a quem achar
desse meu agora
uma chaga de sal
a queimar no punho
uma rosa morrida
de sangue eterno
em raízes recentes
profundas, frinchas da rocha
sorções
e um anel de dor
tudo e então
para uma memória
de que meu senhor dorme
dormia do quando
da pedra fui feita
do musgo coberta
e de certa voz, eleita.
agora adormeço e penso em sonhar-me eternamente vulnerável flor.
mas não. mas nunca e não.
minha fôrma rasteja a ampliar desta torsão.
***
estêncil
no alto da torre
vigiava minha testa
petrificadas árvores
na praça
e dentro das casas.
uma, no entanto
trouxe
até os pés da torre
uma braçada de céu
para que eu visse nuvens parecidas a árvores
árvores altas
parecidas a torres
parecidas a quedas
esquecidas a torres.
***
acoimada abnegação
abstenho-me
da fumaça nas pontas dos teus dedos
infinitos a mim
abstenho-me
da gentarada no local do crime
estou nua
sou uma esponja ao teu suor perito a mim
abstenho-me da senhora que passa por nós
suspeita em ser
senhora que é
abstenho-me
entretanto
mais ainda, abstenho-me a ser a que traga
algum sentido erótico
a isso que já se resvala a crime de alcunha grossa
fumegante, jantar aberto, sucoso e mudo
como os teus dedos
infinitos e a mim, culpada, execravelmente culpada em,
discretamente, abster-se tão.
(sou carla diacov. de qualquer forma. não me importa tanto ser. e também vou e volto e babo durante. nasci (09/04/1975) e moro em São Bernardo do Campo e brinquei na praça-dos-meninos. morei a Londrina e ela a mim. fiz teatro e me desfiz. então escrevo e sei que vou, mas volto. de qualquer forma. e gosto tanto de pão de forma com amendocrem. de qualquer forma, que é como eu sou, mas volto. Babando)
GRACO BRAZ PEIXOTO & A PERENIDADE DA CANÇÃO POPULAR
Por Floriano Martins
O compositor e intérprete Graco Braz Peixoto (Fortaleza, 1955) tem um currículo no mínimo curioso. Possui mais de oitenta gravações de suas músicas por cantores e autores de expressão no cenário da MPB, além de gravações nos EUA e Europa por artistas brasileiros. No entanto, somente em 2000 gravou seu primeiro e único disco, Kizumba-Mass, uma produção dele próprio para o selo Atração Fonográfica. Entre os parceiros mais conhecidos e/ou cantores gravados estão: Belchior, Fagner, Ednardo, Fausto Nilo, Zeca Baleiro, Chico César, Joanna, Oswaldinho do Acordeon, Nubia Lafayette, Altemar Dutra, Cláudia Barroso, Maria Alcina e Anastácia. Um destaque acima de qualquer suspeita é a canção “Noturno” (escrita em parceria com seu irmão, Caio Sílvio), cuja gravação original, pelo Fagner, foi tema central – inclusive lhe dando título – da telenovela Coração Alado, de Janet Clair, para a TV Globo em 1980. Outro bom destaque é a parceria com Daniel Taubkin que rendeu boa parte do disco A Picture of Your Life, do próprio Daniel Taubkin, produzido por Roy Cicala para o selo Blue Jackel, Estados Unidos, 2002. O diálogo a seguir é uma palhinha da serenidade e visão de mundo desse artista apaixonado pela música e a vida.
Graco Braz Peixoto / Foto: arquivo pessoal
FLORIANO MARTINS – Há um aspecto que sempre soa curioso em relação à opção estética de um criador, o que o levou a dar mais atenção a uma zona de criação. Em teu caso, a canção popular. Qual é o mapa da mina?
GRACO BRAZ PEIXOTO – Bom, talvez devesse falar antes do território para depois chegar à mina. Antes da ilha-canção, a música como oceano. Alguém já disse que todas as artes aspiram à condição da música, a música que o filósofo Plotino considerava como um caminho para se chegar a Deus, a música que prescindiria da matéria e se tornaria contemplação da harmonia divina, como queria Santo Agostinho. A música, deste ângulo, seria a via de acesso ao Absoluto. Todos nós sentimos isso em relação à música de Bach, de tantos gênios da história. É sempre mais legal falar do aspecto sensorial do que falar da música como técnica. No princípio, existe o mito da canção de Ur, na antiga Caldeia, a canção como sensação do objeto primevo, aquela que o bebê balbucia ainda no berço. Este é um mito romântico, mas no campo das artes eu acho que a metafísica é sempre mais importante, toda arte se move no campo do sensível e para além dele. E nesse aspecto, me parece que a música leva vantagem em relação às outras artes. Quero dizer que é muito mais fácil um garoto se apaixonar primeiro pela música, principalmente se levarmos em conta sua relação com a indústria do entretenimento.
Certamente a ideia de escolha deve ter surgido quando a aventura já estava em pleno curso. Deve ser algo inconsciente, voltando ao caráter atávico da coisa. Falar da música é falar da infância, no caso a nossa infância em Fortaleza, a minha e do Caio, meu irmão, pois ambos nos apaixonamos nas mesmas circunstâncias. Muito cedo ouvimos Chopin quase que simultaneamente aos Beatles e Roberto Carlos. Minhas irmãs estudaram piano clássico e depois veio o Aulo, o mais novo, que já começou compondo canções surpreendentes. Eu falo dos elos porque a música, e mais fortemente a canção tem essa capacidade de oferecer fruição individual e coletiva, da participação do corpo, de quem embarca por um breve momento nessa cápsula sensorial feita de versos, melodia, ritmo e harmonia. A música, e, dentro dela, a canção, nos dá a oportunidade de pertencer a um pequeno casulo de identidade e de uma realidade sobre a qual endossamos o discurso do autor, nos emocionamos. É algo muito real, é pura experiência ou retorno à experiência vivida. Marca uma vida, a vida de todos. O corpo também canta e dela fica impregnado. Enquanto cantamos ou tocamos, estamos em nós mesmos e ao mesmo tempo muito longe, pois enquanto isso acontece nos abstraímos para outra realidade. A canção, para mim, talvez não viesse sem o Caio, pois ele foi o primeiro a compor, a me despertar a vontade de fazer o mesmo. Fazia músicas lindas e eu tentava também conseguir aquilo. Com a cabeça nas meninas e todos os hormônios viajando em Beatles e tantas vozes do rádio, ninguém poderia resistir. Eis a canção, a guitarra e a estrada. Aliás, “Eis a canção”, não por acaso é o título que o compositor Mário Montaut deu à nossa primeira parceria. E, veja que sincronia: por falar em Beatles, na alteração da dinâmica interna da canção ela foi depois rebatizada como “Para sempre campos de algodão”. Não é bonito? Tem também este outro aspecto belíssimo: dependendo da interpretação e da execução, a canção se transforma. Não seria exagero dizer que ela pode operar uma transfiguração do momento. Nesse caso a voz, sua cor, sua malha, suas particularidades têm um papel também decisivo. Uma bela canção é um gesto prolongado, uma declaração da vida ao mundo.
FM – O que chamamos de canção popular já perdeu os vestígios de sua origem. O mercado transformou em canção popular um produto imposto ao consumidor. Isto faz, dentre outros prejuízos, com que ela expresse o roteiro de uma campanha publicitária, e não que surja como referente de uma indigestão social. No entanto, essas preciosas são assinadas por alguém. O que significa hoje ser um compositor de canções populares?
