Mad Max: Estrada da Fúria, de George Miller, foi realmente a maior surpresa do cinema de 2015. Quarto filme de uma franquia que tem muitos fãs, mas foi subestimada pela crítica especializada, este último episódio, no entanto, recebeu uma aclamação generalizada e esteve presente em praticamente todas as listas de melhores filmes do ano passado, inclusive das mais prestigiosas revistas, tais como Cahiers du Cinema (5º lugar) e Sound and Sight (3º lugar). Em 2016, tornou-se o filme mais premiado do Oscar.
Mad Max iniciou por ser uma série de ação de ficção científica distópica de comparativo baixo orçamento (380 mil dólares), mas que rendeu mais de 150 milhões nas bilheterias no filme de estreia. Esse filme, criado ainda nos anos 70, narra um futuro pós-apocalíptico dominado por gangues violentas. Desde o início, os automóveis têm uma função de protagonistas, como máquinas mortíferas. George Miller, antes de se tornar diretor, era um médico de hospital na Austrália que atendeu a vários acidentados e perdeu amigos em desastres de carros. Vivia-se na época sob os efeitos da crise do petróleo e da “revolução conservadora”. Toda a série oscila entre certo fascínio mórbido pelo automóvel e, ao mesmo tempo, como um libelo contra sua existência. O automóvel é, ainda mais do que o protagonista Max Rocktanski, o herói e o vilão dos filmes.
Formalmente, o filme ganhou fama por sustentar uma estética “thrash”, de filme “B”, de uma rudeza cinematográfica semipunk. Poderíamos chamar essa estética de “brutalista”. O primeiro filme (1979) se assemelha a um “Laranja Mecânica” tosco, realizado com poucos recursos, e abordando uma sociedade sem lei. Miller se mirou na cinematografia dos filmes mudos e fez um enredo de poucos diálogos para apresentar um cenário ainda mais desumanizante e com muita violência, quase sempre insólita e desmotivada, o que fez alguns críticos o denunciarem como contendo uma estética fascistoide, o que nunca foi intenção de Miller. Os outros dois filmes da série (em 1981 e 1985) tiveram maior orçamento e foram realizados dentro de uma crescente espetacularização cênica, transformando-se em sucessos comerciais e parecendo saturar sua fórmula cinematográfica ainda nos anos 80.
Estrada da Fúria é o “renascimento da franquia” (o termo é de seu diretor e roteirista) exatos 30 anos depois que propõe uma nova síntese estética que espantou os críticos e desnorteou seus admiradores. Uma de suas principais virtudes é Miller ter se recusado a realizar um “retorno às raízes”, ou a rescrever o primeiro filme de outra forma (“remake”), como fez o decepcionante The Force Awakens, da série Guerra das Estrelas, apenas uma versão “século XXI” do filme inicial. O novo filme da franquia Mad Max não é apenas o “mais do mesmo”, mas segue uma nova e radical concepção que atualiza a série para novas direções, fortemente politizadas.
A síntese estética que Miller propõe não é um retorno à rudeza básica de baixo custo do filme de abertura, mas é subir no nível de espetacularização (é o filme mais caro) e levá-la para um patamar de excesso audiovisual, não propriamente kitsch ou “thrash”, mas de “grotesco espetacular”, ou “hipergrotesco”, um excedente imagético-sensorial que a todo momento perturba a ordem blockbuster da realização cinematográfica do filme de ação comercial. Importante anotar que a obra é fruto de um trabalho de mais de dez anos (desde 2003), tendo sido concebida, escrita e reescrita pelo próprio diretor e com vários atores diferentes convidados para fazer o papel de Max, já que Mel Gibson desde o início se recusou a continuar na série. Mesmo depois de tudo acertado em 2010 (com Tom Hardy como protagonista), a produção ainda envolveu outros longos 5 anos.
Charlize Theron em Mad Max / Foto: divulgação
Wasteland aparece neste novo filme como um cenário realmente pós-apocalíptico que sucede um grande desastre nuclear. Max é apenas mais um dos que procuram desesperadamente sobreviver. Ele é capturado logo no início pelos “Garotos da guerra” (War boys) e se torna uma “bolsa de sangue”, um doador universal, que fornece sangue a um garoto doentio, Nux que como seus pares está sempre “trincado”. Ele é obrigado a sair com este e sua gangue atrás da Imperatriz Furiosa que sequestrou um Caminhão de guerra para libertar as parideiras do cativeiro sexual do terrível líder Immortan Joe, que domina a miserável população sobrevivente pelo controle da água. Max consegue, no entanto, “mudar de lado”, se alia às mulheres fugitivas e o filme inteiro será essa longa fuga motorizada e sanguinária pelo meio de desérticas e destruídas paisagens.
Com esse enredo simples e distópico, Estrada da Fúria bem poderia se chamar de “Bem vindos ao deserto do Antropoceno”. O filme é cinematograficamente uma intensa alegoria audiovisual desse processo terminal de destruição ecológica e rarefação absoluta dos ecossistemas que desertificam, com a escassez das variedades naturais, sobretudo da água, extinção acelerada das espécies, tudo isso acompanhado pela implosão civilizacional com fascistização do poder, com a guerra permanente, com o domínio das máquinas que se tornam mais importantes do que a humanidade, e com a regressão política para enclaves feudais e tirânicos. A grande sacada do filme é trazer pela alegoria barroca do hipergrotesco e do brutalismo espetacular a distopia para o centro do contemporâneo, pois como tantos bons filmes de ficção científica o futuro é apenas encenado como pretexto para discutir o presente.
Miller consegue isso polarizando os eixos de oposições nos quais o filme se estrutura: a água contra a gasolina, a fuga contra a tirania, a sobrevivência contra o parasitismo, o deserto contra a cidadela, o solitário contra as gangues, o leite contra o sangue, o poder feminino contra o patriarcado e o caminhão contra o automóvel. É claro que, como filme de ação, a narrativa tende para o maniqueísmo e para a oposição simples entre os contrários, mas certas nuances tornam mais complexa a trama.
Por exemplo, a luta entre o caminhão de guerra, conduzido pela Imperatriz com as parideiras, e os inúmeros autos e motocicletas que o perseguem pelo deserto. O caminhão aqui é o signo da coletividade e do “trabalho” enquanto os demais veículos são signos do individualismo e da competição. O caminhão une e reúne as fugitivas e o fugitivo, enquanto a miríade de veículos dispersam seus inimigos.
Mas a polarização mais intensa, dialética e importante é, sem dúvida, a luta entre o poder feminino coletivo e o patriarcado despótico e fascista. Curiosamente, muitos fãs originais da série sentiram-se decepcionados porque o herói natural da franquia, Max, é tornado um mero coadjuvante dessa luta principal. Mas esse deslocamento é que traz o principal interesse político à obra.
Charlize Theron (direita) na pele da Imperatriz Furiosa / Foto: divulgação
Imperatriz Furiosa (vivida por Charlize Theron) é uma guerrilheira que parece saída do Manifesto Ciborgue de Donna Haraway (o filme todo parece uma reflexão cinematográfica sobre a obra da bióloga e filósofa americana): com sua prótese manual, ela parece gozar dessa típica indistinção de fronteiras entre o inorgânico e o vital, entre o humano e a máquina e entre o masculino e o feminino. Mas Imperatriz Furiosa é essencialmente uma guerrilheira mulher que sabota o patriarcado tirânico para dar fuga às parideiras da Cidadela, mulheres cativas que parem os filhos de Immortan Joe, e trazer-lhes a “redenção”, palavra que tem um sentido especial no filme.
Immortan Joe, o tirano, parece, por sua vez, saído diretamente da obra freudiana. Ele é uma encarnação do mito do “Pai da horda primordial”. É como se George Miller quisesse mostrar que a regressão política pós-capitalista conduz a esse Pai mítico primordial que estupra e mantém em cativeiro as mulheres, servindo-se de seus corpos e de seu leite, para recriar a horda como seus filhos bastardos, pois há a sugestão que todos os Garotos de guerra são seus filhos. A regressão política distópica então é um retorno ao patriarcado mais primal que mantém a ordem matriarcal e filial sob sequestro e permanente terror.
Assim, é Imperatriz Furiosa (insuspeitável guerreira cativa do exército de Immortan Joe) a verdadeira protagonista do filme e o desvio de rota que ela induz ao manejar com mestria o caminhão de guerra é uma fuga do patriarcado, do cativeiro e uma busca por redenção. A associação das mulheres com Max, no entanto, não se dá naturalmente, mesmo sendo este apenas outro prisioneiro cativo. Um dos elementos dramatúrgicos mais interessantes no filme é justamente a aproximação entre essas duas lutas de sobrevivência, de Max e das mulheres parideiras. A princípio, há uma hostilidade e mesmo uma disputa entre as partes e quando se vê livre, em sua busca desesperada para sobreviver, Max irá desafiar, brigar e ameaçar as mulheres. Afinal, ele próprio é um representante do poder masculino patriarcal e não tem a confiança das fugitivas, nem ele tem delas. Entretanto, a disputa tensa entre as partes se resolve com a consciência de que uma aliança entre as parideiras e o homem fugitivo é a única possibilidade de sobrevivência para todos. Mais tarde ao grupo também se incluirá, por aliança, um dos Garotos de guerra, Nux. É este jogo de alianças difíceis, mas estratégicas, um dos elementos políticos mais importantes desse enredo. Estrada da Fúria nos fala que não é possível enfrentar um sistema despótico sem fazer alianças estratégicas.
Tom Hardy como Max / Foto: divulgação
Outra aliança é construída entre o grupo fugitivo e as Vulvalini, guerrilheiras mulheres que encontram os fugitivos no meio do deserto, onde supostamente deveria estar o “Lugar Verde”, terra idílica onde cessaria a fuga e terra da infância de Imperatriz que foi sequestrada enquanto criança. Essas guerrilheiras, únicas sobreviventes da destruição local, são uma clara referência às guerrilheiras curdas, heroínas da guerra da Síria. Elas se juntam para fugir com a trupe e procurar outro paraíso verde sobre a Terra, mas sem Max que segue para outra direção.
Um dos momentos mais tensos do roteiro é quando Max reencontra as mulheres em fuga para lhes convencer a retornar à Cidadela já que esta se encontra indefesa, pois afinal a Cidadela tem água e vegetação, que são mantidas sobre o controle do tirano. Esse retorno não seria extremamente arriscado e contraditório para a lógica emancipatória do filme que coloca a redenção sob a forma de uma fuga constante? Mesmo o argumento de Max de que não há mais paraíso sobre a Terra, apenas planícies desérticas, não parece realmente convincente.
Talvez pudéssemos entender essa solução – que terá consequências trágicas – como algo mais do que uma maneira de tornar o roteiro dramático. Voltando a Donna Haraway, um dos seus maiores temas é “lutar na barriga do monstro”. Não é a decisão de retornar à Cidadela, por trágica que seja, exatamente o passo para abandonar a lógica do exílio e da fuga e voltar a lutar na barriga do monstro e nos centros das cidades? Pois, se há um sentido possível para as batalhas a serem travadas neste fim do Antropoceno, que alguns também chamam de Capitaloceno, é que não há fuga possível de nossos mais críticos problemas e de nossos mais poderosos inimigos neste planeta finito.
Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor. É autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Ed. Oito e Meio/2014), e um dos organizadores do coletivo literário Clube da Leitura no Rio de Janeiro, tendo participado como autor e editor das três coletâneas lançadas pelo grupo. Atualmente, é doutorando em Teoria Literária da UERJ, onde realiza pesquisa sobre a aproximação entre Literatura e Ciência. Escreve sobre cinema desde 1995, quando recebeu um prêmio de crítica literária do Grupo Estação e do Jornal do Brasil num ensaio sobre o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.
Eis que aqui de volta
de mim e de si, e os dois já dizem:
(eu)
por onde e longe pari,
uma consciência
de sumidouro
ciência de construir o artefato
– a óbvia arte do inexato –
que exaure a hora em aura
(tão calma!)
do Existir.
***
A MAIS ATADA À TUA PALAVRA
Presa dela
Garras que cortam, ventando,
Tua palavra é meu interno labirinto
Onde as sílabas
Sonâmbulas
Implodem, balsas no porto do pesadelo.
Que me doeria mais o passo que tua palavra?
Ora, sabes que sim…
Mas a ideia tão deslizante que em um “nós” é tornada
Retoma a luz do que fora dito:
Aquela luz
Lembra-a para mim, ah,
Como no princípio, em que o Verbo erra!
***
LUZ DE ESPERA
A sala era imensa
E se estendia pela avenida
Onde luzes debruçadas nas calçadas
Moviam-se pela insônia indiscreta do crepúsculo.
