A cada passo dado, as sandálias do caminhante desgastam-se num ciclo irreversível. É o tempo com suas investidas e artimanhas. No mesmo instante em que se olha para trás, os rastros deixados já não são mais os mesmos. Inexplicavelmente, nossa capacidade de perceber o exíguo prazo de duração de um estar no mundo é inversamente proporcional ao que podemos reter de fato. Assim, anda-se muito. Assim, fala-se em demasia. Assim, perde-se o essencial da viagem.
É possível a fuga do mundo quando ele nos apresenta a sua face mais cruel? Nem sempre. Muitos dirão haver saída nos incontáveis manuseios da abstração. Outros verão a tudo com certa resignação e tentarão ressignificar viciadas paisagens. Alguns mais darão um beijo de língua nessa divindade chamada caos. Seja qual for a alternativa elegida, em tudo haverá um pacto, o qual, silencioso ou não, adentrará dias e noites convidando corpos e almas a refastelarem-se no grosso caldo da incerteza.
De toda sorte, há combates entoando seus cantos por todas as frentes. Se guerreamos, consentimos em deixar partes nossas nos vãos devastados e tentamos conviver com o saldo dos vestígios. Se nos omitimos, duras revoluções implodem nosso ilustrado castelo de cartas falivelmente projetadas. Por tudo isso, a desordenação das coisas até pode assustar hordas de desavisados, mas haverá quem vislumbre nela a oportunidade de olhar a tudo como uma outra dimensão da existência.
Foto: Ana Pérola
O que dizer, então, quando nos deparamos com as fotografias de Ana Pérola Pacheco? Arriscar na resposta uma ideia de que o caos nosso de cada dia é um lugar de aproximações. Se o mundo afugenta por suas complexas questões indecifráveis, a artista estreita os laços com o seu tempo, seu espaço e, sobretudo, sua gente. É uma predileção que não ressalta escolhidos, mas sim alça os seres a um patamar de igualdade entre si.
Numa dinâmica de comunhão entre pessoas, lugares e esferas intangíveis, Ana desfila seus olhos ante o girar da vida. O resultado é uma delicada apresentação do real segundo uma ótica que não negligencia as hesitantes intervenções humanas. Afinal, somos um barro cujos moldes apontam para sabidas imperfeições.
Quando a constatação das visões da vida nos revela a pungência das adversidades, aí então notamos o caráter essencial da expressão de Ana Pérola: poder observar as tensões mundanas e retirar delas saídas poeticamente imagéticas. Tal perspectiva não vem acometida por uma necessidade de redenção ou purificação diante de um mundo declaradamente conturbado. O viés adotado pela fotógrafa também intenta uma leveza que seja capaz de minimizar a solidão dos homens, propondo-lhes caminhos de aproximação.
Foto: Ana Pérola
Nascida no Rio de Janeiro e vivendo atualmente em Florianópolis, Ana também se dedica à literatura, tendo publicado poemas e ensaios. Mantém o blog Sentidos e é colaboradora do site Poesia: Falsidade Ideológica.
De mãos dadas com a poesia, a fotógrafa promove suas imersões num mundo que, por vezes, todos julgamos conhecer. Mas será que o sabemos de fato em sua inteireza? Melhor confessar que não, pois a pretensão é superior à concretude de nossas constatações. Assim sendo, Ana crê num caminho que constrói perspectivas, valorizando um ambiente no qual nossas humanas idades representem menos turbilhão e mais serenidade. E no âmago dessa busca, ela mesma nos diz:
Há quentura na sombra E há também frieza no vazio. Os pés que te levam É o meu retorno para o lado contrário Nossa estação de passagem Transborda fantasia Aguça a alegria do sonho Esquenta E danço, como o fogo quando queima a lenha Voo pr’um mundo que não sei, que não vi Desafio-me no olho do desconhecido, vibro Talvez eu ame algum dia. Talvez. E até dê flores aos Amigos Talvez eu me encoraje e abra a porta Dê descarga, deixo ir a sobrecarga Me banho na água do rio e vou Correnteza. Ser oceano.
Foto: Ana Pérola
* As fotografias de Ana Pérola Pacheco fazem parte da galeria e dos textos da 102ª Leva
Drama- tis personæ — mão — inversos toupeiros sem corpo — zuze — varanda aqui ao lado — Solitude Alfa — couraças múltiplas da insónia
27’6—2014
A
mão estende se abertamente, es-
tende-se na plenitude dos cinco dedos desocupadíssimos d’objeto,
estende-se a tatear com muita força o vazio inteiro, estende-se
enquant’as falangetas fremindo acerca de superfície nenhuma.
Perfeita ausência de texturas. Perfeita ausência de queimaduras.
A
mão estende-se abertamente, es-
tende-se a idealizar afagos no amplo dorso
do indomável nada.
31’12—2014
De-
monstrar
que as virilidades funcionam num modo subterrâneo
que as asas são escavando o vento
que as nuvens consistem no cérebro
d’inversos toupeiros sem corpo.
—
De-
monstrar
as profundas galerias do surdo olvido sideral
onde os cânticos se abortam
eternamente.
—
De-
monstrar
o interior do peito
o bunker do coração.
[3] 19’1—2015
Chamava-se
zuze simplesmente zuze
—
um raio de nome
tão fácil
tão onomatopeico — insetí-
fero.
Chamava-se
zuze simplesmente zuze
—
e na sua extrema gula cumpriu de-
vorar cidades inteiras.
[3] 27’1—2015 receando o inestético
Quão
luminosa a manhã.
Na
varanda aqui ao lado
uma abundância de cuecas estendidas
a querer ridicularizar-me o poema.
[4] 10’3—2015 Solitude Alfa
De
que vale alguém como eu rascunhando Solitude-Alfa passageiramente na muita azáfama de um caderníssimo diário oh perguntinha filhadaputa cuja resposta sabe-se lá. Nunca alcanço as importâncias daquilo que escrevo.
[4] 13’3—2015
Con-
juntura de
pálpebras sobre pálpebras sobre
pálpebras
couraças múltiplas
da insónia
ou arremessos de fosforescência
contra o noturno estuque
situacional.
É
como que o próprio quarto a regurgitar-me
nunca saberei
dizê-lo de outro modo
que resulte menos sísmico.
Os
meus cobertores
num vértice de tudo e de nada.
Há a infância da vida e a infância da memória. A primeira cabe aos vivos, a segunda cabe aos mortos. Todavia não a morte do corpo, a decomposição da matéria, e sim o cumprimento de um estágio, o tempo incinerado de uma existência, onde as lembranças perdem tiras da sua pele original que são preenchidas pela invenção. “Lugar comum”, seleta de contos com a qual a escritora Nara Vidal estreia na literatura adulta, está repleta dessas recordações entretecidas pelo novelo do encantamento que, paradoxalmente, ao se metabolizarem em ficção, passam a ser os registros mais fiéis do olhar de uma menina, a que ainda corre descalça pelos quintais com cheiro de bolo no interior de Minas Gerais.
Reconstruir esse mundo, portanto, é a forma possível de enxergar o presente, mesmo que o olhar dependa do filtro da escrita, pelo qual a vida vai incorporando detritos de fingimento que desgastam o verniz da realidade. Olhar além de si, além do território, além da concretude. Interiorizar-se para ocupar espaço. O escritor não deve ser produto do seu meio, mas criar um meio que seja produto da sua imaginação.
Nara sabe e trabalha muito bem isso. Há cerca de quinze anos residindo fora do Brasil, compreende que a literatura é o seu elo com a pátria-mãe. As palavras, que se estrangeiram cotidianamente aos seus ouvidos, resistem em português no papel, onde também ganham relevo dissabores e constatações desprazíveis da nação pretérita que sequer o desterro pode relevar. Assim, o livro se desenvolve sobre dois eixos de significação. As narrativas da criança, edulcoradas por laços familiares, pelo passeio por reminiscências dotadas de cheiros, sabores e quimeras, e as narrativas da adulta, embebidas por tonalizações mais retintas, ora melancólicas ora ásperas, o travo do desenfeitiçamento natural ao caminho rumo à finitude, pontuado por perdas, autoenganos e certezas incontornáveis. A qualidade literária, contudo, é singular em ambos os casos. O requinte da linguagem, o domínio técnico.
Reconhecida autora de livros infantis, Nara tem plena noção de que a única maneira de conquistar o leitor é dizendo a verdade; de modo que entrevistá-la é a oportunidade de ouvir verdades, de todos os tipos e tamanhos. Sem condicionantes e com uma “mineirice inglesa”, ela fala sobre a transição do olhar pueril para o adulto, as visitações às memórias, o uso da literatura nas escolas, o conflito entre educação e leitura, o mercado e os prêmios literários, a importância do conto, a relação entre produção e maternidade e a percepção estrangeira sobre a literatura brasileira. “Existe interesse, mas até onde vejo, me parece muito limitado e ainda visto como exótico”. Um papo sem lugar-comum.
Nara Vidal / Foto: Arquivo pessoal
DA – Na apresentação de “Lugar comum”, o escritor Alonso Alvarez chega à conclusão de que o livro tem “o gosto de vida”. Entretanto, é uma ideia de vida construída através de um mosaico de lembranças, de pequenos registros de um olhar infantil que naturalmente mistura realidade e fantasia. Voltar a esse tempo não seria mais contar histórias de uma personagem que a da menina Nara?
NARA VIDAL – Gosto muito da ideia embaralhada de ficção. “Lugar Comum” é muito pessoal, mas é ficção. Quis muito provocar o meu leitor com esse conceito de sonho, memória, mentira. Eu sou uma contadora de mentiras. Acho difícil relatar um fato sem que ele adquira acessórios no meio do caminho e vire uma baita invenção. A aleatoriedade das histórias no livro tem esse propósito de confundir até certo ponto. Falo muito de mim e falo de quem inventei, essa menina tão recorrente dentro da narrativa. Alguns contos escapam claramente da memória infantil. Foram esses que me deram mais condições criativas, feito “A caminho”, “A notícia” e “Vida de escritor”. Mas mesmo elementos relatados da minha infância vêm revestidos do distanciamento do tempo e do lugar. Eu não teria condições de criar esse mosaico de lembranças, ao qual você se refere, se não tivesse saído da origem. Falo de um lugar comum mas que não existe mais pra mim porque é todo feito de memória cada vez mais apagada, mais distante, que adquire, portanto, certo romantismo.