GBP – Mais uma questão difícil, muito aberta. A canção é soberana. Sempre haverá a questão do talento, ou seja, a questão primordial. Não é a alteração das regras do jogo imposto pela indústria que vai enfraquecer o gênero, destruir talentos. Nesse momento, com certeza temos um cenário ruim, um desestímulo aos grandes autores e cantores em favor de uma porcaria assombrosa. A indústria vende o que a sociedade cria. Seu pecado mesmo é a reiteração, a multiplicação do que gera um mal estar vergonhoso. Esse lamaçal acompanha toda a atomização que vêm sofrendo as artes num ambiente onde não há horizonte, apenas o foco do momento, o imediatismo. Não há mais a obra, apenas o “single”, o funk escabroso. Do trovador da vila medieval, quando a canção foi tomando sua forma, ao trovador dos links houve uma dispersão do cenário interno, da identidade. Hoje há um discurso para cada gavetinha do mercado, este senhor sem face, o que parece inviabilizar aquela idéia antiga da MPB como depositária de um discurso da sociedade brasileira. A sociedade está mais complexa, o acesso mais fácil e a elaboração em geral é muito rasteira. Hoje, a relação com a música – não só a canção – perdeu profundidade. O enfraquecimento da indústria e a vulgarização da gravação de discos geraram um nível de produção cuja absorção é impossível. Ironicamente, downloads são feitos numa escala de fruição impossível. Está tudo muito confuso. O discurso publicitário está muito evidente. Por natureza ele é uma redução e isso rima com a pobreza cultural do Brasil, por exemplo. Mas estamos enganados se pensamos ser esse um fenômeno brasileiro. Parece que o Ocidente se transformou num grande pagode com futebol. Talvez seja cedo para procurarmos uma palavra final. É hora de dar à palavra “underground”, por incrível e contraditório que pareça, o seu verdadeiro significado. E devemos reconhecer que há espaço para tanto. É um espaço que parece aos poucos voltar a vibrar. Aliás, é preciso também reconhecer que lá atrás o surgimento do cinema e da indústria fonográfica desempenhou um papel importantíssimo para o florescimento da canção, aquelas canções e rocks e bandas que fizeram a trilha sonora de nossas vidas. Mas apesar deste cenário, se formos catar as pedrinhas veremos que o pop e sua imensa constelação de subgêneros ainda possuem uma força e presença impressionantes. A canção ainda é o próprio mapa da mina, ou seja, ela é o território, a identidade e o discurso do habitante, mesmo com a vulgarização que presenciamos. Resumindo, da invenção do fonógrafo ao download, a indústria possibilitou uma produção imensa, a criação de várias linguagens musicais. É sempre difícil unir o micro e o macro. Seria impossível imaginar Elvis Presley em outro momento, o grito primal de John Lennon não teria tido o mesmo alcance. O rock já tem sua literatura, a MPB tem sua história e as pedras continuam rolando. Ser compositor, hoje, pode ser também abdicar de uma idéia romântica de estrelato e riqueza e reafirmar sua paixão da infância. Os dilemas da música não estão separados das questões do empobrecimento cultural. Às vezes, também penso que já tivemos a neurose e que hoje vivemos a necrose. Mas posições assim, tão preto no branco, nunca se sustentam.
FM – A máxima publicitária “Deus criou o mundo” fascina a todos os artistas, seres em geral dotados de uma carência afetiva cujo diapasão espiritual não carece de mistério. Não há enigma, mas sim pobreza de espírito. Recordo este documentário sobre o Michael Jackson, que logo no início cita um desejo seu de se tornar o artista mais popular do mundo. O mundo – mundo é linguagem – é uma entidade muito curiosa. Certos substantivos abstratos se tornaram violentamente concretos, como o medo. Em muitos casos a realidade se esfumou, tornando-se uma abstração sem recurso. Não fazemos uma ideia concreta – exceto a ideia aproximada de todas as épocas – do que seja o mundo, de conformidade com nosso desejo. Na primeira metade do século XX o desejo definia o homem. O desejo era evocado em seu sentido de liberdade. Tornou-se depois um argumento de exploração sexual e consumo. O erotismo forçado das campanhas publicitárias foi desaguar na prostituição infantil. Evidente que Deus não criou esse mundo. Dividimos seu legado em três artérias: a ciência, a arte e a religião. Inventamos um deus para cada uma das veias. Como circulas por entre os bastidores dessa opereta?
GBP – Sinto um enlace de questões. É muito difícil chegar a juízos pela subjetividade das pessoas. No caso dos artistas, pior ainda. Olhando bem de perto, é raro encontrarmos um que não tenha suas fragilidades. Paul Gauguin, inseguro por não ter domínio sobre anatomia, desenho, se encontrou no primitivismo da Martinica e acabou sendo um precursor do fauvismo, ele que havia deixado de lado toda a turma do impressionismo. Foi pioneiro e entrou para a história ao lado de caras como Henri Matisse e Maurice Vlaminck. Michael Jackson é criatura da engrenagem, da indústria, mas por ser um grande artista conseguiu inventar a si mesmo, mesmo com toda fragilidade, esta tão gritante. Não me interesso muito por suas fraquezas egóicas, não era isso que ele levava para o palco. O mesmo poderia dizer da fragilidade e insegurança de Marilyn Monroe. Nesse caso, eu vejo muito mistério em cada diapasão. Não é fácil negar o intérprete, dançarino e show-man que foi o Jackson, por exemplo. Ele vem de uma linhagem, uma geração que começa com B. B. King, passa por James Brown e explode para o mundo com a cristalização da Black Music que foi criada pela Motown Records. Isso é uma invenção americana assimilada por grande parte do planeta. Penso que a valorização da liberdade e da expressão self-made man, signos da cultura capitalista americana, deram vazão à criação de um mundo onde a linguagem que o conduz é o erotismo e a valorização da liberdade e do desejo. É a sociedade do espetáculo, do pensador Guy Debord, em que temos que estar atentos para esta passividade e aceitação de toda representação. Talvez no seu oposto, o mundo árabe, onde o culto é proibido, onde não há esse apego excessivo a mensagens publicitárias, gurus de todo tipo, celebridades, atores e políticos não tenha essa inversão de valores causada pelo consumismo. Mas eu tenho esse defeito, o de pender para o que é demasiado humano, para o lado do anjo caído. Não seria capaz de ver essas manifestações apenas como símbolo de degradação. Acho que ciência é conhecimento e domínio desse conhecimento; arte, vejo como criação, invenção, a glória do engenho e da subjetividade que aumentam o repertório da existência. A arte põe no mundo algo que antes não existia. A arte cria mundos, a ciência os descobre. A arte põe os véus, a ciência os decifra. A religião é a terceira margem do rio. A fé talvez seja o fenômeno mais poderoso do ser humano. Quem tem fé não queima o pé. Já passei por fases de ateísmo. Hoje tendo a ver o mistério como manifestação do divino.
FM– O enlace foi proposital. Na medida em que desatavas o nó, fui recordando umas frases do Keith Richards que disponho aqui como uma sugestão para a seqüência de nossa conversa: “O talento é não interferir demais”, “Canções se escrevem sozinhas, você só as transporta”, “Nunca tive dificuldades para compor”. O processo de criação é sempre uma curiosidade referente à obra de cada criador, para mim uma intrigante curiosidade, porque o alimento essencial do espírito é a obra em si, e não seus bastidores. Então, mais do que indagar como crias, sugiro aqui abordar o que pensas desse talento evocado pelo Richards.
GBP – Bom, essas citações são um barato. Realmente, quando ouvimos canções incríveis, mesmo no caso de canções de amor tão radicalmente diferentes em suas estruturas e concepções, como por exemplo, Stand By Me (Bem King/Jerry Leiber/Mike Stoller) e Luíza (Tom Jobim), temos a impressão de que elas existem desde sempre, de tão perfeitas que soam. Existe o mito do autor como um sensitivo que capta as coisas no ar, como se estivessem feitas. É puro romantismo. Quando ele diz “não interferir”, na verdade se refere à observação e controle do que está sendo feito, de forma que a canção ao final soe “redonda”, ou seja, sem arestas, sem elementos gratuitos. Canções não se escrevem sozinhas. Obviamente, não há termos de comparação entre as duas, mas é claro que a primeira tem uma forma muito simplificada em relação à jobiniana Luíza. Aqui, caberia então chamar atenção do meu inconsciente, que acabou de escrever “jobiniana”. O que significa que o criador desenvolveu sua escritura, fundou sua obra com uma linguagem própria, com base em concepções, repertório próprio e talento tais que ela fez surgir uma nova área no universo das canções. Neste caso, o processo de criação no mundo pop usa menor número de recursos. Não ter dificuldades para compor é compor por prazer. O processo da criação é sempre fascinante, por isso há tanto estudo, hoje, na academia, sobre a gênese da criação. O apego às anotações sobre o processo de criação da obra. No meu caso, antes eu demorava pouco tempo para compor uma canção; hoje, minha observação leva um tempo maior, pois geralmente há o anteprojeto da coisa. Às vezes, a composição torna-se uma quase obsessão, os acordes podem ter diferentes desenhos, as palavras também têm sons, vogais que podem soar com pesos diferentes etc. Fazer tudo soar espontaneamente é sempre um desafio. O João Gilberto seria o melhor exemplo de obsessão com estes itens. Fazer a coisa sair da pulsão normal e ser lapidada na execução é algo sem fim. E há também a letra, a poesia que o canto enuncia, da maior importância. No final, como você já disse, o que conta é a obra em si. Destaco aqui minhas canções com Caio Sílvio, com o Floriano Martins, Aulo Sílvio, com Belchior, com o poeta Ricardo Alcântara e os compositores Mário Montaut e Cássio Gava, com estes últimos parcerias que apenas iniciamos. É um processo de afinidade bonito. No meu caso, minhas parcerias com o Caio Silvio, por exemplo, me são muito importantes. Neste caso, minha participação é sempre como letrista, o Caio é um compositor de inúmeros recursos. Já quando componho para os seus versos, por exemplo, tento me embalar na linguagem do poeta Floriano Martins, o que é um outro prazer, pois conhecemos profundamente nossas predileções e eu gosto muito quando recebo uma letra em espanhol.
