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84ª Leva - 10/2013 Destaques Olhares

Olhares

O gosto permanente da redescoberta

Por Fabrício Brandão


Foto: Jussara Almstadter

 

Uma das grandes perspectivas trazidas pela fotografia é o fato de podermos perceber as coisas como se pela primeira vez. Sentimento tal que, diante das horas, esquecer-nos-íamos do turbilhão que nos assola e não mais desprezaríamos aquilo que passa sempre ao largo de nossos olhos. Então, surge o questionamento: como ressignificar uma rotina que se acredita eivada de desbotados tons?

Quiçá a fotógrafa Jussara Almstadter possa nos auxiliar a responder um pouco a indagação deixada acima. Dona de um trabalho que agrega olhares incisivos sobre as coisas, Jussara está mais para o enfrentamento do que para a fuga quando o tema é redimensionar cenários de vida. E como quem busca um sentido original para os lampejos que nos acometem os dias, a artista vai tornando suas imagens verdadeiros instrumentos de contemplação dos mistérios humanos.

Aos poucos, fragmentos do cotidiano vêm marcados por uma forte carga subjetiva nos registros imagéticos da artista. Em vários momentos, paira a sensação de que o universo humano ali caracterizado reflete um desejo de retorno ao ponto sublime das coisas, como se o contrário do tempo pudesse representar uma via serena de renovação.

Foto: Jussara Almstadter

Em Jussara, não são poucas as oportunidades que temos de compartilhar desse mergulho por caminhos que nos chacoalham as certezas. Trabalhos como Cemitério da Saudade (uma evocação à permanência da existência), Gestual Caleidoscópico (cuja virtude maior é vislumbrar uma ordenação poética para nossas expressões) e Umbanda (série que exalta a harmonização entre corpo e alma proporcionada pela fé) possuem uma importância fundamental para a trajetória da fotógrafa.

Com incursões também pelo desenho e pela escultura, Jussara formou-se em Fotografia pela Escola Panamericana de Artes e Design. Sua relação com a imagem vem desde a mais tenra idade, tendo no ambiente familiar uma importante motivação.

Um dos trunfos de se captar da luz seus flagrantes é a possibilidade de conferir uma outra amplitude aos objetos retratados. Nesse processo, tanto pessoas quanto lugares recebem um tratamento que amplia sua individualidade, como se um perene movimento de retorno fosse sempre impulsionado rumo ao universo externo que nos aguarda. Assim, Jussara Almstadter é porta-voz dum sentido circular das coisas, aprimorando sensações e retroalimentando a roda viva do tempo. A partir dela, não há um fim para a viagem, apenas o ato de cruzar o caminho de nossas costumeiras complexidades e retirar disso um valioso proveito.

Foto: Jussara Almstadter

* As fotografias de Jussara Almstadter são parte integrante da galeria e dos textos da 84ª Leva.

 

 

 

 

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84ª Leva - 10/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética III

Ehre

 

Foto: Jussara Almstadter

 

verbal life

 

no avesso do dia,
lídice aponta o indicador
e desenha sobre a pele
como tatuagem,
um totem para seu libelo:
ama e ao mesmo tempo

disfarça
esquece
esconde-se
divaga
declina
e cala-se

seu archanjo guarda nos olhos
seis âncoras
e lança uma garrafa
com sete linhas ao centro:
disfarce é a neblina do sujeito
……que esquece
……esconde
……divaga
……declina
.e permanece calado

em seu presente imperfeito
amor é  predicado

 

 

***

 

 

flavors

 

I

entre as paredes de vidro da metrópole, ele tem sempre à mão:
um aparelho de telefone móvel regado a 3G,
um tablet empanado com tela fulll HD de 10 polegadas,
um notebook com o recheio de sete contas em redes sociais
e diria um olhar venusiano, desde a janela de uma estrela,
que ele é um sucesso de interação,
mas o ouvido de uma lagarta estacionado em seu quarto no domingo à tarde
concluiria que ele é sinônimo de solidão avançada

 

II

no subúrbio do mundo, no mural de uma caverna
escreveram um beijo com a ponta afiada de uma pedra

 

 

***

 

 

A A.

 

Os sentidos submersos no copo

O corpo
beijando a calçada como se fosse carne,
mas era líquido.

As talhas abarrotadas…

Agora o milagre
é transformar o vinho.

 

 

***

 

 

linha de voo

 

há uma luz que não é janeiro ou manhã
mas chega entre o fim de tarde e seu ocaso

há uma fé que desafia
………..o chão
………..o muro alto
………..o cansaço
………..gente tem por vocação horizonte

amor anda para trás só antes            do salto

 

 

***

 

 

gardênia

 

A flor violentou o muro
da divisa de pedras que a cercava
Já não temia a estrada vertical
Seus pés
brotando
e dizendo:
Crescer não é ter um número a mais
mas um temor a menos

 

 

(Ehre. Nasceu aos onze meses. Aos nove, ainda não sabia que viver era um mergulho para cima. No tempo que tardou para nascer, colecionou espantos. Muitos deles revelados nas janelas dos poemas. A cada dia aprende que escrever é um mergulho para o fundo)

 

 

 

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83ª Leva - 09/2013 Destaques Jogo de Cena

Jogo de Cena

A ETERNA ARTE DO EFÊMERO – 2ª PARTE

Por Fernando Marques

  

 

Teatro ocidental, de Roma ao século XX

 

Os latinos, de índole mais pragmática e menos reflexiva que a dos gregos, prefeririam gladiadores, feras e outras atrações brutais, pelo menos no que diz respeito às grandes plateias. O circo ululante foi cultivado em detrimento da arte dos poetas trágicos – os austeros textos de Sêneca seriam valorizados apenas muitos séculos mais tarde, às portas da Renascença. Não foi esse o caso, porém, das comédias brilhantes de Plauto (254-184 a.C.), muito amigo das confusões farsescas, autor de textos posteriormente imitados – O avarento, que Molière escreveu em 1668, e O santo e a porca, de Ariano Suassuna, de 1957, são exemplos de peças inspiradas em Plauto. Seu rival Terêncio acentuou os aspectos retóricos do diálogo, em prosa elegante que mais tarde, já no século XV, serviria de modelo para a prática erudita do latim.

Os cristãos, que de início foram almoço de animais na arena romana, alcançaram uma vitória política com a chegada ao poder de Constantino em 330. Fechado o mundo grego, que os romanos reviveram apenas superficialmente, as festas cristãs na Idade Média constituirão o alimento dos espetáculos: Natal e Páscoa fornecem temas ao teatro medieval, com a representação nas igrejas tendo o altar como cenário. (Existirá, em paralelo, um teatro popular mais espontâneo e menos submisso aos cânones religiosos.) As formas teatrais na Idade Média estão distantes da concentração clássica e desconhecem a lei famosa das três unidades – ação, lugar e tempo. Pelo contrário, são formas múltiplas e dispersas: não dramáticas, mas épicas.

Pretendia-se exibir a história bíblica, e o enredo de um mesmo espetáculo poderia saltar séculos ou milênios, de Adão a Cristo, por exemplo. O espaço físico utilizado não se restringiu ao interior dos templos; Berthold informa que “o mais antigo dos dramas religiosos existentes em língua francesa, o Mystère d’Adam, da metade do século XII, já se realizava fora do portal da Catedral. Em três grandes ciclos temáticos, ele trata do pecado e da redenção prometida à humanidade: a Queda, o assassinato de Abel por Caim e os Profetas”. A autora acrescenta: “As rubricas sugerem o uso de uma armação de madeira adequadamente decorada, que se apoiava na fachada da igreja. O pórtico era a Porta do Céu. De um lado ficava o Paraíso, sobre um tablado elevado; do outro, mais abaixo, a Boca do Inferno”. O legado medieval abrange ainda a comédia, de que o modelo é a farsa Mestre Pierre Pathelin, que satiriza os costumes ao apresentar um advogado tão respeitado quanto inescrupuloso. A primeira representação do texto francês, de autor desconhecido, data de 1465.

 

A farsa “Mestre Pierre Pathelin” / Direção: João Guedes / Foto: Divulgação

 

Com a queda de Bizâncio, facção oriental do Império Romano, em 1453, as elites ocidentais iriam redescobrir os gregos, Aristóteles e a Poética, cujo texto original foi republicado em 1508. Os debates em torno das noções aristotélicas, entre elas os conceitos de unidade e de catarse, fizeram correr muita tinta, em especial na Itália e na França. Defendia-se a volta aos velhos gregos, mas nem sempre se chegou a um acordo sobre o que teria sido, de fato, o teatro clássico. A princípio tarefa de estudiosos, o Renascimento no palco se inicia em 1486, com a encenação em cidades italianas da tragédia Hipólito, de Sêneca, e da comédia Os gêmeos, de Plauto. “O que nunca havia ocorrido em vida a Sêneca veio a se concretizar 1500 anos depois, em alto nível acadêmico”, observa Berthold.

