Uma vasta paisagem embebida em segredos e mistérios povoa a arte de Catharina Suleiman. E falar disso não se resume a pensar que a tessitura de suas imagens reveste-se apenas dos dotes mais densos duma subjetividade que se requer marcante, mas sim a uma reprodução de certos horizontes quiçá inabitados pela superficialidade dos dias.
A fotografia ganha um sentido etéreo a partir dos registros de luz feitos por essa paulistana. Através do seu olhar, o idioma do corpo humano salta aos olhos, desvelando formas, sentidos, gestos e apelos diversos da alma. Qualquer noção de obviedade é posta à margem. Importa saber do insondável, do algo além-matéria, perquirir os vãos e desvãos que abrigam o ser.
Como exprimir em palavras aquilo tudo que se revela habitante do incontido? É assim que vamos tomando conhecimento de que estar diante da proposta visual da fotógrafa revela-se verdadeira odisseia de signos. Por mais que tentemos tornar ao ponto inicial da viagem, a experiência de estar ali, frente às singulares vias de sugestão da artista, faz do retorno algo totalmente renovado, porém incerto. Curiosamente, não vagamos por entre rostos, fragmentos temporais, detalhes, lugares e outros tantos tons com a sensação de avançarmos ilesos. Nesse aspecto, estar no limiar das coisas é desfrutar o gosto impreciso das horas e sentir-se parte de uma existência que não busca respostas para seguir adiante.
Foto: Catharina Suleiman
Em sua trajetória, Catharina acumula experiências de vida em diversos países, tendo participado de vários cursos. Sua relação apaixonada com a fotografia permitiu-lhe aprofundar-se na área e conhecer processos alternativos e experimentais de criação. Do laço íntimo que estabelece com suas imagens, a fotógrafa confessa que utiliza seu ofício como forma de questionar a realidade, extrapolando a barreira física dos lugares captados em busca de um resultado passível de vibração pictórica. E vai mais além, crê na possibilidade de se olhar tudo o que já foi visto antes de um modo inteiramente inexplorado, como se a cada nova investida do olhar pudéssemos perceber o nascimento de uma singularidade.
Utilizando-se recorrentemente dos recursos do vintage, Catharina Suleiman não somente delineia um elo entre passado e presente, como também nos envolve numa atmosfera na qual as perspectivas visuais mostram-se especialmente atemporais. De fato, não há razão para a ocorrência de limites de tempo ou espaço, apenas a permanente presença dum percurso poético por sobre a natureza das coisas flagradas sob os mais distintos matizes. O que a fotógrafa batiza como ilusões pode muito bem nos parecer um convite à reinvenção da vida, palco onde desfilamos desnudos, viscerais, contraditórios e, por vezes, inconfessáveis.
Foto: Catharina Suleiman
* As fotografias de Catharina Suleimansão parte integrante da galeria e dos textos presentes na 74ª Leva.
(chamo-a minha mulher por puro disparate
sabemos: não pode ser de ninguém se é sua)
princesa de copas, agoniza uma imperícia com os dedos
não obstante goze as pombas que alimentamos
meticulosa em tudo, não sabe desses seres
que precisam de um cuidado desleixado:
as violetas sedentas por esturricar ao sol e os peixes
megalomaníacos que insistem não se serem, ser beta, oscar:
sozinhos e só, como em resposta ao mundo que os paralisa
o querer ser outro – mamífero e rastejante; neurastênicos
da família poulain, brincam com ela em saltos mortais…
adormece minha mulher quando venta teu nome em minha língua, amor
em tudo o mais é desperta. poderia minha boca
num absorver de fôlego, fazer jus à sua natureza terrestre entre as águas?
mil imagens se deslindam desde a sesta até agora
cantando estorietas de quando eu era feliz e sabia alguma certeza.
***
kammerspiel, metáforas pra voglia, 6
separada da alegria do mundo
não escrevo. se me dão grafites, soutiens
dou um passo contrário às velocidades
e não vou ao mar
aonde escondi-me a mim
suspiro. boneca inflável
rasante de ogivas, sobejo
– a última gargalhada não é estática
uma panaceia cortante.
***
nouvelle vague, minhas sextas com ela, metáforas pra voglia, 7
antes que se dê nomes às coisas, as experimento
como uma mulher que nos momentos de transformação permanece
em casa, que derruba o chá por não ler as instruções
da lata, o desvelo das certezas. espaço decodificado em coro
pelos evangelizados e aberto ao espanto, por ser reto
movimento das dúvidas ao conhecido, vem o verbo a mim
milagre das câmeras que habitam o silêncio e o escuro
carregado pelo peso de seu momento, a sensação pré-objetal
de que resta tudo a ensaiar, pôr à prova, ser ex-
perimentado. amálgama de desesperos e paixões, transferência das lógicas
e peripécias à emergência do único: levantada nas mãos a própria cabeça.
Pensar a expressão artística de Fao Carreira é trilhar uma via onde as representações da existência estão marcadas, acima de tudo, pela poesia. De posse de tal condição, o artista inscreve na pele dos dias os laços que o atraem para o jogo das veleidades humanas, da presença sorrateira daquilo que nos seduz e, ao mesmo tempo, nos escapa volátil entre as mãos.
Arte: Fao Carreira
Indagar o que povoa a infância da criação, se a palavra ou a imagem, não nos parece relevante no caso desse paulista de Botucatu. Em Fao, as feições de desenhista, pintor e poeta harmonizam-se de modo a conferir à sua obra um caráter de unidade. Essa “contaminação” de uma arte pela outra opera a comunhão de linguagens distintas, cujo resultado possui um decidido teor filosófico. Nessa perspectiva, o porquê de se estar num mundo no qual os excessos nos saltam aos olhos parece instigante questão de ordem.
Cada desenho ou tela produzido por Fao Carreira é verdadeiro exercício de correspondência com o que explode lá fora. Seja em traçados, rostos ou profusão de cores, o artista remete ao mundo seus anseios e inquietações. A despeito disso, não é em vão o nome de batismo de seu blog. Suas missivas são direcionadas a todos nós como o registro mais puro do espanto que é estar vivo.
Arte: Fao Carreira
Da sua paixão pela literatura, Fao consolida um diálogo especial e denso com quem se debruça na contemplação de sua arte. Isolada ou conjuntamente, seus versos e imagens ousam sondar a fina camada que envolve o tecido das horas. Na passagem dos instantes, lacunas ganham corpo e nos relembram que o ato contínuo de respirar é pedra fundamental da criação. Por isso, um artista a relatar marcas do tempo. Por isso, somos cativos leitores do mistério que povoa suas cartas.
