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112ª Leva - 06/2016 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

A loucura nossa de cada dia

Por Neuzamaria Kerner

 

Capa - A loucura dos outros

 

Antes de dizer qualquer coisa, o título que uso nessa resenha de “A Loucura dos Outros”, estonteante livro de contos de Nara Vidal, é importante porque, na própria palavra que sugere insanidade, encontramos a “cura” das paixões que desarranjam a alma. Mas como viver sem esse desarranjo, ser feliz no meio de um mundo tão louco?  Será que a loucura existe somente nos outros ou é vista apenas com nossos olhos cheios de razão sempre a nosso favor?

O drama feminino percorre todos os contos vividos por 21 personagens: Ifigênia, Marta, Ana Rosa, Vanessa, Cecília, Adriana, Maria Dulce, Selma, Lúcia, Amanda, Ana, Marelena, Rita, Olívia, Sílvia, Flávia, Érica, Regiane, Débora, Miriam, Íris. Todas elas envolvidas em dramas que lembram as tragédias gregas, mas, ao mesmo tempo, sendo difícil classificar cada conto dentro de correntes literárias estudadas nas escolas porque há um pouco de tudo. O subjetivismo com sua falta de clareza do movimento simbolista; a prosa realista com seu caráter ideológico onde são discutidos problemas sociais (especificamente num ambiente restrito do universo feminino), quando a autora explora, sem nenhuma hipocrisia, sem pudores e numa linguagem bem clara focando sexualidade, a exploração, a infelicidade, a prostituição, o incesto, a insatisfação da figura feminina atemporal.

Se poderia dizer que são contos de escola naturalista pela forma como a palavra é usada e as ações das personagens com suas histórias tão chocantes que deixam o leitor com os dentes travando e rangendo ao mesmo tempo. No entanto, se poderia dizer que é uma prosa com características existencialistas bem marcantes quando é mostrado o ser humano com suas circunstâncias subjetivas, com sua ânsia de liberdade, mas ao mesmo tempo aprisionado no meio em que vive.

Acredito, porém, que qualquer tentativa de classificação seria desnecessária porque a autora certamente não esteve preocupada com isso enquanto escrevia sobre a alma nua e dolorida da mulher.

Não foi à toa que Nara Vidal abriu o livro, tendo como epígrafe um poema de Silvia Plath – Canção de amor da jovem louca – já que os contos tratam da loucura encoberta pelos cílios de suas personagens. Depressivas, algumas delas cometem suicídio por não suportarem o peso da vida, assim como a poetisa que termina seu texto com os versos abaixo que sinalizavam sua depressão e suicídio:

(…)
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.
Imaginei que voltarias como prometeste
Envelheço, porém, e esqueço-me do teu nome.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

 

Interessante também observar que a contista dedica o livro a Ismália. Seria uma homenagem e referência ao poema de Alphonsus de Guimaraens? Certamente. A loucura, o miolo da loucura está bem presente. Vejam:

 

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…

E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…

 

O desfile das personagens se inicia com Ifigênia, num conto dolorido e surreal, a mulher que perdeu a cabeça (literalmente) por amor ao palhaço Vareta. Em seguida, vem Ana Rosa, conto com um depoimento estarrecedor de um traficante assassino, seu marido, que a amava loucamente. E Cecília? Não conseguia mais olhar para o marido. Será que se suicidou no metrô? Nara Vidal brinca com a imaginação do leitor, deixando-o na incerteza. Maria Dulce, nome doce, coitada – a sem coração – deixa cair o filhinho de dois meses, talvez por não suportar que ele viesse a passar pelas mazelas da vida com a coragem necessária. Lúcia, a que fazia queijo de cabras, depois de a fabriqueta ser fechada o marido fica desempregado e não consegue mais ver as estrelas que tanto apreciava com a mulher. Amanda sofria de baixa autoestima e era espancada pelo marido e ainda achava que ele tinha razão. Medo? Vergonha de ter um casamento falido? O que leva uma mulher a sofrer esse tipo de maltrato e ainda ser grata pela comida que o marido bota na mesa? Entre outras comoventes personagens, trago aqui Marelena, a garotinha que limpava a bunda compulsivamente até se ferir. Transtorno obsessivo-compulsivo. O que teria levado a garotinha a adquirir essa doença? Meio em que vive? Abuso sexual? A autora sacrifica o leitor não deixando claro o porquê… é preciso uma ginástica mental para descobrir. Negligência dos pais? O que houve ali?

É interessante conferir a vida das outras personagens para tentar entender suas loucuras. Não se fala aqui da loucura sobre a qual Aristófanes designava na Idade Média. Algo até como divino. “Enlouquecer é ser submetido à angústia e ficar prisioneiro do universo do não sentido, em que nossa linguagem fica aquém da possibilidade de interpretar o que experimentamos” (Birman, 1983). Em todos os contos a vida dessas mulheres anda de mãos dadas com a “loucura”, a angústia, a morte, mesmo que ela não mate a personagem de morte matada ou morte morrida ou, quem sabe, a morte de quem continua vivo.

Creio que a loucura tratada neste denso livro de contos é a insensatez, o desencontro da coerência com a incoerência de pessoas que correm sem saber por que, para onde a fim de encontrar não sei o quê. Talvez essa loucura de que fala a autora seja a do miolo mole mesmo.

Em verdade é a loucura que nos faz viver felizes, lembrando Erasmo de Rotterdam em seu livro Elogio da Loucura, escrito em 1508. Assim como a loucura é a personagem de Erasmo, ela também se reinventa nos contos de Nara Vidal, mostrando quão hipócritas somos de não termos coragem de aceitar que os loucos existem para chamar os sãos à razão; mostrando que o desmiolamento alheio, em seus contos do livro “A Loucura dos Outros”, pode ser aceito e criticado, mas não as nossas  loucuras nossas de cada dia, principalmente no universo feminino. Nesse universo, há que se ser louco para suportar o peso da razão e encontrar um pouco de felicidade.

De repente, encontramos uma cura na Loucura das personagens da autora. Vejamos!

Neuzamaria Kerner, baiana de Salvador, é professora e escritora. Tem publicados os livros: “Fragmentos de Cristal”, “Eu Bebi a Lua”, “A Presença do Mar na Prosa Grapiúna”, entre outras publicações em revistas literárias. Seu mais recente rebento poético é “O Livro-Arbítrio das Evas – Dentro e Fora do Jardim” (Ed. Editus – 2014).

 

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112ª Leva - 06/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Lívia Natália

 

Patrick Arley
Foto: Patrick Arley

 

Eu nadaria no teu suor

 

e seria sereia encantada.
Eu, montada no lombo do seu grosso navio,
meu Odisseu,
nada em ti cessaria de querer,
nem tuas mãos atadas.

Eu cantaria macio,
com a carne da minha entrega
uma canção de fêmea na sua orelha
e das águas de teu suor geminariam insutilezas.

Na deriva de um quarto enorme,
navegaríamos a cama pequena.
Enquanto os lençóis, de pura onda,
Imitam o tecido das estrelas.

Sem rota, bêbados de maresia
nos acharíamos pelo cheiro
no faro puro de que é feito o desejo.
Eu cantaria esta canção antiga,
encantadeira,
enquanto destroços de sua boca caminhariam
……….pelo meu corpo
tangendo novos naufrágios.

 

 
***

 

 

Confissão

 

Tenho medo deste meu coração de Água.
Há nele tanto peixe ligeiro,
Miuçalha de ondas por cima.
Tenho medo, por que as ondas param,
E eu mato, sem medo, o ligeiro dos peixes
Devorando suas guelras.

Tenho medo deste meu coração de Água
Que molda pedras macias.
Temo pelas pedras que moram nele,
Por que sei que viro lâmina afiada
Que fere a pedra.

Tenho medo pelas plantas pequenas que se trançam nas bordas,
Pelos peixes famintos que atravessam minha pele
Até pelas oferendas que colocam a meus pés,
Eu temo.

Temo por que sou rio, e meu caminho é desaguar.
Penso nas embarcações que me atravessam,
No pescador todo feito de peixes
que eu conquistei sem nem cantar
Penso em virar seu barco no meu meio mais profundo
Lacerar sua pele de homem, com meus dentes de nada,
Dar a ele a respiração de afogado, que só eu sei dar
E seguir, andando sobre meu próprio corpo
Com os meus olhos prenhes de mar.

 

 

***

 

 

Desamparo

 

Os filhos são feitos de partir
e toda casa é feita oca para sua ausência,
e grande, para que se percam

Parido, o útero silencia,
implode,
e das constelações que abrigou enorme,
nada vive que tenha sido estrela.

 

 

***

 

 

Ausência

 

Como se tece o amor, este manto fino?
Que fazer dos dedos feridos pelo gesto repetido de amar?
Quarenta dias acordaram para o vazio,
quarenta noites abrigaram silêncios.
Nenhum barco atacava, nenhum trazia você.

Sua alma dura

Meus dedos finos, de carne e sangue vivos
Os olhos secos: lágrimas impossíveis.
Que fazer do amor, deste sacrifício,
desta faca pura lâmina que morde minha carne?

 

 

***

 

 

Antes que chova
(Último poema)

 

Antes que ele venha eu já sou feliz.
Se ele vem às três da tarde,
eu já amanheço iluminada
pelo por vir do tempo,
e as horas caminham languidas enquanto eu me banho,
perfumo e me preparo
para sua chegada.

Ainda antes que ele chegue
Meu corpo está calmo e prenhe de sua presença.
E quando ele chega, eu já estou
Luminosa pelo fim da espera.

Antes que ele chegue eu já sou mulher,
Sou inteira e nada me aparta de mim.
Ele a mim se acrescenta,
onde nada falta.
E este excesso de aço e negrume,
estes brancos que se desenham
em barbas no seu rosto
esta boca de libélula nas minhas madrugadas
a mim se somam.

E apenas por que sou inteira
ele vem completar-me ali,
onde nada falta.
E o afeto que tange nossas almas
nos emancipa e dilata
como se o amor pudesse

 

 
***

 

 

Insurreição

 

seria mais fácil não amar os pessegueiros macios
e nada sorver do seu perfume,
mas os meus dentes querem a carne do seu corpo,
minha língua deseja lamber do seu sumo.

O certo seria plantar a semente e esperar,
dos laços e nós dos caules finos,
aspergir-se o perfume da fruta vindoura.
mas meu corpo tem pressa
e não respeita os relógios que inventam o tempo.

Minha natureza é temporã.
Eu sou das fêmeas que vão!
Ficar é para quem tem raízes,
ceder é para quem deseja morada: eu sou o desabrigo.
quero a fruta furtada do pé.
comer seu gosto ainda verde,
morder suas entranhas ainda duras.

não sou das que esperam,
Sou das que não querem nem chegar,
Sou de partir e, no precipício, ainda ser silenciosa,
inteira.
Sou uma destas mulheres que vão.
ficar é raiz.
partir é imensidão.

 

Lívia Natália, sou baiana de Salvador, poeta e contista. Escrevi o livro de poemas Água Negra, 2010 (Prêmio Banco Capital de Poesia) e Correntezas e outros Estudos Marinhos, 2015.  Sou doutora em Teoria da Literatura e professora do curso de Letras da Universidade Federal da Bahia.

 

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112ª Leva - 06/2016 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

O ano, 1998. O espírito que paira na atmosfera de ações traduz-se numa palavra profundamente motivadora: encantamento. Diante disso, há que se reconhecer que projetos de vida, sobretudo aqueles que são ligados à arte e seus amplos matizes, ganham corpo na medida em que se baseiam num genuíno desejo de transformação. Evidenciar os sentimentos humanos é, sem dúvida alguma, um diferencial de qualquer investida artística. Marcado por tal lema, eis que surge, em Salvador, o Grupo Teatro Griô.

Juntamente com sua parceira na vida e na arte, a atriz Tânia Soares, o também ator Rafael Morais demarca os primeiros passos do que é hoje uma das principais companhias de teatro da Bahia, certamente também do Brasil. Originalmente vindos da arte teatral e circense, Rafael e Tânia voltaram suas atenções para a fabulosa ferramenta da oralidade e seus desdobramentos. Abraçando fundamentalmente o viés da narração de histórias, o Grupo Teatro Griô assinala todo um despertar em torno do que seus fundadores preferem chamar de palavra viva, aquela que une, mobiliza e promove mudanças no ser pensante e pulsante.

Sobretudo depois de testemunhar alguns espetáculos do grupo, os quais mostram o quão viva está a nossa memória diante dos caminhos da expressão oral, veio com vigor o desejo de entrevistar Rafael e saber dele que espécie de sustentáculo mantém acesos tais caminhos da arte. Com suas feições de ator, diretor, professor, Mestre em Artes Cênicas (UFBA), ele fala com a propriedade de quem vive o processo criativo cotidianamente, sem negligenciar seus apelos, chamados e também seus abismos.

Na conversa de agora, fica registrado um breve balanço desses 18 anos de atividade do grupo, através do qual Rafael Morais confessa que ali está também a dinâmica real de sua expressão enquanto ser humano. Suas respostas confirmam que o poder transformador da arte, movimento que se opera principalmente de dentro pra fora, é marcado especialmente pela capacidade de materializar os sonhos.

 

Rafael Morais
Rafael Morais / Foto: arquivo pessoal

 

DA – O Teatro Griô surge como resposta a alguma necessidade em especial?