FM –Em meio a este ambiente das parcerias, eu queria destacar uma delas, no caso da cumplicidade com o Daniel Taubkin, para o disco A Picture Of Your Life, quanto ao aspecto de que as letras foram resultado de mergulho em outro idioma. Escrever em uma língua que não é a sua ajuda a iluminar os argumentos da escrita?
GBP – Escrever em outra língua é transportar-se, antes, para outra cultura. É um atrevimento. Nesse caso, o trabalho resultou de termos uma formação musical muito parecida. Obviamente não foi nada fácil, tivemos sempre a leitura crítica do produtor do disco, o Roy Cicala, americano que produziu discos de grandes celebridades e hoje mora no Brasil. Tanto o inglês como o espanhol têm uma belíssima sonoridade. Conhecer expressões e a tradição daquele cancioneiro ajuda a entrar na levada que tem cada canção, mas é sempre aquela coisa da página em branco. As resenhas sobre o disco, lançado nos EUA, Europa e Japão nos deixaram muito satisfeitos.
Graco Braz Peixoto / Foto: Floriano Martins
FM – Em uma conferência que deu em Viena, em 1999, o compositor Nick Cave faz uma bela analogia entre música e silêncio: “Se o mundo fosse ficando silencioso repentinamente Deus seria desconstruído e morreria”. Esta conferência é valiosa, porque ele trata muito sabiamente acerca da canção de amor, do ato criativo visto a partir da tristeza (“a canção de amor é uma música triste, é o próprio som da tristeza”) e da teoria do duende defendida por García Lorca e uma densa tradição na canção de língua inglesa – Bob Dylan, Leonard Cohen, Tom Waits, Neil Young, Van Morrison – que lhe é devedora.
GBP – Que maravilha esta citação do Nick Cave. Acho que também somos herdeiros da tradição inglesa, assim como os EUA, estes de forma mais acentuada. A canção de amor, sendo de alta voltagem é imbatível. É um desses artefatos que me fazem crer na perenidade do gênero. Todos esses caras são fantásticos. Devemos a eles grandes momentos. A canção de amor é um ajuste de contas momentâneo. Como canção, ela acontece na redundância, na chegada ao clímax do refrão, que ganha força na sua reiteração. Não que a canção tenha uma forma definida e imutável. O mistério de canções assim é que depois de feitas parecem tão simples. De fato, há como que uma repetição do esquema, uma quase pobreza harmônica na utilização de poucos acordes, coisa que foi superada entre nós pelo refinamento vindo da bossa nova. Mas quando se vai fazer, meu velho, adeus facilidade. Fosse tão fácil assim, não teríamos todos nós compositores um leque considerável de começos de canções, pedaços delas e outros projetos que ainda não foram concluídos.
Essa metáfora de Nick Cave deve se referir a uma concepção mais oriental da paz e do mistério da existência. É algo muito comum entre músicos que tentam uma iniciação ao zen budismo. Sobre a teoria do duende, do poeta espanhol Garcia Lorca, é uma bela metáfora para falar da arte espanhola, especialmente a música e a dança flamencas como uma fonte de prazer visceral características da cultura espanhola. O duende, para nós, seria como “estar com a macaca” ou “estar possuído”. É, no fundo, uma afirmação do caráter distintivo que tem a interpretação, essa idéia que no linguajar moderno se fala “performance”. Temos poucos cantores entre nós que cantam com esse duende. Aliás, a bossa nova é uma domesticação, um refinamento desse bicho. A dança, o cantar dramático e a poesia espanhola têm na canção de amor uma das grandes manifestações de sua arte.
FM – De onde remontam as tuas afinidades musicais? Que música ouvias na infância e que percebes tenha sido de boa influência em tuas escolhas musicais?
GBP – Como um fenômeno familiar, nossas afinidades – minha, do Caio e do Aulo são as mesmas, com poucas preferências mais distintas. Donde se vê a importância do meio. Não temos nada a ver com samba, chorinho etc. Nossa área é mais da música brasileira a partir dos anos 1960, com uma pegada forte nos ’70, base de nossa formação. No meu caso, com a vinda para São Paulo passei a me interessar muito por uma área de canções sofisticadas feitas por compositores que vinham de um ambiente jazzístico. Tudo isso foi gradativamente soldado à minha formação de música brasileira. É o ciclo comum a todos; a diferença são as preferências. Pode parecer estranho ou esnobe, mas não é. Minha geração não foi afeita à sensibilidade telúrica do canto sertanejo, àquelas visões e formas – bonitas e preciosas – comuns a um universo onde a tradição da poesia moura que há no Nordeste de certa forma ainda se impõe. É neste ponto que podemos acrescentar, porque propomos naturalmente um sincretismo. Não fazemos a repetição, mas criamos um corpo de canções onde esta leitura não se apresenta em primeiro plano. Em situação alguma abrimos mão de nossas referências, da modernidade. Canções de nossas autorias que tiveram sucesso nos deram uma resposta muito feliz acerca dessas músicas. Como, por exemplo, Noturno, conhecida como “Coração Alado”, tema da novela homônima.
FM – Tens uma leitura muito elegante acerca da barbárie que estamos criando em cativeiro privado. Nós que nascemos nos anos ’50 no Brasil fomos atropelados por certa virulência já ajustada em linha nos ’80 e piorada gradativamente. Eu gostaria de te ouvir falando de algumas dessas canções, seu alcance, essa resposta feliz que mencionas.
GBP – Talvez tenhamos sido salvos pela arte, se é que fomos salvos. A barbárie talvez seja a mesma de sempre. Talvez nossa singularidade – que perante o mundo escapa ao trágico como uma manifestação de alegre potência – possa ser expressa numa questão: como um país de baixa cultura como o Brasil pôde transformar um artefato de alta sofisticação como a bossa nova em produto de massa? Hoje, sua influência internacional é indiscutível. Para nossa surpresa, o Paul McCartney declarou que pretende vir ao Brasil e gravar com músicos da bossa nova. É um argumento a que recorro para tentar responder a pergunta, apesar de minha formação pop. Poderia pinçar algumas canções que surgiram como bandeiras, quando geralmente elas aparecem como um delicioso cobertor com o qual nos embalamos. Cito Like a Rolling Stone, do bardo Dylan, uma canção de 1965, com mais de seis minutos de versos demolidores, que demonstrou sua incrível força marcando nossa geração e o mundo de forma inquestionável, com reverberações até nossos dias.
FM – A cronologia é o ambiente natural da história e a exploração conveniente do mercado. Entre o novo demais para morrer e velho demais para viver, a retórica oscila sem desconectar o cinismo automático. São reais as conexões que já mencionaste com a pobreza espiritual brasileira e o desgaste de certa mecânica cultural do Ocidente. Qual o relato possível de sobrevivência a tudo isto?
GBP – Alguém já falou que a retórica é a mais perigosa de todas as armas. Este assunto – a decadência – me parece sempre uma questão da ética. O cinismo a que você se refere antes é a regra, não somente no Brasil. Não sou economista, mas toda essa crise na Europa e na comunidade do Euro, por exemplo, me parece antes um problema da ética. Como diz o Belchior, numa de nossas parcerias, “O dinheiro é um deus cruel”, e a política seu servo fiel. Precisaríamos de homens, no lugar dos políticos. Acho que esse é um movimento circular. A rigor não há novidade, nos iludimos com as surpresas e as possibilidades que chegam com as tecnologias, mas a tortura e o massacre de crianças, como vemos hoje na Síria sempre podem estar no horizonte.
