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89ª Leva - 03/2014 90ª Leva - 04/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética III

Marcelo Ariel

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Marcelo Ariel nasceu em Santos, em 1968, e vive em Cubatão. É poeta e pensador. Autor dos livros “Tratado dos Anjos Afogados’ (LetraSelvagem), ‘Conversas com Emily Dickinson e outros poemas’ (Multifoco), ‘Cosmogramas’ (Rubra Cartoneira), ‘A Segunda Morte de Herberto Helder’ (21 Gramas), entre outros. Lança em breve seu décimo livro de poesia, ‘Retornaremos das Cinzas para sonhar com o silêncio’, pela Editora Patuá. É colunista dos sites Cinezen e Musa Rara, e um dos editores da Revista Mallarmargens.

 

 

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89ª Leva - 03/2014 90ª Leva - 04/2014 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Maurício de Almeida

 

Arte: Leonardo Mathias

 

Atlântico-Noite

 

Jogado no sofá à espera de nada, combalido no marasmo de uma ansiedade entorpecida por mais uma dose de uísque, ouço ao longe uma rebentação e imagino as ondas primeiro num refluxo tímido e assustado para depois acertar numa violência desnecessária a noite que observo posta à janela. Ao suspiro desses marulhos, deixo-me quase em vigília na esperança de compreender esse sentimento oco que se agrava ao som de ondas e as ondas aos círculos no copo que seguro, uma agonia desnecessária minha vida feito gelo sumindo aos poucos como se não sumisse: o tempo que se mantém véspera, Sartre delirando com o suicídio de Quentin nos livros que pairam quietos pela sala. E nessa pasmaceira, sonho alto com a bunda de Simone de Beauvoir e o mínimo instante de prazer no qual me evadirei do acúmulo desmedido de pudores e arrependimentos que me naufragam numa apatia e me colocarei outra vez em movimento, a vida pulsando para além de tudo que agora conspira desistência nesse sofá-arquipélago sobre o qual me abandono apático.

Desacreditado no torpor de uma angústia que se espraia sem razão e me engole na ideia de que neste momento o mar é tão-somente um imenso vazio, noite refletida e inquieta gestando ameaças em profundezas, assalta-me sem pressa essas pernas que irrompem a sala forjando desinteresse, meus olhos subindo ao umbigo, os peitos pequenos e os braços abrindo asas sobre a cabeça para enrolar uma toalha no cabelo: Isabela nua indo à estante e decidindo numa linguagem ancestral qual livro escolher me deixando quase às mãos sua cintura, as curvas suaves de sua bunda

(Simone de Beauvoir ao acaso desta noite)

o corpo molhado que ela então e de repente esconde com a toalha antes na cabeça para inventar um mistério que me subjuga a uma necessidade de resolução

(Sartre e Quentin delirando)

e ao qual, apesar de me animar prometendo escapes e evasivas, impeço-me reações, reafirmando ansiedades & marasmos, o uísque me comovendo em preguiças. No entanto, observo-a capturar um livro e colocar uma cadeira à minha frente para folhear páginas e inventar sons que deveriam soar plenos de sossegos

ein jeder Engel

mas, ao contrário, explicitam carências em fonemas que não entendo

ein jeder Engel ist schrecklich

acentuando este não-lugar ao qual já pertenço, um tempo que insiste vésperas jogando-me de um lado ao outro ao acaso de ondas sem início ou fim. Todavia, me encanta ver a forma definida de cada músculo contraindo-se ein jeder e distendendo-se Engel ist sem acidentes schrecklich e sem acidentes ela coloca as pernas ao meu redor prendendo-me ao seu cerco, um estranho sorriso esses lábios que me convocam e aos quais não resisto um beijo, os dedos dela firmes aos puxões no meu cabelo e nesse êxtase ainda discreto não prevemos a queda do livro que nos toma num susto: ela salta e recua como se tímida ou assustada e me nega o segredo mínimo de suas pernas abertas, prenúncio de vida enfim realizando-se mas logo pondo-se distante, refluxo.

Acompanho-a caminhar até a mesa e servir-se de uma dose de uísque antes de pegar um cigarro. As mãos dela se movem muito lentamente como se desenhassem os sinuosos fios de nicotina que somem sem anúncios e, entregue outra vez a uma apatia sem tempo, não a percebo armando-se num golpe que afinal me acerta o corpo num rebentar ao tê-la inteira sobre o meu colo, eu surpreendido por ela me afogando num beijo e murmurando de olhos fechados

todo anjo é terrível

nossos braços desfazendo-se das roupas num movimento de nado, nossas pernas entrelaçadas numa agitação imprevisível de cardumes, um estado de graça Isabela me exigindo ação em violentas assertivas

(todo anjo é terrível)

certa de que o prazer da entrega não está na constância, mas na intensidade, e eu quero dizer que preciso de continuidade, ela me pesando indefinidamente o corpo para me sentir vivo, a sensação de que as ondas me endereçam de uma forma muito particular a qualquer praia. Contudo, indiferente aos meus suplícios que não conseguem articular palavras, ela me amarra os ombros num abraço para nos embalar em cadência e finalmente me vencer num estampido, um torpor correndo leve que me enfia um sorriso melancólico no rosto, porque a vida que se fez presente volta a fazer-se véspera

(Sartre aos prantos no ombro de Simone de Beauvoir)

Isabela enrolando-se novamente à toalha antes de sentar-se ao meu lado e voltar a folhear o livro em silêncio, negando-me fonemas e versos, pernas e sorrisos, e outra vez e sempre um marasmo desnorteado, a sala cheia de tormentos e marulhos e não me resta senão aguardar que nada se mova sobre a face do vazio que é o mar durante a noite no qual me esqueço à deriva na espera por nada.

 

 

Maurício de Almeida é autor de Beijando dentes (Ed. Record), livro de contos vencedor do Prêmio Sesc de literatura 2007.

 

 

 

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88ª Leva - 02/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Tadeu Renato

 

Foto: Ozias Filho

 

Alêntodo

 

o poema não
esconde
………..nem responde
se depois da vida
põem-se as dúvidas

não clama no claro da noite
o aro ralo da lua
……..relendo as ruas da cidade
cala os verbos diante
das cortantes realidades da
………………fala

o poema entre
tanto
atormenta de espanto
……….todo momento de trevas
e faz de sua glória
um atrevimento

 

 

***

 

 

Salivaginádegas

 

um pássaro-poema passa
da minha
para
sua língua, com alívio
de saliva

voa entre dentes
seios dedos
bate asas na vagina

com instinto cor de vinho
resplandece a flor
que faz
num instante
este seu cultor
esquecer o fim de tudo

 

 

***

 

 

Das obras

 

No canteiro de obras,
as flores que brotam são flores de pedras.
Nem tanto, nem flores:
espelhos e torres que riscam e impedem
e perdem-se as linhas
e as vilas e as ilhas que são as pessoas.

Levanta a montanha
na manhã das pontes
– no horizonte, o sol vem à tona.
Migalhas de sim e de não,
minha mãe, seus irmãos,
desconhecida gente
descendo à cidade:
de todas as partes
vem trabalhadores
e pombas e graças
e atores de praça e a fome tropeça
pé de maravilha

A força do espanto
(mareja suor
da máquina-mundo)
pergunta e segreda:
será um bom dia?

 

 

***

 

 

Corte Certo

 

senhor impostor: sei que tem
andado por aí
dormido com minha mulher
usando o nome que tive
tomando benção de vó
corrido com os cães:
canalha

aproveite a morada
no corpo que não te presente

não demora nada
outro ocupa seu lugar
despedaça seus membros
sem tempo de se despir
aluga os amigos
imposta a voz navegante:

navalha

 

 

***

 

 

Legenda

 

ainda é insuficiente
dizer
palavras nos colecionam
sustentam toda estrutura
no caos das horas

revela pouco mais que nada
o trabalho transformando
pedra em casa
casa em lar
lar em vida
vida em morte

o tempo que passamos ocupando
mais cala
quanto mais
………fala

quase o quê
é essência ou criação
no que somos?

desde os primatas
até a hora passada
carregada de lendas e teses

nada serve de legenda
para esta tarde em que fervem
esta chama sem nome
estes sons pela casa
nossos corpos na cama
sob a luz deste sábado

 

Tadeu Renato (1981) é formado em Filosofia. Professor, compositor e contista. Tem palavras escritas, cantadas e faladas por aí. Dramaturgo do Coletivo Quizumba, entre outros grupos. Seu primeiro livro,  Alêntodo (letras para melodias corporais),  será publicado em 2014.

