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105ª Leva - 08/2015 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Uma janela permanentemente aberta para o mundo. Assim podemos entender a Literatura quando ela nos oferece possibilidades variadas de diálogo. Outras tantas epifanias do pensamento, dispersas pelos mais variados campos da arte, servem de combustível para a criação, fazendo com que o ato de escrever represente uma amplitude de sentidos.

Há uma avidez de mundo na obra de um alguém como W. J. Solha. Estamos diante de um autor que tem apetite por conexões quando a atenção se volta para a vida. Toda a sua trajetória está marcada por uma valiosa referência a outros campos do conhecimento, a uma desperta e explícita menção a tudo o que leu e viveu. Trata-se de um escritor com uma marca, qual seja a de deixar registrado em seus livros um verdadeiro mosaico de sensações e observações diante do que o universo da arte foi capaz de lhe ofertar.

Em meio ao que vislumbra da existência, Solha segue os rumos de sua peculiar inquietude, arrematando considerações, louvando o que merece destaque, questionando o que lhe acomete os sentidos. Possui uma extrema capacidade de eleger a memória como um precioso guia de suas incursões criativas.  Tem uma vida dedicada não somente aos livros, mas também às artes plásticas, teatro e cinema. Na sua lida com as palavras, construiu obras memoráveis, como é o caso de livros como “Israel Rêmora” (Romance), “História Universal da Angústia” (Novela) e “Relato de Prócula” (Romance). Com “Trigal com Corvos”, enveredou-se na elaboração de poemas longos, o que se seguiu em “Marco do Mundo”, “Esse é o Homem” e, mais recentemente, “DeuS e outros quarenta PrOblEMAS”. No cinema, atuou em filmes como “Era Uma Vez Eu, Verônica” e “O Som ao Redor”, dentre outros.

Nascido no interior de São Paulo, em 1941, Solha confessa ter renascido em 1962, quando se mudou para a Paraíba por razões profissionais e lá foi atingido em cheio por descobertas que marcaram profundamente seus caminhos culturais. Na entrevista que agora segue, terceira que fazemos com o autor, há reflexões pungentes sobre eixos não somente literários, mas também filosóficos. Uma conversa que evidencia o espírito invencível de um criador que, mesmo diante das intempéries tão próprias do seu ofício, resiste tanto pela manifestação explícita do seu pensamento quanto na necessidade eventual de se recolher e silenciar.

 

W.J.Solha
W. J. Solha / Foto: Andréia Solha

DA – Seu novo livro sugere uma verdadeira intersecção entre poemas e problemas, entre Deus e o eu. Ao mesmo tempo, operam-se os contrastes. A vida é uma equação que não se resolve?

W. J. SOLHA – Embora mantenha uma linha de trabalhos explicitamente investigativa em meus “brevíssimos ensaios muitíssimo ilustrados”, dez dos quais você pode conferir aqui – , todos os romances, peças de teatro e a poesia que tenho feito tentam equacionar a vida. Sou contra a velha limitação imposta aos criadores dessas áreas, segundo a qual isso seria de domínio exclusivo da ciência e filosofia. Até o final do ano, por exemplo, estreia meu “Édipo no Terceiro Milênio”, em João Pessoa, em que coloco a tragédia original de Sófocles acontecendo hoje, ou um pouco mais pro futuro, acompanhada de perto por uma Equipe Freud, numa nave. Isso porque nunca me conformei com o desastre final do grande personagem grego. Ou seja, pegando carona no final de sua pergunta: tentei resolver uma equação que me parecia mal formulada. Sófocles, absolutamente genial, foi vítima de seu tempo, mas sinto que ele tentou superá-lo. Já em “DeuS e outros quarenta PrOblEMAS” discuto esse binômio eu-Deus, servindo-me do outro, o dos meus poemas/problemas. Expedito Ferraz Jr., no prefácio, diz que se trata de um conjunto de escritos de natureza híbrida (algo entre poesia e ensaio) em que se desenha a espiral de uma reflexão que é, ao mesmo tempo, memória,estéticahistóriateologia. Fui feliz nisso, não fui? É o mesmo que me perguntar se é válida a fórmula que criei pra meus ensaios, que vou desenvolvendo já com uma quantidade enorme de fotos como parte do discurso. Acho extremamente poético – e arriscado, lógico – fazer o que fiz num dos poemas do livro, por exemplo, no qual faço os autores do Novo Testamento “fecharem” o Livro – a Bíblia – até então em aberto, ao contrabalançarem o Gênesis com o respectivo e necessário Apocalipse, ao tempo em que reformulam a lei mosaica, judia, com a novidade platônica, numa montagem cinematográfica. O curioso é que a grande maioria de meus leitores se choca muito mais com a escolha do tema para esses meus versos do que com eles.

DA – Numa das letras da fase solo de sua carreira, John Lennon dizia que Deus é um conceito pelo qual medimos nossa dor. De algum modo, você também comunga desse pensamento?

W. J. SOLHA – É tão estranho ouvir essa frase numa canção, que Lennon diz “I’ll say it again” (espertamente rimando com “our pain”) e a repete. Ao contrário dele, porém, acredito em Kennedy e Elvis, em Hitler e nos Beatles.  “I just believe in me”,  ele afirma cartesianamente, e – freudianamente – se corrige: “Yoko and me”. Em meu primeiro romance – “Israel Rêmora” – faço meu protagonista dizer que “o Penso, logo existo, é de uma lógica extraordinária, mas deixa o resto fora de cogitação”. Quando, no título de meu novo livro, escrevo “DeuS”, inspirado na logo da revista Mother & Child, em que o “&” se insere no “o” de “mother” como um feto, estou com Lennon e Descartes, mas a esse núcleo acrescento “e outros quarenta PrOblEMAS”, implicitamente incluindo Kennedy, Elvis, Hitler, os Beatles, John  e Yoko, ao tempo em que assumo que esse “DeuS” (Não crês que Eu estou no Paie que o Pai está em mim? – Jo 14:20) é, também, PrOblEMA”. E se é problema, dor. Sua pergunta é mais profunda do que imaginei à primeira vista, Fabrício. Lennon realmente disse tudo. “DeuS e outros quarenta PrOblEMAS” é um livro que tenta medir a minha – logo nossa – dor,  a partir dessa relação feto-e-útero, feto, no caso, que tenta ser dado à luz, livrando-se do provisório abrigo que, no caso evangélico, é  o deus tribal dos judeus;  no meu, o deus que tomou o lugar dele, por que o considero também absolutamente insatisfatório, como revelo no poema em que digo ao leitor que, felizmente, ele não é cristão, porque – se fosse, mesmo -, estaria perdido.

 

DA – Não sabemos lidar com aquilo que nos transcende?   

W. J. SOLHA – De modo geral, não. Há um fascínio dominante pelo mágico. Porque ele deslumbra e é de fácil assimilação. Certa vez – há muitos anos – um livreiro me mostrou uma das suas estantes, cheia de “Eram os deuses astronautas?”, “O 12o. Planeta” e assemelhados, dizendo-me que era a dos livros que mais vendiam. Taí o Paulo Coelho. As pessoas, sem ter quem lhes diga de maneira concreta quem são, o que são, de onde vieram e para onde vão, fazem como as crianças: ouvem os contos de fadas. O Alcorão é um, a Bíblia é outro, e há os Vedas, Upanhishads, Baghavad Gita, etc, etc, etc. Difícil é convencer que a vida, por si só, com seus prazeres, sofrimentos e mistérios, já é o bastante pra nos apavorar e deslumbrar. Difícil é convencer que nenhuma religião tem coerência. Embora eu tenha ​- além do “DeuS e outros quarenta PrOblEMAS” – ​vários ​outros ​livros explicitamente abordando isso, como os romances “A Verdadeira Estória de Jesus” (Ática, 1979) e “Relato de Prócula” (A Girafa, 2009)  ou o poema longo “Esse é o Homem” (Ideia, 2013), não discuto religião. Porque não adianta, por exemplo, lembrar aos que veneram São Jorge – patrono de Londres e da Inglaterra, de Portugal e da Catalunha, de Moscou e da Etiópia, além de, extraoficialmente, do Rio – que não existem dragões.

DA – É curioso como homens se sujeitam ao que ditam outros homens quando, por exemplo, o tema é o da espiritualidade. O agravante aqui é que há uma espécie de institucionalização secular do olhar, cujos artefatos prediletos são a culpa e o temor. Estamos piores nesse quesito? 

W. J. SOLHA – Espantam-me as multidões – em que pesa à informação cada vez mais acessível – que comparecem ao Ganges, Aparecida do Norte e em torno da Caaba. Ante elas eu me sinto voz no deserto. Como o Inconsciente é, na verdade, o Consciente, a vontade, frequentemente, é de botar a viola no saco e de me mandar. Mas vou escrevendo meus livros.

 

W.J.Solha
W. J. Solha / Foto: Andréia Solha

 

DA – Em seu “Notas do subsolo”, Dostoiévski discorria sobre o que ele chamava de consciência exagerada (ou amplificada) versus a consciência do homem comum. Com certo tom sarcástico, ele sustentava que seria mais adequado fazermos uso da segunda opção, tendo em vista que a primeira encerrava uma excessiva percepção das sutilezas da vida. Trazendo para o contexto atual, como você pensa tal contraposição?

