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94ª Leva - 08/2014 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

Pícaro

Por Pedro Reis

 

 

Manter sob controle a impossibilidade de controlar a vida. Umas das falas do Dr. Fiss, personagem misterioso que guarda uma estreita e não menos misteriosa relação identitária com Ahab, pai do narrador do livro intitulado Pequod, do escritor gaúcho Vitor Ramil, cujo título é também o nome da embarcação do capitão Ahab do livro Moby Dick, de Herman Melville.

Este primeiro emaranhado de relações que pus de início delimita somente algumas das muitas conexões que constroem o emaranhado da pequena novela, guardando uma significação que extrapola suas pouco mais de cem páginas.

A história ocorre de forma fragmentada, em vários episódios que separam o tempo atual – a relação de Ahab e seu filho – do tempo passado, onde se narra a infância de Ahab e a mudança de sua família para o Brasil, saindo do Uruguai. Há outros personagens na trama: os avós, a mãe e os irmãos, o estranho Dr. Fiss e alguns amigos de Ahab. Não há uma separação clara entre os dois tempos, e a descoberta da situação de cada capítulo deve se dar no decorrer da leitura.

Dois intertextos principais têm de ser destacados para o leitor deste livro. O primeiro é sua relação com o livro de Melville citado acima. Não é por coincidência que o nome de um dos principais personagens seja o mesmo do capitão do Pequod, Ahab. Os dois guardam uma obsessão monomaníaca: um, pela baleia branca monstruosa que dá nome ao clássico americano; outro, pela perfeição metafórica que vê nas teias das minúsculas aranhas encontradas em sua casa e sua relação com a linguagem poética.

O Ahab latino-americano tem um comportamento habitual de ajustar sempre um grande relógio em sua casa. Esse hábito, exato como o próprio funcionamento do relógio, por vezes perde o tino quando ele se tranca em um quarto, negligenciando o hábito de dar corda, esquecendo-se do tempo na reclusão do aposento. Ninguém de sua família sabe o que ele faz nessas ocasiões, mas o menino, investigando a relação de seu pai com o Dr. Fiss, entra escondido na casa daquele homem, mas é flagrado, passando pelo momento mais delirante do romance: a noite das oportunidades.

É neste momento que o doutor explica as motivações mais profundas de seu pai, e também um dos momentos mais interessantes do livro. Semelhante às temáticas borgeanas, Dr. Fiss, de posse dos poemas que Ahab escrevia, explica ao pequeno “espião” como cortava cada palavra dos escritos de seu pai, abria um livro qualquer de sua extensa biblioteca, procurava a palavra que havia recortado, e quando a encontrava, no livro, colava a mesma palavra por cima da palavra do livro, anotando de forma cifrada a localização daquela palavra do poema em sua biblioteca. Podemos encontrar uma dessas cifras em meados do livro.

O outro intertexto é com o pintor florentino renascentista Paolo Uccelo. Sua pintura, Relógio com Cabeças de Profetas, ou pelo menos seu esboço, serve de imagem inicial de cada capítulo, tendo no centro a fotografia que, descobre-se durante a leitura, é de seu pai quando pequeno.

A relação do livro com o pintor se colocaria na obsessão que Uccelo teve em vida com a perspectiva, técnica plástica inovadora na época. A novela de Ramil tem relação com esta técnica, pois também é estruturada em perspectiva, tendo como ponto de fuga o conflito entre o pai e o filho, e os acontecimentos que fazem a narrativa ocorrem em constante resgate do passado, que serve de centralização do presente, representado pelo filho.

A narração, apesar de posta na mente da criança, cria cenas ou situações líricas, em uma escrita onde prevalece o cotidiano simples, mas pincelado de visões poéticas. Ramil se arma da inocência infantil para adensar o lirismo das narrações, construindo cenas poéticas belíssimas, como quando ouve seu pai falar espanhol:

“O espanhol era então o idioma da sabedoria e da obscuridade. O espanhol era o idioma do silêncio. Ouvir Ahab falando espanhol era escutá-lo por dentro. Eu não precisava observar seus lábios, suas inflexões de rosto e voz. Não precisava escutá-lo. No fundo daquela poltrona, naquele saguão sombrio, eu estava no fundo dele, no fundo de Ahab em sua poltrona sob o relógio. O espanhol era então o idioma do pensamento e do tempo. Eu estava no fundo do tempo.”

Ou quando, em sonho, o menino chama ao pai, mas este não o ouve, e ocorre a pergunta fundamental:

“’Não ouviste eu te chamar?’ ‘Não. Talvez o ruído das ondas não tenha me deixado ouvir’, responde. Eu paro. E pergunto então como nunca em tempo algum: ‘Por que não gostas que eu te chame de pai?’ Ele para, me olha e diz: ‘Porque eu não quero que haja distância entre nós.”

Os dois personagens fisgam o leitor, por sua relação de poder, cumplicidade e fantasia. O narrador se vê como satélite de Ahab, mas também se vê como um semelhante, e vai carregar o legado vazio construído pelo seu pai para o futuro. Como dá por si ao final do livro: tratava-se, agora, de seu tempo.

Pequod é um livro sobre revelações, sobre descobertas. A descoberta da fotografia de seu pai, escondida pela avó. A descoberta da semelhança entre aquele ser enorme e admirável que é seu pai. A descoberta dos mistérios que cercam seu pai e o Dr. Fiss. O passado de sua família em Montevideo. Todas essas descobertas formam a narração do livro, bem como são parte importante da formação do pequeno narrador.

Pícaro é um dos termos que mais se repete no início do livro, quase um xingamento atirado pelos familiares ao infante narrador. Não pude deixar de notar que o adjetivo, que significa matreiro, malicioso e astuto, tem uma importância exemplar na história da literatura. Desde Homero, criando o Ulisses de mil ardis, costurando sua narrativa épica por meio das façanhas ladinas deste herói, nesta novela, Vitor Ramil, no papel do pequeno pícaro, trava sua batalha contra o caos incontrolável da vida, tecendo as palavras de seu passado, mantendo-as sob controle, sob a forma de literatura.

 

Pedro Reis (1987) mora atualmente em São Paulo. Lançou os contos Gorilas e As borboletas de meu pai pelo portal Cronópios, tendo participado também da Contologia, lançada pelo portal em 2012. Os contos Trancelim, Mosca Diuturna e Desejo você encontrará no periódico Diversos Afins. Com o conto Midas, entrou na Antologia de Literatura Fantástica, lançada pela Fliporto no final de 2012.

 

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94ª Leva - 08/2014 Destaques Olhares

Olhares

Sinfonia do invisível

Por Fabrício Brandão

 

Luciana Bignardi
Foto: Luciana Bignardi

 

A menina adentra as veredas da adolescência, perfazendo as primeiras noções de olhar o mundo com necessário cuidado. Seu método de observação é, no mínimo, curioso. Deita-se sobre um beiral do terraço do prédio em que morava na maior cidade brasileira e faz com que o corpo, capitaneado pela visão de quem procura detalhes, incline-se a noventa graus. Com isso, intenta ver o oceano urbano explodindo seus signos lá embaixo, além de experimentar o horizonte recortado. Seu mundo idealizado era em preto e branco.

