Grupo Cena na peça Bagatelas / Foto: Dalton Camargos
Embora muitos ainda vejam a Capital do País apenas como um cenário onde a política impera com seus jogos de poder e trapaças, uma produção artística expressiva e de boa qualidade ganha cada vez mais força por aqui. Falo, nesse caso, da produção teatral, que é bem variada e consistente. Alguns grupos têm se mantido fiéis a um trabalho dramatúrgico que lhes dá uma imagem própria, destacando-os em meio à miríade de peças em cartaz.
O Grupo Cena, que tenho acompanhado com mais frequência, é um desses grupos cujo trabalho se destaca, tanto pelo profissionalismo quanto pela coerência em relação à escolha do repertório. Diferente de outros grupos, como é o caso do Teatro do Concreto, ele não tem como proposta a criação coletiva de texto teatral; até agora, o seu repertório teatral se restringiu à montagem de textos de autores estrangeiros, entre argentinos, franceses e norte-americanos. A proposta do grupo, pelo que tudo indica, é apresentar textos teatrais nunca encenados no país, e isso tem resultado, sem dúvida, na montagem de bons espetáculos.
O grupo, criado em 2005, em Brasília, tem como proposta de trabalho “a pesquisa de novas dramaturgias com foco no trabalho do ator”. Para quem acompanha a sua trajetória profissional, isso fica bem claro: os atores e atrizes são levados a representarem com sutileza e densidade, expondo, desse modo, a complexidade da alma humana. Os textos escolhidos, geralmente marcados por uma estética minimalista, sem muita pirotecnia, carregados de lirismo e força dramatúrgica, induzem a esse tipo de representação, na qual o ator ou a atriz, num tom quase naturalista, deixa vazar toda a dimensão humana da personagem. Nesse tipo de encenação, cada gesto, cada palavra, cada expressão facial é importante, obrigando a plateia a acompanhar, com a máxima atenção, a ação que se desenrola no palco.
Sob a direção de Guilherme Reis, também coordenador do Cena Contemporânea – Festival Internacional de Brasília, o grupo, formado por experientes atores e atrizes brasilienses (Chico Sant’Anna, William Ferreira, João Antônio, Sérgio Fidalgo, Murillo Grossi, Carmem Moretzsohn, Adriana Lodi e Bidô Galvão), já levou aos palcos de Brasília e de outros estados brasileiros peças de reconhecido valor dramatúrgico.
De autores argentinos montaram “Dinossauros” e “Fronteiras”, ambas de Santiago Serrano (assisti à peça “Dinossauros” e sobre ela fiz uma resenha que será apresentada ao final desse texto), e “Varsóvia”, de Patrícia Suárez.
Em 2010, levaram ao palco a peça “Heróis – O caminho do vento”, do francês Gerald Silbleyras. A história de três ex-combatentes de guerra (René/Gustavo/Fernando), que vivem num asilo para idosos, sob a rígida direção de uma freira, é caracterizada pelo tom dramático, irônico e lírico ao mesmo tempo. É comovente assistir ao cotidiano desses três indivíduos, já à espera da morte, mas que, em determinado momento, sob a ameaça de uma mudança na rotina do asilo, planejam uma fuga. “Heróis” é, como diz a sinopse da peça, “… uma experiência de amizade. Amigos são os heróis que ajudam a vencer batalhas da vida”.
Cena de Heróis / Foto: Divulgação
Em 2011, o grupo levou à cena a peça “Bagatelas”, da norte-americana Susan Glaspell. O texto da dramaturga norte-americana, escrito no início do século XX, surpreende e comove pela atualidade do tema (a violência contra a mulher) e pela simplicidade da trama, que é, ao mesmo tempo, capaz de revelar as sutilezas da alma feminina e o universo das mulheres no final do século XIX. Mostra, em suma, as diferenças de percepção da realidade entre mulheres e homens. O enredo da peça pode ser resumido desta forma: “Numa casa de fazenda do interior dos Estados Unidos, no início do século 20, ocorre um crime. Um promotor, um delegado e o fazendeiro vizinho são chamados a investigar. Eles levam suas esposas. Enquanto os homens procuram as pistas do assassinato, as mulheres ficam na cozinha, observando o cotidiano da casa, analisando, através das bagatelas, o que pode ter acontecido”. Através desse olhar minucioso, num ambiente que elas conhecem muito bem, chegarão à solução do crime, ou melhor, às causas do crime. E o que elas farão com essa informação? É preciso assistir a essa peça maravilhosa para se entender a decisão tomada por essas mulheres. E aí está a grandeza da arte: a capacidade de nos fazer mergulhar nas profundezas da alma humana e de nos revelar os meandros das intricadas relações sociais.
A montagem mais recente do grupo, em 2013, trata-se do texto “Inventários – O que eu guardei pra você”, do dramaturgo francês Philippe Minyana. Mais uma vez confirma-se a preferência do grupo por textos curtos, minimalistas, mas de impacto pela densidade do tema, da linguagem e da interpretação dos atores e das atrizes. Esse é um texto no qual a palavra e a memória têm uma grande importância. É através do jogo de se revelar, de se expor diante de uma plateia (trata-se, no caso, de um reality show), que a história se desenvolve. “Inventários é um jogo em que o apresentador leva as personagens a compartilhar suas vidas com o público, confessando suas dúvidas, ansiedades, angústias e momentos de felicidade.” Essa peça de Philippe Minyana fez grande sucesso na França, sendo transformada em série de televisão e documentário para o cinema. Talvez por abordar temas caros aos franceses, como a vivência da guerra, ela tenha repercutido tanto lá. Das montagens do grupo a que assisti até agora, essa foi a que menos me agradou. Quando parece que a ação vai sair do “monólogo construído pela memória” e as personagens vão começar a interagir entre si, num embate, a peça acaba. Talvez a culpa seja apenas minha, ao esperar sempre por um grand finale, e pode não ter sido essa intenção de Minyana. A história acaba quando acabam as revelações, ou quando o apresentador, em estilo histriônico, acha que já é tempo de encerrar o programa.
“Dinossauros”, de Santiago Serrano, entrou em cartaz novamente no final de 2012, em Brasília, e pude então assistir à sua apresentação. O meu ponto de vista sobre o espetáculo está no texto apresentado em seguida.
UM TEXTO SIMPLES E COMOVENTE
A peça ‘Dinossauros’, do dramaturgo argentino Santiago Serrano, é de uma simplicidade total: apenas dois atores em cena, um cenário despojado, poucos objetos de cena (um banco de praça, um acordeon, uma sacola, uma garrafa de vinho, talheres), um único foco de luz (sugerindo a luz de um poste), pouca movimentação e diálogos marcados pelo coloquialismo, pelo tom bem natural. Um espetáculo que se sustenta, principalmente, na palavra e na atuação dos atores. Nesse caso, na belíssima atuação do ator Murilo Grossi e da atriz Carmem Moretzsohn, ambos de Brasília e do Grupo Cena. Vale ressaltar, aqui, a segura direção de Guilherme Reis, sem destoar do ritmo que o texto exige.
Cena de Dinossauros / Foto: Mila Petrillo
O que assistimos, em apenas uma hora de duração do espetáculo, é a vida acontecendo, no palco, com expressiva naturalidade: um homem e uma mulher se encontram em algum lugar da cidade, tarde da noite, e, a partir daí, vão se aproximando, dando cabo da solidão e do medo. Tudo isso se dá entre silêncios, risos, tentativas de fuga, de recuo e de reaproximação. O encontro entre dois, cada qual com suas cicatrizes e seus sonhos, vai se consolidando aos poucos, num transe lírico (quase dionisíaco num momento), na medida em que vão se desnudando, se revelando, se entregando. O que acontecerá depois, assim que o dia chegar, ninguém sabe: aos dois fica a certeza de que estão vivendo um momento intenso, que os arranca da solidão e do vazio. Se vai durar, impossível saber. Há a vontade de que dure, e isso já é um começo. Para os espectadores, como ponto de identificação, fica, talvez, a torcida para que continuem juntos, curando-se das suas feridas. Eis aí um texto simples na sua tessitura, mas de significado muito profundo.
Essa montagem da peça de Santiago Serrano, pelo Grupo Cena, já está em cartaz há bastante tempo e foi apresentada em vários locais do Brasil, sempre com muito sucesso. Aqui em Brasília, voltou a ser encenada e ficou em cartaz, no Teatro Eva Herz da Livraria Cultura, Shopping Iguatemi–Lago Norte, até o dia 25 de novembro. Para os que não tiveram a oportunidade de assistir a esse belo e comovente espetáculo teatral, fica a torcida para que ele volte a entrar em cartaz.
(Geraldo Lima é professor, escritor, dramaturgo e roteirista. Tem alguns livros publicados, dentre eles Baque (contos, LGE Editora), Tesselário (minicontos, Selo 3 x 4, Editora Multifoco) e Trinta gatos e um cão envenenado (peça de teatro, Ponteio Edições). É colunista dos sites O BULE e Portal Entretextos. Colabora com o Jornal Opção, em Goiânia, e com o Jornal de Sobradinho. Bloga ainda em Baque)
deixa eu entrar nesse mundo estranho de flores letárgicas e comprimidos que causam rupturas. tenho um par de botas e uns truques sujos na manga caso você precise gritar entre os girassóis. antes me diz quem te assustou o olhar, te viciou no corrosivo, deu o clique. deixa eu fazer parte desse enredo enérgico: também sinto medo e bebo até o chão virar gelatina. adoro tua tristeza na areia da praia, as canções das máquinas binárias, a maneira febril do teu cabelo no rosto. seja generosa comigo e deixa eu participar da tua festa no gelo, dos teus joguinhos extremos no quarto escuro, do silêncio repentino dos homens e das coisas um pouco antes do mundo explodir. ao redor só vejo vultos fossilizados e fui atraído pelo frio. há algo confuso, um descontrole e mágica assassina quando tu passas incendiando os prédios centrais. bebe um conhaque comigo, fique parada com cara de fada louca bem na minha frente. vamos nos divertir agora que é setembro, antes que o sangue esfrie e a gente vire esse jardim grotesco, esse horror que todo mundo é.
***
diga adeus antes de ir embora
não me ame com sangue debaixo da unhas, com ódio nos dentes, com venenos finos nos olhos, na ponta da língua. não atire nosso prato de yakisoba caseiro no chão da cozinha, não cuspa as canções do kurt cobain na minha cara, não grite na fila do banco que me quer morto em pedacinhos. não seja hostil com os garçons da madrugada, não rasgue nosso retrato do dia perfeito, não desligue o telefone e nem bata a porta dizendo palavras cruéis. não vire santa prus cadáveres dos subterrâneos. não me deixe fritando na festa dos canibais. perdão se não sou e nunca fui o príncipe-fodão que você sonhou olhando a tempestade cair no seu jardim dos horrores. perdão se bebo muito e não distribuo sorrisos nem frases de efeito relaxante pra rapaziada da intelligentsia. sinto tudo, sinto medo, sinto muito e vivo dentro do meu bloco de gelo com meus demônios fazendo festinha no peito. então não me beije com rancor, não me derrube da cama, não morda meu pau, não me foda por vingança, não me arranque o coração, não me faça sangrar e não precisa empurrar porque já estou saindo.
