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107ª Leva - 01/2016 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Kátia Borges

 

Deborah Dornellas
Desenho: Deborah Dornellas

 

Escorpião amarelo

 

E, então, eu seguro o pequeno animal peçonhento entre os dedos como se ele fosse um tesouro. Um único escorpião amarelo pode gerar até 40 outros. E sem necessidade de macho. Duas crias em um ano, 20 filhotes em cada cria. Uma espécie formada apenas por fêmeas, na qual os óvulos se desenvolvem sem fecundação. De repente, eu deixo o bicho cair no chão e outros escorpiões saem rapidamente dos esconderijos. Estão famintos, devoram-se uns aos outros. Acendo um cigarro e fico observando. Tanto veneno, meu Deus! Sobrevivi aos 15 anos. E, assim como os escorpiões amarelos, criei hábitos noturnos e crepusculares. Uma dose de álcool, algum fumo. Coisas normais para quem traz um ferrão cravado no peito. Casei, acasalei, emudeci, gritei durante os partos. Sou uma mulher absolutamente comum. Do tipo que prepara lanches deliciosos para os filhos, joga buraco com os amigos e faz amor duas vezes por semana com o marido. Olhem meus braços. Não há sinal de ferroadas. A cada manhã, escapo inteira do mesmo sonho. Mas não contei o sonho inteiro. Há nele “uma ternura venenosa de tão funda”. E o medo. O medo que sinto de mim mesma. A visão que tenho de meus filhos mortos. A sensação em que me afundo ao olhar o céu. E o desabar de uma chuva que parece varrer o mundo. E que não cessa até que ela surja. Turva. Primeiro, vem bem menina e me puxa pela mão para ver o mar. Depois, quase adulta, tenta me afogar para que eu não diga nada sobre o que sinto. E, no entanto, sempre fomos cúmplices numa forma indescritível de sentimento. E até nessa falta de dor, espécie de anestesia que dura desde o casamento. Olho a minha casa, cheirando a pinho, e acho tudo muito bom. Como se a família fosse um esconderijo. Ninguém pode me ferir aqui no Caminho das Árvores. E, nas copas, avisto as damas que se assumem. Passam por mim no mercado, de mãos dadas, cheirando as frutas, mastigando as uvas, sujas, o sumo escorrendo da boca. Imagino que coisas fazem juntas e viro o rosto. Reviro os olhos. Sozinha na cama. O marido em viagem de negócios. Os filhos dormindo. E sonho de novo e de novo com os escorpiões amarelos. Mas nem sempre foi assim. Confesso. Eu também já fui suja de desejos. Quando ela vinha e apertava a minha pele entre seus dedos. Como se colocasse a mão entre as fendas de uma árvore. Eu a podia sentir em minha dor como carícia. E mordia os lábios, rindo por dentro, louca por arranhões, tapas e empurrões. Qualquer contato, por mais absurdo, entre meu corpo e o dela. Misto de camareira e inocente útil, eu cuidava de pentear-lhe os cabelos, outro pretexto, e de vigiar seus pretendentes de perto, levando e trazendo bilhetes. É este? Não. É este? Não. É este? E foi assim que conheci o homem que me faria pensar em casamento. Não por amor, infelizmente. Mas em agonia de morte, veneno inoculado no peito. Casei com ele só porque ela o queria. E ele a mim. Desde sempre. E ainda ardo na nossa última noite. Falei, enfim, sobre sonhos e pesadelos e escorpiões. O vestido de noiva sobre a cama, os convidados no andar de baixo, num misto de alegria e confusão. E tudo que lembro é a sensação da água, que subia, encharcando meus tornozelos e, logo, entrando pela boca e enchendo os pulmões. Até que já não podia dizer nada. E o sentimento em torno de mim era um oceano inacreditavelmente solitário e sombrio. Todo o resto foi puro exercício de existir. Vestir a roupa branca, percorrer a nave central da igreja, dizer sim. E, dentro dos anos, procriar, criar herdeiros da vergonha para deixar entregues ao mundo, ao grande mundo. Ouçam. O amor é armadilha. É sonho. Ou nada, nada mesmo. Os escorpiões sobreviveram a muitos cataclismos, mas não venceram. Vejam como ainda se escondem e usam o veneno. Pobres criaturas seculares. Tão venenosas quanto indefesas… Outro domingo. E deixo que tudo desapareça, engolido pela segunda-feira. Há um revólver guardado na gaveta direita da cômoda. E a carta que ela mandou antes de atirar. Sei que estou acordada, que estive acordada todo o tempo, e agora sinto o animal peçonhento subindo pelas pernas. Nenhum medo. Quase gozo. Ao sentir o ferrão penetrar a minha pele e destruir-me os nervos.

 

 

 

***

 

 

 

Madrugada do dia dos mortos 

 

Perto da meia noite, veio do nada e deu um chute na porta da casa frágil. Escutei a pancada e cobri a cabeça. Sabia quem era e o que viria em seguida. Chuva de tiros. Fiquei quieto, golfos ensopando o tecido. Morto? Talvez. Quando fez silêncio, arrastei o que restara de mim para fora. “Polícia é assim, não livra a cara da gente nem no Ano Novo”. O homem me puxou pelos braços e foi me empurrando para baixo até me esconder inteiro sob a cama. Vi uma mancha de sangue, uma rolha de champanhe no assoalho, a queda de um projétil. No céu, saraivada de fogos. No dia primeiro, o primeiro de todo o resto, finalmente conferi meu corpo. Intacto. Trêmulo. Pele e ossos.

 

 

 

***

 

 

 

Sui Caedere 

 

E traziam nos pulsos, as duas, cicatrizes de suicídio. Um passado com o qual cada uma tratara de lidar muito a seu modo. A mais jovem, feito gato persa, desgarrara de tudo suas longas unhas. E vivia a correr mundo, ousando aviar receitas e abrir os corpos dos outros. Sempre a dar e consumir placebos. A outra arrumou um marido, cão de íntimos, e pariu duas crianças que trazia cativas em sua casa de cerca branca e varanda. Entretida em deixar impecáveis as roupas, e não queimar ou azedar o almoço, e estar magra para caber na cama e nos vestidos. Até que se viram, um dia, sem alvoroço. E notaram que traziam em seus pulsos, as duas, cicatrizes de suicídio.

 

 

 

***

 

 

 

O céu da boca

 

Os dentes do meu pai, envolvidos em um guardanapo, roçavam as pontas dos meus dedos sempre que enfiava, esquecido, a mão no bolso. Estava no centro, atrás de um protético que desse jeito na parte superior da dentadura. Fazer uma nova custaria dez vezes mais, mas esse nem era o problema. A questão é que, aos 90, o velho já não conseguiria passar pelo processo de adaptação da boca à prótese sem me enlouquecer completamente. Então, genial como sempre, tive a ideia de encontrar um profissional capaz de restaurar a arcada, reconstituindo a porcelana que eu havia quebrado acidentalmente logo que fiquei responsável pela escovação diária.

Não que eu fosse descuidado com as coisas do velho, entenda. De início, no entanto, confesso que olhava bem pouco o objeto em minhas mãos, limitando-me a fazer movimentos circulares com a escova ensopada em dentifrício, como havia lido em um anúncio de creme dental. Isso, somado à distração habitual, permitiu que a chapa escorregasse algumas vezes na pia do banheiro, danificando a ponta dos incisivos lateral e central. Não eram danos muito visíveis mesmo para quem olhasse meu pai bem de perto. Em nossa família, todos têm bocas pequenas e lábios finos, e a verdade é que ele sorria cada vez menos.

Mas, os danos nas pontas dos incisivos lateral e central, embora pouco visíveis, dificultavam a mastigação, e o desconforto do meu pai era suficiente para justificar a heróica travessia da cidade no inverno. Salvador ao Sol é uma Aldeia Potemkin. Engana britânicos, franceses e prussianos. Sob a chuva, no entanto, todas as suas estruturas parecem se desfazer em papelão. Saltando poças de lama, pulando entre as marquises dos prédios de outro século, eu caçava abrigo da água, movendo com desajeito o corpo magro, projeto inacabado de Shigeru Ban, à cata do consultório de um tal Heráclito Hernandes. Rua Chile, 190.

Ainda há pouco, no táxi que me levara aos solavancos do bairro nobre à parte antiga, comentara com o motorista o fato de o nome do protético ser Heráclito. “O obscuro”, me disse o homem ao volante, como se soubesse um bocado sobre filosofia e dialética. Eu só conhecia o Panta Rei e me inquietava a ideia de que tudo muda e a metáfora das águas e dos rios. Estivera a vida toda obstinado na construção de pontes, pontos fixos de observação e travessia. Tudo sem molhar os pés. “Mas, esta nobre arquitetura demanda grande conhecimento”, ouvi ao descer do carro. Isso eu sei. Demanda pilares e arcos muito sólidos e pedras e madeira de boa qualidade e metal e concreto e partes que são montadas aos poucos como num quebra-cabeça.

Há ainda pontes suspensas, mas isso eu não disse ao taxista. Pontes suspensas que são erguidas bem alto por cabos de aço. Toda vida, meu caro condutor, é apenas técnica.  Tudo demanda grande conhecimento, pensei, já entrando na viela estreita que dá acesso a Avenida Sete de Setembro. Mesmo o mais simples objeto, veja bem. Mesmo a dentadura danificada em meu bolso. Mesmo eu, o nobre, o filho generoso, o herói do velho, hoje frágil, incapaz de limpar os próprios dentes. Pouco restara do homem que conheci forte e macho a me ensinar a ser. A encher de sabão a minha boca para lavar com violência palavrões, nicotina e esperma.  A vida nos moldou, os dois, a foice, como sói acontecer a toda gente. Se há um consolo, este é ser como todos.

Maldita seja a diferença, dizia meu pai em seus ensinamentos sem o dizer. Seja honesto com os honestos e valente com os valentes. Nunca seja apanhado, faça o que fizer. Aos poucos, todas as lições seguiram para o ralo e ele parecia saber. Aquele moço magro e molhado que carregava seus dentes no bolso pelas ruas do centro em busca do consultório do protético era, sobretudo, um fraco. Sim, um fraco. Por mais que em mim ainda residisse a pouca força do velho e sua dinâmica viesse do apoio dos meus braços. Quis o destino que coubesse ao filho maricas cuidar de suas escaras, trocar as fraldas, levar ao banho,  limpar as fezes. Agora, concentre-se, pedi a mim mesmo, devidamente perdido em meio à chuva. Onde, nesta avenida, entro para a Rua Chile?

Apenas siga adiante, disse uma senhora meio curva. E eu segui. Incerto, pelo caminho conhecido desde a infância. Subitamente alterado, tonto. Em algum ponto, na altura do Relógio de São Pedro, senti que algo havia se partido, uma fenda no tempo, e todas as coisas do mundo, como no Aleph de Borges, pareciam espreitar sorrindo. Olhei seus dentes como se examinasse a boca de um animal antes de submetê-lo a grande esforço. E, nela, na boca do centro, enxergasse o escuro formado pelo palato. O céu. Algo apertava meu coração, como se uma grande mão, a grande mão do sofrimento, estalasse todos os seus dedos no céu de chumbo e, ao redor do meu peito, voltasse então a contraí-los. Eu precisava ir, localizar o endereço, achar o protético. Imaginei meu pai, perdido em mutismo e desespero, e me agarrei à expressão murcha de seu rosto por alguns segundos, alguns segundos, alguns segundos, alguns segundos…

 

Kátia Borges é escritora, jornalista, mestre e doutoranda em literatura e cultura pela Ufba e professora. É autora dos livros De volta à caixa de abelhas (As letras da Bahia, 2002), Uma balada para Janis (P55, 2009), Ticket Zen (Escrituras, 2010), Escorpião Amarelo (P55, 2012) e São Selvagem (P55, 2014). Teve alguns de seus poemas incluídos nas coletâneas Roteiro da Poesia Brasileira, anos 2000 (Global, 2009), Traversée d’Océans – Voix poétiques de Bretagne et de Bahia (Éditions Lanore, 2012), Autores Baianos, um Panorama (P55, 2013) e na Mini-Anthology of Brazilian Poetry (Placitas: Malpais Rewiew, 2013) e traduzidos para o francês, espanhol, inglês e alemão.