A descoberta da perspectiva e o respeito ao legado grego logo iriam influir sobre os cenários e sobre a arquitetura teatral. Leonardo da Vinci foi pioneiro na arte de desenhar para a cena, tendo criado palco giratório já em 1490. O Teatro Olímpico de Vicenza, inaugurado naquela cidade em 1584, com seu palco semicircular e seus cenários em perspectiva (que somavam a perspectiva real à ilusão da pintura), é um dos modelos arquitetônicos da época. O maquinário sofistica-se, e Berthold ressalva: “No decorrer de um século, o teatro renascentista viveu uma repetição em câmera rápida do teatro romano. Quanto mais suntuoso o palco se tornava e quanto mais atenção era dispensada a seus aspectos visuais, mais desvalorizado ficava o conteúdo literário”. Os atores deviam agora “subordinar seu movimento e composição ao cálculo ótico” da cena.

Na Inglaterra, as comédias e tragédias de Shakespeare, diversamente, dispensaram em parte a tecnologia visual e concitaram a plateia a imaginar salas e paisagens: o teatro se apresentava como uma espécie de sonho desperto. O dramaturgo dirá, em Henrique V: “Imaginai que no cinturão destas muralhas estejam encerradas duas poderosas monarquias (…). Porque é vossa imaginação que deve vestir os reis, transportá-los de um lugar para outro, transpor os tempos”. Inúteis as citadas unidades de ação, tempo e lugar, quando se consegue “acumular numa hora de ampulheta os acontecimentos de muitos anos”. Texto e ator conduzem a fantasia dos espectadores, o que se verifica também no teatro de Calderón de la Barca, em peças como A vida é sonho. No texto de Calderón, a musicalidade do verso parece predispor o público a aceitar, como se fossem naturais, as extravagâncias do enredo tragicômico: um príncipe despótico e cruel imagina ser um prisioneiro miserável, sofrendo experiências que afinal o transformam em soberano mais justo e equilibrado.

 

Cena da montagem “A vida é sonho” / Direção: Julio Maciel / Foto: Guto Muniz

 

O também espanhol Lope de Vega, aborrecido com as cobranças acadêmicas, costumava dizer que, ao redigir uma peça, trancava as regras na gaveta. Já na França do século XVII, sob o patrocínio da corte, dramaturgos e críticos procederam de forma bem distinta, muito mais apegada às normas que a Academia Francesa, comandada por Richelieu, estabelecia. Corneille desafiou hábitos estéticos e morais com O Cid, em 1636, peça de enorme sucesso que, talvez por isso mesmo, foi desancada pelos conservadores. O autor teria insultado a moralidade e a verossimilhança, desencadeando polêmica. A exigência de verossimilhança chegaria ao extremo, no século XVIII, com Gottsched, representante alemão da serenidade clássica francesa, capaz de exageros como o de afirmar que, se a ação saltasse no tempo ou no espaço (obrigando o espetáculo à mudança de cenário), o espectador deixaria de acreditar no que vê, desligando-se do que se mostra no palco. Poderoso gerente da cena alemã, Gottsched toma a ideia de ilusão cênica demasiadamente ao pé da letra; o incisivo Lessing, renovador que se contrapôs à obediência obtusa às normas, chamou Gottsched de “besta quadrada”.

Lessing, ligado ao iluminista francês Diderot, de quem traduziu as peças, terá de lutar contra o conservador Gottsched. A Alemanha é, naquele período, colônia cultural dos franceses, para dizê-lo com alguma ênfase. A renovação do teatro implicava levar à cena não mais as aristocráticas personagens de Racine, mas figuras representativas do mundo burguês emergente (as criaturas racinianas seriam definidas por Schiller como “espectadores glaciais de sua própria fúria, professores de sua paixão”). Àquela altura, a popular commedia dell’arte, originária da Itália, já estabelecera seus tipos havia 200 anos, espalhando-os pela Europa.

Na década de 1770, surge na Alemanha a geração Sturm und Drang, Tempestade e Ímpeto, de que fazem parte o jovem Schiller de Os salteadores, Goethe e o inquieto Lenz. A lógica iluminista já não basta para esses escritores, chamados pré-românticos, que deixam obra incompleta (salvo Schiller e Goethe, convertidos depois ao credo neoclássico), mas plena de sugestões. Essas sugestões viriam a influir, décadas depois, sobre Georg Büchner, que morreu aos 23 anos legando três peças, entre elas as seminais A morte de Danton e Woyzeck. A mistura de comédia e drama, as situações apresentadas aos saltos e não de modo linear reincidem no Woyzeck, história do soldado raso maltratado pelo Estado, usado pela ciência e traído pela namorada, perdedor da cabeça aos sapatos – tipo de herói pouco frequente na dramaturgia do tempo. Os expressionistas viriam a perceber, em Büchner, um precursor.

 

Cena de “A Morte de Danton” / Direção: Jorge Silva Melo / Foto: Jorge Gonçalves

 

Quando Büchner morre, desconhecido, em 1837, a explosão romântica em torno de Victor Hugo já acontecera havia uma década. As formas operísticas, que vinham sendo elaboradas desde 1600, a princípio na tentativa de retorno ao teatro total dos gregos – poético, plástico, musical –, encontram, na segunda metade do século XIX, momentos agudos em Bizet, Verdi e Wagner. Outro modelo de teatro musical seria praticado pelo inglês John Gay já em 1728, na Ópera do mendigo, mesmo ano em que o gênero da revista, com a crítica dos fatos imediatos, nasce nas feiras parisienses. Síntese das fórmulas erudita e popular de espetáculo musical pode ser encontrada em Offenbach ou, mais recentemente, em Brecht e na Broadway.

No teatro dramático, a passagem do romantismo ao realismo se dá por meio de peça que tempera franqueza realista, passionalidade romântica e moralismo burguês, exibindo a história da prostituta Marguerite Gautier. Hoje anacrônica, A dama das camélias, de Alexandre Dumas Filho, soube discutir a questão do amor que se contrapõe às conveniências sociais, por volta de 1850.

A dramaturgia de Ibsen, mais franca e madura que a de Dumas Filho, escandaliza as plateias com Casa de bonecas, 30 anos depois. O teatro acompanha as mudanças políticas, que incluem reivindicações feministas. Textos de Ibsen integram o repertório do Teatro Livre, de André Antoine, que busca levar ao palco o naturalismo preconizado por Émile Zola desde 1867 (ano em que Zola publica o romance Thérèse Raquin, depois transformado em peça teatral). Tendências estéticas contraditórias – basicamente, naturalismo e simbolismo – entram em debate. Os artistas reunidos no Teatro de Arte de Moscou, criado por Stanislavski em 1898, reelaboram noções e práticas realistas, influenciados pela companhia alemã dos Meininger. “Stanislavski, em Moscou, e Antoine, em Paris, admitiram sua dívida para com eles, em matérias tais como: a sugestão cênica de uma quarta parede, a atuação em conjunto e a ideia de que a direção cênica cria um estilo”, diz Berthold. Nascia o encenador, no sentido moderno.

 

Montagem de “Casa de Bonecas” / Direção: Stepháne Braunschweig / Foto: Divulgação

 

O livro mostra, com apoio nas muitas ilustrações, a progressiva tendência à geometria na primeira metade do século XX, com a economia de linhas alcançada por cenógrafos como o suíço Appia e o inglês Craig. Exemplo da soma de talentos na fatura de um teatro novo encontra-se no balé O chapéu de três pontas, de 1919, com música de Manuel de Falla e cenário cubista de Picasso: a paisagem desenhada tem traços irregulares e angulosos, a perspectiva acha-se subvertida.

Nas primeiras décadas do século passado, a quarta parede é derrubada com propósitos políticos pela vanguarda panfletária de Piscator, que irá se desdobrar nas propostas de Brecht – autor filiado, na origem, ao expressionismo niilista e soturno. Em 1947, o comunista Bertolt Brecht depunha diante da Comissão sobre Atividades Antiamericanas da Câmara, o comitê que perseguiu as oposições nos EUA. No ano seguinte, Antonin Artaud, teórico do retorno à cena ritual, morria na França depois de repetidas e dolorosas internações.

Correntes contraditórias (mas nem sempre inconciliáveis) têm movimentado o teatro no Ocidente. Uma delas pretende devolver nobreza dionisíaca à vulgaridade contemporânea e se encarna emblematicamente em Artaud; outra quer fazer do palco instrumento de mudança social, caso de Brecht. Uma terceira tendência se acha nos dramaturgos do Absurdo, Beckett e Ionesco à frente, que sintetizam protesto político e aventura estética: a linguagem se fragmenta, tornando-se escassa e metafórica, as situações são tacitamente trágicas, incontornáveis, as personagens não têm saída; o mundo parecia insolúvel aos dramaturgos do pós-guerra. Um quarto caminho, ainda, se pratica no teatro comercial, incluído o espetáculo cantado à maneira da Broadway, em geral desligado de transformações interiores ou coletivas. Teatro que exibe, no entanto, achados incisivos, como em West Side story, de 1957, com música de Leonard Bernstein. A herança europeia se retempera na mistura americana.