Arte: Fao Carreira
* As imagens de Fao Carreira são parte integrante da galeria e dos textos presentes na 73ª Leva.
A perspectiva de vislumbrar o mundo suplantando quaisquer questões que reflitam distinções de gênero é um caminho válido para pensar uma obra literária. Mesmo se o tom das premissas apontar para uma escrita que pulsa de uma específica condição do ser, há, sim, significativo espaço para que a voz criativa pautada num determinado ponto de vista faça operar a convergência de sentimentos e outras tantas aferições da existência. Quando nos debruçamos sobre as escrituras de criadores como Marilia Arnaud, logo nos vem à mente a desnecessidade de levantarmos bandeiras de gênero. Muito pelo contrário, o olhar densamente feminino da autora desloca-se para uma noção de harmonização de percepções, tornando leitores cúmplices e atores de suas narrativas como se todos partilhassem o mesmo solo das esperas.
Com uma trajetória marcada pela verve contista, algo que inclui obras como A menina de Cipango (Prêmio José Vieira de Melo – Estado da Paraíba – 1994), Os campos noturnos do coração (Prêmio Novos Autores Paraibanos – 1996) e O livro dos afetos (7Letras), Marilia acaba de edificar seu primeiro romance, Suíte de Silêncios (Editora Rocco), livro que demarca de modo bastante especial um percurso por paisagens intimistas embebidas em lembranças, projeções e mistérios. A narrativa, levada a cabo pela personagem Duína, revela-se arrebatadora e singular porque sabe atravessar com pungência alguns desertos que devassam a alma humana. Dentro da camada sensível da ótica feminina, pulsa intenso o jogo das ausências e hesitações, reforçando a ideia de que existir é saber-se fugidio e finito. No breve diálogo que agora segue, Marilia Arnaud fala desse momento especial em torno do seu primeiro romance, do olhar feminino na literatura e de outras questões integrantes de sua vivência no intricado universo das palavras.
Marilia Arnaud por Roberto Athayde
DA – “Suíte de Silêncios” é uma verdadeira transversal de tempos, fazendo convergir presente e passado numa narrativa marcantemente intimista. Ali, a alma humana é devastada pela personificação tida em Duína, menina-mulher que suscita esperas e ausências. Na escolha desse caminho repleto do algo intangível instaura-se a via crucis de um criador?
MARILIA ARNAUD – Sem dúvida, a criação é um processo doloroso, na medida em que demanda a total entrega do artista. Sempre me pergunto por que escolhi essa paixão, o que busco nas palavras, na invenção, quando poderia simplesmente viver. Ao mesmo tempo, acho que não escolhi nada, que simplesmente fui tomada pela literatura, assim como fui arrebatada por Duína, por sua história de perdas e desamparo. Escrever é um processo, de certa forma, obsessivo, porque o autor acaba tão impregnado pelo personagem, por sua voz, que tem dificuldades com a realidade.
DA – No livro, chama atenção a densidade que povoa o olhar feminino sobre as coisas e sentimentos. De que forma tal condição se consolidou como uma escolha narrativa?
MARILIA ARNAUD – A literatura, assim como toda criação artística, é o espaço do imprevisível e da imprecisão. É preciso acreditar na voz narrativa e manter-se fiel a ela para trazer à tona o personagem (homem ou mulher) em sua inteireza. Somente uma narrativa densa e coesa, capaz de impactar o leitor, de fazê-lo refletir sobre as coisas do mundo, sobre a condição humana, pode assegurar que um romance não seja lido impunemente. Trabalhei mais de dois anos para isso, para trazer ao mundo a voz de uma mulher marcada por uma infância traumática, para revelar a inadequação e o sentimento de insuficiência de uma irrevelável Duína. Não sei se consegui (os leitores que o digam).
DA – Guardadas as devidas diferenças contextuais, Duína aproxima-se da Macabéa de Clarice Lispector quando a perspectiva é olhar o mundo sob o manto da delicadeza. Ambas têm uma expressão que suplanta qualquer conclusão apressada de ingenuidade. Como é que você percebe tal associação?
MARILIA ARNAUD – Duína e Macabéa são personagens talhadas por faltas. Na infância, faltaram-lhes os pais. Na idade adulta, afetos, alegrias, talentos. O isolamento, a culpa, a saudade, a aparente passividade e o sentimento de fracasso também as aproximam. Em ambas, a vida dói com força, no corpo (Macabéa sofre de tuberculose e de um dente cariado – a dor da polpa exposta é uma das piores – Duína, de um câncer que lhe rói as entranhas) e na alma (inadequação ao mundo e consciência da rasura da própria existência).
DA – Apesar do aparente espaço conquistado pelas mulheres em plena pós-modernidade, conceber a condição de Duína em nosso mundo é, sobremaneira, refletir sobre um contraste entre certa liberdade do corpo, tão apregoada hoje, e as amarras que nos são mais caras, as do pensamento. Acredita que reside aí o principal conflito que atravessa o universo feminino?
MARILIA ARNAUD – Eu diria que houve uma conquista efetiva, mas não, plena. A mulher pós-moderna trabalha (muitas são chefes de família), estuda, exerce seus papéis sociais, traça os próprios caminhos, e especialmente a mulher de classe média investe na carreira e luta bravamente pela independência financeira. Porém, é uma mulher dividida. No plano da subjetividade, ainda há muito a ser conquistado. Ao fazer escolhas que fogem do padrão enraizado, do modelo maternidade/família, ela se enche de culpa e angústia. É compreensível. Durante séculos, viu-se impedida de afirmar a própria existência, de expressar sua identidade através do corpo e da palavra. Nessa busca por um equilíbrio, a mulher segue se construindo, construindo sua identidade.
DA – A seu ver, quando o assunto é o olhar sobre as densidades humanas, qual a diferença marcante entre homens e mulheres? Padecemos muito com os determinismos?
MARILIA ARNAUD – A diferença marcante talvez seja a maneira de um e outro estar no mundo, os papéis sociais que lhes foram atribuídos ao longo da história, o determinismo sexual que durante séculos apontou o homem como um ser de poder e a mulher como um objeto de reprodução. Em sua essência, o homem e a mulher são universos complexos, sobre os quais o ficcionista deve se debruçar com o mesmo olhar de espanto, porque é do espanto que brota a criação literária.