 

 

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107ª Leva - 01/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Fernando Naporano

 

deborahdornellasum
Desenho: Deborah Dornellas

 

Sem Os Limites Do Círculo Terrestre

 
Juntos sabemos a cor do silêncio de Deus
que Nerval nos trouxe em ouro fervente

Respiramos em azul incerto-aberto
o odor da claridade ágil,
em passos muito rápidos,
arremessando clareiras na mata

Seu sono em essências de rocha
ao meu chamado respondendo
com rosto de margarida-sem-fim
contrário ao pó de todos os conteúdos

À minha despedida, um lacinho de ternura
acalenta o prazer em ver-te no metal do sonho

 

 

 
***

 

 

 

Luz. Speedball.

 

quisera mais e mais a introspecção da montanha branca

lá donde as coisas diminuem…………………….diminuem
os silêncios mudos não mais que claras………passagens
a vida estremece…………………..é uma recusa a respirar
ao perfil das feridas…………………………….sem pranto

Da sede branca………………..outra sede branca

a alma aberta……………………..sem dificuldade
o corpo é pequeno……  .a dimensão transitória
sobremaneira…………………………é o incêndio
o músculo………..(!!!)………………..no deserto

deslumbrante…………serenidade branca íntima
tudo é claro……completo, o espelho acende-se
nenhum reflexo escapa
nenhum reflexo….arde

 

 

 
***

 

 

 
As sujas maçanetas da razão
finalmente estavam todas avariadas

As tempestades reclináveis do espírito
eram a varanda da grande festa da solidão

 

 

 

***

 

 

 

Dai-me, oh horizonte-em-dardos, o crepúsculo brancovioláceo
ou a maré das luzes libertas.
Não permita-me contemplar o céu azul-claríssimo
que se agarra, sem sutilezas ou tempestades, nas pro—-
——-fundidades do Vazio.

Dai-me, leito escuro do alto, algo além do lodo de vidro
da estrela que não veio.
Não proiba-me de inundar-me no mecanismo das lágrimas,
sem pressa nas roldanas, tisanas da dor,
na claridade de teus olhos que cegam para O Sempre.

 

 

 

***

 

 

 
Uma espécie cobalto de amargura
vaza-me as entranhas
nas valas do sol a se por
no extremo desolado do Tejo

Ainda há luz
nas janelas
des
pe
da
ç
adas
da alma
. algum resquício de cor,
ardor do suplício
em melros trucidados nos campos da memória.

 

Fernando Naporano cursou Letras em São Paulo e Lisboa, mas sempre atuou como jornalista, radialista, label manager e músico. Gravou três Lps com sua banda Maria Angélica Não Mora Mais Aqui.  Entre seus principais livros inéditos de poesia estão “Abandono Devolvido”, “Estrelas De Gin”,”Uma Lâmpada Entre Os Lábios” e “Nas Colinas De Valdemossa Com O Fantasma De George Sand”. Tem um anti-romance – também inédito- chamado “Não Era Uma Loira Era Um Garrafa De Cidra”.
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107ª Leva - 01/2016 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

 

O escritor visita o museu da memória. Transita, a princípio, por um corredor de paredes nuas e escuras. Segue um mapa involuntário, aquele que condiciona um caminho, ainda que não exista seta ou placa referencial. Vai a passos firmes, até que se depara com a entrada de uma sala. O escritor estaciona na soleira e vasculha o interior aparentemente vazio, tomado pela mesma textura de desclaridade que cobre os limites exteriores. Reluta, mas decide entrar. Palmeia no ar a distância à frente, imitando um cego, um perdido.

De repente, um facho de luz perfura o breu e projeta, no concreto liso, uma imagem que dá partida a uma sucessão de velhas fotos, retratos em branco e preto. Cenas de outros tempos que irradiam uma familiaridade, um pertencimento latente, sobretudo porque o escritor em estágios preliminares da vida figura em inúmeras delas. Superado o espanto, o escritor se aproveita dos intervalos do flash para divisar uma saída. Junto à porta, há uma caixa de madeira, semelhante a uma caixa de sugestões, com um bilhete ao lado que demanda que o escritor reconte aquela história, a sua história, e a deposite no receptáculo. Ele pondera, mas percebe que qualquer tentativa irá resultar em fracasso, pois as imagens não dispõem de uma integridade sequencial, de uma cola entre si. O escritor irá fracassar, pois toda incursão pela memória é falha.

O escritor Julián Fuks escreve o fracasso, a impossibilidade de recontar a memória. Seu romance recente, “A resistência”, intenta examinar o próprio enredo familiar, a partir da reconciliação com a infância, com o fato de ter um irmão adotivo. Filho de intelectuais argentinos, que nos anos 80 se exilaram no Brasil por conta da perseguição política do regime militar, o autor paulista cria uma duplicidade ao se colocar como agente de duas épocas, narrando e, ao mesmo tempo, participando de um drama que é um eco da história devassada de um país, dos atos de combate à repressão e dos choros incontidos dos que procuram incansavelmente seus desaparecidos.

Esses deslocamentos entre o passado e o presente encontram sintonia na subjetividade, no esforço de resgatar, no movediço da consciência, um rastro de sentimentos que possa atestar que se avance pelo terreno da verdade e não pelo da invenção, que a verdade, ao menos, prevaleça na maior parte. Não é tarefa das mais simples, todavia, pois a memória é também um segredo guardado no mais fundo, uma sala escura que, iluminada espasmodicamente, dará conta de que observar este irmão é também observar a si mesmo, é desvendar os motivos que levaram um jovem, ao se saber adotado, decidir se subverter à lógica da família que o criou, como aqueles que o criaram se subverteram anteriormente à lógica do regime ditatorial.

Da conversão da matéria autobiográfica para matéria literária, Fuks constrói um relato labiríntico, consubstanciado por um rigor com a linguagem, a descoberta de uma prosa potente e delicada, que impacta e comove ao arrastar o leitor para essa busca, esse acerto de conta com uma dúvida, proporcionando um encontro com a literatura superior que captura um espírito do tempo, que compõe uma obra-prima da nossa geração.

Em entrevista exclusiva, Fuks fala sobre o ponto de partida e a construção do romance, a relação entre ficção e realidade, e o processo de lapidação da linguagem, que classifica como “quase obsessivo”. Além disso, o escritor comenta o abismo entre a produção brasileira e a de outros países latino-americanos, o depauperamento da crítica literária, a extinção dos cadernos culturais e o desafio de ser escritor no Brasil. “A carreira de um escritor no Brasil costuma ser feita de acontecimentos pequenos, discretos, que lentamente vão demarcando uma mudança, vão produzindo as condições para que ele continue escrevendo e de fato seja lido”, observa.

Foto: Fernanda Sucupira
Julián Fuks / Foto: Fernanda Sucupira

DA – Seu novo romance tem endereço num território muito frequentado atualmente pelos escritores brasileiros, que é o da autoficção. Porém, como o mesmo denuncia a certa altura, toda memória está suscetível à falha. Sendo assim, o quanto de liberdade inventiva coube na realidade trazida para “A resistência”? Revisar o passado é converter inescapavelmente o relato memorialista em ficção?

JULIÁN FUKS – De fato, enquanto escrevia o livro me via nessa estranha situação que têm vivido muitos dos escritores contemporâneos, me via apegado à realidade, incapaz de tomar distância, infenso à invenção. Há quem encare o fenômeno como uma opção oportunista, mercadológica, uma estratégia escusa dos escritores para atrair o interesse do leitor. Para mim está cada vez mais claro que é uma questão de sensibilidade, uma sensibilidade do tempo, uma certa predisposição a buscar o que há de relevante e verdadeiro nas circunstâncias reais. Em certa medida é um retorno do romance às suas origens, uma busca mais literal da vida comum, da cotidianidade – sem que seja permitido, porém, um retorno àquela crença na representação, àquela ingenuidade.

E está cada vez mais claro, também, que a busca pelo real não exclui em nada a ficção, que a ficção se dá muito mais na seleção dos fatos e em suas interpretações, na construção arbitrária das frases, no transporte sempre falho da memória ao papel. Não vou ser o primeiro a dizer que realidade e ficção não são polos opostos. “Falso”, “inventado”, “falacioso”, esses podem ser antônimos de “real”. Ficcional e real não são antônimos, travam uma relação muito mais íntima do que essa que se quer alegar.

DA – Falando em relação mais íntima, você relata que o livro é sobre seu irmão, mas também sobre seus pais. Inclusive que, durante o processo de composição, seu pai considerou lhe encaminhar um documento que trazia o nome dele relacionado à Operação Condor. O que acaba parecendo que a decisão de escrever o livro, de alguma forma, foi coletiva. Você tinha em mãos o poder de revelar uma história não sua, que, durante anos, por razões de segurança, foi mantida sob sombras. Até que ponto você se permitiu tatear nesse universo impessoal? Quais cuidados tomou no escavar desse terreno denso e movediço da memória alheia?

JULIÁN FUKS – Bom, o livro nasceu a partir de um pedido do meu irmão, se valeu de uma série de relatos íntimos que a memória não apagou, se desenvolveu em inúmeras conversas com meus pais e minha irmã, conversas que eu fui incorporando à narrativa. Nesse sentido, já de partida, se trata sem dúvida de uma construção coletiva; uns quantos discursos confluem ali para contar a história dessa família. Mas é uma construção coletiva também por um motivo mais amplo. Tratando dos temas que trato no livro, a repressão da ditadura, a militância, o exílio, é impossível não passar por uma infinidade de testemunhos há muito escritos, de relatos reais ou ficcionais sobre esse passado sombrio do nosso continente. Ao escrever essa história, por vezes sentia que entrava num espaço densamente habitado, me somava a algo que é quase uma tradição na literatura argentina, algo que poderia ter se tornado tradição na literatura brasileira se soubéssemos trabalhar melhor nossa memória política. Percorrendo um espaço já tão percorrido, acho que o cuidado maior estava em alcançar uma pertinência, em encontrar a sensibilidade necessária para abordar esses temas delicados e ao mesmo tempo narrar a história com força e contundência.

DA – Você acabou adiantando uma discussão que deixaria mais para frente, porém não posso perder o momento oportuno. Sempre me incomodou o fato de não lidarmos com a memória política, como bem fazem nossos vizinhos continentais. Sobretudo na literatura de ficção. Temos estupendos registros paginados sobre o período ditatorial; biografias, coletâneas de ensaios, trabalhos de pesquisa e jornalísticos. Entretanto a ficção, para usar um trecho extraído do seu livro, mostra-se refém “de um pudor antigo adiando cada frase”. A que motivo você atribui esse desinteresse? Por que os autores que nasceram ou foram crianças nos anos de chumbo dificilmente conseguem olhar sobre os ombros e encontrar bons personagens, boas histórias?