Margot Berthold privilegiou critérios estéticos na composição do livro; mas não há escolhas inocentes. Suas opções são eruditas, canônicas: trata-se da história do teatro segundo o ponto de vista de uma grande estudiosa de perfil acadêmico, felizmente capaz de escrever com elegância e sem pedantismo (mérito que em parte caberá aos tradutores). Seu pendor por critérios tradicionais a levou a desconsiderar muito do que não estivesse consignado nos museus e nas bibliotecas, sobretudo europeias. Assim, é algo omissa no que diz respeito a teatro popular, embora dedique bom espaço a commedia dell’arte e congêneres, e absolutamente muda em relação a América Latina e África. Tais faltas poderiam ser minoradas com a publicação de texto suplementar numa possível segunda edição brasileira [a História já teve novas edições]. Ressalvadas as lacunas, o belo e caudaloso livro importa pelo que é. Terá vida longa em qualquer idioma.

 

 (Fernando Marques é professor do Departamento de Artes Cênicas da UnB, jornalista, escritor e compositor. Publicou “Retratos de mulher” (poesia; Varanda, 2001), “Contos canhotos” (LGE, 2010), “A comicidade da desilusão: o humor nas tragédias cariocas de Nelson Rodrigues” (ensaio; Editora UnB/Ler Editora, 2012) e as peças “Zé” (adaptação do Woyzeck de Büchner) e “Últimos” – comédia musical (livro-CD), ambas pela Perspectiva. A cantora Wilzy Carioca lança neste ano o CD “De cor”, com 14 canções do autor. A peça “Zé” será republicada em novembro pela É Realizações)

 

 

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83ª Leva - 09/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Diego Callazans

 

 

Ilustração: Denise Scaramai

Orfeu, não chore mais;
não vê que é inútil?
às moiras nada compadece.

os cantos ao silêncio marcham.
as palavras morrem.
os deuses esquecem.

nas flores o sublime é breve.
a criança encurva.
desafina a lira.
o amor é pó.

a voz mais bela dura só um sopro.

às moiras nada compadece,
Orfeu; não chore.

ainda sopram versos.
a arte é viva para além dos ossos.
os deuses recordam.

há palavras que claudicam,
mas distante é a noite
e o sol, se lhe calhar, não vem depois.

cantemos.
às moiras nada compadece.
não há por que ter pressa de silêncio.

 

 

 

***

 

 

 

jamais te iludas:
a paz é breve.

tolera o verme
somente o quanto
adia a luta.

todo tratado
é uma cilada.

ausculta à lupa
atrás dos sinos.
não dês desculpa
para explodir-nos.

se for preciso,
a mão lhe estende.
force um sorriso.

com vela rente,
indaga o vento.

mantém a adaga,
oculta o intento.
nossa voz curta
assim prescreve.

jamais te iludas:
a paz é breve.

 

 

 

***

 

 

 

não sou senhor sequer
do corpo que me veste

nem minha sombra
me reconhece

o nome a que me ataram
– largo – pesa

meu passo – leve
– nem rastro deixa

meus versos queime
– não há quem tome

ideias… dei-as
– me atrasavam

possuo nem mesmo a ave
que em meu inverno lateja

 

 

 

***

 

 

 

de tênis, botões e jeans devo estar
doravante por questão trabalhista.
as sandálias ficam para as andanças
entre a padaria, a feira e a banca.
todo o resto é área do professor,
montado como uma drag sem glamour.
o professor que faço me comeu
todo o sentido. sou hoje seu hotel.
leitura era prazer, é hora-extra.
a poesia agora é o que me resta.

 

 

(Diego Callazans vive em Aracaju desde a infância. Graduado em Jornalismo, está em vias de concluir doutorado em Sociologia pela Universidade Federal de Sergipe. Em sua trajetória, atuou em teatro, dirigiu vídeos e desenhou quadrinhos. “A poesia agora é o que me resta”, lançado recentemente pela Editora Patuá, é seu livro de estreia)

 

 

 

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83ª Leva - 09/2013 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

Um importante eixo filosófico movimenta o ambiente da criação. Talvez por isso um autor empreenda percursos mais vigorosos ao cerne daquilo que o impele a edificar palavras. Não raro, vê-se imbuído em complexidades que remontam muito mais a indagações que a respostas de toda ordem. Nesse ínterim, a face misteriosa da existência é senhora absoluta das horas, configurando um cenário através do qual pouco importa o saber dos significados. Ganha corpo o sabor dos desavisos e de como são indomáveis o tempo e seus rompantes.

O escritor com quem conversamos agora traduz em sua obra um pouco desse fluxo incessante em torno do mistério da vida. Trata-se de Edson Bueno de Camargo, poeta cujos versos instauram um especial sentido de ligação com a gênese do mundo. E está a se falar aqui de como a palavra funda territórios e ergue estruturas, todas elas a compor um vasto painel de características que nos ajudam a perceber quão imersos estamos no oceano do insondável.  Não bastasse essa hercúlea trajetória sugerida pelo trato com as letras, em Edson temos também a referência ao papel do tempo, seja como componente de transcurso dos homens e suas ações, seja na constatação de que os signos da permanência nos revelam mais atributos do que supomos.

Nascido em Santo André, no interior de São Paulo, o poeta traz embutidas em suas travessias diversas premiações em concursos literários e participações em antologias e revistas impressas e virtuais. Dentre suas publicações em livro, estão: “Cortinas” (edição artesanal), com poesias suas e de Cecília A. Bedeschi – Mauá – 1981; “Poemas do Século Passado – 1982-2000” (edição de autor – Mauá – 2002); ”O Mapa do Abismo e Outros Poemas” (Edições Tigre Azul/ FAC Mauá –2006) e “cabalísticos” (Coleção Orpheu – Editora Multifoco – Rio de Janeiro – 2010).  Seu mais recente rebento poético, “A fome insaciável dos olhos” (Editora Patuá – 2013), reforça a sensação de que estamos diante de um autor comprometido com as incursões possíveis da palavra.  Nessa entrevista, Edson Bueno de Camargo compartilha conosco traços importantes de sua obra, bem como impressões a respeito desse labiríntico espaço chamado literatura.

 

Edson Bueno de Camargo / Foto: Arquivo pessoal

DA – A começar pelo título, seu mais recente livro traz em si uma profunda carga imagética. As paisagens poéticas ali presentes mesclam ausências, silêncios, chamados e revelaçõestudo a compor uma arquitetura delicada para a existência. “A Fome insaciável dos olhos” pode ser tido como um exercício de travessias diante da fragilidade da vida?

EDSON BUENO DE CAMARGO – Lembro de, em 2006, assistir a uma palestra da Adélia Prado em Paraty, onde ela falou sobre a fragilidade de nossa existência, de como somos seres precários, e de como aquilo me marcou profundamente. Creio que o poeta carrega esta viagem das possibilidades, fazemos o tempo todo esta travessia, ao tentar transformar o tempo em palavras, algo como um xamã imperfeito, tentando enganar o tempo e a morte.

Um bom amigo e grande poeta, José Carlos Mendes Brandão, fala que escreve porque sabe que vai morrer. Creio que seja isso, escrevemos nossos breves epitáfios, o poema é uma conversa com a morte e ao mesmo tempo uma celebração com a vida. A palavra é o fiel da balança.

 

DA – Chama atenção o caráter orgânico do livro, estabelecendo, nalguns momentos, um elo entre os homens e seus sentimentos quiçá mais primitivos. Em que medida seus versos questionam a gênese das coisas e do mundo?

EDSON BUENO DE CAMARGO – Creio que não seja questionar, mas sim ser a própria gênese. Em muitas religiões tidas como primitivas, é a palavra ou o som da palavra o grande gerador das coisas.

Na própria Bíblia é a palavra que principia tudo. A grande relação mágica da poesia é o conceito de que a palavra cria a coisa ao nomeá-la. A poesia é minha relação com o sagrado.

DA – Diria que essa sua ligação com o sagrado é também uma resposta às tradicionais amarras ideológicas do pensamento?

EDSON BUENO DE CAMARGO – Sagrado não significa necessariamente religião. É um rito de ligação.

Sempre estamos em busca de respostas, nós humanos. Sinceramente, não saberia dizer se a ligação da poesia com o sagrado seria alguma resposta a uma amarra ideológica. Creio que a contemporaneidade não exige mais respostas absolutas e que, principalmente,  não existe mais uma resposta única. Sinto por aqueles que acreditam em respostas prontas. Este mundo fácil e explicável não existe (e nunca existiu).

Vivemos no trânsito entre os mitos, cada um criando seu próprio mitologema diário. Além do que, não seriam também as ideologias, uma forma de religião tentando, ao seu modo, dar uma explicação para o mundo?

Sou daqueles que chegaram à conclusão de que não existe de fato um sentido nas coisas. A poesia não responde, não explica, não salva, e ao mesmo tempo nos dá o indicativo do que de fato é importante.

Ao mesmo tempo, acredito que o exercício da arte, e a poesia é uma delas, senão o mais importante, é o que de fato nos revela. Responde-nos? Explica-nos? Não creio que isso seja possível.

Somos essencialmente humanos, o exercício do poético talvez seja a forma mais adequada de nos afirmar isso. Caso contrário, o que nos separa e separaria das máquinas?

DA – Seus versos assinalam uma metamorfose do mundo sem se preocupar com ares de novidade. Diga-se de passagem, tem-se a sensação de que o novo é o velho transmutado, permanência relativa das coisas, fluxo através do qual percorremos ciclicamente as mesmas vias. O que pensa a respeito disso?