O tempo passa e a menina, hoje mulher, fez questão de levar adiante a sua particular maneira de apreender a luz. Seu nome, Luciana Bignardi. Sua nova morada, Portugal. De lá para cá, pouco mais de duas décadas se passaram e a chama continuou acesa. Com o desenvolvimento do olhar, especialmente marcado por nomes como os de Sebastião Salgado e Cartier Bresson, a escolha da moça pelo ofício de fotógrafa cada vez mais ganhava corpo e certeza.

É o olhar que perscruta a vida quem comanda as ações na trajetória de Luciana. Interessada em transpor as barreiras mais aparentes, ela vislumbra como desafio maior a perspectiva de captar a alma humana da forma menos invasiva possível. Nesse aspecto, o que fica em boa medida é o entrelaçar silencioso de mundos, estreitando distâncias entre observador e observado. Assim, uma pergunta sempre se faz presente: terá a fotógrafa a capacidade de praticar o taciturno pacto do registro sem alterar as esferas íntimas de seus personagens prediletos?

A resposta parece ser positiva, embora saibamos que os olhares que lançamos ao universo de coisas que nos rodeia não são impunes. E não se trata aqui de levar em conta a possibilidade de alteramos o sentido daquilo que vemos a partir de nossas convicções, mas pelo modo como também nos sentimos parte viva do que é apresentado via lentes. Então, ao refletirmos sobre o trabalho de Luciana Bignardi, entendemos também que ela nos mostra um ponto essencial de convergência, no qual criador e criatura são cúmplices duma mesma e complexa existência.

Luciana Bignardi
Foto: Luciana Bignardi

 

Afora as especiais abordagens humanas, as fotografias de Luciana conferem um lugar de destaque para a, digamos assim, geometria dos espaços retratados. Isso fica mais claro quando notamos a maneira através da qual a artista evidencia o caráter urbano de suas observações. Nesse ínterim, flutuam linhas, retas, curvas, sombras e diversos contornos a promover uma verdadeira sugestão de espaços. Mas o que seria tal propósito? Quiçá o de apresentar aos nossos olhos que, para além do concreto embrutecido das cidades, outras dimensões espaciais se operam, podendo estas serem tanto físicas quanto abstratas. O resultado é todo um caminho feito de aspectos também simétricos e dotados de uma significativa sensação de profundidade de campo.

E eis que a natureza também é tida em boa conta no ofício de Luciana. Basta ver o modo como ela nos traz à baila folhas de árvores, que, conforme a própria artista confessa, também fazem parte de um processo de se perceber o que extrapola o meramente visível, entrevendo desenhos nos lapsos deixados por ramos e galhos.

A predileção pelos detalhes é, sem dúvida, um fio condutor da trajetória criativa de Luciana Bignardi. Basta lembrarmos da criança curiosa, mencionada no início do texto, e a deslocarmos para o momento atual. Os ímpetos fundamentais continuam os mesmos: tentar apreender nos interstícios da existência o idioma secreto que abriga simultaneamente pessoas, lugares, coisas e outros seres. Enquanto o olhar avulta o tempo, a sonoridade discreta da vida rege os instantes embalados pela indispensável descoberta do mundo.

Luciana Bignardi
Foto: Luciana Bignardi

 

 

* As fotografias de Luciana Bignardi integram a galeria e os textos da 94ª Leva

 

 

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93ª Leva - 07/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Lucas Perito

 

Pintura: Neuza Ladeira

 

Objeto

 

A par entre o pensar e o estar,
Edificado no espaço e feito pelo ser,
Esse objeto sem forma combina com aqui
O marrom da cerejeira
O vermelho e azul da renda
A luminosidade amarela.
Suas setas marcam a língua – sem a qual
Vagaria sem traços que a delimitassem.
Mesmo não mais funcionando é um bonito objeto,
Um enfeite.

 

 

***

 

 

O Inteiro

 

…..Não, eu digo não ao inteiro, eu digo não.

…..Ao captar o seu inverso, algo me escapa; Tanto no tempo das horas de sal ou das horas de mármore. Esticar-me, é apenas tatear o peso de um corpo.

…..Sim, eu digo sim a carne.

…..Entrar nada mais é do que tocar – ou sentir como o gosto de mim escapa e donde minha polpa chega sem nunca saber se doce é.

…..Não, o inteiro não é para nós. Para mim, só – à parte que me toca.

 

 

***

 

    
O Despertar

…..Num entrever de águas pesadas, o nado se torna denso, lerdo,
[perto

…..Nada é torpor, um pulmão que abre e fecha frente o vento que chega

…..Uma montanha de curvas sobre o salgueiro que freme a luz que entra nesse íntimo espaço

…..É um membro que cresce na vista que mais branca se torna

…..O algodão ao lado, o ato em cima,

…..A constatação do terrível despertar dos sentidos.

 

 

 

***

Do Escrever Sobre uma Raposa

É uma presa que marca
Em traços rubros      em meio a folhas virgens
Agudo passar          entre árvores anêmicas
Todo belo                  se encontra nesse andar
Incerto traço          que rasga a mata
Que freme          e fere
Uma marca na presa.

 

 

 

***

 

Entre todas as dores
Que me tocam
A que mais machuca
É a sua.

Sem sangue ou carne

Como uma cor
Que lateja
No compasso
De um coração
Purpúreo
E seu.

 

 

***

 

 

Quatro Formas de Eros
(Fragmentos)

 

À Diana

I
Perder a si mesmo como
Um encontro ansiado

II
Quando nua doura a negra noite
Que guardas em teu olhar

III
A comunhão nasce da morte de nossos filhos
Que tu usas como alimento.
Aos que não nascem
Tu dás repouso no meu desejo;
Engole-os como bebo seus felinos olhos.

IV
Não temos fronteiras.

 

Lucas Perito nasceu em São Paulo em 1985, é graduado em Comunicação em Multimeios pela PUC-SP. Trabalhou na Editora Empresa das Artes. Atualmente trabalha para o Estúdio Anacã, onde produz e publica textos ligados a dança. Tem alguns poemas publicados na Revista Zunái (Volume 1 – Nº3 – Março 2014).

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93ª Leva - 07/2014 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Marcelo Novaes

 

Pintura: Neuza Ladeira

 

O nome da coisa

Vinte e cinco anos compactados numa mesa. Nos cabides, ternos amassados. Dor pré-cordial. O suor, em frente ao espelho, tudo embaça. [Até o ambiente]. Nubla a visão: humano olhando elefante. [Ou elefante olhando o humano]. Temperatura alta. Pouco espaço existencial. Cloreto de sódio e potássio pingam no chão. O chinelo tem pouca aderência. Vertigem é o nome da coisa. São mil e seiscentos quilômetros de volta, até a casa paterna. São vinte e cinco anos de fresta. [Ou falta, até as Bodas]. Suor abunda [& sobra]. Rubor na face. [Encharcada a testa]. Coração em disparada. Antecipação da noite.