***
brasa
essa garota que anda por aí incendiando avenidas, destruindo linguagens, derretendo estruturas, me pegou de jeito, pegou gostoso. também só queríamos beijo na nuca, amasso em toda curva escura, coisas do corpo e outros hipnóticos. por exemplo, se me perguntarem o nome dela eu digo saliva, língua, navegação. tem esse sabor de sal e pétala nos seios de mamilos bizantinos, esse cheiro de nicotina e oceano atlântico nos cabelos desestruturados, canções de aretha franklin e afundo. vejo nuvens carregadas de eletricidade e desejo, clarões púrpuras no escuro céu e o corpo segue formigando na onda que é quente quente quente. ela dança no fogo, encantada. com os braços abertos, inventa os passos com o cabelo no rosto, voa. estamos no impossível. no nosso circuito fechado: ninguém nos toca. ninguém nos vê e nos divertimos pelos extremos. claro, no mundo tem ioga, homeopatia, hipócritas e suicidas. mas caímos na abundância, no mergulho na brasa rubra. combustão é o nome da coisa. então amanhã a gente discute o medo e o porvir. fala de dinheiro. arma um esquema perfeito. hoje, porém, só o caos selvagem, a boca no pau, língua e lábios em colisão. hoje, agora, só o corpo, o fogo, o que for bom.
(Jorge Mendes é formado em história, “quase” pós-graduado em teoria da comunicação pela eca-usp (abandonou o mestrado pra viajar por aí), avesso a qualquer tipo de glamour, leitor voraz de brautigan, amante do vinho e da cachaça, pede pouco e recebe na cara e nunca tem ninguém por perto quando bate a vontade de cortar os pulsos)
Disseste ou escreveste milhões ou muitos milhares de palavras. E deve haver nessa nebulosa uma estrela que seja a tua. Não a saberás nunca.
Vergilio Ferreira
Vai e diz
do quanto sopro morno dito em vão
[e de acordo com a ciência houve
por breve sopro no peito astro!],
da parte, da cor
dos quantos quatro cantos do dia
que não te inventam já
não combinam,
como à dor do dente sem raiz
como à ilha que te represa
ao sol posto sobre a mesa, envenenado
sem país, sem sul norte, vai
antes que seja interminável a manhã,
vai, parte
parte a parte que te condena
já veneno do sabor
da cor do coração,
já tremor
da terra que te atrapalha, e parte
o passo onde o pé te tropeça,
antes que seja dia de mais, a mais.
Deixa para trás
o dia, voa, cai
vai e diz, e
faz do traço do giz o tronco
da voz, a quase fronteira
quase pressentimento
dum eu inteiro, corpo presente
estranho equinócio de ninguém,
vai, vem, diz ou
como quem diz,
parte!
***
Já fui astro sem abrigo
Para Helena Terra
Sabem-me a mar as mãos que em mim derramam
o traço de giz, o fecho do circulo que me abriga
repousado na terra, o corpo do corpo recolhido no chão
[e que não se faça dia, ainda não!]
que cuidam-me da luz que se adentra em astro que já fui
pela porta no sol alinhada, bordada raiz onde também se envelhece o coração.
Sabem-me a manto, as emendas provisórias na linha da vida
essas rugas mãos de tecido frágil e fugaz,
que apesar do silêncio, quase murmúrio, quase espinho
do eu que em desalinho, não finjo, não sou capaz.
Já silêncio, ao primeiro canto da terra, às raízes do chão em giz derramado
no círculo que me adormece,
[talvez luz, talvez dia o dia que acontece]
sabem-me a mar essas mãos, eu não.
***
Instante
Ainda há tempo,
ainda há barro e pedra,
grão da negra terra feita chuva,
para construir,
a tão urgente, a grande nuvem
de papel vegetal,
agora
que ainda há vento
e aprendizagem do caminho
que invento, devagar.
Ainda há tempo,
ainda há por cosmo um lugar
um peito adivinho e teimoso
na pegada do primeiro chão
que invento
devagar,
nas formas do céu em linho
o corpo da ave, o movimento
do rio que na nascente se demora
em água anis,
e também
o que no mundo se faz ventre,
a nuvem dum céu que não erra,
que havemos ainda
por tábua, por vidro, por pedra,
aqui e todo o lugar, o mais além
onde ainda há tempo
para construir, a tão urgente
a pedra mole
que bate dentro,
desigual
e para tal, haja a vontade
porque ainda há tempo.
***
Um Anjo Nasce
Para André Mehmari, com admiração
Em certas manhãs que na medula
dum espinho
na água e no sal,
no linho
remendado no sopro das cinzas
revolvo do chão
como se fosse corpo,
o canto da terra
e então um anjo nasce.
Em certas manhãs
e apesar das águas abruptas, tão calmas
como palavras
da palavra, da raiz o saliente silêncio
primeira comunhão
antes que se faça azul
o dia coração
branco ou negro, cinza rosa velho baço,
devolvo insignificante, o corpo
ao nome que me já não sei
e ao mundo, e no mundo
quer eu queira, quer não
um anjo nasce.
***
Como quem diz um homem, por vezes poeira frágil
Em cada homem há uma viagem para um planeta longínquo… (Para os pobres é a Terra.)
Em cada homem, José Gomes Ferreira
o que haverá de prender o homem ao chão que pisa, quase nada
ou como quem diz um passo de passo, já da brisa vento breve sobre a terra, quase
fronteira, quase fronteira, quase nada
ou como quem diz da viagem, a poeira frágil quase pegada
do astro que no homem se teima, chão momento, vão finito
como quem diz corpo urgente, corpo do dia madrugada, quase
tinta clara na página breve do mundo, diria, esboço primeiro
ou como quem diz, um homem por vezes poeira frágil
guardador de infinitos, margens e ventos, como quem diz
se há outro eu, eu sou a viagem.
(Aquele que se assina como Leonardo B., nasceu em Lisboa. Sem “linhas mestras” bem definidas, construiu parte da obra poética sob o apelido de Ricardo S. Desse período constam colaborações irregulares com o DN Jovem. Mais tarde colaborou no das artes e das letras, suplemento cultural de O Primeiro de Janeiro, até à reformulação daquele suplemento. Só em 2009, com a criação do seu primeiro blog, Na Linha das Fronteiras, e mais tarde a Barca dos Amantes, chega a uma mais ampla divulgação, e por opção, não editou até esta data em formato de livro… o que crê que possa acontecer no próximo ano)
Entre nós, o pó da estrada demanda as coisas visíveis e um sem fim de incertezas. Ao longo das sinas, os homens movem antigos costumes, prestando-se ao ritual das horas, certos de que seguir adiante é parte de uma rotina que não se explica cartesianamente. As faces se desnudam na roda viva de missões e preces silenciosas. Outras paragens se descortinam.
O fotógrafo baiano Peterson Azevedo testemunha de perto o nascimento desses novos territórios. O modo como homens e lugares se fundem é trunfo especial de seu ofício. Sua capacidade de observação do real sugere um acesso diferenciado a um mundo de acontecimentos singulares. E poder trazer à tona o que se oculta poeticamente nas mais diferentes trajetórias de vida encerra-se em verdadeiro achado.
As lentes do artista dão vazão ao surgimento de novas dimensões da existência. Não importa apenas o registro físico das representações de mundo, mas principalmente o que se pode vislumbrar a partir dele. Assim, somos apresentados a uma série de sentimentos, refletindo aspectos que coexistem despercebidos na rotina de seus observados.
Foto: Peterson Azevedo
Imerso no ambiente popular, Peterson se depara com relatos particulares de vida, evidenciando, fundamentalmente, o caráter étnico das relações humanas. Sua formação de geógrafo lhe permite transpor para as lentes reminiscências de acontecimentos tanto vividos quanto imaginados. Ao transitar por territórios dotados de características próprias, procura se distanciar de noções viciosas ou até mesmo de preconceitos. Importa ver o outro como um interlocutor de seu trabalho e jamais um mero elemento alegórico de composição.
Adepto de livres escolhas, o artista não credita ao viés documental a condição de única via a seguir. Prefere se desvencilhar dos lugares preestabelecidos e, desse modo, ampliar sua noção de territorialidade. Com isso, outras perspectivas de pertencimento são geradas, todas elas advindas dum olhar que em nenhum trecho da jornada negligencia a sensibilidade.
Foto: Peterson Azevedo
* As fotografias de Peterson Azevedo são parte integrante da galeria e dos textos da 80ª Leva.
Ergue-se um caminho especial quando um autor abraça as questões de seu tempo. A impressão que fica é a de que sua obra ganha uma dimensão algo mais ampla, pois amarra os dotes da subjetividade ao testemunho vivo e prático de um processo histórico que se constrói no dia a dia. Essa capacidade de observação da realidade a serviço dum exercício literário adquire corpo novo a partir do momento em que seus porta-vozes não se deixam levar pelas armadilhas de um discurso vazio e demagógico.
Entre nós, é verdadeiro achado descobrir quem o faça com habilidade e, sobretudo, sensibilidade. Ao percorrermos a obra de uma escritora como Rita Santana, temos a convicção de que o ato de maquinar palavras rompe barreiras meramente estéticas e assinala olhares bem lúcidos em lugares tidos como viciosamente preestabelecidos. Na construção de seus versos, Rita, ao mesmo tempo em que entoa seu lírico canto por sobre o novelo delicado da existência, sabe como poucos bolinar feridas tradicionalmente marcadas a ferro e fogo em nós. Sem levantar bandeiras despropositadas ou qualquer tipo de comportamento panfletário que o valha, a poeta, atriz e também professora ambienta seus cenários tendo como guia uma precisa e afirmativa veia feminina.
A condição de mulher aliada à de escritora fez com que Rita Santana ousasse acertadamente transpor barreiras de toda a ordem. Desde muito jovem, essa baiana, nascida nas paragens de Ilhéus, devotou atenções às questões que permeavam o entendimento de seu papel no mundo. Nomes como Rachel de Queiroz, Simone de Beauvoir e Clarice Lispector, dentre outros, serviram-lhe de guias na formação de uma consciência representativa do universo feminino. E a passagem do tempo mostrou que a autora de livros de poemas como “Tratado das Veias” (As Letras da Bahia – 2006) e “Alforrias” (Editus – 2012) vem ocupando um lugar cada vez mais consistente no universo literário. Sua estreia em livro se deu com os contos de “Tramela” (Fundação Casa de Jorge Amado), pelo qual recebeu o Prêmio Braskem de Cultura e Arte – Literatura, em 2004. Nessa entrevista, Rita dá um verdadeiro testemunho dos processos que lhe tornaram escritora, reflete sobre o papel da mulher na atualidade, enfatizando a força que sua visão feminina de mundo empresta à gestação de suas palavras. É ler para crer.
Rita Santana / Foto: Edgard Navarro
DA – Seu caminhar poético, tanto em “Alforrias” quanto em “Tratado das Veias”, assinala um olhar carregado pelas marcas da existência. Ao mesmo tempo em que evoca delicadezas e traços sensíveis, promove embates entre carne e alma. O que dizer desses percursos que nos atiçam os sentidos?
