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79ª Leva - 05/2013 Destaques Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes


CLARICE FALCÃO – MONOMANIA


 

 

 

Para a psiquiatria, monomania “é a definição de uma obsessão doentia por uma ideia, objeto ou pessoa”. Em seu álbum de estreia, a atriz, roteirista e compositora Clarice Falcão parece ter apenas uma fixação: a meiguice. Filha do cineasta João Falcão e da escritora Adriana Falcão, esta pernambucana criada no Rio de Janeiro transita desde cedo entre diversas esferas da arte. Aos 23 anos, Clarice já possui um extenso currículo – como atriz e roteirista – na televisão, teatro, cinema e principalmente na internet, onde há pouco mais de um ano e meio começou a postar vídeos de suas canções de voz e violão, somando mais de 10 milhões de visualizações. Aliás, sua primeira composição foi a trilha sonora do curta-metragem Laços (2007), também estrelado por ela, que ganhou o concurso mundial Project: Direct, do YouTube. Parte deste sucesso virtual deve-se ao canal de humor Porta dos Fundos, onde a multifacetada artista escreve e participa ativamente das esquetes, muitas vezes ao lado do namorado Gregório Duvivier, um dos idealizadores do coletivo.

Suas canções de amor – de rimas fáceis e melodias suaves –, repletas de ironia e humor negro, são na verdade pequenas construções narrativas, o que talvez justifique a ausência de refrão da maioria das faixas. Lançado pelo iTunes no final de abril, Monomania não possui gravadora ou formato físico oficial, visto a relação direta que a cantora já estabelece com seu público. Atualmente, o álbum figura entre os mais baixados na Apple Store brasileira e é comercializado, de forma quase artesanal, apenas em suas apresentações ao vivo. Com influências de Magnetic Fields, Kate Nash e Chico Buarque e comparada à atriz e cantora Zooey Deschanel (da dupla She & Him), Clarice soa como um mix da canadense Feist com Mallu Magalhães. O primeiro registro de estúdio da menina de voz doce e canções despretensiosas ganha arranjos mais elaborados do que as versões acústicas disponibilizadas na internet e conta com a consultoria e produção musical da sogra, a cantora Olívia Byington.

“Só pra você saber”, como um mantra, Eu Esqueci Você abre o álbum enumerando as vantagens de superar um amor do passado. Na sequência, a insensata Macaé (e se eu mostrar o cianureto que eu comprei pra gente se matar/você manda me prender no amanhecer?) e Monomania (se juntar cada verso meu e comparar/vai dar pra ver/ tem mais você/que nota dó) elucidam a tal patologia do título. A minimalista Um Só talvez seja uma de suas letras mais inspiradas (o meu desespero/é que quando acaba/você fica inteiro/e eu fico o pó), juntamente com o filmete-dançante Fred Astaire (mas, cuidado/me deixa no canto da sala/que se eu tiver alguma fala/eu mudo pra “amo você”), que ganha também uma versão em inglês no encerramento do álbum. A divertida Talvez (se eu não tivesse um troço/lá dentro da barriga/que eu sinto que está dançando a dança da garrafa) e Qualquer Negócio são sussurradas quase à capela – a última na companhia do violoncelo de Jaques Morelenbaum, que assume o instrumento em outras três faixas do disco.

A segunda metade de Monomania inicia com a balada De Todos os Loucos do Mundo – uma declaração à Duvivier – e fala do encontro de dois seres pra lá de criativos (de todos os loucos do mundo/eu quis você/ porque a sua loucura parece um pouco a minha). A etílica O Que Eu Bebi narra as mágoas amorosas que todos já tentamos afogar (o que eu bebi por você/dá pra encher um navio/e não teve barril/que me fez esquecer), enquanto A Gente Voltou oferece um clima circense à reconciliação do casal da canção (não entra na bad, Romeu/Julieta morreu/mas a gente voltou). O ponto alto do disco fica a cargo do dueto de Clarice com o capixaba SILVA (que também toca violino em algumas faixas) na valsinha Eu Me Lembro, com as impressões masculinas e femininas do primeiro encontro. A deliciosamente mórbida Oitavo Andar, uma de suas letras mais teatrais, (e aí, só nos dois no chão frio/de conchinha bem no meio fio/no asfalto riscados de giz/imagina que cena feliz) reforça toda sua veia literária, bem como a singela Capitão Gancho e sua listagem de coisas que fizeram Clarice ser quem é. Definitivamente, a graça da autora/obra é a simplicidade, doçura e frescor adolescente. Sua audição provoca aquela sensação de riso bobo nos lábios: quando você se dá conta, já está totalmente arrebatado.

 

 

 

 

(Larissa Mendes, falco-monomaníaca)

 

 

 

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79ª Leva - 05/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Demetrios Galvão

 

Desenho: Bárbara Damas

 

alguém comeu minhas mortes

 

minha boca suja de sono no teu sonho sujo desata novelos e subtrai gengivas: gosto de deserto em prato de cerâmica, língua escorregando pela geometria defasada. arapuca armada: impossível resistir ao ato de se abismar. a janela cega revela nódoas, sequelas atrás dos tijolos. o silêncio costurado com barbante faz lembrar que as raízes cortadas fazem falta: – onde furtaram meu quase nada há um incêndio infinito e asas longe do tronco.

 

 

***

 

 

no quintal de nossos umbigos

 

o teu riso desata um solstício – ( suprimimos os travessões, os dois pontos, as vírgulas, atropelamos a semântica com beijos salgados. retiramos do relento os balões desgarrados, retiramos também do guarda-roupa os sonhos velhos e os refizemos para o uso diário. nos encontramos quando erramos os caminhos, quando na interseção dos itinerários brincamos de nos perder e de nos achar e de trocar de pele.) – a cada gesto… um poema de amor, um samba, uma brincadeira no quintal de nossos umbigos.

 

 

 

 ***

 

 

 perdi muito mais que uma orelha

 

e tudo vaza pela ferida do pé: as árvores sorumbáticas, os peixes dopados de barbitúrico em mazeladas coreografias. a paisagem cabe em garrafas, enfio os fantasmas em um cordão e os penduro no pescoço. os dentes estão sujos, o corpo livre, os ossos antes oxidados sentem a velocidade retomar seu lugar, os espinhos nascem fortes novamente, devo a alguém o que me foi de vazio. o telefone está mudo e o colchão acolhedor em sua extensão longitudinal, província dos sonhos que arrebenta o nervo dos álbuns de fotografias, capitania tremembé guardada na memória das pedras. – e tudo vaza pela ferida do pé.

 

 

***

 

 

a espinha de março

 

i
a espinha de março atravessa a garganta do abismo.
um relâmpago indigente cai no deserto de presságios
perpendicular às asas verdes inoxidáveis que me pertenciam.

mordida pela nevralgia do cão andaluz
a menina conseguiu apanhar a mão no vazio da rua,
………………………………………………….antes que as formigas
………………………………………..chegassem.
quando no entardecer chovia no sol-laranja
os últimos demônios que ainda esperneavam se iam,
deslizando lentamente pelo orifício do horizonte
acompanhando o movimento do astro sumindo.

 

 

ii

21 gramas é o peso da alma dentro da anatomia rígida do caroço,
…………………………………….do hermetismo flácido da certeza
……………………………………..quando os pássaros caem feito folhas
……………………………………………..no chão abjeto,
……………………………………………..um quase-som do violinista verde.

 

impossível saber que código contém aqueles rostos:
………………………………………..quase poço sem fundo.
………………………………………..não importa.
fazendo a barba dos olhos com navalha
eu deixava a assonância dos acordes criar sons de cor,
……………………………………..jardins sinestésicos
………………………………………pra alimentar camaleões.

 

iii
março passa a conta-gotas em pingos diacrônicos,
um gole no líquido baldio da xícara
e um gosto suave insiste em permanecer,
………………………………imitando os dias teimosos.

as alpercatas do tempo acariciam degraus,
………………………a tangente dos cílios,
……………..o astigmatismo do olho d’água:
a diáspora das figuras-carcomidas que moravam nos armários,
……………………………………………………………gavetas,
…………………………………………….estantes da lembrança.

 

iv
– os insetos digerem o mundo na sua enzimática-paciência-atemporal,
tal como as ostras em seu silêncio-de-calcário-inacessível
guardam os pecados do mar num cofre impermeável.

 

(Demetrios Galvão é Historiador e poeta. Nasceu em Teresina-PI, cidade onde reside. Publicou os livros Cavalo de Tróia (2001), Fractais Semióticos (FUNDAC/PI, 2005), Insólito (ed. Corsário, 2011) e o cd Um Pandemônio Léxico no Arquipélago Parabólico (2005). Foi membro do coletivo poético Academia Onírica e um dos editores do blog Poesia Tarja Preta (2010-2012) e da AO-Revista (2011), além de ter participado da produção do cd Veículo q.s.p – Quantidade Suficiente Para (2010). Atualmente edita a revista Acrobata)

 

 

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78ª Leva - 04/2013 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Lisa Alves

 

 

Foto: Rosa De Luca

 

 

 

Corações de Silício

 

“Se  metade do meu coração
está    aqui,   Doutor, a outra
metade  está na  China  com
o   exército   que   flui     em
direção   ao    Rio  Amarelo.”