DA – Um lugar comum no qual a menina, na casa da avó, vê os primos chegarem “feito torneira aberta” e, ao lado da irmã mais velha, mostra que estão ali “pra brincadeira. Da séria”, como lido no conto “O táxi”. A maioria das narrativas é mobilizada por esse circuito de passagens, de toques, de cheiros e de sensações. A leitura aparece lá para o final, contudo focada numa experiência marcante, um encontro com um “livro de gosto ruim”. Como a literatura surgiu para você e qual foi o grau de contundência?
NARA VIDAL – Não sei se sua leitura é incrivelmente atenta ou se foi uma coincidência levantar o fato do conto “A leitura” ser o penúltimo do livro. Ninguém havia notado isso ainda, eu acho. O posicionamento daquela história ali, no fim, tem o significado particular e expressa o meu atraso para com a literatura. Enquanto crescia, durante a ditadura dos anos 80, não tive livre acesso aos livros da escola, da biblioteca. A figura da bibliotecária era feito um obstáculo a ser quebrado. Nada ficava nas nossas mãos. Escolhas aleatórias não eram permitidas. Faixa etária era seguida rigorosamente. Uma professora contava um capítulo de um livro uma vez por semana e me lembro disso com gosto. Meus pais, professores, estavam sempre envolvidos com as Letras, mas demorei a pegar gosto, seguir o exemplo. Fiz Letras porque gostava de escrever. Lembro-me das provas e dos livros de provas. Tudo era muito rigoroso, com propósito de notas. Não gostava daquele limite. Não conseguia sentir prazer naquela rigidez. No entanto, havia ali, do lado de fora da minha casa, no passeio, os casos. De adultos a crianças, todos nós contávamos histórias e era ali que eu me envolvia com a literatura, com as fábulas das quais gostava muito. A história, o conto, sempre me interessaram. A leitura da literatura chegou tardia, talvez no segundo grau, quando tinha relativa escolha, mas sempre com o propósito do teste, nunca pelo prazer, pela arte só. Na Faculdade de Letras, a literatura veio com força e de maneira irreversível, quando me deparei com professores como Edimilson Pereira, Godofredo de Oliveira Neto, Eucanaã Ferraz, Ana Cristina Meirelles, Ronaldo Lima Lins e Gloria Sydenstricker. Tudo foi muito impactante para mim e foi ali que disse sim para a literatura com comprometimento, com prazer, com até certa maturidade, já que antes a imposição me distraía e me excluía desse envolvimento.
DA – Você cita um equívoco que penso preponderante para entender o desinteresse de muitas crianças pela literatura: a obrigação da leitura com o único propósito de fazer prova. Isso é devastador para a relação entre livro e leitor, para o tempo de sedução que cabe ao texto. Outro caso é a aplicação de obras que não fazem parte do universo da criança, com uma linguagem erudita e temas alheios ao contexto em que vive. Você não acha que, ao invés de fomentar essa ladainha conveniente de que o Brasil é um país de não-leitores, não deveria se repensar o programa escolar, dar-se conta de que autores como Eça de Queiroz, Aluísio de Azevedo e José de Alencar, embora notáveis e imprescindíveis, não são os mais adequados para implementar o processo de introdução à leitura nas escolas?
NARA VIDAL – Falar desse assunto é o mesmo que mexer numa caixa de marimbondos. É um tema polêmico porque, no geral, a qualidade da educação pública, e muitas vezes a particular, é precária. Sem dúvida há professores que, além de qualificados, são comprometidos e apaixonados pela sua função. Mas isso é raro. Uma profissão maltratada e vista com descaso por todo governo que entra e sai não tem como oferecer qualidade. Esse é um dos pontos fundamentais, básicos. Em relação à introdução da literatura especificamente, muitas vezes isso ocorre com falhas que são passadas feito herança, feito tradição. Eu me lembro muito claramente do dia que fui apresentada a José de Alencar e sua Iracema. Batia muito sol na sala e senti uma vontade incontrolável de dormir. Nada do que era dito fazia sentido algum. Nós, alunos, não tínhamos referência de nada que se relacionasse com o texto. Não sabíamos nem mesmo o que era uma graúna! Foi uma experiência penosa, não menos solene. Eis um dos grandes problemas: a grande literatura é apresentada de uma maneira tão preciosa, tão erudita, que ali mesmo, naquele início já cria distanciamento e exclui muitos leitores. É como se aquela experiência fosse para poucos e raros. Minha filha, que estuda numa escola pública da Inglaterra, já ouviu falar de Shakespeare, Roald Dahl, por exemplo. Mas você veja que nada é apresentando de maneira cerimoniosa. Os livros e as histórias desses autores são naturalmente inseridos no dia a dia e identificados e aplicados em assuntos diversos. Depois, mais na frente, vão ouvir de novo sobre os mesmos autores e, quem sabe, até ler suas obras na íntegra. Aí, já terão outra bagagem e poderão identificar uma leitura diferente daquela de início. Há iniciativas no Brasil que tentam implementar planos assim e sinalizar uma mudança. Já é um passo e tanto pra frente. Eu acredito que seja possível introduzir gentilmente as nossas literaturas brasileira e portuguesa clássicas aos leitores iniciantes. Mas é preciso fazê-lo com democracia. É necessária uma visão além do texto. Propor discussões e temas que cercam “Iracema”, por exemplo. Podemos falar do “descobrimento/invasão portuguesa”. Podemos falar de tribos, línguas e culturas indígenas. Podemos atrair o leitor e indicar que aquela literatura, mesmo sendo grande e rica, é uma leitura acima de tudo e pode ser compreendida porque é embasada por elementos que podemos reconhecer no nosso cotidiano. Mas fazer isso sem reconhecer os professores através de salários altos, ou pelo menos justos, não será possível.
DA – Concordo plenamente. Sem um embasamento contextual, a identificação torna-se alheamento e, daí, as consequências são o desinteresse e o trauma. Contudo, assim como ocorreu comigo, essa experiência ruim não arrefeceu a chama da escrita. De onde vem esse desejo de contar histórias, e qual é a primeira lembrança de ter escrito algo que lhe desse orgulho ou, ao menos, coragem para tornar público?
NARA VIDAL – Tenho escrito cada vez mais contos. Tenho muitos na “gaveta”. Nos contos gosto tanto da história embrulhada neles quanto da passagem de palavra por palavra até o fim. É uma atividade que me dá muito prazer, escrever contos. Com o livro “Lugar Comum”, eu senti vontade de compartilhar as histórias e criei uma página no Facebook com o mesmo nome. Foi interessante observar as leituras que eram feitas. Mas você mencionou uma palavra importante pra esse processo de escrita e leitura: coragem. Falta-me certa coragem na maioria das vezes e vou te contar que já enviei muito material com pseudônimo. O motivo disso é insegurança. Insegurança que é, aliás, poderosa ferramenta do escritor. Sem ela não há melhora, não há procura, não há investigação nem releitura. Já publiquei coisas movidas por pura ansiedade e que não publicaria hoje. Mas não me castigo por isso. Tudo faz parte de um processo e esse é o meu. E há coisas que escrevo que sinto vontade de contar. Com coragem, compartilho.
DA – Mas você concorda que um autor nunca caminha sozinho? Há um dado momento do percurso literário que a presença de alguns autores consagrados passa a ser fundamental, não como destino, mas feito bússolas com as quais o texto vai adquirindo compatibilidade, feições estruturais, e todo novo livro, de alguma forma, acaba por fazer parte desta gestação abstrata, uma amálgama de referências de maior ou menor intensidade. Em qual momento você encontrou os escritores que caminham contigo até hoje, e quem são eles?
NARA VIDAL – De certo! Antes de sermos autores e escritores, somos leitores. Pelo menos deveria ser assim. Eu li uma entrevista do Milton Hatoum em que ele dizia que a meta diária dele era escrever dez linhas e ler cinquenta. Faz todo sentido, não? Há muita confusão em relação à produção escrita, mas continuo achando que a preparação para um bom texto precisa ser a leitura, não necessariamente a própria! Eu tive um período muito ambicioso na faculdade de querer escrever poesia. Lia Baudelaire, Mallarmé, Florbela Espanca… Sou apaixonada por Shakespeare, particularmente seu material menos conhecido: os sonetos. Na conclusão de qualquer texto meu, tento achar algo aproveitável de forma atemporal. Mesmo que limite períodos históricos, o que geralmente acontece, gosto de procurar uma leitura que independa de condições. Sou louca por Macbeth. Aquela tragédia nunca saiu de moda. Há tantas interpretações para os personagens, que uma releitura é possível com frequência. O alfinete de Shakespeare espeta em todos os defeitos do ser humano dentro daquela peça. A ambição, a covardia, a família, o papel dissimulado e manipulador da mulher por trás do homem, a vingança, a loucura, a vaidade. Ainda dentro do teatro, que tanto gosto, Moliére, assim como Shakespeare, me interessa profundamente. O disse-me-disse, os desencontros cômicos, são elementos que tentei empregar, claro, dentro da minha capacidade, nos meus dois livros adolescentes. E claro, há autores que eu leio e admiro, aprecio seus estilos, suas técnicas, suas narrativas de força, impacto. Rubem Fonseca é um deles. Gosto particularmente dos seus contos. Guimarães Rosa me envolve com sua narrativa poética, com seu neologismo feito de terra batida. Gosto do João Carrascoza pela delicadeza do simples. Gosto do Godofredo de Oliveira Neto pelo refinamento nos seus romances. Lydia Davies pela narrativa extra curta e humor. Neruda e Bilac para falar de amor doído e/ou platônico. Sylvia Plath me intriga. Confesso que não consigo ler nada dela sem, de imediato, relacionar à sua vida breve e trágica. Tenho lido alguma coisa do poeta inglês Philip Larkin, coisas escandalosas para uma para uma moça de passado católico! Ivan Lessa tem sempre minha leitura. Temos em comum, Londres, a Inglaterra. Seu sarcasmo, humor e certa melancolia nas crônicas sempre me fisgam. Sinto-me em boa companhia quando fala da sua desistência e impaciência em relação ao Brasil. Agora, aqui no final, me dei conta de que você me colocou num mato sem cachorro, já que falar dos escritores preferidos e que nos acompanham é algo tão injusto quanto impossível.
