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109ª Leva - 03/2016 Destaques Olhares

Olhares

Paralelismo de sensações

Por Fabrício Brandão      

 

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Arte: Helena Barbagelata

 

Entre os atos, pairam taciturnas outras existências. Viver é esse gesto colossal de colecionar mistérios e avançar por sobre eles sem que saibamos ao certo suas origens mais imediatas. É flertar com o desconhecido que nos apresenta suas investidas cotidianamente. Embora busquemos natural abrigo no algo concreto e visível, somos tomados vez ou outra pelas garras da abstração.

Quando não sabemos lidar com o intangível, muitas vezes sentimos que perdemos a desejada capacidade de controlar as coisas ao nosso redor. É muito mais do que uma mera questão de se ir além da superfície. Um percurso de rotas que nos atraem rumo ao estranhamento de nós mesmos.

Para além das experiências corporais, há trajetos de invenção e sonho. Almejando alguma espécie de libertação, um criador se rende aos atributos desse caminhar por dimensões imateriais. Assim, o que parece ocorrer é que um curioso processo de reconhecimento se opera, tornando a vivência das situações um mirar de faces diante de um espelho.

Para uma artista como a portuguesa Helena Barbagelata, o outro lado do espelho reflete uma esfera de vivências na qual o físico e o abstrato convivem harmoniosamente. É como se um ambiente único de percepções surgisse, mesclando o real e o onírico, o vivido e o imaginado.  Tudo num organismo amalgamado que processa as mais complexas questões do olhar.

 

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Arte: Helena Barbagelata

Helena expõe certas densidades humanas. Mostra-nos um conjunto de gestos, externa rostos carregados de sobriedade, aponta trajetos do corpo. Em lugar de entabular razões, a artista utiliza como principal ferramenta um prisma poético sobre as coisas observadas. É, de fato, uma valiosa escolha na medida em que os recursos da sugestão promovem uma ideia de que as vias estão abertas para captar algo que não habita o território das obviedades.

Nascida em Lisboa e hoje vivendo em Atenas, Helena há muito percorre caminhos em torno das artes plásticas, música e literatura. Na seara literária, colaborou com revistas internacionais, obteve prêmios e publicou a obra Soliloquia (Apenas-Livros, 2013). Em matéria de artes visuais, suas criações transitam entre a pintura e a fotografia.

Considerando a arte como um diálogo entre criador e receptor, a artista lusitana abre fronteiras para a libertação do olhar, ponto no qual quem contempla é capaz de vislumbrar outros significados para a criação. Ainda, segundo Helena, os caminhos percorridos levam a uma alternativa não somente de autoconhecimento, mas também de descoberta do homem em relação a seus pares e ao mundo.

Contemplar a obra de um alguém como Helena Barbagelata é apostar na existência de dimensões ilimitadas e paralelas em convivência. Na intersecção entre o palpável e o inventado, percebemos uma sucessão de camadas de vida. São saberes do ato de existir, noções que apenas são percebidas porque se ousou experimentar a continuação dos passos.

 

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Arte: Helena Barbagelata

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.  

 

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109ª Leva - 03/2016 Destaques

Janela Poética II

Adriana Versiani

 

Helena Barbagelata
Arte: Helena Barbagelata

 

Misericórdia

 
Jandira sorri para os meus olhos opacos.
Abstraio.
A..M.A.R.E.L.O:
a cor preferida de Van Gogh.

Toda manhã,
Ameixa esquecida na árvore à espera do vento,
..Ela.
Palavra antiga brotada sozinha na terra do quintal,
curiosa dos meus sonhos,
Vem
saber da algazarra das cigarras, dos girassóis da Holanda,
do pigmento que colore a tela.

A escrita racional de Jandira arranca o mato que cresce no canteiro de hortelã,
mata todas as formigas do formigueiro e não gosta de metáforas.

Jandira oxigena o ar do quarto com a serenidade de seus dentes brancos
Os dentes brancos de Jandira não querem saber da morte.

Meus olhos opacos boiam na água da pia,
quando Jandira fecha a porta.

 

 

 
***

 

 

 

A Louca e o Cinzel

 

Para Maura Lopes Cançado

 

 

Mais uma vez, uma voz doce convida para a descida:
– Venha Maura, você é linda é uma flor, é minha menina!
Venha me beijar a testa e aquecer com o bico do seu seio o dorso da minha mão fria!
Venha Maura, você é linda, é uma flor, é minha menina!

Primeiro o crepúsculo, depois a angústia:
De onde veio a palavra
Hos-pí-cio?
Nem quando tudo manifesto:
os muros, o arame farpado, os azulejos brancos da enfermaria,
nada sossega a falta que ela resume.

O nome, a noite, o sexo.
A pedra da loucura tocou de leve minhas têmporas, desceu pela maçã do rosto e com som oco perfurou minha clavícula.

O gosto do álcool experimentei na sua boca, pai!
Devagar tirei das casas os sete botões.
Depois vertigem e o desejo de manga madura roçando a carne dos meus dentes.
Mais álcool, mais sete casas se desfazendo dos botões.
Sei o travo do sal na língua quando penso a palavra hospício, mas ela não diz os azulejos brancos da enfermaria, as injeções, os remédios coloridos.
– Venha Maura, venha caminhar no pátio e ouvir comigo o som dos bichos!
Você é linda, é uma flor, é minha menina!
O ritual da morte do porco não me diz.
Os guinchos que ele solta sua pele rosada, as marcas de sangue na faca, a separação dos pertences, a sobra…
N A D A
A concretude da palavra
CITO,
não
DIGO.
Para além das grades da janela,
NADA

Os azulejos da enfermaria guardam a suprema forma de escrever.
Sufoco minha vítima com o travesseiro:
o poema escolhe para si a melhor forma de morrer.
Pedra da loucura que dobro e é recortada, que afio e pelas coisas é afiada.
Raposa nos campos do Senhor.
Gozo no tatame,
grafito o tapume,
escondo as provas,
dentro dos sacos de lixo.
-Venha Maura!
– Ambígua, sou prosa e sou poema.
– Venha Maura!
– Sou força e sou sistema.
– Venha Maura!
– Eu , Maura, sou escrava da sintaxe e do desejo.
– Venha!

A etimologia, o sentido, o equilíbrio, mais uma dose,
sou escrava.
Além das grades:
mar sereno,
relva,
alimento.

Eu , palavra impura
Eu, meu delírio
Eu, matéria turva
– Venha Maura!
Venha memória, crista do cristal, carne da carne da palavra hospício, carne da carne da palavra sentido, carne da carne da palavra palavra, carne da carne da palavra ofício, carne da carne da palavra azulejo, carne da carne da palavra .
Venha !

O real não me substancia,
sou Maura,
a fibra que envolve o fio no poste que ilumina a rua.
Enredei-me de Deus, estou nas vísceras do porco.
Peço vistas ao processo que se dobra sobre mim.

Eviscerada, não ouço o meu próprio guincho, não vejo dor no sacrifício, quero jogar esse avião no chão e ser terra, verme, adubo nas plantações do meu pai. Meu pai, corda tênue, casa dos sete botões que me alimentam. Por isso fico nua. Já me foi concedido falar, então FALO. O resto é a pele rosada do porco e o mistério refém dos azulejos. CALO.

Palavra por onde desliza frenética a minha língua má que anseia por seu guincho.
Escrevo com tinta e vomito sobre a textura do que foi dado.
Sei bem o travo do sal nos lábios.
Descortina-se o mar e o mar é dentro de mim.
Bato com a mão no fundo e bebo os organismos minúsculos que vivem nos arrecifes.
Não era minha intenção despertar.
A vida tornou-se grande e apertou o nó da corda que trago presa ao pescoço.
Por amor sou capaz de matar.

Matei.

 

 

 

***

 

 

 

Herança

 

 

I

Tudo que havia para ser dito, já foi dito.
Sentada em frente à escrivaninha que pertenceu ao seu avô, Adriana dos Anjos pensa na palavra vísceras.
Na biblioteca as flores são trocadas todos os dias e não importa se crisântemos ou rosas. Flores continuam flores e o importante é que estejam frescas.
Adriana dos Anjos tem paladar apurado e está sempre atenta ao movimento dos insetos e ao cheiro de mofo que os livros exalam.
Com muito esforço consegue se lembrar da salada de frutas que comeu ao meio dia, mas exposta, é capaz de sentir o cerne da palavra vísceras.
Sentada em frente à escrivaninha, diariamente, vê as flores serem trocadas e ouve o som das traças desenhando mapas em antigos romances.
Não vai dar em nada, a Adriana dos Anjos.

 

II

Vivo nesta casa com Adriana dos Anjos.
À minha frente vejo um vaso de ervas mergulhadas em água.
Sonâmbula, Adriana dos Anjos fala em línguas:
há três séculos acordo assustada com seus gritos.
Ela está sempre comigo e ontem parecia feliz.
Hoje, dorme para sempre.

 
III

Envelhece Adriana dos Anjos, em meio à azáfama.
Engole o turbilhão e transpira o líquido da sua má digestão.
O vento depois da vidraça e tudo que havia antes já foi dito.
Sobre ela, a única coisa que precisamos saber é que a encantam as pontas dos lápis.

 
IV

Neste quarto onde me visto com Adriana dos Anjos, volto ao sonho de intuição e beleza.
Com um caco de vidro, disseco os músculos do seu pescoço.
Sou as flores mergulhadas no vaso e ela, seiva indeterminada em minhas veias.
Sei que tudo que tinha para ser dito, já foi dito.
Restam-me apenas cem palavras.

 

V

Desde que desistiu da multidão, Adriana dos Anjos se finge de morta no coreto da praça.
Escondidos no vestido, guarda as agulhas de tricô que recebeu de herança de sua bisavó e um estilete para apontar o lápis.
Enquanto sonha, bebe água da poça e come as folhas amargas do cipreste.
Fingindo-se de morta, Adriana dos Anjos dança descalça sobre as brasas.
Os mendigos se recusam a beijá-la.

 

VI

Com Adriana dos Anjos busco pelo escritor americano no parque da cidade.
Suas pegadas nos guiam.
Paramos uma ao lado da outra, em frente à sequoia gigante.
Eu não vejo Adriana dos Anjos.
Adriana dos Anjos não me vê.
Nenhum som nos nossos corpos.
A “sequoia gigante” é apenas uma palavra composta por duas imagens.
O escritor americano segue pela trilha armado com o estilete que Adriana dos Anjos usa para apontar o lápis.
Grafo esse bilhete na carne da árvore, para que o veja o escritor americano que está aqui, atrás de mim:

“A canção da sequoia, estranhamente, mesmo que muito antes, não me remete ao escritor americano.
A canção da sequoia, estranhamente, mesmo que muito antes, esquenta meus dedos na brasa do fogão.”