 

 

 

***

 

 

 

Garça

Não deixe a imaginação tolher-te, porque é tão triste [ela] e petulante. Olhe a garça de antes. Não há engano. Nada se lhe iguala: sonho desabado em pedra grande, distância medida em mar de areia. Nada. Da fera, sequer vestígio insinuado no quadrante, aroma de flor ou fruto trazidos pelo Vento Norte. Não há litígio. Não deixe que a imaginação elabore o mal, chore saudades em cacos de espelho, memória, pano puído. Lágrima residual. Não há resíduo. Desvista a vossa filha [de tão agudas sílabas] de dentro dos tímpanos. Não deixe a imaginação tolher-te: o sol é límpido demais. Desses de rasgar os olhos. Dói, mas seca o limo. Não acolha a escolha que te tolhe: esse chão úmido por sob os pingos que não cessam.

 

 

 

***

 

 

 

Aos Cães do Futuro

Não, Dylan. Eu não me arrastarei feito cão, atrás de palavras surradas. Nasci erectus, com vocação pra ser vertical, sem prurido ou comichão pelas coisas rasas. Sem render meu fígado a qualquer vício ou má água. Não me arrastarei feito cão atrás dessa pilha de ossos; fadado a ser vertical, nada menos. Sem medo do longe ou do agora, tantas e tais líquidas dimensões: insuspeitas ou supostas. Não me curvarei, Dylan, para a tua Elegia Inacabada, precioso e caro engano [como a última transmissão de rádio, antes da queda do aeroplano]. Mantenho o meu focinho suspenso e teso em prumo autônomo, bem preso ao próprio faro. E te lego [é herança, não brinquedo] a caixa-preta deste coração e cérebro [e que isso não te doa às têmporas, pelo esforço de desmontar e remontar sozinho tamanho e gigante quebra-cabeças], com um único pedido: que se lhe exponha [aos outros cães] só na próxima década.

Em forma de pergunta.

 

 

 

***

 

 

 

Black Dahlia

Vou falar de meu pai, de forma elegíaca, lírica e sinistra. Milimétrica. Aos nove anos, ele era um prodígio na música e ao piano. Tinha um QI alguns pontos acima do QI de Einstein. Não brinco: relato. Meu pai era assim. Mas a genialidade paga um preço. Tendo chegado à Universidade, aos quatorze, meu pai não estava preparado pra ser o menor e o mais fraco. Procurou refúgio nos becos e no álcool. Meu pai passou a gostar de sexo violento, para aliviar seu peso e seu fracasso. Fotógrafo e escritor ignorado, mais tarde foi ser médico. Clínico. Cuidou das doenças venéreas dos ricos. Ouviu seus segredos. Soube dos mais rudes instintos. Perversos. Aumentou seu próprio repertório. Participou de orgias com escritores, atores, atrizes, pintores, meretrizes, dos quais se fez amigo. Elizabeth Short era uma dessas atrizes e putas-de-luxo. Havia muitas, como ainda há. Meu pai conheceu Henry Miller, Man Ray: um pintor-fotógrafo maluco, que lhe mostrou não haver distância entre a vida e o sonho. A pouca ética que meu pai podia ter, perdeu. Jogou-a no lixo, apoiado em tolo silogismo. Meu pai era mau. Minha irmã Tamar já o acusara de abuso, aos quatorze, mas meu pai tinha a quem pagar. Meu pai se safava. Quando encontraram Elizabeth Short, ao meio dissecada, eu sabia das sete mil horas de experiência de meu pai em cirurgia. Vi a semelhança com os quadros de Man Ray, suas fotografias: mulheres desmembradas, e o Minotauro imposto sobreposto insinuado amalgamado ao corpo de mulher, com os braços rendidos, em chifres transfigurados. Meu pai fez sua obra de arte, exibindo o corpo daquela que comeu um dia. Na mesma fria postura. Imorredoura. E eu só o descobri há alguns anos, depois de morto.

 

Sou psicólogo por formação. Já trabalhei em AMEs e UBS nas periferias da zona sul de São Paulo, em ONGs [SOS Aldeias Infantis, CVV], consultório particular. Sei das artes um tanto, do mundo cão sei também um bocado. Escrevi alguma coisa que está espalhada na web [Corsário, Cronópios, Mallarmargens, Casa dos Poetas –Portugal -, dentre outros] e em alguns blogs. Publiquei o romance Cidade de Atys pela Ateliê Editorial, em 1998. Por escolha e ideologia [discordância com as regras do mercado editorial, fundamentalmente], só escrevo na net, agora. Assumo a escrita como ofício sem fins lucrativos.

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93ª Leva - 07/2014 Destaques Olhares

Olhares

Lastros imaginativos

Por Fabrício Brandão

 

Neuza Ladeira
Pintura: Neuza Ladeira

 

Toda vez que nos deparamos com alguma espécie de observação, decidimos primeiro entre desvendar as formas aparentes do visto ou dissecar seus labirintos internos. De súbito, a alternativa inicial nos parece cômoda por sugerir algum deslocamento pelas fronteiras da superficialidade, quiçá um caminho apartado de considerações mais voltadas para uma lapidação. No outro polo, agarrar as entranhas da coisa apreciada pode demonstrar um interesse ancestral pela sondagem dos mistérios que nos acometem.

Mesmo para aqueles que optam pela primeira perspectiva de contemplação, a via interna e que pulsa densa jamais se qualifica como um bem alienável. Pelo contrário, estará ali a rondar os territórios de quem desbrava o mundo e seus correspondentes paralelos percebendo a matéria em estado bruto. Nesse sentido último, o componente diferencial que aponta para a consolidação dos caminhos vai encontrar abrigo ideal no aporte imaginativo de quem cria. E exemplificamos tal ponto de vista com o trabalho de pessoas como Neuza Ladeira, artista que funda o primado de suas acepções visuais no sedutor universo da liberdade conceitual.

Não são poucos os aspectos que podemos enfatizar como sendo cruciais na abordagem de Neuza. E talvez o maior deles seja baseado na capacidade que ela tem de exprimir a atmosfera emotiva que povoa intensamente seus traços de pintora. De posse dum olhar genuíno sobre o mundo, a artista se nega a uma representação orientada e previamente definida das coisas. Suas pinturas evocam uma visão sintética da natureza em seu estágio mais puro, cuja deformação da realidade sugere o modo como percebemos a tudo sem vãs interferências.

Fazendo uso intensivo das cores, Neuza não nos furta um ritual de exaltação à vitalidade e à espontaneidade do gesto. E é justamente isso que delineia a expressividade dos tipos humanos que compõem suas telas. Nesse ínterim, a artista concebe um dinamismo que flui desde a matriz intrínseca e pessoal até o diálogo mais próximo aos fenômenos mundanos.