W. J. SOLHA – Certa vez, nos começos da informatização em massa, vi uma propaganda, numa revista, em que, acima dos retratos de Leonardo, Édson e Einstein, havia uma chamada curiosa: “O que eles têm que v. não tem?” O texto respondia: “Software. Enquanto você e a maioria contam apenas com hardware.” Confirmo isso quando olho pra um dos muitos autorretratos de Rembrandt – como se deu no fim de setembro, agora, no Louvre – e me lembro de algum, meu.  Ou quando leio “el otro poema de los dones”, do Borges, e o comparo com qualquer um que eu tenha feito. Dostoiévski só poderia dizer isso com sarcasmo mesmo. Como eu não poderia querer ser como ele quando criou “Crime e Castigo” e, mais ainda, como Tolstói quando fez “Guerra e Paz”, ou Aristóteles ao escrever a “Poética” e a “Política”? Ou como Shakespeare, Virgílio, Homero, quando produziram “Hamlet”, “A Eneida” e “A Ilíada”? Deve ser uma delícia ter “uma excessiva percepção das sutilezas da vida”. Felizmente a informática – como na propaganda – vem se desenvolvendo e está dotando muita e muita gente desse software, pelo menos no que se refere a uma enorme quantidade de informações que disponibiliza, facilitando-nos as associações de ideias. Mas continua sendo extraordinário ver Santo Agostinho, por exemplo, discorrendo como ninguém antes e muito tempo depois, sobre o Tempo. “Consciência amplificada”. É a maravilha humana em ação.

DA – DeuS e outros quarenta PrOBlEMAS reafirma um traço característico de sua obra, que é o de apresentar o mundo a partir de seu repertório pessoal, utilizando-se de referências artísticas, literárias, filosóficas, dentre outras. Diga-se de passagem, é uma característica inconfundível de seus escritos. Quem é essa ferramenta chamada memória? Conseguimos driblar suas artimanhas?

W. J. SOLHA – Meus romances, poemas, libretos pra balé e ópera, peças de teatro, quadros, são, todos, PrOblEMAS, Fabrício, principalmente esse, o de nenhuma dessas áreas sobreviver sem as outras. Talvez eu tenha escapado disso apenas como ator, pois ao representar deixo de ser eu pra me tornar um camponês abrutalhado em “A Canga”, ou um empresário com obscuras raízes de sua fortuna, em “O Som ao Redor”, o que me custou, sempre, esforço tão desesperado quanto o de uma sessão mediúnica, daí que tive de desistir dessa atividade ou – sem exagero – sucumbiria. Ri muito quando o grande Ivo Barroso me disse, ao assistir ao “Era uma vez eu, Verônica”, que se eu participasse de um “Tropa de Elite”, voltaria pra casa cheio da bala. Pois bem. “Quem é essa ferramenta chamada memória?”, você, me pergunta, curiosamente não dizendo “o que?”, mas “quem?” Claro que ela somos nós, pois sem sua presença – no Alzheimer, por exemplo – deixamos de existir, ficando de nós – tristemente, para os que nos cercam – algo como zumbis. “Conseguimos driblar suas artimanhas?”, você quer saber. No meu caso, parece-me, apenas me tornando um pistoleiro, em “O Salário da Morte”, ou o tenente Maurício, em “Fogo Morto”. No mais, sou o imenso Inconsciente (na verdade, Consciente) produzindo. Ciente disso, sempre usei um processo de criação – descrito em meu primeiro poema longo, “Trigal com Corvos” -, que consiste, primeiramente, em formar um “banco de frases” elaboradas em intensas “leituras” de fotos, de um Cartier-Bresson, Robert Capa ou Sebastião Salgado, ou de livros de Ciência ou Arte. A cada vinte, trinta páginas delas, manuscritas, repasso-as para o computador, já eliminando as descartáveis. Aí vou buscar combinações entre elas. É onde surgem – depois de encontrado o ritmo, introduzidas eventuais rimas – os meus versos. “DeuS e outros quarenta PrOblEMAS”, portanto, como “Esse é o Homem”, “Marco do Mundo” e “Trigal com Corvos”, não vem de um tema premeditado. Fiz o que o Inconsciente quis. Mais ou menos como a cidade de Petra, que não foi construída, mas escavada na rocha. Só aceito essas “artimanhas da memória” – como você as chamou – porque elas me dão livros que julgo maiores que eu.

DA – Logo no início do mais novo filme de Godard, “Adeus à linguagem”, há uma passagem que diz: “Aqueles que não têm imaginação buscam refúgio na realidade. Resta saber se o não pensamento contamina o pensamento”. O que dizer diante disso?

W. J. SOLHA – Isso já foi muito discutido em artes plásticas. De repente a Grécia clássica passou a perder de longe pra África, que compareceu com força no Demoiselles D´Avignon, quando Picasso tentava pôr a Teoria da Relatividade, então bastante recente e chocante, pra tela. Há um belo livro, Beyond Impressionism – The Naturalist Impulse, de Gabriel P. Weisberg, que mostra como, antes do cubismo, o impressionismo, “o escândalo do impressionismo” já apagara um outro grande movimento artístico de sua mesma época, o naturalismo, que – influenciado pela literatura de Zola – usava e abusava da nascente fotografia pra evidenciar a injustiça social que havia (e há) por toda parte.  Em meu romance “Arkáditch”, transfiro pra meu protagonista Zé Medeiros, professor de filosofia da UFPB, uma experiência que vivi em Madri: ao sair de uma mostra sobre a evolução de Mondrian e Kandinsky até o abstracionismo, entrei noutra, do espanhol Cristóbal Toral, que fizera o caminho inverso, do abstracionismo – na moda em sua juventude – pro hiper-realismo. Como os dois primeiros morreram em 44 e o outro nasceu em 40, aquilo me pareceu uma síntese do trajeto do século XX, centúria vítima de um terremoto cujo epicentro fora Hiroshima, 06 de agosto de 45, afetando tudo que acontecera antes e se daria depois da desintegração nuclear, desintegração que vinha crescentemente se processando nas artes, principalmente na pintura e na literatura (vide Finnegans Wake), desde que se criara a fórmula E=mc2 e se pensara numa arma com tal poder de devastação. Diante disso, parece-me que a realidade não seja um refúgio, um não pensamento. Van Eyck e Velásquez me perturbam tanto quanto Max Ernst ou Pollock. Essa questão me surgiu quando, nos anos 60, em Pombal, no alto sertão da Paraíba, onde eu era o subgerente da agência do BB, recebi pelo ônibus que vinha de João Pessoa (pois a cidade não tinha livrarias nem bancas de jornais) meu primeiro exemplar dos fascículos de Gênios da Pintura, que foi sobre Holbein, com muitos elogios à minúcia de sua reprodução da realidade, seguindo-se a isso o segundo fascículo, com iguais elogios às breves e densas pinceladas com que Cézanne “reproduzira” suas frutas. “Como pode?” Acabei por formular uma teoria a respeito: o gênio está em se sair com brilho de um problema estético, qualquer que seja. As realíssimas naturezas-mortas holandesas do século XVII – que chegaram ao trompe l´oeil – são tão fascinantes quanto as instalações de José Rufino ou os quadros de Beatriz Milhazes.  Daí que é tão bom ver um filme de Almodóvar ou Kleber Mendonça Filho, quanto um Godard. 

DA – Todo escritor é, no fundo, um exibicionista?

W. J. SOLHA – Se é, não sou escritor. O que busca exibição é sua obra, e confesso que nunca colaborei muito para que a minha aparecesse. Sequer faço sessões de lançamentos, com autógrafos e tudo mais. Feiras literárias? Nem pensar. Na verdade, trabalho mais pela obra alheia. Há pouco fiz a resenha do novo livro de Ruy Espinheira Filho; ontem, o prefácio para os haicais de Saulo Mendonça. Um de meus trabalhos publicados é “Sobre os 50 Livros de autores brasileiros contemporâneos que eu gostaria de ter assinado”, que saiu pela Ideia, acho que em 2012, edição paga por mim, coisa que, aliás, vem acontecendo com tudo meu que está por aí, inclusive com este “DeuS e outros quarenta PrOblEMAS”. No final de 2010 participei de dois longas pernambucanos e de dois curtas paraibanos, como ator. Um dos filmes – “O Som ao Redor”, do Kleber Mendonça Filho – teve forte repercussão, meu trabalho idem, acimentado pelo prêmio de melhor ator coadjuvante que recebi no Festival de Brasília pelo “Era uma vez eu, Verônica” (do Marcelo Gomes). Jamais tive, com meus romances e poemas, evidência semelhante. Nunca fui procurado por editora alguma, porém recebi exatos vinte e dois convites para outros longas e para séries de TV, todos recusados, porque resolvi não mais atuar. Veja isto: certa vez participei de um comercial da televisão local e, no dia seguinte, conversando com um amigo numa rua bastante movimentada de pedestres aqui em João Pessoa, fui tantas vezes cumprimentado por passantes, que o companheiro me gozou: “Solha, você conseguiu, com 30 segundos de TV, o que não conseguiu com 30 anos de literatura.” Exibicionismo, portanto, não é um de meus defeitos, e olhe que tenho muitos.

 

DA – Hoje presenciamos no Brasil pequenas editoras tentando suas investidas. Fazem verdadeiro trabalho de formigas operárias, publicando livros em tiragens limitadas, dando espaço a autores iniciantes e, muitas vezes, atuando de modo artesanal. Como você avalia esse panorama?