RITA SANTANA – A existência atravessa as minhas preocupações desde os primórdios. Adolescente, ainda, decorei Essa NegraFulô de Jorge de Lima e recitava aqueles versos sempre. A denúncia e o teor de resistência já mexiam com a consciência precoce da minha identidade. Fernando Pessoa estava por lá e me afetou muito cedo com o seu questionamento sobre Deus em O Guardador de Rebanhos. No mesmo período, Neruda – eu tinha 12 anos – estava comigo. Cem Sonetos de Amor foi o primeiro livro de poesia que tive e que me deixou marcas líricas muito profundas. Ainda nesse período, Dôra Doralina, de Rachel de Queiroz, fez uma revolução grande em todas as minhas certezas, pois trazia uma representação feminina muito vigorosa, ousada, cheia de desejos e de subversões. Lá, encontrei uma mulher dona de si, senhora do seu corpo, da sua vida, além da demolição completa da família. Tudo muito revolucionário para uma menina e tudo aquilo dinamitou o mundo pronto e formatado em que eu existia. Mais tarde, Clarice Lispector me ajudaria a descobrir que a inadequação, medos, angústias e preocupações, pertinentes ao universo feminino e humano, poderiam ser a matéria-prima da minha literatura. OSegundo Sexo, de Simone de Beauvoir, já estava em minhas mãos desde 1989, quando eu era uma jovem de 20 anos, e já manifestava minhas insatisfações em relação ao existir como mulher nesse mundo, posto que já havia em mim a revolta contra os lugares preestabelecidos para serem ocupados pelo gênero feminino. Os dramas de ser mulher e negra numa sociedade racista e machista também já se debatiam dentro de mim em todas as relações sociais, acadêmicas, amorosas, artísticas, familiares. É impossível não ser afetada por essas questões. A minha casa foi o primeiro espaço de constatações e de contestações. A escrita veio, portanto, como arma, como contradiscurso necessário para que eu assumisse o meu posicionamento político e poético no mundo.
Há repressão também na linguagem da mulher e sempre me rebelei contra essa violência. Em Tratado das Veias, por conseguinte, por ser um livro que obedece – principalmente nos primeiros momentos do processo criativo – ao fluxo de consciência, esses questionamentos existenciais são mais contundentes e o erotismo mais agressivo, mais urgente. A literatura que faço tem um compromisso fundamental com a beleza. Acredito que haja nas páginas do Tratado um lirismo abundante, permeado pelo erótico e pela mulher política em que me transformei. Otávio Paz, em Amor e Erotismo, diz que “a relação entre erotismo e poesia é tal que se pode dizer, sem afetação, que o primeiro é uma poética corporal e a segunda, uma erótica verbal”. A minha linguagem poética busca exatamente esse diálogo entre um corpo e uma língua completamente libertos, cujos símbolos são transmutados em favor da sonoridade, da imagem, do belo, da delicadeza e do inusitado dessas combinações. O prazer sexual sempre foi uma forma de resistência, alvo de perseguições e ele está atrelado ao grande tema dos meus poemas que é o Amor. O Amor é imprescindível a minha escrita porque também sou romântica e, num processo consciente, o desconstruo porque o questiono e sei da sua natureza perversa na construção da independência e da libertação feminina – muitas vezes.
A poesia é o espaço da rebelião da linguagem, onde ela se nega a servir simplesmente ao convencional, ao lógico da língua, das regras. Sou muito simbolista, pois tocada pela sonoridade, pelos sentidos sinestésicos da existência. Sou aquela que vê no símbolo o exercício de uma experiência onírica, musical. Essa marca herdei também de Cruz e Souza: vozes veladas veludosas vozes, cuja impressão sempre me perseguiu. Sou – também eu – uma Emparedada. A poesia é o espaço da libertação dos sentidos e as aliterações, cores, odores e os processos metafóricos me perseguem. Quando atrelo o poético ao erótico, a feitiçaria inunda o espaço do poema e da existência. Em O Arco e a Lira, Otávio Paz já tocava na experiência da litania. Esse ebó, essa hóstia, essa festa onde o profano e o sagrado comungam da mesma linguagem, do mesmo rito, do mesmo banquete, da mesma oferenda, num único cântico. O poema é o lugar onde carnes e êxtases, palavras adormecidas e imagens se confundem. E o amor pode ser libertação e a poesia, alforria. Alforrias é o resultado dessa busca, dessa tentativa de ser liberta e atrair palavras e sons alforriados.
DA – Você trabalha a questão do feminino de um modo deveras especial, sobretudo como objeto de contestação a certos valores negativamente arraigados em nossa sociedade. Chama atenção mesmo é o fato de seus versos não reverenciarem o amor servil. Como conceber o amor num tempo em que parecemos tão carregados de contradições e alguns retrocessos?
RITA SANTANA – O amor é uma grande armadilha! A nossa formação folhetinesca é deformadora. O amor romântico – cujas raízes estão no amor cortês do século XII – ainda hoje ronda o nosso imaginário. Há um bombardeio social de fórmulas e idealizações amorosas dificilmente praticáveis na vida real, mas, muitas de nós, alimentamos essa ilusão, mesmo reconditamente. Entretanto, a vida é muito severa e cobra posturas da mulher para que ela resista e imponha – já que a negociação nem sempre é possível – o seu pensamento e as suas decisões diante do Outro. A primeira imposição que se estabelece é a da liberdade e ela nem sempre é azul. A liberdade é vermelha, feita com lágrimas, sangue, suor, trabalho, estudo e muitas rupturas. No relacionamento amoroso essas cisões são inevitáveis, visto que a liberdade financeira e o olhar para os nossos próprios desejos são incompatíveis – em alguns relacionamentos – com as expectativas masculinas em relação à mulher.
A nossa sociedade é profundamente machista. Até num barzinho, observa-se a insistência de alguns homens em dominarem a conversa, monopolizando o discurso e ignorando as tentativas de interlocução das mulheres. Nas ruas da Bahia, a grosseria e as ofensas com cunho pornográfico são tão frequentes que já fazem parte da paisagem. Propaga-se a cada dia o sintoma patológico de agredir – verbal e fisicamente – mulheres sem quaisquer cerimônias. Nas nossas ruas, homens dirigem olhando traseiros e nos lançando palavras obscenas, atrapalhando o trânsito e também o transitar do respeito e da liberdade. Daí a importância real da Educação, da introdução dos Estudos de Gênero na formação das educadoras, da sua valorização salarial que, ainda hoje, é prática discursiva circunstancial e eleitoreira. Políticas públicas mais efetivas para a libertação financeira da mulher colaborariam efetivamente para a redução da violência física e verbal contra elas, principalmente nos seus santos lares.
A mulher que ocupa os espaços públicos enfrenta, no território amoroso, a difícil arte do convencimento, da lógica, da dialética constante, do ciúme e das negociações. No terreno privado, o controle é muitas vezes masculino, principalmente quando há domínio financeiro. O amor não é uma instituição neutra, onde prepondera o sentimento e o desejo de estar com o Outro. É um terreno onde vivenciamos todas as mazelas sociais. É uma construção social que lentamente desmorona para muitas pessoas, principalmente as muito ávidas, sequiosas de liberdade, de espaço, de reflexão e de felicidade. O homem ainda não consegue encarar o discurso da mulher, pois – segundo Maria Rita Kell – a fala representa simbolicamente o falo e isso apavora. Algumas pessoas conseguem vivenciar o amor romântico, encontram seus pares e, ainda que enfrentem uma série de dificuldades e obstáculos na convivência, estão determinadas a seguirem o projeto romântico de felicidade. Essas são as consideradas felizes, plenas. Só suas consciências o saberão.
A janela era o espaço – no século XIX – do único diálogo entre o mundo privado e o público para a mulher. À mulher era destinado o espaço privado. Já pulamos a janela, invadimos as ruas, principalmente as mulheres negras que anteciparam essa invasão há séculos, devido à sua livre penetração em espaços proibidos às brancas. O trabalho nas ruas do Brasil escravocrata foi também uma espécie de alforria. Novas janelas são abertas hoje, mas desmontar, no nosso imaginário, essas construções que já viraram ruínas é muito difícil, e não apenas para o homem, que precisa repensar o seu lugar no mundo e na vida da mulher de hoje. É também complexo para nós – mulheres – que observamos com lucidez o fenômeno amoroso. Raciocinar o amor é necessariamente desconstruí-lo, destituí-lo da sua edificação romântica e começar a reinventar uma vida longe dos velhos clichês. O Amor está ruindo para muitos. Restará o desejo de realização com o Outro, mas não no outro, certamente.
Meus versos devem perturbar alguns homens, pois a estratégia de resistência da minha escrita é provocar reflexões e expor que também somos absolutamente humanas, sexuais, eróticas, livres, possuidoras do Verbo e desejosas de felicidade. Meus versos buscam esse amor idealizado, mas o desnudamento faz-se necessário. É preciso denunciar a covardia de homens diante de mulheres que tomam o verbo como instrumento de reflexão, de análise do cotidiano e da sociedade. Acredito que muitos amores tenham se perdido diante do medo masculino em ceder a alguns dogmas, convicções, pressupostos, por isso abdicam de mulheres poderosas ao seu lado. Vê-se em estatísticas o índice de divórcios entre casais em que as mulheres galgam níveis acadêmicos mais elevados. O estabelecido é que a mulher ocupe o papel passivo daquela que está em casa para apoiar a ausência do marido, enquanto ele cresce. Apoiá-lo na volta ao lar diante da sua traição, apoiá-lo durante suas crises existenciais que abalam o relacionamento. O oposto não é aceito! A mulher que trai ainda hoje tem que viver inquisições medievais.
Não há retrocessos! Estamos buscando, aprendendo, e a experiência amorosa é muito pessoal e cheia de conflitos, contradições, paradoxos de toda ordem. O amor é diverso e o difícil é encontrar alguém que queira experimentá-lo da mesma forma que você, afinal cada um de nós é tão cheio de especificidades, idiossincrasias. É preciso viver cada um a sua forma, a sua descoberta – e isso às vezes leva décadas e requer muita coragem! Adorei ler algumas cartas de Simone de Beauvoir a Nelson Algren, pois desfiz a ideia de que Sartre fosse o seu grande amor. Amei ver Simone absolutamente humana, insegura, mulher amorosa, amante, e absolutamente apaixonada por outro homem. Devo retomar essas cartas algum dia. O fato é que nos apaixonamos! E a armadilha também pode ser maravilhosa, se houver cumplicidade, respeito e parceria. Caso contrário: “Aos demônios o cacete dos homens demasiadamente homens!”. (Alforrias, 57)
DA – Sua verve poética está impregnada do que você chama, em Tratado das Veias, de “eu sáfico”. É impossível dissociar sua voz dessa marcante simbologia?