 

Neuza Ladeira
Pintura: Neuza Ladeira

 

Num ponto de transição entre referências fauvistas e derivadas da arte bruta, Neuza Ladeira sedimenta três estruturas fundamentais à sua obra: as séries Personas, Natureza e Abstratus. Em todas elas, estão os componentes imprescindíveis para a compreensão dos universos de elaboração da artista. Sem se prender a determinantes canônicos, a criadora confere um especial poder aos componentes intuitivos que permeiam o seu olhar sobre a existência.

Nascida em Belo Horizonte, Minas Gerais, Neuza também se move pelos territórios da poesia, tendo participado de recitais e publicado os livros “Opúsculos” (Anome Livros), “Quarto de Dormir Quarto de Pensar” (Editora Urbana), “Poética Caderno 1” (Editora Catitu). Em sua trajetória, lutou ferrenhamente em prol da democracia no período da ditadura militar brasileira, tendo sido prisioneira política nos anos de 1970 a 1972.

Quando a arte nos incita a penetrar seus domínios, temos razões de sobra para não declinarmos ao chamado. Certamente, uma delas é a larga possibilidade que possuímos de ver o mundo com os múltiplos matizes da imaginação. No caminho, cruzando com as epifanias de alguém como Neuza Ladeira, nos é dado entender também que carregamos em nosso íntimo valiosas ferramentas de apreensão do concreto e abstrato. Cabe-nos apenas eleger o modo como faremos a travessia.

 

Neuza Ladeira
Pintura: Neuza Ladeira

 

As telas de Neuza Ladeira são parte integrante da galeria e dos textos da 93ª Leva

 

 

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93ª Leva - 07/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Marília Garcia

 

 

Do outro lado da tela

 

I.
acontece de estar
num deserto de estar num
lugar inclassificável ao vê-lo
cruzar a praça arrastando
uma rede árida de memória no
momento em que o apito marca
os passos e você levanta a mão
para falar
……..como se precisasse
de um impulso ou se dissesse
que hacen falta los subtítulos
al hablar. nesse instante
busca se fixar em todas
as cores antes de dizer
……………………mas vê apenas
uma mancha ocre – então
não reage, olha a cabeça erguida
e a dele em semi-círculo fazendo o
contorno
…………….(parece estar em denfert
de noite: chove o suficiente e o guarda-chuva
grená é pequeno, não cabem apertados ali embaixo –
embora recolha os dedos para caber –
corre para comprar um despertador
e ouvir as histórias da distância
para chegar a polônia
……………………..num dia branco.)

 

II.
a menina da livraria subterrânea
pergunta a que horas sai seu voo
e você não responde – recolhe as miradas
persecutórias e sai mudo, mutismo
é isso sim nem pode imaginar de que lado
estão ou de onde escrevem todas as
vezes. também não há como saber de
onde saem tantas luzinhas porque é
o máximo que já esteve
do outro lado
……………….do oceano: o máximo
de distância através da tela, a imagem
embolotada que tenta chegar
mas é lento e cortado, um filme
antigo sem voz

 

 

***

 

Escorpiões e a esquiva

 

pela quarta ou quinta vez
tenta dar uma cronologia: me
deitei e parecia um deserto aquela
areia salgada.
………………– mas estamos em méxico city, diz,
estamos no ponto mais próximo
da esquiva.

eles vêm de noite, no campo,
quando uma nuvem se forma
e tudo está perdido. rente ao chão.
me deitei e tratei de ouvir os ruídos
dos escorpiões

mas não havia ruídos,
só o vento e os clarões.

tratei de ouvir
o barulho da fábrica
mas não ouvia nada
(conhecer pode
ser destruir)
só um eco ou
algo que
se esquiva.

 

 

***

 

 

Codecs

 

I.
estar em contato durante
um trânsito mútuo é diferente, não conta
porque ainda não tem
uma resposta.
………………apenas se fixa na estrada
e segue conduzindo as esteiras. não
sabe se ela gosta de olhar para
aquelas fotografias do deserto
em p/b. se gosta de escutar
o som dos escorpiões que só
existem em sonhos e se
vai no próximo verão a nigéria
dizendo apenas: saibro.
………………se faz parte de uma salina
o que parece imaginar. não diz onde
está agora, apenas
aguarda
………que voltem dos bosques gelados
que sigam juntos até terça
que se digam adeus –  a voz
na chamada não esclarece
e depois de achadas as pistas não
tem volta:
……………..eletricidade constante
em tudo o que via. deve pensar
em coisas objetivas: pequena
placa esmaltada na entrada com
o nome da rua

 

II.
pode ser um peixe russo em
extinção, até que chega. mas isso
não explica. é agustina ligando
do continente, dizendo as coisas
pela metade. mas não há como saber: “aperte
o botão da direita e pegue um pacote de codecs
eles ajudam a ver imagens, definir
o campo de visão”. sem ele não
vê nada, acorda virada para o fundo
gelatinoso do rio e passa as horas
aguardando como um problema
sem resposta: é uma ilha tão pequena
que quando não espera
despenca no mar.

 

 

***

 

Classificação da secura

 

I.
agora já é quase amanhã mas queria
dizer apenas que é muito
tarde: acrescentar quatro horas ao relógio
indica que já é depois. lá é sempre
depois. parecia um nome
italiano com aquele som ecoando e a
resposta em outra língua mostrava
a cor das linhas no mapa,“é lilás”, para
não dizer algo preciso
para não terminar: com ela
saio cedo todos os dias. fico de
vez em quando escondido
no porto. tomarei
o transmediterrâneo e comerei
calçots,
……….até chegar o instante antes
do instante, momento em que vê o relógio
e diz: não. já conhece todos os erros
do sistema e a retina derretendo
sempre que levanta
………………………para sair dali.
(precisão é o retângulo do degrau
inferior.)

 

II.
alguém que não consegue se mover
e uma semana de vozes cortadas, deve
se acostumar aos movimentos em câmera
lenta, à descida pela escada em
espiral:
……….recorta os sons de cada
quarto e apaga as perguntas que
mais detesta responder. como aquela
noite no ônibus, ruídos do rádio e
pedaços de frases atiradas,
sempre girando as horas.
……………………..ver a paisagem
sem ela e precisar o tamanho da ausência
com poucos dados – sabe que as baleares ficam
do outro lado do mar, que custa chegar
anos depois e dizer. ergue os olhos para
fixar o que tem ali e não perder
de vista a secura.

 

Marília Garcia nasceu no Rio de Janeiro (1979). É autora dos livros 20 poemas para o seu walkman (Cosac Naify, 2007), engano geográfico (7letras, 2012) e um teste de resistores (7letras, 2014, no prelo). Atualmente, mora em São Paulo e trabalha com tradução.