DA – Pois é. Mas, além da armadilha, fica essa bela estamparia de nomes, não? Penso que a percepção sobre um bom autor se inicia por suas referências, e as suas são de alto quilate. Também sou fã de muitos desses nomes. Agora, interessante citar o Lessa, pois vários contos de “Lugar comum” têm mesmo esse travo, esse olhar meio zombeteiro, meio amargo, sobre relações de brasileiros com territórios estrangeiros. “Estreito de Dover”, por exemplo, narra a viagem de uma família mineira pela Europa, até se deparar com a “inteligência” de um banheiro público alemão. Ainda que conduzido com leveza, é um texto com um teor bem ácido. E isso acaba por tornar o livro um tanto agridoce, concorda? Há os contos da infância, recheados de passagens edulcoradas, e os contos adultos, marcados por esse sarcasmo impiedoso, esse certo desencanto.
NARA VIDAL – É interessante que o meu editor, o Marcelo Nocelli, que escreve lindamente, notou qualquer coisa do Lessa nos meus textos quando apresentei a ele o original do livro. Os textos que estão mais distantes daqueles da infância são mais amargos sim. Parece-me natural que seja assim. Só a infância pode suportar, em vivência e em texto, a doçura. Depois ela passa a enjoar, enojar. É preciso usá-la e prová-la com parcimônia. Há também enorme falta, saudade nos textos: minha mãe. Ela foi uma mulher muito culta, atenta às artes, sensível. Sexta-feira era dia de folga dela, na escola. Na folga fazia faxina. Elis enquanto limpava a sala, Chico a cozinha, Betânia nos quartos. Era uma força da natureza aquela mulher. Fez um buraco quando foi embora. Os textos adultos relembram sua presença e lamentam sua ida. Vamos guardando a doçura da lembrança numa caixa dentro do armário e o sarcasmo, o desencanto, certa amargura vão ocupando seus espaços também grandes. Mesmo na ficção, esse processo de vida vai formando nossa escrita, criando certas características. Mas o bom humor salva. Vide Lessa!
DA – Mas é importante salientar que, há quase 15 anos, você está fora do Brasil. Como este olhar estrangeiro, essa ambientação fora da pátria, teve influência na sua literatura e o quanto isso é/foi importante para o fortalecimento do seu processo de escrita?
NARA VIDAL – No que se refere ao processo criativo, a minha distância geográfica do Brasil talvez tenha mesmo impulsionado a minha escrita. A minha permanência aqui promove a mim diariamente pontos de vista e um olhar estrangeiro em profundo exercício. Veja que, em setembro, faz quinze anos que eu cheguei em Londres e ainda hoje procuro manter meu olhar de fora. Ainda tenho certa dificuldade no ajuste cultural, ainda tenho choques de diferenças, ainda chego atrasada na terra do Big Ben, algo que é realmente lamentável, reconheço. Ao mesmo tempo, meu distanciamento do Brasil, mesmo que não seja aquele emocional, me faz valorizar o beijo no rosto do brasileiro, e apreciar o aperto de mão do inglês. Na criação de “Lugar comum”, tenho certeza que os textos aconteciam por pura teimosia minha em querer registrar o que não é mais possível, não só pelo tempo já passado, mas por eu ter começado a criar raízes próprias aqui. Meus filhos não são brasileiros, portanto houve uma motivação para escrever sobre o que foi uma infância mineira com toda a sua simplicidade e sua glória. Sinto a Inglaterra como território fértil para minha criação. Há uma certa paz, ordem e calma que, para mim, funcionam como elementos opostos à melancolia, ansiedade, saudade, caos que levo dentro do que escrevo, apesar da certa calma aparente que pode se refletir no meu trabalho. Além de tudo isso, dessa minha inadequação tanto aqui quanto no Brasil, já que sou eternamente o “meio do caminho”, condição difícil de aceitar, encontro na Inglaterra um país que me dá oportunidade para trabalhar como escritora. E o que acho mais bacana é a discrição em tudo que o inglês promove. Aqui a gente não vê festas de lançamento, feiras literárias em todo canto, facebooks de autores “bombando” (risos). Há bem menos festa e consideravelmente menos vaidade aparente. Mas o que você vê é gente lendo no trem, no ônibus, no metrô. Gente de toda idade. Vê livrarias cheias. Vê bibliotecas lotadas, confortáveis, sedutoras, modernas, com recursos. Eu sempre digo que há uma certa mineirice no inglês: trabalham duro, mas trabalham quietos. Eu, como tenho uma produção de livros infantis, trabalho muito no Brasil exatamente em lançamentos, feiras, escolas. Precisamente o que não tem muito por aqui. Mas me dá imenso prazer essa possibilidade de observação do estrangeiro. Para mim vale feito um privilégio, tanto no meu dia a dia quanto na minha produção literária.
DA – Queria falar justamente dos livros infantis. Curioso que eles surgem na sua trajetória literária antes do que se poderia chamar de ficção adulta, muito embora seus contos tenham uma influência direta da sua infância em Minas Gerais. Por que isso? Foi proposital iniciar com a literatura infantil ou surgiu a oportunidade e você embarcou nela?
NARA VIDAL – Eu nunca na minha vida imaginei escrever livros infantis. Esse universo era muito distante de mim. Aí veio minha filha. Com ela, a aquisição de duas línguas simultaneamente. O bilinguismo sempre me maravilhou. Estudei alguma coisa sobre isso na faculdade. Quando ela começou a crescer e a falar, mergulhei no assunto e escrevi uma série bilíngue que vendeu incrivelmente bem. Foram três livros. Aí, por questões editoriais, a série acabou. Porém, o assunto é fascinante e eu tenho um trabalho novo nessa área. Desenvolvi uma espécie de material bilíngue que pode ser aplicado em escolas, tanto para o aprendizado da segunda língua, no caso o inglês, quanto para o processo do desenvolvimento da língua materna, o português. Foi escrito inclusive com livro de atividades, feito material mesmo. Tem uma editora analisando a proposta para apresentar em escolas. No entanto, o meu grande sonho, que é ver o inglês desde os seis anos nas escolas públicas, fica cada vez mais distante. Não há prioridade na Educação no Brasil e a implementação de uma ideia assim teria como primeiro obstáculo a falta de professores capacitados e treinados para ensinar a língua estrangeira. Nos “cafundós do mundo”, conforme falamos em Minas do lugar onde Judas perdeu as botas, não existe facilidade assim. Muitas vezes nem nas capitais existe facilidade tal. Uma pena. Nunca vai existir igualdade social dentro da Educação, enquanto o ensino do inglês for negado às escolas públicas. A desvantagem começa aí e, lá para a frente, já sabemos como a história termina. A série bilíngue foi adotada em muitas escolas, todas particulares, infelizmente. Meus filhos são uma enorme fonte de inspiração para meus infantis. Estou envolvida até o pescoço com essa aquisição da arte e da criação de literatura infantil. Administro uma oficina para 11 alunos, toda semana, sobre literatura e produção de histórias. Isso me deixa com vontade de continuar a escrever literatura para criança. Revigora a gente, sabe? Apesar do mercado, apesar das políticas de Educação, apesar dos pesares.
DA – Seus filhos vivem e estudam na Europa e, obviamente, têm uma relação com a arte, em especial com a literatura, que, imagino, você não teve, que muitas crianças ainda não têm no Brasil. Da sua experiência com literatura infantil, acredita que existem diferenças práticas na maneira de introduzir o livro nesses universos distintos? Qual método que funciona bem aí que poderia ser adaptado por aqui?
NARA VIDAL – Você tem razão. A relação que eu tive com a literatura e as artes, quando criança, é muito diferente da que têm os meus filhos. Eu, com esse meu tempo de observação por aqui, fico achando que o segredo da popularização da literatura e das artes em geral é a familiarização dessas expressões desde muito cedo. Parece-me que a arte entra na vida das pessoas de forma muito natural por aqui. Principalmente não enxergo, nas escolas, a literatura como privilégio. Vejo que por aqui as artes, inclusive a literatura, são introduzidas de forma muito democrática. Não há também uma supervalorização. Explico: se um adolescente não se interessa por literatura clássica, a escola, os professores, não tendem a excluí-lo como se fosse a apreciação pelas artes clássicas um divisor de águas. Vejo também a História sendo revivida e reapresentada incansáveis vezes. Datas, dias, são menos importantes. O que se discute mais, ao invés, é o impacto que determinada batalha teve para o país. É difícil traçar comparações entre aqui e o Brasil. Talvez seja mesmo impossível. Acho que a Inglaterra pode aprender com o Brasil a ser mais amorosa no trato com as crianças. Mas vejo muita qualidade na Educação daqui, apesar de certa frieza que nós, latinos, gostamos de enxergar.
Nara Vidal / Foto: JL Bulcão
DA – Já que estamos nessa seara de filhos, gostaria de lhe propor uma questão de cunho mais pessoal. Eu tenho uma filha pequena, que também é a minha maior fonte de incentivo e de inspiração, contudo, de maneira prática, no que se refere a tempo, concentração e solidão, elementos fundamentais para o processo da escrita, ter de lidar com a paternidade foi aprender a trabalhar com períodos diminutos, muitas vezes distribuídos durante o dia. No seu caso, a maternidade provocou esse choque com a literatura? Nara, a escritora, teve de se adaptar a esse novo contexto e planejar seus horários para o texto?
