que bem entender dela, não é? A premissa também vale para você, Camus.

Hoje, meus olhos morreram. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do meu corpo: “Seus olhos faleceram. Enterro amanhã. Sentidos pêsames”.

Desculpe lhe dizer, Kafka, mas Camus é mais musical que você. Tem mais ritmo. Flui melhor. Eu sei disso pela velocidade com que meus dedos percorrem os relevos, pelos lugares onde preciso parar ou não.

Vocês conseguem ouvir esse som? Sim? Não? O cânone é tão vaidoso. Sou capaz de apostar que ainda que não estejam ouvindo, não irão admitir. Por via das dúvidas, esclareço. Esse tilintar é meu bastão de Hoover sibilando pelos corredores da escola. É como as anteninhas de um inseto, Kafka, apesar de não haver nada de monstruoso nisso. Uma antena adivinhando o que vem pela frente, escaneando o mundo aos meus pés, detectando vibrações em alturas que vocês nem seriam capazes de imaginar.

Mas preciso admitir: no princípio era mesmo o verbo. Diante do breu perene, na condição de estrangeira em minha própria terra, me refugiei em vocês. Depois, quando conheci Tarso, as coisas tornaram-se um tanto menos soturnas. Não que algo em nosso entorno tenha mudado, mas é que já faz uma imensa diferença essa sensação de irmandade, uma cumplicidade tácita que se estabelece simplesmente pelo fato de saber que o outro está precisamente na mesma condição e enfrenta os mesmos problemas, especialmente quando se tem treze anos.

E agora, vocês ouvem? Preciso lhes dizer que essa polifonia às vezes atrapalha. Há momentos em que o silêncio é sine qua non. Estou tentando encontrar Tarso, uma tarefa árdua numa escola com mais de mil indivíduos existindo em toda a sua plenitude e com a máxima intensidade possível. Me desloco incrivelmente rápido, como se acima da minha cabeça houvesse um fio desencapado captando os pensamentos dele. Se vocês colaborarem, posso me concentrar especificamente nas batidas do coração. Vocês não sabem, mas cada coração bombeia sangue de uma maneira singular. Alguma coisa nesse abrir e fechar de válvulas, na forma como o músculo se contrai e relaxa. É como uma assinatura, por isso posso encontrá-lo em meio a uma legião de estímulos, mas é preciso um esforço tremendo. Às vezes parece apenas uma rádio fora de sintonia; estática; chiado; mas então me esforço, bloqueio todo o restante e consigo captá-lo novamente.

Eu e Tarso temos uma ideia recorrente. É bastante ousada e poderia colapsar toda a indústria do entretenimento. Imaginem um espetáculo musical completamente desprovido de qualquer artifício visual. Na entrada, cada um dos espectadores receberia uma máscara, dessas usadas para dormir. No princípio seria estranho. Sem dúvida, desconfortável. Mas tudo que importaria seriam os aspectos sonoros. Um despertar do ouvido, por assim dizer. Um golpe preciso contra a ditadura da estética visual. A indústria pop se debateria como um inseto que, com as patas para cima, não consegue se desvirar. Milhares de “artistas” cujo apelo se dá em grande parte por sua aparência, ruiriam. Estruturas imensas de telões e aparatos de luz e pirotecnia se tornariam sucata. As trocas de figurino perderiam completamente a razão de existir. Os gritos tresloucados de fãs diante de belezas arrebatadoras e efêmeras dariam lugar a um silencioso contemplar de uma paisagem sonora que vai se constituindo dentro de nós, camada por camada. Se houvesse relutantes, aos poucos, seríamos cada vez mais radicais, tirando-lhes a opção da escolha. Uma vez acomodados, apagaríamos todas as luzes. E mais tarde, talvez nem houvesse mais luzes a serem apagadas. Com o tempo, isso se tonaria maior. Cinemas cairiam em desuso, assim como a televisão. O rádio reviveria seu apogeu. Celulares voltariam a diminuir em suas dimensões, visto que não precisaríamos mais de telas enormes e brilhantes. A especialidade de oftalmologia desapareceria dos cursos de medicina. Fabricantes de óculos ou lentes de contato precisariam rever seu nicho de atuação. Utópico, eu sei. Ou melhor, distópico, não?