FM – Chegamos ao Kizumba-Mass como quem abre a página de um manifesto. Em um ambiente de novas mídias, como tornar esse disco acessível atualmente?
GBP – Tenho mais de 80 gravações, mas o Kizumba-Mass é meu primeiro e único disco, exceto por algumas participações coletivas as quais não curto. Gravei 21 músicas, das quais 15 foram para o CD, cuja ideia foi criar um móbile cujas peças seriam distintas entre si. O disco saiu pela gravadora Atração e tem as participações do Ednardo, Daniel Taubkin e Anastácia. A exposição do trabalho gratuitamente na internet é bacana e muito importante, mas é preciso resolver o problema da remuneração do compositor, que já era difícil pelos meios antigos.
(Floriano Martins (Brasil, 1957) é poeta, editor e ensaísta. Dirige a Agulha Revista de Cultura. Entre os livros mais recentes, se encontram “Autobiografia de um truque”(2010) e “Susana Wald – La vastedad simbólica”(2012))
Numa gaveta, as viagens. O véu do silêncio. A hipotética presença de uma ave no mundo das coisas pares. Pensa-me e não temas a resposta. Afianço que o primeiro beijo subiu da água.
Também os olhos são vitrais. E passam informação de milhares de anos. Um rio. A fraga enorme que sustenta o céu. O rigor das coisas caladas. Há símbolos para o nosso encontro numa concha de orvalho. Ainda sabíamos tudo sem nenhum esquecimento. E dançávamos.
O sol parte do mesmo ponto. Das rosas. E arde. É desse sangue que a manhã começa. Sem desculpas. Enormíssima coisa viva que explica o princípio comum da arte. Pareceu-me ouvir da morte. Tu não estavas.
(A poeta portuguesa Alice Fergo é formada em História pela Universidade Clássica de Lisboa. É autora de “As Mãos na Pedra” (1995), “Versos de Água” (2000) e “Quando junto às horas se ilumina um rio” (Labirinto, Fafe, 2009))
Este pão que comes, meu filho,
Subjaz nos lábios da castidade
E nas terrinas úmidas do Amor –
Sem que para tanto necessitem
Os antigos escravos de sua míngua
De caridade e compaixão, tudo
Entrelaçado enquanto os corpos
Ausentam-se nos dias cáusticos.
Esta água que bebes, meu filho,
Refluía ao longo de músculos nus
E gotejava de calhas profanas como
O gorgolejar de luares no puro inferno –
É a insígnia da perfeita bonança
E a paz teria beijado o seio da guerra
Quando da unidade adâmica surgissem
Diamantes – adormecidos e lânguidos.
Esta arma que empunhas, meu filho,
É o brasão vil da mortandade oculta,
Dessas que se escondem em armários
E ainda assim permanecem fiéis à Musa.
Terrível dobre de infinito censurado,
Volvei, ó palidez, que a morte chega
Uivando à miséria hinos de beleza amarga
E barganhas prostradas na lama de fogo.
Este vinho que provas, meu filho,
Já havia embelezado as cabeleiras nuas
De pobres dançarinas cantando absurdos
Enquanto os poetas lamentam a alegria –
E continuará por muito tempo ainda
Sendo o espelho diante do qual figuram
Os sorrisos e as lágrimas que são precárias,
Os deleites e os êxtases que são tacanhos.
***
LEMBRANÇAS DO JAZZ
In memoriam Allen Ginsberg e Roberto Piva
Quantas imagens me acorriam em minhas febres de justiça!
Quantos uniformes pavoneando-se acima das folhas de cristal
& ainda quantos astros nus envolvidos na beberagem da tarde –
Eu não entendia por que a violência dos pederastas era temida,
Contos de Tchekov supurando nos bosques de amianto,
Lendas estraçalhadas na vívida vivissecção da realidade mais crassa,
Abóbora de ferro opinando sobre as dimensões de meu sexo
& eu continuo sendo inesquecível,
& eu continuo sendo imperdoável,
Sim, porque todas as danças me eram devidas a cada cena
& todos os profetas tinham seu sudário empoeirado e magro –
Candeeiro de emoções; lúgubre festa do quarto largo,
Eu me prostro, eu me persigno,
Eu me prosterno, eu me flagelo –
Ainda me cabem os amores que reneguei à custa de símbolos,
As imagens de oxigênio continuam em minha cama molhada,
Os barítonos da aurora jazem derreados nos catres de meus louvores,
A ladainha dos escravocratas morre ao contato das batalhas arredias
& tudo me foi revelado enquanto o dia corria entre minhas mãos –
Jamais saberei se minha alma é pura.
Jamais saberei se minha mente é sã.
Porque sou vil, a maldade se retorce em meus intestinos
& a morte que desconheço não me murmura sofreguidões;
Ah! Como lamento! Como lamento saber só agora
Dos corações que choram & dos cérebros que se enforcam,
Eu lamento, eu lamento ser esta serpente nojenta e traiçoeira
Sibilando e envenenando os acontecimentos do século,
Minhas quimeras são mais pérfidas do que o oceano
& santificados me acorriam os vagalumes néscios da Ventura;
Tudo quanto era meu regressou a meu Espírito
& no interior do enigma luminoso agitei as asas de minha angústia,
Porque todos os meus amigos zombavam de minha juventude
& todas as minhas namorada riam de minha promiscuidade,
Ó lampejos! Lembranças do jazz! –
Não me esqueço das notas que soaram para minha inocência,
Funesta exaltação dos sentidos encontrados no Silêncio
& último conhecimento absorvido pelas mentes embriagadas …………………………………………………………………..{de minha geração.
(Diego Tardivo tem vinte e sete anos, nasceu e cresceu em Italva, interior do RJ. Começou a cursar Letras, mas largou no terceiro período. É casado e pai de um menino, Arthur – nome dado em homenagem ao poeta Arthur Rimbaud. É autor de cinco romances e três livros de poesia. Atualmente trabalha em dois livros: uma coleção de ensaios, que apenas começou a escrever, e uma coletânea com duas novelas intitulada “A Filosofia do Espírito”)
Dá-me um acontecimento
E eu nada direi sobre isso.
O crime perfeito
Será meu segredo
Fechado por dentro
Em silêncio
Como um vício.
Face à justiça dos homens
Há de me salvar
A vida rotineira
Entre mil outras tão parecidas.
Irei mansamente,
Azul sobre azul,
Sem que desconfiem.
(Quase diurna, eu diria,
Não me turvasse o delírio.)
E no passeio dos lobos,
Teu sangue meu sangue,
Para o chão
Águas e limites.
Repleta do terceiro corpo,
Em asa de luz
Nada direi sobre isso.
De línguas mortas
E um tempo morto
Farei caixa de guardar
Minha fé ilícita.
***
O AMOR E DEPOIS
Era esperado que aos poucos
Definhasse, fosse desaparecendo
Naturalmente levado pelo sono.
Era suposto que por abandono
Morresse –
E não teria o vento nenhum sentido
De ventura, seria apenas
A passagem de uma hora branca,
Entre outras tantas,
Para um coração manso
Que já nada espera nem recorda –
Como se o tempo não devorasse
Também o desconsolo,
E dele fizesse exsudar um leve perfume,
Como se não arrastasse
Cada corpo uma penumbra,
Como se fosse possível
Em vida a paz dos mortos.
(Mariana Ianellinasceu em São Paulo em 1979. É poeta e mestre em Literatura e Crítica Literária (PUC-SP). Publicou os livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005), Almádena (2007) e Treva alvorada (2010), todos pela editora Iluminuras. Participou dos livros Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa (Ed. Casa da Palavra, 2009), Roteiro da Poesia Brasileira – anos 90 (Ed. Global, 2011), Caminhos da Mística (Ed. Paulinas, 2012), entre outros. Tem poemas publicados em Portugal, Espanha, Cuba e Argentina. Em 2008 recebeu o Prêmio Fundação Bunge (antigo Moinho Santista) na categoria Juventude. Em 2011 obteve menção honrosa no Prêmio Casa de las Américas (Cuba) pelo livro Treva alvorada)
Os portadores de deficiência ou doenças crônicas retratados pelo cinema costumam viver dramas mórbidos e penosos, como nos densos (e excepcionais) Mar Adentro (2004) e O Escafandro e a Borboleta (2007). Ao contrário do suposto e previsível viés trágico, o longa-metragem francês Intocáveis (não confundir com o clássico policial Os Intocáveis, de Brian de Palma, Al Capone e cia) assume uma postura mordaz e até mesmo politicamente incorreta da situação. Em vários momentos o filme faz com que ignoremos as condições limitadas do protagonista para focarmos em outras questões não menos delicadas. Até porque, como ele mesmo diz em determinado ponto, sua deficiência não é física, e sim viver sem o amor de sua falecida esposa.
