As cores da tarde quente de princípio da primavera são prenúncio de céu claro e sol generoso para o dia seguinte. A chuva tropical que cai por horas a fio, enfim, dá trégua.
Uma alegria tímida tonaliza sua fisionomia. Ela poderá voltar ao estreito alpendre que circunda o quarto do andar de cima, de onde se vê a quaresmeira roxa coberta por folhas frescas. A prenhez fora de hora dos seus talos intumescidos é mensageira de esperança. Comovida, ela evoca Baudelaire e abstrai-se num solilóquio em reverência ao bíblico manto de Verônica em que se transformará aquela árvore, não demora. Deve-se estar sempre embriagado. Nada mais importa. Para que o horrível fardo do tempo não vos pese sobre os ombros e vos faça pender para a terra, deveis embriagar-vos sem cessar. Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha. Promete a si mesma, ali, naquela hora, um dia, recitar tamanha beleza, em Francês, o sonoro idioma original.
Sua alma, embriagada de poesia, submerge no púrpura imaginário e, etérea, dissipa-se na densa brisa de incertezas. Sua magreza exausta permanece ali, imóvel como uma pilastra grega.
O gemido abissal a traz de volta do transe lenitivo. A sudorese intensa encharca o pijama de listras largas nos variados tons que vão do azul-marinho ao cinza-claro. A dor voltara. Com força.
Ela chama a enfermeira que, doce e decidida, injeta na veia gasta uma dose da morfina diária.
O pavor abandona a face abatida pela doença. No entanto, a despeito do alívio rápido, o semblante é inanimado. O brilho ausente nos olhos do homem enfermo traduz o longo período confinado nos compartimentos internos da íngreme história que se abrevia. O espírito, desalojado, vagueia nu e indefeso, sobre o branco dos lençóis bem lavados.
Assustadoras indagações comprimem seu peito e um terror repentino a domina. Calafrios invadem seu corpo tenso. Haveria tempo para demolir a parede invisível entre eles? Como remover o entulho acumulado durante anos e que impede a visão mútua?
Ela olha para a janela. Percorre a testa com as mãos, tentando domar a angústia que a assola. De um ângulo diferente vê a ponta de um galho da sua árvore apinhado por flores jovens em seus matizes em aquarela. Decide que o evento não é mero acaso. Mais que um capricho botânico, é um signo profético. Respira, toma fôlego e dirige-se à cama reclinada. Segura as mãos distônicas do seu ocupante e espera por alguma reação. Minutos? Horas? Um tempo sem métrica.
Em fragmentos, sente a frágil pressão em seus dedos e, devagar, as mãos trêmulas se agarram às dela. Ela abraça o corpo frágil, consumido pela languidez prolongada e o choro, em ambos, flui livre, caudaloso e limpo. Aos soluços, os dois adormecem. Ele, recostado em três travesseiros finos. Ela, na velha poltrona marrom, exaurida, dorme sentada.
A noite chega lenta e, silenciosa, passa.
A luz da manhã de fim de setembro reflete-se nos olhos translúcidos do homem de aparência suave. Seu olhar tem todas as cores do mundo. O entusiasmo, há muito esquecido, surpreende e dá um susto na rotina. Ela espreguiça-se, estica os braços, alonga as pernas e joga água fria no rosto. Sem pressa, retoma o seu lugar na janela. Mais galhos amanheceram em flor. Réstias luminosas estampam as paredes úmidas da ala norte da antiga Santa Casa de Misericórdia.
Ele parece outro, no frescor do banho da primeira hora.
O delicado aroma de glicerina mistura-se ao cheiro do desjejum na pequena mesa redonda entre o armário e a veneziana entreaberta. Ele senta-se em posição de lótus, num solene arremedo de cerimônia. Toma o chá em goles longos e demorados. Sereno como as águas de um lago plácido, ele sorri feito um menino. E vai embora.
Ela olha o relógio. São horas de embriagardes! Para que não sejais os escravos martirizados do tempo, embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha.
Maria Balé é pós-graduada em Comunicação Corporativa pela PUC – SP, produtora de textos publicitários e fotógrafa. É cronista do caderno Cotidiano do jornal eletrônico Algo a Dizer, edição mensal. Integra o elenco dos oito autores do livro Damas de Ouro & Valetes Espada, da MG Editora. Mora em São Paulo, Capital.
inscrição no universo
poética anômala ………………..ritualística
***
VITAL
Preenchem o ar as jóias de que trato
Dados diáfanos, órficos e ainda assim
perfectíveis
ao meu interesse exato …..: outras realidades
do ser para o ser sem
amarras
……………..toda criatura eclode para si como ………….um sol, um botão, um parto
no instante da dor ou da palavra
revelação –
quando os ornamentos entornam dos ares
para vivificar o homem com
o uno ………do todo e da parte
***
gozo
princípio de cada dia
repartir
para comer os tempos
feitos de fartura e saciedade
na ceia sem nomes
escolhidos são os que
não escolhem
alimentados são
os que gozam
…….e repartem
***
A leitura dos tempos
extrapola pelos ares
montaria visão da mente
escandida pelos ventos
avanço por entre começos
sinais do amanhã
na bainha de cada momento
Cheiros dos ontens instantes
desdobrados na atmosfera terçã
do que vivemos
Engendrar a leitura dos tempos
Do centro de cada sentido ….partir
***
Dama de espadas na fronte
Não é plausível olhar – examinar apenas
Técnica e tecnologicamente
o amor é para ases ………………velozes
a dama de espadas vive congelada
sobre os saltos altos da racionalidade
naipe de valetes a seu dispor
maquinariamente sexy ….e só
emociona-se no entanto quando …………………….chamada rainha
─ sua meta é o rei …………….do xadrez
***
Olhar para o nada é
segura opção.
Desviar do chão, acometer castelos
contar nuvens e morrer de amor
pelo que não veio.
derivar, naufragar do concreto
Adentrar a normalidade
própria – tipo de eleição.
Estar no não lugar
ser o não o vazio o incerto.
esquecer
Rosane Carneiro, carioca,é autora de Excesso (edição da autora, 1999), Prova (Ibis Libris, 2004), Corpo estranho (Editora da Palavra, 2009) e Vate (Selo Orpheu). Editora e redatora com formação pela Uerj, mestre em Literatura Brasileira pela UFRJ, atualmente doutoranda e pesquisadora do King’s College London, pela Capes. Participante de antologias e publicações impressas e virtuais diversas.