DA – Depois de construir uma trajetória devotada ao conto, você edifica, com vigor e propriedade, seu primeiro romance. Quais percursos foram fundamentais para essa, digamos assim, mudança de rumos?
MARILIA ARNAUD – Entre meu primeiro livro (contos/crônicas – produção independente) e o recente Suíte de silêncios, primeiro romance, caminhei bastante. Nesse meio tempo, mais de vinte anos, participei de algumas coletâneas e publiquei três livros de contos, dois deles (A menina de Cipango e Os campos noturnos do coração), através de concursos públicos. Foi O livro dos afetos, editado pela 7letras, em 2005, que me levou a pensar na possibilidade de escrever um romance. Explico. Luiz Ruffato apresentou minha prosa a Luciana Villas Boas que, à época, era editora na Record, e ela, muito gentilmente, escreveu-me dizendo que, embora tivesse gostado dos meus contos, não pretendia editá-los, tão somente pelo fato de serem contos, gênero pouco comercial, e sugeriu-me que eu escrevesse um romance. Então, a motivação inicial para a construção do Suíte de silêncios foi o conselho da Luciana, que tomei como um desafio. Comecei tateando, às escuras, sem nenhuma certeza de que teria fôlego para ir adiante. Em algum momento, encontrei o tom, e a história começou a fluir. Algumas pessoas têm me perguntado se o romance é de fato o gênero mais braçal, e eu lhes digo que as dificuldades na construção do Suíte de silêncios não me pareceram maiores do que aquelas com que me deparei na elaboração de alguns contos; creio que são de uma outra ordem.
DA – Somos crias de um deus menor, o mercado, quando, presos a ele, submetemo-nos à imposição de modelos. Consegue vislumbrar por qual razão um livro de contos, por exemplo, seja algo pouco comercial? Esse tipo de constatação não lhe soa incômoda?
MARILIA ARNAUD – Não compreendo a lógica comercial das editoras. Há um desprezo declarado pelo conto, como se tratasse de um gênero menor. Antes do Suíte de silêncios, ouvi inúmeras vezes a mesma pergunta, quando finalmente eu escreveria um romance. Leitores, amigos, familiares. Nessa cobrança equivocada, eu enxergava uma dúvida quanto ao meu valor como escritora, como se somente com a publicação de um romance eu pudesse confirmá-lo. Como já falei, encarei a negativa da editora como um desafio, mas eu já vinha percebendo que meus contos estavam cada vez mais longos. A experiência de escrever um romance não me desagradou. Pelo contrário. Tanto, que já tem um outro tomando forma dentro de mim.
Marilia Arnaud por Roberto Athayde
DA – Acredita que estamos vivendo um tempo no qual as escrituras e seus criadores andam um tanto exasperados por reconhecimento ou afirmação? Não seria melhor lermos mais do que escrevermos?
MARILIA ARNAUD – Sem dúvida. Hoje se tem uma superexposição do autor. Se ele não aparece, não circula, não frequenta festas e feiras literárias, não dá palestras, não fala sobre a própria obra, seus livros simplesmente passam despercebidos. O “escritor espetáculo” não tem mais tempo para escrever; ele viaja o tempo inteiro, correndo de lá para cá, num frenesi e, muito provavelmente, numa ansiedade terrível. Peno demais quando sou convidada para algum desses eventos. Sou tímida. Gosto de ficar quieta no meu canto, lendo e escrevendo. Falar em público me constrange. E me pergunto qual o sentido de se falar sobre o que se escreve se o livro existe para ser lido? Não estaria o autor usurpando o espaço do livro?
DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?
MARILIA ARNAUD – A superficialidade das relações, a falta de interesse real pelo outro, isso é o que há de pior. Na literatura, os experimentalismos presunçosos, o barateamento da linguagem, narrativas sem a mínima elaboração, palavras vazias, textos ocos.
DA – Aos poucos, você prepara um novo romance. Depois de percorrer algumas veredas da palavra, tem a sensação de estar mais próxima de uma maturidade criativa?
MARILIA ARNAUD – Não tenho dúvida de que cresci nesses anos todos de escritura. Meu texto tornou-se mais denso, meus personagens, mais complexos, a linguagem, mais elaborada. Já falei, aqui mesmo ou em outra oportunidade, que esse é um processo natural quando se investe na carreira literária, quando o escritor se determina nesse sentido. Desde muito cedo, decidi que queria escrever. E escrever bem. Minha intenção é fazer isso de forma cada vez melhor. Não tome essa afirmação como arrogância. Reconheço minhas limitações. Sou uma eterna aprendiz, na vida e na criação literária. Tenho dó do escritor que se acomoda com a fama, com prêmios, com o reconhecimento dos leitores e da crítica, porque está morto e não sabe.
DA – O que busca a mulher Marilia Arnaud em sua teima com as palavras?
MARILIA ARNAUD – Também já me fiz essa pergunta. Muitas vezes, para escrever, abro mão de grandes prazeres, como viajar, ir ao cinema ou ao bar/restaurante, estar ao lado de pessoas que amo. De certa forma, deixo de viver experiências reais para me embrenhar no universo da imaginação. Seria essa uma maneira de lidar melhor com esse sentimento, que é um misto de perplexidade e desolação diante do mundo, do absurdo da vida? De me livrar do desamparo existencial de que todos nós somos vítimas? Ou busco a emoção de ser tantos outros, sendo eu mesma? Não sei. Só sei que a palavra é a minha fé, minha verdade, minha beleza. É quando escrevo que me sinto mais próxima de mim mesma.
A linha sinuosa do amor atravessou sua pele
e você,
noite sem luz, todo por dentro um escuro sem tamanho,
não pode perceber em que parte do corpo foi escavado este caminho estreito e suas margens difusas.
Fora, há dia e as manhãs se repetem encadeadas
quando luzem sobre a linha que se afasta e inauguram outros territórios, acolhendo peregrinos pelo que se segue, curso aberto.
O tempo atrapalhou-se no seu fluxo e lhe ancorou a este entreposto,
presente que nunca se afasta:
os propósitos desencontrados são projéteis contra a pedra à sua frente
e agora sim, agora é o meio do caminho,
você está no meio, mesmo que algo lhe diga,
qualquer coisa lhe diga
que não seja assim.
***
NOTA MARGINAL 66.
Não há mais rosa ou girassol. Para um outro
jardim deslocado, o aroma da pétala
ainda paira no ar rarefeito.