Angina  Pectoris   –     Nazim
Hikmet

 

Corações de Silício – pulsam nessa percepção para além de Bits e Quarks baterias de Volts impessoais. Tragamos com a retina fontes que pulsam em HD`s e nuvens abrangidas de  paradigmas de programação. Crias frankstenianas escoradas por mesas inertes e contraditoriamente giratórias. A comunicação visual é acelerada por meio de janelas cravadas em caixas quadradas ou slim.  Redes sociais velam a vigília de uma Legião – superação das elites humanas à parábola do Nazareno (expansão universal dentro do buraco da agulha).

Corações  de   Silício   –     conservar a
humanidade. é questão relativa e anexa às
HQs e  heróis 3D ou de poliuretano. Anos
de ..petições e .exercícios de altruísmo de
calendário .  Afinidades  com  Karmas  e
Dharmas  e expansão  mental editada pela
engenhariagenética.   Arte adaptada aos
pixels,    ..  ferramentas      comprimidas
no winrar. .–  ..foice e martelo in Botons e
Cartões de Crédito.……………………………….

 

Corações de Silício – coletivo iluminado por telas de signos édenizados – biblioteca de Alexandria abrigada no cisco de uma nano-unha e frequentada diariamente por cyberbactérias. A promoção do eu-anódino em seus quinze minutos de infâmia. Estímulos assexuados e eunucos – precipita a ação e condena o corpo à condição uniforme.

Corações de Silício  –  nata do Oriente
navegando  em    mares       ocidentais.
Feminino   e  Masculino   habitando  o
andrógino  e    as   universais    idades.
Sais  antidepressivos,     antimaníacos,
antikarmicos.   Ornitóptero   de  pedra
colado,      limitado    pelo    seu  pulso
potencial  e   temível. Crianças-fuhrer
cortejando bestas apocalípticas.  Deus
Capital  venerado  em   seus templos-
shoppings        (na     santa    missa  de
domingo).

Corações de Silício – carcaça altíssima na piramide vida-matéria – conduz fluxos aos retos orifícios e vias chupadas pela yankeeannélide. Arranca a estrutura Animaanimal e libera a energia nas cavidades interiores. Pneuma despertada ao campo fonte – voltagem exata e evoluente em software original.

Corações   de    Silício       –      autogestão
bakuniana  e  desmistificação  do criador e
do    patriota.    Bomba      e      bombeador
detectados   no    silêncio    que  medita   a
clarividência     e    os    intentos    de  uma
humanidade  criativa    e     com     License
Commons  –  capaz   de compartilhar o seu
melhor sem apontar seus cielos ou cercas.

Cor e ações em uma orbe policristalina tingida de silíca e mitos.

 

 

 

 ***

 

 

A Queda

 

Embrutecida pela solidão não consegue retribuir as rosas deixadas no seu caminho. Alguém surge de mansinho e perfura o seu coração com notícias trêmulas e catastróficas. Caída afasta a única corda de esperança – não anseia elevação e muito menos últimas chances.  Abraçada ao chão sorri expondo os dentes maltratados de tanto roer ossos. Imagina um 3×4 tirado ali e se envaidece “experiência de fundo do poço deveria constar em qualquer curriculum vitae”.

 

 

***

 

 

Angelus Blasé

 

Frito reminiscências temperadas com sais de tortura. Cavei as mãos para despejar sucos de minha filantropia. Deguste e sorva nossa carne sem essa face acinzentada por transes, escute os ditados, escreva-os e depois os guarde em um arquivo antes que a espada de significações recorte sua imaginação e a ofereça aos pássaros carniceiros da Manufatura. Representamos uma espécie sem roupagem: demônios doces e poliglotas, leitores de clássicos e amantes de uma audaciosa revolução. Caçamos qualquer um que se maquia de vítima ou simplesmente se apropria da sombra alheia – caçamos para formar alianças e não para ao ato de eliminação (que fique claro antes mesmo de mantermos um grau de compreensão mútua entre o leitor e o que se lê). Existem tantas metáforas que nos colorem como o lado sombrio da humanidade que já não podemos nos abrigar na nossa naturalidade blasé – agora somos luminosos homens de branco, esboçadores de alegres fisionomias e praticantes do altruísmo de calendário (com hora e data marcada).

Observação: É só assinar na última linha e depois chuviscar um pouco do seu vermelho.

 

 

(Lisa Alves nasceu na cidade de Araxá/MG e vive há mais de dez anos em Brasília/DF. Trabalha com arte digital e projetos ambientais. Possui poemas publicados em três antologias poéticas: Trilhas (CBJE, Rio de Janeiro, 2007), Poema Capital (Eloisa Cartonera, Buenos Aires, 2011) e Cumplicidade das Letras (Perse, 2012). Divulga sua arte em vários sítios culturais e atualmente é colunista na Revista Ellenismos)

 

 

 

 

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78ª Leva - 04/2013 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra

Mais que invisível

Por Clarissa Macedo

 

Francisco Carvalho / Foto: divulgação

 

A poesia é uma instância muito contraditória. Contraditório, e curioso, é também o mercado que a promove. Contradições à parte, há na literatura mundial verdadeiras preciosidades escondidas ou pouquíssimo reveladas, seja por se encontrarem fora do circuito econômico central do país, seja por não estarem inseridas na mídia. O Brasil guarda muitas dessas pedras lapidares. Prova disso é o chamado “homem invisível”, o poeta Francisco Carvalho.

Autor de mais de 20 livros, quase todos de poesia, sendo um ainda inédito, o cearense de Russas, Francisco Carvalho, deixou, no mês de março deste ano, estas planuras como um desconhecido para a parcela maior do povo brasileiro. Injustiça sem tamanho, haja vista o autor de Quadrante Solar ser “Dono de uma obra poética de qualidades inquestionáveis”, além de volumosa.

O cantor Fagner musicou alguns dos textos de Carvalho no álbum Donos do Brasil, que rendeu ao poeta mais leitores. Sem nos debruçarmos aqui sobre a belíssima leitura que Fagner fez de alguns poemas do homem “invisível”, o que podemos afirmar, sem temor, é que a poética de Francisco Carvalho é forte, sem engasgos e fórmulas universitárias de laboratório – as quais são aderidas por muitos escritores contemporâneos nacionais. Além disso, contrariando, ao que parece, uma de suas maiores características, a timidez, seus poemas são exibidos. Exibidos como aqueles que, escondidos sob a capa do livro, arrebatam o leitor ao primeiro contato. Basta um poema, para que fiquemos destinados a ler, incansavelmente, os demais.

Adepto da inspiração como caminho para alcançar a verdadeira arte, é o próprio, em uma das poucas entrevistas que concedeu, que aponta: “Tem-se vontade de escrever um poema da mesma forma que se tem vontade de fazer amor. Tem de existir certo clima de sedução e de cumplicidade para que o poema comece a existir. Têm de existir motivações, de ordem interior ou exterior, uma espécie de senha para que o poema comece a acontecer. O poeta constrói o poema, a emoção desenha o ritmo.”. E é este “clima”, talvez, um dos maiores motivos para sua obra ser tão expressiva e marcante – aspectos que podem ser verificados nestes versos:

 

Poema da Embriaguez

Bebem uns por desprazer,
astros, flor, vinho, absinto.
Bebem Deus para o esquecer.
Eu só bebo o que não sinto.

Outros bebem por desvelo,
solidões, o amor que dói.
Bebem Deus para esquecê-lo.
Eu só bebo o que não foi.

Outros bebem sal do mar,
azuis de ontem e hoje.
Bebem Deus para o matar.
Eu só bebo o que me foge.

Alguns bebem céus e ventos,
som, memória, espera e gesso.
Bebem Deus e anjos imensos.
Eu só bebo o que me esqueço.

 

A morte, o inevitável encontro, revela-se como um caminho para a sagração e um maior reconhecimento, quase sempre arbitrário, daqueles que são levados por ela. Para a obra de Francisco Carvalho, cuja matéria poética merece muitos estudos, tal reconhecimento, se vier, será justo e apropriado.

 

(Clarissa Macedo é baiana. Trabalha como revisora, escritora e produtora. Está concluindo o Mestrado em Literatura e Diversidade Cultural (UEFS). Está presente nas coletâneas Godofredo Filho (2010), Sangue Novo (2011), Verso e Prosa – Oficina de Criação Literária III  e  IV Feira do Livro (2011 e 2012),  e no livro teórico Sem comparação: Torga, Rosa e cia. limitada (2013). Publicou na Verbo21, no site Musa Rara, no Barcaças, em A Poesia do Brasil, nesta Diversos Afins, na 7Faces, na Blecaute. Participou, em 2011, da IV Feira do Livro de Feira de Santana e da 10ª Bienal do Livro da Bahia na abertura da Praça de Cordel e Poesia. É colunista do site Viva Feira)

 

 

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78ª Leva - 04/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Rita Santana

 

Foto: Rosa De Luca

 

Agrestidade

 

Tornei-me bruta
Após travar batalhas de tentares.
O tear do tempo cumpriu-se dentro do universo
E eu apenas cedi ao fim.
Almocei nua no último banquete
E acendi velas à mesa.