No hiato que perpassa silêncio e criação, um vasto acervo de percursos da memória vivente constrói seu íntimo habitat. O estágio silente é o preceptor de ímpetos criativos que tanto edificam imagens quanto palavras. E o tempo que maquina os pensamentos enclausurados na inquieta mente de um autor sabe de lapsos e intervalos ansiosos de virem ao mundo. A gestação de um trabalho textual, por exemplo, abriga sua conturbada miríade de abstrações de toda ordem. O que dizer também da perspicácia necessária a quem deve reproduzir com agudeza de espírito instantânea aquilo que a existência lhe oferta?
Assim, fazer coabitarem, num mesmo ambiente de percepções, letras e imagens parece ser missão das mais intricadas. Tudo ganha especial dimensão quando o elo que une aquelas duas partes consolida seus movimentos na via da poesia. Munido dessa convergência que se faz tão marcante, o escritor e fotógrafo Ozias Filho empreende sua rota de vida, mostrando-se um ser comprometido com um repensar de cenários. Para Ozias, dedicar-se à literatura e à fotografia demanda uma busca essencial, qual seja a de empunhar como bandeira maior um olhar poético sobre tudo que o cerca. Nessas suas duas frentes de atuação, o criador se depara com a idealização de sua própria Pasárgada, lugar em que a perspectiva do humano é elevada a um grau máximo de apreciação. Trata-se de um território onde se almeja uma catarse capaz de forjar uma compreensão ampla a respeito de certos fenômenos do mundo em que habitamos.
Ozias Filho nasceu no Rio de Janeiro e, num período complicado da trajetória política e econômica do Brasil, teve em Portugal a oportunidade de um recomeço. Dentre outras obras, publicou Poemas do Dilúvio (poemas – Ed. Alma Azul), Páginas Despidas (poemas – Ed. Pasárgada), O relógio avariado de Deus (poemas – Ed. Pasárgada) e Ar de Arestas (poemas e fotografia – Ed. Pasárgada), este último em parceria com o poeta mineiro Iacyr Anderson Freitas. Como editor, fundou as Edições Pasárgada e, mais recentemente, a Aldeiabook Edições de Autor. No diálogo que agora segue, Ozias fala sobre como sua trajetória foi especialmente marcada pela literatura e fotografia, revelando aspectos sensíveis de seu percurso pelos ambientes da arte, tudo sedimentado por um desejo poético irrefreável.
Ozias Filho / Foto: Leonor Rego
DA – Há em seu trabalho com a fotografia uma sensação de desterritorialização muito forte. Ali, a noção de pertencimento aparece com uma considerável amplitude e sinaliza espaços de construção notadamente subjetivos. Diria que seu olhar concebe o mundo como um organismo amalgamado e sem fronteiras visíveis?
OZIAS FILHO – De fato, o meu trabalho não tem fronteiras visíveis, mas existe a questão do território, por mais indefinido que seja ele, pois eu faço parte dele, do local em que me insiro e que escolho como objeto da minha fotografia, da minha arte. E neste meu lugar eu incluo o outro, o observador, não um observador que precise definir o território daquela imagem, mas sim aquele que queira construir o seu próprio território, o seu não-lugar poético, talvez a sua Pasárgada onde ele pode tudo, onde ele É. Esta quasinvisibilidade, onde as fronteiras não estão definidas, está por todo o lado à espera que lhe prestemos a atenção devida. Contudo, para que isto aconteça, torna-se necessário que reaprendamos a ver. Melhor: que seja hábito daquele que observa desconstruir cenários.
DA – O termo Pasárgada ocupa um lugar de destaque em seu trabalho. Em meio ao bombardeio imagético ao qual estamos submetidos hoje, acredita que esse lugar idealizado sugere uma via de transcendência necessária?
OZIAS FILHO – Não é só necessário este lugar. Pasárgada, ou outro local mítico que queiramos eleger, é vital para a nossa sanidade intelectual. Talvez seja um exagero o que acabei de dizer, mas eu comparo este meu lugar imagético em Pasárgada, através de todo o trabalho desenvolvido nos últimos anos, com o espaço etéreo da minha Pasárgada poética. Eu preciso deste espaço de catarse, este lugar de transcendência que tu sugeres e tenho a certeza que outros também necessitam do mesmo! Não é apenas um refúgio do bombardeio de imagens que nos povoam os dias, mas também uma forma de perceber o processo de significados destas mesmas imagens.
DA – A série “Quasinvísivel” percorre de modo sutil as paisagens urbanas, captando elementos despercebidos pelo olhar imediato de quem habita as cidades. De que modo você reflete sobre a constatação desses, digamos assim, lugares de ausência?
OZIAS FILHO – Reflito pedindo armas emprestadas à poesia, ao lírico, ao velado. Estou nestes instantes como se defronte de um texto complexo me encontrasse. Mas apenas os lugares são de “ausência” do ser humano físico, real, como o conhecemos. Contudo, esta ausência é metafórica, pois ele se encontra lá representado. A minha reflexão, enquanto artista, quando busco esta quasinvisibilidade, tem a ver com um certo olhar leviano que todos temos… acordamos todos os dias, abrimos os olhos e…. está tudo à nossa frente, tão fácil, tão disponível, tão sem esforço que é abrir os olhos e olhar o que nos cerca. Mas será que de fato compreendemos o que os nossos olhos nos dizem? Olhamos, é vero, mas vemos com precisão, conseguimos desconstruir este mundo do imagético fácil? Ou de tão habituados que estamos ao massacre das imagens diárias, assumimos um papel de autômatos, com a visão preguiçosa. Quem não exercita a sua visão consegue ver o seu semelhante, o outro, para além da superfície? Consegue ver a si mesmo para além do espelho?
DA – No seu caso, essa questão da alteridade, do olhar sobre o outro, encerra também um caráter antropológico de observação?
OZIAS FILHO – É apenas um olhar de poeta, com todas as dúvidas e contradições que esta forma de ver traduz.
DA – Em um determinado momento de sua trajetória, você deixa o Brasil e elege Portugal como nova morada. Como se deu essa transição e de que forma ela influenciou suas perspectivas de criação tanto fotográficas como literárias?