 
VII

Por algumas horas, olha para a xícara que sua mãe trouxe da Jamaica.
A xícara que sua mãe trouxe da Jamaica é de louça japonesa e nela há a imagem de um camelo e de uma pirâmide.
No pires que acompanha a xícara há a imagem de um camelo, de uma pirâmide e de um coqueiro.
Adriana dos Anjos aponta o lápis faber castel número dois com o estilete que guarda dentro do vestido e despeja leite na xícara.

 

VIII

Nesta escrivaninha onde sinto meus nervos a flor da pele, Adriana dos Anjos folheia o antigo livro de química orgânica que herdou de seus ancestrais e escreve compulsivamente.
Não se lembra da última vez que lhe beijaram a testa antes de dormir.
Tem ossos de vidro Adriana dos Anjos, que tenta afinar a ponta do lápis para que fique da espessura de uma agulha.
Teimosa, fere o pulso com o estilete e não derrama lágrima.
Ao meio-dia, abre a porta da geladeira.
Tem muita fome a Adriana dos Anjos.

 

(Adriana Versiani dos Anjos é mineira de Ouro Preto. Tem cinco livros de poemas publicados, dentre eles, A Física dos Beatles (2005) e Conto dos Dias (2007) e o virtual Explicação do Fato (2008 – Germina literatura – Revista Virtual) e Livro de Papel (2009). Foi co-organizadora da Coleção Poesia Orbital e do Jornal Inferno. Fez parte do conselho editorial da Revista de Literatura Ato. É editora do Jornal DEZFACES)

 

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108ª Leva - 02/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Carol de Bonis

 

Ricardo Laf
Foto: Ricardo Laf

 

Uma espécie de perda

 
Foi-te uma espécie de perda
Começo como se perderam os dias
De uma infância. Falo-te assim como
Quem se despe do corpo e chega
Recém-nascida. Aprendestes a respirar

Debaixo d’água e anos depois
Quando as folhas mudaram as estações
Mesmo emergisses dos ares
Para pousarmos em teu abstrato
Tudo que fosse relativo –

Os segredos encolhiam-se nas areias
– o mar inteiro dentro da voz – Se venho
De uma espécie terrestre, é por conhecer a terra
Se me confundo com as ostras, é por guardar
Demasias de sentimentos. Mudos e silêncios.

Uma longa história de pirâmides e desertos
Furtos às montanhas. Mas nas ruas todos seguiam
Acontecimentos decadentes, quando a ciência morria
Outra espécie de perda, você disse
Nos fica uma assombração
Uma disritmia respira sobre os pântanos
Essas botas enlameadas a efêmera partida
Hoje, voltaríamos com as chaves para a casa
Pela rua do sol da infância.

 

 
***

 

 

Monotonia submersa

 
Entrar no teatro pelas portas dos fundos
Esperar até que as cortinas se fechem
Sentar-se numa cadeira detrás do palco
Baixar os olhos e soletrar um verso
Heroico com as formas de adeus.

Mas o que queríamos era antes acreditar
Saber que detrás do palco se encenam outro
Espetáculo: vida, suas
Guelras sanguíneas em separações

Entrar pela casa sem que a soleira
Conte-lhe a presença de seu ranger noturno
Os objetos tão presentes querem ser olhados
Pela ausência e ter nome de pertencimento.

A carnadura dos móveis estala
É um estar em si
Que já é de si esse saber
De estar inteiro
Diante de nossa presença

Mas o que queríamos eram seres abissais
Abismos, no corpo
Filamentos imemoriais
Que sem voz estalam

Feito a lenha seca, o fogo da lareira
Essas coisas falam e destravam
Os porões da memória

Ir até a parede de azulejos frios e suspirar
Roucamente sem que fosse você
Que pronunciasse a perda
Antes que os olhos estivessem partidos.

Entrar pela casa como se fosse todo dia.

 

 

 
***

 

 
Estrangeiro

 

Em mim o outro lado
Metade enigma quando do atlas
Os países me acobertam em ruas
Embandeiradas de meus refúgios
O gosto de nata nas algas de alguns sonhos
Como se ao abrir a janela as neblinas fossem
Respostas das antigas máscaras da sinceridade
Amanhecendo azul e alguma ilusão de calma
Recordasse a expressão branca do último personagem
Que morreu em mim. Antes da gaveta aberta o outono
Quase-memória escorrendo por tudo que ainda não fui,
Mas é vida esse elo perdido, dentro de mim o rosto
A espera da mão que adormecerá meu sonho.

 

 

***

 

 

Contornar o fino fio

 
Eu não sou o que digo
Mas é como se fosse
Digo gaivotas asas feridas
Em queda dentro de duas brancas
Pupilas ao vento. Elas voam.
Num ato de deslocamentos
Entre o instante e o antigo
Entre a terra e o céu
Como se dizer estivesse fora do que eu digo
Como se quando eu falasse
Algum recorte de mim
Fosse um fio sobreposto de imagens
E fosse esse céu
Onde avisto gaivotas
Regressando dentro da língua
Essa espécie de duplicidade
Presentes em duas asas abertas
Presentes ao dizer assim contornar
As sílabas pelo fino fio
Será um jogo de alegrias
Seria jogo de tristezas
Ou um jogo de alma e corpo
Prévia anunciação
A algum recorte que fita
Dentro desse meu olhar, teu olhar.

 

 
***

 

 
As dádivas entregues

 
Quando pensas no mundo
Aonde levas o destino de delírios
Ou curva-te serenamente
Às dádivas entregues?

Amanhece como a forma condensada
Em chão de terra vermelha
Segue a orfandade
Espelhada pelo mapa

Onde fumaças de nuvens como mísseis
Eram países entre um oceano
A linguagem destituída da origem
Em que se apreende
No teu próprio corpo.

 

 

***

 

 

Desterro

 
Teu canto
Território de raiz
No arquejo das estações.
Em pousos irregulares
Ouço o murmurar
Encosto a face ao solo ancestral
Ressoando a língua
Tateando no escuro
A terra morada
Gruta de movimentos
Ondulantes no céu da boca.
No corpo, entre fogos e canções,
O rapto das danças selvagens
Incessantes passos erigem ruídos
Nos refúgios da noite.
Entre o gesto e o risco no ar
Aparição do instante
Moldado ao barro,
A espera do nascer de um sol
Uma ilha sem rota sem mapa
Desliza ao centro
Onde se ilumina,
O canto, alquimia remota
Um mar indiviso rio.

 

Maria Carolina De Bonis é autora do livro Passos ao redor do teu canto (Editora Patuá, 2015).

 

 

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108ª Leva - 02/2016 Destaques Olhares

Olhares

Conjunções urbanas

Por Fabrício Brandão

 

Ricardo Laf
Foto: Ricardo Laf

 

A cidade apresenta seus matizes. E há muito por trás disso. Tudo traduzido num ritual de cores, linhas, formas, luzes, sombras e gestos. Dentro da metrópole, reinam sentidos múltiplos, escondem-se outros tantos segredos. O concreto não existe por si só, enquanto resultado de décadas e décadas de feituras arquitetônicas, mas assume uma nova conformidade na medida em que os habitantes dos seus domínios alimentam o vaivém dos dias com o fluxo das suas ações.

Estar numa cidade é fazer parte de um imenso campo de abstrações. Por mais que se tome as coisas como fruto imediato das observações mais aparentes da vida, um quê de mistério ainda resiste. Quanto sentimento pode caber nos corredores viários, nas ruas, alamedas e avenidas? O que, de fato, define as paisagens urbanas?

São questões razoáveis, plausíveis. Certamente, a resposta está no modo como as intervenções humanas protagonizam seus papeis. Na caótica rotina urbana, pessoas passeiam suas efusões e dores, carregam suas máscaras, consolidando um verdadeiro e difuso espaço de representações.

No trabalho de um fotógrafo como Ricardo Laf, a imagem traz em si um caráter fortemente voltado aos aspectos acima descritos. É como se o artista retivesse instantes e extraísse deles alguma máxima do tempo, espécie de testemunho insone das coisas.

Ricardo Laf
Foto: Ricardo Laf

Nas fotografias de Ricardo, a perspectiva física dos lugares vem redimensionada pelas marcas que os homens assinalam em suas passagens. Assim, a matéria incorpora os ecos de seus personagens transformadores, assumindo também uma faceta ativa. É como se houvesse uma confluência entre os dois mundos, um de carne, outro de pedra.

Quando incursiona pelas vias citadinas, o olhar desse artista mineiro também sonda vestígios, verdadeiros lugares de ausência que são pressupostos de silenciosos e anteriores ímpetos humanos. O saldo dessas marcas reflete um complexo painel de histórias camufladas pela rotina. Aos poucos, vislumbramos também narrativas de vida dispersas nos vãos da colossal matéria. Mesmo onde impera algum tipo de devastação, uma memória ali se instalou.

Jornalista por formação, Ricardo Laf também estudou Ciências Sociais, Teoria da Literatura e Semiótica. Confessa-se com uma intenção estética de, através da fotografia, dar vazão ao registro visível do mundo. Sua relação com a imagem remonta à mais longínqua infância, despertada por uma pueril curiosidade.

Bem sabemos que muito se perde no torvelinho cotidiano. De tão acostumadas, nossas horas tendem a refletir um ciclo de ações por vezes mecânicas. Com tal comportamento, alteramos as configurações dos espaços em que transitamos sem sequer desconfiarmos que neles alguma porção da vida restou coagulada. E o que mais fascina nesse automático processo de desprezo é saber que de algum modo alguém nos chamará a atenção para as sutis epifanias do esquecimento, seus cenários repletos de histórias possíveis.

Ricardo Laf
Foto: Ricardo Laf

* As fotografias de Ricardo Laf são parte integrante da galeria e dos textos da 108ª Leva

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.

