Do sonho ao pó… ou breves considerações sobre o livro O Chão e a Nuvem de Heitor Brasileiro Filho
Por Silvério Duque
ao poeta e amigo Antônio Brasileiro, pois tudo que, aqui, se aplicar ao brasileiro de Jacobina-Ilhéus, aplicar-se-á, muito melhor, ao brasileiro de Feira de Santana…
Esquecida no tempo, a alma procura algo que, já não é, porque era tanto…
Emílio Moura
Fui presenteado, por seu próprio autor, com o livro O chão e a nuvem (Mondrongo, 2013), de Heitor Brasileiro Filho, e, sem perder tempo com a tamanha falta de tempo que muito me desagrada ultimamente, li-o de pronto e com muito apetite. E posso confessar que, com o manjar poético que Heitor Brasileiro Filho preparou para mim, bem como aos seus outros leitores, dei-me muito por satisfeito.
Poeta de alma e coração de ouro – por ter nascido na cidade baiana de Jacobina – e de verso e prosa atrelados a uma consciência tão lírica quanto rebelde – pois é escritor radicado em Ilhéus –, Heitor Brasileiro Filho revela-se um poeta de temas e formas tão engenhosos quão bem realizados, por mais que lhes faltem, muitas vezes, as técnicas clássicas que formaram nossa consciência literária ao longo de séculos e lhe sobrem aquele impulso de liberdade e, muitas vezes, de libertinagem, que nos é inerente desde a aurora do século passado. Dizer mais o quê, então…?!
Vejamos… À primeira impressão, o livro (com uma primorosa edição, diga-se, bem típica à qualidade que a Editora Mondrongo tanto gosta de prezar e presentear aos seus consumidores) não poderia me parecer melhor, porque os elementos estruturais da poesia de Heitor Brasileiro Filho revelam-se frutos de uma consciência artística muito vigorosa, sem que, em algum momento, venham perder-se de uma identificação realista tanto com a vida, em suas mais diversas impressões, quanto com a natureza, em seus mais diferentes sentidos, mostrando pouquíssimos traços com as influências românticas e modernas das quais a expressão poética brasileira, em sua atualidade, ainda se fia e se confia. Não que Heitor Brasileiro Filho não as possua; só não se dá ao luxo idiossincrático de revelá-las, sem nenhum pudor, a um público tanto preparado, bem como àquele pouco afeito a discussões poético-formais de quaisquer tipos, como é o caso deste que vos fala… – Oh, meu Deus!
Também, não é preciso, todavia, um diploma universitário de qualquer tipo para perceber que, em sua poesia, Heitor Brasileiro não é um homem de comportamento fechado – defeito terrível de muitos pequenos e grandes bardos –, digo: de se apresentar (enquanto poeta que é) fechado ao mundo. Como queria um T.S. Eliot, o autor de O chão e a nuvem não foge “ao desenho de autorretratos nem de confissões pessoais”, sem que sua veia poética se perca por causa disso. Tudo que se lê, em O chão e a nuvem, é de uma autonomia muito sagaz, e digo até sem vergonha, pois se lá existem temas fortes à pessoa de Heitor Brasileiro Filho, os mesmos poderiam ter um alto preço ao poeta.
Uma coisa é certa, este versificador de formas livres e, às vezes, até descuidadas, sabe (como poucos) captar a essência espiritual de pessoas de modos e vidas simples, somadas, evidentemente, aos modos e, quem sabe, à vida simples dele próprio. Seus versos, diga-se não só de passagem, têm uma espécie de engenharia que muito contribuem para isso. E, se não bastasse, aglomeram um imenso cabedal de sons, imagens e efeitos sinestésicos tão dissonantes, muitas vezes, que só poderiam terminar numa mistura tão inusitada quão intensamente reveladora. É o caso de versos como os contidos em SoluçosSísmicos:
Farto é o fogo
dos vulcões
julgados extintos
soluço sísmico
na contração do parto
pende um quadro
trêmulo
na parede do útero
Sem a distorção
da moldura
arde uma tela
de Cícero Matos:
deserto
a ser florido
rio morto
a ser aguado
Jacobina
não é apenas um retrato
na parede
um berço
a ser embalado.
os do intricado e revelador O grande espetáculo da terra:
Hoje não vou à Broadway –
pois não é que nunca vou à Broadway –
que importa fogo ou neve em New York?
Vou ficar para o grande espetáculo da terra
como o circo de Maru
com a rumbeira Margareth
e os clowns Chega-Chega e Batatinha
no ritmo inebriante de Tijuana Taxi
meu Deus, que fim levou a rumbeira Margareth
delírio da criançada de perdida infância
casou-se e foi para Feira de Santana
véus – muitos véus – iam-se dissolvendo um a um
agora grinaldas, o buquê, girândolas de pétalas
uma tiara de corações partidos
e aquela calda toda ……………………………..de branco
imagino-a sob o altar da Catedral
da sagrada Nossa Senhora de Sant’Anna
ao eterno som de Tijuana Taxi
“Pã! Parampampã-pã-pã-pã!”
(apoteose dos grotões de minha terra:
na aurífera
na agrícola
nessa imensidão distante e tão próxima
como a antiga cidade de Jacobina
sem o arpejo, o canto, o desespero de Bob Silva
sem o auto-faltante da Rádio Nacional
nem a doce viola de Paulo da China
numa esquina perdida da Rua Ana Nery
mas cristalizada numa antiga cantiga)
Há um momento em que os malabares …………………………………..eternizam-se no ar
e o trapezista projetava-se
para o alto e precipitava-se
sobre um assoalho de taipás
para o delírio da meninada ………………………sem infância
sem rede
sem coração
e lá estava o homem-borracha
estatelado em linha reta
– e a linha tênue –
Na linha oblíqua do chão
“Pã! Parampampã-pã-pã-pã!”
Têm-se infância e memória?
A quem importa a ruína do Empire State?
Que importa a estrutura vítrea do Louvre
o burburinho do Quartier Latin
as ruínas gregas e as pirâmides no Cairo
o Coliseu e o túmulo de Tutacamon?
Meu Deus, o que importa
a privada de ouro de um sultão em Omã
se o levante do Oriente
é o que há de mais moderno?
Que importa aquele edifício em Dubai
ante o singelo pedido da natureza –
subcutânea tatuagem e a fina estampa da pele?
Deem-nos infância e memória
e ficaremos para o grande espetáculo da terra.
ou mesmo nos versos, como dirá Jorge de Sousa Araújo, de “solução simples e grande gozo estético”, contidos em Lirium:
quem
bem me
quer
não me
despe ……ta ……la
Mas cuidado, confissões de poetas não têm valor algum para a obra de arte se não forem compostas como obras de arte. E versos como os contidos em SoluçosSísmicos e O grande espetáculo da terra, bem como a todos pertencentes em O chão e a nuvem são bem mais que meras confissões de um menino ainda presente num homem adulto – tema, aliás, caríssimo ao velho Manuel Bandeira – mas que não se encaixa muito bem à obra de nosso jacobino-ilheense que, acima de tudo, quer se vestir de muita maturidade em tudo que faz e escreve. É preciso, antes de qualquer interpretação ligeira, ler tais poemas como uma grande crítica à política, ao mundo, ao cotidiano, à hipocrisia dos homens e outras tantas temáticas ali presentes e tão prontamente reveladas por uma poesia muito fácil de compreender; contanto que não se entenda “fácil”, aqui, como sinônimo de coisa pouca ou sem grandes significados, pelo contrário: um bom poeta, formal ou não, erudito ou afeito às cantigas populares, tem de saber dialogar com o público que carrega sua poesia e a quem ela pertencerá quando este se for deste mundo para se misturar ao húmus dos monturos e coisa e tal.
É impressionante a capacidade que Heitor Brasileiro Filho tem em criar uma espécie de background emocional em seus poemas, fazendo com que a força dos elementos significantes de seus versos pouco precise dever aos elementos de sua estrutura sonora ou rítmica, ao tempo que tudo isso nasce de uma disposição muito engenhosa, como já disse. Assim sendo, Heitor Brasileiro Filho pode muito bem se sentir à vontade para reivindicar temas tão pessoais e que lhe trazem conflitos tão arrebatadores, pois, ao se reportar novamente à infância, e com ela, por exemplo, a um circo de onde a alegria e a ingenuidade de menino dão lugar aos primeiros delírios eróticos de rapaz – como se pode facilmente perceber em O grande espetáculo da terra –, fica fácil, ao leitor, mergulhar no turbilhão composto tanto de alegrias bem como de profunda angústia; de esperança e tristeza; fantasia e realidade… e tudo o mais que se pode extrair mesmo de uma leitura menos cuidada de versos como os de Heitor Brasileiro Filho e que, em certos momentos, nos parece ser tudo que ele possui de real e de valor. Eis a força da sinceridade de sua lírica e da maneira apaixonada com a qual o poeta entrega-a ao seu público.
A facilidade em captar diferentes planos para um mesmo tema ou efeito imagético, independentemente de se tratar de um tema autobiográfico ou uma evidente intertextualidade, é, quem sabe, a parte mais bem elaborada de O grande espetáculo da terra e um caractere muito revelador em tudo que diz respeito ao seu livro, O chão e a nuvem. Com isso, Heitor Brasileiro Filho consegue poemas ao mesmo tempo tão belos quanto elaborados dentro da melhor técnica artística possível e compreensível, ou como dirá o professor Jorge de Souza Araújo, na apresentação deste mesmo livro: “um poeta que se chama Heitor – evocando acordes de um Villa Lobos – e é brasileiro no sobrenome e na natividade de ações afirmativas, tem, neste O chão e a nuvem, um agudo repertório de espantos, uma frequência de ironias, uns remates de mímeses, coincidências fabulares, diálogos e interlocuções com outros comparsas (a exemplo de Ferreira Gullar) a que não podemos deixar de apreciar e refletir”. Em suma: a poesia de Heitor Brasileiro Filho se quer uma poesia plena em sua essência, ou seja, quer nascer e se firmar através da documentação dramática que só a perplexidade aliada a uma carga lírica, tão técnica quanto emotiva, pode nos trazer.
Se há algo de realmente muito agradável na poesia de Heitor Brasileiro, mais até que a sua evidente capacidade poética, é a sua total incapacidade para o “mascaramento”, tão comum tanto ao poeta moderno quanto ao contemporâneo. Por isso mesmo, é mais que evidente que um poeta que escreve um livro como O chão e a nuvem se sinta tão livre para eleger temas como os que nele se encontram; capazes mesmos de fazer com que uma linguagem que não se pretende mais do que simplória adquira conteúdos às vezes tão mágicos e cujas metáforas possam abrir mãos de suas relações analógicas criando imagens tão dissonantes e símbolos tão dissolventes que, aliados a temas tão pessoais, e, não raramente, caros ao seu autor, capazes de trazer à superfície dos versos uma pesada carga de emoções – nem sempre agradáveis – possam criar poemas como esses: frutos de sonhos e de pó.
(Silvério Duque é poeta, professor, formado em Letras pela UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana), e músico. É autor de “A pele de Esaú” (Via Litterarum, 2010), “Ciranda de Sombras” (É Realizações, 2011), “Do coração dos malditos” (Mondrongo, 2013). Seu próximo livro, “A moldura vazia”, está no prelo)
não fora menino monossilábico
não guardava cigarros no quarto
não fora à feira do livro
de porto alegre com dez
reais mais grana do metrô
e comprou henry miller
castañeda kafka
marquês de sade
não bebeu as lágrimas
da garota de jeans
& camiseta dos ramones
não permanecia no vagão
para ouvir jazz
e o ritmo dos trilhos
não encenava suicídios
fora o melhor atleta da turma
não contemplava tempestades
imagens como: naufrágio aceso
rumor dos ossos, vestir
as vísceras do primeiro amor
não o excitavam
de fato
o olhar é doce
e estrangeiro nos retratos.
