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115ª Leva - 09/2016 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

A relação do escritor Alexandre Staut com a França não tem início com a literatura. Nasce da memória afetiva de “O garoto selvagem”, longa dirigido por François Truffaut, que assistiu, pela primeira vez, numa madrugada dos anos 80, na célebre Sessão Coruja. Na história, um menino achado na floresta é preso e levado para um vilarejo, onde passa a viver sob os cuidados de um médico. Aparentemente surda-muda, a criança reage à presença alheia com grunhidos, logo sendo tratada, pelos locais, como um animal de entretenimento. A missão do médico é justamente estancar essa bestialidade e incutir no menino o comportamento civilizado, através do exercício repetitivo da comunicação. O que ele resiste, a princípio, em fugas de retorno à natureza, até que a força da razão o domestica para a sociedade.

Foi a lembrança do filme de 1970 a primeira imagem que ocorreu a Staut, ao descer na estação de L’Aber Wrach, um vilarejo francês a oeste do país. Ele se percebeu um selvagem ali, no sentido de desconhecer os costumes, o comportamento e, sobretudo, a língua nativa. Passava o ano de 2002, e o então jornalista tinha viajado à França a convite do amigo Yann Danjou, que estava prestes a abrir um restaurante. Staut e Danjou haviam se conhecido, alguns anos antes, em Londres, onde o brasileiro viveu um período, e passou de lavador de pratos a ajudante de cozinha em restaurantes refinados. Foi ali que aprendeu a cozinhar bem.

A proposta, então, era usar essa experiência no modesto restaurante na cidade litorânea de Brest. O desdobrar dos fatos é o que movimenta a trama de “Paris-Brest”, publicação recente de Staut. Misto de romance de formação e diário de viagem, o livro apresenta, de maneira muito original, o gênero da auto-ficção. O autor manipula, com perícia e envolvimento, as próprias memórias a favor de uma narrativa que reconstitui o passado no adesivo de expressões artísticas: a música, a literatura e, predominantemente, a gastronomia. Prova disso é que muitas iguarias são descritas em seus modos de preparo, revelando outra característica do livro: ser também um volume de receitas.

Acima dessa estrutura compósita, porém, flui um texto coeso, um relato íntimo marcado pela sensação de não pertencimento ao mesmo tempo que por uma gana de que as coisas deem certo, mesmo que tudo aponte para o fracasso. A cozinha do restaurante é seu pináculo particular, de onde enxerga o Brasil através de pratos típicos que encantam os franceses, a exemplo do frango a passarinho e da indefectível coxinha, mas também onde orbitam suas frustrações, seus anseios e suas saídas; é onde se dá conta de que, de omeletes a terrine de foie gras de ganso, a arte da culinária não consegue sobrepor, em si, a arte da escrita.

Em entrevista de opiniões diretas e reveladoras, Staut refaz os passos que o levaram até o romance, partindo da própria literatura para debater sobre o meio e o mercado literário. Criador e editor da conceituada São Paulo Review, seu olhar agudo descortina a realidade brasileira de livros e de autores que, inexplicavelmente, está mais clara para os franceses que para nós mesmos. Educação, literatura de gênero, festivais. Uma ficção que tem o tamanho da própria altura. “Sou um sujeito triste que escreve para tentar ser feliz”.

Alexandre Staut / Foto: Giuliana Nogueira

DA – O seu novo livro tem uma concepção, digamos, sui generis. Há momentos em que é um diário de viagem; noutros, um livro de receitas; e, de maneira geral, um romance de formação. Entre a memória e o processo de composição, qual foi o ponto de partida para escrevê-lo? E como fez para trabalhar com esses três gêneros bem distintos num único texto, sem que a narrativa perdesse a coesão?

ALEXANDRE STAUT – Inicialmente, cinco anos após voltar da França para o Brasil, tentei escrever um romance em que um personagem de um país distante e não identificado chega numa pequena comunidade francesa, longe dos grandes centros culturais do país. O mote tinha a ver com minha viagem, mas principalmente com o filme “O garoto selvagem”, de Truffaut, um filme que amo e que assisti a diversas vezes, desde os anos 80, na Sessão Coruja, da TV, em DVD e num cinema obscuro de Paris. Passei uns dois anos com essa história, mas o livro estava emperrado. Quando já estava quase desistindo, meu amigo Yann (que me levou para a experiência na França, e para quem “Paris-Brest” é dedicado), disse que eu devia escrever sobre minha experiência de vida em L’Aber Wrach, cidadela ao lado de Brest, o primeiro lugar onde morei na França. Porém ainda demorei uns anos para começar a escrita do livro. Morei lá entre 2002 e 2006. Parece que precisava esperar a história decantar de alguma maneira, para que eu conseguisse observar o colosso de coisas que vivi como imigrante no país de uma forma pouco sentimental, com olhar crítico, ora engraçado. Às vezes é engraçado e patético ser estrangeiro num lugar. Me lembro que, já há um bom tempo no lugar, numa mesa de refeição, uma senhora me pediu para passar a baguete. Disse que eu tinha “braços longos”. Como em francês, vezenquando, uma palavra se junta a outra, na hora da fala, não entendi o que queria dizer quando falou “bras longs” (pronúncia: “bralon”). Perguntei o que queria e percebi que meu francês não era tão bom quanto achava que era (risos). Mas voltando à criação do livro em si, houve um dia, dez anos após minha volta, em que acordei e percebi que tinha uma história pronta. Ainda não sabia que o livro ia ser uma mistura de romance de formação, livro de receitas e diário de viagem, algo talvez novo na literatura contemporânea brasileira. Quando estava perto dos dez mil caracteres escritos, percebi que tinha um romance para resolver, nas mãos.

DA – É incrível esse tempo de maturação e, sobretudo, como você bem transferiu uma estadia, que durou anos, de maneira condensada para o livro. O que me leva a pensar sobre a integridade dessas memórias. Durante esse período, você teve algum diário onde anotava sobre os dias, e que serviu de fonte para o romance? Ou foi mesmo um esforço de percorrer essas lembranças, revisitar os lugares, rever as pessoas, sentir os cheiros e os gostos dessa época? A mesma pergunta serve para as receitas. As tinha anotado num caderno ou as escreveu de cabeça? Precisou consultar ou falar com algumas das pessoas daquele tempo?

ALEXANDRE STAUT – Quando Anita Deak, editora do livro, preparava os originais, surgiu a questão sobre os possíveis diários. Ela queria lê-los, talvez publicar parte deles com minha caligrafia. Mas nunca os fiz. Adoro ler diários de escritores, mas nunca escrevi uma linha, a não ser diários terapêuticos, que nunca virão a público (risos). Gosto dos diários da Virginia Woolf, do Lúcio Cardoso, são tantos… Acontece que o período em que vivi na França sempre foi muito presente na minha vida. Quase todos os dias, antes da publicação deste livro, lembrava-me de flashes de memórias, histórias truncadas. Para escrever o livro, quando não conseguia seguir adiante, acionava o trabalho do escritor de ficção que sou, sem me importar muito com a fidelidade dos fatos. Há inclusive alguns nomes trocados no livro, para que assim não comprometesse moralmente pessoas que cruzaram meu caminho na França. “Paris-Brest” é um livro de auto-ficção. É um gênero que gosto. Acabo de ler um livro alucinante da Delphine de Vigan, que se chama “Baseado em fatos reais”. Indico! Sou leitor de auto-ficção, gosto dos livros do Ricardo Lísias e do Julián Fuks, que exploram essa literatura. Falando sobre cheiros, sabores, lembranças, algumas pessoas acham que sou um dândi… faço banquetes para os amigos, participo de festas literárias, criei um site de literatura importante no Brasil (São Paulo Review), escrevo ficção, faço críticas gastronômicas, atuo como ator em peças de teatro e no cinema. Talvez Proust seja a inspiração mais real para este livro… a tiazona dândi mais poderosa que já existiu. Falo dele algumas vezes no texto, cito as suas madeleines, dou a receita original do doce. Bem, queria fazer um livro que despertasse sensações. Por isso, exploro bastante as receitas, o cheiro das feiras livres. Sem contar que de uma receitinha todo mundo gosta. Quando resolvi inseri-las no livro, testei cada uma. Mas minhas receitas não têm medidas certas. Uso punhados, faço medidas na concha da mão. Uma coisa meio bruxo… que sou (risos).

DA – Sim. As referências literárias e as musicais são um tempero à parte no livro, se me permite o trocadilho (risos). Mas já falamos sobre isso. Queria voltar a um momento que é descrito meio en passant, logo no começo, que é sua temporada em Londres, a qual precede os anos na França. Como se encaixa esse tempo em território inglês com sua formação de jornalista, já que viajou para Brest depois de trabalhar um tempo em redações no Brasil, escrevendo sobre gastronomia? Foi em Londres que aprendeu a cozinhar, não? E lá também que conheceu o Yann, um personagem sem o qual o romance não existiria. Como se deu esse encontro?

ALEXANDRE STAUT – Cozinho desde criança. Minha tia Lia fazia bolos de festa. Eu ficava vendo aquele capricho todo. Aos 11 anos, quando queria comer bolo, não pedia para minha mãe. Ia para a cozinha e fazia. Meu pai, que morreu quando eu tinha sete anos, era um grande cozinheiro. Todos os domingos ia para a cozinha, eu acordava com a casa cheirando feijoada, dobradinha. Ele gostava de receber parentes e amigos. Era festeiro. Herdei isso dele. Falo sobre minha família paterna, que é mezzo italiano, mezza judia, e sua relação com a cozinha e a música, no meu primeiro romance, “Jazz band na sala da gente”, de 2010. A Inglaterra aconteceu na minha vida em 1998. Trabalhava num jornal de São Paulo e, ao ser demitido, uma amiga jornalista, Ana Paiva, sugeriu que eu fosse para lá me tratar de tanto álcool e balada. Lá, bebi mais ainda (risos). Mas comecei a trabalhar em cozinhas de hotéis bacanas. Conheci Yann Danjou num desses hotéis e foi identificação à primeira vista. Ou paixão. Uma semana depois, morávamos juntos. Yann foi (e é) meu amor, amigo, irmão, pai, namorado, confidente. Uma amizade que resistiu a três países (moramos juntos na Inglaterra, Brasil, França e depois Brasil, mais uma vez) e a muitas cidades. “Paris-Brest” foi escrito de presente para ele, não é só um livro dedicado ao Yann, é um livro escrito para ele, uma forma de agradecer tanta coisa que vivemos juntos. Hoje, ele mora na França e eu no Brasil, mas nos falamos quase todos os dias. Rimos e choramos muitas vezes juntos. Na mesma semana em que o conheci, em Londres, tive a notícia do suicídio do meu irmão, de vinte e poucos anos, no Brasil. Nunca me esqueço da tarde em que liguei para minha mãe, de uma cabine na Bayswater Road, e recebi a notícia. Sentei no chão da cabine e desmontei. Desliguei o telefone e liguei imediatamente para Yann, que foi me encontrar debaixo de uma árvore no Hyde Park. Chorei até anoitecer e o Yann ficou ao meu lado, calado. Nunca me esqueço dessa árvore. Passava ali depois e via que essa era a árvore da infelicidade. Até hoje essa é a árvore da infelicidade. Achava no suicídio algo chique, via atitude… Ana Cristina Cesar e companhia. Isso até acontecer dentro da minha casa. Enfim, nesse momento, grudei no Yann. Uns meses depois, pedi que me levasse para morar na França. Mas voltando ao livro, ele foi escrito como forma de agradecer ao Yann, pela sua presença nesse momento de dor. E também como forma de levantar seu astral quando o Le Patio Gourmand, restaurante que ganhou dos seus pais, faliu, na França. O livro foi uma coisa pensada como forma de agradecimento. Senti-me um pouco Virgina Woolf ao escrever “Orlando” para Vita Sackville-West. A obra-prima de La Woolf é uma carta de amor, num momento em que a nobre Vita faliu e se viu sem autoestima. Bem, muitos leitores devem conhecer a história da amizade das duas inglesas.