Seca, a terra – entregue à solidão de uns astros
que nunca respondem – agarra-se ao espinho
e o emoldura: dele é que faz a pena
e risca em si, como se tatuasse auroras na agonia,
uns versos, íntimos
do espanto.
***
FALADO
não deu pra fazer o retrato falado do mundo, meu amor
retirando as escamas da imaginação (repara o brilho
de prata, fugidio, antes de mergulhar
na sombra, sem a menor possibilidade
de sonho) sobrou esta substância
informe, espessa e sem mágica
que a gente depois pendura em ganchos
nos incêndios sucessivos (onde quem se queima
somos nós) das palavras.
Dos degraus junto à calçada prorrompiam papéis e folhas varridos pelas lufadas de ar, prenunciado a torrente que se aproximava. Sob a leveza das malhas de algodão aguardava os pingos da chuva que lentamente lhe umedeciam a pele, o fôlego palpitante, apoiado por uma hachura decidida.
Caminhou ondulando as pernas, apreciando o tremular das gotas como um afago de nanquim que lhe retirava as ardências do dia.
Largou os sapatos encharcados junto ao chão luzidio da casa – a janela debatendo-se contra o vento numa cantoria estridente. As paredes lhe ampararam o cansaço. Via-se no debrum da água que a banhara como se só naquele instante realmente valesse a pena desvelar-se.
Os livros que carregava no colo amaciaram a mesa e as transparências da sala. Largou-os como quem liberta retratos de outrora, recolocando-os novamente no olhar. Quase perscrutava com exatidão pueril o chilreio das folhas semi-abertas, devorando as capas, os desenhos das capas, tateando: até onde tudo era somente o mosto de histórias, sons desertos, cores aninhadas em outras cores, águas dentro de outras águas?
Buscava rapidamente o ar mais puro e perfeito, como quem se dispõe a arrefecer o frio, a alma disposta sem repressões nos vãos da natureza. O barulho da enxurrada preenchia as fendas rudes da casa, o telhado ensurdecia-se dos pingos desfeitos na cerâmica. Viu-se no desassossego das ações mais simplórias. A louça do dia anterior ainda rescendia à canela e erva-doce. Quantas vezes tomara o chá desanuviada de afazeres para melhor prender-lhe o sabor? Não tinha dúvidas de que se filiaria algum dia, com tempo, ao movimento slow. Pensava enquanto o vapor do chá se misturava à poeira da chuva.
Lá fora para onde resolvera retornar, as flores permaneciam no seu crescimento inevitável. A legitimidade de estar conspirando para além da linguagem lhe parecia a incompreensão de assumir detalhes, a desistência decidindo por uma oposta intimidade apaixonando-se por silhuetas abstratas como se soubesse que, ao flanar sobre as coisas importantes, passassem, essas mesmas coisas a não ter mais lugar algum no mesmo e luminoso mundo que as pensara. No incomum, talvez mais oportuno e incômodo, longe de superlativos ou relativismos, a lucidez de arguir sobre o que é grandioso ou necessário nasceria invariavelmente da suspeita de não chegar a nada sem a via crucial dos sentimentos.
As pétalas palmilhavam-se de um amarelo descrente, olhava-as, em tintas musicais – colheu várias, sentiu-lhes a seda, como se pedisse desculpas por não considerar-se uma delas.
Pinças de brisa se estendiam na claridade morna, retorcendo-lhe a curiosidade. Com alívio, retornou para dentro da casa. Amaciando-se na umidade da aragem, desfazendo-se sobre lençóis e travesseiros rebordados de um cetim confuso porque de letrasbrancas que sobre o negro cansava-lhe o fundo mar dos olhos.
Pensava como se sonhasse… e escolhia retornar à beira do areal, ao menos até o verão retornar, a pele sugada por um farfalhar de asas, em movimento de abraços…bastava-se num colar de ametista, afoita, sulcada pelo que se fora, quiçá em ramas de mangues, de uma garça que vigiava – o vento ruminante torcia as gaivotas, tomava notas ao secar-lhe os olhos suspeitando que a sensibilidade das retinas desse em algo possível de prodigalizar. Adiava as ondas enquanto ganhava novos óculos escuros, as têmporas renovadas pelos filtros duros de lume, da brandura árida que não mais lhe provocava lágrimas. Como se assim pudesse evitá-las.
No lado mais despido da praia o bailado das dunas era um dueto a agigantar-lhe os cílios no rumor sonoro e miúdo do algaço. A vida era real como o vento que soprava a memória dos sais retidos de Suminha. De outro ponto os cardumes contrariavam a correnteza e as redes como se fossem seus olhos multiplicados em cepas e borbulhas, em busca de fertilização.
As mãos restavam finas produzindo fogueiras sobre o mar – repletas de matizes azuis e verdes, a rebuscar a serenidade líquida transportando-a, imensurável, para uma tela qualquer, sem importar-se se alguém diria que era um auto-retrato, um resto obscuro retirado da coloração irresistível dos corais.
Os dedos ágeis como o choro contido nas achas por arder, perfuravam o silêncio, prosseguiam nos mimos hirtos do horizonte, bebia do sargaço, do sumo esgarçado nas bordas dos barcos que mascavam a madeira carcomida pelas cordas da âncora. “Sobe um pouco mais, Suminha, preenche o ato duplo dos gestos com o teu verde pueril – há ornamentos suficientes para estilhaçares condições que por um descuido fútil do destino não mais te pertencem. O tato, Suminha”.
Retomou os despojos. Alguma coisa sobrara dos rabiscos que ousaram ferir a brancura daquele dia, das polifonias daquele vento, daquele sal, se a preenchessem de mais cor, de mais força – o que havia perdido permanecia em origamis devorados por fungos de esperança – quantos pronunciavam que a experiência não se media entre os dedos, entre o passado e o futuro, tampouco em entretantos.
Suminha do desacato chamuscava os feitiços luminosos, não suportava a ideia de submeter-se por mais tempo ao torpor. “Que cores acordam-te mais a música por dentro, Suminha? Assim, na umidade? Que rio te quer decantar esse azul-vermelho-débil-verde?”. Dá voos aos beijos azuis, lava a lama das asas, o corpo fenece, lúbrico, como se moldado pelas águas que lhe caíram do céu, na face, na secura febril dos olhos, o azul fiel lhe dá guarida.