Arrumei minhas tralhas e deixei-as
Alheias aos venenos da aorta,
Aos anéis do abandono.

Deixei o feérico, o cupim, a cumplicidade das rotas.
Fiquei à deriva de mim mesma.
Feita toda inteira de atordoamentos
E mutilâncias.

Arrebatada de almas.
Pouco morta.

 

 

***

 

 

Esbeltez

 

A quem minha embriaguez seca,
Meus depósitos de pele crua,
Minhas vastidões interrompidas,
Meus abortos clandestinos,
E o meu destino de santa?

A quem ofertar minha Esbeltez
Sem alicerces, nem cárceres,
Nem desbravadas cercanias
Que alimentam a vitalidade
Da minha alma ainda à toa,
Na invasão das tormentas?

Equilíbrio algum
Invalida meus anseios.

 

 

***

 

 

Catedral de Marfim

 

Ele atropela regras de pertencimento
E toma posse dos meus feudos,
Naufraga em meus açudes rasos,
Desperta carícias clandestinas
Na corporeidade do desejo.

Decifra meus rastros arrastados no chão da Casa,
Lambe o osso exposto do meu sexo,
Rompe seus votos de castidade,
E me põe à vontade em sua Catedral de Marfim.

Ele é assim, afeito aos meus mistérios
E dono testamental dos meus dotes.

 

 

***

 

 

Crepúsculo das Vertigens

 

Ante o teu olhar de céu marítimo,
Cedo oferendas ao teu cinismo-seco.
Crepusculo raízes de verdades verdes,
E ainda assim, quero-te meu!
Apaixonado e obscuro-louco,
Encantador das minhas servas serpentes.

Mente quem olha em silêncio
Tua brandura!
És ofertado a escândalos de botequins.
Tens no nome um Império de mangues,
E no meu lodo escavas pepitas,
Pratarias de negra apanhada
Em arrecifes de ciúmes.

Vingo-me perante o ópio epiderme de teus olhos
E morro a cada romper de casco sobre pedras.

 

 

***

 

 

Ílio

 

Osso meu,
Na ilicitude dos meus requintes.
Cravado em terreno fértil de flamas,
Abnegado esterco na orgia
Dos meus desacertos correntes,
Corpórea mácula na vértebra do meu querer.

Homem Ilíaco!
Indagam sobre minhas adegas
E meus repastos de fêmea acometida
Pelas danosidades da carne.
Indagam sobre minhas vestes e os meus vexames.
Apontam-me entre as professas
Enquanto devassam meus pergaminhos
De mulher conhecedora de homem.

Indagam sobre os meus tormentos
Indagam sobre certas Adagas
Fincadas no lastro da minha cama.

 

(Rita Santana é atriz, escritora e professora. Nascida em Ilhéus, Bahia, iniciou sua carreira literária em 1993. Possui artigos e contos veiculados em revistas e jornais. Recebeu, em 2004, o Prêmio Braskem de Cultura e Arte – Literatura pelo livro de contos “Tramela” (Fundação Casa de Jorge Amado). Além de integrar antologias, publicou os livros de poemas “Tratado das Veias” (As Letras da Bahia – 2006) e, mais recentemente, “Alforrias” (Editus – 2012))

 

 

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78ª Leva - 04/2013 Destaques Olhares

Olhares

NA LIQUIDEZ DA PAISAGEM

Por Fabrício Brandão


 

Foto: Rosa De Luca

 

Pensar novos moldes aos contornos do mundo. Observar com plasticidade cada nuance que se afigura passível de ser vislumbrada. Propor dimensões e, com isso, poder demarcar novas paragens para as andanças sobre a terra. Os dias, com toda a sua carga de signos distintos, sucedem desafios ao olhar de um alguém capaz de transformar a luz em matéria eivada de poesia. Assim, somos conduzidos através dos ímpetos propostos pela fotografia de Rosa De Luca.

Paulista por nascimento, Rosa enxerga a existência como um delicado ato de reinvenções. Seus registros são a prova de que sempre podemos perceber as coisas que nos cercam com status de singularidade. Por mais banalizados que possam ser os lugares que nos abraçam cotidianamente, a artista nos sugere a descoberta de outros modos de experimentar a vida.

Uma temática muito cara ao trabalho de Rosa é, sem dúvida, a forma como concebe a representação das águas. O dinamismo embutido no captar dos espaços líquidos representa muito mais do que um ponto de contemplações. Ali, a capacidade de abstração potencializa as ações derivadas de uma feição etérea das paisagens tanto físicas quanto humanas. Desse modo, parecemos acalentados pela invisível mão da serenidade.

Foto: Rosa De Luca

A fluidez do tempo aparece como outro grande elemento destacado pela fotógrafa. Na ciranda que empurra os instantes sempre adiante, vê-se a terna presença duma atmosfera cujo ritual maior abriga o silêncio, como se este fosse uma curiosa forma de oração.

Com uma carreira iniciada em 1984, Rosa De Luca abriga em sua trajetória uma série de exposições dentro e fora do Brasil, tendo também desenvolvido trabalhos em revistas e publicidade. Nos seus percursos com a fotografia, aprendeu, sobretudo, a pensar a imagem como uma importante fonte de criação de linguagens. Sua atuação como web designer também foi fundamental para a abertura de novas perspectivas visuais.

Considerada a possibilidade que temos de rever os cenários que nos são tão íntimos, Rosa traz à tona tal condição. Se somos acometidos pelo girar frenético da vida que escolhemos, muitas vezes nos esquecendo de vislumbrar necessárias entrelinhas, também nos é permitido reger os movimentos a nosso favor. A pressa, a superficialidade e outras espécies de desatinos nem sempre são capazes de nos furtar as virtudes. Em torno disso, a novidade inerente ao fluxo das águas jamais deixará de nos refrescar a memória.

 

 

Foto: Rosa De Luca

 

 

 

* As fotografias de Rosa De Luca são parte integrante da galeria e dos textos da 78ª Leva.

 

 

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78ª Leva - 04/2013 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Encadear fatos, construir cenários que os abracem e mover os personagens dentro das narrativas são apenas uma parte da hercúlea tarefa de se contar uma história. Quando um autor possui estes ingredientes em suas mãos, passa a lidar com o desafio de trazê-los à tona diante da presença dos leitores. Levar isso em frente não significa tecer um pacto com uma proposta de sedução gratuita ou, simplesmente, enveredar-se pelo torpe caminho da superficialidade, como se pode deduzir em muitas leituras diluídas no mundo.

Definitivamente, erguer uma história não é ter em conta apenas um arsenal de usos de linguagem e conduzi-los rumo a um ambiente meramente estético. Atrair um leitor para uma narrativa é, também, fazê-lo crer que tudo esteja sob seu controle até o ponto em que ele perceba ser praticamente impossível domar a eclosão dos acontecimentos. E assim, rompendo convicções e deixando leitores desfilarem livres e nada impunes pelo jardim do imprevisível, é que um criador alcança com sua obra resultados substanciais.

Não está longe de nós quem pratica essa espécie de ritual criativo. O escritor e jornalista fluminense Sérgio Tavares é exemplo vivo disso. Detentor de um estilo que penetra delicadamente no universo intimista de pessoas e lugares, Sérgio não é apenas cicerone de quem lê seus escritos. Na verdade, estamos diante de um autor que, de caso pensado, conspira a favor de nossas percepções, ofertando-nos um complexo fluxo de descobertas e revelações. Conceber uma zona de conforto para o leitor não é algo do qual esse autor seja fiel partidário. Importa, para ele, uma literatura que provoca, tira os móveis de lugar e não se encarrega de determinar qualquer perspectiva de salvação.

Vencedor do Prêmio SESC Nacional de Literatura 2009, com o livro de contos “Cavala” (Editora Record), Sérgio Tavares recentemente lançou seu segundo rebento, “Queda da própria altura” (Editora Confraria do Vento), que também trafega pelas veredas contistas. E para falar um pouco sobre o seu denso percurso pelas palavras e outros temas correlatos, o autor nos concede uma entrevista, pontuando aspectos que fazem de sua literatura uma observação marcante sobre o espantado ato de existir.

 

 

Sérgio Tavares/ Foto: Mateus Tavares

 

 

DA – Em “Queda da própria altura” há uma sensação abismal a atravessar as narrativas, como se existir fosse um arremesso rumo ao limiar das coisas. O que dizer das palavras que evocam o sabor dos precipícios?