JULIÁN FUKS – Acho que a dificuldade não se reduz à literatura, não sei se compartilho dessa premissa. Em inúmeros âmbitos o Brasil tem resistido a encarar de frente a dureza de sua história, a compreender o jogo de forças que levou ao descalabro, a reconhecer as vítimas sem de novo culpabilizá-las, a atribuir devidamente as responsabilidades. Há de fato um pudor antigo adiando cada frase, e o pudor nesse caso tem um nome preciso: é o pudor da anistia. A anistia “ampla, geral e irrestrita” tinha seu sentido na época, permitiu que muitos voltassem do exílio, mas acabou definindo no país uma cultura de esquecimento, de ignorância, de impunidade, de incapacidade de lidar com esses traumas antigos. A historiografia faz o que pode, o cinema faz o que pode, a literatura faz o que pode, mas nenhuma dessas atividades consegue preencher esse vácuo de justiça. Há um movimento recente de lidar com essa história, a Comissão da Verdade foi um produto importante desse movimento, mas é claro que não é suficiente – a anistia não foi revogada, afinal, e isso tem um peso simbólico terrível. Na literatura também há uma nova atenção a esses temas, que se dá também pelo embaralhamento entre realidade e ficção: Bernardo Kucinksi, por exemplo, tem feito um trabalho forte e importante que vai nessa direção.

DA – Fato. Escrevi, há algum tempo, que “K.” foi uma das experiências mais potentes que a literatura me proporcionou. E os contos de “Você vai voltar pra mim” não ficam para trás. Agora jogando luz ainda sobre um trecho da sua resposta anterior, é muito evidente, diria até palpável, o trabalho de busca por uma sensibilidade que proporcione uma leitura de força e de contundência. Na verdade, essa é uma técnica pulsante em seu livro anterior, “Procura do romance”, aplicada também em “A resistência”. Você diria que a sua literatura tem uma preocupação maior com a forma que com o conteúdo? Há um exercício incansável de lapidar as frases?

JULIÁN FUKS – A oposição entre forma e conteúdo é mais uma falácia que nosso tempo, afortunadamente, tem conseguido derrubar. Não sinto que o enredo tenha uma função menor nos meus livros, e neste em particular há uma história forte que eu me obrigo a atravessar, uma história que, ao menos para mim, está carregada de intensidade. O caso é que, muito mais do que as cenas aventurescas e grandiloquentes, me agradam os momentos íntimos, a delicadeza das imagens corriqueiras, o que há de expressivo na aparente banalidade, e assim o enredo parece se desmanchar, ou se dispersar na multiplicidade de cenas menores. Mas, sim, para chegar ao cerne da sua pergunta, por vezes me sinto tomado por um cuidado quase obsessivo em encontrar a palavra exata – como se existisse essa única palavra que completasse a frase exata, o parágrafo exato. Tenho me preocupado cada vez mais com elementos de ritmo e sonoridade, com certa musicalidade do texto, e é inevitável que esse exercício transforme a própria história – ou então que a própria história se transforme, até certo ponto, na história desse exercício.

Fotos do autor Julián Fuks, Companhia das Letras, São Paulo, Agosto de 2015
Julián Fuks / Foto: Renato Parada

DA – Curioso você falar em musicalidade, pois há passagens – e destaco aqui a presença/ausência da Marta Brea -, em que a intimidade do relato ressoa feito um réquiem. É assombrosamente lindo. Mas voltando à construção do livro, você resgata constantemente recortes históricos que se aliam e, às vezes, se sobrepõem ao relato memorialista. O mais recorrente, talvez, seja a menção ao grupo Avós da Praça de Maio, cuja determinação na procura pelos bebês sequestrados e desaparecidos durante a ditadura argentina foi contada no documentário “500”, de Alexandre Valenti. Houve um trabalho de pesquisa para recriar essa época na qual se passa a história? Chegou a recorrer a livros, reportagens ou filmes?

JULIÁN FUKS – Acho que esse assunto sempre esteve no meu campo de interesses, por razões afetivas ou biográficas, sempre ouvi com muita atenção tudo o que se dizia sobre aquele país, aquela cidade, aquele tempo, talvez por sentir que minha identidade passava necessariamente por lá. Mas é claro que, quando decidi escrever sobre esse passado, procurei fazer uma imersão mais sistemática no tema da ditadura militar, da tortura e dos desaparecimentos, dos traumas históricos que reverberam inevitavelmente de uma geração a outra. Li muitos dos jovens autores que hoje têm escrito sobre o que viveram seus pais, no que vem sendo chamado, talvez de forma inadequada, de pós-memória: Alejandro Zambra, Andrés Neuman, Laura Alcoba, Patricio Pron. Em todos eles se vê – e talvez em meu livro também seja assim – uma tentativa de reconstrução da história que não se dá através da reconstituição precisa, de uma austera e jornalística averiguação factual, mas sim de uma investigação muito mais íntima, uma exploração do microcosmo da família, de seus relatos inauditos, um périplo pelos caminhos tortuosos da memória, alheia ou própria.

DA – É bacana como suas respostas vão antecipando questões que eu tinha reservado para o nosso papo. Ao mencionar a tendência da pós-memória, você acaba me sugerindo a ideia de que toda tradução de um livro é, de certa forma, uma pós-publicação. No caso do Brasil, essa condição é muito adequada, dado o longo tempo que muitos autores estrangeiros levam para despertar o interesse de nossas editoras, vide os exemplos recentes de Copi e Juan Emar. Por outro lado, vem ocorrendo um interesse espontâneo por jovens autores de língua hispano-americana. Você citou alguns, mas, para ficarmos com os argentinos, elenco Samanta Schweblin, Selva Almada, Diego Vecchio e o próprio Andrés Neuman. No entanto, o movimento contrário não é tão venturoso. Ainda há, digamos, um desinteresse pela nova literatura brasileira nos países sul-americanos. Com a vivência que traz da Argentina, por que imagina que isso aconteça?

JULIÁN FUKS – Sempre houve um abismo entre a nossa produção literária e a de outros países latino-americanos, não tanto pela diferença de idioma, mas pelo que ela simboliza: a noção de que temos aqui um mundo à parte, um “país continental”, diverso, indevassável, incompreensível, descolado de toda a realidade circundante. E, no entanto, basta observar os processos históricos dessas nações vizinhas, atentar para as estranhas sincronias que se criam tanto em cultura como em política, para perceber quanto esse abismo é ilusório, quanto ganharíamos se o transpuséssemos de vez, urgentemente. Algo desse movimento temos feito, uma parte importante da literatura latino-americana é bem conhecida aqui. O movimento correspondente é que apenas se inicia: a Argentina, por exemplo, ainda tem que conhecer melhor inclusive os nossos clássicos, Machado, Guimarães, Clarice, Graciliano.

Quanto à literatura contemporânea, a literatura deste novo século, talvez haja uma razão a mais para essa dificuldade de reconhecimento no exterior. Percebo uma dificuldade grande também em nós mesmos de reconhecer o valor dos nossos próprios autores, de mensurar obras importantes, estimar trajetórias consistentes, construir, enfim, um novo cânone. Penso que hoje a crise está muito mais na crítica do que na produção literária: a crítica que se submete às veleidades do mercado, que só dá atenção aos lançamentos novíssimos, que a cada ano substitui seus objetos cativos por aqueles que reluzem mais forte nas estantes.

DA – Parte da sua resposta me deu uma deixa para um assunto que gerou um tanto de polêmica na época, porém não posso perder a chance. Dentro desse contexto de reconhecer o valor dos novos autores, tivemos a eleição da revista Granta dos melhores jovens escritores brasileiros como um marco, na falta de um termo melhor. Foram vinte autores, dentre os quais você. Como recebeu essa escolha e encarou as controvérsias? E, mais importante, qual o peso que isso teve para a sua carreira literária?

JULIÁN FUKS – Foram debates intensos os que se produziram na época, e hoje suspeito que o valor maior daquela edição da Granta foi ter suscitado essa polêmica: ao menos assim a literatura jovem brasileira se pôs em questão, se fez objeto de um debate vivo. Ainda que as críticas tenham sido, por vezes, irascíveis demais, diante de algo que não era tão relevante assim, não deixaram de ter sua justiça. Foi um momento importante para denunciar a manutenção de alguns privilégios, a atenção excessiva aos homens, aos brancos, aos héteros, aos habitantes dos grandes centros urbanos, quase todos representantes de uma mesma literatura que se quer séria e cosmopolita. Sim, eu participo desse grupo, mas não é com cinismo que o digo: já passa da hora de abrir os olhos para outras literaturas, de compreender a riqueza que há na diversidade, na multiplicidade, nos projetos que fogem a essa hegemonia. Quando falo da necessidade de construir um cânone contemporâneo, é claro que não é com a repetição dos erros do passado, com a reprodução desse olhar míope e distorcido.

Quanto ao peso que a Granta pôde ter na minha carreira, é algo muito difícil de mensurar. A carreira de um escritor no Brasil costuma ser feita de acontecimentos pequenos, discretos, que lentamente vão demarcando uma mudança, vão produzindo as condições para que ele continue escrevendo e de fato seja lido. Acho que a Granta não se diferenciou muito disso, foi mais um desses acontecimentos.

DA – Justamente essa diversidade não seria um dos motivos – ou o mais latente deles – para que seja hoje tão difícil concentrar essa gama de novas vozes? E trago a lume aqui um debate mais profundo, que inclui a democratização da literatura, com o advento dos blogs e demais plataformas, com o surgimento e a consolidação das pequenas e médias editoras. A questão não seria a facilidade de se publicar também? Temos atualmente tantos autores, produzindo tipos tão distintos de literatura, que me parece um momento de transição o que vivemos agora. Que estamos em meio a uma enxurrada que, apenas após alguns anos, talvez décadas, poderemos discernir o que era apenas fluxo e o que era matéria. Isso, para dizer a verdade, me preocupa sobremaneira em alguns aspectos. O primeiro é não termos leitores para tantos autores, que a literatura se resuma a um círculo fechado de leitura onde autores leiam autores. No entanto, penso que o mais nocivo é começarmos a nivelar a qualidade por baixo, termos um excessivo número de novos títulos, escritos por autores ainda não prontos, que torne a análise difusa e se comece a acreditar que a literatura brasileira está mudando quando, de fato, está piorando. O que pensa sobre esse disparo de novos autores, de autores muito jovens? As editoras independentes, as de pequeno, médio e grande portes não deveriam ter a responsabilidade de selecionar melhor as suas publicações?

JULIÁN FUKS – Seu diagnóstico me parece preciso, sim, mas eu não consigo conceber como negativa a profusão de autores e publicações que vemos hoje. Penso que há algo de muito produtivo nessa vivacidade, nessa democratização do acesso à escrita, nessa multiplicação de editoras, penso que uma literatura consistente se produz a partir dessa riqueza. Nenhum autor surge pronto, a criação literária tem sempre um desenvolvimento lento, e a publicação é parte fundamental desse processo. Quanto mais publicamos no país, creio, maior tende a ser a maturidade da nossa escrita, ainda que essa qualidade só se revele plenamente em poucos autores. Insisto que o problema parece se situar na crítica, cada vez mais escassa, cada vez mais ínfima. É evidente o depauperamento dos nossos cadernos culturais, a cada ano mais exíguos e superficiais – com exceções importantes, é claro. Nesse contexto, talvez coubesse à crítica acadêmica uma aproximação a estas novas produções, e isso tem sido feito com tremenda qualidade por alguns críticos, mas o movimento como um todo ainda se mostra insuficiente.