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108ª Leva - 02/2016 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Cinthia Kriemler

 

Ricardo Laf
Foto: Ricardo Laf

 

Vigília

 

A velha sentada na varanda suspensa de madeira não mexe mais os olhos para ver o que acontece no chão, cinco metros abaixo. Ela não respira. Para não sentir o cheiro da podridão que vai além das fezes dos animais e do mijo dos bêbados e da porra dos homens que trepam com as prostitutas no beco e das línguas que envenenam histórias nos ouvidos fracos e do tabaco vagabundo dos operários. Ela não está morta. Mas é como se estivesse. E talvez esteja. Não da morte que deita no caixão e põe nas narinas algodões para aparar os fluidos fétidos do corpo. Ela morreu de inexistência. Do dia após dia em que ganhar nunca foi opção. Ela perdeu. Tudo. Os dentes da boca infectada; os cabelos brancos fracos e finos que os anos trouxeram antes ainda da velhice; o tesão que aliviou tantas noites cansadas de dias de trabalho insano; os filhos que não vingaram na barriga por causa da fome e das doenças; o companheiro que foi embora deixando para ela uma cria doente que mal vingou e quatro tíquetes de refeição que recebeu em pagamento por um serviço de pedreiro. Além dessa cria, que depois virou anjinho, ainda ficou para trás uma solidão que também tinha fome. A única que ela conseguiu nutrir até que os farelos se acabaram.

Inerte na varanda. É assim que ela vive. Na cabeça, um pano encardido para esconder a calvície. E um vestido preto que não é de luto, mas da sobra dos sacos de caridade da igreja. Um dos olhos já quase não se abre; e o outro não se importa. Ela não sente nada. Nem alívio. Ao lado, um prato de comida que alguém traz quando pode. Vazio. E uma caneca de água pela metade. Ela sempre come tudo. E bebe aos goles. Deixa que mãos estranhas a banhem numa bacia de água fria, a vistam com o mesmo vestido preto, envolvam a sua cabeça no mesmo pano encardido, e a levem de volta à cadeira na varanda. Ela come e bebe porque quer ficar forte para continuar a vigília. E se esquecer de tudo o que fede e grita cinco metros abaixo. Quer se aprumar para caminhar com a morte quando ela chegar. Na direção do céu que só existe bem longe. Lá, ela vai rever a cria, o pai funileiro, a mãe costureira. Gente que a saudade desassossegada nunca deixou partir do pensamento. E vai ganhar vestido novo. Todo branco. E uma tiara brilhante para prender os cabelos pretos, longos, cheios. Essas coisas que só Deus dá. No céu.

***

 

 

Na escuridão não existe cor-de-rosa

 

Quando eu era pequena, eu queria ser bruxa. Bruxas não usam cor-de-rosa. Nem são loiras. Eu não conheço bruxas loiras. Só conheço fadas. Castelos. Sonhos. Varinha de condão. Sapatos número 35 — vá lá, 36 nos dias de calor! —; manequim 34. Gestos delicados. Passos de gata no cio. Ou de gazela, ou de garça. Esses bichos dissimulados. Cabelos loiros. Loiro Ultraclaro 90. Koleston. Nem cachos, nem ondas. Liso europeu. Fadas são europeias. Olhos azuis bem claros. Da cor do mar de Aruba. Que não é na Europa. O mar das bruxas não é azul. É escuro. De tempestades e naufrágios. Mar Negro. Afunda cinco navios de uma vez. Carrega tudo para as águas de baixo. Embaixo d’água não tem fada. Fadas não podem molhar o cabelo. As bruxas podem. Bruxas têm cabelos de anêmona. E se grudam nas rochas do fundo do mar. E afundam navios. Cinco de uma vez.  Para brincar de contar os corpos inchados dos afogados e os pedaços de barcos e lemes e adriças e quilhas e estais e gaiutas e birutas. Birutas são as fadas. Mornas como as correntes do Golfo. Bruxas são geladas. Como as correntes de Humboldt. Cheias de plânctons, de peixes. Ou quentes pela chegada afrodisíaca de El Niño. Eu queria ser bruxa. Quando era pequena. Vassoura, caldeirão, poções de magia, chapéu de ponta. A carruagem das fadas não é segura. Ela rola no precipício. No precipício das bruxas. Onde moram as cobras, os lagartos, os sapos que nunca viram príncipes. E os corvos, essas criaturas dadas às carnes mortas. Que só comem quando sentem fome. Que limpam a sujeira que não fazem. Limpam, limpam, limpam. Para que as fadas pisem terra sem restos. Para que as fadas não cheirem a podridão da morte. Mas as fadas insistem em preferir os passarinhos. E os dias de sol. E os meninos e meninas com juízo. E os homens bonitos. E o pagamento em euros. Ou libras. Cotação em alta. E tudo cor-de-rosa. As unhas, as bochechas, o pôr do sol, a vulva, a moldura do espelho. Bruxas não gostam de luz. Nem de reflexos. Por causa das verrugas que têm no nariz. Que afastam os meninos e meninas cheios de juízo. E os homens bonitos. Bruxas só gostam da noite. Entranhada dos sons das criaturas invisíveis. E da igualdade mais estranha. Na escuridão não existe cor-de-rosa. Nem fadas. Porque as fadas dormem com as galinhas para ter a pele mais bonita. Eu queria ser bruxa. Desde pequena. E de tanto gritar para a boca da noite, ela me respondeu: Your wish is my command!

 

 

***

 

Bonecas

 

Sentada na beira da cama, inexpressiva, ela deixa que ele vista seu corpo com o vestido azul brilhante. O batom vermelho e os cabelos arrumados como os de uma boneca importada são detalhes que ele ajeita com meticulosidade assustadora. Com as mãos trêmulas, ele prossegue, tirando do bolso da camisa um par de brincos pingentes. São caros e já foram usados. Ela não é a primeira. Longe disso. É de meninas como ela que ele sobrevive faz tempo. Muito tempo. Meninas compradas por algum dinheiro, meninas que ninguém quer. Ele quer. Com a obscenidade dos monstros.

Não sente culpa. São elas as culpadas. Os demônios que o fazem desejar e obter. São elas, e seus olhos ainda sem história, e seus corpos ainda sem forma, que o atraem para o pecado. Por isso ele as odeia. Criaturas malignas. Feitas para lançar no inferno homens como ele, que não resistem à pureza.

É um vício caro. Porque ele não repete nenhuma delas. Uma vez tocadas, não servem mais. Mas de onde vem uma, vêm todas. Histórias e histórias que se repetem nas ruas e nas periferias miseráveis. Todos os dias. Meninas oferecidas por pais e parentes em troca de pouco dinheiro. Ou espalhadas por avenidas e portas de cinemas, de teatros, de igrejas, em bandos barulhentos. Ninguém sabe delas. Ninguém quer saber. Ele quer.

Geralmente, o cafetão as entrega num quarto de motel. Mas acontece de ele mesmo ir buscá-las, quando os instintos se descontrolam em urgência. As roupas, no entanto, ele faz questão de escolher. Cada vestido, cada sapato, cada colar ou brinco. Os batons e a maquilagem dos olhos são baratos. Comprados sempre em lojas diferentes, mas com a mesma desculpa: presentes para a esposa. Como se a dele usasse batom barato, maquilagem barata. Como se a dele não fosse tratada a coisas caras. Como se a dele se prestasse às imundícies que ele comete nos motéis. A cadela de luxo que não quer lhe dar filhos. Ela jura que não pode, mas ele sabe que é mentira. Logo ele não é pai. Ele que quer tanto as suas próprias crianças para ninar e pôr para dormir. Para serem só suas.

Faltam apenas as sandálias. Mas ela continua sentada na beira da cama. Esperando. Indefesa como todos os impotentes. Pensando que nas ruas estaria dormindo no chão duro, sem ter o que comer. Que estaria fugindo do cafetão que bate em todas as meninas como ela. Que estaria com frio. Apenas por isso, e por tudo isso, ela acredita que tem sorte de ter sido escolhida. E olha a boneca bonita e sorridente que ele lhe deu. A boneca que é mais cara do que ela. Mais limpa. Mais feliz.

Ele a toca. E ela pensa que talvez seja melhor dormir na rua, com fome, sobre o chão duro forrado com pedaços de papelão das caixas de supermercado, agarrando-se às outras meninas para não sentir frio. Mas também pensa em tudo o que mais quer: a boneca. Tão bonita, tão limpa, tão feliz.

Então, ela se lembra do pequeno presente que as meninas mais velhas lhe deram. Confere, cuidadosamente, sob a língua desacostumada, o aço da gilete. Ele se ajoelha para lhe calçar as sandálias douradas, de salto alto. Assim, os dois na mesma altura, ele lhe parece apenas o que é: um bicho pronto a dar o bote. Um bicho que agora esguicha sangue no vestido azul.

Lentamente, ela começa a tirar aquela roupa suja, mas sempre olhando para ele. Para as mãos que pararam de tocá-la e que agora tentam estancar o sangue que jorra do pescoço. Para os olhos que se desesperam, esbugalhados. Para o corpo que se contorce grotescamente. E os sons da besta em agonia estranhamente a alegram.

Ela não chora. Não pode. A boneca bonita, toda suja de sangue, precisa dela. Coitadinha.

 

 

***

 

 

Bomba suja

Sujos, mortos, frios. Sobre a lama misturada ao sangue, quatro corpos de crianças. Não. Cinco, que vejo agora mais um que se esparrama aos pedaços. Nos rostos, uma paz estranha que não tem em gente grande quando morre. Morreram sem saber, sem pressentir, sem querer, sem poder, sem valer para nenhuma estatística mundial ou para a grande mídia. Morreram de estilhaço, de explosão, de insensatez. Da contabilidade da guerra, que nunca fecha.

E, contudo, estão serenos na morte. Como a dizer que o deus que se chama Alá, Emanuel, Buda, Krishna ou Coisa Nenhuma está com eles. Será? Não esteve. E, se esteve, é fraco esse deus que não vê, não impede, não ergue a mão pesada sobre os poderosos gestores das carnificinas, nem estende a mão-escudo aos homens de boa vontade.

São anjos deitados em fila. Apenas dormindo. Um deles parece sorrir. E talvez seja isso mesmo. Ri de nós que sobramos neste lugar de desconsolos. Ri dos nossos protestos caseiros, das nossas teses distanciadas, dos nossos fracos vômitos de repúdio.

Seriam adultos bonitos, posso ver daqui. Quatro deles. A menina — única em meio aos corpos — cresceria mãe. Essa profissão macabra que engendra e alimenta humanos para depois vê-los cair, cadáveres, sobre a lama remexida pelas bombas sujas. Os três ao seu lado, eu os diria homem santo, agricultor e soldado. Dou-lhes profissão para não os imaginar mendigando pão ou carregando água em vasilhas sobre as cabeças infantes. Disso, já me fartei.