RITA SANTANA – É impossível! Sapho é uma mulher impressionante e fundamental na minha escrita e na história da humanidade. A sua imagem acompanha muitos dos meus versos, principalmente em Tratado das Veias. No poema Ciúme, eu digo: “O que me resta é entrar na roda e tergiversar/Ou só versar, tocar minha lira/E virar Safo de mármore na praça de Ilhéus,/ Minha Lesbos abandonada.” Declaro-me sua filha no poema Anjos Negros: “são anjos cultos, sarcásticos, sacros somente nos altares. Nas minhas asas são libertinos, vorazes. E eu, filha de Safo, gosto muito.” Eu sou uma ilhoa, ilheense e na minha cidade natal – Ilhéus – há, na praça J.J. Seabra, uma belíssima estátua de Sapho que está lá desde 1924, portanto, a sua imagem é um ícone misterioso que sempre esteve a olhar para mim e a proteger os meus versos. Os meus poemas são sáficos porque sempre tive a necessidade de ter a lira para acompanhar o ritmo dos textos – inclusive da minha prosa – nessa busca por uma música invisível, insondável que tento buscar quando escrevo. Mesmo quando ausente em citações, a sua lira me acompanha. É óbvio que é a minha lira! Lira negra, não aristocrática – mas com tons clássicos – que se mescla à herança dos meus ancestrais, às suas cordas, às suas danças, às chiuhumbas de quatro cordas que meus parentes negros trouxeram da cultura africana com a diáspora, e que está no meu sangue.
Ela é a décima Musa proclamada por Platão. A sua insurgência em tempos tão remotos sempre me impressionou, apesar de não me sentir – em muitos aspectos da minha prática cotidiana – uma transgressora. De vez em quando, olho-me ao espelho e reconheço ser uma grande guerreira, mas, muitas vezes, sinto-me fraca, covarde, pequena, indigna. E Sapho simboliza essa mulher cuja obra resistirá ao fogo, ao tempo e à incineração católica que a sua poesia sofreu no século XI. Há um lirismo dramático em meus versos que vem da atriz, mas que também herdei dela, da sua ira. Assim como observo um desespero amoroso, uma insanidade passional terrível, um enfrentamento agônico diante de amores frustrados, impossíveis que estão presentes na minha escrita e na dela. Ela é dramática, suave, intensa e o ritmo dos seus versos é sedutor. A sua métrica admirável está a serviço da expressão e não o oposto, isso me encanta. Arrebata-me.
DA – Em que medida a sua porção de escritora converge com a de educadora?
RITA SANTANA – O conhecimento é imprescindível! Adoro aprender e conhecer coisas novas. Sou apaixonada por descobertas e a professora me proporciona essa experiência contínua. Os livros didáticos – escolhidos pelo corpo docente – já são mais interessantes, atualmente, com informações sofisticadas sobre arte, literatura, teoria, e isso me motiva bastante a divulgar e dividir tais conteúdos com os meus alunos, ampliando nossos horizontes. A leitura de mundo é marca indelével a minha prática. Eles – os livros – dialogam com o mundo inteiro e trazem informações que me seduzem, além de promoverem uma cumplicidade apaixonada entre os alunos – afinal um novo mundo é descortinado. Sou a mediadora desse processo mágico, perturbador, revolucionário. É prazeroso testemunharmos essa transformação – lenta – da escola pública brasileira. É uma verdadeira conquista o direito ao livro. Além disso, a minha cosmovisão, minhas leituras, experiências como atriz e paixões intelectuais oportunizam grandes encontros na nossa convivência pedagógico-passional. Pois, sem tesão, não há!
Estar em contato com os adolescentes traz também uma atualização permanente do português falado, recriado e reinventado a cada dia. Surpreendo-me com a criatividade linguística da juventude, sorrio muito e valorizo esse falar gostoso dos jovens. A escritora observa atentamente tais fenômenos. Às vezes, na sala de aula, surpreendo-me diante de algum texto, alguma referência desconhecida, alguma observação de um aluno. Vejo que a atriz, a escritora e a professora constroem uma harmonia com outras tantas Ritas que há em mim. Elas criam – juntas – um universo muito peculiar e criativo. O que escrevo é fruto dessas coexistências, desses desdobramentos.
Tive professoras de Português absolutamente indiferentes ao prazer da leitura, ao encontro com escritores e seus textos, aprisionadas que eram a uma gramática sem relação alguma com a descoberta da nossa Língua. Uma ortodoxia asfixiante e improdutiva que distanciava – e ainda distancia – o encontro do estudante com a Beleza. Precisamos da literatura em sala de aula para tornar o nosso aluno mais humanizado, mais sensível. Sinto, à medida que esse elo se estabelece, que temos cidadãos melhores, mais delicados no tratamento social, mais conscientes e mais gentis. A arte educa, informa, modifica. Por isso a responsabilidade de um país com a Educação é muito grande, afinal, somente ela poderá provocar fundamentais mudanças na sociedade. Vejo o potencial dessa transformação todos os dias. E o que vejo é um verdadeiro milagre, um pasmo essencial. Negligenciam o óbvio, enquanto isso, a violência nos atinge em todos os espaços. O professor Raimundão no meu universo adolescente foi capaz de promover o encantamento pela poesia em muitos de nós jovens, rebeldes e sequiosos de libertações, em Ilhéus. É um professor que tatuou o seu nome – através da poesia – em nossas almas, por isso é eterno.
Rita Santana / Foto: Edgard Navarro
DA – Não é difícil encontrar mulheres que incorporaram visões machistas, reproduzidas no comportamento ou nas ideias. O que, de fato, isso pode representar?
RITA SANTANA – Os Estudos Feministas sobre as Relações de Gênero são ricos em análises que elucidam as conexões de poder na sociedade. O desconhecimento desses processos históricos gera a naturalização do estabelecido. Precisamos divulgar nomes, biografias e a produção intelectual das mulheres que sofreram inquisições ao longo dos séculos. Estudar a colaboração perniciosa das ciências na difusão de mitos sobre a mulher, onde a própria loucura e a histeria eram atribuídas insistentemente ao gênero feminino, faz-se urgente para a transformação não apenas da ideologia dos homens e das mulheres, mas de toda a sociedade. Tudo passa necessariamente pelo investimento em Educação. Se fôssemos formados sabendo de mulheres como Nísia Floresta, que manteve uma relação afetiva e intelectual com Augusto Comte no século XIX, devido à sua extrema competência como pensadora e revolucionária, talvez tivéssemos mais respeito às mulheres que atuam nos espaços públicos, mulheres que produzem conhecimento. A omissão desses fatos nos livros didáticos fortalece o equívoco de que tais posições eram apenas ocupadas por homens. Gerações são formadas ignorando a luta e a presença de mulheres na história do País e da sua formação. As escolas deveriam divulgar a produção feminina do século XIX em paralelo com os estudos dos romances masculinos. Li Lésbia de Maria Benedita Bormann e aprendi com ela aspectos sociais do Brasil do século XIX nunca abordados pelos autores clássicos do período. A Editora Mulheres faz um trabalho de divulgação importante de muitas dessas personalidades que fizeram a História. Aqui na Bahia, é imprescindível conhecermos figuras como Jacinta Passos, divulgada inicialmente no livro da escritora Dalila Machado, A História Esquecida de Jacinta Passos, e Elvira Foeppel, estudada pela pesquisadora Vanilda Salignac S. Mazzoni no livro A Violeta Grapiúna Vida e Obra de Elvira Foeppel; Bárbara de Alencar, no Ceará. Publiquei alguns desses estudos e publico muitas escritoras no meu blog Barcaçasexatamente para contribuir, minimamente, com essa transformação. É um trabalho de formiga! Mas conhecimento e estudo não são suficientes, é preciso revolucionar a nossa forma de educar! Muita gente ilustrada resiste a admitir a necessidade de uma transformação nas mentalidades e no cotidiano das relações e nos acusam de machistas ou de mulheres-machos. As fogueiras ainda ardem e queimam a nossa carne! Entanto, Resistimos, Escrevemos!
DA – Somos um país de leitores subestimados?
RITA SANTANA – A leitura não é a única prioridade em minha vida. Adoraria que fosse, mas preciso trabalhar 40 horas para sobreviver. Eu me sinto exausta quando cumpro essa carga horária estúpida. Logo, preciso dedicar algumas horas ao vazio, ao nada para me recuperar e começar tudo de novo. Assim deve ser a rotina de muita gente trabalhadora no mundo. Leio quando há tempo, quando estou disposta e leve. Quando a leitura assim acontece, ela é plena e provoca desejos e projetos de escrita, desejos de outras leituras. Não sou uma obcecada por números de livros lidos durante o ano – como se estivesse em uma competição invisível – mas estou sempre atenta, iniciando leituras que às vezes demoro meses para concluir. Enquanto não leio livros, leio a realidade, ouço falas, músicas, discursos, paisagens, cores, movimentos, pessoas. O meu trabalho envolve livros e leituras diárias. Estive em Amargosa, na Bahia, para o lançamento do livro da professora Ana Rita Santiago Vozes Literárias de Escritoras Negras e, além do evento em si, que foi uma oportunidade de muitas aprendizagens e leituras, li muito a paisagem montanhosa do lugar e fiquei realmente deslumbrada. Não sai da minha cabeça a redondez daquelas montanhas.
Sempre que penso nas minhas leituras, incluo os filmes e as músicas, os compositores que formaram a minha personalidade, o meu estilo. Os livros são possibilidades – entre tantas – de leitura. Adoro cinema e também gostaria de ter mais tempo para assistir aos filmes do meu desejo. Adoro ir a exposições e museus e não encontro muito tempo para esses prazeres. Aguardo o metrô chegar até a Lauro de Freitas. Sou louca por fotografia. Tudo isso me tortura bastante, portanto, ler é um universo muito mais amplo. Ler o mundo, disse Paulo Freire. Ele esteve na UESC, a minha Universidade que fica em Ilhéus, e foi um verdadeiro acontecimento! O auditório foi incapaz de abrigar os seus leitores e ele teve que falar para uma multidão que se estendia infinitamente pelo Campus. Foi uma multidão de leitores apaixonados. Uma cena marcante, cinematográfica, maravilhosa. Lemos ali, os seus olhos, a sua postura, o seu magnetismo e a concretização do seu pensamento.
Quando estive na França, fiquei deslumbrada com o número imenso de pessoas que liam no metrô, nas ruas, em todos os lugares. Mas essa é uma construção cultural, uma conquista histórica. Quando – a cada ano letivo – trabalho com os meus alunos a ciranda de leitura, onde disponibilizo livros escolhidos por eles para que os levem para casa, o resultado é sempre um mundo de meninos e meninas envoltos em leituras durante as aulas vagas, as férias, os intervalos. A paixão é acesa e não se apagará. Oportunizar a leitura é essencial e ser um professor leitor, pesquisador é indispensável para a proliferação da leitura entre os jovens.
A Educação é que – de fato – precisa ser revista em sua completude, e muitos caminhos são abertos, mas tudo ainda é insuficiente porque há urgências seculares esperando políticas mais sérias. Muitas bibliotecas das escolas públicas estaduais e municipais na Bahia são tratadas com descaso: profissionais com problemas de saúde são jogados lá, como traças, sem quaisquer envolvimentos com a leitura, sem qualquer afinidade com o espaço. As nossas bibliotecas são depósitos em todos os sentidos. A biblioteca do colégio em que trabalho passa grande parte do ano letivo fechada, e isso há anos. Os problemas um dia serão resolvidos. Quando? Muitos já deixaram o colégio sem terem vivenciado esse momento, essa felicidade que não chega nunca em toda a vida. A nossa cobertura da quadra esportiva desabou devido a uma tempestade, há muitos anos. Agora a reforma está sendo feita – sem cobertura! Copa do Mundo, Olimpíadas e as atividades esportivas, e os espaços de leitura são um verdadeiro descaso no Brasil. As drogas, os traficantes e a violência invadem esses espaços vazios, essas lacunas e as vítimas somos todos nós. Eu leio muita coisa que me foi ensinada – também – pelos livros. Ler Gil, Caetano, Milton Nascimento, Gonzaguinha, Joyce, Fátima Guedes, Elomar Figueira de Mello, Dércio Marques, Elizete Cardoso, Dolores Duran, Legião, Titãs, Cartola, Chiquinha, Chico, Cazuza, dentre tantos outros, foram grandes aprendizados, grandes leituras.