 

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93ª Leva - 07/2014 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Sandra Vargas e o teatro como experiência sutil e complexa

Por Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos

 

Há três décadas na estrada, o Grupo Sobrevento consolidou-se como um dos mais importantes espaços do país para o que de melhor há em criação e pesquisa teatral, estabelecendo um diálogo pioneiro com grupos de vanguarda de várias partes do mundo, bem como levando a outros continentes a sua arte. Nesta entrevista, uma de suas fundadoras, a atriz Sandra Vargas, conta um pouco da história e dos projetos do grupo. Formada em Artes Cênicas pela Universidade do Rio de Janeiro (UniRio), recebeu, por dois anos consecutivos, 1995 e 1996, o prêmio Estímulo, do Ministério da Cultura, por sua contribuição ao panorama das artes e da cultura no país. Em 1999, foi ganhadora do prêmio Mambembe e, em 2000, do prêmio APCA de melhor atriz, além de ter recebido várias indicações para o prêmio Shell. Como bolsista do governo francês, estagiou nas companhias de Phillipe Genty e do Théâtre Du Moviment. Responsável pela Mostra Internacional de Teatro de Animação, realizada no Rio de Janeiro, em 1992, trouxe pela primeira vez ao Brasil destacados grupos da China, Espanha, Suécia, França e Argentina. Ainda nos anos 90, na Universidade Católica Blas Canãs, de Santiago do Chile, foi responsável por oficinas de teatro de animação. Dentre a extensa lista de espetáculos que realizou, destacam-se Ato sem Palavras, Um Conto de Hoffmann, Mozart Moments, O Teatro de Brinquedo, O Cabaré dos Quase Vivos, Cadê meus Heróis e O Copo de Leite, com turnês pela América Latina, Europa, África e Oriente.

 

Sandra Vargas
Sandra Vargas / Foto: arquivo pessoal

 

ITAMAR SANTOS – Como se deu a criação e a escolha do nome Sobrevento para o grupo?

SANDRA VARGAS –Em 1987, ainda estudantes de Artes Cênicas da Universidade do Rio de Janeiro, havíamos sido convidados a participar de um Festival Internacional de Teatro de Bonecos, porém precisávamos de uma estrutura legal e decidimos criar uma associação. Quanto ao nome, decidimos fazer como os dadaístas, abrir um dicionário e escolher o primeiro nome que aparecesse. Bom, como o primeiro nome era realmente muito feio, decidimos dar uma segunda chance ao acaso e veio daí o nome Sobrevento, que segundo o dicionário, quer dizer “ímpeto repentino do vento, capaz de transtornar a marcha de uma embarcação”, ou seja, um termo de náutica que também quer dizer acontecimento inesperado, nem sempre uma boa surpresa, porém.

 

ANGELO MENDES – O Sobrevento é reconhecido nacional e internacionalmente e recebeu os prêmios mais importantes do país. Qual a fórmula para tanto sucesso?

SANDRA VARGAS – Temo que não haja fórmula, mas todas as nossas conquistas foram fruto de nossa persistência e obstinação. E não se deve acreditar tanto assim em prêmios, reconhecimento ou sucesso.Teatro é para se fazer a cada dia, com humildade, paciência e tomando cada espetáculo como um encontro diferente com o público.

 

ITAMAR SANTOS – Como ocorre a escolha dos textos para os espetáculos?

SANDRA VARGAS –Nem sempre partimos de textos em nossas encenações. Muitas vezes, eles só entram mais tarde, no processo de criação de um espetáculo. Algumas vezes, o texto não é mais que uma partitura de ações. Às vezes, eles surgem casualmente, esbarrando em algum livro. Noutras, temos que nos pôr a escrever. Não costumamos atribuirtanto peso a um texto. Ele é, para nós, apenas mais uma peça do jogo teatral.

 

ANGELO MENDES – Na Terceira Semana Internacional de Teatro de Animação do Sobrevento foram apresentadas seis das companhias mais destacadas de teatro de animação do mundo: Art Stage (Coréia); Crazy Body (Irã); Rocamora; Hermanos Oligor; Playground (Espanha) e Casa Degli Alfieri (Itália). Quais as dificuldades encontradas para realizar um evento de tal dimensão, uma vez que o teatro de animação, lamentavelmente, tem pouca visibilidade na mídia?

SANDRA VARGAS – Visibilidade na mídia não pode pautar as nossas buscas e realizações artísticas. Perseguimos um sonho, vários sonhos. Todo artista está acostumado a preconceitos, a frustrações, a mal-entendidos, mas a arte, sendo o oposto do cinismo, está sempre em busca de construir, reconstruir, se reconstruir. Nunca tivemos verba suficiente para arcar completamente com os custos dos festivais que realizamos, porque sempre os fazemos maiores do que imaginamos, aumentando e complicando o proposto. Para tanto, contamos com o apoio das companhias que convidamos, que acreditam em nós e no que fazemos.E que se colocam ao nosso lado. Temos muito orgulho de termos artistas que admiramos como amigos, em dezenas de países. O que nos move a fazer os festivais é a possibilidade do intercâmbio, isto não tem preço para nós. Temos certeza de que o contato com todas as companhias que trazemos faz com que o nosso trabalho se renove e esteja em constante movimento. E isto se estende a muitas outras companhias de todo o Brasil, que sempre convidamos para compartilharem de nossos encontros.

 

ITAMAR SANTOS – O Sobrevento já viajou para vários países, como Escócia, Irlanda, Espanha, Argentina, Chile, Colômbia, Angola, Suécia, Estônia, México e Irã. Como foi a experiência das viagens? A diferença de idiomas implica alguma alteração no espetáculo?

SANDRA VARGAS – Falamos cinco idiomas e isto facilita muito. Cada viagem é uma descoberta, porque os povos, definitivamente, não são iguais e cada cultura revela muitas surpresas. Toda apresentação é diferente e cada espetáculo é um encontro. Em um mesmo país, apresentações em diferentes cidades, em dias consecutivos, podem provocar reações absolutamente diferentes. O teatro é frágil e isto não deve ser negado, mas cultivado pelos artistas. O teatro que é sempre igual é pobre, é fraco. A peça bem feita não é arte, é mecânica. Hoje é muito fácil usar sobretitulagem, legendas, e a dificuldade de um artista não está em se comunicar em um idioma, mas sim em um outro ambiente cultural.

 

ANGELO MENDES –Artaud dizia: “Sei muito bem, por outro lado, que a linguagem dos gestos e das atitudes, que a dança, a música são menos capazes de elucidar um caráter, de relatar os pensamentos humanos de uma personagem, de expor os estados da consciência claros e precisos como a linguagem verbal, mas quem disse que o teatro é feito para elucidar um caráter, para resolver conflitos de ordem humana e passional, de ordem atual e psicológica, coisas de que nosso teatro contemporâneo está repleto?” O que você diria sobre este questionamento?

SANDRA VARGAS – Gostaria de ter dito isto. Artaud era mesmo brilhante e este questionamento é vital para se entender as buscas do teatro contemporâneo. O teatro não é aquilo que se tornou. O teatro já foi muitas outras coisas e pode ser tantas outras. Não existem fronteiras entre as artes. Não se pode reduzir um espetáculo teatral a cinco linhas. O teatro é uma experiência sutil, complexa, que pode ser festa, religião, brincadeira, espetáculo e muitas outras coisas. Não precisa ter o público sentado, fechado, no escuro, rebaixado, calado. Artaud, sábio, visionário, é um dos pilares do teatro moderno, que anda em busca de si mesmo.