K. Dick, Huxley, Orwell, vocês estão por aí? Ouçam essa, vocês vão gostar.

Aos poucos, no início por imposição, mas depois pelo simples curso natural das coisas, confiando que Wallace e Darwin estavam certos, pouco a pouco nosso aparelho visual, cada vez menos utilizado, diminuiria de tamanho. Gradualmente, nas raras vezes em que fizéssemos uso dele, nossa visão se tornaria cada vez mais turva e nublada. Aos poucos, os fotorreceptores de nossas retinas se tornariam menos eficientes, levando informações cada vez mais precárias aos nervos ópticos. As células responsáveis por detectar intensidade luminosa morreriam sucessivamente. O córtex visual do cérebro começaria a falhar, minando nossa capacidade de perceber de maneira eficiente profundidade e distância. Bateríamos em objetos que julgássemos estarem mais longe; nossas mãos passariam ao largo de coisas que desejássemos segurar; daríamos passos em falso e dirigir se tornaria impraticável. Esclera, coroide e retina, paulatinamente, se aglutinariam, tornando-se uma coisa só para depois converter-se em um apêndice sem uso e, finalmente, deixar de existir.

Mas esperem, silêncio, por favor. Perdi Tarso outra vez. É engraçado, mas há todo um universo magneto-fantasmagórico que nos afeta mais do que vocês podem supor. São tantas ondas de tantas naturezas nos atravessando que às vezes somos bússolas desmagnetizadas momentaneamente, sem rumo, sem referência de onde está nosso norte verdadeiro. Mensagens, tevê, rádio, wi-fi, ligações, infravermelho, bluetooth, eletricidade, medo, ansiedade, ódio. Não se enganem, está tudo por aí, no ar. Dá pra sentir. Dá pra medir. Mas já devo estar mais perto de Tarso, consigo sentir seu perfume.

Seguindo em nosso pequeno projeto de seleção natural e evolução da espécie, a diminuição do aparelho visual abriria espaço para que outros o ocupassem. Nosso sistema olfativo, por exemplo, se tornaria maior e, assim, muito mais eficaz. Com mais área de contato, os axônios das células olfativas poderiam captar mais partículas. E com células receptoras mais poderosas, uma quantidade maior de sinais elétricos seria enviada aos glomérulos, estimulando com maior intensidade nossos bulbos olfatórios, local em que os impulsos nervosos atingem o córtex cerebral e onde a excitação nervosa é, finalmente, transformada nisso a que chamamos de cheiro. Talvez, para os padrões contemporâneos de beleza, não fossemos considerados os mais belos seres humanos. É provável que tivéssemos orelhas e narizes bem maiores do que os que costumamos ter hoje. Entretanto, lembrem-se, que diferença faria já que não enxergaríamos mais? E aqui começa a beleza dessa hipótese: o valor das coisas por suas funções e capacidades e não por sua aparência. Nossa audição, prosseguindo, seria espetacular. Orelhas maiores implicariam em mais ondas sonoras fazendo os tímpanos vibrarem e impactando o ouvido interno, onde estas ondas transformam-se em impulsos nervosos que são transmitidos ao cérebro pelo nervo auditivo. Não quero me alongar nos pormenores técnicos, mas vocês são capazes de vislumbrar as possibilidades? Não seriam essas capacidades invejáveis a um escritor, visto que o que fazem é justamente transmutar estímulos em histórias?

Essa escola é minha Galápagos. Esse ônibus escolar que tomo todos os dias é meu HMS Beagle. Eu deslizo por esses corredores, saguões e reentrâncias captando ecos de um passado remoto. Sinto cheiros, amores e dessabores. Lapido minha capacidade de inferência deduzindo o presente através do que veio antes dele. Entre tartarugas gigantes, tentilhões e adolescentes, eu decifro a vida e as espécies. Sou uma mutante, o próprio vislumbre do futuro, uma antecipação do que vocês podem vir a ser.