RAFAEL MORAIS – O surgimento do Teatro Griô não foi algo planejado. Veio de uma necessidade de falar sobre a nossa própria cultura. Na época, estávamos fazendo um trabalho voltado para o circo, para o teatro popular, e fomos realizar algo na Itália e Inglaterra com alguns pesquisadores teatrais e também da área de palhaço. Naquele momento, eu senti uma vontade de criar uma apresentação que falasse das nossas histórias. Logo que chegamos da Europa, fui fazer algumas oficinas a pedido dos professores da Escola de Teatro, e um deles, o querido e saudoso Carlos Petrovich, me convidou para ir a um terreiro de Candomblé em Salvador, o Ilê Axé Opô Afonjá. Fiquei encantado e, logo depois, o mesmo professor nos chamou para fazer um trabalho numa escola municipal de Salvador como pesquisadores do Núcleo de Estudos do Teatro Popular, o NET-POP, da UFBA. Fomos eu e Tânia como pesquisadores bolsistas do CNPq para fazer um trabalho de valorização da cultura oral, das histórias, dos mitos naquela escola a qual me referi e que fica dentro do terreiro. A partir daí, esse universo da tradição foi nos arrebatando. Isso em 1998. Começamos a desenvolver uma metodologia própria para levar essas histórias para as crianças da escola, os professores e também para o pessoal da comunidade, trazendo uma releitura, um universo de transposição dessas narrativas de tradição oral para a cena. Então, encenamos algumas histórias, fizemos cortejos, tentando realizar algo que não fosse o teatro tradicional. Vimos que o que fazíamos naquele momento em termos de teatro não contemplava aquele universo. À medida que íamos fazendo, criamos um jeito nosso de lidar com essas histórias, valorizando a simplicidade, a sinceridade, o contato direto com o público, o envolvimento das pessoas, tudo como se fosse uma festa, um encontro, uma roda de histórias com as pessoas mais velhas, sem tirar o brilho, o encantamento, buscando algo não artificial, mas sim uma palavra viva, que trouxesse essa cultura viva. Acho que foi um encontro mesmo, pois a gente ouviu aquelas histórias e pensou que tinham tudo a ver com o que estávamos querendo, mas nem sabíamos direito o que desejávamos encontrar. Foi a arte de contar histórias.  Percebi que ela contemplava tudo o que buscávamos, um teatro popular, de encontro direto com as pessoas, que valorizasse nossa própria cultura, envolvesse as pessoas e pudesse ir a diferentes espaços. Queria fazer algo que não fosse restrito apenas ao palco italiano. Ir ao encontro do público, nos barracões, escolas, terreiros, praças.

DA – Qual a importância do viés da matriz africana no trabalho de vocês?

RAFAEL MORAIS – Foi desde o início uma grande inspiração. No entanto, o Teatro Griô não se limita às narrativas de tradição oral africanas ou afro-brasileiras. Trabalhamos com a tradição oral que existe no mundo todo em diferentes povos e culturas. Então, narramos histórias da Península Ibérica, da Rússia, Índia, do Oriente, dos árabes. Com a cultura afro-brasileira não poderia ser diferente, pois estamos na Bahia, onde essas histórias, cantigas e narrativas como um todo são predominantes. Ela tem uma importância muito grande por conta até desse contato com o público. A gente trata de histórias do mundo inteiro e temos diversos espetáculos inspirados em histórias de vários lugares. A matriz africana nos inspirou muito. No teatro, já éramos muito ligados a histórias da mitologia grega, nossa formação ocidental. Sempre gostamos de mitologia, e quando nos encontramos com os mitos dos Orixás, por exemplo, foi um encantamento, uma alegria. Acho que pelo encantamento essas histórias nos pegaram. Conseguimos, a partir dessa cultura afro-brasileira, perceber a junção da palavra cantada, essa ligação entre o sagrado, o mítico e o cotidiano. Aprofundando a pesquisa, fomos compreender que existe um mundo vasto de histórias de matriz africana, não somente dos Orixás, mas histórias como os contos de Ananse, a primeira aranha que existiu e que ensinou a arte de contar histórias aos homens. Tem contos muito mirabolantes, epopeias, uma riqueza muito grande do continente africano. Também temos histórias fascinantes em todos os povos, como é o caso dos árabes. Na verdade, a gente, com a cultura afro-brasileira, conseguiu tocar em narrativas que transcendiam as histórias dos irmãos Grimm, os tradicionais contos de fadas. Perceber essa diversidade foi fantástico. E a cultura afro-brasileira teve esse papel de abrir as portas para nós nesse universo da tradição oral.

DA – Há um viciado costume de se olhar a cultura de matriz africana apenas sob um ponto de vista meramente exótico, como se não houvesse um reflexo possível na realidade. O que você acha dessa redução?

RAFAEL MORAIS – Esse não é nosso olhar para com a cultura afro-brasileira. Não tem nada dessa questão do exótico, do que as pessoas chamam de folclórico, de buscar esses elementos que sejam mais histriônicos. A importância dessa cultura é muito grande, ainda mais aqui na Bahia. Mais do que imaginamos, essa cultura é nosso berço de civilização, de humanização e formação. Acho que isso também está muito relacionado à tradição oral, à questão de uma certa importância maior que se dá à palavra escrita como se a oralidade não fosse algo profundo. Acabamos muitas vezes desvalorizando por uma questão cultural, política, ideológica, dessa coisa de achar que tudo o que vem da África não presta ou que vem de um universo menor. Em nossas pesquisas, percebemos isso o tempo inteiro. E vemos o quão equivocada é essa visão de mundo que coloca a tradição oral, as referências africanas como algo menor. Temos alguns avanços acontecendo, algumas leis, como é o caso da Lei 10639 de 2003, que obriga o ensino da cultura afro-brasileira nas escolas. Mas as pessoas às vezes não sabem como fazer. Alguns professores não têm a formação adequada, não sabem como trabalhar isso, pois a vida inteira tiveram uma formação que privilegia o eurocêntrico, desprestigiando tudo o que vem da África. Mas sinto que isso está mudando. No Teatro Griô, fugimos esteticamente desse campo do exótico. Inclusive, fazemos questão de não levar para a cena essa visão de mundo, tanto que não representamos, por exemplo, Orixás em cena, ou seja, mudamos muitas vezes as melodias das canções, trazemos um universo que coloca o ser humano e os sentimentos das histórias em evidência. Essa dramaturgia é construída não para reforçar o exótico. Temos, por exemplo, o espetáculo “Histórias de Mãe Beata” que é bem simples, mas que é uma festa de samba de roda que acontece e as pessoas vão contando histórias, mas em nenhum momento representamos os Orixás em cena. Não vamos ao terreiro e copiamos o que existe ali. É uma atitude também de respeito e de aprofundar essas questões. Acho que é um perigo muito grande você tratar um universo tão rico como algo simplesmente exótico. É um desserviço e um desrespeito, até uma ofensa a toda e qualquer cultura tradicional você se apropriar dela e não devolvê-la como se deveria. Buscamos valorizar a vivência, que é tão rica da cultura afro-brasileira, e a palavra viva, os grandes narradores que temos, não apenas os griôs, mas os akpalôs, que significam fazedores de histórias. Essa palavra viva que toca nos sentimentos humanos, de pessoas de qualquer lugar do mundo. Recentemente, apresentamos em São Paulo cinco espetáculos no Festival Internacional de Narradores, o Boca do Céu, e tinha gente do mundo inteiro que ouviu essas histórias da cultura afro-brasileira e se encantou, pois contamos e essas pessoas se emocionaram não porque acharam engraçado e se envolveram. Procuramos burilar os sentimentos e tratar isso como a gente sente e vive. Muita gente olha os africanos com a questão das cantigas, com essa coisa do feitiço das palavras, do sagrado com uma condição de se assustar porque eles (os africanos) transcendem a culpa, vão para o prazer no sentido do corpo que dança, está vivo e ligado à magia. Aqui no Ocidente parecemos ter perdido essa magia, mas ela está em todos os povos. Se você for ver as histórias dos nórdicos, dos orientais, o tempo inteiro esse universo de magia está presente nelas. As histórias afro-brasileiras encantam porque mantêm ainda viva essa sabedoria que está muitas vezes mais generalista do que específica, valorizando a vivência, a experiência, o momento aqui e agora, as cantigas, os poemas, os orikis. É muito lindo esse universo. Não tem como reduzir ao exótico. Tratamos essas histórias da mesma maneira como tratamos as demais. Reinventamos aquilo para a cena. Acredito que precisamos ter da cultura afro-brasileira essas referências. As histórias que o Teatro Griô acaba levando para pessoas de diferentes lugares têm um papel muito importante de ser mais uma referência. É muito bacana percebermos as crianças afrodescendentes assistindo o espetáculo e se reconhecendo nele a partir das histórias e não da forma em si, transcendendo inclusive a cor da pele. É a história que passa adiante, o universo do imaginário. Então, é uma riqueza e um poder muito maior do que a própria imagem que está se vendo ali. Uma importância muito grande nesse sentido de formação e de educação. A narração de histórias afro-brasileiras tem esse componente de ser civilizatória, das pessoas reconhecerem a cultura como algo que fala diretamente a elas, os sentimentos humanos, os heróis e anti-heróis. As histórias aproximam as pessoas, não as excluem. É a busca da gente se reconhecer enquanto ser pensante, que sente e vive nesse mundo. Além de uma importância grande de formação e educação, vem desmistificar e revelar a luz que existe nessas histórias e que às vezes está por baixo de um véu de exotismo e de ridicularização do outro. A arte de narrar histórias consegue desvelar esses sentimentos, essas imagens e trazer para nossa vivência cotidiana de ser humano que vive e pensa. Temos as particularidades da cultura de cada um, que são importantes enquanto reconhecimento das diferenças, mas no fundo somos feitos de sonhos e sentimentos.

Rafael Morais
Rafael Morais / Foto: arquivo pessoal

DA – O que dizer da oralidade enquanto essa verdadeira mantenedora da memória?

RAFAEL MORAIS – Interessante essa pergunta porque a gente poderia imaginar justamente o contrário, que aquilo que não escrevemos o vento leva, como diz um ditado popular, ou seja, não conseguimos registrar. A tradição oral, inclusive, faz nascer a escrita. E a memória é viva, o tempo inteiro a gente está reinventando, revendo tudo. A tradição oral tem muitas funções e estratégias mnemotécnicas de fazer permanecer essa memória a partir das suas transformações. Temos muito material de tradição oral que se manteve vivo além da escrita. Hoje a gente consegue ver que os contos, mitos, estão aí nas coletâneas de recontos, histórias, em material escrito. Muitas vezes isso tem sido uma possibilidade muito bacana para pesquisadores, artistas e para o próprio povo conhecer essas histórias que transcendem os tempos. Ao mesmo tempo, a tradição oral mantém essa palavra viva, que não está ali só cristalizada, mantém a magia. A magia você encontra no conto que está escrito, mas é bem diverso de você poder ouvir uma história de boca para ouvido. Essa dinâmica da tradição oral tem sua própria força porque é flexível, se transforma, vai mudando com os tempos, com o saber que a gente já construiu há muitos séculos. É como se fosse uma espiral nesse movimento de memória e de passagem dessa tradição. A própria arte de narrar histórias sempre foi essa mantenedora, a trama da história sempre foi passada do mais velho para o mais novo por sucessivas gerações. Se a gente atentar, vamos perceber no dia a dia a quantidade de histórias nas vivências de cada pessoa. Estamos o tempo todo transformando isso. A escrita passou a ser mais um instrumento de interação, mas esse mecanismo de memória continua vivo o tempo inteiro no ser humano. Nós todos somos seres épicos, narrativos, além de lúdicos e pensantes. Por que será que permanece vivo o encantamento no mundo de hoje? Por que é que hoje em diversos ambientes que chegamos há o interesse de pessoas de todas as idades com as histórias de tradição oral? É algo inexplicável. Todo mundo reclama que os meninos ficam muito ligados na internet, televisão, nos joguinhos, mas quando eles estão diante de uma história que está sendo contada é como se reacendesse um mistério na memória dessas crianças. Essas crianças são de todas as idades, pois em alguns espetáculos nossos, às vezes, vêm adultos sozinhos. Nosso público é bem heterogêneo e é bem bacana perceber esse jogo de memória que há na gente, essa necessidade de ouvir essas histórias e depois sair espalhando elas por aí. No Brasil, acontece uma coisa muito interessante. A cultura popular está viva nas cantigas, não somente naquelas de infância, mas também nas cantigas de trabalho, nos mutirões, cirandas, diversos ritmos espalhados pelo país. Aqui na Bahia temos as cantigas de roda de tirar versos. É uma maneira de se preservar através da música. É interessante que as histórias de matriz africana, a maioria delas, se mantiveram preservadas na África por conta de cantigas, mas aqui no Brasil perdemos muito isso, ficou mesmo a trama se passando. A cantiga traz um momento de lembrar a trama inteira da história. No Teatro Griô, gostamos muito de misturar a palavra cantada com a falada, a palavra poesia, a palavra lírica.

DA – A contação de histórias pode ser melhor abrigada no seio da educação formal?