OZIAS FILHO – Desde o início da adolescência, sempre tive um fascínio muito grande pela imagem. Quando consegui o meu primeiro emprego, aos 16 anos, numa empresa de relógios, o sonho ganha uma dimensão mais definida. Com o passar do tempo e algum dinheiro, finalmente veio a primeira máquina fotográfica. E com a primeira ferramenta o primeiro erro. Como até então o meu sonho com a fotografia espelhava-se nas imagens que os outros tiravam, não tinha me dado conta que para chegar àquela imagem não bastava só ver o cenário que me cercava, mas também uma técnica à altura, que me permitisse concretizar determinada visão. Daí, eu não ter a mínima ideia que não se podia tirar o rolo da máquina com a tampa detrás aberta. Conclusão: de um rolo de 36 imagens só sobrou uma em condições de ser utilizada. Passados alguns anos, muitos erros mais tarde (mas também acertos), cursos de fotografia, faculdade de Jornalismo, aparece outro objetivo: seguir a carreira de fotojornalista. Mas o sonho fica na gaveta e o que surge é o texto como uma outra paixão. Sem, no entanto, perder o contato com a fotografia, e junto com três outros colegas, dirigi um cineclube na faculdade. Após um período de indefinição profissional, sigo para Portugal (graças à politica recessiva do Collor de Melo) à procura do tão desejado Eldorado. O Brasil, nesta época, vestia-se de pesadelo. Na cidade do Porto, a escrita e a fotografia continuaram a ser as minhas armas diletas e através delas consegui os meus primeiros trabalhos nos jornais portugueses. Publico em jornais, revistas e até mesmo em folhetos publicitários. Em 2005, crio as Edições Pasárgada, publicando poetas portugueses e brasileiros (onde também me incluo). Neste selo editorial, tive a oportunidade de ter algumas das minhas imagens mais emblemáticas nas capas de alguns livros. Seguiram-se outros livros, revistas de arte (algumas publicadas na Alemanha, EUA, Brasil e Portugal, para além de outros países de expressão e língua portuguesas). O prêmio por estes anos todos se traduziu em 2013 com as fotografias do livro Ar de Arestas, com poema de Iacyr Anderson Freitas e a primeira exposição no Museu de Arte Moderna de Juiz de Fora, ou seja, o regresso ao Brasil pela mão da fotografia/poesia. Portanto, a fotografia e a escrita que hoje desenvolvo são frutos do caminho percorrido. Não existe um Ozias Filho do Brasil ou de Portugal na minha criação, mas sim este ser híbrido de duas pátrias e as respectivas influências. Contudo, para mim, a grande mudança no rumo do que fotografo hoje (antes uma fotografia mais generalista e hoje mais conceitual) está intimamente ligada à poesia, mas é uma relação dialética, pois quer a poesia influencia a poesia, como esta tem o seu peso de silêncios nas minhas imagens.
Ozias Filho / Foto: Arquivo pessoal
DA – Em “O Relógio Avariado de Deus”, você se aproxima muito das questões sociais do Brasil, sobretudo no que se refere à violência urbana, sem se portar como um mero observador dos fatos. Há alguma espécie de chamado embutido nesse percurso que se consolida fortemente existencial?
OZIAS FILHO – Há um chamamento da terra, mais do que tudo. Esta terra bonita por natureza, mas que é tingida de sangue por anos e anos de descaso do poder público com as populações. Um poder que foi, em certa medida, conivente com o crime organizado, já que ao longo do seu percurso, sobretudo democrático, não cuidou dos aspectos básicos, tais como a saúde, a educação, a melhoria continuada da vida das pessoas. O Rio de Janeiro, minha terra de nascimento, e onde me inspirei para escrever o meu “Relógio”, é talvez o maior reflexo deste descuido do poder, a sua maior vitrine para o mundo. Não quero dizer que o que se passa no Rio não aconteça em outras partes do globo. A voz que empresto ao livro em causa pode e deve ter leituras mais abrangentes neste mundo que todos os dias é regido pelo Senhor Dinheiro. Contudo, neste relógio – constantemente avariado – há outros tipos de violência menos visíveis. Por exemplo, aquela violência de crescer, de se libertar e de trocar de pele, de enfrentar dia após dia os nossos pequenos fantasmas ou pequenos carrascos.
DA – Em se tratando de Brasil, podemos também falar numa memória afetiva a permear seus versos?
OZIAS FILHO – Os meus versos estão contaminados por variada memória afetiva. Mas ela não se encontra apenas no Brasil (talvez no livro O relógio avariado de Deus estas memórias estejam mais à flor da pele), mas também estão por muitos cantos desta memória coletiva de imigrante que ora tem pátria, ora tem mais de uma pátria e, também, por vezes, não tem pátria nenhuma, ou seja, memória afetiva de lugar nenhum ou lugar indefinido, talvez Pasárgada.
DA – A forma como você engendra a poesia é algo que chama a atenção de quem se aprofunda em seus versos. No livro “Páginas Despidas”, por exemplo, há um poema, intitulado verdade submersa, cuja imagem maior deriva das múltiplas apreensões do verbo, principalmente das esferas percorridas em torno da abstração. No seu caso, a gênese da palavra vem orientada por um sentido total de libertação?
OZIAS FILHO – Só a palavra quebra o silêncio, uma das epígrafes deste livro, traduz em parte esta minha relação entre palavra e silêncio. Contudo, não é uma relação de iguais, mas sim de dependência, na qual a palavra sempre sai desfavorecida, já que só consegue o estatuto de igualdade quando encontra no silêncio do outro, de quem lê, a sua cara-metade. Acredito que cabe ao leitor o papel de traduzir (com as suas leituras e os seus silêncios) o que a palavra não conseguiu cumprir, na sua totalidade, nas mãos do escritor. Há uma defasagem entre este enorme mar chamado silêncio (que não é pacífico) e aquilo que conseguimos produzir com a palavra libertada. Portanto, para mim, esta libertação total não existe e – utilizando uma reflexão do escritor Eduardo Galeano acerca da palavra UTOPIA – é como o horizonte; pois o conseguimos nomeá-lo porque o vemos, sabemos que ele não existe para além da visão, mas mesmo assim continuamos a caminhar na sua direção.
DA – Como poeta, você se considera um transgressor?
OZIAS FILHO – Penso que ser poeta é exercitar o ato da tolerância. Contudo, nos dias que correm, vê-se esta apenas na retórica… e talvez no passado ainda tenha sido pior neste capítulo. Se ser tolerante (e eu busco isso como cidadão) é uma transgressão, então sou um transgressor. Agora, se pergunta se a minha transgressão reside na construção da minha poesia, o que posso lhe dizer é que não sei. Não sei o que é isso. Esta é uma leitura que cabe aos leitores, aos críticos, uma observação externa.