 

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88ª Leva - 02/2014 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

DEUS, O NOME

Por Anderson Fonseca

 

Seria o tempo a sucessão de um mesmo nome? Será a história a diacronia semântica de um único nome?   Segundo a Bíblia, sim. Este livro é a transformação de um mesmo e único nome, Deus, que se revela em cada verso, cada estrofe, cada personagem, como se todos os elementos que constituem a narrativa fossem um aspecto desse nome, e a história fosse a sucessão do nome em diferentes circunstâncias.

Logo, a história na Bíblia é o desenvolvimento de um único nome, e o tempo, a sucessão desse nome que se repete indefinidamente, e os personagens, a sua sombra. Isso leva-nos a pensar que o nome Deus é a realidade subjacente do qual tudo é apenas um reflexo. A literatura seria, portanto – tomando-se a Bíblia como modelo –, o desenvolvimento semântico de um único nome. O nome Deus repete-se e se transforma em literatura, e a literatura é, quanto a esse nome, a historicidade da palavra. O nome sucede-se no tempo, ou o tempo é a sucessão desse nome no pensamento.

No livro de Êxodo, cap. 3, 14, Moisés indaga a Deus seu nome, e Ele responde: “Eu Sou O Que Sou”. Mas o nome ainda não é o Nome, pois lhe falta uma letra que entregaria sua natureza real. O Ser apenas disse a Moisés o que Ele é, não lhe revelou quem, e sim, o quê. Eis outro aspecto do nome, cujo significado é desvelar a natureza do ser nomeado. Entretanto, a narrativa bíblica nos apresenta outro olhar, o nome não leva à compreensão da essência, porque em qualquer substantivo falta-lhe uma letra, cuja função é trazer à luz a natureza do ser nomeado. Deus não disse Seu Nome, apenas substantivou o que Ele em si é, o É. Ser em si o que é, ou Ser em si o É, revela-nos sua atemporalidade. O nome de qualquer ser é atemporal, a temporalidade surge quando o nome é envolvido pela circunstância. Ser o ser, ser o É, não está em quando, porque o Ser-É-em-si, é um nome ao qual não há tempo. O tempo do nome é sua transformação circunstancial segundo outra voz. Aí, o Ser-é tornar-se o Ser-será, o Ser-foi, o Ser-seria.

A palavra Ser é verbo, mas também é substantivo, porque nomeia; e, segundo a gramática, é um substantivo abstrato na forma infinitiva. O infinitivo aponta a atemporalidade do nome, se este nome é conjugado pela relação voz/circunstância, torna-se sou, és, é, somos, sois, sereis, e etc. O Nome em si é extemporâneo, mas através da relação com outro nome (de um substantivo com outro substantivo) surge a sucessividade e o Nome passa a sofrer a presença do tempo. Deus é enquanto Nome, contudo a repetição do Seu Nome é a razão da sucessão. Portanto, o tempo seria a sucessão de um mesmo Nome no pensamento. Se Deus é, Ele é hoje, ontem e amanhã; a presença do é, atesta que o tempo é uma ilusão, sua experiência só o é real, devido a relação estabelecida com o conceito que se repete, até por que a repetição de uma mesma ideia admite a negação da relação anterior e o surgimento em seu lugar de uma nova. A literatura é a sucessão desse Nome, e a sucessão do Nome é a causa da narrativa. Conforme a Bíblia, a narrativa seria a repetição de um mesmo nome em diferentes relações estabelecidas com ele. Chega a um limiar em que não se sabe se o Nome transformou-se ao longo da narrativa (história) ou se a narrativa é a transformação contínua desse Nome. Quando se lê a Bíblia, está lendo-se a narração de um nome que se transforma ao longo dos séculos.  A Literatura é, portanto, a narrativa de um Nome.

Contudo Moisés não conheceu o Nome de Deus, faltava-lhe uma letra e, devido a isso, o Nome se transformou na história, transformou-se semanticamente. A narrativa seria a busca de encontrar a letra que falta ao Nome. A ausência dessa letra levou a atribuição de outros nomes (qualidades) como modo de completar o Nome. Assim, Deus passou a ser chamado de Justo, Santo, Amoroso, Verdade, etc. Essas qualidades que em si são antropomorfismos nascem da necessidade do homem compreender a Deus, porque dEle o homem só tem por conhecimento um Nome incompleto.

Moisés esperava de Deus saber seu Nome, mas Deus não lhe disse, apenas falou-lhe o que Ele é. Quem sabe Moisés planejasse com a descoberta do Nome dominar o deus que lhe apareceu. Mas ao ouvi-lo, reconheceu a impossibilidade de tal façanha, porque seu conhecimento limita-se a uma palavra, cujo sentido encontra-se na falta. Por mais que buscasse, jamais descobriria quem é através do nome que foi lhe dado, pois ao nome faltava-lhe uma letra. Cabe ao homem, agora, preencher o vazio deixado ao Nome com outros nomes, cuja função principal é qualificar (acidentar) para ser racionalizável.  O Nome será interpretado pelo homem por meio da racionalização de Seu vazio. A interpretação fundamenta-se na falta que há no Nome, porque no momento em que é interpretado, o Nome está sujeito a abstrações, i.e., ao receber características que não lhe pertencem para torná-Lo entendível. A Literatura, logo, é a letra que falta.

A letra que falta é a razão do Nome ser na narrativa, e a narrativa, a sucessão desse Nome, e, enquanto narrativa, o Nome existe. Portanto, Deus existe como narrativa de si mesmo.

 

Jorge Luis Borges / Foto: divulgação

 

Jorge Luis Borges escreveu no poema Uma Bússola:

 

Todas as coisas são palavras lidas
Na língua em que Algo ou Alguém, noite e dia,
Escreve essa infinita algaravia
Que é a história do mundo.

 

Jorge Luis Borges em toda sua obra parece buscar o Nome, porque o Nome seria em si a própria obra. O livro Ficções é o desenvolvimento desse Nome, um Nome que se repete, e que se converte em história. Nos contos A Biblioteca de Babel, A morte e a bússola, Três versões para Judas, e O Fim, Borges trabalha as versões desse Nome; ele faz uma releitura.

Em A morte e a bússola, uma série de assassinatos marca a busca pela reconstituição do Nome Secreto. A primeira morte, a do personagem Yarmolinsky denuncia o labirinto, porque até seu assassino contém no nome a metáfora do labirinto, Scharlach. Ou seja, a vítima começa com Y e termina com y, e o assassino com Sch, e termina com ch, fechando um círculo. O nome Deus em hebraico YHVH seria outra imagem do círculo, cujo significado oculto é eternidade ou a repetição infinita da mesma série de eventos. Nessa metáfora, Deus seria a história circular, a repetição de um Nome infinitamente até que os elementos desse nome tornem-se uma extensão dele, i.e., uma narrativa. O narrador escreve: “a tese de que Deus tem um nome oculto, no qual está compendiado seu nono atributo, a eternidade – isto é, o conhecimento imediato de todas as coisas que serão, que são e que foram no universo.”

Em Três versões de Judas, o narrador diz: “a traição de Judas não foi casual; foi um evento predeterminado que tem seu lugar misterioso na economia redenção.” Em outra passagem, escreve: … “que infinito castigo seria o seu, por ter descoberto e divulgado o horrível nome de Deus?” Os trechos confirmam a tese de que Jorge Luis Borges, assim como eu, e como qualquer cabalista, vê a história como uma sucessão de eventos ou desdobramentos de um mesmo Nome. No conto O Fim, o narrador afirma: “a planície está por dizer alguma coisa, nunca o diz ou talvez o diga infinitamente e não a compreendemos, ou a compreendemos, mas é intraduzível como uma música”.

No poema O Golem, Jorge Luis Borges escreve:

 

Se (como o grego no Crátilo di-lo)
Da coisa o nome é sua ideia pura,
Nos sons de rosa a rosa é e perdura
E todo o Nilo, na palavra Nilo.

E, feito de consoantes e vogais,
Nome terrível há de haver, que a essência
Cifre de Deus e que a Onipotência
Guarde em letras e sílabas cabais.

(…)

Gradualmente (como nós) viu-se ele
Aprisionado na rede sonora
Do Antes, Depois, Ontem, Enquanto, Agora,
Direita, Esquerda, Eu, Tu, Outro, Aqueles.