E agora já ouço com distinção o átrio direito de Tarso em plena atividade. Agora o esquerdo. Sinto seu perfume almiscarado. Vocês sabiam que antes do almíscar sintético, descoberto em 1888, a essência de almíscar era obtida através de uma glândula existente no cervo-almiscarado, que era morto para que dele pudesse ser extraída a matéria prima para o perfume? Ou ainda, vocês sabiam que a palavra almíscar vem do persa mushk, que significa testículo? Claro que vocês sabem, são escritores, entendedores de toda a etimologia que nos precede como linguagem. Enfim, esqueçam minhas digressões. O fato é que por alguma razão Tarso gosta de usar um perfume almiscarado que eu sou capaz de reconhecer de longe. E conforme avanço, a soma desses fragmentos vai constituindo um Tarso que só eu conheço. O timbre da voz, os odores, o farfalhar único que o ventrículo esquerdo faz ao atritar com a aorta descendente. E na iminência desse encontro, eu já antecipo o toque, quando eu tomo minhas mãos nas dele. Gosto de passar os dedos delicadamente, subindo pelos braços antes de chegar aos ombros e depois ao rosto. No caminho, as pequenas cicatrizes são histórias em braile de uma infância destemida e célere. A queda de cima da árvore no quintal nos fundos da casa, uma bombinha apressada que estourara antes da hora, uma queda de bicicleta na rampa construída coletivamente com os outros meninos do bairro. Nessas horas meus dedos são como a agulha de um disco rígido procurando por informação, impulsos elétricos esperando para serem convertidos em crônicas registradas naquele corpo tênue de treze anos.

Finalmente o encontro. Está na sala de música. Reconheço o ciciar dos dedos ásperos contra as cordas graves do baixo. Ninguém toca como ele. Nesse momento, ou muito antes, minhas polifonias já estão em pleno diálogo com as de Tarso. Meu cânone literário em calorosos debates com seu panteão de grandes jazzistas. Aliterações, digressões e figuras de linguagem em abraços lânguidos com formas sincopadas, polirritmias e improvisações. Somos Miles Hemingway, Franz Coltrane e Charlie Cortázar. Somos Truman Gillespie, Nina Lispector e Dizzy Rubião. Todo nosso amor é uma blue note, dissonante. E em meio a tudo e a todos, eu apenas paro e o sinto. Sei que ele sabe. Num êxtase contemplativo, que está muito além do que apenas ouvir, sinto ele tocar por toda a duração do intervalo de tempo de sua aula. Me aproprio da música que ele faz, seja com o baixo ou com a sua existência, reverberando em lugares que eu quase duvido existirem dentro de mim. Vibramos na mesma altura. E por hora, isso me basta.

 

André Timm é gaúcho, de Porto Alegre, radicado em Santa Catarina. “Insônia” (Design Editora, 2011), seu livro de estreia, foi Menção Honrosa no Prêmio SESC de Literatura. “Modos inacabados de morrer”, seu primeiro romance, foi o vencedor da Maratona Literária da editora Oito e Meio na categoria prosa. Mantém o site 2 mil toques, projeto autoral em que convida escritores a compartilharem suas rotinas e processos ligados à produção literária.

 

 

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118ª Leva - 03/2017 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Iolanda Costa

 

Foto: Kristiane Foltran

 
sortilégio

 
Um geômetra dos sólidos, vago
gira, embaraçado
à linha, ao diâmetro da carne:
suas figuras vazadas de plano e espaço.

Não vê a mulher, a ruína
a doce espádua nua e coruscante
das que copulam
as sete luas que lhe fulguram o pescoço.

Ela quer o testículo, o seminal
o esfero contíguo e providencial
das Causas Primeiras
transubstanciado.

O colo ungido em ceia mística.

 

 

 

***

 

 

 

brasil

 
A rã do ar invertido
de teu nome não salta:
coaxa como rãs, anãs
a fêmea muda que não coaxa
a língua longa que não alcança
o acento, o inseto, o insulto.

Teme o enxame, órbita-cócora
de brejo em brasa:
sapo sapa sepo
ipiranga tímida que não asa
itininga fúlgida que não flora.

 

 

 
***

 

 

 
ófris

 
do aéreo ao mediterrâneo
sibila a orquídea
seu voo de sépalas.

também a palavra
tem formato de moscas
e zune

sibila em sépia poesia tinta
sua escritura rumorosa:

asa-fulva-flor
de céu interior.

 

 

 
***

 

 

 
ceifa

 
não pinta tanto o lábio
a morte desfaz a boca, a cor
a escarlata do fruto
o rosa encarnado nos sexos

cuida da mortalha, do feno
a vida, bem se vê
não é uma gramínea
de flores nuas
abertas ad infinitum

arranca, do quadril
o colar de absinto

 

 

 
***

 

 

 
outono

 
arde em folha
seus degredos:
casco fóton salso
ulvas-vulva
céu sargaços

quisera do amor
a mão sobre o sexo
a textura do véu
a blusa florada
o indie folk de sais

renascidos ares, abril
onde a pele propulsa
encardida
e a tudo o sol ilumina

 

 