EDSON BUENO DE CAMARGO – Realmente não tenho uma preocupação muito grande com a novidade. Para mim o texto tem de ser autoral, ter o seu sinal e a sua marca, mas, ao mesmo tempo, tenho a plena consciência de que toda a escrita é intertextual. De alguma forma, repetimos os nossos poetas prediletos, e simultaneamente damos nossa contribuição para este continuum espaçotempo da palavra. Somos o resultado de nossas leituras, leitura de livros, de autores, de mundo, de nossas experiências de vida. O formato que usamos para o poema é o mais conveniente e possível para cada um. O poeta que se apega a uma forma única ou a pré-requisitos corre o sério risco de se abortar criativamente.

Quanto aos ciclos, ao tempo e ao fluxo,  recorro, neste caso, ao Octávio Paz, que em “O arco e a lira” afirma que todo o poeta é um novidadeiro e ao mesmo tempo um nostálgico incorrigível.

Esta noção de tempo linear é assumida pela sociedade ocidental como a única que existe, ou a que é “certa”. No entanto, junto às sociedades arcaicas, a noção de tempo circular é muito mais aceita. Ocorre do poeta ser uma espécie de xamã, mais adepto às sociedades arcaicas que da “modernidade”.

O tempo da poesia é circular, é o tempo dos deuses, o tempo da contemplação e não o tempo do labor industrial. Uma coisa pode ter acontecido e, ao mesmo tempo, estar acontecendo, sem prejuízo a que ela ainda aconteça. Não raro, poetas antecipam acontecimentos, o acaso objetivo está aí operando o tempo todo.

DA – A lucidez encerra grandes desafios a um poeta? Seria ela um antídoto contra a traição dos sentidos?

EDSON BUENO DE CAMARGO – A lucidez pode ser uma armadilha. Nossos sentidos estão conectados a um mundo que muitas vezes pode se tornar fugidio. O nosso cérebro acredita que tudo o que ele sente é verdade, a ponto de existirem momentos em que podemos trocar memórias. Sei que muitas das memórias que carrego hoje não são minhas, mas ainda assim as sinto, me entristeço com acontecimentos que não vivi, choro saudades que não são minhas.

Não só os sentidos nos traem, a memória das sensações também. As pessoas que vivem nas cidades estão mergulhadas em um caldo de sensações diversas: um cheiro pode detonar uma memória, o cinema, a televisão, a leitura de ficção podem provocar viagens e trânsito entre os mundos.

O poema pode ser a tentativa frustrada de recompor o mundo das coisas, mas não creio que possa fazer realmente este papel. Talvez seja por isso que Sócrates expulsa os poetas da República, por essa ilusão entre o que de fato sentimos e o que de fato esta sendo sentido. Não há um antídoto para isso.

 

Edson Bueno de Camargo / Foto: Arquivo pessoal

 

DA – Há um quê de memória afetiva a percorrer algumas vias do seu novo livro. Ali, pessoas e lugares ganham corpo especial diante do poeta que reflete as marcas do tempo.  Esse contínuo devir pressupõe um experimentar de mistérios?

EDSON BUENO DE CAMARGO – Toda a escrita é autobiográfica, mas nem sempre o que lembramos ter vivido corresponde necessariamente a um acontecimento real ou a uma vivência. Tomamos do mundo o que precisamos. Por que não também as memórias?

Estou a todo tempo a observar as pessoas, tenho um sentimento voyerista, fico imaginando o que essas pessoas fazem, como se amam, como se comportam diante do mundo. E isto acaba por compor o poema, que é um catalisador de sensações e realidades experimentadas.

Às vezes, penso que a memória afetiva é a única memória que realmente temos, nos lembramos das coisas que nos apaixonaram, pelo amor ou pelo terror. O poeta pode carregar a memória coletiva de sua comunidade. Elias Canetti fala que os poetas são cães de seu tempo, vivem a febre profética dos deuses, mas nunca conseguem fugir daquilo que os circunscreve.

Santa Tereza D’Ávila dizia que até as panelas da cozinha são objetos de sacramento, que são tão sagradas quanto os mistérios do altar, do cálice, do vinho. Acredito piamente nisto. Quando repetimos os rituais cotidianos, penetramos nos mistérios do mais profundo sagrado, todos podemos experimentar as sensações do sublime. Os poetas estão alguns segundos antes das pessoas no tempo.  Há momentos em que as pessoas necessitam ser lembradas do que sentem.

O poema, quando cumpre realmente sua função,  recupera o campo do sagrado onde o mistério é nossa vivência cotidiana.

A rotina industrial e o tempo linear que são impostos às pessoas afastam-nas das coisas que realmente são importantes. O poeta também tem a obrigação de lhes indicar o sentir, o ser, que deve ser nosso objeto primeiro.

DA – Em matéria de literatura, carecemos hoje da manifestação de vanguardas? Até que ponto a existência delas seria algo relevante?

EDSON BUENO DE CAMARGO – Em primeiro lugar, teríamos de definir o que é uma vanguarda, um termo militar que foi absorvido pelos movimentos artísticos. No campo de batalha, a vanguarda é a infantaria ligeira, os primeiros a romperem as linhas inimigas, mas também o grupo que sofre as maiores baixas (o número de mortes, suicídios e insanidade entre poetas é bem representativo). Pouco o que fizermos irá superar o que foi feito na virada do século XIX e princípios do século XX. Creio que ainda estamos aturdidos pelo que foi feito neste período, não sei como poderemos superá-los.

Vivemos num tempo onde, aparentemente, não existem movimentos culturais, onde parece que tudo já aconteceu e que tudo se repete. Mas fico pensando em até que ponto isso é realmente verdadeiro. Como poderemos saber se não passamos por um grande processo de transformação se estamos inseridos nele? É muito mais fácil visualizar algo de fora, de longe, com o distanciamento que por vezes só o tempo pode dar. Quem disse que a “Semana de Arte Moderna” foi um movimento importante para a cultura do país, foram os analistas posteriores. O movimento de vanguarda mais interessante que ocorreu, para mim, foi o Surrealismo, que primeiro aconteceu, com seu manifesto e tudo mais, e depois buscou as motivações e inspirações do movimento, nomeando ao bel prazer seus precursores.

Para mim o grande movimentador cultural da atualidade é o uso da Internet como mídia literária, o uso de novas plataformas, a facilidade de pessoas de diversos pontos do mundo poderem usufruir de uma forma quase imediata de contatos pessoais, mesmo que virtualmente. No que pese que uma nova mídia jamais substitui completamente a velha, e meios de comunicação de diversas épocas e tempos convivam harmoniosamente. Um grande exemplo disso é a radiodifusão, que logo faz cem anos e não dá nenhuma mostra de perder o fôlego, ao ponto que a Internet, não só não substituiu, como absorveu o modelo. Temos muitas rádios on line operando por aí. Então, o uso da Internet é uma grande novidade velha, só que antes o correio postal, o telefone, faziam a função que hoje se tornou mais fácil e acessível. A grande revolução da Internet é a democratização da informação e do acesso, mesmo com possíveis críticas que lhes devem caber.

Creio que o que hoje falta é um manifesto, um movimento com um formato fácil e reconhecível, aquelas lutas pela hegemonia da razão. O que sinto e vejo hoje são pessoas muito talentosas, mas não muito afeitas ao contato físico e a reuniões intelectuais e políticas (muito chatas para quem não gosta). Pessoas que não sentem a necessidade de um mote agregador em sua arte, mas que também não se incomodam de trocar experiências com outros poetas, mesmo que virtualmente.  Mas existem também manifestações  que têm acontecido pelas bordas. Uma garotada com grande energia, nas periferias dos grandes centros, fora dos grandes eixos e dos circuitos tradicionais, sem uma preocupação com o reconhecimento, com seus fanzines, publicações alternativas, blogues, revistas virtuais. Quem sabe estes escritores venham a consistir alguma vanguarda, ainda que sem ter esta percepção?

Fica a reflexão. A poesia marginal dos anos setenta não teve nenhum manifesto, saiu às ruas para declamar poesia, enfrentou os anos de chumbo da ditadura militar e hoje, aos poucos, está recebendo o reconhecimento merecido de seus poetas. O Paulo Leminski está ficando até pop e frequentando as listas dos mais vendidos.

DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?

EDSON BUENO DE CAMARGO – Acredito que a pós-modernidade já passou, pisamos na praia da contemporaneidade, e pouco sabemos o que isso pode significar.

Não seria necessariamente o que não endosso, mas me irrita profundamente (risos) é uma certa atitude blasé que alguns escritores assumem, em geral atualizando textos e agindo de forma a operar um revisionismo histórico, descobrindo que para chamar a atenção, ao invés de mostrar uma produção de qualidade, se especializam  em falar mal de escritores consagrados em algum período:  em especial, as críticas mais ferozes são para o Carlos Drummond de Andrade e para o Mário Quintana, não sei por que razão.

Em geral, estes senhores e algumas senhoras desfilam uma miríade de diplomas acadêmicos e especializações, lógicas incontestes, autoridade presumida, medalhas de honra ao mérito, e tudo o que possa ser usado para afirmar que sua razão é única e qualquer um que venha a confrontá-los corre um sério risco de virar alvo.