 

O Golem é o simulacro do Nome, assim como a história, uma infinita repetição das letras que o compõem num espaço circular – o labirinto.

A obra borgiana, tal como a Bíblia, é um desdobramento do Nome Deus, nome que se torna o próprio tempo, e que através da história afirma sua Eternidade. O tempo se nega e se afirma no círculo que é a repetição infinita desse nome YHVH.

 

Anderson Fonseca é autor dos livros Notas de Pensamentos Incomuns (2011) e Sr. Bergier (2013). Vive em Brejo Santo, Ceará.

 

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88ª Leva - 02/2014 Destaques Olhares

Olhares

O relógio imponderável de Ozias Filho

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Ozias Filho

 

No coração do mundo, pulsam sentidos hesitantes. Sob o efeito das cores e formas, somos tomados por epifanias que nos relembram a perspectiva cíclica do tempo. Mas eis o tempo e seus matizes. Majestoso em seus domínios, este senhor, que governa os ímpetos dos instantes todos, lança seus dados ao léu, arregimentando preces múltiplas daqueles que intentam lutar contra os ardis da resignação. Como conceituar a palavra destino? O que nos conforta face o correr das horas impensadas? Algum paraíso nos espera repleto de dádivas compensadoras para apaziguar nossa ansiedade?

Quem sabe ao contemplarmos os registros da luz, tidos em Ozias Filho, possamos esboçar algumas mínimas reações em face de tamanhas indagações? Sim. Ao fotógrafo cabe a sutil percepção das coisas que flutuam entre os dias. Ele, por si só, não profetiza amanhãs. Pelo contrário, pestaneja como os demais mortais. No entanto, ousa sondar as esferas que dividem a rotina agastada dos homens e dela põe em evidência a delicada película que envolve a tudo.

O que busca Ozias Filho? O paraíso por entre as conturbadas paisagens humanas? Talvez. Mas o fato é que seus alvos de observação transcendem urbanidades, trincam as vitrines intocáveis aos olhos e duvidam das nossas zonas de conforto pretensamente civilizadas. A Pasárgada de Ozias é feita de concreto e de sonho, do jogo dos extremos, de uma ponta qualquer de infinitude e, acima de tudo, do testemunho de que a existência é uma dama cujo manto é exponencialmente sensível. Nela, as cidades são vias de acesso para a aclimação das dúvidas. Não se busca uma terra prometida ou se vislumbra a morada da perfeição. Apenas subsiste a constatação de que as horas desmontam qualquer ilusão vã.

Foto: Ozias Filho

Carioca de berço, Ozias Filho foi buscar noutras paragens, mais precisamente em Portugal, a edificação de uma nova morada. Em todos os sentidos, diga-se de passagem, pois lá desenvolveu suas feições de escritor, editor e fotógrafo. Do seu envolvimento com a literatura, nasceram as obras Poemas do dilúvio (2002), Páginas despidas (2005) e O relógio avariado de Deus (2011). Algumas de suas imagens foram publicadas em revistas brasileiras, portuguesas e alemãs. Recentemente, o fotógrafo criou imagens a partir de versos de Iacyr Anderson Freitas. A obra, intitulada Ar de Arestas (2013), promove um diálogo entre duas poéticas que se fundem, harmonizando linguagens corporais em torno de um ambiente onde densas travessias da alma governam os sentidos de nossa tenra existência.

Um olhar detido pelas fotografias de Ozias nos permite atestar que o resultado poético é o grande alvo das pretensões do artista. Se há um caminho através do qual os fluxos da vida assumem uma dimensão diferenciada, sem dúvida alguma é a poesia quem determina tal escolha. Desse modo, o fotógrafo ignora os limites circunstanciais do tempo e não volta suas atenções para a mensuração cronológica dos momentos. Pelo contrário, deixa-se levar por motivações de ordem interna, catando verbos ao vento e os unindo a um painel que sabe a fragmentos de valor inexorável.

 

Foto: Ozias Filho

* As fotografias de Ozias Filho são parte integrante da galeria e dos textos da 88ª Leva.

 

 

 

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88ª Leva - 02/2014 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Isabela Penov

 

Foto: Ozias Filho

 

As Impossíveis Aventuras de Meu Amor num Outro Lado do Mundo

 

Num outro lado do mundo, a moça de pele encardida de suor e fumaça tentava explicar. Você não percebe, Meu Amor, que eu não posso? Que nem sei como você saiu de mim? Porque não havia mesmo espaço para mais um naquelas calçadas, apesar de elas parecerem tão longas e largas. Mas Meu Amor soltou um grunhido estranho, seus olhos imensos se arregalaram e ele regurgitou sobre ela uma baba espessa e escura como o asfalto. Era o lixo que não lhe caíra bem no estômago. A moça – eu gostaria de poder dizer seu nome, mas nem ela mesmo se lembrava. Podemos batizá-la de Moça, assim maiúscula. Moça fechou-se para dentro de si por um momento, para criar ódio. Tirou Meu Amor de perto, suspendendo-o com as duas mãos no ar, como se pudesse contaminá-la com aquele chorume que lhe escorria dos olhos e dos labiozinhos abertos. Em torno deles encontrou uma grande poça de água suja – pela manhã muito havia chovido sobre ela e Meu Amor. Foi então que ela fechou bem os olhos e imergiu a cabeça de Meu Amor na água até que ele perdesse o ar. Umas bolhinhas saltaram na superfície, ele parou finalmente de sacudir os bracinhos e tornou-se uma massa amorfa escorrendo com a água. Pronto. Agora ela podia ir trabalhar outra vez, o que fazia sempre entre o sono e a fome.

Mas eis que num dos baldes em que ela encharcava seu pano úmido e sujo, num dos baldes daquele preparo de água turva com o que pudesse matar todos os germes e vidas que pudessem insistir em proliferar-se sobre o chão alheio, naquela água algo debateu-se. Meu Amor! Ela espalmou as mãos para cima, arregalou-se toda, coagulada. De súbito enfiou os braços ali e com pressa retirou-o, lábios roxos de frio, apertou Meu Amor contra o peito para que se aquecesse, e balançou de um lado para outro, de um lado para outro, de um lado para outro, desajeitadamente e tão rápido que Meu Amor teve vertigens. Acocorou-se agarrada a ele. Meu Amor, aqui eu não posso, assim você atrapalha meu ganha-pão. Além do mais, Meu Amor, aqui não há lixo suficiente para alimentar a nós dois, e entre você e eu, Meu Amor, Meu Amor eu preciso escolher a mim ou a ninguém. O pequenino reclamava de fome e o estômago dela também, um pouco mais habituado. Meu Amor estava minguado, ainda mais franzino do que antes, e seu aspecto asqueroso percebia-se mais assim, com os ossos saltados. No fim das contas, Meu Amor que saísse de mim só podia ser amor minguado, torto, aleijado e sujo. Ela via-se nele, aquele ser mudo e sem dentes, faminto e malquisto, espelho de uma vida toda de intervalos e faltas. Meu Amor, você podia ser invisível como eu, quando você vai aprender? invisível como eu a vida lhe faria menos mal, passaria distante, indiferente, reclamaria do seu cheiro fétido e seguiria adiante para acontecer nos braços de quem pode e de quem tem, Meu Amor. Meu Amor, você não conhece nada da vida, você não sabe o quanto ela pisa forte sobre uma cabeça fraca de sono e de fome, você não sabe o quanto ela foge de onde há dor, o quanto ela abandona e deixa à míngua quem não nasce pra viver, mas pra ser vivido, pra ser vivido pelos outros. Meu Amor estava faminto, e Moça percebeu ainda que no silêncio, e irritou-se muito. Apertou-o bem, esmagando sua barriga vazia, sentou em cima dele e, na falta de panos limpos, foi com ele que limpou a latrina, esfregando-o violentamente contra o chão até que se gastasse e sumisse de vez.

À noite, ela ouvia mais o barulho do sereno que o rugir distante dos carros. Encolhida com as mãos no ventre, tentou chorar. Um cão gemia baixinho. Ela olhou em volta e viu o mundo todo naquela rua. Sentiu seu cheiro que não era de gente, nem de bicho, era de coisa vencida. Não pôde ver os outros que, como ela, também tentavam fazer luzir os olhos nos faróis dos automóveis. Suspirou, enterrando poeira nos pulmões, fez um gesto sutil riscando a substância densa do ar da cidade.