 
***

 

 

 

tear

 
meada
entre
meada

o algodão em flor

gosma, do liço
seu amarume
de estames

 

Iolanda Costa (Itabuna-BA), graduada em Filosofia, é arte-educadora e especialista em História Regional. Editou, artesanalmente, folhetos de poesia “Às Canhas as Palavras Realizam Mil Façanhas” (1990), “A Óleo e Brasa” (19991) e “Antese” (1993). Tem poemas editados em jornais, antologias, revistas eletrônicas e blogs. Participou do Livro da Tribo (2013). É autora de “Cinema: Sedução, Lazer e Entretenimento no Cotidiano Itabunense” (2000), “Poemas Sem Nenhum Cuidado” (2004), “Amarelo Por Dentro” (2009), “Filosofia Líquida” (2012) e “Colar de Absinto”, no prelo. Coordena a Coleção de plaquetes “Pedra Palavra” (2012 -2017).

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118ª Leva - 03/2017 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra

A busca de si e as formas fixas, a Mecânica Aplicada de Nuno Rau

Por Roberto Dutra Jr.

 

Veio o pós-modernismo e nós nos fragmentamos em tantos pedaços quanto uma tela cubista comporta. Surgiu a world wide web e nos fragmentamos mais ainda em avatares e perfis, redes sociais, raves cibernéticas e encontros virtuais. Uma nova realidade abraça a todos nós e a cidade em que circulamos circula em cada dispositivo móvel em níveis que nos viciam sugando o nosso tempo como vampiros instalados nos chips.

Estas imagens e outras povoam irremediavelmente a minha mente quando carrego as páginas de Mecânica aplicada, o novo livro de Nuno Rau, que saiu recentemente pela Editora Patuá. Façamos o reload.

Nuno Rau faz uma mescla de imagens e narrativas versificadas, surgindo rápidas como flashes entre um fluxo de consciência que também engloba samplers de outros poetas e compositores. A desapropriação de um verso alheio é a identidade de um novo poema. O indivíduo entre estas páginas, que vaga numa polis cyber-punk perdeu as ilusões e dialoga ora com um outro, que pode ser ele mesmo ou um sampler de um poeta (ele mesmo se constrói? Ou uma voz do cânone?). Não temos certeza de quem está lá, à solta; quem é este observador do fluxo de informações, desolado em reflexos de si mesmo que não reconhece. É preciso quebrar os espelhos: “… erradicar / os artefatos / da ilusão”. Fica no ar sempre a pergunta se o indivíduo é o sintoma ou a doença de si.

Uma máquina do mundo revisitada não seria uma leitura extrapolada de Mecânica aplicada. Entretanto, os poemas de Nuno Rau, com um ritmo ainda mais fragmentado, comunicam-se com suas referências drummondianas e haroldianas (de Campos) e revelam uma profunda angústia de ser no século XXI um homem (poético) sampleado.

Ora com modos de graphic novel, algum desvio surrealista e certamente impregnado de distopia, os poemas de Mecânica aplicada não encontram caminhos nessa cyber-cidade, a única fuga é a para dentro de si, como nos versos de “por dentro, por fora”: “vivendo pela margem, neste exílio / de uma pátria que não existe, a não / ser na mais absurda alucinação, / nenhum dia me abre o seu sentido; / … / além do corpo, / … / as coisas seguem normais / … / sob a pele das coisas arde um tal incêndio”.

Mecânica aplicada tem uma unidade conceitual dividida em cinco partes, sendo Subversio machine, Imago mundi, Fenomenologia dos materiais, Opera mundi e Mecânica aplicada. Os poemas “Fragmentação”, “Romantismo mode on mode off” e “Ars poetica” são o ponto de convergência deste eu fragmentado do poeta (sua consciência dentro da máquina do mundo) e dividem o livro em uma tomada de estilo e de forma.  As duas seções finais são compostas de sonetos. O caminho para dentro de si é o encontro de uma forma fixa tradicional da literatura. Seria um retorno à infância ou à infância cultural de um ser poético desiludido num mar de informações e referências, impossível de ser filtrado?