DA – Muito se fala sobre a questão da leitura no Brasil, evocando-se a máxima de que somos um país de escassos leitores. Em Portugal, você leva a cabo outra feição sua, que é a de editor. Qual reflexão você faz do comportamento do leitor português e o que, na sua percepção, caracteriza marcantemente o mercado editorial lusitano?
OZIAS FILHO – Penso que o comportamento dos leitores cada vez mais é uniformizado e parecido, aqui em Portugal e no resto do mundo. Boa parte dos leitores procura aquilo que mais se vende: os livros de alta rotatividade nos escaparates das estantes e que na maioria das vezes são lixo com capas apelativas visualmente. Na parte que mais me toca, a Poesia e as Ciências Sociais, o espaço nas livrarias é cada dia menor. A minha esperança reside na Internet/Redes Sociais, como forma de divulgar os livros dos novos autores que, definitivamente, têm que matar um leão por dia. Primeiro, para chegar e convencer as editoras do seu talento; segundo, para que depois os seus livros consigam entrar no circuito das livrarias e lá permanecerem com a constância suficiente para que tenham visibilidade perante o público. Acredito que a Internet, através das redes sociais, blogues, páginas de literatura e tudo isso conjugado por contaminação em escala, acabará por permitir que cada vez mais autores saiam do limbo do desconhecimento e que criem o seu próprio público. Confio também nos projetos alternativos, como aqueles que desenvolvo nas Edições Pasárgada (edições numeradas, assinadas pelo autor, primeiras e únicas edições, mas com um preço agradável aos leitores). E esta filosofia de voltarmo-nos para o meio virtual a cada dia ganha mais consistência, pois podemos dar visibilidade aos nossos livros (com algumas vendas), alcançando novos leitores, por um lado, e fugindo ao circuito habitual do comércio de livros. Utilizar a virtualidade como suporte à função editorial. Contudo, sempre que pudermos estar presente nas livrarias, assim o faremos, pois o contato com o livro físico tem também os seus apelos.
DA – O resultado do seu caminhar tanto com a literatura quanto com a fotografia lhe permite concluir que você encontrou respostas para alguns cruciais questionamentos?
OZIAS FILHO – A resposta (se é que existe de fato) é o próprio caminho, mediante as perguntas que fazemos no seu percurso. Para quem cria (assim vejo) não existem certezas em coisa nenhuma, pois a pretensa resolução de um “problema” hoje se desfaz na espuma do próximo questionamento. É sempre um recomeçar ad infinitum ou, para usar um pensamento atribuído a Sócrates, sobejamente conhecido, só sei que nada sei …. não obstante… À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo(Álvaro de Campos). O que sei, e posso afirmá-lo com propriedade, é que tanto a poesia, como a fotografia ou a arte, num sentido lato sensu, fazem-me sentir um ser humano melhor, mais liberto, mais tolerante, mais consciente da existência do outro.
DA – No eixo que vai do homem ao artista e vice-versa, o que Ozias Filho espera de Ozias Filho?
OZIAS FILHO – O que espero de mim próprio é nunca deixar de questionar o que me cerca e, apesar das minhas pequenas certezas, ter a capacidade de mudar o curso do rio em que me navego.
E os pés inquilinos desapropriados dos sapatos..
Não por ordem de despejo.
Sinal de respeito..
Peço licença e
adentro em corações..
***
PASÁRGADA
Asa quebrada na minha frente,
passo
por cima..!
sem medo
de bico..
voo
sem pedir esmola..!
Ame
ou apedreje-me..
Sou passarinho
que come pedra..!
Voar
pra não chegar..?
Esquece..!
Só quero minha rota de fuga livre..
***
DISPARATE
Minhas borboletas no estômago..
Simplesmente,
resolveram se rebelar..!
E sem exigências;
como negociar com esse nosso amor doido..?
***
(DES)CAMINHO
Perdi minha
certidão
de idade
agora conto
os anos
na gastura dos sapatos!
***
RATOEIRA
Nosso
Amor
é do tamanho
de um elefante..!
Nosso
amor é
parelho – no sentido
figurado..
Marca
atalhos
inesperados..
Tem medo de ratificação..!
Nosso
amor
é uma pata de elefante,
que
por onde passa
fode tudo..
Mas
todas as formas
de amor
me interessam;
todas..
O amor
é uma ratoeira que tem medo..
Seh M. Pereira, poeta nascido no ano de 1981, em São Paulo, Capital, publica cotidianamente sua poesia na internet. Participou da Antologia Sarau O que dizem os umbigos?!! e divulga seu trabalho nos diversos movimentos de saraus da cidade de São Paulo. E-mail: sehmartins.shm@gmail.com.
São infindos os espaços ao redor. E há dois tipos deles a mover seus cursos de aparição frente a uma hesitante natureza humana. O mais aparente desfila a todo instante numa tentativa quase fugaz de impedir que se perca no oceano dos dias. O outro requer um pouco mais de atenção, quiçá uma percepção que deva vencer as primeiras barreiras de um olhar tão vilipendiado pela rotina.
Acontece que esses dois mundos atravessam nossos sentidos cumprindo um tácito acordo. Enquanto a dimensão que se pretende intensamente física denota cores, formas, gestos e traçados mil, a outra esfera de vivências requer que o tempo seja percebido como uma tênue cortina, na qual um painel de densidades da alma encontra vistoso refúgio. Mas eis que a simultaneidade entra em cena e nos sugere possíveis zonas de convergência entre o que representa a matéria e tudo aquilo que a transcende.
No momento em que um artífice da luz, comumente intitulado de fotógrafo, traz à baila a conjunção do físico com o etéreo, é porque carrega no seu íntimo todo o entendimento de que não há imagem sem um sustentáculo essencial que a configure. Assim, o que vemos de imediato não é apenas uma mera camada evidente das coisas, mas sim o primeiro passo para se experimentar o que alimenta o delicado mecanismo da existência.
Apreender os percursos de Nathalia Bertazi muito se assemelha a um mergulho num enigmático eixo espaço-temporal dos fenômenos mundanos. Com ela, vislumbramos uma espécie de sentimento do locus humano quando nos deixamos guiar pela investigação arquitetônica das cidades. Desse olhar que mira fachadas de prédios, tetos, catedrais, casarios e também ruínas, submergem as vontades abrigadas dos homens. Muito mais do que edificações do concreto, os ambientes ali registrados documentam um ritual diário de sentimentos incontidos.