W. J. SOLHA – Tenho trabalhado com pequenas editoras desde que Affonso Romano de Sant´Anna leu os originais de meu primeiro poema longo, “Trigal com Corvos”, elogiou-o imensamente, mas me avisou: “Você não vai encontrar editor pra ele”. E não encontrei. Banquei uma edição de 500 exemplares na Imprell – daqui de João Pessoa -, e os mandei – à minha custa – a quem os pediu. O mesmo se deu com “Marco do Mundo”, “Esse é o Homem” – ambos pela Ideia, também daqui, e, agora, o “DeuS e outros quarenta PrOblEMAS”, pela Penalux, de São Paulo – este com uma tiragem de apenas 200 exemplares. O drama é que se fica sem a distribuição nacional que as grandes editoras – mesmo com má vontade – empreendem. O pior é que minha ficção já estava enfrentando a mesma barreira. Lancei minha “História Universal da Angústia” pela Bertrand Brasil em 2005, o livro ficou entre os finalistas do Jabuti, ganhou o prêmio da UBE Rio, mas, quando lhe mandei os originais de meu romance Arkáditch, foi-me dito que sua publicação apenas aconteceria quando a História cobrisse suas despesas. Aí ganhei o prêmio da Funarte de incentivo à literatura com o projeto do romance “Relato de Prócula”, mas a obra só saiu pela A Girafa porque paguei por isso.  E,  uma coisa triste: sempre, depois de cada prêmio, uma derrota. Ganhei o Fernando Chinaglia em 74, com meu primeiro romance, “Israel Rêmora”, ele saiu pela Record e teve uma senhora fortuna crítica, mas jamais conseguiu uma segunda edição. Morreu ali. Ganhei o INL, em 88, com “A Batalha de Oliveiros”, que saiu pela Itatiaia, mas o livro nunca foi distribuído. O mesmo se deu com “Shake-up”, lançado pela editora da UFPB. “Zé Américo foi Princeso no Trono da Monarquia” saiu pela Codecri, mas ela faliu em seguida, com a quebra do Pasquim. A Ática me disse ter, por engano, picotado dois mil exemplares de “A Verdadeira Estória de Jesus”, depois que eu fechara negócio com ela pra evitar o desastre resultante, segundo me disse, do encalhe. A Girafa também faliu, logo após o lançamento do “Relato de Prócula”. Daí que ontem – 15 de 10 de 2015, um número bonito – parei, de repente, o livro que estava escrevendo e me disse “Chega”. Parei, Fabrício. Estou com 74 anos e isso torna a decisão definitiva. Sua entrevista veio testemunhar o fim de um processo que envolveu muito trabalho, muito prazer e muito sofrimento. Valeu a pena? Valeu, apenas pra mim, mas valeu.

W. J. Solha
W. J. Solha / Foto: Andréia Solha

DA – Essa tendência maior de ser lido apenas pelos pares causa algum desencanto?

W. J. SOLHA – Comecei a ler por influência de minha mãe, que lia muito, embora desse conta da casa com quatro filhos,  sem qualquer alívio de cozinheira, faxineira, babá, lavadeira  e ainda costurava calças para o escritório e macacões para os operários da Estrada de Ferro Sorocabana, onde meu pai era carpinteiro. Não há equivalentes àquela dona Ermelinda entre meus leitores. Ô, mas nem ela me lia, por me achar muito difícil. Exclusividade minha? Não. Já no tempo de Cortázar se sabia que os escritores não eram mais os mesmos. Mas ele foi e é muito lido, como Guimarães Rosa e James Joyce. Logo, o problema não está em ser lido apenas pelos pares, mas nem por eles.

DA – Foi a Paraíba quem lhe deu régua e compasso?

W. J. SOLHA – Especificamente Pombal, no alto sertão paraibano, em que vivi de 63 a 70, como funcionário da agência do Banco do Brasil, da qual fui um dos fundadores, chefe da carteira agrícola por quatro anos, subgerente durante dois. Eu tentara a pintura, em Sorocaba, na adolescência. Como trabalhava desde os quinze, estudando arte à noite, um dia, certo de minha mediocridade e por necessidade de autossuficiência, deixei a escola do mestre italiano pela de contabilidade, o que me levou pra dentro do banco. Fui surpreendido pela grande cultura que descobri nos papos em grandes rodas de amigos nas calçadas, em plena caatinga, a quantidade de livros que havia nas casas dessas pessoas. Li todos os grandes clássicos – gregos, romanos, Shakespeare, os russos, franceses, americanos, dos hermanos e brasileiros nesse período, tudo com livro emprestado, pois na cidade não havia nem livraria nem banca de jornais. Isso também aconteceu com os colegas do banco. Por influência do escritor José Bezerra Filho, que trabalhava comigo, comecei a fazer contos. Por influência de outro, Ariosvaldo Coqueijo, fiz minha primeira peça de teatro e trabalhei nela como ator. Com José Bezerra fundei uma empresa de cinema e rodamos, lá na cidade, o primeiro longa paraibano em 35 mm, de ficção, dirigido por Linduarte Noronha, famoso pelo documentário “Aruanda”. Pela primeira vez compareci a uma tela de cinema, no papel de um pistoleiro. Como Zé Bezerra, já em João Pessoa, escreveu e dirigiu a peça “O Mundo Louco do Poeta Zé Limeira”, vi, no chamado Poeta do Absurdo, um tipo de criação sem fronteiras, que acabou sendo também minha marca registrada. Na capital, senti que todo o estado tinha uma vida intelectual e artística muito rica. Tanto, que passei o ano 2000 e metade de 2001 fazendo as capas do segundo caderno do jornal O Norte, só com retratos de página inteira de grandes nomes da Paraíba, como Assis Chateaubriand – fundador do MASP e dos Diários Associados -, José Américo de Almeida – fundador da literatura regional brasileira, o pintor Pedro Américo – o do Grito do Ipiranga e Batalha do Avaí, o genial poeta Augusto dos Anjos, o grande Zé Lins do Rego, etc, etc, além de Marcélia Cartaxo, a primeira atriz brasileira a ganhar o Urso de Ouro de Berlim pelo filme “A Hora da Estrela”, o maestro José Siqueira que, entre outras coisas, fundou a Orquestra Sinfônica Brasileira, o romancista e dramaturgo Ariano Suassuna, o dramaturgo e ator Luiz Carlos de Vasconcelos, os grandes irmãos cineastas Walter e Vladimir Carvalho, os compositores Zé Ramalho, Sivuca e Chico César – a lista não tem fim. Mas foram 70 os retratados por mim para o jornal. Hoje seriam muitos mais: a Paraíba, por exemplo, foi o terceiro estado com mais participantes na XXI Bienal de Música Brasileira Contemporânea, no Rio, agora, sendo um dos convidados,  o terceiro mais votado pela comissão, na hora de decidir quem receberia os contratos para  apresentação de obras inéditas, o maestro Eli-Eri Moura, para quem fiz o libreto da ópera Dulcineia e Trancoso, apresentada no Recife em 2009. Ainda ontem, por coincidência, como se a coisa permanecesse circulando, fui gravar a narração de um documentário sobre Assis Chateaubriand para uma das emissoras locais de TV.

DA – Enquanto atividade, ainda há espaço para o Cinema e as Artes Plásticas na sua vida?

W. J. SOLHA – No mesmo dia 15 de 10 de 2015 montei maquete para um quadro, que no dia seguinte comecei a pintar. Imaginei, antes, tirar um atraso de minhas leituras, que está grande, mas na primeira tentativa já deu pra ver que não tinha cabeça, por enquanto, para deixar de escrever mas continuar lendo, feito casal que se separa continuando amigo. Houve como um processo de saturação, comigo. Nas primeiras duas horas de pintura, senti enorme cansaço e fui dormir, isso às 10 da manhã. Jamais sentira isso pintando, nem quando passei nove meses fazendo o painel “Homenagem a Shakespeare”, para a UFPB. Pensei no problema da idade, mas vi que não foi isso. É que não estar escrevendo, depois de 40 anos de carreira, foi terrível. Quando você pinta, as palavras somem, você pensa apenas em termos de cor, luz, contraste, volume, contorno. Você funciona… noutro  canal. E isso, caramba, dói. Quanto ao cinema, eu já decidira parar quando fui convidado para “O Som ao Redor”. Fui vencido pela enorme qualidade do roteiro. Aí fui fazer o “Era uma vez eu, Verônica”, levado pela empolgação de trabalhar com o Marcelo Gomes. Aí emendei com dois curtas paraibanos… e fui derrotado pela estafa, de que fui me livrar só uns seis meses depois, quando já decidira parar com o cinema. Não só por não ter estrutura para ser alguém diferente de mim, sem me arrebentar. Também pela vida cigana que levaria nessa atividade. Tive convites para Recife, Brasília, São Paulo, Salvador e até Montevidéu. Sou sedentário – daí a literatura, a pintura. Quem sabe eu não encontre algo novo, um dia destes?

DA – O quanto W. J. Solha conhece W. J. Solha?

W. J. SOLHA – Ao resenhar o último livro de Ruy Espinheira Filho, percebendo a enorme presença, nele, do que ele foi, menino, lembrei o início do “El sentimiento de no estar del todo”, de Cortázar:  

Siempre seré como un niño para tantas cosas, pero uno de esos niños que desde el comienzo llevan consigo al adulto, de manera que cuando el monstruito llega verdaderamente a adulto ocurre que a su vez éste lleva consigo al niño, y nel mezzo del camin se da una coexistencia pocas veces pacífica de por lo menos dos aperturas al mundo. 

Muitas vezes, em minha vida adulta, vi em mim o mesmo comportamento do que fui, por exemplo, aos 11 anos, quando, deslumbrado com a descoberta de uma revista em quadrinhos especial – “Epopeia”, da Ebal – deixei de lanchar, em meu primeiro ano ginasial, para, com os dois cruzeiros que minha mãe me dava todos os dias para isso, comprar, a cada semana, dois números atrasados – como “O Correio do Czar”, ou “Aquila Maris”, cito dois deles – que me custavam cinco cada um. Pois bem: passei os últimos dez anos como funcionário do Banco do Brasil sem almoçar, para ter um pouco mais de tempo para escrever e ler. Sempre fui desesperado por leituras especiais. Pelo conhecimento. E meus livros foram, todos, resultados de algo que não encontrava nisso. Daí meu primeiro romance, “Israel Rêmora” (Record, 1975) ser tão autobiográfico, como também foram “Relato de Prócula” (A Girafa, 2009) e “Arkáditch” (Ideia, 2012) e meu primeiro poema longo – “Trigal com corvos” (Imprell, 2004). Foi o velho “Conhece-te e conhecerás os deuses e o universo” funcionando. Mas Hamlet, Édipo e Cristo me tiraram – personagens enormes – desse egocentrismo. Em 1984 lancei pela Codecri meu “Zé Américo Foi Princeso no Trono da Monarquia”, fascinado pela descoberta de que “A Bagaceira” do José Américo de Almeida – que rompia com a influência da literatura inglesa no Brasil – era uma adaptação do Hamlet, o próprio romancista vivendo, dois anos depois de lançar seu famoso romance, o papel do príncipe da Dinamarca, literalmente dentro de um palácio, o da Redenção, na capital paraibana. Já em 1979 eu lançara “A Verdadeira Estória de Jesus”, pela Ática. E até o final do ano deverá estrear, aqui em João Pessoa, meu “Édipo no Terceiro Milênio”, direção de Jorge Bweres. Conheço, inclusive, meus limites. Meu último livro começa com estes versos: “Gênio não tenho. / Me empenho”. Isso sou eu.