Foi quando ouviu um respirozinho, subitamente, em curtos intervalos, o respiro de um ar que faltava. Ao seu lado contorcia-se Meu Amor. Ainda. Pequeníssimo, mas estava ali e era ele mesmo. A Moça, sem poder pensar se ele tinha fome ou frio, botou-o numa pequena caixa sem poder observá-lo por muito tempo. Meu Amor até doía nos olhos, tão feio e mirrado estava. Deitou-se quieta sob o céu sem estrelas, entre aquele serzinho rude e um cão estranho alojado ali naquela pouca vida, cada vez mais pouca. Mil pessoas dormiam profundamente em suas casas. Esticando o dedo mínimo, experimentou oferecê-lo por um instante a Meu Amor. Num silêncio de tudo, ele agarrou-se em seu dedo com desespero a ponto de quase quebrá-lo, torceu-o, mordeu com força, e depois se acalmou segurando-o, e aquele dedo lhe parecia imenso em seu mundo de tão pequena estatura e tanta necessidade. Suspirou num milésimo de segundo. A Moça deixou-se estar, fechou os olhos, e acordou dia seguinte sem cão nem Meu Amor, acordou e nem moça era mais, acordou reclamando de fome num estranho ventre outro, num lado outro e qualquer do mundo.

 

 

 

***

 

 

 

Vigília

 

Para Caio

 

Não posso fechar os olhos. Estás diante de mim e dormes, sem inocência. Dormes assim, em estado de segunda pessoa do singular: inspiração deslocada e atemporal. Diante de mim, como se estivesses desde o início dos tempos e indefinidamente fosses continuar, sem sobressalto, sem culpa – sem envelhecer. Repousas diante de mim cristalizando um estado tão cotidiano, a graça silenciosa e simples de deixar ser. Teu sono me diz: este momento. E eu levanto minha mão insone e cansada e passo lenta e repetidamente sobre a tua cabeça, enquanto não me notas.

(Toca-se de leve alguém que dorme e de algum modo se sabe, um pouco sem perceber, que a pessoa vai receber aquela carícia mais profundamente, e tão profundamente que seria impossível se estivesse desperta. Como se durante o sono as mãos pudessem penetrar a epiderme e tocar a substância intocável que circula, imperceptível, viva, sob a pele: ânima.

Gesto sem méritos: o outro jamais se lembrará. Na ilha distante e perdida do sono, apenas tremulará seu efeito efêmero, leves reverberações. Carinho anônimo e sem memória, apenas a pulsante cintilância que acenará a mil anos-luz de distância no tempo e no espaço – como as estrelas, que brilham sem estar ali. Não estão ali. Insuspeitadamente caminha-se enquanto constelações criam seus mudos espetáculos. Distantes – ausentes. E, no entanto, como existem! Brilham.)

Dormes. Acaricio tua cabeça cansada, nesta manhã pálida. Bordo assim constelações no fino véu que cobre teu sono – quem sabe ilumine tuas futuras andanças sem que me saibas. Assim, uma estrela: entrego meu gesto-luz sem nome nem memória: encanta-te comigo. Encanta-te comigo, mas cuidado: não me percebas. Carrega-me – guarda-me – num quarto escondido de onde nem mesmo tu possuis a chave. Deixa-me pulsar ali eternamente, enfeitar teu crepúsculo íntimo sem que desconfies. Deixa-me ser-te leve nesta carícia, esta entre tantas, lume aceso que nem sequer existe mais. Deixa-me te habitar assim, sem ocupar teus espaços. Deixa-me penetrar teu pantanoso e escuro deserto como luz – imaterial – para, sem querer, desvendar preciosidades que nadam no teu lodo amargo. Pequenas pérolas perdidas nessa espessa substância toda feita de lágrimas, acumulada através dos dias. Quero ser essa pequena  lanterna que te permita vê-las – se quiseres. Deixa-me.

Fica comigo assim, luz. Carícia. Não tenta reter-me entre as mãos, nem espera que eu seja feita para a contemplação. Não me contemples: permite que eu ilumine, para que contemples tudo. Toma. Aceita este meu manso efeito – morno – minha condição essencial e, por isso, inocente.

Deixa que eu te seja sem ser. Seja-me, então. Toma esta carícia rápida – agora é só tua esta carícia. Não é minha, é tua. Quando finalmente despertares, pisca os olhos lentamente e me vê aqui, primeira pessoa do singular, eu, dormindo diante de ti: este momento. Serás o mesmo e serás outro, porque acariciado no fundo de si mesmo. Aí me olha despido de tudo e tenta ver-me nua, também. Quem sabe neste momento uma vaga impressão emergirá por um segundo, num relâmpago pulsará minha tal carícia, insuspeitada, imemorial e simples, curto espasmo que te fará compreender o que eu nunca soube dizer, o que não se pode dizer nunca. Dá-me então tua mão amada e ampara meu sono, que preciso. Aceita-me. Esquece-me.

 

Isabela Penov vive em São Paulo, é professora de artes, atriz e escritora. Mantém o blog Semeaduras.

 

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88ª Leva - 02/2014 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte I

Por Claudia Rangel

 

Jogo de Cena. Brasil. 2007.

 

 

“For what is a man, what has he got?
If not himself, than he has naugth
To say the things he truly feels
And not the words of one who kneels
The record shows, I took the blows
And did it my way”
(Claude François/Jacques Revaux/Paul Anka – 1967)

 

Eu gostaria de falar especialmente sobre Jogo de Cena, um filme do Eduardo Coutinho que me marcou muito. Talvez porque ele seja um filme sobre mulheres, feito por um homem que possuía a incrível capacidade de ouvir as pessoas para além do que elas dizem. E talvez porque ali eu tenha me identificado profundamente com cada uma daquelas histórias contadas e recontadas por aquelas mulheres. E talvez porque eu seja uma mulher e sinta uma enorme necessidade de entender o que é ser uma mulher estando no mundo. Neste mundo marcado por milhares de anos de dominação masculina, no qual a cada meia hora uma mulher é morta no Brasil (dados do IPEA – Instituto de Pesquisa Aplicada).

Mas o fato é que eu queria falar de Jogo de Cena e revi o filme para lembrar alguns trechos e, principalmente, reencontrar os elementos que nele me impactaram tanto da primeira vez que o vi. E ao revê-lo, com os olhos de releitura e do distanciamento, entendi outra coisa para além do fato de Eduardo Coutinho ser um arqueólogo de almas. Entendi que, na verdade, ele é um desnuda-dor de almas, e que, ao entrevistar uma pessoa (as mulheres de Jogo de Cena ou qualquer outro personagem real), ao mesmo tempo em que ele usa sua capacidade de entrevistador para que o entrevistado se sinta à vontade e abra seu coração, também faz com que o entrevistado, de certa forma, se represente dizendo aquilo que tem a dizer. É um jogo que lembra o poema do Fernando Pessoa: “O poeta é um fingidor, e finge tão completamente, que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente”. Esse é o tal Jogo de Cena, que ele deixa explícito no filme ao colocar em diálogo os depoimentos de mulheres e as representações feitas por atrizes desses mesmos depoimentos.

Para quem não teve oportunidade de ver o filme, nele algumas mulheres são levadas a um palco de teatro e lá, diante de Coutinho e de costas para a plateia vazia, contam suas histórias. São diversas mulheres e diversas histórias que depois são recontadas por diversas atrizes. Para filmar Jogo de Cena, Coutinho usou uma estratégia inusitada num documentário publicando um anúncio com os seguintes dizeres: “Convite. Se você é mulher com mais de 18 anos, moradora do Rio de Janeiro, tem histórias para contar e quer participar de um teste para um filme documentário, procure-nos.” Além do local e horário do teste, acrescido dos telefones da produção, o anúncio nada explicava. Esse convite abre o filme.

O que torna o jogo mais instigante e emocionante é que algumas atrizes são muito conhecidas de nós (Marília Pera, Andréa Beltrão, Fernanda Torres e Mary Sheila), enquanto outras são totalmente desconhecidas. Por isso, em muitos momentos, nós não sabemos se quem está falando é o personagem real ou o fictício (e, às vezes, chegamos a duvidar de que as atrizes estão contando a história de outras e não a sua própria história). Principalmente porque, em alguns momentos, a interpretação parece mais convincente que a narração real da história, e o real e a representação do real se confundem de tal maneira que já não sabemos mais quem conta qual história, pois o que Coutinho deixa claro no documentário é que todas as histórias são narrativas e, como tal, são representações, são “jogos de cena”.