NARA VIDAL – Outro dia fomos visitar a casa do Roald Dahal. Ele tinha um escritório no jardim da casa, ia para lá às 10h e escrevia até o meio-dia. Almoçava, descansava, escrevia. Às duas da tarde, tomava gim tônica e escrevia até às cinco. Isso praticamente todos os dias. Senti uma inveja gigantesca daquele respeito pelo ofício meio ocioso de ter ideias e escrevê-las. Você sabe que às vezes elas demoram a aparecer de forma consistente. Quando os filhos entram nesse cenário então… É uma coisa louca aqui porque escrevo em qualquer momento livre que tenho. Qualquer um! Ultimamente tem sido ao som de robôs, transformers, essas coisas. Aprendi a trabalhar assim, senão não escrevo. A única coisa que ainda preciso aprender é lidar com interrupções. Se isso acontece e eu estou mergulhada no texto, acho difícil parar e voltar. Eu aprendi a adaptar meu trabalho ao ambiente. Mas confesso que adoro a solidão. Gosto tanto que, nas raras vezes em que estou sozinha, não consigo escrever porque fico apreciando a calma, o silêncio. Meus filhos sabem que meu trabalho é ler e escrever. Mas isso não significa que pratiquem o respeito e não vão parar debaixo da minha mesa num pique-esconde qualquer. Além de tudo isso, aqui na Inglaterra a gente normalmente faz todo o trabalho doméstico sozinha, sem ajuda. Quando as crianças estão na escola, preciso escolher entre trabalhar, cuidar da casa ou fazer comida. Gosto também de acordar antes da casa, ainda no escuro, fazer um café e começar o dia em calma. Mas essa paz não dura; ainda bem, diga-se! Fora isso, tenho suporte e, vez ou outra, viajo no fim de semana só para ver a solidão de perto e colocar ideias no papel. Ou se não conseguir escrever, experimentar artes novas. Preciso desse tempo e consigo tê-lo, vez ou outra. É feito aquela respiração profunda que a gente faz para encontrar energia. A inspiração dos filhos vem mais da convivência, da simplicidade das coisas, de uma ida ao parque, ao mercado. As perguntas que fazem, os pontos de vista, as opiniões deles são sempre fontes inesgotáveis de observação e admiração minhas.
DA – Recentemente, participei de uma mesa no Festival Nacional de Contos, ao lado dos escritores Carlos Henrique Schroeder, Altair Martins e Walther Moreira Santos, na qual falamos sobre concursos e prêmios literários. Ao fim, chegamos a uma conclusão não muito animadora, que honraria tem um peso muito mais particular que de servir como trampolim para a carreira do escritor. Você conquistou o Prêmio Brazilian Press Awards, em 2013, e, no ano seguinte, o Maximiano Campos, na categoria Contos. Qual o efeito que essas distinções tiveram no caminho do novo livro, da apresentação do original até a publicação?
NARA VIDAL – Há pouco tempo, eu estive na Flipoços com o fantástico Luís Serguilha, por quem tenho grande afeto e admiração. Numa mesa de bar, falávamos disso e ele me fez rir dizendo que os prêmios só servem para pagar as contas. No meu caso, nem isso! Para falar a verdade, quase nunca participo de concurso. Participo de poucos. As editoras também cuidam dessa parte. Mas tenho muita preguiça da burocracia dos concursos no Brasil. Geralmente desisto enquanto penso se participo ou não. O Maximiano Campos, por exemplo, foi inscrito online. Um avanço, uma maravilha! Daí, participei. Além disso, não posso participar de vários concursos porque não sou residente do Brasil, outra maluquice das regras, na minha singela opinião. O Press Awards é um prêmio e para ele eu fui indicada, o que é muito bacana. No fim das contas, o que eu já ganhei só serviu para um tapinha nas costas de cinco minutos. Depois a gente cai na real, vê que não tem importância e sai em busca do trabalho de novo. Não sei se é assim para quem ganha um dos prêmios de maior prestígio no Brasil, feito você que ganhou o Prêmio Sesc de Literatura? Mas acredito que aí seja outra história. Deve ter te trazido a glória, o prestígio, a fortuna! (risos). De qualquer maneira, a única coisa que deve importar, no processo de criação, é a busca pelo pote de ouro no fim do arco-íris, ou seja, a qualidade total da escrita. Essa insatisfação e impossibilidade devem ser o fio condutor do ofício, do desejo de aprimorar, de praticar, de trabalhar.
DA – Sim, eu fiquei bem rico. Hoje, além de escrever, tenho uma fazenda onde crio cronópios e famas (risos). A glória teve a duração de um ano. Tem uma tradição entre os ganhadores do prêmio que a passagem da faixa de miss. Para aqueles que não sabem, além do lançamento do livro, o Sesc também leva o novo autor para vários eventos, em vários cantos do país, durante este período. O ano de miss. Já o prestígio é relativo. No meu caso, não garantiu que eu continuasse publicando pela editora que lança as obras vencedoras. O que me leva a uma questão: você chegou a apresentar o original de “Lugar comum” para alguma das editoras brasileiras consideradas de grande porte? Ou, assim como no caso dos concursos, a burocracia, a espera, a expectativa fizeram com que nem tentasse?
NARA VIDAL – Cronópios e fama… Bela criação, Sérgio! Eu entendo e percebo esse prazo de validade em relação à divulgação e à badalação de um livro. Somos um país de cada vez mais autores e menos leitores. Há muita competição por espaço, por prateleira, por leitura. Ontem li um conto seu publicado pelo Formas Breves, “Terra do nunca”. Tocante. Você é um talento. Mas tenho certeza de que gente de calibre de fato já te disse isso. Só não li suas outras publicações porque não encontrei em e-books. Olha, vou te dizer uma coisa: eu nunca tive a ambição de mandar original meu para aquelas editoras grandes, dos prêmios. Não posso ser hipócrita, pois claro que gostaria de ser editada por uma delas. Não há escritor sem vaidade, será que você concorda? Afinal, quem pensamos que somos ao escrever algo que acreditamos ser relevante o suficiente para ser publicado, lido por um tanto de gente? Há vaidade e vaidade. Melhor ficar com a primeira… (risos) Mas não saberia nem por onde começar em relação a apresentar originais aos grandes grupos editoriais. No entanto, apesar do mercado se mostrar cada vez mais estreito, vejo com extremo otimismo o surgimento de editoras novas ou até independentes. São, na maioria das vezes, espaços fundados por gente apaixonada por literatura que, de uma forma até romântica, luta pelas Letras. Eu acho isso muito comovente. Eu tive três propostas de edição do “Lugar comum”. Fechei com a Pasavento porque senti uma afinidade entre mim, Marcelo e Rennan. Deram-me uma leitura atenta, com críticas, comentários. Ouvi de um editor uma vez que o meu texto era irretocável e estava pronto. Saí correndo e nunca mais consegui olhá-lo com seriedade. Mas eu gosto de variar editoras. Faço isso com os infantis. É uma forma excelente de provar formas diferentes de trabalho, encontrar afinidades ou concluir que não há nada em comum. Acho importante para ganhar experiência. Dito isso, há editoras com as quais eu trabalharia sem parar. Sobre as editoras grandes… Já pensou, ter seu livro lá na prateleira de entrada de uma grande livraria? Deve ser bom!
DA – Muito grato pelos elogios! Fico feliz. Como também é uma alegria ler sobre editores que trabalham junto ao autor, visando exclusivamente a qualidade literária. Também tive essa sorte na Confraria do Vento, que publicou meu segundo livro. O caso é que nem sempre é assim. Com a proliferação de novos selos, cresceu de modo exponencial o número de novos autores, muitos dos quais imaturos, com potencial, mas ainda precisando de um tempo para robustecer seu texto; o que, a meu ver, deveria ser o papel do editor, pegar o cara e dizer: “Espera um pouco. Não publica agora. Vamos melhorar esse original”. Encarando dessa forma, você não teme que, com a enxurrada de novos autores despreparados, chegaremos ao ponto de nivelarmos a literatura brasileira por baixo? A tal democratização não poderia ser, a longo prazo, uma maneira de se consolidar alguns privilegiados?
NARA VIDAL – Olha, eu concordo com a sua colocação de que é trabalho do editor cuidar do texto e filtrar o que chega, se apresenta. Recusar, lógico. Claro, o escritor, por mais detalhista, perfeccionista, auto-crítico que seja, sempre vai querer a publicação do seu texto, por isso ele o envia para editoras. O autor não tem o distanciamento do seu texto necessário para avaliá-lo. Daí a leitura do editor ser tão importante. Claro, quando explicam a razão da recusa, é muito digno. Mas, às vezes, o escritor não encontra uma editora: encontra uma gráfica. No entanto, vivemos tempos interessantes: há uma moçada que lê muito. O que lê? Bom, aí nós caímos naquela questão da literatura elitista que eu não curto. Acho tão esnobe quando se cria essa opinião comum de que os best-sellers, principalmente os brasileiros, são literatura de questionável qualidade! Essa postura só serve para perpetuar o que já discutimos aqui: a literatura, essa rara e sofisticada forma de arte, privilégio de poucos. Isso é muito negativo e tem o impacto exatamente no número de leitores no Brasil. Eu acredito que leitura é leitura. Cada um no seu tempo, na sua hora, na sua maturidade, vai chegar ao que todos classificam como literatura clássica. Uns vão demorar pouco, uns vão demorar muito. Outros não vão conseguir gostar. Não vejo problema nisso. Não acho que só o que eu li na Faculdade de Letras e só o que a mídia e os prêmios classificam como alta literatura seja a única forma de leitura aceitável. De uma certa forma, o mesmo se aplica aos escritores. Hoje em dia só não publica quem não quer. Há inúmeras editoras que cobram do autor e prometem editar. Há a auto-publicação. A Amazon oferece aqui um serviço de livros em e-book e físicos que você pode publicar em menos de uma hora. No final das contas, um livro mal editado e de um escritor ansioso que publicou antes da hora pode ficar tão empacado quanto o de um imortal da ABL. Gosto da democratização, de certa igualdade na oportunidade de publicar. No entanto, sabemos bem que o que é bom é relativo e, por isso, talvez seja verdade que um tipo de literatura não tira o lugar da outra.
DA – Desse tempo em que você está fora do país, tem acompanhado o que ocorre na literatura contemporânea brasileira? O que chega por aí de maneira espontânea, fora das autopromoções das redes sociais?
NARA VIDAL – Acompanho sim. É a minha área não só de interesse como de trabalho. Sigo tudo o que está ao meu alcance. Pouco daí chega aqui, pouco daí é amplamente conhecido aqui. Preciso ressaltar que falo sobre o que eu vejo e sobre o que vejo na Inglaterra. Existe a FlipSide, da Liz Calder, a mesma idealizadora da Flip. Esse evento, bem pequeno, acontece em outubro, em Suffolk, um lugar pitoresco, bonito de se ver. Pelo tamanho do evento, ainda é possível encontrar e conversar com os autores de maneira mais espontânea que na Flip, por exemplo. É um charme. Em 2013, estiveram por lá o Milton Hatoum, Adriana Lisboa, Ferrez e um tanto de nome bacana. Ano passado veio a Socorro Accioli, por exemplo. Além disso, há, nas universidades, os departamentos de estudos latino-americanos. Vez ou outra, há alguma arte nossa representada lá, seja em literatura, seja na música, seja na dança ou nas artes plásticas. Há poucas semanas, estive na University College London, com a Sylvia Morgado e o Dedé Laurentino, e falamos para uma plateia de brasileiros, veja bem. Eu participei de uma mesa do Cheltenham Festival, o maior por aqui, falando sobre Brasil. Existe interesse, mas até onde vejo, me parece muito limitado e ainda visto como exótico. A Embaixada e o Consulado também se esforçam para divulgar a nossa literatura aqui, mas esbarram em obstáculos financeiros, por exemplo.