 

 

Paixão Judaica
Paixão Judaica (Acrílica sobre tela 80 x 100 cm) / Pintura: W. J. Solha

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.

 

 

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105ª Leva - 08/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Camila Passatuto

 

Arte: Juca Oliveira

 

 Sobre Poemas

 

Nada contemporâneo
Há um arcaico olhar em mim
Que não sabe ficar de fora
Adentra qualquer alma que passa

Não há nada de moderno
Ainda amolo o poema
No fêmur
E descolo a métrica na mandíbula

E se a morte vem
Matuto que sou
Ofereço um café
Para a transa durante juventude

Nada de Andy Warhol
Tem Monet na minha testa

Nada de nada
E você vem
Prova e reprova

É que sou sujo e amargo
Velho em inédito

Nada contemporâneo
Há um poema, leitor,
Brotando no teu peito.

 

 

 

***

 

 

 

Das Guerras

 

Todo ensejo que orvalha da alma
Vem metralhar quem passa.

E olha…
Tua fé
Já não é.

Eu amiúdo
Versos
Para que não vá
Sem um doce (se quer).

Gritamos.

Sujo tua roupa
Com leite materno
Enrolo tua alma
À minha,

Nada por perto para se agarrar.

Filho,
O que sobra da coragem
São pequenas ervas daninhas,
Que nascem dos olhos
Dos que choram demais.

 

 

 

***

 

 

 

Bombardeios

 

Os bombardeios seguem a rotina,
Destroem e constroem.

Não sei meu choro
Já faz tempo.

As ruas vastas…
Ainda.
E repouso
Minha desilusão
Pelo batente

Observo tanta ganância

Minhas mãos sujas
De amor

E o mundo acabando
Com o pouco do eu
Que me resta
Na janela.

 

 

 

***

 

 

 

Manger un Réactionnaire

 

Por onde saliva
É caminho obscuro
Se o faz
Por más línguas.

Ontem um corvo
Açoitou minha sorte
Levou em algemas
As revoltas.

E deles, tão pertencentes,
O descaso calcifica
A frívola passagem
Por essa vida.

O mundo geme
E pede
Em jarra
Nosso sangue.

E nada a alcovitar
A perfeição
Com as almas
Incisas em sistema
Errôneo.

Ladram as partituras
Falsas
Da valsa sem reação,

E gritam em meio
à barricada:
“Homens
Que propendem à política
Matam sufocadas
As pobres poesias!”

 

 

 

***

 

 

 

Infante Moral

 

Eu recuso o tratado que o mundo oferece
Quero meu próprio tormento
Com os ventos que minha mente reproduz.

Paz. Edifico, desmoralizo,
Não adquiro sua cruz.

E o que você julga eterno
Na minha vida perece,
Muita lei e muita regra.

Olha o cheiro da liberdade…

Tem gente que até esquece.

Empurram um sofá e a arte de trena.
Vão medir minha letra
E criticar o poema.

Esqueci o clássico
O marginal
O cubismo em poesia

Não pude lembrar
Já que alienaram
Minha vontade,
Por pura hipocrisia.

(Quero mais esquina)

Eu confundia as letras
Gritava tudo errado
Era o feio certo
Mas entoava meu passado.

Hoje o mundo me concertou
Na falha da perfeição
E tento a cada brisa
Voltar à pureza daquela
Vadia claudicação.

 

Camila Passatuto nasceu em São Paulo. Escreve desde os 11 anos e começou atuar nos meios digitais, com blogs e participações em revistas digitais, em 2007. Entre os seus principais trabalhos publicados, podemos destacar: 2010, e-book “Apenas o Necessário”, co-autora da Antologia de micro contos reunidos pela Poesis, em parceria com a ETC Bienal, Fundação Volkswagen e Governo do Estado de São Paulo; 2012, Antologia “Nossa história, nossos autores (Editora Scortecci); 2013, escritora exposta na mostra de Twiteratura no Sesc Santo Amaro.

 

 

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105ª Leva - 08/2015 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

A linguagem e o limite

Por Gustavo Rios

 

 

Talvez uma das formas mais comuns de literatura seja aquela que está vinculada a um território. E aqui uso a palavra não como representação de lugar, mas sim de um nicho. Fundamentalmente, uma escolha.

Grosso modo, temos autores “regionais” na forma e na construção de seu eu-personagem – a imagem que o mesmo escolhe de si para o mundo; o chapéu na foto, a biografia na orelha do livro. Outros preferem a urbanidade em suas infinitas formas. E se inventam. Muitas vezes indo além do tripé “asfalto, quebrada, concreto”.

Usando o raciocínio simplório acima, quando o autor faz sua escolha traz consigo a linguagem, matéria e antimatéria de seu trabalho. Isso é terrivelmente óbvio, sei. O “urbano” vai buscando o entendimento através das gírias, do fraseado louco e comum das ruas, enquanto o “regional” se vincula ao que de mais rincão existe. Tal situação os obriga a uma busca incessante. Talvez na tentativa de manterem proximidade com seu universo, seu quinhão. Ainda que as novas possibilidades artísticas os afastem de suas raízes, é preciso encostar o ouvido ao chão. Sentir a trepidação, escutar; manter a essência – seja ela inventada ou não, pois quem cria a paisagem é o autor, não o contrário.

Existe, porém, outra espécie de escritor. Um tipo que vai além. Geralmente tal artista em algum momento arrancou de si a aldeia. Aquela, universal por natureza. E nesse movimento certamente revelador, se fez completo, um autor sem amarras. Arrancando de si também a linguagem que o vinculava ao seu possível território. Convertendo-a, de limitadora em ilimitada.

Em Fernanflor (Iluminuras, 2015, 112 páginas), de Sidney Rocha, tive tal impressão logo no começo. As palavras existem, não fogem de nossa compreensão. Os elementos narrativos não são disparates. Nem viagens sem volta no doce mundo das abstrações. Todavia, Rocha demonstra saber utilizar a linguagem a seu favor. Ampliando-a até outro patamar. Indo além.

Para ele, o território, o lugar, ou qualquer conceito semelhante é a própria linguagem.

Não existem ali as dificuldades comuns aos pretensiosos. Dos que se excedem no uso de palavras complicadas. Nem tampouco o fluxo de consciência, tipo de arte que, nas mãos dos tolos, se torna artifício. Apesar da velocidade com que o ganhador do Jabuti de 2012 desenvolve seu romance, fica bem evidente o cuidado com a construção, com a estrutura e com a intenção, principalmente. A velocidade aqui é fruto de seu intento. A rapidez é resultado de trabalho, um artesanato, lido, relido, analisado não de forma obtusa e engessada, mas com a paixão dos que sabem aonde querem estar – não por acaso, o livro levou cerca de oito anos para terminar, além de ter sido submetido a uma leitura pública há cerca de quatro anos em várias capitais do Brasil.

Apesar de não ser hermético, Fernanflor também não pode ser lido de forma desleixada. O fato de Sidney ser um autor que subverte a noção/ideia de território nos obriga a reinventar nossa leitura. A literatura flui e nos escapa, se a gente vacilar.

Cada página nos força a construção de possibilidades. E nunca estamos satisfeitos, pois a todo instante vemos algo distinto. Jeroni, o protagonista, poderia ser resumido a um dândi. Talvez possua as mesmas posturas e angústias comuns aos outros da história da literatura. Porém, cada novo instante é de fato novo, exige mais do leitor.

Sidney consegue uma literatura de deslocamentos. E, antes que tal afirmativa se transforme somente numa frase de efeito, é possível tentar justificá-la com uma ideia simples: a cada página conquistada entendemos que nada é linear nem previsível. Em nenhum aspecto.

Do enredo à linguagem, as coisas se renovam. O novo não surge somente nas ações do personagem – aonde ele vai, o que fará em seguida, qual seu destino, sua tragédia e seu triunfo. O novo surge também na linguagem. Na escrita. Em diálogos que aparecem do nada, surpreendem, dilatam a literatura “deslocada” de Rocha.

Uma epifania não é fato isolado. Ela se desdobra. Atinge não somente o instante na história, mas também a linguagem que lhe dá guarida. É um conjunto de sensações. Pluralidade, literal e literária:

“Retirada a laje, a areia volta ao bojo das pás. Milhões de pétalas são lançadas para cima e, outra vez, se pode ver o vidro limpo. Os cordames grossos, de algodão puro, se enfiam na terra e içam o diamante. Sentimos o cheiro das rosas, mas é a respiração da terra ruminando o odor da terra molhada. Por um segundo crê que o diamante levita, depois as mãos o carregam até o suntuoso catafalco.

“Na câmera ardente, não há mais espaços para mais rosas nem palmas.”

E presenciamos cisnes que “desnadam”. E um Jeroni que vê “(…) lágrimas subirem das faces das mulheres e serem sugadas de volta ao fundo dos olhos”.