Fora isso, somos sempre fruto de nosso tempo, e, muitas vezes, poetas são criaturas meio deslocadas de sua época e lugar. Pego-me chorando sobre os versos de um poeta chinês da dinastia Tang e, ao mesmo tempo, admirado com a poética de um jovem blogueiro desconhecido até o momento. Nada que é poesia me é estranho.

O que vale é o que nos toca. A fruição poética é algo absolutamente pessoal, como uma religião pessoal.

DA – Como aproximar mais as pessoas das palavras sem a intervenção demasiada dos ditames meramente institucionais ou quiçá demagógicos? Somos, de fato, uma nação que subestima potenciais leitores?

EDSON BUENO DE CAMARGO – Talvez nem seja o caso de discutir “a intervenção demasiada dos ditames meramente institucionais”. Pessoalmente, nem enxergo isto como um mal em si, mesmo porque muitas vezes o que vejo é uma ausência total de políticas culturais para a literatura e a leitura. Costumo dizer que preferiria combater uma política cultural ruim a me deparar com uma política cultural ausente ou inexistente. Já ficaria muito feliz se as autoridades constituídas fizessem alguma intervenção, de fato, neste sentido. O pouco que é feito sempre vem no sentido de compra de livros,  programas feitos para grandes editoras e um conteúdo pasteurizado. Os autores e pequenos editores independentes estão fora da jogada.

Toda vez que falamos de leitores, penso em nossos vizinhos platinos, que têm uma tradição literária mais antiga e arraigada, e muito mais hábito de leitura que nós brasileiros.  O que neles é tão diferente neste aspecto que nós? Temos a mesma formação jesuítica, católica, opressora, caótica.

Qual será o mistério que faz com que o brasileiro não seja um leitor habitual? O hábito da leitura parece ser algo que não está na alma brasileira, ou está e não vemos. Mais uma vez, acredito que a questão está na educação. Enquanto no Brasil a primeira Universidade surge no século XIX, no mundo de nossos hermanos, as universidades têm quase o tempo da colonização. No que pese que esta educação foi sempre europeizante e excludente da massa das populações indígenas, é um diferencial a ser considerado.

No fundo, creio que o nosso grande problema seja o analfabetismo funcional. Não há leitores entre pessoas que não conseguem ler bem e com desenvoltura. Outra questão a ser considerada é que havia um caldo de cultura em populações ágrafas, quer nativas, quer por emigração forçada, que foi menosprezado por muito tempo.

No fundo, somos uma nação que desperdiça potenciais em quase tudo. Temos ainda uma alma colonialista que não consegue olhar para dentro de si mesma, onde as elites e, por reflexo, o governo, veem a cultura como um artigo de luxo, não reservado às castas inferiores. A leitura não consegue ser popularizada porque não se acredita nela e nem que a mesma deva ser para todos. A universalização do ensino deve deixar de ser um grande engodo,  além de passar a se pensar em diretrizes que funcionem como real educação.

A leitura é uma coisa cumulativa. Quanto mais se lê, mais se sente necessidade de ler.

DA – Na conjunção das feições de leitor e criador, de tudo o que viveu até aqui com as palavras, Edson Bueno de Camargo aproxima-se mais do espanto ou da revelação frente à existência?

EDSON BUENO DE CAMARGO – A revelação deve ser feita pelo espanto. Mesmo que em alguns momentos seja tomado por esta melancolia dos trópicos, e seja tentado a ser tomado pelo ceticismo  e pelo pragmatismo, abre-se sempre uma janela para me reconhecer como humano e dono de um potencial de criação infinito.

Os homens foram criados pelos deuses para a beleza. Só precisamos lembrar disso novamente e sempre.

 

*Alguns poemas de Edson Bueno de Camargo podem ser lidos aqui

 

 

 

 

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83ª Leva - 09/2013 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Mayrant Gallo

 

 

Ilustração: Denise Scaramai

 

 

CARAS QUE NÃO COSTUMAM LER LIVROS

 

Dani Dark tinha viajado. Rio de Janeiro. Um congresso em seu ramo de atividade, que não vem ao caso explicitar aqui. O certo é que, àquela hora, ela estava num hotel da Zona Sul, o mar em frente, numa verdadeira metrópole, e eu aqui, comendo no Yang Ping do Center Lapa e, nos dias em que não tinha trabalho, saindo cedo para caminhar no Dique. Era tudo. Meu trabalho, vocês sabem… Quem leu os contos do Gallo já me conhece. Eu mato. Sou pago para matar. Gente rica, e até gente pobre, me contrata com frequência. Mas também já matei para fazer cumprir a justiça. Instinto de nobreza, uma coisa assim do Zorro, que não faz de ninguém um sujeito melhor nem pior ― muito menos eu ― e que, sobretudo, não nos salva do injustificável: o fim do túnel lá adiante e o salto, afinal, no abismo.

Uma semana antes, como estivesse na cidade um escritor de São Paulo, lançando um livro, compareci ao evento, na LDM do Itaú Cultural. O cara autografou o livro para mim, e fiquei lá, zanzando entre os escritores. Dei até a minha opinião sobre um poema do Ruy Espinheira Filho, que Milena Brito, Tom Correia e o Gallo ― acima citado ― leram com reverência, a um canto da livraria. Falei: “Metáfora da ditadura militar”. Eles concordaram, e logo saí, fui me restabelecer no balcão com um cappuccino gelado. De lá, fiquei olhando a plateia. Quero dizer: as pessoas que compareceram para comprar o livro do escritor. Me perguntava quantos de fato o leriam e quantos não estavam ali apenas pela dedicatória ou pelo autógrafo, rabiscados na folha de rosto. O autor parecia dos bons, com títulos que ressoavam: Não há nada lá. Ou: Do fundo do poço se vê a lua. Um sugeria desesperança, e o outro, o inverso. Whitman aprovaria. O velho João Antônio também. E os três livros que abri e folheei, entre os quais o que o autor me autografou, começavam bem, produziam interesse. Acabei então o meu café e fui para casa, ler. Não precisei sair à francesa, pois ninguém me conhecia mesmo. Eu estava isolado, sou comumente isolado, e esta é realmente a maior das dádivas.

De manhã cedo, lá pela página 35, o autor ― Joca Reiners Terron (e tive agora de pegar o livro para achar este nome do meio, pois tenho dificuldade em memorizar nomes triplos) ― o autor continuava me seduzindo. À tardinha, idem. Tanto que eu estava quase no fim do volume e entrei na internet e adquiri outra obra do cara, A tristeza extraordinária de alguma coisa. É a vantagem de se trabalhar para si mesmo e exercer uma atividade lucrativa: pode-se ler à vontade e quando se quer. E adiar as obrigações, que jamais serão inadiáveis.

Finda a história, e não eram vinte horas ainda, pus calção, camiseta, tênis e desci para uma corrida no Dique. Passei pelo porteiro, que cumprimentei como sempre, levantando a mão, ao mesmo tempo para que abrisse o portão e se sentisse bem, por eu enxergá-lo no seu trabalho diário.

O Dique estava quase vazio. Na segunda volta, vinte minutos depois, eu passava por um jogger a cada duzentos ou trezentos metros, sempre homens, nenhuma mulher. Eu ia correndo e pensando no livro, também em telefonar para Dani, que estava no penúltimo dia do tal congresso. E foi então que cheguei ao fim e me sentei num dos bancos. Um orixá próximo, horroroso. A típica arte do típico e que não nos diz nada, a não ser para os turistas, que também são típicos. Eu estava lá, olhando a lua subir, respirando um ar frio e menos poluído, todo suado, alguns mosquitos grudados na testa, reflexos do Terron ainda na cabeça e nos olhos, quando dois caras chegaram da escuridão e se sentaram, um de cada lado do banco. Ambos negros, desnutridos e inúteis. Mantive a calma e pensei que as pessoas são livres para se sentar onde quiserem. E que o banco não me pertencia e que eu não poderia exigir que eles saíssem. Então saí eu, mas, mal havia dado dois passos, ouvi:

“Onde cê vai?”

Eu poderia dizer “Não é da sua conta” e seguir em frente, mas preferi parar e esperar.

“É, onde cê vai?” ― disse o outro, como um eco.

Me voltei. E só me ocorreu, naquele momento, arrancar de minha testa dois mosquitos que estavam me incomodando ― mortos, afogados, contra o meu suor.

“Eu tenho uma casa e é para lá que eu vou”.

“Não sem a gente”, o primeiro disse e se levantou, e tinha um revólver na mão e o ar de insolência dos poderosos da política, quando não estão em público fazendo média com o eleitor burro, burro o suficiente para acreditar em palavras repetidas à exaustão, desde o tempo em que, entre animais, o primeiro homem impôs a outro a sua força.

Vestiam bermudões, folgados, as cuecas à mostra, e camisetas de tecido sintético, com propagandas de cervejarias, restos do último carnaval. Nos pés, sandálias que antes só os verdureiros e estivadores usavam. E nas cabeças, com as palas sobre a nuca, bonés de clubes de futebol rivais. Os braços eram finos e tatuados, desenhos que mal se viam sobre a pele fubenta, que estava longe de ser uma tela branca. Exalavam tristeza. Um odor de quarto de hotel barato, das Sete Portas.