DA – Uma história bonita, afinal, que resiste aos duros golpes da vida. Um fato curioso, que você cita no começo do livro, são os três livros que levou para França. “Como cozinhar um lobo”, da americana M. F. K. Fisher; “O livro das frutas”, da britânica Jane Grigson; e “Jules e Jim”, romance do francês Henri-Pierre Roché. Diante de toda uma bibliografia universal, gostaria que comentasse sobre as escolhas específicas desses livros. E a ausência de uma obra de autor brasileiro deveu-se a uma razão intencional?

ALEXANDRE STAUT – Havia começado a ler livros de gastronomia, e me apaixonei pelo da M. F. K. Fisher. Aliás, este não é só um livro de gastronomia. T.S. Eliot chegou a dizer que Fisher era uma das melhores prosadoras de meado do século XX. E é mesmo. Seu livro mais famoso, “Como cozinhar um lobo”, é sobre guerra e paz, é um manual de sobrevivência em épocas de guerra, é filosofia da mais alta qualidade. O livro de Grigson caiu nas minhas mãos por acaso, dias antes da minha viagem. É de uma beleza sem fim para quem gosta de botânica. Já “Jules e Jim” é um clássico maravilhoso, embora a tradução portuguesa que eu tenha seja lamentável. Único livro de Roché. Adoro autores de obra econômica. E até desconfio daqueles que têm dezenas de livros publicados. Escrever romance é algo muito difícil. Às vezes, o cara escreve um único livro e aquilo é uma obra-prima. Não levei qualquer livro brasileiro para a França. Acho que propositalmente. Mas uns dias antes da viagem lera “Eles eram muitos cavalos”, do Luiz Ruffato, que me deixou transtornado. Ruffato tinha sido meu editor-chefe no Jornal da Tarde. Acompanhei um pouco a criação desse livro que reacendeu em mim a vontade de ser escritor. Ao chegar na França, arrumei um computador e comecei a escrever, a escrever… Tinha um esboço de um romance, nos primeiros tempos lá. Mas era algo muito ruim que joguei no lixo. O mundo está cheio de livros ruins, não queria parir mais um. Falando nisso, não gostaria de ter lançado meu segundo romance, “Um lugar para se perder”. O título é bom, mas, para mim, não é um bom livro. Dois leitores muito especiais gostam dele e o elogiam, Maria Valéria Resende e Leonardo Tonus. Mesmo assim, acho um romance estranho, mal resolvido. Uma vez me encontrei com Sônia Coutinho na Livraria Cultura. Ela tinha lido “Um lugar…” e me disse: “Seu livro é estranhíssimo. Você é escritor” (risos).

DA – Ser estranho também é uma qualidade. Como bem disse, o mundo está cheio de livros ruins que, caso fossem ao menos estranhos, talvez seriam melhores. Mas, à parte a memória e as referências literárias, o livro cede espaço para observações de natureza histórica, a exemplo dos capítulos que se dedicam a desvendar os costumes e os produtos da Idade Média. Como foi o trabalho de pesquisa e por que considerou válido incluir essas informações?

ALEXANDRE STAUT – Ah, sim. Sou apaixonado pela Idade Média, literatura, costumes, alimentação, comércio, comunidades urbanas. Estudo por conta própria o período há muito tempo. Li tudo e vi os filmes sobre Fausto, alquimista, astrólogo e mago, protagonista de uma lenda da Idade Média alemã, que teria feito pacto com o demônio, um arquétipo da alma humana e das nossas aflições. Mas gosto também de livros teóricos sobre o assunto. Na França, há muitos. E é possível sentir a Idade Média bastante presente em diversas cidades do interior. Os cemitérios no centro de alguns vilarejos, na frente da igreja principal do lugar, acho fascinantes.

DA – É marcante também a aparição de canções por todo o livro. Algumas delas, inclusive, apresentam o caráter latente de uma trilha sonora dessa época. Em dado momento, você menciona a participação de Gilberto Gil e Jorge Mautner, num festival em Brest; este último, aliás, de quem você é fã e tentou um encontro, que acabou não acontecendo. Por outro lado, a literatura faz parte de um processo muito mais íntimo que mundano. Há a citação de um encontro com o escritor Humberto Werneck, mas nenhuma outra tentativa de buscar no outro o espírito literário. Nos anos em que passou na França, você mantinha, de alguma forma, contato com a literatura brasileira ou mesmo com jovens autores franceses? Chegou a frequentar feiras literárias, eventos que fossem pautados pela literatura?

ALEXANDRE STAUT – Não tinha pensado nisso. O livro tem, sim, mais música que literatura. Foi um período muito musical da minha vida. Inclusive meu encontro com a música eletrônica. Ia dançar quase semanalmente. Meus encontros com escritores aconteciam por meio de programas de TV e de leituras. Incrível a quantidade de programas de TV na França, com a participação de escritores. Eu assistia a todos. Assim, conheci duas autoras que me acompanham até hoje. Anne F. Garreta, que participa do Oulipo, uma figura bem estranha; e Amelie Nothomb, belga que faz muito sucesso na França com seus romances de títulos esquisitos: “A higiene do assassino”, “Antichrista”, “Cosmética do inimigo”, “Biografia da fome”. Nos três anos e pouco em que estive por lá, basicamente eu li. Li em francês. Ler numa língua estrangeira é uma forma de entrar em contato com as sutilezas de tal língua. Isso requer dedicação. Foram anos em que me dediquei a aprender essa língua que para mim era um tanto desconhecida. Lia autores brasileiros recém-traduzidos lá também. Hilda Hilst, Caio Fernando Abreu. Já conhecia a obra do Caio inteira. Foi bacana lê-lo em francês.

DA – Interessante você citar essa transposição da língua, pois, salvo eventos esporádicos, a exemplo do Ano do Brasil na França, a literatura brasileira parece algo ainda muito limitado a seu próprio território. Você citou Hilda e Caio F., porém, imagino, que deve ter topado com traduções de outros autores contemporâneos. Qual foi sua percepção do interesse da literatura brasileira entre os franceses? Ainda somos vistos pelo viés do exótico, do tropicalismo que exulta suas belezas naturais, seu calor endêmico?

ALEXANDRE STAUT – Estava lá nos tempos anteriores do Ano do Brasil na França, inclusive no momento da festa. O Brasil estava na moda. Traduziram muita coisa boa. Hilda e Caio estavam nessa leva. Era um orgulho chegar às livrarias e ver bancadas de autores brasileiros. Os programas de TV que discutem literatura (são vários, até em canal popular tem!) falavam sobre a gente. Discutiam Guimarães Rosa, liam trechos. Lembro que, em 2005, Lya Luft estava na onda, no Brasil, com os seus livros de autoajuda. Num programa, me lembro, alguém leu um trecho de um desses livros dela, e a apresentadora cortou o entrevistado: “Isso é uma bosta” (risos). Mas não podemos nos esquecer de que, antes da autoajuda, Lya foi uma grande escritora. Hoje em dia, graças ao professor da Sorbonne Leonardo Tonus, a literatura nacional ficou mais em evidência na França. Tudo trabalho do Leonardo! O que ele fez e faz para a literatura nacional por lá já entrou para a história! Há também o trabalho de formiguinha do livreiro e editor Michel Chandeigne, dono de La Librairie Portugaise et Brésilienne, e da Éditions Chandeigne, que já publicou Ferreira Gullar, Affonso Romano de Sant’Anna, Moacyr Scliar, Armando Freitas Filho, Francisco Alvim, Henriqueta Lisboa, Ana Cristina Cesar, Mário Chamie, entre tantos outros.

Alexandre Staut/ Foto: Juliana Carrascoza

DA – Realmente o professor Leonardo Tonus tem feito um trabalho irretocável em prol da literatura brasileira. Mas falaremos disso mais adiante. De volta ao livro, um dos momentos que considero mais tocantes é aquele em que você escala umas pedras à beira mar, onde fica sentado por horas, isolado, escrevendo num caderno. Para mim, essas passagens irradiam toda a narrativa com uma luz de melancolia. O que eram esses momentos para você, afinal? Havia ali mais literatura ou mais autorreflexão?

ALEXANDRE STAUT – Era uma mistura de tudo. Sempre gostei de ficar sozinho, de caminhar, tanto na cidade quando no meio da natureza selvagem. Resolvo cenas de livros em caminhadas, ou então sentado em posição de zazen, principalmente em locais silenciosos. No caso dos momentos de meditação, sentado na falésia do lado esquerdo da cidade de Arromanches-les-Bains, eu olhava os destroços do porto construído pelos ingleses na Segunda Guerra. Havia acabado de ler “Un pedigrée”, do Patrick Modiano (romance sobre os momentos em que seus pais viviam escondidos, por lugares obscuros de Paris, para não serem encontrados pelos nazistas – ainda não traduzido no Brasil). Assim, inspirei-me a escrever um livro sobre meu avô Eduardinho, judeu alemão cuja família migrou para o Brasil. Ele era músico de uma pequena orquestra no interior e dono da funerária da cidade, Pinhal. O livro se chama “Jazz band na sala da gente”. É sua biografia romanceada. Interessante você notar que “Paris-Brest” é um livro melancólico. Você percebeu um traço importante do livro, que também é meu traço. Sou um cara triste. Como Orhan Pamuk, sou um sujeito triste que escreve para tentar ser feliz.

DA – É também nesse instante em que se dá conta de que a escrita é mais forte, em você, que a gastronomia, que o desejo de se tornar um chef. Consegue traçar um paralelo entre o processo de criação e a elaboração de uma receita? Em que a arte culinária e a literatura se aproximam e em que se divergem?

ALEXANDRE STAUT – A escrita sempre foi mais forte em mim do que qualquer outra coisa. É uma necessidade física, real, acho até que só consigo tomar conta do vácuo que vivemos neste planeta por meio da escrita. Talvez ela me distraia da loucura que é estar girando há mais de 700 km por hora, num planeta, sabe-se lá para onde. Quanto a ser chef, nunca o quis. Trabalhei como cozinheiro por uma necessidade momentânea. De qualquer forma, amo cozinhar. Me distrai bastante. Quando estou de saco cheio do mundo literário, vou pra cozinha. Considero a gastronomia uma arte, assim como a literatura. São artes diversas. A gastronomia também é uma coisa mágica. Uma pena que no Brasil muitos intelectuais e até escritores consideram culinária coisa de fresco. Muita gente pensa assim. A gastronomia é um patrimônio da humanidade. É possível relatar a história do planeta Terra por meio dela. Adoro os países em que a gastronomia é tratada como patrimônio; França, Portugal, Espanha, México. Aqui ainda estamos longe disso.