Outro ponto a ser destacado é o uso de elementos pictóricos. Sendo Jeroni pintor, tal recurso é fundamental. Justificável em maior ou menor escala. Contudo, aqui mais uma vez insisto nas teses do deslocamento e da pluralidade, para dizer que em cada trecho onde Sidney resolveu usá-los, o risco (ou seria traço, ou pincelada?) valeu.

Ou seja, supondo que o autor não seja artista plástico, ou que ele tenha algum grau de intimidade com a pintura, os trechos onde isso foi necessário não serviram somente de arcabouço para o protagonista. Nem descrições frias resultantes de pesquisas. A pintura que Lourenço Mutarelli cita na orelha do livro tem a ver com a linguagem – e opiniões como as dele, escritor e um dos melhores quadrinistas do país, tem peso e medida, assim como as do português Gonçalo M. Tavares, dono de um texto fundamental sobre Fernanflor. Provando mais uma vez que ela é o alicerce. A mesma linguagem inovadora que nos conduz desde a primeira página. Com cores, vibrantes ou não – o vermelho e o cinza são escolhas firmes do autor, mesmo quando desbotam: o desbotamento também sendo escolha, recurso. Com os retratos e com a vida que deixam Jeroni Fernanflor sempre à beira de um precipício. Usando seus sapatos lustrados, suas roupas bem cortadas.

Somos seduzidos pelo artista. Pelo dândi que desde novo olhava o mundo como um quadro vigoroso, mas nunca estático. Pelo artista que se mostra nos silêncios que o Mutarelli diz, mas que se esconde nas “(…) frases claras, mas nunca evidentes.”, opinião do escritor português Gonçalo M. Tavares em seu texto.

Fernanflor é o começo. A primeira parte de uma trilogia arquitetada por um grande autor. Um inventor de possibilidades: e que os outros dois livros nunca encerrem a aventura, ainda que tenham um fim.

 

Gustavo Rios é autor do livro de contos “Allen mora no térreo” (Mariposa Cartonera, 2015), entre outros.

 

 

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105ª Leva - 08/2015 Destaques Olhares

Olhares

Exílios voluntários

Por Fabrício Brandão

tira_vazio

O mundo pode ser um imenso jardim onde depositamos o tamanho de nossas expectativas. Podemos regá-lo de acordo com conveniências misturando doses reais e fantásticas. E talvez não seja tão relevante procurar saber se apreciamos mais a aparência ou o conteúdo das coisas quando a intenção é a de se ter uma atitude contemplativa diante da vida. Mergulhar mais fundo significa uma escolha a produzir seus próprios resultados.

Eis que há um outro sentido de busca na captura das imagens do mundo. É quando o artista, numa atitude libertadora, deixa-se conduzir pela pulsação própria da existência. Nesse ato, ele sai ao encontro do inesperado sem saber ao certo quais sinais irão se insinuar diante de seus sentidos. Entra em cena o desperto exercício da observação, mola propulsora do trabalho de gente como Juca Oliveira.

Juca não sabe ao certo o que vai encontrar quando permite que o mundo o apresente suas tantas e tamanhas imagens. Não há um roteiro prévio a comandar os impulsos da criação. A orientação primeira de desenhos e ilustrações vem de uma atitude de desapego à conformidade, uma sensível vontade de se deixar surpreender pelas manifestações externas. Assim, há um significativo eixo de posicionamentos, através do qual o artista, seu olhar e os objetos/sujeitos flagrados compõem uma tríade de papéis.

No seu trajeto para ver o mundo, Juca assume o desafio de articular e harmonizar elementos abstratos e concretos. Nesse momento, a intuição configura-se uma ferramenta fundamental, pois possibilita ao artista vislumbrar cenários e engendrar campos de atuação para seus personagens.

Juca Oliveira
Arte: Juca Oliveira

Seres, coisas e lugares dão o tom ao ofício de representação que nos é proposto por Juca. Dialogando com traços da contemporaneidade, o criador lança mão de recursos provocativos, irônicos e também dotados de suavidade. Faz uso de cores e formas que assinalam um modo peculiar de captar o que a vida lhe oferta incessantemente. Se o fluxo de informações é grande, Juca prefere o exílio voluntário, momento em que, num amplo processo de tomada de consciência, rende-se a apelos cotidianamente ignorados.

Outro ponto forte da trajetória desse artista baiano é a elaboração de histórias em quadrinhos. Com certa dose crítica e sarcástica que o gênero demanda, Juca conduz seus imaginados enredos. Suas tirinhas sequenciais apresentam uma robusta capacidade de equilibrar e condensar texto e imagem.

Na sua intenção confessa de se deslocar para um tempo diferenciado, mais lento, no qual desacelerar significa ampliar perspectivas de apreensão das coisas, Juca Oliveira edifica o habitat de sua arte. Alheio ao turbilhão que desconcentra e por vezes desvia, o artista encontra refúgio na percepção detida de um tudo. Com isso, reconecta-se a si mesmo, evidenciando o poder dos silêncios e abrindo canais de entendimento sobre a existência.

Juca Oliveira
Arte: Juca Oliveira

 

* As ilustrações de Juca Oliveira são parte integrante da galeria e dos textos da 105ª Leva.

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.

 

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105ª Leva - 08/2015 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Dheyne de Souza

 

Arte: Juca Oliveira

 

dos semáforos

 

hoje eu disse que, se sensibilidade fosse pólvora e texto (e não digo qualquer texto, digo daquele que. sabe) fosse fogo, eu explodia. que hoje estou minúsculo e daqui, sabe, as coisas são. obviamente, sim. maiores. eu sei. às vezes fico perdido sem você, ana. sem. caio. hoje eu queria escrever um romance de uma personagem que nasceu esses dias no semáforo. foi quando ela nós ali ante o vermelho que às vezes acho que é o espírito do trânsito tomando aquele fôlego para uma jornada abrupta rumo ao sucesso ao shopping ao dentista ao café ao terapeuta ao sexo a noite amanhã um dia. e ela havia nela um vinco bem no centro da sua testa que era onde o sol se punha naquele fim de tarde. o céu depunha ali nódoas e eu pude, veja, colher muitas cruas nacas de desejos entre, bem entre, assim como se abaixo dos lábios pequenos um pouco à esquerda do caos e eu vi do negro o avesso. que, e também me impressionei, era escuro. mas o que quis dizer dessas montanhas de areias vincadas ali naquele pedaço de face que via do meu vidro fumê a película que a abraçava vinha da sua mão escorrendo como quem não esperasse o verde a ação o futuro em sua parte que é breve. e essa mão de manchas feito a nuvem quando nada no mar. ela puxava assim tão gratuitamente uma mecha do seu cabelo que nem era leve talvez sedoso quando recém-lavado mas ela. ela emaranhada naquele fio suado que me contava do dia da fila do espaço do riso quando criança naquele balanço. eu quase ofereci um cigarro mas eu tive um medo tão grande de romper a sua Verdade. eu tive um medo tão grande de roubar dela e de mim aquela sobra do dia que vinha enquanto uma rima um verso branco mas tão rosa. feito a fresta do sol que dormia na sua testa. feito o vento que arrumava a cama enquanto o seu cotovelo ali despejado na porta do carro, suspeitando do meu olho feito cinema, decerto, tentava me esconder. ou me falar da lama que pousa nos sapatos. ou me contar da trama que sustenta o passo. ou me livrar do assalto que se tem quando. a vida da gente bate no. sinal aberto.

 

 

 

***

 

 

 

às vezes me preocupo tanto com minha memória, sabe, Acaso. é um duto hieroglifado. assim como se as paredes houvessem flâmulas a cada guelra. é uma espécie de nado, Nada, isso de transmutar o tempo, veia memória condão. a cada agora um apocalipse a cada desinência pretérita um epitáfio. e o olho que segue no túnel que era, veja bem, Tudo, era uma era. era uma escada sem step by step. que esse discurso fode-me, se me permite ser um pouco daquilo que vende mais. ouça, Todo, miragem pó e instante é tudo feito de achos. cachos. pedaços. dê-me uma pence de som, Silêncio. dê-me um soneto de escória, Mudez. dê-me uma toalha que não acho a vida líquida porra nenhuma é o meu olho que memora.

 

 

 

***

 

 

 

Um osso do verso

 

O cheiro que acorda a manhã tem raízes ocres.
E se se esquece a palheta?
E se se perde o horário?
E se tragando no tráfego no rádio no atropelamento na lembrança na resposta se se des-cobre o olfato? Digo, praquilo que é da Verdade, o não dito.
Que às vezes aquilo vem feito deus feito orvalho feito o rouco do locutor que erra o erre feito a cor dos pares. A dor dos semblantes. Mas isso tudo é muito pequeno, veja: já não se vê como toca. Como tolhe. Come-se. Sem olhar os dentes. Sem orar os crentes. Sim, senhora. Às vezes, deveras, vê-se sorrateiramente, quando a vida em estado comercial, de esguelha. Vezes se se cura com o sinal, vezes não. Que há o atropelo de som e de líquido e de insípido que é o. Isso. De ver que seja insípido. A sorte é que há sempre outros semáforos, há passos, há laços lassos. Do que se faz alimentar esses ó(s)culos. Pra ver melhor o não.