Philippe (François Cluzet, cuja fisionomia lembra muito o ator Dustin Hoffman) é um milionário colecionador de arte que ficou tetraplégico após um salto de parapente. Para seu enfermeiro, ele contrata o candidato mais improvável de todos: Driss (Omar Sy), um robusto senegalês sem nenhuma experiência como cuidador e com antecedentes criminais por assaltar uma joalheria. Escolha justificada pelo tom arredio, debochado e sem nenhum sentimento de piedade do ex-presidiário tratar o aristocrata na entrevista de emprego. A propósito, Driss nem sequer aspirava à vaga, estava interessado apenas que assinassem um documento para que continuasse recebendo seu seguro-desemprego do governo. A aproximação gradativa desses dois homens de mundos opostos faz com que Philippe reavalie sua autocompaixão e recobre o bom humor, qualidade intrínseca do novo amigo, enquanto um Driss em processo de lapidação encontra uma válvula de escape para fugir do seu drama pessoal de morador de subúrbio às voltas com os problemas familiares.
A brilhante atuação de François Cluzet, que mesmo mexendo só o pescoço transmite toda a carga emocional do cadeirante, o carisma do personagem Driss (não por acaso Omar Sy tornou-se o primeiro negro a ganhar um César, o Oscar do cinema francês, superando Jean Dujardin, de O Artista) e a química entre os atores talvez expliquem o sucesso do longa escrito e dirigido por Eric Toledano e Olivier Nakache. A comicidade atinge seu ápice nas cenas em que o cuidador flerta com sua colega Magalie, tece uma análise sobre música clássica e experimenta diversos cortes para a barba do patrão. Philippe também tira proveito da situação, enquanto simula um ataque para despistar a polícia na sequência inicial, quando tenta convencer um colecionador a adquirir um quadro pintado por Driss por alguns milhares de euros ou mesmo quando sente os efeitos da maconha. De forma simples e sem digressões, Intocáveis questiona o preconceito, as diferenças raciais e sócio-econômicas, alfinetando a França quanto ao problema da imigração. Em escala universal, contempla o valor da amizade, da arte e a complexidade da própria existência.
Baseado na história real de Philippe Pozzo Di Borgo e Abdel Sellou – que inclusive aparecem nos créditos finais do filme –, e em seus respectivos livros lançados recentemente no Brasil sob os títulos de O Segundo Suspiro (Editora Intrínseca) e Você Mudou Minha Vida (Editora Record), Intocáveis é uma celebração positiva do que podemos fazer com os percalços impostos pela vida. Exibido durante o Festival Varilux de Cinema Francês (mostra realizada na segunda quinzena de agosto simultaneamente em mais de 30 cidades brasileiras), e atualmente em cartaz nas salas nacionais, o filme obteve a segunda maior bilheteria da história da França, com cerca de 20 milhões de espectadores no país, atrás apenas de A Riviera Não É Aqui (2010). Definitivamente, Intocáveis é uma comédia tocante e imperdível.
(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)
“E se você olhar longamente para um abismo, o abismo também olha para dentro de você”.
(NIETZSCHE, F. Para Além do Bem e do Mal)
Os carros não passam nos becos. Vértebras partidas impedindo toda possibilidade de travessia. As ruas são escuras e a luz barata morre antes de tocar o fosco do chão. Jonas perdido dentro da baleia. Vísceras e Deus dividindo o mesmo leito. Temporal lá fora. Algumas poças devolvem um retrato cruel de mim. Doryan Gray. Marginais defecam no meu rosto magro. A barba cresce (ou seriam apenas penugens?) e sinto que posso a qualquer instante rejuvenescer. Experimento o medo de todos os meus antepassados através do meu sorriso pálido. Dou uma olhada ao redor. A lua atrás continua minguante. Retrocesso. Vejo as fases da lua no calendário. Cheia, às vezes. Quando estou com sorte. Rasgo o verbo, principio de todo infortúnio. Me recordo que Ela espera. O cais despenca dos seus cabelos molhados.
Gosto de observá-la. Calado como um animal solícito na expectativa de uma migalha. Ela afia a faca sobre a pedra furta-cor, inclina a cabeça para o lado e tira pacientemente as escamas. Corta as rodelas de tomate, de cebola, pica o pimentão. Vermelho. Ela gosta do vermelho e das cores púrpuras. As entranhas escorrem poéticas pelas suas mãos pequenas de mulher perdida. Todas elas cortesãs. Nunca amaria alguém tão frágil nas extremidades – era tão certo devorá-la! Os olhos do peixe insistem em me interrogar, em me deixar inseguro. As pálpebras mortas no mar. Os escafandristas procurando refúgio para seus suicídios diários. Submergir e emergir para esse mundo de merda. O enigma da vida perdido em alguma isca não devorada.
Toda noite sonho que moro num lugar cheio de cerejeiras. As noites são brancas e os dias se diluem entre um intervalo e outro do relógio. Um engano matemático. Somente.
Ela chama para o almoço. Já é tarde. Ela gosta de se gabar da sua maestria na cozinha. Me sento na mesma cadeira de sempre. De frente para o descaminho. Desvio o olhar. Começo a comer. Engasgo com uma espinha. Ela fica atravessada na minha garganta. Como aquele nó que se forma quando queremos chorar e o choro não vem. Estrangulando toda palavra, qualquer tentativa de discurso. Começo a entender o que significa escutar o silêncio. Me calo. O talher bate no prato. Vão. Entre uma ideia e outra. A saliva viscosa escorre feito esperma molhando a espinha. Resistente. Ela parece se deliciar com o mar formado na minha laringe. Saudades de sua origem. Os olhares se voltam pra mim. O centro do universo. O umbigo depravado do mundo. Envaideço. Aos poucos a gosma da minha garganta envolve a solidão da espinha. Ela se despedaça e desce. Solto um pequeno sorriso, dez centímetros de talho. Eles voltam a movimentar as mandíbulas e os talheres continuam a ensurdecer meus ouvidos. O zunido das pedras caindo nas águas.
Irei embora, antes acendo um cigarro. De longe, Ela imagina que a brasa entre meus dedos é um pequeno pôr-do-sol. Quase apagado.
(Marcia Barbierié paulista. Possui textos publicados nas Revistas Literárias Coyote, Cronópios, Germina, Escritoras Suicidas e Meio Tom. Tem três livros publicados: dois de contos e um romance. É colunista da Revista Literária O BULE)
Em que pese os malefícios para o corpo,
devemos arrastar a consciência de nossa insignificância Jorge Elias Neto
O azul se dissipa
em tons de desespero.
Os segundos corrompem
nossos sonhos,
e a eternidade –
consome toda inocência.
O céu conspira
dentro de mim,
ponto
sujo no útero
da neve.
***
Um resto de sol no desalento
Ocupo-me de uma febre
sem propósito.
Modos existem
de forjar os dias,
principiar universos,
rir-se do descomunal
segredo da vida …
Mas não nessa noite gelada
em que persisto centelha.
Eis a última pele – a palavra –
que se desgarra inapta
a prosseguir
afirmando
o esplendor da verdade.
(Jorge Elias Neto émédico, pesquisador e poeta. Capixaba, reside em Vitória – ES. São de sua autoria os livros: Verdes Versos (Flor&cultura ed. – 2007), Rascunhos do absurdo (Flor&cultura ed. – 2010), Os ossos da baleia e Breviário dos olhos (inéditos). Integrou as publicações Antologia poética Virtualismo (2005), Antologia literária cidade (L&A Editora – 2010), Antologia Cidade de Vitória (Academia Espiritossantense de letras – 2010 e 2011) e Antologia Encontro Pontual (Editora Scortecci – 2010))
UM MUNDO PARA CHAMAR DE MEU OU, QUEM QUEBRARÁ O SILÊNCIO?