DA – Em compensação, a gastronomia explodiu com um dos carros-chefes de muitos programas de TV. Há canais a cabo, inclusive, que preenchem toda a programação com chefs nacionais e internacionais (e famosos que se acham chefs de cozinha) esbanjando a arte culinária. Esse “fenômeno” acabou por migrar também para a literatura, fazendo com que todas essas celebridades televisivas entrassem na mira das editoras, que abastecem cada vez mais as prateleiras com livros de culinária, de receitas, de viagens relacionadas à gastronomia. Como encara essa fascinação por esse tipo de programa, por livros dessa natureza? E você acredita que, assim como na literatura, há uma banalização da arte culinária; a consolidação de um pensamento de que qualquer um pode cozinhar, assim como qualquer um pode escrever?

ALEXANDRE STAUT – Acho ótima esta explosão do mundo da gastronomia. Acabo de voltar do Piauí, onde fui fazer uma grande reportagem sobre a culinária local. Antes da gastronomia regional entrar na moda, não se bebia cajuína. Disseram-me que hoje tem em todos os bares, vendinhas, restaurantes, supermercados, aeroportos… É a valorização da cultura alimentar.  Por outro lado, as pessoas ainda conhecem mais Nutella do que, por exemplo, o tucupi (caldo da mandioca usado na região Norte, para se fazer vários pratos), ou então dão mais valor ao risoto do que ao baião de dois. Mas, com a popularização da arte gastronômica, espera-se que isso possa mudar um dia. Acho que qualquer um pode cozinhar, como pode escrever. São duas atividades democráticas. A escrita, por exemplo… para escrever basta um pedaço de papel e um lápis. Você pode escrever se nascer rei na Europa ou numa aldeia perdida no Brasil ou na África. Claro que aqui entra a questão do analfabetismo no Brasil, por exemplo. Mas esta já é outra história.

DA – Sinceramente me desagrada essa ideia generalizada de que qualquer um, com papel e caneta, possa escrever. É claro que escrever, sim, mas não fazer literatura. Penso o mesmo da arte culinária. Minha esposa gosta de programas de gastronomia. Certa vez, ela assistia um de competição que, para entrar, o candidato tinha de fritar um ovo; e a maioria não conseguiu. Eu adoro cozinhar, cozinho todos os dias, contudo sei que estou longe de ser um chef. Por outro lado, considero-me um escritor, pois estudo, leio, pratico, entendo as técnicas, os meandros da escrita, e busco, com isso, aperfeiçoar meu texto. Sendo também um crítico literário (escreve para o Valor Econômico), você não acredita que, a despeito de uma importância incontestável, a democracia na literatura tem seu limite na qualidade da narrativa?

ALEXANDRE STAUT – Ah, sim. Também acredito que com papel e caneta não se escreva literatura. É preciso estudar, ler, treinar. Um bailarino, para dar uma pirueta no ar, treina uma vida inteira. Existe uma faísca inicial, que é a inspiração. Depois, o que tem é o trabalho. É preciso trabalhar duro para escrever literatura. Mas ainda acredito que esta é uma arte democrática. O cara precisa de papel, lápis e tempo… além de ler livros, que ele pode comprar por R$ 5, na banca de jornal da esquina, ler de tudo um pouco.

DA – Alguns anos depois de retornar ao Brasil, você lança dois livros: “Jazz band na sala da gente”, de 2010, e “Um lugar para se perder”, de 2012. O primeiro foi uma edição do autor, e o segundo foi publicado por uma editora de pequeno porte. Na ocasião, chegou a procurar um grande selo editorial, mandou o original para a análise de alguns desses? Como avalia essa relação entre um autor inédito e as editoras, no Brasil?

ALEXANDRE STAUT – Não há relação! (risos). Os grandes editores não leem autores em começo de carreira, salvo algumas exceções. Mas até entendo. Editoras recebem 30, 40 originais por dia. Resolvi publicar “Jazz band…” em edição de autor, pois naquele momento tinha uma necessidade quase física de ter um livro lançado. Quando ficou pronto, percebi a importância de uma editora por trás do trabalho. Eu não sabia o que era “preparação de texto”. Para quem não sabe é uma espécie de “direção de arte”, como se faz no cinema. A preparação é essencial. O meu livro saiu com palavras repetidas na mesma página, sem necessidade. Errinhos que só um preparador iria pegar. Quando ficamos muito tempo com um texto, a leitura se torna oração. A gente lê sem se dar conta de cada palavra, da importância de cada palavra no contexto. De qualquer forma, este é um bom livro e merece uma segunda edição, agora caprichada. A dica que dou para quem quer publicar independente: não deixe de contratar dois profissionais antes de imprimir o seu livro, um preparador e um revisor. São trabalhos diferentes, e que só podem ser feitos por pessoas especializadas, que estudaram para isso.

DA – Excelentes dicas, de fato. Outra coisa que você fez, ao voltar ao Brasil, foi criar a São Paulo Review, um dos portais de literatura mais prestigiados nos dias correntes. Como e por que surgiu a ideia de montar a página? E, nesse tempo de existência, a SPR lhe trouxe mais amizades ou inimizades?

ALEXANDRE STAUT – Pois é, sempre li as “Reviews of Books” e percebi a lacuna. O Brasil não tinha nenhuma. Fui com a cara e a coragem e registrei o nome, em 2013. Chamei Viviane Ka, que é do mundo editorial, para ser minha sócia. Em pouco tempo, escritores e leitores perceberam que havia qualidade no trabalho e começaram a nos passar pautas, sugerir resenhas. Surgiu um time muito bom de colaboradores. Nos últimos tempos, a jornalista Ana Weiss se juntou a mim e à Viviane, para fazermos a revista juntos. Ana é uma das jornalistas culturais mais importantes do país. O time está formado e o projeto caminha muito bem. Estamos agora fazendo um plano de negócios para conseguirmos patrocínios, para que possamos ir mais longe ainda. Nunca se sabe, mas acho que consegui mais amigos. Sou contra detonar livros. Sou um jornalista/editor/crítico ecológico. Acho que não vale a pena gastar celulose e energia elétrica para falar mal de escritores e livros ruins. Melhor deixá-los no limbo.

Alexandre Staut / Foto: Macus Steinmeyer

DA – Há pouco você mencionou a questão do analfabetismo no Brasil como um dos principais adversários da literatura. Do tempo em que passou na França, o que trouxe de experiência da relação entre educação e literatura? O que representa a literatura, na vida comum de um francês? E o que poderíamos transferir para nossa realidade?

ALEXANDRE STAUT – Convivi bastante com crianças e adolescentes na França. Eles leem por toda parte, no metrô, andam pelas ruas com livro aberto, na frente da cara. As escolas incentivam a leitura desde muito cedo. Minha enteada, na época uma adolescente, andava com livros para cima e para baixo. Os seus professores passavam tanto obras clássicas quanto contemporâneas. Lembro-me dela comentar com prazer autores que conversam com nosso momento histórico, como Amelie Nothomb. A leitura por lá parece estar incorporada ao modo de vida francês. Talvez seja o país que mais valoriza a literatura. Aqui, falta o trabalho de base. Falta incentivo do governo. É uma questão um tanto complexa, né, não sei se um dia será resolvida. De qualquer forma, não acredito na frase que dizem por aí de que brasileiros não leem.

DA – Falando em professores, quero trazer à conversa o Leonardo Tonus, professor da Universidade Paris-Sorbonne, que tem feito um trabalho inestimável em prol da literatura brasileira na França, em especial no reconhecimento dos escritores contemporâneos. O grande evento que coordena, “Primavera Literária”, no qual autores brasileiros participam de debates na capital francesa, contou com sua participação numa das edições. Como foi voltar à França, desta vez com status formalizado de escritor?

ALEXANDRE STAUT – Participei da “Primavera Literária” em seu primeiro ano, em 2014, junto do Michel Laub, Julián Fuks, Marcelino Freire e Ana Martins Marques. Íamos à Sorbonne e falávamos com os alunos de estudos lusófonos do Leonardo Tonus sobre nossos livros, discutíamos literatura em língua portuguesa, de forma geral. O trabalho do Leonardo na Sorbonne é uma beleza. Ele valoriza cada um dos seus alunos, no que eles têm de mais genuíno. Conheci alguns que não gostavam de estudar e que depois do Leonardo viraram críticos literários, escritores. Mas antes disso, em 2013, ainda a convite do professor e de passagem pela França, dei uma palestra para sua turma, também nas dependências da Sorbonne. Senti um misto de medo, timidez, vaidade. Chegando à sala, todo mundo me deixou super à vontade. Para minha surpresa, estavam na minha palestra Humberto Werneck, Daniel Antônio, ótimo jornalista cultural brasileiro, entre diversos ex-alunos do Leonardo. Tive a sorte de ficar amigo do Tonus, que me chamou para criar o “Outono Literário” ao seu lado, e ao lado da Mirna Queiróz (Revista Pessoa) e Simone Paulino (editora Nós).

DA – Iria perguntar mesmo sobre o “Outono Literário”, realizado este ano em São Paulo, que surgiu como uma derivação da “Primavera Literária”, de Paris. Como foi pegar um evento de sucesso, com suas próprias características, e transportá-lo com mesma relevância para o Brasil? E quanto ao futuro: vocês têm a intenção de torná-lo regular? Buscar parcerias, replicá-lo em outras cidades, ampliar a programação de debates, inclusive com a presença de autores internacionais?

ALEXANDRE STAUT – O “Outono” nasceu no primeiro semestre deste ano, uma união de forças do Leonardo Tonus, da Mirna Queiróz, Simone Paulino e minha. Fizemos eventos na livraria Blooks, com lançamento de livros; numa escola da Zona Leste, onde acontece o Sarau dos Mesquiteiros; na Unibes Cultural; e no Bistrô Ó Chá. Reunimos mais de 20 escritores de todo o país, para falarmos sobre literatura no Brasil. Houve também um evento no Rio de Janeiro. O “Outono” nasceu como proposta de integrar discussões de norte a sul do País, e como evento a se realizar anualmente. Logo mais divulgamos a agenda para 2017.

DA – Desde o ano passado, têm ganhado relevância debates sobre a literatura de gênero, chamando atenção para uma participação mais ampla de mulheres, de negros e de homossexuais tantos nas editoras quanto em festivais literários. Na condição de curador e de autor, como se relaciona com essa discussão?

ALEXANDRE STAUT – No Brasil, o racismo é endêmico e cultural. Por isso, infelizmente, só nos resta uma solução: as cotas. No mais, basta ver os autores e os livros que fazem sucesso, tanto nos cadernos culturais quanto entre o público. A literatura brasileira é branca, heterossexual e “macha”. Com o perdão do trocadilho, acho um saco isso.

DA – Retornando ao livro, há dois momentos bem simbólicos de transição: a sua saída do Brasil para a então desconhecida cidade de Brest, e depois a sua primeira volta ao Brasil, quando se dá conta de que ainda sua estada na França não tinha chegado ao fim, daí você retorna. Mesmo que não tenha qualquer citação, esses momentos me trouxeram à memória o famoso poema de Manuel Bandeira, “Vou-me embora pra Pasárgada”. Consegue traçar um paralelo entre esses anos e os versos de Bandeira?