Nuno Rau não reinventa o soneto, mas utiliza o recurso como uma oposição à fragmentação. Se havia uma busca, esta deveria ser por concisão e a aplicação da mecânica surge no verso e sua prática. Versos como: “a forma fixa: o conteúdo, não. / A mente é livre, o pensamento inquieto, / e exposto a mais esta contradição / cometo – extemporâneo – outro soneto”, demonstram o jogo metalinguístico montado.  Tendo a língua como referência na busca de uma possível identidade, este indivíduo, que pode não se perceber na polis cibernética e sampleada, encontra dentro de si uma sample anterior e nela tenta se elaborar, reconhecer-se como tal. A reflexão seria um questionamento constante de muitos autores: existimos apenas enquanto linguagem?

O emprego do soneto dá um frescor no texto, embora fique também outra pergunta latente na leitura dos poemas de Mecânica aplicada: o pós-pós da linguagem literária é a forma fixa? Ainda: a resposta da fragmentação de si na linguagem é o retorno ao cânone? Incluso das alegorias da infância, do amor, do encontro do outro e demais temas que podemos considerar como universais. Creio que faço perguntas demais nessa resenha, isso me intriga, mas também elucida algo muito claramente: uma das funções da arte é nos compelir ao questionamento, além de conformismos, certezas e confortos. Tendo isto em mente quero finalizar dizendo que Mecânica aplicada, de Nuno Rau, acima de tudo, deixa claro que: reload>code = poesia.

Boas leituras.

Roberto Dutra Jr. é um carioca, suburbano e deslocado. Escritor em resistência, mestre em Letras; foi editor da Revista Escrita e contribuiu para o jornal Panorama da Palavra, e escreveu artigos acadêmicos. Atualmente oferece consultorias literárias, e leciona quase na clandestinidade. É colunista regular do blog literário Zonadapalavra, resenhista da revista de artes Mallarmargens e usa o Instagram para experimentos fotopoéticos. Foi recentemente publicado na antologia Escriptonita (Patuá).

 

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117ª Leva - 02/2017 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Floriano Martins

A imagem que nos aterra a existência, que se torna um testamento usual, um versículo sempre na ponta da língua, cobra hoje uma tarifa existencial que nos limita a própria reflexão sobre o que somos ou deixamos de ser. Somos viciados em uma demanda reiterativa. Algo nos impede de experimentar um mundo outro sob ou sobre a capa de uma realidade averbada pela crença na imutabilidade da vida. Ora, mas a vida é tudo menos imutável. Mesmo no plano sagaz das religiões a vida é o preço, a súplica, a tormenta, o vislumbre, o apogeu, a dádiva, e não é possível pensar em nenhum desses atributos como um álibi inquestionável que não permite à espécie humana mudar sequer de postura na cadeira em que presta depoimento sobre sua existência. A fotografia é uma das mais complexas faturas da criação artística, a começar pela resistência da arte entendê-la como sua cúmplice. A beleza é outro aspecto frequentemente confrontado pela incredulidade em que o gesto humano seja tudo menos apenas uma reação brutal à diferença. Leila Ferraz é uma poeta que se distingue entre seus pares pela percepção que possui das relações entre o criador e sua obsessão. Alheia às formatações de gênero, é poeta, ensaísta, fotógrafa, desenhista, foi uma das organizadoras da Exposição Internacional do Surrealismo, em São Paulo, anos 1960. Aqui dialogamos sobre o ambiente da fotografia, ou melhor, sobre o espírito da imagem. E o diálogo se faz ilustrar por algumas de suas fotografias.

Leila Ferraz / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Quando começaste a fotografar lidavas com o mundo analógico. Tempos depois, quando retomas, já está em curso pleno o mundo digital. Do ponto de vista estético, como tens lidado com a passagem de uma técnica para outra?

LEILA FERRAZ – Sou uma fotógrafa analógica assumida. Esse foi o meu mundo durante toda minha vida. Tudo o que eu queria, tinha que pensar, analisar, testar, me apaixonar e me envolver de tal forma visceral que o mundo digital foi um tapa na cara. Veja abaixo esta foto de 1971 – tudo era feito no olho e nas mãos. Envolvia cheiros, ácidos, estudos e a conquista de um tempo fascinante no qual eu me perdia. Mas era um trabalho meu. Como quem cava fundo cada réstia de luz, penumbra ou escuridão. Um processo de imenso prazer. E buscas e descobertas. Desde criança, este mundo que peguei nas mãos quando as reproduções ainda eram feitas em placas de vidro. Desde quando bem pequena, descobria as minhas origens folheando sem nunca me cansar os álbuns de família. Com fotos de bem mais de 150 anos. Como medir, lidar, conquistar o que nasceu comigo? Eu ainda sou analógica. Atualmente, os recursos digitais nos proporcionam tudo o que queremos. Praticamente na hora. São milhares de opções imediatas. Existe, sim, o fator surpresa. Porque num toque de dedo ou criamos o que desejávamos ou o que nós desejávamos já vem pronto. Eu tinha um estúdio fotográfico completo. Com salas, químicas, bacias, ampliadores, Hasselblad, Leica, Roller, iluminação e tudo o mais. Atualmente, com uma máquina, programas e aplicativos consigo o que conseguia e mais. Em termos estéticos, o método analógico me dava mais prazer porque era eu quem o criava. No digital, posso ir além. Mas nunca sozinha e sim com uma legião de tecnologia me acompanhando. Talvez cheguemos aos mesmos lugares, mas sem os mesmos prazeres. Digitalmente, esses valores são predeterminados. Nossa interferência e interação são calibradas entre o cérebro e o olho – modo único de cada ser olhar e fotografar.