Foto: Nathalia Bertazi
Como se não bastasse, a mesma Nathalia se reveste de outras personas e amplia sua visão para tatear a tez da própria vida. Assim o faz quando promove um sensível recorte sobre o gestual emblemático da passagem do tempo. Aqui, a fotógrafa vislumbra a poesia encerrada nas marcas travestidas de maturidade. O estado de coisas ao qual poderíamos apressadamente nomear de velhice é sobejamente percebido como um retrato ativo da existência, demarcando contornos que extrapolam a simples constatação dos anos já vividos.
Confessando-se uma verdadeira apreciadora de cidades, linhas, curvas e janelas, Nathalia Bertazi traz de longa data a sua paixão pela arte de captar a luz. Desde a infância, a fotografia se apresentou como uma companheira inseparável. Os anos se passaram, ela aprimorou sua formação na área, e hoje dedica a integralidade de seu tempo ao ofício, trabalhando como editora de imagem na Revista GQ.
Seja na captura de atmosferas de convívio ou na forma como apresenta os arcabouços físicos que nos envolvem, a visão de Nathalia definitivamente aponta para uma rota de transcendência. E o ingrediente que torna a sua arte muito próxima de um flerte com o teor sublime é justamente a perspectiva de assimilar alguns vestígios humanos como elementos indispensáveis de um processo original de construção imagética. Se ainda resistem múltiplas zonas de conflito a povoarem nossa capacidade de enxergar o substancial das coisas, é também porque não nos permitimos afugentar certos vícios domesticados.
Foto: Nathalia Bertazi
* As fotografias de Nathalia Bertazi são parte integrante da galeria e dos textos da 90ª Leva.
Reconhecer o ouro do tempo
Que não há mais saída para a mesmice do agora
Que as fábricas acordam de manhã
Do sonho torpe
Do dinheiro hábil
Que o homem não tem vez na roda da história
Que a natureza passa ao largo dos passos
Apressados
Cambiantes
Reticentes
Que o trabalho não alcança nunca um fim
Em si mesmo;
Apenas passa – o tempo
E não se vê os olhos do poeta ………………………………..Na contramão de tudo o que for luz.
***
Escrivão
Minha demanda de amor
percorre a Guanabara inteira
à procura de um colo
uma prece
um sorrio meio largo
ao imaginar a surpresa
em me ver aqui – inteira –
a admirar seu raro talento
– usurpador de ofício.
***
Parto
I
Estou em minha hora mais fértil
Já que não posso te amar,
faço em mim outros filhos
crias do meu sangue
assim como o teu.
Tens parte nessa teia.
No espólio final, ficará
com o bocado mais
hábil.
Eu permanecerei
com as palavras.
II
Sem mais,
retorno.
Ele tem cheiro de alvorada.
***
Brasília
50 anos em cinco.
Tempo do envelhecimento de uma alma.
Um corpo pesa.
A gota cai.
O sol nasce.
Enquanto você fica parado vendo a noite se aproximar
Estático
O silêncio da noite morna com grilos
Entregue a qualquer coisa que seja vida.
Fernanda Fatureto é autora de Intimidade Inconfessável (Editora Patua, 2014). Os poemas aqui selecionados fazem parte do livro de estreia da autora, que também é Bacharel em Jornalismo pela Faculdade Casper Libero (SP). Mineira, vive entre trânsitos pela linguagem.
gelo e formigamento,
covinhas, a ficha
criminal de um amigo,
simetrias no escuro,
a necessidade de uma estrofe,
o prazer em ler Clarice.
***
POÉTICA I
A visão fura a maquiagem de olho aberto
sem rasgar as pálpebras fechadas de leve
Há cães e dedos nesta pequena enxergância
densa como o mundo quando vê.
Uma inocência a pôr óculos em pedras:
Seres maiores e estranhos.
***
O medo que sinto desta chuva baixa e traiçoeira
que a gravidade se casa com o vento para derrubar
das árvores molhadas até o chão encharcado
não me deixa ir ver o buraco que um vizinho fez
para do teto da varanda com um cabo de aço
pendurar um vaso de flor abaixo do chão do quintal.
***
POÉTICA II
O espelho me conta mais uma vez a lenda
deste duplo círculo de cílios vivos, –
mas eu reconheço a morte na ponta de um dedo
quando me deparo com tamanha falta de agulha
negra xenófoba temerária frígida primeiro-batalhão
contra a sedução tátil de qualquer imagem vista,
não este pequeno projeto de sombra platelminta –
que faz do espelho uma sala de espelhos alcova.
***
alinhaves de misericórdia
encerram um animal colérico
contra aquela criança que sonha
um céu inteiriço de nuvem azul
durante tardes nem tão amenas assim
de uma vida um senfim de promessas:
Não chego a cumprir sequer percurso.
***
Pronto a abandonar o navio
pela primeira vez percebi
a ilha de barcos em chama
que era o sol a se pôr
na ânsia do mar, horizonte,
este ciúme incurável
que as ondas regressam contra
tudo que ondula sem sal, mágoa,
esta partilha perfeita que o mundo fez do espelho,
cacos inconsúteis, o marulho das árvores na espiral das
conchas,
a nuvem verde da criança que sonha o silêncio astronauta,
o mar nunca deixou de berrar
e eu só ouço agora no zunido dos meus braços abertos,
meus pés pedalam ainda na órbita do encouraçado estéril,
a vastidão me espera em vão gorada nas orlas
e de uma crueza triste junto ao cerne mofado.
Eu sempre soube que odiaria as gaivotas.
***
QUOTIDIANA
Depois do alento,
há uma vitória ingrata
aos que não sabem cantar,
todos nós, ao fim do mundo
já descalços tropeçamos em saltos
ainda, ruído ainda lamento melancolia perdendo sons por dentro:
desalento descanso desdém dia
até sobrar uma única letra
a ser acrescida antes que tudo fim:
Algo algo antes que tudo some, melodia.
Leandro Rafael Perez nasceu em 1987 e tem a altura da Carmen Miranda com chapéu-coco. Mora quase em Diadema, SP. É autor de Pálpebras Amareladas (pdf, 2008) e Lança além do real só (Patuá, 2011). Turnê a meio mastro será o próximo. Mantém o blogue fumante entre cavalos.