ALEXANDRE STAUT – Este poema me persegue. Gosto tanto, que incluí um trecho na minha peça de teatro “Marquesa”, encenada pela atriz Paula Cohen, no festival Satyrianas, semanas atrás. Há uma vontade de fugir para encontrar a felicidade, um desejo de percorrer o mundo, como um cigano, ver paisagens. Há também um sarcasmo e uma ternura que são próprios do Bandeira e de muitos autores nacionais. Quando escrevo, tento olhar para o Brasil com essa ternura… mesmo que esteja escrevendo sobre a França, ou qualquer outro lugar do planeta.

DA – Lá, no começo da nossa conversa, falamos sobre os três livros que você levou para França. Se soubesse que algum francês viria passar uma temporada no Brasil, qual dos três livros você recomendaria que ele trouxesse?

ALEXANDRE STAUT – Recomendaria que comprasse três livros aqui… para que entendesse um pouco mais a gente. Para conhecer a vida política brasileira, “Memórias de um sargento de milícias”. Para conhecer a sociedade brasileira, “A hora da estrela”. Para conhecer a alma do brasileiro, “Grande sertão: veredas”.

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

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115ª Leva - 09/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

João Gabriel Pontes

 

Desenho: Re

 

entre certos instantes de brahms e uma cloaca, III

 

O curumim se pendura no avental de Hera
para tentar escalar suas tranças graciosas.
E são fundadas acrópoles a partir dos inefáveis
desejos humanos,
as caçarolas de alumínio
sobre bocas de dragões furiosos.
O contorno da romã se desfaz
em linhas,
e o curumim consegue, afinal,
vislumbrar os paralelos que fatiam
a superfície do planeta.
Como é fácil se encantar pelos Trópicos!
Gira-se a torneira
e a água molda o espaço,
e a água molda as ideias & os sentidos
do curumim.
O ralo da pia bebe vastos açudes de provações
e desaparece.
A carne plástica das dobras do sifão
recobre o túnel de aros de uma tranqueia
esganada.

………………………………. “Incêndio em mares de água disfarçado!
…………………………………..Rio de neve em fogo convertido!”

Hera senta
o curumim à mesa, serve
o almoço e reza
pela alma do marido,
que deu o couro às varas
faz poucas semanas.
……………………………………………………………..Sim:
todos respondemos pelas escolhas
daqueles que pisaram estas campanhas
estéreis antes de nós.
……………………………………………………………..Sim:
nossos escritos são medíocres
reproduções dos palimpsestos que abarrotam
a biblioteca suspensa pela sobreposição
dos anos.
……………………………………………………………..Sim:
este cheiro de serragem molhada,
que tanto me incomoda as narinas
sensíveis ao fracasso, também atordoará
os belos deuses do futuro.

E o curumim marcha entre trovões.

 

 

 

***

 

 

 

Copérnico

 

Com o intuito de estancar a sede irresistível
que me pôs acordado
………………….no momento exato do alvorecer,
recorro ao catálogo das variedades
………………………………anarquicamente dispostas
…………nos compartimentos da geladeira.

Deparo-me com uma jarra de vidro
…………………………………………quase vazia.

No fundo desse crisol ilegítimo,
………….a emular o resultado
………….de ensaios químicos frustrados,
………….o resto do suco de laranja
………….que eu mesmo havia preparado
………….antes de dormir.

Uma quantidade ínfima do líquido
em cuja acidez estão concentradas
……………………todas as minhas perversas manias.

…………………………….Ralho comigo.

Por que não bebera tudo de uma só vez?
Por que guardara o último gole
………………………………para depois?

Preocupo-me somente
……………………com as sobras,
……………………com os resíduos,
……………………com os resquícios.
……………………A abundância das horas, deixo-a

aos que ainda esperam muito da vida,
aos que anseiam por algum clímax
ou por alguma absolvição,
aos que não puderam estar presentes
no velório de Ivan Ilitch.

Meus inimigos dizem que não tenho ambições.
……….E eles têm razão.
……… (Eu não quero ter razão.)

Prefiro o resto do suco de laranja
à revolução da laranjeira,

…………………..espécie ímpar em um bestiário
…………………..de leviandades,
…………………..utopia petulante a servir-se
…………………..de uma filigrana lexical

que ora descreve
a mecânica dos corpos celestes,
ora retém
o anelo dos corpos históricos
por mudanças drásticas.

Mal sabem os filólogos ocidentais que,

em termos ontológicos,

não há diferença
entre a lente arguta do telescópio
& a lâmina implacável da guilhotina.

………………………………A tradução da liturgia
………………………………na diagonal deve ser feita
………………………………porque graça não há
………………………………em seguir da ordem canônica
………………………………a tradição (da liturgia).

……..Se a guerra & a poesia
……..constituem, por excelência,
……..os espaços de negação
……..do tempo e dos arquétipos
……..partidos que veneramos,

……………………..os restos já são, por si, revolucionários.

 

 

 
***

 

 

 
Apocalíptica

 

O silêncio da madrugada & minhas confusas
vaidades inundam a sala de jantar.
Sobre a mesa de tampo redondo, o copo
farto de uísque.
Apenas o odor do malte já me embriaga.

Meus pensamentos se transfiguram
e você surge diante de minhas vistas
cansadas.
As pernas como colunas de mármore,
os braços em um abraço de fogo,
das ancas, larga baía,
& a boca convidativa
& os olhos que me desafiam, esfíngicos.
Sua voz, suave melodia de realejo.
Seu perfume, o escrúpulo dos oceanos.

Ouço as trombetas de mil anjos caídos
e você chove de fora para dentro.
Quimera bamba. Falsa musa.
Sua beleza me leva a descumprir todas
as promessas que fiz a meus fantasmas.

 

 

 
***

 

 

 

Relógios

 

All those times I was bored
out of my mind.
Margaret Atwood, Bored

 

Em cima do piano, eis um relógio. A cada rotação,

………………………………..seus ponteiros
……………………………………….me massacram.

………Alguém me fala sobre doenças
………e sobre consultas médicas,
………sobre planos de saúde
………e sobre seguros de vida.

Alguém me fala sobre os preços dos remédios,
………………que aumentaram por causa dos altos índices
……………………………………………..de inflação.

…………………….Alguém me fala sobre meus amigos;
e, ao que parece, quase todos já honraram
…….o famigerado axioma bíblico: ao pó retornaram.

……………………Alguém me fala sobre reencarnação.

……………E salienta que, de acordo com determinadas
…………………………………………………… [religiões,
o fenômeno do crescimento vegetativo a nível mundial
………………………………explica-se
………………………com base na transmigração dos espíritos.

………Confesso: com o fim do espaço público,
………a ideia de um amplo câmbio interplanetário de almas
………(versus a intimidade de minha casa)
……………………………………….me tira o sono.

……………..Prefiro ser enganado pelas manchetes
……………..e pelos anúncios publicitários
……………..de meu próprio planeta.
……………..Prefiro os mortos
……………..de meu próprio planeta.
……………..Prefiro também os relógios cruéis
……………..de meu próprio planeta,

muito embora suas engrenagens,
gáveas de presas anônimas,
ainda conspirem por minha capitulação,
independentemente de qualquer teoria fabulosa
acerca do além-túmulo.

……………………..A arquitetura da tabacaria
……………………..é rude, quase vulgar,
……………………..mas preciso reconhecer: tê-la,
……………………..em sua frouxa metafísica, põe
……………………..minhas cicatrizes em estado
……………………..de graça.

……..Olho para mim.
……..Olho para meus mortos.
……..Olho para o relógio em cima do piano.
……..Que tédio.

 

João Gabriel Madeira Pontes é um poeta carioca nascido em 1992. Seu livro de estreia, “Indiscrição”, foi lançado este ano pela Editora Kazuá.

 

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115ª Leva - 09/2016 Destaques Olhares

Olhares

Um desintegrado lastro humano

Por Fabrício Brandão

Desenho: Re

Os dias caminham sobre o imenso território do planeta. Vez por outra, estamos inebriados ao ingerirmos, muito sem querer, doses cavalares de realidade. E a pergunta fica: alguém de fato encontra completude diante da incessante rotina do real?

De um lado, o que vemos e tomamos como coisa viva e presente na lonjura do tempo. Do outro, as construções internas reivindicando espaços libertários de representação. No consumo diário das cápsulas da realidade, alguém sempre encontra espaço para modificar a tônica ensaiada das coisas. E quando o livre universo da abstração adentra uma janela de nossa frágil casa, ali, na porta dos fundos, foge exasperada a banal figura de um olhar domesticado das coisas.

Definitivamente, não somos animais feitos para acostumar as horas. Podemos até, com certa frequência, negligenciar a face do inconformismo e postularmos alguma espécie de acomodação do olhar. Mas chega um momento em que isso não se torna mais possível, pois há chamados apontando rumos nada cartesianos, nos quais tempo e espaço são elementos nem um pouco mensuráveis sob aspectos de quantificação aparente.

A valoração íntima do modo como cada pessoa vislumbra as nuances do mundo alveja diretamente alguns lancinantes cenários. São recortes da existência a nos provar que é possível ressignificar a vida em grande parte. É o que tenciona a artista plástica Re, quando faz da sua arte um mergulho constante no território complexo e misterioso da introspecção.

Ao nos mostrar seus desenhos, Re põe em evidência uma espécie de desconstrução das formas tradicionais. As paisagens humanas por ela visitadas são o reflexo de um universo pessoal de abordagens, filtros de um olhar que expõe em certa medida o caráter maculado das nossas humanidades.

Desenho: Re

Seja na deformação de corpos, na utilização de sutis recursos irônicos ou na acidez crítica dos contextos, a desenhista invoca a urgência fragmentária das identidades mundanas. Trata-se de um vasto painel de sombras duma consciência dispersa por entre os vãos das desventuras dos homens, suas escolhas, bem como o idioma dos equívocos nossos de cada dia.

Mas eis que há a palpável constatação de que mergulhamos no fosso abissal da chamada pós-modernidade. Nesse contexto largamente indefinido pela fluidez das identidades e, sobretudo, pela ausência de um sujeito único e assentado numa zona de segurança, é que percebemos a contribuição da artista no que se refere ao desafio de pensar o estado atual das coisas às quais estamos submetidos.

Re é na verdade a persona artística de Renata Lisboa, trans, paulista, estudante de arquitetura, um alguém que vai moldando sua identidade em meio ao fluxo de alumbramentos inquietantes. Sua jovem idade (19 anos) é inversamente proporcional à promissora capacidade que possui de pôr em xeque através de sua obra a fixação de qualquer verdade universal.

Transitando entre o niilismo e o pessimismo, a artista confessa que suas inspirações vêm de nomes como os de Tim Burton, Jodorowsky e Iberê Camargo, além de artistas independentes, sobretudo aqueles pertencentes ao surrealismo pop.

Na inscrição traumática e apocalíptica dos seus desenhos, Re traz à tona as marcas de uma arte que provoca e, ao mesmo tempo, não congratula com vãs esperanças de futuro. É como se cada forma, contorno ou cor empregados fossem um vivo atestado de que estamos implicados até o pescoço com aquilo que quiçá também somos: misto de sujeitos errantes com falsas ilusões de salvação.

Desenho: Re

 

*Os desenhos de Re são parte integrante da galeria e dos textos da 115ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.