Foto: Leila Ferraz

 

DA – Curiosamente ilustras a tua resposta com duas fotos em preto & branco, o que lembra certa rejeição da cor em muitos fotógrafos. Há uma espécie de resplendor excessivo na cor que impede o olhar de decifrar meandros mais íntimos da imagem?

LEILA FERRAZ – De certa forma, sim. A cor é fascinante, porém ela nos excede, quando apenas cor. Raros são os fotógrafos que sabem dar às cores suas temperaturas exatas. A cor mantém estreita relação com a temperatura, com a hora. O calor de cada cor tem algumas regras áureas que aprendemos e exercemos na medida em que fotografamos analogicamente.

DA – E como o acaso dimensiona o espectro final da imagem fotografada?

LEILA FERRAZ – O acaso é o orgasmo que temos. Quando ele acontece, gozamos. Se vamos ou não repeti-lo e nos tornarmos amantes é a proposta misteriosa inerente ao próprio acaso.

DA – Bom, recordo certo entendimento de que a fotografia aprisiona a alma da gente.

LEILA FERRAZ – A isso Roland Barthes (com quem concordo) chama de noema fotográfica. O momento decisivo, único, raro, de Cartier Bresson, que perpetua toda a essência estética do ser ou da coisa da fotografia. Ou da coisa fotografada. Aquilo que é próprio e unicamente possível naquele instante.

Foto: Leila Ferraz

DA – Salvador Dalí via na fotografia “o veículo mais seguro da poesia e o processo mais ágil para perceber as mais delicadas drenagens entre a realidade e a surrealidade”.

LEILA FERRAZ – Veja a insegurança dessa frase. Sua fragilidade. Ela precisa de um mecanismo que justifique um processo contínuo no tempo. Não concordo.

DA – Talvez venha do fato de que o Dalí, ainda em 1929, quando afirmou tal coisa, pensava na fotografia apenas como o registro de uma cena, o que ele próprio chamava de catálogo “de imagens fragmentárias que dão lugar a um total conhecimento dramático”…

LEILA FERRAZ – Sim, é possível. A fotografia como registro foi e ainda é, infelizmente, entendida dessa forma. Quando, na verdade, essa é apenas uma de suas aptidões enquanto manifestação artística.

DA – Quais os caminhos estéticos que a utilização da fotografia abre para a tua concepção criativa como um todo?

LEILA FERRAZ – Caminhos estéticos são para mim como palavras autológicas ou heterológicas. Para segui-los é preciso estar com os sentidos em uníssono. Suspensos. Minha concepção criativa, tanto no poema quanto na fotografia, por exemplo, é minha expressão de ser. Única. Soma de diversos processos raros. Nasci com essa capacidade de ser intuitiva. Para mim, o domínio da técnica é uma escolha fortuita. Lúdica. Feminina. Inexplicável. É uma sensação de concretude e seus fantasmas invisíveis. Há um momento harmônico que surge instantaneamente quando a coisa da arte se expressa em si mesma.

Foto: Leila Ferraz

 

DA – Como lidas com temas e formas ao definir recortes e justaposições em tua criação fotográfica?