O último homem da terra nesse instante
Sorriu para um pretenso deus morto
E o sol se desvestiu de luz
Buscando
Perdida já qualquer possibilidade de lirismo
sua última sílaba de vida.
(Passando de o Beco de Ávila, Tijuca, jan, 2015).
***
CANTO DE VISÃO
p/ a poeta máxima Else Lasker-Schüler
A voz, mais do que o olhar,
É que é o espelho da alma.
Por isso me calo
Frente ao mundo errático:
Deixo-o soar, enfático
E com meu único existir – sináptico –
Eu Fico.
***
SOUSANDANÇACRUZ
Clara, clara, mas de pulsar mortal,
Fria-se o que me dói em tua morte, sem violência
Que a essência é fátua, nua e fantasmal
E tua sorte é dom de ver em sepulcral vidência.
Canto sagrado, rachado ao meio de mim
Teu arado de prata é mãe novata de luzes
Cruzes de vileza
Dorme o sono do profundo sem fim
Sidéria Astarte que nos inocula
Escura luxúria
E Spleen.
***
ALMA-LÂMINA
a palavra alma
está estrategicamente (es)contida
na palavra lâmina.
Marianne Liuba Löhnhoff, que assina literariamente Mariana L.,nasceu do Rio de Janeiro. Cursou dois anos de Filosofia na USP e Letras na Universidade de Albstadt-Sigmaringen, na Alemanha. Trabalha como tradutora e professora de Línguas, vive entre São Paulo e Rio. Publicou em revistas como a Germina e a Revista de Artes da Kazuá. Lançou, em dezembro de 2014 pela Editora Kazuá, seu livro “A Mais Atada à Tua Palavra – O Caderno de Mariana L., em Mãos, Seguido de Avulsos do Poeta B”, que tem a organização, prefácio e posfácio do poeta Luciano Garcez. Prepara o lançamento de seu segundo livro para fins de 2016, baseado na lenda de Fausto: “Kleine Faust”.
Pesquisadores investigam por que, poucos anos depois da introdução do Like na sociosfera, a Conversa e o Entendimento entraram para a lista de espécies ameaçadas de extinção.
Muito preocupados, alguns cientistas recomendam que, nas zonas mais infestadas por Likes, as pessoas coloquem seus smartphones em modo avião. O procedimento costuma manter esses animais afastados um do outro, evitando assim que copulem e se proliferem ao longo do chamado circuito sedutor das redes sociais, área onde reside hoje pouco mais de metade de toda a população brasileira.
Nas regiões em que esse método já foi testado, Conversas de 20 minutos, até então praticamente extintas no local, começaram a ser vistas com frequência novamente. Pelo menos meia dúzia de pessoas declararam ter interagido com elas no jardim ou no quintal da própria casa.
Os especialistas responsáveis pelo projeto estão bastante otimistas com esses resultados iniciais e vivem a expectativa de encontrar a qualquer instante Conversas de 1, 2 e até 3 horas de duração. Com um de pouco sorte, afirmam ser possível achar inclusive algum Entendimento entre elas. O planeta agradece.
***
FORMAS DE RESISTIR
Ocupamo-nos todos demais e fazemos ruído demais, procurando um modo de escapar ao inquérito do silêncio. Há tantas questões… Respondê-las não cabe em uma só vida, e nós não temos tempo, é preciso viver. Alguns ainda se calam e se trancam em monastérios, cumprindo os seus rituais sem uma palavra sequer, e mesmo assim não estão alertas o bastante: a liturgia, afinal, exige toda a sua atenção. Compreensível, é realmente duro aceitar tudo como o silêncio nos pede, sem desviar o olhar de nada – as coisas incertas nos parecem más e a certeza do mal nos faz crer que o bem existe.
***
O ANACORETA
Foi no parque da cidade, o sol entre névoas dormente ainda, no instante seguinte ao coro da alvorada, quando tudo aquieta e sonda, de si para si, a glória e o terror de um novo dia, o velho professor, ali, na hora em que, por demente ou asceta, sempre se ausentava do cotidiano, resolvera: queria continuar com a manhã.
Esperou o amém de um louva-a-deus para sorte e fez a imaginação correr com um riacho – concebera dar leito às suas visagens, que pudessem se por, uma após da outra, de volta ao sonho, e narrar desde quando renasciam, multiformes e afoitas.
O córrego porém, vadiando em peraltices e folguedos, fez do venerável repetente e barroco: labirinto, de cuja libertação precisou rogar a uma formiga, pelo atentar à sua trilha, para logo a descobrir tão alheia ao enredo quanto ele: a saúva, à paisana, gozava um feriado.
Só lhe restasse então aventurar o devaneio no voo de um pássaro, de modo a lhe dar destino.
Não demorou muito, um sabiá apareceu na boca da mata sobre um galho de marianeira. Eis a sua melhor oportunidade, pronto pensou, pois, além de lhes fazer sentido, a ave colocaria ainda um canto em suas palavras. Determinou-se. Fixou os olhos no pássaro, segurou o meu braço com força e, levando aos lábios o indicador em riste, arrastou-me para dentro do seu silêncio. Era uma questão de vida ou morte, pude sentir, arremeter com o caraxué.
Setembro, com tudo, conspirava contra nós: a temporada havia posto em cada ramo uma farta porção de bagas, e o sabiá, alheio ao velho mestre, já não tinha mais o que buscar no restante do ensolarado – o anacoreta precisaria de uma outra ave, de uma espécie tão estrangeira quanto a dele.
Foi afrouxando os dedos, devagarinho e derrotado, mas sem soltar de todo o meu pulso, pois não se havia seguro vagando sozinho no ermo que o acometia. Logo adiante, à nossa esquerda, observou uma vasta campina de flores desaparecidas; deixou perambular nela o olhar perdido: alguns canários colhiam sementes na gramínea madura; refastelavam-se também noivinhas e cardeais…
Nem nenhuma dessas aves, com tanto, emigrava!
“Elas ao nada se destinam, eu ao nada me destino, e nem você vai mais ao nada além do nada me destinar, em parágrafo algum”, falou finalmente, quase de áspero.
Héber Salesescreve. Natural de Pernambuco, reside atualmente em São Paulo, onde coordena o Grupo de Pesquisa em Semiótica Aplicada do UNASP (Centro Universitário Adventista) e atua como professor e publicitário. Seus poemas, ensaios, prosas e entrevistas têm sido publicados em periódicos como Germina, Cronópios, Mallamargens, Digestivo Cultural e aqui, no Diversos Afins. Alguns dos seus textos também podem ser encontrados no blog coisas para fazer com palavras. Tráfico de Drogas, seu primeiro livro de poesia, será lançado em breve.
A primeira vez que te vi
não teve a Teresa
de Manuel Bandeira
Eram minhas as pernas estúpidas
Eu andava em L
feito cavalo de xadrez
Eu tava com o dedão do pé inflamado
por conta de um alicate não esterilizado
Eu tava descalça
por conta do dedão inflamado
e do alicate não esterilizado
Eu pensava num roteiro
prum filme de ação iraniano
Eu carregava o cartão de um marceneiro
pra que ele derrubasse as certezas
que eu ninava na parte de cima do beliche
Eu quis te fazer uma carícia pela metade
e te receitar suplementos vitamínicos
aqueles cheios de abecedário
Pra que entre nossas palavras
cruzadas
os espaços fossem grandes demais
para fim
***
Esse teu gosto por contravenção
Teu talão de zona azul escondido
entre dobras de bebês recém-nascidos
Tua impressão digital no copo de isopor
que apita ardido quando mastigado
Teus retalhos disfarçados
num tom Flicts do Ziraldo
Tua costura remendada
com fios de pescar tainhas
que antes nadavam na banheira
dum velho militar aposentado
Tua mais bonita caricatura:
a loucura
me disse um dia:
eu te amo
Eu não acreditei
***
Tenho o nome de outro cara
tatuado no cóccix
caso você queira saber
antes de tirar a minha roupa
que as coisas pra mim
mesmo as que não se apagam
não duram muito tempo
***
De esquinas engarrafadas de guarda-chuvas
De porteiros noturnos sozinhos em guaritas
De famílias de policiais abatidos
De trincheiras incorporadas a mapas
De sofás lotados de manifestantes
De máquinas de pinball ao som do The Who
De bilhetes só de ida
De divãs lotados de arquétipos
De roupas pingando no varal
De cem flexões em espreguiçadeiras
De chaves rodando em falso
De sessões da tarde sem Ferris Bueller
De índices bovespa de dores crônicas
De garotos café-com-leite em jogos de queimada
De novas grafias para palavras em desuso
De radares avariados por pedras
De best sellers sem Peter Sellers
De Bruce Willis desistindo
de uma vez por todas
de salvar o mundo
***
A gente envelhece
dormindo às dez
acordando às seis
ameaçando pernilongos em voz alta
antes de errar o tapa
A gente envelhece
medindo a circunferência do braço
evitando usar regatas
se cadastrando em site de receitas
e consultando horóscopos
A gente envelhece
dormindo de meias
falando pra manicure
no pé um rosinha básico
A gente envelhece
cantarolando a música
de Ao mestre com carinho
descobrindo na wikipedia
que o sidney poitier
ainda tá vivo
A gente envelhece
recusando convites
lembrando que piqueniques
eram chamados de convescotes
nos clássicos que não lemos
A gente envelhece
gerundiando
esperando uma oferta incrível
da garota do telemarketing
***
Os primeiros planos
para saídas de emergência
traçados ainda
nas barrigas de nossas mães
falharam
E completamos
diariamente
40 anos
ou mais
em meio à multidão
que corre
sabe-se lá para onde
nos labirintos arquitetados
da estação
sem luz
Adriana Brunstein é PhD em física, escritora, dramaturga e roteirista, com trabalhos em várias vertentes e meios da comunicação. Ganhou o prêmio HQMIX 2008 de melhor roteirista nacional pelo roteiro da Graphic Novel Prontuário 666 – Os Anos de Cárcere de Zé do Caixão e foi contemplada no 13º Cultura Inglesa Festival pelo roteiro do curta-metragem Olhos de Fuligem. Publicou o romance Estado Fundamental. Vive em São Paulo.
A voz que não cala diante dos impropérios do mundo também pode ser a mesma que silencia para efeito de necessárias contemplações. Ao poeta, cabe a delicada tarefa de equilibrar imperativos da razão com os apelos do sentimento. Está em jogo a necessidade de que ele se posicione diante do meio que o circunda, fomentando a ideia de que é um ser não dissociado dos fatores notadamente históricos, sociais e políticos.
Quando vemos desfilar ante nossos olhos a trajetória de um autor como Alex Simões, percebemos que estar no mundo não é um ato acidental. Há que se vislumbrar a consciência de dois polos de pretensão: o observar e o agir. Para Alex, observar é olhar detidamente para um tudo que nos abraça mesmo involuntariamente. Num outro eixo, agir é estar consciente de que a arte é ferramenta de mobilização ativa no que tange à construção de uma sociedade sob as suas mais variadas vertentes.
Artífice da palavra, Alex privilegia a forma como mola propulsora da criação para depois demarcar os territórios do conteúdo. O que resulta dessa conjugação é uma obra cujos domínios posicionam seu criador como um dos mais vigorosos representantes da moderna poesia brasileira.
De fato, o poeta a quem entrevistamos agora sabe o que dizer. Seus versos configuram uma representação de que estar no mundo é também uma questão fundamental de defender pontos de vista. E não esperemos dele o esteta que se deslumbra com os elementos plásticos e superficiais de seu ofício, aquele bem distanciado do público em geral, como se habitasse um olimpo da criação. Pelo contrário, a afirmação de uma identidade enquanto sujeito pensante, crítico e lúcido torna suas vias literárias notadamente mundanas, sobretudo porque tem a consciência de sua voz, seu corpo e seu tempo.
Nascido em Salvador, Bahia, Alex Simões é pungentemente poeta e performer. Especialmente, a fusão entre essas duas frentes de atuação desemboca nas assim chamadas poerformances. Nelas, o poeta expõe, pelos trajetos da mente e do corpo, o seu valioso desejo de aproximação com seus semelhantes, quebrando paradigmas, dessacralizando a poesia e tornando-a um instrumento de partilha social. São de sua autoria os livros “Quarenta e Uns Sonetos Catados” (2013) e “(hai)céufies” (2014). É também professor e tradutor e, desde os anos 90, integrou várias revistas e antologias literárias dentro e fora do Brasil.