SÉRGIO TAVARES – Creio que são as mais intensas. O Nietzsche tem uma frase que diz que se você olhar para o abismo por muito tempo, o abismo acaba também olhando para você. Esse livro é o abismo que olhou para mim num momento terrível da minha vida, viu um homem desmoronado por perda, impotência e dor, e revidou com o único eixo capaz de articular os fragmentos. Talvez isso explique a opção por contar essa história no formato de contos, lançando mão de induções que encadeiam todas as narrativas para um desfecho único e provocam a sensação de unicidade. Isso foi intencional, porém, enquanto escrevia, eu não sabia o quão distante seria preciso enveredar para encontrar a chave capaz de trazer a voz narrativa de volta para o cenário estabelecido: o limiar abismal. Seja de maneira explícita ou tácita, é ali que estão os personagens, era onde eu estava. Foi ali também que percebi que, diante do abismo, ou você pula ou você decide conversar com ele. Eu e a voz narrativa do livro decidimos conversar.

DA – De fato, fica-se com a sensação de que o ambiente do livro também apontaria para a construção de um possível romance. No entanto, a fragmentação da memória e dos próprios sentimentos, aspectos marcantes de nosso tempo, surge bem delineada na narrativa e encontra abrigo nos contos. Essa reflexão norteou sua escolha narrativa de algum modo?

SÉRGIO TAVARES – A memória era o único caminho para que esse livro existisse. Virar o jogo e exercer uma pressão sobre ela foi, naturalmente, entender que, para me reabilitar, eu precisava escrever sobre o que aconteceu, preencher essa ausência com algo que pudesse eternizar o que as circunstâncias da vida (alguns diriam destino, eu não tenho ideia) não me permitiram. Foi a partir dessa percepção que surgiram as muitas páginas de um cruzamento de testemunho e retratação que, mais tarde, seriam editadas no conto “Sono”, o núcleo de todo o livro. O que há de verdadeiro, do que pode se aproximar de mais real do ocorrido está ali. Contudo eu não podia resumir toda a história a isso, eu era atacado por tantos sentimentos que precisava incidi-los em outras narrativas. Essa opção considero a mais acertada em “Queda…”. Ao contrário de “Cavala”, meu livro anterior, onde o binômio loucura e sexo entretecia os contos, havia sentimentos demais, muitos fragmentos para definir dois ou três caminhos para a trama. O que eu não poderia, e sempre soube disso, era perder a mão desses sentimentos e cair na pieguice ou na comoção exacerbada. Portanto, depois de estar por muito tempo apegado a tudo aquilo, a tratar memória feito uma massa de modelar, eu precisa me desprender e ler o livro como um leitor apático. Isso é literatura, afinal.

DA – Suas observações aproximam-se muito com o pensamento do escritor Manoel Ricardo de Lima. Vislumbrando a literatura como uma armadilha a ser construída, ele sustenta que o seu esforço é para não escrever livros ingênuos, pois vivemos num tempo em que não podemos pactuar com esse tipo de coisa.  Seria esse o maior desafio da criação?

SÉRGIO TAVARES – É curioso você citar o Manoel Ricardo de Lima, pois ouvi comentários que traziam a mesma impressão, porém a primeira obra dele que li ocorreu depois de o novo livro já estar encerrado. Considero um tanto desconcertante, para um autor, fazer analogias entre sua escrita e a de outros escritores, mas há sim semelhanças e diferenças, sobretudo no conceito empreendido especificamente em “Queda…”. Por conta de partir de um momento tão íntimo, acredito que a prosa acabou por incorporar naturalmente um verniz poético. Comparando com o meu primeiro livro, eletrificado por cargas fortíssimas de violência e despudor, a tessitura dos novos contos acontece de maneira calculada, silenciosa, introvertida. Essa é uma irmandade que percebo com o trabalho do Manoel, mais especificamente com o livro “As Mãos”, onde a poesia é utilizada como elo para encadear as cenas que transcorrem em tempos mutáveis. Outra semelhança, e essa é a mais viva, é justamente o uso da literatura como armadilha, o que gosto de chamar de a construção do nocaute.  É não ser ingênuo (ou relapso) em acreditar que a ideia, o escopo, basta para que a história funcione, para que a estrutura prevista tenha solidez suficiente para sustentar a trama. Penso que é exatamente o contrário, que o leitor deve ser posto no estado de refém, que deve ser enganado até o derradeiro ponto final. Essa intenção é muito clara no conto “Cerimônia”, onde uma mulher se prende em reminiscências enquanto separa a roupa do filho para um importante evento, até encontrar um desfecho arrebatador, que não cabe aqui revelar para não estragar a surpresa. Conquistar o leitor aos poucos e colocá-lo numa zona de conforto, para em seguida atacá-lo com um golpe fulminante, sempre foi o que persegui, na edição do novo livro. O maior desafio da criação é não tratar o leitor com carinho.

DA – Logo em sua estreia em livro, os contos de “Cavala” conferiram a você o Prêmio SESC Nacional de Literatura. Em qual contexto você situa esse momento de reconhecimento? 

SÉRGIO TAVARES – No mais dos inesperados. Os contos que compõem “Cavala” são, em suas origens, acidentais. Durante o processo de criação do novo livro (que, até então, era previsto para ser o meu primeiro), escrevi alguns contos cuja natureza era exatamente a antítese de como estava tratando a memória em “Queda…”. Se as motivações ali eram os sentimentos íntimos, as lembranças dolorosas e o vazio, nesses contos guardados não havia tempo para o luto ou para a autocomiseração. “Cavala” é constituído por personagens que, impelidos por desejos irrefreáveis, gozos desmedidos e transtornos mentais, são pressionados até situações-limite, onde a possibilidade de redenção está condicionada ao cometimento de atos hediondos.  E isso também se reflete na prosa mais acelerada e fragmentada, sem espaço para poesia ou onirismo. Mas, como disse, eram contos de gaveta e continuei com o projeto inicial. Foi então que, certa manhã, eu li sobre as inscrições do Prêmio SESC; melhor dizendo, sobre o fim das inscrições. Era apenas o tempo de transformar esses contos num volume, revisar e despachar pelos correios. Assim o fiz e a vida seguiu, até o dia em que um telefonema mudou tudo. Eu vivia um outro momento, minha esposa estava grávida novamente, engatinhávamos novos planos e, de repente, o sonho de muito tempo. Lembro claramente que estava na balsa, indo para o trabalho, e não sabia se voltava para casa, mantinha a normalidade ou tentava achar salmão no fundo da Baía de Guanabara.

DA – A condição de premiado impôs a você alguma mudança de paradigma ou ruptura em especial? Viu-se imbuído de uma, digamos assim, maior responsabilidade criativa?

SÉRGIO TAVARES – Certamente houve uma ruptura, mas longe de qualquer aspecto negativo. Não há dúvida de que o Prêmio Sesc me avalizou como escritor, mas a conquista não se resume ao carimbo na capa do livro. Existe toda uma programação robusta (participações em feiras literárias, palestras, debates) que ocorre paralela ao lançamento, contribuindo para o enriquecimento literário do autor, bem como para a divulgação da obra. O acúmulo dessas experiências, diante da condição de ter sido revelado por um prêmio, pesou muito mais nas minhas escolhas do que qualquer tentativa de superar o primeiro livro. Aliás, o que seria uma tremenda estupidez, pois competir comigo mesmo só me valeria a derrota, de todo o modo. Fazer parte desse universo foi determinante para apagar todo o traço de deslumbramento, o que é vital para um autor que planeja continuar publicando. O mercado editorial tem suas regras. É isso. Se você pretende se estabelecer como escritor, escreva. Escreva, revise e reescreva. Não há nada de encantado nesse processo. O carpinteiro não faz a mesa com o manuseio da madeira. Acreditar que o fato de o meu nome estar associado a um dos principais prêmios literários do país abriria todas as portas, nunca foi uma possibilidade. O que foi ótimo, já que a verdade está bem longe disso. Eu não posso me comprometer com o que criei ou com o que estou criando, mas com o que ainda preciso criar. Tem um trecho do conto “Quebranto” em que o narrador diz que quando deixamos de chamar ou de ser chamados, perdemos nossos nomes. É exatamente assim que funciona.

DA – O caminho por seguir, encerrando os desafios que lhe são peculiares, remonta algumas vezes à  chamada “angústia da criação”.  A questão de se desejar erguer uma obra com status de notoriedade não lhe parece um desvio de nosso tempo?