 

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115ª Leva - 09/2016 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Helena Terra

 

Re
Desenho: Re

 

Passado a limpo

A Raduan Nassar      

O que registro agora aconteceu anteontem, ontem e hoje de madrugada quando abri a porta do quarto de trabalho. Talvez tenha acontecido também em outras noites e mesmo durante outros dias. Não me lembro dos dias. Passaram, devagar, sem testemunhar a nudez da luz noturna. Nunca escrevi sobre eles. Pensei que escrevia enquanto dava nomes às plantas e substantivava os perfumes e os detalhes da casa. Mas as palavras nunca foram minhas. As letras e os sons sempre pertenceram aos rasgos e à caligrafia do mundo dele, torrão alquebrado pelas estantes e pela imortalidade da mesa –  madeira de lei como a carne de seus pés úmidos –  perdido por entre os papéis amassados e os relógios repletos de hiatos.

Ele me viu espremida no canto, e não se mexeu na cadeira. Por um momento, abriu e fechou os olhos, mapeando minha presença em seu solo sagrado. Por um momento, pensei ele vai estender-me as mãos e depois aferrolhar-me em seus braços. Dos meus, escorriam saudades. No entanto, nem nossos olhos nem nossos corpos se falaram. Então, avancei, escondendo, ainda, a súplica sob a camisola. Ele não disse nada. Tampouco eu pude. Dizer seria uma desonra.  Apanhei o bloco de rascunho e um lápis e, sem arrancar a folha, fui vencida pela repentina desobediência dos dedos: vim em busca de amor, escrevi. Frase curta, certeira. Dentro e fora do coração. Ele, o náufrago capaz de chorar apenas de rir, manteve o olhar pregado nas ranhuras da mesa, provavelmente, calculando em que momento as lágrimas me avassalariam o sangue e a debilidade. Responda, insisti em uma letra desesperada, jogando o bloco em seu peito para que ele rompesse com a falsa concentração do que antes fora sua labuta. Não tenho afeto para dar foram as cinco palavras escolhidas.

Zelosa, ajeitei o bloco no lugar de costume, ganhando tempo para refletir sobre a sentença. Meu marido não seria capaz de acreditar em meia palavra do que escrevera.  Se sua verdade escapava deformada, era porque ele pensava não precisar mais dela. Precisava, sem saber o porquê, ofender, esfolar de modo absurdo. Portanto, não hesitei em dar a volta na mesa e, como em tantas vezes, parar atrás de sua cadeira. Ele continuou imóvel, decidido a ignorar-me, mas eu, habituada a seu ritmo, não me dei por vencida e, com a ponta das unhas, rocei seu pescoço e cabelos como antigamente nos pedíamos nos instantes de gozo. Ele fechou sobre a minha mão o punho, apertando-me os dedos cada vez mais e mais até a dor calar o gemido. E foi nessa altura que eu, num gesto explícito, puxei meu braço, flutuando, rápida e miserável, em direção à janela em busca de um copo de ar.

Deparei-me com o meu colo sufocado pelos botões e pelo laço da camisola.  A rotina a usara contra mim, contra ele. Cerceara-me os contornos, os vícios. A fidelidade dos meus desejos secara sob o tecido opaco como murchara a de meus seios e de meu ventre inconfundível, o ventre seco e desprezado pelo sêmen dele, pela vontade do deus e dos demônios dele. Meus demônios. Devassos e impuros, ao alcance também de minha fome e das artimanhas, todas, mescladas a tudo, misturando tudo, inconfidentes, terríveis no comando, provocando os limites do perigo.  E eu cedi a elas e voltei à ação, desamarrada, quase despida, crua, oferecendo-me para um último golpe, esfregando-me na densidade de sua pele, abocanhando os seus pelos, forçando com o pé a entrada do meu prazer, do meu amor, mas ele se desembaraçou sem pressa, ajeitando o pijama e recolhendo os pés dele um por um sob a cadeira como se eu estivesse parada na vida e ausente feito um sonâmbulo.

 

Helena Terra é gaúcha, escritora e ilustradora. Publicou contos, poemas e textos em antologias e revistas literárias e o romance “A condição indestrutível de ter sido”.

 

 

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115ª Leva - 09/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Hanna Halm

 

Re
Desenho: Re

 

Vão

 

Fecham-se em tamanhos miúdos
caixas de desgraça e poeira, rotas claves
do passado em pausa.
Lágrimas marcadas no negativo da fotografia,
São as dúzias de brincos perdidos em festas
como a fase terminal da doença
Embrulham-se em milhas de pacotes nunca postados
elásticos apodrecidos
Brilham como cacos remendados
no espelho escuro pelos fungos da casa vazia
e pastos inteiros incendiados.
É morte gratuita, sujeira presa
nos olhos do vento, desvairado.
Falta lei e proteção devida às unhas que sangram…
o dinheiro corre as ladeiras da rua
como o pó caído de um cinzeiro.
Fica a pólvora do armamento esquecido nos arquivos.
Punhos fecham-se em tamanhos miúdos
sem direito de guardar escolhas em armários de aço
nem se podem levantar por covardia
a exemplo dos homens que escrevem mudos
sobre suas mesinhas demasiadamente limpas
da liberdade moderna. Do sonho popular
calados diante o som oco que se faz
nas palmas das secas mãos
presas pelo descuido dos símbolos de perda
e das músicas jamais tocadas nas rádios.
Fecham-se em tamanhos miúdos
são como as línguas soldadas ao céu
das bocas frias e incapazes
Escondem-se pelas calças de bolsos fundos
e se alcançam, por uma estranha ventura, as lâmpadas
que pendem nos postes de cada espasmo necessário
às bambas pernas, petrificam-se na recordação do músculo
como um tumor gerado no infinito.

 

 
***

 

 
Cabide

 

depois de tanto morder meus olhos e
proteger os pés da minha frieza,
falava de mim feito fantasma
envenenada em seus próprios dentes
na escuridão dos seus dias
completos, ricos de palavras
incompreensíveis.

e corria estórias
pelas esquinas,
estrofes e gargalhada
em vão, batuques
nas panelas de casa

como fazia crer
falava de mim
e ouviam os desconhecidos
doenças anciãs de minha carne
dita suja
odiosa
carne

falava de mim
sorrateira como o trigo ao vento e
sufocada em meu seio
cuspia bolas de pelo roto

seca

falava de mim, rouca
invalida pelas garras de
um carma inventado

nua
exausta
falava de mim.

 

 
***

 

 
Ramal Japeri

 

se tão cedo sou massa
me aquieto
no canto que me cabe
em trilho reto sigo
curvo meu caminho ao
ganha pouco, pão
indigno dos dias tantos

ossos gemem,
estalam pobres
a febre embalada a
vácuo.

finda a tarde, gado
me atiro à não-vaga e
com menos pressa chego
a casa, permito graça a noite
já se afasta prum dia

aplico
a favor de mim e meu bem
sonhos órfãos
surreais
a posição que me
agride o trem.

 

 
***

 

 

Deixem abertos os meus olhos

 

deixem abertos os meus olhos, e
sobre o meu peito
feche minha mão
como uma cuia a espera de
lágrimas repreendidas.
compreenda minha altura,
metragem antiquada de índia
(misto de sangue e confusão)
calce-me com botas moles
gastas pelo couro judiado
que andei a vida.
quero sussurros de adeus
ditos ao pé do ouvido surdo
quero meus cabelos penteados
com a calma da escrita
e minha camisa branca
de botões e gola livres
casando minha
íris fosca,
seca feito a boca
que se há de morder.
não hei de perder no breu
tal antropofagia
declarada no berço
que cedo me deitei
e retorno em perímetro maior
para até onde dura
a poeira na vista
que agreguei durante os dias.

 

 
***

 

 
Clandestina

 

sim. eu quero ficar
o refúgio nesse caos é a sua própria construção
não pretendo descolar a marca úmida
a entrega da sua pele a minha estadia
pode ser que encontre num terreno impróprio
mas nunca em rotas paralelas da vida
um termo entre o meio e a desgraça
nesse labirinto estreito
de estar sempre respirando as tuas sobras
em copinhos de café expresso no corredor escuro
e manhãs corridas para não ser vista
passo os moveis estalam junto minha coluna
dolorida, a calma já não parece alternativa
se desço de carros apressada e deito
sobre lençóis a serem trocados
sem força para desvendar o koyosegi do nosso futuro
adoeço pretensiosamente ao escovar os dentes
e ouvir conversas de uma voz e meia
em silêncio morro um pouco a cada racionado toque
mas morro esquecida no espelho do armário do banheiro
ao provar a pasta de menta
e saber de ti em outro quarto
arquétipo que não me cabe, reconheço
meu espaço entre as quinas da caixa
sufoco toda vez em minha permanência

 

 
***

 

 
Sexta-feira

 

perdi as contas dos telefonemas
você dizendo que viria ao meio
dia de mala e cuia
pra bater na porta e me chamar
exclusivo, único
as unhas arranhando a madeira
cantareira batucando o
tempo que levo apressado
do sofá da sala ao armário
da cozinha onde deixei
a cópia das chaves
que já eram tuas
faz mais de um mês
fiz na esquina de casa
acompanhando a maquinha
compor pra você o poder
de entrar quando quiser
pantograficamente
sem ser chamado
mas vi tantos sois a pino
quanto pude enfrentar
a superfície lunar
trezentos e oitenta e quatro mil
quatrocentos e três quilômetros de
distância pro nó de nossas pernas
sobre a cama descoberta
ainda assim contei minutos
chequei as pilhas do relógio
voltei a vestir minha camisa
de dormir e liguei
a tv no canal nove
a mesma coisa, desimportância
inquietação interna
a extravasão das pálpebras
conta-gotas no travesseiro
fronha branquinha que troquei cedo
de manhã, os pombos batem na janela
arrulham a pior música para a
reforma que não programei,
mudei armário de lugar
aquela mesinha fica no canto, agora
mas talvez eu jogue fora,
ocupar a cabeça é difícil – o que houve?
até te comprei sobremesa
mais uma vez – pra
preencher a geladeira e
colecionar embalagens de papel – choveu forte
tive problemas com o carro
o pagamento não caiu na conta
não tive folga
tá uma confusão, chegando aí te conto – sim…
mas quando você vem?
eu espero.

 

Hanna Halm (1993) é poeta, musicista e historiadora nascida em Queimados, Rio de Janeiro. Participa do coletivo de publicações independentes Drunken Butterfly e do selo fonográfico fluminense Efusiva. Tem poemas publicados no blog Poema Diário, no jornal Plástico Bolha e na revista eletrônica Avenida Sul.

 

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115ª Leva - 09/2016 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

RENATO SUTTANA – AS PORTAS QUE ME ABRIRAM

 Por Jorge Elias Neto

                                                                                                              

quando-me-abriram-portas-renato-suttana

Nem sempre as portas que se abrem, os caminhos que se apresentam – vários – se traduzem em possibilidades infinitas ou sinalizam um futuro de luz e certezas. É neste caminho que nos conduz Renato Suttana neste “Quando me abriram portas”.

Diz o poeta das portas transpostas, da ilusória luz do instante, do penoso desdobrar-se neste policromático mundo da pós-modernidade. Propõe a necessidade que o pressuposto semideus tem de “descer do Olimpo” e ficar “em casa, num tédio a demora-se…”, pois somente assim “apagadas as luzes” ele vê “reavivar a brasa do engano-pretensão na alma finita”. Mas, este avançar “sob luz escassa”, que se afigura desolador para os desprovidos, se apresenta ao bardo como uma prova da sombra.