 

 

 

***

 

 

 

sem título

 

ah a vida e esse cheiro que vela
como um cavalo no escuro no pesadelo da espora
como uma grama que acorda molhada pra ser pisada
como um refém que habita o esconderijo da porta
como uma escolta. paulatina. versando que a vida há

 

Dheyne de Souza é poeta, está em Goiânia-GO, vê o fantasma do verbo bêbado. Tem um canal de leitura de poemas prosas prosemas no YouTube: Pequenos Mundos

 

 

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105ª Leva - 08/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Germano Xavier

 

Arte: Juca Oliveira

 

OS PESOS

“Dame ilusion, esperanza, ganas de vivir y no me olvides”.
(Frida Kahlo)

 

 

sustento apenas
o status de sobrevivente
o dia que é azul no alto
a febre na maçã do rosto
o dito que por medo não saiu
o ar filtrado em filme termoplástico
são sintéticas as redes em que me fabrico

há um adesivo em meu peito que diz:
não modular a vida

tudo transparece quando violado
o amor o perdão a mágoa o inferno
conservar-se irrita e descontinua
a origem do cuidado pode ser o ferimento

elefante e pomba têm o mesmo peso nas nuvens

 

 

***

 

 

 
A CONSTRUÇÃO DO DIA

 

para Ana Lúcia Sorrentino

 

 

seja como for
tomar a arma dos punhos
e cometer questões

contra toda possibilidade
exigir de si o plano essencial
dos tentares

a tal grau de cuidado
dotar o coração de pássaros
para refratar os prontos

ser vivo o bastante
para morrer pelo êxtase
das coisas até mesmas

servir abismos aos olhos
nos esmagos de inverdade
e padecer de interminâncias

 

 

 

***

 

 

 

FERIDAS FERIDAS

 

na vastidão do que vivemos
(os dias correm sem nos consultar),
há algo que não nos deixa ser pó:
um rumor contínuo dentro de nós
(só o amor desafia a morte da alma).

os pés caminham para o incerto,
o coração para o único destino que conhece,
o amor é a graça de ser simples e
o privilégio das lágrimas não é dos fracos.

o amor não passa ileso
(passamos amor nas feridas
e ferimos o amor com mágoas).

olhamos além e o medo não foge.
resistimos (vamos comemorar as nossas resistências?)
e cambaleamos em sonhos.
os olhos cansados não nos deixam ver
a flor no asfalto, ao dobrar a esquina
o texto é o mesmo na boca do morto
que nos alarga a esperança
(“o mais sórdido dos sentimentos?”).

vagueamos em vertigens sãs.
a alma pedindo pão,
os olhos pedindo céu,
os ombros pedindo chão
(pelo correio: nuvens de papel).
desabamento de chuva sem fim:
o amor pedindo perdão.

 

 

 

***

 

 

 

O SIMPLES AMOR

 

amor meu imaculado
única matéria irretratável

impossível de ser detida
manipulada ou destruída

amor meu
céu de proporções ideais
canal de abismos
acesso de revoluções

de amor

 

 

 

***

 

 

 
ESSAS TARDES NENHUMAS

 

na implacável badalada das horas
(agredindo o universo com agouros de morte),
ouve-se um tímido ressoar de rebeldia: o corpo
(ora desperto, ora entorpecido por repetição)
regurgita o cansaço e – vomitando regras –
ensaia uma humilde resistência.

em segundos, une-se à alma dizendo não.
as mãos afrouxam os laços, os pés deixam
os sapatos: olhos contam nuvens.

e quase que se consegue chegar a si.

mas as horas gritam derrubando os ombros,
espalhando náusea. então pisamos o chão das coisas mortas.
o relógio bate forte, as horas levam o sangue.

 

Germano Viana Xavier, 31, nasceu na Chapada Diamantina, é mestrando em Letras, bacharel em Comunicação Social/Jornalismo em Multimeios e licenciado em Letras/Português e suas Literaturas. Possui textos publicados em diversas revistas eletrônicas. É colunista nos portais Página Cultural, Entrementes e idealizador/coordenador editorial do Jornal de Literatura e Arte “O Equador das Coisas” (ISSN 2357 8025).

 

 

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104ª Leva - 07/2015 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Vivian Pizzinga

 

Valéria Simões
Foto: Valéria Simões

 

Teoria e prática

 

  1. Tese

 

Ele queria que eu fosse outra. Ele queria a outra de mim. Que eu fosse diferente daquilo que pediu de mim, daquilo que viu em mim, daquilo que julgou gostar em mim. Ele queria que eu fosse diferente do começo, que o começo fosse descartado, ele insinuava que o meu começo não valia mais. Ele dizia que, nesse começo sem valor, havia julgado que gostava daquilo que me definia como eu mesma, havia julgado que sabia exatamente o que é que ele gostava quando sentia gostar de mim. Ele queria que fizéssemos um inventário de nós mesmos, que no autoanalisássemos de forma pura e simples e convertêssemos as dobras, os espinhos, os calos e as inflamações em suavidade morna. Ele queria que eu não fosse o que eu sabia ser, o que eu queria ser, e que o erro havia sido meu, não dele, ao julgar que o que eu sabia ser era outra coisa. Ele me pedia uma impossibilidade e era incapaz de entender que o impossível se constrói aos poucos como possível, muito aos poucos, medidas de longo prazo. Ele não me ouvia, e o diálogo ia ficando cada vez mais confuso, a conversa rodava em círculos, o quê? Como? Explica melhor, eu pedia, evitando olhar para o desespero. Você errou, ele me disse, seriamente, fitando meus olhos empapados de lágrima, aqueles olhos que eu evitava piscar para não enlamear um diálogo tão enxuto.

 

  1. Antítese

 

Ela queria que eu a quisesse a mesma, que eu não esperasse nada, que eu me contentasse com a tranquilidade de dias eternos, que me fixasse em um começo imutável, ela queria que fôssemos felizes para sempre e queria, com isso, uma aliança, um noivado, um compromisso e a longevidade da felicidade que não derrapa. Ela queria uma estrada sem declives, sem aclives, sem curvas fechadas e com acostamento. Não era capaz de entender o que eu dizia, mesmo que eu me tornasse didático e me desdobrasse em exemplos. Ela queria que eu fosse o mesmo, ela exigia que eu não mudasse, pois, mudando, mudaria as esperas, as reivindicações, as palpitações. Ela queria que eu quisesse o mesmo que quis no primeiro dia, e o que quis no primeiro dia era o que ela era no primeiro dia e o que eu era no primeiro dia. Contudo, eu já não era mais o que eu havia sido no primeiro dia, eu era outro. E o primeiro dia, era isso o que eu tentava esclarecer a ela, é sempre diferente de todos os outros. Eu me queria outro, e a queria outra, e tencionava um desvio na estrada, um atalho ou uma volta maior, só saberíamos depois, mas era preciso uma guinada, eu tentava elucidar esse problema e a encarava em seus olhos marejados, sem poder evitar dizer que eu precisava, eu nos queria antônimos.

 

  1. Síntese

 

Nós nos queríamos diferentes do que éramos. Do que havíamos sido e do que almejávamos ser. Ele me queria outra e eu o queria o mesmo. Ele não podia ser o mesmo, eu não podia ser outra. Ele arfava ao me explicar, eu chorava ao ouvi-lo. Ele então tirou minha blusa e me deitou na cama, devagar, alisando meus cabelos. Passei minha mão pelo seu ombro, desci pelo seu braço, acariciei sua barriga. Nos olhamos atentamente, como se descobrindo uma paisagem que havia sido ocultada por um nevoeiro antigo. Ele elogiou a maciez do meu cabelo e espalhou sua mão pelo resto do meu corpo, tirou minha saia. Eu elogiei a firmeza de seu tronco, de seus braços e desabotoei sua calça jeans. Te quero diferente, escutei-o sussurrar em meu ouvido, e dali sua língua enrodilhou o meu pescoço em um colar delgado de saliva úmida. Expirei com força, tentando interromper uma vaga qualquer que se agigantava dentro de mim e que meu corpo não seria capaz de dar conta. Te quero igual a todas as vezes em que te vi, respondi imediatamente, sentindo seu corpo nu avançar sobre o meu. E quando ele disse que não haveria como ficarmos juntos enquanto esperássemos coisas tão díspares um do outro, senti-o inteiro, em certa aspereza edulcorada e de um jeito que eu antes não conhecia, e ele respondeu com um gemido, um longo gemido, o ar quente expelido das narinas, demonstrando que nada precisava ser modificado.

Vivian Pizzinga é psicanalista e escritora. Lançou dois livros de contos (A primavera entra pelos pés, 2015; Dias roucos e vontades absurdas, 2013), ambos pela Editora Oito e Meio. Participou de antologias de contos (Clube da Leitura vols. I, II, III, Para Copacabana, Com Amor) e publicou textos ficcionais e de prosa poética no Jornal Plástico Bolha, na Revista Pesquisa FAPESP, na Revista Café Espacial, entre outros. Escreve críticas teatrais e outras resenhas para o site Ambrosia e contos para o Jornal Algo a Dizer. No momento, prepara-se para o doutorado em Saúde Coletiva e finaliza um romance.

 

 

 

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104ª Leva - 07/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Elizabeth Hazin

 

Valéria Simões
Foto: Valéria Simões

 

PRINCÍPIO DO FIM

 
Por que nada permanece inteiriço
em sua casca,
protegido?
um dia racha
e pela fenda
passam peixes e navios
fantasmas que na noite ganham vulto:
fogo, chama, fumaça

nada permanece inteiro
tudo se esgarça
assim é o intervalado texto do destino,
forrando a mesa

por que não se estende eterno,
se é tão fino?

por que não dura a inteireza?

 

 

 
***

 

 

 

FELICIDADE

 
É essa sombra que me passeia
essa possibilidade
………………………de ser
esse ser não sendo

alforje quase cheio
(menos que isso. Menos.)

nuvem oblíqua
em um céu de papel e tule

é essa consciência, talvez, de incompletude
ou da vida, reticente e vaga

é esse fio de navalha em que me equilibro
……..sem asa que me suspenda
……..ou mão que me segure

é essa trama em ouro e cobre
…….que na solidão do quarto se urde.

 

 

 

***

 

 

 

MAR DA CHINA

 

a minha mãe

 

 

Por sobre as ondas da China

onde se inscrevem palavras
todo o alfabeto navega
só pra você e pra mim
no oceano amarelo
–- puro caminho de água –
tudo é papel e nanquim
da China toda a beleza
(não fosse o mar, que seria?)
passa ao Japão das cerejas:
a porcelana e a seda
as invenções e a arte
(que norte enfim haveria
não fossem bússola e letra?)