RAFAEL MORAIS – Com certeza. E não apenas com objetivo explícito de ensinar, pois a história, a narrativa de tradição oral transcende a informação e educação, vai além, para o universo do encantamento, do tocar as pessoas. Nesse universo onde tudo acontece pleno, você está o tempo todo aprendendo. Esse aprendizado que vem de uma sessão de histórias é difícil de descrever no sentido mais amplo porque é muito profundo. Além de tudo o que está sendo ensinado a partir da narrativa, a história ensina por si só nessa experiência de arte. As escolas muitas vezes estão preocupadas apenas com um depósito de informações para uma resolução prática que é fazer provas, o que acaba sacrificando todo o ser que está ali para aprender. Aprender não somente no sentido de conhecer, mas de ser mesmo. A história vem para esse campo da convivência, do aprender a instigar, a correr riscos, sonhar, a você perceber o universo do imaginário, que é tão rico, e de fazer isso se desenvolver cada vez mais em alunos de toda e qualquer idade. A narração de histórias pode acompanhar todos os momentos de nossa vida, do nascimento até nossa despedida aqui dessa experiência de vida. O tempo inteiro estamos contando histórias. O bom professor conta histórias a todo tempo, mesmo quando não acha. Um tema bem narrado é o papel de todo professor, aquele que consegue revelar o que não está acessível ao outro ser. Os excelentes professores têm esse domínio da narrativa, da comunicação. Muitas vezes a gente vê a arte sendo usada como um simples instrumento de aprendizado das disciplinas. Precisamos mesmo ter momentos de apreciação estética nas escolas, pois senão ficamos colocando a arte a serviço de determinados conteúdos. Nesse momento, temos um ganho em todos os sentidos, cognitivo, afetivo, interpessoal, imaginário. Precisamos descobrir isso com urgência para dar um pouco mais de frescor à educação. A arte de contar histórias vai num ponto crucial da educação, que é o pensamento crítico, a formação desse ser que é capaz de encontrar seus caminhos. A arte de contar histórias não entrega tudo de bandeja, ela convida você a enveredar nesse caminho de descoberta de si mesmo. O bom contador sabe que não está ensinando, está ali aprendendo junto. É nesse encontro entre narrador e ouvinte que acontece essa magia, que é a arte de narrar histórias. É muito bonito você perceber o aprendizado que surge daí. E, claro, não tem nada a ver com as lições de moral, como acontece muitas vezes num sentido de podar a criança. Na arte de contar, a história passa à frente e as pessoas vão conseguindo fazer suas próprias interpretações sem que alguém precise impor algo, dizendo que é isso ou aquilo.  É um momento de liberdade artística, no qual as histórias podem ser aliadas da educação com alegria, encantamento, ludicidade e plenitude. Para mim, o valor está no próprio encontro da narração, momentos das pessoas poderem ouvir e contar histórias sem se preocupar com os mecanismos didáticos.

DA – Uma coisa bastante interessante no trabalho do Teatro Griô é a multiplicidade de atuações, ou seja, não apenas a encenação dos espetáculos é o foco, mas também desdobramentos variados sob o ponto de vista da formação, das rodas de conversa, intercâmbios, sem falar na mescla de elementos presentes, tais como o clown, música, dança. Como é atuar dentro dessa intenção multifacetada?

RAFAEL MORAIS – É um presente para o artista. Uma oportunidade de não separar as possibilidades criativas de expressão. Temos tudo ali ao mesmo tempo. Você está ali contando a história, mas de forma plena, com movimento. No sentido da formação, ela é muito ampla, de elementos do cômico, do palhaço, do teatro de rua. O aprendizado para o artista com relação ao espaço cênico da rua é fantástico. Essa possibilidade de ter esses elementos técnicos da voz, da interação com o público, da disposição do espaço. O Teatro Griô é realmente um presente para nós que o integramos porque é nossa morada artística, digamos assim. É a possibilidade de você conviver com tudo aquilo que acredita. É uma fonte que nunca seca. Parece que o tempo inteiro estamos descobrindo coisas novas, pesquisando. É uma obra muito aberta que vamos construindo no contato com o público. Ao mesmo tempo em que é um presente, é também um desafio você lidar com essa metodologia do Teatro Griô, tanto que vira e mexe a gente faz audição, algumas pessoas ingressam e temos uma maneira própria de trabalhar que acaba unindo esses elementos todos que você falou, mas com muita simplicidade. Fugimos um pouco do que é esse mundo do espetáculo, acabamos entrando num encontro com a arte em diversos lugares e matrizes culturais. Buscamos esse momento de convivência do público com os narradores, as histórias. E, claro, tem todo um aprimoramento técnico com diversos profissionais que acabam contribuindo. É um universo muito amplo, que a gente busca dar unidade e simplicidade. No grupo, uma coisa bacana é que os atores não sabiam tocar um pandeiro e hoje a gente já tem os narradores tocando percussão, rabeca, acordeom. É um trabalho que não para nunca. O tempo inteiro estamos aprendendo, exercitando, pesquisando, aprofundando. É muito instigante fazer parte como artista desse núcleo.  Mas a tradição oral, a palavra viva, é o que dá unidade a todo esse trabalho.

DA – O que dizer da resposta do público nesses diferentes ambientes por onde vocês circulam?

RAFAEL MORAIS – Impressionante. Aqui em Salvador a gente vai para diversos ambientes e às vezes quer atingir um público distante. Por exemplo, fizemos um projeto de teatro de rua na Casa da Música, no Abaeté, em Itapuã, e para nossa alegria veio gente da cidade inteira. Temos percebido que o público tem acompanhado a gente. As pessoas vão percebendo o grupo como uma grande família e criam um certo vínculo com a gente, o que acho bacana. Cria uma intimidade e as pessoas encontram a gente na rua e falam conosco como se fossem amigas. Falam das histórias e de como foram tocadas por elas. E a gente percebe uma sinceridade. Acabamos criando uma maneira diferente de narrar as histórias, que não é teatro convencional, um caminho artístico autoral. Seja em comunidades mais distantes como quilombos, comunidades rurais, ou em grandes centros urbanos, a receptividade é ótima. Em São Paulo, por exemplo, a recepção foi fantástica. As pessoas lotavam as apresentações, os ingressos esgotavam em meia hora, elas se interessavam pelas histórias. Engraçado que tem gente que pergunta se as histórias são reais. Então, o vínculo que criamos com o público acaba sendo de cumplicidade. Acho que é o maior presente que o artista pode ter, saber que as pessoas estão se importando. Em São Paulo, conhecemos na plateia alguns artistas de fora do país, tanto que estamos indo pra Buenos Aires por conta disso. Fomos convidados a apresentar três espetáculos nossos num festival internacional de narração oral porque o público assistiu. É um envolvimento que não é frio. A gente acaba de alguma forma passando para o público um pouco do que vivenciamos em nossas salas de ensaio, essa relação de sinceridade, esse mergulho nos sentimentos humanos. E o público percebe.

O Grupo Teatro Griô - Foto - divulgação
O Grupo Teatro Griô / Foto: divulgação

DA – Salvador é uma cidade que abraça verdadeiramente o teatro?

RAFAEL MORAIS – Pergunta complexa (risos), porque há vários públicos e tipos de teatro. Tudo da Bahia é muito paradoxal mesmo. Você não tem um único jeito, mas sim uma infinidade de possibilidades com relação a essa recepção. O teatro pode ser melhor abraçado. Tem um amigo que diz que se amanhã fecharem todos os teatros de Salvador, ninguém vai sentir falta (risos). É uma piada, mas faz a gente refletir, pois se fecharem, as pessoas não vão protestar. O teatro também é algo muito amplo. A Bahia tem uma tradição de teatro muito grande, não só pela primeira faculdade da América Latina, a Escola de Teatro da UFBA, que possui grandes mestres, mas também pelo histórico de teatro popular que influenciou muita gente. O teatro em Salvador é muito forte. Quando cheguei em Salvador há quase 20 anos, senti que a pulsação de espetáculos era realmente muito maior que agora. Alguma coisa se quebrou nesse mecanismo de atração do público, de constância do público buscando os espetáculos. Porém, quando acontecem determinados espetáculos, o público vem. Então, não é algo estático. Tem a coisa do mercado também, não é só questão do público abraçar e gostar. Aqui em Salvador, ao mesmo tempo em que o público ama teatro, a gente percebe que ele poderia abraçar mais. No entanto, quando acontecem os espetáculos de rua, alguns atingem um público imenso. O que tem acontecido com o Teatro Griô é o fato de encontrarmos pessoas que dizem ser aquela a primeira vez em que foram ao teatro. Acho que estratégias, caminhos e possibilidades podem ser buscados para aproximar as pessoas ao teatro. O teatro na Bahia é muito forte, rico e valorizado. Tem uma vanguarda em pesquisa. O público que vai ama o teatro, mas acho que mais pessoas poderiam ser atingidas. Aqui em Salvador, apesar da imensa afeição das pessoas com espetáculos realizados na rua, não há um teatro de rua pulsante. Interessante esse paradoxo. A gente tem uma demanda, digamos assim, muito grande por teatro de rua, pessoas que lotam os espetáculos quando eles acontecem. Fizemos um espetáculo chamado Circo Teatro na Estrada, que saiu por diversos bairros de Salvador, e em todos eles a recepção era imensa, as pessoas ficavam felizes com o que estava acontecendo, querendo que acontecesse novamente. Com relação a isso, o público abraça mesmo. Você conta nos dedos os grupos que fazem teatro de rua em Salvador, e mesmo assim não fazem com aquela constância porque se acredita que não tem tradição, mas tem sim. O público quer abraçar, mas como vai fazer isso se não tem muitas vezes algo que se aproxima dele?

DA – O que o faz continuar naquilo que você definiu como a arte de sonhar acordado?

RAFAEL MORAIS – Essa pergunta é muito difícil. Eu me pergunto muito isso. No entanto, tenho continuado, tenho seguido em frente porque fazer arte aqui, não só na Bahia, mas no Brasil, não é fácil, pois além das dificuldades do ofício, tem todo um mundo de coisas que precisamos superar a cada momento. Durante muito tempo, pensei que não era algo racional, pois se sabia que era essa dureza por que continuava? Tenho continuado e, quando olho para trás, percebo que realmente é meu caminho. Não dá pra explicar muito. Hoje consigo compreender esse desejo de seguir em frente, que ultrapassa o medo, pois a cada projeto novo há um risco muito grande. Hoje se fala muito em crise, mas para quem faz arte é pior ainda, pois a gente vive daquilo que tece, do trabalho cotidiano, dos espetáculos, do processo criativo que por si só já é algo efêmero. Aí, a gente seguindo adiante com isso é muita coragem. Agora, não me vejo fazendo outra coisa. Claro que surgem propostas de seguir por outros caminhos, longe da arte, o que muitas vezes poderia trazer uma segurança no sentido material. Mas acho que é a arte que me mantém vivo, pois abraço um caminho de crescimento e vida, um ofício. É meu lugar no mundo, minha maneira de continuar seguindo em frente, sonhando. O meu trabalho se confunde com meu sonho. Acho que isso é muito profundo. É ao mesmo tempo o meu devaneio no sentido do processo criativo e de tudo o que implica você fazer arte, de mergulhar nos abismos desse processo que não é fácil para ninguém, ainda mais nesse tempo que estamos vivendo. Um outro nome que se dá ao pessoal que segue esse ofício das histórias é Gente das Maravilhas, pois se encantam com a simplicidade e grandeza da vida, com o encontro. Quando entra num processo criativo, nem imagina descobrir coisas que nem sabia que existiam em você. Isso quando experimenta de verdade o processo criativo, pois tem muita gente que executa determinadas funções ditas artísticas, mas não vive ele. Você não consegue largar. Estou aqui hoje pensando em novos projetos, novos caminhos. É também a ideia da missão. Sinto isso muito forte. Tenho vontade de continuar fazendo teatro, mas ao mesmo tempo é maior do que tudo isso, pois arrebata, chama e você não tem saída. E também você acaba se comprometendo. Eu mesmo tenho compromisso com esse grupo, que hoje tem vários artistas que sobrevivem junto com a gente, alguns com outros empregos. Então, você acaba entrelaçando sua missão com as de outros parceiros cúmplices. Eu e Tânia, que fundamos o Teatro Griô, temos uma responsabilidade muito grande. Minha filha também, que desde pequenininha está envolvida no universo artístico do teatro. A gente virou uma grande família que faz isso, meio que vive e respira o tempo inteiro isso com grande responsabilidade, mas também com muita alegria. As dificuldades não são a tônica, pois a gente supera todas elas e vem um ganho imenso que não sabemos dizer o que é.

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes. 

 

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112ª Leva - 06/2016 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Carla Diacov

Patrick Arley
Foto: Patrick Arley

signo dar

troco os santos e os vasos e os espelhos de lugar: signo obsoleto. se não troco me aqueço em demasia ao secar os cabelos. não topo com minha cara e santa efigênia no mesmo caminho dos dias das horas pelos dias. trocaria as horas dentro dos dias trocaria o minuto por um segundo: signo mó. trocar os lugares pelas imagens. iemanjá espelho são francisco a carranca oca que ganhei de um amor que já não. trocar em acordo com o peso que a coisa perde e ganha. o peso: signo da propensão ao ato: trocar. troco um beijo por um pedaço de pizza trocada no momento do encaixe anterior à entrega. troco um olho do entregador por uma palavra espelhada. troco santos hábitos por cerveja gelada. troco signos troco idade troco as capas das almofadas os nomes dos gatos. troco o dragão de são jorge pelo espelho de ontem da noite de ontem. a lua: signo de troca. troca: signo vaso trincado.

***

congelo a cara e o corpo da cara diante da árvore da primavera. me paraliso me petrifico. em sempre foi a dificuldade em encarar a beleza crua cruel colorida cheirosa bem vestida galanteadora. sinto frio nos dentes diante da árvore: signo descascado vivo. cruel demais.  corre a seiva abusada nas minhas veias. medo e mitificação. seguro não subir o olhar até a copa não é seguro. crianças me olham passarinhos com olhos idosos e carteiros. todos eles trilham meu medo sou achincalhada pelos olhos. penso em agulhas alfinetes espetos lanças. a primavera me gela. sabe meu rosto nas todas espessuras desse horror e desse horror perfumado me esgano a descer a escadaria das flores. a escadaria das flores e estou frita para seguir resistindo ao mundo: signo em monet sob influências da camisola da época em questão. questão: o signo mais comum: doador universal.