Suttana convida o leitor a hesitar em lançar-se no instante; a aguardar e observar as portas abertas; a observar a luz-poema que antecede o passo desnecessário.

Uma lamparina ilumina muito pouco, quase nada. Seu principal papel pode ser nos mostrar o quão escura é a noite. Podemos raciocinar de igual forma em relação ao poema, pois ele pode servir para muito pouca coisa, ou mesmo para nada, como muitos pensam ou pretendem nos convencer. Mas isso é um engano. O poema nos abre os olhos para as cores em nosso redor. Faz-nos ver a poesia das pequenas coisas do cotidiano. Emociona-nos. E isso é essencial para a humanidade.

Que digo? – E eu, que não sei a não ser isto –
a não ser algum trapo de alcançar
que esfarrapa a nudez de que me visto?

O poeta nos motiva a “passar do trêmulo ao seguro”. E isso é possível quando não nos cobramos tanto em relação ao porvir e às conquistas; quando não imputamos à nossa existência a primazia do instante. Digamos “NÃO” à “urgência que a preguiça desmantela!”. Digamos basta às “necessidades, preitos, juramentos – saltos, vertigens, surtos, lançamentos…”.

Vemos o “ser desnudo”, múltiplo, incoerente a refletir sobre sua existência, abandonado nesse “mistério de avançar sozinho”.

Um brinde então à incoerência humana…

Através dessas portas não transpostas nos atinge a luz da imanência – aguda.

Eis o processo de desconstrução possível, o (desa)sossego atingido, essa “coisa simples, verdadeira, que há de durar, no entanto, a vida inteira.”

Homem, ser-arremesso, que:

Não encontra o propósito que o incumba
E passa assim seu tempo, transtornado,
A pensar no equilíbrio perturbado
De um peso sob o qual, no fim, sucumba.

Somos matéria incógnita – nós – o “capital humano”, os replicantes de “Blade Runner”, fruto de uma robotização, visto serem os replicantes também consumidores a realimentar o ciclo capitalista. Buscamos a notoriedade, mas somos massa de manobra, matéria incógnita.

Não se discute aqui o “salto” camusiano, mas o “salto” cotidiano em busca do que insta e instiga o “errôneo salto”.

Livro que nos diz do caminho, do nosso caminho, nossa relutância – quando críticos – em “avançar para dentro da chuva”, conscientes de estarmos “perdidos em um rastro não perseguido”.

Esse parar e avançar do homem contemporâneo, essa “ansiedade de ver e de saber”, essa busca incessante da superação do limite, esse “disparar-contra mil coisas”.

Não é inócua a batalha da vida. É uma busca inglória, onde nos consumimos em busca de prazer – “combustível de nossa ansiedade – aguado e vão”.

E isso já se observa no poema que nomeia o livro de Renato Suttana, quando o poeta identifica a falsa “Máquina do Mundo”, agora não mais a máquina metafísica drumondiana, mas uma “anti-máquina” – sedutora – a nos polvilhar instantes.

Quando me abriram portas, não passei.
Quando, ao longe, acenando, me chamaram
E a direção da entrada me mostraram,
Foi com orgulho e calma que os tratei.

Quando, sem compreender por que hesitei
Frente aos tesouros que me presentearam,
Finalmente, a sorrir, me deserdaram,
Seguindo o rito de uma antiga lei,

Foi com uma indiferença de mendigo
Que a sagração troquei pelo perigo,
Preferindo os desertos do extravio:

Sem entender eu mesmo – assim ninguém –
O motivo, a razão do meu desdém,
Nem o (se o houve) sentido do desvio.

 

As portas de Suttana se abrem para o efêmero, dizem dos mares, labirintos, nos guiam com a luz-poema por mares, desertos e labirintos. Mostra-nos, e nos faz sentir, a dor de “estar assim de frente para o que é sem resposta e é, no entanto, observável”.

São poemas-galope, de ritmo angustiante, tradução do que nos tornamos. Sim, mais uma vez a poesia nos traduz. Homens “moldados” pelo deus-mercado a nos dizer “Vai mais longe. Não para. Precipita-se. Atira-se por cima – do impossível…”.

 

Velocidade insólita – imprevista –
De tudo quanto a vida movimenta:
Da esperança de ter, que nos alenta,
Do desejo de ver, que nos despista.

Vertigem que nos alça e nos orienta
Em direção a um nada de conquista,
Pulsando em nós (até que a asa desista),
Como um sonho de altura, na tormenta.

Pressa de achar sentido e dar resposta,
No escuro do intervalo, a uma questão
Que é no entanto ou equívoca ou suposta;

Mas que nos leva adiante e nos madura,
Nos instiga entre as chuvas, no verão,
Nos faz querer a meta – erma e futura.

 

Suttana é um “especialista em desistência”.

 

sabe que na metade, em plena urgência
de dar um fecho ao plano, ao meditado,
se cansou – e há de estar ali parado,
satisfeito de espera e inconsistência.

 

Diz Ortega e Gasset que “la conciencia de cada uno de nosostros, em efecto, es uma sociedad de personas; em mi viven vários yos, y hasta los yo de aquellos com quienes vivo.”

Se considerarmos que quando morremos persiste a Vontade, mas parte um Universo representado pelos olhos de nossa consciência; e se somos: “eu e nossa circunstância”, quando morremos morre um pouco da consciência da sociedade, pois nosso olhar, nossa forma particular de olhar, não deixa de sofrer algum olhar que seja o olhar do poeta; uma forma particular de “ver” contida em um universo de olhares “medianos”.

E este livro é uma visão critica da contemporaneidade sob o formato clássico do soneto. É esse o “truque” do poeta: a retomada da forma clássica.

Realizei o meu truque em plena claridade
Diante da multidão que não veio me ver,
Mas por acaso ali parou, a se entreter,
Num limite exterior da infinita cidade.

Movidos (reparei) pela curiosidade,
Uma pergunta me fizeram de ir e ser,
A que eu não soube – o equilibrista – responder,
Pois me ocupava um pensamento da verdade.

Como o espetáculo durasse pobre e morno,
Pediram-me que desse um salto diferente,
De modo a divertir com uma pirueta a gente. –

E eu, com um gesto teatral de excelência e retorno,
Da cartola tirei um pombo, um coelho, um lenço –
Que eram migalhas só do meu denodo imenso.

 

Não gosta o leitor da forma, da métrica? Que pena! Considera-a anacrônica? Um enfado? Sugiro que se desfaça deste ranço, deste preconceito, e reflita sobre o que significaria a retomada das formas clássicas para discutir a questão do nosso tempo.

E nada melhor do que começar pela leitura deste “Quando me abriram as portas”, do poeta Renato Suttana, lançado pela Editora Mondrongo. Certamente, um dos melhores livros de poemas publicados nos últimos anos em nosso país.

 

Jorge Elias Neto é capixaba, poeta, ensaísta e médico. Autor de “Verdes versos” (Flor&Cultura – 2007), “Rascunhos do absurdo” (Flor&Cultura – 2010), “Os ossos da baleia” (SECULT – 2012), “Glacial” (Ed. Patuá – 2014), “Breve dicionário (poético) do  boxe” (Ed. Patuá – 2015) e “Cabotagem” (Ed. Mondrongo – 2016). Publica regularmente na Revista Diversos Afins, Mallarmargens, Revista Germina de Literatura e Revista Zunai.

 

 

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114ª Leva - 08/2016 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Lima Trindade

 

Com amplo reconhecimento da crítica especializada, Sidney Rocha é hoje um dos mais expressivos escritores em atividade no Brasil. Ganhou diversos (e importantes) prêmios literários, teve parte de seus livros traduzidos para o espanhol e para o inglês, figurou em uma antologia temática de contos da prestigiada Granta e foi um dos 21 autores que Nelson de Oliveira apostou como os mais representativos surgidos no início deste século em nosso país.

Sua prosa é aguda. O seu campo de interesses não possui limites, restrição de assuntos. É uma prosa que busca representar e apresentar a vida em toda a sua pulsação, toda a sua força. Tornou-se um lugar-comum elogiar o tratamento que ele dá à linguagem. Porém, o seu truque, a sua habilidade maior, como convém aos bons artesãos, está justamente em fazer que a distância entre os signos e os significados seja esquecida. Rocha jamais subestima a inteligência e a capacidade de imaginação de seus leitores. Sua generosidade está na oferta de uma leitura onde prazer e reflexão não precisam vir dissociados.

Às vésperas de lançar Guerra de Ninguém, seu terceiro livro de contos, após os aclamados Matriuska (2009) e O destino das metáforas (2011, vencedor do prêmio Jabuti), o autor faz uma pausa nas comemorações do seu aniversário de 51 anos e, do quarto de um hotel em Maceió, ao lado de sua querida filha, a cineasta Anny Stone, concedeu esta entrevista exclusiva para a Diversos Afins, onde fala do começo de sua carreira de escritor, do amor pela poesia, de problemas culturais e políticos brasileiros, ambições artísticas e do que se trata o seu novo livro.

 

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Sidney Rocha / Foto: Anny Stone

 

DA – Você começou sua trajetória literária com um livro de poemas, Mais que o rei, publicado em 1991. O título é muito provocativo (principalmente ao lembrarmos do “Vou-me embora pra Pasárgada” do Bandeira). Como você avalia esse seu primeiro passo, decorridos mais de 25 anos?

SIDNEY ROCHA – Sua boa pergunta tem uma ótima resposta no Galáxias, de Haroldo de Campos, que escreveu tão bem sobre começos, justo no começo daquele livro: “e começo aqui e meço aqui este começo e recomeço e remeço e arremesso / e aqui me meço quando se vive sob a espécie da viagem o que importa / não é a viagem mas o começo da por isso meço por isso começo escrever / mil páginas escrever milumapáginas para acabar com a escritura para / começar com a escritura para acabarcomeçar com a escritura por isso / recomeço por isso arremeço por isso teço escrever sobre escrever é / o futuro do escrever sobrescrevo sobrescravo em milumanoitesmiluma- / páginas ou uma página em uma noite que é o mesmo noites e páginas / mesmam ensimesmam onde o fim é o começo onde escrever sobre o escrever / é não escrever sobre não escrever e por isso começo descomeço pelo / descomêço desconheço e me teço um livro onde tudo seja fortuito e”…

Acho que todos os autores que nasceram depois do advento do modernismo no Brasil começaram a publicar com aquela ambição de escrever mil páginas para acabar com a escritura, e de que sua obra tenha múltiplos significados. É uma meta ambiciosa e, para ser pleonástico, nada modesta, especialmente se tal começo é pela poesia. Acho que na minha trajetória venho cumprindo, com irônica humildade, aquilo que afirmou William Faulkner: “Talvez todos os romancistas queiram primeiro escrever poesia, e depois descubram que não podem e tentam o conto, que é a forma mais exigente depois da poesia. E depois de fracassar no conto, só então um romancista se dedica a escrever romances.”.

Tenho tentado e mantido a tentativa nos três gêneros, o que mostra algo óbvio demais: o de que sou menos que o rei Faulkner e outros reis. Mas você me pede para avaliar o primeiro passo, depois de tanto tempo, e respondo: foi um começo válido, ou um dos tantos começos que faz um escritor antes da primeira ousadia de fato, que é publicar. A avaliação deve ser não somente literária, mas editorial. Naquela época era muito mais difícil publicar do que agora, e a autocrítica, embora não tão grande, era maior do que agora para a maioria dos autores. A facilidade de meios praticamente nos converteu a todos em escritores, e muitos e muitos se desobrigam de ler, que é o primeiro dever, o primeiro prazer de um escritor autêntico.