***
Acesa como girassol de van gogh, no princípio. Incidindo sobre mesa e livros. Pétalas em chamas e aroma luminoso. São tantas formas de atear cores quentes à sobriedade do quarto: cortar os pulsos, acender um cigarro, pintar os lábios, descascar uma laranja, adotar um gato amarelo de olhos cintilantes. A mais simples: reatar o ciclo e substituir as flores do vaso. Se cultivasse diários, lembraria o momento exato em que julguei cruel tal rotina. O passado recente ainda recende seu sangue.
***
meu delírio pulsa
onde despencam
cadáveres de borboleta
onde poesia
se celebra
com orgia ritual:
homens e palavras
se fecundam.
fera miraculosa
vomita o caminho
desde que enterrei
nos olhos
o mapa de pasárgada.
***
Mergulhas
em águas escuras.
Metade oculta
outra flutua
em meus olhos.
Corpo lunar.
Disse que o frio
são agulhas.
Permito ao delírio
raie sol.
Então,
réptil imóvel
te aqueces.
Não há musa
anadiômena.
Tudo é linguagem.
Há Botticelli e Rimbaud.
Há signos e rumor
nas palavras
& frag
me
nta
das
Visões.
***
Os dentes de eva
rompem com rumor
o rubro verniz.
Entoam o gozo
compasso ritual.
Sustente o ritmo
famélica eva
tua língua navalha
navega meus olhos
de um lado a outro.
Caninos agudos
transpassam o fruto.
Colha minha órbita
o ovo das Visões
encene os delírios.
Baile com Bataille
o último tango.
À porta do paraíso
uiva um cão andaluz.
(Sou Gustavo Petter, nasci em 1984. Moro em Araçatuba/SP. Para mim signos eróticos e obscenos, anti-religiosos, meta-poéticos e associações livres coabitam com a materialidade da palavra e uma contemplação oriental no corpo do poema. O poema não admite policiamentos morais, estéticos. A liberdade possível é a linguagem)
Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Luís de Camões
Mencionou apenas que o tempo havia fechado em sua casa, depois falaria sobre isso, precisava, antes, resolver. Dias passaram e não houve qualquer retomada do assunto, em vez disso, ela sumiu simplesmente. Três dias sem notícia. Ele ficou preocupado. Escreveu perguntando se estava tudo bem por lá. Por aqui, o tempo fechou também, quis fazer troça a fim de provocar curiosidade. Mas, em seguida, esclareceu, evitando não assustá-la: fechou em termos de clima, está chovendo desde domingo. Acrescentou, de puro charme, se bem que é normal, todo ano, onde quer que estejamos, veremos chover nos dias 21 e 22 de novembro.
Isso era verdade; todavia, escrito num e-mail, soava sem sentido, um tanto excêntrico, considerou. Não pergunte por que nem pense em coincidência, continuou ele, querendo manter algum fio de mistério, a verdade é que chove, invariavelmente, no aniversário de André Gide e um dia antes, na nossa data. Depois, aproveitou pra dar vazão aos seus conhecimentos astrológicos: não sei se você se lembra, mas Gide abre Sagitário, enquanto eu e você encerramos Escorpião. Ela apreciava tanto os romancistas franceses quanto a astrologia, de modo que ele podia se soltar, sem medo, nas alusões. Ademais, raramente era incompreendido por ela, ao contrário, contava com uma interlocutora culta, capaz de lhe responder, segundos depois, com comentários perspicazes e outras tantas referências que o deixavam ainda mais disposto a desenvolver o tema.
Esqueceu-se de mencionar outros elementos relativos ao aniversário, hábitos e males que tinham em comum: as dores de coluna; o evitar comemorações; a necessidade de ficar só em casa; a mania de fugir pra aeroportos onde pudessem contemplar os aviões. Eram do mesmo signo, melhor: nasceram no mesmíssimo dia e mês — ela apenas um ano mais nova que ele. Portadores de uma natureza singular, estavam tão acostumados a causar espanto nas pessoas ao redor, que se agarravam àquelas datas, àquelas referências, ao gosto em comum, e se confessavam, nas milhares de mensagens que diariamente trocavam, a alma gêmea do outro, a cara-metade.
A forte empatia do presente havia sido outrora abalada pela tentativa fracassada de viverem juntos. No início, quando se conheceram, cometeram o equívoco de dar vazão concreta ao sentimento, e lá foi ela de escova de dentes e sandálias de tiras pra a casa dele, donde fugiu, deprimida, meses depois. O rompimento significou um período difícil de telefonemas ríspidos e farpas pelo MSN — culpa e tristeza pra ele, raiva e depressão pra ela. Foram passando, todavia, foram passando por cima das mágoas, se reencontrando naquela zona tranquila dos que nasceram, de fato, pra ser amigos, jamais amantes. Sexo complica tudo, decretou ela, certa feita, véspera de ano-novo. Mas brindo a você de corpo e alma, devolveu ele, terno. E de tanto mandar mensagens alta madrugada — só você me entende, ela desabafava, quando penso em alguém só penso em você, ele citava — viram renascer a amizade, agora com alicerce palpável, acreditavam.
Terminou de escrever o e-mail, baixou o visor do laptop,correu à cozinha atrás de algo pra beber, a garganta pra lá de seca. Achou chá gelado, água mineral e suco de maracujá na geladeira. A esposa continuava a mania de nunca comprar cerveja, apesar de terem combinado uma lista de itens básicos, fosse de quem fosse a vez de ir ao supermercado. Mas resolveu não protestar, estava mesmo a fim de ficar na sua, em paz. Até porque se quisesse interrogá-la naquele instante acerca da exclusão de sua cerveja, única exigência que ele, o pobre e desprezado provedor da casa fazia, onde encontraria a esposa àquela hora? Na casa da irmã, a cinco quadras, enchendo bolas de assopro, bordando painéis ou discutindo o recheio do bolo de aniversário do único sobrinho? Deveria, é claro, haver algum bilhete nalgum canto da casa explicando seu destino e provável horário de retorno. Um bilhete escrito rapidinho, como ela gostava de dizer o tempo todo. Rapidinho, amor, repetia a esposa antes de qualquer ação. E eram, realmente, bilhetes que aparentavam uma origem meteórica, quiçá descuidada: duas frases, beijos em letras largas, alguma indicação desnecessária do tipo tem pavê de ameixa na geladeira ou esquente o frango no micro-ondas, e não me espere, amor: vou demorar. Os bilhetes da mulher. Podia encher um baú com aquilo. No fim das contas, eram todos inúteis, pois ela sintetizava neles justamente as informações que passava 24h repetindo: quando ia sair, quando ia viajar, a que horas chegaria do shopping, a que horas iria à casa da irmã ajudar nos preparativos do aniversário de seu único e amado e idolatrado salve, salve, sobrinho. Era, portanto, dispensável lê-los, visto que as frases dela colavam-se à mente dia e noite, noite e dia.
Nada de cerveja. Ele tentou se resignar frente à geladeira aberta, abarrotada de potes de plásticos com restos de almoço, restos de jantar, bolo de laranja de dois dias, queijos, iogurtes, gelatina e até achocolatado! Ele se chateou: boa essa, não compra sua cerveja, mas compra achocolatado em caixinha. Não tinham filhos ainda, pra que diabos a esposa comprava Toddynho? Pro sobrinho? Deu de ombros, escolheu chá gelado. Encheu duas vezes o copo de 300ml, a sede jorra na alma, brincou, por isso, nada a estanca.
Tomou banho. Vestiu o pijama e deitou, verificando, antes, se havia alguma nova notícia da amada amiga na caixa de entrada. Absolutamente, nada. Cochilou, desejando, num ponto da mente, acordar e dar de cara com uma drástica mudança em sua vida, mas uma mudança tão significativa que o transformaria naquelas pessoas elegantes, incapazes de reclamações pelos cantos, incapazes de insistir nas tristes narrativas de problemas diários, uma pessoa elegante por dentro e por fora, suportando tudo com um sorriso nos lábios, botaria, inclusive, o Dalai-Lama no chinelo.
Despertou minutos depois cara a cara com o incontornável: mudanças são méritos, é preciso agir em prol delas. As pessoas elegantes e impossíveis continuariam, portanto, a povoar a mente, acenando do outro lado da pista, enquanto conformação e preguiça fossem império. O dia todo aquilo — nenhum e-mail, nenhuma notícia dela, somente a chuva e a dor de coluna ininterruptas.
Levantou, tomou um Cataflan com mais meio copo de chá gelado. Sede e desejo de algo doce na boca. Comeu um pedaço de bolo de laranja com chocolate. Não demorou meia hora, vomitou tudo. Era só o que faltava, praguejou, abrindo a porta da área de serviço a fim de pegar o pano pra limpar o estrago no piso branco da cozinha. Criara intolerância ao medicamento? Ou foi o bolo? Porcaria! Se não limpasse o chão, no outro dia a esposa decretaria a 3ª Guerra Mundial, com armas químicas e ataques terroristas ao prédio da ONU. Pegou água sanitária e derramou meia garrafa no pano. Limpava, meio enojado, por dentro, somos nojentos de tão iguais, pensou, se contendo pra não pôr o estômago pra fora outra vez.
Lavou as mãos diversas vezes, escovou os dentes, enxaguou a boca com antisséptico. Voltou ao laptop, caçou a amiga no Skype, no MSN. Mandou novo e-mail. Pedia resposta urgente. Não veio. Sabia-a notívaga, quase a viver do outro lado da tela. Criou coragem e copiou a mesma mensagem via celular. Não quis ser invasivo, justificou, mas você sumiu e estou preocupado. Combinaram, há tempos, de evitar telefonemas, em respeito ao ciúme do atual marido dela, que não conseguia acreditar naquela amizade pós-cama dos dois. Naquele momento, no entanto, ignorou o acordo e ligou. Uma, duas, três vezes. Caía direto na caixa. A pessoa desapareceu. Deveria estar com algum problema ou, quem sabe, dando um tempo. Cansada da intensidade da correspondência entre eles? Não podia ser, afinal, juraram jamais abrir mão da amizade, prometeram embalar com palavras gentis até mesmo um cisco surgido na rotina, embalar e mandar ao outro, a fim de manter contínua a linha do afeto, a imensa ternura que, um dia, quando tentaram viver juntos, quase mataram.
Dormiu e sonhou uma coisa engraçada: ela, com aquela mania de listas, propôs que cada qual elencasse três coisas importantes que mais os afastavam, bem como três coisas que mais os aproximavam. No sonho, ele não levava a sério, dava gargalhadas, mas escrevia as listas, considerando, ao final, ser um capricho, como tantos outros por ela inventados. Acordado, de novo, lembrou que dentro do sonho as três coisas que os afastavam eram:
a) ela não gosta de sexo;
b) é excessivamente desconfiada;
c) dá declarações irresponsáveis, às vezes, sobre assuntos que sequer domina.
Na lista das coisas que os aproximavam, estavam:
a) ela dá declarações irresponsáveis, às vezes, sobre assuntos que sequer domina;
b) não gosta de sexo;
c) é excessivamente desconfiada.
Achou gracioso aquilo: então, tudo que os afastava também os aproximava? Pensou em gravar uma seleção com suas músicas preferidas pra um dia de chuva e dor de coluna. Ela iria aprovar. Mas, olhando pela janela, veio uma pontada. A dor de coluna piorou. Buscou o número fixo da amiga na agenda. Ela lhe havia passado quando estava prestes a ser mãe pela primeira vez. Só ligue em casos extremos, pediu, 48 horas sem notícias minhas, por exemplo, já é uma tragédia grega, brincou. Respirou fundo, encheu-se de desculpas caso o marido ciumento atendesse, ligou. Ninguém. Ligou de novo. Mais uma. Outra. E outra vez, até completar dez tentativas. Em vão.
Repetiu o remédio, torcendo pra não vomitar. Conferiu pela milésima vez a caixa de entrada: não havia rastro dela. Paranoico, abriu a caixa de spam, enganando-se que, subitamente, o provedor poderia peneirá-la, sem razão, após tantos anos de mensagens diárias. Tinha lógica? Não, não tinha, mal digitava as primeiras letras do nome da amiga, um recurso do sistema fazia surgir o endereço eletrônico dela, magicamente a adivinhar suas intenções. Mundo competente e dinâmico era o virtual, quisera viver dentro dele, jamais precisar do real. Por que então o sistema falharia, excluindo-a sem mais nem menos? Besteira, bancava o besta, sem dúvida.