“Eres la fórmula perfecta que el tiempo formó para mis manos.”
May Rivas
A poesia atravessa, não se sabe ao certo desde quando, um processo descontínuo de rejeição e acolhimento. Rejeição, por um lado, de um grande público, e acolhimento, por outro, de uma leva de escritores que algumas vezes não têm um verdadeiro compromisso com a palavra – objetivo maior. A produção literária, em especial a poesia, requer um ciclo de estações imprecisas, com tempos longos, por vezes intempestivos, para que o sumo necessário à existência da obra seja esgotado e colhido.
Por isso, quando nos deparamos com uma poeta de carreira sólida, construída com base num pacto com a leitura e a escrita, somos, inquestionavelmente, levados a notá-la, ao menos, com maior atenção.
Uma dessas poetas de tempos trabalhados é a peruana May Rivas de la Vega, que tive o presente de conhecer no XX Encontro Nacional e Internacional de Mulheres Poetas em Cereté, na Colômbia. Desde o princípio, não apenas pela sua poesia precisa e madura, mas pelas suas ideias equilibradas, May Rivas despertou meu interesse. Com uma postura poética decidida, arejada por imagens corpóreas, seu trabalho com as palavras revela o movimento da vida em direção ao embate amoroso e à consagração ao enigma “natureza”, condensando uma poesia de sombras luminosas. E é a mulher – a mulher May e todas as outras – que sublima reinos e fomenta a saga lírica, feminina, humana e universal quem habita os poemas da escritora.
Gestora cultural, editora, poeta da geração de 80 e feminista, May Rivas tem seguido um percurso de força na literatura, com vasto e feliz currículo. Formada em literatura e também em ciências políticas, trabalha pela promoção do Livro e da Leitura. Participou de diversos programas e eventos literários, além de publicações em revistas, e como jurada de concursos. É autora de Con ojos propios, de 1996, pela Magdala Editora, e Si Dios fuera mujer, de 2006, pela AzulVioleta Editores. É frequentemente convidada para vários eventos literários pelo mundo.
Faz sua estreia na Diversos Afins, contando-nos um pouco de sua trajetória poética, suas inclinações literárias e posicionamentos ideológicos e políticos como gestora cultural, ativista da leitura e feminista que é, num mundo no qual as mulheres ainda precisam de leis para conseguir outros espaços.
May Rivas / Foto: Alberto Schroth
CLARISSA MACEDO –Assinalando uma experiente jornada na matéria poética, seu livro mais recente, Camino de Regreso, marca uma carreira literária de mais de 20 anos. A poesia, no entanto, geralmente indica uma origem que precede quaisquer datas. Por isso, May Rivas, conte aos leitores brasileiros quando, melhor, como a poesia apareceu na sua vida chegando mesmo a determinar sua atuação profissional.
MAY RIVAS – Pois sim, são muitos anos de carreira literária. Sempre penso que é a poesia quem escolhe seus adeptos. Em meu caso, poderia dizer que começou com as leituras em voz alta que minha mãe me presenteava desde muito pequena e a bem nutrida biblioteca que meu pai deixava ao meu alcance. Porém, minha escrita poética começa em meu primeiro ano de universidade, aos 16 anos. Primeiro vieram as publicações em revistas universitárias, logo revistas literárias, para dar lugar, posteriormente, aos poemários próprios e antologias nacionais, assim como de outros países. Através dela é que de alguma maneira se conduziu minha atuação profissional, não somente no aspecto laboral, mas na forma como percebo o entorno. Desde sempre, tenho trabalhado como gestora cultural, conduzindo a gestão no campo literário em todos os seus aspectos, desde a criação, passando pela edição, até a indústria do livro e da leitura. Com a firme convicção que o consumo da leitura alimenta uma parte importante do ser humano: a alma. Assim mesmo, se converte em sanadora de quem a escreve e de quem a lê.
CLARISSA MACEDO – Partindo desse alimentar da alma de que você fala, e de sua íntima convivência com a literatura, qual o significado disso para você?
MAY RIVAS – É a porta para o conhecimento não apenas das pessoas que participam de sua criação e do processo pelo qual passa um livro para chegar ao leitor e leitora, mas também de quem se relaciona com ela. Através da literatura, encontramos a liberdade e a integração com o outro. Também poderíamos dizer que a literatura cumpre uma função de terapia, de cura. E como disse o escritor Mario Vargas Llosa, prêmio Nobel de literatura: “A literatura é uma forma de insurreição permanente e ela não admite as camisas de força”.
CLARISSA MACEDO –Lendo seus poemários, percebemos algumas nuances insistentes: o próprio tema da liberdade, através de uma espécie de “grito de livre-arbítrio”, os caminhos traçados ao longo da vida, o elo materno, o desconforto do estar no mundo e, ao mesmo tempo, a necessidade de sê-lo; há um grande tema, ou grandes temas, em sua poesia? Se sim, quais são eles?
MAY RIVAS – O tema da reafirmação e reconhecimento como mulher independente é um eixo bastante presente em minha poesia, contudo, não é o único. Como sabemos, o que escrevemos é totalmente autobiográfico, somente em uma porcentagem, portanto, é o que percebo também em outras mulheres. Por outro lado, o escritor ou escritora é um testemunho de sua época. Ao sermos testemunhas de um momento determinado em um mundo como o que nos rodeia, dificilmente estaremos em conformidade com o que vemos, sentimos, etc. Portanto, há desconformidade. De outro modo, a literatura é insurreição pura.
CLARISSA MACEDO – “O tema da reafirmação e reconhecimento como mulher” é, certamente, uma tônica bastante abordada na literatura. Embora nem sempre tenha sido assim e isto seja uma das molas propulsoras desse ciclo. Nesse aspecto, há algo que, me parece, a inquieta: a situação da mulher, não só na literatura, mas na política e em todos os setores da sociedade. Como você vê este processo nesses últimos anos e como está sendo no Peru?