Tentando entender como Coutinho teria chegado a essa técnica tão sua de demonstrar essa tese, procurei rever alguns trechos de outros documentários dele. Revi Santo Forte e Edifício Master, outros dois filmes que me impactaram muito. E por isso a abertura deste texto com um recorte da letra de My Way, música imortalizada na voz de Frank Sinatra, que é reinterpretada pelo Sr. Henrique, um dos moradores do Edifício Master entrevistados para o documentário do mesmo nome, no qual Coutinho dá voz aos moradores de um imenso condomínio de quitinetes em Copacabana. Nós entramos na casa dele guiados pelo Coutinho. E o Sr. Henrique, ao cantar sua música favorita junto com seu ídolo (que canta no CD player), quase chora, se emociona, pois essa é a música da sua vida, o seu resumo pessoal. E ele canta, apesar de não saber cantar, apesar de saber que está sendo filmado. Ele abre essa janela da sua alma para Coutinho e para nós. Coutinho faz isso com a gente: nos faz ver aquele que não veríamos. Aquele que é desconhecido e indiferente. Ele extrai de cada entrevistado o diamante interior que talvez jamais percebêssemos naquele outro que esbarra conosco nas calçadas da vida. Como ele próprio falou ao amigo José Hamilton Ribeiro, “Cada história vale por si. Cada vida vale por si.” E ele nos faz olhar para uma pessoa comum como alguém totalmente singular e especial e nos faz perguntar, como na letra da música My Way: “E pra que serve um homem, o que ele tem? Se não ele mesmo, então ele não tem nada”.

Rever algumas cenas desses filmes talvez tenha me desvirtuado do caminho de uma análise sobre o documentário Jogo de Cena. Mas, na verdade, o que me desvirtuou desse caminho foi o próprio filme, ao me levar a uma reflexão maior sobre a questão da narrativa. A pergunta que Coutinho parece fazer no documentário é: quando falo de mim, quem me diz? Quando uma mulher senta diante de um entrevistador e uma câmera e conta sua história, qual é a história que ela conta? A narrativa, mesmo a pessoal, exige de quem narra um distanciamento da história. Então, cada pessoa se reconstrói a partir da narrativa de sua história. Eu acho que é isso que ele quer demonstrar em Jogo de Cena quando coloca atrizes para reinterpretar as histórias contadas por mulheres anônimas. E, ao fim, acaba tornando essas atrizes também entrevistadas do documentário.

O filme tem camadas que demoramos a perceber, pois elas se sobrepõem e interagem. Na primeira entrevista, por exemplo, a atriz Mary Sheila fala como começou no teatro. Quando ela diz que está fazendo atualmente a releitura do clássico Gota D’Água com o grupo Nós do Morro, Coutinho pede que ela faça a cena do envenenamento dos filhos. E ela faz imediatamente, saindo de si para o personagem com uma naturalidade admirável. E a fala da peça que ela reproduz é uma espécie de introdução para todas as histórias que virão depois. Então, começando o filme com o depoimento real de uma atriz sobre ela própria e finalizando a cena com a mesma atriz representando um texto clássico relido pelo teatro, Coutinho já nos dá a chave do seu documentário. Mas nós não sabemos, a princípio, o que fazer com essa chave, pois logo depois ele nos confunde com o depoimento de uma moça desconhecida, falando sobre sua própria experiência de ser mãe. E amarra esse depoimento ao da atriz Andréa Beltrão, que nós pensamos ser real. Somente quando as falas começam a se repetir (na boca da atriz e da mulher entrevistada) é que entendemos que a atriz está relendo, reinterpretando o que outra mulher diz. Mas ele não deixa que essas reinterpretações sejam apenas simples releituras e tira delas algo pessoal das atrizes, ao conversar com elas sobre as dificuldades de interpretar uma história real. E ele é magistral na técnica da entrevista.

 

 

Porém, mais que um filme de entrevistas e depoimentos reais, Jogo de Cena é um tratado sobre a narrativa. Eu realmente gostaria de ter conhecimento da psicanálise para entender o filme, pois é da narrativa (do que é dito e do que não é) que a psicanálise se alimenta. O documentário, enquanto gênero, também se fundamenta a partir da narrativa. O documentário clássico, porém, constrói sua narrativa sobre um fato real, interpretando esse fato conforme as crenças e idéias do diretor. Coutinho não é um diretor que faz esse tipo de documentário. Ele buscou em todos os seus filmes a narrativa do outro. Em Jogo de Cena, porém, ele próprio questiona essa possibilidade quando desconstrói a narrativa do outro colocando no espelho da atriz a fala de uma mulher real e sua história real.

E voltamos à questão: quem é que me fala quando eu falo?  Em Santo Forte, dona Thereza, que incorpora entidades da umbanda, ao contar sobre a morte da irmã, para em determinado ponto da narrativa, vira a cabeça por cima do ombro e diz algo para alguém que não está ali. Coutinho então pergunta com quem ela está falando e ela responde que está falando com a irmã. Ele pergunta se ela está ali. Dona Thereza sorri e diz que todos estão ali, que em volta deles tem muitas pessoas que não podemos ver. E eles estão sempre falando com ela. Na simplicidade (ou complexidade) de sua crença, dona Thereza traduz o que os linguistas dizem o tempo todo: nós falamos com a língua do outro, nos constituímos na narrativa, que não é nossa, é anterior a nós e nos constitui. E é disso que Jogo de Cena trata. Ao mesmo tempo, não é só disso: é também sobre a dor de viver sendo mulher. E o diretor consegue juntar as duas linhas principais do filme – a narrativa e a dor feminina – quando, na última parte, uma das mulheres pede para voltar, pois queria ainda cantar uma música, começa a cantar a cantiga de ninar “se essa rua fosse minha” e, ao fundo, ouvimos Marília Pêra cantando a mesma canção.

No entanto, ao final do filme, que até então utiliza apenas uma câmera em plano fechado mostrando as entrevistadas e a plateia vazia (com poucas e raras inserções da chegada das mulheres ao palco), Coutinho nos surpreende novamente mostrando o teatro vazio visto do fundo da plateia, com as duas cadeiras vazias no palco. E percebemos que a cadeira que está de frente para a plateia é a dele, o diretor. E é ele quem está narrando uma história para nós.

 

 

Claudia Rangel é jornalista, Mestra em Educação e servidora da UFES (Universidade Federal do Espírito Santo). A fotografia e o cinema são suas fontes de alegria.

 

 

 

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88ª Leva - 02/2014 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

A primeira coisa que nos vem à cabeça quando pensamos em maturação é todo um conjunto de mecanismos e processos que dão suporte ao ato contínuo de um amadurecimento. Ao longo da vida, somos tomados, mesmo que forçosamente, pela necessidade de empreendermos passos decisivos rumo a algum tipo de evolução. E evoluir seria apenas uma das facetas da maturidade, embora nem sempre signifique uma renovação completa daquilo que supomos, sentimos ou desejamos. É de se desconfiar, então, que a transformação substancial do ser humano surge à custa de rupturas tanto no campo do pensamento quanto da ação.  No que se refere à literatura, alguns percursos próprios se apresentam. Um deles está na capacidade que um determinado criador tem de vislumbrar sua obra como uma janela de projeção para o mundo. É o caso de gente como a escritora Ana Peluso, que, profundamente envolvida pelas marcas de seu tempo, faz de sua expressão literária um voraz instrumento de lucidez.

Companheira inseparável do espanto e do estranhamento, Ana faz com que sua poesia transite por um lugar onde muita coisa pode ser posta à prova. Desde os sentidos mais elementares até os mais complexos, a autora revela-se intensamente movida pelos signos da inquietude. Seus versos movem moinhos de indagações, chacoalham as fronteiras do óbvio e, ao mesmo tempo, refletem uma sutil busca pela delicadeza oculta das coisas.  Sem sucumbir a bandeiras da moda ou apelos ideológicos voláteis, essa paulistana se vê agora diante de seu primeiro rebento poético, o livro “70 Poemas”, publicado através da Editora Patuá.