DA – O caso do depauperamento dos cadernos culturais é um sintoma da crise implantada nos jornais impressos, que minguam seus formatos, reduzem equipes e extinguem seções inteiras. A morte dos suplementos literários é algo nocivo, triste e grave, porém enxergado, por alguns, como um deslocamento irreversível da mídia de papel para a virtual. Lembro-me que, na mesma semana em que um dos principais jornais do Brasil decretou o fim do seu caderno de literatura, uma revista trouxe na capa a celebração dos chamados booktubers, jovens que gravam vídeos discorrendo sobre seus gostos literários e atraindo milhares, milhões de visualizações. Independente de isso ser bom ou ruim, não lhe parece que, hoje, é dado mais valor ao alcance de uma crítica (e incluo as palmas dos editores, dos autores e dos leitores) que à qualidade do texto?

JULIÁN FUKS – É verdade, esse campo do virtual é todo um mundo à parte ainda difícil de estimar. À primeira vista parece de fato muito mais condicionado pelos gostos pessoais, mais distante de uma avaliação fundada num conhecimento da teoria e da história da literatura, algo essencial à crítica desde tempos imemoriais. Mas confesso que sou ignorante demais nesse aspecto para poder aportar um juízo embasado. O que sim posso notar, em todo caso, é que essa crise da crítica é tão aguda que se impõe até no âmago das discussões literárias. Aqui poderíamos estar discutindo os problemas intrínsecos à construção de uma obra, as decisões difíceis que todo autor tem que tomar diante de sua matéria sempre indevassável, os infinitos desafios inerentes à dura lida com as palavras. Em vez disso nos vemos a discutir, tristemente, as vicissitudes do mercado editorial, suas imposições sobre obras que se queiram autorais, seus obstáculos a um exercício mais livre da escrita literária.

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Julián Fuks / Foto: Fernanda Sucupira

DA – O que a literatura argentina – e incluo aqui desde o mercado à produção criativa – pode servir de exemplo para os novos autores brasileiros?

JULIÁN FUKS – O que se costuma chamar de literatura argentina, ainda que caracterize apenas uma parte de tudo o que se produz por lá, é uma ficção feita de jogos cerebrais, ficção engenhosa, autorreflexiva, que se volta sobre si mesma para revelar com inteligência sua maquinaria. É isso, ao menos, o que geralmente se aprecia em Borges, Cortázar, Saer, Piglia. É claro que temos algo disso aqui, mas penso que a literatura brasileira ainda poderia se enriquecer muito com esse exercício, com narrativas que não se limitam à condição de narrativas, que se deixam invadir pela retórica, pela metafísica, pelo ensaio, por formas mais livres. É só uma sugestão, claro, ou um gosto pessoal. Sinto falta em nossa literatura de uma maior liberdade formal, e sinto falta também de um pensamento sobre a própria literatura que não se resuma à crítica usual, crítica jornalística ou acadêmica. Pessoalmente, como leitor, adoraria que os escritores brasileiros se dedicassem também ao ensaísmo, se entregassem mais plenamente ao pensamento sobre o mundo ou sobre a escrita.

DA – Há algo que a literatura brasileira pode oferecer aos novos escritores argentinos?

JULIÁN FUKS – A literatura brasileira, em seus autores principais que já tomamos por clássicos, parece ter um pendor pelo social, uma capacidade de apreender pela ficção algumas das mazelas do país, sua pobreza, sua desigualdade, suas tão evidentes injustiças. Nesse aspecto temos uma tradição consistente e muito consolidada, tanto na ficção quanto numa forte crítica sociológica, aquela que tão bem desenvolveram Antonio Candido, Roberto Schwarz e outros tantos. Arrisco dizer que a literatura argentina, mais marcada por uma postura elitista, poderia se beneficiar muito com esse olhar que se volta para o outro, com essa tentativa de incorporar à narrativa o que nossas sociedades têm de mais abjeto, de mais chocante, de mais nocivo. Podem soar contraditórias estas minhas respostas cruzadas, mas penso que haveria muita potência numa literatura que conciliasse o rigor formal argentino com a relevância social brasileira.

DA – O personagem Sebastián está no seu romance anterior e reaparece em “A resistência”. Quem é Sebastián? Um alter ego, uma encarnação de sentimentos? O quanto de Julián há em Sebastián?

JULIÁN FUKS – Não é disparatado dizer que se trata de um alter ego, o protagonista autoficcional por excelência ainda que não carregue meu nome, mas essas classificações não me parecem muito necessárias. Sebastián foi o personagem que construí minuciosamente, rigorosamente, em “Procura do romance”; ali Sebastián era figura incontornável, onipresente. Quando me pus a escrever “A resistência”, por um longo tempo não me dei conta de que o narrador era ele, pensava um narrador sem nome como todos os outros personagens importantes – ou pensava, por um longo tempo, confesso, que o narrador era eu. Foi só no final do livro que me dei conta da evidência, percebi que aquela voz não podia ser a minha, que escrever distorcia o que eu tinha a dizer, como sempre distorce tudo. Vi que aquele só podia ser um livro que Sebastián encontraria mais tarde, o romance com que se depararia quando já não estivesse tão obcecado com sua procura. Ou brinco, claro, ao falar dessas coisas todas.

DA – Você afirmou que o livro é uma resposta a um pedido do seu irmão, contudo, de maneira prática, qual o futuro que intenciona para ele? Há, em seu farol literário, procura por prêmios, reconhecimento, autoafirmação? A partir de “A resistência”, quais são os seus planos e projetos?

JULIÁN FUKS – Difícil projetar um “futuro prático” para um livro. O livro existe, está lá, é tudo o que eu pude fazer, é tudo o que eu posso fazer com ele. Foi resposta a um pedido do meu irmão, mas foi também uma resposta ainda mais íntima: contar essa história foi algo que exigi de mim, por vezes contra um ímpeto mais imediato, contra uma vontade tangível, contra uma resistência. Costumo sair da escrita de um livro um tanto exaurido, e por um bom tempo me mantenho alheio a outros projetos, deixando que cresçam em mim sub-repticiamente, sem me obrigar a escrever antes da hora. Enquanto isso, vou curtindo as boas conversas que a publicação suscita, vou absorvendo os comentários dos leitores, vou ganhando mais clareza sobre o que eu mesmo fiz, sobre o que ainda tenho a fazer, a dizer. Vagarosamente hão de nascer os novos projetos, ainda incipientes demais para que eu saiba falar sobre eles.

DA – Escrever, no Brasil, é um ato de resistência?

JULIÁN FUKS – Escrever pode ser resistir, pode ser capitular. No Brasil ou onde quer que seja, a mim interessam os escritores que fazem desse ato tão simples, tão corriqueiro, um ato de resistência contra a insignificância da vida, contra a pequenez da existência.

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

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107ª Leva - 01/2016 Destaques Olhares

Olhares

Admirável novo olhar

Por Fabrício Brandão

 

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Desenho: Deborah Dornellas

A descoberta do mundo é um processo lento, dinâmico, complexo e continuado. Mas é necessária uma intervenção ativa do olhar para que isso se torne algo real. Do contrário, a imutabilidade dos gestos diante das horas que nos acometem não tem serventia, pois nada constrói. Nem tudo está posto e temos uma considerável margem de liberdade para traçarmos as interpretações ao nosso modo.

Quando nos deparamos com coisas já estabelecidas, podemos indagar se tudo deve transcorrer da maneira como se apresenta. Sob o manto da aparência pairam as mais diversas possibilidades, cada uma delas carregando em si uma oportunidade de ressignificação. E é preciso ousadia para romper as barreiras tão viciadas pela rotina que nos trai e acomoda.

Pensar a arte de Deborah Dornellas é apreender a sensação de que o mundo no qual vivemos não é o mesmo de sempre. Munida de uma imensa capacidade de abstração, a artista revela-se hábil em revestir seres e lugares com uma múltipla sucessão de camadas. Significa dizer que o objeto de seus desenhos opera num fluxo através do qual o caráter físico das coisas é fragmentado para depois servir de base a uma outra formulação.

A despeito do que foi dito acima, essa nova caracterização da matéria é capaz de desfigurar cenários e corpos para depois reordená-los com outra configuração em forma e conteúdo. Desse modo, Deborah consegue vislumbrar alguma ordem no caos que nos pertence por natureza.

Deborah Dornellas
Desenho: Deborah Dornellas

No que tange aos traços humanos apresentados por Deborah em seus desenhos, chama atenção uma verdadeira consciência amplificada a cerca dos domínios do corpo. Nessa ótica, a artista prima, sobretudo, pelo recorte sutil das formas, pela indefinição de rostos e identidades. A aura que envolve corpos vem associada a uma espécie de esfera do mistério e, de certa forma, sugere uma conotação etérea.

Carioca criada em Brasília, Deborah hoje mora em São Paulo por escolha própria. Também é escritora, jornalista e professora de criação literária. Desenha e pinta desde 1993 e, depois que descobriu as possibilidades do desenho digital, tal ferramenta se tornou a base de seu trabalho.

A diversidade de cores e texturas é ponto de destaque no trabalho da artista. É a partir delas que o caráter abstrato das suas investidas toma substanciais proporções. Ao mesmo tempo, cabe ressaltar que uma atmosfera intuitiva conduz as ações de modo predominante.

O que pode nos separar de um novo mundo é uma questão de ponto de vista. No entanto, a liberdade para definir como isso se dará é um aspecto crucial.  Mais que um mero exercitar de olhares, dar outros rumos para a existência é resultado de um inevitável flerte com o desconhecido. Se isso realmente mudará o curso das coisas, só os arremessos poderão dizer.

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Desenho: Deborah Dornellas

* Os desenhos de Deborah Dornellas são parte integrante da galeria e dos textos da 107ª Leva

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.  

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106ª Leva - 09/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Rita Medusa

 

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Foto: Sinisia Coni

 

 

Lâmina para o menino nu

 

Doura um colar de ossos
Na tua tormenta

E o trânsito desta fome
Desola jugulares

O ranger da tua arquitetura
arruinou meu sorriso

[Meu coração
no retrato 3×4
lambe tua porta]

 

 

 
***

 

 

 
Uma cama pra ninar teus colapsos

 
você é o sonho dentro do sonho
uma pérola te cuspiu depois de uma viagem de ácido
Banido dos alarmes
já não pode contrabandear usinas internas
e maquiar formigas
Teu lençol canonizado é a casa dos aflitos
Bebem da tua cicuta os desavisados
exalam da tua doçura uma espécie de ferida
e fazem da tua língua uma lança

Caem na tua cilada os lascivos
e eu que não sou diferente, decorei os passos até o oráculo
fui tomada por um êxtase cego
Contornando fantasias de tigres com os cílios
enquanto as aves de rapina te observam
envenenando a gravidade dos meus sonhos
Me preparo para o próximo salto
nas escadarias da saída de emergência
Não finjo indiferença
prolongo a tessitura solar
com devoção maníaca
é o que me restou de essência
pra te cantarolar as delicias terríficas
enquanto você deita no colo da tempestade
pra parar de me sonhar

 

 

 

***

 

 

 

A identidade das mãos

 
somos bombas ambulantes que adoram
.detectar a identidade das mãos
nossa cama de colapso
a inspiração das ruínas que nos protege
somos belas catástrofes cativando um odor de esquadros
com nossas armas e delírios de controle
arrastando corações sombrios e uma forma de amar inconveniente
instrumentos musicais, trapos sujos com orações, apelos e a violência do nosso olhar
a identidade das mãos pode ser um borrão avermelhado
que não sabe dormir
porque o hoje é um cansaço que o sono não cura.