Por Renata Azambuja
I
A mancha, a silhueta e a palavra.
Pintura: Sylvana Lobo
O desejo é começar pela primeira impressão que permaneceu, mesmo depois do segundo e terceiro olhares, deste conjunto de pinturas de Sylvana Lobo. A visão persistente de manchas coloridas, massas em preto/ silhuetas e palavras. Esses são fatos preponderantes da pintura da artista. Parece paradoxal, mas as manchas e massas funcionam, no contexto de sua pintura, como signos de visibilidade. Ajudam a contar a história que se segue; um universo cheio de alegorias.
Diferentemente do Informalismo, tendência que tratava a mancha como gesto espontâneo e improvisado, as manchas nessas pinturas não comparecem como fruto do acaso de um processo criativo. Podem ser, sim, como naquele movimento, resposta a um momento de crise. Não à maneira de uma crise mundial, como se manifestou então, ao final da Segunda Guerra Mundial, mas da ordem de uma crise na política das relações amorosas, como veremos mais à frente. Assim, não seria disparatado qualificarmos estas manchas como matéria, lançando mão dos dizeres de Argan, que as coloca como uma problemática com a qual a artista se depara, a “incerteza quanto ao próprio ser, a condição de estranhamento em que é posto a sociedade”¹.
Se ela for, então, um elemento problema com o qual se deve lidar, a mancha encontra o seu sentido mesmo: o de ser uma substância que macula algo. É o elemento imprevisto. Ou será que ela está no lugar de algo que não foi conscientemente construído?
A mancha, por ser esta matéria que ocupa lugar mostras de definição, é uma continuidade no tempo. O único indício de temporalidade é sua permanência de uma pintura a outra. Está presente em todas as cenas das pinturas, balizando a figura-silhueta. Se a mancha esconde uma revelação ao mesmo tempo em que se espraia, a silhueta delineia. Em cada pintura há uma imagem feminina.
Silhuetas parecidas com as dos retratos recortados, desenhados e pintados em papel preto de figuras em perfil, na corte francesa durante o reinado de Luis XV, no século XVIII, e que tornou-se hábito a ser cultivado entre as moças da época. A silhueta identifica a figura de origem pelo retrato que produziu; uma impressão na memória.
Pintura: Sylvana Lobo
Estando essas silhuetas postas em situ-ação, nos remetem às figuras do teatro de sombras. Se a mancha é presença que esconde, a sombra, como ausência de luz, reforça a ideia de que há algo que não quer se mostrar ou que age como duplo, um outro que está represado. A noção de obscuridade vinculada à “sombra” era algo a ser evitado e o nome “silhueta” substitui o nome “retrato de sombra”. O panorama, portanto, esconde mais do que apresenta e mesmo as cores não parecem contribuir para a mudança de cenário, pois continuam como manchas. São como nuvens escuras, densas, prontas para desaguar, sensação mais manifesta em Beije, coma e Não sou a mais bela. Estariam estas pinturas nos indicando a impossibilidade de comunicação? Seriam territórios de incomunicabilidade?
Como silhuetas que são, apontam para seres que conhecemos. As figuras solitárias das pinturas são imagens emblemáticas saídas dos contas de fadas e princesas; arquétipos de um determinado feminino, de acordo com Carl Jung e expressões de desejos recalcados, segundo Sigmund Freud. São brancas de neve, cinderelas e belas-adormecidas. Essas personagens foram construídas por Sylvana Lobo tendo em mente não as versões modernas, voltadas para as crianças, em que toda a narrativa, cheia de percalços, está a serviço de um final feliz, porém mais próximo dos contos populares, originados de tradições orais muito antigas onde a fantasia não precisa criar laços de comprometimento com uma realidade moralizante. Nessas narrativas, o texto nem sempre é aprazível e a morte, o canibalismo e o incesto, por exemplo, fazem parte recorrente das estórias que, diferente do que ocorre atualmente, tinham os adultos como público.
Karen Walker, artista norte-americana, usa a técnica de silhueta como papéis cortados, elaborando cenários em que personagens, negros escravos e brancos dominadores, se relacionam, em uma alusão a episódios ocorridos no Sul do país, antes da Guerra Civil Norte-Americana. Eles tomam parte em ações que definem social, política e historicamente. Diferenças a parte, as imagens em silhuetas nos trabalhos de Walker, como nos de Sylvana Lobo, têm o intuito de provocar o pensamento sobre o que significa a representação por imagens e como elas podem estimular uma nova formulação identitária e uma visão crítica sobre a própria realidade. “Fazer trabalhos de arte sobre raça se transforma em assunto íntimo acerca da identidade”².
Este espaço silencioso, configurado pela mancha e pela silhueta é compartilhado por palavras, frases e expressões. É como se existissem para afirmar ou por em cheque a situação vigente. Mas, ao mesmo tempo que se referem às imagens, as palavras estão lá como parte da estrutura visual, ou seja, providas de materialidade própria, o que destitui o papel de ser “as” portadoras de significado. Assim sendo, o texto escrito na tela, se transforma, conforme lemos em Pierre Francastel, em signo figurativo, também uma sentença visual que não coincide, segundo ele, com o que vemos e compreendemos.
As frases, ou pedaços delas, dão nomes aos trabalhos, confirmando a suposição de que elas, talvez, sejam fatores dominantes dessas equações visuais indicando caminhos para o entendimento das pinturas ou para a resolução da “problematicidade” que enfrenta o artista, citando novamente Argan. Algumas são frases curtas em tom afirmativo e imperativo: toque, beije, coma; outras expressas como um anúncio: precisa de um escovão e dois príncipes encantados; como perguntas: você se sente atraído por mim?; quanto vale uma vírgula? e, ainda, a título de conclusão: É melhor do que escutar eu te amo; não come (a); minha língua gorda não cabe no sapato e, não sou a mais bela. O que se apreende, afinal, é de que há um outro para quem a falas se dirige. O vedor-leitor aos lê-las, torna-se um co-partícipe?
“Escrever em primeira pessoa é uma facilidade, mas é também uma amputação”, é o que diz o protagonista do romance Manual de Pintura e Caligrafia, de José Saramago. Distante do trabalho autobiográfico, em que o artista se coloca como o representante de outras histórias e das suas próprias, tal como é o caso de Cindy Sherman e de Sophie Calle, Sylvana Lobo fala de suas angústias e desconfortos com a expectativa de ter de se tornar uma “mulher de verdade”, como ela mesmo diz, por meio das mulheres da ficção.
II
O fio amarelo: moral da história?
Pintura: Sylvana Lobo
E o que dizer do fio amarelo que vemos em todas as pinturas? Será que se refere a algum principio moral que rege toda essa alegoria? Em Toque-o, a única pintura em que a silhueta feminina não está visível, vemos o fio amarelo enrolado ao fuso, que é agora a silhueta. Esta pintura parece ser uma espécie de matriz geradora. O objeto ocupando o lugar da moça; o fuso da história da Bela Adormecida. Fada, fatalidade, destino.
No conto de fadas, o fuso é o perigo. É o prenúncio de morte ou, pior ainda, do longo sono que é pausa para o encontro com o futuro, personificado pelo príncipe, o homem idealizado. Nas pinturas de Sylvana Lobo, o fio amarelo é sinal de alerta, é a consciência tornada objeto. Deposita-se sobre o sexo, sobre a boca, enrosca-se pelos pés, nos pulsos, transforma-se em coroa, como lembrança de um futuro que espantará o presente a ser passado a limpo, e circula o pescoço seguindo até os tornozelos de uma outra silhueta, reprodução dela própria.
O fio amarelo é a garantia de comunicabilidade nesse território de incertezas onde dormir pode significar deixar de lado o devir. Não dormir, para não acabar como personagem de uma parábola moderna. Como a que Louise Bourgeois escreveu: “Um homem e uma mulher viverem juntos. Uma noite ele não voltou do trabalho e ela o esperou. Ela ficou esperando e ela foi ficando menor, sempre menor. Mais tarde um vizinho passou por amizade e ali a encontrou na poltrona do tamanho de uma ervilha”³.
1- Argan, GC. Arte Moderna, SP: Cia das Letras, 1993, p. 542.
2- Disponível em The Art of Kara Walker. http:/ leran.walkerart.org/karawalker/Main/RepresentingRace. Acesso em 20/01/2009.