O homem santo ensinará aos outros que ter virtudes neste mundo garante apenas o próximo. O agricultor contará aos outros que não conhece o gosto do alimento que produz. O soldado mostrará a eles que a blindagem antiminas do moderno Al-Zarar que conduz é a única fé que o satisfaz.

Para a quinta criança não tenho profissão. Nem palpite. É um menino — conta alguém que o reconhece não sei como. E permanece lá, multiplicado pela lama ensanguentada. Sem rosto sereno, sem rosto algum. Apenas um futuro estilhaçado em pedaços de carne imolada. Ele me lembra o cordeiro em sacrifício, morto em honra do deus que se zanga e vira as costas e se esquece de ser mais pai que senhor.

Sigo a trilha abjeta daquele corpo de criança explodido pela bomba suja e ensurdeço meus ouvidos aos lamentos das mulheres que choram em ódio e incompreensão. Elas não me interessam. São, como tudo o que ainda resta vivo, revolta inútil.

Quero vasculhar o barro fétido. E buscar os olhos da criança enterrada na lama vermelha. Só eles me mostrarão se a dor se leva para o outro lado.

***

 

 

Arremate

Escuto o uivo do cão e por um momento quero voltar e abraçá-lo e lhe dizer que eu também preciso gritar. Mas se eu me virar sei que nossos olhares se encontrarão em solidão e ele vai me pedir que o leve comigo. Não posso. Não quero enganar o cão. Ele sabe. Lambeu tantas vezes meu rosto aguado de tristeza. Deitou-se em cumplicidade enquanto eu maquilava de afeto as máscaras. Foi um cão fiel. Caminhou ao meu lado, saltou feliz, abanou o rabo e latiu à porta. Mas foi também um amigo de silêncios prestados. Para onde vou não se leva um cão fiel. Apenas a carcaça dos erros e a pressa de esquecer o que é supérfluo: amor, decência, humanidade. Adeus, cão. Agora que fechei a porta entre nossos destinos, tudo fica mais fácil.

O caminho hoje está molhado. Eu prefiro assim. Não gosto quando os sapatos roubam o pó vermelho da estrada. Nem de deixar pegadas rasas que qualquer vento apague. Quando chove tudo é diferente. A caminhada afunda na abundância do barro e a terra se abre a um gozo de estocadas. É bom que ir seja em dia de chuva. Talvez eu também chova se ainda souber. Talvez eu tente desfazer o nó que desoxigena meu peito. Talvez eu só sinta saudade. Do armário cheio de roupas compradas para ir onde nunca fui. Da estante com santos, duendes, budas e patuás exaustos de me negar pedidos. Da risada estridente dos filhos que não tive. Do verde intenso roubado a uma janela aberta. De cada homem ao meu lado sob o lençol do dia seguinte. Do cão. Talvez. Mas de uma coisa tenho certeza: quero gritar entre a agonia e o livramento. Porque é bom que ir seja em som. É justo que a alma se esvazie num vômito barulhento. Até que o ritus se complete. E tudo seja paz ou nada. Antes de tanto, porém, um arremate. Preciso de alguém que me faça um último favor. É que me esqueci de mandar soltar o cão. Se ninguém abrir a porta, ele vai morrer sozinho. De fome, de sede, de abandono. O cão, não.

 

Cinthia Kriemler nasceu no Rio de Janeiro e mora em Brasília. É contista. Queria ser poeta. Autora dos livros: Na escuridão não existe cor-de-rosa (2015); Sob os escombros (2014); Do todo que me cerca (2012), todos pela Editora Patuá. E de Para enfim me deitar na minha alma (2010), projeto aprovado pelo FAC-DF. Na Amazon Brasil, mantêm os e-books Atos e omissões e Contações. Está em diversas antologias de contos, em algumas poucas de poemas. Escreve todo dia 16 para a Revista SAMIZDAT.

 

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108ª Leva - 02/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Cazzo Fontoura

 

ricardolaf
Foto: Ricardo Laf

 

Arranjabuso

 

Para Antônio Abujamra

 
palco é precipício
passo raso falso risco
quando possível
incerto e plástico
de impacto previsível
ou talvez
dor inteira
no instante mínimo
em que se faz laica
………………….a vida
entre risos, rumores,
vaias, choros, mitos,
é ainda assim
o silêncio interno
fingir explícito
a múltiplos cúmplices
e por fim
sedento de aplausos
o pé tão firme
em chão descalço
exige de si
o alívio, o delírio
de ir além do recuo
– à queda imprescindível.

 

 

***

 

 
Leitura neon-reciclada

 
Despetalo
do olfato
o gosto pelo cheiro
de livro velho
livro novo
e adapto-me
a um novo formato
do qual a brochura
– outrora
imprescindível
enfeite cabível na estante – já ñ vincula páginas
pq hj
discorro os olhos
sobre a luminosidade
………agressiva
sem cheiro ou tato preenchido posto q a matéria
ñ mais palpável
morre
imune
a rabiscos riscos
dobras rasuras
fixada que está em tela
luzes cliques

 

 

***

 

 

assim é caetano
vez ou outra
..amargo
avesso a quase
…..tudo
e até no papo
solto
que se bate
qualquer murmúrio
uma frase.

amar
..o caetano
dom de poucos
pq difícil
separá-lo
da arte
tragá-lo
sem som
deixar o público
……sujeito
à parte.

e quando cai
caetano
no júri moral
do populaço
o que fora amado
em singelas canções
sofre agouro
…..inflamado
de quem detesta
quando ele testa
numa ideia
num compasso.

preferem vê-lo
ao mar
naufragá-lo
para se houver
talvez braços

achar ilha
em que se ache
[isolá-lo]
ver o caetano
delirado
mirar-se n’águas
a perguntar:
e pq não amá-lo?

 

 
***

 

 

Quentura

 
Esta quentura
suor e queimaduras
q o sol impõe e apavora
nos dias de verão
só não me causam
o subversivo gosto
de reivindicar
paulistanas garoas
ou horário marcado
….preciso
das chuvas q assolam
Belém do Pará
pq a luz q irradia
em Salvador
torna suave
meu olhar cansado
nas esquinas
de onde brotam
seios
quadris e coxas
q me convertem
o ensolarado grito: “Não acabe na mulher a menina
………………………….– Deus queira: a deleitosa estação
………………………….– nunca termine.”

 

 

***

 

 

Sem brechas para Brecht

 
Ter a irresponsabilidade
de Dalton Trevisan
– sem a necessária Curitiba –
é mais revolucionário que a bandeira de Brecht.

O cinismo urbano de Machado de Assis
é infinitamente mais oblíquo
que qualquer personagem proletário
de Brecht.

Até mesmo a proposital podridão de Bukowski
fede mais que os uniformes nojentos
dos dramas de Bertold Brecht.

(tudo,
pisando a grama,
como quem não sabe de placas).

 

 
***

 

 
Ofício

 

poesia é ofício de alto risco
que aos dedos do poeta
sofre embaraço
do inacabado esboço
teimosia do diamante
…………quase pronto
sempre apto a ser lapidado
ou por desacerto
súbita menção a dilacerá-lo
lançar sem pudor
todos os versos ao lixo
pelo nobre motivo
do eterno recomeço
– nunca desperdício.

 

Cazzo Fontoura é poeta e escritor; escorpiano corrompido; pai de João, filho de Eva, tem uma mulher que é só dele; publicou um livro de poemas: Leitura neon-reciclada (editora organismo, 2014) e um de crônicas: Anticarta de Dona Lúcia – crônicas da fatídica copa do mundo no Brasil (Amazon, 2014); assina hoje o projeto Selfie Poesia (entrevistas com poetas), no youtube.

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108ª Leva - 02/2016 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

Todos fantasmas: A instrução da noite, de Maurício de Almeida

 Por Rafael Gallo

 

instrucaodanoite

Chego só agora que a noite é alta, Teresa, e os degraus se acumulam desproporcionais e cheios de saliências, deformando-se em espirais da garagem à porta desta casa na qual a chave

(com seus muitíssimos dentes)

não entra, veja, Teresa, veja. Soco a porta com violência para colocar a casa inteira abaixo, apenas a chave no chão rindo de mim numa mandíbula desmontada […]

Assim começa A instrução da noite, romance de Maurício de Almeida, recém-lançado pela Editora Rocco. Estreia do autor na narrativa longa, o livro é sucessor de Beijando dentes, coletânea de contos que lhe valeu o Prêmio Sesc de Literatura, e que traz algumas pequenas joias da literatura recente como Duelo, Cadência e Às quatro e meia da manhã.

Na obra mais recente, tratada aqui, um protagonista-narrador se vê preso a uma realidade familiar e pessoal com a qual não consegue conviver, e da qual tampouco se sente apto a escapar (“esse incômodo no qual fiz morada”), representada principalmente pelo ambiente doméstico. Não à toa, a história se inicia e se encerra com o personagem diante da porta de casa, incapaz de atravessá-la. O lar dilacerado de uma família moderna adquire atmosfera kafkiana, em uma narrativa que tem notável estilo particular, “com uma escrita severa e sincopada, mas também de alto teor poético”, tal qual aponta o escritor e crítico José Castello, na orelha do livro.

Um dos primeiros méritos a se destacar no livro é o de o autor dar conta do imenso desafio de conduzir, por páginas e páginas, um personagem ao mesmo tempo patético e dramático, sem permitir-se resvalar nos dois perigos sempre muito próximos: o sentimentalismo de seu lado dramático ou o deboche de sua faceta patética. Trata-se de um grande desafio para qualquer escritor e Maurício não falha ao conciliar os dois polos, para que eles inclusive se potencializem mutuamente, e não se neutralizem de forma tediosa, como seria fácil acontecer. É um feito admirável de construção textual.

Essa é uma daquelas obras das quais contar a história diz muito pouco, diante do todo. Mas, para efeito do mapeamento necessário, a sinopse poderia ser resumida no seguinte: o pai, que abandonou a família na infância do protagonista e de sua irmã, Teresa, ressurge sem que ninguém esteja preparado e funciona como estopim da crise pessoal do protagonista, da qual o romance capta um relance (não é difícil presumir que a angústia dele vem de muito antes e se estenderá ad nauseum após o fim do relato). Completam o restrito (melhor seria dizer claustrofóbico) elenco de personagens as ainda moradoras da casa: Alice, a namorada, e a mãe da família.