Nara Vidal / Foto: Louis Hallam
DA – Um tanto desanimador, não? Mesmo com o crescimento dos autores, das feiras que homenageiam o país, da pluralidade da literatura contemporânea brasileira, ainda persiste essa visão do exótico, do pitoresco, do regionalismo, além das nossas fronteiras. Desses eventos europeus que participa, qual o tipo de pergunta recorrente? Já se pegou tendo de explicar que não somos índios fazendo sinal de fogo?
NARA VIDAL – Bom, se existe o desejo do escritor brasileiro de ser reconhecido por aqui, na língua inglesa, é de fato desanimador. Mas desanimador mesmo é esse estereótipo. Um tanto cansativo também. Essa foi precisamente a minha tese de mestrado aqui, na London Met. Falei sobre a imagem e o estereótipo brasileiros, com foco em Minas. A imagem, como sendo a experiência e o estereótipo, aquilo que motiva a experiência. Fiz um “focus group” com britânicos para a minha tese e, de dez, só um tinha ouvido falar em Minas Gerais. Mesmo assim porque é um “lugar não longe do Rio que não tem praia.” A minha tese foi publicada aqui e está disponível na British Library. Ofereci ao Governo de Minas, mas não tive resposta. Desenvolvi no trabalho exatamente a tentativa de destruição do estereótipo brasileiro, propondo saídas concretas para o aumento da visibilidade de Minas nas brochuras de turismo. Cheguei a falar de Juiz de Fora e suas riquezas mais óbvias, como Murilo Mendes, Rubem Fonseca e Mariano Procópio que, mesmo não tendo nascido em Juiz de Fora, foi juizforano. Falei da arte barroca, dos trens de ferro, da História, da culinária. Mas mesmo assim, o Rio e as praias ainda são o Brasil. Algumas impressões não são estereótipos, são realidade. A violência é um enorme obstáculo para atrairmos o olhar estrangeiro desconectado da noção de exótico. No festival literário de Cheltenham, para quebrar o gelo, contei a história de quando fui a um aniversário em Oslo e, lá, os amigos noruegueses do meu marido aguardavam ansiosamente a presença exótica da brasileira. Cheguei, sentei-me à mesa, bebi, comi e, à certa altura, um deles comentou que não tinha ainda visto a tal brasileira. Olhei para os seus curiosos olhos azuis e quebrei o encanto: a brasileira era eu, feito ele, também tinha olhos azuis e era loira. A partir dali, contei pra ele sobre o sul do Brasil e seus alemães, sobre o sudeste e seus japoneses, italianos, sobre o nordeste e seus holandeses, sobre todas as cores que nos enriquecem. Já o estereótipo da nação do futebol, pelo menos aqui em casa já foi massacrado. Minha filha sabe bem que o Brasil é perna de pau, pois me viu derrotada naqueles 7×1 até hoje inacreditáveis.
DA – Falando em massacre, não sei se acompanha essa polêmica do conto aqui no Brasil. Esse olhar enviesado para o gênero, sob o argumento de que não vende, de que não há um interesse robusto dos leitores pelas breves narrativas. Hoje temos a soberania do romance, inclusive com algumas editoras percebendo a literatura brasileira estritamente nesse formato. O que pensa sobre essa discussão? Como avalia a importância do conto, na esteira do lançamento da sua antologia?
NARA VIDAL – Eu acompanho sim. Engraçado que, há um ano, eu e mais três autoras queríamos escrever um livro juntas. Eu pensei em contos e até cheguei a propor. Na hora vieram comentar que conto não vende. É impossível eu comentar sob o ponto de vista de uma editora. Fico pensando que o “não vende” no Brasil é muito mais abrangente. Eu acredito que uma vez quebrado esse preconceito em relação ao conto, visto que somos um país de leitores preguiçosos, o conto pode se tornar atraente, pelo tamanho mesmo. Mas veja a armadilha: contos são caprichosos, difíceis. Precisam ter grande riqueza e primar pelo impacto, pela dinâmica, a rapidez. Uma vez ouvi alguém dizer, não me lembro quem, que escreveu uma carta com dez páginas porque não conseguiu escrevê-la em cinco. Eis a ilustração da dificuldade do conto. A economia das palavras é apenas quantitativa. A qualidade deve ser precisa. Talvez o mercado editorial aposte num molde estrangeiro, quem sabe? Aqui fora as “short stories” vendem menos, mesmo se comparadas com os romances. Mas vejo com otimismo a destruição do preconceito em relação ao conto. O selo Formas Breves é um bom exemplo do novo ar que vem entrando nessa casa velha cheia de teias de aranha. Outra beleza da qual me lembrei é a Lorrie Moore, escritora americana que já esteve na lista dos mais vendidos por tempos com seus livros de contos. Sabe o que ela fala sobre contos? Que são fotografias. Romances são filmes. Contos são um caso de amor. Romance, casamento. Parece-me que os leitores brasileiros estão precisando um caso de amor. Urgentemente!
DA – Falando em casamento, como é a sua relação com o leitor? Você pensa nele durante o processo de escrita ou o percebe no papel de espectador?
NARA VIDAL – Enquanto eu escrevo, não penso em quem vai ler não. Isso nunca me passa pela cabeça enquanto há o processo criativo. Sinceramente, acho que se você para para refletir sobre quem vai ler enquanto está escrevendo não deve chegar nunca a lugar algum. Depois de publicado o livro, gosto de ouvir e saber das leituras. É interessante ver como foram parar aos olhos dos outros. Feito um telefone sem fio, leituras e olhos se modificam na experiência única de cada leitor. Acho bacana ver como acontece essa parte viva da literatura. Nos meus trabalhos de literatura para criança e jovens tenho um contato bem direto. Há turmas que fazem prova de livro meu, há homenagens, há dias de autógrafos em escolas. Há um contato muito legal e muito honesto. Há abraço apertado, há olho no olho, há elogio muito sincero relacionado ao que leram. Se morasse no Brasil, teria o pé na estrada o tempo todo visitando escolas, feiras. Gosto bem.
DA – Como você gostaria que seus filhos vissem seus livros quando adultos?
NARA VIDAL – Há uma coincidência na sua pergunta: outro dia, por volta das 7h30 da noite, colocava minha filha para dormir (as crianças aqui vão dormir bem mais cedo. Por volta de 7h, já começam a ouvir as histórias e ler os livros). Ela pediu que eu ficasse com ela até cair no sono, o que não faço porque ela aprendeu a se acomodar e ir dormir sozinha. Acho vantagem isso, não quero estragar. Mas fiquei com ela um bom tempo. Disse que precisava descer e continuar a trabalhar. Daí ela me perguntou se era mais um livro e eu disse que sim. Ela me surpreendeu quando me perguntou o que eu quero desses livros todos que eu escrevo. Confesso que não soube a resposta. Como ela não aceitou o meu silêncio, eu disse que queria escrever 100 livros. Quando esse dia chegasse, eu pararia. Ela riu e disse que eu perdi, já que a Julia Donaldson escreveu mais de 130! Acho que quero deixar isso: o meu afinco para com o meu trabalho, provar que posso fazer o que amo se equilibrar com todo o resto. Que mesmo que cada livro tenha tirado um pouco do meu tempo com eles, os meus filhos, eu estive muito feliz e viva na produção do meu trabalho. Acima de tudo isso, quero que vejam e sintam a língua portuguesa. Costumo pensar que, se todo o resto falhar, pelo menos dei a eles uma língua inteira. É o melhor que poderia dar.
Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites literários nacionais e internacionais. “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura.
ela anda com as solas das
mãos para fora
vermelha
anda como quem pede
e se dormir andando
e se espirrar andando
ela dorme como quem peca
vermelha
e se um caco de vaso a segurar pelas mãos?
e se um rouxinol a atropela?
e se lhe resolve pesar o vermelho no coração?
***
a leviandade por ser presença
fica
teu vulto evolui e se encrespa a ser novo vulto através das pontas dos meus dedos
há já algum resíduo
na inocência e na violência é minha
a pressa
envelheço me ajoelho tiro a sorte na posição dos dias
você vem?
na inocência e na acedência
a leviandade
você vem fica
há o resíduo penando no fundo do poço
você vem?
há um pássaro em repouso
se você não chega
como tudo que vibra por baixo do gesto
respira voa é violenta inda cisca
há uma ave que eu não
há alguns metros que eu não
há uma esferográfica e há um século e meio sobre
a mesa se você chegar antes
***
o raio é posto, parada e rio
não chegam os olhos ao nó da garganta
quando de lado a vida
o corte é trilha carcomida e zarolha
inda me sobra te dizer assim:
venha comigo, deixe o cavalo ao meio, de nada adianta, deixe o cavalo comigo.
***
Anatomia Forense
era pra eu ser mulher de morar, mas sou amável.
era pra eu ser deparável.
mas sou odiável.
sou serial e sou adjetiva demais. era pra eu seu de morar, mas sou oxidável.
***
pela combustão
o vento enche a minha cara dos fios dos meus cabelos
tento outra posição
porém o vento
me agacho
junto ao tronco da palmeira
carco fogo nas velas
o céu da boca não orna com a boca que não souber o que é uma boa fogueira
eu por exemplo ou falsidade envernizada
sou essa capela em chamas
à beira-mar
desejo redes e só sei queimar
* Os poemas integram o livro AMANHÃ ALGUÉM MORRE NO SAMBA pelaDouda Correria (Portugal/ Abril, 2015)
Carla Diacov (1975), São Bernardo do Campo – SP. Publicou “Fazer a Loca” (e-book) pelo selo Ellenismos. Tem poemas na Coyote número 25 (Kan Editora com distribuição pela Iluminuras).Integra a coletânea 70 POEMAS PARA ADORNO, Editora Nova Delphi (Portugal).Em Abril de 2015 lançou AMANHÃ ALGUÉM MORRE NO SAMBA, livro de poesias pela Douda Correria (Portugal).Tem participações no site Cronópios, nas Revistas Germina Literatura, Zunái, Mallarmargens, Usina, Diversos Afins, Ellenismos, Cruviana, Musa Rara e integra o Escritoras Suicidas.