A xícara de chá é óleo, medium, piano, tecido. Agora sentia o sabor, controlava as gotas, recriando-se, diluída do silêncio, na leveza de esvaziar-se no que lhe agradava. O peso leve da louça era igual ao da vida, da sua vontade que enfeitara feito Penélope cega, partituras dispostas num circuito infalível… a limpidez dos nadas que carregava como adornos. Dos engenhos orquestrados, das teclas, das paletas. Demais o que desconhecia, era desnecessário dispor… os azuis salpicavam-lhe os cabelos, como pincéis de outono musicando-lhe o que, independente de solicitações, concebera para o mundo – Suminha é a multiplicação assídua dos sons suspensos na memória, na umidade lídima de cada segundo que ensaia abrir-se no horizonte.
(Tere Tavares é escritora e artista plástica. Autora de três livros publicados: “Flor Essência” (2004), “Meus Outros” (2007) e “Entre as Águas” (2011). Integra a Academia Cascavelense de Letras. E-mail: t.teretavares@gmail.com)
Há pouco tempo traduzi um conto oriental que fala sobre graça e desgraça, ambas se alternando como se girássemos uma moeda e suas faces opostas se mostrassem quase que simultaneamente, quando talvez o que valesse a pena estivesse justamente no desconsiderado ínterim entre ambas.
O conto fala de um garoto fascinado por cavalos que encontra um potro selvagem, nas montanhas. O animal o segue. Que graça! – diz a família. Que graça ímpar vinda diretamente dos céus! Entre o garoto e o cavalo desenvolve-se um singular afeto. Certo dia, durante uma cavalgada, o garoto cai e quebra a perna. Que desgraça! – diz a família. Pouco tempo depois, todos os jovens do povoado são recrutados para a guerra. O garoto, ainda convalescente, é dispensado. Que graça! – diz a família. Certo dia, o cavalo, que tem o hábito de passear sozinho pelas montanhas, já que seu cavaleiro ainda não se curou de todo, desaparece. Que desgraça! Algum tempo depois, o animal retorna, acompanhado de uma égua já prenhe. Que graça! E por aí segue a estória, alternando graça e desgraça, cara e coroa, frente e verso…
Conheci minha primeira desgraça aos seis anos, quando perdi a avó, em quem depositava minhas esperanças de amor e compreensão, entre os humanos. Perdi, com ela, o espaço e o afeto que me acolhiam durante as tardes, depois da escola. Passei então a ficar com meus tios.
O tio e a tia, João e Maria, tinham seis filhos; quatro deles, bem pequenos. Comigo, o contingente dos pequenos chegava a cinco. Resultado: cinco crianças no exíguo espaço de um apartamento. Resultado do resultado: a saudosa tia Maria enlouquecia diariamente, com aquele bando que ela – filosofica e às vezes desesperadamente – chamava de “uma plantação de capetas”. A tia acabou descobrindo o que ela chamou de pracinha, um quarteirão inteiro, com muito verde, que podíamos avistar da sacada do edifício. E decidiu conhecer o lugar, para ver se poderia soltar os capetas por lá, ao menos durante uma parte do dia.
Certamente a tia não imaginava que seu justo anseio por um pouco de paz seria também o início de um infinito bem, que nos acompanharia por toda a vida.
Foi o início de um longo trecho. Na praça, além dos jardins e das árvores muito antigas, havia a Biblioteca Monteiro Lobato, que oferecia atividades dirigidas ao público de seis a dezesseis anos: Leitura, Pintura, Música, Teatro: meu primeiro amor, na Arte, a primeira forma de expressão que descobri, quase junto com a Literatura.
A desgraça, traduzida na morte da avó, havia dobrado a esquina… Agora, era a vez da graça. A rotina dos capetas mudava consideravelmente: saíamos da escola, almoçávamos e íamos para a biblioteca, onde passávamos a tarde, as tardes de todos aqueles anos.
Muita água correu por baixo da ponte que liga a já longínqua tarde em que Iacov Hillel reuniu alguns frequentadores da Monteiro Lobato para a montagem de um Auto de Natal. Meu personagem, no auto, era um anjo que desafinava e, por isso, fora expulso do coro celestial… Uma simbologia para a estranheza que sentimos, quando tentamos nos enquadrar um pouco na normalidade das coisas?
Ocorre-me agora um conto de autor desconhecido, que se chama “O Macaquinho e a Desgraça”: uma mulher, caminhando pela trilha de um bosque, levando um grande pote de mel na cabeça, tropeça numa raiz e cai. Contemplando o mel espalhado pelo chão, ela se lamenta: “Oh, meu Deus, que desgraça!” Um macaquinho curioso assiste à cena e, quando a mulher se afasta, resolve bulir no mel, que ele até então desconhecia. Experimenta e se deslumbra: “Ah, que delícia! Como a desgraça é gostosa!” E nos dias que se seguem não tem outro pensamento em mente, senão este: “Quero mais desgraça! Não posso viver sem ela!”
O Teatro, cujas reservas de desconhecido mel espalham-se entre graças e desgraças, trafega muito bem por esse aparente paradoxo. Ali, na mágica inexatidão de seu território, pode-se trafegar entre tragédias e comédias, passear pelas esquinas que se dobram após cada limite, prometendo outros que vão além, sempre além. Assim, encontram-se os lados opostos da moeda, um extremo deságua em outro, o que parece morte pode virar vida, o que parece miséria pode prometer riquezas.
Uma estória engendra ou chama outra… Uma forma de expressão pressupõe outras, como na Literatura, por exemplo, quando, como diz Borges, “um livro encontra seu leitor”. E então se dá algo que tem a ver com o Teatro, com o leitor armando seu palco de intimidades para que ali aconteça vividamente o enredo que seus olhos e seu espírito captam do livro e transpõem para esse palco particular.
Todo ser humano deveria praticar uma forma de Arte. Seja qual for a profissão ou caminho escolhido, a criatividade pode e deve fazer parte de sua trajetória. É um modo de exercer a infância, de trilhar o território lúdico, o primeiro, talvez, que todos conhecemos quando crianças. É um modo de não abandonar a criança, de deixá-la respirar livremente no adulto que somos, preservando assim nossas reservas de curiosidade, coragem e alegria.