Nascida em 1966, Ana Peluso, além de escritora, agrega em sua trajetória os perfis de jornalista, editora e web designer. Integrou diversas antologias, dentre as quais: deZamores, pela Editora Escrituras em 2003, resultado do encontro de alunos de diferentes oficinas literárias virtuais do SESC SP, sob orientação do escritor João Silvério Trevisan; É que os Hussardos chegam hoje, também pela Editora Patuá, 2014; e de Hiperconexões : Realidades Expandidas, primeira antologia poética sobre o pós-humano, com organização do escritor Luiz Bras, pela Editora Terracota, 2014.  Tem textos publicados em diversas mídias impressas e eletrônicas, como é o caso do extinto jornal O Pasquim, revistas Coyote, Germina, Musa Rara, Cronópios e outras mais. Aqui na Diversos Afins, Ana é uma velha conhecida que, tendo participado com seus escritos de várias edições, agora retorna à casa para falar um pouco sobre o seu momento de saberes e sabores em torno do nascedouro de seu primeiro livro. Como se não bastasse, desfila também algumas pungentes opiniões acerca do laborioso e nada facilmente exprimível ato de escrever.

 

Ana Peluso
Ana Peluso / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Sua trajetória é íntima das palavras, sobretudo pelas feições de jornalista, editora e escritora. Depois de um bom tempo, seu primeiro livro vem ao mundo.  Quais travessias foram determinantes nesse lapso temporal? 

ANA PELUSO – Eu não chamaria de travessia o que me levou a publicar, mas de incursão interna. Hoje em dia se escreve muito para o outro, para agradar o outro, seja esse outro o mercado editorial, um amigo poeta, um editor de revista, de jornal, ou até um crítico. A minha travessia se travestiu de incursão porque escrevo, antes de tudo, para mim mesma. Sob esse prisma, e de um ponto de vista meramente material, talvez eu seja egoísta, mas não acredito na arte que não dialogue antes de tudo com o interior do artista, com seu mundo particular, que, por sinal, é vasto. Caso contrário, ele ainda não é um artista de fato, mas alguém que necessita da atenção dos demais, e talvez por isso se vê tanta gente escrevendo igual a tanta gente. Em muitos casos, é natural que, ainda que o poeta tenha optado por trilhar esse caminho a que me propus, a obra chame atenção, mas aí a atenção é mera consequência, e não o estopim para que a arte aconteça, porque para mim é necessário que ela se distancie do criador a ponto de pertencer aos demais, e, ao mesmo tempo, que ela se mantenha como um mundo muito particular ao criador, muito pessoal e peculiar. Se o leitor encontrar o objeto da criação com outras feições, melhor. Sempre digo que “a terceira margem de um livro é o leitor”, justamente porque a primeira e a segunda pertencem ao autor, pelo diálogo interno que precisa acontecer para ele poder chegar ao ato da criação. Como se fôssemos híbridos, é necessária a contradição interna, pessoal, uma segunda leitura feita, talvez por alguma camada da consciência a que não temos acesso reconhecido, mas que está lá, apta a esse diálogo. Eu acho que todo bom autor é dialético por natureza.
Ai das coisas que não se contradizem.

 

DA – Em “70 Poemas”, há um vasto painel de olhares e percepções que não congratulam com o estado de coisas em que vivemos. O mundo sempre foi um lugar estranho? 

ANA PELUSO – Acho que sim. Eu poderia responder que fizeram do mundo um lugar estranho, mas se a gente imaginar o homem das cavernas e sua luta pela sobrevivência, vai ser obrigado a concordar que o mundo só é estranho à sensibilidade de alguns homens. Matar um semelhante pela supremacia da tribo é tão apavorante quanto administrar a desigual distribuição de renda. Para mais além, o mundo é tão estranho, que nascemos berrando, o que não foi exatamente o meu caso, mas não me pauto jamais pelas exceções, até porque o “nascimento de um natimorto” deve ser infinitamente mais doloroso. Pena que não me lembro. Adoraria narrar uma ressuscitação.

 

DA – Sua poesia tem uma marca substancial, que é uma atitude desperta e incomodada diante da vida. E você consegue equacionar as doses sem se perder em desvios ideológicos.  Em que medida o caos interior é um aliado de quem cria?

ANA PELUSO – O que você chama de caos interior, e eu de infinito interior, é matéria-prima. E tem uma ideologia lá dentro, sim, só que ainda desconhecida. Sem contar que tudo o que fazemos, fazemos por um ideal.

 

DA – No sentido lato da palavra, o seu ideal faz com que sua poesia seja algo engajada?

ANA PELUSO – Se há engajamento, é orgânico, não panfletário. Não adianta levantar uma bandeira se quem a pega não distingue cores. Então, a gente enterra a mão e fertiliza uma raiz interna. É como dizer ao coração porque o sangue corre nele, fazer pele falar com pele, é um engajamento sutil, quase impossível de um ponto de vista prático, racional. Mas é uma poesia feita de perguntas.

 

DA – É interessante quando você diz que escreve para si mesma. Esse pensamento parece colocar criador e leitor numa situação de autonomia compartilhada, através da qual cada um demarca seus territórios de vivência dentro de uma determinada obra. Leitores são seres realmente livres?

ANA PELUSO – Eu tenho que escrever para mim mesma. Para quem mais eu poderia escrever no momento da escrita? A quem o poema deve agradar de pronto? Escrevo sobre/tudo para mim mesma. E, sim, pode chamar isso de autonomia compartilhada (excelente termo), a questão é que para mim, como disse acima, o leitor é sempre a terceira margem de um livro, não adianta eu escrever poesia achando que o texto chegará aos olhos do leitor na forma que eu penso ter escrito a poesia, e, ainda, se chegará como poesia. Eu não gosto do óbvio, apesar de estar trabalhando em alguns textos óbvios, eu gosto de mistério, do que aquelas linhas podem me proporcionar de possibilidades, novidades. Recriar é laborar diretamente com a novidade, é rever, redizer. Quando escrevo uma frase que é minha por epifania, mas cuja alma, a ideia, pertencem já a alguém, digo que é do “dito-redito”. Também gosto de literatura de corpo honesto. É muito tentador dizer o que já foi dito como se não se visse que já foi dito, ou se fingisse não ver, mas é feio, é pequeno. A não ser que o autor desconheça mesmo a autoria – essas coisas acontecem – trata-se de um mecanismo de auto-engano voluptuoso. E um escritor não pode carregar um peso desses. Ele já carrega o mundo, na vertical, das costas para a cabeça. Aí é peso demais, e ele acaba largando o mundo, e ficando com o auto-engano.

 

Ana Peluso / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Hoje presenciamos a aparição cada vez mais frequente de autores desembocando suas expressões em diversos meios. No seu entender, há um novo espaço de concepção criativa surgindo? Podemos falar em uma nova geração?

ANA PELUSO – Sim, acontece um movimento feito de outros movimentos, e que vivencia a arte, a própria escrita, de forma plural e constante. Acho que podemos falar em uma geração de gerações. É extremamente rico o momento. Cria-se convergência para um ponto comum: o reconhecimento de que somos vários, e somos variados, mas de forma alguma isso pode equivaler à total qualidade.

 

DA – Vez por outra, percebemos discursos inflamados numa defesa bastante firme da tradição literária. Apesar dos novos tempos instaurarem outras perspectivas, o purismo subsiste. Não é um exagero imaginar que tradição e modernidade não podem se harmonizar?

ANA PELUSO – Acho que tem que existir harmonia, sim. Reconhecer o diferente faz parte da prática da vida, mas por outro lado entendo os puristas, há que se resguardar uma certa tradição. Nem toda arte, nem toda literatura, será exatamente a mesma com o decorrer do tempo. O novo sempre surge, e sempre surge subvertendo o paradigma, mas acho de bom tom que os tradicionalistas estejam de olho. Nem tudo é mar só porque é água. Eu mesma não sei até hoje se o que escrevo é poesia de fato. Talvez comparado ao rigor da tradição, não, mas há um trabalho com a palavra, há uma preocupação em criar um universo poético, ou seja, não se trata de prosa na vertical. Mas isso, de trabalhar uma linguagem (mais) carregada de significados (Pound), não coloca ninguém no patamar de poeta, ou mesmo de escritor. Ao mesmo tempo em que há escritores de correntes tradicionais sem verve, há novatos que operam fora dos paradigmas tradicionais com um brilho literário inquestionável. Perceber e reconhecer isso é o que falta.