Se o mundo é tal como o vemos, então muito ou quase tudo pode ser reinventado com os ingredientes de cada olhar. Definir, com precisão, se uma quantidade infindável de coisas pode ser relativizada frente aos repertórios que as atravessam é humanamente impossível. Melhor mesmo é deixar que cada artista exponha sua marca nesse ambiente vasto e tresloucado ao qual chamamos de realidade.
Diante das possibilidades de se representar o mundo no qual habitamos por empréstimo, a concretude das coisas pode curiosamente estar bem harmonizada com a múltipla capacidade de abstração. É como se o caráter físico e, portanto, palpável da vida fosse apenas uma camada a revestir o intangível. Então, vem a pergunta: quantas fronteiras existem entre o vivido e o inventado?
A resposta fica por conta de cada um, se é que ela existe. No entanto, parece plenamente possível a um criador modelar a realidade de forma a obter dela entradas e saídas. Em se tratando dos desenhos de Victor Hugo de Azevedo Macêdo, ou simplesmente Victor H. Azevedo, os acessos lembram-nos que vislumbrar o real é fazer um pacto constante com a transformação.
Metamorfoseando a realidade em distintos recortes, Victor vai saciar sua sede na fonte do caos que simultaneamente ordena e embaralha o mundo. Abraçado a uma perspectiva de manipulação das formas, o artista consegue fazer da sua existência uma reprodução da inquietude. Nesse ínterim, a vida que o circunda mostra suas faces dispersas pelo nonsense, certa dose de ironia e por alguma acidez dos dias.
Desenho: Victor H. Azevedo
No plano do discurso, a arte do jovem potiguar também comunica pelo inconformismo, o que significa dizer que nem tudo o que o mundo oferece a Victor ele está disposto a aceitar sem que haja, no mínimo, algum filtro. Prova disso está no modo como ele posiciona a condição humana diante de temas como a solidão e os efeitos advindos da modernidade.
Quando os sentimentos que reproduzem seu tempo não são capazes de minar as barreiras aparentes, Victor flerta com o realismo fantástico. Entretanto, essa atitude não implica em fuga, mas numa constatação de que ao mundo ainda é possível a criação de outros tantos sentidos.
Nascido em Natal, Rio Grande do Norte, Victor H. Azevedo publicou vários zines, dentre os quais doze canções, fábrica de flores e O amor é simples. Além disso, também se dedica à poesia e aos quadrinhos.
Victor é porta-voz de uma manifestação que busca no externo a sua razão de ser. Com todas as nuances intrínsecas que se possa conceber, aquilo que está fora revela-se o elemento maior da criação, instância esta que só se materializa porque há olhos que se interessam por perscrutar o mundo, jamais negligenciá-lo. E, assim, contido em seu afluxo imensurável, o artista confessa: “cada traço e contorno é como uma braçada num lago”.
Desenho: Victor H. Azevedo
*Os desenhos de Victor H. Azevedo fazem parte da galeria e dos textos da 101ª Leva
O meu tórax é a catacumba
onde se empilham os esqueletos
de todos os males e monstros.
Quando praguejam em tosse seca
a tua mão,
catedral universal da pequenância,
absolve-os com pancadinhas côncavas
transforma-os em passarinhos e voam.
Ofereço-te o espelho que me resta
– bebe-o.
***
Escultura fantasma
A pele ventilada adquire malhas
as mucosas arenecem
de tão estrábica
a consciência deixará de questionar
quando perderás a paciência
e começarás a gritar-me rente ao tímpano
aspergindo-me o perfil esfíngico ………………….. …..o sorriso bovino
dormirás com um cadáver
porque terei um sono de olhos vítreos
serei incontinente e esfregar-me-ás fezes na cara.
Por isso mudo-me já para
uma morada isolada
numa encosta escarpada
numa ínsua porque-não-atlântica
rodeada de galinhas e carpas
azedas e acelgas
atabúas e maçãs bravas
salinas e beterrabas
enquanto sou um freddy krueger
mínimo e híbrido que aprecia
fermentações e aves canoras.
***
Arca
Pedes licença
trancas-te no lavabo
tocas-te e é o dilúvio nas instalações sanitárias
– ossos do ofício inegociáveis –
sais com girinos e moreias numa enxurrada
chamas a tua meia-cara
“escancara-te, temos de ir de viagem”.
O que tens para oferecer são
intuições penduradas da pestana da alma
onde conseguirás reservar florestas várias
culturas esquecidas da grande ásia
novas estirpes do vírus da malária
enxertos para preservar vinhas roxas hereditárias.
Esgotadas, fechar-se-á a pálpebra.
***
Plutão
A oriente
lambia o sol
da manhã aliviava
o rubor da queimadura
com um gole de água fria
e um fio de azeite na língua.
Perseguia-o o resto do dia
até tombar na distracção
do mar
sem vertigem
sem veneração.
Sonambulismo
e nada mais.
***
Baço
O sofrimento afunila-te.
E depois mergulhas na lagoa ou ……………………..;…as mãos em cabelos amantes.
E depois escalas a montanha.
E depois rumas ao Oriente.
E depois tens uma criança.
Curas o corpo como quem
atravessa uma ponte.
O absoluto de ontem agora perspectiva.
Tu descansas.
Catarina Santiago Costa nasceu em Lisboa, em 1975. Frequentou o curso de Comunicação Social na Universidade da Beira Interior (Covilhã) e licenciou-se em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa (Lisboa). Desde 2005 publica os seus poemas num blogue pessoal. O site português Enfermaria 6 (e sua respectiva revista Caderno) divulgou alguns dos seus poemas.O seu primeiro livro será publicado este ano, pela editora portuguesa Douda Correria. Dele farão parte os dois últimos poemas desta seleção.
O Sal da Terra (Le Sel de la Terre). França/Brasil/Itália. 2014.
“No fundo, a fotografia é subversiva, não quando aterroriza, perturba ou mesmo estigmatiza, mas quando é pensativa”. (Roland Barthes)
Em 40 anos de profissão, a obra do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado personificou por completo a definição de Roland Barthes. Seja em Serra Pelada, na Indonésia ou em Ruanda, sua estética impactante sempre foi encravada de reflexão. Acusado por parte da crítica por alastrar o que chamam de “cosmetização da miséria”, as lentes de Salgado apenas captam o que há de mais amargo nos paladares da humanidade, por mais manipulador e piegas que isto soe. Dirigido por Wim Wenders — que já filmou com destreza vida e obra dos músicos “super-avôs” cubanos, em Buena Vista Social Club (1999) e da coreógrafa alemã Pina Bausch, em Pina (2011) — e Juliano Ribeiro Salgado, primogênito do fotógrafo, O Sal da Terra foi indicado ao Oscar 2015, porém perdeu a estatueta para o documentário americano Citizenfour (2014), de Laura Poitras, sobre o escândalo de espionagem da NSA (National Security Agency), revelado por Edward Snowden.
Sebastião Salgado em cena de O Sal da Terra / Foto: divulgação
Apesar de não se tratar de um registro cronológico e linear, o documentário pontua brevemente sua infância em Minas Gerais, a graduação em Economia, seu casamento com Lélia Wanick, o mestrado na USP, sua longa estada na Europa e os primeiros contatos com a câmera, fotografando esportes, casamentos e até nus. Aponta suas primeiras expedições ao lado do filho Juliano e seus livros/exposições mais expressivos, com destaque para Outras Américas, Sahel – O Homem em Agonia, Trabalhadores, Êxodos e Gênesis. No entanto, o interesse maior dos cineastas diz respeito ao ser humano por detrás da objetiva, o filho-marido-pai septuagenário ante o fotógrafo social. Filmado na maior parte do tempo em P&B, com narrativa em off de Wenders e depoimentos de “Tião” e seus familiares – destaque para o pai e a esposa, peça fundamental em seu trabalho – o filme apresenta algumas cenas coloridas e uma infinidade de fotografias belíssimas – e ao mesmo tempo de uma crueza quase ficcional – obtidas pelas lentes de Salgado. Tais imagens fundem-se de tal forma que parecem ganhar até mesmo movimento quando projetadas pelo cinema de Wenders.
As minas de Serra Pelada (1986) – Sebastião Salgado. Foto pela qual Wim Wenders conheceu o trabalho do fotógrafo
Em um segundo momento, O Sal da Terra retrata a fundação do Instituto Terra, ONG criada em 1998 e destinada ao desenvolvimento sustentável do Vale do Rio Doce. Gerada em parceria com a esposa Lélia, que idealizava “plantar uma floresta”, ou seja, reflorestar a Mata Atlântica nas proximidades da fazenda da família em Aimorés (MG). A Fazenda Bulcão, que deu sustento e educação aos 7 filhos do patriarca e encontrava-se à beira da destruição – hoje transformada em Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) – é um exemplo de “pasto transformado em floresta”, como diz a abertura do site da instituição. É a devolução do empréstimo que a família fez à própria natureza. A recuperação da estância curou também a alma de Sebastião Salgado, tão castigada com as agruras captadas, sobretudo em sua longa jornada pela África. Exausto da desventura e brutalidade humana, ele passou a dedicar-se a um projeto ambiental, fotografando ecossistemas pouco explorados, reconhecendo-se em cada animal, em cada planta, em cada povo primitivo. A documentação disso culminou no livro Gênesis, sua obra-prima, uma declaração de amor ao planeta.
Em suma, O Sal da Terra é um documentário intenso e sensível sobre o processo criativo, o mundo e a condição humana. Trata-se do encontro de dois artistas formidáveis, autores de algumas das imagens mais surpreendentes do nosso passado recente – real ou imaginário – e sua perturbação artística, porém esperançosa, diante da vida.