Todos esses personagens atuam como fantasmas (“nós todos fantasmas que não se resolvem com a morte e tentam aplacar o ressentimento assombrando-nos uns aos outros”), especialmente no sentido de serem ao mesmo tempo presença e ausência. Cada um traz diferentes matizes dessa dualidade e é interessante ver como se configuram suas particularidades. A mãe continuou com os filhos, mora com o protagonista até os dias atuais, mas é absolutamente alheia, impossível de se dar a um contato real, com seu sono e torpor por antidepressivos, seu silêncio e suas miradas ininterruptas à televisão. Alice tem um vasto (e excessivo) universo particular, do qual o protagonista e namorado não participa e pelo qual é intimidado, representado especialmente pelas fotografias que ela tira de si mesma e de outras pessoas. Teresa, a irmã, é a interlocutora imaginária constante, sendo a figura mais “presente” para o protagonista, que, no entanto, está sempre distante dela, no tempo e no espaço. O pai impôs o peso insuportável de sua ausência com o abandono (e a ideia desse abandono é uma grande presença) e, ao regressar, impõe a carga também intolerável de sua proximidade perturbadora. A presença ausente é de todos, pessoas descoladas de seus próprios papéis nos relacionamentos. A incomunicabilidade é uma chave central do livro, e o fato de o protagonista-narrador ter uma verborragia voltada apenas para si mesmo (ou para Teresa, a interlocutora imaginária que ainda não é nada mais que sua esfera solitária), sem verdadeiro contato com os outros, solidifica ainda mais as paredes que cercam os indivíduos da história, fazendo de cada um deles a sua própria casa abandonada.

Em uma das muitas cenas memoráveis do livro, a família se reúne para a primeira refeição com o pai após seu regresso perturbador, e os conflitos calados entre ele e o filho se revelam através de pequenos gestos. O descompasso entre a ação exterior e o universo interno do protagonista, sempre em ebulição, é um dos elementos mais perturbadores do livro. Maurício demonstra, nessas sequências, ser não somente um grande escultor da linguagem, mas também um rico observador e construtor de personagens:

Forjando imponência, observei as mãos dele graves e perdidas sobre a mesa, duas ossudas aranhas armando o bote que realizaram ao bolso da camisa. Os dedos amarelecidos pegaram outro cigarro, mas, dessa vez, ele parecia nervoso

(certamente os sapatos tamborilando o chão)

uma longa tragada irritadiça antes de perguntar novamente com uma voz mais gutural, rouca e seca de nicotina

– tudo bem?

ao tempo em que as pupilas dele se expandiram imensas naqueles olhos pequenos fincados em mim, uma réstia de fumaça lhe contornava o olhar que me diminuía e ao qual me curvei e fugi não sem antes responder num tímido fio de voz

– sim, pai.

 

A casa e a cidade em que moram são também personagens, também fantasmas, cujas caracterizações formam uma sinfonia de significados e expressividade bastante vigorosa. A atual morada da família é uma espécie de corpo desarranjado (“porque conheço a intimidade dos tijolos entremeados por fios tramando em volts os nervos desta casa”; o lar e a escola da infância são buscados, mas estão desfeitos como o passado (“a luminária descabelada sobre a porta em fios ou o zinco do corredor aos pedaços, as coisas transformadas em outras numa impertinência do tempo”); os monumentos urbanos se transfiguram, em impressionantes efeitos de plasticidade e dramaticidade. O melhor exemplo desse recurso é provavelmente a estátua do maestro Carlos Gomes, que ora está “regendo a tarde sob a qual nos sentamos neste bar”, ora “no dolorido silêncio de um câncer pendurado na garganta acenando adeus à orquestra que se afogou sonhando escafandros”, conforme os sentimentos expressionistas do protagonista-narrador. O já mencionado bar, com suas imagens entorpecidas, sua selvageria transcendental, mostra que a escrita de Maurício alcança um nível de elaboração que muitos dos escritores atuais, por vezes cultuados somente por inserir a palavra “bar” ou “boteco” no texto, nem sonham.

Maurício comprova, em A instrução da noite, que falar dele como um dos destaques da nova geração de escritores brasileiros é pouco. É um dos grandes autores em atividade, ponto. A leitura desse romance, tecnicamente primoroso e emocionalmente intenso, deixa o leitor assombrado como poucas obras são capazes.

Rafael Gallo é paulistano, autor do romance Rebentar (Record, 2015) e de Réveillon e outros dias (Record, 2012), livro de contos vencedor do Prêmio Sesc de Literatura e finalista do Prêmio Jabuti. Tem ainda contos publicados em diversas antologias, como o eBook Desassosego (Mombak, 2014) e a Machado de Assis Magazine (FBN, 2013).

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108ª Leva - 02/2016 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Clarissa Macedo

 

Nathan Sousa (Teresina, 1973), é poeta, escritor, professor, tecnólogo em Marketing e letrista. E poeta, mais que qualquer outra coisa, já que é da costura lírica de seu verbo de onde nascem poesia, prosa e música – esta, aliás, que já lhe rendeu mais de 30 composições gravadas em parceria, dentre outros, com o maestro Beetholven Cunha, e que já foram interpretadas em Portugal e na Inglaterra. Radicado em São Gonçalo do Piauí, ele é autor dos livros O percurso das horas (Edições do Autor, 2012), No limiar do absurdo (LiteraCidade, 2013), Sobre a Transcendência do Silêncio (Prêmio LiteraCidade 2013), Um esboço de nudez (Penalux, 2014), Mosteiros (Penalux, 2015) e um romance: Nenhum Aceno Será Esquecido (Penalux, 2015). Mais que títulos exuberantes, que já revelam um pouco do perfume que exala de suas linhas, os livros do autor referido são fortes e bem regados; pois ele tem o cuidado que a palavra exige para os que dela bebem. É Ivan Junqueira quem nos alerta: “Não sou eu que escrevo o meu poema: / ele é que se escreve e que se pensa, / como um polvo a distender-se, lento, / no fundo das águas, entre anêmonas / que nos abismos do mar despencam.”. E é esta a sensação que desabrocha durante a leitura de um livro como Mosteiros, por exemplo: uma autonomia, porque, depois de sentirmos, instância primeira que se despe durante a contemplação de um artefato artístico, mesmo com os protestos da arte conceitual, notamos a palavra erguida de sua própria matéria, sem aquele zelo excessivo que deixa o verso raquítico e o poema sem corpo de tão insosso. O que se desvela é uma literatura sem arestas, mas proeminente de golpes e pétalas:

 

Destilado

 

não mais poderia aquela imagem
flagrar o espanto em que meus olhos
armou suas persianas de água.
e agora que correr é um exercício
de luz e córnea (um desentranhar
de sonho e acervo) aparo as gotas
de meu precipício para destilar
a sede de outras intempéries,
burladas entre o vermelho e o lenço.

 

A identidade de sua escrita é a beleza, em seu sentido mais vivo e carnal; é o lírico destilado, fecundado, cheio de imagens que pescam o leitor de um só arranque.

Integrando 20 antologias e sendo vencedor de 23 prêmios literários, dentre eles o Assis Brasil 2013, o II Prêmio de Literatura da Universidade Federal do Espírito Santo, o Prêmio Machado de Assis 2015, da Confraria Brasil-Portugal, e o Prêmio José de Alencar 2015, da União Brasileira de Escritores – UBE, Nathan tem poemas publicados em algumas das principais revistas de literatura do Brasil, é membro da Academia de Letras do Médio Parnaíba e membro-correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni-MG. Seus livros estão em 36 bibliotecas espalhadas por 12 países. Mosteiros está na lista do projeto de tradução da Universidade de Santiago, no Chile.

Mais que um vasto currículo para um escritor que vem publicando há pouco tempo, Nathan Sousa é poeta. E sua obra sussurra plenitudes e coerências, com o espírito daqueles que elegem a literatura como o percurso das horas.

nathan
Nathan Souza / Foto: arquivo pessoal

                                     

DA – Nathan, iniciando por uma pergunta clichê: como começou isso de escrever literatura?

NATHAN SOUSA – Fiquei realmente encantado com a literatura ainda na adolescência, com os livros de uma tia (Tia Nileide). Depois, aos 14 anos, em Teresina, eu conheci a Biblioteca Desembargador Cronwell de Carvalho e fiquei encantado com todo aquele universo. Acabei me tornando, e digo sem modéstia, um leitor compulsivo. Mas, decidir escrever, alimentando a ideia de um dia ter um livro publicado, isso só me ocorreu em 2010, quando eu já tinha 36 anos.

DA – De onde parte o que você escreve?

NATHAN SOUSA – Parte da combinação entre a minha experiência de vida (meu contato com o mundo real, minhas perspectivas, meus anseios, minhas perdas e ganhos), o acúmulo verbal que eu consegui ao longo de todos esses anos dedicados aos encantos da literatura, somando-se a isso o olhar automatizador que sempre me perseguiu e que está sempre muito afeito ao meu processo de maturidade. Este ímpeto pelo dizer que nós não sabemos mensurar, nem dizer para onde vai.

DA – A literatura é, por excelência, criadora de uma zona discursiva marginal, que trabalha com sentidos mais amplos e imaginários. Como você mencionou, somado a isso, a criação e a própria literatura são um “ímpeto pelo dizer que nós não sabemos mensurar, nem dizer para onde vai.”. Em que medida é possível “utilizar” a literatura? O que ela vale numa sociedade como a que vivemos?

NATHAN SOUSA – Há um “modo continuum” na natureza humana que direciona nossas ações para a satisfação das necessidades em seus avançados graus. Mas, pegando de empréstimo um termo do genial João Cabral de Melo Neto “isso ainda diz pouco.”. A literatura serve, antes de tudo, para nos fazer compreender melhor essa complexidade desenfreada de relações a que chamamos de sociedade. Impulsiona o homem para o mergulho na subjetividade e, de lá, abre seu campo de visão. Há centenas ou talvez milhares de livros, por exemplo, a respeito do sul dos EUA. No entanto, quando o leitor se depara com os romances de Faulkner, passa a ter uma compreensão maior desse amálgama de vidas, de relações econômicas, enfim…. do conjunto que formou aquela região.

DA – E você acha que ela á apontada como “difícil”, “cansativa” por um público por ser um mergulho tão intenso na subjetividade? Por perfurar mais que acolher?