Caminhando mais por essa ponte, invoco agora uma coletânea de contos populares espanhóis, de José María Guelbenzu, que traduzi há alguns anos. Seguindo um critério de sempre, minha ideia era conhecer a obra inteira, antes de começar a tradução. Mas, quando li um dos contos, A Pereira da Tia Miséria,resolvi iniciar a tradução por ali. Não imaginava, claro, que a pereira daria tantos frutos. Apenas, senti que era um conto que ia muito, muito longe: Tia Miséria é uma velha senhora, mãe da Fome (sua filha que saiu de casa há muito tempo e vive caminhando pelo mundo, espalhando sofrimento). A Tia vive sozinha, sustentando-se de uma velha pereira que tem no quintal – cujos frutos os meninos da vizinhança roubam, antes que amadureçam – e das poucas doações que consegue, de alguns moradores do povoado. Certo dia, recebe a visita de um santo do céu, disfarçado de mendigo. Ajuda-o, e consegue uma graça: todo aquele que subir em sua pereira ali ficará grudado, até que ela o autorize a descer. Com isso, consegue afugentar os meninos, consegue colher e vender suas peras. Sua vida fica mais confortável, até que um dia recebe a visita da Morte. Mas a Miséria não quer morrer. E engana a Morte, fazendo-lhe um último pedido: “Por favor, vá colher alguns frutos da minha pereira, para eu ir saboreando durante minha última viagem.” A Morte concede… E então fica presa à pereira. Assim, desaparece do mundo… E o caos se instala, em vários desdobramentos, até a conclusão do conto.
Cinco anos depois do lançamento dos Contos Populares Espanhóis, pela Landy Editora, em 2005, o Núcleo Ás de Paus, de Londrina, Paraná, fez uma montagem teatral com base na Pereira. Assisti ao espetáculo, que segue em cartaz até hoje, e concluo este texto transcrevendo aqui algumas de minhas impressões sobre o trabalho:
Tia Miséria e Pereira por Natalia Turini
A adaptação e montagem do conto popular espanhol, A Pereira da Tia Miséria, pelo Núcleo Ás de Paus, preserva e honra a tradição desse gênero, desde o texto, trabalho raro da Palavra, até o trabalho de Corpo, com os atores se movimentando muito à vontade, em pernas-de-pau, como se brincassem em cena. Que no Teatro se brinca a sério, se rapta e conduz o espectador até a plataforma de decolagem. E voa o espectador, enquanto os atores engendram novos encantamentos para a próxima cena.
A idade ideal para se assistir à Pereira da Tia Miséria? Todas, porque o espetáculo tampouco tem idade e chega a resvalar no atemporal.
A plateia – essa entidade que se forma e se recria diante de todos os palcos – complementa a magia. Talvez seja este outro mérito do Conto Popular: o de falar a todas as idades, porque os contos vêm de épocas em que as pessoas ouviam, em volta do fogo, da mesa – ou em qualquer cenário onde ocorresse essa comunhão –, as estórias trazidas e levadas pelos contadores, jograis, andarilhos, menestréis, saltimbancos, precursores dessa linha que agora o Ás de Paus leva adiante.
Pereira por Natalia Turini
Outra magia da Arte, e já do Afeto: a de fazer viver o que se evoca. É assim que Tia Miséria, mais viva do que nunca, acontece. O espetáculo tem ritmo, a cenografia e os figurinos são impressionantes. As linhas de interpretação são claras e mergulham fundo; o resultado é Arte. Percebe-se uma linha de direção que, no entanto, é coletiva: criação coletiva, surpreendente e possível porque, além do talento, o grupo consegue uma unicidade – que não ocorreria, sem um reconhecimento recíproco das percepções individuais.
Há um momento no espetáculo em que a música, entoada pelo coro, assim anuncia a entrada de um personagem:
“O que é desprezível não se deve desprezar.
O que é invisível é preciso enxergar.”
Recado precioso, nesse tempo. Em todos os tempos.
Esse trabalho do Ás de Paus precisa cumprir seu destino de ir longe e para muitos, porque leva em si a essência do Teatro, nas cores e no texto, na música e cenografia, nos figurinos e na interpretação, na concepção do cômico e do trágico. Na beleza, enfim.
O Teatro habita a alma e o trabalho do Núcleo Ás de Paus. A Arte se faz. Saímos mais ricos e com as mãos cheias de frutos depois de conhecer A Pereira da Tia Miséria, através da visão desses artistas.
Bruna Stéphanie e Rogério Costa por Natalia Turini
De novo a graça e a desgraça, alternando-se nas faces da moeda… Como se tudo tivesse apenas dois lados! Como se não houvesse, entre um sim e um não, uma quase infinitude de possibilidades.
(Yara Camillo nasceu em São Paulo. Formada em Comunicações – Cinema – pela Fundação Armando Álvares Penteado, FAAP. É autora de Volições (Massao Ohno Editor, 2007) e Hiatos (RG-Editores, 2004). Em sua trajetória, fez trabalhos para Teatro, traduções, participou de antologias e sites de Literatura, coordenou Oficinas de Teatro e Oficinas Literárias, além de ter vários contos premiados. Contato: yaracamillo@gmail.com)
senão a mão que
não existe mais
aguilhoando
o mesmo cão
senão o olho desse cão
que não existe
abocanhando
a mesma mão
***
SEMPRE
fui sempre
de percorrer na carne ..o puído dos vãos
sempre de pôr o pé … na intimidade … das veias
sempre de lavrar … os dias mais …ferozes ……..para que doendo ….amansem a morte
***
MEMÓRIA
abundância de rastros
que não se cancelam
fascinados pelo assombro
de atravessar as esperas
com seus passos abortos
subindo pelas artérias
em busca de outro corpo
(Vera Lúcia de Oliveira nasceu em Cândido Mota e cresceu em Assis-SP. Atualmente reside na Itália, onde ensina Literatura Portuguesa e Brasileira na Università degli Studi di Perugia. Entre os livros publicados, estão Geografia d’ombra (poesia), Fonèma Venezia, 1989), No coração da boca (poesia), São Paulo, Escrituras, 2006; A poesia é um estado de transe (poesia), São Paulo, Portal, 2010)
fica difícil falar sobre seu Psi, a penúltima depois de ler o Apêndice III do livro, com o que você chamou de Ecos da Crítica e da Generosidade. Não desato as sandálias de nenhum de seus comentadores, com os quais concordo totalmente, claro. Mas – como também faço versos – chamou-me a atenção a declaração de Lorca, citada no prefácio do Gerardo Mello Mourão:
Yo no puedo, yo no sé hablar sobre poesia. Yo la tengo aqui en mis manos, sé que está quemando mi piel, pero no lo sé lo que es.