***

o signo da onça ocorre em trocas cada vez que um homem diz o mato. porque é mancha sobre mancha a onça não diz o homem. limpa os bigodes no mato mata um roedor para o filhote come o couro tritura os ossos. é o signo mar. pendure uma onça diante do mar. leve nos olhos e pendure a figura diante do mar. é o signo onça. no nada de mar dita a onça em tudo de onça todo o mundo com lua onde o mar. porque é cratera ante cratera o homem faz abismos entre o banheiro e a varanda. entender não dura: o signo da onça ocorre em trocas cada vez que um homem se diz.

***

amo. amo até no desrespeito. até no desleixe até no despeito até no desespero. eu amo. e assim será o que sei ser até que sempre. porque vou morrer amando. me entrego ao cascalho. amo lascas da rua. amo até a vez que não é minha. não parece. mas eu amo. amo por não querer acabar e amo por querer tanto de mar e de fim. amo e tenho medo de cair do mundo. e odeio. porque é signo par. é estranho e eu amo me machuca mas eu amo. e odeio. porque é signo par nunca vou deixar de amar. até morrer até matar até derramar até engasgar até esganar. amo passarinho morto e o vivo. sobretudo o morto: porque as formigas que eu tanto amo.

***

a tarde carrega a noite na lomba da palavra mais corcunda. a manhã nasce no pôr dos olhos da mulher atrás do lençol no varal. seus filhos múltiplos de amanhã: o signo da lua e do adubo. suas plantas todas e suas unhas sua boca e seu dedal. a tarde lambuza as pernas da mulher atrás da máquina de costura. o sol cauteriza seus furos seus dedos suas plantas toalhas panos de prato lençóis. no mandiocal uma preá come sua cria morta. a névoa cresce pelos raios dos olhos da bichinha dolorosa. a mulher: signo do lençol. a alvorada desce os dedos na página 2: dia bom para anoitecer o fumo no peito esposo: signo d’água. a mesma tarde carrega a manhã na lomba da mulher. a noite nasce do pôr os pratos debaixo do alimento: signo de dois gumes.

***

um casebre sem rio pela janela não tem signo. o homem corta a madeira pensando longe e longe é onde fica o rio. as formigas não respeitam mais a evolução nas redondezas. um rio faria tudo ser como abunda as redondezas de um casebre com rio: lá no alasca: signo dúbio e mantenedor do que se passa na cabeça de quem vê o vidro que falta à janela única. o homem esconde uma faca entre as pernas. faca bem próxima ao pênis. afiada feito o pênis: signo de três gumes. uma formiga passa rente carrega um pedaço do tudo: signo ímpar e provedor da vertigem que sentiria o homem. derrubaria o homem sobre a faca: signo movediço. seu duplo come e bebe além da conta num casebre inundado no alasca. a vida segue o leito daquilo que um dia foi caminho foi fadário de brocardos capados. o vidro que falta: signo da mulher que um dia. um dia: signo da vida dúbia.

***

o lume do inseto noturno: signo par com o signo vítreo. limpamos o aquário três vezes por mês. meu ajudante limpa peixe por peixe até que o brilho: signo cruzado com o signo vítreo. meu ajudante limpa meus dentes com a língua até que o desrespeito. até que o desleixe seja calcado por mim para que meu ajudante. assim é assim será não tento e nem ele tenta me enganar. limpamos o aquário: signo usual. peixe por peixe: signo sujeito na frase: em lá as escamas. o lume nas ondas de lua cheia. limpo limpamos como é limpo o mar imundo de gentes nele. cruzamos espécies durante a limpeza do fundo: signo derivado do signo oriundo: é mar não é mar. reparamos o mundo aquário peixe por peixe. o lume do inseto nada. porque o amor: signo dessa luminosa psicose.

***

sei que existe um desconhecido signo. maternal e inquieto. espera a convocação que se dará pelas cordas dos sinos. sob esse signo nascemos envelhecemos morremos sobrevivemos. com a óbvia exceção: caramujos e poetas. está para chegar o dia em que uma onda de mornura elétrica levantará todos os fios de todos os cabelos das criaturas sob o signo desconhecido. não sei se é astrológico. se é matemático ou escatológico. sei que o dia está chegando. dia maternal e inquieto feito o próprio signo. o dia em que caramujos e poetas herdam o planeta. sutilmente. temos motivos para a preocupação: signo das mutações.

***

como se constrói um muro sem letras. o homem faz o muro e alguém coloca letras. o homem destrói o muro e faz outro. alguém coloca letras: signos solares. anos se vão e o homem faz outro muro para cobrir o muro com letras. alguém coloca letras e números no muro do muro do homem: signo da inconstância sob a distância da evolução. anos de amor e luz sem letras: signo do buraco sem fim. o muro é comportado e alguém coloca ovos sobre os tijolos do cume. o homem tem um rifle e mata ovo e mata ovo e mata ovo. alguém coloca alvará: signo dependente: o homem vive e morre sem pinto algum entre numerados muros letrados. fim: signo de derrubar muros.

 

Carla Diacov, São Bernardo do Campo, 1975. Formada em teatro. Seu livro de estreia, Amanhã Alguém Morre no Samba, foi publicado em Portugal pela Douda Correria em 2015. Ainda esse ano, publicará Ninguém Vai Poder Dizer Que Eu Não Disse, também pela Douda Correria, e a metáfora mais gentil do mundo gentil, pelas Edições Macondo.

 

 

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111ª Leva - 05/2016 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

Há duas maneiras de um escritor revisitar o passado: por meio da autobiografia ou através da ficção. Em seu livro mais recente, o volume de contos “Eles não moram mais aqui”, o mineiro Ronaldo Cagiano se posiciona diante do cruzamento entre essas duas vias, acessando os fatos que constituem sua obra ao converter matéria autobiográfica em matéria literária.

O resultado é um diálogo permanente entre invenção e memória, no qual os personagens são agentes de suas próprias histórias, mas também a consciência latente do autor observando a própria vida a uma devida distância. A infância na pequena cidade de Cataguases, a descoberta da leitura, a poesia como faísca elementar para a escrita, as mudanças para Brasília e, anos depois, para São Paulo.

Uma formação humana permeada pela literatura e por uma galeria de autores cujas influências apontam um norte e explicam a própria carreira. “Creio que a criação literária é caudatária de nosso histórico de leituras e não há como afastar-se dessa sintonia, desse beber em outras fontes para enriquecer a nossa, pois somos influenciados, sem dúvida, pelo que acumulamos, e essas pistas nos formam e isso não apenas na literatura”, conclui.

Em entrevista exclusiva, Cagiano esclarece as circunstâncias por trás de alguns dos contos, partindo de assuntos específicos para fazer uma ampla reflexão sobre o ofício da escrita. Com mais de uma dezena de livros publicados, entre novelas, antologias poéticas e infantojuvenis, o autor ainda debate os (des)caminhos do mercado literário, o surgimento de novos autores e editoras, a parceria com a escritora Eltânia André, cujo primeiro romance já está no prelo, e sua atuação como crítico de livros, pelo qual é um dos mais respeitados do país. “A literatura continua sendo o único lugar onde se pode ser livre”, justifica o empenho em prol de um fazer literário que vai além do seu.

Ronaldo Cagiano
Ronaldo Cagiano / Foto: arquivo pessoal

DA – Em seu livro mais recente, o volume de contos “Eles não moram mais aqui”, você utiliza como matéria ficcional a memória, as lembranças de lugares e de pessoas da cidade mineira de Cataguases, onde nasceu. Acredita que todo escritor, em algum momento, invariavelmente volta para casa?

RONALDO CAGIANO – Creio que a literatura é uma ponte entre o passado (com sua carga de memória ancestral: afetiva, geográfica, familiar, psicológica, histórica) e o presente. Estamos sempre dialogando com nossas raízes e experiências remotas. Penso que tanto na prosa quanto na poesia não há escrita puro-sangue, ou seja, tudo que escrevemos é um diálogo entre a invenção e a memória, pois, como dizia Cyro dos Anjos, “a literatura se nutre do real”. Assim, vejo Cataguases como o Capiberibe de “Cão sem plumas”, de João Cabral, pois minha cidade é como aquele rio: “Está na memória; como um cão vivo/ dentro de uma sala”. Vivi até os 18 anos em Cataguases, passei 28 anos em Brasília. Se esta me deu régua e compasso, como na música de Gil, foi Cataguases quem me (in)formou como ser, como leitor e como escritor. A mitologia da cidade é (o) que me alimenta ficcional e poeticamente, pois quando volto os olhos para o vazio ou do escuro do passado, é de lá que retiro matéria e circunstâncias para minha prosa e minha poesia. E a barbearia do meu pai foi a grande escola desse aprendizado de ver e ler o mundo, em seu salão, onde fui engraxate dos 8 aos 14 anos, (re)colhi as histórias da cidade, capt(ur)ei o seu imaginário e chafurdei no seu inconsciente,  uma espécie de vitrine crítica da vida individual, coletiva, social e política. A cidade povoa minha experiência criativa a partir dali, onde circulavam multifários seres, de onde eu mirava, como um promontório, os acontecimentos do dia a dia, as figuras folclóricas e pitorescas, a gente miúda em sua coreografia diária pelas ruas, esses tecelões de mistérios que tanto invocaram nossa imaginação. “Nenhum rosto é tão surrealista quanto o verdadeiro rosto de uma cidade”, disse Walter Benjamin, assim a cada conto, a cada história, a cada poema, tendo desvelar a face de uma cidade que a cada dia, apesar da distância dos anos e do meu asilo em outras plagas, é a mesma e é outra.

DA – O poema de João Cabral, a que se refere, está no conto “Sombras”, possivelmente o mais emotivo da coletânea, um tipo de relato inflexivo no qual você transporta, para o contexto imaginário, o luto que, mesmo com o escorrer dos anos, não se dissolve por completo. Livros, como “Carta a D.”, de André Gorz, e “Altos voos e quedas livres”, de Julian Barnes, tratam igualmente desse sentimento de tristeza profunda pela morte de alguém muito querido. Você acredita que a literatura, de alguma forma, é um canal pelo que esse vazio possa ser confrontado ou, ao menos, compreendido?

RONALDO CAGIANO – Nesse conto, particularmente, (es)corre uma espécie de hidrografia sentimental: no fluxo das lembranças de um acontecimento real, migrei para a ficção a experiência de um luto sofrido por uma família, que teve de purgar a dor de uma perda tão precoce. Creio também na literatura como instância para certas catarses, em que a vivência pessoal (ou a alheia que, muitas vezes também nos servem como fonte literária) nos possibilita um mergulho e uma reflexão sobre as imponderáveis contingências de nosso percurso ou de nosso tempo. Estamos sempre fazendo literatura além das expansões oníricas, transcendendo a realidade por meio de uma (in)tensa tentativa de compreender (ou superar) os vazios, silêncios, perdas e outras dores que vivemos ao longo de nossa fugaz e precária existência. Dessa forma, escrever como exercício permanente de confronto com realidades distintas, é a maneira que encontramos de dialogar com aquilo que nos perturba, desconforta e de, certa forma, nos desestabiliza e nos modifica.

DA – Outro aspecto que salta aos olhos, na coletânea, é um diálogo constante com inúmeros escritores, que se cristaliza no conto “Esboços para a (de)composição do naufrágio”, em que o narrador se lança numa incursão pelo território literário, encontrando-se com nomes como Machado de Assis, Cervantes, Kafka e Plínio Marcos. O quanto desse espelhamento há na sua formação e, por consequência, em seu processo literário? De uma maneira representativa, acredita que o autor, por mais completo que seja, nunca escreve sozinho, que todos os textos decorrem de um impulso de influências e recortes acumulados durante a leitura?

RONALDO CAGIANO – Entendo a escritura como sendo uma experiência-rio: ela carrega (ou transporta) as recolhas de nossa caminhada, seja como ser, leitor ou escritor. Dessa forma, no que escrevo, tudo flui impregnado de outras referências. Aquilo que li, o que vi, ou o que vivências alheias me serviram como exemplo, farol ou lição. Sempre incorporo algo da garimpagem que realizo ao mergulhar no aluvião estético de outros autores. Certa vez, um amigo escritor dizia que, embora gostasse muito de ler meus contos (e até poemas), sentia-se incomodado na maioria das vezes, por ter que pagar pedágio às epígrafes. Argumentei que o uso desse recurso (Murilo Rubião foi um dos que mais o utilizaram em seus contos; da mesma forma o mineiro João Batista Melo), mais que intertextualidade, ou além da homenagem a autores e livros que me marcaram, vejo também como um diálogo temático e afetivo, uma ponte dialética entre o que escrevi e o que li, no sentido não de plágio ou carona, mas com a função análoga e simbiótica de espelhar sentimentos e expressões que, de outra forma, e melhor, disseram a respeito do mesmo tema. No fundo, creio que a criação literária é caudatária de nosso histórico de leituras e não há como afastar-se dessa sintonia, desse beber em outras fontes para enriquecer a nossa, pois somos influenciados, sem dúvida, pelo que acumulamos, e essas pistas nos formam e isso não apenas na literatura.