NATHAN SOUSA – Literatura é, antes de tudo, uma devoção. É subir ladeiras sem se importar com as dores. E esse ato, para os verdadeiros escritores e poetas, traz sensações que passam despercebidas, tendo em vista que a leitura e escrita sempre serão atos da mais pura existência. Depois é que vêm a mídia, os holofotes, os prêmios, as badalações… mas se não vierem, a devoção continuará a mesma.

DA – O que significa, em seu íntimo, chegar aos lugares por onde a literatura tem te levado?

NATHAN SOUSA – Significa um reencontro. Sim, eu me reencontro de forma consciente nos momentos de experiências de leitura, de releitura, quando vou aos saraus, quando sou homenageado, quando lanço livros, quando falo, incansavelmente, de literatura, desta necessidade inexplicável de ler, de escrever, de revelar e se deixar levar pelos mistérios que a própria literatura arrasta consigo.

 

DA – O que é para Nathan Sousa ser premiado pela UBE e finalista do Jabuti?

NATHAN SOUSA – Os prêmios ajudam, principalmente, a divulgar a obra. Sabemos que a literatura não recebe um tratamento caloroso aqui no Brasil. Ser premiado, e em romance, pela UBE, seguido de estar entre os finalistas (em poesia) do mais destacado prêmio das nossas letras, o Jabuti, é afirmar que tudo o que eu fiz até aqui, em matéria de arte literária, valeu a pena. Já valeria sem os prêmios. Dá-me também a sensação de que as minhas escolhas (mergulhar nos clássicos e me refrescar com o que há de mais significativo na produção contemporânea) estão me levando para onde eu verdadeiramente quero, ou seja, para aprender a escrever melhor, sempre melhor.

 

DA – E além de escrever melhor, até onde você quer ir com/na literatura?

NATHAN SOUSA – Até onde minhas últimas forças puderem me permitir pensar, debater, ler e escrever, mergulhar nesse universo. Eu não conseguiria fazer outra coisa na vida. Portanto, ainda penso no mundo, na minha razão de viver, no sentido dessa caminhada, como uma grande biblioteca. Sou, assumidamente, borgiano, nesse aspecto. Ainda tenho muitas aspirações como poeta e escritor (a de continuar buscando novas experiências de linguagem com a poesia; a de escrever um grande romance (uma grande novela), a de ler muito, mas muito mais).

Nathan Sousa
Nathan Sousa / Foto: arquivo pessoal

DA – Você fala sobre escrever um grande romance. O romancista e o poeta se encontram em algum momento?

NATHAN SOUSA – Sim, a todo momento. Eu costumo dizer que o que enriquece a minha poesia é a suposta afinação com a prosa de ficção e vice-versa (risos).

DA – Você saberia definir sua obra? Elegeria algum tema central?

NATHAN SOUSA – Certa vez, Garcia Márquez disse que todo escritor está sempre escrevendo o mesmo livro. Ele disse que o dele era o livro da solidão. Seguindo essa concepção do mestre do realismo mágico, eu diria que a minha escrita tem enveredado pela estrada da transcendência e do silêncio. Não sei definir com clareza a minha literatura, mas sei muito bem que eu realizo o ato de escrever para alargar a minha identidade, e não somente para me reconhecer existencialmente.

DA – Conte-nos sobre sua experiência como mais novo membro da Academia Luminescência Brasileira – ALUBRA.  

NATHAN SOUSA – Fui indicado à Academia Luminescência Brasileira – ALUBRA, por dois membros de lá. A instituição tem sede em Araraquara-SP. As academias são clube e não seleção, como quer a maioria. Eu sou membro e atual secretário geral da Academia de Letras do Médio Parnaíba. Entrei aos 39, mais para representar o orgulho de minha mãe, que faleceu um mês antes da minha posse, no começo de 2013. Pelo menos no meu caso, a academia me aproximou de outros escritores e poetas de uma forma mais intensa e harmoniosa. Eu ainda acredito que muito pode e deve ser feio por essas instituições, principalmente no que diz respeito à divulgação da literatura de seus membros e da comunidade que cada uma delas representa. Ainda não vimos isso, mas eu não me sentiria bem em negar o convite e ficar do lado de cá, resmungando. Ainda sou membro correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni-MG.

Eu digo sempre o seguinte: Assis Brasil, O G Rêgo de Carvalho, H Dobal e Da Costa e Silva, quatro dos mais destacados nomes da literatura piauiense, fazem e faziam parte da Academia Piauiense de Letras. Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto e Jorge Amado faziam parte da ABL. Por que, então, eu me recusaria a ser membro de uma instituição literária que deseja ter meu humilde nome entre os seus?

DA – A respeito disso, é interessante pontuar a postura de alguns escritores que alegam não sentirem desejo de publicação, mas publicam, ou afirmam sua obra como irrelevante, embora aceitem convites para eventos literários. Como você vê este tipo de postura? Como é a sua relação com a “fama literária”?

NATHAN SOUSA – Com relação aos que se posicionam dessa maneira, a meu ver, querem conservar uma posição de elegância pela ausência, pela despretensão, por uma simplicidade que é típica dos que querem ser lembrados, mas não querem ser vistos. Tenho convivido com certa projeção literária em tempo muito curto de carreira, não nego. Eu tenho procurado aproveitar essa projeção para tentar realizar dupla função: promover a minha escrita/despertar o gosto pela leitura e a coragem para publicar. Tenho me deparado, ao longo dos últimos três anos, com poetas de boa qualidade, enclausurados na redoma do receio. Eu digo a que vim no meu primeiro poema (Combate, vide O percurso das horas – 2012): “Escrever poemas / é como rasgar a camisa / mostrar o peito / se armar com uma faca cega / olhar no olho do mundo / e autorizar: / pode vir”.

DA – Rasgar a camisa exige coragem. E além de coragem, como uma espécie de mensagem, o que mais você gostaria de dizer aos leitores da Diversos Afins? (desde já registro o meu muito obrigada pela sua disposição em responder essas perguntas).

NATHAN SOUSA – Eu agradeço imensamente por essa entrevista tão rica e tão amigável, o que não poderia ser diferente, em se tratando de uma entrevistadora/poeta com a sua competência e afinação com as palavras, e gostaria de dizer aos leitores da Diversos Afins que intensifiquem cada vez mais o gosto pela leitura. Ninguém sairá perdendo com isso.

Clarissa Macedo nasceu em Salvador e vive em Feira de Santana, Bahia. É licenciada em Letras Vernáculas (UEFS), mestre em Literatura e Diversidade Cultural pela mesma instituição e doutoranda em Literatura e Cultura pela UFBA. Atua como revisora e professora. Ministra oficinas de escrita criativa. É autora de “O trem vermelho que partiu das cinzas” (2014) e “Na pata do cavalo há sete abismos” (Ed. 7 Letras).

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107ª Leva - 01/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Alex Simões

 

Deborah Dornellas
Desenho: Deborah Dornellas

 

oh ménage

 
porque existe a meta física
e é tua carne que procuro
foda-se a tradição lírica
saio de cima do muro
e se a reta é meio oblíqua
e viver não tão seguro
lhe proponho uma promíscua
relação a dois e juro
sermos tão multiplicados
nosso encontro tão fictício
que bastamos prum animado
sexo grupal vitalício.
quantos vivem em você?
com quem posso me entender?

 

 

 
***

 

 

 

meu canto pras paredes

 
o preconceito é uma parede enorme
contra a qual desde sempre me empurraram
mas se tentaram e não me executaram
é que aprendi bem cedo que não dorme
o apontado: preto bicha pobre
no paredão cresceu e ficou forte
em que pese a dor que o véu da morte
bem do seu lado alguns amigos cobre
e é por eles que não me vitimo
nem quero mais derrubar a parede
apenas canto para além de um íntimo
desejo: reforçar rizoma e rede
cheia de nós, que não estou só, sou vivo.
picho a parede: verso afirmativo.

 

 

 

***

 

 

 
e viva à liberdade de opressão
na terra onde quem tem muitos direitos
exerce o seu direito à opinião
de ser melhor que quem não tem direitos
porque direitos há, não pra insolentes,
aqueles que reclamam sem saber
que nesta terra os bons e os inocentes
são assim definidos ao nascer
e quem nasceu no meio de pessoas,
que são consideradas de segunda
classe, tem chances de viver de boa:
falar a língua deles ou da bunda
viver mexendo pra escapar do abate.
entre a guerrilha e a festa, deu empate.

 

 

 
***

 

 

 

se queimamos
(soneto alexsandrino e vândalo)

 
se queimamos neurônios fazendo poesia
em manifestação, em protesto, em-progresso,
deitado em rede em casa no sofá congresso
no altar no chão da praça, bar, tabacaria
sim queimamos neurônios fazendo poesia
ganhaperdemos tempo bloqueando o acesso
ao projeto do decréscimo do ingresso
do contingente em excesso à perolaria
porque escrever é contra porque escrever é incerto
porque o poema só existe em um livro aberto
e não há nada que cale a boca do poeta
não há juiz que dê um outro veredito
se o poeta-réu deixou em seus escritos
um pouco de sangue ou Pandora, na boceta.

 

 

 
***

 

 

 

bursite, tradição e tá lento, o individual

 
doem-me os ombros, tantos são os pesos.
línguas mortas e vivas misturadas,
a plêiade no peito embaralhada,
os esquecidos como contrapeso.
mil vozes confundidas no desejo
de ter consigo a minha entrelaçada
e o medo de parar na encruzilhada,
entre rimas ideias e solfejos.
a folha em branco amarelada está.
há sempre um risco de perder-se, há
sempre um mesmo fantasma em breve assomo.
o mundo derretendo-se em milênios:
poetas trôpegos, prestos boêmios,
eu e você cantando velhos nomos.

 

 

 

***

 

 

 

sóbria declaração

 
não me inspiras vãos clichês caducos,
versos de amor com intenções de morte,
linhas inúteis mas com tom de porte
palavras tolas para o amor de eunucos.
não me inspiras mais do que tu és
e és o que vejo, nada mais que isto,
sou o que quiseres e por ter-te visto
lanço-me a ti, mas não te beijo os pés.
é que no amor não me contenta a espera
nem mesmo a dor inútil de não ter.
prendo-me à vida, não curto quimeras,
dou-me por partes, se tiver prazer.
neste soneto que a ti dedico
peço que leias o que não, escrito.