Ainda sob o efeito do seu mais recente livro, “Contrassonetos: catados & via vândala” (Ed. Mondrongo – 2015), Alex dialoga conosco sobre uma vasta gama de temas. Uma conversa que perpassa também a sua construção social e política enquanto sujeito que recusa um ideal de poesia que não seja reflexo do mundo no qual vive. Nesse ínterim, há o testemunho do autor diante dos aspectos que atravessam marcantemente sua obra, mas irrompe sobremaneira o olhar de um alguém devotado às questões que o tornam demasiadamente humano.
Alex Simões / Foto: Ricardo Prado
DA – Na leitura do seu mais recente livro de poemas, chama atenção a harmonia marcante entre aspectos formais e de conteúdo, uma característica sua. E não há facilidades nesse seu caminho em direção ao leitor, tampouco conduções herméticas. O que dizer desse rumo?
ALEX SIMÕES – De fato, é uma característica. Eu parto fundamentalmente da forma, e é meio complicado dizer isso, mas parto dela. Esteticamente, penso em termos de poesia. Em projetos estéticos em geral, penso a partir de formas. Escrevo coisas muito diferentes de sonetos. Versos livres, haicais, baladas, enfim. Mas eu geralmente penso na forma que vou usar. Essa adequação entre forma e conteúdo é mais do que uma adequação. Existe uma organicidade que foi conquistada. E fico muito lisonjeado quando isso é reconhecido porque, às vezes, quando falam de mim, ressaltam muito essa condição de ser expertise, de ser um bom formalista, mas na verdade não é o que me interessa. É importante, sim, o domínio da linguagem, mas me interessa mesmo é dizer coisas. Eu procuro pensar de modo muito simultâneo, ou seja, que há formas adequadas de dizer certas coisas. Esse livro mais recente é um livro que tem 23 anos de história e você vai encontrar sonetos que dizem coisas lindas, mas que são mais formais, e que havia uma maior facilidade em direção ao leitor, além de trabalhos mais recentes, nos quais eu trago tanto um rigor no sentido de pesquisar e trazer a minha língua cotidiana para essa forma fixa, tradicional, ao mesmo tempo em que há esse respeito ao leitor. Quando você cria, surge um público e você gera uma relação de intimidade com a forma e a linguagem. Essa harmonia que você definiu é reflexo disso, duma relação que é muito antiga com a poesia e que se reflete em diversas formas e relações. A mais antiga e consistente é o soneto, mas também tenho esse outro lado de experimentar e, quando estou muito confortável, buscar outras maneiras de quebrar essa minha intimidade, de criar disrupturas. Não me constituir um poeta de linguagem hermética, ao mesmo tempo em que não facilito, é um equilíbrio que está muito na preocupação em trazer a língua do cotidiano, a mais próxima possível dele. Eu observava que no começo tinha um acento muito lusitano, notando que escrevia de uma forma distinta da minha fala. Passou a ser também uma preocupação, ao mesmo tempo em que venho trazendo temas e questões as quais criam uma tensão nessa busca por uma linguagem mais simples. E, às vezes, certas questões não podem ser ditas com total simplicidade. Acho que essa tensão também é produtiva por isso.
DA – Essa questão toda faz pensar sobre uma certa obsessão que alguns têm em dizer que a elaboração do poema é uma mera construção matemática, uma disposição de arranjos. Ao poeta, há que se deixar transbordar o sentimento?
ALEX SIMÕES – Essa discussão é antiga e, digamos, eu tendo mais para o lado cabralino, nessa coisa entre poeta possesso e poeta cerebral (nunca lembro ao certo quais categorias são mencionadas por João Cabral de Melo Neto). Eu já escrevi do jeito “vou fazer uma coisa movido”, mas no meu caso chegou um momento em que isso parou de funcionar. Geralmente, penso, fico maturando muito o que vou fazer. E tenho, sim, esse lado matemático, e não sei se serve pra mim, pois sou péssimo em matemática (risos). Há uma certa obsessão em ter algum controle sobre o processo e ficar maturando. Por exemplo, eu tenho uma encomenda, que é entregar uns poemas para uma revista, e não quero pegar coisas já prontas. E fico pensando muito em como vai ser. O sentimento está aí. Eu sou uma pessoa controlada por ele. Isso me governa. O sentimento tanto vai atravessar isso, porque ele antecede o planejamento, ele me constitui como pessoa, e também porque é uma construção. Essa capacidade de construir sentimentos através da linguagem é um processo de exercício. Exercitamos a capacidade de dizer coisas. Vou dar um exemplo concreto e relativamente recente. Participei de um processo de seleção, no qual mandei um projeto de poemas, e tirei uma nota muito baixa na minha avaliação pessoal. Foi algo abaixo da média. Foi um poema que escrevi muito puto, chamado “Balada de um poeta ruim para si mesmo”, e ali tem muito de uma frustração, uma chateação, irritação, mas é usando terça rima, fazendo referências a Dante, pensando num mote em que eu desenvolvo, e vou falando nisso ao longo do poema, e que está em “O Demônio da Teoria”, de Antoine Compagnon. Meu sentimento transborda também aí. Também tenho uma formação acadêmica e erudita, algum conhecimento legitimado que me atravessa, e meu sentimento vai através desse repertório. Não concordo com a ideia de que há que se controlar o poeta. A poesia é permeada por sentimentos, sim, mas em matéria de estética e ciência a gente não pode nunca dizer “tem de ser assim”. Tem de se ter liberdade de fazer qualquer coisa, inclusive abrir mão desse negócio de sentimento. No meu caso, não preciso ter controle de tudo. Já sou essa pessoa transbordada na minha vida pessoal. Então, nas minhas produções, eu tenho minimamente que pensar e planejar, senão é muito caos.
DA – Você acolhe o termo contrassonetos também como uma consciência da sua capacidade de transgressão enquanto criador?
ALEX SIMÕES – Totalmente. Eu conto essa história no livro. Esse termo já existia antes do escritor Ronald Augusto usar. Ele falando do meu livro “Quarenta e Uns Sonetos Catados”, que originou o “Contrassonetos: catados & via vândala”, no qual diz que não gosta de sonetos, mas o que aprecia no meu livro está no fato de serem contrassonetos, por eu não encarnar a persona de sonetista. E tem muitos sentidos aí. Eu me assumo como transgressor em termos políticos, identitários. Faz parte da minha vida. Sou contra- hegemônico, negro, homossexual, e essas questões aparecem inevitavelmente no que eu falo, nas minhas posições, na minha poesia e formalmente. Ao contrário do que pode parecer, esse exercício de dominar a língua do colonizador, usando as formas tradicionais, hegemônicas, não é um fim em si, mas um meio de dizer coisas, e dizer para públicos outros, que não são os meus pares apenas. Também para minar essa língua por dentro, essa forma por dentro. O que me interessa é dizer “eu sei fazer um soneto bonitinho, mas isso não é o mais importante”. Eu sou poeta. Assim como digo que sou negro e gay, sou poeta. Poeta que pode fazer um soneto, um haicai. Contrassoneto é nesse sentido de transgressão no qual está tudo misturado: ética, estética, política. Eu uso uma forma tradicional, mas não para conservá-la ou dizer assim “gente, com licença, sei fazer”. Foi em um certo momento, não é mais.
DA – As questões de identidade povoam cada vez mais a literatura. Na medida em que se apoiam em atitudes de afirmação política, ideológica, dentre outras, esses posicionamentos são algo fundamentais?
ALEX SIMÕES – São fundamentais e sempre existiram. Quando se há um silenciamento, e isso é comprovado inclusive através de estudos quantitativos nos quais se fazem levantamentos da etnia, da orientação sexual, do que são personagens literários e as referências da literatura brasileira, quando não se menciona certos lugares, a gente está falando de um lugar branco, heterossexual, masculino, de classe média pra cima. Então, nesse sentido não há uma novidade. O que existe em termos de novidade é que à medida que essas discussões, não só no Brasil, mas internacionalmente, dos anos 60 pra cá vêm ganhando corpo, naturalmente isso vem aparecendo mais e são fundamentais desde que não sejam exclusivas, que não virem uma camisa de força. Quando eu digo e repito que sou negro e poeta, não esperem de mim nenhuma performance ou atitude dentro, encarcerada nessas identidades. Temos identidades e identificações. Qualquer estereótipo, qualquer prisão eu recuso e, nesse sentido, cabe meu aspecto transgressor de quebrar expectativas. Há situações nas quais é fundamental a gente se posicionar politicamente pra que não nos tomem como homem branco, heterossexual. É importante mapearmos isso porque falar por falar sem ter um domínio de um repertório, sem ter interlocutores dentro de uma linguagem, sem ler outros poetas e não só os poetas que me interessam, sem possuir o mínimo de conhecimento da linguagem em que estou me metendo, vai virar panfleto puro, e isso não tem valor. Se é para dizer às pessoas apenas que sou negro e gay, é melhor eu escrever um panfleto, e não um poema. Mas poder ter alguma relevância dentro de uma cena, um discurso, e poder falar de um lugar de opressão, denunciar que há um genocídio contra a população negra, homossexual, transexual, LGBT, isso é importante. Na medida em que eu puder dizer que existe um investimento violento contra segmentos minoritários, vou dizer. Eu sou uma exceção à regra. Duas vezes. Mas sempre nessa medida de que, enquanto poeta, eu tenho a liberdade de fazer qualquer coisa, inclusive de não querer falar sobre isso. Não considero que seja covarde o poeta ser negro e não querer falar sobre isso. Ele tem que ter liberdade. A poeta ou a escritora que seja mulher e não queira discutir isso em sua literatura. Não se pode abrir mão dessa liberdade. Não se pode usar camisa de força nem ser considerada literatura menor aquela que é produzida por um poeta que discute isso, inclusive na sua poesia e nos eventos em que participa.
Alex Simões / Foto: Laura Castro
DA – Na transição entre o mundo fragmentado em que vivemos e o papel, de algum modo sua apreensão das coisas é marcada pelo caos?
ALEX SIMÕES – De todos os modos, o que eu produzo é marcado pelo caos, inclusive nessa necessidade de tentar controlar minimamente esse caos que me constitui. Eu sou nietzschiano. Entendo que o caos, a disrupção e a violência são constitutivos da humanidade, da história. São aspectos que nos constituem, e há um esforço histórico em apagar essas questões que são nossas e que não são necessariamente ruins. Tem duas coisas na sua pergunta que me chamam atenção e que talvez precise demarcar em algum momento. É quando você fala em trazer para o papel. Sou um poeta que também vai para o papel, mas que também, cada vez mais, está buscando formas e suportes que são, a princípio, não tradicionais para a poesia. Esse caos é minimamente controlado na unidade livro. Quando a gente pensa em livro, sumariza, topicaliza, dá uma sequência, reflete em termos de gênero. Eu escrevo poesia e isso tem uma repercussão até na forma como a mancha escrita se impõe no texto. É diferente da prosa. Tem um caos que é constituinte, mas que é minimamente organizável quando se escreve dentro dele. A outra questão com o caos é a que passa por outras linguagens, como eu disse antes, e que passa também por um evento chamado Dominicaos, idealizado por Orlando Pinho e Heitor Dantas, e que eu ajudo a desorganizar. Orlando, que é poeta, diz que o caos opera. Eu assumo esse caos e acho que ele é importante, pois é o caos criativo que possibilita as coisas acontecerem com um mínimo de controle para que justifique o fato de eu assinar as coisas que publico, performo e realizo esteticamente. É essa minha capacidade de lidar organicamente e disciplinadamente (risos) com esse caos que justifica minha assinatura. A gente vai aprendendo a conviver com esse caos. Estou falando como artista, mas isso é a vida, pois ela é caótica. Tenho, como qualquer pessoa com 43 anos de idade, tido experiências com o acaso. Vivemos um momento político caótico, tive mortes de familiares. E assim vem o caos e tomamos a consciência de que nós somos desgovernados por excelência. Somos ocidentalmente condicionados à ideia de que a vida tem uma sequência, que as coisas estão minimamente organizadas. É só uma intenção.
DA – Uma outra linha de expressão sua está nas performances poéticas. Que papel elas assumem, sobretudo na sua relação com o externo?