LEILA FERRAZ – Tenho uma paleta de cores naturais e cambiantes que me cercam e me abrangem. Posso dizer que o mundo que me cerca está organizado em matrizes pré-determinadas e que se modificam a cada instante. Criando, assim, uma relação de movimento contínuo. Meu poder de escolha de temas é um processo interior – que pode ser aleatório ou determinado por um desejo. Sem dúvida, aquilo que considero como belo é o meu ponto de partida. Seja uma paisagem, por exemplo, ou algo estático. Contudo, a minha interferência permite que eu simule diversas composições de formas e cromáticas, até que me bastem. Até que eu chegue ao meu noema – no sentido que relatei acima. Nesse sentido a manipulação digital me proporciona a capacidade de transcender à fotografia, recriando cenários, figuras ou abstrações num cenário surpreendente e inédito. Por vezes inesperado em termos de justaposições ou recortes. Atualmente, já consigo controlar ou dominar as possibilidades do mundo digital para obter exatamente o que desejo, como resultado. Porém, a surpresa é sempre instigante e muitas vezes conflitante.

DA – Quando preparas uma cena para fotografar, lidas com os truques de sua figuração. Trata-se, como em toda criação, de atuar no limite de uma falsificação. Nesse tablado, como se relacionam a imaginação e o instinto de imitação? Paul Éluard dizia que “a imaginação não mente nunca, pois ela nunca se equivoca”.

LEILA FERRAZ – Em diversas ocasiões eu preparei a cena que imaginara. Estas duas: a primeira foto é a do meu próprio umbigo. E resolvi utilizar um recurso digital para lhe conferir uma “história feminina”, por assim dizer. Já na segunda imagem, acrescentei vários outros recursos digitais e desarranjos para lhe conferir movimento. O movimento de um veleiro chamado NOTURNO. Com isso vou além de minha intenção original. Passo a acrescentar o elemento de Thalassa – também próprio do universo feminino. E mais – ao deslocar o eixo da imagem, surge o movimento. E a imagem criada torna-se única e poética. Há outro caso em que para obter um resultado imaginado, tive que interferir várias vezes na paisagem. Queria fotografar um homem à noite, com a lua por detrás da Ilha Bela, e que as ondas do mar preenchessem o corpo do modelo. Processo que demorou muito tempo, por se tratar de uma sobreposição sobre uma mesma película que já havia fotografado a paisagem com o modelo. Após alguns minutos, pedi para o modelo sair e então as ondas do mar invadiram, também, o espaço de seu corpo. E fui além. Na gráfica, além das cores básicas, acrescentei a impressão de mais uma cor, o ouro, formado pela passagem de uma bicicleta. Tudo isso foi feito analogicamente, com uma Hasselblad e passagem de luz sobre um papel virgem, em câmara escura. Foram vários fotolitos até chegar ao resultado que eu desejava. Vários dias e um processo caro. Com as facilidades do mundo digital, isso seria feito muito rapidamente. Talvez com um resultado final diferente. Porém controlável. Há mais exemplos. Centenas deles. Nesses casos, a imaginação se transforma em realidade. Isso é possível, sim.

Foto: Leila Ferraz

DA – Entendes que a web permite hoje um instrumento valioso de trabalho para a criação artística?

LEILA FERRAZ – Essa tecnologia, encontrada à disposição de qualquer pessoa, me proporcionou novas formas de expressão, de comunicação e transformação da realidade. É possível interferir em qualquer imagem. Multiplicá-la, replicá-la e movimentá-la através de qualquer espaço ou base. Misturá-la em qualquer meio e adicionar inusitadas linguagens. Através dos meios digitais, o comportamento da imagem fotográfica, às vezes de uma mesma imagem, conquista simbologias inéditas. Crio um novo vocabulário emocional a ser decifrado.

DA – Quando o fotógrafo lida com o modelo vivo, desperta certamente nele um instinto de espetacularização. Sendo o modelo objetual, como se realiza essa teatralização dos sentidos?

LEILA FERRAZ – Creio que lidamos com a metafísica quando falamos de fotografia e todos os casamentos possíveis e impossíveis que se realizam entre tecnologia e processos artesanais.

DA – Esquecemos algo?

LEILA FERRAZ – Posso dizer que o processo digital de cores e mesmo de nuances monocromáticas me é muito valioso. Sem dúvida, todo esse processo que atualmente me fascina, é altamente tecnológico, preciso e ao mesmo tempo cambiante, de acordo com o resultado que desejo obter ou que me surpreenda quando atinjo um ponto que para mim é a manifestação da vontade de nominar o incontrolável, porém “ordenado”.