Essa afirmação me leva diretamente às Confissões de Santo Agostinho:
O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei
Coincidência ou não, vejo-me, de repente, com dois enigmas colocados de um mesmo modo: poesia e tempo. E me pergunto – oportunista – se o segredo da poesia, o segredo da sua poesia, não estaria… no tempo.
Explico-me.
Lembro-me de que quando era garoto, lá em Sorocaba, São Paulo, ouvia sempre um vizinho, mineiro, cantar, deitado na rede, acompanhando-se no violão, a música “Felicidade”, apressada, como Lupicínio Rodrigues a compusera. Nem perca tempo de ouvi-la inteira, aqui. Basta a primeira estrofe, pra ver, em seguida, onde quero chegar:
Felicidade foi embora e a saudade no meu peito ainda mora, e é por isso que eu gosto lá de fora, porque sei que a falsidade não vigora:
Anos depois, quando eu já vivia na Paraíba, surge um novo sucesso de Caetano Veloso, e vi que se tratava da mesma “Felicidade” do Lupicínio, mas.. transfigurada por aquela preguiça baiana. Basta, novamente, a primeira estrofe, pra que você sinta a diferença obtida com a mudança de tempo na interpretação, de modo a fazer com que uma grande poesia – que eu não sentia na versão original – de repente aflorasse das mesmas palavras e partitura:
O que isso tem a ver com a sua poesia. Bem.
Não sou grande romancista nem poeta, mas tenho trabalhado nas duas áreas e me parece que sei – com aquele saber no sabiendo / toda ciência tracendiendo de San Juan de La Cruz (e de Lorca e Agostinho) – quando devo me estender na prosa e me conter em versos. Umberto Eco goza com todos nós quando garante que poesia é aquele texto que não vai até o fim da linha. Só isso. Mas me parece que na brincadeira ele deixou escapar uma verdade, pois esse é um modo de se tirar o pé do acelerador de um texto, mudando – de modo mais imediato – o tempo do seu conteúdo.
O que noto de imediato é que você gosta de poemas que poderiam ser contos ou crônicas. Como Antífona, onde há uma estrofe que poderia estar assim:
Depois me mudei: fui para além das cabeças da Serra Branca, para além do lado de lá, atravessei o crepúsculo, debandei para etc etc.
Prosa. Mas… “atravessei o crepúsculo”? Poderia ter dito “fui para o poente” ou “para oeste”. Seria mais pragmático. Mas o resultado é que imediatamente sacamos que a prosa foi pra cucuia e o primeiro mandamento de Eco nos vem à baila: nada de chegar ao fim da linha.
Assim,
Depois me mudei:
(tempo)
fui para além das cabeças da Serra Branca,
(tempo para degustar das cabeças da Serra Branca)
para o lado de lá,
(tempo pra sentir: para o lado de lá?)
atravessei o crepúsculo.
(Caramba!)
Mais adiante:
Passava tonitruante o Poti, um rio velho, cobarde e mentiroso.
O poeta – ante o adjetivo “cobarde” -, puxa o freio de mão e faz o replay, em slow motion:
Era de medo da seca, fugindo do Ceará;
(Pausa. Pra que se sinta a beleza, a força da imagem que vem a seguir:)
troava o Poti, dentro dos abismos da serra,
Claro que não estou a lhe dizer novidade. No Apêndice I do Psi, “Os Poemas da Besta (ensaio)”, seu tema é justamente o tempo. Logo na epígrafe, tirada do Apocalipse 10, 5-6, você se extasia com a frase terrível do Anjo: a de que “já não haverá mais tempo!” Desencantei-me com a redução prosaica de outra versão, onde li: “Já não haverá mais demora!”, e fui à Vulgata:
Tempus amplius non erit.
E à fonte grega:
Χρονος. Cronos.
Volto às “Confissões” de Agostinho. Ele tenta responder, no capítulo XIII, a pergunta O que fazia Deus antes da criação. E conclui como Einstein, dezesseis séculos depois:
Se antes do céu e da terra, Senhor, não havia tempo algum, porque perguntam o que fazias então? Não poderia haver então se não existia o tempo.
Genial.
Tempo, matéria-prima do poeta, daí essa sua epígrafe.
Curiosa – por causa disso – a quantidade de notas que seguem todos os seus poemas. Lembram-me o glossário que acompanhava o romance também inaugural, “A Bagaceira”, de José Américo de Almeida, ao apresentar – em 1928 – a Paraíba ao país, como uma terra ainda tão ignota quanto a civilização futura de a “Laranja Mecânica”, de Anthony Burgess, romance também com seu glossário de gírias ainda não criadas. Lembra-me “Cem Anos de Solidão” começando assim:
El mundo era tan reciente, que muchas cosas carecían de nombre, y para mencionarlas había que señalarlas con el dedo.
Assim é o Siarah que você nos traz como que de um tempo-espaço que não nosso.
Acudam-me os cantadores:
Ignácio da Catingueira, negro e escravo;
Romano da Mãe d´Água; vocês fundaram o galope, a cantoria
(…)
Também a dona Barrósa, a senhora dona Barrósa,
De seu Neco das Martins, o desafio,
que também me acuda,
eram poetas,
ganhou, ganharam, fundaram este país!
(…)
Ai do cantador que se atrever,
ai daquele que não possa dizer:
eu sou,
eu venho, eis a essência, a chave-mestra, a gota primeira: nós!!!
Soares Feitosa / Foto: David Feitosa
Daí sua poesia frequentemente me lembrar a prosa de Guimarães Rosa, que falou de homens e terras de Minas tão de dentro deles, que apelou para os neologismos joyceanos, como Shakespeare fez ao praticamente inaugurar seu idioma, ainda sem sequer dicionários.
Você diz:
Venho de um poeta, digamos Euclydes,
Capitão Ocrides.
(…)
Falemos
do fogaréu deste meu chão sem águas,
Siarah de chãos e terra!
Siarah! Temos, realmente, de puxar – de novo – o freio de mão ante a beleza de seu desafio ao poeta Thiago de Mello:
Não te pabules dos teus rios
que (…) escorraço-te com os meus peixes,
não esses “peixes” de lenda-de-beira-de-rio –
com os peixes verdadeiros, porém, peixes-de-mar,
de-mar-cheio, do-mar-oceano;
e os meus tubarões de vinte metros
e as baleias de duzentos
Pabulagem? Fantasia! Como as de Chagall, judeu com seus milenares mandamentos. Por que não, então, os do sertão profundo de sua distantíssima infância?