DA – Há quem reduza o fazer poético a uma obstinada busca pela matemática dos versos, espécie de sustentáculo do algo puramente formal. Na outra ponta, existem os que defendem a utilização do verso livre de amarras mais tradicionais. Enquanto isso, grupos se formam e os debates se tornam acalorados e conflitivos. Não estaria a vaidade desmedida ocupando o lugar da boa discussão literária?
RITA SANTANA – O universo dos escritores é cercado realmente de muitas vaidades e competições. É um mundo excludente e áspero quando vivido muito intensamente. Os bastidores são cobertos de acusações contra aqueles considerados ruins, incompetentes, não escritores. Não acredito na solidez desses julgamentos, como não acredito no caráter de muitos desses escritores. Deixei de ler alguns deles devido à sua ideologia conservadora, declarada em entrevistas e em prefácios dos seus eleitos. Tudo isso é uma fraude. É uma grande tolice! Há espaço para todas as correntes no mundo e as tribos elegem-nas pela paixão, pela identidade, pelo pertencimento, pelo estilo que cada escritor apresenta. Ainda é preciso dizer: Abaixo os puristas?
Quando me sinto diretamente atingida em suas falácias classificatórias, aproprio-me do seu discurso e o transformo num poema metalinguístico. Transformo em verso suas maledicências estéticas prepotentes e afirmo a minha poesia desprovida dos sentidos esperados por alguns canonizados, consagrados, monstros sagrados da Literatura. Há ideologia em todos os julgamentos, portanto, nada é puro e nenhuma verdade é única, absoluta. O talento ou a competência não são os únicos fatores que determinam a sorte de um escritor. Os mecanismos da crítica e do cânone já foram denunciados, revelados e não é mistério para ninguém a rede de articulações e interesses que envolvem o reconhecimento ou a legitimação de um escritor, como também a sua invisibilidade. Por isso, é primordial para quem escreve não sofrer por ser preterido aqui ou acolá. É uma aprendizagem difícil, mas eu não escrevo para escritores, eu escrevo para me curar de mim mesma e dos meus males, das minhas dores e dos conflitos que me atordoam. Escrever é uma necessidade de aproximação com o Belo (e quantas facetas essa entidade possui) e é uma necessidade física de expressão.
Vivemos um momento tão rico da Literatura, onde muitos escrevem, publicam, divulgam seus textos e há sempre uma tribo que os queira, que os leia, que os legitime. Qual a importância dos rótulos? O movimento é muito rico e como é prazeroso trocar figurinhas com escritores que não ocupam o seu tempo com classificações ordinárias. O problema que atinge os escritores é o mesmo problema social das elites brasileiras, ou seja, não suportam dividir o título de escritor e seus lugares sagrados com pobres mortais desconhecidos, negros, mulheres, oriundos das classes populares, com seus erotismos exacerbados. Entretanto, as políticas afirmativas estão aí, os mecanismos de escrita e divulgação também tomam espaços cada vez maiores e a convivência entre estilos só pode ser festejada. Métrica? Não métrica? Como leitora, aprecio um poema quando ele me atinge pelo que julgo e sinto poético. Os velhos sapos não conseguirão impedir a construção social mais igualitária e menos discriminatória da sociedade brasileira, inclusive na Literatura! Tornam-se, dessa forma, anacrônicos parnasianos que fazem do seu julgamento estético – que é pessoal, subjetivo, ideológico – uma sentença inquestionável!
Percorrendo estantes de uma livraria outro dia, ouvi duas senhoras distintas conversando, e uma delas disse: também… todo mundo agora é escritor! Pois é! Escrever não é mais um ato destinado aos deuses e privilégio de uma elite intelectual e econômica ou de uma etnia! Essa constatação perturba muita gente. E é justamente isso que possibilita podermos entender e conhecer o universo de Maria Carolina de Jesus, afinal, Clarice Lispector não me daria a amarelidão da sua fome, as estratégias da sua sobrevivência, a poesia negra, lírica e política dos seus cadernos. Clarice me deu muitas outras coisas. Como é bom perceber o fôlego religioso e lírico de Lívia Natália ou os arroubos dialógicos e eróticos elaborados por Daniela Galdino. A poesia cotidianamente existencial de Martha Galrão ou ainda as sinestesias telúricas e límpidas de Lita Passos. O leitor está aí para fazer suas escolhas. E ele o faz e surpreende. Aos demônios as penas absolutistas também!
DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?
RITA SANTANA – Na verdade, considero muito esdrúxulo classificarmo-nos de pós-modernos diante de um quadro de intolerância tão grande no mundo e na literatura. Acabo de participar de um encontro numa Universidade da Bahia, onde um grande e reconhecido escritor fez questão de desqualificar a literatura atual e chamar de bocó qualquer literatura que se denominasse negra. Isso ocorre na Bahia, mas no plano nacional acabamos de testemunhar – atônitos – o texto de Ferreira Gullar sobre a inexistência de literatura negra e a resposta fabulosa que Cuti lhe dera. Como admitir o pós-moderno, se o sentimento de pertencimento ainda é ignorado ou desprezado pela sociedade e esse tipo de postura é aplaudida por jovens universitários e seus professores? É bizarro! Posicionamentos étnicos e de gênero continuam sendo desprezados por intolerantes legitimados, canonizados.
O sistema de transporte público coletivo – mesmo em tempos de Copas – persiste em sua condição de inexistência ou de precariedade e sujeira. A estação da Lapa, em Salvador, continua o mesmo horror de insalubridade e abandono. O formato das escolas, presídios, hospitais: tudo permanece. O ponto de ônibus do Aeroporto Internacional de Salvador – que deveria ser Dorival Caymmi, Jorge Amado ou Dois de Julho – tem o mesmo tratamento imundo que qualquer estação rodoviária recebe dos poderes públicos na Bahia. É duro ser cidadão pobre no mundo inteiro, mas na Bahia é duríssimo! Só há tratamento estatal, preocupação com a higiene e o belo nos locais onde circulará a elite.
Penso em Gregório de Matos, que viveu um período de profundas transformações e expressou esses paradoxos em sua obra lírica, satírica e religiosa. Também vivemos em tempos paradoxais, barrocos numa Bahia que já principiava a viver sua globalização desde lá, entretanto, assistimos ao nosso patrimônio desmoronar cotidianamente. Igrejas abandonadas, artistas esquecidos, abandono da memória, sobrados queimados que desaparecem todos os dias. O que pode haver de pós-moderno em tudo isso? A Jornada de Cinema da Bahia – idealizada por Guido Araújo – que deveria ser tombada como patrimônio imaterial da Bahia ou do Brasil – ou qualquer coisa que o valha – vive o seu fim sem que haja interesse dos poderes públicos para a sua permanência.
Como, pois, denominar de pós-moderna uma sociedade em que não há ainda saneamento básico numa cidade como Lauro de Freitas? Vivemos há anos aguardando os serviços de uma verba nacional – que já foi paga – destinada aos esgotos da cidade. Ainda há uma distância tão grande entre o plano teórico, os discursos que conceituam o momento em que vivemos e o cotidiano das gentes. Estava olhando um livro maravilhoso sobre Emanoel Araújo e pensei na completa separação entre a sofisticação espetacular da sua arte – apenas como um exemplo – e o povo. A arquitetura da cidade, com suas engrenagens, confrontada com o total abandono da população pobre e a completa exclusão de acesso aos bens comuns, à Beleza da obra de arte, ao acesso a nomes como Rubem Valentim, Mestre Didi e Emanoel. A Ceilândia confrontada com a arquitetura suntuosa e bela de Brasília. Tantas disparidades. Se há pós-modernidade, eu gostaria de ser apresentada a ela.
DA – O quanto Rita Santana conhece Rita Santana?
RITA SANTANA – Conheço muito e, sinceramente, sempre estou em busca de lapidação. Sou muito honesta, muito bruta, muito antitética, muito delicada. Estou em permanente busca. Rita Santana é apenas um nome público para a atriz e a escritora. A professora é geralmente chamada de Rita Verônica. Em casa – para a minha família e alguns amigos – sou Ritinha e, nessa condição, outras tantas personas surgem. Observo a capacidade que tenho de pensar em novos deslocamentos, de assumir novas identidades. Gosto desse contínuo devir. Estou em processo.
o pão
não alimenta
a mão
que morde
os dentes da fome
a palavra vai
para além
destas fronteiras agudas
repousam na língua
ali se cristalizam
em gotas calcárias
e músculos
***
todas ausências
1
o menino
seus olhos de pires
emulando uma coruja
e o brilho de pios agourentos
facilmente se assusta
e o tempo todo
foge do dia
dentro de seus sonhos
todas as noites
cobras engolindo pedras
digeridas
carcomidas
defecadas
em limpos diamantes
tudo sob um céu azul cristal
dia eterno
e os olhos bem abertos
2
a menina tímida desengonçada
tem os olhos
rasgados no rosto
trabalho de arado cirúrgico
o útero
sempre à luz do dia
a luz do mundo
à vista de todos
aos que quiserem ver
e aos que não
não se admira
ter tido cria tão cedo
a crianças semitransparentes
que nunca tiveram
solidão ou escuridão
sonha com serpentes
vagando em desertos vermelhos
o cheiro de sangue nas ventas
e o rosto materno nunca visto
3
à noite
menina com lágrimas e espigas
senta-se sob a grande árvore
sob a sombra da noite
chora por todas ausências
os filhos
sempre alçam voo
assim que nascidos
***
a fome
recobrou o olho
e este tinha fome
a fome insaciável dos olhos
e o olho cobrou a fome
desde os tempos imemoriais da fome
o quanto dar de comer ao olho
se este não se sacia
quanto de velhas fotografias
tanto de livros amarelos
jornais dobrados até se tornarem quebradiços
cartas de amor não correspondido
e flores e frutos secos guardados em gavetas
quanto de moedas antigas
de quinquilharias
a fome voraz de papéis velhos
e dedos envelhecidos
óculos para miopia
de tantos e todos tempos e temperos
que calaram em renascimentos
e aí se destilou o dia
com a luz coada
de olhares furtivos pela janela
e seus vidros ensebados e turvos ………………………………………………..cor que se esmaecia
***
a parte que te cabe
para o amigo Celso de Alencar
Circe
amarrou a Ulisses
não com correntes
usou os músculos de sua vagina
mesmo estando em êxtase
a saudade de seu chão
e do cheiro do esterco das ovelhas
o chamavam para casa
e se libertou
Circe disse fica
mas Ítaca clamou mais alto
o esperava em casa
uma vagina mais mansa
e doméstica
sem grandes bailados
e malabarismos
mas que demonstrou um furor selvagem
ao se fechar aos machos
que não eram para ela
e na vingança e na morte
se abriu em sorriso
enquanto seu homem
trespassava seus adversários com flechas
nas noites que se seguiram
Ulisses não sentiu saudades
da insaciável bruxa deusa
Penélope
cansada de tecer
exigiu a parte do homem
que lhe cabia
(Edson Bueno de Camargo foi operário da indústria, dentro de uma realidade suburbana. Muitos de seus primeiros poemas foram escritos no “chão da fábrica” com cheiro de máquinas. Escreve desde muito jovem, sempre muito prolixo. Na maturidade, passou a ter uma relação com a poesia que vai para além da literatura, a poesia é sua experimentação do sagrado. Escrever poesia é seu tempo do sonho. Os poemas aqui presentes fazem parte de seu mais novo livro, “a fome insaciável dos olhos”, recentemente lançado pela Editora Patuá)
Desbravar visões e depois incorrer na tessitura das palavras. Qual semeadura de ventos, o ofício do poeta retorna da viagem com a colheita marcada por gestos infindos. Se pensamentos incomuns ou um mergulho na escuridão do mundo, saberemos em parte quando os sentimentos tomarem a forma de texto. Aquele que se põe a escrever, com propriedade e certa dose de resignação, deve saber que as incursões lhe reservam a sagração do mistério. Certo de que o caminho traçado não lhe confere status de impunidade, o artesão da palavra saboreia um banquete cujos ingredientes mesclam catarse e desventuras.