DA – A poesia, que se faz substância de alguns contos do seu livro mais recente, foi também seu ponto de partida na carreira literária, com o lançamento de “Palavra engajada”, de 1989. Essa predileção de gênero seguiu por alguns anos, até finalmente você se encontrar com a prosa. A que atribui esse movimento? Sua primeira experiência com a leitura parte da poesia? Há com ela uma ligação de cumplicidade afetiva ou foram os versos a maneira pela qual primeiramente compreendeu seu impulso artístico?

RONALDO CAGIANO – Considero-me essencialmente poeta, embora tenha me incursionado pela ficção com mais vigor nos últimos anos. Mas, desde os primeiros livros, leitores e amigos identificaram uma certa predisposição à prosa, por perceberem um fôlego discursivo em meus poemas. Embora, paralelamente, à escrita e publicação de livros de poesia tenha sempre produzido prosa, seja em jornais (desde a adolescência colaborava para um hebdomadário tradicional de minha cidade, com crônicas, pequenos contos e artigos de opinião), seja por meio de histórias que deixava na gaveta, foi somente depois de alguns títulos de poesia que optei por dar à luz meus primeiros textos ficcionais, na esteira da sugestão desses amigos, que insistiam para que eu investisse no gênero. Assim surgiu “Dezembro indigesto”, volume em que reuni alguns contos inéditos, tendo com ele vencido o Concurso Bolsa Brasília de Produção Literária de 2001, com a publicação pela Secretaria de Cultura do Distrito Federal. A partir dessa feliz estreia, dediquei-me mais à confecção ficcional, sem abandonar a paixão pela poesia, para a qual fui despertado aos 11 anos, quando li os versos candentes de “Eu”, de Augusto dos Anjos, livro que representou um divisor de águas na minha vida de leitor, instigando-me a escrever os primeiros poemas. Creio que essa ligação visceral e umbilical com a poesia delineia minha prosa, porque essa ligação afetiva e sensorial com ela pode ser sentida no que escrevo, porque sempre persigo a prosa poética como êmulo a meus projetos ficcionais.

Ronaldo Cagiano
Ronaldo Cagiano / Foto: arquivo pessoal

DA – Há dois pontos, em sua resposta, que eu gostaria de me aprofundar. O primeiro é o que chamou de perseguição da prosa poética, cujo ápice, no meu entendimento, está no conto “Mar de dentro”, que se passa em Teerã. É notável, na sua escrita, essa relação com a cidade, o espaço geográfico, muitas vezes em tom de diálogo, como se este servisse de cenário e, ao mesmo tempo, de interlocutor. Você nasceu em Minas, mas viveu em Brasília por muito tempo e, agora, em São Paulo. Consegue notar uma influência latente de cada um desses lugares em sua literatura, ou acredita que o escritor ocupa um território expatriado, tão vasto dentro de si?

RONALDO CAGIANO – Compartilho uma expressão de Baudelaire para reafirmar isso: “Seja poeta, mesmo em prosa”. Quando li isso, certa vez, percebi que pertencia à família dos que, ao fazerem ficção, não se preocupam apenas – e de forma descarnada – em contar uma história. Penso que o amálgama para uma história, no conto ou romance, é a própria linguagem e ela, muitas vezes, é tão forte e determinante quanto a trama ou a psicologia dos personagens. Essa talvez seja uma peculiaridade no que escrevo, uma espécie de relação íntima com minha gênese literária, a origem primordial do que crio está na poesia que procuro retirar dos pequenos dramas e tragédias, dos conflitos e dilemas individuais ou coletivos, da banalidade ou transitoriedade das coisas. Por outro lado ressalto, ainda, o fato de trabalhar na minha literatura os espaços em que vivi e que me influenciaram, como forja do homem e do escritor: o geográfico, o psicológico, o afetivo, que delineiam meu arcabouço existencial. São pilares que sustentam o meu processo criativo, mergulho no território da infância, nas experiências afetivas, nos apelos históricos, nas invocações sensoriais para compor o painel de minha leitura pessoal e crítica desses universos e atmosferas que me forjaram e me inspiram tantas revisitas. Essa ancestralidade tão referencial nos habita e nos chacoalha, nela estão as fontes de nossa relação com o agora, nas quais a literatura é instância de expansão, catapulta. Certa vez li no livro “Manual Prático de Levitação”, de Agualusa, a fala de um personagem que me parece espelho do que ocorre quando revolvo essas reminiscências: “O passado é como o mar: nunca sossega”. Então, essas águas vivem redemoinhando dentro de mim, as águas do rio Pomba, tão mí(s)tico em minha infância e adolescência, com suas cheias alarmantes nos expulsando de casa; as águas do Lago Paranoá, em Brasília, cidade onde vivi 28 anos e que me deu “régua e compasso”, como diz a música de Gil; e agora nessas novas (c)(t)orrentes, em São Paulo, onde estou há nove anos, levando-me a outros fluxos nesse eterno e imponderável mistério que é o destino. Essa interlocução com o passado remoto ou recente (Cataguases, Brasília), esse diálogo com o presente (São Paulo) é uma maneira de me situar em meio ao cipoal caleidoscópico de realidades distintas (e suas contradições), que vivi e vou experienciando. E a literatura abriga cada um desses pedaços (sentimentais e físicos). Em “Interpretação de dezembro”, Drummond me ajuda reconhecer que “É o menino em nós/ ou fora de nós/recolhendo o mito”.  Esse menino que f(l)ui, pega na minha mão e escreve sobre o que hoje em mim é fluência e desatino. Portanto, não consigo separar o que escrevo do que vivi, tudo se manifesta como uma sinergia de sensações acumuladas, que se atualizam cada vez que a ficção se embebeda do real.  Cada viagem a Minas é um manancial de recorrências afetivas tão fortes e esse caudal sentimental se transformará em matéria literária ou apreensão poética nalguma oportunidade. A cidade que (re)vejo (ou visito) hoje não é aquela cidade que me transformou ou transtornou, a que está intacta na minha percepção, pois hoje sou estrangeiro nesse mundo que lá está transplantado e, para fugir desse exílio compulsório, me asilo no “inexílio” da memória e nela afugento os fantasmas do presente. Como no conto “Da próxima vez”, de Carrascoza, “A cidade da infância, tão outra nos meus olhos se comparada à memória.” Ou algo similar num poema de Ascânio Lopes, poeta modernista da minha cidade, morto precocemente na década de 20, que fala: “Cataguases! Cataguases!/ Vale a pena viver em ti./ Nem inquietude./ Nem peso inútil/ de recordações./ Mas a certeza que nasce/ das coisas/ que não mudam bruscas./ Nem ficam eternas.” No mais, tomando emprestado de Ortega y Gasset a ideia da influência, para o qual “eu sou eu e minhas circunstâncias”, eu diria que eu sou eu e minhas leituras, eu e minhas viagens e relações com o que me cerca.

DA – Bela resposta. Passou-me a frase de Borges que diz que todo autor sempre escreve o mesmo livro. Há uma memória basilar para todos os enredos, e isso que se configura a literatura. Agora voltando ao segundo ponto, você menciona a bolsa de criação literária e, complementando a ideia, alguns dos contos de “Eles não moram mais aqui” foram previamente premiados. Com a extensa carreira que tem, o quanto considera importante para um autor esses dois recursos? Como um financiamento ou uma premiação pode ser producente ou prejudicial?

RONALDO CAGIANO – Sem dúvida, acredito que essas alternativas são a saída, sobretudo num país como o Brasil, em que o sistema editorial é extremamente hegemônico e monopolizado, sem critérios definidos para a recepção, avaliação e publicação de autores, prevalecendo, na maioria das vezes, as relações, as panelinhas, os guetos, as igrejinhas, as amizades e outros sistemas perversos de vasos comunicantes, em detrimento da qualidade da obra, perpetrando-se históricas e abomináveis injustiças (autores de qualidade negligenciados sem pudor, enquanto mediocridades são incensadas sem nenhum constrangimento). Nesse ambiente literário dominado por interesses, percebo também o total descaso de grande parte da crítica que milita na grande mídia impressa e seus cadernos de cultura, salvo raríssimas e honrosas exceções, pois só reconhecem vida inteligente na literatura publicada por grandes editoras. São pernosticamente indiferentes a um bom autor que tenha sido editado por um selo desconhecido, principalmente se fora do eixo Rio-São Paulo.  Então, o que resta aos autores sem “pedigree” são os concursos literários, as bolsas de publicações e outros programas de incentivo e apoio municipais e estaduais, que funcionam como estimulantes para os novos e até mesmo para veteranos sem oportunidades nas grandes casas editoriais. São alternativas concretas para tornar menos injusta a partilha de espaço nesse cenário tão dominado pelos ditames do deus mercado, e na maioria das vezes, esses certames sinalizam uma maior visibilidade, chamando atenção da crítica e proporcionando acesso a edições e distribuição mais amplas. Ressalto que, em meio a esse deserto de possibilidades, um oásis se mostra como interdição desse processo: é o papel das pequenas editoras que, a meu ver, de forma hercúlea e quixotesca, com seus editores matando um leão por dia e nadando contra a maré do mercado editorial, vêm publicando autores e obras de inegável qualidade, inclusive nada devendo às grandes editoras quanto ao esmero gráfico, sendo que muitas delas vêm conquistando prêmios em importantes concursos de nível nacional, entre as quais destaco Patuá, Dobra, Confraria do Vento, LetraSelvagem, Penalux, Oito e Meio, Reformatório, Kazuá, Casarão do Verbo etc.

DA – Essa é uma situação complicada e, em muitos casos, desleal. Há algum tempo, conversava com um escritor superpremiado, com livros traduzidos fora do país, que se encontra sem editora, desmotivado. Um vexame, uma vergonha para o meio literário. Mas gostaria também que enxergasse esse contexto por um outro ângulo. Você não percebe que, com o surgimento de muitas editoras e a escancarada democratização da publicação, temos também autores estreando sem a devida bagagem, com livros que, amadurecidos mais um pouco, teriam muito mais a oferecer em termos de qualidade literária?

RONALDO CAGIANO – Concordo plenamente quanto ao fato de que essa facilidade de acesso aos meios editoriais mais disponíveis (pequenas editoras, plataformas e suportes na internet, como blogs e revistas eletrônicas etc), ainda que possibilite a livre publicação, também impõe o risco do nivelamento por baixo, ao despejarem muitos títulos sofríveis, autores de duvidosa qualidade e obras sem a devida maturidade. Acabam por entupir o mercado, empurrados pelas águas da avidez, açodamento e desespero de escritores que pretendem publicar a qualquer custo e são seduzidos ou cooptados por algumas editores sem escrúpulos, empresas caça-níqueis que se aproveitam da g(r)ana dos incautos. Vale para isso um antigo aforismo popular: “Nem tudo que cai na rede é peixe”. Assim, entendo, ser preci(o)so também ter o discernimento necessário, tanto de editores quanto de leitores, para se separar o joio do trigo, pois as pequenas editoras sérias acabam sofrendo o estigma pela falta de critérios de outras tantas.

DA – Por outro lado, temos os escritores que se colocam num patamar superior, que só participam de coletâneas, eventos e demais expressões artísticas mediante pagamento. Embora renomado, com prêmios e publicações fora do país, você é muito ativo em colaborações em jornais, revistas, sites, além de participar e organizar antologias. O quanto considera essencial, para sua carreira, continuar desbravando novos territórios para sua literatura? E, desdobrando a pergunta, não acredita que, para um jovem autor, o melhor caminho não seria iniciar com colaborações para adquirir um pouco de “casca” e, enfim, publicar o primeiro livro?

RONALDO CAGIANO – Evidentemente, há certos escritores convertidos em sumidades, cuja literatura e nome alçam o patamar de uma grife, que impõem certas condições financeiras para suas participações (entrevistas, colaborações em jornais, seminários, palestras, feiras literárias, resenhas, orelhas, prefácios), gente que não sai de casa sem pagamento, sob o pálio da profissionalização de suas carreiras. Creio que o escritor exerce uma atividade que em nada difere de qualquer outra, portanto deve ser remunerado pelo que produz. No entanto, vivemos num país que, histórica e culturalmente, só acredita naquilo que culmina em produtividade material, aferível sob o ponto de vista da produtividade. Portanto, atividade intelectual e artística, sobretudo a literária, sempre foi vista com menoscabo e indigna de pagamento, porque alcança uma minoria, ainda mais que somos uma nação sem leitores e livro não faz parte da cesta básica. Muitas vezes somos forçados a nos prostituir para ter o mínimo de espaço, ao emprestar o talento e a força de trabalho mental e intelectual sem a devida contraprestação, pois, na maioria dos casos, jornais e revistas já não pagam mais pelas colaborações, assim também alguns convites para palestras em escolas e eventos menos suntuosos ou concorridos em que o autor não pode deixar de comparecer, sob pena de receber a pecha de esnobismo. Lembro-me de que, quando organizei três antologias (“Poetas Mineiros em Brasília”, “Antologia do conto brasiliense” e “Todas as gerações – conto brasiliense contemporâneo”) tive dificuldades em convencer dois ou três escritores para o projeto, porque exigiram remuneração e direitos autorais, o que não acho de todo ilegítimo, não obstante a realidade em que vivemos. Ainda que eu ponderasse que as edições não tinham cunho comercial, mas funcionariam como registro da produção poética e ficcional brasiliense, e o organizador não receberia nada por isso, tendo cada autor, na edição de 1.000 exemplares de cada, a uma quota de 10 livros, mesmo assim esses não aceitaram participar. Entendo que nem sempre devemos atuar de graça, porque em muitos casos há instâncias e organizações que podem e devem remunerar pelo trabalho produzido. Nos países desenvolvidos, a atividade de escritor é devidamente valorizada e qualquer atividade não prescinde do devido pagamento, até mesmo uma modesta aparição com foto numa matéria de jornal é motivo suficiente para pagamento. Enquanto não atingirmos esse estágio ou consciência do valor e a necessidade de se dar a justa contraprestação financeira ao trabalhador literário, é necessário tentar harmonizar os interesses, não fugindo à raia quando determinados espaços nos solicitam ou convocam, justificada a impossibilidade, pela própria precariedade desses meios, de pagamento ao autor, até porque já são tão exíguos os espaços e muitas vezes são estes que nos oferecem alguma janela ou visibilidade, abrindo possibilidades para circulação de textos, poemas, artigos, resenhas, crítica etc, o que, de certa forma, credencia o autor, sobretudo em início de carreira.