Larissa Mendes tem procurado diminuir o contato com o sal da Terra.
que se lança em todas as direções nas Regiões Escuras: Agora
oO Círculo
cintilante
que te envolve
E nos limites da Esfera,
se te voltas para te ver Fonte
que se jorra,
vê:
o Outro,
Água que no Centro da Esfera ainda Lá és tu de novo, murmurando:
Tu
és o Livro,
que se lança: Chama
***
Celebração das fontes fatigadas
há Desesperos circulares, Tu sabes desesperos
como o do animal no Escuro escuro
Girando
contido no Centro que seu giro gera
E a cada giro, Pura
emissão de intensidade busca as margens para Além das margens
E a cada giro, o Não
Escrita de grades: a palavra Dor não é a palavra Sim
Mais um giro, e eis: a Queda
Luz fenecendo
o Centro que des
morona, des
falece em centro Oo
E se esmorece
o Desespero, e se
se apaga: Se sob a pele Negra olhos se ocultam,
na harpa de grades a pausa é breve e não há Música
pois foi escrito no Bosque Sem Ternuras, em nossa Face: Que os olhos que uma vez se
fechem outra vez se abram,
e eles se abrem,
Cílio sem paz se
acende o Desespero
e Testemunha: as Grades permanecem Lá
E se adormece para os Sonos dos Alívios? Sem
remédio Sem
remédio,
porque sonha Grades
ah, tudo oculta em sonhos a Catedral de cinzas
as Margens
o Círculo
e a chave perdida
Animal escuro,
te tornaste o próprio Centro escuro
Tece teus cílios de Hera sagrada
Cintila
nas noites Sonha
com a Alvura
Não sabes que Outro centroO
te Ilumina,
mais Escuro?
há Desesperos circulares, Tu sabes
***
Asa dos olhos
Quando um Lago
for lançado num Círculo
fora do tempo
por mãos vazias antes do gesto
Quem
estará na Margem
para receber, sem mãos,
as Doações do Centro adormecido
que Se amplia
despertado
em gratidões gratidões gratidões
em Cinzas Cinzas Cinzas
Vicente Franz Cecim é autor de Viagem a Andara oO livro invisível – Grande Prêmio da Crítica da Associação Paulista da Críticos de Arte/Apca, 1988. Edita seus livros no Brasil e em Portugal. Nasceu e vive na Amazônia, Brasil, Belém do Pará.
Jamais sorveremos o ar da perfeição. Quiçá consigamos algo que nos aproxime de um ponto de equilíbrio, alguma ínfima fração de ponderação entre acertos e desvãos. Vez por outra, alguém relembra-nos o quão imprecisos somos no quesito das certezas. Seria presunção demais apostar em cenários bem definidos quando o alvo é compreender a natureza humana?
Eis uma instigante questão. Por enquanto, ainda está longe ser possível estimarmos a dimensão das virtudes ou das quedas. Ousemos apenas respirar e seguir adiante construindo moradas na superfície das horas. Nesse ínterim, a nossa capacidade de abstração e mergulho pode, sobremaneira, fornecer-nos pistas valiosas sobre o que de fato nos tornamos. No diapasão que contém passado, presente e futuro, há algo além da materialização do pensamento em ações. Resiste a memória como peça fundamental da existência.
Nada melhor do que percebermos a visão que um determinado criador tem sobre o universo através do qual orbitam suas expressões, principalmente quando esse mesmo agente credita à memória um status de significativa importância. Assim o faz o escritor baiano Dênisson Padilha Filhoquando lhe cedemos escutas. Mas ouvi-lo não é o bastante. Ler seus escritos revela-se um componente essencial para apreendermos um mundo no qual as perspectivas são múltiplas no quesito inquietude. Sentir-se incomodado parece ser um ingrediente especial na concepção criativa desse autor que, além de dedicar-se à literatura, é também roteirista de audiovisual.
A trajetória de Dênisson com as palavras está materializada em livros como “Aboios celestes” (contos – 1999), “Carmina e os vaqueiros do pequi” (romance – 2003), “Menelau e os homens” (contos e novelas – 2012) e, mais recentemente, “O Herói está de folga” (contos – 2014). A consistência presente ao longo de sua obra é o grande motor que move a entrevista que realizamos com o autor. Seja na capacidade de construir imagens ou na dimensão que edifica o texto, Dênisson demonstra sua propriedade narrativa porque fez da leitura a gênese de seu ofício. Entrevistá-lo é desconfiar que, por trás das letras, habita um território de coisas insondáveis.
Dênisson Padilha / Foto: Renata Rocha
DA – “O Herói está de folga” é título emblemático, que nos sugere percursos já em sua aparência nominal. As histórias nele contidas desnudam certa condição humana. Vivemos num tempo de desesperança?
DÊNISSON PADILHA FILHO – São nove contos que sugerem que os homens são virtude e vício. Naturalmente, são representações, alegorias, fantasias criadas sobre o arcabouço de desvio e de retidão que nos estrutura. Ter esperança não muda as coisas, a não ser pra quem a sente.
DA – Nesse caminho que perpassa altos e baixos da natureza humana, seu sentimento de autor prefere o estranhamento ou o espanto?
DÊNISSON PADILHA FILHO – Estranhamento é condição fundamental para nascer a arte, não é? E causar estranhamento também. A literatura convoca o leitor não quando traz respostas, mas quando o inquieta com aquelas perguntas adormecidas que nos estruturam e desafiam nosso dia a dia. A literatura é vingativa na medida em que mostra que nós não temos respostas nem saída, mas por ela dizemos, “aqui estamos, Papai do Céu, estamos no mato sem cachorro, mas não pense que não sabemos”. Já espantar-se com as oscilações da natureza humana beiraria o patético. Essa perplexidade soa meio fresquinha; não combina com a literatura.
DA – Diria que a lucidez foi uma companheira inseparável na concepção do seu mais novo livro?
DÊNISSON PADILHA FILHO – Acho que a idade trouxe um pouco mais de tentativa de lucidez e amadurecimento, ainda bem. É como se a pulsão que nos move a escrever ganhasse algo mais de serenidade e consciência de que o texto custa a estar pronto. Considero que meu caminho literário deu uma guinada a partir dos 37 anos (estou com 44). Foram novos conceitos, menos preconceitos estéticos. A visão de mundo e a lucidez se refletem, naturalmente, mas o que vou procurar fazer é sua recriação. A matéria prima é a verdade, a concretude, sem dúvida; mas a literatura se ocupa de alegorizar a vida e seus achaques.
DA – O ato de escrever encerra alguma espécie de libertação?
DÊNISSON PADILHA FILHO – Libertação nenhuma. Muito pelo contrário. Embora a literatura seja a arte de fantasiar e reinventar – não só a língua, mas o mundo –, recorremos sempre à memória, porque, para nosso desconforto, é só o que temos. Da memória, derivam a dor, a culpa e a saudade. Há um mito muito citado que diz que quando realizamos uma história, processamos as coisas e nos livramos delas. Uma coisa nada tem a ver com a outra, a meu ver. O escritor se distancia um pouco do mundo para criar, é verdade; isso traz uma analgesia, claro, mas nada de libertação. Se liberta, não é literatura.
DA – A pungência de uma cronologia interna toma conta de seres e lugares em “O Herói está de folga”. Assim, a sucessão dos instantes não é materialmente mensurável. Quem é este ser a quem chamamos tempo?
DÊNISSON PADILHA FILHO – Eu não tenho certeza, mas desconfio que dentro de uma lógica divina, passado, presente e futuro são a mesma coisa. Nada vem, nada vai, nada existe, tudo é. Essa minha perspectiva naturalmente vai se refletir aqui e ali na minha criação; foi assim nos contos de “O herói está de folga”. Tudo está ali, os contos são quadros, e como toda alegoria da vida, os quadros não passam; a gente passa por eles. Isso confirma minha impressão de que as coisas não vêm, nem vão, simplesmente são; a gente é que passa por elas.
DA – “Menelau e os homens” é um livro especial pelo modo como os trajetos narrativos ali se constroem, sobretudo pela disposição das imagens, o que acaba por envolver o leitor. Qual o sentido maior dessa obra para você?
DÊNISSON PADILHA FILHO – Concordo com você, “Menelau e os Homens” é um livro especial. Traz duas histórias marcadas pelo signo da memória. Em consequência disso, seus personagens são homens fugindo de homens e fugindo de si. A primeira fase da obra do escritor estadunidense Elmore Leonard teve muita influência sobre a concepção das histórias. A segunda história que integra o livro – a novela Calumbi – está marcada também por um signo de opressão e terror psicológico, um pouco de Edgar Allan Poe; mas em todo o livro há situações de perseguição e suspense entre caçador e caçado; são tributos meus ao autor de Hombre e O último posto do Rio Sabre e de tantos outros. Creio que tenham sido de fundamental importância as sugestões de imagens e paisagens no livro para que o leitor sentisse todos os momentos de impotência, opressão, perseguição que as histórias propõem. Bem, sobre qual sentido maior dessa obra, devo dizer que não há o grande sentido. Eu costumo dizer que a literatura em prosa não deve ser regida apenas pelo plano do conteúdo, ou melhor, pela dimensão narrativa; mas também pela dimensão estética. Acho que o sentido, desse e dos meus outros livros é tentar alcançar esse equilíbrio. Em outras palavras, inquietar pela narrativa e reinventar a palavra. Não é fácil, mas é um desafio que resolvi encarar.
Dênisson Padilha / Foto: Renata Rocha
DA – É razoável pensar que, por mais que tente, um autor não pode fugir de si mesmo?
DÊNISSON PADILHA FILHO – Se pensarmos do ponto de vista da existência, teremos que parafrasear Antônio Cândido e dizer que a matéria prima do escritor é a memória. Por outro lado, se pensarmos na arte literária e em procedimentos estéticos, devemos pensar que o escritor dotado de um mínimo de consciência do seu fazer só se satisfaz quando viola seu modelo anterior. Porque arte é ruptura e, embora faça parte do grande campo da cultura, especificamente, ela, quando repetida, contraria suas próprias motivações. Nesse sentido, não conseguir fugir da memória, fugir de si, e encontrar saídas estéticas é um paradoxo que alimenta esse fazer artístico.
DA – Sob o ponto de vista autoral, há quem considere o conto uma espécie de escalada para o romance. O que pensa a respeito?