Entre nós, mortais que reinvidicamos a patente da racionalidade, habita o ímpeto de revolver o desconhecido, beijar-lhe a face e se enveredar por seus labirintos insones. Nesse trajeto, há quem não se deixe levar por meros devaneios e se dedique a olhar a existência com necessária porção de lucidez. Imbuídos dessa percepção, testemunhamos as escrituras de um autor como Heitor Brasileiro Filho. Sem esquecer os imperativos do lirismo, esse baiano de Jacobina ergue a sua expressão poética como quem vislumbra alguma ordem no caos que nos abraça. Ao poeta interessa moldar a palavra até que ela amplie suas frentes e atinja um patamar no qual o conformismo seja instância esvaziada. Rechaçando a uniformidade das coisas, Heitor escreve como quem não está disposto a pactuar com verdades inventadas nem tampouco limitações de cunho moral. O efeito que extrai disso torna seus versos dotados duma provocação que arregimenta signos e outros tantos sentidos. Dentro de um caminhar de dedicada cumplicidade com as palavras, o que inclui a participação em antologias como “Diálogos: Panorama da Nova Poesia Grapiúna” (Editus – Via Litterarum) e “Bahia de Todas as Letras” (conto – Editus – Via Litterarum), eis que o momento presente celebra a aparição do primeiro livro solo do poeta, “O Chão & A Nuvem” (Editora Mondrongo). Nessa entrevista, Heitor fala sobre o significado do seu mais recente rebento literário, chama atenção para a obra do poeta Sosígenes Costa e pontua reflexões sobre o fazer literário. Depois dessa conversa, não há dúvidas de que estamos diante de um artífice que talha palavras numa busca que sugere uma virtuosa inquietude.
Heitor Brasileiro Filho / Foto: Marcos Penalva
DA – Depois de alguns bons anos de maturação e de estrada, você publica seu primeiro livro solo de poemas, reunindo versos recentes e outros guardados de outrora. Nesse sentido, julga ter achado o momento certo para romper o silêncio das palavras?
HEITOR BRASILEIRO FILHO – Demorei a publicar o primeiro livro individual. Entretanto, não há espaço para o silêncio nesse processo. Participo de umas duas antologias. Participei usando os veículos de que dispunha desde o jurássico mimeógrafo aos blogs modernosos, jornais tradicionais, suplementos sarados, revistas, cadernos culturais, parcerias musicais, levamos a poesia em parceria com músicos e bandas, como a experiência do projeto Rock & poesia, por exemplo. Fechamos o livro O Chão & A Nuvem, atendendo a uma solicitação da Mondrongo Livros, modesta e ousada Editora do Teatro Popular de Ilhéus, a pedido do poeta e editor Gustavo Felicíssimo. A editoração de livros neste País é uma aventura inconsequente, pra usar uma expressão análoga à Bandeira, por isso fui solidário à Mondrogo, fundada em 2012, em Ilhéus, no interior da Bahia. E estimo que ela a mim. Lá estão poemas recentíssimos, cutucando o cão com vara curta e não menos flecheira. Juntei-os a outros testados pelo leitor mais exigente. Creio que deu bom resultado.
DA – Na apresentação que faz de seu livro, o escritor Gustavo Felicíssimo atribui à sua voz poética algo entre o lírico e o incendiário. Como concebe tais atributos?
HEITOR BRASILEIRO FILHO – Com naturalidade e certa resignação. Como ainda não conquistei a heteronomia (risos) com a qual se refugiou o genial Pessoa, concluo que a verve do poeta manifesta fidelidade ao temperamento do homem. Está em LIRIUM: quem / bem me / quer / não me // despe / ta / la, poema que me é cobrado desde 1983, não poderia deixá-lo fora deste livro. A assertiva é presente também em A Outra face: A poesia não aceita algemas / nem acredita em bombas de efeito moral // (…). Podemos denunciar a intransigência, o horror liricamente, veja em Burka da alma: Os arcanjos e as crianças / pegam em arma / como se tocassem o rosto do criador. O Gustavo estudou alguns dos meus textos e desenvolve trabalho analítico da nossa poesia contemporânea, trabalho de fôlego, ele que pretende publicar. O que me enobrece, vez que me situa entre meus pares e em boa companhia. Sua apresentação no meu livro é pouco econômica, mas não é cabotina, não erra com a afirmativa. O lirismo mais que convence, comove. Quando “a dança das palavras entre as ideias” (vide Pound) rompe o cerco da indiferença, ainda que não demova a apatia coletiva ou vença a insensatez, avança contra toda essa brutalidade. Se a prosa libertária enfeixa bananas de dinamite, senhor dos interstícios é o lirismo. Penetra e vai além das reentrâncias. Implode estruturas de falsa solidez. A poesia nesse estado é glicerina pura.
DA – Em “O Chão & A Nuvem” vemos um olhar que parte dos cenários regionais, íntimos e, portanto, afetivos da memória rumo ao mundo globalizado que nos atropela a todo o tempo com suas complexidades. O que cabe melhor ao poeta: a contemplação ou o enfrentamento?
HEITOR BRASILEIRO FILHO – São dois lados da mesma “moeda”, que não se rendem a escambo. Mais que uma questão de temperamento é um estado de espírito, não há recuo na contemplação. O enfrentamento em mim é um princípio pessoal impulsionado pela necessidade de me expressar para o mundo. Deem-nos infância e memória / e ficaremos para o grande espetáculo da terra (in, O Grande espetáculo da terra). O melhor lugar está dentro de nós. É com isso que iremos ao longe. Parto do princípio de que dignificar o mundo infantil é fazer adultos saudáveis, ou ao menos razoáveis. Sou neto de modestos fazendeiros de gado do semiárido baiano. Filho de um caminhoneiro com uma dona de casa. O natural era que aspirasse ser médico, advogado, engenheiro. Se o Drummond dizia-se fazendeiro do ar, que posso dizer? Fazendeiro do árido (risos). Foi aí que começou todo o enfrentamento. Mas nada sou sem minhas raízes. Daí, a importância do locus, o nosso lugar é nosso ponto de partida. Nessa ordem fui educado. Primeiro a escuta, depois a fala. O problema nosso é quando o silêncio conspira contra a dignidade humana, quando o fenômeno ocorre nas relações sociais e contamina até a famigerada política cultural. O desafio do poeta é o fazer literário. Chegamos ao ponto em que a contemplação já é um enfrentamento. Não o único, felizmente. Mas quando as relações se amesquinham ao ponto, não deixa de ser uma afronta à necessidade de ascensão social a qualquer preço, da avidez de poder e mando, pior, sob o manto sinistro da corrupção. Ao poeta cabe o fazer poético sem melindres e sem peias. Se isso vai mudar o mundo, responda-me quem o lê. A primeira mudança ocorre na gente, é de atitude. A literatura muda apenas a maneira como a gente vê o mundo.
DA – A lucidez é uma espécie de companheira quase inseparável de seus versos. Aceita, sem ressalvas, a condição de poeta inconformado pelo espanto que é existir?
HEITOR BRASILEIRO FILHO – Aceito, com as devidas ressalvas (risos). “Viver é muito perigoso”, diz Guimarães Rosa na voz do jagunço Riobaldo. Mas é preferível que seja gozoso. A materialidade da vida, a existência reduzida a efemérides, o cotidiano torpe e mesquinho zoando nossas perplexidades, enfim, o sublime e o grotesco são matérias-primas e combustível para minha criação poética. Não posso encarar a vida sem essas prerrogativas na formação de meus versos. Não posso reclamar do destino que escolhi, posso sim transformá-lo. Tampouco, posso aceitar o arremedo como opção de vida para meu semelhante. Ninguém é obrigado a aceitar a esculhambação que fazem com nosso país, nem uma ditadura midiática mijando a nódoa em nossa cara. Digo em A República & o Newmonarca: A res é pública \ mas não é pudica \ pasto de sacripanta \ posto que nos fornica.// (…) Pública é a res! / dita um monarca / bobo de outros reis / que regem a fuzarca. De fato, não há poesia sem perplexidade, ou “espanto”. Não tenho vergonha de ser feliz, tenho a mulher que amo, temos o filho que escolhemos. Gosto de dizer que felicidade não é conformismo. Como pode haver conformidade com um mundo em ebulição?
DA – Todo poeta é, em certa medida, um impostor?
HEITOR BRASILEIRO FILHO – Jamais. Ou é poeta ou não é. A poesia não representa, a poesia é. Ao fazer uso da verdadeira linguagem poética, o poeta não “quer dizer”, o poeta diz. O fato de ser uma das características da poesia a multiplicidade de sentidos, essa riqueza expressiva revela sua capacidade de revolver e expor os prismas de uma verdade. A verdade da arte. Poesia é transparência da alma. Entretanto, se a pergunta se refere à limitação do indivíduo em viver de sua arte, digamos que sim. Se é que é possível ser impostor de si. Sabendo que a impostura parte do mercado, a relação com o mercado editorial é esquizofrênica. Onde já se viu emprego de poeta? Não podemos viver sem poesia, mas não podemos viver de poesia. Isto não é uma escrotidão? É. No meu caso o eu-peão é quem sustenta o eu-poeta, quando ambos são indissociáveis, a mesma pessoa. O mais incrível é que por essa condição a poesia ainda é uma arte livre, que não é escrava do mercado, não se curva à sevícia. Veja como a ostentação é a cara da pobreza. Meu sonho agora é ganhar dinheiro escrachando, poeticamente, toda essa escrotidão (risos). Não apenas o lirismo, mas, o humor e a ironia são badogues que valem por uma ogiva nuclear. A gente morre, vira lama, e a poesia fica aí… levitando. Como pode ver no poema “Poesia é ouro sem valia”, com título homônimo de um artigo de Ferreira Gullar, a quem dedico, estabeleço seguinte diálogo:perdoe-me a gula / o Gullar // poesia / não é ouro / é valia // ouro vale / quanto / o pesar // o quanto flutua / a poesia.