ALEX SIMÕES – Digamos que de quatro anos pra cá isso tem aparecido cada vez mais. O que eu chamo disso é o cruzamento com outras linguagens, inclusive a performance, não só ela. Costumo chamar de poerformance por covardia, por não me assumir como performer, pois está num entrelugar entre performance e poesia, além do que convivo o tempo inteiro com performers, com o pessoal da dança, do teatro, das artes visuais. Meu cotidiano está muito permeado pela convivência com pessoas de linguagens diversas. Sempre tive um pouco de vergonha de me assumir como performer. Tem uma relação, claro, com o externo, mas tem um movimento que é muito relacionado com alguns eventos que eu frequento. Falei do Dominicaos, que não só frequento como também integro o núcleo de produção. Tem também o Sarau Bem Black, Pós-Lida, enfim, uma série de eventos aqui em Salvador que frequento e comecei a falar poesia. Esses três que cito são lugares em que eu via uma vibração com relação à poesia, com a performance, com o modo de falar, que tem muito a ver com o cruzamento de linguagens, caso do Pós-Lida e do Dominicaos, algo que apresenta um olhar mais arejado e contemporâneo da poesia. No caso do Sarau Bem Black, também contemporâneo e ligado a essas questões identitárias que falamos, é um movimento mais internacional, que é do Slam Poetry. Sempre me incomodou muito um certo desinteresse, aquele modo poesia declamatória, como o Wally Salomão gosta de falar ironicamente. A poesia declamatória não desperta, não consigo mais ver uma poesia mais ou menos gritada. É parte de minha pesquisa ver o trabalho dos performers e me sentir afetado, e ter a necessidade de trazer isso para o corpo. Existiam questões que eu via que não eram resolvidas apenas na poesia e, durante muito tempo, eu sofri muito com isso porque demorei muito a me assumir como poeta e artista. Também não entendia direito como era isso de querer fazer coisas diferentes ao mesmo tempo, pois a gente ainda tem uma formação disciplinar de ver isso como um problema. Com o tempo e convivendo com certos artistas, linguagens e olhares, fui percebendo que isso não é um problema necessariamente. A performance é um modo de se relacionar com o externo. No meu caso, estou muito interessado no cruzamento entre poesia e música. Isso não é invenção minha nem desse tempo, é uma relação milenar, mas que tem ganhado força. Faço performances em que cruzo música popular massiva com poesia canônica, cruzo artes visuais com poesia. Tudo isso tem muito a ver como minhas referências. Tem uma série de pessoas, algumas vivas, outras não, que foram impactantes na minha formação. Para falar de um autor vivo e que está muito nessa pegada e próximo de mim é Ricardo Aleixo. Também Joan Brossa, poeta catalão que morreu na virada dos anos 2000, e alguns artistas visuais. Zé Mário, um performer daqui e que hoje está em Brasília, foi extremamente importante nessa minha formação. No Pós-Lida, tem o James Martins, que possui um modo de dizer poesia que me interessa. Karina Rabinowitz, que tem essa coisa do cruzamento de linguagens. Daqui da Bahia ainda tem Laura Castro. Para completar as referências, tem Daniela Galdino, que é de Itabuna, Morgana Poiesis, de Vitória da Conquista, que são pessoas da performance. Ainda nessa relação com o externo, nesses eventos que tenho participado, dando oficina, sobretudo, tenho tido oportunidade de ver que é um privilégio lidar com o público, que não são públicos típicos de literatura, pois não são de eventos estritamente literários, não são da minha faixa etária. Vejo com muita alegria quando esse esforço de fazer o cruzamento de linguagens e de trazer a poesia para o corpo da gente chega de forma impactante, viva, principalmente em relação a um público que não é típico de literatura. E cada vez mais me interessa estar com esse público porque aí também tem uma questão política de formação. A gente lida com um público muito restrito e tendemos (nós da literatura) a correr o risco de acreditar que não precisamos fazer esse esforço de formação, de chegar junto, de criar estratégias para difundir o que fazemos. Eu estou cada vez mais em outra proposta. O que faço não é só poesia, mas acredito que minha poesia ganhou muito. É uma relação de troca porque é poesia viva. Internacionalmente, é o que o Slam Poetry tem feito e que reverbera nos saraus de periferia. O que tenho feito é muito afetado por essa vibração. Sempre ficava me questionando o que é que o músico popular tem que faz a gente vibrar. A maioria dos poetas não tem. E eu não estou dizendo que eu tenha. O Slam Poetry consegue, os saraus de periferia também. Para ficar nos daqui de Salvador, você vê o Sarau da Onça, no qual percebe as pessoas vidradas no que os artistas dizem. Sempre fiquei numa bronca porque sou super fã de shows de transformistas e pensava como é que a gente faz para em poesia fazer as pessoas ficarem vidradas também. Hilda Hilst deixa as pessoas pulsando, Drummond também. A performance tem sido um lugar onde isso tem se tornado possível.
Alex Simões na performance “A Capella de Waly” / Foto: Daniel Guerra
DA – Aproveitando um dos seus arremates, é preciso dessacralizar tanto o poeta quanto a poesia?
ALEX SIMÕES – É fundamental. Temos algumas heranças lindas. Sou um devoto da tradição. Um transgressor disciplinado. Não jogo tudo que está na tradição fora. Mas a gente tem umas heranças complicadas do Arcadismo, do Romantismo, do Neoclassicismo e da poesia moderna também. Uma delas é essa ideia do poeta da Torre de Marfim e do poeta hermético. Isso tem feito muito mal para a poesia porque a gente ficou num lugar solitário, de pouca penetração. Isso se reflete em muitas situações. Eu estava num evento importantíssimo discutindo esse momento político horroroso que estamos vivendo, debatendo a destruição do MinC, essa falsa reintegração desse ministério. E durante duas horas e meia que eu estava lá, praticamente não vi referências de literatura e poesia. Isso não é culpa das pessoas que estão lá. Também não é apenas culpa dos profissionais da palavra do Brasil de hoje. Tem muito a ver com essa perda de penetração que o poeta tem nas massas. O último grande poeta das massas que a gente teve foi Maiakovski, durante a Revolução Russa. No século vinte, a gente perdeu esse lugar. A poesia moderna criou um lugar de hermetismo. Acho que esse lugar foi ocupado. Os músicos populares, e alguns deles são poetas de fato, exercem essa função, mas é preciso dessacralizar, e tem gente fazendo isso. Vou dar um exemplo de dessacralização: os poetas em geral da geração Mimeógrafo têm feito isso. Tem um vivo que continua fazendo isso, o Ricardo Chacal. Dessacralizar, inclusive, em termos de linguagem, de uma preocupação em falar para os que não são seus pares, para os que não apenas estão interessados no exercício de ler poesia, mas também na demonstração daqueles que querem que isso chegue junto deles. Ricardo Chacal tem um livro, “Murundum”, que ele diz que escreveu para estudantes de ensino médio de escola pública. Ali ele se dessacraliza. É importante porque a gente precisa falar de um lugar mais terreno. Poetas e pessoas de literatura. E eu faço essa distinção a la Ezra Pound. É fundamental a gente que faz literatura e poesia no Brasil entender que esse lugar sagrado que alguns de nós falamos é um tiro no pé. Estamos falando para ninguém. Precisamos dessacralizar até pra poder chegarmos nas pessoas. É importante para a sociedade que o que esteja sendo produzido de poesia contemporânea chegue junto das pessoas. Vou dar mais um exemplo que tem a ver com performance. Mais recentemente, eu estava na ocupação do Minc, fiz uma performance, que é “A Capella de Waly”, e ouvi um depoimento de uma jovem que disse que teve uma oportunidade rara de olhar no olho de um poeta. É uma performance que não digo nada meu, falo coisas de Waly Salomão durante trinta minutos, digo poemas e canto canções com letras dele. Acho que isso diz muito, esse depoimento dela. Ela pôde olhar no olho de um poeta. É um lugar que também me coloco, de olhar no olho das pessoas, de não falar do alto para baixo. Estou trocando coisas e esse é um exercício de dessacralizar esse lugar. Há uma tendência, muito marcada por essas tradições, em falar poesia ainda muito de cima para baixo. Tem gente muito legal fazendo. Por exemplo, Angélica Freitas quando faz um útero do tamanho de um punho, e que pega poemas que são googlados, desmascara o machismo que está presente no inconsciente coletivo e que se reproduz nas nossas formas discursivas contemporâneas, está dessacralizando esse lugar do poeta. Baudelaire falou, há cem anos, sobre a perda da aura do poeta. Infelizmente, parece que alguns e algumas colegas ainda não entenderam que acabou. Nossa aura caiu num lodaçal. Tá na lama e a gente precisa assumir. Nossa única possibilidade de existência, penetração e relevância é assumir a sujeira do cotidiano, do contemporâneo.
DA – Com que olhos o Alex educador vislumbra a formação de leitores?
ALEX SIMÕES – Com olhos de lince (risos). Eu, além de dar aula em instituição formal, faculdade, sempre estou preocupado com essa questão de formação. Acho que isso é muito importante porque dá uma consciência de realidade, uma noção mais pé no chão de como temos poucos leitores porque estou nesse outro front, o da sala de aula. Tenho cada vez mais dado oficina de poesia, que pra mim tem sido uma alegria. Gostaria muito de dar mais e estar menos em sala de aula formal, pois eu me sinto, inclusive, mais efetivo. Essa minha preocupação com a formação de leitores está cada vez mais voltada em criar pontes. Falando de performance, é entender que esse leitor contemporâneo, foi formado e tem menos de 30 anos, com raríssimas exceções, vai se sentir mais conclamado a conhecer a poesia através de outras linguagens. Tenho 43 anos e tive o privilégio de chegar à poesia, sobretudo pela música. Sou de uma geração que via na rede Globo Vinícius de Moraes sendo interpretado em programas especiais para crianças. Ainda tem gente muito massa fazendo isso. Adriana Calcanhoto, por exemplo. Essa ponte é fundamental para formar, e não apenas crianças, claro. Esse meu olhar de educador está muito interessado em buscar pontes não só entre linguagens, mas pontes que vislumbrem pertinências entre as origens das pessoas, pois empurrar qualquer tipo de poesia para qualquer público é estéril. Você tem que entender que há lugares. Daí, a gente volta para aquela questão das expressões identitárias, ou seja, você falar para um público que é majoritariamente negro, adolescente, sem trazer essas questões, e empurrar Baudelaire ou um cânone europeu ou estaduninense goela abaixo, é um olhar não formativo. Falo também de quem fez graduação em Letras e teve muita dificuldade porque passou por alguns professores que não tiveram esse cuidado. Felizmente, tive essa boa experiência de formação de leitura, mas vi muita gente se perder no caminho por conta de educadores que não tiveram esse olhar de entender que a formação de leitor passa pela história da pessoa, seu contexto social. Você tem que criar iscas. Existe um caminho longo a se percorrer. Se não me engano, 8% da população brasileira é proficiente em leitura. Isso é grave. Quando junto música com poesia, estou muito interessado em fisgar o público, fazê-lo se interessar pela leitura.
Alex Simões / Foto: Eric Jenkins-Sahlin
DA – O que é o seu país hoje?
ALEX SIMÕES – É a pergunta mais difícil e a que menos vou ter certeza. Primeiro, porque preciso dizer que qualquer noção de país e nação é uma noção precária, problemática, pois implica muitos silenciamentos, muitos apagamentos para que exista um país, uma nação, uma bandeira. Mas o Brasil em que a gente vive é um país que passa por um momento muito delicado. Estamos sofrendo um golpe numa democracia que nunca foi muito amadurecida, num contexto político em que a gente ainda não tem maturidade política para discutir, para se colocar e se posicionar, mas que está sofrendo um golpe. A despeito dessa polarização que é construída, que não é inocente nem ingênua, é muito triste ver o silêncio de algumas pessoas. Eu até acredito que, durante certo tempo, algumas delas foram movidas por boa intenção e contra a corrupção, que é constitutiva de qualquer governo (e não estou justificando nenhuma corrupção). Temos provas muito contundentes de que estamos num momento delicado e que se trata, indiscutivelmente, de um golpe. Uma perseguição a uma pessoa, uma estadista, que é travestida de machismo e misoginia. Temos muitos avanços importantes que foram conquistados e que estão sendo ameaçados. Isso me afeta diretamente. Meu corpo, minha história estão sendo ameaçados. Estou num lugar de contestação a isso tudo. Ao mesmo tempo, é um momento de reflexão, de possibilidade, de reversão dessa falta de articulação nossa. Quando falo nossa, trato desses segmentos minoritários, da esquerda (sou uma pessoa de esquerda). Mas não tenho certezas. Acho que é muito importante dizer que não dá pra ter certezas. Sou uma pessoa extremamente politizada, durante toda a minha vida, venho de movimento estudantil e nunca deixei de fazer política. Não tenho certezas. São contingências, circunstâncias nas quais a gente precisa se posicionar. Eu consigo dormir porque estou me posicionando contra um golpe que está acontecendo. O país que vivo é um país que está sendo golpeado por uma corja. E temos um não governo com sete ministros investigados por uma operação que é a mesma que falsamente teria sido motivo para tirarmos uma presidenta. Por outro lado, temos que reconhecer, há erros no governo que foi deposto. Na minha avaliação, erros por não ter se assumido como um governo de esquerda, que radicalmente deveria extirpar ou diminuir ao máximo possível as diferenças, a desigualdade social. Eu vivo num país em que vejo todos os dias na minha rua, em todos os cantos, as pessoas comendo lixo. Morro de vergonha disso. Isso é lamentável. É um país que mata um jovem entre 15 e 25 anos, negro, a cada dois dias. É um país que espanca e comete violência contra a mulher a cada 15 minutos provavelmente. País que estupra, que mata mais de mil mulheres por aborto porque é criminalizado hipocritamente. É o país que mais mata homossexuais e transexuais no mundo. E é o país que eu vivo e amo com todas essas contradições. Mas é um país do qual não tenho muitas certezas. Realmente, é a pergunta mais difícil.