SÉRGIO TAVARES – De maneira nenhuma. Todo artista que se propõe a publicar e divulgar uma obra está naturalmente em busca de notoriedade, principalmente aqueles que insistem que não, pois a negação em si já é a intenção do holofote. O que não se deve confundir é a chance de notoriedade com a busca vazia pela fama. São motivações diferentes, cuja explicação aqui iria pesar muito no tamanho da resposta. Sugiro a leitura dos ótimos “A Experiência da Fama”, da Maria Cláudia Coelho, e “O Show do Eu”, da Paula Sibilia, para um melhor entendimento. De volta à questão, tem se tornado claro, cada vez mais para mim, que os dois fatores principais para o bem-estar de um livro publicado é a divulgação e a distribuição. Hoje é possível facilmente lançar um livro por conta própria; e talvez esse seja o verdadeiro desvio do nosso tempo. Tomar uma atitude como essa deve estar condicionada à extensão da estrada que esse livro planeja percorrer. É claro que há a internet e as redes sociais, mas o aporte de uma editora bem estruturada e a comercialização nas livrarias de renome ainda têm um peso incomparável. Além disso, essas são engrenagens de uma máquina cuja esteira conduz com mais facilidade aos suplementos literários e às revistas especializadas. Isso não é crítica ou resignação, mas uma percepção particular. Eu sei que existem exceções, que não há nada mais angustiante do que aguardar a resposta de uma editora, que a qualidade pode intervir na verticalização da informação. O meu primeiro livro teve qualidade para conquistar o Prêmio Sesc, porém será que teria qualidade para ser francamente aprovado por uma editora do porte da que o publicou? O marcado literário é tão repleto de incertezas, que o autor deve contar com menos passos falsos possíveis. Entender que é necessário ampliar o campo de projeção de uma obra é, atualmente, uma atitude capital.

DA – O que você considera ser o traço marcante da literatura feita hoje no Brasil? Com toda a complexidade que a questão demanda, estamos ainda muito longe de consolidar uma nova geração de escritores?

SÉRGIO TAVARES – A nova geração está em pleno curso. Temos uma safra de talentosos autores entecendo uma literatura que transcende as fronteiras estabelecidas, que dialoga com o mundo sem se destituir do caráter particular, que se arrisca a incorporar gêneros com habilidade para não repetir o cânone. É um conjunto constituído por inúmeras correntes que, sem precisar aqui citar um ou outro nome, traz um traço cosmopolita bem marcante, com fulgente predileção por narrativas autocentradas, donde se sobressai a condição do “eu” nas relações interpessoais. É um tipo de literatura que já foi chamada de “literatura psicológica”; enredos centrados na (des)construção emocional, onde os embates e os impulsos têm mais impacto que a estrutura e a caracterização dos personagens, ao ponto de influenciar diretamente nas reviravoltas e no desfecho das tramas. Com isso, acredito que se estabelece um cenário forte, capaz de produzir clássicos para novas épocas; é claro, levando-se em conta o momento único em que a literatura brasileira se desvenda diante dos olhos do mundo. Há, no entanto, duas coisas que me incomodam. A primeira é o esforço descomunal de se instituir a supremacia do romance, sufocando as incursões em outros gêneros. Já a segunda é o manejo com que giram o holofote, na tentativa insensata de imputar a grandeza do momento a um grupo de escolhidos. Os nomes que perdurarão somente o filtro do tempo irá dizer. Mas certamente aqueles que caminham agora não são apenas vinte.

Sérgio Tavares/ Foto: Mateus Tavares

DA – Andamos bem em matéria de crítica literária? 

SÉRGIO TAVARES – Gosto, de maneira geral, do que é feito por aqui. A crítica brasileira tem um aporte mais incisivo, mais direto, seja para elogiar ou para meter o pau. Não somos afeitos a tergiversações, ao contrário dos norte-americanos que fazem das resenhas um misto de resumão com pontuais impressões. O que falta por aqui, na minha opinião, são mais publicações voltadas exclusivamente para literatura. E não digo apenas um robustecimento dos suplementos literários, mas revistas e outros periódicos especializados. Tirando o Sul (com louvor para o que é feito no Paraná) e São Paulo, percebo que os espaços acanhados acabam sendo relegados aos principais jornais do determinado estado. Aqui no Rio, por exemplo, é uma vergonha, uma falta de interesse medonho. Eu mesmo tenho impressões dos meus livros espalhadas pelo país, com gloriosa exceção para o Rio. É claro que pode valer a máxima de que santo de casa não faz milagre. Mas para ter santo, antes tem de ter altar.

DA – Há sempre um discurso pronto quando se busca a razão para a “tradicional” falta de interesse pela leitura.  Será também que não vivemos num país onde potenciais leitores são subestimados?

SÉRGIO TAVARES – Não há dúvida quanto a isso. Tornou-se lamentavelmente cômodo, para aqueles que passam pelos canais institucionais com o dever de mudar essa realidade, aceitar a constatação com a leviandade de uma máxima. “O Brasil é um país onde pouco se lê”, fica dito e pronto! Quase um lema distorcido, um eco que se propagava há séculos. Mas por que é assim? A resposta é bem complexa e encadeada por diversos fatores, mas gosto de um argumento transformado em crônica pelo jornalista Zuenir Ventura, colunista d’O Globo. Nesse texto, Ventura, um professor universitário já com 80 estações, sintetizou, em poucos parágrafos, essa infinita discussão do porquê do exercício da leitura ter se tornado, geração a geração, uma maratona com cada vez menos participantes. Ao contrário dos que culpam a decadência cultural, os novos caminhos tecnológicos e a hegemonia da televisão, o jornalista defende que a culpa não é de quem deveria ler, mas de quem deveria tornar essa atividade atraente.

Por que os europeus e os americanos leem oito vezes mais livros que os brasileiros? Por que cerca de 70 milhões de pessoas no Brasil não leem? Falta de hábito, poder aquisitivo? É claro que ambas as circunstâncias têm influência direta na resposta, sobretudo quando associadas ao fato de termos 21 milhões de analfabetos. Contudo, há um outro fator determinante que, no texto, o jornalista aponta com precisão: parte da culpa, sim, está nas escolas, num comodismo intelectual que refaz um tempo já, há muito, incinerado.

O mote da crônica, explica Ventura, veio do pedido de um amigo, pai de um aluno no segundo ano escolar, que lhe passou a lista de livros na tentativa do empréstimo de alguns títulos. O jornalista conta que ficou abismado ao se deparar com indicações como “Senhora” e “Iracema”, de José de Alencar; “O Cortiço”, de Aluisio de Azevedo; “Memórias de um Sargento de Milícias”, de Manoel de Antonio de Almeida; e “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis. Obras que estão além do tempo daqueles que são obrigados a lê-las, assim como eu mesmo fui e como aquele menino, muitas décadas depois, também seria.

Vejo que a questão é exatamente essa: a obrigação. Como um jovem, justamente no momento em que está iniciando sua formação intelectual, pode desenvolver o gosto pela leitura através da imposição de obras datadas, repletas de um coloquialismo que torna o seu próprio idioma praticamente estrangeiro? Ventura cita, como exemplo, um trecho de José de Alencar: “Iracema saiu do banho; o aljôfar d’água ainda roreja, como à doce mangaba que corou em manhã de chuva”. Sinceramente, eu mesmo não sei o que é um aljôfar. Então como isso pode ser mais atraente para um moleque de 13 anos do que ficar no facebook? Na época em que era obrigado a ler “Brás Cubas”, “Senhora” e “Iracema”, eu queria mais era ler histórias de detetives. Isso prova que o problema não é o apelo da internet, mas a forma errada e atrasada com que as escolas propõem aos alunos a leitura, anulando toda a condição de uma atividade prazerosa.

Na crônica, Ventura elenca alguns autores contemporâneos que certamente seriam mais atrativos, tais como Rubem Braga e Fernando Sabino. Eu acrescentaria Luiz Vilela, Clarice Lispector, Murilo Rubião e Luiz Fernando Veríssimo. Acredito que o caminho correto é fazer com que os potenciais leitores assimilem que ler não é um dever de casa, algo necessário para se dar bem num teste.

DA – O olhar para dentro, característica forte em seus escritos, é algo deveras significativo num tempo em que a superficialidade das coisas insiste em fazer sombra, sobretudo ao terreno das relações humanas. Esse caminhar pela via intimista é também uma tentativa de resgate, quiçá um ímpeto de resistência?

SÉRGIO TAVARES – Escrever, por si só, já é um ato de resistência. Não há um significado vital para isso, senão um esforço para aliviar um ímpeto particular. Escrever, de certa forma, é uma vaidade. Por isso, me tornei jornalista, pois buscava uma maneira de orbitar pelo universo da escrita, encontrando quem me pagasse para isso. Ainda que longe de qualquer ostentação, é muito mais certo sobreviver como jornalista do que como escritor nesse país. O curioso é que, à medida que me especializava na profissão, percebi o quanto o jornalismo era (e é) importante nas minhas incursões no campo ficcional. Sobretudo no que tange a construção do personagem. Vejo que o escritor não pode transitar pela superfície das coisas e deixar todo o trabalho para a imaginação do leitor. Por isso, há uma predominância, em meus escritos, pela voz narrativa em primeira pessoa. Os meus personagens são hiperativos, as histórias acontecem sob o ponto de vista deles. E isso só é possível porque, antes de partir para a escrita, eu traço todas as características desse personagem, da maneira mais íntima possível; é algo excessivo, abusivo. Um exemplo é a personagem do conto “Fome”, a segunda narrativa do meu primeiro livro, “Cavala”. Estamos diante de uma professora do ensino primário viciada em sexo, ao ponto de seduzir um mendigo e levá-lo para casa. Quem é essa mulher? Por que ela chegou a esse extremo? Como ela funciona emocionalmente e fisicamente nessa situação? Investiguei todas as respostas, antes dela tomar a decisão. Cumpro o papel de jornalista diante de meus personagens. Agora, isso mudou um pouco, pois estou engatinhando pelas vielas do romance, que são mais íngremes e auspiciosas que as do conto. Portanto, além de construir os personagens, há diversas anotações no caderninho de capa xadrez sobre a estrutura da história. Mas o principal continua sendo o protagonista. E, dessa vez, tento algo que, se não for inalcançável, será uma experiência fascinante: desvendar a origem do mal, entender quais fatores incidem sobre alguém, tornando-o capaz de cometer livremente atos hediondos.