 

ITAMAR SANTOS – Sabemos a dificuldade que a classe teatral enfrenta com as leis de incentivo à cultura. As companhias teatrais vivem a incerteza de darem continuidade ao seu trabalho devido à contemplação ou não de verbas . Como vê tal questão?

SANDRA VARGAS – Vivemos em um equilíbrio precário, como diz um grupo de amigos chilenos, mas fomos nos acostumando a isto. De um jeito ou de outro, precisamos seguir em frente. E a verdade é que, quando começamos a fazer teatro, há cerca de trinta anos, pensávamos que o caminho seria muito mais duro. As condições para se fazer teatro melhoraram, desde então. O país melhorou. O Teatro soube mudar, para manter o seu lugar no mundo de hoje. Continua importante, forte, surpreendente e provocador. Muitas companhias tombam, se reerguem, encontram alternativas, associam-se a outras. Algumas desistem, o que não torna as suas conquistas menores. Outras persistem e talvez não devessem. O teatro é uma arte viva, um movimento importante para que as pessoas tenham uma vida melhor e se tornem melhores. Acesso à arte e à cultura são a expressão de quem somos e são direito de todo ser humano, desde que nascem. E o governo tem o dever de garantir isto aos cidadãos. O que é lamentável é que as subvenções à cultura, advindas diretamente do governo, que envolvem editais e comissões de seleção de notório saber, sejam tão inferiores às subvenções oferecidas por empresas por meio da renúncia fiscal garantida pela Lei Rouanet. São sempre de verbas públicas, mas no primeiro caso há transparência e o objetivo de garantir o amplo acesso da população à cultura, enquanto que no segundo caso, a exceção está nas empresas estatais, busca-se o direcionamento ao público-alvo específico da empresa, visando a lucro e benefícios imediatos, atendendo a interesses mercadológicos, sem preocupações sociais ou artísticas.

 

Sandra Vargas / Foto: arquivo pessoal

 

ANGELO MENDES – Como foi a experiência de estudar com alguns dos maiores marionetistas contemporâneos, como Phillipe Genty, Yves Marc e Claire Heggen?

SANDRA VARGAS – Sempre buscamos aprender com pessoas que admirávamos e esta é a melhor maneira de nos aperfeiçoarmos no teatro. Philippe Genty é um artista incrível, que admiramos profundamente, e com quem tivemos a sorte de estudar logo no início de nossa carreira. Ele deixou uma marca indelével em nós. Ao longo de nossa carreira, sempre tivemos a desfaçatez de convidar artistas a colaborar conosco, a nos ensinar, a nos treinar, a nos dirigir. E nunca recebemos um não. Os artistas se querem, se farejam e terminam por se encontrar, mesmo vivendo em lugares opostos do mundo. Estudar com artistas de tal grandeza, como fizemos com artistas brasileiros, chineses, franceses, belgas, espanhóis, demanda, ao mesmo tempo, humildade e orgulho, para que este encontro se transforme efetivamente em uma colaboração, em uma troca. Tem que ser um dar e receber generoso para que seja uma experiência proveitosa para todos os artistas.

 

ITAMAR SANTOS – O Espaço Sobrevento fica na região da zona leste de São Paulo, fora, portanto, do circuito teatral da cidade, no bairro do Brás, onde há, inclusive, uma comunidade numerosa de imigrantes bolivianos. Este público local prestigia os espetáculos em cartaz?

SANDRA VARGAS –O Espaço Sobrevento é mesmo muito bem localizadopara o tipo de trabalho que buscamos fazer, para o tipo de espetáculo que apresentamos, para o tipo de encontro que propomos. É de fácil acesso por metrô, ônibus e carro. Fica em um bairro muito caseiro, na zonaleste da cidade, região que conhecemos bem. E foi como que adotado pela vizinhança, que prestigia os espetáculos, que respeita, protege e é orgulhosa do espaço. Trata-se de uma população de classe média, de baixa renda e com muitos imigrantes, sobretudo bolivianos. Os bolivianos não costumam guardar muito tempo para o lazer e se sentem algumas vezes intimidados em ir ao teatro, quando nem mesmo dominam o nosso idioma. Pouco a pouco, porém, expressamente convidados, estimulados, vão se aproximando e, hoje, frequentam o nosso teatro, ainda que timidamente, sobretudo por conta de suas crianças, que estudando nas escolas públicas da região, levam os pais a acompanhar a programação que oferecemos, sempre gratuitamente. Integração social e comunitária são coisas que também vêm junto com o teatro.

 

ANGELO MENDES – O Sobrevento tem um grupo de estudos sobre o teatro de objetos. No que consiste o teatro de objetos? Que atividades tem realizado o grupo?

SANDRA VARGAS –O teatro de objetos é uma vertente do teatro de animação, que se vale de objetos prontos, em lugar de bonecos. Sou curadora de um Festival Internacional de Teatro de Objetos, que se realiza no Brasil e que é o maior evento do gênero no mundo. Por este festival, pude me aproximar de muitas companhias, criadores e realizadores muito importantes e inquietos. Com a curiosidade desperta, passamos a pesquisar esta forma de teatro e passamos a difundi-la, por meio de artigos, palestras, oficinas e criações. O grupo de estudos que organizamos nos levou, por exemplo, à criação de uma de nossasrecentes montagens, São Manuel Bueno, Mártir, e a muitas descobertas, considerações e reconsiderações. E temos estudado o teatro de objetos, às vezes com entusiasmo, às vezes com decepção, o que, de toda forma, é artisticamente muito rico.

 

ITAMAR SANTOS –São Manuel Bueno, Mártir, um dos recentes espetáculos da companhia, é baseado num conto do escritor espanhol Miguel de Unamuno. O que a levou a trabalhar este conto e quais foram as maiores dificuldades para adaptá-lo para o teatro, especialmente com a presença dos bonecos?

SANDRA VARGAS –Há oito ou dez anos lemos este livro em uma viagem à Espanha. Gostamos muito dele e chegamos a dizer que algum dia o iríamos encenar. Não víamos, porém, nenhuma possibilidade de encená-lo com bonecos e dizíamos, entre nós, que só no dia em que quiséssemos montar um espetáculo muito realista é que o encenaríamos. Quando começamos nossa pesquisa com objetos, cujo tema era a identidade, enveredamos por questões próprias da identidade do artista. O teatro de objetos, que se vale de objetos prontos em lugar de bonecos, foi o que nos abriu uma possibilidade da encenação de um texto muito realista de forma poética. Os bonecos, manipulados, pareciam um jogo muito estilizado, que soava falso, frente a questões tão humanas. Os objetos, porém, não sendo manipulados, sendo tão simbólicos e dependendo do espectador para completar o seu sentido, terminavam por provocar o envolvimento emocional do público. Simplesmente plantados na mesa, essas figuras imóveis, esses objetos, criavam imagens que só se completavam na cabeça de cada espectador. E junto com o envolvimento advindo do ato de decifrar, que demandava a cumplicidade dos presentes, vinha também um desejável e necessário distanciamento, que se presta tão bem para trazer um texto tão filosófico à cena.