Ainda assim, subiu e desceu pela caixa de spam, observando os subjects, surpreso com tanta idiotice que lhe enviavam: assinaturas de revistas, correntes esotéricas, produtos pra emagrecer sem comprometer a massa magra, pacotes de viagem aos milhares, guia do orgasmo feminino, mandava uma tal Cíntia, ele riu: tentador, minha filha, muito tentador, quem sabe um dia?, ofertas-relâmpago de sites de compras coletivas, informes de deputados, convites pra lançamentos de autores desconhecidos, pedido de ajuda pra uma criança com câncer, convocação urgente pra ir à Receita Federal, como assim?, se assustou e ia abrindo a mensagem, mas se lembrou, antes, que a Receita não envia e-mail ao contribuinte. Oi rapaz senti sua falta, seguem as fotos, dizia um tal de Genésio, não conhecia Genésio algum, exceto o da letra de Aldir Blanc, quando ele fere, fere firme/dói que nem punhal/quando ele invoca até parece/um pega na geral. Sorriu com a memória espontânea do samba. De fato, um pega na geral não é moleza, não; os caras tinham precisão, bastava meia dúzia de palavras e se cristalizava um mundo. Houve um tempo em que a música brasileira fazia diferença, tempo morto, decerto, hoje nem rádio ouvia, entediado com o desconhecimento, a falta de talento, pior: o ouvido torto dos novos compositores. O mau gosto estava na ordem do dia; portanto, melhor evitar, ouvir tango, se refugiar na música clássica, mergulhar em acervos antigos — ultimamente andava de paixão com certas cantoras francesas dos anos 60-70, entendia um pouco de francês. Melancólicas, lindas, elas jamais o decepcionavam.
Meio anestesiado pelo Cataflan, desistiu de bancar o espião da rede e tratou de dormir. Quando a esposa chegou, barulhenta e cheia de sacolas, ele sequer percebeu.
Viajou na manhã seguinte, repetindo a si próprio que nada grave haveria de acontecer à amada amiga. O coração amiudado, querendo e não querendo prever cortes, problemas. Imaginava o marido ciumento descobrindo a senha dela, adentrando no conteúdo dos infindos e-mails, interpretando com maldade as brincadeiras, estranhando a intimidade entre eles.Abriu os primeiros botões da camisa: calor súbito e incômodo impedindo-o de respirar. Aquele imbecil que não tocasse um dedo nela. A mulher da minha vida, pensou, constrangido pelo próprio jeito de pensar assim na mulher outrora possuída, mas perdida no descompasso da rotina a dois que não conseguiram manter. Renascida das cinzas, outra vez transformada romanticamente em alma gêmea, confidente, sacralizada, nada mais poderia tirá-la dele, nada, entendeu? Esquece isso, criatura, se censurou, você é um homem feito ou um menino engatinhando?
No avião, esperou pacientemente a comissária liberar o uso de aparelhos eletrônicos pra, enfim, abrir o arquivo com o mapa astral da amiga tão amada. Concentrou-se em cada quadratura, tomou novas notas, enquanto consultava todas as tabelas, verificando os movimentos dos astros desde o dia em que ela cessou de mandar notícias. Considerou indicativos ruins, outros nem tanto, sentiu a saudade comprimindo o peito em meio à ruma de pensamentos agourentos. Uns eram taxativos: aconteceu alguma coisa grave, anta, se toque; outros ponderavam: calma, da outra vez ela sumiu por dois dias, ele se preocupou em excesso, entretanto, era somente uma pendência doméstica — o filho caçula pegara sarampo e ela se desdobrava em atenções noite e dia ao lado dele, conforme toda boa mãe há de fazer.
Resolveu parar com o pensamento obsessivo em torno dela, curtir a viagem, mesmo a trabalho. Meteu os fones nos ouvidos, concentrou-se nas divas francesas.
Em terra, foi logo localizado pelos monitores simpáticos do congresso. Deram-lhe as boas-vindas, falaram da honra em tê-lo entre eles, declararam adorar todos os livros dele, mas, sobretudo, o último. Ofereceram-lhe água, balas doces, pediram desculpas por terem de esperar outro congressista cujo voo estava programado pra chegar dali a meia hora. Não faz mal, ele disse, dispersando a angústia diante de tanto rosto abarrotando o Santos Dumont. Na Van, gostou de saber que a organização do congresso reservou-lhe um hotel três estrelas conhecido, no finalzinho de Copacabana, quase Ipanema. Pronto! O Rio de Janeiro entraria em sua alma, pelos olhos, pelo nariz, e faria com que esquecesse todas as preocupações. Aninhou-se à janela e foi curtindo a vista da orla carioca.
O resto do dia foi bastante animado, e a atenção foi ocupada pela belíssima abertura do evento, a cargo de um dos nomes mais representativos da terapia holística. Depois, o reencontrar colegas distantes e queridos, o clima festivo das refeições, a troca de ideias, o passeio pelo calçadão no fim de tarde, conversando amenidades com uma moça interessantíssima, que pesquisava a relação entre música e signos. À noite, revisou os slides da palestra preparada dias antes de embarcar, cortou informações repetidas, acrescentou dicas extraídas do último livro zen-budista lido, substituiu imagens, aumentou a lista final de agradecimentos.
A caixa de entrada continuava a não dizer nada sobre ela, mas ele tratou de não dar vazão a neuroses, impôs-se um limite, chega, também não é pra tanto, quando ela quiser, aparecerá. Ligou pra esposa, e depois de falarem sobre o básico da casa, das contas, dos familiares e amigos em comum, ficou um tempo enorme a trocar indecências com ela, recuperando o hábito de quando namoravam e se autoestimulavam a distância. Um tanto maravilhado por se saber ainda excitado com a esposa, por essa partilhar com ele a mesma disposição pro sexo, prometeu que quando regressasse trepariam cem vezes sem parar, cento e uma, ela disse, cento e duas, ele consertou, trezentas, murmuraram juntos. Despediram-se, e ele pensou em agradecer aos Céus aquela dádiva, afinal, tinha um casamento bom, por vezes morno, por vezes entediante, mas, quase sempre, bom, correto? Na mesma hora se envergonhou: e se estivesse se entregando à rotina medíocre, se estivesse se conformando à falta de coragem pra dar o salto no escuro que a vida há anos lhe pedia? Salto? Que salto? Abriria mão de tudo, voltaria a apostar na velha ilusão de um futuro ao lado da amada amiga? Ficou confuso, não sabia mais o que era percepção, o que era bobagem, então, preferiu dormir sem oração alguma.
Sua palestra foi tranquila, com as pessoas, ao final, retomando, comentando, pedindo novos esclarecimentos acerca da analogia que ele fizera entre a justiça humana e a justiça espiritual. Alguém levantou dúvidas sobre uma passagem bíblica e ele, pacientemente, explicou, recomendando a leitura do seu segundo livro, lançado há quase dez anos, cujo foco era justamente a análise da repetição de alguns carmas em decorrência da ignorância humana sobre a lei de atração e repulsa. No coffee-break, recebeu parabéns pelas palavras iluminadoras e autografou alguns livros, sentindo-se, enfim, útil.
Antes de retornar, comprou uma lingerie pra esposa, auxiliado pela vendedora que lhe assegurou ser o modelo escolhido sensualíssimo, superconfortável e sem erro. No avião, porém, sentiu-se mal ao contar sete dias de ausência total da amiga amada e prometeu investigar. De que maneira? Não sabia, mas havia de encontrar um jeito. Em casa, no entanto a esposa recebeu a lingerie e em resposta fez valer as promessas trocadas por telefone. Sugou-lhe, gulosa, toda e qualquer energia, deitada, em pé, sentada, de costas, a esposa estava imbatível, só pararam quando o cansaço dominou os dois.
No banho, ouviu o telefone chamar e a voz da mulher responder exatamente aquilo: que ele estava no banho. Temeroso de perder uma ligação da amiga sumida, gritou que tinha acabado, podia atender, e quase caiu na passagem do boxe, descuidado, a derrubar frascos de xampu e sabonetes. Mas quando chegou, enfim, à sala, a esposa já havia desligado. Quem era?, quis saber. Um homem, vai ligar daqui a dez minutos, ela disse, parecendo não notar o jeito nervoso dele. É interurbano, tornou a esposa, displicente, é a segunda vez que te procuram. De repente, riu e comentou que a pessoa do outro lado falou uma coisa estranha, deveria ser, obviamente, um trote. O quê?, ele perguntou, o coração aos pulos, podia ser o tal marido ciumento, pensou, valha-me Deus! Disse que era delegado do Tocantins, esclareceu a esposa, imagina, um delegado te ligando de Palmas, voltou a sorrir num jeito de descrença. As pessoas não têm mais o que inventar pra tirar o sossego alheio, acrescentou a mulher.
Um delegado de Palmas! Ele sentou-se na cama, de toalha enrolada na cintura. O chão ameaçava ruir, logo as criaturas do Mal acenariam, satisfeitas com a miséria dele. Palmas era justamente a cidade pra onde a melhor amiga se mudou, após se casar com um professor. Ficou a olhar o aparelho sem fio, largado pela esposa em cima da cômoda. Os fatos desfilaram qual páginas de um longo arquivo: casara-se com a melhor amiga, não deram certo, romperam, firmaram um pacto de amizade diária e eterna; ele conheceu a atual esposa, enquanto a amiga conheceu o tal professor. Não o amava, ela frisou, mas se davam bem, o que justificava tempos depois largar tudo pra acompanhá-lo ao Tocantins, quando o sujeito foi aprovado num concurso federal. Não pôde se despedir pessoalmente dela, os ciúmes do marido, ela justificou, esse sentimento tão mesquinho. Ele, mais uma vez, disse não ser problema, entendia, como não? Vieram os dois filhos dela, o desejo de que ele batizasse o mais velho, infelizmente, um desejo barrado, ela confessara no Skype: o marido era tão possessivo, tão incompreensivo, se desculpou. Não faz mal, ele a tranquilizou, fazemos de conta que sou o padrinho reserva do garoto, propôs.
Ele havia espancado-a, concluiu nervoso, só podia ser. Ou, pior, matou-a! O corpo todo formigou frente àquela possibilidade, sua melhor amiga, não, sua alma gêmea!, a verdadeira mulher de sua vida, eterna cara-metade. Deveria criar coragem e ir atrás dela. Talvez dessem certo dessa vez, por que não? Estavam mais maduros, se conheciam melhor. Olhou a esposa real, silenciosa, de vestido curto, pés descalços, a desfazer a mala dele. Sentiu remorsos. Sim, não estava certo, mas, Deus, o que poderia fazer? O desgraçado havia matado, matado a mulher de sua vida!
O telefone tocou de novo e ele foi atender, trêmulo. Quando ligara pra ela, dias antes, alta madrugada, o aparelho, com identificador de chamadas, gravou as dez tentativas do número dele, daí a curiosidade do delegado pela insistência das chamadas, três, quatro horas após o crime.
O crime! Ele se contorceu, confuso, contendo-se pra não se meter embaixo da cama, gritar pela mãe, pelo pai, pelo irmão, como quando era criança e os relâmpagos o assustavam. O miserável fizera algo ruim com ela, logo ela, sua amada imortal.
Como ela está?, ele se viu perguntando, está viva? Ela sobreviveu? Vivíssima, disse o delegado, melhor do que eu, mas… você é quem? Parente da vítima? Amigo, ele disse, somos grandes amigos, conheço-a há mais de vinte anos. Interessante, disse o delegado, e se viram recentemente? Infelizmente, não vejo minha amiga desde que se casou com aquele cidadão e se mudou pra aí. Ah!, fez o delegado, mas ontem quando liguei sua esposa disse que o senhor estava viajando, não? Ele se irritou: sim, meu amigo, eu estava no Rio de Janeiro, num congresso, tenho bilhete, comprovante de hospedagem e pilhas de testemunhas. O senhor está insinuando o quê?, questionou, nervos em frangalhos. Não insinuo nada, meu senhor, respondeu o delegado, calmamente, apenas apuro fatos, como já disse, encontrei dez ligações do seu número no identificador de chamadas, então… Tá certo, tá certo, ele interrompeu, sem paciência, pode me dizer o que aconteceu, afinal, com ela? Como assim?, estranhou o delegado. Ele respirou fundo: o que o desgraçado do marido fez a ela? Espancou-a? Manteve-a em cárcere privado? Tentou matá-la? O outro deu uma risadinha do outro lado.