 

 

 

***

 

 
Infâmia escarlate

 
exausta
de não ser lida
de não ser despida
estranhamente interpretada
cuspida e desastrada
fermentada na tua bebida
cultivando línguas inventadas
era escândalo e desabamento do carrossel das injúrias:
atropela-me novamente com teu desejo
não me deixa dizer mais nada

colecionadora de fracassos
e dos céus inflados
da lascívia roubada
antes de lavar a carne
para não dormir

 

 

 

 
***

 

 

 

Cadernos de esgrima

 

imagina enquanto costura danos no papel
a ausência da carne, da água, do amor, das armadilhas
das ilhas que surgiam entre eles quando as portas se fechavam
havia janelas por onde a corda os enlaçava
havia porões onde esconder as meias verdades
mas nunca mais houve saída
e eles exerciam o amor ao som da grande desolação
com seus serrotes e violinos e batuques coronários
o verbo da pele empurrando os nervos
escada abaixo
para o mistério da espiral
na sombra da estrada paradisíaca
pela profundidade do canto das cordilheiras
no soco que transformamos em medalhas
e os beijos que se revelam chagas
depois que o livro fecha
e eles escorrem como tinta
andando desencarnados nas fronteiras
entre a palavra e o silêncio
um hiato de desejo
desatina

 

Rita Medusa, paulistana, nascida em 1980, formada em Psicologia. Escreve para sobreviver a si mesma. Os poemas selecionados fazem parte do seu primeiro livro de poesias, “Hipnose para um incêndio”; a ser lançado futuramente.

 

 

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106ª Leva - 09/2015 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

CARTAZ DE TÁXI TEERÃ

 

Já foi bastante comentado o inicial encantamento do filósofo Michel Foucault com a Revolução Iraniana em 1979.  Foucault teria visto na revolução xiita o despertar de uma nova “política da espiritualidade” que contrastava a seus olhos com o legado laico e racionalista da política moderna ocidental.

A defesa de Foucault da revolução no Irã foi tema de muitas controvérsias acadêmicas e o próprio filósofo recuou de alguns de seus pontos.  Não ficou nunca claro a ninguém afinal o que Foucault queria dizer com seu conceito de espiritualidade da política. É verdade que o regime iraniano combina um singular acordo entre democracia eleitoral e teocracia, único em todo o mundo islâmico, onde o poder religioso dos Aiatolás funciona como um “Poder Moderador” em relação ao Poder Civil dos eleitos pelo povo. Por outro lado, é uma das nações que até os dias de hoje mais faz uso da pena de morte e da perseguição sexual, além de muitos outros crimes de Estado.

Talvez seja possível uma compreensão de onde está a espiritualidade da revolução, adivinhada por Foucault, se movermos o olhar da política de Estado em direção à arte; especificamente para esse acontecimento inusitado que é o cinema iraniano. Inusitado porque excepcional: não há nenhum outro país de domínio político islâmico onde o cinema seja sequer tolerado. Como se sabe, no Islã, a fruição das imagens é considerada idolatria, sendo então proibida, em alguns casos, como na Arábia Saudita, com pena capital. Nesses países o cinema é considerado a quintessência da idolatria.

No Irã, ao contrário, a Revolução xiita, que estabeleceu o regime teológico-político-democrático não apenas não proibiu o cinema, mas o ajudou financeiramente. Atualmente, o cinema iraniano é reconhecido como um dos mais importantes do mundo com dezenas de premiações internacionais, sendo inclusive um sucesso financeiro, trazendo divisas para o país e movimentando uma indústria cinematográfica bastante produtiva.

Jafar Panahi teve uma importante participação nessa história com o fenomenal sucesso mundial de O Balão Branco. Este filme traz o modelo paradigmático da fábula de crianças envolvidas em complicados dilemas éticos, possível metáfora para a infância de uma revolução popular à procura de sua própria maturidade e sentido. Seu filme seguinte, O Espelho, também um sucesso comercial, é igualmente um filme sobre crianças solitárias confrontando-se com decisões éticas em meio a adultos usando suas máscaras de profissões e distinções de classe.

Com O Círculo, um filme sobre mulheres adultas, a sorte de Panahi começou a mudar. O filme, que ganhou vários prêmios internacionais, foi proibido no Irã. Se os filmes anteriores, sobre crianças, abordavam meninas em situações conflituosas, neste o assunto é a condição da mulher no regime islâmico. A partir desse filme, as relações entre o diretor e o regime só deterioraram e Panahi foi detido algumas vezes, porém rapidamente liberado. Já era um cineasta conhecido internacionalmente. Num dos momentos de confronto, foi convidado pelo Ministro da Cultura iraniano a se retirar do país. Mas foi por causa da participação de Panahi como documentarista das revoltas que se seguiram à reeleição em 2009 de Mahmoud Ahmadinejad (a chamada Revolução Verde), que Panahi foi preso, condenado a 6 anos de confinamento, proibido de deixar o país e, finalmente, proibido de realizar filmes durante 20 anos.  Essa incrível condenação, inédita no país em relação a um diretor tão conhecido, gerou protestos no mundo inteiro e seu confinamento foi comutado para prisão domiciliar. Porém, a proibição de filmar foi mantida, bem como o impedimento de deixar o país.

Seus filmes seguintes já foram produzidos sob a marca desse banimento absurdo. E numa incrível reversão de expectativas, a qual justamente podemos sem temor chamar de “espiritual”, esse interdito político, o impedimento de filmar, torna-se o mote para uma nova forma cinematográfica, onde os filmes, numa circularidade paradoxal, questionam sua própria caracterização fílmica. No primeiro deles, Isto não é um filme, o paradoxo está estampado em seu próprio título. Filmado inteiramente na casa de Jafar, tendo ele e seu roteirista amigo como personagens, num dia de semana absolutamente ordinário, ambos discutem e imaginam um novo filme que não pode ser realizado. Isto não é um filme não é cinema sobre cinema, metacinema, pois a questão não é especulativa ou metarreferencial. A questão é essencialmente política: é um filme sobre a impossibilidade de se realizar um filme, mas que se torna possível em nome dessa mesma impossibilidade.

Em Cortinas Cerradas, a autorreferência se torna fantasmagórica.  O filme, que parece inicialmente uma ficção, torna-se a partir de certo momento documental, com a entrada do próprio Panahi em cena em atividades ordinárias na locação onde ocorria a filmagem (aliás, sua presença será uma constante nessas produções). A disjunção entre ficção e realidade coloca em questão a própria estrutura narrativa e confunde a caracterização do filme.

Finalmente, em Táxi Teerã, que forma uma trilogia com os demais últimos, a ambiguidade se torna ainda mais acentuada. Neste, vemos o próprio Panahi como motorista de táxi dentro de um veículo com câmeras de segurança instaladas. Como taxista de lotação, Panahi vai dando carona a cidadãos moradores da capital. Vemos assim um ambulante no banco do carona discutir sobre pena de morte com uma professora no banco de trás. O ambulante percebe a câmera, mas supostamente não percebe a filmagem. Em seguida um terceiro passageiro, um vendedor anão de filmes piratas, que escutara a discussão entre os outros passageiros, ao ficar sozinho no táxi reconhece o diretor e coloca em questão a veracidade da discussão que acabara de ser apresentada. Não seria essa discussão apenas a encenação de mais um filme do diretor, ele pergunta para um Panahi bastante ambíguo que não o confirma nem o desmente.

Jafar Panahi (centro) em cena de Táxi Teerã - Foto - divulgação
Jafar Panahi (centro) em cena de Táxi Teerã / Foto: divulgação

Em seguida, o táxi é obrigado a dar carona a um homem que sofreu um acidente de moto. Ele está ferido e acompanhado por sua chorosa e desesperada mulher.  Em direção ao hospital, ele pede para ser filmado transmitindo seu testamento à esposa, pois caso isso não seja feito, ela perderá o direito à herança, conforme as leis iranianas. Com a câmera do celular de Panahi, a declaração de testamento do homem agonizante é gravada. Ele consegue chegar desmaiado ao hospital enquanto sua esposa pede que Panahi envie a ela o registro filmado. Quando ambos partem afinal, a veracidade dessa cena também é questionada pelo vendedor de filmes pirata. Mas, novamente, não temos do motorista-cineasta uma resposta concludente.

Na verdade, o filme é esta mesma questão posta em suspenso. Estamos assistindo a mais um registro documental e incidental, ou a um roteiro encenado? O próprio passageiro vendedor de filmes que, como alter-ego do espectador, coloca as questões e inquire sobre a natureza ficcional do que está sendo registrado, é ambivalente. Ele, que conhece Panahi, depois de ter ido a sua casa levar filmes piratas, pode, ou deve ser, mais uma pessoa comum. Sabemos, entretanto, que sua atividade de vender filmes é proibida pelo regime e ele pode simplesmente ser preso por esta razão. Nesse caso, é importante que ele seja caracterizado como um personagem ficcional, para que não receba represálias. O registro de sua atividade, se documental, é possivelmente um instrumento de denúncia. Assim, há uma ironia quando ele chama Panahi de “parceiro”. Não só porque ambos estariam incorrendo no crime de vender filmes proibidos, mas porque ambos estão também estrelando um filme que é proibido de ser produzido. Assim, a ambivalência não pode ser realmente decidida, não por sua natureza ficcional ou artística, mas pelo caráter impropriamente ambíguo do regime político que tolera e não tolera as imagens do cinema e tolera e não tolera seu autor.

Pois é absolutamente sabido pelas autoridades iranianas que Jafar Panahi concorre e ganha prêmios em grandes festivais internacionais. Sua atividade está, portanto, no limiar da clandestinidade, como a do vendedor de filmes piratas, uma atividade que como muitas outras do mercado negro são toleradas com “vista grossa” pelas autoridades, pois são simplesmente atividades de sobrevivência. Aliás, para o espectador internacional, a própria ambiguidade do diretor de apoiar a venda de filmes piratas não deixa de ser extremamente suspeita. Há, portanto, uma esfera das aparências oficiais e outra esfera que poderíamos chamar de “mundo da vida”.

Os passageiros seguintes são em maioria mulheres que vão exatamente colocar em questão a divisão entre aparências oficiais e mundanas. Entre elas há uma menina caracterizada como a própria sobrinha do cineasta, que tem a tarefa de realizar um filme para a escola e se serve de sua proximidade familiar com o diretor famoso para gravar uma entrevista com ele. Parte de Táxi Teerã se utiliza dessas imagens da câmera da menina. Um dos trechos é justamente o caso clássico do dilema ético infantil, dessa vez em torno de um menino de rua que pega um dinheiro largado ao chão e que não lhe pertence.  Neste filme, no entanto, esta cena não deixa de ter uma carga totalmente irônica, pois o que está em causa é o próprio estatuto de sua representação: o menino deve devolver o dinheiro apenas para que a filmagem cause uma boa impressão na escola, para que salve as “aparências”.

Foto 2 - divulgação
Cena do filme Táxi Teerã / Foto: divulgação

Justamente, uma das questões que a menina coloca a seu “tio-diretor famoso” é exatamente o que deve ou não deve ser filmado, qual é a ordem razoável de representação admitida pela escola. Há mesmo uma normatização para isso (meninas e mulheres devem, por exemplo, ser exibidas com véu, não deve haver contato físico entre homens e mulheres, etc.). Esta cena, apresentada de forma inteiramente banal, precede a entrada de uma ativista dos direitos humanos no táxi, que conhece Panahi de outras lutas, e que critica a própria normalidade do Regime, como uma ordem de representação consentida.