Havia um segundo livro do Terron me esperando e um terceiro a caminho, nas malhas da internet. E havia aqueles dois caras ali, que não fariam nenhuma falta ao mundo.

Abri os braços, mostrei que estava liso, que não tinha dinheiro algum, nem celular, nem qualquer outro tipo de aparelho comigo, apenas minha identidade, o cartão do plano de saúde e um papelzinho com o telefone de Dani Dark, para o caso de eu ter um treco, cair afogado também, em meu suor.

Mas eles eram insistentes, queriam que eu fosse com eles em casa, pegasse o cartão bancário, fôssemos à agência mais próxima ― falaram assim, “agência mais próxima”, como num comunicado de tevê ou um impresso de publicidade ― e lhes entregasse uma boa soma.

O que eu poderia dizer, diante da argumentação de um cano frio? Eu, que a meu modo, também matava e sabia que não é preciso motivo algum para se apertar o gatilho numa noite, mesmo de lua…

Assenti:

“Tudo bem, moro nos Barris. É só subirmos a ladeira”. Uma mentira, pois quem já leu o Gallo sabe que moro mais à frente, no Politeama.

“Pare de falar!” ― um deles disse. “Só vá andando, que a gente vai junto, do seu lado”.

E este foi o erro. Quem conhece o caminho do Dique para os Barris sabe que, depois da funerária A Decorativa, à direita, há uma curva e que os ônibus, sobretudo à noite, dobram ali chapados. Foi o que me bastou. Ia com um de cada lado do corpo e, quando ouvi o ruído do ônibus às minhas costas, empurrei o cara da esquerda para a pista ― ouvi o baque ― e, quase simultaneamente, num gesto simétrico, dei uma violenta cotovelada no outro, à minha direita. Ele caiu, e o revólver, que antes apontara para mim, estava em minhas mãos. Não hesitei. Era ele ou eu, como se diz, embora não fosse verdade.

Veio a polícia, e tive que me explicar: os caras tinham me sequestrado, queriam dinheiro, e todo o resto… Ao fim, o delegado, que sabia das minhas atividades, só faltou me abraçar por livrá-lo daqueles dois mosquitos afogados em crimes, um dos quais era suspeito de molestar mulheres e crianças, no Dique. Caras que não costumam ler livros morrem indistintos. Não sei mesmo quem disse isso, mas é um belo aforismo.

O único inconveniente foi que cheguei em casa depois das vinte e duas horas. Sacudido. Escangalhado. À minha espera, havia um e-mail de Dani, afetuoso, e dois outros, de clientes disfarçados de spam, requisitando meus trabalhos. Ia ter que dar um tempo na leitura. Do Terron e de qualquer outro escritor. Bem, pelo menos, em troca, eu ia ser remunerado. Matar sem grana, só por justiça ― e, neste sentido, eu já havia cumprido a minha cota do mês ―, não leva a nada.

Dani, que preferiria que eu fosse mecânico de automóveis ou músico de quinta categoria, não ia acreditar quando eu lhe dissesse que tinha saído para correr no Dique e, por acaso, matei dois caras. Ela ia dizer, como sempre, lembrando-se do célebre caso do cinema ― em que matei um babaca no banheiro, durante a sessão:

“Sem essa!”

 

 

(Mayrant Gallo é autor de Os encantos do sol (Escrituras, 2013), Cidade singular (Kalango, 2013) e O inédito de Kafka (Cosac Naify, 2003). Este conto foi escrito exclusivamente para a Diversos Afins e incorporado ao volume inédito O próximo herói)

 

 

 

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83ª Leva - 09/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Mariana Ianelli

 

Ilustração: Denise Scaramai

 

ANDALUZ

 

Vaga pela terra, filho trágico,
Com as tuas duas mãos livres.
Furta o colo das putas,
Escuta o ventre delas exausto.
O retorno sempre admirável de Sarah
Te conduziria àquela velha madrugada de amplidão.
Mas afasta esta necessidade, filho.
Quem uma vez mudou seus sinais correspondentes
Não voltará de pronto.
Nenhuma reparação, não há nada.
No mundo, cotidianamente, andarás sem teu coração.
Por cinco anos andarás, cismando com tuas faltas.
É preciso que seja assim.

 

 

 

***

 

 

 

REMINISCÊNCIA

 

Esquecemos o tema.
Ele fende a madeira, bordando delicado as arestas,
Eu trato a colheita debaixo do cordão da aragem.
Nada nos pertence – últimos mandamentos,
O dever e o tédio dos dias,
Famílias lendárias, ironia.
Estamos de volta à beira dos mundos
E sob o pano se aquieta a razão
Da nossa continuidade secreta.
A geada bate na terra, desatina as séries da fome
E nós não desanimamos.
Todo o tempo pela coragem da maior renúncia,
Todo o tempo de hoje arrancado de falsas glórias.
Ele talha a madeira, aparando com bom jeito as margens,
Eu escolho as raízes, separo a polpa da casca.
Alguma diferença em nós
Surpreende a imprudência da fuga,
Um mistério não comentado,
Uma ambição impedida de voltar ao passado
Que tínhamos matado no tempo por um golpe de sorte.
Não perguntamos pela mãe deixada na ponta da história.
Assim foi resolvido.
Mortos, quebrados ao meio.
Revemos os exércitos calmos,
A conformação de milhares, o vírus temerário.
E nenhum reconhecimento é nosso:
A cela terrível dos anos, o verbo régio da tradição.
Na tarde isolada do terceiro dia,
Nós renascemos do ácido.

 

 

 

***

 

 

 

Ignoro se tu és capaz de voltar.
Quero a novidade de tua ausência
Com uma paixão sem calor que mais aumenta
Quando tento vencer a realidade.
Sou a paz em que acredito inutilmente
E ainda sou a vertigem desta paz.
O desejo de que tu compareças
Não dura em mim do mesmo modo que tua imagem,
Que tua forma irresponsável de mover-se
E se despir e descansar no meu passado.
Tu permaneces aqui sem teu corpo
E, pensando no oculto, eu abandono a existência
Para me deitar no lago das carpas.
Teria sido o final de um verão
E não o tempo em que te foste
Se em vez de amando eu estivesse louco.
Tu vives no propósito de minhas ficções:
Uma terra deserta, estável e mansa.
Nesta hora em que desapareces do meu sonho,
Também eu, predador de tua alma, vou com os mortos.

 

 

 

***

 

 

 

VÉSPERA

 

Há sinais
Que os teus olhos não veem,
Mas neles já se espelha um rio
Desde a outra margem.

Uma náusea das manhãs
De outras manhãs
Começa a distanciar-se
E o que te parecia imenso
Se acantona
Num espaço mal sonhado
Da memória.

Voragem,
O teu nome se descobre
Feito de estranhas vogais
– Um nome
Que jamais conteve
Toda a tua história –
E o que era eterno se ausenta,
Em tudo à espera
De uma nova eternidade.

Esse tremor
Que o teu bom senso não evita
(Não pode evitar a tempo)
Quando roça o teu braço,
Asa de corvo, um certo hábito
Absolutamente livre,
Morto de significado.

 

 

 

***

 

 

 

MIRADA

 

Uma tarde amarela
E dentro a parede rasgada
Já sem as altas janelas
De onde se via lá embaixo
A conversa das estátuas
Com seus olhos de pedra
Infinitamente ausentes
De se haverem voltado ao passado.

Não ficou uma só alma atrás da porta
Nem as portas ficaram.
Os gradis, as lanternas, os pilares,
Foram-se as barricadas.
A vida agora acontece em outra parte –
Era a mensagem, e parecia leve,
Translúcida na tarde amarela
Feito uma casca de cigarra.

 

 (Mariana Ianelli nasceu em São Paulo em 1979. É poeta e mestre em Literatura e Crítica Literária (PUC-SP). Publicou os livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005), Almádena (2007), Treva alvorada (2010), O amor e depois (2012), todos pela editora Iluminuras. Breves anotações sobre um tigre (Ed. Ardotempo, 2013) é sua mais recente obra. Tem poemas publicados em Portugal, Espanha, Cuba e Argentina. Em 2008, recebeu o Prêmio Fundação Bunge (antigo Moinho Santista) na categoria Juventude. Em 2011, obteve menção honrosa no Prêmio Casa de las Américas (Cuba) pelo livro Treva alvorada)

 

 

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83ª Leva - 09/2013 Destaques Olhares

Olhares

Fluxos virtuosos da liberdade

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Denise Scaramai

 

Como num álbum de memórias, a vida se expande no alongar do tempo. Aquilo que chamamos de passado não necessariamente fica retido numa experimentação de outrora. Nesse deslocamento, recortes da existência parecem não se exaurir por si próprios, algo que reproduz a sensação de que os instantes, mesmo já consumados, ainda sugerem a presença ativa das coisas e seus inalienáveis sentimentos.

Diante desse painel a agregar estratos pormenorizados da alma humana, surge como testemunha a arte de Denise Scaramai. Suas ilustrações transitam, de modo sensível e delicado, por entre o ambiente das reminiscências.  Dos gestos aparentemente mais simples do cotidiano até aqueles mais complexos, seus personagens têm em comum a densa perspectiva da subjetividade. Ali, o caráter da liberdade surge bem delineado pelo exercício amplo da individualidade dos sujeitos retratados. É quando a consciência de se estar no mundo confere sentido à diversidade de situações vivenciadas por cada um.