DA – Que espécie de busca norteia as palavras de Sérgio Tavares e o faz seguir adiante?

SÉRGIO TAVARES – Escrevo porque preciso, porque é a única coisa que tenho vontade de fazer, porque é o que cala esses personagens que inelutavelmente insistem para que eu conte suas histórias. Depois de duas antologias, apostei que era o momento de escrever um romance. Bem, o que sei da história é que se passa na transição dos anos 80 para os 90, período de surgimento da epidemia do vírus HIV, e tem com ponto central o desmoronamento de um núcleo familiar, a partir do momento em que a mãe contrai a doença, após uma transfusão de sangue, e morre. Essa ausência provoca o desligamento entre pai e filho, cuja negligência trará consequências aterradoras, sobretudo depois que o pai traz uma nova mulher para morar na casa e torna-se um sujeito submisso, emasculado, incapaz de reagir a contínuas traições. Tem também uma mulher chamada Selma e alguns cachorros mortos. É um livro sobre a origem do mal. O meu projeto mais ambicioso, até então.

 

 

 

 

 

 

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78ª Leva - 04/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Tristan A. Guimet

 

Foto: Rosa De Luca

 

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Sei perfeitamente. Ensejo saber que existem páginas brancas
desalinhadas da sua pele que artilham colisões acomodadas pela
força da iminência.
Às vezes recorro amedrontado ao luzir dos presságios, à precavidade
da noite, à temerária impaciência do sono.
herdamos pelas encostas do sangue
o momento pela repartição do impossível
o eixo da corrente nocturna
a delicadeza da palavra intangível do seu espaço
o recreio inexplicável do absoluto, o irreprimível mistério
pelo teu nome
que encadeia – as mãos submersas.

 

 

***

 

Fogo Posto

 

gosto muito devagar
o movimento insinuante de um gato
quando calmamente atravessa as paredes,
devagar as mãos descobrem iníquo os rasto dos dedos
devagar,
para não perturbar a sonolência dos espelhos.

 

 

***

 

As linhas traçam a brancura do medo
procuramos a afabilidade do silêncio
sobre a ingenuidade da terra
Escrever é um acto tardio                  que
Existe na perecível arritmia de toda a ausência.

 

 

***

 

O Caminhante

 

a Bruno Pereira

 

Mostra-me um pouco o recanto
de um homem sobre a fé de um cego
Recorda-me melhor a cadeira
dos sítios de nunca
Bebo um pouco mais de vinho
que penso ter na caneta,
Devora-me o caminho das chuvas
que me enviaram no pensamento
húmido da tua voz
Alheamente aceito a partida de um corpo
soletrado na origem frágil do encadeamento da queda.

un, deux, trois.

Au revoir.

 

 

(Tristan A. Guimet, 23 anos, jovem poeta de naturalidade francesa, de pai francês e de mãe chilena. Imigrou para Lisboa em 1998, onde a língua portuguesa tornou-se, hermeticamente, a sua “primeira morada de silêncio”. Estudante de Letras na Universidade Nova de Lisboa)

 

 

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77ª Leva - 03/2013 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

As opiniões se dividem quando o assunto é delimitar as implicações da poesia. Se para alguns o gênero representa uma vasta possibilidade de experimentos e usos da linguagem, outros defendem uma perspectiva que opera no sentido duma transformação do olhar. Especificidades à parte, o fato é que, ainda assim, parece haver uma coexistência tácita entre esses dois modos de pensar o fazer poético. Ao passo que descortinamos leituras das mais diversas, percebemos autores a privilegiar, sobretudo, aspectos formais da criação, construindo uma obra que também congrega elementos dotados de subjetividade. Definitivamente, uma via não anula a outra.

Embora o ato de criar possa conferir uma condição especial a quem escreve, alavancando proezas e notoriedades, há quem renegue tal atributo não por um mero capricho, mas sim pela percepção de que estar no mundo e decodificá-lo de algum modo representa algo mais valioso. Nesse trajeto, imbricada está a noção mais pura de um exercício do olhar, e para gente como Eduardo Lacerda isso significa muito. Gaúcho por nascimento e residindo em São Paulo desde a infância, o moço rejeita ser chamado de poeta. Prefere, ao levar adiante sua feição de editor, ser visto como um alguém que faz nascer livros e autores. Em parceria com Aline Rocha, conduz a Editora Patuá, iniciativa que acaba de completar dois anos de existência e cujo lema confere aos livros um status de verdadeiros amuletos.

Mesmo se considerando um não-poeta, Eduardo ousa com palavras e versos. A prova disso é a reunião de poemas presente em sua cria de estreia, “Outro dia de folia” (Editora Patuá), obra que encerra imagens e tantos outros signos bem típicos de um ser/estar no mundo. Ao mesmo tempo em que apresenta deslocamentos em torno de temas caros à existência, o livro também sugere impulsos pela via da transgressão. Lê-lo é sentir-se um pouco menos confortável diante da parca quantidade de certezas que nos habitam. Assim, um ritual de provocações desfila por cada verso, desafiando os leitores a celebrarem epifanias que nem sempre soam como boas novas. Tendo como companhias inseparáveis o espanto e o estranhamento, Eduardo Lacerda compartilha conosco suas impressões sobre a vida e a literatura, perfazendo um diálogo movido por uma paixão notória: os livros.

 

 

Eduardo Lacerda / Foto: Stefanni Marion

 

DA – “Outro dia de folia”, sua obra de estreia, evoca, de modo especial, uma poesia de imagens, reminiscências e louvores dispersos numa travessia pela vida. Na construção desse caminho, o que lhe parece mais emblemático?

EDUARDO LACERDA – Você tem razão em afirmar que é e há uma poesia de imagens no meu livro ‘Outro dia de folia’. Tento construir em meus poemas aproximações com a prosa, criando cenas, espaços, personagens – embora não explícitos – falas sobrepostas, que podem simular outros planos de discurso e diálogos dentro do poema. A imagem é um dos recursos para a montagem desses pequenos contos em forma de poesia. Então, se há algo emblemático, é que o poema precisa acionar – criar uma ação – no momento da leitura. Precisa criar um impacto de uma história. Não busco exatamente, com estes poemas do livro, despertar sentimentos ou mesmo emoções sentimentais, mas inserir o leitor dentro de uma ação.

Em nem todos os poemas consegui isso de forma efetiva, mas acho que com a maior parte isso foi possível, até mesmo pela ligação temática entre eles, que é, principalmente, a imagem do deslocamento e melancolia do eu-lírico em relação a uma necessidade cada vez maior de felicidade, quase como uma obrigação de se comemorar, festejar.

Talvez dois versos possam ser emblemáticos para a definição desse deslocamento, o primeiro é o desfecho do poema “A Última Ceia”: “já não me encaixo / depois que aprendi / a olhar de lado / e sair por baixo”. O personagem do poema, uma criança, é colocado sentado à esquerda dos pais no meio da mesa, essa marcação espacial ‘à esquerda’ (uma referência bíblica alterada, que é a de Jesus sentado à direita de Deus) e ‘no meio’ já revelam um deslocamento, uma não adequação do personagem, que como um ‘prato que se enche’ vai procurar ‘lugar entre as pessoas’. O personagem não encontra esse lugar, ele não aceita esse lugar imposto, ele aprende a olhar de lado. O ‘sair por baixo’, que poderia remeter a uma inferioridade desse ‘pequeno’, como chamo o personagem, na verdade pode significar que é possível uma fuga. Que sair por baixo, quando estamos cercados por todos os lados, pode ser uma fuga.

O outro verso é do poema ‘Outro dia de folia’, que dá título ao livro (embora escrito após o título do livro já estar definido há muitos anos). Nesse poema eu questiono: “quanto há / de / penetra / no dono / de sua / própria / festa?”. É uma provocação. E é um deslocamento, mas é também, talvez, uma forma de transgredir nossas certezas de espaço no mundo.

DA – É interessante você pontuar essa noção de transgressão a serviço da poesia. Nesse sentido, percebe a existência como um misto de espanto e estranhamento?