Táxi Teerã (Táxi, no original) é cinema sutilíssimo de exploração e experimentação sobre a condição política da imagem e um questionamento constante sobre as ordens de representação da realidade e também da arte. As muitas câmeras do automóvel, ou as das câmeras de celulares e das máquinas fotográficas, exploram os diversos ângulos, as diferentes perspectivas, para expor uma multifacetada experiência da realidade.  Esses múltiplos pontos de vista fecundam a realidade por um atravessar de olhares e discursos deslocando as ordenações e as distinções que estabelecem as regras da representação estética e das aparências políticas. Voltando a Foucault, não estaríamos autorizados a pensar que a espiritualidade que ele se referia era esta visão do real como um espaço fecundo de olhares, impossível de ser representado por um único discurso? E na verdade, se nos deslocamos da política à arte como o questionamento da ordem da representação pela variedade das perspectivas, retornamos à política por uma crítica radical das aparências. Numa sociedade revolucionária não há mais olhar inocente. A última cena do filme nos indica que o crime de Estado e o crime privado são perspectivas complementares. Ambos se alimentam da mesma ordem monolítica das aparências.

 

 

 

Guilherme Preger é engenheiro e escritor, autor de “Capoeiragem” (Ed. 7Letras) e “Extrema Lírica” (Editora Oito e Meio), e também organizador do Clube da Leitura da Baratos da Ribeiro no Rio de Janeiro.

 

 

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106ª Leva - 09/2015 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Vanessa Maranha

 

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Foto: Sinisia Coni

 

Natal agreste

 

Acuado, o calango magro e comprido rebolou em ligeireza de pavor, riscando o chão de terra batida: hora ruim para errar ali. Fez-se dele caça, o mínimo peru, a porção de carne para aquela noite de Natal.

A guarnição, um punhadinho de vagens de feijão verde debulhadas vagarosamente pelas pequenas mãos de Ednaldo, Ednei e Edmilson – a mãe Lindalva os pusera à cata de véspera, e pedia cuidado para que nenhum grão se perdesse, a bacia de lata como bateia de pequeninas riquezas. Um naco de rapadura seca escondida num vão da taipa, pepita de ouro que adoçaria o desfecho.

Pai não havia, ou, antes, houvera, sem nome nem registro, Lindalva nem saberia dizer. Apenas que eram seus filhos, saídos de si, um tanto barrigudinhos e empoeirados pelas faltas tantas.

Para cada um dos meninos, embrulhadas em chita florida com o requinte do laçarote, duas bolinhas de gude verde-azuladas, gotas de vidro, simulacros de chuva no calorão trincado, desidratada a vida.

Na mesinha solenemente posta, a lamparina de querosene, um círio natalino; o calango magicamente dourado e trinchado para que se lhe borrasse a forma original, sobre cama de farofa branca. Os feijões verdes boiando cozidos numa água rara, muito caprichosamente chegados ao ponto de alguma dignidade – o dia todo vigiara a Lindalva o fogo pouco para que a ceia maturasse em perfeição.

No arremate, a rapadura, picada em cubos, nenhuma lasca de desperdício, de modo a render dois pedaços a cada um – abria mão da sua porção para oferecer os haveres aos filhos em número par, duas bolinhas de presente, dois pedaços de doce, recurso que era um refrigério imaginário, ilusão de abastança, um despiste à miséria, que alguma ilusão nos salva um pouco.

Pôs os meninos a ajudar depois na limpeza dos pratos de ágata lacerada, permitiu-lhes o jogo de gude, bolinhas que à luz da lamparina brilhavam como água abençoada, quicando e lavando a existência seca, até a exaustão lhe espreitar. Então chamou os seus três meninos às redes de dormir, alimentados, não fartos, mas pacificados, numa noite feliz.

 

 

 

***

 

 

 

Marina

Marina, porque é bonito, coisa de mar, a minha mãe me contou, justificando alguma coisa. Eu, substantiva e adjetiva demais. Eu um aposto, enfim. O meu tom é elegíaco.  Paixão me define, muito mais que beleza.  Só fiquei bonita aos vinte e seis anos, quando meus olhos enfim serenaram e adquiriram a expressão de muita coisa vista, quando o rosto perdeu o redondo infantil e rosado mantendo, entretanto, a inocência necessária. Eu mímica e atriz, porque não tinha um outro modo.

Cheguei ao mundo com o susto de quem veio de lugar nenhum carregando coisa alguma, o mesmo espanto de quem vê milhões de instrumentos ao seu redor e sequer sabe dar um passo adiante de si. Com aquele rancor de quem aparece e vê as coisas prontas sem que tivesse tido ao menos a chance de poder escolher participar ou não da feitura delas.

Eu era aquilo que chamam uma existência toda arredondada em si. Uma circunferência em que não havia cantos, não havia desvãos, inexistiam as angulosidades. Eu só era. Só havia. Só estava. Posta no mundo. Chegada à vida aterradora, que acabou me lapidando logo umas farpas e uns nichos dos bem sulcados; daqueles que não sedimentam nunca (tentei uns cimentos inúteis), mas agora eu os quero assim_ valas abertas, abismos sem fim, infernos abissais, por onde sobrevoam moscas de um esverdeado fosforescente para que eu não me esqueça do que está aberto e do que se esvai. Até agora, eu sou tudo isso_ ou enfim, nada disso.

Hoje o espetáculo. Ouço o burburinho dos primeiros espectadores tomando os seus assentos no teatro. Será que vou conseguir? Será que vou conseguir?_ sempre a pergunta rutilante. Ainda há tempo. Olho-me refletida no espelho. Há areia e pedras ancestrais, beleza, há vivência, uma aptidão para o prazer, há capacidade de ternura, há choro nesse rosto.

As lâmpadas emoldurando o espelho do meu camarim ainda não me desnudam e penso, quase ríspida:  o que quer que eu pareça ser, ainda não me tornei ou já deixei de ser. Não me defina nem ilumine, que eu quero sombra para ter contorno.

Vou maquiando lentamente minha face, que deverá parecer alegre em meus desdobramentos todos_ voz de arlequim, o nó na garganta da islâmica, o horror de uma górgona, a sabedoria das encantadoras, fertilidade de deusa minóica, feiúra de Medusa, o riso desdentado de uma andina miserável, leveza de ninfa, a gordura cumulativa de uma alemã calvinista. Catacúmena, casta, divina também eu sou. Dalí, Artaud e Tzara em mil cores na minha cama, _ na cabeceira dela_mimetizando-me em imposturas deliciosas.

Mora em mim a mulher de todas as mulheres, aquela que viveu em todas as outras anteriores a mim. Tenho útero para conceber, tenho seios para amamentar, tenho coração para sentir e uma armadura de aço na aura_ eu também empunho uma espada. E é no próprio seio da minha natureza que caio, quando, de tempos em tempos fico grávida de amores, de ideias, de esperança, porque o que se desfaz será refeito sempre.

Estou impregnada dessa mulher que há milhões de anos me persegue antes mesmo de ter tido a grande coragem de descer das árvores. Sou ainda aquela macaca robusta de tetas caídas que protege a cria entre os braços compridos, ainda aquela que se tiver fome mata os filhotes, aquela que teme e não explica os trovões, minha espinha dorsal ainda carrega uma curva que me aproxima mais do chão que do céu_minha porção primata não me permite grandes voos porque dela trago o medo, estou carimbada pela dor da minha espécie e gênero.

Afundo minhas mandíbulas num pedaço de carne qualquer e sou eu, há milhares de anos, a antropófaga, a hierática egípcia, sou a celta das adivinhações nos lagos, indiana deusa Kali com o encanto de uma flor no Saara, a bruxa perseguida, a fada incendiária, sou qualquer uma, uma Maria ou uma Joana, a ferina gueixa de lábios vermelhos, Xica da Silva em terra de zumbis, sou rainha chinesa sugando um narguillé porque quer vida, Sherazade nos jardins de Alá, sou babilônica prostituta caminhando por Sodoma e Gomorra, óbvia Eva que inevitavelmente abocanha a maçã, santíssima Nossa Senhora, sou assassina Lucrécia Borgia, concubina de Mefisto, domesticada Amélia, matrona italiana, uma troiana, sou a nordestina ressequida com os olhos úmidos da africana mãe que vive em mim. Substância de todas elas. Sou nácar de uma concha do mar feita de restos de estrelas: uma poeirinha cósmica, um quase nada.

Guardo os meus tótens e ritos, invoco aos deuses proteção nos ciclos em que a lua cheia me agita por dentro em caudalosas hemorragias. Nos dias de cio, loba de dentes afiados ardendo de desejo, os instintos derramados espargem mel. Sempre soube que a vida não me trataria bem gratuitamente, por isso aprendi a sorrir quando me atravessavam um punhal nas costas, por essa mesma razão aprendi a decodificar a mensagem de um olhar e a lançar o meu próprio olhar de intenções. A mulher de todas as mulheres me ensinou o feminino sedutoramente macio e próximo, às vezes, fatal. Sei que dessa mulher que mora em mim, suas fraquezas, suas pobrezas, seus pavores, suas forças, suas limitações me acompanharão, para que a minha célula da mulher de todas as mulheres, continue viva em todas as outras que me sucederão nos próximos milhões de anos_ será essa a minha ressurreição.

Giro pelo camarim à espera da centelha, aquilo que de repente me arrebata e puxa pelos cabelos_ um querer ser, um miraculoso tornar-me.

Na penteadeira, as cento e uma marcas de batons, os trinta e três frascos de tonalizantes epidérmicos, a cola para os cílios postiços, os incontáveis vidrinhos de óleo balsâmico para tensões musculares, os vinte e cinco tons de sombras para os olhos, os dois potinhos de purpurina, as quatorze perucas e as duas zibelinas que me constroem na mais imponderável criatura que houver dentro de mim.

Recebo um buquê de magnólias, uma edição amarelada de Gogol e Tchecov reunidos, um bilhetinho de amor, a proposta para um espetáculo Nô, um (ora!) ovo de avestruz embrulhado em celofane azul.

Olho-me mais fundo e começo a esfregar o rosto e lentamente vou me desfazendo ao retirar a maquiagem. Flagro a desconhecida na pele morena, nas linhas, diretrizes que o tempo deu de presente ao meu rosto, as quais, curiosa, vou seguindo e examinando uma a uma na esperança de saber aonde darão. O espelho me ostentando e ultrajando, simultaneamente, ali imóvel, os círios todos ofuscantes do lado de fora, a ribalta à minha espera enquanto me transmuto em outro personagem_ aquele que sempre mas nunca fui. Olho a majestática lagarta que há na crisálida, minhas olheiras dramáticas, minha cabeleira castanha delineando a cabeça.  Nesse assassínio, deviscerando minhas personas, matando-as uma a uma, as máscaras vão se crestando e despedaçando em plena pele, sinto a dor de um parto, dando-me a mim própria à luz.