Heitor Brasileiro Filho / Foto: Arquivo Pessoal
DA – Sua trajetória aponta para um caminho em torno da obra de Sosígenes Costa, um poeta de cunho notável e que ainda permanece desconhecido por muita gente. O que o fez debruçar-se nessa pesquisa?
HEITOR BRASILEIRO FILHO – O desafio. Minha primeira impressão sobre a arte de Sosígenes foi de estranhamento. Apesar de todo um domínio, de uma técnica, ele recusava a moda. Fui entender melhor. Havia apenas um exemplar de “Obra Poética” (1959) na biblioteca pública. Depois consegui cópia de “Obra poética II” (1978) e “Iararana” (1979). É injustiça um poeta ficar mofando por mais de 30 anos. Embora o material fosse escasso, o escolhi como objeto de estudo para minha monografia de conclusão do curso de especialização na UESC. Só havia dois livros sobre sua poética: “Pavão parlenda paraíso”, de José Paulo Paes e “Sosígenes Costa: O Poeta grego da Bahia, de Gerana Damulakis. Li toda a bibliografia disponível, poemas, uma entrevista, e as crônicas que revisei para o livro de Gilfrancisco Santos, organizado por Hélio Pólvora. Garimpei alfarrábios, juntei textos esparsos tentando montar o quebra-cabeça. Mais escassa ainda é sua biografia, muita lenda, poucos fatos. Os contemporâneos estavam morrendo. Aproximávamos de seu centenário, procurei seus familiares e amigos em Belmonte. Uma epopeia: levei gravador e máquina fotográfica. Preparei minha “Violeta”, uma moto XR2000R que guardo até hoje, embarcamos em Canavieiras para Belmonte. Seguimos pelo Rio Pardo até o Estuário do Jequitinhonha. Em Belmonte, sua sobrinha Ana Rosa me confiou documentos. Colhi depoimento da Professora Mariinha, contemporânea de infância e também no Rio de Janeiro. Segui de moto para Santa Cruz Cabrália pra gravar entrevista com Naçu, o irmão caçula que tinha 79 anos. Não pude retornar por Belmonte para pegar o barco devido às chuvas. Enfrentei tempestade na estrada pra Porto Seguro. Tinha recursos para uns três dias. Fui acolhido na pousadinha Pôr do Sol em Trancoso. Retornei sete dias depois pra Ilhéus, debaixo de chuva impiedosa. Embora levasse material para uma Universidade e a Fundação Cultural na qual trabalhei, viajei às minhas expensas. Sou grato ao apoio da família e amigos, aos quais conquistei amizade e respeito. Retornei pra proferir palestra. Essa viagem me serviu para remontar sua ambiência de origem, sua formação de leitor, seus primeiros escritos, e desmistificar a imagem divulgada do poeta. Já nesse período, quando afirmei que Sosígenes, com dicção própria, espírito combativo exprime solidariedade, preocupação com a pesquisa histórica revelando um rico vocabulário que não dispensa o coloquialismo da gente do povo, fruto da vivência e da pesquisa de termos de origem indígena e africana, as duas raças mais sacrificadas na constituição do povo brasileiro(…), os donos da cultura na Bahia deram de ombros. Recentemente, Herculano Assis, reuniu documentos colhidos em Belmonte e, no Rio, lançou Cobra de Duas Cabeças. A obra só confirma que Sosígenes não era apenas um poeta habilidoso, o sujeito tinha senso crítico, às vezes era ácido, mas bem humorado, antenado com a obra de autores então em evidência e com o desenvolvimento das letras nacionais.
DA – Quais traços julga serem marcantes nos escritos de Sosígenes Costa?
HEITOR BRASILEIRO FILHO – A busca da originalidade, algo difícil de edificar em qualquer arte. Mas, sobretudo, a quebra nos paradigmas no que concerne o “enquadramento crítico-convencional da nossa Teoria Literária”. O cara era invocado, tinha integridade e não buscava sucesso fácil. Até sua poesia dita clássica, a sonetítisca dos pavões, admirada por dez entre dez acadêmicos dentro e fora dos quadrantes da Bahia, usa uma roupagem parnasiana rigorosamente metrificada, e ainda com floreios barrocos para incutir-nos um conteúdo moderno e com as cores locais, anseio do nosso Romantismo que conhecemos com uma das principais bandeiras do Modernismo, corrente que ele ainda implicava e batia através de sua Coluna de Sósmacos , em 1928, porque ainda não havia digerido completamente seu conteúdo. “Búfalo de Fogo” passou pelas mãos de muita gente boa como um poema meramente simbolista, telúrico, etc. Subestimaram o mestre-escola das roças de Belmonte, recém-chegado a Ilhéus, com apenas 27 anos de idade. Por trás daquela capa simbolista, o que temos lá é um épico denunciando o horror da invasão e da pilhagem. Imagine a cidade de Ilhéus, cidade-mãe da “civilização grapiúna” (vide Adonias Filho), qual “Búfalo de Fogo”, “fosfóreo”, “florescente”, sendo perseguida por centauros (“Centauras”), bichos perversos dados à desordem, invasão de lares, e cuja representação simbólica na mitologia clássica nos remete à barbárie? O Simbolismo, em essência, preconizava “a arte pela arte”, a contemplação e não o conflito. Em “Búfalo de Fogo”, literalmente, o bicho pega! Portanto, um épico a ser estudado com maior acuidade. Veja que Sosígenes abre o poema da seguinte maneira: “Anoiteceu. / Roxa mantilha suspende o céu no seu zimbório / que noite azul, que maravilha / sinto-me, entanto, merencório”. Olha que tristeza retada… Depois faz um passeio pela Bíblia, pela história, pelas mitologias, com vocábulos nossos tão rebuscados que mais parece outra língua, uns duzentos versos depois encerra de forma emblemática: “(..) Protervos ventos em mantilha / como cem feras em regougo, / fazem da noite na Bastilha / revoluções de demagogos. / Ventos, ladrões de uma quadrilha, / depois do crime, vão pra o jogo. / dentro da noite, Ilhéus rebrilha qual Búfalo de Fogo.” De lá pra cá, passaram-se 85 anos. Agora repare na atualidade do tema! A sua poesia Modernista, talvez a mais visitada, novamente foge às regras vigentes. Menotti del Pichia, na Semana de Arte Moderna, em 1922, provocou a plateia: “Morra a Hélide!” Sosígenes seguia próprio caminho, depois criou o mito da falsa Iara (“Iararana”), fruto do estupro contra a Iara pelo centauro Tupã-Cavalo, “Mondrongo vindo das oropa” para invadir e usurpar a cultura nativa. “Iararana” remonta as origens da colonização portuguesa e vai até o processo histórico da formação da nossa cultura do cacau. Inadmissíveis para os primeiros modernistas eram os mitos da nossa civilização de origem indígena junto à mitologia clássica, portanto, de origem europeia. Os “ouropeis”, pra usar uma expressão irônica de Mário de Andrade. Sosígenes inovou no conteúdo ante a orientação modernista-primitivista desta primeira fase, a chamada fase heróica, e o fez ao seu modo. Usou elementos da tradição clássica para fazer uma poesia essencialmente brasileira, contudo, universal. Elementos presentes em outros textos, escritos a partir dos anos 30. Embora acusado de anacrônico, ele fez o diferencial e o complementar. Digo sempre que não é tudo que Sogígenes escreveu que eu gosto incondicionalmente. Mas, justiça seja feita, em toda área que atuou deixou peças de comprovada grandeza.
DA – De que modo a tradição pode dialogar melhor com a modernidade em matéria literária?
HEITOR BRASILEIRO FILHO – Não podemos negar aquilo que desconhecemos. A história tem sua dinâmica e a referência é a tradição. Não significa estacionar o olhar numa zona de conforto. A vanguarda de hoje pode vir a ser a tradição amanhã. Na história dos movimentos literários uma tradição se sobrepõe à outra – não a suplanta – nem sempre por um processo de ruptura, mas de associação e superação. A boa leitura não apenas alarga os horizontes, às vezes deixa marcas indeléveis que vão além do consciente. É preciso saber ouvir a voz que habita nosso espaço interior. A partir de então, saber o que fala, como fala, de onde fala e para quem. Tudo isso, sem se privar da descoberta constante que é o fazer literário.
DA – Uma de suas máximas é afirmar que alguns de seus poemas foram premiados e outros ainda não foram corrompidos. Esse pensamento é uma espécie de antídoto contra a vaidade?
HEITOR BRASILEIRO FILHO – Mera tentativa. O antídoto ainda não foi inventado. Quando brinco com a vaidade humana, revelo meu jeito de ser vaidoso.
DA – Escrever aponta algum caminho de salvação?
HEITOR BRASILEIRO FILHO – Sim. A poesia salvou minha vida.
– DOIS POEMAS DE “O CHÃO & A NUVEM” –
PEDINTE
A loucura bate à porta
do vaso das flores
sirvo-lhe o copo d’água
amanhã virá a consciência
em busca de comida
A REPÚBLICA & O NEWMONARCA
A res é pública:
mas não é pudica
pasto de sacripanta
posto que nos fornica
a res é pública:
como quer a grei
que escreve & publica
& não reconhece a lei
a res é pública:
se não ultrapassa
a verdade e a justiça
à venda e à mordaça
a res é pública:
não é de ninguém
de quem mais se furta
é do que menos a tem
é pública a res:
como será sempre
magarefe o rei
& o gado a gente
é pública a res:
como sempre foi
covarde a sangria
da farra com o boi
a res é pública:
mas livre de arbítrio
ao biltre da política
se eleito o estrupício
é pública a res:
privada só pra súcia
evacuar de vez
seu voto de astúcia
– pública é a res!
dita um monarca
bobo de outros reis
que regem a fuzarca
Desde que a simplicidade se deu, Bárbara resenha, desenha, põe gente, passarinhos e medos pra voar no papel:
A primeira vez que Bárbara pegou numa folha, a folha tragou a Bárbara.
Era de cheirar dum tudo o que tocava.
Conhecia as coisas pelo tato que no tato da coisa, dizia, pequenininha, dizia, que no tato das coisas está a cor e o contorno em luz e sombras.
Tinha muita dó de apontar os lápis, achava que podia doer, não nos meninos, os lápis, mas nela. Podia doer fundo nela, ela a Bárbara. E desde sempre que é desde então, desde que a simplicidade se deu, Bárbara desenha, por conta daquela primeira vez em que a folha tocou nela e porque tudo, pele de coisa, urubu, estado, gente-coração, minhoca vendida, violão velho, gato fedido, pensamento doente, pedra jogada e pedra contente, Monalisa estragada, tudo-tudo, tem cheiro de cor e de mundo e de gente:
Aos dez anos já fazia gente e chamava URUBU aos pássaros que fazia. Vestia pessoas com corações, dava bolsinhas, sorvetes e bracinhos aos corações.