EDUARDO LACERDA – O poeta Ferreira Gullar afirmou exatamente isso sobre sua poesia: “A minha poesia nasce do espanto, de alguma coisa que me surpreende, alguma coisa que eu não tinha descoberto ainda na vida”. Gosto disso, do espanto, do estranhamento, mas também da descoberta. Descobrir algo, conhecer e, principalmente, reconhecer são passos além do estranhamento. É entrar em contato com aquilo, mesmo sem um entendimento completo. Podemos estranhar algo a vida toda e aquilo não e nunca significar absolutamente nada, não é? Um estranhamento só terá valor se me revelar algo. Então é também uma revelação. Fazer um poema é também encher de significados o que queremos dizer. E será um bom poema aquele que conseguir criar outros espantos e novos significados a partir disso. Um bom poema precisa ter uma eternidade (e não infinidade) de interpretações, eu acho.

Mas acho que existem muitas interpretações para a minha percepção de existência. A minha existência, como pessoa, é uma coisa muito simples. Gosto de livros, amigos e cerveja. E é diferente da minha existência como poeta, da minha existência como editor de livros. Aliás, sempre afirmei que eu não sou um poeta. Eu não romantizo a figura do poeta. Eu não existo como poeta. Publicar foi uma consequência de mais de onze anos escrevendo alguns poemas que acabaram premiados para a publicação em livro. Publicar se tornou uma obrigação, acho.

Mas eu romantizo a minha importância de editor. Eu existo como editor. Talvez isso seja estranho e espantoso. Espero que seja. Mas não estou dando um sentido de uma importância para os outros, não sei se tem essa importância. É importante para mim. O que eu sinto com a edição é exatamente o que deve sentir um escritor. E que o Rilke definiu tão bem: “Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranquila de sua noite: ”Sou mesmo forçado a escrever?”. Eu só morreria se não pudesse mais, de alguma maneira, trabalhar com os livros.

DA – Ao declarar-se um não-poeta, você abre margem para algumas reflexões ligadas ao ofício, sobretudo se formos levar em conta a multiplicidade de escritos que eclodem cotidiana e freneticamente em nosso tempo. Guardadas as devidas proporções daquilo que pode ser considerado como de efetiva qualidade, acredita que a criação literária anda um tanto banalizada?

EDUARDO LACERDA – Entramos em um campo onde tenho feito muitas inimizades. E, sinceramente, não tenho nenhum problema com isso. Tenho defendido, nos últimos anos, a ideia de que existem mais poetas do que leitores. Um paradoxo, no mínimo. Um absurdo, para dizer a verdade. Todo poeta deveria ser um leitor. Eles não são, infelizmente. Claro, não quero generalizar. Alguns ainda são leitores, mas é uma parte muito ínfima. Mas se realmente todo poeta fosse leitor de poesia, poesia venderia muito.

Então, sim, a criação literária está banalizada.

Gostaria de dizer, entretanto, que acredito que todos têm o direito de exercer a criação literária. A banalização da literatura não está no fato da popularização da escrita. Poesia não é para as elites, assim como não é para as massas. Ela é para todos. A poesia deve estar acessível para todas as pessoas. Algumas das manifestações mais interessantes de criação e divulgação literária estão ocorrendo nas periferias de São Paulo, por exemplo.

A banalização, a meu ver, é o descaso dos poetas com outros poetas, com outros livros, com outras linguagens, com tudo que está ao nosso redor.

Vou dar um exemplo simples: a Editora Patuá, da qual sou coeditor, recebe cerca de 100 originais por mês. Desse total, muitas vezes, nenhum desses autores sequer conhecem um livro da editora. Nunca se interessaram em comprar nenhum livro de nenhum autor, muito menos pedir um e-book de graça (os quais sempre oferecemos). Eu não entendo, então, como alguém pode se interessar por uma editora que não conhece. E talvez isso explique como tantos escritores pelo país são enganados por editoras sem nenhuma qualidade.

A necessidade de publicação se tornou maior que a necessidade de leitura e de diálogo com o outro. Todos só querem falar. E eu acho que é o momento de pararmos para também ouvir o outro.

Então, acho que essa se tornou a banalização da poesia, mas também é a banalização das relações em toda a sociedade. Mas esse é o discurso de um otimista, embora não pareça. O meu otimismo está nas minhas ações, em acreditar nos poetas. Em acreditar ainda na literatura, na poesia.

DA – Talvez uma das causas desse insulamento literário seja a tendência atual de laços de compadrio estabelecidos na internet, principalmente via blogs e sites pessoais. Muitos se visitam e se comentam mantendo uma seara de cordialidade que parece alimentar um círculo vicioso. Daí, essa, digamos assim, frágil aprovação, com seus controvertidos códigos de ética, oferecer um ambiente perigoso para a criação. Vivemos uma era de relativizações?

EDUARDO LACERDA – Sérgio Buarque de Holanda formulou a ideia do homem cordial. Acho que ela explica uma parte do que você chamou de ‘era de relativizações’. Na verdade, essa ‘cordialidade’ não é – sempre – essencialmente ruim. Chico Buarque, filho de Sérgio Buarque, comenta / resume em um vídeo essa teoria: “Mas a ideia é a do homem cordial como o homem que reage conforme seu coração, né? Capaz pro bem e pro mal, capaz de grandes efusões amorosas, capaz de inimizades até violentas. E o brasileiro tem um pouco, acho que ainda tem, de levar tudo pra esse lado, de ser incapaz às vezes de seguir uma hierarquia, de obedecer uma disciplina muito rígida. A vontade que ele tem de travar contatos amistosos, criar intimidade, encurtar distâncias. Isso continua existindo, essa informalidade, avesso as formalidades, não gosta (…) o brasileiro criou essa informalidade natural. Isso continua existindo. Agora, como eu dizia, é pro bem e pro mal, dependendo da circunstância o brasileiro pode dar numa raça generosa, né? Ou num povo até triste e amargurado.


Como já afirmei anteriormente, minha tendência é para o otimismo. Acredito na literatura, acredito nos livros, acredito na poesia. As relativizações, as cordialidades, eu não poderei mudá-las dentro do sistema. O que podemos fazer é trabalhar seriamente e de forma honesta, com comprometimento. Eu busco muito isso de nossos parceiros – autores, por exemplo – comprometimento.

Evitamos, dentro da Patuá, quem queira estabelecer relações apenas cordiais, de amizade. Eu costumo dizer que não publicamos os amigos, embora todos os autores se tornem nossos amigos. A amizade é fundamental. Mas o texto, o texto é, para a publicação, mais importante. Nem sempre acertamos. É impossível, sem conhecer um autor, saber qual o comprometimento dele com o livro, com a literatura, com a editora. Mas acho que formamos, em menos de dois anos, um grupo de autores que ultrapassam a publicação do próprio livro. Isso é fantástico!

DA – A Editora Patuá completa agora dois anos de existência e vem, pelo que se pode observar, construindo um caminho cada vez mais sólido. O surgimento dela trouxe embutido algum desafio em especial? Vocês vislumbraram uma ruptura de padrões editoriais?

EDUARDO LACERDA – Após dois anos de trabalho, com quase 80 autores publicados e mais 100 títulos que queremos lançar apenas este ano, além de um prêmio de R$ 50.000,00 do Proac – Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo – destinado à realização da Coleção Patuscada, que publicará 12 títulos de 12 poetas inéditos, sendo que os livros terão uma tiragem de 1500 exemplares, com 20% destinados à distribuição gratuita nas bibliotecas do estado, acredito que conseguimos romper com alguns padrões, tanto editoriais como de mercado editorial, agora os desafios são outros e muitos.

Mas existem dois desafios especiais nesse momento. O primeiro é editorial, queremos sempre apresentar livros diferentes e únicos. Então estamos sempre pensando em como inovar de alguma forma. Cada livro na Patuá tem um projeto gráfico especial, ilustrações exclusivas, formatos e acabamentos diferenciados (capa-dura em alguns títulos, por exemplo). Então, esse é um desafio prazeroso: como podemos fazer algo ainda melhor e surpreendente? Como fazer isso mantendo também os preços de nossos títulos abaixo dos praticados pelas outras editoras?

O segundo desafio é o da Patuá como empresa. Em dois anos conseguimos vencer uma série de dificuldades, mas a editora ainda não nos dá lucro. É claro que o lucro não é nosso objetivo principal, mas precisamos dele até para continuar o projeto. É bom ter autonomia financeira para investirmos em novos projetos, em coisas mais ambiciosas (editorialmente). Essencialmente esse desafio nem é financeiro, mas será bom ter mais livros sendo vendidos e distribuídos, isso também pode nos fortalecer editorialmente.

DA – Quando se fala em era digital versus a manutenção do livro impresso, muitos assumem um discurso apocalítico quanto a este último. Na sua visão de editor, de que modo podemos fomentar uma coexistência harmoniosa entre os dois suportes?

EDUARDO LACERDA – Há muitas formas de se entender essa questão, infelizmente muita gente ainda não entendeu nada.

O escritor Umberto Eco deu uma definição muito simples e certeira sobre o que é um livro “O livro é como a roda, depois que foi inventado, não há como melhorar”. E é isso. O livro digital é apenas um suporte (na verdade, o livro digital pede um suporte – os leitores eletrônicos -, enquanto o livro impresso é o próprio suporte do texto: são ambos, texto e suporte, uma única coisa).