DA – Há uma incidência enorme de grandes contistas e romancistas que começaram publicando poesia e, depois do primeiro livro, nunca mais voltaram a ela. Você ainda cultua o gênero, escreve sistematicamente e pensa em sua publicação?

SIDNEY ROCHA – Sim, continuo a escrever poesia. Aqueles do primeiro livro eram poemas imaturos. Os que agora escrevo tenho a ilusão de que sejam mais maduros, e, como um paradoxo, a poesia somente conserva a força se conseguimos aquele vigor inocente da juventude, e, como você citou Manuel Bandeira, na primeira pergunta, termino com os versos dele esta resposta: “Amor total e falho… Puro e impuro…/ Amor de velho adolescente…/ E tão Sabendo a cinza e a pêssego maduro…”

DA – Acompanha a produção dos poetas contemporâneos? Acha relevante esses trabalhos? Atravessamos um bom momento criativo?

SIDNEY ROCHA – Acompanho mais os romancistas, contistas e ensaístas contemporâneos do que os poetas. Quanto a se atravessamos ou não um bom momento criativo, é uma pergunta muito difícil de ser respondida, pois, como nos falta a perspectiva, não é possível que sejamos justos com os contemporâneos, e por isto mesmo comentamos tantas vezes os nossos colegas de modo leviano. Não quero ser apressado na opinião. Não existe um termômetro para avaliar a criatividade, e ainda menos de todo um tempo. Além do mais, publica-se tanto hoje em dia que seria impraticável, mesmo para o leitor mais voraz de poesia, acompanhar o que sai e opinar com justiça.

DA – Sua prosa, por meio de uma sintaxe e evocação de imagens pouco convencionais, costuma apresentar um alto teor de tensão no trabalho de linguagem, exigindo leitura atenta e reflexiva. Essas características não restringem seu alcance? Ou são os autores que subestimam a capacidade dos leitores?

SIDNEY ROCHA – Nunca escrevo pensando em coisas assim, se o texto é mais tenso ou menos tenso, ou mais ou menos denso, nem sobre o que pensará o leitor. É muito interessante e inteligente o que você diz. Mas refletir sobre o alcance da obra e os seus leitores é tarefa mais dos editores e críticos do que dos escritores.

DA – O predomínio da literatura de entretenimento nas gôndolas das livrarias e listas de “mais vendidos” são indicativos da mudança do perfil do leitor brasileiro em relação ao das últimas décadas do século XX?

SIDNEY ROCHA – A mudança de perfil é mundial, não especial no Brasil. O Brasil, como por sinal em praticamente tudo, faz nada mais que seguir a onda global. Mas pode-se dizer que talvez tenhamos contribuído para o início dessa voga, quando exportamos autores como Paulo Coelho. Na atualidade, dá-se a exacerbação do que já vinha antes como tendência.

DA – A política vigente de “democratização” do fazer artístico, que nega a especialização, a profissionalização, e desqualifica a técnica em nome da simples expressão, defendendo que todos são escritores, que todos podem e devem publicar seus livros, independente da relevância do que tenham a dizer, não acaba por se constituir num grave problema de diluição e enfraquecimento da cultura?

SIDNEY ROCHA – Essa é uma questão muito complexa. Não acho que o problema seja a democratização ou a democracia, e sim justamente o contrário. Do baixo nível da educação, do baixo nível dos meios de comunicação. Nunca houve tantos escritores, nunca houve tão poucos escritores, pode ser a máxima paradoxal e óbvia. O excesso de publicação não representa uma vitalidade, e sim um enfraquecimento. Não é pela superabundância de livros que alcançamos nem a quantidade nem a qualidade de leitores. Por outro lado, a cultura não é feita somente da chamada Alta Cultura, e sim de todos os meios de que dispõe o homem. Não cabe a um escritor ser juiz – por sinal, que profissão detestável a de juiz – do seu tempo nem da sua cultura, nem dizer o que vale a pena ou não ser fruído. Mas não devemos nos rebaixar ao mainstream.

DA – Sofia e Matriuska trazem questões em torno da identidade feminina, seu universo de representação, simbologias, condições existenciais e, sem sombra de dúvida, as relações de poder e violências que a cercam. Você se identifica como feminista? Se enxerga como autor engajado em causas de interesse social?

SIDNEY ROCHA – Sim, mas os meus livros de ficção não são obras de ativista nem panfletos ou manifestos a favor da causa A ou da causa B, por mais justas que sejam. A ambição do escritor é a da beleza, não a da verdade, da emoção humana, não das discussões políticas e sociais. Em Matriuska e Sofia há personagens de ficção, não mulheres de carne. As mulheres de verdade sofrem muito mais injustiças e são muito mais inspiradoras e dignas de amor, admiração e enlevo que as modestas figuras que há nesses e noutros livros.

DA – Acho o título de O destino das metáforas sensacional. A capa também é um feliz achado. Sei que você, sendo igualmente editor, se envolve em todos os processos criativos dos próprios livros. Seria arriscado dizer que esse volume de contos recusa com virulência todo e qualquer realismo?

SIDNEY ROCHA – Obrigado pelo elogio ao título e à capa, devo os dois a meu editor e amigo Samuel Leon. Você acertou em cheio no que diz respeito à recusa virulenta. Quem busca reinventar a vida em palavras tem de ser capaz, ou pelo menos, tentar tocar a Realidade, não o realismo, que continua a ser a doença infantil da literatura brasileira.

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Sidney Rocha / Foto: Anny Stone

DA – Ministrar oficinas de escrita criativa e leitura crítica se tornou muito comum entre os escritores. Você abriu um curso recentemente, onde estabelece como um dos objetivos principais o exame da “emoção”. Pode detalhar essa história?

SIDNEY ROCHA – O curso foi uma tentativa mais de estimular leitores que formar escritores. Se a tarefa de um escritor é, por excelência, antiacadêmica, é natural que um curso que se dedique a percorrer os caminhos da escrita se concentre na emoção. Se um arquiteto como Le Corbusier falava de máquinas de morar e mover, um escritor move-se pela emoção, mora na emoção, ela é a sua casa, o seu meio de transporte. Foi isso que tentei despertar nos alunos-escritores-leitores no modesto, rápido e introdutório curso. Um exercício de sensibilização, mais do que a carpintaria da escrita.

DA – Em Fernanflor há a afirmação que “todo retrato é um retrato falado – ou uma imagem que fala”. Nesse jogo, em que o objeto se livra do criador e se torna outro por via da linguagem, é onde se encontra a chave da sua libertação: a experiência direta, sem intermediários?

SIDNEY ROCHA – Que pergunta profunda e, portanto, difícil. Creio até que já contém a resposta, tão rica ela é. O fato é que a linguagem tem muitas dimensões e camadas. Mas não é a própria linguagem um meio? E sendo meio, intermediária? Ainda não chegamos àquele estágio reclamado pelo poeta Rimbaud, de uma linguagem de alma para alma. Talvez não haja chaves nem portas, para prosseguir na metáfora que você usou, e não haja também uma experiência direta e sem intermediários, exceto no misticismo, e literatura não é misticismo, embora, para muitos seja uma forma de mistificação.

DA – Nesse caso, sua afirmação caminha no sentido oposto ao dos estruturalistas, que viam a linguagem como fim e nunca meio. O conteúdo para você é tão importante quanto a forma?

SIDNEY ROCHA – A linguagem é meio, é fim, é princípio. A ambição de todo escritor é que a forma e o conteúdo estejam de tal modo em harmonia que o leitor não note que haja diferença entre uma coisa e outra.

DA – A Lutécia de Cristina e Jeroni Fernanflor evocou em mim a lembrança da estranha e lúgubre cidade de Fernanda, esposa de Aureliano Segundo em Cem anos de solidão. Qual o lugar da literatura hispânica sul-americana na construção do seu imaginário? Crê que o realismo mágico esgotou inteiramente suas possibilidades estéticas?

SIDNEY ROCHA – Todas as cidades podem ser lúgubres e estranhas, e uma das artes das boas leituras, como a que você aponta, é estabelecer correlações que nunca ocorreram ao escritor no momento em que escrevia seu livro, pela simples razão de que ainda não ocorreu a influência desse imaginário da literatura hispânica em mim, a realidade da América, sim; algo diferente do realismo, claro, com magia ou não. Coisas como Realismo Mágico e Autoficção são clichês inventados pelos acadêmicos e a mídia apenas para designar práticas tão comuns na narrativa desde que o primeiro não-escritor contou a primeira história.

DA – Guerra de ninguém será o nome do seu próximo livro de contos? Ele fechará uma trilogia ou não apresentará vínculo com os dois antecessores? O tema central seria o desencanto com a falta de perspectivas para um bem comum coletivo, a falta de horizontes políticos?

SIDNEY ROCHA – Sim, será o terceiro livro de um conjunto publicado pela Iluminuras, mas, como os anteriores, o conteúdo não está necessariamente atrelado a horizontes políticos, nem a regiões ou espaços específicos, e nunca faltarão as viúvas das vidas secas para reclamá-los. É um livro sobre seres humanos de qualquer parte. Os nomes das pessoas e das cidades não são nem simbólicos nem pontos de inflexão ou reflexão, apenas a maneira lúdica que tem um escritor de nominar o que não poucas vezes é inominável.

DA – Mas não há um tema, questão ou ideia comum a atravessar os contos?

SIDNEY ROCHA – Escrevi Guerra de Ninguém sonhando que o livro fosse um imenso campo minado.

DA – Essas indefinições de horizonte político e espaço físico também se estendem ao tempo histórico?

SIDNEY ROCHA – São vários tempos e várias histórias. O modo de tratar tudo isso, e também as vidas dos personagens, está longe de qualquer solenidade ou preocupações com ideologias. Ainda que algumas dessas figuras sejam nomeadas e tenham cenas de suas vidas reais identificadas por algum leitor que conheça suas biografias, vivem mesmo é no espaço literário, este é o seu horizonte.

DA – Pode dar uma pista de qual seria esse conflito sem combatentes insinuado no livro, o que os leitores podem esperar de você?

SIDNEY ROCHA – Os combates são os cotidianos, os dos sonhos de uns, as desilusões de outros, e, como em todas as guerras, os limites, os extremos, as derrotas estão em questão.

 

Lima Trindade é autor de “Todo Sol mais o Espírito Santo” (contos, 2005), “Supermercado da Solidão” (novela, 2007) e, entre outros, “Aceitaria tudo” (contos, 2015). Foi editor da revista eletrônica Verbo21 por mais de quinze anos e é mestre em teoria da literatura pela UFBA.