MAY RIVAS – É um tema bastante abordado na literatura e, efetivamente, é um assunto que me interessa em sua totalidade como feminista que sou. Em meu país estas reivindicações têm tomado corpo, com idas e vindas. Entretanto, o constante trabalho organizado dos grupos feministas tem logrado uma certa autonomia da mulher em diferentes campos da sociedade. Isto não quer dizer que o trabalho tenha culminado, pelo contrário. Por exemplo, faz uns poucos anos, temos um Ministério da mulher, que, de acordo com diferentes governos, se dá maior ou menor importância; também há uma maior presença de mulheres no campo político, o que originou a lei de cotas que estabelece uma porcentagem mínima de mulheres em altos cargos do Estado. Porém, neste momento não vem sendo cumprida pelo governo, mas se está trabalhando para reforçá-la. Sem dúvida, é fundamental que se siga trabalhando em cima da mudança de mentalidade, sobretudo das mulheres: a consciência de gênero e equidade em todos os âmbitos.
May Rivas / Foto: Alberto Schroth
CLARISSA MACEDO –Pensando nas suas respostas anteriores e nesse envolvimento declarado com o feminismo, é possível dizer que sua poesia seria de alguma maneira comprometida com tais questões?
MAY RIVAS – A poesia, assim como a literatura, não tem que estar circunscrita ou a serviço de um movimento ou ideologia política.
CLARISSA MACEDO –Vinda de uma escola literária, digamos, moderna, como você vê a poesia contemporânea, que está permeada pelo fascínio da velocidade e do alcance das redes sociais?
MAY RIVAS – Pessoalmente, gosto, já que também se pode dialogar com outras disciplinas. As redes sociais facilitam a difusão e conhecimento do que acontece, desde o ponto de vista da literatura, em outros lugares, e chega a muito mais pessoas de maneira mais direta.
CLARISSA MACEDO –Partindo desse ponto, há um espaço genuíno para a poesia hoje?
MAY RIVAS – Sim. Todavia, há que se seguir fomentando o consumo da poesia, que, dentro da literatura, é um dos gêneros que menos se consome.
CLARISSA MACEDO –Diversos poetas partilham dessa opinião: a poesia como um dos gêneros que menos se consome. A que se atribuiria isso?
MAY RIVAS – Diria que não só vários poetas compartilham deste ponto de vista, mas também editores. Aventuro-me a dizer que a razão poderia ser que não é um gênero que se saiba ensinar adequadamente nas escolas e/ou que não aproxima a poesia dos meninos e meninas nos primeiros anos.
CLARISSA MACEDO –Em sua carreira como escritora, é notória a participação que você desempenha em encontros literários em várias partes do mundo, como Cuba e Colômbia. Em que medida estas experiências enriquecem a matéria poética?
MAY RIVAS – Enriquecem muito, porque se aprecia olhares diferentes sobre o que se escreve e de como se é percebido por outros públicos, assim como escritoras e escritores de outras latitudes, com uma carga diferente da nossa.
CLARISSA MACEDO – E daqui pra frente, quais são os planos de May Rivas como escritora?
MAY RIVAS – Terminar o terceiro poemário que estou escrevendo, e, claro, os que estão por vir. Não sou uma pessoa que tenha pressa em publicar, mas bem, sou das que frequentemente demoram nas publicações. Por outro lado, e de maneira paralela, continuar com o trabalho de editora e gestora cultural focada em projetos que tenham a ver diretamente com a criação, o livro e a promoção da leitura, este último como um compromisso.
Clarissa Macedo (Salvador – BA). É licenciada em Letras Vernáculas (UEFS), mestre em Literatura e Diversidade Cultural pela mesma instituição e doutoranda em Literatura e Cultura pela UFBA. Atua como revisora e professora. Ministra oficinas de escrita criativa. Está presente em diversas coletâneas. É autora de “O trem vermelho que partiu das cinzas” (2014). Sua poesia está sendo traduzida para o espanhol. Edita o blog Essa coisa que é o eu.
Como de costume,
sem ter hora ou ocasião,
a verve me espreita
os sonhos mais sórdidos.
Ela se debruça sobre mim
e com seus lábios melífluos
me beija
ardentemente.
Somos o próprio caos.
Depois de algumas horas de
gozo trocado,
eu, ainda distante de mim,
me lembro de Dulce,
a bibliotecária que lambe
dicionários.
Recordo-me também de Agenor,
o velho que cultiva bonsais
em torradeiras.
Me vem a mente, por último, a persistência
de Hugo, o menino que empilha grãos de arroz
com um apuro sobrenatural.
O que
por acaso
nos aproxima
é justamente
o fato
de que sonhamos sozinhos.
O que
curiosamente
nos mantém ligados
é aquilo que
nos denuncia.
A consciência de que meu eu
só existe em lírica
não é um incômodo.
Muito pelo contrário,
é o que
dá ao meu aglomerado de células imprecisas
alguma verossimilhança.
O mundo seria ainda mais infindável
se todo espírito pudesse desfrutar do
prazer
de
inexistir.
***
Como fazer
Aos companheiros ourives Renato Silva e William Delarte
Mantenha
em território livre.
O recomendável é que se
refugie na parte da cabeça onde
a verve
nunca anoiteça.
Regue de três em três instantes,
com choro, suor, sangue ou qualquer
outra fagulha humana.
Se possível,
acenda um incenso.
Não são poucos os que apregoam
que o gesto confere ao objeto
um certo ar de efeméride.
Não se preocupe
em lapidar.
Não se deixe assombrar
por devaneios quanto
a forma.
O único desejo que deve prevalecer
é o de que
a joia floresça.
A coisa estará perto de se concretizar
quando estiver menos matéria sólida e
se tornar algo fino.
Mas ainda assim tão tátil
quanto o próprio vento.
E, por fim,
para assegurar
a garantia
de todo o processo,
sem remorso ou indecisão
você deve
atirar a pedra
no meio
do
caminho. Observação pertinente: você deve atirar
a pedra
no meio do
SEU
caminho.
***
A aranha
A aranha,
sempre humilde tecelã,
constrói a própria cama.
Eu atiro-me a minha
sem contestar sua
origem.
A aranha, essa decorosa mãe,
faz da cama
berçário para
acomodar sua
numerosa prole.
Eu abrigo na minha
pesar e ossos cansados.
A aranha, sábia raposa,
sabe que sua cama também
é engenhosa
armadilha.
Eu deito na minha, certo
de que é um santuário
de sonhos concernentes.
A aranha, sempre inventiva,
também faz da cama
um modesto refeitório.
Eu me vigio pra não manchar
os lençóis da minha.
A aranha, indubitavelmente,
sabe se virar.
Eu só durmo de bruços.
***
Sob nova direção
Herdei do velho dono
uma coleção de LPs
e um cão de olhos gastos.