Foi o suficiente pra ele pensar estar sendo vítima de algum trote, pior: talvez estivesse a falar com o próprio marido dela! Sim, quem poderia garantir que era um delegado? Pode-se falar qualquer coisa ao telefone. O miserável, não satisfeito em machucá-la, mantê-la em cárcere privado, tentar tirar-lhe a vida, o sujeito abjeto agora ligava a fim de atormentá-lo com seu ciúme ridículo. Do que você está rindo?, rosnou, qual é a graça? A esposa, espantada com o teor da conversa e o estado nervoso dele, veio perguntar o que estava havendo. Ele balançou a cabeça negativamente, pediu-lhe pra aguardar um momento, estava tentando entender a natureza de um problema seríssimo. A mulher arqueou as sobrancelhas, todavia, discreta como sempre, se resignou, deu com os ombros e saiu do quarto.
De fato, confirmou a voz do outro lado, é bem capaz de ser esse um problema de natureza seríssima, talvez até enganosa, quem sabe?, fez num tom ambíguo. Ele ignorou tal comentário, sequer sabia se era mesmo um delegado ou o maldito marido dela, se fazendo de esperto. Voltou a ser taxativo: o que você fez a ela, imbecil? Eu?, estranhou a voz do interlocutor. Sim, você, não pense que me engana com esse papo de delegado, acha que sou idiota? Delegado vai muito perder tempo conferindo identificador de chamadas, me poupe, delegado quer saber é de sangue, do calibre das balas, de testemunhas, de razões concretas. O que você fez com minha amiga, seu doente?, rosnou outra vez. Meu senhor, se acalme, respondeu o outro, me parece que o senhor ou é maluco ou está confundindo as coisas, não fiz nada a sua amiga, ela está presa, na penitenciária feminina, aguardando a investigação. O quêêê?, ele desentendeu, do que você está falando? Ela está presa? Não acredito que você a prendeu! Que tipo de insanidade passa por sua cabeça pra mandar prender a mãe dos seus filhos?, gritou. O interlocutor, desacostumado a ser interrogado, perdeu a paciência também: abaixe a voz, antes que eu mande te prender por desacato.
Desacato? Essa era boa, um delegado no Tocantins iria prendê-lo em Minas Gerais por desacato ao telefone! Ele riu, estava uma pilha de nervos, mas riu: ah!, claro, o senhor pode mandar a ordem de prisão por e-mail, inclusive, é mais rápido, tripudiou, provavelmente está com a senha dela e já leu todas as mensagens que trocamos, imaginando, com sua mente doentia, que eu e ela tínhamos um caso mal resolvido. Não é assim que pessoas mesquinhas e pequenas como você raciocinam? Espere aí, interferiu o interlocutor, mais calmo: por qual razão o senhor odeia tanto a vítima e defende a ré?
Ele sentiu a cabeça rodar. Vítima?, qual vítima? O marido, explicou o delegado, o marido foi assassinado com vinte e uma facadas, pela esposa, enquanto dormia.
O silêncio.
O mundo ficando vagaroso e definitivamente incompreensível.
Um barulho de água invadiu os sentidos. Procurou a esposa com os olhos, mas ela, obviamente, tomava banho naquele instante.
Ei, o senhor ainda está aí?, perguntou o delegado. Vinte e uma facadas?, ele repetiu, sem perceber que repetia. Exato, confirmou o interlocutor, o marido foi morto a facadas, enquanto as crianças foram envenenadas. As crianças?, ele gritou, estupefato, ela envenenou as crianças? Não era possível, não podia acreditar. Quando deu por si, já havia desligado o telefone, a cabeça rodando, as pernas recusando-se a obedecer. Que loucura era aquela, meu Deus?, ficou a se perguntar, em qual pesadelo caíra de olhos abertos? Num impulso, tirou o telefone da tomada, caso o delegado voltasse a ligar. Por quê? Não sabia, não sabia por quê.
Jogou o nome dela no Google. Completo. Entre aspas. Veio uma nota de dois dias atrás, num jornal do Tocantins: dona de casa que matou marido a facadas teve pedido de habeas corpus negado. A dor no peito aumentava. Na página de uma rádio paulista, havia mais detalhes, de uma semana: Professor de História é morto a facadas pela própria esposa enquanto dormia. Segundo a perícia, a vítima ainda tentou se defender, mas a gravidade dos ferimentos, desferidos ainda quando o professor estava dormindo, não lhe deu qualquer chance. Os vizinhos ouviram gritos estranhos e chamaram a polícia. O crime foi motivado pelo ciúme doentio da esposa que, antes, envenenou os próprios filhos.
Sua melhor amiga? Sua alma gêmea? Não podia ser. Olhava as notícias como se fossem escritas por marcianos. Olhava a foto dela algemada, cabelos presos, expressão distante, presa em flagrante pela polícia. Não conseguia entender. Deve ser um trote, uma brincadeira de mau gosto. A eterna confidente. A cara-metade. A mulher mais culta e mais inteligente do planeta. Foram casados por dois anos. Correspondiam-se há quinze. Sempre a considerou uma pessoa digna, sensível, do Bem. Como poderia? Envenenar os próprios filhos? De jeito algum, não era crível. Pois se ela era a mulher idolatrada, a mulher amada, por quem pensara tantas vezes largar tudo e pedir, de joelhos, uma nova chance?
Releu as mensagens dos últimos três anos, buscando sentidos ocultos, pistas, insinuações. As queixas do ciúme absurdo do marido, as incontáveis situações em que ele fizera escândalo, ela confessava, obrigando-a a passar por constrangimentos às vezes em público, às vezes na frente das crianças. Chocou-se com a frase Medeia me fascina escrita por ela, um ano antes, numa das sequências em que discutiram arquétipos, mitos. Outra frase, antes despercebida, parecia antecipar tudo: três vezes sete, ela comentava, e se encerra um verdadeiro ciclo. Três vezes sete, ele repetiu, sentindo-se um tolo completo, são exatamente vinte e uma facadas. O tempo fechou aqui em casa, afirmou na última mensagem, preciso resolver. Meu Deus, e pensar que foram casados por… dois anos! De repente, essa informação doeu como se lhe abrissem a cabeça ao meio com um maçarico.
Correu ao quarto e acordou a esposa, num abraço-sufoco, um abraço de ossos querendo atravessar os ossos do outro, enquanto a consciência, enfim, se libertava. Que foi, homem?, ela perguntava, sonolenta, aconteceu algo? Sim, ele disse, aconteceu que você é a mulher da minha vida, declarou em voz alta. Uai, ela exclamou, que bonito isso, amor!, virando-se melhor a fim de corresponder ao abraço do marido. Ele, então, prometeu a si mesmo agradecer aquela dádiva. De joelhos, pensou. A dádiva real, não o delírio dela, mas sua concretude, ali, entre seus braços, morna, e, sobretudo, acolhedora.
(Állex Leilla (Alessandra Leila Borges Gomes)nasceu em Bom Jesus da Lapa (BA). Publicou seu primeiro livro, “Urbanos” (contos), resultado do prêmio para autores inéditos da BRASKEM e Fundação Casa de Jorge Amado, em 1997. Em 1999, publicou “Obscuros” (contos, Editora Oiti); Em 2010, lançou o romance “Primavera nos ossos”, premiado pelo Programa Petrobrás Cultural e editado pela Casarão do Verbo. Doutora em Estudos Literários pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), é professora de Literatura Portuguesa e de Tópicos da Narrativa, na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Em 2013, lançou o livro de contos Chuva Secreta (Editora Casarão do Verbo)
Diálogo entrecortado de melodias adoráveis. Há anos conheci rapidamente a Elaine Guedes (1968). O meu olhar se deteve em sua alegria de viver e o meu ouvido em sua voz entranhável. Logo em seguida o silêncio se ramificou entre nós de todas as formas. Quando nos reencontramos, seu currículo já havia dado um salto qualitativo vultoso, com discos gravados e livros publicados. Surpreendeu-me descobrir na cantora um duplo poético, autora de letras e poemas. E foi essa descoberta de uma Elaine Guedes que é tudo menos alheia à tensão entre dois mundos paralelos que se chocam entre si com frequência destrutiva, o doméstico e o da criação, que me levou à realização dessa entrevista. Os bastidores guardam sua singularidade saborosa, com recortes tais como: “Eu achava que fazer música era coisa de uma espécie de ser humano diferenciado. Mas até o mergulho na música é uma questão de trabalho, de estudo, não é solitária como a escrita e é bom saber do que estamos falando ao dialogar com o músico.” Ou essa preciosidade: “Sucesso para mim é fazer algo que se quer ler ou ouvir repetidas vezes. E propor uma novidade, coisa tão difícil, que todo mundo diz ser impossível hoje em dia. Eu não acho. Nesses tempos em que as pessoas sobre a tortura light, todos estão conduzidos sem perceber, espremidos, o consumo é um paliativo e se chega na segunda-feira sem perceber. Eu quero viver percebendo, tendo a possibilidade de encontrar um trabalho bom.” Tamanha vitalidade existencial me fascina em meio a uma estrada gasta por onde circula a arte em nosso tempo, engasgada no tempo, retida numa alfândega de valores revolucionários já datados. Não há nada mais saudável do que um artista que quer romper com a pasmaceira virulenta em que se converteu seu próprio tempo. Elaine é um bom exemplo dessa atitude guerreira. A voz de Elaine Guedes em uma canção sua. A voz de Elaine Guedes em um poema meu. A voz de Elaine Guedes no diálogo que tivemos e que agora compartilhamos com os leitores de Diversos Afins.
Elaine Guedes / Foto: Julio Cerino
FLORIANO MARTINS – Como a música entra em tua vida?
ELAINE GUEDES – Meu nome foi escolhido porque meu pai ouviu anunciar uma cantora na rádio, e não devia ser brasileira. Na minha casa música não existia, e o clima Polícia Federal era bem pesado, pai e mãe. No entanto eu pedi aos nove anos um som de presente, o primeiro compacto que comprei foi Crosby, Stills, Nash and Young (I can see clearly now) e Billy Paul — Me and Mrs. Jones.
Aos dez anos eu cantava na Igreja Católica, mas uma madre insistia que minha alegria era over. E eu abandonei os dois. Sinto que me tornei uma pessoa com grande dificuldade de me expressar, por isso procurei a música, ela é um canal não tão racional, pra dentro de mim mesma.
Rapidamente me vi em Fortaleza fazendo backings para o Tazo Costa no Teatro da Encetur. Depois comecei minha carreira-solo e fui estudar com Paulo Fortes, cinco anos de canto lírico. Cantei com o Tim Maia, Cassiano e Jorge Ben Jor.
FM – Desde quando começaste a escrever sempre esteve presente essa atenção a um “estado de entrega”? Suponho que isto queira dizer que tens uma disposição para o mergulho em grandes águas, o que nos leva inclusive à improvisação. Já falaremos da música, mas comecemos pelas fontes literárias: tuas leituras.
ELAINE GUEDES – Estado de entrega é uma necessidade, é vital porque é algo que fica ruminando, então eu tenho que ir lá ver o que é, e vejo escrevendo.