 

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114ª Leva - 08/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Cândido Rolim

 

milton-boeira
Foto: Milton Boeira

 

FIBRA

 

Arranca do corpo a
camisa listrada levemente
defumada de suor e salga
Nas ranhuras da pedra
água e detritos de um
sabão de cor azul –
tempo inestimável
Até prender-se à grade
da janela deixando que
a gravidade e o vento
refaçam esse afinco: arrancar
fio por
fio
a memória dura de esvair-se

 

 

***

 

 

ESTE CAMINHO

 

este caminho
ninguém sabe onde
começa só
nós – suspensos – entre
um pressentimento e
outro

 

 
***

 

 

Desculpe, but

 

Desculpe, mas pertenço a um mundo desvirtuado
Também não me sinto moralmente apto a
tirar da experiência um lema
Desculpe, mas minha formação musical é promíscua
Desculpe, infelizmente essa metáfora não me atinge
Obrigado, mas não vivo de ênfase
Desculpe, não planejo dizimar a ideia contrária
Desculpe, mas não concluí a tarefa com êxito

 

 
***

 

 

A RAZÃO PERIFÉRICA

 

Esses só
vistos quando e
onde in
visíveis

Esses ausentes
estofos da
razão que os
alveja

Esses que
por motivos bem
diferentes
nascem

 

 

***

 

 

FICHÁRIO

 

Aquela vida que não
serve de presente nem traz uma
lição ou clareza de propósito.
Sem um proceder moralmente aproveitável lições
virtudes adquiridas.
Aquela vida sem fato
digno de nota.
Aquela
vida.

 

 

***

 

 

Essa leveza

 
Tipo peso se
ausenta
da cama
e………….. é
percebida: o corpo desloca
a transparência

 

Cândido Rolim nasceu na região do Cariri, sul do Ceará. Morou em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Porto Alegre. Atualmente trabalha em Fortaleza. Tem poemas, resenhas e ensaios publicados na internet, em revistas e jornais (clareiranaselva, cronópios, germinaliteratura, corsário, sibila, jornaldepoesia, Continente Sul, etc). Publicou os livros “Arauto” (Edições Dubolso, Sabará/MG, 1988), “Exemplos Alados” (Letra e Música, Fortaleza/CE, 1997) e “Pedra Habitada” (AGE, Porto Alegre, 2002), “Camisa qual” (Èblis, Porto Alegre, 2010). E-mail: candidorolim@hotmail.com

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114ª Leva - 08/2016 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

As dexistências em Victor Prado

Por Lisa Alves

 

capa-bastardo

 

”Bastardo” é uma obra poética desmembrada em três capítulos, “Voçoroca”, “Passeio” e “Caleidoscópio”, e possui cerca de 57 poemas dentro de 124 páginas. O livro foi lançado recentemente pela Editora Urutau (que já chama atenção pelo design e qualidade de seus livros e a acertada escalação do corpo de autores). Victor Prado (1995) reside em Franca/SP, publicou dois livretos digitais Mamute (2014) e Onde Eu Poderia Estar (2016). Tem poemas publicados na revista Mallarmargens, Diversos Afins, Enfermaria 6, Jornal RelevO, entre outras revistas e sites literários.

 

“Mas dizer sempre é pior do que ouvir.”

 

Clarões, pequenas interrupções, movimentos e a linguagem arriscando explicar os desentendimentos que nos cercam em torno da palavra. Tenho a sensação que estou assistindo um filme, mas é um poema, o primeiro, talvez o principal – aquele que batizou a obra de Bastardo“.  Lembrei de Blanchot em “Espaço literário”, quando diz que ler não é obter comunicação da obra e sim fazer com que a obra se comunique. Sou leitora, escritora e não tenho condições de criticar qualquer obra literária, mas posso comunicá-la tal como ela se comunicou comigo. Mas advirto: a obra poética de Victor Prado não é explicável, não é uma composição química que podemos separar os elementos envolvidos. Sendo assim, é preciso ler “Bastardo” e degustar uma, duas, três ou infinitas vezes. Vamos lá?

Um dos pontos que mais me atraiu durante a leitura do livro foi a reprodução de títulos seguidos por números, indicando uma sequência ou uma série – confesso que inicialmente fiquei incomodada, afinal de contas o 5 não pode vir antes do 2. “Não mesmo? Quem disse? Quem determinou?” – me questiono. Então lembro à leitora (aqui dentro) que na arte a ordem temporal linear é inútil (ou no mínimo desnecessária) e então afogo meu suposto incômodo e volto a imergir na obra de Victor. Lembrando que vários outros poemas de “Bastardo” seguem também a sequência numérica, tal como os poemas “Arquitetura de Percepção”, “Sábado”, “Domingo”, “Confissão” e “Mal-Estar”, porém comentarei apenas duas séries, pois não pretendo dissecar a obra de ninguém (não acredito em roteiro para leitor), tal como não desejo que façam com a minha, é irresponsável e pretensioso. Acredito que cada leitor é capaz de procurar o próprio caminho durante a comunicação com uma obra (independente do gênero). Sendo assim, destacarei então as sequências “Não-Sei-Onde” e “Domingo”.

A série “Não-Sei-Onde” me trouxe a percepção de uma constante fragilidade na voz do eu poético – uma voz brotada das profundezas, uma voz que assessorou na montagem de um mosaico recheado de quedas, naufrágios e soterramentos. O primeiro poema da série se encontra no primeiro capítulo, “Voçoroca”, é intitulado por “Não-Sei-Onde 5″ e discorre acerca do desmoronamento do ser ao lidar com sentimentos (próprios ou de outros):

(…)

Tua saudade me engole
e eu murcho e sou engolido

 

Não saindo para muito longe, no mesmo capítulo, encontro “Não-Sei-Onde” (agora sem número), que versa o autoconhecimento (nem sempre bem-sucedido) e fatidicamente tem o afogamento como resultado. Paro para digerir o poema e percebo o amplo dedo na ferida que Victor decidiu empregar. De fato, quando nos analisamos de forma profunda não somos capazes (no primeiro minuto) de mergulhar e ter a dimensão da profundidade que estamos nos lançando e tampouco temos a ideia das armadilhas que nos esperam. Mergulhar pode ser um caminho sem volta:

(…)

Mergulho
e desapareço

 

Já lá no segundo capítulo, “Passeio”, dou de cara novamente com outro “Não-Sei-Onde 2” – mais uma vez a série aborda o encobrimento, a ocultação, só que, diferente do primeiro capítulo, o poema atravessa antes pelos escombros materiais do que psicológicos. Victor nos lembra de Mariana – a cidade soterrada pela lama (a lama não metafórica “é a lama, é a lama”) e a lama não para por aqui, outra vez ressurge no poema “Não-Sei-Onde 4“:

(…)

De outros mangues
e critério
e achismos
Me afundo nesta lama
de não-sei-o-quê.

 

E a série é finalizada no capítulo com “Não-Sei-Onde 3”:

(…)

Dexistimos em períodos iguais
Rexistimos com frequências diferentes.

 

Na série “Domingo”, há dois grandes poemas, duas pérolas comoventes e que convidam o leitor a desvestir da própria carne e se lançar no outro, no diferente, no estrangeiro. Leiam os dois poemas na íntegra:

Domingo (cap. Voçoroca, pág. 37):

 

Entro no mercado
e vou ao açougue
E lá está ele:
um japonês-brasileiro
E aquele rosto
me lembra outro mundo

/

me bate uma vontade
de ir pro Japão
de abraçar o japonês
De deixar a fila
sair do mercado
de recomeçar tudo
em outro lugar
em outro tempo
de novo.

 

Domingo 2 (cap. Passeio, pág. 60):

 

O japonês vai embora,
continuo na fila
Um senhor de idade
fura fila e conversa
com o homem na minha frente
Eles sorriem
eu sorrio junto
como se fizesse parte da conversa
O senhor pesa suas batatas
e vai embora
(a fila aumenta)
Eu sou o próximo.

 

“Bastardo” de Victor Prado é um convite poético para um quebra-cabeça sem figura definida. Quer sentir? Então siga além e não se deixe levar apenas por minhas limitadas percepções.

 

Lisa Alves nasceu em 1981, é mineira (Araxá/MG) e radicada em Brasília. É curadora da revista Mallarmargens. A autora tem textos publicados em diversas revistas e páginas literárias (nacionais/internacionais), e poemas publicados em sete antologias lançadas no Brasil, Argentina e País Basco. Lançou em agosto de 2015 seu primeiro livro de poesia, Arame Farpado, pela editora carioca Lug em parceria com o Coletivo Púcaro.

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114ª Leva - 08/2016 Destaques Olhares

Olhares

As inexplicáveis visões da rua

 Por Fabrício Brandão

 

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Foto: Milton Boeira

Um simples movimento para além de nossos domínios supostamente protegidos e muita coisa já parece diferente. E tal transição não é feita apenas de mudanças do ponto de vista físico, mas essencialmente de alterações de percepção, algo que habita o campo abstrato da vida.

Estar na rua é, para muitos, um necessário exercício de libertação. Mas aqui não falemos de um conceito encerrado apenas nas infindas possibilidades de um ir e vir, o que nos apresentaria de imediato uma noção mais óbvia de liberdade. Pensemos naquilo que nos aguarda quando entrecruzamos nossas experiências com as de tantas outras pessoas, as quais automática, rotineira ou despercebidamente também constroem o mosaico complexo das cidades.

Bem sabemos que o concreto e suas múltiplas acepções arquitetônicas são uma espécie de lado aparente das coisas, quiçá dos sentimentos humanos. No entanto, é percorrendo alguns sinais deixados pelos ímpetos pretensamente civilizatórios que conseguimos entender um pouco que tipo de gente empresta seus tons à dinâmica de ruas, avenidas, esquinas, moradas, pontes, torres, viadutos, catedrais e arranha-céus.

Há quem nos permita saborear a experiência visual dos lugares numa atitude ao mesmo tempo contemplativa e densa. É o caso do fotógrafo Milton Boeira, artista que estabelece uma especial maneira de mergulhar no universo urbano. Cada apresentação dos espaços contida nas lentes dele faz com que nos sintamos abraçados pela poética emanada de um vasto tempo, personagem que se desloca ditando o ritmo da existência.

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Foto: Milton Boeira

Depois de promover um mergulho de anos à caça de imagens urbanas que melhor definissem sua procura, Milton chega num resultado ao qual batizou por “Metrópole”, projeto que lhe rendeu duas exposições individuais. O saldo dessa busca é um verdadeiro acervo de sensações, seja na forma como retrata pessoas e lugares, seja no modo como extrai do todo observado um sentido de pertencimento.

É justamente por se sentir parte integrante do espaço urbano captado que Milton Boeira faz de sua arte um espelho de vivência. Em lugar de observar a tudo com estranhamento e enaltecer distanciamentos proporcionados pela alteridade, coloca-se como um ser componente do mundo por suas lentes apresentado. Tal sentimento é tão amplo que o artista nos confessa: “Me sinto parte da rua, da calçada, da arquitetura e principalmente das pessoas”.

Nascido no Rio Grande do Sul, Milton atualmente reside em Curitiba, cidade que lhe possibilitou estudar fotografia como arte. Apropriando-se de um conceito denominado Pós-Fotografia, além de uma marcante influência das Artes Gráficas, aponta como norteadoras do seu trabalho de construção visual temáticas ligadas a pessoas, arquitetura, natureza urbana, signos, cultura, dentre outras.

Se há uma contraposição habitual entre interno e externo, duas esferas de vivência aparentemente diferentes, a arte de Milton Boeira parece ignorá-la. É como se fazer parte do mundo fosse o entendimento de uma coisa só: visitar e sentir paisagens urbanas sem perder dessa experiência o valor dos instantes, o poder dos deslocamentos imateriais.

Milton Boeira
Foto: Milton Boeira

 

*As fotos de Milton Boeira fazem parte da galeria e dos textos da 114ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.