DA – Diante de tantas coisas que nos oprimem, você acha que a arte é um instrumento de libertação?
ALEX SIMÕES – Sim. A arte é um instrumento de libertação, de esclarecimento. Desconfio que se não fosse um artista, não fosse poeta, provavelmente seria um terrorista (risos). A arte pelo menos tem essa função no mundo. Ela evitou um terrorista. Faço guerrilha com a arte. Defendo pacificamente a revolução através da linguagem. Acredito que a arte possibilita nossa transformação. Ela mudou minha vida. Tenho afeto pelo mundo, acredito na possibilidade de transformá-lo. A revolução passa pela estética, por um olhar estético sobre o mundo. A arte liberta porque educa, transforma, cria possibilidades de novos mundos. Ela, com certeza, me livrou de ser um terrorista. Eu poderia estar fazendo coisas terríveis se não fosse a possibilidade de dizer coisas com meu corpo, com meu texto, através da poesia. Ela me faz ficar nesse mundo e criando essas possibilidades de dizer coisas que não são utópicas porque se concretizam através de palavras e formas.
DA – É possível escrever sem morrer um pouco a cada dia?
ALEX SIMÕES – É impossível viver sem morrer um pouco a cada dia (risos). Sartre ou Kierkegaard, acho, falava que o sentido da vida é a morte, que morremos a cada dia, enfim. Viver antecede, é uma questão maior do que escrever. A gente escreve porque vive, mas talvez quando a gente escreve todo dia, e felizmente é meu caso, criamos a ilusão de dar sentido para essa vida, pois ela não tem sentido. Escrever todo dia é fazer a vida mais possível, mais pulsante. É um modo de enfrentar, pois a morte é inevitável, vai circundando a gente. A escrita, para mim, tem sido cada vez um modo de enfrentar a morte. Não só a minha, mas a morte que está cada vez mais ao meu redor. Tenho cada vez mais pensado nisso. Já vou fazer 43 anos e fico pensando não só na minha, mas no fato de que cada vez mais as pessoas ao meu redor estão ficando mais velhas, adoecendo e morrendo por motivos diversos. Então, escrever é também um modo de enfrentar isso, me deixa mais forte.
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.
Um caminhar de passos desavisados diante dos cenários espontâneos do mundo. Universo a agregar um só ritual: olhar a tudo e a todos com naturalidade. É preciso maturar o pensamento, deixá-lo orbitar em suspensão no deslocar do tempo. Esperar é maior virtude de quem reverencia silêncios e se deixa tomar pela epifania da vida tal como ela é.
Sim, é preciso falar de esperas. Daquelas que nos permitem respeitar a essência das coisas. É urgente exaltar esperas quando isso implica em testemunharmos exercícios de liberdade. Liberdade que vem do outro, sua mais genuína expressão humana. Liberdade em poder sentir o que a natureza e o fenômeno contido na disposição das coisas encerram com sua vasta linguagem.
Quando uma artista como Suzana Latini evidencia em suas andanças criativas o poder da espera, notamos que captar a vida é deixá-la simplesmente acontecer. O marco de sua atuação como fotógrafa é o desejo puro de se lançar ao mundo e ser surpreendida por ele. Assim, o externo, com toda sua carga de possibilidades e perspectivas múltiplas, é quem assume um papel ativo. Revertendo uma certa lógica tradicional, Suzana é registrada pelo mundo.
Ao aguardar que seres e lugares lhe apontem suas naturais rotas, Suzana fideliza a experiência de perceber as coisas tal qual elas se manifestam. Seja observando pessoas, objetos, lugares ou testemunhando eventos da natureza, a fotógrafa não tenciona roteiros premeditados. Quem aqui opera é o destino, com a força de suas revelações, com a pungência do novo a causar fissuras na rotina dos dias.
Foto: Suzana Latini
No ritual de se deixar envolver pelos matizes do destino, Suzana enaltece cores, formas, sombras, paisagens e silêncios. Nalguns momentos, há a presença viva de pessoas a delinear os ambientes flagrados; noutros, irrompem espaços tomados pelo vazio, todos eles prenhes de ausências humanas, porém lugares de possíveis memórias.
Nascida em Belo Horizonte, Suzana Latini formou-se em Artes Plásticas pela Escola Guignard (Universidade do Estado de Minas Gerais). Durante toda a sua trajetória, esteve envolvida com produção, principalmente de vídeos e fotos publicitárias. Confessa que seu olhar procura aquilo que ninguém presta atenção, além de creditar fascinação ao que está por trás de banais instantes da vida.
Para manter a liberdade, esse bem que nos é tão caro nas suas mais variadas acepções, Suzana prefere não se entregar profissionalmente à fotografia. Mesmo assim, seus registros estão disponíveis para aquisição do modo genuíno como foram captados.
Quando o ato de observar o mundo, seus fenômenos e personagens, destina-se ao menor nível possível de interferência, por certo homérica tarefa, há um desejo maior de preservar a essência da existência. Nesse trajeto, existem tanto cenários concretos quanto os que são frutos de nossas abstrações. A espera, essa senhora memorável, vem nos fazer recordar que cada contexto experimentado guarda seus inadvertidos trunfos.
Foto: Suzana Latini
*As fotografias de Suzana Latini fazem parte da galeria e dos textos da 110ª Leva
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.
No lançamento de O ser humano na era de sua reprodutibilidade tática (Ed. Patuá), livro de Valerio Oliveira, a criança que me acompanhava disse ao observar a capa: “Olha, esses monstrinhos seguem uma ordem: vermelho, azul, verde, vermelho, azul…”. Ela estava correta.
O título deste livro de poesias é uma paródia – ou atualização – do ensaio A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, de Walter Benjamin. Muito resumidamente, a ideia do ensaio é que, sob a égide da reprodutibilidade, a obra de arte teria perdido a sua singularidade e, portanto, seu sentido mais originário: dar a conhecer algo de seu mundo próprio.
O foco dos poemas de Valerio são os seres humanos na (e da) contemporaneidade, período em que os avanços técnicos e tecnológicos atingiram patamares elevados a custos muito altos e são disponíveis a uma mínima parcela da população. Além disso, como já escreveram Horkheimer e Adorno muitas décadas atrás, na conjuntura em que realidade e ideologia correm uma para a outra, os comportamentos dos sujeitos, banalizados entre realidade e artifício, padronizam-se. E, como nos mostra Valerio Oliveira, tem sido assim cada vez mais.
Com humor ácido, metalinguagem e, inclusive, alguma dose de lirismo, o poeta convoca o leitor, pela via da sensibilidade e reflexão, a vivenciar o estranhamento e o incômodo justamente ao se reconhecer em suas personagens. Distante de uma perspectiva panfletária, portanto, os poemas resgatam o leitor (ser humano) de sua reprodutibilidade tática pelo negativo. É ao tomar contato com a reprodutibilidade humana, tão estranha quanto familiar, que nos damos conta de sua singularidade, ainda que às custas, por exemplo, do desconfortável “ombro com ombro com ombro com ombro” (“Deus salve o Estado”).
Poética singular e múltipla
O casal que passeia pelo apartamento (“Ordem e desordem”), o sujeito que sai do cinema de mãos dadas consigo mesmo (“Final feliz”), as “Verdades sem olhos ou pernas”, título da primeira parte do livro, e as “Mentiras sem boca ou braços”, título da segunda, são emblemas dos seres humanos desenhados por Valerio: fragmentados, amputados, esburacados, e equivalentes em sua mediocridade. Nesse sentido, a capa, de autoria de Teo Adorno, é muito apropriada. Os monstrinhos seriais, sagazmente percebidos pela criança que me acompanhava, são metáforas visuais daquilo que somos.
Não é aleatório, portanto, que os últimos poemas do livro abordem as ambiguidades contidas na relação eu-outro: “Eu e os outros”, “Obras completas de Valerio Oliveira”, “World burly brawl” e “Os trinta Valerios”. Dessa perspectiva, o livro torna-se ainda mais interessante. Sabe-se que o autor desdobra-se em múltiplas personas.
Nos anos 1990, surgiu um talento na literatura brasileira: Nelson de Oliveira (embora o próprio tenha me confidenciado que Valerio nascera antes, mas Nelson foi o mais celebrado). Ocorre que, ao desdobrar-se em quatro – Valerio Oliveira, Luiz Bras, Teo Adorno e Nelson de Oliveira –, o artista singulariza-se ao limite, pois assume-se múltiplo.
Diferentemente dos seres fragmentados, da capa ao interior do livro e às páginas do mundo, a unidade da poética do autor decorre justamente da comunicação entre os diversos. A um só tempo singular e múltipla, sua obra é uma espécie de alternativa – irônica, cômica, crítica – aos cenários banalizados retratados no livro.
O milagre da expressão
Como um pode ser quatro, ou mais até? Como explicar experiências que atravessam gerações, simultaneamente reais e ilusórias? O mais provável é que não haja explicação, mas, como escreveu Clarice, “viver ultrapassa qualquer entendimento”. E a literatura, essa trama expressiva do sensível, de fato promove milagres. Como o que eu comecei a vivenciar na Bienal do Livro de São Paulo, cerca de dez anos atrás. O sonho de me tornar escritor crescia, sempre alimentado por uma de minhas maiores incentivadoras: minha avó. Pois bem. Lá na Bienal ela me disse: “Escolhe qualquer livro para eu lhe dar de presente”. Escolhi Subsolo infinito, romance de Nelson de Oliveira, livro que guardo com muito carinho.
Não poderia imaginar naquele domingo, na Bienal, que dez anos depois eu estaria lançando meu quarto livro, que me lembraria desse dia ao ver Nelson de Oliveira (ou seria o Luiz, o Valerio, o Teo?) se aproximar para eu lhe fazer a dedicatória no (meu) livro. Tampouco imaginaria que, enquanto escrevia a dedicatória, veria a minha avó de rabo de olho, e pensaria em chamá-la para perguntar se ela se lembrava daquele dia na Bienal e apresentá-la ao autor do livro que ela me deu de presente, e que não haveria tempo para nada disso, porque, na era da reprodutibilidade tática, o próximo da fila já abria o seu exemplar para eu assinar.
Renato Tardivo é escritor e psicanalista. Mestre e doutor em Psicologia Social pela USP, é autor do ensaio Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura arcaica (Ateliê/Fapesp), da novela Castigo (E-galáxia) e dos volumes de contos Do avesso (Com-arte/USP), Silente (7Letras) e Girassol voltado para a terra (Ateliê). Colabora regularmente com textos sobre cultura para veículos como a revista Cult e o Observatório da Imprensa.
Quando se está preso a um futuro morto perde-se o senso
É impossível anotar com exatidão a passagem do tempo:
Os séculos que conduzem ao exílio sem salvação
Ao desterro compulsório que aniquila
Se há um despertar dos escombros
Não se pode mais compensar as milhões de horas escoadas
Os milhares de dias melancólicos
Febre por respirar coisa morta
Comida arremessada do céu sobre um tronco que navega
Intestinos que se esvaem
Lamentos da costa cada vez mais distante,
Peças desencaixadas para sempre da pangeia original
Corrente subterrânea que faz oscilar
Vidas-dejeto sepultadas em naus fantasmas
Fome e sede amontoadas
Corpos em pus despejados no oceano
Travessia malsã, coleção de moléstias sob ouro e marfim
Tumba flutuante que vomita almas lucrativas
Em portos hostis
A família estrangeira se reunia festivamente etílica ao redor da mesa posta. Havia comida para alimentar um exército, mas em vez de iguaria da terra deles ofereciam algo típico da cidade que os acolhera. Comemoravam o aniversário da matriarca, jovial e de sotaque carregado. Ela não parava de falar sobre os costumes e vantagens do seu país. Os convidados, informais, fingiam interesse. Não se cansavam de elogiar a comida, alguns repetindo pratos vigorosos. Para manter as panelas sempre cheias, a anfitriã sumia por alguns minutos e logo depois retornava carregando porções fumegantes em utensílios inox.