DA – Por falar em resenha, um outro ofício que você se firmou como um dos mais respeitados do país é o de crítico literário. Eu, inclusive, já tive a alegria de ter a sua precisa análise de um dos meus livros. Hoje temos centenas de blogs, sites e os chamados booktubers que, de maneira geral, enquadram suas impressões literárias entre o gosto pessoal e a superfície analítica. Como é, para você, atuar como leitor crítico? Como começou esse trabalho? Recorda-se da primeira resenha? Algum crítico o inspirou? Quais as ferramentas fundamentais para se escrever um boa resenha?

RONALDO CAGIANO – Primeiramente, não me considero crítico nem ensaísta, porque minha formação é em Direito (advoguei durante muitos anos, até 2002, paralelamente à minha vida de bancário) e não tenho formação acadêmica em Letras, muito menos, pós ou doutorado, portanto, careço do embasamento teórico-científico, não sou versado em linguística nem em teoria literária, como soi acontecer com os especialistas. Dessa forma, vejo-me exercendo essa atividade apenas de modo intuitivo, emulando minhas impressões mais como um colega de ofício e leitor apaixonado, que só escreve sobre os livros de que gosta, pois não tenho predisposição para a crítica iconoclasta, hepática e demolidora, porque entendo que um livro ruim não merece atenção e ele sucumbirá pelo próprio demérito no desgosto dos leitores ou mesmo da crítica. No máximo, quando percebo que a obra mereça qualquer amparo ou reparo crítico, se tenho alguma intimidade com o escritor, procuro abordá-lo e comentar pontos que parecem relevantes no sentido de dar toques, pistas ou oferecer sugestões ou indicar parâmetros (principalmente leituras) para qualificar melhor seu trabalho. Seria uma crítica pessoal e sincera, sem o espírito desmantelador que uma crítica pública desencadearia, pois entendo que ela poderia abortar uma carreira ou desestimular um escritor ainda em gestação.  Essa necessidade de expressar-me à margem das leituras ao longo da vida surgiu ainda na adolescência, quando comecei a escrever os primeiros textos para um jornal dominical de Cataguases, atividade que foi crescendo ao mudar-me para Brasília, quando tomei contato com a obra de críticos antigos e contemporâneos, cujo mergulho estético, filosófico, exegético, hermenêutico e ensaístico me despertou interesse, principalmente pela forma como incursionavam seus olhares nos diversos meandros de uma construção literária. Entre essas primícias, cito José Guilherme Merquior, Álvaro Lins, Antonio Olinto, Otto Maria Carpeaux, Alceu Amoroso Lima, Antonio Houaiss, Afrânio Coutinho, Antonio Candido, Wilson Martins, Aurélio Buarque de Holanda, Benedito Nunes, Luiz Costa Lima, Antonio Carlos Secchin, exemplos marcantes de críticos literários, independente de suas vinculações ideológicas, mas pela lucidez e coerência de suas postulações. Minhas primeiras opiniões sobre livros recaíram sobre autores do círculo literário de Brasília, quando comecei a publicar no Correio Braziliense, Jornal de Brasília, Revista Literatura, Jornal da ANE e DF Letras, depois ampliando minha participação em outros veículos regionais e nacionais, como o Opção e o Diário da Manhã (Goiânia), O Dia (Teresina), O Estado (Florianópolis), Correio das Artes (PB), Estado de Minas, Hoje em Dia e O Tempo (BH), Jornal da Tarde e O Estado de S. Paulo (SP), Jornal do Brasil e O Globo (RJ), Guia de Livros da Folha, Rascunho, dentre outros, além de incursionar por alguns blogs com frequência, atividade que se viu reduzida há alguns meses, por absoluta falta de tempo. Para mim é uma atividade esteticamente prazerosa, porque além de me proporcionar o contato com novos autores de diversas regiões do país, com inegáveis surpresas, ajuda-me a penetrar no insondável do processo criativo individual e na gênese de cada obra. Para mim, o resenhista tem o dever de ir fundo, ser sincero, fazer crítica não como caridade, não apenas homologatória, para agradar a quem quer que seja, mas com o dever de apontar no trabalho sua qualidade, sem ceder às paixões pessoais ou amizades, mas sempre com uma inflexão dialética, de modo que tenha uma ampla visão da obra e não da vida do autor, permitindo-lhe um percurso capaz de penetrar as filigranas e retirar os palimpsestos de uma arte que está sob seu olhar e bisturi, como se fosse um cirurgião a penetrar as vísceras de um corpo com suas engrenagens e fluxos, como considero ser um texto de ficção ou de poesia. Sempre tive em conta uma lição de Graciliano (que recolhi de uma entrevista sua de 1948) quando vou analisar um livro e tentar perceber se o autor andou nessas águas ou bebeu nessas fontes: “Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.”

Ronaldo Cagiano
Ronaldo Cagiano / Foto: arquivo pessoal

DA – Seguindo, então, com as palavras do Graciliano, como analisa o que é “dito” pelos novos autores? Escapando do saudosismo, percebe uma geração detentora de uma literatura inferior a de outros tempos, ou uma apenas distinta, que se comunica com outros meios e, por conseguinte, constitui uma tendência em evolução?

RONALDO CAGIANO – Em termos comparativos, é inegável a profusão de autores e obras atualmente em relação ao que se produzia antigamente, razão pela qual em meio a uma variedade de títulos, a prevalência de literatura ruim é também bem maior, na mesma proporção em que há bons autores em todos os gêneros. Esse fenômeno vem a reboque das facilidades para veiculação de material literário não apenas nos meios tradicionais (livros, revistas, jornais, suplementos), mas também nas plataformas e suportes eletrônicos. Estes, particularmente, exercem um papel preponderante na disseminação desse acervo de criação ficcional e poética que a cada minuto a internet disponibiliza, democratizando o acesso tanto de quem escreve quanto a quem lê.  Acredito que a literatura, como qualquer arte ou ofício, sofre suas metamorfoses, seguindo a ordem natural do próprio processo evolutivo, humano e social, como dos meios que os legitimam. Assim como o mundo mudou, a tecnologia e as facilidades da comunicação trouxeram inexoravelmente suas vantagens em todos os campos, assim também a escritura deu seus saltos (éticos, estéticos, dialéticos) e essa transformação se dá primordialmente pela linguagem, que considero a instância em que essas mudanças se operam e são assimiladas com mais vigor. O leitor e o escritor de hoje não são os mesmos dos tempos de Bilac, Alencar, Machado, Graciliano ou Rosa, nem por isso uma e outra geração se anulam. Antes, se comunicam de forma sinergética.  Hoje, outros são os influxos, referenciais estéticos e culturais. Outras também são as influências do meio, da cultura de massas, da dita civilização movida pela informatização, uma realidade permeabilizada por trocas intensas e profundas, não só internamente como com outras culturas e realidades, e tudo sob o império da velocidade e do rápido escalonamento de valores. A língua e a literatura caminharam nas águas dessa corrente, impregnando a dicção dos novos autores, os quais foram apreendendo novos cenários, realidades, emulações e influências não apenas físicas e geográficas, mas também psicológicas e históricas. Isso é tangível e aferido nos aspectos formais e temáticos de cada autor contemporâneo, cuja literatura é irrigada por novos sentimentos e sentidos, sem, contudo, perder o liame com o passado remoto ou mais recente da nossa história bibliográfica. O mundo e as pessoas que escreviam, liam e se comunicavam na era do telégrafo não são os mesmos que escrevem, leem e se comunicam on time e online, com outros recursos e possibilidades de expressão. E literatura é fruto desses novos tempos, autores e obras antenados com essa emergência inexorável.  Então, não se trata de mensurar ou menoscabar o que se produz hoje em relação aos cânones ou mestres do passado. O mundo que a obra de um autor moldura e modula hoje não é diferente daquele, porém as sensações e olhares diferem no modo de perceber e deslindar questões, conflitos, dramas e situações, sob a perspectiva de uma linguagem que é especular dessa contemporaneidade exigente e avassaladora, atualizando a dicção com que aquela geração distante – com os recursos e limitações da época – dispunha para falar e incursionar pelos universos e atmosferas distintos, o que torna defeso impor a pecha de anacronismo ou supremacia de uma época sobre a outra.

DA – Outro aspecto marcante de sua carreira são as parcerias. Em 2012, por exemplo, você lançou a novela “Moenda de silêncios”, em parceria com Whisner Fraga. Uma outra parceria de longa data é com a escritora Eltânia André, com quem é casado. Como funciona esse relacionamento, que é margeado pela literatura? Vocês compartilham ideias, sugestões e leituras? Há a influência de um no processo criativo do outro?

RONALDO CAGIANO – Foram experiências partilhadas com outros escritores numa interessante simbiose, um exercício de escrita colaborativa, de coautoria ou de obra a quatro mãos. E o primeiro convite surgiu no final dos anos 1990, quando o amigo e escritor alagoano (radicado em Brasília) Joilson Portocalvo, que na época realizava oficinas literárias no Presídio da Papuda, propôs o desafio para que escrevêssemos um livro juntos. Então, nasceu a novela juvenil “Espelho, espelho meu”, projeto encampado e publicado pela Editora Thesaurus, em que tratamos de temas ligados aos conflitos da adolescência, mapeando as tensões dentro de uma família de classe média com a abordagem de situações relacionadas ao relacionamento pais-filhos, ao sexo, à gravidez precoce, drogas etc, numa linguagem que postulasse uma discussão, sem caricaturas ou dissimulações, desses conflitos tão comuns na realidade familiar. Depois, outro convite do escritor Whisner Fraga, que culminou na novela juvenil “Moenda de silêncios” (contemplada com o prêmio de publicação do ProAC/Secretaria de Cultura do Estado de SP), que faz um percurso em outra vertente,  tratando dos encontros e desencantos, dos sonhos e frustrações de dois jovens do interior mineiro perdidos no cipoal de suas expectativas e nas engrenagens da cidade grande, para onde foram em busca de um futuro ou de um sentido para suas vidas, obra que recolheu um pouco dos vestígios de nossas experiências em Cataguases e Ituiutaba. E a mais recente incursão pela escrita conjunta é o romance “Diolindas”, escrito com Eltânia André, minha esposa, obra que estava hibernada há uns seis anos, porém sairá do anonimato em breve, quando será publicada pela Editora Penalux, história que mergulha na vida e revezes e litígios de uma família. Nesse particular, tem sido proveitosa, instigante e complementar à vida afetiva a relação literária do casal, não apenas gerando o fruto de um livro, mas em razão da peculiar e mútua cumplicidade, sintonia e empatia no campo da criação, pois dividimos e comunicamos nossos espaços, nosso modus operandi, idiossincrasias, inquietações e outros aspectos ligados ao ato de “escreviver”. E, não obstante as diferenças de estilo e linguagem, as motivações e interesses distintos, há um canal permanente, um fluxo intenso entre nossos processos e experiências passadas e recentes, tanto da própria escritura individual quanto relativamente ao histórico de leituras, de modo que um torna-se, naturalmente, leitor crítico do outro (e de si) e esse trânsito tem sido extremamente profícuo ao nosso amadurecimento como seres e como autores. De certa forma, a intensidade dessa participação ativa de um na vida do outro, nos afetos e na criação, tem contribuído para uma influência que valoriza e estimula o que vimos construindo.

DA – Uma notícia fantástica essa do novo livro! Contudo, essa não é a primeira parceria de vocês. Em seu recente romance, o formidável ‘Para fugir dos vivos’, Eltânia se apropria de experiências vividas para criar uma ficção particular, não?

RONALDO CAGIANO – Trata-se de um livro de ficção em que Eltânia  recolheu apenas alguns detalhes de nossas experiências pessoais, para esboçar o perfil dos personagens, no entanto a história é outra, não a que vivemos. Fomos criados na mesma rua e durante nossa infância compartilhamos amizade, histórias comuns e relações familiares. Nesse sentido a sua ficção se apropriou de características físicas, de pessoas e ambientes comuns à nossa convivência, para a construção de personagens híbridos, porém, nem a trama nem os protagonistas são recriação de episódios vividos ou acontecimentos presenciados, mas uma realidade inventada a partir de flashes ou flagrantes de realidades distintas, enfim, a autora, na minha ótica de primeiro leitor de seus textos, teve autonomia para juntar os cacos de experiências de terceiros e esboçar um outro painel puramente ficcional. Portanto, não houve, de minha parte, qualquer participação ou intromissão nesse processo criativo, apenas um ou outro detalhe sobre alguma circunstância histórica ou social que nos eram comuns e que pude aclarar.