Não podia era tirar ninho,
nem judiar de inocente,
nem abrir-a-porteira-do-curral,
nem mangar do desvalido,
nem desrespeitar o mais velho,
nem deixar de socorrer, doente, o animal.
Tocar fogo no capim?
Nem pensar, Pois o Cão “aparecia”…
Não à toa você se refere tanto a Jeremias, Salmos, Apocalipse. A memória de sua terra se enche da mesma linda magia, nos seus poemas, com que você a via:
Pois o vento dos céus, elemento novo,
d´abastança,
expulsava do ventre do tanque seco
aquele outro vento,
vento velho,
encardido, das vacas magras!
O vento bom,
túrgido,
que descia dos céus,
entrava em luta com o vento do abismo,
trevas;
o mormaço era expulso
ao ribombar dos céus,
farra dos ventos!
Isso tudo é de uma beleza tão densa, intensa, que nos impõe seu tempo, seu próprio espaço-e-tempo.
Detalhe deslumbrante:
Era de noite que chovia: gotas amarelavam à luz frouxa da lamparina de querosene.
Há todo um trecho igualmente cosmogônico no poema “Panos Passados”, em que você nos leva a assistir a um fenômeno único: o nascimento de um rio! Permita-me uns grifos:
Chuva primeira:
folhas,
folhas secas, caducas, garranchos,
pó,
folhas formando levas
– retirantes –
tangidas ao estrondar,
relâmpagos e coriscos, gentilíssimas gotas primeiras,
um leve fio d´água,
e era ali, solene, mítico, que se fundava, refundavam-se os fundamentos
renascidos,
refundados,
pela enésima vez,
do velho rio,
rios,
rios secos,
meus rios,
do quintal da nossa aldeia:
rio do Governo,
Jaguaribe,
Macacos,
Curtume,
Acaraú.
(…)
E o fantástico cheiro da terra,
da terra fêmea, terra molhada:
mais uma vez, as primeiras estrofes do Gênesis, como se fosse a vez primeira.
Assisti uma infinidade de vezes a este pequeno flagrante cinematográfico de “Convite à Saudade”:
Mestre Besouro Preto olhou e olhou,
avoou de uma árvore a outra, fez um cocuruto de vôo, mais alto
Tudo, no seu livro, vive muito próximo da criação bíblica. Como em “Rio Macacos”:
Porque as vertentes disseram às águas:
– desçam!
E as águas desceram!
No poema Psi a penúltima, dou com sua poética:
Gritei:
– ἀλώπηξ (alopex)?!
Vulpes?!
Renard!?
Renaaard???
(…)
Fale simples,
Chame a “Comadre”
(disse o Santo).
É a senha,
batei, abrir-se-vos-á!
Pra encerrar: você diz, no ensaio já citado, que o baiano Luís Antonio Cajazeira Ramos “não sabe a força que tem (… ou sabe?)”. Acho que sabe. Você talvez não soubesse da sua. Pois ele diz:
– Que nos resta? Dessacralizar os sacros (ou sacralizar a Poesia?) Antes que blasfememos, leiamos Psi, a penúltima, caldeirão febril sobre uma trempe cultural – grecirromana, judicristã e mundinordestina – , de onde sai cozida a palavra justa, e mais:
o abismo.
(W. J. Solha lançou Relato de Prócula em 2009, pela A Girafa, romance escrito com incentivo da Bolsa da Funarte de 2007. Em 2006, obteve o Prêmio Graciliano Ramos por sua História Universal da Angústia, Ed. Bertrand Brasil. Em 2005, o Prêmio João Cabral de Melo Neto pelo poema longo Trigal com Corvos, ed. Palimage, de Portugal. Em 2011, publicou o romance, Arkáditch, pela Ideia Editora. Recentemente, lançou seu mais novo livro, o poema longo Marco do Mundo)
Deter a visão por sobre as esferas de mundo que nos acometem é missão das mais homéricas. Na tentativa de compreender cada modesta ou intensa epifania que se nos apresenta diante de nossos frágeis domínios, por vezes deixamos passar traços ímpares da existência. E o esforço hercúleo por respostas costuma trair sentidos acostumados à sofreguidão dos efêmeros instantes. Como, então, não deixar passar incólumes as marcas de nossas intervenções?
Quem se permite envolver pelos percursos sugeridos pela fotógrafa Mercedes Lorenzo, quiçá encontre algumas consistentes pistas e, com isso, solucione a indagação levantada acima. De posse disso, é bom estar ciente de que a artista em questão não ousa, sob hipótese alguma, colaborar com uma leitura rasa e superficial das coisas e seres captados pela luz de seu ofício. Muito pelo contrário, a densidade aqui é verdadeira matéria de ordem.
Qual um feixe luminoso que tenta cruzar pelos vãos de uma matéria qualquer e dali retira a substância impensada, o olhar de Mercedes é hábil instrumento de redimensionamento das situações. Se há o objeto primeiro e concreto a ser flagrado de imediato, por outro lado, existe também a sorrateira sensação de que planos invisíveis acontecem sob o efeito de um paralelismo de universos. Da coexistência entre o vivido e o imaginado, a fotógrafa deixa despontar a centelha que faz operar o fenômeno da convergência entre o ser e o não-ser.
Foto: Mercedes Lorenzo
Seja no retratar de ambientes ou no representar dos percursos humanos, a fotografia de Mercedes Lorenzo funda uma precisa poética dos vestígios. Daí, decorre uma curiosa sensação de que os homens deixam impressas suas marcas no espaço onde transitam suas sinas e, também, por ambientes nunca dantes ocupados. É quando a artista se utiliza com maestria do poder das ausências, conferindo teor àquilo que habita a órbita do intangível. E, assim, seduzidos pelos dotes do mistério, nos é dada uma relativa onisciência dos cenários.
Filha de imigrantes espanhóis e paulistana de nascimento, a fotógrafa, desde cedo, manifestou seu interesse pela imagem, tendo iniciado seu contato com a arte por meio de desenhos. Além disso, Mercedes também se dedica à escrita de poemas, através dos quais o elemento visual é ponto marcante. Para ela, pensar a fotografia como ponto de partida ou uma porta para desdobrar os conteúdos mentais de cada indivíduo que a vislumbra, parece ser uma função mais profunda e mais nobre do que um simples “clicar” de acontecimentos. A via humanista norteia seu trabalho de maneira que a percepção de um mundo e sua vastidão acontece, principalmente, no átimo de nossas hesitações.