 

ANGELO MENDES – Qual a contribuição da companhia espanhola La Casa Incierta para São Manuel Bueno, Mártir?

SANDRA VARGAS –Temos com o La Casa Incierta uma amizade de anos, muita afinidade, pessoal e artística. E uma admiração mútua. Eles são uma referência, um espelho, para nós. Acreditamos sermos muito parecidos, compartilhamos os mesmos problemas, angústias, sonhos, inquietações e temos uma vida, objetivos e estrutura bastante semelhantes. Eles são, também, amigos queridos, que, mais de uma vez, nos ampararam, quando nos encontrávamos perdidos em um processo de criação. Foram eles que nos apresentaram o teatro para bebês e, desde que começamos a nos embrenhar nesta pesquisa, mudamos muito como artistas e pessoas. O teatro para bebês nos levou à busca de uma interpretação mais íntima, mais delicada e poética com o espectador. São Manuel Bueno é resultado desta busca e A Casa Incierta foi sempre um norte para nós no caminho dessa criação.

 

ITAMAR SANTOS –À frente da Cooperativa Paulista de Teatro, que contribuição espera dar a seus 3.400 associados? Que papel deve ser primordial às cooperativas de teatro e como expandi-las nacionalmente?

SANDRA VARGAS –A Cooperativa de Teatro é um exemplo de que o trabalho coletivo dá certo, que é proveitoso para todos. Entendo a Cooperativa como uma forma de organização em que podemos dividir uma mesma estrutura e na qual, fazendo-nos mais fortes e representativos, podemos lutarpor condições melhores para trabalhar e pela difusão de nossa arte, de nosso trabalho, garantindo à população um melhor acesso à cultura, ao lazer, à integração social, à comunhão entre vizinhos. Devemos sempre pensar, primeiro, no público e, assim, pensar em nós, porque acultura é tão importante como a saúde e a educação. As cooperativas devem ter um papel congregador, devem estimular a reflexão acerca do papel do artista, sobre o que devemos cobrar do governo, do que é pertinente ou não. A Cooperativa Paulista de Teatro é um movimento, não uma estrutura estática, e amadureceu muito. Temos uma entidade bastante politizada e consciente, que consegue lutar por programas públicos de uma forma grande, sem mesquinhez, sem pensar no pedaço do bolo que nos toca. A forma dela se expandir vai depender do quanto a classe teatral em cada estado estiver organizada e do entendimento de que a Cooperativa não vai fazer nada para cada um, individualmente, mas que cada indivíduo, pensando no melhor para o coletivo, vai fortalecer a entidade.

 

Angelo Mendes Corrêa é professor universitário e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP).

Itamar Santos é ator, professor e mestrando em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP).

 

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93ª Leva - 07/2014 Destaques Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

FERNANDA TAKAI – NA MEDIDA DO IMPOSSÍVEL

 

Na medida do impossível

 

A voz continua meiga e os cabelos curtos, mas as companhias… quanta diferença! A amapaense mais mineira do Brasil, Fernanda Takai, apresenta seu quarto trabalho solo mesclando regravações e canções inéditas, com parcerias inusitadas que vão de Zélia Duncan a Pitty, Padre Fábio de Melo a George Michael. Novamente produzido pelo marido e companheiro de Pato Fu, John Ulhoa, as 13 faixas de Na Medida do Impossível (2014) sucedem os aclamados Onde Brilhem Os Olhos Seus (2007), tributo à Nara Leão; Luz Negra (2009), registro ao vivo da turnê e Fundamental (2012), bossa nova eletrônica em dupla com Andy Summers, ex-guitarrista do The Police. O amor e o tempo dão a tônica do novo álbum – tudo com o cuidado e capricho que lhes são peculiares –, sob uma aura melódica, ensolarada e genuinamente pop.

O disco abre com a romântica Doce Companhia (sua doce companhia/não me canso de querer/me sinto ressuscitada/perto de você), versão para Dulce Compañia, da cantora mexicana Julieta Venegas, presente em seu álbum Limón y Sal (2006). Como Dizia o Mestre, samba-canção dos anos 70, de Benito di Paula, ganha uma roupagem contemporânea para ‘o fim da valentia de um homem quando a mulher que ele ama vai embora’. A bela De um Jeito ou de Outro, música presente no trabalho solo de Marcelo Bonfá, lançado no início dos anos 2000, fala da relação afeto x distância e talvez seja uma das melhores faixas do trabalho. A Pobreza (Paixão Proibida) é mais uma regravação – conhecida na voz de Leno, que fazia dupla com Lilian na Jovem Guarda – e aponta para as dificuldades amorosas entre as classes sociais. Seu Tipo, a mais radiofônica da obra, é uma parceria com a cantora Pitty, e aborda, provavelmente, o estilo Fernanda Takai de ser. Se You and Me and the Bright Blue Sky – única canção em inglês presente no álbum –, celebra o espírito folk e encarna o ponto de vista de um cão, Mon Amour, Meu Amor, Ma Femme, dueto com Zélia Duncan, une o ‘jeito de menina’ de uma e ‘o gosto de mulher’ de outra e traz um trecho incidental de La Vie en Rose, de Edith Piaf, talvez para glamourizar a música originalmente brega de Reginaldo Rossi.

Fernanda Takai / Foto: Bruno Senna

 

A baladinha inédita e melancólica Quase Desatento, parceria com Marina Lima para o poema de Climério Ferreira, avisa que ‘será preciso se engajar no amor/sentir saudade, alguma dor’. A grande surpresa fica a cargo da canção-catequese eternizada na voz de Padre Zezinho, Amar Como Jesus Amou, onde Fernanda divide os vocais com Padre Fábio de Melo, numa versão eletrônica – que mais parece trilha de videogame – comandada pelo produtor japonês Toshiyuki Yasuda. A doce Liz, canção do repertório do Trio Ternura, fala da mesma ausência provocada por Partida (vou, quanto mais eu vou/menos mal fica a vida sem você). Em Pra Curar Essa Dor, versão de John Ulhoa para Heal The Pain, de George Michael, Fernanda faz dueto com seu pseudo-conterrâneo Samuel Rosa. A propósito, a faixa acabou de ganhar um clipe com cenas das gravações no estúdio do Pato Fu. A densa Depois que o Sol Brilhar (Mary), encerra o álbum ao som de violinos e melodia inspirada em And I Love Her, dos Beatles.

Lançado em março – a linguagem gráfica do encarte é um deleite à parte: apresenta um quê de realismo fantástico e exprime o ecletismo das canções –, distribuído pela Deck Discos e patrocinado pela Natura Musical, Na Medida do Impossível firma Fernanda Takai como uma das grandes vozes femininas da MPB em paralelo a sua carreira à frente do Pato Fu. Se no título do álbum a artista sintetiza a dificuldade em realizar uma ‘obra dos sonhos’, reunindo nomes tão distintos, na realidade, ela conjuga o verbo experimentar de maneira bastante peculiar e positiva. Como confidencia em seu site (que, aliás, disponibiliza o áudio na íntegra): ‘Tudo à primeira vista parece meio caótico musicalmente, mas foi pelas arestas que encontrei o encaixe de mundos tão distintos. Não pelo insólito’. Feliz ela já está.