DA – Agora o personagem real, o menino que se descobriu poeta em Cataguases e atuou, com afinco, em prol da literatura e da própria literatura, qual o saldo que faz da carreira? A literatura lhe proporcionou mais alegrias ou decepções? Atribuindo a você uma das frases mais emblemáticas do novo livro, conseguiu sair de Cataguases para não ficar menor que ela?

RONALDO CAGIANO – Num rápido encontro de contas, o saldo é positivo, no que eu considero literatura para mim não como profissão, mas empenho que se recicla a cada dia, como tentativa de me comunicar, expressar-me diante dos dilemas e inquietações pessoais e coletivos, de vencer o tempo para exorcizar fantasmas ou enganar a morte. E tentar compreender o nosso (des)lugar nesse mundo. Vivo para a literatura – para um ler e “escreviver” em constante renovação – e não da literatura, porque é impossível sobreviver material ou financeiramente tendo-a como atividade principal, sobretudo num país sem leitores, em que o escritor precisa da segurança, da estabilidade e do conforto de uma profissão para ordenar a vida prática, em que essa atividade tão estigmatizada sofre menoscabo e nos faz sentir que o escritor parece mover-se num grande camelódromo, tendo que ser mascate da própria obra. Então, nesse balanço, posso dizer que a literatura deu-me alegrias e encontros. A vida, o sistema e o convívio literários, incontáveis decepções e frustrações. Mas, como literatura não é agitação nem o falso verniz das flips e quejandos, dos holofotes e das re(l)ações oportunistas tão comuns a esse  meio viciado e viciante; nem a busca obsessiva e arrivista das vitrines e da figuração, o que me interessa é o texto e não o contexto, por isso não crio expectativas nem sofro. O que tiver de ser será, fruto da própria peneira do tempo, dos leitores e da crítica honesta. Tomo emprestado de Northrop Frye para amalgamar o que penso sobre o papel da escritura em minha vida: “A literatura continua sendo o único lugar onde se pode ser livre”, reconhecendo, ainda, outro papel fundamental, pois, segundo Borges, “A literatura é revanche de ordem mental contra o caos do mundo”.  E foi ela que me antecipou que existir era bem maior e sempre um movimento contínuo de transformações, permitindo-me sair do isolamento, do provincianismo, da mediocridade e da alienação parasitária que nos afetam na vida interiorana, para que não fiquemos menores que ela.

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

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111ª Leva - 05/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Micheliny Verunschk

 

LUMA FLORES
Arte: Luma Flôres

 

Um Klint

 

A cor falsificada,
a textura
imprecisa,
o nome esquecido
entre sinapses.

Talvez chame-se espelho
isto o que vejo.
Talvez chame-se afeto
isto o que quebro.

As cores,
ruivo,
laranja,
castanho,
branco azulado.

A palavra se perde,
mas era eu
em lâminas de ouro.

 

 
***

 

 
Naturezas-mortas

(a propósito de uma série de poemas de Robert Melançon)

A Jerusa Pires Ferreira

 

I

Emana da pele
vermelha
das maçãs
uma luz plácida
e persistente:
seis pequenas estrelas
dentro de um cesto de palha.
A cozinha
(por um instante)
suspende
seu movimento contínuo
e as maçãs reverberam
explosões mínimas
dos centros de si mesmas.

 

II

As frutas ciosas
dos seus açúcares
emudecem
sobre a mesa,
galáxia escura
de madeira velha.
Concentradas
nos próprios cristais
nas cisões e trocas moleculares
amadurecem
silenciosas.
Um pássaro depenado e triste
será a próxima refeição
e por um instante
nenhuma nobreza na morte.

 

III

Maçãs
pêssegos
laranjas.
A cabeça de São João Batista
num prato de porcelana.
Os olhos
pequenos frutos imóveis
condensados
no trabalho das cores.

 

 
***

 

 
Quadro

 

Ao centro da mesa
o pão
de sementes de girassol
compacto e luminoso
como a estrela
escondida no fermento
ou na palavra
orbita
denso
e leve
enquanto suas migalhas
faíscas
inventam novos mundos.

 

 
***

 

 
Balada

 

quando paquito guzman morreu, seu corpo estendido na mesa, a toalha de renda, a mulher chorosa, dez velas acesas, uma rosa entre os dedos, no bolso, um bilhete, na lapela, um lenço, dois dentes de ouro, um tigre no peito, el guapo chorou. um choro moído, um choro sentido, da boca, um soluço, da carne, um gemido. quando paquito guzman morreu, el guapo, uma gota de sangue no lábio mordido, el guapo, coitado, moço tão bonito, perdeu-se a si mesmo, a lua nos olhos, o norte esquecido.

***

 

 

Desenho

 

A axila nua
e o cheiro quase doce de suor.
Os gatos não sabem do medo,
só do desenho e simetria
dos seus pares.
Álacre,
o salto é resina
e o gato…………………um risco.

 

Micheliny Verunschk é autora de “Geografia Íntima do Deserto” (Landy 2003), “O Observador e o Nada” (Edições Bagaço, 2003), “A Cartografia da Noite” (Lumme Editor, 2010) e “b de bruxa” (Mariposa Cartonera, 2014). Foi finalista, em 2004, ao prêmio Portugal Telecom com o livro “Geografia Íntima do Deserto”. Publica em 2014 seu primeiro romance, “Nossa Teresa – vida e morte de uma santa suicida” (Editora Patuá, com patrocínio do Programa Petrobras Cultural), vencedor do Prêmio São Paulo de 2015. É doutora em Comunicação e Semiótica e mestre em Literatura e Crítica Literária, ambos pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

 

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111ª Leva - 05/2016 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Márcia Denser

 

LUMA FLORES
Arte: Luma Flôres

 

Os autógrafos de Paul Anka

(Das DesMemórias – capítulo 12)

 

Jamais imaginei que fosse contar este episódio, era um dos meus segredos mais secretos e bem guardados, a sete palmos no último cofre da vergonha: foi precisamente assim que a garotinha de 11 anos se sentiu a vida inteira em relação à coisa toda. Não foi legal. Na verdade, foi horrível. Hoje, por exemplo, ainda é difícil contar essa história com alguma dignidade. Porque antes teve o episódio dos gibis – não sei bem por que estou associando esses dois eventos – talvez por implicarem em mentiras deliberadas.

Melhor falar antes dos gibis: eu tinha oito anos e era uma devoradora selvagem de gibis – Pato Donald, Tio Patinhas, Pateta, Mickey, Luluzinha, Superman, Fantasma (era fissurada no Fantasma!), e como já expliquei também era filhadaputamente discriminada pelas colegas do colégio de freiras, minha vida era uma merda. Por mal dos pecados, Isaura se enturmara com a mãe delas e agora vivia marcando cabelereiros, dentistas, chás, compras na Clipper direto com as novas amigas.

Que traziam junto as filhinhas cretinas – as mesmas que me maltratavam na escola. E minha mãe: o que é isso, filha, que implicância! (eu simplesmente queria matá-la!) Significando doses extras de desaforos sub-reptícios que eu não precisaria engolir, não em casa, não à paisana, não mesmo: Yarinha, Julinha, Clarinha perto das mães era uns anjos: vamos, Marcinha, lá fora pular corda.

Sei.

Lá fora, me gelavam, fingiam que eu não existia, me davam as costas, deixavam de lado, no toco, de castigo da vida, sempre a mesma merda. Quando não insultavam a troco de nada: tenho-te nojo, garota, diziam: olha só a cara dela, parece débil mental, ha,ha,ha! Filhas da puta, eu trancava o choro, cerrava os dentes e os punhos, vermelha feito um pimentão: simplesmente queria matá-las!

Teréca não, essa se enturmava, porém com as pequenas – aí meio que não valia, tinha graça brincar com as nanicas? Humilhação em dose dupla (quando se é criança, dois anos e meio fazem uma tremenda diferença).

Certa vez, na casa de Dona Yolanda, mãe de Yarinha e Clarinha, duas das mais cretinas, esta me vendo jururu num canto, me levou até o sótão lotado de gibis: mergulhei feliz no meio deles. A tarde ia avançada quando percebi que não conseguiria ler todos, de forma que enfiei um monte sob o vestido, abotoando o casaco. Já anoitecia quando mamãe e a dona da casa vieram me buscar: íamos embora. Levantei, me ajeitando.

Você ainda está lendo? perguntaram, percebi que mamãe e D. Yolanda se entreolhavam, constrangidas: pode levar quantos quiser, meu bem, vejo que gosta de ler, disse esta. Encabulada (poxa, se soubesse que ia ganhar, não teria enfiado na roupa, ainda pensei), respondi que não, obrigada, Yolanda insistia: mas leve quantos quiser, encabulei mais ainda: não, não precisa, obrigado!

De repente, com um puxão, mamãe me arrastou até o banheiro e arrancou-me os gibis: e agora vá devolver e pedir desculpas já, tremendo vexame você me fez passar! Afinal, devia estar IMENSA com aquele volume sob o casaco, mas não percebera: auto-imagem aos oito anos? Bobagem.

Mas esta é uma história de rejeição: se estivesse na rua, brincando de pegador, não precisaria enfiar gibis na calcinha. A outra trata dos autógrafos de Paul Anka.

Três anos depois – eu já era quase uma mocinha – as coisas tinham melhorado um pouco para o meu lado no ginásio, eu fizera a primeira cirurgia plástica que corrigira o lábio, simetrizara o nariz. Já a cicatriz, esta enraizara na alma. E aí não havia plástica nem cirurgia que resolvesse: o mal estava feito.

Experimentava minha primeira paixonite pra valer: o cantor e compositor de rock balada de origem sírio-libanesa, o canadense Paul Anka – da mesma safra de Neil Sedaka e do rei Elvis Presley. Tinha todos os seus long-plays, sabia sua biografia, acompanhava a coluna do Louis Serrano na revista Cinelândia onde este relatava as peripécias do meu ídolo em Hollywood, seu namoro com a starlet Annette Funicello, aliás eu andava furiosa com o Louis: este previa que Anka seria um astro passageiro, não ia ficar.

(De fato, atualmente no Brasil ninguém mais se lembra de Paul Anka, eu mesma precisei entrar no Google pra conferir sua trajetória: por exemplo, no próximo sábado, 30 de janeiro de 2016, descubro pelo viagogo, que ele estará em Barcelona no Gran Teatre del Liceu, apresentando-se a seguir na Polônia, República Checa e Eslováquia, um  circuito bem of-of. Depois dumas 47 cirurgias plásticas, não lembra nem vagamente o rapazinho árabe das fotos dos LPs gravados em 1960 quando cantava Diana e My Heart Sings. Leio que fez carreira em Las Vegas na esteira de Elvis, sendo compositor de alguns sucessos como My Way de Frank Sinatra e She’s a Lady de Tom Jones).

Então Paul Anka veio ao Brasil indo se apresentar no Teatro Record. Não sei como tive a ideia, mas inventei (já era ficcionista naquela época) que minha prima e o namorado iriam me levar todas as noites para vê-lo, aí não sei qual das colegas da classe pediu: me traz um autógrafo? Como eu hesitei, as demais fizeram coro, me assediaram, caíram sobre mim: subitamente eu virara o centro das atenções!

Aquela tarde e todas as subsequentes – enquanto Anka estivesse por aqui – eu carregaria cerca de 30 a 40 livros de inglês no trajeto de ida e volta ao colégio – um peso considerável! – a serem autografados advinhem por quem? Eu, naturalmente, que garatujava algo assim “Of me for you, Paul Anka” (Eu queria dizer “De mim para você” e saiu isso, até porque não sabia nadica de inglês nem ia perguntar, right?).

Repetindo, estas são histórias de rejeição: uma delas foi descoberta, pois a ladrazinha era demasiado estúpida. A outra não – mas pela estupidez alheia! Até porque as pessoas odeiam admitir que foram feitas de idiotas. Histórias que não acabam bem, não acabam nunca: são a crônica duma cicatriz.

 

A escritora paulistana Márcia Denser publicou, entre outros, Tango fantasma (1977), O animal dos motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), A ponte das estrelas (Best-Seller, 1990), Caim (Record, 2006), Toda prosa II – obra escolhida (Record, 2008). É traduzida em nove países e em dez línguas. Dois de seus contos – “O vampiro da Alameda Casabranca” e “Hell’s Angel“ – foram incluídos nos Cem melhores contos brasileiros do século, organizado por Ítalo Moriconi, sendo que “Hell’s Angel“ está também entre os Cem melhores contos eróticos universais. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, é pesquisadora de literatura e jornalista. Foi curadora de literatura da Biblioteca Sérgio Milliet em São Paulo.

 

 

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111ª Leva - 05/2016 Destaques Olhares

Olhares

Uma tênue linha entre dois mundos

Por Fabrício Brandão

Luma Flores
Arte: Luma Flôres

Se nos fosse dada a possibilidade, será que cada um de nós realmente saberia responder qual mundo carrega dentro de si? Antes de arriscarmos algo, percebamos as vias paralelas que podem fluir na epifania particular de duas imediatas dimensões: interna e externa. A interna, portanto intimista, é o indivíduo em si, suas convicções, nuances e filtros. A externa, por sua vez, é o gigantesco mosaico de cenários dispersos no lado exposto da vida, suas complexidades, seu turbilhão.

Há paralelismos plausíveis nas duas dimensões abordadas, mas ocorre também certa dinâmica de oposições na medida em que as percepções individuais atravessam modos difusos de conceber as coisas. O externo seria apenas uma paisagem estática a se contemplar não fossem os arremessos que cada pessoa é capaz de promover.