 

DA – Há quem defenda uma “fronteirização” da literatura. Nesse ínterim, bandeiras de gênero são erguidas, a exemplo de distinções criadas em torno do que seja literatura gay, feminina, dentre outras. Mais do que nichos de afirmação, essas ações não seriam ilusões de uma frágil tentativa de inclusão?

ANA PELUSO – Não acho que seja “frágil tentativa de inclusão”, mas tentativa de inclusão, e não é necessária. A obra fala pelo autor, com ou sem bandeira, de gênero, cor, classe social, mas aí é preciso ver se a luta é pela inclusão da literatura ou da classe. E isso é ponto relevante a ser apreciado porque dialoga com a história, com o momento histórico, que é de carnaval e toda fantasia tem sua cor, e quer se mostrar. O que não pode acontecer é o poeta engajado em uma causa ceder aos interesses políticos. Por mais política que seja a sua postura, com a vida até, a partir do momento em que a obra se torna um veículo meramente político que não seja de oposição, deixa de ser carnaval e a marcha é outra.

 

DA – Como ser de espanto que é, o que você não endossa na dita pós-modernidade?

ANA PELUSO – Se você fala da pós-modernidade no campo das artes, endosso tudo. E falo de arte, não de entretenimento. Se você se refere ao campo de ação do homem comum, me preocupa a falta de interesse pelo que está realmente acontecendo. E não está acontecendo direita e/ou esquerda, está acontecendo nesse exato instante o controle total do ser humano pelos mais variados tipos de comando. Desde a escravidão devotada voluntariamente, vício já na tecnologia, como a implantação de chips no pulso de cidadãos norte-americanos para validar o Obamacare, até as mulheres muçulmanas que vivem sob uma burca, passando pelas protestantes do “Cinturão da Bíblia”, nos EUA, e seus maridos violentos, até o controle do que eu devo ou não assistir na tv, ler nos livros, e ouvir nos discos. Eu não endosso o controle. A liberdade já é produto da utopia, ninguém precisa lembrar disso a todo instante.

 

DA – Somos incorrigíveis?

ANA PELUSO – Sim, para o bem e para o mal.

 

DA – Saberia dizer o que a literatura espera de você?

ANA PELUSO – Não, não saberia dizer, mas sei o que eu espero de mim em relação à literatura. Gostaria de ter tempo para escrever mais e melhor. E para poder levar adiante projetos antigos, como escrever para crianças. Também gostaria de ter fôlego, tempo e meios para me dedicar a um pequeno romance. Se eu tivesse condições, só escreveria. O livro ’70 Poemas’ não contém nem 1% do que eu tenho a dizer, a escrever. Mas infelizmente a literatura no Brasil é um artigo de luxo, principalmente para o escritor, e, sobretudo, se ele é obrigado a exercer outras funções que o mantenham como um bom pagador perante os banqueiros e o mercado. É uma via de mão única: ou se escreve verdadeiramente, e se come pão com água, ou se paga as contas, e se escreve pouco, muito pouco o que se tem a escrever. Ouvi certa vez de uma acadêmica em Letras: “Você é muito boa, mas não tem pé de meia”. Aquilo foi um choque para mim. Porque ela está coberta de razões. Não dá para parar um poema para dar sequência a um trabalho, por pura necessidade, e voltar ao poema depois com o mesmo espírito. O capitalismo é o maior assassino de pessoas no mundo, incluindo os escritores. Vejo muitos autores vivendo puramente da literatura com oficinas, workshops, palestras e performances, mas comigo não é assim que funciona. A literatura, para mim, é uma arte feita principalmente de burilamento e silêncio. Eu não teria cabeça para dar uma oficina e voltar a um texto em seguida. Seria como parar um poema para dar andamento num trabalho qualquer, quando a própria literatura já é um trabalho, que exige muito da gente. Só falta o mundo reconhecer isso.

 

 

 

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Carina Castro

 

Ilustração: Vera Lluch

 

Cartográfica

 

de distâncias traçadas entre sonhos
passos e pousos
redimensiono o interior do meu interior
e a brevidade entre pensamento e pensamento
não acompanha o vagar do corpo
entregue ao manejo da maré
nem o vagar da garrafa ondulando sobre os dias
entre soluços de bêbado e pranto
encontraste a carta, mas não entendeste a letra
e não há legendas, coordenadas, vozes,
mapas para minha memória
dói fundo a longitude de meus garranchos
perdidos no efêmero de um idioma
ilegível entre latentes caligrafias, alfabetos
e não vês no céu
a constelação com meu nome
não podes ler minhas mãos
e latejando minhas letras dizem
teu futuro, te dão leme
leem tuas digitais
no leme, no copo, na garrafa
só não traduz a lancinante latitude
do teu entendimento

envias de volta um papel em branco

 

 

***

 

 

Esfinge

“es el espejo que devora espejos”
(Octavio Paz)

 

esfrego entre minhas mãos a memória,
e ela não se esfarela

avisto o abismo, mas ele não cabe em meus olhos

minúscula perante a esfinge, circundo-a
e me perscruta a sensação de que desmoronará
sobre mim a qualquer momento

erige-se um rosto em meu destino,
um rosto ancestral e desconhecido
tateio de cisma embotada

afunda-se um corpo estranho
em meu pensamento

entra-me pelos olhos signos minerais,
ciscos na alma

por que o vento não te leva?
que raízes invisíveis te prendem ao tempo?

move-se a paisagem frente seus olhos fixos
mas é sempre a mesma a paragem
de onde repousa, reina e observa
não sei o quê

uma boca alada se aproxima

minha boca está muito seca
me dissolvo em sua saliva

 

 

***

 

Miragem

 

podem-se alongar as retinas ao infinito
e ver a estrela que brilha no peito de deus que nem existe há tantos anos luz
ver a poeira cósmica se levantar sob os pés rachados na fenda de uma ilusão
arder nas têmporas o desejo que a vida seja leve e se satisfazer com o silêncio

não notar o peso da bagagem, ter as mãos livres, ter os sonhos pássaros
ter os pés náufragos num mar de bálsamo, afogar as mágoas num mar de rosas, beber a                                                                                                                                                                                                        [sede

cair como pluma, ancorar o corpo às nuvens, e no impacto com a terra abarcar o universo

ir além
ver poesia

 

 

***

 

 

Caravana

 

homens e mulheres
passaram pelo buraco da agulha

e a caravana percorreu os tempos
os solos
as línguas
os olhos

no infrutífero de sombras, quedamos plantados
esperando a queda dos frutos
o repouso dos corpos

esquecemos os pés

pelo túnel  da garganta
perpassavam vozes velhas
memórias amornadas

arrefece-nos as pálpebras

os retalhos estão impecavelmente membrados
e as mãos já esperam por afagos e fuga do trabalho

mas de longe se vê que não se trata de apenas
um tecido

[o sol levou o calor consigo, e a noite
nos impõe cobertos]

e que importa se somos indistintos?
na beleza nos atemos

 

 

Carina Castro (SP, 1988) é poeta e pesquisadora na área de Literatura Comparada. Escreve também Literatura Infantojuvenil, com um conto que recebeu o Prémio Lusofonia de Portugal (2012). Estudante de Língua e Literatura Árabe na USP. Assina a coluna Infante Ingente na Revista Ellenismos. Reminiscências do mar a embalam a estar perto da poesia, do canto, do sopro, orientar-se pelo que diz o desconhecido. Estes poemas integram Caravana (Editora Patuá, 2013), seu livro de estreia. Coleciona e escreve algumas coisas em Tudo é Coisa .

 

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

O caminho musical é como um grande deserto a se cruzar. E encontrar algum oásis parece ser algo cada vez mais raro nos dias de hoje. Em meio aos desafios trazidos pela modernidade, construir uma carreira tornou-se também uma verdadeira luta contra a uniformização, seja ela de comportamento ou simplesmente situada no campo das ideias. Para que uma obra tome algum sentido de permanência entre os mortais, há que se reconhecer a sua capacidade de não ser mais um agente pulverizador na multidão de caras e bocas.

Talvez os novos tempos tenham causado uma sensação de um “salve-se quem puder”, sobretudo para os artistas que ainda almejam um certo lugar ao sol. Diante de cenários múltiplos de expressão, e levando em conta a velha e desgastada discussão sobre juízos de valor, viver da música no Brasil se assemelha a uma missão tortuosa, repleta de incertezas e algumas imposições de desvios. São poucos os que resistem a tais provas de fogo e, ainda assim, conseguem manter sua fibra inicial. Com o tempo, a perspectiva da originalidade acaba sendo um fardo para muitos. Para outros tantos, como é o caso da cantora mineira Selmma Carvalho, ser genuíno é fonte incondicional de seguir adiante.