Eu acho que sempre precisei escrever. E ler. Aos treze anos eu ganhei uma leitura que, não sabia por que, me marcou para sempre: os contos de Voltaire, em especial Candide. Lembro de uma vez, aos dezoito anos, ter causado certa fúria em minha mãe por ter chegado com 20 livros de uma só vez em casa, dentre eles muitos da coleção Civilização Brasileira. Li muito sobre temas sociais e os filósofos — cursei primeiro Serviço Social, depois Ciências Sociais na UFRJ, não terminei. Então aos dezoito já havia lido Descartes, Morus, Platão… Ao mesmo tempo, ou um pouco antes, eu lia todos os bolsilivros de Lou Carrigan com sua agente Brigitte Monfort. Li Os 7 Minutos, Irving Wallace, e comprei todos os autores citados. Leitura é uma curiosidade, e estou sempre contrabalançando a literatura. Sou apaixonada por romance histórico. Agora estou na fase Guerra de Fogo e Gelo, leitura adolescente, que me faz dormir e sair da minha realidade. Que não chega nem perto de meu livro quase predileto, Terra Nostra, de Carlos Fuentes. Em matéria de fantasia… é sem comparação. Como vê, me interessa estar com a cabeça em grandes ondas imaginárias. Preciso disso porque estou gravando, durante o dia, o áudio do livro do Roberto Campos, Lanterna na Popa.
FM –Conversávamos em outro momento sobre tua ideia de introduzir uma linguagem do jazz em algumas canções. Considerando a íntima relação entre jazz e surrealismo, eu sempre observo a criação artística no Brasil um pouco refém de uma racionalidade excessiva que contrasta com outro excesso, o de sua potencialidade mágica. É como um tipo com dotes espíritas nascido em uma opressora família católica. Essa relação acaba por criar um trauma. Então por vezes eu vejo a tradição da poesia e da canção popular no Brasil como devorada por esse trauma que lhe afastou do saudável convívio com o surrealismo e o jazz. Observe que falo em canção popular, o que exclui a música instrumental, pois esta é dotada de um sentido de liberdade magnífico que vem lá de um Pixinguinha, passa pelos chorões, a gafieira, essa figura magistral que foi Radamés Gnattali, e mestres como Paulo Moura, Egberto Gismonti e essa impressionante escola natural de multiplicações incansáveis de vertentes que é Hermeto Pascoal. Já a canção popular atendeu a dois caprichos, o da conveniência de mercado e o esvaziamento de discurso por limitação de linguagem expressiva. Quando me falas em teu projeto de aproximação do jazz ele me soa como um canto de libertação. Comenta um pouco tua impressão sobre o que menciono aqui, e me fala de tuas ideias jazzísticas.
ELAINE GUEDES – Bem, a música pop tem regras, a arte não tem regras. Fez-se muita música para Wall Street, que é a teoria do consumo rápido, não da surpresa. Bem objetivo. Tudo o que não quero fazer. E acho que esse empobrecimento da linguagem tem a ver com setorizar. Você foi perfeito na sua colocação. Eu estou buscando sempre a mim mesma, através da escrita e da música. Cantar é descobrir meu retrato em mutação… Adotei um processo interessante, gravar à capela antes de gravar com os músicos. Depois ouvir e ter a mim mesma como referência, quando a música é conhecida. Isto me impede de ter outra cantora como parâmetro pra a canção.
A música pode ser “cinematográfica”. A música tem que ter o cenário. Jazz talvez represente apenas essa liberdade. Eu estou até mesmo pensando em simplificar as harmonias, usar bastantes ostinatos, tornar as bases simples para me sentir bem à vontade. Eu acho que isso fica mais perto dos ouvidos populares, e fica mais perto de mim, que tenho a informação do rock, na veia.
FM –O Brasil é aparentemente um país antissistêmico. Há inúmeros ensaios sobre o que se chama de carnavalização de nossa cultura. No entanto, essa leitura é fruto de uma estratégia de poder, dentro do espírito mais primário do conceito de “pão & circo”. Quando John Lennon foi assassinado a mídia projetou uma overdose mítica, já de todo desnecessária, por sua importância inquestionável. O brasileiro Almir Chediak foi estupidamente assassinado por um sequestrador incompetente. A mídia no Brasil jamais conseguiu entender a grandeza de sua importância para a música brasileira. Sua série de songbooks tem uma dupla importância que se pode dizer épica: a histórica, a recuperação de patrimônio, o ensinamento do amor pelo que é nosso, no caso dos compositores, ao lado da lição que dá aos cantores, de que fiquem atentos ao veio riquíssimo de nosso cancioneiro, inclusive variando repertório e concepção de arranjo. Sempre buscamos equivalências em casa para o que há de mais patético no mundo e nunca nos orgulhamos do que temos de mais relevante. Fala um pouquinho disso tudo.
ELAINE GUEDES – Tenho duas lembranças que ilustram isso: uma, um texto de Antônio Bezerra de Menezes, que quando vice-cônsul em Nova Orleans, se via obrigado a legalizar faturas consulares de milhares de dólares em casacos de peles e automóveis usados, como forma de dissipar um precioso saldo pelo abastecimento da máquina de guerra americana com nossos minerais, essenciais: urânio, areias monazíticas, manganês etc.
Essa noção de valor a que você se refere parece cópia da estátua da liberdade na Barra da Tijuca.
Nós nos acostumamos com a humilhação, por sermos colonos ou sermos escravos.
A postura de não nos valorizar ainda não mudou. Eu me lembro também de certa vez em Nova York um amigo me chamar a atenção porque eu dizia em demasia “I’m sorry”. Então passei a observar que somos um enorme “I’m sorry”. Até bem pouco tempo, e acho que não mudou demais, observa: se uma pessoa pobre, ou negra, enfim, levasse um esbarrão de outra pessoa branca, ou rica… Era o pobre e negro quem pedia, ou pede, desculpas. E se esquecermos esta questão… às vezes ando de bicicleta pela calçada e se alguém me percebe atrás de si, se afasta e ainda me pede desculpas! É uma postura que sempre tivemos, não pensamos como independentes. Inclusive deve ser por isso que não se produzem tantos filmes sobre a nossa história, não se diz nas escolas o quanto a música brasileira elevou o Brasil. Tem uma coisa mudando, mas tem uma filosofia perigosa também, no meio da atual inclusão: a nivelação por baixo. É talvez a ideologia de parte da classe dominante que se lançou na esquerda, e que achava operário “pobre coitado”. Eu acho que isto diminui a qualidade do homem, do cidadão. É a filosofia da Rede Globo, atualmente, e de quase todas as emissoras, a de que o povão, agora consumidor, não “alcança” a qualidade intelectual. Eu acho que o governo também faz isso em muitos programas e procedimentos, visto a escola pública que pouco reprova, se reprova.
O que nós temos de melhor é por outro lado a espontaneidade que brota apesar dos comandos, apesar das ditaduras e das correntes, sempre aconteceu. Com um sorriso de desculpas às vezes, com força outras…
O funk tem força, é espontâneo… Mas é uma manifestação perigosa porque ela acorrenta os valores, que são o retrato de um país cuja elite não valoriza a cultura, a elite que trocou nosso urânio por casacos de pele! Cultura do eu, do meu… Cultura em sua plenitude quer dizer: “um homem educado é a suprema obra de arte”. Não sei de quem é esta frase.
Elaine Guedes/ Foto: Julio Cerino
FM-Vamos conversar sobre os discos gravados até aqui. O que marca a tua voz? O que ela deseja de ti?
ELAINE GUEDES – O primeiro foi Comer, pela Niterói Discos, que concorreu ao Prêmio Sharp, foi mal compreendido e também mal trabalhado, porque o CD era feito, mas não se acompanhava todo um caminho posterior. Esse disco tem uma sofisticação, nunca economizamos nos acordes. Eu ouvia muito hip-hop e Anita Baker, sempre a mistura. Aliás, comecei a compor porque o selo não queria pagar direitos autorais, Arhur Maia e Altay Vesolo me entregaram músicas para eu colocar a letra. Um processo que não faço mais. O segundo foi bacana, Elaine Guedes, independente. O terceiro foi ao vivo, gostei muito, tem uma música inédita do Lenine.
Tudo o que fiz foi um processo. Sinto que estou encontrando unidade agora, estou trabalhando mais também. Durante um tempo fiquei apegada demais à família, não zelei o tanto que a carreira exigia.
FM –Tens um bom sentido estético de direção de teus projetos. Escrever as letras para outros parceiros, considerando que serás, em grande parte, a cantora das canções, pode em algum caso gerar uma frustração ante o surgimento de uma melodia que não era exatamente a que esperavas para compor o ambiente da letra. Isto costuma acontecer? Sentes falta do domínio de algum instrumento que pudesses tocar para te ajudar na composição?
ELAINE GUEDES – Já acontece demais, até que desisti de fazer música esperando cantá-la. Agora eu canto se achar que tem a ver com o projeto do momento. Cantar minhas músicas nesse atual projeto Bluesy vai ser fogo! São canções de Cartola e Thelonious Monk! O Moacyr Luz fez uma música comigo, claro que eu mandei um monte de canções pra tentar seduzi-lo, mas o sedutor é ele, ele sabe o que a música pede e tem seu jeito pessoal, ficou linda. Mas essa cabe, é difícil dizer que cabe, porque estamos falando de canções geniais. O Aleh Ferreira está com outra letra, e depois de ver meu encanto por Nelson Cavaquinho, jurou que procuraria uma inspiração nele. Assim vamos caminhando.
Falta do domínio de um instrumento? O tempo todo, eu me sinto capenga por isto, quase com uma perna só! Falta de cultura minha. Quando comecei a cantar tinha muita namorada de músico cantando. O Ed Motta falou que o Brasil ainda é assim, até me aborreci, mas é o resultado de nossa cultura. Isto está mudando. Agora música é matéria obrigatória nas escolas, e música é mais que cantar sem ter uma noção imensa do que isto significa. E tocar um instrumento tem que fazer parte de aprender a cantar. Eu só arranho.
FM– O mercado da música hoje me parece mais interessado na contraimagem do que na imagem em si. Observo isto porque em nossas conversas dizias que a Adele teria que emagrecer para seguir vendendo discos. Suicidas em potencial como Amy Winehouse ou gordas adoráveis como a própria Adele contestam um pouco a tua assertiva. O mercado já converteu a moral em algo repleto de glamour. Mas a essência estava no glamour e nunca na moral. Agora o escândalo volta a ter certo charme.
ELAINE GUEDES – Eu adoro toda quebra de conceitos! É o mercado que quer que Adele emagreça, eu não, acho-a linda! Eu adoro ver o sucesso Antony & the Johnsons, Björk é sensacional, eu não estou nem aí pra estética, mas eu me sinto cobrada com relação à imagem.
O escândalo está de volta porque a mídia não conseguiu produzir nada avassalador ultimamente. E nem mesmo consegue pegar a ideia da quebra de paradigma para produzir revolução! A essência está sempre na necessidade, não na ideia de sucesso.
FM – Agora mesmo estás em processo de preparação de repertório e arranjos de um novo show, o que certamente acabará remetendo à gravação de um disco. O que já podes revelar do que andas planejando?
ELAINE GUEDES – Apenas que abortei temporariamente a ideia de gravar as canções que compus com tanta gente pelo mundo afora, pela Internet. Ficou sem unidade. Então fui cantar na Lapa com músicos estrangeiros, e me dediquei a um repertório que nunca tinha esperado cantar. Clássicos. Mas eu quero só é achar o meu jeito de interpretá-los. Dá o maior trabalho não me apoiar na interpretação dessas divas como Billie Holliday, por exemplo.
Eu só quero ouvir a minha voz quando pensar numa dessas músicas que escolho.
FM –Publicaste um livro, O Amor Nu, e agora tens um novo título em fase de edição. Como se encontram essas distintas formas de expressão?
ELAINE GUEDES – Dentro da minha casa, onde eu produzo, é aqui que me encontro, sou essas coisas e pronto. Alguns dos poemas de O Amor Nu viraram música, tem links na Internet. Algumas eu não gravei. O livro novo é mais ousado e escrito a quatro mãos, Poemas em Cortes Profundos, com João Ayres. E ganhei um presente imenso da vida: um prefácio do Ivan Lins, escrito magistralmente.
Encontro-me na emoção das coisas que faço. Revelo-me nelas, inclusive para mim mesma.
FM – Esquecemos algo?
ELAINE GUEDES – Essa foi a pergunta mais difícil.