3-Louise Bourgeouis. Ela perdeu aquilo. Diário da artista, 1947.
20 de janeiro de 2009.
Pintura: Sylvana Lobo
(Renata Azambuja é pesquisadora, curadora independente, crítica de arte e arte-educadora. É licenciada em Artes Plásticas pela UnB e mestre em Teoria e História da Arte Moderna e Contemporânea pelo City College of the City University of New York, onde defendeu a tese “Cildo Meireles: A Física do Espaço Social”)
Sobre a artista:
Sylvana Lobo é artista plástica e fotógrafa. Participou das coletivas MAB – Diálogos da Resistência – Museu Nacional do Conjunto Cultural da República (2012 – Brasília/ DF); 18º Salão Anapolino de Arte (2012 – Anápolis/ GO); Prêmio de Arte Contemporânea do Iate Clube deBrasília– Museu Nacional do Conjunto Cultural da República (2011 – Brasília/ DF); Semicírculo – Museu Nacional do Conjunto Cultural da República (2010 – Brasília/ DF); 39º Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba (2007 – Piracicaba/ SP); 7º Salão de Artes Visuais de Guarulhos (2007 – Guarulhos/ SP); 6º Salão de Artes Visuais – Museu de Arte Contemporânea de Jataí (2007 – Jataí/ GO); XXIX Concurso Novos Valores – Fundação Jaime Câmara (2006 – Goiânia/ GO); Vetores – Museu de Arte de Goiânia (2005). Participou das individuais O IBRAM e seus museus (2010 – Brasília/ DF); de cabelos longos, sentada na relva – Galeria da Faculdade de Artes Visuais – UFG (2009 – Goiânia/ GO); Foto Arte (2008 – Brasília/ DF); Madame Bovary sou eu (2008 – Brasília/ DF).
Antes de um tudo, o vazio e suas improváveis imagens. Antes de tudo, o silêncio, a ausência do verbo a rasgar instantes. Depois de tudo, a palavra a atravessar espaços e habitar a matéria do nosso concreto de cada dia. Como conceber a existência sem a poesia que antecede e esgota o sopro? Onde o intervalo mínimo entre projeção e realização?
Com tais percursos que remexem as entranhas da vida, a criação revela-se a musa das musas, representante imprecisa de nossa sina pelas tresloucadas paragens terrenas. Os poetas são seus mais legítimos porta-vozes, transformando desvãos da alma em versos pungentes, catando o despercebido e ofertando-nos tudo em doses nada terapêuticas. É atraente pensar que criadores vagam conosco no meio da multidão e, mais adiante, sugerem veredas. Nesse ofício, encontramos gente como o escritor paulista José Geraldo Neres, homem cuja sina celebra permanentemente a liquidez do verbo. Dono de um estilo que contempla um intangível olhar sobre os lampejos humanos, o autor abraça o silêncio como causa, mas não consente que nele se façam vãs inscrições. Para ele, importa a revelação escondida nas sucessivas camadas onde habitam as palavras. Se o resultado disso é mirar o abismo, a queda é perspectiva real.
Autor de obras poéticas como “Pássaros de papel” (Dulcinéia Catadora, 2007) e “Outros silêncios” (Escrituras Editora, 2009), José Geraldo Neres alimenta agora sua travessia com a instigante reunião de contos presente em “Olhos de Barro” (Editora Patuá). Trata-se de um livro no qual as imagens inauguram as densas vias de uma prosa poética que sabe a queda e fronteiras. Seu trânsito no terreno cultural é múltiplo, compreendendo também as feições de roteirista, dramaturgo, produtor e gestor. Como curador do Projeto Quinta Poética, em São Paulo, articula encontros valiosos entre autores, artistas e produtores dos mais variados campos, num claro propósito de harmonizar linguagens múltiplas. Falando um pouco sobre suas andanças literárias e outros temas correlatos, Neres revela-nos agora alguns aspectos que movem a sua obstinada travessia pelas palavras.
José Geraldo Neres / Foto: arquivo pessoal
DA – O silêncio é um tema que está entranhado, de modo especial, em parte significativa de sua obra. Seria ele um exercício recorrente de escutas e, portanto, a gênese desafiadora da criação?
JOSÉ GERALDO NERES – A procura deste “silêncio” acaba por facilitar o deslocamento de tempo necessário para esta criação. Não existe limite ou obstáculo relacionado a ele. Passado (infância/natureza), presente, futuro, e, como costumo tratar, a travessia.
O “silêncio” é um paradoxo, pois tenho por hábito mergulhar ao máximo no universo musical/sonoro, quando estado de criação, e pesquisa/leitura, grande facilitador/aliado na revelação do ritmo interno do texto. A melodia das palavras líquidas é parte de minha busca, sim. Escuta, pesquisa e criação, principalmente tratando-se de um cenário cosmopolita em que estou radicado.
DA – Sua expressão poética possui a fluidez decisiva sobre as marcas da existência, como se as palavras percorressem espaços sensíveis de nossa materialidade buscando aplacar estranhamentos da condição humana. Seria um flerte fundamental com a perspectiva da transcendência?
JOSÉ GERALDO NERES – Como observador do cotidiano, tento retirar dele sinais que possibilitem o mergulho nas marcas que carregamos nos ossos. Tenho uma imagem inaugural e, a partir dela, busco expandir seu universo de alternativas ficcionais: a de um menino a perambular e brincar na beira de abismo, sem ter qualquer preocupação com a queda ou se retornará deste mergulho, transformado ou não. Gosto de tratar a criação literária desta maneira: experimentar ao máximo os riscos e não perder a infância ou essa imagem inaugural. Apanhar os desperdícios e o delírio do verbo tão presente em Manoel de Barros. Acompanhar o afinador de silêncios na obra de Mia Couto. Passar através dos ponteiros do relógio, lá onde o silêncio põe um capuz branco (Murilo Mendes), ou o conjunto de acontecimentos e processos que nos rodeia nos engendra e nos devora. Cúmplice e confidente (Octavio Paz). Desafiar os limites do corpo e da palavra. Cito alguns autores que provocam estados criativos, mas o mergulho é sempre renovado e um novo autor acompanha a queda.
DA – A síntese é um traço vigoroso em seus percursos poéticos, divisando imagens reais e quiçá oníricas. Harmonizar em versos um sentimento do mundo é pensar no inatingível?
JOSÉ GERALDO NERES – O exercício da síntese começou com leituras e estudos de autores haicaístas: Bashô, Buson, Issa e aqueles por eles influenciados. Cito um livro revelador de Mestre Bashô: Trilha Estreita ao Confim. Entretanto, o tempo e outros autores me mostraram que a síntese de um texto pode passar por trilhas e encruzilhadas diferentes. Desde então, procuro lapidar o texto, mas com o cuidado de não retirar a essência ou alma dele.
Com relação ao “inatingível”, não consigo pensar desta forma durante o processo de criação. Tenho na imagem poética uma grande aliada para desenterrar palavras/versos na ressignificacão do momento/mundo representado em um texto. É a procura da palavra debaixo da palavra. E continuo a tentar descobrir esta palavra latente (Vicente Huidobro) e o delírio do verbo (Manoel de Barros). Procura e exercício interminável. É um gozo divino, no sentido de êxtase, quando um leitor completa e dá sua interpretação a esse texto. Essa leitura reforça meu desejo de continuar por essas trilhas e encruzilhadas.
DA – “Olhos de Barro”, seu mais recente livro, dedica-se a uma prosa que se manifesta intensamente poética. O título, por sinal, é bastante sugestivo, apontando para um criador que, ao mesmo tempo, é criatura a mirar os trajetos da existência. Quais signos você elenca como sendo os mais emblemáticos nessa sua nova incursão pelas palavras?
JOSÉ GERALDO NERES – Sim, criador e criações. Tudo começou com uma provocação imagética: uma grande boca a perambular uma casa vazia, sem portas ou janelas, e, mesmo assim, ela não conseguia sair desta casa. A boca, corpo não tinha, e sua voz preenchia todo este ambiente. Essa imagem inaugural persistiu no grupo de textos produzidos e insistiu a provocar outras inquietações. Utilizei a estrutura da casa para os primeiros passos (a casa tinha quatro cômodos. Então, os signos elementais serviram de bússola, depois o embate do criador e criações: a casa como limite e parte deste corpo, corpo construído por palavras. Depois, o tempo: passado, presente, futuro e a travessia). A queda, os limites do corpo, as fronteiras que cercam os pensamentos e criações são partes dos signos utilizados. Os outros estão naquele que completa o livro: o leitor. Antes deste círculo se completar, é claro que fui procurar beber em outros autores que dialogam com este tema: queda e fronteiras.