DÊNISSON PADILHA FILHO – Vou confessar minha preguiça para responder essa (risos). Sinceramente, não há consideração mais sem sentido do que essa que dizem por aí. Posso ficar aqui citando à exaustão nomes de escritores, grandes mestres, que se eternizaram como contistas. E por que será que ficaram nessa tal “escalada” por toda a vida? Não! É um erro crasso, uma ingenuidade, até bonitinha, achar que o conto é rito de passagem para um romance. São pretensões diferentes; no romance há lugar para digressões que não vão caber no conto. Enquanto que, grosso modo, no conto, a concisão vai fazer pulsar a dimensão estética do texto muito mais do que num texto longo. Além de outros aspectos que não caberiam aqui. Apesar de discordar radicalmente e achar isso um equívoco, reconheço que é um erro muito difundido. Veja por exemplo, na América Latina, a grandeza de Carlos Fuentes – que além de romances e novelas, também exercitou o conto largamente – e Juan Rulfo. Embora notabilizados mundialmente, não alcançaram a popularidade de Gabriel García Márquez, eterno pelos seus romances. Parece que até o mainstream mercadológico insinua, “sem querer querendo”, que o texto longo é o ápice.
DA – O que mais chama sua atenção na literatura feita no Brasil hoje?
DÊNISSON PADILHA FILHO – Não estou tão certo quanto à resposta, mas acho que é a diversidade do que se produz. Há muita gente talentosa, de carreira sólida, e também surgindo. Vou esquecer o nome de muita gente que faz boa literatura, para além de José Inácio Vieira de Melo, Menalton Braff, Antônio Carlos Viana, Mayrant Gallo, Gustavo Rios, Lupeu Lacerda e Sérgio Faraco. Aqui tem de tudo, meu amigo. Por outro lado, isso não é tão positivo quanto parece, é uma constatação um pouco desanimadora, porque há muita coisa sendo chamada de literatura. Há um batalhão de gente fazendo ‘coisinhas bonitinhas’, interpretação enviesada da magnitude estética Manoel de Barros, arremedos de minimalismo; é gente que acha que basta que o besourinho seja citado para que se faça minimalismo. Vivemos a maior concentração de Bukowskis por metro quadrado de todos os tempos. O santo nome da corrente brutalista está sendo evocado de forma leviana por gente que coloca um punhado de tiros no enredo, dois palavrões e uma cara de mau na orelha do livro e pronto. Além disso, há a produção de muita coisa ruim mesmo. Muito texto ruim, muita gente sem leitura, sem estofo literário se arvorando a lançar livro. Não, não posso conceber que, por exemplo, um organismo seja rico em ferro, se não consome alimento rico em ferro. Sem consumir literatura sistematicamente, portanto, como um sujeito pode criar arcabouço? É muita ilusão de potência, mas isso é imanente ao homem, não tem jeito. Eu não consigo conceber a carreira de um escritor de verdadeira literatura (e não me pede pra explicar, por favor) sem uma rotina de investigação literária e leitura contumaz.
DA – O ato laborioso de escrever pode ser tido como um processo permanente de desconstrução?
DÊNISSON PADILHA FILHO – Ainda hoje cedo pensava em algo parecido. Toda desconstrução pressupõe um mínimo conhecimento, por dentro, de como foi feita a coisa a ser desconstruída, não é? Senão é só uma implosão energúmena.
DA – O quanto Dênisson Padilha Filho conhece Dênisson Padilha Filho?
DÊNISSON PADILHA FILHO – Quase nada. Cada dia que nasce é uma nova muralha de Jericó.
DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?
DÊNISSON PADILHA FILHO – Desconfio que, em qualquer tempo, viver é tatear numa sala escura. Nesse nosso tempo, não acho que as incógnitas são mais numerosas que em outrora; acho que sempre foi assim.
DA – Somos algo além de uma matéria arremessada para o fim?
DÊNISSON PADILHA FILHO – Por enquanto, somos só esses bonequinhos de carbono mesmo. Depois é outra história, a orfandade acaba, a queda acaba. Mas isso é depois, bem depois.
– A cana tem 18 por cento de açúcar. Já isso aqui tem 99 – o homem referia-se provavelmente ao branco açúcar sobre a pequena mesa da confeitaria.
Ao chegar, eu os tinha notado, ele bem mais velho que a mocinha. Naquele momento, o tema da conversa era a longevidade.
Um homem maduro ao lado de uma quase adolescente – ela devia ter 20 e poucos – nos dá a impressão, decerto convencional, como que automática, do Lobo prestes a devorar Chapeuzinho, coitada.
Ele sabia coisas, verdades várias, e as depositava na mesinha, perdulário. A garota o seguia e, de vez em quando, falava. Uma dessas conversas que ouvimos sem querer e das quais só escutamos bem uma das vozes; a outra, casual e tímida.
O empenho virtuoso em assegurar afeto. Assim, até eu – a ponta perfurocortante da inveja. Vaticinava:
– Ainda estarei firme daqui a 150 anos! Espero que você esteja por perto – a voz sorria, insinuando a promessa.
Levantaram-se. Ele, a bolsa a tiracolo à maneira de outras décadas; o cabelo muito preto parecia pintado. Ela, pequenina, o vestido cândido a denotar simplicidade. Desapareceram de mãos dadas.
2. Papéis trocados
Adelaide devia ter 17 anos, estávamos na década de 70, 1979, talvez. Não sei ao certo. Lembro seu rosto suave.
O corpo acima do peso a incomodava, sim, mas o que de fato a fazia infeliz eram os pais fora do esquadro. O esquadro careta, sejamos claros.
A tendência para a obesidade vinha deles, ambos gordos; não desarmoniosos, porém. Aquele era seu estado natural, baixos e volumosos. Nada demais, pois.
O que chamava a atenção residia no comportamento. O pai tinha um ar lânguido, adocicado; a mãe, ostensivamente masculina, os gestos em ângulo reto. As vozes que usavam – a dele, aguda e ciciante, a da mulher, cava e rouca – também obedeciam ao lugar-comum dos papéis trocados.
A menina sofria com a evidente estranheza diante de seus pais, que muitos sentiam e que seus amigos adolescentes não disfarçavam. Não se fizesse uma piada, ficaria magoada, talvez chorasse mais tarde. Não se ousasse um comentário, neutro que fosse, já se conseguiria perturbá-la. Amava os pais; doíam as exclamações, o sarcasmo.
Eram diplomatas, cultos, de hábitos sofisticados. Praticavam equitação, coisa de grã-finos. Imaturo, uma vez os vi e achei engraçadas as roupas de montaria, as calças largas que se afunilavam, as botas de cano longo, o chicote petulante numa das mãos… As fatiotas tornavam-se mais curiosas ao ser usadas por aquelas pessoas, que pareciam não ter braços para a tarefa que as roupas sugeriam.
Manifestei o espanto divertido. Foi o quanto bastou para atingir a minha amiga, de quem gostava. Recordo a expressão machucada no rosto de Adelaide quando cometi a brincadeira ambígua, a palavra pouco generosa.
A menina pensava que, ao menos comigo, estivesse a salvo de tais grosserias. Creio que me achasse alheio, superior a elas. Não reagiu ao perceber que o jovem de conversas etéreas era capaz de perfídias. Mas a amizade acabara.
3. O beijo empírico
Sabemos que as brigas entre namorados podem ter motivos ocultos, diferentes daqueles que os próprios envolvidos alegam; razões alheias às disputas explícitas.
Já os arranca-rabos entre ele e ela, os dois iniciados em questões literárias e filosóficas, não faziam dessas questões meras desculpas, substitutos das verdadeiras desavenças. Não. O casal era capaz de arengar em torno de temas puramente abstratos:
– Pensei que você realmente acreditasse na possibilidade de totalização do real – disse ela com um travo de desencanto. – E não partilhasse o ceticismo que abre caminho a todas as desistências… Vejo que me enganei. Como fui tola – reclamou, enfática.
Era devota dos teóricos marxistas, entre eles Lukács, o da totalização.
– Pode-se até acreditar nas possibilidades racionais de apreender o real – respondeu, persuasivo. – Mas quem sabe o empirocriticismo estivesse correto ao combater as teses materialistas…
– Lenin é que estava certo; aliás, ele venceu a polêmica – rebateu ela, que não sabia direito o que era empirocriticismo, mas tinha ouvido falar.
– As bases de nosso conhecimento são sensíveis, sensoriais – afirmou, sutilmente explicando o que fosse aquele monstrengo conceitual, com o cuidado de não melindrar a namorada. – O que podemos afiançar sobre as coisas em si mesmas, amor? Nada! Somos reféns de nossos cinco sentidos. Dos sete buracos de nossa cabeça, entende?
Ela abriu o Dicionário de filosofia, volume de 1200 páginas que lhe pesava na bolsa, ao qual recorria nos momentos agônicos. Localizou ali o verbete “Materialismo dialético” e leu desafiadora: “Há coisas que existem independentemente de nossa consciência, independentemente de nossas sensações”, recitou nervosa, mas ainda afável.
– Como refutar a evidência? – ela fez a pergunta retórica. Ao ver que o namorado silenciava, insistiu: “Não existe e não pode existir diferença alguma de princípio entre o fenômeno e a coisa em si. A única diferença efetiva é a que existe entre o que é conhecido e o que ainda não o é”.
– Lembro perfeitamente dessa passagem – ele informou com uma superioridade quase imperceptível. Lenin dizia que “o conhecimento nasce da ignorância” e…
Não terminou a frase. A namorada calou sua boca, fechando-a com um beijo demorado e ávido. Adorava aquele homem porque sentia que ele estava à sua altura.
– Não podemos esquecer, porém, que entre Lenin e Lukács houve problemas sérios. Quando o filósofo lançou História e consciência de classe em 1923… – pontificou, valendo-se de certo tom didático, paternal, que a irritava bem.
Ela esperou por um longuíssimo instante, prestes a perder a calma. Ele:
– Ora, imaginar que os acontecimentos históricos estejam prefigurados na matéria, isto é, nas relações de produção, como pretende o Lenin…
A luta recomeçou. Logo berravam, batiam com os pés no chão, pueris e autoritários. Os dois se amavam.
Fernando Marques é professor do Departamento de Artes Cênicas da UnB, jornalista, escritor e compositor. Publicou “Retratos de mulher” (poesia; Varanda, 2001), “Contos canhotos” (LGE, 2010), “A comicidade da desilusão: o humor nas tragédias cariocas de Nelson Rodrigues” (ensaio; Editora UnB/Ler Editora, 2012) e as peças “Zé” (adaptação do Woyzeck de Büchner) e “Últimos” – comédia musical (livro-CD), ambas pela Perspectiva.