(Floriano Martins (Brasil, 1957) é poeta, editor e ensaísta. Dirige aAgulha Revista de Cultura. Entre os seus livros mais recentes, se encontram “Autobiografia de um truque” (2010) e “Susana Wald – La vastedad simbólica” (2012))
penso na mulher que é inacessível como uma estrela de sal. um
cálice, uma chaga em backing vocals no cair das horas. penso na
mulher que pensa na palavra, e a palavra então se faz aos poucos
nas bocas das demais mulheres: e a palavra se faz, com a matéria
das flores sonâmbulas e do marfim.
PERSÉFONE – II
sonho ou assédio
lunar,
meninas que se desgarram de si mesmas,
meninas que flutuam como abajures mortuários em torno das bonecas. depois se abaixam para beijá-las na testa e imantar seus corpinhos de pano com relâmpagos.
*
meninas que não falam, magras,
inacessíveis,
tantas meninas, e são altas, e cheiram a algodão e lágrimas.
nos cabelos um nevoeiro de teias de aranha. na pele os sinais em sete eclipses: lua ilícita, lisérgica. a sombra no púbis, no ânus, nos covis das axilas. uma única e mesma noite atravessa os séculos pela boca das mães até a boca das meninas,
e das meninas às bonecas,
num processo difícil de perpetuação
da fome.
***
porque eu te amo
desenho teu rosto como abertura, milagre
qualquer dessas coisas que têm precisamente a ver
com o mar, a noite
o pássaro
porque de fato não caberia desenhar teu rosto como desenho
porque eu te amo
uma abertura
um parapeito de sons de sinos sutis
uma palavra com vista
para o mar, à noite
ou para isto que é precisamente o corpo de aléns
do pássaro
da travessia do sangue
teu rosto em teu rosto, apenas
meu amor
***
“para domenico a. coiro”
além da pele
a palavra
além da palavra
o poema
assim ela entra em tua respiração
em teus modos de ser prenúncio e desvio
para o fogo
o fim e o início: além
polifônica, viva
mulher-pássaro
pele-palavra-poema
o sangue em tuas noites incendiárias
assim: e sobe, enfim
indefinidamente
***
[HÁ PALAVRAS…]
há palavras para as quais
não há palavras
não se pode vê-las a olho nu, vivas
não se pode atravessar
turvar
o espelho
são
nenhuma
numa
só
e tantas
e se perdem de si mesmas
todas as palavras-luas virgens como pele: pálidas
à parte do que digo
do que dizes
refletidas
impelidas pelo desejo
da boca
na boca
***
[COMEÇARIA DIZENDO…]
começaria dizendo o que não posso
que teus suores formam hieróglifos de sal na pele
e que um rosário misterioso se enrola a teus pulsos quando me amas
começaria dizendo que tua respiração tem vista para o mar
e que à noite me debruço ali, silenciosamente
meus cabelos de água-viva
minha língua de virgem
madrepérola
e que à noite
e que me debruço e morro
em tua respiração
(Marceli Andresa Becker é formada em Filosofia pela UPF, cursa Especialização em Epistemologia e Metafísica na UFFS e trabalha como professora. Mantém o blog De Ter de Onde se Ir)
Com quantos arroubos de consciência são feitos os traçados de um artista? Quiçá nove entre dez pessoas falarão da complexidade que é conceituar de modo redondo um determinado estado de espírito quando o tema é apreender a arte. E se tentarmos mirar um mundo que transborda ante nossos olhos, mais distantes ainda ficaremos de um mínimo entendimento sobre as coisas.
Que a arte encerre em si mesma, então, uma estrada autônoma, capaz de se reinventar a cada intervenção do olhar humano: eis o desejo que se funda e nos instiga os sentidos. Se o desafio é falar de um mundo povoado de cenários contrastantes, nos aproximamos do ponto de vista de gente como Julia Debasse. Por ousar, de tal modo em sua lida com a pintura e desenhos, essa artista carioca nos dá a impressão de que cada investida sua é um convite a uma esfera insone da vida. Nela, concebe-se a existência como uma cadeia frenética de sinais, muitos deles apontando para uma visão menos suave sobre os ímpetos humanos.
Não é exagero tencionar que Julia abraça uma estética transgressora, sobretudo pelo fato de que seus traços e formas demonstram rejeitar qualquer espécie de encantamento gratuito. Para ela, importa uma visão mais pungente sobre temáticas que remontam ao melindroso universo das emoções. É, por exemplo, o caso de se perceber o amor com olhos desnudos e, portanto, desabitados de devaneios e ilusões. Desse modo, a artista propõe a revelação do que se pode chamar de a face crua das coisas, porção esta marcada pela companhia inseparável da lucidez.
Arte: Julia Debasse
Conduzida às artes plásticas por sua paixão pela música, Julia Debasse parece ter encontrado um norte vigoroso para consolidar suas múltiplas formas de retratar o mundo. Seja na pintura ou no desenho, uma inalienável inquietude faz com que olhares e sentidos da artista permaneçam despertos em torno duma atmosfera muito peculiar a quem vislumbra o todo sem dissimulações.
Utilizando-se de cenas íntimas e outras tantas advindas do universo externo e também ficcional, Julia semeia provocações e questionamentos para, em seguida, colher soluções poéticas. Diante da densidade dos dias, a artista opera conversões e instaura um ambiente também habitado pela simplicidade dos gestos e tons da vida. Para os desvãos humanos, não se promete redenção ou qualquer coisa que o valha, apenas o ato imperativo de seguir em frente sem cultuar em demasia um deus denominado futuro.
Arte: Julia Debasse
* A arte de Julia Debasse é parte integrante da galeria e dos textos da 85ª Leva.
arranha-céu da tarde sob a circunferência dos olhos do tigre, tão lindo, alto & perspicaz. informações sobre seu paradeiro afirmam que ele havia conhecido moça de humilde família, prendada & auxiliar de enfermagem. nenhum de nós foi convidado ao casório – eles não permitem circo armado em redutos de jovens senhoras envergonhadíssimas até a alma. como retaliação, nos reunimos no apartamento de klauss para gargalhadas ad infinitum enquanto disfarçávamos, intimamente, as lágrimas na hora do sim, caso estivéssemos na última fila da igreja.
2
imaginei agnus no topo do edifício topázio, mais precisamente no instante em que lia seu manifesto bibelô-satânico contra nossa cultura pop & caracterização urbanóide. uma bandeira esvoaçante de um país da europa oriental lhe tatuava os longos braços, ou quem sabe, os longos braços lhe tatuariam o rosto recentemente partido pela tentativa de suicídio no dia 8 de setembro, quinze dias após nossa primeira tragédia doméstica.
3
na mesa de bar falo sobre o projeto obsessão, terror & glória. você desvia o olhar, cruza os braços, enxerga os detalhes de lugar algum. então caminhamos sem perseverança. a falta de assunto conduz os destinos. oscilamos em lados opostos, alheios ao atravessar a avenida, passos de gato dominados pelos faróis eletrostáticos. aí fecho a porta do quarto & me escureço na contingência de festas, after parties, solidão na cabeceira. disco o número de matilde num relance de jogo gasto, buraco dentro do buraco, navio negreiro da salvação? o segredo do meu charme nos capítulos da novela? uma frase de efeito no coração da internet?
4
deyse virá no sábado para a sessão de fotos, segredos & troca de perfumes. contarei a história do meu último romance aos frangalhos no instante em que ela voltar da cozinha com duas xícaras de café, possivelmente expressando desagrado & sorriso de maledicência. tomaremos um táxi pouco antes da madrugada altamente intoxicados por nós mesmos & pelo que tentamos desesperadamente esconder.
5
chocado com a atitude levemente esquizofrênica do moço & sua síndrome de lolita defasada. um ódio-amor que não passa, não passará & que há de me inutilizar o senso de estética & o acúmulo de receitas médicas que certamente irão hipotecar o meu futuro antes que eu morra de sede & fome – por isso preciso que giancarlo me tome em seus braços & que sejamos felizes DE-SOR-DE-NA-DA-MEN-TE.
***
tigre siberiano
adolescentes reproduzem meu fio condutor numa vasta cama de plumas & acessórios eróticos onde invisto minha língua sobre a previsão das mentiras para inventar um relato sobre sexo, ejaculações, coxas nuas que sobrepõem meus orifícios mediúnicos durante o coito & suas doses cavalares de memória em quartos escuros vistos sob o espaldar da cama que não range & que não prolifera nossas ardências na noite de frio, rumba, razão mimeografada presa à estante de brinquedos fabricados nos anos 90.
como se os meus olhos fossem o dorso de um cavalo prestes a mumificar a vida num galope sombrio, relincho tropical no alto da montanha ao invés de reconhecer o grito imaculado do homem que me domina sem o meu consentimento felino, pois quem enumerou os defeitos dos corpos teme o gesto de penetrar ou ser penetrado sem que os inimigos ou amantes sucumbam perante o último orgasmo travestido no sorriso de nossas gengivas, vaginas, líquidos empalidecidos enquanto o dia amanhece & tratamos de nos recompor: livre arbítrio que abre a boca antes que a presa se torne carcaça & eu psicografe o perigo do mundo.
***
alô, hoffman?
sons de carros bufando seus gases, rumores tóxicos, notas musicais da regra animália enquanto indivíduos; & nós, os fracos, sim – transpiramos a tal vontadezinha de esplendor que nos alimenta enquanto ensaiamos um ai em prazer omisso, sempre omisso.
deixo você me morder por inteiro durante o meu breakfast da boa conduta. decoro meus lábios & cílios num tango argentino de mero desesperado – as tuas cartas de amor se extraviam & desaprendi as regras do ofício como quem se contenta com material pornográfico.
acelero os passos, encurto os corredores, lavo a louça quando é preciso & dou o meu melhor no momento “vamos guardar o arroz na geladeira”. é que ainda sinto uma tensão de fios elétricos quando ele me abandona & descobre novos ares, como se o meu grito, enfim, o organizasse perfeitamente na vida.
sucumbo pela falta de dinheiro & ascensão.
ele, o trágico amor descalço, é um filho insensato que não respeita conselhos de mãe, madrasta, meretriz. & ainda me perguntam sobre as foices do destino. as foices do destino descosturando flores enquanto caio de quatro na calçada.
katherine surgiu com olhos de lebre & desmarcou nosso encontro, pois quis favorecer outras conquistas. roí as unhas até o sabugo numa espécie de ânsia que empalidece as aventuras de uma puta fantasiada de lady. acabei forçando a barra & não permitindo que eles – oh doces inimigos – virassem de costas, amáveis diante do tal palco imaginário, pois sou um trabalhador braçal inserido na multidão de artistas & publicitários de merda.
hoffman telefonou & marcamos jantar. em duas horas estaríamos cara a cara & inundados num silêncio de cão. banquei o herói & fingi inúmeros descontroles emocionais que ele tanto gosta. ele não sabe que os solavancos da vida nos enchem de uma esperança mumificada. a minha liberdade é para ele mera obsessão pelo zodíaco & afins. não puxo assunto enquanto me entupo de um peixe à delícia meia boca. a noite se desfaz sem sucessos & me contento com mais uma cerveja geladíssima.