 

 
***

 

 
POUR CAMILLE

A Camille Claudel

 

Quem modela a vida

(se tudo é forma
e belo
como flui o Sena) ?

Olha quanto é duro o mármore
e quebradiço
mas teu cinzel
sob o martelo o dobra
– é teu feitiço –
revelando segredos lá fincados.

Quantas vezes olhaste o rio
em frente à tua casa
e em que pensavas
rebelde menina apaixonada pelo Amor?

Esqueceste que não se molda o Amor:
sua matéria é vil
sua matéria é o nada.

Mas não estás só.
De certa forma
enlouquecemos todos
………………………..em asilos
………………………………..exílios
…………………………………………idílios.
Somos todos loucos
não tu só
com teus olhos azuis escancarados
olhando-nos do lado avesso do vidro
– tolo artifício:
não existe abrigo
contra a luz da loucura.

Deixa queimar até os ossos
(e não será tudo mesmo
reduzido a cinzas?)

Deixa arder fundo
pois só essa brasa
– que nos traz a morte –
nos ilumina.

 

 
***

 

 
LUX DELENDA EST

 

 

LUX DELENDA EST, alguém disse

e houve a escuridão

……………………..esse apocalipse –

manhãs e noites em confusão.
Era chegada a vez do Homem
– oh quão dessemelhante! –
homem e mulher, deles chegara a vez.
Onde o Paraíso
…………………………….– esta maçã –
no melhor pedaço, arrancada aos dentes?
era tudo agora pelo avesso
e viram como a vida é vã
……………………………………….. (é sempre vã)
e que tudo tinha fim
………………………………………. (como começo).

(Fosse um domingo talvez?)

Alguém sentenciou:
Não mais multiplicai-vos
e que não haja mais ódio sobre a terra
nem amor.
Dispersai-vos dispersai-vos
sem todavia esquecer a minha imagem!

Restavam, porém, os bichos
e o mesmo alguém falou:
Não mais seres vivos
………………………………………. – basta com tudo isso! –
não mais voem aves por sobre a terra
nem haja mais serpentes rastejantes
………………………………… ….segundo sua espécie.
Não mais animais domésticos
………………………………… ……………nem feras
de olhar faiscante.

Alguém achou que isso era bom
e como tudo mesmo fora já confundido
e já não havia precisão
de lua sol e estrelas
…………………………………… – a governar luz e trevas –
com um gesto
todos os astros foram abolidos
………………………………… ……….eternamente.
Aí cessou a erva verdejante
e não houve mais árvores
nem frutos com sua semente,
…………………………………. nem flor.
E as águas tornaram a mergulhar nas águas
não mais houve mares
………………………………….. – nem lágrimas –
nem terra de continente.

Desfez-se enfim o firmamento
e só aí então
esse alguém descansou.

 

Elizabeth Hazin (Recife-PE, 1951). Publicou Poesias (1974), Verso e reverso (1980), Casa de vidro (1982), Arco-íris (1983), Espelho meu (1985), Martu (1987), O arqueiro e a lua (1994). Em 2006, a Vieira & Lent reeditou uma segunda edição — revista e ampliada — de Martu, livro vencedor do Prêmio Rio de Literatura (1986) e foi publicado Lêgo & Davinovich (7Letras) escrito a quatro mãos com Davino Sena. Em 2010, a Vieira & Lent republicou Arco-íris e em 2014 publicou Mágica de Carrosel (infantil). Atualmente é professora Associada Plena junto ao Programa de Pós-Graduação da UnB, líder do grupo de pesquisa Estudos Osmanianos.

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104ª Leva - 07/2015 Destaques Olhares

Olhares

Entre mundos

Por Fabrício Brandão

 

Valéria Simões
Foto: Valéria Simões

 

Entre os vãos daquilo que imaginamos ou vivemos, um mundo explode à nossa volta. Dentro dele, desenham-se cenários, epifanias humanas, outras possíveis dimensões. Há que se falar no concreto das coisas e na sua projeção aparente. Há que se falar também em abstrações ou em como estamos diante de esferas intangíveis. E, quando não temos o controle imediato das situações, passamos a meros observadores desse jogo de representações que é a vida.

Quem fotografa lida com um universo de paralelismos. Num arranjo cênico moldado pelo cotidiano, os olhares se entrecruzam. Sujeitos e objetos captados pelas lentes rompem a noção de passividade e ganham um status de protagonismo. Assim, surgem novas maneiras de vislumbrar a existência. O fotógrafo, artesão da luz, é também arrebatado por toda a sorte de elementos que emanam do exterior como se estes últimos o escolhessem. Coexistem, num mesmo plano, as investidas do artista e a representação autônoma com que seres e coisas se apresentam.

Revertendo a tradicional visão das atuações, seria como afirmar que o fotógrafo é quem é eleito pelo seu alvo. Se por um lado tal constatação traz uma carga subjetiva muito forte, por outro, aponta para uma perspectiva através da qual cabe ao artista perceber certos atrativos sinais. Temos essa sensação ao contemplarmos o trabalho de Valéria Simões, sobretudo pelo fato de que as pequenas delicadezas contidas no dia-a-dia ganham destaque aos olhos da artista.

Registrar pessoas é algo que ocupa um lugar especial na trajetória de Valéria. Nesse aspecto, está em foco a habilidade de interferir o mínimo possível no curso natural dos personagens e seus respectivos ambientes. Como ela mesma confessou, numa entrevista concedida à Diversos Afins, o segredo consiste em se misturar da forma mais espontânea possível. E é assim que múltiplas faces são mostradas, tanto nos rostos retratados quanto em lugares nos quais as intervenções humanas deixaram suas marcas mais evidentes.

 

Valéria Simões
Foto: Valéria Simões

 

Por trás da rotina que envolve a tudo e todos, paira um manto poético com o qual a fotógrafa apresenta o grande palco da vida. São cores, formas, linhas, gestos a compor a dinâmica da existência. Os espaços urbanos revelam sentidos tanto de ocupação quanto de ausência, todos eles denotando uma simbologia própria.

A fotografia está na vida de Valéria Simões desde o início dos anos 1990. Alguns de seus trabalhos foram premiados dentro e fora do país. Participou de diversas exposições, tanto individuais quanto coletivas, no Brasil, Peru, Canadá e França. Em cinema, assina a fotografia de cena de filmes como “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (São Paulo – 2002) e “Trampolim do Forte” (Bahia – 2008). Fez de sua casa, em Salvador, uma verdadeira galeria, lugar onde recebe convidados, artistas e pessoas interessadas em adquirir suas obras.

Transitando entre mundos, os olhares de Valéria enaltecem o ritual singelo da vida. Diante da delicadeza e da simplicidade com as quais se depara, a artista não se furta ao ato de nos revelar que nas coisas costumeiramente despercebidas há sabores elevados.

 

Foto: Valéria Simões

 

 

* As fotografias de Valéria Simões fazem parte da galeria e dos textos da 104ª Leva

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.

 

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104ª Leva - 07/2015 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

Em busca da busca do tempo perdido

Por Maurício de Almeida

 

Capa Rebentar

 

  1. Rebentar: um romance

Rebentar é o novo livro do escritor Rafael Gallo. Sucessor do premiado Réveillon e outros dias (vencedor do Prêmio Sesc de Literatura na categoria contos 2011/2012 e finalista do Prêmio Jabuti 2013), Rebentar é o primeiro romance do autor, no qual destrincha uma situação delicada: após trinta anos de buscas, Ângela desiste de procurar Felipe, seu filho desaparecido aos cinco anos de idade.

Ao longo de quase quatrocentas páginas divididas em nove capítulos, o livro acompanha e analisa o processo de tomada de decisão de Ângela, perscrutando os altos e baixos, e, principalmente, as dificuldades e resistências que a personagem enfrenta para levar a cabo sua decisão. Decisão que é muito mais uma renúncia que uma desistência. Corroborando com esse parecer, destaco uma constatação-síntese da personagem principal, que surge em uma conversa com sua amiga e terapeuta e torna-se mote de seu processo:

“Eu não estou me dobrando a essa luta, feito alguém que gostaria de poder vencê-la mas não se sente capaz. Eu era assim antes, agora estou justamente me dando o direito de escolher outra coisa para minha vida. Quero deixar para trás essa batalha feita de desistências. Você conhece minha história, ninguém vai poder nunca dizer que eu simplesmente desisti” (pg. 77).

Dessa brevíssima sinopse e citação, seleciono duas ideias fundamentais ao livro: o tempo e a renúncia.

 

  1. Heráclito overdrive

“Ela sabia, desde o começo, que em algum momento teria de dar um adeus definitivo ao controle daquele espaço pertencente a Felipe […] Agora percebe que uma despedida sempre atravessa, indivisível, o passado, o presente e o futuro daquilo que se vai, iniciando-se antes mesmo da ausência e encerrando-se muito depois de se já ter perdido aquilo a que se diz adeus, o adeus que já não pode mais alcançar o que se foi” (pg. 252).

Para Heráclito, tudo é movimento. Partindo desse pressuposto, Simplício cunhou a máxima que é repetida incessantemente com o intuito de nos lembrar que, afinal e independente de qualquer esforço contrário, o tempo passa e é impossível revivê-lo tal como acontecido: não se pode percorrer duas vezes o mesmo rio. Essa máxima servirá de parâmetro a certa leitura que faço de Rebentar. No entanto, me apropriarei dela para um exercício hipotético a fim de explorar uma questão cara ao romance: o tempo.

A hipótese: uma pessoa mergulha no rio do tempo. E, nesse mergulho, em vez de percorrê-lo ou mesmo se deixar levar pela correnteza, agarra-se a um tronco estanque no meio do rio e, por motivos diversos, não o solta.