 

 

 

Larissa Mendes, na medida do possível, compartilha do mesmo jeito takainiano e meigo de ser.

 

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92ª Leva - 06/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Regina Azevedo

 

Foto: Luiz Navarro

 

Mãe Terra

 

seu corpo finda em raízes
sempre.

a gente olha e procura
os pássaros, as margaridas
e tudo acaba em raiz, nó, recomeço.

não tem problema
só correria na floresta
os índios montados em seus cavalos
com suas lanças, caras pintadas
e todos os animais
correndo sempre no mesmo círculo
como se o mundo estivesse
des
c
e
n
d
o
pelo ralo.

ainda bem que nós
estamos grudados
nalguma coisa
e morremos, morremos
lenta e infinitamente
juntos.

 

 

***

 

 

o rio tigre
castiga feroz a minha cintura
numa tarde corajosa
de respiração firme e
precisa
mergulho
sem visão do mundo
apenas imagino os peixes e
plantas na água que
é quente e ao mesmo
tempo fria
água morna que às vezes congela
a espinha dos homens
e dos peixes
me afogo
porque mais pro fundo
o oceano é ainda mais bonito
e azul

 

 

***

 

 

você quebra o aquário
de peixes pretos que me atormentam
em pesadelos eu te
agradeço e você me diz que
o amor é um experimento químico
eu me viro rio e digo
baby eu curto toda essa explosão
outro riso quebra os outros
aquários e eu salvo a vida
dos peixes salvo
a vida das baleias que encalham
na areia da beira do
forte e a gente chora, se
molha, mergulha gostoso

o amor também é aquático
de carne e osso

 

 

***

 

 

nove entre os dez
batimentos cardíacos
são vestígios
do seu corpo inteiro

 

 

***

 

 

de que tens medo?

o tempo corre e a gente perde
uma parte de si que fica
refugiada num canto
INALCANÇÁVEL
chega o dia
e nem a chuva fina açoitando
o corpo
causa qualquer
sensação.
você se sente
humano
cem por cento cada poro
do teu corpo precisa
de outro
vê vivo
e pulsante
sabe
que é animal & monstro
ao mesmo tempo
chega o dia
em que escrever poesia é
sangria na esperança
de continuar mesmo que a vida
tatue uma ferida na alma
do seu
corpo
a mesma alma
que se perde e fica num canto
inalcançável

 

 

***

 

 

muita gente não sabe.
mas o amor é simples,
victor.
o amor é só um limite
rompido no ventre.
o amor é aquilo que você
não me diz
nunca.
o amor é tudo que ainda não
descobrimos.
o amor é o calor que escapa
do corpo e explode
a terra
o amor é o coração
que fica na boca
o amor é o coração
que foca na cama
o amor não é só coração
amor é
a porta aberta
que você chega
e a fechada
que nós chegamos.

 

 

Regina Azevedo nasceu em Natal. Publicou Candura (conto, online), Das vezes que morri em você (poesias, ed. jovens escribas) e Carne viva o amor estanca (poesias, ed. tribo). Além do blog, escreve prosa jornalística para O Chaplin. Mora em Natal, ainda não está no ensino médio e já quer o mundo.

 

 

 

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92ª Leva - 06/2014 Destaques Olhares

Olhares

Na penumbra do mundo

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Luiz Navarro

Cada dia sobre a Terra encerra uma multiplicidade de cenários. Mesmo que muita coisa nos soe insistentemente familiar, há sempre algo que escapa aos domínios de nosso imediatismo. Seja por pressa ou alguma mera negligência do olhar, deixamos de lado um recorte mais detido e profundo sobre muito daquilo que, no final das contas, também faz parte do que somos.

Nesse movimento de ausências, a construção do olhar acostumado parece ser um impeditivo de se enxergar no mundo sua real essência. Acostumar-se, aqui, é se deslocar pelo manto fácil e superficial dos acontecimentos sem buscar um entendimento sobre aquilo que verdadeiramente se vive.

Os fenômenos que compõem o mundo no qual respiramos estão muito além do que supomos e dos nossos ambientes compartimentados em solidão. Partindo do princípio de que não somos os únicos detentores das narrativas que atravessam os dias, sentimos o quanto é necessário ampliarmos os territórios da percepção.

Sob os nossos narizes, a existência pede passagem. E é necessário perceber a tudo e a todos com ares de naturalidade. Afinal, somos a mesma amálgama humana que compõe o planeta desde sempre. Dela, retiramos virtudes e mazelas, suavidades e complexidades, sem jamais passarmos intactos.  Por ela transitamos quando temos por guia gente como o fotógrafo Luiz Navarro, artista que desvia a nossa atenção para ambientes os quais raramente são alvos de algum foco especial.

Foto: Luiz Navarro

Entre gestos e ritos dum cotidiano densamente captado, Luiz prefere percorrer lugares nos quais a simplicidade consolidou morada. Nesse fluxo de apresentações do real, o fotógrafo vislumbra alguma pungente singularidade em espaços frequentemente absorvidos por uma espécie de esquecimento. Suas lentes trazem à tona muito mais do que o resultado secular das disparidades socioeconômicas que assolam um país continental como o Brasil, mas, sobretudo, evidenciam quão espessa é a trama que perpassa nossa face.

E Luiz Navarro, nascido em Manaus, vislumbra o mundo a partir de seu próprio locus.  Das paragens amazônicas, vê-se não somente o berço que gestou o artista, mas também toda uma profusão de sentimentos que acabam por dar vez e voz a pessoas e ambientes diluídos por uma invisibilidade que lhes é viciosamente imposta.

Mas eis que o artista não sucumbe a qualquer ato piedoso quando seus personagens retratados compõem o painel da desigualdade e da marginalização reinantes no país. Pelo contrário, vislumbra semblantes dotados duma emblemática serenidade, cerzindo suas trajetórias de modo a não pactuarem com qualquer percepção que os estigmatize como vítimas ou fracassados.

Ao mesmo tempo em que edifica um panorama valioso do ponto de vista humano, Luiz capta com precisão as paisagens naturais que cercam o seu entorno de observações. Por tamanha habilidade com as lentes, custa-nos acreditar que para ele a fotografia possui um caráter de hobby. Munido de uma postura sensível, o artista extrai um resultado poético para seu trabalho, algo que o faz evidenciar adjetivos relevantes escamoteados no vaivém da vida. Se o que se apregoa por aí é que o essencial é invisível aos olhos, o melhor mesmo é apurar os sentidos rumo às despretensiosas epifanias diárias.

Foto: Luiz Navarro

 

 

* As fotografias de Luiz Navarro integram a galeria e os textos da 92ª Leva