(Antônio LaCarne nasceu em 1983 e escreve poemas, fragmentos, contos e diários. É autor do livro de prosa poética “Elefante-Rei: Poemas B” (2009) e participou da coletânea de contos “A Polêmica Vida do Amor” (2011) pela Editora Oito e Meio. No momento finaliza seu segundo livro, “Salão Chinês”, e assina o blog O Impenetrável)
Sou um homem vário
embora nem me possa homem chamar
pelas veias tão finas sob a pele que correm
clara, de penugem alguma
e o ventre mole, de um buraco vasto
para a vida
Sou um homem dum bem
amiúde governado, sou um homem casto
de olhos grandes calados assentados
num ponto ameno, sem água, bicas
sou um homem adestrado, pasmado, sadio
de corpo, almas tardias, sede alguma desde a partida
da voz pela boca
que calou-se, cessou, tem preguiça
Sou um gênio bravo
embora assim não me possam dizer
pois mesmo uma parca rolinha, moribunda, arredia
pudesse-me estar ao lugar e chamar-se de homem
de gênio bravo, com as almas tardias
e os olhos salgados, atravessados
do labor prescrito pelo pão, pelo domingo
eterno que espera
o próximo dia
Sou um homem bruto, arrastado, guardado
como os sumos venenosos em perene trancados
sob o corpo da língua
sem hora para isto, sem o dia daquilo
ou ao menos a roupa secando a esperar-me
nos porvires,
nas avenidas, sou um homem cego, esfregando as antenas às paredes da ida
diária, cegamente sabida
Sou um homem salvo, longo, temperado
levado ao brando fogo da feitura abusiva e serena
pelos donos da vida, desta, daquela, dos nomes das ruas
adormecidas
sou um homem chamado de homem sem que assim possa um deus conceber
sem o sangue largo, desde os dias repetidos em que as palavras ainda infantes foram-me os
[homens levando
amiúde e sem anunciada justa piedosa partida
sou um homem acertado
com as contas das horas, invisíveis e brancas, são os olhos talvez sou um homem
construído e estourado na noite
reavido e adestrado no dia
sou um homem arcado, cercado, dormente
embora não mos possam levar
os bicos vermelhos dos seios, rijos, eriçados
ao roçar qualquer da primeira brisa
***
somente vogais são palavras
aproxima-se um lento rebanho
mudos dentes, palato, tratasse
dist’então minh’então desventura,
mas nem tão se carregam sozinhas
quanto em só já pertençam-se suas
levantam-se pororocas
e delas, abluídas,
emergem vogais despidas
a soar como quem se acorda
eis a só sinonímia possível
quando trota o rebanho em plurais
trotem cais, trotem sais, restam ai
nasçam ai, cresçam ai, morram ai
comam ai, corram ai, riam ai
os mares salgados ai,
veleiros atracam ai
não engole – dizem – tua saliva
de vogal não passa tua palavra
aproxima o rebanho baboso
e à boca encharcada se engorda
trotem sais, trotem cais restam ai
os mares salgados ai
veleiros atracam ai.
***
coceira no canto da manhã
também não é preciso saber se estamos felizes
temos um navio em cada mão
já é um costume o que era prodígio
em tê-los
o fato é que o casco se colide há tanto tempo contra a água (a mesma, dizemos) que um dia a manhã se torna filha de nossas mãos
ou o mar
ou o caminho impossível da linguagem despiu isto, e é tão, meu deus, como é claro, faz-nos pensar
como papai é um brincalhão, e engraçado, olha o que ele fez!
mas papai sempre esteve morto, e o papai a quem chamávamos Docéu nunca teve exatamente um cheiro característico ou masculino sobre o qual jamais precisássemos esforçar para crer
já mamãe cheira demasiadamente onde está.
Daí o caminho impossível do idioma (ainda a voz) despe isto, tão compreensível quanto fora claro e, meu deus, nossos navios se fundem com as mãos e a manhã torna-se filha dum estranho invisível
que despe-se para nós
Então nós cobrimos os nossos olhos com a pele para dormir
precisamente onde oscilam navios, grandes navios ou leves, como é claro
tanto quanto fora compreensível
e talvez apenas o pecado dalgumas palavras tenha nos acometido
subscrito no caminho impossível das carnes e dos ossos
precisamente onde os navios nunca tiveram pronde ir
e ficam salvos.
Para dormir.
(Carolina Suriani Caetano, nascida em oito de setembro de mil novecentos e oitenta e nove. Uberaba. Minas Gerais. Serrado)
Qual seria o melhor abrigo para um poeta? Refugiar-se no “Olimpo” da criação ou diluir-se por entre o ritual cotidiano dos mortais? Esse tipo de autor é mesmo um ser supremo, ao qual lhe é dada a exclusividade de ver através do escuro do mundo? Talvez passássemos o resto de nossos dias buscando respostas para tais indagações, mas o fato é que há quem se debruce por esses caminhos com um olhar de necessária inquietude. E melhor ainda, ouse atirar seus versos ao vento como forma de marcar sua trajetória de vida. Estes e outros atributos nos servem de guia para entender um pouco do que paira sobre a obra do poeta mineiro L. Rafael Nolli, criador que invariavelmente tem a existência como uma dissonante orquestração de porquês.
Natural de Araxá, Nolli deixa clara em seus versos a pulsão vigorosa e, nalguns momentos, ácida desse desvairado ato que é viver. Não bastasse a marca crítica e irreverente de seus escritos, o autor também sugere um caminho alternativo para o lirismo. Aqui, diga-se de passagem, os dotes da emoção são projetados para um ambiente no qual a contemplação pura e simples vai empunhar outras bandeiras. Nesse ínterim, a inconformidade conduz a voz do poeta e, assim, o texto assume o lugar duma fratura exposta daquilo que representa a miríade sociológica do mundo. O clamor presente em Nolli traz entalada na garganta a espinha dorsal da sociedade de consumo, arregimentando um modo permanentemente insone de conceber tudo aquilo em que nos transformamos. O homem máquina, subproduto duma metafórica e agastada miopia, é personagem predileto da jornada desse autor que, sem fazer concessões de qualquer tipo, não lamenta pelas vias tortuosas da humanidade.
O desejo de poder dialogar com o autor de Memórias à Beira de um Estopim (JAR Editora, 2005) e Elefante (Coletivo Anfisbena, 2012) é algo que há muito permeia o ambiente da Diversos Afins. Assim, ousamos sondar um pouco do que compõe o universo particular de L. Rafael Nolli. O resultado disso implicou na materialização de sentimentos, todos eles bastante coerentes com o que a obra desse incansável poeta contemporâneo sugere.
L. Rafael Nolli / Foto: Arquivo pessoal
DA – Sua manifestação poética possui um caráter aguçado diante da vida. Erguem-se imagens e signos diversos em torno duma atitude desperta e crítica. Aceita o atributo de que seus versos são um exercício de resistência?
L. RAFAEL NOLLI – É muito fácil deixar a poesia em segundo plano, esquecê-la em detrimento de todas as atividades banais que movem a nossa vida. É fácil esquecê-la pelo fato de que não há espaço para a poesia na correria do dia a dia, na velocidade em que tudo acontece; é fácil esquecê-la diante do pouco retorno que ela nos dá: são poucos os leitores, escassos os espaços para publicação e praticamente inexistentes os incentivos. Desse modo, escrever é uma forma de resistir, de impedir que eu me torne mais um pobre diabo correndo do trabalho para a casa, da casa para o trabalho, sem tempo para nada que extrapole o óbvio, o superficial.
Em muitos casos, nem é necessário que um poema seja escrito. O fato de ter um poema em processo, sendo elaborado, mesmo que ainda completamente nebuloso, já basta para me sentir vivo. Nesse sentido, acho que o termo “resistir” cai muito bem, pois a poesia é a minha boia de salvação.
O poema do Drummond diz tudo: “gastei uma hora pensando em um verso que a pena não quer escrever. […] Mas a poesia deste momento inunda a minha vida inteira”.
DA – Na construção de um discurso que engendra aspectos sociológicos, você consegue afugentar o viés didático e quiçá panfletário atinente a tais reflexões. Percebe isso como um desafio criativo?
L. RAFAEL NOLLI – Tudo relacionado à poesia é um desafio. Com certeza, o didatismo e a poesia panfletária são coisas que quero evitar ao máximo, da mesma forma que o obscurantismo, o hermetismo, o sentimentalismo e o discurso pomposo, ainda que exista certo romantismo em torno da ideia de que a poesia panfletária é menor por não sobreviver ao tempo. E que poema sobrevive ao tempo? Entre os modernistas, centenas de poetas publicavam, buscavam espaço, alguns muito bons. Desapareceram. Tenho um pouco de medo da ideia de que se deve evitar o poema panfletário porque o poeta deve criar algo sublime que irá mudar o rumo das coisas no futuro. Muitos poetas pensam assim, como seres excepcionais que estão criando coisas grandiosas e eternas. Bobagem. Como disse, a poesia é exigente demais. O desafio é enorme, sempre.
DA – Sua resposta anterior lembra muito a questão da chamada angústia da criação, na qual alguns poetas se debruçam num esforço descomunal em torno de um resultado impactante. Há mesmo algum sentido nessa necessidade de se erguer uma obra monumental e que traga em si um status de permanência?
L. RAFAEL NOLLI – Acho difícil uma pessoa criar um projeto de escrita “monumental”, assim como se cria o projeto de uma casa. Quem dera as coisas fossem assim: bastasse elaborar um plano de escrita genial, colocá-lo em prática e zás, eis mais um Fernando Pessoa! Como disse, a poesia é muito exigente, não existem fórmulas ou métodos para se conseguir um bom poema, não há atalhos. Se um poema permanecerá, pouco podemos fazer para que isso aconteça além de publicá-lo. O resto não cabe a ninguém, é um processo aleatório que independe do poeta. Aí está uma das belezas da poesia, não se pode transformá-la em um fenômeno como se faz com um romance, usando meia dúzia de fórmulas e uma campanha de marketing. O poema corre por fora, como um azarão. Se ele sobrevive, dificilmente isso ocorrerá porque o seu criador o quis assim. A angústia em criar algo duradouro me parece um delírio faraônico. Ela deve ser canalizada para se criar algo honesto, sincero. O tempo faz o resto.
DA – Um poeta, quando “desce da montanha” onde buscava algo supremo, não parece mais coerente com a condição essencialmente humana?
L. RAFAEL NOLLI – Com certeza, é mais coerente. Claro que subir a montanha pode ser importante, assim como foi para o Zaratustra do Nietzsche, que retornou pregando a vontade de viver e o amor à terra. Subir a montanha pode ser também uma defesa, já que o poeta muitas vezes não encontra leitores ou respaldo entre outros escritores. Essa postura de isolamento é muito comum, o poeta se fecha em seu blog ou em um perfil do facebook e faz disso a sua trincheira. Em outros casos, pequenos grupos de poetas constroem uma montanha e lá sobem, impedindo a todos de se aproximarem. O panorama me parece mais ou menos esse: todos sobre montanhas, alguns em grupos, outros sozinhos, cada um falando uma língua, a maioria confortavelmente escondida do mundo. O problema pode mesmo ser a falta de leitores ou de incentivos para aproximar a poesia das pessoas, ou pode ser um problema criado pelos poetas que não querem diálogo nenhum e se sentem confortáveis com a ideia de praticarem uma arte para poucos ou para ninguém. Nesse momento, sinceramente, acho que subir e se esconder não é o melhor caminho. Porém, não estou muito seguro se, ao descer, o poeta não vá conviver com outros senão aqueles que também desceram da montanha.
DA – De algum modo, carecemos de desmitificar a poesia rumo a um caminho efetivo de aproximação com os leitores? Se sim, como fazê-lo sem desnaturar o gênero?
L. RAFAEL NOLLI – Não tenho uma teoria digna para esse assunto, apenas especulações. Desmitificar a poesia parece um caminho, mas talvez não resolva o problema. Muitos leitores, de contos, romances, biografias, não possuem livros de poemas em casa. O que alegam? Que a poesia é chata? É difícil, complexa, incomunicável? Como mudar essa visão? Valorizando autores? Está nas aulas de literatura o problema? A impressão que temos é que a poesia está escondida, em sua torre de marfim, e ninguém se arrisca a salvá-la.
Uma ação possível que atraia leitores pode ser retirar a poesia das prateleiras das bibliotecas, ou de obscuros blogs e levá-la à rua. Recentemente, participei de um projeto que unia graffiti e poesia. Após as aulas teóricas, onde se aprendia a fazer moldes, usar as cores, etc, os alunos saíam para a aula prática, espalhando poemas pelos muros da cidade. O retorno foi ótimo. Muitas pessoas paravam – e creio que ainda param – diante dos graffitis e ficavam impressionadas com aquilo. As pessoas se surpreendiam com o que liam e, em geral, tinham dúvidas que foram jogadas por terra pela geração de 22: “mas isso é poesia? Não rima, não fala de amor, tem gírias, palavrões…” etc. Ainda persiste, infelizmente, o conceito de poesia rimada, com palavras difíceis, praticamente incomunicável, distante da vida real. Levar poemas para a rua me parece uma forma de desmitificá-la, aproximá-la das pessoas. Uma parte da poesia produzida hoje é produto laboratorial, feita em salas fechadas, sem uma única janela aberta que dê um vislumbre da rua. Ferreira Gullar diz que “Quando surge uma ideia, vou para a rua. Tenho prazer em conceber o poema no meio das pessoas que passam e nem suspeitam que ali, naquela hora, ele está nascendo”.