A razão pela qual não é possível percorrer duas vezes o mesmo rio Simplício mesmo explica: por causa da impetuosidade e da velocidade da mutação. À luz desse movimento perpétuo de tudo, a hipótese de resistência ao fluxo coloca outras questões: Que troncos são esses? Por que se ancorar nesse ponto e resistir ao fluir do rio-tempo? Quais são as implicações dessa resistência? Qual é o custo de abrir mão desse ponto de resistência? E, questão fundamental ao livro, como superar aquele ponto seguro e fluir?

O sumiço do filho é o tronco no qual Ângela se ancora. Obsessiva e exclusivamente dedicada à busca do filho, ela agarra-se ao tronco daquele momento e é toda investimento na conclusão do impasse, que, ao menos para Ângela, exige uma (tentativa de) suspensão do tempo: não à toa o quarto de Felipe é mantido tal qual ele o deixou, assim como a casa da família é restaurada a fim de que permaneça igual, pois isso significa não só uma forma de reconhecimento para o caso do retorno do menino, mas também uma prova de que eles jamais se esqueceram dele. No limite, trata-se também de uma tentativa de Ângela em reter o tempo naquele instante a fim de revertê-lo e impedir que a catástrofe ocorrida aconteça de fato.

Entretanto, ao perceber que três décadas se passaram, Ângela compreende que o estrago está feito e que resistir não é mais plausível, posto que mesmo aquele ponto de resistência expirou: encontrar o filho não é mais encontrar o menino de cinco anos, o garoto que reconhecerá a casa e dormirá o sono infantil em um quarto ornado de brinquedos, mas um homem de trinta e cinco anos para quem a casa ou o quarto ou mesmo os pais certamente não significarão nada.

Apesar da lógica imposta por essa descrição crua do tempo – afinal, é óbvio que, se se passaram trinta anos, o garoto de cinco terá trinta e cinco anos – para Ângela essa conclusão só é possível quando ela compreende (e, acima de tudo, sente) que, apesar de seus todos os seus esforços, o reencontro com o filho perdido é impossível justamente pelo fato de ser impossível conter o rio do tempo. Não por acaso, o livro é um debruçar-se sobre a questão fundamental: como superar esse ponto seguro (mas inviável) e fluir?

A implicação de resistir ao tempo é bagunçá-lo. Ângela percebe essa implicação ao concluir que manter um filho ausente é viver o passado e, portanto, negar o presente, impossibilitando o futuro. Assim, é possível depreender que o maior desafio de Ângela para superar o ponto em que esteve presa é rearranjar o tempo, compreendê-lo em sua dinâmica ininterrupta e deixar ao passado o que é do passado para correr ao gosto do presente – e o futuro a Deus pertence.

Mas o drama dela é complexo, pois reordenar o tempo é abandonar o passado e assumir a impossibilidade real de retorno do filho. Há muito mais contundência no fato do que na ideia – e esta é a força de Rebentar: captar e transmitir as implicações da escolha de Ângela e não reduzi-la simplesmente a uma eloquência vazia sobre o tempo. É sensível durante a leitura o empenho da personagem, suas perplexidades frente às resoluções que assume, suas fraquezas nos momentos mais difíceis.

 

  1. A busca da busca do tempo perdido ou insepulto corpo inexistente

Entretanto, apenas entender a dinâmica do tempo para reorganizá-lo não é suficiente à decisão de Ângela, pois ela precisa agir. Como executar sua resolução?

Após tantos anos de busca e contrariando todas as expectativas, Ângela opta pela renúncia: enterrar simbolicamente o corpo inexistente (e, portanto, insepulto) de seu filho é o único meio de libertar-se daquilo que a prende ao passado. Não sem enfrentar a pergunta: qual é o custo de abrir mão desse ponto de resistência? Pergunta, aliás, que pressupõe inúmeras resistências.

É possível dizer que tanto as resistências internas e externas que ela encontra ancoram-se na mesma prerrogativa: independente das circunstâncias, a maternidade implica em não desistir do filho.

Na medida em que decide suspender a busca por Felipe por aceitar a inexorabilidade do tempo, e isso acontece justamente quando se depara com um retrato de Felipe envelhecido digitalmente, Ângela se impõe questões inevitáveis: aquele homem atenderia por Felipe? Compartilharia do amor a ele dedicado apesar dos trinta anos de espaço entre eles? A consequência dessas questões estremece a certeza da prerrogativa com uma dúvida ao mesmo tempo cruel e libertadora: aquele homem seria seu filho?

A resposta de Ângela é não. Pois não só ela aceita o tempo, como também compreende sua ação: ainda que compartilhem o mesmo código genético, aquele homem não seria o filho dela. Isto significa encarar a constatação mais cruel e incontornável, mas única forma de subverter a prerrogativa e encontrar uma verdade subjacente: ela e o filho são pessoas distintas. E isso só é possível ao aceitar a inexistência daquele filho que ela conheceu, isto é, compreendê-lo morto. Essa constatação é tão fundamental ao processo da personagem que é a primeira e única vez que que ela assume a voz narrativa para explicitá-la – e não por acaso no momento em que ela se despede de Felipe:

“E eu guardei todas as suas coisas por tantos anos, enxergando nelas o espelhamento da minha esperança de que a vida pudesse se reordenar entre nós, mas… No fim, elas restaram sem nenhum sentido por não terem você. Elas existem apenas para serem suas. As suas coisas não são as minhas, filho; essa é a verdade que custei a entender. Protegi seu pequeno mundo como se fosse meu, mas isso só fez com que eu ficasse presa dentro dele. Eu cerquei ainda mais as paredes do labirinto onde me enclausurei.” (pg. 331)

Por razões diversas – algumas genuínas e outras escusas – Ângela tem de lidar também com as resistências impostas por aqueles que a cercam. Muito embora partam do mesmo princípio, essas resistências consideram a passagem do tempo um evento que não se sobrepõem à prerrogativa da maternidade. O fato de ter trinta anos ou não atender pelo nome Felipe não faz de Felipe menos filho de Ângela.

Talvez seja mais simples a quem está de fora pressupor a preponderância de tal prerrogativa, porque a esperança implicada na espera não afeta os terceiros da mesma forma que afeta Ângela. Aliás, para ela é uma questão de vida: enterrar Felipe (mesmo que simbolicamente) é a única forma de poder continuar viva, soltar-se daquele tronco fincado no meio do tempo é a única maneira de livrar-se do passado e viver o presente.

“Quando alguém que a gente ama morre, dói demais olha adiante sabendo que não existirá mais nenhum dia em que essa pessoa vai estar conosco no futuro: sua voz pela casa, seus gestos e toques, suas vivências. Eu nunca tive isso com você, ao olhar adiante; sua perda sempre se deu no sentido oposto: era quando eu olhava para trás, para o passado, que eu via os dias se somando sem você”. (pg. 332)

Dessa forma, a transfiguração de Ângela passa necessariamente pela reformulação da prerrogativa: ao aceitar/providenciar a morte do filho, ela pode recuperar o papel que possuía antes de ser mãe. Portanto, muito antes de uma desistência, ela realiza uma renúncia, que só é possível porque, ao assumir a ausência/morte do filho, ela pode abrir mão do papel de mãe. Assim, como a qualquer ser humano, cabe a ela viver o presente, aceitando que o passado já não existe mais. Ater-se a qualquer um dos tempos ignorando os demais não é viver, mas resistir – e em vão.

Por isso, Rebentar pode ser lido como um grande processo de luto. Na ausência do corpo, Ângela e o marido Otávio elencam e assumem mudanças que de alguma forma simbolizam o enterro do passado a fim de livrar caminho ao futuro. E o livro é o detalhamento desse processo, seus percalços e contratempos, que, afinal, nove capítulos depois, se realiza no ciclo mesmo da vida: um novo nascimento.

  1. Pais & filhos

Por si só, o mote do enredo é forte. Portanto, não é difícil arriscar que, para mantê-lo firme, o autor teria de desembolsar outros eventos tão ou mais catastróficos. (Estratégia, aliás, comum em certa literatura, que lança mão do armagedom a fim de fazer a narrativa andar.) Todavia, o autor é preciso na trama. O enredo desvia de pirotecnias narrativas para se dedicar tão somente ao tema eleito, aprofundando-o a partir dos personagens – sobretudo Ângela – e buscando suas múltiplas possibilidades de acordo com a história que conta.

E Rebentar flui. O estilo lírico e sempre elegante do autor (vide os contos do citado Réveillon e outros dias) possibilita um duplo movimento ao texto: explorar as profundezas dos sentimentos de Ângela e explicitar as tensões nos diálogos quase coloquiais que pontuam sua relação com os demais personagens. O interessante desse movimento é demonstrar as diversas camadas do processo da protagonista, que transpassam desde a contemplação mais silenciosa e angustiante do mar em um cais de porto até o diálogo mais terno com a afilhada Isabela.

Por fim, interessante notar como o autor revista alguns temas e estratégias de Réveillon e outros dias, livro de contos antecessor de Rebentar. Se no primeiro já havia a tendência de construir narrativas muito mais a partir dos personagens e seus dramas particulares do que submetê-los a uma trama mirabolante, essa tendência realizou-se plenamente em Rebentar.

As relações parentais é outro tema comum aos livros. Por exemplo, o conto Réveillon, um dos mais significativos do livro, explora a relação entre o filho surdo e prestes a partir numa viagem e seu velho pai recém viúvo – e essa situação é porta de entrada aos próprios personagens, pois a vontade de vida do jovem resulta na sensação de finitude que o velho experimenta – eis o conflito. Entretanto, como vemos claramente em Rebentar, essas relações marcadas por impossibilidades, ao contrário de impedimentos, convocam os personagens a providenciar soluções – e nos impele a revisarmos nossas próprias desistências.

Maurício de Almeida é autor de ‘Beijando dentes’ (Ed. Record), livro de contos vencedor do Prêmio Sesc de literatura 2007.