Eu conhecia bem o local da festa, a casa ampla e avarandada que trazia em si uma preciosidade: um quintal com árvore e sombra. Quando o patrão me disse o roteiro no dia anterior, quase me denuncio, porém mantive a frieza profissional. Passei a noite em claro, lendo no meu quarto, e imaginei dar uma desculpa por motivo de saúde. Porém, faltar ao trabalho daquela forma teria sido indigno. Quando chegamos, confirmei o meu eterno estado de invisibilidade em certos ambientes, especialmente quando estou de uniforme. Sentei a um canto para observar os atores principais. Efusivas, as pessoas andavam de um lado para o outro segurando pratinho e copinho cheios. Talheres caíam no piso produzindo o som metálico que trinca os dentes e arrepia o braço. Também havia cerveja barata e cachaça artesanal. A primeira circulava sem limites; a outra, servida a conta-gotas. Os filhos da aniversariante mantinham distância. Comiam pouco e não bebiam. As breves conversas não envolviam histórias engraçadas de infância. O relógio era consultado a intervalos cada vez mais curtos.
“Mas onde a senhora aprendeu a fazer tão bem nossa comida?”, alguém perguntou a certa altura. “Ah, filho meu, isto é segredo”, disse sorrindo. “E depois de tanto tempo aqui a senhora ainda sente saudades da sua terra?”, outro perguntou. “Sinto… É tanta falta que às vezes penso que voy a morrer sufocada. Só vim pra cá porque não tive outra saída, me arrastaron sem me perguntar nada. Quando me desperté estava enfiada dentro de uma lata velha que quase afunda”, respondeu, enquanto se dirigia saltitante em direção à cozinha. Devido ao álcool, todos riram. Menos eu.
* * *
Eu não era dono do meu tempo. Tinha de esperar quando quisessem ir. Sentei no sofá pra ver um pouco de tevê. A comida pesada me fez cochilar, mesmo com a gritaria histérica. Sonho: eu e Debrê tomávamos cravinho num boteco próximo ao Parafuso, na Conceição. A gente bebia e jogava dominó, enquanto ele explicava a mudança de ramo, que arte não tinha futuro e seus quadros estavam todos encalhados. Resolveu abrir uma agência de cordeiros e uma construtora de camarotes para o Entrudo. Ele bebia várias doses e permanecia sóbrio, enquanto eu tinha a visão cada vez mais embaçada. Eu perdia todas as partidas sem conseguir dar nem mesmo um passe. Também, pudera. Ele pintava as pedras. No meio do jogo, Debrê atendeu a uma ligação do sócio. “Era o Rugendas, tá vindo pra cá”, disse ao desligar o aparelho. “Não vai demorar”, ele levantou-se e anunciou eufórico, “pra esta cidade ser tomada por hordas de imbecis dispostos a pagar fortunas pra pular atrás de qualquer geringonça bem barulhenta. É um filão que precisamos explorar logo, entende, meu nobre?! A flutuação cambial no mercado de idiotas e espertos está favorável e temos de aproveitar. Hoje, um tolo vale cinco virtuosos, porém você não faz ideia de onde isso vai parar, meu bom rapaz!” Quando ele piscou para mim, levantando outra dose de cravinho com a mão esquerda, acordei.
As pessoas falavam cada vez mais alto. Alguns assistiam a um jogo sem importância, um desses esportes de praia inventados pelos departamentos de marketing dos bancos estatais. Ouvi barulho de copo quebrado em algum lugar vago da residência e fui procurar o meu banheiro. Passei pela fila de mulheres contorcendo as pernas e cheguei ao quintal vazio pra regar rapidamente a árvore, uma das minhas mais remotas lembranças infantis. Notei o mesmo casebre atrás de um muro de plantas, a fumaça branca saindo por uma chaminé de metal no teto da construção. O cheiro não podia ser confundido, não por mim. Antes mesmo de saber onde seria o tal almoço, uma coincidência desconcertante, eu já ensaiava uma visita.
Fui me aproximando e empurrei a porta entreaberta. Ela estava de cócoras, soprando as brasas de um fogão feito de tijolos e pedaços de pau. Eu conhecia bem a fonte da comilança na casa-grande: um centenário panelão de barro coberto de fuligem que eu lavava todo sábado. Uma tarefa detestável. Quando me viu, levantou-se, limpando a mão no vestido roto. Parecia esperar eu pedir algo. Estava descalça e sua pele azul de tão retinta exibia pequenos pontos de suor estático. Cabelos desgrenhados como palhas de aço, massa disforme e espessa repuxada a fórceps. O fundo branco dos grandes olhos contrastava com o sorriso feito só de gengivas roxas. Ficamos assim, um procurando no outro mudança e permanência. Ela tocou meu rosto e ia falar alguma coisa, mas percebeu uma movimentação. “Eita, que lá evém minha patroa…”, estalou a língua e apressou-se em voltar a mexer na panela. Tive de ser rápido pra achar um vão que me mantivesse oculto. Uma encheu os vasilhames e saiu; a outra respirou fundo e se sentou no chão de terra batida, recostando-se à parede. Perguntei se ela precisava de alguma coisa, mas a mulher permaneceu alheia, de cabeça baixa, dividida entre lavar os pratos numa bacia e manter o fogo aceso. Várias vezes pensei em levá-la comigo. Teria sido um grande erro. Além disso, ela queria ficar só. Eu também.
Quando retornei, o pessoal acompanhava a música aos berros. Dei uma olhada no banheiro imundo. Eu sabia quem limparia tudo mais tarde. Evitei colaborar com a sujeira. A anfitriã estava meio anestesiada, devia ser o cansaço. Assistia a tudo com um rosto oleoso, incapaz de esboçar reprovação. Improvisaram um bloco carnavalesco no meio da sala, subindo nos estofados e rindo de tudo, até um deles chegar com a má notícia: a bebida terminara. Sob protesto, foram se recompondo, chaves de carros sendo recolhidas uma a uma. Também tive de sair, porém não podia deixar meu patrão ali naquele estado alcoólico. Fui obrigado a carregá-lo, ajeitando seu corpanzil no banco de trás. Tirei seus sapatos e meias, guardei sua carteira de cédulas e óculos no porta-luvas.
No dia seguinte, ainda trazia comigo as imagens do encontro. Caminhando pelo Vale de Nazaré, vi uma aglomeração ao redor de um caixote de papelão. As pessoas apostavam para descobrir sob qual das três tampinhas um sujeito escondia uma bola de plástico. Nervosos, homens e mulheres exibiam as cédulas que desejavam multiplicar facilmente. Tentei identificar golpistas e vítimas, mas todos eram iguais em suas ambições e trapaças. Recordei o sonho com Debrê. Existem infinitos meios de explorar o mercado de idiotas nos tempos de hoje. Eu tinha vergonha de pegar minha parte do lucro. Quase todos os anos vividos nos subterrâneos de um quarto minúsculo só foram dissipados com uma carteira de motorista, alforria conseguida a muito custo, só eu sei.
Nada mais era importante. A não ser o fato de eu sentir um aperto no peito toda vez que eu via o nome daquela negra na parte de trás do meu RG. Somente o nome dela, carregando nas costas cansadas o branco da outra linha vazia nos meus dados de filiação.
Tom Correia nasceu em Salvador. Jornalista, iniciou a carreira literária em 2002, quando ganhou o Prêmio Braskem com “Memorial dos medíocres”. Publicou “Sob um céu de gris profundo” (2011) e participou das coletâneas “As baianas” (2012) e “82: Uma copa, quinze histórias” (2013). Integrou ainda a antologia “Wir sind bereit” (2013), a convite da editora alemã Lettrétage. Em 2014, foi selecionado para o segundo volume de Autores baianos: um panorama, publicação em quatro idiomas promovida pela Secretaria da Cultura e pela Fundação Cultural do Estado da Bahia. Em 2015, lançou “Ladeiras, vielas & farrapos” e ganhou um prêmio de residência artística para escritores no Instituto Sacatar, Itaparica. A residência proporcionou seu retorno à Fotografia.
A aranha fia o fio da minha vida
com paciência e luxúria, com seu próprio
fio finíssimo e puro, atrás de mim,
não à frente, por onde vou. A origem
é o meu fim. Na minha própria teia
eu me enleio: de angústia e de beleza
é tecido o meu leito, leve, no ar
suspenso, no equilíbrio em que se libra,
caminho frágil para si voltado.
A luz do alto ilumina o precipício
e se me perco em sombras e delírios,
mais me encontro na senda do real.
O claro-escuro se articula, e lúcido
sigo, sem extravio. O mito lírico
revela e esconde o ser que já não sou.
Na minha teia um cego vê o abismo.
***
A CABRA
A cabra pasta a estrela na montanha.
Bem mais nova que o lago e que o pinheiro
na encosta, o seu balido como um guincho
é um grito perplexo contra o abismo.
A cabra é negra como o carvão negro
das entranhas da terra, funda, seca.
Cega, a cabra resiste digerindo
as pedras do caminho. A cascavel
é um alarme contra o espaço exíguo
no infinito da tarde. Uma águia vê,
de cima, a solidão da cabra, a lâmina
da dor nos cascos, com a luz, que quebra,
de chofre, a árida terra, de metal,
com sua pétala esculpida em pânico.
A cabra fende em duas a montanha,
alta e lívida, sob o sol do eterno.
***
O LEÃO
O leão ergue as garras contra as grades
e ruge e urra, com a garganta seca
da espera inútil. De onde vim, para onde
vou? Mais nenhum destino, mais nenhuma
porta. Sem perspectivas, eu caminho.
O meu reino se estende ao horizonte,
onde a terra se encontra com o céu.
Vou quebrar os limites com o meu grito,
vou quebrar os rochedos com o sangue
do meu rugido. Vou romper a prata
do infinito com as chamas dos meus olhos.
Quem sou o céu traiu o sonho vão.
Sou um cego na areia do destino.
O mistério repousa em minhas fauces.
No enigma do deserto e das estrelas,
cavalgo impávido com Deus no lombo.
***
O ELEFANTE
É preciso matar o elefante.
A fábula da vida é muito breve,
a viagem é longa, e pesa tanto.
Giram os girassóis entre as montanhas
e gira um sol só, no alto, atormentado.
As madressilvas sangram com a dor
do mundo. E o elefante, as patas no ar,
ergue a tromba ao azul como um anzol
de angústia. Chora sob um mar de lavas
aos borbotões caindo sobre o mundo.
São muitos os trabalhos da existência,
muitos e inúteis. Para que sofrer?
Por que viver? Por que mistério ansiar?
Desci os sete círculos do inferno,
devagar, carregando a minha sombra,
e entoando a minha súplica: me matem!
***
O CAMELO
Atravesso o deserto com a areia
nos olhos. É meu lar a noite fria,
com suas sombras e com suas trevas.
Vejo quem sou no espelho do deserto.
A mim próprio carrego nas corcovas.
Que viagem viajo? Que universo
percorro? O meu tamanho no tamanho
do espaço que demarco. Na memória
do que sou, as estrelas e o retorno
do escorpião. Eu sou escuro e concha.
Se a mordida me fere o calcanhar,
indigita-me o rumo, concludente.
Estou aberto para a tentação:
o delírio me cega e me ilumina.
O deserto convoca as demais formas
e eu escrevo na areia o poema-cinza.
***
O TOURO
O touro é uma rocha na lua. As janelas floridas
gemem na escuridão, os pássaros da noite
farejam a dor queimando as asas doloridas.
Quem conhece, da dor, a face e a foice?
Os cães latem atrás das pedras em flor.
O louco na estrada sufoca e grita contra a treva.
É estar longe, mutilado nos mares da dor.
A febre do pântano estrangula as meninas de névoa.
A agulha do suicídio dói no ventre do mundo.
A dor é um touro no trânsito, em silêncio profundo.
O touro marcha devagar, construindo o seu caminho
com as patas sangrando, cravejadas de espinhos.
A nuvem oxida a rosa na escada, piche e cimento
nos olhos profanados, antes da lava dos vulcões.
Ainda se ouvem os cavalos, e o touro nos grilhões.
Eu amamento a dor nos cascos do esquecimento.
José Carlos Mendes Brandão nasceu em Dois Córregos, SP. Vive em Bauru. Publicou sete livros de poesia e um de crônicas. Ganhou vários prêmios literários, como o da Bienal Nestlé e o Cidade de BH.