Com uma carreira que soma quatro discos na bagagem, Selmma se mantém firme no propósito de fazer do seu canto um instrumento de contemplação da vida. Ao longo dos anos, vem conferindo à sua trajetória uma fidelidade significativa, cuja importância maior está no prazer em incorporar a música em plenitude. Como se não bastasse a sua tradicional entrega como intérprete, vivenciando canções de figuras importantes do cenário nacional, a artista revela agora a sua face de compositora. Em seu disco mais recente, “Minha Festa”, a maturidade musical da artista é algo que preenche bem os cenários. E o que vemos agora é uma Selmma bem à vontade com tudo o que o tempo foi capaz de lhe proporcionar. O resultado não poderia ser outro: a afirmação de um sentimento de devoção à arte. Na conversa que agora segue, a cantora fala da construção de seu caminho, especialmente da atitude que a faz trilhar as alamedas dessa majestosa e enigmática senhora chamada música.

 

Selmma Carvalho / Foto: Miguel Aun

 

DA – “Minha Festa” é um disco orgânico, algo que compõe uma unidade viva de sentimentos que se harmonizam em torno de imagens fortes e quiçá íntimas. Há ali uma sensação de leveza a dominar os ambientes todos. A ideia de uma celebração de vida está no centro desse seu novo rebento?

SELMMA CARVALHO – Sim, celebrar sempre, as conquistas, sonhos, desejos íntimos realizados. “Minha festa” foi uma celebração, uma vitória, em todos os sentidos. Me senti amparada por amigos imprescindíveis e construímos juntos essa festa! A cada dia de gravação, sempre uma surpresa, uma ideia bem-vinda, um carinho, um beijo, um abraço, e o mais importante, a sintonia incrível que  tomou conta de todos os envolvidos.

 

DA – Há um sentido de brasilidade muito especial no disco. Prova disso é o modo como os arranjos das canções se delineiam no conjunto, com destaque para os elementos vocais e instrumentais. Como se deu o processo de concepção do álbum?

SELMMA CARVALHO – Mesmo sem ter fechado o repertório, que foi definido ao longo do processo de gravação, eu e o produtor/arranjador Rogério Delayon conversamos muito sobre sonoridades, timbres, músicos que participariam, vocais, participações especiais. Construímos aos poucos, experimentando instrumentos e ouvindo os resultados. Com certeza, a etapa mais demorada de todo o processo.

DA – Diferente dos seus discos anteriores, seu novo trabalho traz algo em especial: a Selmma Carvalho compositora. Essa sua nova feição é algo que já estava sendo maturado? Que desafios ela encerra?

SELMMA CARVALHO – Com certeza, essa é a grande novidade. Desde que lancei meu primeiro cd, venho escrevendo, compondo, mas ainda não me sentia à vontade para divulgar as canções. Cheguei a tocar uma delas em show,  mas nunca quis gravá-la. Sou muito crítica e exigente comigo,  achava prematura essa investida. Mesmo assim, continuei a compor, foi sagrado reservar um tempo do meu dia para isso. Muitas vezes não saía nada; noutras, sentia mais confiança. A perseverança e a minha insistência foram fortes e fundamentais pra quebrar essa insegurança. Enfim, criei coragem, mostrei as canções,   vieram parceiros, incentivos e taí o resultado, quatro canções inéditas com bons retornos.

 

DA – Num futuro próximo, qual seria a real dimensão de você vislumbrar um caminho inteiramente autoral?

SELMMA CARVALHO – Já abri o caminho, creio que vai acontecer se tiver que acontecer. Até porque gosto muito de interpretar novas canções de compositores que admiro, dar novas cores ao nosso cancioneiro popular tão rico. Isso tudo me dá muito prazer. No “Minha Festa”, foram quatro canções. Quem sabe no cd que está por vir aumento esse número para 6 ou 7? O futuro dirá! E que venham mais parceiros!

DA – Os novos tempos forçaram a indústria fonográfica a reajustar seu comportamento. Nesse ínterim, até mesmo artistas consagrados também tiveram que se adequar a certos imperativos do momento. Fazer shows parece ter se tornado mais importante do que apenas vender discos, sobretudo na era dos downloads. Diante desse cenário, como fica o caminho dos artistas independentes?

SELMMA CARVALHO – O mercado musical é particularmente complexo. O artista independente enfrenta dificuldades na gestão, organização, estruturação de projetos e de carreira. Não é nada fácil projetar com credibilidade a identidade e o trabalho, quer junto à mídia, quer junto aos amantes da música e ouvintes.
Ter  consciência dessas dificuldades é importante para não gerar frustrações. Apesar de tudo, é importante insistir. Se o trabalho for bom, dia menos dia ele vai acontecer. Temos muitas ferramentas de trabalho, muitos canais interessantes na Internet, muitas opções. Mas é preciso estar sempre ligado e não desistir.

 

Selmma Carvalho / Foto:Miguel Aun

 

DA – É curioso imaginar que vivemos num país que convive com tamanha diversidade cultural mas não sabe conciliar os contrastes. Na música, isso é bastante revelador. Ao passo que nos orgulhamos pelo grosso caldo que produzimos, temos uma enorme dificuldade em afugentar os preconceitos. O que pensa a respeito disso?

SELMMA CARVALHO – O preconceito é gerado por um problema cultural que engloba, além da música, outros aspectos do Brasil. Num país em que a educação não é tratada como prioridade, o que dirá a cultura?!

 

DA – Além da educação básica, outros caminhos podem surgir quando pensamos nas vias culturais, no quanto um ambiente favorável à democratização do acesso pode fazer a diferença. Guarda em sua lembrança algum projeto em especial que você testemunhou como sendo uma valiosa aposta de mudança de rumos? 

SELMMA CARVALHO – Me lembro sim. O grupo Tambolelê, de Belo Horizonte, criou uma oficina de percussão para crianças carentes usando vários instrumentos. Essa oficina teve sede própria e, além de acontecer em BH, foi levada para cidades mineiras também. Era lindo ver a alegria, o entusiasmo da garotada nas apresentações! Sei que existem muitos outros e torço para que eles se multipliquem, pois faz um bem danado para quem faz e para quem recebe.

DA – Não lhe parece que o mercado da música tem se preocupado muito mais com a imagem do que propriamente o conteúdo? Algum dia, o tempo saberá dividir bem tais porções?

SELMMA CARVALHO – A imagem é importante sim, claro! O conteúdo e boa imagem juntos é bacana demais, é cuidado. O que desanima são imagens apelativas, que infelizmente são muitas. E o pior: vendem!

 

DA – Uma obra é marcada notadamente pelos desafios dos intervalos. Dentro do contexto musical, sempre se espera algo quando um disco novo surge. No seu caso, e falando das expectativas geradas ao longo de toda sua carreira, como foi lidar com tais entreatos?

SELMMA CARVALHO – Quantos desafios! O espaço entre o terceiro e o quarto cd foi muito inquietante para mim. Projetos de leis de incentivo eram aprovados, mas não captados. Aconteceu comigo e com vários companheiros músicos. Foi geral. Essa fase causa muita ansiedade e até descrenças. O artista é muito sensível, ainda bem, e de alguma maneira transformamos todos esses sentimentos que nos atordoam em música, em novas composições, em ideias. Assim se deu comigo. Sempre acontece uma reviravolta quando o querer é forte. Uma força tamanha toma conta, o desejo enorme de concretizar, de fazer acontecer. E para acontecer, o foco e o trabalho são fundamentais. Está aí o novo cd,  feito com muito suor, muito trabalho, amor, união e que me encheu de alegria. O que vai acontecer com ele? Não sei. O mais importante agora é manter o foco para divulgá-lo, mesmo com todas as dificuldades que conheço bem, mas sigo em movimento.

DA – Sem dúvida alguma, sua voz é seu bem mais precioso.  A intérprete Selmma agora consolida seu trajeto não apenas com o verbo de outros compositores, mas também com o seu próprio. Saberia dizer o que a música espera de você?

SELMMA CARVALHO – Eu espero aprimorar esse meu outro lado, o lado mais criativo que é o da composição. Quero dizer mais e ouvir a música me dizer mais ainda.