O quadrúpede choraminga
toda vez que a vitrola evoca
a voz de Joplin
ou a juventude inesgotável
dos Besouros.
O cheiro de incenso perdura.
Há dezenas de pinturas mal-acabadas.
Tentativas frustradas
de autorretratos.
Nada é igual.
Nada é unânime.
Tudo se condensa de forma que
cada um dos arredores percorra
uma ala do coração do
antigo inquilino.
Cada um dos móveis,
cada peça que compõe a mobília,
tudo reverbera a falta.
A saudade é um hino estridente
que ressoa de forma violenta e é
cantado por cada um dos tijolos que
integralizam a ossada de
minha nova residência .
As inúmeras infiltrações soam
como veias puídas
que pulsam lembranças
em tom de sépia.
Eu, tão ausente, quanto
o avoengo proprietário
destoo desta alvacenta cenografia.
Sou elemento sobressalente de
uma plástica já sacramentada.
Um fio de azeite temeroso
em meio a um oceano de decomponível
quilometragem.
Não tenho feito nada a não ser
esperar.
Sonhar com o dia em que, finalmente,
hei de me habituar
à maneira indecorosa
com que esta casa
respira.
***
Visita
Servira-me uma dose
generosa
de uísque na xícara.
Corria pelos seus aposentos
ilustrando seu vigor com
gestos efusivos.
Entoava de novo seu
cancioneiro de
auspiciosos
anexins.
A. estava feliz.
Na poltrona,
o acordeão.
Ao que consta,
ele fora recobrado.
Partituras se acumulavam
pelo chão a exemplo de post-its
de toda a sorte de cores
nas paredes.
Minha querida A. dispunha
de um vestido amarelo.
Imitação original da luz do dia
e tão radiante
quanto ela própria.
Valsávamos incautos ao som de um
de seus blues.
Quando, por alguns breves minutos,
ela se ausentou
me aproximei de um
dos coloridos memorandos
que vestiam sua alvenaria.
Em todos eles
estava escrita, com a mesma delicada
caligrafia,
uma audaciosa máxima: o câncer
não sobreviverá
a mim.
Luiz Brener nasceu em Caraguatatuba/SP em 1994. Segundo a cultura de prognósticos, o mês e a hora exata de seu nascimento indicam que ele é capricorniano e o seu signo ascendente é o de peixes. Em outras palavras: Luiz é um obstinado sonhador. Publicou nas antologias literárias O Segredo da Crisálida e Entrelinhas-Vol.2, ambas da Andross Editora. Fotogramas é seu livro de estreia e integra a Coleção Patuscada, premiada pelo ProAC- 2012 – Programa de Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura.
No diapasão tempo-espaço, a matéria apresenta suas diferentes formas de estar no mundo. Revestida com seus tons aparentes, ela ora explicita muitos de seus significados, ora cumpre um ritual que permanece oculto diante do nosso imediatismo questionador. Quando a margem para a revelação se processa além das esferas físicas, algo marcante instaura-se em torno das nossas percepções. Nesse novo e enigmático território, resiste o verbo segredado e habitante de uma morada regida pelos imperativos do ser.
A busca pela essência é em muito representada pelo enfrentamento dos mistérios, sobretudo quando adentramos um ambiente que desafia nossa mais primitiva capacidade de compreensão das coisas. Assim, vislumbrar cenários contidos nas entrelinhas do ser é como se voltar ao eu tentando captar dele seus sinais genuínos. Noutros momentos, pode também ser uma espécie de déjà vu por entendermos que certas paisagens nos soam curiosamente familiares.
Em meio a tais caminhos, feitos de delicada e inexplicável substância,Leonardo Mathias deixa correr soltas suas visões da existência. Entre desenhos, ilustrações e aquarelas, inscreve-se um tempo marcado pelo sabor dos intervalos. No jogo que permeia a visão imediata de pessoas e objetos, esse artista elege os recônditos como sendo os símbolos preferenciais de seu trabalho. Interessam-lhe desvãos e sendas, elementos que protagonizam o indizível.
Arte: Leonardo Mathias
Ao passo que sua arte preconiza um recorte intimamente compartimentado das coisas, Leonardo também prefere a antevisão dos cenários e ações, característica que torna robusta a sua perspectiva de conceber a um tudo com olhares de experimentação. Dentro dessa ótica, a vida mesma pode ser recriada segundo uma ordem que equaciona saberes e sabores. O mecanismo que antecipa sensações não é apenas uma tentativa de enxergar o essencial nas entrelinhas do mundo, mas, principalmente, um modo de vivenciar as nuances complexas que se abrigam no interior dos dias.
Outro aspecto que merece ser destacado na obra de Leonardo é o modo como se processam as intervenções humanas nos ambientes. Aqui, o interessante é notar que se opera uma convergência entre corpos e lugares permitindo a ambos uma espécie de translucidez não somente física, mas também algo abstrata. Nesse hiato de territórios que se fundem, o artista encontra a poesia capaz de engendrar recortes da alma. A luz que atravessa os pontos de observação do criador redimensiona o caráter conceitual das coisas e, como ele próprio confessa, intenta consolidar uma matéria de encantamento.
Arte: Leonardo Mathias
As frentes de atuação de Leonardo Mathias não se restringem apenas ao campo das artes visuais e do design. Na seara literária, tem devotado especial atenção à poesia. Seu livro “De Pé” foi recentemente reeditado pela Editora Patuá. Possui colaborações em jornais como O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo, bem como nas revistas ZUPI e InPrint Magazine. Participou de várias mostras coletivas, sendo que, em 2012, realizou sua própria exposição individual, intitulada As Janelas de Rilke, premiada pelo ProAC Artes Visuais (Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo). No meio editorial, sua participação tem sido bastante expressiva, pois ilustrou e assinou projetos gráficos de mais de uma centena de livros.
Dada a aguçada sensibilidade do artista, suas imagens estão à serviço de uma compressão na qual tempo e espaço se conjugam de modo a transmitirem uma peculiar noção de unidade. O olhar que vislumbra o viés orgânico de corpos e objetos transcende a materialidade e nos faz contemplar um universo densamente etéreo. Seu porta-voz, Leonardo, se encarrega de nos ofertar os códigos da sutileza para um deleite autônomo.
Arte: Leonardo Mathias
* Os desenhos e ilustrações de Leonardo Mathias são parte integrante da galeria e dos textos da 89ª Leva.