 

 

 

 

***

 

 

 
à literatura em si

 
este soneto não quer ser a obra
de um autor desesperado e circunspecto
que produz aos magotes poemetos
para neles caber o que foi sobra
de outro poema que não se quis sobra
do nariz entalhado por Gepeto.
este soneto não é um soneto
e este quarteto não é do outro a dobra,
nem sexteto os tercetos em sequência
de rima interpolada, aqui cosendo
a virtuosa e vazia inexperiência
em um registro que vai, num crescendo,
da língua que se fala sem ciência
a um saber que se constrói: fazendo

 

 

 

***

 

 

 

os versos? esconderam-se no escuro.
portanto, sempre dizem mais, que eu saiba.
esperam decantar, para que caiba
a poesia nos corações duros.
palavras não significam somente
o que delas esperar. poemas
não são meras conjunções de monemas.
não os entendas, apenas os sente.
abre o coração mais que os ouvidos
e recebe a poesia com amor,
sem pressenti-la, deixa-a, por favor,
pronunciar-te o mal dos consumidos
e ainda os prazeres incontíveis.
e expurgarás a dor com que convives.

 

Alex Simões é poeta, tradutor e performer. Publicou “Quarenta e Uns Sonetos Catados” (2013) e “(hai)céufies” (2014). Tem participações em diversas revistas e antologias literárias nacionais e internacionais. Os poemas aqui publicados integram o livro “Contrassonetos: catados & via vândala”, lançado em 2015 pela Editora Mondrongo.

 

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107ª Leva - 01/2016 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

O Breve dicionário (poético) do boxe e a alegoria poética de Jorge Elias. Primeiras considerações.

Por Orlando Lopes

 

Capa Breve dicionário (poético) do boxe

 

Preâmbulo: a crítica ainda tem lugar nas lutas contemporâneas?

 

Arriscarei aqui algum juízo a respeito deste Breve dicionário, da poética que ele expressa e da autoria que ele passa a constituir com seu lançamento. Dado que a Poesia – a poesia mais legítima, a poesia autêntica – configura a singularidade de uma teia, de uma constelação de elementos estabelecida por princípios “estéticos”: autorais, composicionais, interpretativos etc., pareceu razoável e necessário o apoio da escrita para pesar, medir, arrazoar sobre o lugar do livro, talvez da obra. E é justa esta razão: como falar (e medir) a escrita, a não ser também pela escrita — esta forma mágica de decantação e progressão do pensamento que o cotidiano nos faz banalizar, mas que é capaz de nos permitir dimensionar ou, ao menos, intuir as potências que a linguagem tem, e que parecem tão distantes do cotidiano das pessoas.

Exercer a crítica não é uma prioridade para mim — que me entendo muito mais como teórico da Literatura que como crítico, historiador, analista etc. Exercer crítica envolve competências, disciplinas e rigores e, sobretudo, uma imperatividade, a disposição para impor um valor. Nesse sentido, direi desde já que não me colocarei a priori como crítico do Dicionário, mas como leitor e, exatamente, como teórico. Claro, não pretendo transformar esta fala num tratado, mas é importante notar que não pretendo afirmar a obra que Jorge Elias termina aqui de parir: pretendo, antes, aprender com ela, como pretenso cientista, como ser humano e como poeta.

Será uma breve nota para o universo de questões que sua poética aponta, mas para o momento acredito que servirá como estímulo e provocação aos futuros leitores. Conheço o Jorge Elias pessoalmente há pouco, mas nem é a fama que o precede, é o seu texto, a sua obra poética, e o seu trabalho, o exercício da Medicina, do qual sou de certo modo beneficiário pessoal, ainda que não (ufa!) direto. E pelo texto, pelo que ele codifica, pelo que ele expressa, acreditei desde a primeira leitura uma “assinatura”, uma autoria, aquilo que foucaltianamente podemos reconhecer como uma “função jurídica”, mas jurídica não no sentido de uma propriedade, uma posse ou mesmo um direito. Jurídica no sentido de uma seriedade, de um comprometimento, de um engajamento que se estende à Literatura, à Poesia, à Escrita.

Lendo seus textos antes de conhecê-lo pessoalmente, essa seriedade autoral me pareceu marcar tudo o que li. Isso não é em si e ainda uma qualidade da composição, do texto “em si” (aliás, o Inferno nunca pareceu estar tão cheio de boas intenções…), mas é um dado a ser considerado pela crítica contemporânea: de que adianta uma “bela letra” se ela não posiciona, se ela não argumenta, se ela não significa? Como no Boxe, o discurso e a realidade são construídos, são esculpidos a golpes e a contragolpes, por meio de hegemonias e de contra-hegemonias que se dão entre as “cordas” desse grande ringue simbólico que são as relações sociais, econômicas e culturais.

Jab, Jab, Direto, Direto, Cruzado, Jab, Clinch, Esquiva, Cruzado, Jab, Jab… Lutar é viver, viver é lutar. Discursar é lutar, lutar é discursar. Discursar é falar, é escrever, é agir. Viver é discursar. A realidade, a nossa realidade, é feita de narrativas, de movimentos, de lances. Lutamos – todos – contra um Inimigo (os Fundamentalistas não estão errados!), mas é difícil saber quem ou onde o Inimigo está: e portanto é difícil medir a força e a mira de nossos próprios movimentos, de nossos próprios lances. O bom boxer deve, antes de tudo, saber contra quem – ou contra o quê – está lutando. Do contrário, não se abolirá o acaso, haverá desgaste, desperdício, e tudo poderá deitar por terra: corremos o risco de ser nocauteados quando menos esperamos.

A poesia de Jorge Elias faz esse exercício, desde antes do Breve dicionário do boxe. Perceber, enquadrar, pinçar; perceber, enquadrar, pinçar… a si mesmo, o outro, a situação. Não racionalmente, não apenas racionalmente, mas buscando aquela polaridade mínima, a imagem, o sentido que faz o texto (no leitor) saltar para o estado de poesia. Esse é o movimento, a passagem crucial a que todo poeta almeja, mas que nem todo poema consegue manifestar: superar os significados e saltar para o sentido por meio do gesto estético, portar o sentido até os demais sujeitos que vivem a mesma história.

 É importante retornar à consideração de que a Poesia não luta apenas no território do poema, da fatura estética. Poesia não é apenas Poesia (ato criativo), ela é também Literatura (um modo de produção) – um laço, uma relação entre as pessoas (autoras, leitoras) no espaço de uma sociedade que se estabelece em torno de um Poema (um objeto de valor, um artefato). Criar nos pede uma luta, circular socialmente nos pede uma luta, significar nos pede uma luta. No mínimo.

A luta da escrita poética é rara entre nós, ainda que se encontrem uns bons tantos de poetas, cada vez mais. Eu sempre insisto com os alunos que venho-tendo a vida-inteira que a escrita não pode (não deve) ser desprezada, tanto porque é uma das formas mais baratas que existem de criação artística e autoterapia garantida, quanto porque ela é o instrumento mais básico de controle social, econômico e cultural que se possa conceber. Falo isso em princípio para tentar dar uma valorizada existencial, afinal a escrita dá essa possibilidade de nos mostrarmos antes de tudo a nós mesmos. Mas a escrita é trabalho, é competência, é responsabilidade. Se a gente não tiver o que dizer, a escrita não vale nada. Se a gente não fizer, não vai ter muita gente que faça (fechado que “todo mundo” está em sua própria carapaça).

O Dicionário de boxe de Jorge Elias traz à baila essa cena: um ringue, um espaço de disputas e seus elementos característicos alegorizados, potencializados pela metáfora. A metáfora decantada, depositada em composições curtas, procurando posições, ângulos, eixos, pesos e contrapesos, equilíbrios. Essa metáfora, ampliada, estende suas figuras para medirmos as nossas próprias lutas. Entremos no livro, calcemos aqueles poemas que melhor se ajustem aos nossos punhos. Usemos os poemas que conseguirmos. (Ouvi soar o gongo.)

Apreciação ao Breve dicionário (poético) do Boxe

Este mais recente livro do poeta Jorge Elias Neto segue confirmando uma obra importante para a vida literária no Espírito Santo (não direi “do Brasil”, que cada canto dele tem seus bons poetas, nós aqui é que temos que resolver melhor os nossos). Desde os Verdes Versos (Flor&Cultura, 2007) até o Breve dicionário (poético) do Boxe (Patuá, 2015), há uma poética se configurando, tomando forma, encontrando seus rumos. Enquadrá-la, encará-la, não é tarefa fácil, nem confortável. Mas, enfim, como se poderia aprender algo útil sobre o Boxe sem ao menos um olho roxo ou uma luxação?

A imagem do Boxe é forte, potente, e se impõe desde a capa elegante de Leonardo Mathias até as ilustrações de Felipe Stefani. Uma vez instalada a imagem do lutador, do ringue, passamos a aguardar o soar do gongo. A dedicatória e a epígrafe, como se fossem um fim de sonho e início de despertar, afloram de uma escuridão, de uma zona de inconsciência. Estamos entre a consciência do Homem e a consciência do Poeta, daquele que termina amanhã e daquele que só termina quando acabar o último Homem. O Boxe e a Poesia não se confundem. O Boxe é físico, intenso, corporal, evidente; a Poesia, enfraquecida, com “falta de musculatura”, talvez só possa dar conta de “florbelas”, de “futuros” que obviamente constituem distâncias, de “leituras escolares” que não precisam comprometer-se com “realidades”, de apagamentos, neutralizações, reduções, perversões etc.

A apresentação de Caê Guimarães, esse outro membro das tribos dos poetas e dos boxers, aponta para esse enquadramento que põe a “nobre arte” do Boxe em seu devido lugar, para nós, poetas e leitores de poesia. O poeta luta pela Poesia, para alcançar Poesia. Nota, edita, corta. Salta, oscila, desarma. Apara, espera, escora: erra e acerta. Chegamos ao livro, chegamos aos poemas, que são verbetes, que são referências ao universo do Boxe: o campo alegórico, a metáfora ampliada. Isto põe e afirma um primeiro traço na obra — ela é conscientemente metalinguística, aponta o reconhecimento de que se pode pensar a Poesia empregando as imagens associadas a uma luta, um esporte, um jogo.

A metalinguagem vem sendo relativizada e criticada na Poesia contemporânea, e é justo alertar aos poetas para que não exagerem no cultivo de seus espelhos e interesses mais imediatos e pessoais; mas é igualmente justo alertar aos críticos que sem a consciência e o exercício da metalinguagem fica mais difícil aos Poetas alcançar uma compreensão da linguagem como um fenômeno pleno. Se não se devem apresentar tantos poemas metalinguísticos em publicações de referência, essa já é uma questão crítica e editorial, não dos Poetas.