Não conheço mais o íngreme caminho que terei de percorrer para subir ao tablado. E num clarão, num repente, vejo que não quero ser entendida (entendimento é silêncio dos menos profícuos, amordaçamento que impede a extensão, reticência infrutífera), não quero tampouco o favor de ser compreendida (quem compreende está intimamente contrafeito e quem é compreendido, fadado à compaixão); quero ser sentida. Quero ser respirada. Ah, a divina graça de ser sentida através do que tenho de mais real: a exalação de mim. E através das minhas maiores sutilezas: toda a suave e expressiva dança de um olhar que se prolonga na visão de algo e encomprida-se mais longe e vago, num tentáculo, na captação da coisa vista para dentro de mim.  Sinta esse movimento. E depois a respiração; vai daí a paixão. O contínuo do que se guarda e do que se expulsa.  Paixão é efervescência e viver, um total estremecimento_ finalmente o destino de almas perdidas que ruminaram formas, mastigaram livros, sentiram tanto, inventaram sons, estremeceram músicas, que nunca beberam paz.

Nesse momento sou apenas sangue, ganas e retórica e, toda rosto, como subirei ao palco? Assim? Desnuda? Personas, eu ainda vos imploro! Mas sei que já é tarde demais. Manca, de um só fôlego, numa súbita coragem, piso o tablado. E antes que algo me exclua da ideia de um passo adiante, eu me lanço, tornada absoluta interioridade visível em carne viva sobre o picadeiro.  Os olhares assustados que me recebem_ quase ninguém está realmente preparado para o tapa na cara que é a nudez de um rosto_ insinuam o absurdo da água marinha de que sou feita em terra. Uma voz longínqua dentro de mim sopra que algo se quebrou na suave remissão de uma rosa despedaçada.

Era a minha última e tão primeira vez. Palcos eu ainda pisaria. Outros.

 

Vanessa Maranha participou de diversas antologias de contos, entre elas “+30 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira” (Record). Venceu concursos de contos como os da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), em Minas Gerais, o Prêmio Off Flip de Literatura (2012), o Prêmio UFES de Literatura (Universidade Federal do Espírito Santo) com o livro “Quando não somos mais” (EDUFES, 2014) e também o Prêmio Barueri de Literatura com o volume de contos “Oitocentos e sete dias” (Multifoco, 2012). Foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2015 pelo romance “contagem regressiva”.

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106ª Leva - 09/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Airton Souza

 

Sinisia Coni
Foto: Sinisia Coni

 

excomungo a dor do desamor
eclesiástico o coração bailarino
deixa para trás o compasso

rego a carga amarga
que traz esse girassol solitário
repleto de semântica
& nenhum resíduo metafísico

intento fuga

ditoso na perdulária
insinuo sutilezas
com a invenção
tácita das rugas

é certo que ainda não percebemos:
a madrugada?
é só um varal teimoso.

 

 
***

 

 
te veste de enseada, fende
a geometria das flores, veja,
o ilusão é um barco de auroras
orbitado de cinzas
adubado jardim
revestido de inverdades

contemplar a loucura
é mais selvagem
que aplaudir o louco

por isso cultivo mentiras

pelas tuas Iris
recolho arbustos
tenho neles
a mesma mania
de girassóis amanhecidos.

 

 

 

 

***

 

 

 
traçaremos o teu itinerário
a rota exporta
em um compêndio
………………………………..estranho

acomodado
para viagem de retorno ao pó
& renúncia

penso que agora
sabes escutar silêncios
mais que a noite
enquanto eu bebo
a cronológica infância.

 

 

 

***

 

 

 
tecemos um porto atomizado
& sem a cor dos enredos
………………………………….absurdos
das rotineiras cidades acetinadas

segredamos o medo do escurejar
quando as mãos ainda
não tateavam sentidos

um campo nos convocou
apressado fortes sem dizer
……………………………………….(a)deus
agora deixo sempre a porta aberta
e o peito em riste
ca(n)tando paradigmas.

 

 

 
***

 

 

 

chegaremos de corpo & alma
ao outro lado
da metafísica emparedada

mastigamos até aqui
………………………………………inquietações
[sa(n)grada idade]
no tenso mundo

avesso a dialética
com sua carga interdita
a forjar caminhos
vagamos aventureiros
no que funde perenidades

pela certeza:
há melodias e cartilagens
na árdua tarefa de ser humano.

 

 

 

***

 

 

 
impossível recompor o homem
decomposto pai
plasmado com o brando da casa

nas minhas costas
incrustaram os sóis dos dias

se configuro fatalidades
não suicidarei a inteira frequência
de cenas & centelhas
diariando ressentimentos
iguais aos dos navios
envelhecidos com as cicatrizes das águas

esvaziado de emoção
descobrir que a infância aflige
o recôndito espírito na existência de mim

levo ressentimentos desiludidos
de atormentar destinos.

 

Airton Souza é poeta e professor, nasceu em Marabá, no Pará. Licenciado em História e pós-graduado em metodologia do ensino de História, além de licenciado em Letras – Língua portuguesa, pela UNIFESSPA – Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará. Tem participação em mais de 60 antologias literárias. Publicou 20 livros de poemas.

 

 

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106ª Leva - 09/2015 Destaques Olhares

Olhares

A sutil continuidade das horas

Por Fabrício Brandão

 

Sinisia Coni
Foto: Sinisia Coni

 

 

Num dado momento, os sentidos saem às ruas à cata de dimensões. Lá fora, um sopro vital permeia convívios, retém sons, encerra pensamentos. Todos os dias, em qualquer recanto do planeta, um intercruzar, ora silencioso, ora sonoro, de trajetórias distintas toma conta desse colossal palco que é a vida. Todos os dias tudo segue, apesar de nós.

O que seria desse nosso mundo sem as diferenças? A cada rosto, sua tez. A cada paisagem, seus matizes. A cada gesto, um microuniverso íntimo que, por vezes guardado a sete chaves, eclode nalgum ponto da jornada humana sobre a Terra. Serão os territórios todos nossos? Onde o limite para a visibilidade das coisas?

Na intersecção entre a concretude e a esfera de abstração, somos seres ainda hesitantes. Por assim dizer, a imperfeição dos homens é melhor guia, pois a nossa vida sucumbiria diante da certeza de que tudo está cartesianamente no seu devido lugar.

A observação das epifanias que nos cercam é também uma forma de intervenção. Por isso, evidenciar o caráter que permeia a obra de uma fotógrafa como Sinisia Coni é algo oportuno. Ali, o olhar expõe o fluxo dinâmico das expressões humanas, levando em conta que é extremamente impossível passar incólume pelo que é testemunhado de perto.  Mesmo quando se supõe uma mera contemplação, há muito mais consolidando tal gesto.

Sinisia Coni
Foto: Sinisia Coni

 

Em sua arte, Sinisia sonda ambientes urbanos como quem ousa navegar os mares da impessoalidade. O resultado dessa travessia é transmutado em gestos os quais nos soam familiares na medida em que concluímos que, não importa qual demarcação geográfica seja, pessoas são feitas da mesma essência.

Revelando-se uma apaixonada pela fotografia, Sinisia iniciou sua trajetória bem cedo, aos 14 anos de idade. De lá para cá, profissionalizou-se e participou de exposições dentro e fora do país, sendo premiada na Embaixada do Brasil em Oslo, na Noruega. Nascida em Salvador, na Bahia, hoje reside em Lisboa, Portugal.

A fotógrafa baiana confessa que mergulha com a alma quando busca suas imagens. Por tal concepção, é possível notar que ela não se propõe a uma busca leviana de lugares e pessoas. Não há o registro pelo registro, alguma espécie de fotografia acidental, mas sim um desejado envolvimento com o que surge diante dos seus olhos. Percebemos isso quando cores, formas, sombras e faces emanam suas múltiplas e próprias linguagens num ritual o mais natural possível.

Sem artificialismos e arranjos premeditados, Sinisia Coni é uma genuína testemunha do mundo, seus arroubos e sua gente.

Sinisia Coni
Foto: Sinisia Coni

 

 

* As fotografias de Sinisia Coni são parte integrante da galeria e dos textos da 106ª Leva

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.

 

 

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106ª Leva - 09/2015 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Premedito o encontro com meu entrevistado sem que ele sequer desconfie. Aguardo paciente, porém não menos ansioso, pelo momento de conversarmos. O ano de 2015 já começa a desferir seus últimos golpes. É uma tarde quente de sexta-feira e, enquanto espero o meu alvo de interlocução findar suas tarefas profissionais, vislumbro cenários possíveis para nosso diálogo.

Há uma certa magia a envolver a pessoa de Adalmiro Leôncio da Silva. Estamos na litorânea cidade de Ilhéus, no sul da Bahia, e nessas paragens ele não é conhecido pelo nome de batismo que acabo de mencionar. Ao se pronunciar o nome Sabará, é difícil encontrar alguém, sobretudo no meio cultural daquela região, que pelo menos não tenha ouvido falar da representatividade desse consagrado artífice da música.

Contabilizando, como ele mesmo sustenta, seus bem vividos 81 anos, Sabará iniciou a vida artística em torno dos 11 anos de idade. Entrou no mundo da percussão, especialmente na bateria, em Ilhéus. Como baterista, acompanhou grandes nomes da música brasileira. Colecionou encontros com figuras de relevante expressão artística, o que o fez expandir seus horizontes profissionais. Há mais de 50 anos, aprofundou-se nos estudos e vem dando aulas de bateria, ofício que sem dúvida alguma ocupa um sentido especial em sua trajetória.

No contexto da música da Bahia, a reverência à expressão de Sabará é algo patente. Uma atmosfera de refinamento e sabedoria ronda a imagem desse artista, tornando-o alguém notadamente popular. Ao mesmo tempo, o modo como ele se dedica ao incessante ato de ensinar bateria a pessoas de todas as idades, driblando os arremates do tempo, chega a assumir uma feição eminentemente poética.

Nesse diálogo que agora fica aberto aos leitores, Sabará compartilha saberes e sabores de sua trajetória. Entende a música como sua genuína forma de oração pessoal e ressalta o compartilhar do conhecimento como um dos traços fundamentais de sua existência. É conversa que emprega um ânimo renovado, principalmente para quem concebe a vida como um ciclo dinâmico e espirituoso.

Sabará
Sabará / Foto: Fabrício Brandão

DA – Num determinado momento, você identificou a necessidade de sistematizar o estudo da bateria, incluindo o aprendizado da teoria, mudando um modelo que andava meio obsoleto na região em que vivia. Como se deu esse processo?

SABARÁ – Era realmente uma necessidade fazer. Na época, eu tocava no Lorde Hotel, do saudoso Nelson Muniz Barreto, e recebi uma visita de um músico russo famoso, chamado Henry Polar. Ele e a esposa. Henry fazia o violino; ela, a coreografia. Então, na sala de visitas do hotel, onde eu era o baterista, haveria um show com esse violinista consagrado. Foi nesse momento que eu percebi que tocar apenas não era o bastante. Era preciso aprender a teoria musical, a linguagem do instrumento, e fazer aí a base para se tornar um músico profissional. Quando Henry trouxe as partituras, eu fiquei sem saber o que fazer, não consegui tocar no show. Foi quando eu decidi aprender algumas coisas, fiz alguns cursos e falei com muitos bateristas da região sobre a importância de se dominar aqueles conhecimentos, pois imaginava que as exigências do mundo iriam mudar a maneira de ser dos músicos do interior. Pessoas competentes e com capacidade musical superior ao que fazíamos iriam chegar até nós e precisaríamos ficar sabendo sobre aquilo. Foi aí que eu instalei um curso de bateria do qual saíram alunos músicos que hoje estão espalhados por diversos cantos do país e do mundo. Era imperativo realizar isso, pois não se justifica ser um profissional sem estar capacitado para tal.