Entrou para a escola de desenhos aos treze anos e abandonou a escola de desenhos aos treze anos quando o professor mandou que desenhasse a Monalisa igualzinho a Monalisa do Leonardo. Onde já se viu? Igualar as coisas? Professor mandar?
Pisoteou a faculdade de artes visuais em 2004 pelos mesmos motivos, ora, onde já se viu?! Onde?!
Desenho: Bárbara Damas
Desenhou, seguiu desenhando e foi parar na faculdade de direito no mesmo período, onde, porque ninguém mandou, graduou-se. Nesse tempo torto, deu-se sua primeira exposição e Bárbara encontrou-se com seus traços. Foi em 2007, no SESC AMAPÁ, no evento “Aldeia SESC Povos da Floresta”.
No ano seguinte, convidada para ilustrar seu primeiro livro infantil, lançou-se no “Macapá – a capital do meio do mundo” pela Cortez editora. De lá, então desenha ali, resenha aqui. E aqui está: Penso que Bárbara Damas tem a arquitetura lúdica, os traços mais leves que conheço. É um estado. Pois que é de se estar debaixo duma árvore muito da chapeluda, verdíssima, quando se tocam os olhos nos traços de Bárbara. É de se estar, mas também pode-se estar a precisar dum lugar assim, sim, porque Bárbara é fornecedora. (Tenho pra mim, tenho para dar, que as linhas de Bárbara Damas elevam a qualquer estado de se estar.)
Há quem desenhe para expurgar, há quem desenhe para se ornamentar, há quem, há quem. Bárbara Damas, como se vê logo ao pingar vistas num de seus desenhos, Bárbara Damas desenha para que o mundo aconteça. O mundo e tudo o que há no mundo: pele de coisa, urubu, estado, gente-coração, minhoca vendida, violão velho, gato fedido, pensamento doente, pedra jogada e pedra contente, Monalisa estragada, tudo-tudo. É de se estar e Bárbara sempre estará, pondo tudo pra voar.
Quem disse que gente não é coração?
Desenho: Bárbara Damas
* Os desenhos de Bárbara Damas são parte integrante da galeria e dos textos da 79ª Leva.
(sou carla diacov. de qualquer forma. não me importa tanto ser. e também vou e volto e babo durante. nasci (09/04/1975) e moro em São Bernardo do Campo e brinquei na praça-dos-meninos. morei a Londrina e ela a mim. fiz teatro e me desfiz. então escrevo e sei que vou, mas volto. de qualquer forma. e gosto tanto de pão de forma com amendocrem. de qualquer forma, que é como eu sou, mas volto. Babando)
Há pássaros que me doem no avesso
dos voos. Como se engolisse a vertigem
de um caos de penas e perdas. Acentos
graves em desassiso na queda invertida das
lágrimas
………do fundo de mim para a superfície dos teus …………. olhos.
E sei que não há outra pele que me salve
da solidão. Porque tu corres-me por dentro
do corpo. Qual seiva espessa do ar que me
atravessa. Um abismo de sopros a romper-me
o peito. Tempestade de reversos. O oposto do
teu toque.
Há pássaros que me doem no avesso
das asas, sabes. Como se a vida fosse este caminho
de pernas para o ar. Um horizonte desenhado
ao contrário. Um céu que piso sob o peso da terra.
Há pássaros que me doem, meu amor.
No avesso dos voos.
***
Decomponho-me
Sitiada na hora da torção da luz, decomponho-me.
Em excertos de estrada húmida. Em filamentos
de solidão.
Entorno o meu corpo nos intervalos das tuas mãos
recorrentes, e contemplo a agonia amplificada dos
ruídos na crosta arfante da terra.
…………[Consubstanciação do impacto da memória.]
Como as gotas de ti no vidro sujo.Como aquele
cheiro a interior prescrito.
…………. [Como se não pudesses
habitar-me mais.]
E no movimento perplexo dos olhos golpeados
de horizontes intermitentes, respira-me o lamento.
O meu grito lentificado,
…….. [pedestal do teu aceno]
a sangrar visões de nós. Um uivo grave, desnorteado,
a ser-me eco mortificante na pele.
E sitiada, ainda, na hora da torção da luz,
……………decomponho-me.
***
O silêncio das pedras
Apetece-me o silêncio das pedras
A quietude das areias primitivas de um chão
sem dono
A lonjura sem fundo
nem pele
que me doa
Apetece-me a nudez das escarpas
salgadas
A liquidez inabraçável
do mar
O alívio de não ter peito
O descanso das mãos
Apetece-me o silêncio das pedras
***
Um rosário de dias sem nome
Sobre a mesa do meu jardim de pó e ar,
um rosário de dias sem nome. Dias
(in)seguros na compressão de dedos partidos.
Dias memoriados em cacos de porcelana azul.
Contas de um céu por limpar.
É um rosário de dias sem rosas nem chão. Dias
desfiados em mistérios de um tempo menor, a tremer
por dentro das coisas, a doer nas dobras dos dedos
partidos. Atravessado de vestígios da salvação
por encontrar.
É um cordão de pedras e nós a engolirem silêncios
irrespiráveis.
Estranha cadência de uma procura qualquer.
Três terços de um todo por acabar.
***
Cansada
Cansada de me ser um relevo abstracto na textura das coisas que piso.
Cansada de percorrer esta cordilheira insular de abraços possíveis.
Aprendi a respirar vazios estranhos ao meu corpo e dói-me já o peito
de tanto me salvar dos espaços contaminados.
Cansada de calcar a ternura em gavetas que já não fecham e depois
partir para um mundo onde não cabe todo o tempo que ainda falta.
cansada.
Cansada de tudo o que me sobra do chão.
(Virgínia do Carmonasceu em Champagnole, França, mas foi em Trás-os-Montes (Portugal) que cresceu e aprendeu a escrever. Licenciada em Comunicação Social, o seu percurso profissional passou pelo jornalismo, mas foi no mundo livreiro que encontrou a sua verdadeira vocação. Atualmente leva adiante um projeto (Poética – Livros, arte e eventos) que, mais do que uma livraria, pretende ser um espaço de verdadeiro e profundo encontro de livros e pessoas. É autora das seguintes obras: “Tempos Cruzados” (poesia), Pé de Página Editores, Coimbra, 2004,“Sou, e Sinto” (poesia), Temas Originais, Coimbra, 2010,“Uma luz que nos nasce por dentro”, Lua de Marfim Editora, Lisboa, 2011)
6:00 am. o dia a encontra. com um martelo de feiticeiras. o vapor do café é a fogueira que decide ativar. poderia poupá-la do fotoenvelhecimento interior, com seu rosto abstrato: nenhuma lua, nenhum quadrúpede. esfenoides imóveis, asas absortas. apenas o cálculo, criteriosamente revelado, em expressionismo facial de espécime taxonômica. Ela, zoomorfa como quadriga apocalíptica em autoestrada planejada, o sonda com o neurocrânio odonata, preparado para os aparatos curiosos do laboratório solar. com uma esferográfica mental, rabisca sobre sua testa simétrica: uso externo.
12:00 pm. Semáfora, a libélula fêmea deposita seus ovos em estacionamentos lotados. A luz refletida pela lataria dos automóveis imita espelhos d`água.
6:00 pm. festins, repugnâncias, minas de carvão. exauridas. e as mãos de querosene, com um incêndio astuto a escorrer sobre a gravitação das almas devastadas. pelas instalações mais infernais: onde os opositores ancestrais são envernizados em corpos de gigantes cogumelos polimorfos. inocentes e jovens, frente à barbárie dos querubins em santuários de fast-food. banalizados pela melancolia industrial de madonas dopadas. lógicas e fálicas. Ela pressente suas mortes cifradas. quando desconecta o interruptor. carbonizam em alegoria de betume, políticos, no fermento escuro. stercus diaboli.
12:00 am. se as lâmpadas fossem navalhas, cerraria as pestanas de lobo-guará sobre o córtex dos corredores mortiços desta massa cinzenta que impede o símbolo da faísca selvagem pelas escadarias. mas os olhos de tungstênio não se fecham.
***
A curandeira do império solar
Em meu tratado particular de esquizoanálise, a alma chocalho canta teus mortos e artefatos.
E, xamã de ti, canibal de ti, índio de ti, espalhando barbáries mínimas em teu dorso iluminado, entorpecida de síndrome luciferina, aguardo a noite e a visto como um hábito de monge. Por pura exaustão pirofágica. O lodo no escalpo dos pés, queimando nas estrelas, com a baba de teus anjos: os viscosos generais, empalados em cerveja e tintura vermelha.
Até que tu, mal amado, desperte-me de um sono de eras selvagens e puras, e tiquetateie minha sombra mais uma vez, esquartejando-me com as engrenagens desligadas de meus ancestrais.
Meu proceder escambo me pesa os nervos. A pele escalpelo cicatriza fácil demais.
Olíbano libidinoso, tu és. É preciso, sol do império, ferver teus exóticos inimigos, em óleo quente.
***
poesia para bruxas órfãs
Meu livro das sombras, todos os livros. Meu oceano monocromático. Os livros enchem o refrigerador. O guardião das linhas efervesce sua sombra líquida pelas almofadas. Em minha crueza, mastigo os fantoches que dormem nas forminhas para gelo. São de vários formatos, gatos, rinocerontes, cabides vazios, hexágonos. Seus olhos lendo minha laringe lacrada. Seu sal escuro pelo apartamento, seus braços infantis, agitando a parafernália marinha com moinhos de abracadabra. A sombra efervesce. Como uma vitamina em mutação. Invoco raios, primeiro os pequenos, a esquizofrenia de tesla, o curador de pássaros obcecados. Depois os maiores, de alturas extintas, os que caem cheios de deuses empalhados pelo pó dos homens. Em minha jaula inventada, fabrico uma densa população prensada contra as cortinas, a coleção de vagalumes. Ainda sorrindo para mim. Tão elétrica quanto o vapor de uma pavorosa respiração. Não há médico-monstro que supere os impropérios luminosos que lanço para ti, carbonífera existência.
O tinteiro está lotado com o sangue azul-petróleo de meus pais.
***
Um corpo herege no cemitério de néon
A terra roxa, a bisavó benzedeira. Sodalita, nunca quis teu azul. O slogan portfólio. A aura escarlate, o passo amarelo, cuidado atenção.
Enquanto escrevo abraxas, nos terreiros degolam o bode e o galo. E a fogueira, acesa só para mim, seiscentos e sessenta e seis micro-ondas.
Vivo a escrita dos grimórios. Meu tempo caça às bruxas ainda fresco nas praças de alimentação. Babalon sadia nos rótulos de uma barra de cereais. O tridente de fiat lux espeta a carne frigorífica de uma maçã domesticada.
Tenho um punhal medieval, colorizado e intacto, para algum ritual cibernético. Cultivando à sombra, livros e mais livros, transgênicos. E gado marcado, com alguma dócil indolência, apresento formal (por fora) o desgastado erregê. Limpo a seco.
Sodalita, nunca quis teu azul.
Mantenha-me longe do alcance dos iluministas de celofane.
(Andréia Carvalho(Curitiba/PR) é autora dos livros A Cortesã do Infinito Transparente (Lumme Editor, 2011) e Camafeu Escarlate (Lumme Editor, 2012). Participa do corpo editorial deMallarmargens – revista de poesia e arte contemporânea)