Em todo caso, a questão aqui é somente de reconhecer que a metalinguagem se instala desde a base da composição do Breve dicionário do Boxe. Antes de haver “Boxe”, há ali “metalinguagem”, a lente que permitirá a projeção dessa imagem, desse “topos” sobre outros planos, sobre outras situações, sobre outros contextos. E, enfim, há Boxe: uma luta que envolve uma disputa, e uma disputa que envolve um prêmio. Um prêmio que vale a pena, mas que varia na infinitude das projeções metafóricas que consigamos fazer. Quanto mais objetiva a luta, mais claro e óbvio será o prêmio. Quanto mais subjetiva, menos claro – para os demais sujeitos, para as demais pessoas.

Tudo estará certo, e tudo estará tranquilo, se o cálculo corresponder ao prêmio, e se os golpes acertarem o Opositor (seu nome não é “Inimigo”, não no Boxe). Mas não: existem lutas reais, simbólicas e imaginárias, e podemos lutá-las todas simultaneamente sem nem perceber. Aqui, no Dicionário, por exemplo, existe uma luta da Poesia, uma luta da Literatura e uma luta do Poema. Três boxes, três arenas, três disputas. E as três apontam, indiscutivelmente, para o domínio do humano, a dimensão do humano. O Dicionário fala do Boxe para poder falar do Homem. O Boxe é o Homem. Plano, Universo, Continente… Toda a intuição de uma Mitologia, de uma Filosofia se encontra aí, concentrada em figuras, em imagens.

Um homem em particular emerge, a figura de Éder Jofre, o elemento mais humano na condução do livro, quase um personagem, quase um protagonista. Mas, também, pedra-de-toque alegórico. Éder é Brasileiro, pensa como brasileiro, age como brasileiro (embora seja antes latino, argentino). Éder Jofre é mais que Éder Jofre: é o Brasil interpretando o Boxe, dançando o Boxe à sua maneira: de uma aparente simplicidade, cinco movimentos e coisa e tal, uma sucessão de movimentos evolui ponto a ponto, contraponto a contraponto. A questão, implícita, é que o boxe não se faz apenas no ângulo de quem golpeia: é preciso atingir algo que não quer ser atingido, que também quer nos atingir, é preciso gerar impacto, é preciso impor-se, é preciso opor-se. É preciso violência. Latinidad. E pensar em Poesia, em Literatura, em Poema como “espaços de violência” não costuma ser frequente em nossa cultura, em nossa tradição lírica.

Claro, a Literatura tem seus bons e variados exemplos de resistência e de contraposição aos beletrismos. A boa Poesia (certo, certo, definamos “boa Poesia”, mas em outro momento…) não deseja ser ornamento, ela deseja ocupar o pensamento, o sentimento, ganhar esse espaço, vencer essa disputa. Não se trata de oferecer o que o Leitor quer, mas aquilo que ele precisa, aquilo que nós precisamos para não deixarmos de ser humanos. É dessa violência que a boa Poesia trata: aquela que nos dá tapas, dá socos… apenas com imagens, com sequências de palavras, e isso não tem nada a ver com usar palavras agressivas ou cenas escatológicas: o horror pode não ser nada além de um imenso ringue vazio.

O ritmo do boxer não é o do Vale Tudo, nem do UFC. É o ritmo do jazz, do Cronópio, idealista, sensível e até ingênuo – posto que acredita piamente que seu(s) Opositor(es) seguirão fielmente as regras do jogo. Assim como o Boxe parece simples, o dicionário também. Mas o dicionário é apenas o conforto de uma linha mais ou menos reta, a ordem alfabética (que, aliás, não é seguida). Dentro dessas cordas, toda uma luta continua a acontecer, as palavras continuam tensionadas umas contra as outras, gerando imagens, tentando produzir sentidos. Se o dicionário convencional trabalha para ordenar “definições referenciais”, um “dicionário poético” pode operar em outro registro, e no caso deste livro parece haver uma sutil inclinação para o aforismo; um aforismo “fora dos padrões”, um aforismo que não adere por princípio a nenhuma moral já estabelecida, mas pela moral do acontecimento, da situação, da “luta”: essa que se arma no espaço do poema.

Sobre o Livro – o trabalho literário

 

Boa parte dos poemas se operam como haikais: descortinam espaços, definem imagens, configuram situações. Veja-se, por exemplo, a série encontrada entre as páginas 60 e 67 (“Knockdown”, “Knockout duplo”, “Knockout”, “Undefeated”, “Cartel”, “Challenger”, “Bruiser”), na qual as imagens-verbetes fazem a síntese tanto dos elementos do universo boxer quanto de uma perspectiva subjetiva – lírica – que fornece a moldura e o enquadramento, o ângulo e a perspectiva do que me arrisco a definir como “momentos plenos do Boxe” tal como eles se acomodam no Breve dicionário (poético)…

Não necessariamente, as situações manifestam ações. Elas estão lá, mas anguladas, estilizadas. Outro tanto tem contornos narrativos mais definidos. Alguns mais, arriscam-se ao limite do aforisma. No poema do “Prefácio”, como a apresentar as regras aos contendores que chegam, estabelece o poeta que é preciso “entender / o to be” (p. 21), o “(a) ser”, uma das formas ao mesmo tempo mais simples e mais complexas da nossa linhagem idiomática. É preciso entender o “ser” e o “estar”, é preciso entender o “agir” caso o Poeta — e agora o Leitor — queira “exprimir em versos o que / se cultua com punhos” (p. 21). É preciso invocar, evocar, com o auxílio dos oráculos digitais se houver interesse em falar com a urbe, a multidão, a massa humana (e aqui, portanto, não se dirigindo à Pólis, à civis) empregando pequenos artefatos, “poemas / lambe-lambe” que vão entremeando o Dicionário.

Assim o livro vai evoluindo. Os versos, simples jabs, diretos, cruzados, formam móbiles sutis. Assim, por exemplo, o minimal “Boxe” nos impele a considerar que arte é possível com “punhos cerrados” (p. 23), com punhos que tenham pouco ou nada nas mãos. O teto nos impele a considerar que potência, que vigência pode ter essa expressão tão limitada (somente o “punho”, somente a “letra”). Em “Pugilismo” (p. 25), nova constatação: para haver confronto é preciso haver resistência, oponência; para haver sentido, é preciso haver resistência, oponência, aderência, tensão, atrito.

Em outro segmento de poemas, os narrativos, encontramos cifras memoriais e históricas, remetendo ora à história do Boxe, ora à história de seus praticantes. No breve terceto “Luvas” (p. 26) e em “Regras”, que o sucede, temos um vislumbre do processo civilizatório da Inglaterra, berço do moderno Boxe: uma civilização em que a brutalidade não deixa de existir; antes, é estimulada e suavizada, absorvida, integrada na vida social. Se apurarmos os ouvidos, perceberemos em outros lugares sociais os ecos dessa civilidade que vai criando o hábito dos “tapas com luvas de pelica”, a diluição da brutalidade em códigos e etiquetas que por um lado as confina, mas que por outro as mascara nos espaços da vida social.

A alegoria, a metáfora do Boxe vai-se colorindo, encontrando e reencontrando formas e imagens, como a dos galos que se antepõem em “Ringue” (p. 32) e “Sparring (fazer luvas)”, o mítico alter-ego que se oculta em nossas sombras (p. 35) ou o Ouroboros que se oculta no “Corner” (p. 37). Aliás, até os “Rounds” (p. 38) ecoam algo mítico, a épica da batalha e da vitória (e da derrota). Assim o livro prossegue, destacando essa topologia também de forma metonímica, com a “Toalha, / gelo, / vaselina. // Massagem, estímulo, adrenalina” (“Segundos”, p. 53).

Em “Faltas” (p. 58), a metáfora volta a se ampliar como alegoria: o Boxe, entre as lutas, tem regras e limites claros, dentro dos quais “há que se responder / pelas faltas”. Essa constatação estabelece mais uma referência para compreender que lutas, que disputas cabem em seu domínio paralógico, associativo. O Boxe não é uma “luta livre”, ele é circunscrito a um espaço e a um tempo, é mediado por regras, é um “esporte de cavalheiros”, para ser bastante preciso e quase britânico. Só há Boxe quando há cavalheiros, quando há uma Corte e um juízo, quando se aceita que os fatos, os fatos da vida, envolvem as nuances do ganho, do acerto, do prêmio, mas também do erro, da impropriedade, da culpa, do dano, do dolo.

Caminhando para o seu término, o livro registra ainda uma espécie de painel histórico e impressionista, evocando personagens históricos e momentos de uma cronologia pessoalizada e que finalmente projeta os significados do Boxe sobre a ambiência brasileira, nos poemas “Brasil – 1913” (p. 68), “Goes Neto – 1919” (p. 69), “Club Canottiere Esperia” (p. 70), “Ditão – 1924” (p. 71), “Ginásio do Pacaembu – 1940”, “Boxe moderno – década de 50” (p. 74), “Época de ouro – década de 50”, quando reemerge para promover o encerramento com “Éder Jofre” (p. 77), “Servílio de Oliveira” (p. 78), “A obra – Éder Jofre” (p. 79) e “Poema para um pugilista” (82), no qual a alegoria  retorna (“O homem / traz um ringue / dentro de si”) e também o mito trágico que se expressa na obra de Jorge Elias: a do homem, a da humanidade que oscila entre cumprir seus destinos históricos – lutando as lutas verdadeiramente nobres – ou ceder às contingências da vida, aceitar a existência como hábitos e rotinas, no máximo exercícios, muitas vezes plenos e satisfatórios, mas ainda somente e apenas exercícios.

A impressão final que o livro deixa é de que ele dá continuidade ao processo, ao amadurecimento da poética de Jorge Elias. Ainda um exercício, ele aponta questões, revela elementos de estilo, apura uma sensibilidade. Nem todos os poemas alcançam a mesma potência de expressão, algo que talvez leve a alterações e revisões em eventuais futuras edições. Ao fim, e ao cabo, saímos do livro com o semblante entre o sério e o apreensivo, ruminando as imagens do Boxe e deixando-as como moldes, como espelhos singulares em que o leitor pode medir-se e assim, quem sabe, entender-se igualmente como um lutador.

 

Orlando Lopes é poeta, ativista cultural e professor do curso de Letras da Ufes. Publicou Hardcore Blues (1993) e Occidentia (2007). Mantém o blog poético Occidentia.