Foto: Leila Ferraz

TRÊS POEMAS INÉDITOS DE LEILA FERRAZ

 

Ossuário de fontes

 

Esgotei minha última saliva.
Minha umidade esvaiu-se em leite de amêndoas.
Não há lágrimas descendo as escadas.
Estou estranha, tão estranha, e não me basto.
Pouco sei desta mulher que nasce e renasce a cada manhã,
e não se põe jamais, porque a ela pertencem as linhas da vida
que unem as artes e os manifestos.
Esta tresloucada fêmea ensandecida capaz de desnortear o mais sério dos eruditos.
Que depoimento é este que tanto queres?
Para mim se assemelha a uma equação da própria física que ainda nem descoberta foi.
Um depoimento afetivo de memórias juradas ao esquecimento.
Sim, reunirei minhas últimas forças e dormirei com os protagonistas de minhas lembranças.
Com ou sem as suas próprias naturezas devastadas.

 

 

 

***

 

 

 
As luvas da raposa

 
Hoje a liberdade se esconde
no cache-sexe de Adão e Eva.
Procuro em mim o Andrógino Primordial.
Meus desejos se tornaram anjos persecutórios.
E enlouqueço enquanto refaço meu corpo na praia da Olaria.
Tenho todos os elementos da loucura.
Agora fotografados.
Quanta beleza na boca de Narciso!
Quanta verdade revela um espelho.
Já não posso te esperar.
Serei do primeiro marinheiro que aportar aos meus pés.

 

 

 

***

 

 

 

Fotografia noturna

 
Uma paranoia engole nossas memórias.
Cada tecla tocada emite um falsete nas nuvens.
Quem colherá as imagens secretas que gerei?
Quem se esconderá na concretude de nossas palavras,
Onde se ocultam meus gestos eternos cor de prata.
Nada sincero ou palpável.
Toda criação espalhada pelo universo.
Planetas adversos pelas avenidas cósmicas.
Encontros extraterrestres acontecem quando recebo um amante em meu lençol.
E a estética amorosa conjuga verbos proscritos.
Filhos da nervosa ruela que dobramos no espaço.
Sonhos cada dia mais impossíveis nos retoques dos retratos.
Garantias no lugar de signos colocam suas máscaras entre as pernas dos mortais.
Estarei sonhando?

 

Floriano Martins é poeta, ensaísta, editor e tradutor.  Dirige a Agulha Revista de Cultura e a ARC Edições. Contato: floriano.agulha@gmail.com.

 

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117ª Leva - 02/2017 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Vinícius Mahier

 

Ilustração: Bianca Lana

 

ganchos

 

vi deus pendurado nos ganchos de uma palavra
eu não distingui a palavra em que vi deus pendurado
eu não suspeitei que a palavra fosse uma espécie de deus
prestes a cair, como se fosse
deus.

eu não fiquei cego ao perfurarem-me o olho
eu não percebi o meu olho ao tateá-lo com o outro
eu não suspeitei que esse olho fosse uma espécie de deus
prestes a me pendurar, como se fosse
deus.

 

 

 

 

***

 

 

 

 
travessia

 
se a
câmera
da tua pupila

fosse um braço em direção à água

o olho esquerdo
em intervalos
de colinas

abriria a pálpebra —

………………………..ao meio.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

poema

 
o avesso da tua voz não constitui um corpo

a origem da tua voz não reencontra o espírito

a beleza da tua voz não petrifica o músculo

a potência da tua voz não é ainda um sopro

o resíduo da tua voz não acumula rosto

a lacuna da tua voz

 

 

 

 

***

 

 

 

 

autorretrato com seio à mostra

 
o vestido deslizando
pelos ombros
insinua

………pano.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

jurisdição

 
depois de cruzada a fronteira,
fuzilem a todos, um a um.

mas antes, meu deus, antes, reajam
praguejem destruam! não permitam, deus,
que morram
em solo estrangeiro.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

poema metaescrotal

 
deus
e o diabo

farinhas
do mesmo saco

 

 

 

 
***

 

 

 

 
óbito

 

hoje a boca amanheceu
cheia de formigas
cada qual com um pedaço
de letra por sobre
a cabeça miúda
levavam toda palavra
na ponta da língua
garganta adentro.

 

 

 

 

***

 

 

 

 
outra vez tatear a terra

 
à procura dos óculos
que não mandamos fazer.

 

Vinícius Mahier é graduando em Letras pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), com ênfase de pesquisa nos estudos de literatura e globalização. Publica seus poemas no blog No passeio íntimo, além de textos em jornais e revistas.  E-mail: viniciusmahier@hotmail.com