Na profusão de cores e formas, Denise extrai um resultado poético para os cenários escolhidos, fazendo com que cada lampejo humano extrapole a dimensão física das situações. Nesse ponto, a artista redimensiona o ato de existir para esferas que sugerem o estreitar de laços entre o vivido e o imaginado. Aqui, a dualidade entre o concreto e o abstrato denota a harmonização de dimensões paralelas. Diga-se de passagem, o mundo, tal como o apreendemos em sua inteireza física, já não é mais capaz de comportar as projeções de toda ordem, tornando a via onírica um acesso deveras significativo.

 

Ilustração: Denise Scaramai

 

Paulistana por nascimento, Denise Scaramai possui uma predileção por observar detidamente a manifestação das coisas, bem como suas formas e aspectos singulares. Confessa-se uma obstinada pela inatingível perfeição. Formada em Artes Plásticas pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo, a artista mantém uma especial relação com a via digital, algo que contribuiu para a experimentação de novas possibilidades de criação.

Sem estar necessariamente ligada a um viés artístico específico, Denise professa a independência de suas formas. O conceito de autonomia presente em seus trabalhos permite à criadora reinventar modos de agir e sentir. Diante da passagem do tempo, pouco importa saber dos momentos consolidados ou até mesmo presos num átimo qualquer da existência. Fundamental mesmo é constatar que a vida é algo incapaz de ser domado.

 

Ilustração: Denise Scaramai

 

* As ilustrações de Denise Scaramai são parte integrante da galeria e dos textos da 83ª Leva.

 

 

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82ª Leva - 08/2013 Destaques Olhares

Olhares

O habitat das coisas sublimes

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Milena Palladino

 

Tez de natureza viva
expele o gosto dos dias.
Eis que vejo
na dança das ramagens
o doce augúrio duma manhã
a tomar o canto dos que
tateiam planícies do ser.
(Fabrício Brandão)

 

 

Sob o manto difuso da existência, outras paisagens se abrigam. E não seriam elas terras inventadas ao bel prazer das intervenções humanas, mas sim porções de vida presentes em nós desde o primeiro e desavisado sopro. Quem intenta superar a camada do óbvio que reveste nossa corriqueira visão, consegue imaginar sobre quais esferas estas primeiras linhas de contemplação se debruçam.

Quando a dinâmica da vida deixa expostas suas marcas mais aparentes, algo de especial preenche os instantes. Se o ofício é perceber o que se passa nas entrelinhas do mundo, a missão surge enobrecida pela riqueza de detalhes a ser exprimida. Mas aqui estamos a falar de um universo que corre paralelo ao que erguemos outrora através das eras de nosso movimento no planeta.

Foto: Milena Palladino

O cenário em foco abandona as paisagens concretas sob as quais erguemos nossas sinas errantes para vislumbrar outra valiosa perspectiva: a natureza e seus ritos. É assim que somos apresentados ao trabalho de Milena Palladino, cujas fotografias conferem um olhar sensível à morada de outros múltiplos e difusos seres. Mais do que caracterizar a aura milenar da conjugação fauna e flora, a artista propõe uma harmonização com o humano, denotando um viés de aproximação que nos atrai pelo vigor da serenidade.

A capacidade de conferir singularidade ao microcosmo presente na natureza é algo que torna as imagens de Milena especiais. Nesse trajeto, cada ato a flagrar bichos e vegetais ressalta nuances de delicadeza e se traduz numa orquestração de tons poéticos. Tomada desde a infância pelos atributos da simplicidade, a fotógrafa celebra a morada da beleza, fazendo-nos testemunhar quão arrebatador e terno é o pertencimento a um estado essencial das coisas. Assim, reaprendemos a respirar pelo valioso entendimento de que tudo cumpre seu ciclo.

Baiana de nascimento, Milena Palladino é graduada em Comunicação Social e desde 2008 atua como fotógrafa, tendo participado de alguns cursos e promovido exposições individuais de seus trabalhos. De modo independente, cobre eventos culturais, sociais e corporativos.

Quiçá o sentido maior da obra da artista seja o de operar a coexistência entre dois universos. Obviamente, o dos homens busca, nos detalhes ofertados pelo continuum da natureza, os saberes da simplicidade. Achar-se vivo é menos complexo do que se supõe.

 

 

Foto: Milena Palladino

 

 

*As fotografias de Milena Palladino são parte integrante da galeria e dos textos da 82ª Leva.

 

 

 

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82ª Leva - 08/2013 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Estar entre os mortais e perceber nisso um trunfo é algo, no mínimo, instigante. E pensar que deixamos, muitas vezes, o filme da vida passar, desavisadamente e sem maiores considerações, diante de nossos olhos é mais curioso ainda. Caberia, então, somente a um escritor repisar as corriqueiras epifanias restritas, em sua maioria esmagadora, ao cenário das individualidades? Quem mais se habilitaria a expelir a seiva de nossas verdades esquecidas?

Na música Peter Gast, Caetano Veloso, por exemplo, entoa o canto de um homem comum, enganando entre a dor e o prazer. E vai mais longe, confessando-nos a sina de atravessar uma existência sob o manto da insignificância, encontrando alento num coração de poeta que, mesmo condicionado à solidão, ainda seria capaz de algum voo. Guardadas as devidas proporções, talvez seja mesmo esta a trajetória de um escritor, sobretudo quando a luta maior seja fazer ecoar sua voz num universo de múltiplas representações do ser.

Adentrar os becos e vias difusas das letras de Rodrigo Melo pode nos ajudar a perceber porque divagamos outrora sobre a necessidade de perceber as coisas que nos cercam. Oriundo das paragens marítimas de Ilhéus, na Bahia, Rodrigo é um daqueles artífices da palavra que têm predileção por dissecar a alma humana. Com um tom lúcido e sagaz, seus contos põem em xeque algumas costumeiras zonas de conforto, muitas vezes propondo arremates decisivos a algumas situações. Utilizando-se de uma linguagem despojada de elaborações mais formais, é hábil em fazer de sua obra um elo de aproximação com os leitores. Suas narrativas privilegiam aspectos tão vivos e intensos de nosso tempo, embalando revelações e propondo olhares especiais sobre o mosaico de complexidades que reveste as pessoas. Autor de O sangue que corre nas veias (Ed. Mondrongo – 2013) e, mais recentemente, integrando a coletânea de contos 82 – Uma Copa – Quinze Histórias (Ed. Casarão do Verbo), Rodrigo Melo nos recebe para uma entrevista. Fala um pouco de seu caminhar literário e expõe algumas opiniões sobre o meio. De todo o dito, fica a impressão de que estamos próximos a um alguém que valoriza a arte do encontro, vislumbrando no leitor um sujeito ativo na condução das histórias.

 

Rodrigo Melo / Foto: Thalita Leite

 

DA – O livro é o “82 – Uma Copa – Quinze Histórias” e, com o conto “A culpa foi minha”, você demarca seus territórios naquela coletânea de difusas vozes literárias. Sua escolha narrativa passa ao largo de ter uma partida futebolística como o centro das atenções. Qual a real dimensão da aposta nesse, digamos assim, deslocamento temático?

RODRIGO MELO – Não sei bem se foi uma aposta. Parece clichê, mas acho, na verdade, que não tive escolha, porque não recordava o bastante daquele jogo. Ao buscar alguma lembrança, o que vinha era a infância e, consequentemente, a casa de minha avó. Aqueles três gols de Paolo Rossi feriram o Brasil, mas, antes disso, a minha família, porque era essa a minha referência – e foi assim:   minha tristeza não existindo por conta do jogo, mas pela dor que os outros sentiam. Lembro que, por uma semana ou mais, depois que tudo acabou, todos, voluntariamente, abdicaram da felicidade. Para um moleque de onze anos, vivenciar aquilo era como ficar um tanto mais maduro antes da hora. Calculo, então, que ligar aquela copa de 82 à minha família foi, de todo modo, inevitável.

DA – A maneira como você articula o mote da culpa por entre os personagens é algo que chama atenção. Nós, míopes mortais, estamos acostumados a esse jogo de transferências quando buscamos respostas para as coisas. Seriam as armadilhas dum incorrigível espírito humano?

RODRIGO MELO – Imagino que somos todos uns sofistas, afinal. Porque, como você mesmo cita, a alma tem as suas armadilhas. Já devem ter dito que entendê-la assemelha-se a desvendar um labirinto, e é o que também me parece. Esse labirinto tende a crescer ou diminuir. Calculo que tudo vai de acordo com o dia, a fase, ou, quem sabe, a evolução. O mais provável, e comum, é que cresça, e, embora pareça antagônico, enxergo um encanto nisso. Encanto e esperança. Mesmo falível e sem saber verdadeiramente qual o combustível que o move a sair e fazer as coisas, mesmo sem entender muito bem o que é e qual a finalidade de existir, vivendo numa espécie de superfície, ou miopia, evitando qualquer mergulho que o molhe um pouco mais, o ser humano segue contínua e insistentemente em busca da redenção. Chega a ser bonito: a eterna luta para alcançar a luz, luz essa que nem sempre é divina.