DA – Essa sua menção a queda e fronteiras pode ser compreendida também como uma projeção da finitude, talvez um dos maiores temores humanos?
JOSÉ GERALDO NERES – Gosto deste temor, principalmente inserido no campo da criação, mas, particularmente, não acredito nesta projeção, e sim em transformação e travessia. Quando da realização e escolhas de leituras para “Olhos de Barro”, uma obra me chamou muita atenção: “Gringo Velho”, do mexicano Carlos Fuentes. Encantou-me a trajetória do personagem que, antes de “cumprir sua sentença, encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra” (diálogo dos personagens Chicó e João Grilo no Auto da Compadecida, obra imortal de Ariano Suassuna), atravessa a fronteira dos Estados Unidos da América para participar da revolução mexicana. Ele sabe o que o tempo planeja para ele, e, assim, abandona tudo para poder vivenciar este seu desejo heróico. É certo que o livro é muito mais que esta simplificação que acabo de fazer, mas é essa travessia que me impregnou durante a leitura da obra.
DA- Nesta travessia pela palavra, escrever seria também uma via de redenção?
JOSÉ GERALDO NERES – A literatura sempre me salva. Não sei dizer ou mencionar quantas vezes aconteceu isso, mas terminar um texto é um prazer que não há como definir. Poderia citar vários exemplos, e mesmo assim não atingiria a proporção correta. Terminar um texto nos dois sentidos: leitura e escrituração. Quando recebo a indicação de leitura de alguém, faço uma excursão pelos sebos (virtuais e tradicionais) até encontrar o livro. Gosto do desafio, da procura.
A literatura já me levou para inúmeros lugares que jamais pensei conhecer, e, a cada retorno, sou “o outro” que habita a mesma casa. Sei que tenho muito por caminhar, aprender e descobrir. Cada novo projeto/livro me dá essa possibilidade.
José Geraldo Neres / Foto: arquivo pessoal
DA – Em meio à sua trajetória incansável de articulador cultural, habita o projeto Quinta Poética, do qual você é curador, e que agora está completando 50 edições. O que tem sido decisivo para a consolidação desta iniciativa?
JOSÉ GERALDO NERES – Nasci, literariamente falando, em Diadema, final dos anos 90 (pertence à região do grande ABCD daqui do estado de São Paulo), onde tive o privilégio de conhecer uma oficina de criação literária (ministrada pela poeta Beth Brait Alvim). Nesse período, aconteceu minha primeira revelação: descobri que tinha apenas o desejo poético, mas poesia mesmo, não. Descobri que não era poeta, mas também descobri o desejo e determinação de procurar pela poesia e seus realizadores. Esteticamente e poeticamente, tudo começou em Diadema. O fazer era agregado à vivência, convivência, coletividade, intercâmbio e experimentação. Neste clima, criou-se o grupo Palavreiros, e nós nos apresentávamos em leituras pela cidade, outras cidades, e espaços sócioculturais (aqui é só um brevíssimo resumo: há muito por falar). Desde então, peguei gosto por produção cultural e não parei mais.
O Quinta Poética chega a 50 edições na Casa das Rosas (anteriormente, o projeto habitou outros lugares), e é idealizado e promovido pela Escrituras Editora e a Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, onde se apresentou um mosaico com mais de quinhentos produtores culturais de todas as regiões brasileiras e exterior do país. Existe uma permanente mescla/diálogo com as demais linguagens artísticas. Por ser um projeto que existe e se mantém numa periodicidade ininterrupta, aliado à cumplicidade e qualidade destes produtores culturais, creio que sejam esses alguns dos ingredientes desta consolidação (a programação deste ano está pronta desde o mês de maio, e, atualmente, recebo indicações e sugestões de participantes para o ano de 2013).
É uma grande surpresa o desdobramento de cada edição: os participantes realizam além do costumeiro intercâmbio de saberes/contatos. Criam novas parcerias e andanças. Isso estimula e muito, além de aumentar a responsabilidade de estar na curadoria deste projeto (aqui quero deixar meu agradecimento aos curadores anteriores. Como certamente vou esquecer os nomes de todos, cito-os na figura emblemática do poeta Celso de Alencar).
DA – É possível dizer que os escritores contemporâneos, em prosa ou verso, detêm um estilo peculiar capaz de solidificar algum movimento?
JOSÉ GERALDO NERES – Não acredito nessa possibilidade, pois não sabemos quem são nossos poetas ou escritores (isso em âmbito nacional ou estadual). Conhecemos certo número de autores, porém não todos. No Brasil, não há um mecanismo ou mapeamento dos produtores culturais, como, por exemplo, o “Sistema de Información Cultural, CONACULTA, México”. Acho que ganharíamos mais se nossa literatura fosse sistematicamente divulgada (obra e autor) internamente e, é claro, no exterior. Hoje, sinto uma movimentação, mas é um tanto tímida e, quando sabemos de uma obra traduzida para outro idioma, não há surpresa nos livros ou autores escolhidos ou selecionados. O assunto requer um debate amplo, e essas poucas linhas não seriam suficientes para discorrer ou apontar soluções. No entanto, quero deixar claro que conheço escritores e poetas sérios e competentes, mas lamento não ter este painel de nossa literatura nacional.
DA – Quais critérios norteiam a participação dos autores no Quinta Poética?
JOSÉ GERALDO NERES – Basicamente, qualidade, apresentação pública, disponibilidade para troca de saberes, e diálogo entre diferentes linguagens artísticas. O maior exemplo deste intercâmbio de saberes, estética e linguagens artísticas foi a 43ª edição, em Novembro de 2011, Especial diálogos – Diversidade cultural. Há um extenso acervo disponível para visitação e pesquisa na internet, relacionado a outras edições.
DA – O estado de coisas a que chamamos pós-modernidade talvez tenha trazido a frágil sensação de que é possível subverter tudo em matéria de gênero literário. O que você pensa sobre isso?
JOSÉ GERALDO NERES – Encontro essa desconstrução em autores do passado. Cito seis que tenho por hábito reler: Lautréamont, Gérard de Nerval, Charles Baudelaire, Octavio Paz, Jorge de Lima e Campos de Carvalho (se procurar um pouco mais no abismo de leituras, vou encontrar outros exemplos). Nessas leituras, fico a questionar os limites e fronteiras do gênero literário. Longe de mim afirmar que esses autores inauguram essa ruptura, pois a história literária é longa e bebemos na tradição para conhecê-la e poder subvertê-la. Não acredito em criação no vazio.
DA – O que você não endossa na dita pós-modernidade?
JOSÉ GERALDO NERES – Apenas para reflexão: qual a preocupação com o tempo? Ele é o tempo e, assim, sempre será. Penso na capacidade criativa do ser humano, e tudo aquilo ou movimento que o influi e provoca para uma nova criação. Acredito no movimento cíclico. A escrituração começa nos primeiros registros na pintura ou gravura rupestre. Fica uma provocação: como inventar a roda sem beber na tradição?
DA – Para o homem das palavras José Geraldo Neres, escrever seria uma necessidade de expressão íntima ou a busca por uma interlocução com o mundo?
JOSÉ GERALDO NERES – Sim, escrever é tentar dialogar ou compreender os símbolos do cotidiano, sentir a pulsação, o ritmo, todos os sentimentos (positivos e negativos), e procurar uma solução estética que possa abrigar todos esses desejos. Os menores detalhes do mundo, aquilo que passa despercebido pela maioria, mas que está lá, aguardando uma significação (aqui, uma livre interpretação de Manoel de Barros: apanhar desperdícios). Nesta macrocomunicação, também me encontro. E citando-me no poema manifesto O eco das árvores, que encerra o livro “Outros silêncios”: Sou a roupa de arbustos onde um poeta tenta se equilibrar. / A vida despe o relógio, os ponteiros dissolvem o poeta em sua figura negra e única. / Sombra na busca do poema. // Dança de símbolos na eterna busca do homem que um dia poderei ser. // Corpo dividido, dispersando-se na medida que leio o que escrevo. / Eu não existo aqui mesmo. O poema mal sabe de mim.