Levar o poema até as pessoas, na rua, em fusão, simbiose com outras formas de arte será o caminho? Isso não levaria a uma descaracterização do poema como o conhecemos? Como disse, são especulações apenas.
DA – “Elefante”, seu mais recente livro, vem ao mundo de modo não apenas independente, mas artesanal. Qual o maior significado dessa sua opção editorial?
L. RAFAEL NOLLI – Foi uma opção que fiz e que me agradou muito. Em 2005, publiquei Memórias à Beira de um Estopim. Procurei financiamento em meio a empresas, levantei o dinheiro, e uma gráfica se encarregou do resto. Fiquei com uma pilha enorme de livros em casa, ocupando espaço. Desde então, venho buscando uma alternativa para publicar novamente. É triste depender de empresas privadas para isso. As editoras não estão abertas a poesia, pois essa não vende; os projetos de incentivo, como a Lei Rouanet, por exemplo, são de uma burocracia sem tamanho. Foi nesse contexto desanimador que conheci a cartonaria. A ideia é bem simples e apaixonante, os livros são confeccionados um a um, de forma artesanal, com capa de papelão ou de leite longa vida, sendo que cada exemplar é personalizado, único. Existem muitas editoras fazendo isso, todas são pequenas, sem finalidades comerciais, publicando em pequeníssimas tiragens, muitas vezes com Financiamento Coletivo (Crowdfunding). Assim, resolvi criar uma editora nesses moldes, convidando amigos para ajudar na tarefa. Assim, veio ao mundo meu livro Elefante e uma coletânea, chamada Fórceps, com autores de Araxá. Lentamente, vamos confeccionando os livros, pintando as capas, montando os cadernos, colando, costurando, etc. É um projeto autossuficiente: os lucros, que são mínimos, são investidos em material para se fazer mais livros, criando um ciclo.
L. Rafael Nolli / Foto: Arquivo pessoal
DA – No Brasil, como seria possível vislumbrar uma harmonização entre mercado e poesia?
L. RAFAEL NOLLI – Acho cada vez mais que “poesia e mercado” são inconciliáveis. O mercado transforma tudo que toca, formata e modifica para facilitar a venda e ampliar os lucros. Não consigo vislumbrar, nesse sistema em que vivemos, baseado no consumo rápido e desenfreado, um lugar seguro para a poesia. O grande problema mesmo, me parece, é sistêmico: vivemos em um mundo onde tudo é produto de consumo rápido, tudo é descartável. A poesia necessita de reflexão, de tempo. Para piorar, a poesia exige releitura, digestão: quem leu um poema uma única vez não o leu! É um projeto em longo prazo, de compromisso. O mercado exige que a mercadoria se estrague, perca a validade, saia de moda: a obsolescência programada.
A única saída é a formação de leitores. Não há, salvo raras exceções, leitores de poesia que não sejam poetas. O pior em tudo, o mais lastimável? Poetas que sequer são leitores de poesia! Como eu disse, é uma questão problemática, muito complexa. Um exemplo prático: as tiragens de livros de poemas são modestas. Isso ocorre porque não se encontram “compradores” em grande escala. É uma regra simples, o mercado se equilibra em Oferta e Procura e, nesse momento, a palavra poesia mais assusta do que atrai. Vale a pena ressaltar que o problema dos leitores está muito longe da alçada dos poetas. Claro que eles – os poetas – contribuem para aprofundar o problema, mas em geral esses poetas são pequenas peças em um tabuleiro. A falta de incentivos, de editoras especializadas, de espaços para leitura, de debates, de possibilidades de divulgação, a feiras, etc, amplia o problema. Não acredito em poesia como um produto rentável, nem vejo como isso possa acontecer. O que me preocupa é não haver espaço nenhum.
DA – Entre sua porção de educador e a de escritor, quais pontos de convergência considera especiais?
L. RAFAEL NOLLI – São muitos os pontos de convergência. Recentemente, li o livro “Conversas com Elizabeth Bishop”, uma coletânea com as principais entrevistas concedidas pela escritora norte-americana. Nessa obra, ela se orgulha do fato de ser a única poeta estadunidense que vive sem dar aulas. Bishop era uma exceção e nos mostra que a relação escritor e sala de aula não é uma coisa recente. Conheço muitos poetas que ganham a vida como professores. Já que ninguém consegue viver de poesia, é natural que poetas ganhem a vida em sala de aula, como jornalistas, ou algo similar. A sala de aula é um ambiente muito enriquecedor, que possibilita uma troca enorme, não só de informações, mas de comportamento, formas de ver o mundo e interpretá-lo, etc. A sala de aula, como a escrita, exige sensibilidade, percepção apurada, paciência.
DA – Há que se combater certos determinismos em matéria literária. Talvez o pior deles seja acreditar que a maioria das pessoas em nosso país é permanentemente desinteressada pela leitura. Em que medida autores também são responsáveis pela manutenção desse discurso?
L. RAFAEL NOLLI – Infelizmente, somos um país de não-leitores. Os números não mentem: temos 8% de analfabetos (algo em torno de 10 milhões de pessoas), apenas metade da população pode ser considerada leitora. A média de anos de estudo é ridícula: 7,4 anos! Ou seja, a maioria dos brasileiros não possui o Ensino Fundamental completo. Por fim, outro número dessa tragédia: nossa média de livros lidos por ano é de apenas 4! Isso sem entrar no mérito referente à qualidade literária dessas obras! Digo isso sem cair no erro do determinismo, que é uma enorme bobagem.
Acho apenas que o desinteresse, que é real, não é permanente, imutável. Trata-se de um momento, já extenso e duradouro, que é fruto de uma série de problemas que têm raízes profundas. Porém, nada impede que essa realidade mude. Falta incentivo, interesse político, boa vontade da mídia e não sei mais o quê. Uma dezena de motivos. Tenho certeza de que se as pessoas tiverem acesso ao livro, o problema será resolvido, pois não conheço nada melhor do que ler. Temo que muitos grandes livros estejam perdidos, esquecidos, aguardando uma geração de leitores.
Sempre ouvi dizer que a leitura nunca vai ser incentivada pois “um povo que lê não pode ser enganado”, “um povo que lê sabe cobrar os seus direitos”, “sabe votar”. Sei que isso é uma ideia romântica, idealizada, bobinha. Mas não creio que seja uma ideia totalmente errônea. Ler pode mesmo fazer a diferença, mudar o rumos das coisas, ainda que não seja uma ação voltada para isso. Conhecimento é poder? Com certeza. Sabemos que temos muitos nos governando que nunca mais seriam eleitos se o povo passasse a buscar mais informações. Parece teoria da conspiração? Pode ser. Mas não vejo outro motivo plausível para tamanho desprezo, por parte do poder político e da mídia, que explique essa situação.
Com todo o exposto, o papel do escritor, nesse caso, me parece muito pequeno, pois ele luta contra uma máquina poderosa, muito maior do que pode imaginar. O papel dos escritores deveria ser apenas o de escrever bons livros. No entanto, isso não basta, é preciso lutar contra essa máquina. Como lutar? Recorro mais uma vez ao Drummond: Posso, sem armas, revoltar-me? Espero que sim.
DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?
L. RAFAEL NOLLI – Essa é uma questão interessante. Em duas ocasiões, estudei, no sentido mais didático da palavra, a pós-modernidade: quando me formei em Letras e, posteriormente, em minha graduação em Geografia. É um assunto interessante, muito enriquecedor, porém, algo complexo, difícil. Não endosso, por exemplo, esse conceito de que as ideologias morreram, que não há espaço para utopias, que o século XX enterrou todas utopias.
Reconheço que o século XX mostrou o fracasso de alguns modelos de socialismo. No entanto, o socialismo, enquanto ideologia, continua vivo, atual, e urgente. Novas tentativas podem ser feitas, já que o arcabouço ideológico é enorme, riquíssimo. O capitalismo nunca deu certo e estamos aí assistindo a tentativas e mais tentativas de mantê-lo de pé. Por que não com o socialismo? A ideia de que não há mais por que se lutar me assusta muito. Quando alguém cita Fukuyama, me dá um arrepio horroroso na espinha. É uma grande idiotice acreditar que a história chegou ao fim. Esse finitismo é um veneno para a sociedade – com reflexos sombrios sobre a arte.
DA – Abraçando a noção de se travar embates pela palavra, em que nível de percepção está a poesia de L. Rafael Nolli?
L. RAFAEL NOLLI – Essa é, com certeza, a pergunta mais difícil de todas. Eu escrevo, mas isso é um processo que não domino ou entendo por completo. De repente, tenho uma ideia na cabeça e sei que essa ideia vai virar um poema (ideia é uma péssima palavra para descrever esse processo, mas não consigo pensar em outra melhor). Ou seja, é um trabalho inconsciente que não está sob as minhas ordens. Lógico que depois de escritos posso juntar esses poemas e tentar entender o que eles abarcam, notar familiaridades que revelam um padrão, que criam um eixo. Agora, em que nível de percepção eles estão? Realmente, não sei. Temo que seja impossível sabê-lo!
*Alguns poemas de L. Rafael Nolli podem ser lidos aqui
quem não se sabe dor
é matéria rara
se achegam os espinhos
das rosas do caminho
acodem os açoites
do limo de tanta noite
quem não se sabe dor
é matéria rara
assim se percebem olhos
no avesso das lâminas
como mancha, nódoa
quem vive cego em anelos
***
Suíte burlesca para um diálogo com a ausência
foste tu nesta distância de muitos quilômetros
a ilha, a quimera, o oásis, pasárgada dos dias
a cotovia desavisada que insinuou a primavera
foste tu que me impuseste silêncio e ausência
nesta seara de corpo que se move em frêmitos
no olho arredio que já se despediu das estrelas
foste tu, este eterno assovio em minhas retinas
a mão que agitou o delicado trovão da espera
***
Nenhum silêncio vaza do relâmpago
Tudo se perde neste ermo
Neste tecido de linguagem
Nada se fixa nas retinas
Nem o ar soprado do lábio
Espaço sem memória
Flecha solta em extravio
Até teu nome se apagou
Na tez da lâmina, por um fio
Tudo se perde neste ermo
O caminho da nuvem em líquen
A consagração do fogo e do cravo
Este turbilhão que emana do raio
p.s. “Sei que estou vivo
entre dois parênteses”
***
Sobre a tessitura do sonho e outros desalinhos
havia que tecer a palavra
ainda que fosse a última
e nela contivesse o sumo
a essência que foi estrada
havia que tecer a palavra
mesmo que fosse desatino
e nela contivesse o âmago
frio caos: único e palpável
***
Ária para voo de asa breve
mergulha o silêncio
em meus olhos
e liberta a alma
do pássaro que
se interroga
em minha mão
***
Berceuse de náufrago para refúgio de temporal
dos olhos quero a dobradura do pranto
o mar desavisado a banhar-me o canto
do peito perquiro naus e refúgio de vela
o feitiço de cordas rugindo em rebuliço
do coração nada posso intuir em prece
há o desvão de sílabas em passo célere
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Improviso para lâminas, pedras e oboés
afio nas pedras minhas retinas
fio por fio a coser melancolias
e o fino tecido a que me alinho
flui na imensidão devagarinho
colho nos olhos rios de algaravia
do aturdido caminho sem utopia
(José de Assis Freitas Filho é poeta, escritor, sociólogo e mestre em Letras (UFBA), nasceu e mora na cidade de Feira de Santana-Ba). Em 1998, publicou o livro de contos O Mapa da Cidade, pela Coleção Flor de Mandacaru do MAC de Feira de Santana. Em 2009, lançou o livro de contos O Ulisses no supermercado como prêmio do concurso CDL de Literatura de Feira de Santana. Em 2012, publicou O ano que Fidel foi excomungado pela Editora Penalux. Lançou, em janeiro de 2013, o livro Poemas de urgência para súbitos desalinhos pela Editora Multifoco. Edita os blogs: Mil e um poemas e Árvore da poesia)