DA – Naquela época, essa mudança de paradigma causou algum estranhamento, uma espécie de resistência entre os músicos?

SABARÁ – Sim. Alguns chegaram a dizer que não era necessário aprender porque julgavam que já tocavam bem e sabiam acompanhar as músicas da época. No entanto, aos poucos, eles foram mudando de opinião, perceberam a necessidade e passaram a estudar. O princípio de estudo que eu lancei em Itabuna ajudou a mudar esse panorama.

DA – É uma grande fantasia supor que um músico conduz sua carreira apenas com os ouvidos, sem ter uma noção teórica ou saber ler uma partitura?

DA- Exatamente. É necessário se informar e formar consciência do conteúdo com o qual se trabalha. Quando eu falo da interpretação, digo que quando um músico tem uma partitura em mãos ou não, ele tem que tocar com sentimento. Isso leva o músico a expressar o que vem de dentro. Como digo sempre, as interpretações estabelecem os contextos onde os elementos da música ganham significado. Aquele que está executando a música tem, antes de tudo, consciência de causa, ou seja, de conteúdo. Juntando isso ao sentimento, o músico cresce. O que está ali escrito é algo inanimado, sem vida, e quem vai incitar aquilo a ganhar corpo é o músico, o intérprete. Isso é o óbvio ululante (risos). É uma questão de sensibilidade.

DA – Em sua trajetória, você acompanhou diversos músicos, cada um com sua devida importância. O que dizer dessa experiência?

SABARÁ – É justamente nesse ponto que eu ressalto a importância do conhecimento a respeito da teoria. Foram muitas as experiências, mas cito algumas delas, como é o caso de ter tocado com artistas como Cauby Peixoto, Wanderley Cardoso, Adriana, Joelma, Tito Madi, Nelson Ned, Wando, Osvaldo Fahel, Miltinho, dentre outros mais.

DA – Sua formação vem do contexto de banda de baile, não é?

SABARÁ – Exato. A banda de baile, para quem não sabe, é uma verdadeira escola na qual se tem o conhecimento de todas as estruturas musicais ou rítmicas, sobretudo dos estilos populares brasileiros. Você toca do maracatu ao axé. Hoje, por exemplo, o axé é um movimento que tem uma interferência muito grande na coisa da dança de rua, e o baterista tem que saber tocar. Inclusive, o baterista tem que ser eclético, pois o baile exige muito, da valsa ao axé, sem falar em ritmos como a salsa, dentre outros tantos. Até o hino nacional brasileiro nas comemorações cívicas a banda de baile toca (risos).

DA – O grande desafio do músico é ser versátil?

SABARÁ – Sim, e estar sempre a par do que acontece, pois o Brasil, por exemplo, é um país que sempre lança coisas novas. Eu costumo dizer, em algumas oportunidades, que a arte inaugura, de tempos em tempos, formas de tornar presente o inexplicável. O que é que é isso? Você está aqui hoje, vivendo o axé, o arrocha, e daqui a algum tempo vai perceber um outro ritmo, uma outra denominação, outra maneira de tocar e dançar gerada a partir desse conhecimento e enorme variedade de ritmos que o artista tem a sua volta. De repente, ele consegue construir uma consciência cultural ampla pelo fato de experimentar essas várias estruturas rítmicas.

Sabaraii
Sabará / Foto: Fabrício Brandão

DA – A gente sabe que vive num país onde a cultura popular tem um apelo muito forte. E há questionamentos antigos que acabam implicando em juízos de valor sobre o que presta ou não nessa seara. O que você pensa a respeito disso? Não há ritmo ruim?

SABARÁ – Sua pergunta é pertinente. Existem músicas que estão aí fazendo sucesso pela capacidade de observação mal orientada do povo brasileiro. Há músicas de péssima qualidade, do ponto de vista de harmonia e melodia. Existem músicas intelectualmente pobres, com letras vazias e há também aquelas apelativas dizendo coisas que nada têm a ver em relação a um trabalho de arte. A arte é única. Não existe arte pior nem melhor. Agora, quem sabe fazer mais, faz mais.  Como dizia um músico, do qual não me recordo agora, não existe música ruim, existe música mal tocada. Não tenho nada contra nenhuma forma de manifestação artística. Qualquer manifestação artística é ótima, válida. Se é bem feita, realizada com inteligência, ou se é algo que se merece gostar e apreciar, é uma questão de gosto, é diferente. Tem gente que fala mal de músicas tocadas em dois tons. Conheço canções tocadas em apenas três tons e que são ótimas. A coisa está na forma, na capacidade de quem produz. Essa que é a realidade.

DA – Na sua vivência com a música, tanto do ponto de vista da escuta, da percepção, quanto da experiência de ter tocado com artistas de todo os estilos, o que essencialmente marcou o seu trabalho?

SABARÁ – Tive o prazer de tocar com Humberto Clayber, um dos maiores gaitistas do mundo, e para mim foi um sonho realizado, até porque ele era também o baixista do Sambalanço Trio, compondo o conjunto com Airto Moreira, na bateria, e César Camargo Mariano, no piano. Era um grupo que ali, na época da bossa nova, me emocionava demais. Certa vez, em Ilhéus, eu e Clayber fizemos um show juntos e foi um verdadeiro sucesso. A casa estava lotada e, do lado de fora, ainda tinha muita gente querendo entrar. Foi uma experiência que me marcou demais por poder tocar com um músico como ele. Outros também foram importantes, como foi o caso de acompanhar Cauby Peixoto, que fazia um sucesso e tanto na década de 60. Talvez as pessoas de hoje não lembrem muito bem, mas havia também o Nelson Ned, que era conhecido como o “pequeno gigante”. Para mim, que fui criado numa localidade pequena de Ilhéus, chamada Banco Central, na fazenda de meu avô, e depois poder conhecer pessoas de relevância musical, evoluir na profissão e testemunhar também o crescimento de músicos que foram meus alunos, hoje espalhados em diversos cantos do mundo, é uma emoção muito grande. Por tudo isso, me sinto realizado. E quisera eu ter podido dar uma canja com os Beatles, com George Benson (risos).

DA – Você passou um período tocando no Rio de Janeiro. Como foi essa fase?

SABARÁ – Eu tocava numa boate chamada Balalaika, em Copacabana. Muitas vezes, depois das apresentações a turma saía em direção ao famoso Beco das Garrafas. Foi nesse contexto que eu troquei ideias com bateristas muito bacanas, como Dom Um e Milton Banana. Não cheguei a estourar e ficar famoso, mas me sinto realizado. Quando retornei à Bahia e vim morar em Itabuna, fui conquistando reconhecimento a ponto das pessoas me chamarem de mestre Sabará, isso e aquilo. Quando as pessoas me chamam de mestre, digo que isso se dá por reconhecimento e respeito, não por desempenho acadêmico que o possuísse por direito. Tenho consciência disso.

DA – Ali no Rio você teve a possibilidade de acompanhar a efervescência da Bossa Nova. O que significou testemunhar tudo isso de perto?

SABARÁ – Eu morava em Realengo, era bem jovem e, naquele momento, não tinha noção da importância daquele movimento. Nem mesmo aquela turma que se juntava no apartamento da Nara Leão, com João Gilberto e tantos outros, sabia o que era a Bossa Nova, até porque não se sabia o que se estava fazendo. Mais adiante, o termo surgiu de modo informal. Eu mesmo só fui sentir a grandeza disso tudo algum tempo depois, quando a coisa estourou e, na maioria das grandes cidades brasileiras, se fazia o chamado power trio, que era composto de piano, baixo e bateria para tocar o gênero. Nem mesmo o próprio João Gilberto, que saiu lá de Juazeiro, tinha ideia de onde o movimento iria chegar. Eu só lamento que a coisa tenha se perdido um pouco hoje em dia, talvez pela enorme quantidade de ritmos que surgiram no país. O próprio Tio Sam, naquela época, ficou com receio daquilo tudo, até mesmo quando abriu as portas do Carnegie Hall. A Bossa tem seu lugar hoje em dia, mas me parece que para poucos.

DA – Assim como a Bossa Nova, o Tropicalismo também fincou suas bandeiras. De que modo você acolheu esse movimento?

SABARÁ – O Tropicalismo foi importante porque quebrou estruturas musicais. E o novo, além de ser diferente, provoca curiosidade. Era uma bandeira forte. Vou até fazer uma brincadeira: o Brasil por ser um país tropical é tropicalista sempre (risos).

Sabará
Sabará / Foto: Fabrício Brandão

 

DA – Você é saudosista?

SABARÁ – Todos nós somos. Quem disser que não, está mentindo. De uma maneira atávica, você volta ao passado.

DA – Aquele menino que nasceu em Banco Central tinha a mínima ideia de que trilharia um caminho com a música?

SABARÁ – Não. Eu, menino correndo as roças de cacau, subindo em pés de jaca, tomando banho de rio, brincando de picula, jamais poderia imaginar.

DA – O rádio compôs a sua primeira memória musical naquele período?

SABARÁ – Sem dúvida. E vou dizer uma coisa que marcou e que não é música. Lá na fazenda, ainda garoto, meu avô comprou um rádio que na época era ligado numas baterias que mais pareciam essas de carro. Nunca esqueci a marca do rádio. Era Mullard, com dois ganchos que se ligavam à bateria. E a minha família se reunia em torno do rádio para ouvir uma novela chamada “O Direito de Nascer”. Olha que coisa! Ficou na minha mente até hoje. Assim como ficou também a paisagem, aquele cheiro de roça, ambientes que nem existem mais. Portanto, não vá em busca do passado porque ele não mais existe. Está dentro de nós.

DA – O nome Sabará vem de onde?

SABARÁ – Ah! Que coisa incrível! Essa é uma das coisas que não entendo porque aconteceu comigo. Eu torço pelo Flamengo. Quando cheguei para jogar na praia em Ilhéus, havia os famosos babas, que era como se chamavam as partidas. Eu, modéstia à parte, era bom de bola e, pela ponta direita, era um raio, driblava bem. As pessoas começaram a me apelidar de Sabará porque havia no Vasco da Gama um ponteiro direito com o mesmo nome e características de jogo. Ficou esse nome. E na música também pegou.

DA – Nessa sua faceta de professor, o que foi determinante para você criar um método próprio do ensino de bateria?

SABARÁ – Quando eu descobri a possibilidade de estudar bateria, fiz cursos com Reinaldo Martinelli Filho, que era um músico de formação acadêmica, Phd em música na Alemanha. Fiz também um aprendizado sobre divisões com o professor Florisvaldo, que era o mestre da filarmônica de Ilhéus. Esse conhecimento me deu a oportunidade de passar as informações. Então, o que eu aprendi nesse contexto, além de ter estudado em livros e outros materiais, me deu condição de passar exercícios aos meus alunos. Agradeço muito ao professor de música Aderbal Duarte, da Universidade Federal da Bahia, que me enviou um livro de suma importância na aplicação dos exercícios.

DA – Há um sentimento especial no resultado desses mais de 50 anos de ensino?

SABARÁ – O de ver alunos meus tocando profissionalmente em diversos lugares do mundo. Fico satisfeito porque o trabalho deu a alguns perspectivas de vida.

DA – O quanto Sabará conhece Sabará?

SABARÁ – É uma pergunta profunda demais. Conhece-te a ti mesmo, já disse o homem lá. E não é tão simples conhecer a si próprio. Ninguém se conhece inteiramente. Então, eu diria que sou um cão que ladra para os que me amedrontam, adulo os que me tratam bem e mordo os maus (risos).

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.