Por trás dum universo de cenários a compor as tramas da literatura, um criador maquina suas investidas. E o faz com o desejo da permanência, urdindo estratégias, escolhendo caminhos, atirando-se no labirinto da palavra. Quem escreve intenta ser alvejado pela percepção do leitor, este ser capaz de reorientar certos roteiros antes traçados. Quem escreve deixa sua marca no mundo na medida em que suas letras efetivamente saiam ao encontro do outro.
No jogo sugerido pela alteridade, o tácito pacto entre emissor e receptor aponta para além de uma suposta cumplicidade quando as coisas orbitam pelo complexo terreno da interpretação. Nesse ínterim, há revoluções internas, guerras contidas, alguns lampejos de êxtase e, sobremaneira, visões postas à prova. Então, seria o leitor uma espécie de destemido desbravador a quem é dado um status de total autonomia?
Acharemos estranho se alguém puder responder a isso com absoluta margem de certeza. Afinal, uma obra não é tão aberta assim na medida em que necessita pontuar rotas que fazem parte naturalmente do contexto estrutural da criação. E é bom poder ouvir escritores, saber deles o motor fundamental de seus ímpetos.
No caso do autor baiano Marcus Vinícius Rodrigues, que transita com preciosa fluidez entre as zonas da poesia e da prosa, as motivações criativas evidenciam uma tentativa de estabelecer um laço com o mundo. Também é, como o próprio escritor confessa, construir a ilusão do eterno.
Autor de obras como “Pequeno inventário das ausências” (poemas – 2001), “3 vestidos e meu corpo nu” (contos – 2009), “Eros Resoluto” (contos – 2010), Cada dia sobre a terra (contos – 2010), e tendo participado de várias antologias, Marcus Vinícius utiliza a memória como valiosa ferramenta de criação. É, na verdade, uma instigante manipulação das lembranças, espécie de distanciamento do real, através da qual o esquecimento protagoniza a elaboração da palavra. Um curioso fluxo de esquecer para escrever.
Na entrevista de agora, testemunhamos um Marcus Vinícius cada vez mais comprometido com o curso natural de seu caminhar literário, algo que se apoia marcantemente por um sentido especial de perenidade. O momento requer que falemos de seu mais novo livro de poemas, “Arquivos de um corpo em viagem” (2015), obra que enaltece a capacidade do autor em demarcar esse verdadeiro receptáculo de epifanias que é o corpo. Também na ótica da dinâmica do corpo, é de sua autoria uma série de poemas criados para o espetáculo de dança “Vous Doux”, cuja plaquete será lançada em Salvador, na Bahia, brevemente. O diálogo presente também visitou outras paisagens, a exemplo da ótica do desejo humano, das inquietudes contemporâneas e das estratégias criativas. Quem divide conosco um pouco de si é um alguém na plena percepção de que sua obra está sendo construída no processar das horas. Tudo isso sem a pretensão das certezas.
Marcus Vinícius Rodrigues / Foto: arquivo pessoal
DA – Tanto na prosa quanto na poesia, seus escritos têm um apelo muito ligado aos percursos do corpo. “Arquivos de um corpo em viagem”, seu mais recente livro de poemas, evidencia tais trajetos. O que dizer do nosso corpo enquanto receptáculo de memórias?
MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Essa história do corpo começa meio que por acaso mesmo. Olhando pra trás é que dá pra ver que tem essa unidade toda, mas não foi algo pensado. Quando eu comecei a montar o livro “Arquivos de um corpo em viagem”, foi que vi realmente a recorrência e aí organizei a obra toda em cima disso. Eliminei os poemas que não tinham a ver. Acho que o corpo é o lugar de todas as coisas. É onde nós estamos. Então, tudo acontece dentro do corpo, mesmo que seja a experiência mais metafísica. Até a experiência de sair do corpo é uma experiência em relação ao corpo, se você quiser ser místico. Eu continuo fazendo isso. Vou lançar agora um livro, inspirado no espetáculo de dança do meu irmão, “Vous Doux”, e, novamente, há a experiência do corpo, ou seja, os corpos se relacionando com os outros. É uma recorrência, mas não é pensada.
DA – É sedutor pensar que os idiomas do corpo são infinitos?
MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Não existe isso de infinito tanto em relação às experiências humanas quanto em relação à literatura. Talvez infinitas sejam as formas de fazer sempre as mesmas coisas. O tempo todo encontramos formas de fazer a mesma coisa, de irmos para o mesmo lugar, de conseguirmos as mesmas sensações. O infinito está nos caminhos, pois os lugares aonde chegamos são sempre os mesmos. Não tenho certeza de nada.
DA – Você acredita que a memória é algo que pode nos trair?
MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Eu escrevo na esperança desta traição. Escrevo tentando lembrar e já participando dessa noção de que vai haver uma invenção. Isso é um aprendizado com a Lygia Fagundes Telles, com Maria da Conceição Paranhos. Acho muito importante viver, deixar passar o tempo, esquecer, e relembrar para poder inventar. Esse processo, tenho consciente na minha literatura. Eu vivo primeiro as coisas e vou escrever muito depois. Tenho coisas anotadas de 2008, 2009, de uma viagem que fiz, e ainda quero fazer o diário de viagem, mas aí quero esquecer para depois escrever. Não quero fazer um registro real do que aconteceu. Isso para mim é um método. Esqueço para reinventar. E não é nenhuma originalidade. Já aprendi com as duas mestras que mencionei. O que eu escrevo, principalmente na prosa, tem todo um processo de apagamento. Tem uma experiência real, biográfica, lá no fundo, numa das camadas. Na prosa há pelo menos duas camadas obrigatórias: o fundo biográfico e a intertextualidade. Por cima disso, faço todo um processo de apagamento, vou eliminando todas as pistas de biografia e de intertextualidade. Claro que quando a gente apaga uma coisa, outra aparece, muitas delas que a gente nem tem noção, pois entram inconscientemente. O divertido é isso. Apago as pistas do que de fato aconteceu, seja de leitura de outros textos, seja de aspectos biográficos meus.
DA – Diante de um mundo que nos oferta confrontos em abundância, os arremessos são necessários?
MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Não. Acho o contrário. Penso que temos de mirar um caminho e seguir exatamente ele. O confronto é muito perigoso porque quando você entra em qualquer conflito você se desvia. Tudo bem que as pessoas entrem em conflito com você. O perigoso é quando você quer entrar em conflito com as pessoas, pois terá de ir até onde elas estão e talvez elas não estejam no seu caminho. Caso elas estejam no seu caminho, aí, sim, é possível ter conflitos ideológicos, estéticos, é possível se confrontar. Mas quando as pessoas não estão no seu caminho, o importante é você construir o seu próprio e fazê-lo alargar e alargar. Quando você estiver com o caminho bastante estruturado, certamente surgirá algum conflito, mas é bom que seja o conflito do outro com você e não de você com o outro. As estéticas, políticas e os movimentos afirmativos têm que fazer mais isso: seguir em frente, e não buscar confrontar o outro diretamente. Naturalmente, o outro que se por acaso está nos atravancando o caminho é que se vai confrontar com a gente. Mas aí nós não nos desviamos, porque o perigo do conflito é a gente se perder nesse desvio e viver as ideologias dos outros, sermos reativos a eles. Ser reativo ao outro não é bom nem em arte, nem em estética. Não é mais tempo da gente reagir à forma do outro fazer. Eu faço as minhas coisas, exatamente o que sei, posso e gosto de fazer. E realmente não me interessa como os outros fazem, se fazem bem, se fazem mal. Mas não pretendo discordar, ir contra o outro, porque senão eu paro de fazer o que tenho de fazer, que é de fato o que sei fazer: as minhas coisas, minha escrita, minha vida.
DA – Não te assusta o patrulhamento ideológico ao qual estamos submetidos atualmente?
MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Estou em relação a isso absolutamente recolhido. Eu me espanto com as opiniões tanto de um lado quanto do outro. E não consigo me sentir parte de nenhum dos dois grupos. É possível conviver muito bem com quem é diferente de você. Tudo isso me assusta. Não me envolvo e não tomo partido porque acho que há coisas ruins dos dois lados, e é preciso refletir muito. Tenho muito medo de pessoas que têm certezas, talvez porque eu não tenha realmente certeza de nada. Já há muito tempo que não tenho certeza de muitas coisas e também não tenho certeza de que devíamos estar todos aqui no planeta, vivendo. Acho tudo muito estranho. Penso tentando encontrar uma solução, mas não há. E há muitas coisas que não sabemos. Aos poucos, fui me acostumando a não saber as coisas, a não ter curiosidade. Por exemplo, em religião, já procurei muitas coisas, quis saber muitas coisas, e hoje em dia me contento em não saber. Aceitei o mistério.
DA – Vez por outra, vem à tona um debate sobre a divisão da literatura em nichos de gênero. É como se as vozes ficassem reduzidas a guetos. O que pensa sobre isso?
MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – É uma questão que sempre retorna. A má literatura é que fica em guetos. A boa literatura ultrapassa tudo. Tem os guetos óbvios (gays, mulheres, negros), mas tem um gueto muito menos óbvio, que se impõe por causa de uma força política, mas não pela qualidade literária, que é o gueto masculino, macho, heterossexual e branco. Há um tipo de literatura que só interessa a esse tipo de gente e que não escapa disso. A gente não percebe porque esse macho, adulto, branco, como diria Caetano, está no comando. E quem está no comando é quem decide o que é o certo, o standard, o padrão. Mas, se você for reparar, há mesmo uma literatura que não interessa às outras pessoas, que é muito particular porque é má literatura. Quando escapa desse gueto, não interessa a ninguém. As pessoas discutem, veneram porque este gueto é o gueto que está no poder, mas não deixa de ser um gueto. A boa literatura pode discutir questões raciais e interessar a todo mundo. Pode discutir questões gays e interessar a todo mundo. Pode discutir questões femininas e interessar a todo mundo. Pode discutir questões do machão, hétero, branco e também interessar a todo mundo. Tudo isso porque é boa literatura e se preocupa muito com a estética. A má literatura não interessa a ninguém. Só interessa àquele grupinho e serve para um gozo imediato daquelas pessoas, para uma função fisiológica rápida. Fisiológica não somente nos sentidos básicos, normais, mas também no sentido de servir como uma aceitação, um reforço do que determinada pessoa sente ou quer sentir. São literaturas que lidam com emoções básicas. Veja, por exemplo, a saga “Crepúsculo”, a qual não li, apenas vi os filmes. Ela tem um apelo muito grande com os adolescentes porque mostra a depressão que eles vivem naquela época. É muito chato para quem não está mais naquele período de depressão, de se pensar no que é, no existencialismo, de se viver uma vida sem grandes aventuras sexuais. É tudo tão casto ali porque é isso. Já “Harry Potter” é infantil, mas o tempo todo está lidando com outras questões e há várias camadas de leituras que se pode fazer além de um mero divertimento. Interessa a mais gente do que um “Crepúsculo”, que vai desaparecer em breve. Ninguém mais vai falar sobre isso. “Harry Potter” tem chance de sobreviver por muito tempo e interessar muito mais gente.
DA – No território da prosa, seus trânsitos criativos deixam um legado especial, sobretudo em se tratando de obras como “Eros resoluto” e “Três vestidos e meu corpo nu”. A ótica do desejo humano é uma trincheira de despertar para o mundo?
MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – O “3 vestidos e meu corpo nu” e o “Eros Resoluto” são livros tirados de um mesmo livro. Era um livro ainda incompleto, que até não tinha alguma unidade. No “3 vestidos”, eu coloquei três contos que têm uma visão feminina, são endereçados na questão feminina e em escritoras e têm uma intertextualidade expressa, flagrante e franca. E o “Eros resoluto” é mais específico de contos homoeróticos. Eles, a princípio, estavam todos num livro. Claro que os contos com a questão feminina não entrarão nesse livro futuro que um dia eu vou reunir, pelo menos com os contos homoeróticos. Talvez eu faça um livro só com os vestidos porque há mais uns três contos esparsos com visões femininas também. Essa vontade de organizar eu tenho muito. E tem, sim, sempre o desejo. Eu sempre estou prestando atenção no desejo que está por se realizar, porque é o momento que realmente importa. Uma vez que se realize, acabou, morreu. Até na minha pesquisa de mestrado o meu interesse era com o surgimento do desejo. Acho que o momento em que surge é o momento em que a gente tem mais plenitude de vida. Depois é ladeira abaixo, degradação, as coisas vão se acabando. É a pulsão de vida. O erotismo mesmo como pulsão de vida. É isso que me interessa tratar. Então, esses dois livros que vão se separar, e vão se chamar “Café Molotov”, trarão contos homoeróticos que tiverem unidade. E o “Três vestidos” também vai se formando aos poucos. Estou o tempo todo escrevendo uns três ou quatro livros temáticos e vou espalhando pelos livrinhos que tenho conseguido publicar. Às vezes, me pedem histórias específicas e vou tentado adequar aqui, ali, vendo onde se encaixa no projeto. Tenho uma planilha com as coisas que pretendo fazer. E vou recebendo os estímulos, produzindo e tentando encaixar. Eventualmente, alguma coisa é descartada ou outra acaba abrindo o caminho para novas possibilidades de livro que vou organizar no futuro. Mas a questão do desejo certamente perpassará todos os livros. Sempre é algo que aparece. Quando vou produzir um conto, eu trabalho sempre com várias unidades para que ele possa se encaixar num livro, em outro, e esses livros ideais estão sendo montados aos poucos. Quanto tiver a oportunidade de lançar um livro inteiro com isso, eu lançarei. Não tenho pressa porque é aos poucos que a gente vai fazendo. Assim que eu tiver oportunidade, sai essa antologia de contos chamada “Café Molotov”. Tenho o blog justamente com esse nome para assegurar o título como meu. Há um conto já escrito que trata disso, o qual permanece inédito para nomear o livro. Então, o meu desejo é de ordem, mais do que qualquer outra coisa. Meu desejo é apolíneo, e não o dionisíaco, que todo mundo busca. Eu quero ser apolíneo porque no caos eu já estou. Quero caminhar até a ordem.
DA – O caos também pode ser uma rota para a libertação assim como o desejo?
MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Para mim, não. A libertação está na ordem. Eu acho que já estamos no caos, e penso que a tendência da natureza é a ordem. Qualquer desarrumação que você faça na natureza em qualquer nível, seja nos moleculares ou sociais, a tendência depois é as coisas se organizarem, encontrarem um lugar, uma ordem. A pacificação está, para mim, na ordem e não no caos. O caos pode vir para explodir alguma estrutura e depois se buscar uma nova ordem, mas o caminho é a ordem. O fim é a ordem. O caos é uma desorganização momentânea. E ele é efêmero. As pessoas que falam do dionisíaco estão querendo trabalhar no registro do efêmero. Mas isso pode até servir para outras artes, teatro, performance, mas a literatura, stricto sensu, busca a perenidade. Então, você vai produzir alguma coisa que fique. Essa deve ser a intenção, pois o que não fica não é literatura. Literatura é o que vai acontecer depois, na leitura lá no futuro. Se você depende da presença das pessoas para o contato imediato, já não é mais a literatura stricto sensu, é arte cênica, música, performance, qualquer outra coisa. Depois surgiu a palavra escrita que vai comunicar para o futuro, para o distante. E aí você precisa de mais ordem. Hoje, as pessoas com todas as possibilidades de comunicação audiovisual estão dando muita ênfase ao momento da performance, ao contato próximo, ao texto que é dito em voz alta. Mas tudo isso é efêmero. É literatura dramática? É drama? É performance? Ok, mas não é aquela literatura que vai comunicar com o futuro, o distante, aquilo que nós não sabemos o que é ainda. Para essa literatura, precisamos de alguma ordem, de algum parâmetro para que a comunicação possa se estabelecer no futuro. Estou interessado no fato de que uma pessoa que não saiba quem eu sou, pegue um texto meu, até com a autoria apagada, e até se comunique de alguma forma com o que eu disse, sem depender de mim pessoalmente para que isso aconteça. E isso só se faz com ordem. Você não vai conseguir fazer isso com o caos. O caos é um caminho, um processo, uma etapa, mas não é o fim em si das coisas.
Espetáculo “Vous Doux” / Foto: Aldren Lincoln
DA – Ao longo do tempo, suas estratégias de criação mudaram muito?
MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Na poesia, eu acho que mudou alguma coisa. Tem um momento em que eu ganho mais consciência da forma. Depois também quero esquecer essas consciências, voltar a ser intuitivo. Na verdade, poesia eu comecei imitando. Em algum momento vou fazendo intuitivamente, aí publico o primeiro livro. Depois não consigo fazer mais nada que acho que seja interessante, paro um tempo e vou para a prosa. Mais adiante, volto a fazer poesia e aí ganho mais consciência. Até estudo métrica, forma, e depois esqueço. O que achei realmente após lançar o primeiro livro foi que, embora não tivesse uma preocupação formal, eu tinha estruturas que se repetiam. Depois, cansei, parei, e comecei a pensar nisso melhor. Acho que hoje em dia eu tenho mais consciência da forma, de como lidar com algumas estruturas. Umas se repetem, mas vejo que ninguém repara e então vou deixando. Tem alguns truques que se repetem, mas ainda está funcionando. Poesia é preciso descansar para depois fazer de novo. Recuperar, esquecer e depois aprender de novo.
Eu demorei muito a escrever prosa. Já tinha um primeiro livro publicado e nunca tinha escrito um conto e queria escrever. Os primeiros são muito intuitivos, muito poéticos e com pouca ação e história. Depois é que acho que fui aprendendo a fazer contos. O romance ainda estou aprendendo a fazer. Qualquer dia sai um, não sei. Mas o conto eu fui aprendendo e o meu modelo de escrever é com muita estrutura por debaixo. Tem sempre muita coisa por debaixo de um conto. Um monte de histórias que não são contadas, de truques. Há estratégias, às vezes até bobas, tipo “eu vou escrever e só vai acontecer a história em determinado lugar ou hora do dia”. Vou criando alguns obstáculos que depois acabam não aparecendo. Por exemplo, o conto “A omoplata” era um mero exercício, pois o objetivo era fazer um texto apenas com diálogos porque tenho uma repulsa em fazer diálogos. Sempre escolho não fazer. Então, me obriguei a fazer um conto só com diálogos. Agora já faço contos só com diálogos, alterno melhor. Posso eventualmente não escolher fazer diálogo algum ou não deixar as pessoas conversarem. Todas essas estratégias, algumas muito bobas, circunstanciais, tipo escrever sob encomenda, dentro de um determinado tema, são interessantes porque criam camadas de histórias, narrativas e temáticas. Acho que isso melhora um pouco a minha prosa. Isso eu fui aprendendo depois e cada vez faço mais. Vou construindo subtextos, subtramas, coisas escondidas para construir um conto curtinho às vezes. E sempre fazendo com que de alguma forma se relacione com outro conto que eu escrevi para montar uma malha, uma rede em que haja um diálogo entre eles. Toda vez que escrevo um conto, ou penso que ele vai se relacionar com algo que já escrevi ou ele abre um caminho para uma outra vertente, alguma coisa que devo fazer depois. Aí eu prevejo e deixo lá. Vai se montando uma teia. Quero que tudo se relacione de alguma forma. Isso acaba sendo uma estratégia, coisa que eu não fazia antes. Foi acontecendo aos poucos.
DA – O trabalho de resistência das editoras independentes inaugura uma nova era para as publicações?
MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Acho que todo mundo quer entrar nas garras do mercado tradicional. Ser um produto tão bom que possa ser consumido, circular bem, todo mundo quer isso. Mas isso não vai acontecer mais com todos. Não existe mais esse mercado para a literatura, a não ser aquela de entretenimento. A grande literatura não vai ter esse mercado todo e vai ser mesmo uma coisa pequena. Não vai ter mercado, vai ser arte simplesmente. Uma arte de alcance no momento reduzido, que depois vai esperar um alcance maior no tempo. No momento em que você publica, acho que cada vez menos vai haver circulação, pois mesmo quando circula, a boa literatura, essa literatura preocupada mais com a estética, circula num subterrâneo, num gueto. Não é uma coisa acessível a todo mundo. Por quê? Porque, claro, as pessoas não precisam mais da literatura para se divertirem, a não ser da literatura de entretenimento simplesmente. As pessoas vão assistir cinema, televisão, internet e não precisam ler. Não precisam gastar quinze, vinte anos aprendendo a ler bem, a interpretar um texto. Então, esse vai sendo um interesse de um número cada vez menor de pessoas. Mesmo que circule, sempre será uma circulação subterrânea, clandestina, que não chega ao grande público. As editoras pequenas, como as da Bahia agora, dão um fôlego. Isso é bom porque essa tribo das pessoas que leem, gostam de literatura e, na maioria, também escrevem acaba consumindo. Vai ser uma coisa pouca. Acho que não tem mais porque ter ansiedade. Todo mundo sonha, algumas pessoas até produzem obras com essa finalidade do grande público, mas você tem que fazer algo específico para esse grande público. E talvez não seja o caso nem de escrever um romance, mas sim um roteiro para cinema, televisão, que também é uma coisa muito interessante. Mas não é pra todo mundo e alguns escritos são para poucos mesmo, pois não há hoje em dia mais tantas pessoas com capacidade para ler e interpretar um texto literário. É um público muito reduzido. Com pouco dinheiro, você publica um livro. A questão das pequenas tiragens é uma saída, um respiro, um tipo de sobrevivência. Mas é só isso, mera sobrevivência. Não vai além.
DA –O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?
MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Pós-modernidade pode ser tudo. Se pode ser tudo, o que faço também é pós-moderno. O que eu não admito é que queiram que pós-moderno seja alguma coisa que ainda continue o Modernismo, as vanguardas lá do começo do século vinte. Isso não me interessa, essa agonia com o novo, essa vontade da novidade. Eventualmente, há coisas muito boas, mas há muitas que já nascem datadas, velhas, e que não se sustentam. Como o que eu acredito, penso e quero é algo que dure, o experimentalismo não me interessa. Claro que faço exercícios, mas não publico querendo que seja algo que vai ficar. Sei que é um exercício, é efêmero e não vai se sustentar. Mas alguma coisa da vontade de novidade fica. Não será tudo. Não tenho ansiedade do novo. Não me preocupo com isso. Quem quer fazer, que faça. A característica da pós-modernidade é a diversidade, a fragmentação. Então, cada um pode fazer o que quer. Eu faço o que eu quero, simplesmente, e pronto. E quem quiser fazer o que se diz como pós-moderno em oposição ao que faço, tranquilo. Não tenho ansiedade pela novidade pura e simplesmente. Tenho ansiedade pelo texto que fique tão bem acabado que não se possa dizer aquilo de outro jeito, a não ser daquele que foi dito. Não estou interessado no efêmero e no que vai se acabar a qualquer tempo. Claro que eu sei que tudo pode se acabar daqui a pouco, mas não trabalho com isso. Sei que tudo é assim, que tudo se acabará, mas o meu movimento de produzir é no sentido da perenidade. É um método. É o meu método.
DA – Por que escrever?
MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Pelo mesmo motivo que as pessoas bebem, fazem sexo, amam. Não tem motivo, pois ou é isso ou nada. E o que vem depois do nada a gente não sabe. É gostar de se expressar, de criar histórias, de construir um mundo particular, de construir a ilusão do eterno. É pra isso. Se a gente começa a pensar o porquê das coisas, todas elas não têm muita razão de ser, não têm muita necessidade. Nem viver, não é? Mas a gente vive porque não sabe o que vem depois, vamos aproveitando o que se tem. Eu comecei a escrever porque gostava de ler o clássico, o clichê do clichê, e gostava de estar nesse lugar. E tem uma hora que você tem que criar esse próprio lugar. Tem gente que bebe e vive para isso. Tem gente que gosta de futebol. Há pessoas que fazem outras coisas e apenas preenchem o tempo. Acho que pelo menos a literatura ou a arte de um modo geral têm essa sensação de que está se construindo alguma coisa. Esse é o grande lance. É isso que aproxima talvez as artes da religião. A religião também é isso. Ela é a aposta num depois, aposta no que a gente não vê, no sobrenatural. A arte também é uma aposta no sobrenatural. A aposta na comunicação com uma pessoa que você não sabe quem seja é uma esperança. Escrevemos por esperança, simplesmente. Em quê é que é o problema. O bom da esperança é que ela não é em nada. Esperar nesse sentido é intransitivo. Simplesmente, esperamos uma coisa, uma transcendência, um além. Claro que você pode escrever poesia, prosa para objetivos mais específicos, mais circunstanciais, mas quando a gente começa a se perguntar o porquê das coisas, vai dar em nada, que ao findar vai dar em nada, nada, nada do que eu pensava encontrar, como se diz na música do Gil. Mas é isso. Se você começa a pensar, a gente vai acabar no nada. Então, eu escrevo porque me preenche de alguma forma. Se não escrevesse, talvez eu bebesse.
Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.