Experimentar o mundo que cresce ante nossos olhos é saber que nem todos o veem da mesma forma. Isso é benéfico por sugerir que a não uniformidade de visões e pensamentos acaba sendo uma característica valiosa. Então, como poderíamos pensar num outro lado das possibilidades se tudo fosse baseado num imutável consenso?

LUMA FLORES
Arte: Luma Flôres

Já que o mundo externo, por natureza, é um colosso de imagens, é de se imaginar quantas surpresas podem estar abrigadas no universo particular de cada pessoa que por ele transita. No caso da artista plástica Luma Flôres, a proporção especial de um mundo íntimo serve de exemplo para tanto entendermos o que passa nos seus domínios, como também aquilo que permeia a relação com o exterior.

Luma contrapõe as duas dimensões de mundo sobre as quais trataram as linhas introdutórias deste texto. Seus desenhos nos dão notícias de territórios marcados tanto pelo real quanto pelo imaginado. Notadamente, são duas vigorosas formas de se lidar simultaneamente com a superfície e a profundidade daquilo que se pretende observar.

Importa dizer que é a porção intimista e subjetiva do olhar da artista quem estabelece uma conexão com o mundo em que vivemos. Assim, surgem camadas de experimentação para cada ser ou lugar apresentado. Passando por aquarelas, gravuras e também colagens, Luma mostra-nos perspectivas da existência marcadas pela fragmentação de sentimentos humanos. Revelando um gestual poético, tanto existe a face contemplativa, sensível e delicada quanto a porção que indaga inquietamente sobre os destinos humanos.

LUMA FLORES
Arte: Luma Flôres

Nascida em Vitória da Conquista, na Bahia, Luma Flôres cursa Design na Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia, em Salvador. Em duas oportunidades, nos anos de 2014 e 2015, seus trabalhos foram premiados pela Escola de Belas Artes da UFBA. Além disso, participou de várias exposições em espaços da capital baiana, bem como levou sua arte para cidades como Juazeiro, Vitória da Conquista e Rio de Janeiro.

À medida que penetramos nas dimensões propostas por Luma, compreendemos que algo transcende o mundo físico no qual habitamos.  Miramos o fundo de um imenso espelho e lá encontramos algumas pistas do que somos. O reflexo disso é, para além do reconhecimento, um estranhamento de tudo aquilo que nos tornamos enquanto seres imperfeitos. No espaço intermediário entre os mundos concreto e abstrato, transitam delicadezas, hesitações, poucas certezas, sentimentos sublimes, efusões, tristezas e alguma controvertida verdade pessoal, esta última uma personagem que, ao que parece, jamais conseguirá ser absoluta.

LUMA FLORES
Arte: Luma Flôres

*Os desenhos de Luma Flôres fazem parte da galeria e dos textos da 111ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.   

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111ª Leva - 05/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Wesley Peres

 

LUMA FLORES
Arte: Luma Flôres

 

Segredos para dormir:
ouvi um cão orando para as águas;
meditei chamas para entender o rio;
respirei águas e me parti em dois;
de fora desses dois em que me parti, flutua a coisa que sou.
Também foi ela quem me aconselhou a sonhar em terceira
pessoa.
 

 

 

***

 

 

 
Um grito ou um cisco metafísico:
nítidos lábios se pronunciam.
Úmido o olhar de quem venta,
e a carne de quem olha para dentro,
imensa de almas perdidas.
Se tenho boca, é para vesti-la,
se tenho águas, é para falar-me.

 

 

 

***

 

 

 

Quase espuma

 

Breve, poderosa matéria,
metáfora inconsútil de toda
e qualquer coisa
até o não.

Sua carne é o nada, sabe-se,
assim como de ossos d’água é
a musculatura invisível de suas cores.

O vento não a destrói não a sustenta
nem a habita, apesar de que habita
o dentro e o fora dela, pulsando
o imóvel de suas circunferências.

Limítrofe, essa mais efémera coisa eterna,
pois o que é, é da exata nervura
do tempo que a sua esfera encerra.

 

 

 

***

 

 

Não sou eu aquela máquina — sétima meditação

(sobre a Crueldade Impessoal)

 

 

VOZ 1

De uma fogueira, à beira, tenho nas mãos um papel em branco — e o meu corpo. Vim para onde estou, só. Cansado de verdades. Uma certeza que seja, será pedir muito, Caro-Bom-Deus-Maligno? Uma mísera certeza, é só o que se pede.

VOZ 2

Me deleito em me perder. Me identifico com o que rápido desaparece, as nuvens e o que de negro relampeja no olhar de quem amo. A equação do corpo é um olhar, e um olhar é também a celebração da morte. Deus, Bom ou Maligno, alavancou as engrenagens do mundo e desapareceu, foi cuidar da vida Dele, se é que a palavra vida é aplicável ao Deus.

VOZ 1

Se é que a palavra vida é aplicável ao Deus, há de haver um sol, uma sintaxe dos afetos, chuvas desenhadas pelo som de um sonho nada sonoro, pura forma. Não há lugar na República para a palavra cariada, para o silêncio que não siga o regime dos esquadros. O mundo maquinal, Deus deu o impulso, e se inclui fora dele, do mundo, Deus foi cuidar de sua vida.

VOZ 2

Deus foi cuidar de sua morte, e não o perdoamos por isso. Sonho com o dia que o pensamento terá a curvatura de um vaso chinês quebrado. Faço possível para ver, serei despedaçado em corpo, como agora já o sou ainda que discretamente. O corpo não fala, os átomos do corpo sangram.

VOZ 1

O corpo sangra, como sangra o cérebro de um homem enquanto sonha. O Deus maligno enfeitiça os triângulos e as equações, a certeza e a objetividade só sobrou aos mortos. É preciso morrer, assim: anular o corpo, matá-lo escrevendo-o em fórmulas exatas. É preciso duvidar — sobretudo do que na palavra é pássaro.

 

VOZ 2

Sobretudo o que na palavra é pássaro. “Pensar é estar doente dos olhos” e dos nervos, é infectar o nervo, escavar a nódoa da angústia. A angústia é branca e legítima. Só um homem doente não é angústia a todo instante — um corpo que pensa.

VOZ 1

Não sou eu aquela máquina, digo: esta. Estaquelamáquina, essa coisa externa à coisa-eu que pensa porque não sabe ser outra coisa. Estaquelamáquina: de origem, livre da desinfecção dos relógios. Os relógios salvaram o mundo da repetição. Os relógios orderam os ciclos em tal enlace que retificou o tempo, tornou-o uma seta. A máquina-mundo, eu não sou aquela máquina, não as suas engrenagens. Sou, sim, como a estrutura eólica, o movimento lógico, não-analógico, o alinhave numérico, a configuração por detrás do que você come e voa com os olhos, nada é igual ao que você vê.

 

VOZ 2

Nada é igual ao que eu vejo, o mundo é o cheiro azul-azedo-áspero-e-rouco do vento se destroncando nossa pele pulsando soltando o invisível pó, que é o que de cada humano resta no mundo, pois é isso que resta, e não qualquer número ou lógica que por acaso tenha obturado, escondido os rasgos da tapera que somos enquanto somos.

Enquanto isso, dois tumores (cada um instalado no corpo de cada

uma das vozes) iniciam os trabalhos, nem lógico, nem ilógico,
…………………………………………………………….apenas iniciam seus trabalhos alheio

 

Wesley Peres, autor de ROMANCE: As Pequenas Mortes (Rocco, 2013), Casa entre Vértebras (Record, 2007), finalista do Prêmio São Paulo 2008, vencedor do Prêmio Sesc de Melhor Romance 2006 e indicado ao Portugal Telecom 2008. POESIA: Palimpsestos (Editora da UFG 2007); Rio Revoando (USP/Com-Arte 2003), Água Anônima (AGEPEL, 2002).É também psicanalista, Doutor em Psicologia Clínica e Cultura pela Universidade de Brasilia (UnB); Mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Mora, atualmente, em Catalão-GO.

 

 

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111ª Leva - 05/2016 Destaques Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

CRIOLO – AINDA HÁ TEMPO

 

Capa Criolo

 

O messias do Grajaú está de volta para revigorar seu primeiro “sermão da periferia”. Lançado há 10 anos, com distribuição de pífias 500 cópias e repercussão reservada à orbe hip-hop, Ainda Há Tempo (2006) – primeiro álbum de Criolo (ainda Doido) – ganhou uma versão redux (apresenta apenas 8 das 22 faixas originais) em maio, pelo selo Oloko Records. O que poderia ser tão somente uma reedição remasterizada de um dos registros mais expressivos do rap nacional tornou-se uma nova versão – ainda que diminuta – que carrega o suprassumo do álbum de outrora. Se o rapper economizou no número de canções e na divisão dos vocais (há apenas a participação de Rael), abusou nas parcerias técnicas: cada faixa é assinada por um produtor diferente, o que, de certa forma, garante um frescor ao disco, novamente sob supervisão derradeira de Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral.

Como diz Criolo ao final de Tô Pra Ver: “2016. Eu escrevi essas músicas há 15 anos atrás e nada mudou, Senhor (…)”. Além dos beats, pouco mudou nesta versão compacta de Ainda Há Tempo. E talvez seja este o intuito: simplesmente formatar aquela proliferação de vinhetas e argumentos (mesmo que bons) que seriam dissecados em Nó Na Orelha (2011) e Convoque Seu Buda (2014). Sente-se a ausência de algumas canções importantes que ficaram de fora da obra, caso de Rap É Forte, No Sapatinho e Aprendiz. Parafraseando o artista, “o que você quer, nem sempre condiz com que o outro sente” [necessidade de expressar].

É o Teste (more aonde for/viva o que viver/seja um homem/e mantenha a sua postura), repaginada por Nave, abre o álbum com um discurso positivo diante das desventuras cotidianas, comprovando que “sobreviver é só pros fortes”. Na sequência, Chuva Ácida (peixes mutantes invadindo o congresso/vomitando poluentes com o logotipo impresso/B e R, quem é do mangue não esquece/as vítimas perecem, as famílias enlouquecem), revitalizada por Sala 70, talvez seja a melhor canção do remake, fazendo jus a sua atualização (originalmente composta por Criolo para um concurso sobre meio ambiente) traz referências – em forma de pequenos depoimentos – ao desastre ambiental da cidade de Mariana (MG). Enquanto o reggae-rap Tô Pra Ver (tô pra ver um daqui sucumbir/você pode até sorrir mas no final vai chorar) tem a produção de Grou e repete a participação de Rael (que na primeira versão do álbum ainda era Da Rima), Bréaco (só pode falar de vida quem vive/só pode falar de sofrimento quem sofre/só pode falar de amor quem ama/só pode falar de flow quem desenvolve), produção de Deryck Cabrera, manteve o astral original através de uma bateria eletrônica marcante.

 

Criolo
DJ Marco, Criolo e DJ DanDan / Foto: divulgação

 

Em Até Me Emocionei (então, pra falar do que sinto cantei/cantei, me expus e até me emocionei), revigorada por Sem Grana – onde Ganjaman assume os backing-vocals –, Criolo explica por que “o homem é um animal que está sempre em conflito com a mente”. Em contrapartida, a sempre empolgante Demorô, produzida desta vez por Papatinho, perdeu a potência, tanto da versão original quanto da registrada no CD/DVD Criolo & EmicidaAo Vivo (2013), marcada por um vigoroso solo de guitarra de Guilherme Held. O mesmo aconteceu com a pró-AA Vasilhame (o governo libera porque lucra com isso/e a gente toma cachaça até no aniversário de Cristo) – presente no CD Criolo Doido: Live in SP (2008) –, recriada pela dupla Tropkilazz, ponto alto em vários shows do artista. Se a versão submergiu na empolgação, ganhou no politicamente correto. Originalmente, certos versos diziam: “Os travecos tão aí, oh! Alguém vai se iludir!”. Ao compreender o sentido pejorativo do termo, o MC admitiu a imaturidade da letra e resolveu alterá-la para a palavra “universo”. A propósito, Criolo e DJ DanDan aproveitaram seu último show no festival João Rock, em Ribeirão Preto (SP), para convidar o público a condenar a tríade do preconceito: racismo, machismo e homofobia. Por fim, a homônima Ainda Há Tempo (as pessoas não são más, mano/elas só estão perdidas), primeiro single liberado, quase cantado à capela, produzido por Ganjaman e Cabral, encerra o álbum em ritmo esperançoso: “não quero ver você triste assim, não. Que a minha música possa te levar amor”.

Concebido inicialmente para celebrar os 10 anos de Ainda Há Tempo, uma vez que o registro nunca teve sequer um show de lançamento ou uma turnê, a ideia ganhou formato físico após o envolvimento de diversos nomes, tais como o do grafiteiro Alexandre Orion, que assina a direção de arte do projeto. Recebido sem muito alarde por fãs e críticos (sempre ávidos por novidades vindas da fonte do rapper, que parece nunca secar), o álbum, como de costume, está disponível para audição e download gratuito no site do artista. É interessante perceber que há uma década a poesia abstrata do profeta do rap já apontava a miséria, o desamor e o consumo de drogas pela bancarrota da humanidade. De fato, quase nada mudou. Ainda há lamento.

 

 

 

Larissa Mendes perde a rima, mas não perde a resenha. Em tempo: tal como o álbum de Criolo, a Diversos Afins também comemora 10 anos de estrada em 2016. Ao contrário, de lá pra cá, muita coisa mudou [para melhor] e o orgulho em contribuir com a causa de Fabrício e Leila só cresce. Parabéns pelas bodas de estanho. Vida longa e levas prósperas.