Assim, o livro digital não veio substituir o livro impresso, que ainda é infinitamente superior, mas pode ser – nem sempre ele é – uma opção a mais para a leitura e acesso ao conhecimento. Não há nada, porém, no livro digital, que o torne mais atraente do que o livro impresso.

Pensando de forma prática, um bom livro também é um produto, mas é um produto na contramão da lógica capitalista. Um bom livro pode durar uma vida inteira – pode durar dezenas de vidas inteiras e passar vários séculos. Um livro não fica obsoleto. Um livro impresso pode ser emprestado e lido por várias pessoas (pode-se argumentar que o livro digital também permite o compartilhamento, mas não é verdade. Um livro digital comprado legalmente não pode ser revendido, emprestado, compartilhado. Podemos fazer isso apenas ‘pirateando’ o livro digital. O que é diferente, porém, em tudo que é independente no digital). Um livro pode ser revendido, pode ganhar valor, com o passar dos anos.

E pensando de forma subjetiva, um livro pode ter marcas das nossas vivências: impressões digitais, manchas, orelhas, riscos, anotações, dedicatórias. Ele pode nos trazer memórias. Ele pode ser autografado.

Fazer um livro impresso é também mais barato, acredite. O que é caro no livro impresso não é a impressão, mas o que há de humano no processo: revisão, edição, ilustrações, projeto gráfico. E isso deverá continuar no livro digital – deveria continuar, pelo menos. Não sei se vai. Sinto, muitas vezes, que poucas pessoas se importam com essas partes de um livro.

Os entusiastas do livro digital, em geral grandes corporações como a Amazon, querem que o livro entre na roda do jogo capitalista. Querem nos obrigar, com vários discursos estúpidos como o preço (que não é menor) ou como a praticidade (que não é maior), a comprarmos, a cada dois anos, um novo leitor eletrônico e a recomprar, centenas de vezes durante nossas vidas, os mesmos títulos que, de forma impressa, teríamos que comprar uma única vez. É isso o que acontece com a música, por exemplo, e que nunca aconteceu com o livro. Os suportes vão mudando e somos obrigados constantemente a renovar nossas coleções.

Existem outros argumentos ainda, mas recomendo para uma compreensão maior sobre o assunto o texto “O futuro do livro impresso e das editoras”, do professor e editor Plínio Martins Filho.

Agora, se entendermos o livro digital como maneira de disseminação independente do conhecimento, como forma de compartilhamento de informações, cultura, textos, literatura, então eu acho que ele vem para somar. A Diversos Afins, e centenas de novas revistas, por exemplo, são digitais. Tenho lido muitos livros digitais, mas a maneira como essas publicações são feitas vêm para renovar a antilógica capitalista do livro que mencionei. E isso é incrível.

 

Eduardo Lacerda / Foto: arquivo pessoal

DA – Certa feita, o poeta Manoel de Barros afirmou que a gente escreve para se descobrir e, lembrando o dito de alguém, ressaltou que nossas maiores verdades são inventadas. O que acha disso? Escrever seria também um truque para o existir?

EDUARDO LACERDA – Gullar também diz que “a arte existe porque a vida não basta”. Mas discordo, para mim a vida só existe porque a própria vida não basta.

E, como já disse, escrevo muito pouco. Então não posso dizer que isto, que escrever, é o meu truque para existir. Realizar coisas é o meu truque para existir. Mas eu não estou dizendo que são coisas importantes, são importantes para mim. Eu gosto muito de falar com poesia, então isso de realizar coisas, de dizer que eu realizo para existir, posso expressar com esse poema do Leminski: “das coisas / que eu fiz a metro / todos saberão / quantos quilômetros / são / / aquelas / em centímetros / sentimentos mínimos / ímpetos infinitos / não?”. Acho que é isso. Eu tenho ímpetos infinitos, mas são tão importantes. E acredito que se há um truque para existir, ele está nisso. Mas está também, concordo, nas verdades inventadas. Toda realização é também uma verdade inventada. Gosto de pensar, qual Itamar, “Que tal o impossível?”. Mas o impossível pode ser mínimo, pode ser só meu. É isso.

DA – A poesia está a serviço de quê?

EDUARDO LACERDA – Vou citar o Leminski novamente: “A poesia é o inutensílio. A única razão de ser da poesia é que ela faz parte daquelas coisas inúteis da vida que não precisam de justificativa. Porque elas são a própria razão de ser da vida. Querer que a poesia tenha um porquê, querer que a poesia esteja a serviço de alguma coisa é a mesma coisa que querer que o orgasmo tenha um porquê, que a amizade e o afeto tenham um porquê. A poesia faz parte daquelas coisas que não precisam de um porquê”. Mas estou citando para discordar um pouco, só um pouco. A poesia realmente não está a serviço – ela não é máquina – de nada e de ninguém, ela não existe sem os poetas, sem os leitores, e não existe mesmo sem os críticos. E todos estes estão a serviço de algo. Veja, estar a serviço não significa que estamos servis, que estamos escravos, que estamos qualquer coisa que nos desumanize na relação de um trabalho. Mas escrever, mas editar, mas criticar… mas ler, afinal, é um trabalho. É uma forma de transformar a realidade, de transformar as percepções.

Poesia serve para transformar a minha percepção. Ela serve, para mim, para transformar a realidade. Ela é útil.

DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?

EDUARDO LACERDA – Vamos brincar com uma pergunta anterior? A pós-modernidade é uma verdade inventada. É apenas uma necessidade, e até muito carregada de romantismo, de se delinear percepções sobre a realidade histórica que vivemos, mas todas essas tentativas são bem falhas ainda. Essa construção, e essa percepção, da nossa condição atual, não estão bem claras. Não estão para mim. E o que eu não endosso no que chamam de pós-modernidade é o que eu não endossaria nos entendimentos de realidades anteriores: a exploração, a injustiça, a desumanização, a falta de perspectiva para que a nossa vida possa ser mais do que o trabalho e as obrigações. Isso eu não posso endossar.

 

 

***

 

 

CONDICIONADOR

Eduardo Lacerda

 

Agora

que meus cabelos

cresceram

(e parecem femininos)

tenho menos

medo

que pareça

desespero

minhas duas mãos cravadas

no centro

da

cabeça

:

agora que meus cabelos cresceram

(e constantemente cobrem meus olhos)

penso

que parece o tempo

o tempo todo

que estou negando

algo

(assim, quando os balanço

para o lado).

Mas também

que afirmo

(como se

cisco

para alimento)

quando

insisto

(reticente) em

ir com eles,

para trás e

para frente.

E

embora

agora que meus cabelos

cresceram

e esses gestos

(e minhas mãos ali no centro)

não

pareçam

desesperos

(muitos pensam até que parece um carinho).

Carinho, carinho, carinho, carinho

ninho:

de coceiras

 

 

 

 

 

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77ª Leva - 03/2013 Destaques Olhares

Olhares

TRAVESSIAS

Por Fabrício Brandão

Ilustração: Thaís Arcangelo

Um instante partido no tempo e alguns passos rumo ao infinito. No meio do caminho, a sutileza das cores flagrando a vida, atenuando-lhe certo peso da alma. Existir, somados os seus imperativos, precisa se configurar um flerte com os tons sublimes que governam o espaço abstrato através do qual desfilamos nossos rompantes. Existir, nos desenhos e ilustrações de Thaís Arcangelo, é pacto de escutas, rompendo a redoma da grande noite que insiste em nos abraçar.

No limiar entre o real e o inventado, a artista funda territórios e instaura entre nós a percepção marcantemente poética sobre uma delicadeza que esquecemos nalgum ponto da jornada. Assim, viver torna-se um arremesso incerto, porém desejoso de uma transformação a mais humana possível. Ao nos revelar dimensões por vezes etéreas, Thaís desafia zonas de conforto, rejeitando-as e nos impelindo a reescrever nossas errantes trajetórias.

Ilustração: Thaís Arcangelo

Em seus trabalhos, a artista devota especial atenção a uma múltipla representação do universo feminino. A partir daí, surgem personas das mais variadas possíveis diante de nossos olhos, todas elas inscrevendo seu traçado numa tentativa serena de redenção. Nessa perspectiva, Thaís caminha para além da materialidade das coisas, erguendo um vasto e denso painel de sensações.

Se por um lado somos seres reconhecidamente duais por natureza, por outro, nos é dada a chance de revermos nosso velho e desgastado costume de repetir. E isso nos é lembrado a todo tempo nos cenários propostos por Thaís. Com sua ciranda de sentimentos pueris e ao mesmo tempo também maduros, a artista recria mundos no mundo, fazendo do atributo onírico de suas criações uma passagem permanente para o centro de nós mesmos. Nesse trajeto de autoconhecimento, talvez a única certeza que carregamos seja a da dúvida, essa sedutora senhora a nos acalentar insistentemente em todo tempo e lugar.

 

 

 

Ilustração: Thaís Arcangelo

 

 

* As ilustrações de Thaís Arcangelo são parte integrante da galeria e dos textos da 77ª Leva.