Por conta disso, creio que somos todos corrigíveis, embora também acredite que a humanidade ainda recenda a uma multidão correndo em direção à saída de emergência, ou a um bêbado, no escuro, tateando pelo interruptor.

DA – Depois de algum tempo de lida com as palavras,  você lançou seu primeiro livro, “O sangue que corre nas veias”. A obra veio no momento certo?

RODRIGO MELO – Tenho certeza que sim. Quando Gustavo Felicíssimo (poeta e editor da Mondrongo) me convidou a lançar, me senti honrado, quiçá vaidoso, ao mesmo tempo em que surgiu a dúvida. O material que tinha eram os contos antigos, escritos, quase todos, há mais de dez anos, e eles necessitavam de bastante atenção. Além disso, eu vinha de um longo período sem contato com a literatura – não escrevia, sequer lia algo. De alguma forma, abaixara a guarda, ou, como se diz, colocara a sujeira debaixo do tapete, e estacionara.  A possibilidade de ser editado trouxe de volta a vontade de pegar o mundo todo num ouvido só. Passei dois meses revisando e, se pudesse voltar no tempo, passaria mais dois. No entanto, o resultado me agrada, me satisfez. Acho que “O sangue que corre nas veias” dá seu recado.

DA – As paisagens que você visita no livro refletem um universo onde os personagens, com certa frequência, vivenciam situações de limite extremo. Entre hesitações e impulsos, desfechos se operam arrematando com um golpe certeiro os destinos entrelaçados. O que dizer de tais escolhas?

RODRIGO MELO – Situações limite, e creio nisso cada vez mais, não precisam necessariamente estar envolvidas em violência ou trauma. Elas podem ser a expectativa de que algo aconteça ou a frustração daquilo não ter acontecido: um tiro que será disparado, um beijo que ficou pra depois. Acho que foi o Raymond Chandler quem disse que quando uma história vai mal, o certo é matar alguém. Eu, embora goste dele, protelo mortes. Busco, hoje, no cotidiano, nos acontecimentos ditos banais, comuns, que pra mim têm força, beleza e significância, o mote para escrever. E não há nada mais doido e grandioso que existir – os sonhos, os medos, a vida de cada um. Acho que tento pegar esses pequenos pedaços, eles sempre em andamento, posto que nada para.

DA – E é interessante perceber que a linguagem através da qual você engendra suas histórias, dotada de clareza e simplicidade, sustenta com propriedade as narrativas. A que você atribui essa sua aproximação com o coloquial?

RODRIGO MELO – Muito provável que pelo desejo de ser entendido. Admiro a técnica, ao mesmo tempo em que alimento um distanciamento do virtuosismo. Penso que pode ser uma armadilha. Talvez pense assim por comodismo, não sei bem. A questão é que, embora valorize a forma de dizer as coisas, acredito que vale mais o que se diz. E é essa a busca: ser, dentro do possível, simples, sem ser simplório. Claro que é difícil e, quase sempre, o tiro acerta o pé. A tentativa, no entanto, já conta.

DA – Dois aspectos presentes em seus contos e que merecem destaque são a fluidez e um ágil ritmo narrativos, traços bem típicos do cinema. Some-se a isso, também, o viés imagético. Diria que sua literatura mergulha conscientemente nas influências da sétima arte?

RODRIGO MELO – Gosto dos cortes, da velocidade que os filmes têm, e penso que aplico, ou tento aplicar, muito desse “dinamismo” no que escrevo. Aliás, bem antes de Rubem Braga, Carlo Mossy já era um herói. Ele e tantos outros. Crescemos vendo tv. Lembro de “Agarre-me se Puderes”, um dos filmes que marcaram, e todas as vezes eu ficava com aquela espécie de encantamento, satisfação. A mesma coisa com os filmes dos Trapalhões. Depois vieram os outros. Hoje, e não digo por desdém, mas porque, imagino, a forma de contar as histórias se ampliou, ou quem sabe por já saber o final, não assistiria novamente “Agarre-me se Puderes”, nem mesmo pelas perseguições. O mundo mudou e eu, provavelmente, também. De qualquer maneira, o filme cumpriu o seu papel. Assim como “As Minas do Rei Salomão”. Porque somos todos uma esponja, carregando algo de tudo o que experimentamos, cada vivência nos transformando, a operação de uma tia ou o último lançamento dos Coen,  juntos e misturados num recipiente só.

Acho, então, que tanto a tentativa de fluidez quanto essa questão da imagem, em grande parte, vêm, sim, dos filmes que assisti. Mas acontece também, por outro lado, que há certas pessoas, e elas podem escrever, filmar, pintar, cantar, tirar fotos ou fazer malabares, tanto faz, essas pessoas às vezes mandam muito bem, e isso te força a pensar que também dá pra conseguir. A mais forte influência, acredito, é sempre essa. 

 

Rodrigo Melo / Foto: Thalita Leite

DA – Em matéria veiculada recentemente pelo site Estadão, apontou-se um outro panorama no que se refere à aparição dos novos escritores. Muitos deles estão preferindo submeter seus primeiros escritos na via dos concursos literários, almejando prêmios e, com isso, suporte para publicação, em lugar de buscarem diretamente editoras. O que pensa a respeito disso?

RODRIGO MELO – Os prêmios dão visibilidade, e, com a verba, imagino que uma tranquilidade maior. Escrever é por vezes recompensante, mas quase nunca pelo lado financeiro. Isso raramente acontece. O sujeito tem que ser professor, fiscal de trânsito, corretor ou leão de chácara antes de ser escritor. Escrever soa até como uma contravenção. Pode-se também conseguir um mecenas, mas parece que os mecenas, historicamente, sempre se amarraram mais aos pintores e escultores. Penso então em alguns caras que lançaram excelentes livros, e, afora algum evento, só fazem sucesso com uma pequena turma, e a grana que juntam, quando conseguem, não vem desses livros. Porque ao sentar-se no sofá e ligar a tv, ou o som, depois de uma hora e meia, no máximo duas, a pessoa se levanta com, pode-se dizer assim, a missão cumprida. Com um livro, entretanto, ela terá muito mais trabalho pela frente. Isso causa, em muita gente, uma aversão à leitura. E há outros fatores que fazem com que os livros fiquem nas estantes (de casa ou das livrarias). Se existe, então, esse tipo de subsídio, que, a meu ver, vem por merecimento, deve ser levado em conta.

Por meu lado, só participei de um concurso. Foi em Recife, anos atrás, e eu estava em lua de mel. Escrevi um conto num bangalô de frente pro mar. O bangalô era uma porcaria, o conto também, mas eu não sabia – estava envolvido pelo clima do mar, do por do sol e da lua de mel. Acabei não me classificando.

DA – A necessidade de reconhecimento é a maior inimiga de um escritor?

RODRIGO MELO – Penso que a pressa é a maior inimiga do escritor. A busca pelo reconhecimento me parece algo natural, humano, e independe da área em que se atue. Quem não quer vencer, afinal? Mas o talento se faz na prática. De alguma forma, todos precisamos de maturação.

 

DA – Para alguns, a única faceta do conto é a de se contar uma história. Pensar dessa forma não implicaria numa limitação dos desdobramentos possíveis de um texto, sobretudo na sua perspectiva de transcendência?

RODRIGO MELO – Não acredito que o gênero defina a qualidade ou importância da escrita. Ou, como diz, a transcendência. Talvez se imagine que, pelo tamanho reduzido que tem, um conto seria mais fácil de se construir. Por esse prisma, os poemas também seriam. E não são. Tampouco mais profundos ou necessários. Tudo vai de quem escreve. Dalton Trevisan e Rubem Fonseca, excelentes prosadores, encontraram-se no conto, e não os vejo simplesmente contando histórias. Há sempre algo entranhado ali. Portanto, não acho que o tamanho ou o gênero do que se escreve tem a ver com sua força ou precisão.

DA – Vivemos num tempo em que muita gente se atira à criação literária. No entanto, parecem ser poucos os que ainda o fazem com propriedade. Separando o joio do trigo, não precisaríamos mais de leitores do que escritores?

RODRIGO MELO – Tudo indica que a diferença entre o joio e o trigo esteja na relação com a leitura. Parafraseando meu camarada Heitor Brasileiro Filho, “Melhor ser um bom leitor a um mau escritor”. Antes de esvaziar o tanque, é preciso ter algo dentro. Imagino agora um sujeito: ele tem uma história original, uma história que fala sobre as coisas que ele viveu e sentiu – ele está nas ruas, ele conhece a vida, ele sabe o que dizer -, vai na internet, faz um blogue e a coloca, ou então a publica em um livro. Anos depois, descobre que tanto Voltaire quanto Patativa do Assaré já tinham falado sobre aquilo, de uma forma mais sincera, melhor.   Claro que não dá pra ler tudo, tampouco considero obrigatório o eruditismo. Todavia, sobretudo para quem escreve, a leitura é necessária. Ela te situa. E é com ela, imagino, que se enche o tanque.

DA – O que impele Rodrigo Melo a continuar escrevendo?

RODRIGO MELO – A vontade de criar boas histórias. E conseguir tirar alguém do seu ramerrão diário, cheio de desassossegos ou garantias, com qualquer coisa que escrevi.